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A Ressurreição de Cristo segundo São João Paulo II

O Túmulo vazio!

A Ressurreição como feito histórico que afirma a fé
S.S. João Paulo II, 25 de janeiro, 1989

1. Nesta catequese confrontamos a verdade culminante de nossa fé em Cristo, documentada pelo Novo Testamento, acreditada e vivida como verdade central pelas primeiras comunidades cristãs, transmitida como fundamental pela tradição, nunca esquecida pelos cristãos verdadeiros e hoje aprofundada, estudada e pregada como parte essencial do mistério pascal, junto com a cruz; quer dizer a ressurreição de Cristo. Dele, em efeito, diz o Símbolo dos Apóstolos que ‘ao terceiro dia ressuscitou dentre os mortos’; e o Símbolo niceno-constantinopolitano precisa: ‘Ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras’.

É um dogma da fé cristã, que se insere em um fato acontecido e constatado historicamente. Trataremos de investigar ‘com os joelhos da mente inclinados’ o mistério enunciado pelo dogma e encerrado no acontecimento, começando com o exame dos textos bíblicos que o testemunham.

2. O primeiro e mais antigo testemunho escrito sobre a ressurreição de Cristo se encontra na primeira Carta de São Paulo aos Coríntios. Nela o Apóstolo recorda aos destinatários da Carta (por volta da Páscoa do ano 57 d.C.): ‘Porque lhes transmiti, em primeiro lugar, o que por minha vez recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; que se apareceu a Cefas e logo aos Doze; depois se apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais ainda a maior parte vivem e outros morreram. Logo se apareceu a Tiago; mais tarde a todos os Apóstolos. E em último lugar a mim como a um abortivo’ (1Cor 15, 3-8).

Como se vê, o Apóstolo fala aqui da tradição viva da ressurreição, da qual ele teve conhecimento após a sua conversão às portas de Damasco (cf. At 9, 3). Durante sua viagem a Jerusalém se encontrou com o Apóstolo Pedro, e também com o Tiago, como o precisa a Carta aos Gálatas (1,18 ss.), que o apóstolo aponta como as duas principais testemunhas de Cristo ressuscitado.

3. Deve também notar-se que, no texto chamado, São Paulo não fala só da ressurreição ocorrida o terceiro dia ‘segundo as Escrituras’ (referência bíblica que toca já a dimensão teológica do fato), mas que ao mesmo tempo recorre às testemunhas aos que Cristo se apareceu pessoalmente. É um sinal, entre outros, de que a fé da primeira comunidade de crentes, expressa por Paulo na Carta aos Coríntios, apóia-se no testemunho de homens concretos, conhecidos pelos cristãos e que em grande parte viviam ainda entre eles. Estes ‘testemunhas da ressurreição de Cristo’ (cf. At 1, 22), são principalmente os Doze Apóstolos, mas não só eles: Paulo fala da aparição de Jesus inclusive a mais de quinhentas pessoas de uma vez, além das aparições a Pedro, a Tiago e aos Apóstolos.

4. Diante deste texto paulino perdem toda admissibilidade as hipóteses com as que se tratou, em maneira diversa, de interpretar a ressurreição de Cristo abstraindo-a da ordem física, de modo que não se reconhecia como um fato histórico; por exemplo, a hipótese, segundo a qual a ressurreição não seria outra coisa que uma espécie de interpretação do estado no qual Cristo se encontra depois da morte (estado de vida, e não de morte), ou a outra hipótese que reduz a ressurreição ao influxo que Cristo, depois de sua morte, não deixou de exercer (e mais ainda recomeçou com novo e irresistível vigor) sobre seus discípulos. Estas hipótese parecem implicar um prejuízo de rechaço à realidade da ressurreição, considerada somente como ‘o produto’ do ambiente, ou seja, da comunidade de Jerusalém. Nem a interpretação nem o prejuízo acham comprovação nos fatos. São Paulo, pelo contrário, no texto citado recorre às testemunhas oculares do ‘fato’: sua convicção sobre a ressurreição de Cristo, tem então uma base experimental. Está vinculada a esse argumento ‘ex-factis’, que vemos escolhido e seguido pelos Apóstolos precisamente naquela primeira comunidade de Jerusalém. Efetivamente, quando se trata da eleição do Matias, um dos discípulos mais assíduos do Jesus, para completar o número dos ‘Doze’ que tinha ficado incompleto pela traição e morte do Judas Iscariote, os Apóstolos requerem como condição que quem for eleito não só tenha sido ‘companheiro’ deles no período em que Jesus ensinava e atuava, mas  sobre tudo possa ser ‘testemunha da sua ressurreição’ graças à experiência realizada nos dias anteriores ao momento no que Cristo (como dizem eles) ‘foi subido ao céu entre nós’ (At 1, 22).

5. Portanto não é possível apresentar a ressurreição, como faz certa crítica neotestamentaria pouco respeitosa dos dados históricos, como um ‘produto’ da primeira comunidade cristã, a de Jerusalém. A verdade sobre a ressurreição não é um produto da fé dos Apóstolos ou de outros discípulos pré ou pós-pascais. Dos textos resulta mas bem que a fé ‘pré-pascual’ dos seguidores de Cristo foi submetida à prova radical da paixão e da morte em cruz de seu Mestre. O mesmo tinha anunciado esta provação, especialmente com as palavras dirigidas ao Simão Pedro quando já estava às portas dos acontecimentos trágicos de Jerusalém; ‘Simão, Simão! Olhe que Satanás solicitou o poder  crivar-te como trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça’ (Lc 22, 31-32). A sacudida provocada pela paixão e morte de Cristo foi tão grande que os discípulos (ao menos alguns deles) inicialmente não acreditaram na notícia da ressurreição. Em todos os Evangelhos encontramos a prova disto. Lucas, em particular, faz-nos saber que quando as mulheres, ‘retornando do sepulcro, anunciaram todas estas coisas (ou seja, o sepulcro vazio) aos Onze e a todos outros…, todas estas palavras lhes pareceram como desatinos e não lhes acreditavam’ (Lc 24, 9. 11).

6. Pelo resto, a hipótese que quer ver na ressurreição um ‘produto’ da fé dos Apóstolos, cai também, por tudo quanto é referido quando o Ressuscitado ’em pessoa se apareceu em meio deles e lhes disse: Paz a vós!’. Eles, de fato, ‘acreditavam ver um fantasma’. Nessa ocasião Jesus mesmo deveu vencer suas dúvidas e temores e convence-los de que ‘era Ele’: ‘Me apalpem e vejam, que um espírito não tem carne e ossos como vêem que eu tenho’. E posto que eles ‘não acabavam de acreditá-lo e estavam assombrados’ Jesus lhes disse que lhe dessem algo de comer e ‘comeu-o diante deles’ (cf. Lc 24,36-43).

7. Além disso, é muito conhecido o episódio de Tomé, que não se encontrava com os outros Apóstolos quando Jesus veio a eles pela primeira vez, entrando no Cenáculo apesar de que a porta estava fechada (cf. Jo 20, 19). Quando, a sua volta, outros discípulos lhe disseram: ‘Vimos ao Senhor’, Tomé manifestou maravilha e incredulidade, e respondeu: ‘Se não ver em suas mãos o sinal dos pregos e não coloco meu dedo no buraco dos pregos e não coloco minha mão em seu flanco não acreditarei. Oito dias depois, Jesus veio de novo ao Cenáculo, para satisfazer a petição de Tomé ‘o incrédulo’ e lhe disse: ‘Aproxima aqui teu dedo e olha minhas mãos; traz a tua mão e coloca-a em meu flanco, e não seja incrédulo mas sim crente’. E quando Tomé professou sua fé com as palavras ‘Meu senhor e meu Deus’, Jesus lhe disse: ‘Porque me viste acreditaste. Felizes os que não viram e acreditaram’ (Jo 20, 24-29).

A exortação a acreditar, sem pretender ver o que se esconde pelo mistério de Deus y de Cristo, permanece sempre válida; mas a dificuldade do Apóstolo Tomé para admitir a ressurreição sem ter experimentado pessoalmente a presença do Jesus vivo, e que depois acontece diante das provas que lhe subministrou o mesmo Jesus, confirmam o que resulta dos Evangelhos sobre a resistência dos Apóstolos e dos discípulos para admitir a ressurreição.

Por isso não tem consistência a hipótese de que a ressurreição tenha sido um ‘produto’ da fé (ou da credulidade) dos Apóstolos. Sua fé na ressurreição nasceu, pelo contrário (baixo a ação da graça divina), da experiência direta da realidade de Cristo ressuscitado.

8. É o mesmo Jesus o que, depois da ressurreição, fica em contato com os discípulos com o fim de lhes dar o sentido da realidade e dissipar a opinião (ou o medo) de que se tratasse de um ‘fantasma’ e portanto de que fossem vítimas de uma ilusão. Efetivamente, estabelece com eles relações diretas, precisamente mediante o tato. Assim é no caso de Tomam, que acabamos de recordar, mas também no encontro descrito no Evangelho do Lucas, quando Jesus diz aos discípulos assustados: ‘me apalpem e vejam que um espírito não tem carne e ossos como vêem que eu tenho’ (24, 39). Convida-lhes a constatar que o corpo ressuscitado, com o que se apresenta a eles, é o mesmo que foi martirizado e crucificado. Esse corpo possui entretanto ao mesmo tempo propriedades novas: há-se ‘feito espiritual’ (e ‘glorificado’ e portanto já não está submetido às limitações habituais aos seres materiais e por isso a um corpo humano. (Em efeito, Jesus entra no Cenáculo apesar de que as portas estivessem fechadas, aparece e desaparece, etc.) Mas ao mesmo tempo esse corpo é autêntico e real. Em sua identidade material está a demonstração da ressurreição de Cristo.

9. O encontro no caminho do Emaús, referido no Evangelho do Lucas, é um fato que faz visível de forma particularmente evidente como amadureceu na consciência dos discípulos a certeza da ressurreição precisamente mediante o contato com Cristo ressuscitado (cf. Lc 24, 15-21). Aqueles dois discípulos do Jesus, que ao início do caminho estavam ‘tristes e abatidos’ com a lembrança de tudo o que tinha acontecido ao Mestre o dia da crucificação e não escondiam a desilusão experimentada ao ver derrubá-la esperança posta no como Messias liberador (‘Esperávamos que seria O que ia liberar ao Israel’) experimentam depois uma transformação total, quando lhes fica claro que o Desconhecido, com o que falaram, é precisamente o mesmo Cristo de antes, e se dão conta de que Ele, portanto, ressuscitou. De toda a narração se deduz que a certeza da ressurreição de Jesus fazia deles quase homens novos. Não só tinham readquirido a fé em Cristo, mas também estavam preparados para dar testemunho da verdade sobre sua ressurreição.

