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“Aproximemo-nos de Jesus e toquemos suas chagas”, exorta Papa

Regina Coeli

Domingo, 28 de abril de 2019, Da redação, com Vatican News / Foto: Vatican Media

Neste segundo domingo de Páscoa, Francisco convida os fiéis a se aproximarem de Cristo com fé, abrindo o coração à paz, à alegria e à missão

Antes de rezar o Regina Coeli com os fiéis reunidos na Praça São Pedro, Papa Francisco refletiu neste segundo Domingo da Páscoa, 28, sobre a Festa da Divina Misericórdia. O Evangelho (cf. Jo 20, 19-31) que narra o dia da Páscoa e a aparição de Jesus aos discípulos reunidos no Cenáculo foi o ponto de partida da meditação do Pontífice. Segundo o Santo Padre, o texto leva a três dons: a paz, a alegria e a missão apostólica.

“As primeiras palavras que Ele diz são: ‘A paz esteja convosco’ (v. 21). O Ressuscitado traz a paz autêntica, porque mediante seu sacrifício na cruz, realizou a reconciliação entre Deus e a humanidade e venceu o pecado e a morte. Esta é a paz. Os seus discípulos por primeiro tinham necessidade dessa paz porque, depois da captura e da condenação à morte do Mestre, estavam desorientados e com medo”, comentou Francisco.

O Papa recordou que Jesus se apresenta vivo em meio aos discípulos e, mostrando suas chagas no corpo glorioso, para dar a paz como fruto de sua vitória. O Pontífice frisa que naquela noite não estava presente o apóstolo Tomé que, informado do evento extraordinário, ficou incrédulo diante do testemunho dos outros apóstolos, preferindo verificar pessoalmente a verdade do que eles afirmavam.

“Oito dias depois, isto é, exatamente hoje, a aparição se repete: Jesus vai de encontro à incredulidade de Tomé, convidando-o a tocar suas chagas. Eles constituem a fonte da paz, porque são o sinal do imenso amor de Jesus que derrotou as forças hostis ao homem, o pecado e a morte. Convida-o a tocar as chagas. É um ensinamento para nós, como se Jesus nos dissesse, a todos nós: ‘Mas se tu não estás em paz, toca as minhas chagas’. Tocar as chagas de Jesus, que são os tantos problemas, dificuldades, perseguições, doenças, de tantas pessoas que sofrem. Tu não estás em paz? Vai, vai visitar alguém que é o símbolo da chaga de Jesus. Toca a chaga de Jesus”, exortou o Santo Padre.

É Domingo da Misericórdia, pois das chagas brota a misericórdia, explicou Francisco, que prosseguiu: “Um santo dizia que o corpo do Jesus crucificado era como um monte de misericórdia, que por meio de suas chagas veio até nós. Todos nós temos necessidade de misericórdia, sabemos disso. Aproximemo-nos de Jesus e toquemos suas chagas, em nossos irmãos que sofrem”.

“As chagas de Jesus são um tesouro, delas vem a misericórdia. Sejamos corajosos e toquemos as chagas de Jesus. Com estas chagas Ele está diante do Pai, as mostra ao Pai, como se dissesse: ‘Pai, este é o preço, estas chagas são o que paguei pelos meus irmãos’”, revelou o Pontífice. Com as chagas, o Santo Padre lembra que Jesus intercede diante do Pai, dá misericórdia e intercede por todos. “Não esqueçam as feridas de Jesus”, pediu o Papa.

O segundo dom que Jesus ressuscitado leva aos discípulos é alegria, frisou Francisco. “O evangelista relata que ‘os discípulos alegraram-se em ver o Senhor’(v. 20). E há também um versículo na versão de Lucas que diz que eles não podiam acreditar pela alegria. Também conosco quando quem sabe algo incrível, de belo tenha acontecido, o que temos vontade de dizer: ‘Eu não posso acreditar, isso não é verdade!’. Assim eram os discípulos, eles não podiam acreditar de alegria. Esta é a alegria que Jesus nos traz”, observou.

Diante da tristeza e da falta de paz, o Pontífice convidou os fiéis a olharem para Jesus crucificado e ressuscitado, a olharem suas chagas para que tenham alegria. “E depois, além da paz e da alegria, Jesus traz como dom aos discípulos também a missão. Ele lhes diz: ‘Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio’ (v. 21). A ressurreição de Jesus é o início de um novo dinamismo de amor, capaz de transformar o mundo com a presença do Espírito Santo”, sublinhou.

Neste segundo domingo de Páscoa, Francisco pediu aos cristãos que se aproximem de Cristo com fé, abrindo o coração à paz, à alegria e à missão. “Mas não esqueçam as chagas de Jesus, que dali brota a paz, a alegria e a força para a missão. Confiamos esta oração à materna intercessão da Virgem Maria, Rainha do céu e da terra”, concluiu o Papa.

Santo Evangelho (Jo 20, 19-31)

2º Domingo da Páscoa – 28/04/2019 – Ano C

Primeira Leitura (At 5, 12-16)
Leitura dos Atos dos Apóstolos:

12Muitos sinais e maravilhas eram realizados entre o povo pelas mãos dos apóstolos. Todos os fiéis se reuniam, com muita união, no Pórtico de Salomão. 13Nenhum dos outros ousava juntar-se a eles, mas o povo estimava-os muito. 14Crescia sempre mais o número dos que aderiam ao Senhor pela fé; era uma multidão de homens e mulheres. 15Chegavam a transportar para as praças os doentes em camas e macas, a fim de que, quando Pedro passasse, pelo menos a sua sombra tocasse alguns deles. 16A multidão vinha até das cidades vizinhas de Jerusalém, trazendo doentes e pessoas atormentadas por maus espíritos. E todos eram curados.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Responsório (Sl 117)

— Dai graças ao Senhor, porque ele é bom! “Eterna é a sua misericórdia!”
— Dai graças ao Senhor, porque ele é bom! “Eterna é a sua misericórdia!”

— A casa de Israel agora o diga:/ “Eterna é a sua misericórdia!’/ A casa de Aarão agora o diga:/ “Eterna é a sua misericórdia!”/ Os que temem o Senhor, agora o digam:/ “Eterna é a sua misericórdia!”

— “A pedra que os pedreiros rejeitaram/ tornou-se agora pedra angular./ Pelo Senhor é que foi feito tudo isso:/ Que maravilhas ele fez a nossos olhos!/ Este é o dia que o Senhor fez para nós,/ Alegremo-nos e nele exultemos!

— Ó Senhor, dai-nos a vossa salvação,/ ó Senhor,/ dai-nos também prosperidade!”/ Bendito seja, / em nome do Senhor,/ aquele que em seus átrios vai entrando!/ Desta casa do Senhor vos bendizemos./ Que o Senhor e nosso Deus nos ilumine!

 

Segunda Leitura (Ap 1,9-11a.12-13.17-19)
Leitura do Livro do Apocalipse de São João:

9Eu, João, vosso irmão e companheiro na tribulação, e também no reino e na perseverança em Jesus, fui levado à ilha de Patmos, por causa da Palavra de Deus e do testemunho que eu dava de Jesus. 10No dia do Senhor, fui arrebatado pelo Espírito e ouvi atrás de mim uma voz forte, como de trombeta, 11aa qual dizia: “O que vais ver, escreve-o num livro”. 12Então voltei-me para ver quem estava falando; e ao voltar-me, vi sete candelabros de ouro. 13No meio dos candelabros havia alguém semelhante a um “filho de homem”, vestido com uma túnica comprida e com uma faixa de ouro em volta do peito. 17Ao vê-lo, caí como morto a seus pés, mas ele colocou sobre mim sua mão direita e disse: “Não tenhas medo. Eu sou o Primeiro e o Último, 18aquele que vive. Estive morto, mas agora estou vivo para sempre. Eu tenho a chave da morte e da região dos mortos. 19Escreve pois o que viste, aquilo que está acontecendo e que vai acontecer depois”.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Anúncio do Evangelho (Jo 20,19-31)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.
— Glória a vós, Senhor.

19Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”. 20Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. 21Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. 22E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. 23A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos”. 24Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio. 25Os outros discípulos contaram-lhe depois: “Vimos o Senhor!” Mas Tomé disse-lhes: “Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei”. 26Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa, e Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”. 27Depois disse a Tomé: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel”. 28Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!” 29Jesus lhe disse: “Acreditaste, porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” 30Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos, que não estão escritos neste livro. 31Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

 

A IGREJA CATÓLICA CELEBRA E VENERA HOJE
São Luís Maria Grignion de Montfort, devoto à Virgem Maria

Neste dia, nós contemplamos o fiel testemunho de Luís que, ao ser crismado, acrescentou ao seu prenome o nome de Maria, devido sua devoção à Virgem Maria, que permeou toda sua vida.

Nascido na França, no ano de 1673, de uma família muito numerosa, ele sentiu bem cedo o desejo de seguir o sacerdócio e assim percorreu o caminho dos estudos.

Como padre, São Luís começou a comunicar o Santo Evangelho e a levar o povo, através de suas missões populares, a viver Jesus pela intercessão e conhecimento de Maria. Foi grande pregador, homem de oração, amante da Santa Cruz, dos doentes e pobres; como bom escravo da Virgem Santíssima não foi egoísta e fez de tudo para ensinar a todos o caminho mais rápido, fácil e fascinante de unir-se perfeitamente a Jesus, que consistia na consagração total e liberal à Santa Maria.

São Luís já era um homem que praticava sacrifícios pela salvação das almas, e sua maior penitência foi aceitar as diversas perseguições que o próprio Maligno derramou sobre ele; tanto assim que foi a Roma para pedir ao Papa permissão para sair da França, mas este não lhe concedeu tal pedido. Na força do Espírito e auxiliado pela Mãe de Deus, que nunca o abandonara, São Luís evangelizou e combateu na França os jansenistas, os quais estavam afastando os fiéis dos sacramentos e da misericórdia do Senhor.

São Luís, que morreu em 1716, foi quem escreveu o “Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem”, que influencia ainda hoje, muitos filhos de Maria. Influenciou inclusive o saudoso Papa João Paulo II, que por viver o que São Luís nos partilhou, adotou como lema o Totus Tuus, Mariae, isto é, “Sou todo teu, ó Maria”.

São Luís Maria Grignion de Montfort, rogai por nós!