Todos estes elementos do texto evangélico, convergentes entre si, provam o fato da ressurreição, que constitui o fundamento da fé dos Apóstolos e do testemunho que, como veremos nas próximas catequese, está no centro da sua pregação.

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O sepulcro vazio e o encontro com Cristo Ressuscitado
S.S. João Paulo II, em 1 de fevereiro, 1989

1. A profissão de fé que fazemos no Credo quando proclamamos que Jesus Cristo ‘ao terceiro dia ressuscitou de entre os mortos’, apóia-se nos textos evangélicos que, por sua vez, transmitem-nos e fazem conhecer a primeira pregação dos Apóstolos. Destas fontes resulta que a fé na ressurreição é, desde o começo, uma convicção apoiada em um fato, em um acontecimento real, e não um mito ou uma ‘concepção’, uma idéia inventada pelos Apóstolos ou produzida pela comunidade pós-pascal reunida em torno dos Apóstolos em Jerusalém, para superar junto com eles o sentido de desilusão conseguinte à morte de Cristo na cruz. Dos textos resulta justamente o contrário e por isso, como eu disse, tal hipótese é também crítica e historicamente insustentável. Os Apóstolos e os discípulos não inventaram a ressurreição (e é fácil compreender que eram totalmente incapazes de uma ação semelhante). Não há traços de uma exaltação pessoal sua ou de grupo, que lhes tenha levado a conjeturar um acontecimento desejado e esperado e a projetá-lo na opinião e na crença comum como real, quase por contraste e como compensação da desilusão padecida. Não há traços de um processo criativo de ordem psicológica, sociológica ou literária nem sequer na comunidade primitiva ou nos autores dos primeiros séculos. Os Apóstolos foram os primeiros que acreditaram, não sem fortes resistências, que Cristo tinha ressuscitado simplesmente porque viveram a ressurreição como um acontecimento real de qual puderam convencer-se pessoalmente ao encontrar-se várias vezes com Cristo novamente vivo, ao longo de quarenta dias. As sucessivas gerações cristãs aceitaram aquele testemunho, confiando-se nos Apóstolos e em outros discípulos como testemunhas acreditáveis. A fé cristã na ressurreição de Cristo está ligada, pois, a um fato, que tem uma dimensão histórica precisa.

2. E entretanto, a ressurreição é uma verdade que, em sua dimensão mais profunda, pertence à Revelação divina: em efeito, foi anunciada gradualmente de antemão por Cristo ao longo de sua atividade messiânica durante o período pré-pascal. Muitas vezes predisse Jesus explicitamente que, depois de ter sofrido muito e ser executado, ressuscitaria. Assim, no Evangelho do Marcos, diz-se que depois da proclamação do Pedro nas proximidades da Cesaréia do Filipe, Jesus ‘começou a lhes ensinar que o Filho do homem devia sofrer muito e ser reprovado pelos anciões, os sumos sacerdotes e os escribas, ser morto e ressuscitar aos três dias. Falava disto abertamente’ (Mc 8, 31-32). Também segundo Marcos, depois da transfiguração, ‘quando desciam do monte lhes ordenou que a ninguém contassem o que tinham visto até que o Filho do homem ressuscitasse de entre os mortos’ (Mc 9. 9). Os discípulos ficaram perplexos sobre o significado daquela ‘ressurreição’ e passaram à questão, e agitada no mundo judeu, do retorno do Elias (Mc 9, 11): mas Jesus reafirmou a idéia de que o Filho do homem deveria ‘sofrer muito e ser desprezado’ (Mc 9, 12). depois da cura do epilético endemoniado, no caminho da Galiléia percorrido quase clandestinamente, Jesus toma de novo a palavra para instrui-los: ‘O Filho do homem será entregue em mãos dos homens; o matarão e aos três dias de ter morrido ressuscitará’. ‘Mas eles não entendiam o que lhes dizia e temiam lhe perguntar’ (Mc 9, 31-32). É o segundo anúncio da paixão e ressurreição, ao que segue o terceiro, quando já se encontram em caminho para Jerusalém: ‘Olhem que subimos a Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos sumos sacerdotes e os escribas; a condenarão à morte e o entregarão aos gentis, e se burlarão dele, cuspirão nele, o açoitarão e o matarão, e aos três dias ressuscitará’ (Mc 10, 33-34).

3. Estamos aqui ante uma previsão profética dos acontecimentos, em que Jesus exercita sua função de revelador, pondo em relação a morte e a ressurreição unificadas na finalidade redentora, e referindo-se ao intuito divino segundo o qual tudo o que prevê e prediz ‘deve’ acontecer. Jesus, portanto, faz conhecer os discípulos estupefatos e inclusive assustados algo do mistério teológico que subjaz nos próximos acontecimentos, como o resto de toda a sua vida. Outros brilhos deste mistério se encontram na alusão ao ‘sinal do Jonas’ (cf. Mt 12, 40) que Jesus faz dele e aplica aos dias de sua morte e ressurreição, e no desafio aos judeus sobre ‘a reconstrução em três dias do templo que será destruído’ (cf. Jo 2, 19). João anota que Jesus ‘falava do Santuário de seu corpo. Quando ressuscitou, pois, de entre os mortos, lembraram-se seus discípulos de que havia dito isso, e acreditaram na Escritura e nas palavras que havia dito Jesus’ (Jo 2 20-21). Uma vez mais nos encontramos diante da relação entre a ressurreição de Cristo e sua Palavra, diante de seus anúncios ligados ‘às Escrituras’.

4. Mas além das palavras do Jesus, também a atividade messiânica desenvolvida por Ele no período pré-pascal mostra o poder de que dispõe sobre a vida e sobre a morte, e a consciência deste poder, como a ressurreição da filha do Jairo (Mc 5, 39-42), a ressurreição do jovem de Naim (Lc 7, 12-15), e sobre tudo a ressurreição do Lázaro (Jo 11, 42-44) que se apresenta no quarto Evangelho como um anúncio e uma prefiguração da ressurreição de Jesus. Nas palavras dirigidas a Marta durante este último episódio se tem a clara manifestação da auto-consciência de Jesus respeito da sua identidade de Senhor da vida e da morte e de possuidor das chaves do mistério da ressurreição: ‘Eu sou a ressurreição. quem acredita em mim, embora morra, viverá; e tudo o que vive e acredita em mim, não morrerá jamais’ (Jo 11, 25-26).

Tudo são palavras e fatos que contêm de formas diversas a revelação da verdade sobre a ressurreição no período pré-pascal.

5. No âmbito dos acontecimentos pascais, o primeiro elemento diante do que nos encontramos é o ‘sepulcro vazio’. Sem dúvida não é por si mesmo uma prova direta. A Ausência do corpo de Cristo no sepulcro no qual tinha sido depositado poderia explicar-se de outra forma, como de fato pensou por um momento Maria Madalena quando, vendo o sepulcro vazio, supôs que alguém haveria roubado o corpo de Jesus (cf. Jo 20, 15). Mais ainda, o Sinédrio tentou fazer correr a voz de que, enquanto dormiam os soldados, o corpo tinha sido roubado pelos discípulos. ‘E se correu essa versão entre os judeus, (anota Mateus) até o dia de hoje’ (Mt 28, 12-15).

Apesar disto o ‘sepulcro vazio’ constituiu para todos, amigos e inimigos, um sinal impressionante. Para as pessoas de boa vontade seu descobrimento foi o primeiro passo para o reconhecimento do ‘feito’ da ressurreição como uma verdade que não podia ser refutada.

6. Assim foi acima de tudo para as mulheres, que muito de cedo de manhã se aproximaram do sepulcro para ungir o corpo de Cristo. Foram as primeiras em acolher o anúncio: ‘ressuscitou, não está aqui… Mas ide dizer aos seus discípulos e ao Pedro…’ (Mc 16, 6-7). ‘Lembrem como lhes falou quando estava ainda na Galiléia, dizendo: ‘É necessário que o Filho do homem seja entregue em mãos dos pecadores e seja crucificado, e ao terceiro dia ressuscite!. E elas lembraram as suas palavras’ “(Lc 24, 6-8).

Certamente as mulheres estavam surpreendidas e assustadas (cf. Mc 24, 5). Nem sequer elas estavam dispostas a render-se muito facilmente a um fato que, até predito pelo Jesus, estava efetivamente por cima de toda possibilidade de imaginação e de invenção. Mas na sua sensibilidade e fineza intuitiva elas, e especialmente Maria Madalena, aferraram-se à realidade e correram aonde estavam os Apóstolos para lhes dar a alegre noticia.

O Evangelho do Mateus (28, 8-10) informa-nos que com o passar do caminho Jesus mesmo lhes saiu ao encontro as cumprimentou e lhes renovou o mandato de levar o anúncio aos irmãos (Mt 28, 10). Desta forma as mulheres foram as primeiras mensageiras da ressurreição de Cristo, e o foram para os mesmos Apóstolos (Lc 24, 10). Fato eloquente sobre a importância da mulher já nos dias do acontecimento pascal!

7. Entre os que receberam o anúncio da Maria Madalena estavam Pedro e João (cf. Jo 20, 3-8). Eles se aproximaram do sepulcro não sem hesitações, quanto mais quanto que Maria lhes tinha falado de uma sustração do corpo de Jesus do sepulcro (cf. Jo 20, 2). Chegados ao sepulcro, também o encontraram vazio. Terminaram acreditando, depois de ter duvidado não pouco, porque, como diz João, ‘até então não tinham compreendido que segundo a Escritura Jesus devia ressuscitar de entre os mortos’ (Jo 20, 9).

Digamos a verdade: o fato era assombroso para aqueles homens que se encontravam ante coisas muito superiores a eles. A mesma dificuldade, que mostram as tradições do acontecimento, ao dar uma relação disso plenamente coerente, confirma seu caráter extraordinário e o impacto desconcertante que teve no ânimo das afortunadas testemunhas. A referência ‘à Escritura’ é a prova da escura percepção que tiveram ao encontrar-se diante de um mistério sobre o que só a Revelação podia dar luz.

8. Entretanto, eis aqui outro dado que se deve considerar bem: se o ‘sepulcro vazio’ deixava estupefatos a primeira vista e podia inclusive gerar acerta suspeita, o gradual conhecimento deste fato inicial, como o anotam os Evangelhos, terminou levando a descobrimento da verdade da ressurreição.

Em efeito, nos diz que as mulheres, e sucessivamente os Apóstolos, encontraram-se ante um ‘sinal’ particular: o sinal da vitória sobre a morte. Se o sepulcro mesmo fechado por uma pesada laje, testemunhava a morte, o sepulcro vazio e a pedra removida davam o primeiro anúncio de que ali tinha sido derrotada a morte.

Não pode deixar de impressionar a consideração do estado de ânimo das três mulheres, que dirigindo-se ao sepulcro à alvorada se diziam entre si: ‘Quem nos retirará a pedra da porta do sepulcro?’ (Mc 16, 3), e que depois, quando chegaram ao sepulcro, com grande maravilha constataram que ‘a pedra estava corrida embora era muito grande’ (Mc 16, 4). Segundo o Evangelho do Marcos encontraram no sepulcro a alguém que lhes deu o anúncio da ressurreição (cf. Mc 16, 5); mas elas tiveram medo e, apesar das afirmações do jovem vestido de branco, ‘saíram fugindo do sepulcro, pois um grande tremor e espanto se apoderou  delas’ (Mc 16, 8). Como não compreende-las? E entretanto a comparação com os textos paralelos de outros Evangelistas permite afirmar que, embora temerosas, as mulheres levaram o anúncio da ressurreição, da que o ‘sepulcro vazio’ com a pedra corrida foi o primeiro sinal.

9. Para as mulheres e para os Apóstolos o caminho aberto pelo ‘sinal’ conclui-se mediante o encontro com o Ressuscitado: então a percepção até tímida e incerta se converte em convicção e, mais ainda, em fé naquele que ‘ressuscitou verdadeiramente’. Assim aconteceu com as mulheres que ao ver o Jesus em seu caminho e escutar sua saudação, jogaram-se a seus pés e o adoraram (cf. Mt 28, 9). Assim aconteceu especialmente a Maria Madalena, que ao escutar que Jesus lhe chamava por seu nome, dirigiu-lhe antes que nada o apelativo habitual: Rabbuni, Mestre! (Jo 20, 16) e quando Ele a iluminou sobre o mistério pascal correu radiante a levar o anúncio aos discípulos: ‘!Vi o Senhor!’ (Jo 20, 18). O mesmo ocorreu aos discípulos reunidos no Cenáculo que a tarde daquele ‘primeiro dia depois do sábado’, quando viram finalmente entre eles a Jesus, sentiram-se felizes pela nova certeza que tinha entrado em seu coração: ‘alegraram-se ao ver o Senhor’ (cf. Jo 20,19-20).

O contato direto com Cristo desencadeia a faísca que faz saltar a fé!

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As aparições do Jesus ressuscitado
S.S. João Paulo II, 22 de Fev 89

1. Conhecemos a passagem da Primeira Carta aos Coríntios, onde Paulo, o primeiro cronologicamente, anota a verdade sobre a ressurreição de Cristo: ‘Porque lhes transmiti… o que a minha vez recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras: que foi sepultado e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; que se apareceu ao Cefas e em seguida aos Doze… ‘ (1Cor 15,3-5). Trata-se, como se vê, de uma verdade transmitida, recebida, e novamente transmitida. Uma verdade que pertence ao ‘depósito da Revelação’ que o mesmo Jesus, mediante seus Apóstolos e Evangelistas, deixou a sua Igreja.

2. Jesus revelou gradualmente esta verdade em seu ensino pré-pascal. Posteriormente esta, encontrou sua realização concreta nos acontecimentos da páscoa de Cristo em Jerusalém, certificados historicamente, mas cheios de mistério.

Os anúncios e os fatos tiveram sua confirmação sobre tudo nos encontros de Cristo ressuscitado, que os Evangelhos e Paulo relatam. É necessário dizer que o texto paulino apresenta estes encontros (nos que se revela Cristo ressuscitado) de maneira global e sintética (acrescentando ao final o próprio encontro com o Ressuscitado às portas de Damasco: cf. At 9,3-6). Nos Evangelhos se encontram, a respeito, notas mas bem fragmentárias.

Não é difícil tomar e comparar algumas linhas características de cada uma destas aparições e de seu conjunto para nos aproximar ainda mais ao descobrimento do significado desta verdade revelada.

3. Podemos observar acima de tudo que, depois da ressurreição, Jesus se apresenta às mulheres e aos discípulos com seu corpo transformado, feito espiritual e partícipe da glória da alma: mas sem nenhuma característica triunfalista. Jesus se manifesta com uma grande simplicidade. Fala de amigo a amigo, com os que se encontra nas circunstâncias ordinárias da vida terrena. Não quis enfrentar-se a seus adversários, assumindo a atitude de vencedor, nem se preocupou por lhes mostrar seu ‘superioridade’, e ainda menos quis fulminá-los. Nem sequer consta que se apresentou a algum deles. Tudo o que nos diz o Evangelho nos leva a excluir que se apareceu, por exemplo, ao Pilato, que o tinha entregue aos sumos sacerdotes para que fosse crucificado (cf. Jo 19, 16), ou a Caifás, que se tinha rasgado as vestimentas pela afirmação de sua divindade (cf. Mt 26, 63-66).

Aos privilegiados de suas aparições, Jesus se deixa conhecer em sua identidade física: aquele rosto, aquelas mãos, aqueles traços que conheciam muito bem, aquele flanco que tinham transpassado; aquela voz, que tinham escutado tantas vezes. Só no encontro com o Paulo nas cercanias de Damasco, a luz que rodeia ao Ressuscitado quase deixa cego ao ardente perseguidor dos cristãos e o joga pelo chão (cf. At 9, 3-8); mas é uma manifestação do poder daquele que, já subido ao céu, impressiona a um homem ao que quer fazer um ‘instrumento de eleição’ (At 9, 15), um missionário do Evangelho.

4. É de destacar também um fato significativo: Jesus Cristo se aparece em primeiro lugar às mulheres, seus fiéis seguidoras, e não aos discípulos, e nem sequer aos mesmos Apóstolos, apesar de que os tinha eleito como portadores de seu Evangelho ao mundo. É às mulheres a quem pela primeira vez confia o mistério de sua ressurreição, as fazendo as primeiras testemunhas desta verdade. Possivelmente queira premiar sua delicadeza, sua sensibilidade a sua mensagem, sua fortaleza, que as tinha impulsionado até o Calvário. Possivelmente quer manifestar um delicado rasgo de sua humanidade, que consiste na amabilidade e na gentileza com que se aproxima e beneficia às pessoas que menos contam no grande mundo de seu tempo. É o que parece que se pode concluir de um texto do Mateus: ‘Nisto, Jesus lhes saiu ao encontro (às mulheres que corriam para comunicar a mensagem aos discípulos) e lhes disse: !Deus lhes guarde!!. E elas, aproximando-se, agarraram-se de seus pés e lhe adoraram. Então lhes diz Jesus: !Não temam. Vão e avisem a meus irmãos que vão a Galiléia; lá me verão!’ (28, 9-10).

Também o episódio da aparição a Maria da Magdala (Jo 20, 11-18) é de extraordinária finura já seja por parte da mulher, que manifesta toda sua apaixonada e comedida entrega ao seguimento do Jesus, já seja por parte do Mestre, que a trata com deliciosa delicadeza e benevolência.

Nesta prioridade das mulheres nos acontecimentos pascais terão que inspirá-la Igreja, que ao longo dos séculos pôde contar enormemente com elas para sua vida de fé, de oração e de apostolado.

5. Algumas características destes encontros pós-pascais os fazem, em certo modo, paradigmáticos devido às situações espirituais, que tão freqüentemente se criam na relação do homem com Cristo, quando alguém se sente chamado ou ‘visitado’ por Ele.

Acima de tudo há uma dificuldade inicial em reconhecer a Cristo por parte daqueles aos que Ele sai ao encontro, como se pode apreciar no caso da mesma Madalena (Jo 20, 14-16) e dos discípulos do Emaús (Lc 24, 16). Não falta um certo sentimento de temor ante Ele. Ama-se Lhe, busca-se Lhe, mas, no momento em que se Lhe encontra, experimenta-se alguma vacilação…

Mas Jesus lhes leva gradualmente ao reconhecimento e à fé, tanto a Maria Madalena (Jo 20,16), como aos discípulos do Emaús (Lc 24, 26 ss.), e, analogamente, a outros discípulos (cf. Lc 24, 25)48). Sinal da pedagogia paciente de Cristo ao revelar-se ao homem, ao atrai-lo, ao convertê-lo, ao levá-lo a conhecimento das riquezas de seu coração e à salvação.

6. É interessante analisar o processo psicológico que os diversos encontros deixam entrever: os discípulos experimentam uma certa dificuldade em reconhecer não só a verdade da ressurreição, mas  também a identidade daquele que está ante eles, e aparece como o mesmo mas ao mesmo tempo como outro: um Cristo ‘transformado’. Não é nada fácil para eles fazer a imediata identificação. Intuem, sim, que é Jesus, mas ao mesmo tempo sentem que Ele já não se encontra na condição anterior, e diante d’Ele estão cheios de reverência e temor.

Quando, logo, dão-se conta, com sua ajuda, de que não se trata de outro, mas sim do mesmo transformado, aparece repentinamente neles uma nova capacidade de descobrimento, de inteligência, de caridade e de fé. É como um despertar de fé: ‘Não estava ardendo nosso coração dentro de quando nos falava no caminho e nos explicava as Escrituras?’ (Lc 24, 32). ‘Meu senhor e meu Deus’ (Jo 20, 28). ‘Vi ao Senhor’ (Jo 20, 18). Então uma luz absolutamente nova ilumina em seus olhos incluso o acontecimento da cruz; e dá o verdadeiro e pleno sentido do mistério da dor e da morte, que se conclui na glória da nova vida! Este será um dos elementos principais da mensagem de salvação que os Apóstolos levaram desde o começo ao povo hebreu e, aos poucos, a todas as pessoas.

7. Terá que sublinhar uma última característica das aparições de Cristo ressuscitado: nelas, especialmente nas últimas, Jesus realiza a definitiva entrega aos Apóstolos (e à Igreja) da missão de evangelizar o mundo para lhe levar a mensagem de sua Palavra e o dom de sua graça.

Recorde-se a aparição aos discípulos no Cenáculo na tarde de Páscoa: ‘Como o Pai me enviou, também eu vos envio…’ (Jo 20, 21); e lhes dá o poder de perdoar os pecados!

E na aparição no mar do Tiberíades, seguida da pesca milagrosa, que simboliza e anuncia a fecundidade da missão, é evidente que Jesus quer orientar seus espíritos para a obra que os espera (cf. Jo 21,1-23). Confirma-o a definitiva atribuição da missão particular ao Pedro (Jo 21, 15)18): ‘Amas-me?… Tu sabe que te quero… Apascenta meus cordeiros…Apascenta minhas ovelhas…’.