Misericórdia aquece o coração e o torna sensível aos irmãos

23 de abril de 2017, II domingo da Páscoa, Domingo da Divina Misericórdia. Antes da oração do Regina Coeli, o Papa Francisco dirigindo-se aos milhares de fiéis e peregrinos presentes na Praça de S. Pedro, falou da ressurreição do Senhor Jesus da qual todos os domingos fazemos memória, reiterando que, neste período pascal, o Domingo tem um significado ainda mais iluminador. E o Papa explicou o sentido deste domingo, que a tradição da Igreja chamava “in albis” para  recordar o rito que realizavam os que tinham recebido o baptismo na Vigília Pascal, que recebiam uma veste branca – “alba” – para indicar a nova dignidade dos filhos de Deus:

“Ainda hoje aos recém-nascidos dá-se uma pequena veste simbólica, enquanto os adultos vestem uma veste real. Aquela veste branca, no passado, era vestida por uma semana, até ao domingo in albis, quando era despida, e os neófitos iniciavam a sua nova vida em Cristo e na Igreja”.

Em seguida, Francisco recordou S. JP II que no Jubileu de 2000 estabeleceu que este domingo seja dedicado à Divina Misericórdia. A poucos meses depois do Jubileu extraordinário da Misericórdia – reiterou Francisco – este domingo convida-nos a retomar com força a graça que vem da misericórdia de Deus. Misericórdia descrita no Evangelho de hoje quando S. João narra a aparição de Jesus ressuscitado aos discípulos reunidos no Cenáculo, dizendo-lhes: “Recebei o Espírito Santo. Para aqueles a quem perdoardes os pecados, serão perdoados”. E o Papa explicou:

“Eis o sentido da misericórdia que se apresenta no dia da ressurreição de Jesus como perdão dos pecados. Jesus ressuscitado transmitiu à sua Igreja, como primeira tarefa, a sua própria missão de levar a todos o anúncio concreto do perdão. Este sinal visível da sua misericórdia traz consigo a paz do coração e a alegria do encontro renovado com o Senhor”.

A misericórdia, portanto, à luz da Páscoa deixa-se perceber antes de tudo como uma verdadeira forma de conhecimento do mistério que vivemos, disse ainda o Santo Padre. Existem várias formas de conhecimento, observou Francisco: pelos sentidos, a intuição, a razão e outras, mas também se pode conhecer através da experiência da misericórdia:

“Ela abre a porta da mente para compreendermos melhor o mistério de Deus e da nossa existência pessoal. Faz perceber que a violência, o ressentimento, a vingança não fazem nenhum sentido, e as primeiras vítimas são aqueles que vivem desses sentimentos, porque se privam da sua dignidade. A misericórdia também abre a porta do coração e permite exprimir a proximidade, especialmente com aqueles que estão sós e marginalizados, porque faz com que se sintam irmãos e filhos do mesmo Pai. Ela facilita o reconhecimento dos que precisam de consolação e faz encontrar  palavras adequadas para dar conforto”.

“Irmãos e irmãs, a misericórdia aquece o coração e o torna sensível às necessidades dos irmãos com a partilha e a participação. A misericórdia, enfim, empenha todos a serem instrumentos de justiça, reconciliação e paz. Nunca nos esqueçamos que a misericórdia é a chave para a vida de fé, e a forma concreta em que damos visibilidade à ressurreição de Jesus”.

E o papa invocou Maria, Mãe de Misericórdia, para que nos ajude a crer e viver tudo isso com alegria.

***

Depois do Regina Coeli, o Papa recordou a beatificação, ontem em Oviedo, Espanha, do sacerdote Luis Antonio Rosa Ormières. Viveu no século XIX, dedicando as suas muitas qualidades humanas e espirituais ao serviço da educação, e para isso fundou a Congregação das Irmãs do Anjo da Guarda. O seu exemplo, disse o Papa, e a sua intercessão ajudem especialmente os que trabalham na escola e na educação.

Em seguida o Papa saudou cordialmente a todos, fiéis de Roma e peregrinos da Itália e dos vários Países do mundo, particularmente a Confraria de S. Sebastião de Kerkrade (na Holanda), o Secretariado católico da Nigéria e a paróquia de Liebfrauen de Bocholt (Alemanha).

Uma saudação particular aos peregrinos polacos, a quem Francisco exprimiu profundo apreço pela iniciativa da Caritas Polónia, em apoio de tantas famílias na Síria. E especial saudação para os devotos da Divina Misericórdia reunidos hoje na igreja de Santo Spirito in Sassia, bem como os participantes do “Corrida para a Paz”: uma corrida estafeta que hoje parte da Praça de S. Pedro para chegar a Wittenberg, na Alemanha.

Por último, o Papa agradeceu a todos os que que neste período lhe enviaram mensagens de felicitações para a Páscoa, dizendo que calorosamente as retribui, invocando todos e para cada família a graça do Senhor ressuscitado.

A todos o Papa desejou um bom domingo pedindo, por favor, para que não nos esqueçamos de rezar por ele [Buon pranzo e arrivederci] – Bom almoço e até logo! (BS)

São João Paulo II fala sobre o Domingo da Misericórdia

A paz é o dom por excelência de Cristo

Domingo, 18 de abril de 2004.

1. Do alto da Cruz, na Sexta-feira Santa, Jesus deixou-nos como seu testamento o perdão: “Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Martirizado e escarnecido, demonstrou misericórdia pelos seus algozes. Os seus braços abertos e o seu coração trespassado tornaram-se assim o sacramento universal da ternura paterna de Deus, que oferece a todos o perdão e a reconciliação.

No dia da Ressurreição, o Senhor, aparecendo aos discípulos, saudou-os com estas palavras: “A paz esteja convosco!”, e mostrou-lhes as mãos e o lado com os sinais da Paixão. Oito dias mais tarde, como lemos na página evangélica de hoje, voltou a encontrar-se com eles no cenáculo e disse-lhes de novo: “A paz esteja convosco!” (cf. Jo 20,19-26).

2. A paz é o dom por excelência de Cristo crucificado e ressuscitado, fruto da vitória do Seu amor sobre o pecado e sobre a morte. Ao oferecer-se a si mesmo, vítima imaculada de expiação sobre o altar da cruz, Ele derramou sobre a humanidade a vaga benéfica da Misericórdia Divina.

Por conseguinte, Jesus é a nossa paz, porque é a manifestação perfeita da Misericórdia de Deus Pai. Ele infunde no coração humano, que é um abismo sempre exposto à tentação do mal, o amor misericordioso de Deus.

3. Hoje, Domingo in Albis, celebramos o Domingo da Misericórdia Divina. O Senhor envia-nos também para levar a todos a Sua paz, fundada no perdão e na remissão dos pecados. Trata-se de um dom extraordinário, que Ele quis unir com o sacramento da penitência e da reconciliação. Quanta necessidade tem a humanidade de conhecer a eficiência da misericórdia de Deus nestes tempos marcados por crescente incerteza e conflitos violentos!

Maria, Mãe de Cristo e nossa paz, que no calvário recebeu o seu testamento de amor, ajude-nos a ser testemunhas e apóstolos da sua misericórdia infinita.

São João Paulo II
(Extraído do “Devocionário à Divina Misericórdia – volume 3”)

Urbi et Orbi: A Páscoa é o início de um mundo novo, afirmou o Papa Francisco

https://www.acidigital.com/noticias/urbi-et-orbi-a-pascoa-e-o-inicio-de-um-mundo-novo-afirmou-o-papa-francisco-87977

Papa Francisco lendo sua mensagem de páscoa neste 21 de abril. Foto: Captura de tela Youtube Vatican Media

Vaticano, 21 Abr. 19 / 08:26 am (ACI).- O Papa Francisco fez uma firme defesa da paz no mundo durante a tradicional mensagem pascal prévia à Bênção “Urbi et Orbi”, dada à cidade de Roma e ao mundo, neste domingo 21 de abril, Domingo de Ressurreição, na Praça de São Pedro, insistindo que a Páscoa é o início da vida nova e do mundo novo que Cristo inaugura.

Em sua mensagem, o Santo Padre pediu ainda o fim dos conflitos em Síria, Israel e Palestina, Líbia, Sudão e Sudão do Sul e Ucrânia. Neste sentido, recordou que “Cristo vive e permanece connosco. Mostra a luz do seu rosto de Ressuscitado e não abandona os que estão na provação, no sofrimento e no luto.

Queridos irmãos e irmãs, feliz Páscoa!

Hoje, a Igreja renova o anúncio dos primeiros discípulos: «Jesus ressuscitou!» E de boca em boca, de coração a coração, ecoa o convite ao louvor: «Aleluia!… Aleluia!» Nesta manhã de Páscoa, juventude perene da Igreja e de toda a humanidade, quero fazer chegar a cada um de vós as palavras iniciais da recente Exortação Apostólica dedicada particularmente aos jovens:

«Cristo vive: é Ele a nossa esperança e a mais bela juventude deste mundo! Tudo o que toca torna-se jovem, fica novo, enche-se de vida. Por isso as primeiras palavras, que quero dirigir a cada jovem [e a cada] cristão, são estas: Ele vive e quer-te vivo! Está em ti, está contigo e jamais te deixa. Por mais que te possas afastar, junto de ti está o Ressuscitado, que te chama e espera por ti para recomeçar. Quando te sentires envelhecido pela tristeza, os rancores, os medos, as dúvidas ou os fracassos, Jesus estará a teu lado para te devolver a força e a esperança» (Chistus vivit, 1-2).

Queridos irmãos e irmãs, esta mensagem é dirigida ao mesmo tempo a todas as pessoas e ao mundo inteiro. A Ressurreição de Cristo é princípio de vida nova para todo o homem e toda a mulher, porque a verdadeira renovação parte sempre do coração, da consciência. Mas a Páscoa é também o início do mundo novo, libertado da escravidão do pecado e da morte: o mundo finalmente aberto ao Reino de Deus, Reino de amor, paz e fraternidade.

Cristo vive e permanece connosco. Mostra a luz do seu rosto de Ressuscitado e não abandona os que estão na provação, no sofrimento e no luto. Que Ele, o Vivente, seja esperança para o amado povo sírio, vítima dum conflito sem fim que corre o risco de nos encontrar cada vez mais resignados e até indiferentes. Ao contrário, é hora de renovar os esforços por uma solução política que dê resposta às justas aspirações de liberdade, paz e justiça, enfrente a crise humanitária e favoreça o retorno em segurança dos deslocados, bem como daqueles que se refugiaram nos países vizinhos, especialmente no Líbano e Jordânia.

A Páscoa leva-nos a deter o olhar no Médio Oriente, dilacerado por divisões e tensões contínuas. Os cristãos da região não deixem de testemunhar, com paciente perseverança, o Senhor ressuscitado e a vitória da vida sobre a morte. O meu pensamento dirige-se de modo particular para o povo do Iémen, especialmente para as crianças definhando pela fome e a guerra. A luz pascal ilumine todos os governantes e os povos do Médio Oriente, a começar pelos israelitas e os palestinenses, e os instigue a aliviar tantas aflições e a buscar um futuro de paz e estabilidade.

Que as armas cessem de ensanguentar a Líbia, onde, nas últimas semanas, começaram a morrer pessoas indefesas, e muitas famílias se viram forçadas a deixar as suas casas. Exorto as partes interessadas a optar pelo diálogo em vez da opressão, evitando que se reabram as feridas duma década de conflitos e instabilidade política.

Cristo Vivente conceda a sua paz a todo o amado continente africano, ainda cheio de tensões sociais, conflitos e, por vezes, extremismos violentos que deixam atrás de si insegurança, destruição e morte, especialmente no Burkina Faso, Mali, Níger, Nigéria e Camarões. Penso ainda no Sudão, que está a atravessar um período de incerteza política e onde espero que todas as instâncias possam ter voz e cada um se esforce por permitir ao país encontrar a liberdade, o desenvolvimento e o bem-estar, a que há muito aspira.

O Senhor ressuscitado acompanhe os esforços feitos pelas autoridades civis e religiosas do Sudão do Sul, sustentados pelos frutos do retiro espiritual que, há poucos dias, se realizou aqui no Vaticano. Que se abra uma nova página da história do país, na qual todos os componentes políticos, sociais e religiosos se empenhem ativamente em prol do bem comum e da reconciliação da nação.

Nesta Páscoa, encontre conforto a população das regiões orientais da Ucrânia, que continua a sofrer com o conflito ainda em curso. O Senhor encoraje as iniciativas humanitárias e as iniciativas destinadas a buscar uma paz duradoura.

Que a alegria da Ressurreição encha os corações de quem sofre as consequências de difíceis situações políticas e econômicas, no continente americano. Penso de modo particular no povo venezuelano: em tanta gente sem as condições mínimas para levar uma vida digna e segura, por causa duma crise que perdura e se agrava. O Senhor conceda, a quantos têm responsabilidades políticas, trabalhar para pôr fim às injustiças sociais, abusos e violências e realizar passos concretos que permitam sanar as divisões e oferecer à população a ajuda de que necessita.

O Senhor ressuscitado oriente com a sua luz os esforços que estão a ser feitos na Nicarágua para se encontrar, o mais rápido possível, uma solução pacífica e negociada em benefício de todos os nicaraguenses.

Perante os inúmeros sofrimentos do nosso tempo, o Senhor da vida não nos encontre frios e indiferentes. Faça de nós construtores de pontes, não de muros. Ele, que nos dá a paz, faça cessar o fragor das armas, tanto nos contextos de guerra como nas nossas cidades, e inspire os líderes das nações a trabalhar para acabar com a corrida aos armamentos e com a difusão preocupante das armas, de modo especial nos países mais avançados economicamente. O Ressuscitado, que escancarou as portas do sepulcro, abra os nossos corações às necessidades dos indigentes, indefesos, pobres, desempregados, marginalizados, de quem bate à nossa porta à procura de pão, dum abrigo e do reconhecimento da sua dignidade.

Queridos irmãos e irmãs, Cristo vive! Ele é esperança e juventude para cada um de nós e para o mundo inteiro.

Deixemo-nos renovar por Ele! Feliz Páscoa!

O Papa Francisco não autorizou a Comunhão de divorciados

Declaração do Vaticano

Pe. Federico Lombardi (Foto Grupo ACI)

Vaticano, 24 Abr. 14 / 02:10 pm (ACI/EWTN Noticias).- Depois da grande repercussão internacional que gerou as declarações de uma mulher argentina sobre uma conversa telefônica que teria tido com o Papa Francisco na segunda-feira passada, o Diretor da Sala de Imprensa do Vaticano, o Padre Federico Lombardi, explicou que o Santo Padre não autorizou a comunhão para os divorciados.

A declaração de hoje do Padre Lombardi assinala que “telefonemas aconteceram no âmbito das relações pessoais pastorais do Papa Francisco. Não se tratando absolutamente de atividade pública do Papa, não são de esperar informações ou comentários por parte da Sala de Imprensa.

O que foi difundido a este propósito, saindo do âmbito próprio das relações pessoais e sua amplificação midiática consequente, não tem confirmação e é fonte de mal entendido e confusão.

É por isso que se deve evitar deduzir desta circunstância consequências no que diz respeito ao ensinamento da Igreja”, conclui a declaração.

O comunicado do Padre Lombardi foi divulgado por causa da polêmica originada por uma mulher argentina que teria recebido um telefonema do Papa na segunda-feira de Páscoa, no qual lhe teria sido concedida “permissão” para receber a comunhão “em outra paróquia” apesar de estar casada com um homem divorciado. A história se converteu em um relato complexo e duvidoso quanto a alguns de seus detalhes.

A notícia envolve a Jaquelina Lisbona, de 47 anos de idade e a Julio Sabetta, de 50, da cidade de San Lorenzo, localizada a 300 quilômetros ao noroeste da capital Buenos Aires.

Sabetta casou-se pela Igreja em 1985 e se divorciou legalmente sete anos depois, em 1992. Em 1994 se reencontrou com Jaquelina –com quem teve uma relação em sua adolescência– e começaram a morar juntos depois de unir-se civilmente. Têm duas filhas, Candela e Josefina, de 17 e 14 anos de idade, respectivamente.

Faz seis anos, durante a preparação de Candela para a Crisma –as duas filhas receberam o batismo, a primeira comunhão e a crisma– o pároco nesse então –a quem erradamente algumas fontes informaram como se tivesse deixado o ministério sacerdotal– disse a Jaquelina que não podia receber a comunhão devido a sua situação conjugal.

Em setembro do ano passado, alentada por seus amigos, a mulher escreveu ao Papa Francisco sobre a sua situação e seu desejo de receber a Comunhão.

A notícia sobre a “permissão” do Papa para que Jaquelina receba a comunhão foi publicada primeiro por Sabetta na sua página do Facebook quando ele escreveu: “hoje aconteceu comigo uma das coisas mais lindas, depois do nascimento das minhas filhas, recebi um telefonema na minha casa nada mais nada menos que do Papa Francisco, foi uma emoção muito grande até o momento não nos caiu a ficha, esta ligação foi originada por minha Sra. que lhe enviou uma carta e ele dedicou o seu tempo para telefonar para ela e conversar com ela. Posso assegurar que quando fala tem uma paz total. Obrigado Deus por esta bênção!”

A notícia foi logo difundida por “La Red”, uma rádio local, e pelo jornal “La Capital”, depois pela agência oficial argentina Telam até que finalmente monopolizou a imprensa em todo mundo ontem quarta-feira.

O que disse exatamente o Papa a Jaquelina –que em uma das suas declarações admite que se afastou da Igreja, não vai à missa e que não é católica “praticante”– é até agora um assunto que não fica claro. Conversando com La Red, Jaquelina disse que logo depois de falar por uns dez minutos com o Santo Padre, ele lhe teria dito que alguns sacerdotes são “mais papistas que o Papa” e que ela poderia “confessar-se e começar a receber a comunhão em outra paróquia”.

Em uma segunda entrevista, constrangida pela atenção internacional e pelas ligações de todo o mundo, confirmou que tinha recebido “permissão” do Pontífice para receber a comunhão, mas assinalou que “se supunha que isto devia ser discreto, agora não posso ir a lugar algum”. Desde ontem Jaquelina não deu declarações a respeito.

Catholic News Agency (CNA) –agência do grupo – ligou para a casa de Jaquelina e conversou com a sua filha Candela que confirmou que “o Papa Francisco ligou. Estamos muito felizes e honrados como família”, e explicou que sua mãe estava constrangida e que não estava recebendo ligações e tinha deixado de ir trabalhar na pequena loja que a família tem cruzando a rua.

Por sua parte, Sabetta esteve muito disponível para falar com a imprensa. Segundo a sua versão “Francisco disse a minha esposa que estava livre de todo pecado, que podia receber a comunhão, que podia ir com paz mental, já que um divorciado que vai (à comunhão) não está fazendo nada de errado”. “Ele somente lhe disse que volte para a comunhão em outra paróquia para evitar conflito (com o pastor)”.

Por sua parte, o pároco de San Lorenzo, o Padre José Ceschi, disse nesta quarta-feira que a suposta “permissão” para receber a comunhão dada pelo Papa seria “absurdo”.

Falando com a rádio local La Ocho, o sacerdote disse: “me alegro primeiro que o Papa tenha ligado para alguém de San Lorenzo, o Papa surpreende com estas ligações e as pessoas não podem acreditar. Não é que não acredite na ligação, mas o que me parece extremamente estranho é que tenha lhe dado permissão para comungar”.

“O Papa nunca vai fazer isso, é impossível que tenha feito isso, é impossível, se ele (o marido) vem de um sacramento anterior é absolutamente impossível. O que acontece é que o Papa, como todos os bispos e sacerdotes, temos que ser pai, mãe e mestre, para ter o coração aberto, mas não passar da linha, dizer as coisas como são”.

Sobre seu predecessor, que disse a Jaquelina que não podia receber a comunhão, o sacerdote disse que “se o casamento anterior é somente pelo civil, para a Igreja não há nenhum inconveniente para casar-se, depois que houver a separação de maneira legal. Se o casamento foi pelo sacramento do matrimônio, a coisa é diferente, porque a Igreja não pode dar um passo além do que diga Jesus”.

Se o anterior pároco, o Padre Sergio, tivesse dado a “absolvição nestes casos, é como dar um cheque sem fundo, quando você vai ao banco, não tem dinheiro na conta”, disse.

“Esclareço que acredito na ligação de Francisco porque ele surpreende assim às pessoas, mas o outro não, são invenções ou má-interpretações, é absurdo”, concluiu.

O sentido cristão do sexo

Antes de tudo o casal cristão precisa conhecer bem o sentido do sexo no plano de Deus. Ele o quis. De todas as alternativas possíveis que Deus poderia ter empregado para gerar e manter a espécie humana, Ele escolheu a relação física e espiritual do amor conjugal. Deus quis que o casal humano fosse o arquétipo da humanidade, e que sua geração fosse por meio da via sexual.

Além disso, por meio deste ato, quis aprofundar o amor do casal. Então, a conclusão a que se chega, é que Deus não só inventou o sexo, mas o dotou de profunda dignidade e sentido, e por isso colocou normas para ser vivido de maneira correta, para que não causasse desajustamento e sofrimento.

Deus quis que o ser humano fosse material e espiritual, algo como uma síntese bela do animal que apenas tem corpo, com o anjo que apenas é espírito.