João indica que ‘esta foi já a terceira vez que Jesus se manifestou aos discípulos depois de ressuscitar de entre os mortos’ (Jo 21,14). Esta vez, eles, não só se deram conta de sua identidade: ‘É o Senhor’ (Jo 21, 7), mas sim tinham compreendido que, tudo que tinha acontecido e acontecia naqueles dias pascais, comprometia a cada um deles (e de modo muito particular ao Pedro) na construção da nova era da história, que tinha tido seu princípio naquela manhã de páscoa.

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A ressurreição cume da Revelação
S.S. João Paulo II, 8 de março, 1989

1. Na Carta de São Paulo aos Corintios, recordada já várias vezes ao longo destas catequese sobre a ressurreição de Cristo, lemos estas palavras do Apóstolo: ‘Se não ressuscitou Cristo, vazia é nossa pregação, vazia é também sua fé’ (1Cor 15, 14). Evidentemente, São Paulo vê na ressurreição o fundamento da fé cristã e quase a chave de abóbada de todo o edifício de doutrina e de vida levantado sobre a revelação, assim que confirmação definitiva de todo o conjunto da verdade que Cristo trouxe. Por isso, toda a pregação da Igreja, dos tempos apostólicos, através dos séculos e de todas as gerações, até hoje, refere-se à ressurreição e saca dela a força impulsora e persuasiva, assim como seu vigor. É fácil compreender o porquê.

2. A ressurreição constituía em primeiro lugar a confirmação de tudo o que Cristo mesmo tinha feito e ensinado’. Era o selo divino posto sobre suas palavras e sobre a sua vida.Ele mesmo tinha indicado aos discípulos e adversários este sinal definitivo de sua verdade. O anjo do sepulcro o recordou às mulheres a manhã do ‘primeiro dia depois do sábado’: ‘ressuscitou, como o havia dito’ (Mt 28, 6). Se esta palavra e promessa sua se revelou como verdade também todas suas demais palavras e promessas possuem a potência da verdade que não passa, como O mesmo tinha proclamado: ‘O céu e a terra passarão, mas minhas palavras não passará’ (Mt 24, 35; Mc 13, 31; Lc 21, 33). Ninguém teria podido imaginar nem pretender uma prova mais autorizada, mais forte, mais decisiva que a ressurreição de entre os mortos. Todas as verdades, também as mais inacessíveis para a mente humana, encontram, entretanto, sua justificação, inclusive no âmbito da razão, se Cristo ressuscitado deu a prova definitiva, prometida por Ele, de sua autoridade divina.

3. Assim, a ressurreição confirma a verdade de sua mesma divindade. Jesus havia dito: ‘Quando tiverem levantado (sobre a cruz) ao Filho do homem, então saberão que Eu sou’ (Jo 8, 28). Os que escutaram estas palavras queriam lapidar ao Jesus, posto que ‘EU SOU’ era para os hebreus o equivalente do nome inefável de Deus. De fato, ao pedir ao Pilato sua condenação a morte apresentaram como acusação principal a de haver-se ‘feito Filho de Deus’ (Jo 19, 7). Por esta mesma razão o tinham condenado no Sinédrio como réu de blasfêmia depois de ter declarado que era o Cristo, o Filho de Deus, depois do interrogatório do sumo sacerdote (Mt 26, 63-65; Mc 14, 62; Lc 22, 70): quer dizer, não só o Messias terreno como era concebido e esperado pela tradição judia, mas sim o Messias Senhor anunciado pelo Salmo 109/110 (cf. Mt 22, 41 ss.), o personagem misterioso vislumbrado pelo Daniel (7, 13-14). Esta era a grande blasfêmia, a imputação para a condenação a morte: o haver-se proclamado Filho de Deus! E agora sua ressurreição confirmava a veracidade de sua identidade divina e legitimava a atribuição feita a Se mesmo, antes da Páscoa, do ‘nome’ de Deus: ‘Na verdade, na verdade lhes digo: antes de que Abraão existisse, Eu sou’ (Jo 8, 58). Para essa judeus era uma pretensão que merecia a lapidação (cf. Lv 24, 16), e, em efeito, ‘tomaram pedras para atirar-lhe mas Jesus se ocultou e saiu do templo’ (Jo 8, 59). Mas se então não puderam lapidá-lo, posteriormente obtiveram ‘levantá-lo’ sobre a cruz: a ressurreição do Crucificado demonstrava, entretanto, que O era verdadeiramente Eu sou, o Filho de Deus.

4. Em realidade, Jesus até chamando-se a Si mesmo Filho do homem, não só tinha confirmado ser o verdadeiro Filho de Deus, mas também no Cenáculo, antes da paixão, tinha pedido ao Pai que revelasse que o Cristo Filho do homem era seu Filho eterno: ‘Pai, chegou a hora; glorifica a seu Filho para que o Filho te glorifique’ (Jo 17, 1). ‘… Me glorifique você, junto a ti, com a glória que tinha a seu lado antes que o mundo fosse’ (Jo 17, 5). E o mistério pascal foi a escuta desta petição, a confirmação da filiação divina de Cristo, e mais ainda, sua glorificação com essa glória que ‘tinha junto ao Pai antes de que o mundo existisse’: a glória do Filho de Deus.

5. No período pré-pascal Jesus, segundo o Evangelho do João, aludiu várias vezes a esta glória futura, que se manifestaria na sua morte e ressurreição. Os discípulos compreenderam o significado dessas palavras suas só quando aconteceu o fato.

Assim, lemos que durante a primeira páscoa passada em Jerusalém, depois de ter arrojado do templo aos mercados e cambistas, Jesus respondeu aos judeus que lhe pediam um ‘sinal’ do poder pelo que obrava dessa forma: ‘Destruam este Santuário e em três dias o levantarei… O falava do Santuário de seu corpo. Quando ressuscitou, pois, de entre os mortos, lembraram-se seus discípulos de que havia dito isso, e acreditaram na Escritura e nas palavras que havia dito Jesus’ (Jo 2,19-22).

Também a resposta dada pelo Jesus aos mensageiros das irmãs do Lázaro, que lhe pediam que fora a visitar o irmão doente, fazia referência aos acontecimentos pascais: ‘Esta enfermidade não é de morte, é para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela’ (Jo 11 , 4).

Não era só a glória que podia lhe reportar o milagre, tão menos quanto que provocaria sua morte (cf. Jo 11, 46)54); mas sim sua verdadeira glorificação viria precisamente de sua elevação sobre a cruz (cf. Jo 12,32). Os discípulos compreenderam bem tudo isto depois da ressurreição.

6. Particularmente interessante é a doutrina de São Paulo sobre o valor da ressurreição como elemento determinante de sua concepção cristológica, vinculada também a sua experiência pessoal do Ressuscitado. Assim, ao começo da Carta aos Romanos se apresenta: ‘Paulo, servo de Cristo Jesus, apóstolo por vocação, escolhido para o Evangelho de Deus, que havia já prometido por meio de seus profetas nas Escrituras Sagradas, a respeito de seu Filho, nascido da linhagem do David segundo a carne, constituído Filho de Deus poderoso, segundo o Espírito de santidade, por sua ressurreição de entre os mortos; Jesus Cristo, Nosso senhor’ (Rm 1, 1-4).

Isto significa que desde o primeiro momento de sua concepção humana e de seu nascimento (da estirpe do David), Jesus era o Filho eterno de Deus, que se fez Filho do homem. Mas, na ressurreição, essa filiação divina se manifestou em toda sua plenitude com o poder de Deus que, por obra do Espírito Santo, devolveu a vida a Jesus (cf. Rm 8, 11) e o constituiu no estado glorioso de ‘Kyrios’ (cf. Fl 2, 9-11; Rm 14, 9; At 2, 36), de modo que Jesus merece por um novo titulo messiânico o reconhecimento, o culto, a glória do nome eterno de Filho de Deus (cf. At 13, 33; Hb 1,1-5; 5, 5).

7. Paulo tinha exposto esta mesma doutrina na sinagoga da Antioquia da Pisídia, em sábado, quando, convidado pelos responsáveis pela mesma, tomou a palavra para anunciar que no cume da economia da salvação realizada na história do Israel entre luzes e sombras, Deus tinha ressuscitado de entre os mortos a Jesus, o qual se apareceu durante muitos dias aos que tinham subido com Ele desde a Galiléia a Jerusalém, os quais eram agora suas testemunhas diante do povo. ‘Também nós (concluía o Apóstolo) anunciamo-lhes a Boa Nova de que a Promessa feita aos pais Deus a cumpriu em nós, os filhos, ao ressuscitar a Jesus, como está escrito nos salmos: meu filho és Tu; eu te gerei hoje’ (At 13, 32-33; cf. Sl 2, 7).

Para o Paulo há uma espécie de osmose conceitual entre a glória da ressurreição de Cristo e a eterna filiação divina de Cristo, que se revela plenamente nesta conclusão vitoriosa de sua missão messiânica.

8. Nesta glória do ‘Kyrios’ se manifesta esse poder do Ressuscitado (Homem-Deus), que Paulo conheceu por experiência no momento de sua conversão no caminho de Damasco ao sentir-se chamado a ser Apóstolo (embora não um dos Doze), por ser testemunha ocular do Cristo vivo, e recebeu do a força para confrontar todos os trabalhos e suportar todos os sofrimentos de sua missão. O espírito do Paulo ficou tão marcado por essa experiência, que em sua doutrina e em seu testemunho antepor a idéia do poder do Ressuscitado a de participação nos sofrimentos de Cristo, que também lhe era grata: O que se realizou em sua experiência pessoal também o propunha aos fiéis como uma regra de pensamento e uma norma de vida: ‘Julgo que tudo é perda ante a sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor… para ganhar em Cristo e ser achado nele… e lhe conhecer o poder de sua ressurreição e a comunhão em seus padecimentos até me fazer semelhante a ele em sua morte, tratando de chegar à ressurreição de entre os mortos’ (Fl 3, 8-11). E então seu pensamento se dirige à experiência do caminho de Damasco: ‘… Tendo sido eu mesmo alcançado por Cristo Jesus’ (Fl 3, 12).

9. Assim, os textos referidos deixam claro que a ressurreição de Cristo está estreitamente unida com o mistério da encarnação do Filho de Deus: é seu cumprimento, segundo o eterno desígnio de Deus. Mais ainda, é a coroação suprema de tudo o que Jesus manifestou e realizou em toda sua vida, do nascimento à paixão e morte, com suas obras, prodígios, magistério, exemplo de uma vida perfeita, e sobre tudo com sua transfiguração. Ele nunca revelou de modo direto a glória que tinha recebido do Pai ‘antes que o mundo fosse’ (Jo 17, 5), mas sim ocultava esta glorifica com sua humanidade, até que se despojou definitivamente (cf. Fl 2, 7-8) com a morte em cruz.