E dotando-o de corpo quis que o homem fosse sexuado como os animais; porém, a sua vida sexual devia ser guiada não pelo instinto, como nos animais, mas, pela alma, e iluminada pela inteligência, embelezada pela liberdade, conduzida pela vontade e vivida no amor.

A vida sexual é algo muito sublime no plano de Deus; por isso, jamais um casal deve pensar que Deus esteja longe no momento de sua união mais íntima; pois este ato é santo e santificador no casamento e querido por Deus.

O amor conjugal tem um sentido único; o amor entre dois seres do mesmo sexo, como, por exemplo, pai e filho ou dois amigos, não contém a complementação no plano físico. O uso do sexo no seu devido lugar, no casamento, bem entendido nos seus aspectos espiritual e psicológico, é um dos atos mais nobres e significativos que o ser humano pode realizar; pois ele é a fonte da vida e da celebração do amor. A virtude da castidade, mais do que consistir na renúncia ao sexo, significa o seu uso adequado.

Diz o Dr. Alphone H. Clemens, Diretor do Centro de Aconselhamento da Universidade Católica da América, Washington, D.C., sobre o ato sexual:

“É um ato de grande beleza e profunda significação espiritual, pois o amor conjugal entre dois cristãos em estado de graça, é uma fusão de dois corpos que são templos da Trindade, e uma fusão de duas almas que participam da mesma Vida Divina… Por outro lado, usado com propriedade, torna-se uma fonte de união, harmonia, paz e ajustamento. Intensifica o amor entre o esposo e a esposa, e funciona como escudo contra a infidelidade e incontinência. A personalidade humana integral, mesmo nos seus aspectos sobrenaturais, é enriquecida pelo sexo, uma vez que o ato do amor conjugal também é merecedor de graças” (Clemens, 1969, p. 175).

Afirma Raoul de Gutchenere, em “Judgment on Birth Control” que:

“Foi reconhecido há já bastante tempo, que […] as relações sexuais produzem efeitos psicológicos profundos, especialmente sobre a mulher”, uma vez que o esperma absorvido por seu corpo, desempenha um papel dinamogênico, promovendo o equilíbrio. De modo geral, o ato de amor conjugal provoca o relaxamento, vigor, autoconfiança, satisfação, sensação geral de bem estar, sensação de segurança e uma disposição que conduz ao esquecimento de atritos e tensões de menor importância entre o casal” (Apud Clemens, p. 177).

Não é à toa que São Paulo, há 2000 anos já recomendava aos cônjuges cristãos: “não vos recuseis um ao outro… afim de que Satanás não vos tente” (1Cor 7,5).

A recusa do sexo sem motivo pode representar não apenas uma injustiça para com o cônjuge, mas também o perigo de o expor à infidelidade e o casamento ao fracasso. Isso mostra que os casais não devem ficar muito tempo separados quaisquer que sejam os motivos, especialmente por razões menores. O afastamento prolongado deles pode gerar uma situação de estresse especialmente para o homem. Alguns conseguem superar essa abstinência sexual forçada com uma sublimação religiosa, mas nem todos tem a mesma disposição.

No entanto, é preciso dizer que os especialistas mostram em suas pesquisas que “outros fatores que não o sexo são mais importantes para a felicidade matrimonial”, uma vez que muitos casais superam seus problemas e angústias com um amor autêntico.

Prof. Felipe Aquino
Trecho retirado do livro: A vida sexual no casamento – Editora Cléofas

Papa Francisco aprendeu esta lição do capelão de uma prisão

https://www.acidigital.com/noticias/papa-francisco-aprendeu-esta-licao-do-capelao-de-uma-prisao-61720

Papa Francisco abençoa fiéis quem participaram da Audiência. Foto: Daniel Ibáñez / ACI Prensa

Vaticano, 14 Fev. 19 / 01:00 pm (ACI).- Durante a Audiência Geral de quarta-feira, 13 de fevereiro, no Vaticano, o Papa Francisco contou uma curiosa história que viveu com um capelão de uma prisão:

“Em certa ocasião, o capelão de uma prisão me fez uma pergunta: ‘Diga-me, padre, qual é a palavra contrária a ‘eu’? E eu, ingênuo, disse: ‘tu’. E o capelão respondeu: Esse é o início da guerra. A palavra oposta a ‘eu’ é ‘nós’, onde está a paz, todos juntos’. Esse é um belo ensinamento que recebi daquele sacerdote”, disse o Papa.

O Papa, que não especificou nem qual era a prisão nem quando a conversa aconteceu, queria explicar que o individualismo é contrário ao diálogo com Deus.

“Não há oração elevada a Deus que não seja a oração de uma comunidade de irmãos e irmãs, o nós: somos uma comunidade, somos irmãos e irmãs, somos um povo que reza: ‘nós'”, afirmou o Santo Padre.

Santa Missa do Galo – 24 de Dezembro

Por Pe. Fernando José Cardoso

A palavra do Evangelho diz: “Nasceu hoje, para nós, o Salvador, que é Cristo Senhor”. A liturgia atualiza o que aconteceu no passado. Ela é um mistério e, infelizmente, nós católicos, não temos entrado neste mistério. É como na Santa Missa, na consagração: o que a gente faz é narrado, mas a liturgia atualiza, renova. Enquanto o sacerdote narra, acontece a atualização. Por isso a liturgia é mistério. Assim como na Páscoa se renova a ressurreição, hoje nasceu o Salvador, nasceu para sua vida, para sua casa e para a sua família. Por pior que seja a sua situação, saiba: nasceu para você, para sua casa, o Salvador, que é Cristo Senhor. Só falta você acolher. A liturgia atualiza o mistério e a graça vem do céu, mas se a gente não canaliza, não recolhe, se perde. A liturgia é diferente de qualquer representação: Jesus nasce para sua vida. Então prepare o seu coração para que Jesus, trazendo a salvação, nasça em você que é o presépio. O presépio é você! Pegue o menino Jesus, mesmo que Ele tenha que chorar por causa de seus problemas. Ele se compadece de você e a salvação acontece, porque você é o presépio. Ele não tem medo: Ele nasce no meio dos seus espinhos. Ele está aí para salvar você e a sua família. Talvez você tenha que pegar o Menino no colo e apertar, porque os seus não O acolhem, mas Ele nasceu. Deus te ama com amor incondicional. Você é amado por Jesus, por isso Ele nasceu na situação em que você se encontra. Ele nasce para sua vida miserável. Quanto mais miserável você é, mais Ele te ama. Ele nasceu em Belém e nasce hoje em você. Acredite: Jesus foi até a cruz por você, Ele já libertou as suas misérias. Se você aceita o perdão, o amor de Jesus, Ele nasce em você. Saiba: José e Maria trazem a salvação ao seu coração, mesmo que o seu berço esteja sujo. Não se preocupe, não espere retirar os espinhos para receber o Menino Jesus. Receba-O como você está. É Ele quem vai retirar os espinhos com a ajuda de Maria e José.

 

O NATAL É UMA DECLARAÇÃO DO AMOR DE DEUS POR NÓS
Padre Roger Luís, Comunidade Canção Nova

Estávamos enclausurados nas trevas, era preciso trazer a luz para nos libertar, cativos esperávamos um Salvador’. Assim diz São Gregório. “Quando ninguém cuida de você, Deus cuida”. Hoje a Salvação me alcança, alcança minha família, somos salvos porque Jesus é o salvador que veio nos libertar. Éramos escravos e precisávamos de um libertador. Deus precisava se encarnar para nos salvar, sim precisávamos, porque éramos cativos. O Verbo se fez carne e habitou no meio de nós, o Verbo se encarnou para que nesta noite possamos proclamar que Jesus nos salvou. ‘Nisto consiste o amor: não em termos nós amado a Deus, mas em ter-nos ele amado, e enviado o seu Filho para expiar os nossos pecados’ (1Jo 4-10). Em Jesus os nossos pecados são expiados, o Verbo se encarnou para que experimentemos a graça da expiação dos nossos pecados. Na noite de Natal a esperança precisa está nos nossos corações, precisamos esperar a salvação do mundo, que Jesus já nos deu, e não ficarmos desesperados diante das más notícias. Assuma a salvação de Deus nesta noite, a salvação para você e sua família. Por que o Verbo se encarnou? Para que assim experimentássemos o amor. O Emanuel, se fez homem para tocar na nossa humanidade, se fez alguém como nós para que o amor de Deus se manifestasse entre nós. Deus enviou o seu filho único ao mundo, para que nós tenhamos a vida por meio Dele. Esta noite é de alegria, de vitória, a promessa se cumpriu. O natal é uma declaração explicita do amor de Deus por nós, assuma o amor de Deus por você. Jesus é carta de amor de Deus para toda humanidade. Agradeça a Deus pela manifestação de tanto amor em sua vida. Jesus se encarnou para nos ensinar o caminho da santificação. Jesus é o caminho da santidade. “Manifestou-se, com efeito, a graça de Deus, fonte de salvação para todos os homens. Veio para nos ensinar a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver neste mundo com toda sobriedade, justiça e piedade, na expectativa da nossa esperança feliz, a aparição gloriosa de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo, que se entregou por nós, a fim de nos resgatar de toda a iniqüidade, nos purificar e nos constituir seu povo de predileção, zeloso na prática do bem” (Tito 3, 13-14). O Natal nos leva a olhar o Menino que nasce, e olhar para Jesus que voltará, e precisa nos encontrar vivendo a salvação que Ele mesmos nos deu.