Na ressurreição se revelou o fato de que ’em Cristo reside toda a plenitude da Divindade corporalmente’ (Couve 2, 9; cf. 1, 19). Assim, a ressurreição ‘completa’ a manifestação do conteúdo da Encarnação. Por isso podemos dizer que é também a plenitude da Revelação. portanto, como havemos dito, ela está no centro da fé cristã e da pregação da Igreja

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O valor salvífico da ressurreição
S.S. João Paulo II. 15 de março de 1989

1. Se, como vimos em anteriores catequeses, a fé cristã e a pregação da Igreja têm seu fundamento na ressurreição de Cristo, por ser esta a confirmação definitiva e a plenitude da revelação, também terá que acrescentar que é fonte do poder salvífico do Evangelho e da Igreja assim que integração do mistério pascal. Em efeito, segundo São Paulo, Jesus Cristo se revelou como ‘Filho de Deus podendo, segundo o espírito de santidade, por sua ressurreição de entre os mortos’ (Rm 1, 4). E Ele transmite aos homens esta santidade porque ‘foi entregue por nossos pecados e foi ressuscitado para nossa justificação’ (Rm 4, 25). Há como um duplo aspecto no mistério pascal: a morte para liberar do pecado e a ressurreição para abrir o acesso à vida nova.

Certamente o mistério pascal, como toda a vida e a obra de Cristo, tem uma profunda unidade interna em sua função redentora e em sua eficácia, mas isso não impede que possam distinguir-se seus distintos aspectos com relação aos efeitos que derivam dele no homem. Desde aí a atribuição à ressurreição do efeito específico da ‘vida nova’, como afirma São Paulo.

2. Respeito a esta doutrina terá que fazer algumas indicações que, em contínua referência os textos do Novo Testamento, permitam-nos pôr de relevo toda sua verdade e beleza.

Acima de tudo, podemos dizer certamente que Cristo ressuscitado é princípio e fonte de uma vida nova para todos os homens. E isto aparece também na maravilhosa prece do Jesus, a véspera de sua paixão, que João nos refere com estas palavra: ‘Pai… glorifica a seu Filho para que seu Filho glorifique a ti. E que segundo o poder que lhe deste sobre toda carne, dê também vida eterna a todos os que você lhe deste’ (Jo 17, 1-2). Em sua prece Jesus olha e abraça sobre tudo a seus discípulos a quem advertiu da próxima e dolorosa separação que iria se verificar mediante a sua paixão e morte, mas aos quais prometeu do mesmo modo: ‘Eu vivo e também vós vivereis (Jo 14, 19). Quer dizer: terão parte em minha vida, a qual se revelará depois da ressurreição. Mas o olhar de Jesus se estende a um rádio de amplitude universal. Diz-lhes: ‘Não rogo por estes (meus discípulos), mas também por aqueles, que por meio de sua palavra, acreditarão em mim… (Jo 17, 20): todos devem formar uma só coisa ao participar da glória de Deus em Cristo.

A nova vida que se concede aos crentes em virtude da ressurreição de Cristo, consiste na vitória sobre a morte do pecado e na nova participação na graça. Afirma-o São Paulo de forma lapidária: ‘Deus, rico em misericórdia…, estando mortos por causa de nossos delitos nos vivificou junto com Cristo’ (Ef 2, 4-5). E de forma análoga São Pedro: ‘O Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo…, por sua grande misericórdia, mediante a ressurreição do Jesus Cristo de entre os mortos nos há gerado novamente para uma esperança viva’ (1 P 1, 3).

Esta verdade se reflete no ensino paulina sobre o batismo: ‘Fomos, pois, com Ele (Cristo) sepultados pelo batismo na morte, a fim de que, ao igual a Cristo foi ressuscitado de entre os mortos por meio da glória do Pai, assim também nós vivamos uma vida nova’ (Rom 6, 4).

3. Esta vida nova (a vida segundo o Espírito) manifesta a filiação adotiva: outro conceito paulino de fundamental importância. A este respeito, é ‘clássico’ a passagem da Carta aos Gálatas: ‘Enviou Deus a seu Filho… para resgatar aos que se achavam sob a lei e para que recebêssemos a filiação adotiva’ (Gl 4, 4-5). Esta adoção divina por obra do Espírito Santo, faz ao homem semelhante ao Filho unigênito: ‘…Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus’ ‘m 8, 14). Na Carta aos Gálatas São Paulo apela à experiência que têm os crentes da nova condição em que se encontram: ‘A prova de que são filhos de Deus é que Deus enviou a nossos corações o Espírito de seu Filho que clama: Abbá, Pai! De modo que já não é escravo senão filho; e se filho, também herdeiro por vontade de Deus’ (Gl 4, 6)7). Há, pois, no homem novo um primeiro efeito da redenção: a liberação da escravidão; mas a aquisição da liberdade chega ao converter-se em filho adotivo, e isso nem tanto pelo acesso legal à herança, a não ser com o dom real da vida divina que infundem no homem as três Pessoas da Trindade (cf. Gal 4, 6; 2Cor 13, 13). A fonte desta vida nova do homem em Deus é a ressurreição de Cristo.

A participação na vida nova faz também que os homens sejam ‘irmãos’ de Cristo, como o mesmo Jesus chama a seus discípulos depois da ressurreição: ‘ides anunciar a meus irmãos…’ (Mt 28, 10; Jo 20, 17). Irmãos não por natureza mas sim por dom de graça, pois essa filiação adotiva dá uma verdadeira e real participação na vida do Filho unigênito, tal como se revelou plenamente em sua ressurreição.

4. A ressurreição de Cristo (e, mais ainda, o Cristo ressuscitado) é finalmente principio e fonte de nossa futura ressurreição. O mesmo Jesus falou disso ao anunciar a instituição da Eucaristia como sacramento da vida eterna, da ressurreição futura: ‘que come minha carne e bebe meu sangue tem vida eterna, e eu o ressuscitarei o último dia’ (Jo 6, 54). E ao ‘murmurar’ os que o ouviam, Jesus lhes respondeu: ‘Isto lhes escandaliza? E quando vejam o Filho do homem subir aonde estava antes…?’ (Jo 6, 61-62).Desse modo indicava indiretamente que sob as espécies sacramentais da Eucaristia se dá os que a recebem participação no Corpo e Sangue de Cristo glorificado.

Também São Paulo põe de relevo a vinculação entre a ressurreição de Cristo e a nossa, sobre tudo em sua Primeira Carta aos Corintios; pois escreve: ‘Cristo ressuscitou de entre os mortos como primícia dos que morreram… Pois do mesmo modo que no Adão morrem todos, assim também todos reviverão em Cristo’ (1Cor 15, 20-22). ‘Em efeito, é necessário que este ser corruptível se revista de incorruptibilidade e que este ser mortal se revista de imortalidade. E quando este ser corruptível se revista de incorruptibilidade e este ser mortal se revista de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: !A morte foi devorada na vitória!’ (1Cor 15, 53-54). ‘Graças sejam dadas a Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo’ (1Cor 15, 57).

A vitória definitiva sobre a morte, que Cristo já obteve, Ele a participa à humanidade na medida em que esta recebe os frutos da redenção. É um processo de admissão à ‘vida nova’, à ‘vida eterna’, que dura até o final dos tempos. Graças a esse processo se vai formando ao longo dos séculos uma nova humanidade: o povo dos crentes reunidos na Igreja, verdadeira comunidade da ressurreição. À hora final da história, todos ressurgirão, e os que tenham sido de Cristo, terão a plenitude da vida na glória, na definitiva realização da comunidade dos redimidos por Cristo ‘para que Deus seja tudo em todos’ (1Cor 15, 28).

5. O Apóstolo ensina também que o processo redentor, que culmina com a ressurreição dos mortos, acontece em uma esfera de espiritualidade inefável, que supera tudo o que se pode conceber e realizar humanamente. Em efeito, se por uma parte escreve que ‘a carne e o sangue não podem herdar o reino dos céus; nem a corrupção herda a incorrupção’ (1Cor 15, 50) o qual é a constatação de nossa incapacidade natural para a nova vida), por outra, na Carta aos Romanos assegura aos que acreditam o seguinte: ‘Se o Espírito daquele que ressuscitou ao Jesus de entre os mortos habita em nós, Aquele que ressuscitou a Cristo de entre os mortos dará também a vida a seus corpos mortais por seu Espírito que habita em vós’ (Rom 8, 11). É um processo misterioso de espiritualização, que alcançará também aos corpos no momento da ressurreição pelo poder desse mesmo Espírito Santo que obrou a ressurreição de Cristo.

Trata-se, sem dúvida, de realidades que escapam a nossa capacidade de compreensão e de demonstração racional, e por isso são objeto de nossa fé fundada na Palavra de Deus, a qual, mediante São Paulo, faz-nos penetrar no mistério que supera todos os limites do espaço e do tempo: ‘Foi feito o primeiro homem, Adão, alma vivente; o último Adão, espírito que dá vida'(1 Cor 15, 45). ‘E do mesmo modo que levamos a imagem do homem terreno, levaremos também a imagem do celeste’ (1 Cor 15, 49).

6. Em espera dessa transcendente plenitude final, Cristo ressuscitado vive nos corações de seus discípulos e seguidores como fonte de santificação no Espírito Santo, fonte da vida divina e da filiação divina, fonte da futura ressurreição.

Essa certeza lhe faz dizer a São Paulo na Carta aos Gálatas: ‘Com Cristo estou crucificado; e não vivo eu, mas sim é Cristo quem vive em mim. A vida que vivo ao presente na carne, a vivo na fé do Filho de Deus que me amou e se entregou a si mesmo por mim’ (Gal 2, 20). Como o Apóstolo, também cada cristão, embora viva ainda na carne (cf. Rm 7, 5), vive uma vida já espiritualizada com a fé (cf. 2Cor 10, 3), porque o Cristo vivo, o Cristo ressuscitado se converteu no sujeito de todas suas ações: Cristo vive em mim (cf. Rm 8, 2. 10)11;. Flp 1, 21; Couve 3, 3). E é a vida no Espírito Santo.

Esta certeza sustenta ao Apóstolo, como pode e deve sustentar a cada cristão nos trabalhos e os sofrimentos desta vida, tal como aconselhava Paulo ao discípulo Timóteo no fragmento de sua Carta com o que queremos fechar )para nosso conhecimento e consolo) nossa catequese sobre a ressurreição de Cristo: “Lembra-te de Jesus Cristo, ressuscitado de entre os mortos, descendente do David, segundo meu Evangelho… Por isso tudo suporto pelos eleitos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus com a glória eterna. É certa esta afirmação: se temos morrido com Ele, também viveremos com Ele; se nos mantemos firmes, também reinaremos com Ele; se lhe negarmos, também Ele nos negará; se formos fiéis, Ele permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo…’ (2Tm 2, 8-13).