 

NASCEU PARA NÓS O SALVADOR
Mons. Jonas Abib na Missa de Natal na Comunidade Canção Nova

Naquela época, se uma criança nascesse numa situação como a de Jesus, numa estrebaria, era considerada uma criança impura, e para o judeu essas crianças eram consideradas como os leprosos que ficavam separados, num lugar à parte na cidade. Os leprosos eram os impuros, eles só deixavam de ser impuros se acontecesse a cura e os sacerdotes fizessem um ritual de purificação com eles. Jesus nasceu como um impuro. E por que Deus permitiu uma coisa dessas? Fazer o Filho nascer impuro… Aí está o grande segredo para nós: o Pai quis, e Jesus aceitou nascer impuro para salvar o Puro, o Perfeito, o Santo. Digo impuro diante da lei, a lei dos judeus. Era a cultura deles, mas Deus permitiu isso para nos salvar. E assim trazer todo impuro para o Seu coração. É isso que Jesus quer fazer na vida de cada um de nós no Natal: salvar-nos da nossa impureza. E por isso a necessidade de assumir essa Salvação. E hoje, especialmente, a Salvação está no meio de nós, porque Deus vai se adequando às festas litúrgicas, a Salvação vem hoje no Natal. Abramo-nos para a Salvação porque hoje nasceu para nós Cristo, o Senhor. Por pior que seja a sua impureza e a sua maldade, abra-se à Salvação. Jesus se faz pecador para salvar o pecador, esteja o pecador em que pecado estiver. É por isso que Ele acolheu a Zaqueu, acolheu a Maria Madalena… e tantos pecadores. Jesus diz a você: ‘Filho, filha, seja qual for a sua situação, teus pecados estão perdoados’. Somente que para isso você precisa abrir-se para essa misericórdia. Em nenhum outro há Salvação, só em Jesus, o Senhor. A Carta aos Gálatas repete que Aquele que é pregado no madeiro é um maldito – minha mãe e meu pai não me deixavam dizer “maldito” porque é uma palavra pesada –, mas Aquele que ia para a cruz era considerado um maldito, quer dizer: completamente fora da graça de Deus. Cristo nos resgatou da maldição. Por que o Pai exigiu tanto do Senhor? Meus irmãos, é justamente porque Jesus se fez maldito para libertar a mim e a você de toda maldição. O ladrão, ao lado de Jesus na cruz, disse: ‘Senhor, lembra-te de mim quando estiveres no teu reino’, e Jesus respondeu: ‘Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso’. Jesus que falar isso para você hoje. O ladrão precisou render-se. Renda-se você também. A divisão da cruz está justamente entre aqueles que acolhem a Salvação e aqueles que não a acolhem. A decisão é sua! É você quem decide! Todos nós temos medo de decisões, mas essa é a mais linda decisão. Decida-se esta noite! Para que esse medo de se decidir por Jesus? Por que já se acostumou? Já se decepcionou com pessoas? Meu irmão, pelo amor de Deus, deixe de bobagem! Para que ficar com raiva? Por que guardar mágoa? Por que querer viver no mal? Na corrupção? Na impureza? Numa sexualidade errada? Por quê? Por isso que o Pai quis que o Seu Filho nascesse impuro para que você se tornasse puro. Meu irmão, não é por mérito, ou porque você seja bom, é por graça! Talvez você não esteja numa vida errada, mas traz em si sentimentos de culpa, não se perdoa por algo que fez. Isso é um grande mal! Por favor, agarre-se a Jesus nesta noite. Aceite Jesus como seu Senhor, Aquele que manda na sua vida. Se você entrega as rédeas da sua vida a Jesus, você está no caminho da Salvação.

 

GLÓRIA A DEUS NAS ALTURAS E PAZ NA TERRA
Mons. Jonas Abib

“Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um salvador que é o Cristo, o Senhor” (Lc 2, 1-14). Leve isso a sério. Ele nasceu para vós. A Palavra de Deus é sempre presente. Nós nos regemos pelo cronômetro, mas Deus se rege pelo “kayros”, outra palavra para dizer tempo, o tempo de Deus. E o tempo de Deus é agora. É aquilo que São Paulo vai dizer em 2Cor 5, 6: “Agora é o momento favorável”. Eu me recordo bem. Numa das primeiras peregrinações que nós da Canção Nova fizemos à Terra Santa. O programa da peregrinação foi totalmente mudado. Iríamos à Jerusalém, mas fomos aos redores de Jerusalém, porque lá havia explodido um carro-bomba. O guia estava o meu lado e eu o disse: “Quando que esta terra vai ter paz?” Ele me disse: “Padre, essa terra só vai ter paz quando o Messias vier”. Aquilo causou um impacto muito grande dentro de mim. Aquele judeu me ensinou naquele dia. Eu o disse: “Para vocês, ainda é a primeira vinda, para nós será a segunda, pois Ele já veio”. Nós nos abraçamos e ele disse que esperaríamos juntos. É por isso, justamente, que a 2ª leitura, diz: “A graça de Deus se manifestou trazendo salvação para todos os homens. Ela nos ensina a abandonar a impiedade e as paixões mundanas e a viver neste mundo com equilíbrio, justiça e piedade, aguardando a feliz esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo” (Tt 2, 11-14). Veja onde está colocado o Menino Jesus, neste presépio: no colo de Nossa Senhora. Ao lado deles está São José. Mas, olhando para este Natal nós fixamos nossos olhos e coração para o Natal que está para chegar. Precisamos olhar para esta vinda definitiva de Jesus. Está na hora dos católicos deixarem de ter pavor da segunda vinda de Jesus. Alguns, infelizmente, não aceitarão, mas nós não. É por isso que você precisa escolher o seu lado. Você não pode viver numa “coluna do meio”, como se ela existisse. Ou estamos com Ele, ou estamos fora d’Ele. É mais fácil ficar com Ele do que nesse negócio de “coluna do meio”. Pega o Caminho, pois Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Deixa de querer levar a vida cristão “com a barriga”. É difícil, eu sei que é, porque o pecado entrou no mundo. É como andar em cima da corda bamba. Fixando seus olhos no segundo, derradeiro e definitivo Natal que é segunda e gloriosa vinda de Jesus fique com Ele. Há muito tempo está sendo cada vez maior sobre a humanidade como uma espessa nuvem negra de impiedade, indiferença. As pessoas têm vivido uma indiferença para com Deus. É como se nós, homens, fôssemos donos de nós mesmos, da vida. E quem sabe, nós mesmos, estejamos nos tornando insensíveis. O pior é a insensibilidade. A Palavra de Deus, hoje, vem dizer a nós que precisamos renunciar a toda impiedade que está nos ares. Essa nuvem quer tomar conta também da gente que é de Igreja. Hoje é o dia de nós, pela graça do Salvador, renunciar a toda impiedade. A própria Palavra de Deus também diz para renunciarmos a todas as paixões mundanas. Coisas que nós não imaginávamos, vemos dentro de casa. Quanto pai e quanta mãe chorando na Noite de Natal por causa de seus filhos… Talvez você quisesse que eu fizesse uma pregação muito romântica, mas o próprio Senhor vem nos pedir para renunciar a toda a impiedade e as paixões mundanas. A Palavra de Deus já agiu no seu coração. Que bom, meu irmão! “Senhor, quero estar com o Senhor! Mesmo que uma onda de desconfiança me pegue, eu renuncio a toda insensibilidade para contigo. Quero ter fervor. Obrigado, Senhor, porque a tua Palavra se realiza em minha vida”. Com isso, os anjos, como na gruta de Belém, já estão cantando na sua vida, na sua casa, no seu coração. “Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens por ele amados”. Desculpe por não ter feito uma pregação romântica. Nós abrimos os olhos para a realidade e Natal se fez.

 

Homilia de Bento XVI na Missa da noite de Natal
“Foi superada a distância infinita entre Deus e o homem”
CIDADE DO VATICANO, sábado, 25 de dezembro de 2010 (ZENIT.org) – Apresentamos, a seguir, a homilia que Bento XVI pronunciou durante a Missa da noite de Natal, na Basílica de São Pedro, no Vaticano.

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Amados irmãos e irmãs! «Tu és meu filho, Eu hoje te gerei» – com estas palavras do Salmo segundo, a Igreja dá início à liturgia da Noite Santa. Ela sabe que esta frase pertencia, originariamente, ao rito da coroação do rei de Israel. O rei, que por si só é um ser humano como os outros homens, torna-se «filho de Deus» por meio do chamamento e entronização na sua função: trata-se de uma espécie de adoção por parte de Deus, uma ata da decisão, pela qual Ele concede a este homem uma nova existência, atraindo-o para o seu próprio ser. De modo ainda mais claro, a leitura tirada do profeta Isaías, que acabamos de ouvir, apresenta o mesmo processo numa situação de tribulação e ameaça para Israel: «Um menino nasceu para nós, um filho nos foi concedido. Tem o poder sobre os ombros» (9, 5). A entronização na função régia é como um novo nascimento. E, precisamente como recém-nascido por decisão pessoal de Deus, como menino proveniente de Deus, o rei constitui uma esperança. O futuro assenta sobre os seus ombros. É o detentor da promessa de paz. Na noite de Belém, esta palavra profética realizou-se de um modo que, no tempo de Isaías, teria ainda sido inimaginável. Sim, agora Aquele sobre cujos ombros está o poder é verdadeiramente um menino. N’Ele aparece a nova realeza que Deus institui no mundo. Este menino nasceu verdadeiramente de Deus. É a Palavra eterna de Deus, que une mutuamente humanidade e divindade. Para este menino, são válidos os títulos de dignidade que lhe atribui o cântico de coroação de Isaías: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai para sempre, Príncipe da paz (9, 5). Sim, este rei não precisa de conselheiros pertencentes aos sábios do mundo. Em Si mesmo traz a sapiência e o conselho de Deus. Precisamente na fragilidade de menino que é, Ele é o Deus forte e assim nos mostra, face aos pretensiosos poderes do mundo, a fortaleza própria de Deus. Na verdade, as palavras do rito da coroação em Israel não passavam de palavras rituais de esperança, que de longe previam um futuro que haveria de ser dado por Deus. Nenhum dos reis, assim homenageados, correspondia à sublimidade de tais palavras. Neles, todas as expressões sobre a filiação de Deus, sobre a entronização na herança dos povos, sobre o domínio das terras distantes (Sal 2, 8) permaneciam apenas presságio de um futuro – como se fossem painéis sinalizadores da esperança, indicações apontando para um futuro que então era ainda inconcebível. Assim o cumprimento da palavra, que tem início na noite de Belém, é ao mesmo tempo imensamente maior e – do ponto de vista do mundo – mais humilde do que a palavra profética deixava intuir. É maior, porque este menino é verdadeiramente Filho de Deus, é verdadeiramente «Deus de Deus, Luz da Luz, gerado, não criado, consubstancial ao Pai». Fica superada a distância infinita entre Deus e o homem. Deus não Se limitou a inclinar o olhar para baixo, como dizem os Salmos; Ele «desceu» verdadeiramente, entrou no mundo, tornou-Se um de nós para nos atrair a todos para Si. Este menino é verdadeiramente o Emanuel, o Deus-conosco. O seu reino estende-se verdadeiramente até aos confins da terra. Na imensidão universal da Sagrada Eucaristia, Ele verdadeiramente instituiu ilhas de paz. Em todo o lado onde ela é celebrada, temos uma ilha de paz, daquela paz que é própria de Deus. Este menino acendeu, nos homens, a luz da bondade e deu-lhes a força para resistir à tirania do poder. Em cada geração, Ele constrói o seu reino a partir de dentro, a partir do coração. Mas é verdade também que «o bastão do opressor» não foi quebrado. Também hoje marcha o calçado ruidoso dos soldados e temos ainda incessantemente a «veste manchada de sangue» (Is 9, 3-4). Assim faz parte desta noite o júbilo pela proximidade de Deus. Damos graças porque Deus, como menino, Se confia às nossas mãos, por assim dizer mendiga o nosso amor, infunde a sua paz no nosso coração. Mas este júbilo é também uma prece: Senhor, realizai totalmente a vossa promessa. Quebrai o bastão dos opressores. Queimai o calçado ruidoso. Fazei com que o tempo das vestes manchadas de sangue acabe. Realizai a promessa de «uma paz sem fim» (Is 9, 6). Nós Vos agradecemos pela vossa bondade, mas pedimos-Vos também: mostrai a vossa força. Instituí no mundo o domínio da vossa verdade, do vosso amor – o «reino da justiça, do amor e da paz». «Maria deu à luz o seu filho primogênito» (Lc 2, 7). Com esta frase, São Lucas narra, de modo absolutamente sóbrio, o grande acontecimento que as palavras proféticas, na história de Israel, tinham com antecedência vislumbrado. Lucas designa o menino como «primogênito». Na linguagem que se foi formando na Sagrada Escritura da Antiga Aliança, «primogênito» não significa o primeiro de uma série de outros filhos. A palavra «primogênito» é um título de honra, independentemente do fato se depois se seguem outros irmãs e irmãs ou não. Assim, no Livro do Êxodo, Israel é chamado por Deus «o meu filho primogênito» (Ex 4, 22), exprimindo-se deste modo a sua eleição, a sua dignidade única, o particular amor de Deus Pai. A Igreja nascente sabia que esta palavra ganhara uma nova profundidade em Jesus; que n’Ele estão compendiadas as promessas feitas a Israel. Assim a Carta aos Hebreus chama Jesus «o primogênito» simplesmente para O qualificar, depois das preparações no Antigo Testamento, como o Filho que Deus manda ao mundo (cf. Heb 1, 5-7). O primogênito pertence de maneira especial a Deus, e por isso – como sucede em muitas religiões – devia ser entregue de modo particular a Deus e resgatado com um sacrifício de substituição, como São Lucas narra no episódio da apresentação de Jesus no templo. O primogênito pertence a Deus de modo particular, é por assim dizer destinado ao sacrifício. No sacrifício de Jesus na cruz, realiza-se de uma forma única o destino do primogênito. Em Si mesmo, Jesus oferece a humanidade a Deus, unindo o homem e Deus de uma maneira tal que Deus seja tudo em todos. São Paulo, nas Cartas aos Colossenses e aos Efésios, ampliou e aprofundou a idéia de Jesus como primogênito: Jesus – dizem-nos as referidas Cartas – é o primogênito da criação, o verdadeiro arquétipo segundo o qual Deus formou a criatura-homem. O homem pode ser imagem de Deus, porque Jesus é Deus e Homem, a verdadeira imagem de Deus e do homem. Ele é o primogênito dos mortos: dizem-nos ainda aquelas Cartas. Na Ressurreição, atravessou o muro da morte por todos nós. Abriu ao homem a dimensão da vida eterna na comunhão com Deus. Por fim, é-nos dito: Ele é o primogênito de muitos irmãos. Sim, agora Ele também é o primeiro duma série de irmãos, isto é, o primeiro que inaugura para nós a vida em comunhão com Deus. Cria a verdadeira fraternidade: não a fraternidade, deturpada pelo pecado, de Caim e Abel, de Rômulo e Remo, mas a fraternidade nova na qual somos a própria família de Deus. Esta nova família de Deus começa no momento em que Maria envolve o «primogênito» em faixas e O reclina na manjedoura. Supliquemos-Lhe: Senhor Jesus, Vós que quisestes nascer como o primeiro de muitos irmãos, dai-nos a verdadeira fraternidade. Ajudai-nos a tornarmo-nos semelhantes a Vós. Ajudai-nos a reconhecer no outro que tem necessidade de mim, naqueles que sofrem ou estão abandonados, em todos os homens, o vosso rosto, e a viver, juntamente convosco, como irmãos e irmãs para nos tornarmos uma família, a vossa família. No fim, o Evangelho de Natal narra-nos que uma multidão de anjos do exército celeste louvava a Deus e dizia: «Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens que Ele ama» (Lc 2, 14). A Igreja ampliou, no hino «Glória…», este louvor que os anjos entoaram à vista do acontecimento da Noite Santa, fazendo dele um hino de júbilo sobre a glória de Deus. «Nós Vos damos graças por vossa imensa glória». Nós Vos damos graças pela beleza, pela grandeza, pela tua bondade, que, nesta noite, se tornam visíveis para nós. A manifestação da beleza, do belo, torna-nos felizes sem que devamos interrogar-nos sobre a sua utilidade. A glória de Deus, da qual provém toda a beleza, faz explodir em nós o deslumbramento e a alegria. Quem vislumbra Deus, sente alegria; e, nesta noite, vemos algo da sua luz. Mas a mensagem dos anjos na Noite Santa também fala dos homens: «Paz aos homens que Ele ama». A tradução latina desta frase, que usamos na Liturgia e remonta a São Jerônimo, interpreta diversamente: «Paz aos homens de boa vontade». Precisamente nos últimos decênios, esta expressão «os homens de boa vontade» entrou de modo particular no vocabulário da Igreja. Mas qual é a tradução justa? Devemos ler, juntas, as duas versões; só assim compreendemos retamente a frase dos anjos. Seria errada uma interpretação que reconhecesse apenas o agir exclusivo de Deus, como se Ele não tivesse chamado o homem a uma resposta livre e amorosa. Mas seria errada também uma resposta moralizante, segundo a qual o homem com a sua boa vontade poder-se-ia, por assim dizer, redimir a si próprio. As duas coisas andam juntas: graça e liberdade; o amor de Deus, que nos precede e sem o qual não O poderemos amar, e a nossa resposta, que Ele espera e até no-la suplica no nascimento do seu Filho. O entrelaçamento de graça e liberdade, o entrelaçamento de apelo e resposta não podemos dividi-lo em partes separadas uma da outra. Ambas estão indivisivelmente entrançadas entre si. Assim esta frase é simultaneamente promessa e apelo. Deus precedeu-nos com o dom do seu Filho. E, sempre de novo e de forma inesperada, Deus nos precede. Não cessa de nos procurar, de nos levantar todas as vezes que o necessitamos. Não abandona a ovelha extraviada no deserto, onde se perdeu. Deus não se deixa confundir pelo nosso pecado. Sempre de novo recomeça conosco. Todavia espera que amemos juntamente com Ele. Ama-nos para que nos seja possível tornarmo-nos pessoas que amam juntamente com Ele e, assim, possa haver paz na terra. Lucas não disse que os anjos cantaram. Muito sobriamente, escreve que o exército celeste louvava a Deus e dizia: «Glória a Deus nas alturas…» (Lc 2, 13-14). Mas desde sempre os homens souberam que o falar dos anjos é diverso do dos homens; e que, precisamente nesta noite da jubilosa mensagem, tal falar foi um canto no qual brilhou a glória sublime de Deus. Assim, desde o início, este canto dos anjos foi entendido como música vinda de Deus, mais ainda, como convite a unirmo-nos ao canto com o coração em júbilo pelo fato de sermos amados por Deus. Diz Santo Agostinho: Cantare amantis est – cantar é próprio de quem ama. Assim ao longo dos séculos, o canto dos anjos tornou-se sempre de novo um canto de amor e de júbilo, um canto daqueles que amam. Nesta hora, associemo-nos, cheios de gratidão, a este cantar de todos os séculos, que une céu e terra, anjos e homens. Sim, Senhor, nós Vos damos graças por vossa imensa glória. Nós Vos damos graças pelo vosso amor. Fazei que nos tornemos cada vez mais pessoas que amam juntamente convosco e, conseqüentemente, pessoas de paz. Amém. © Copyright 2010 – Libreria Editrice Vaticana

 

MISSA DA MEIA NOITE SOLENIDADE DO NATAL DO SENHOR
HOMILIA DO SANTO PADRE BENTO XVI
Basílica Vaticana 25 de Dezembro de 2008