‘Lembra-te de Jesus Cristo, ressuscitado de entre os mortos’: esta afirmação do Apóstolo nos dá a chave da esperança na verdadeira vida no tempo e na eternidade.

O consumismo nas festas cristãs

http://destrave.cancaonova.com/o-consumismo-nas-festas-cristas/
Daniel Machado, produtor do Destrave

Segundo Bento XVI, o Natal – assim como a Páscoa – tornou-se uma “festa de negócios”.

O que é a Páscoa?
Resposta: é a celebração da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo.
Essa seria uma resposta simples, e todos os que se dizem cristãos deveriam tê-la na ponta da língua, quisera no coração. No entanto, faça essa pergunta a uma criança e a resposta estará relacionada a coelhinho da Páscoa, ovos de chocolate e presentes. Não diferente do Natal, a celebração pascal, assim como as festas juninas e outras datas importantes do Cristianismo, está se tornando sinônimo de consumismo.
O próprio Papa Bento XVI, na Missa do Galo de 2011, disse que “o Natal tornou-se uma festa de negócios, cujo fulgor ofuscante esconde o mistério da humildade de Deus”.
Será que podemos incluir a Páscoa nessa mesma mentalidade de “negócio”, da qual recordou o Santo Padre?
Sem recorrer a fantasias de “teoria da conspiração”, não podemos negar que existe uma ideologia anticristã bem articulada com o intuito de transformar a sociedade em um organismo indiferente à religião.
Há tempos que as conferências episcopais de vários países, além da própria Santa Sé, têm nos chamado à atenção para uma perversa tentativa de excluir as expressões religiosas – como festas e feriados -, da esfera pública, assim como a negação dos direitos iguais e a “marginalização social dos cristãos” (Comissão das Conferências Episcopais da Europa).
No início de 2012, por exemplo, a Comissão Europeia disponibilizou mais de três milhões de cópias de uma agenda com as cores da União Europeia. A agenda continha feriados judeus, hindus, islâmicos, sikhs, mas não havia os feriados cristãos, nem sequer o dia 25 de dezembro, quando a Igreja comemora o Natal, nascimento de Jesus Cristo. Depois de uma petição feita por  mais de 37 mil europeus, em 7 línguas, os feriados voltaram à agenda. Em Portugal, cogita-se que a festa de Corpus Christi e Assunção de Maria (15 de agosto) não serão mais feriados em 2013.
Se, na Europa, estão querendo banir as festas religiosas dos calendários, a estratégia no Brasil é desvirtuá-las. A transformação das festas cristãs em ‘festas de comércio’ também é uma forma de ridicularização e zombaria da religião, consequência de um mundo cada vez mais secularizado e anticristão.
Nesta Semana Santa, você vai ouvir muito a mídia falar sobre o famoso “feriadão”, seguido de um forte apelo ao consumo que esvazia o verdadeiro sentido da Páscoa. “O Papa João Paulo II, na carta apostólica Dies Domini, alerta-nos sobre essa realidade perversa que transforma o tempo de encontro com Deus num tempo de consumo”, diz padre Joãozinho (SCJ).
“Existem duas festas cristãs que são ‘colunas’ do ano litúrgico: a Páscoa e o Natal. Mas, junto delas, associou-se duas datas importantes para o comércio”, explica o sacerdote. De acordo com o padre, agora é a vez do ovo de Páscoa, coisa desnecessária para a alimentação. “É bem possível que, passando a festa pascal, nós encontremos, à venda, os enfeites para a preparação do Natal”, alerta padre Joãozinho.
A pergunta é: como vamos fugir dessa tendência perversa de transformar as festas cristãs em festas de consumo?
Em primeiro lugar, é preciso uma urgente e sólida reeducação dos valores religiosos em nossas crianças e jovens. Em segundo, um forte testemunho de vivência das nossas festas religiosas em nossas paróquias e comunidades. Somado a isso, é preciso renunciar ao consumismo e resistir aos apelos midiáticos tão intensos nas festas católicas.
Com todo respeito ao “coelhinho” e ao “bom velhinho”, é preciso retirá-los de cena para que o Cordeiro Imolado assuma o seu lugar.

O Tríduo Pascal

À espera da Páscoa

Quarta-feira, 1 de abril de 2015, Jéssica Marçal / Da Redação

Santo Padre explicou aos fiéis o sentido do Tríduo Pascal, enfatizando a esperança da Páscoa: “nossa vida não termina diante da pedra de um sepulcro”

Na catequese desta quarta-feira, 1º, o Papa Francisco falou sobre o Tríduo Pascal, ápice do ano litúrgico e da vida cristã. A reflexão se insere no contexto da Semana Santa, que os católicos vivenciam deste o último domingo, 29, Domingo de Ramos.
O Tríduo começa na Quinta-Feira Santa, com a celebração da Última Ceia, quando Jesus, na véspera de sua paixão, instituiu a Eucaristia. Nesta mesma celebração, realiza-se o gesto de lava pés, um gesto que, conforme explicou o Papa, exprime o sentido da vida e da paixão de Cristo, ou seja, o serviço a Deus e aos irmãos.
Já na sexta-feira é dia de meditar sobre o mistério da morte de Cristo, com a adoração da Cruz. Francisco explicou que todas as Escrituras encontram seu cumprimento no amor de Jesus que, com o seu sacrifício, transformou a maior injustiça no maior amor. E ao longo dos séculos, muitos homens e mulheres deram seu testemunho de vida e refletiram um raio desse amor perfeito de Cristo.
“Adorando a Cruz, olhando Jesus, pensemos no amor, no serviço, na nossa vida, nos mártires cristãos e também nos fará bem pensar no final da nossa vida. Ninguém de nós sabe quando isso vai acontecer, mas podemos pedir a graça de poder dizer: Pai, fiz o que pude. Está consumado”.
Do Sábado Santo, Francisco destacou o silêncio, pois a Igreja contempla o “repouso” de Cristo no túmulo após o vitorioso combate da cruz. É um dia de grande identificação com Maria, que permanece sozinha com a chama da fé acesa, esperando a Ressurreição de Jesus, comemorada no Domingo de Páscoa.
“A pedra da dor é abatida, deixando espaço à esperança. Eis o grande mistério da Páscoa! (…) A nossa vida não termina diante da pedra de um sepulcro, a nossa vida vai além com a esperança em Cristo que ressuscitou justamente daquele sepulcro. Como cristãos, somos chamados a ser sentinelas da manhã”.
Francisco concluiu a catequese com um convite aos fiéis: “Nesses dias do Tríduo Sagrado, não nos limitemos a celebrar a paixão do Senhor, mas entremos no mistério, façamos nossos os seus sentimentos, as suas atitudes. Assim, a nossa será uma ‘feliz Páscoa’”.

CATEQUESE
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Amanhã é Quinta-Feira Santa. À tarde, com a Santa Missa “na Ceia do Senhor”, terá início o Tríduo Pascal da paixão, morte e ressurreição de Cristo, que é o ápice de todo o ano litúrgico e também o ápice da nossa vida cristã.
O Tríduo se abre com a celebração da Última Ceia. Jesus, na véspera de sua paixão, oferece ao Pai o seu corpo e o seu sangue sob as espécies de pão e de vinho e, doando-os em alimento para os apóstolos, ordenou-lhes perpetuar a oferta em sua memória. O Evangelho desta celebração, recordando o lava pés, exprime o mesmo significado da Eucaristia sob outra perspectiva. Jesus – como um servo – lava os pés de Simão Pedro e dos outros onze discípulos (cfr. Jo 13, 4-5). Com esse gesto profético, Ele exprime o sentido da sua vida e da sua paixão, aquele do serviço a Deus e aos irmãos: “O Filho do homem, de fato, não veio para ser servido, mas para servir” (Mc 10, 45).
Isso aconteceu também no nosso Batismo, quando a graça de Deus nos lavou do pecado e fomos revestidos de Cristo (cfr. Col 3, 10). Isso acontece cada vez que fazemos o memorial do Senhor na Eucaristia: fazemos comunhão com Cristo Servo para obedecer ao seu mandamento, aquele de nos amarmos como Ele nos amou (cfr. Jo 13, 34; 15, 12). Se nos aproximamos da santa Comunhão sem estarmos sinceramente dispostos a lavarmos os pés uns dos outros, não reconhecemos o Corpo do Senhor. É o serviço de Jesus que doa a si mesmo, totalmente.
Depois, depois de amanhã, na liturgia da Sexta-Feira Santa, meditamos o mistério da morte de Cristo e adoramos a Cruz. Nos últimos instantes de vida, antes de entregar o espírito ao Pai, Jesus disse: “Está consumado!” (Jo 19, 30). O que significa esta palavra? Que Jesus diga: “Está consumado”? Significa que a obra da salvação está cumprida, que todas as Escrituras encontram seu cumprimento no amor de Cristo, Cordeiro imolado. Jesus, com seu Sacrifício, transformou a maior injustiça no maior amor.
Ao longo dos séculos há homens e mulheres que, com o testemunho da sua existência, refletem o raio deste amor perfeito, pleno, não contaminado. Gosto de recordar um heroico testemunho dos nossos dias, Don Andrea Santoro, sacerdote da diocese de Roma e missionário na Turquia. Algum dia antes de ser assassinado em Tresbisonda, escreveu: “Estou aqui para morar no meio desse povo e permitir a Jesus fazê-lo emprestando-lhe a minha carne… Uma pessoa se torna capaz de salvação somente oferecendo a própria carne. O mal do mundo seja suportado e a dor seja partilhada, absorvendo-a na própria carne até o fim, como fez Jesus” (A. Polselli, Don Andrea Santoro, as heranças, Cidade Nova, Roma 2008, p. 31). Este exemplo de um homem dos nossos tempos e tantos outros nos apoiam em oferecer a nossa vida como dom de amor aos irmãos, à imitação de Jesus. E também hoje há tantos homens e mulheres, verdadeiros mártires que oferecem suas vidas com Jesus para confessar a fé, somente por esse motivo. É um serviço, serviço do testemunho cristão até o sangue, serviço que Cristo noz fez: redimiu-nos até o fim. E este é o significado daquela palavra “Está consumado”. Que belo será se todos nós, ao fim da nossa vida, com os nossos erros, os nossos pecados, também com as nossas boas obras, com o nosso amor ao próximo, possamos dizer ao Pai como Jesus: “Está consumado”; não com a perfeição com a qual Ele disse, mas dizer: “Senhor, fiz tudo o que pude fazer. Está consumado”. Adorando a Cruz, olhando Jesus, pensemos no amor, no serviço, na nossa vida, nos mártires cristãos e também nos fará bem pensar no final da nossa vida. Ninguém de nós sabe quando isso vai acontecer, mas podemos pedir a graça de poder dizer: “Pai, fiz o que pude. Está consumado”.
O Sábado Santo é o dia em que a Igreja contempla o “repouso” de Cristo no túmulo depois do vitorioso combate da cruz. No Sábado Santo, a Igreja, uma vez mais, se identifica com Maria: toda a sua fé é recolhida nela, a primeira e perfeita discípula, a primeira e perfeita crente. Na obscuridade que envolve o criado, Ela permanece sozinha a manter acessa a chama da fé, esperando contra toda esperança (cfr. Rm 4, 18) na Ressurreição de Jesus.
E na grande Vigília Pascal, em que ressoa novamente o Aleluia, celebramos Cristo Ressuscitado centro e fim do cosmo e da história; vigiamos cheios de esperança à espera do seu retorno, quando a Páscoa terá a sua plena manifestação.
Às vezes a escuridão da noite parece penetrar na alma; às vezes pensamos: “agora não há mais nada a fazer” e o coração não encontra mais a força de amar… Mas justamente naquela escuridão Cristo acende o fogo do amor de Deus: um brilho quebra a escuridão e anuncia um novo início, algo começa no escuro mais profundo. Nós sabemos que a noite é “mais noite”, é mais escura pouco antes que comece o dia. Mas justamente naquela escuridão é Cristo que vence e acende o fogo do amor. A pedra da dor é abatida, deixando espaço à esperança. Eis o grande mistério da Páscoa! Nesta noite santa, a Igreja nos entrega a luz do Ressuscitado, para que em nós não haja o remorso de quem diz “por agora…”, mas a esperança de quem se abre a um presente cheio de futuro: Cristo venceu a morte, e nós com Ele. A nossa vida não termina diante da pedra de um sepulcro, a nossa vida vai além com a esperança em Cristo que ressuscitou justamente daquele sepulcro. Como cristãos, somos chamados a ser sentinelas da manhã, que sabem discernir os sinais do Ressuscitado, como fizeram as mulheres e os discípulos reunidos no sepulcro na aurora do primeiro dia da semana.
Queridos irmãos e irmãs, nestes dias do Tríduo Santo não nos limitemos a celebrar a paixão do Senhor, mas entremos no mistério, façamos nossos os seus sentimentos, as suas atitudes, como nos convida a fazer o apóstolo Paulo: “Tenhais em vós mesmos os sentimentos de Cristo Jesus” (Fil 2, 5). Assim, a nossa será uma “feliz Páscoa”.