«Quem se compara ao Senhor, nosso Deus, que tem o seu trono nas alturas e Se inclina lá do alto a olhar os céus e a terra?» Assim canta Israel num dos seus Salmos (113/112, 5s.), onde exalta simultaneamente a grandeza de Deus e sua benigna proximidade dos homens. Deus habita nas alturas, mas inclina-Se para baixo… Deus é imensamente grande e está incomparavelmente acima de nós. Esta é a primeira experiência do homem. A distância parece infinita. O Criador do universo, Aquele que tudo guia, está muito longe de nós: assim parece ao início. Mas depois vem a experiência surpreendente: Aquele que não é comparável a ninguém, que «está sentado nas alturas», Ele olha para baixo. Inclina-se para baixo. Ele vê-nos a nós, e vê a mim. Este olhar de Deus para baixo é mais do que um olhar lá das alturas. O olhar de Deus é um agir. O fato de Ele me ver, me olhar, transforma-me a mim e o mundo ao meu redor. Por isso logo a seguir diz o Salmo: «Levanta o pobre da miséria…» Com o seu olhar para baixo, Ele levanta-me, toma-me benignamente pela mão e ajuda-me, a mim próprio, a subir de baixo para as alturas. «Deus inclina-Se». Esta é uma palavra profética; e, na noite de Belém, adquiriu um significado completamente novo. O inclinar-Se de Deus assumiu um realismo inaudito, antes inimaginável. Ele inclina-Se: desce, Ele mesmo, como criança na miséria do curral, símbolo de toda a necessidade e estado de abandono dos homens. Deus desce realmente. Torna-Se criança, colocando-Se na condição de dependência total, própria de um ser humano recém-nascido. O Criador que tudo sustenta em suas mãos, de Quem todos nós dependemos, faz-Se pequeno e necessitado do amor humano. Deus está no curral. No Antigo Testamento, o templo era considerado quase como o estrado dos pés de Deus; a arca santa, como o lugar onde Ele estava misteriosamente presente no meio dos homens. Deste modo sabia-se que sobre o templo, escondida, estava a nuvem da glória de Deus. Agora, está sobre o curral. Deus está na nuvem da miséria de uma criança sem lugar na hospedaria: que nuvem impenetrável e, no entanto, nuvem da glória! De fato, de que modo poderia aparecer maior e mais pura a sua predileção pelo homem, a sua solicitude por ele? A nuvem do encobrimento, da pobreza da criança totalmente necessitada do amor, é ao mesmo tempo a nuvem da glória. É que nada pode ser mais sublime e maior do que o amor que assim se inclina, desce, se torna dependente. A glória do verdadeiro Deus torna-se visível quando se abrem os nossos olhos do coração diante do curral de Belém. A narração do Natal feita por São Lucas conta-nos que Deus levantou um pouco o véu do seu encobrimento primeiro diante de pessoas de condição muito humilde, diante de pessoas que habitualmente eram desprezadas na grande sociedade: diante dos pastores que, nos campos ao redor de Belém, guardavam os animais. Lucas diz-nos que estas pessoas «velavam». Nisto podemos ouvir ressoar um motivo central da mensagem de Jesus, na qual volta, repetidamente e com crescente urgência até ao Jardim das Oliveiras, o convite à vigilância, a permanecer acordados para nos darmos conta da vinda do Senhor e estarmos preparados para ela. Por isso, também aqui talvez a palavra signifique algo mais do que o simples estar externamente acordados durante as horas noturnas. Eram pessoas verdadeiramente vigilantes, nas quais estava vivo o sentido de Deus e da sua proximidade; pessoas que estavam à espera de Deus e não se resignavam com o aparente afastamento d’Ele na vida de cada dia. A um coração vigilante pode ser dirigida a mensagem da grande alegria: esta noite nasceu para vós o Salvador. Só o coração vigilante é capaz de crer na mensagem. Só o coração vigilante pode incutir a coragem de pôr-se a caminho para encontrar Deus nas condições de uma criança no curral. Peçamos ao Senhor para que nesta hora nos ajude, a nós também, a tornarmo-nos pessoas vigilantes. São Lucas narra-nos ainda que os próprios pastores ficaram «envolvidos» pela glória de Deus, pela nuvem de luz, encontravam-se dentro do resplendor desta glória. Envolvidos pela nuvem santa ouvem o cântico de louvor dos anjos: «Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens por Ele amados». E quem são estes homens por Ele amados senão os pequenos, os vigilantes, aqueles que estão à espera, esperam na bondade de Deus e procuram-No olhando para Ele de longe? Nos Padres da Igreja, é possível encontrar um comentário surpreendente ao cântico com que os anjos saúdam o Redentor. Até àquele momento – dizem os Padres – os anjos tinham conhecido Deus na grandeza do universo, na lógica e na beleza do cosmos que provêm d’Ele e O refletem. Tinham acolhido por assim dizer o cântico de louvor mudo da criação e tinham-no transformado em música do céu. Mas agora acontecera um fato novo, até mesmo assombroso para eles. Aquele de quem fala o universo, o próprio Deus que tudo sustenta e traz na sua mão, Ele mesmo entrara na história dos homens, tornara-Se um que age e sofre na história. Do jubiloso assombro suscitado por este fato inconcebível, por esta segunda e nova maneira em que Deus Se manifestara – dizem os Padres – nasceu um cântico novo, tendo o Evangelho de Natal conservado uma estrofe para nós: «Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens». Talvez se possa dizer, segundo a estrutura da poesia hebraica, que este versículo nas suas duas frases diz fundamentalmente a mesma coisa, mas duma perspectiva diversa. A glória de Deus está no alto dos céus, mas esta sublimidade de Deus encontra-se agora no curral, aquilo que era humilde tornou-se sublime. A sua glória está sobre a terra, é a glória da humildade e do amor. Mais ainda: a glória de Deus é a paz. Onde está Ele, lá está a paz. Ele está lá onde os homens não querem fazer, de modo autônomo, da terra o paraíso, servindo-se para tal fim da violência. Ele está com as pessoas de coração vigilante; com os humildes e com aqueles que correspondem à sua elevação, à elevação da humildade e do amor. A estes dá a sua paz, para que, por meio deles, entre a paz neste mundo. O teólogo medieval Guilherme de S. Thierry disse uma vez: Deus viu, a partir de Adão, que a sua grandeza suscitava no homem resistência; que o homem se sente limitado no ser ele próprio e ameaçado na sua liberdade. Portanto Deus escolheu um caminho novo. Tornou-Se um Menino. Tornou-Se dependente e frágil, necessitado do nosso amor. Agora – diz-nos aquele Deus que Se fez Menino – já não podeis ter medo de Mim, agora podeis apenas amar-Me. É com tais pensamentos que, esta noite, nos aproximamos do Menino de Belém, daquele Deus que por nós quis fazer-Se criança. Em cada criança, há o revérbero do Menino de Belém. Cada criança pede o nosso amor. Pensemos, pois, nesta noite de modo particular também naquelas crianças às quais é recusado o amor dos pais; nos meninos da rua que não têm o dom de um lar doméstico; nas crianças que são brutalmente usadas como soldados e feitas instrumentos da violência, em vez de poderem ser portadores da reconciliação e da paz; nas crianças que, através da indústria da pornografia e de todas as outras formas abomináveis de abuso, são feridas até ao fundo da sua alma. O Menino de Belém é um renovado apelo que nos é dirigido para fazermos tudo o que for possível a fim de que acabe a tribulação destas crianças; para fazermos tudo o que for possível a fim de que a luz de Belém toque os corações dos homens. Somente através da conversão dos corações, somente através de uma mudança no íntimo do homem se pode superar a causa de todo este mal, pode ser vencido o poder do maligno. Somente se mudarem os homens é que muda o mundo e, para os homens mudarem, precisam da luz que vem de Deus, daquela luz que de modo tão inesperado entrou na nossa noite. E falando do Menino de Belém, pensemos também na localidade que responde ao nome de Belém; pensemos naquela terra onde Jesus viveu e que Ele amou profundamente. E peçamos para que lá se crie a paz. Que cessem o ódio e a violência. Que desperte a compreensão recíproca, se realize uma abertura dos corações que abra as fronteiras. Que desça a paz que os anjos cantaram naquela noite. No Salmo 96/95, Israel e, com ele, a Igreja louvam a grandeza de Deus que se manifesta na criação. Todas as criaturas são chamadas a aderir a este cântico de louvor, encontrando-se lá também este convite: «Alegrem-se as árvores da floresta, diante do Senhor que vem» (12s.). A Igreja lê este Salmo também como uma profecia e simultaneamente uma missão. A vinda de Deus a Belém foi silenciosa. Somente os pastores que velavam foram por uns momentos envolvidos no esplendor luminoso da sua chegada e puderam ouvir uma parte daquele cântico novo que brotara da maravilha e da alegria dos anjos pela vinda de Deus. Esta vinda silenciosa da glória de Deus continua através dos séculos. Onde há fé, onde a sua palavra é anunciada e escutada, Deus reúne os homens e dá-Se-lhes no seu Corpo, transforma-os no seu Corpo. Ele «vem». E assim desperta o coração dos homens. O cântico novo dos anjos torna-se cântico dos homens que, ao longo de todos os séculos, de forma sempre nova cantam a vinda de Deus como Menino e, a partir do seu íntimo, tornam-se felizes. E as árvores da floresta vão até Ele e exultam. A árvore na Praça de São Pedro fala d’Ele, quer transmitir o seu esplendor e dizer: Sim, Ele veio e as árvores da floresta aclamam-No. As árvores nas cidades e nas casas deveriam ser algo mais do que um costume natalício: indicam Aquele que é a razão da nossa alegria – o próprio Deus que vem, o Deus que por nós Se fez menino. O cântico de louvor, no mais fundo, fala enfim d’Aquele que é a própria árvore da vida reencontrada. Pela fé n’Ele, recebemos a vida. No sacramento da Eucaristia, dá-Se a nós: dá uma vida que chega até a eternidade. Nesta hora, juntamo-nos ao cântico de louvor da criação e o nosso louvor é ao mesmo tempo uma oração: Sim, Senhor faça-nos ver algo do esplendor da vossa glória. E dai a paz à terra. Tornai-nos homens e mulheres da vossa paz. Amém. Fonte: © Copyright 2008 – Libreria Editrice Vaticana

 

Homilia do Papa na Missa da Noite Feliz

«O Senhor disse-Me: “Tu és meu filho, Eu hoje Te gerei”». Com estas palavras do Salmo segundo, a Igreja dá início à Santa Missa da vigília de Natal, na qual celebramos o nascimento do nosso Redentor Jesus Cristo no estábulo de Belém. Outrora, este Salmo pertencia ao ritual da coroação dos reis de Judá. O povo de Israel, por causa da sua eleição, sentia-se de modo particular filho de Deus, adotado por Deus. Uma vez que o rei era a personificação daquele povo, a sua entronização era vivida como um ato solene de adoção por parte de Deus, no qual o rei ficava, de certo modo, envolvido no próprio mistério de Deus. Na noite de Belém, estas palavras, que de fato eram mais a expressão duma esperança que realidade presente, ganharam um sentido novo e inesperado. O Menino no presépio é verdadeiramente o Filho de Deus. Deus não é perene solidão, mas um círculo de amor no recíproco dar-se e um dar-se sem cessar. Ele é Pai, Filho e Espírito Santo. Mais ainda: em Jesus Cristo, o Filho de Deus, o próprio Deus Se fez homem. É a Ele que o Pai diz: «Tu és meu filho». O hoje eterno de Deus desceu ao hoje efêmero do mundo e arrasta o nosso hoje passageiro para o hoje perene de Deus. Deus é tão grande que Se pode fazer pequeno. Deus é tão poderoso que Se pode fazer inerme e vir ter conosco como menino indefeso, para que O possamos amar. Deus é tão bom que renuncia ao seu esplendor divino e desce ao estábulo para que O possamos encontrar e, assim, a sua bondade chegue também a nós, se nos comunique e continue a agir por nosso intermédio. O Natal é isto: «Tu és meu Filho, Eu hoje Te gerei». Deus tornou-Se um de nós, para que nós pudéssemos viver com Ele, tornarmo-nos semelhantes a Ele. Como próprio sinal, escolheu o Menino no presépio: Deus é assim. Deste modo, aprendemos a conhecê-Lo. E em todo o menino brilha algo da luz daquele hoje, da proximidade de Deus que devemos amar e à qual nos devemos submeter – em todo o menino, mesmo na criança ainda não nascida. Ouçamos uma segunda palavra da liturgia desta Noite santa, tomada agora do Livro do profeta Isaías: «Para os que habitavam na terra da escuridão, uma luz começou a brilhar» (9, 1). A palavra «luz» permeia toda a liturgia desta Santa Missa. Aparece um novo aceno no texto da carta de São Paulo a Tito: «Manifestou-se a graça» (2, 11). A palavra «manifestou-se» diz, em língua grega e neste contexto, a mesma coisa que o hebraico exprime com as palavras «uma luz brilhou»: a «manifestação» – a «epifania» – é a irrupção da luz divina no mundo cheio de escuridão e de problemas insolúveis. Por fim, o Evangelho narra-nos que apareceu a glória de Deus aos pastores e «cercou-os de luz» (Lc 2, 9). Onde aparece a glória de Deus, aí irradia a luz pelo mundo. «Deus é luz e Nele não há trevas», diz-nos São João (1Jo 1, 5). A luz é fonte de vida. Mas luz significa, sobretudo conhecimento, significa verdade em contraposição com a escuridão da mentira e da ignorância. Deste modo, a luz faz-nos viver, indica-nos a estrada. Além disso, enquanto gera calor, a luz significa também amor. Onde há amor, levanta-se uma luz no mundo; onde há ódio, o mundo permanece na escuridão. É verdade, no estábulo de Belém, apareceu a grande luz que o mundo espera. Naquele Menino deitado na manjedoura, Deus mostra a sua glória – a glória do amor, em que Ele mesmo Se entrega em dom e Se despoja de toda a grandeza para nos conduzir pelo caminho do amor. A luz de Belém nunca mais se apagou. Ao longo de todos os séculos, envolveu homens e mulheres, «cercou-os de luz». Onde despontou a fé naquele Menino, aí desabrochou também a caridade – a bondade para com todos, a carinhosa atenção pelos débeis e os doentes, a graça do perdão. A partir de Belém, um rasto de luz, de amor, de verdade atravessa os séculos. Se olharmos os Santos – desde Paulo e Agostinho até São Francisco e São Domingos, desde Francisco Xavier e Teresa de Ávila até à Irmã Teresa de Calcutá – vemos esta corrente de bondade, este caminho de luz que se inflama, sempre de novo, no mistério de Belém, naquele Deus que Se fez Menino. Contra a violência deste mundo, Deus opõe, naquele Menino, a sua bondade e chama-nos a seguir o Menino. Juntamente com a árvore de Natal, os nossos amigos austríacos trouxeram-nos também uma pequena chama que tinham aceso em Belém, para nos dizer: o verdadeiro mistério do Natal é o esplendor interior que irradia deste Menino. Deixemos que se comunique a nós esse esplendor interior, que acenda no nosso coração a chama da bondade de Deus; todos nós levemos, com o nosso amor, a luz ao mundo! Não deixemos que esta chama luminosa se apague por causa das correntes frias do nosso tempo! Guardemo-la fielmente e demo-la aos outros! Nesta noite, em que voltamos o nosso olhar para Belém, queremos também rezar de modo especial pelo lugar do nascimento do nosso Redentor e pelos homens que lá vivem e sofrem. Queremos rezar pela paz na Terra Santa: Olhai, Senhor, este ângulo da terra que, como pátria vossa, tanto amais! Fazei que resplandeça lá a vossa luz! Fazei que lá chegue a paz! Com o termo «paz», chegamos à terceira palavra-mestra da liturgia desta Noite santa. Ao Menino que anuncia, Isaías chama-Lhe «Príncipe da paz». A propósito do seu reino, diz-se: «A paz não terá fim». No Evangelho, é anunciado aos pastores: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra…». Outrora lia-se: «…aos homens de boa vontade»; na nova tradução, diz-se: «…aos homens que Ele ama». Que significa esta mudança? Deixou de ter valor a boa vontade? Ponhamos melhor a questão: Quais são os homens que Deus ama e porque é que os ama? Porventura Deus é parcial? Porventura ama apenas certas pessoas, deixando as outras entregues a si mesmas? O Evangelho responde a estas perguntas, mostrando-nos algumas pessoas concretas amadas por Deus. Há pessoas individuais – Maria, José, Isabel, Zacarias, Simeão, Ana, etc. Mas há também dois grupos de pessoas: os pastores e os sábios do Oriente, os chamados reis magos. Nesta noite, detenhamo-nos nos pastores. Que espécie de homens são eles? No seu ambiente, os pastores eram desprezados; eram considerados pouco sérios e, em tribunal, não eram admitidos como testemunhas. Mas, quem eram na realidade? Certamente não eram grandes santos, se por este termo entendemos pessoas de virtudes heróicas. Eram almas simples. O Evangelho evidencia uma característica que mais tarde, nas palavras de Jesus, havia de ter um papel importante: eram pessoas vigilantes. Isto vale primariamente em sentido exterior: de noite vigiavam, perto das suas ovelhas. Mas vale também num sentido mais profundo: estavam disponíveis à palavra de Deus. A sua vida não estava fechada em si mesma; o seu coração estava aberto. De certo modo, no mais fundo de si mesmos, estavam à espera Dele. A sua vigilância era disponibilidade – disponibilidade para ouvirem, disponibilidade para se porem caminho. Estavam à espera da luz que lhes indicasse o caminho. E isto é o que interessa a Deus. Ele ama a todos, porque todos são criaturas suas. Mas, algumas pessoas têm a sua alma fechada; o seu amor não encontra qualquer acesso a eles. Pensam que não têm necessidade de Deus; não O querem. Outros, que moralmente talvez sejam igualmente miseráveis e pecadores, pelo menos sofrem com isso. Estes esperam Deus. Sabem que têm necessidade da sua bondade, embora não tenham uma idéia precisa dela. No seu íntimo, aberto à expectativa, a luz de Deus pode entrar, e com ela a sua paz. Deus procura pessoas que levem e comuniquem a sua paz. Peçamos-Lhe para fazer com que não encontre fechado o nosso coração. Esforcemo-nos por nos tornarmos capazes de ser portadores ativos da sua paz – precisamente no nosso tempo. Além disso, a palavra paz assumiu entre os cristãos um significado de todo especial: tornou-se um nome para designar a Eucaristia. Nesta, está presente a paz de Cristo. Através de todos os lugares onde se celebra a Eucaristia, estende-se uma rede de paz sobre o mundo inteiro. As comunidades reunidas à volta da Eucaristia constituem um reino da paz largo como o mundo. Quando celebramos a Eucaristia, encontramo-nos em Belém, na «casa do pão». Cristo dá-Se a nós, e assim nos dá a sua paz. Dá-no-la para que levemos a luz da paz no nosso íntimo e a comuniquemos aos outros; para que nos tornemos obreiros de paz e contribuamos assim para a paz no mundo. Por isso, suplicamos: Senhor, realizai a vossa promessa! Fazei que, onde houver discórdia, nasça a paz! Fazei que desponte o amor, onde reinar o ódio! Fazei que surja a luz, onde dominarem as trevas! Fazei que nos tornemos portadores da vossa paz! Amém.

Natal bipolar

O Natal é repleto de contradições. Período que tanto se fala de alegria, esperança e paz, enquanto um sentimento estranho de tristeza, desespero e inquietação invade a alma. Famílias reunidas em ceia decorada e separadas em teia de intrigas. Muita comida na barriga e pouco alimento no coração. Gente correndo atrás dos presentes e o mimo do presépio esquecido na manjedoura.

Ruas congestionadas da loucura no trânsito e caminhos vazios do bom senso nos relacionamentos. Luzes coloridas nas casas e praças e sombras cinzentas na vida das pessoas. Gente saindo e gente chegando sem saber aonde ir, sem saber aonde chegar.

Natal é ponto de exclamação e ponto de interrogação. É resposta, é dúvida. Natal é fé no Menino Deus e descrença no Deus Menino. É a criança divina nos braços de Simeão “escolhida por Deus tanto para a destruição como para a salvação de muita gente” (Lucas 2.34). É o amor que conecta o mundo num Salvador, é o ódio que divide a humanidade em fanatismo e perseguições. É a vida no céu, é a morte no inferno. É o indulto pela fé na justiça divina, é a condenação pela dúvida na clemência celestial. Natal é o Deus Eterno gerado na barriga finita da mulher, é o Filho do Homem morto no ventre da cruz “para que todos os que crerem nele tenham a vida eterna” (João 3.15). Natal é vida, Natal é morte.

Natal é a Criança que foge para o Egito, são os infantes que não conseguem escapar da espada do Herodes. São crianças protegidas, são inocentes massacrados por extremistas religiosos no reino de violência. Natal é deixar que os pequeninos venham a Jesus, é impedir que tenham vida.

Quem pode entender o Natal? Até Maria ficou confusa ao saber que seria mãe do Filho de Deus. “Para Deus nada é impossível”, disse-lhe o anjo. Num mundo tão estranho, do bem e do mal, do amor e do ódio, da alegria e da tristeza, o Natal traz o Céu para a Terra onde “o seu povo não o recebeu. Porém, alguns creram Nele e o receberam” (João 1.12).

 

O Natal derruba os poderosos

Muitos vão cair do seu trono a qualquer momento. A profecia não é minha, é de Maria. Com o Filho de Deus na barriga, ela expressa na canção Magnificat que Deus levanta a sua mão poderosa, derrota os orgulhosos com todos os planos deles, derruba dos seus tronos reis influentes (Lucas 1.51, 52). Deus não acaba com os tronos, com as instituições, com aquilo que mantém a ordem neste mundo suscetível à desordem. Deus acaba com os reizinhos petulantes. “Pois nenhuma autoridade existe sem a permissão de Deus, e as que existem foram colocadas nos seus lugares por ele” (Romanos 13.1).
O Natal de 2016 vem manifestar outra vez esta profecia. E, desta vez, para todos perceberem que, quanto mais alto, maior o tombo. Nunca antes na história deste País se viu tanta gente em pouco tempo cair dos seus reinados. E estrago na política, nas empresas, nos esportes – no mundo do poder. Uma tempestade que vem do Natal. Não do Natal enfeitado, sofisticado, ostentoso – igual aos tronos. Mas o Natal de Jesus – desnudo, simples, despretensioso.
Por isto, o desprezo dos reis Herodes escandalizados com a miserável estrebaria, desprovida de riqueza e conforto. Mas é a mãe Ignorância com a filha Soberba. Não entendem que o Rei Jesus “abriu mão de tudo o que era seu e tomou a natureza de servo” (Filipenses 2.7) para nos livrar do trono do orgulho, da maldade, da corrupção, E nos entronar com o cetro da humildade, do amor, da bondade. “Não façam nada por interesse pessoal ou por desejos tolos de receber elogios”, lembra a Bíblia, “mas sejam humildes e considerem os outros superiores a vocês mesmos” (Filipenses 2.3).
Ah, se neste mundo tivesse mais Natal de Jesus. Haveria menos sofrimento. Quantos poderosos ainda cairão dos seus tronos para Jesus reinar?

Marcos Schmidt é pastor luterano
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