A Lâmpada e a luz

Padre Zezinho, SCJ
http://catolicosnarede.wordpress.com/2009/06/15/a-lampada-e-a-luz/#more-1898

Com qual delas você se identifica? Com a lâmpada ou com a luz? Ainda confunde a luz com a lâmpada? Qual das duas é mais importante? Pense bem, antes de ajoelhar-se diante do sacrário ou de passear com o ostensório diante dos fiéis. Por não deixar clara a diferença entre símbolo e o mistério, um grande número de pregadores desvia os fiéis para um devocionismo sem catequese: desfundamentam a fé, erguem edifícios frágeis e sem alicerce e enchem os templos de fiéis que procuram mais a lâmpada do que a luz. Formam gente que, ao invés de olhar ao redor para as coisas que a luz banhou, olham para a lâmpada, de onde sai a luz. Ficam cegos de tanto se fixar na direção errada. Lâmpadas não são para serem vistas nem tocadas. A luz que elas emitem não são para se encarar de frente e, sim, para iluminar o que, de fato, devemos encarar. Não se pára no símbolo, quando se busca o mistério para o qual ele aponta.
O cantor ou pregador que permite que lhe joguem um holofote no seu rosto, certamente brilhará e será altamente fotografável, mas ficará cego e não verá o povo para quem ele canta e fala. Será erro de comunicação dele e do iluminador. Mas, se a intenção daquelas luzes for, de fato, ressaltar o pregador, o cantor ou o espetáculo, então, chame-se ao ato de espetáculo. Se o objetivo for ressaltar a mensagem, há que haver luzes mostrando quem a emite e quem a recebe. Chame-se a este ato de rito ou de catequese. Quem ecoa a si mesmo não é catequista, é exibicionista. Falo como quem corre, permanentemente, este risco e como quem leciona Comunicação Religiosa há mais de 27 anos.
Em termos de comunicação cristã, o risco de acentuar a lâmpada e jogar tudo na direção dela e do seu bocal, ao invés de mirar o que a luz, dela emanada, ilumina, nos remete à resposta que devemos à graça do céu. O poder ou a busca do sentido de Deus entre nós não nos é dado para que as pessoas nos olhem, nem para que as câmeras se fixem em nós 95% do tempo da catequese e, sim, para que se mostre o povo que recebe a pregação; com o povo, outras imagens. Nem mesmo o dom das línguas que é tão pessoal nos é dado para aparecermos. É um consolo, como lembra São Paulo (1Cor 14, 1-40) mas é sinal. Só não podemos usá-lo para parecermos mais renovados que os outros cristãos. Câmeras e luzes deslumbram. O tempo que ficamos diante das câmeras mostra se não estamos enfeitiçados com aquelas luzes sobre nós. Nossa presença excessiva ali pode ser mais danosa do que catequética, se não soubermos reparti-la com a presença dos outros, eles protagonizando. Recentemente viajei, cansado, 450 km de ida e volta para dizer uma frase e cantar uma canção na televisão onde todos os demais convidados eram mais protagonistas do que eu. Não estava bem de saúde, mas pediram minha presença fui ajudar a ressaltar as luzes emitidas por eles. Perguntado por que me sujeitei àquele cansaço por uma frase, disse que tenho outros espaços onde posso falar três minutos por dia e uma hora por mês. Cabia a mim ajudar os outros a emitir a luz de Cristo já que, quando era eu o protagonista, ele vieram ao meu programa. A mística do comunicador pode exigir isso dele. Aparecer o menos possível, mas sempre que possível, ajudar os outros companheiros.
A ênfase excessiva no comunicador prejudica a comunicação. Nossa aparição seja breve, ou cercada de outros que também aparecem. Criemos quadros que nos ajudem a tirar o excesso de luzes em cima de nós. A graça não é posta nas mãos do pregador para que ele apareça e, sim, para que ele a entregue ao povo. Jesus (Mt 10, 27) sugeriu aos seus pregadores que pregassem à luz, com clareza e de cima dos telhados, não para que mais gente visse o pregador atuando e, sim, para que mais gente ouvisse o que ele diz. O advento da fotografia retocada, da mídia, das câmeras e da amplificação da voz e da imagem derrubou muitos pregadores das mais diversas igrejas, que, deslumbrados com sua nova aparência, com o poder das luzes e da mídia, capitalizaram na sua imagem, mais do que na sua mensagem. Sei disso, porque não faltaram sugestões e tentações de diretores de marketing e de palco a me pedir que aceitasse aqueles holofotes e aquela superexposição.
Nos anos 60 fui discípulo, em Washington DC, USA, num curso de verão do Doutor Bacchero que lecionava na linha de McLuan, a matéria “Comunicação de Massa”. Naqueles dias, brilhavam Elvis Presley e os Beatles, Rock Hudson, John Wayne, Frank Sinatra, Dean Martin, Jerry Lewis, ainda Marilyn Monroe, e despontavam dez a quinze grupos de rock. Os holofotes estavam sobre eles. Ele e outros mestres alertavam para o risco da auto-exposição que escapa ao controle do indivíduo e o transforma em produto de mercado. O marketing não era, ainda, a ciência que se tornou.
Qual tem sido o argumento dos pregadores das mais diversas igrejas, que aderiram ao marketing da fé e, ao ressaltar sua individualidade, caíram no individualismo e no protagonismo acima e por sobre o protagonismo do povo de Deus? Aceitaram tornar-se ídolos. Foi consciente? Precisam aparecer para vender? Precisam se manifestar para anunciar? Afirmam que são dados em espetáculo ao mundo e aos anjos (1Cor 4, 9), mas só isso, porque raramente se arriscam a entrar em temas que explicam a primeira parte da sentença de Paulo. Ali o cerne da comunicação cristã! Tenho para mim, que Deus a nós, apóstolos, nos pôs por últimos, como condenados à morte. Estão mais para 2Tm 4, 1-5 do que para o Paulo, que precisou ser descido em um cesto para escapar dos seus perseguidores… (At 9, 25). Raramente entram em temas sociais. Dizem que, ao cuidar de doentes e endemoninhados (sic) e, ao ensinar a orar para conseguir subir na vida, já fazem um trabalho social.
Seu outro argumento é o de que, ao aparecerem e mostrarem seu rosto, tornando-se referência, conquistam os olhos e os corações de milhões de pessoas para si, e, então, podem anunciar o Jesus que levam em si. A notoriedade lhes dará mais autoridade!
Divulgar-se para divulgar! Há verdade nisso, mas o argumento é escorregadio. Eles sabem e muita gente sabe dos perigos do excesso de luzes sobre a prima dona ou sobre o ator número um. Estes, ou são realmente bons, ou perdem a aura! Com o tempo, seu protagonismo será de tal monta que não poderão mais descer do palco ou do púlpito para o meio do povo. Elvis, Marilyns, Madonnas, Britneys e outros ídolos de ontem e de hoje, de tanto marketing, terminam isolados e cercados de guarda-costas… Passam a pregar de cima, altaneiros, a viver em bolhas e redomas.
Digo isso porque houve um tempo em que passei pela tentação de ir mais longe do que tinha ido, pelo argumento de que chegaria aonde os outros não chegam. Sofri a tentação da formiga que acha que pode cortar pedaço ainda maior de folha, sem levar em conta a distâncias e os ventos daquela jornada. Argumentavam: “alguém tem que ir lá, aonde ninguém foi”. “Jesus iria” “Paulo foi” “Esse novo missionário pode ser você”!” “Você tem todas as qualidades para ir” “Não jogue fora esta chance de evangelizar milhões” – É o que diziam.
Muitas vezes, nos anos 70 e 80 ao ouvir isso, pensei na tentação da montanha e no “tudo isso te darei…” (Mt 4, 1-11). Marketing não deixa de ser marketing, mesmo que seja o da fé. Optei por não ser levado tão longe, posto que na mídia, o verbo é “ir” ou “levar”, mas, às vezes, somos mais levados do que vamos. O marketing mais nos leva e nos empurra do que nos deixa ir. Ele tem seus próprios mecanismos. Quem está na mídia há mais de 40 anos sabe que este riacho vira rio caudaloso e não poucas vezes transborda. Ou o aceitamos com suas regras ou, como cavalo xucro, ele nos derruba. Tem que ser muito peão para ficar muitos anos montado no marketing.
Não me considero nem acima nem melhor do que os outros que aceitam ser lâmpadas. Eu fui e ainda sou, mas trago comigo a mística do brilhar junto e acentuar as outras lâmpadas que me ajudam a emitir a luz. Quero luz sobre os meus cantores e os quero ao meu lado e não atrás de mim, até porque, sem eles a mensagem que levo perderia sua força de comunicação. Não sou “Padre Zezinho e sua banda”. Todos os 12 grupos que já cantaram comigo, cantaram ao meu lado e tinham nome, como grupo e como pessoas. Pregamos todos, eles, com o seu brilho de cantores da fé e eu, com minhas luzes de pregador; mas nunca aceitei os holofotes por muito tempo sobre minha pessoa. Foi e é minha mística. Quem já viu meus shows nos últimos 40 anos deve ter percebido que não fico à frente dos meus jovens. Não levo baterista. Ficamos na mesma linha. E não aceito holofotes fixos em mim. A luz deve girar entre os cantores e o povo e um pouco sobre mim, mas o mais discretamente possível.
Aos meus alunos digo o que acabo de escrever. –“Segure o cálice, a patena, o ostensório, o violão, a Bíblia e os sinais e instrumentos como quem segura uma lâmpada”. Apagada, fechada, mal citada, mal ligada, mal alimentada ou piscando, ela mais prejudica do que ajuda. Nem o cálice, nem o ostensório nem nós somos a luz: somos lâmpadas. A luz é o Cristo e o mistério que ele é. Valorize a luz que nasce daqueles sinais! Trate de ser um deles, mas não lute para ser o sinal número um. Segure a lâmpada, já que não é possível segurar a luz. Seja uma lâmpada já que não é possível ser luz. Lúcifer quis isso e acabou no inferno, diz a piedosa história da tradição, mencionada de passagem em Mt 25, 41 e Judas 1, 6
Lembro-me de um episódio que para mim foi salutar. Nesses 43 anos de sacerdote e 45 de comunicador, uma vez, tiraram do horário nobre o meu programa que tinha muita audiência. Razões da emissora e dos diretores… Se Deus deu a eles a direção daquele veículo, deu a eles mais do que a mim. São carismas. Não precisavam mais do meu. Não abri a boca. Fui embora. Pregaria onde, para quem e na hora em que me fosse permitido. Perdi ouvintes e espectadores. Também eles.
Mas outros diretores me acharam e os ouvintes tornaram a me achar. Expliquei-me, depois, a alunos que me perguntaram por que não lutei por meu espaço já conquistado. Era mística. Disse-lhes que não era conquista. Deus me havia dado aquela chance. Veio alguém que não via as coisas do mesmo jeito e entendi que perdera um espaço concedido. O convite acabara! Nunca assino contrato de trabalho com as mídias onde atuo. São livres para deixar alguém no meu lugar e eu sou livre para ir embora. Já atuei em mais de 9 mídias desde os meus primeiros anos de sacerdócio. Estive lá como convidado. Fui embora quando os diretores me pediram para não falar ou não cantar determinadas coisas, ou quando acharam alguém mais de acordo com a sua linha, alguns dos quais tinham sido meus alunos. O professor não servia, mas o aluno, sim. Sintonizava melhor com a direção da emissora; prova de que não faço a cabeça de nenhum aluno! Proponho uma mística e uma visão, mas lhe dou meus óculos e minhas lentes, ele que ache as dele!
A palavra não deve acorrentar nem os diretores de mídia, nem os pregadores. Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo (Colossenses 2, 8). Entendo que o mesmo se aplica ao marketing moderno. Não vale qualquer espaço, qualquer método e qualquer coisa para evangelizar a qualquer um. Não valem apenas os números, embora sejam importantes. Foi o que disse Bento XVI quando Cardeal Ratzinger na entrevista Peter Seewald, O Sal da Terra. As estatísticas o disse, não fazem parte do projeto do Reino. Precisávamos redescobrir a Teologia do Pequeno Rebanho! Elas são válidas, mas não podem determinar nossa pastoral. Jesus deixou claro que há limites, ao dizer que não faria mudanças pelo fato de seus discípulos não estarem assimilando sua mensagem. Não mudaria nem uma virgula, nem um ponto… (Mt 4, 17-18). Não pensem que vim destruir a lei ou os profetas: não vim abolir, mas cumprir. Porque em verdade eu lhes digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido. O mesmo Jesus deu liberdade aos discípulos para irem embora em Jo 6, 67. O assunto era o pão da vida, a eucaristia, dar a sua carne para vida dos homens (Jo 6, 48-71).
Ceder para permanecer não era a mística de Jesus. Aprendi come lê. Não aceito qualquer esquema para ficar na mídia. Calarei se for preciso. Não farei falta. Estou lá por graça de Deus e sairei por vontade dele ou dos homens. Mas não lutarei por microfones, câmeras por espaços. Quem me convida sabe disso. Se tiver que ir irei embora e cederei meu lugar a outros pregadores, mas não me peçam para apenas cantar sem pregar, ou pára não cantar canções de cunho social e político. Posso até ajudar um amigo, mas não assumiria um espaço só para cantar ou para cantar mais do que falar. Não fui ordenado padre para cantar. O Antigo Testamento fala de levitas cantores (1Cor 5, 12) mas nossa Igreja não liga a canção ao sacerdócio. Oficialmente não existem padres cantores na Igreja Católica. A canção é algo paralelo à missão do sacerdote. Se quiser exercer seu sacerdócio ele tem que fazer da canção um instrumento secundário. Caso queiram que ele apenas cante seria o caso de se recusar. Eu me recuso. Deixei de dar muitas entrevistas porque que queriam com violão nas mãos ou com um rosário entre os dedos e não aceite o estereótipo. Mostrei o crucifixo no meu peito e disse que carregaria uma Bíblia, se quisessem. Não quiseram.
Entendo que a canção libertadora e a mensagem sócio-política dos meus cantos que nascem de encíclicas papais, dos documentos dos bispos, da Bíblia são parte da doutrina fundamental e acho que ela tem uma carga de profunda espiritualidade compassiva e libertadora. Eu jamais cantaria aquela canção que diz: Quero amar somente a Deus. A meu ver ela nega o cristianismo.
Para meus alunos passo a idéia das lâmpadas e da luz. As lâmpadas são diferentes e as luzes que emitem também. Não é culpa da luz, é da lâmpada. Se o diretor quer outra lâmpada, outra pregação e outro pregador mais da sua linha, ele está no seu direito. Preciso respeitar o catecismo que ele estudou, pregadores que ele ouviu e os livros que ele leu. Se não temos a mesma visão pastoral e ele tem as chaves da emissora, quem fica é ele e quem sai sou eu. A palavra de Deus veio a mim, mas não é minha. Disse Paulo: – Porventura saiu dentre vós a palavra de Deus? Ou veio ela somente para vós? (1Cor 14, 36). E disse mais: disse que a palavra de Deus não está presa nem ao dono da emissora, não a diretor de marketing, nem ao pregador, nem ao cantor. Torno a lembrar o que Paulo disse, em outras palavras a respeito da prisão a um só esquema de pregação (1Cor 9, 19).
Paulo dizia não fazer parte dos muitos falsificadores e subvertedores da Palavra de Deus. Não pregava com astúcia nem com segundas intenções como os que consciente ou inconscientemente visavam adeptos, platéia e aplausos. Jesus dizia o mesmo dos fariseus e seus jejuns espetaculares e divulgados nas esquinas do tipo “veja só como eu oro e jejuo!” Alguns tradutores verteram os textos de 2Cor 2, 17 e 2Cor 4, 2 como mercadejar ou subverter a Palavra de Deus. O perigo de brigar para poder brilhar ou ir lá impor suas antenas onde outros irmãos da mesma igreja já estão, está na triste realidade que já conhecemos: a do pregador que luta por mais espaço e o consegue, para, logo depois, descobrir que achou apenas o seu espaço, mas não o espaço da Palavra de Deus. Antonio Vieira, no seu famoso “Sermão da Sexagésima” lembra que pregar palavras de Deus não é o mesmo que pregar A Palavra de Deus. Pregadores eminentes e evidentes não são necessariamente pregadores da eminência da Palavra. Não poucas vezes posam de videntes para se tornarem evidentes.
Jeremias arrasa com tais profetas em Jr 14, 14. Raciocino ainda, em base a (Mt 20, 16; 23, 6; Lc 14, 10) com os amigos que me aconselham a lutar por meu “espaço”. Nestes textos há toda uma mística sobre lugares. Entendo que o comunicador da fé não tem lugar garantido em editora, emissora ou diocese alguma. O lugar sempre lhe será concedido. Se mudar o bispo e este seguir outra linha pastoral, prevaleça a nova linha, uma vez que o bispo eleito foi ele e não o pregador. Nenhum pregador deve ser entrudo, nem entrão; muito menos deve ser impulsionado por estratégias de marketing agressivo. Deve, sim, sentir-se convidado. Toda a vez que o pregador se faz convidar para mostrar sua obra e seu discurso, corre um risco de sentar-se em lugar que não é o seu (Mt 22, 11; Lc 14, 8). Se uma comunidade não precisa mais dele e não o quer, como são milhares as comunidades e, sendo a Igreja uma “comunidade de comunidades”, haverá sempre alguém que queira o ouvir.
Nem a missa, nem o púlpito, nem o palco, nem a canção, nem a mensagem nos pertencem. João Paulo II e Bento XVI tocaram no assunto ao falar da Eucaristia. Nenhuma Missa deve estar ligada ao nome do celebrante. Missa de cura é toda e qualquer Missa e não apenas a das 19 horas na quinta-feira, celebrada pelo padre XYZ. Então, o pregador apareça, mas não demais, espere ser convidado, mostre qualidade na sua obra recém publicada, e entregue, sem pretensões, a sua nova mensagem. Carteiro que dá show de entrega, às vezes termina por não entregar mensagem alguma! Escorrega no degrau de subida…

Papa Francisco: A liturgia é um tesouro que não pode ser reduzido a gostos e correntes

Por Mercedes de la Torre
https://www.acidigital.com/noticias/papa-francisco-a-liturgia-e-um-tesouro-que-nao-pode-ser-reduzido-a-gostos-e-correntes-81393

Papa Francisco na Assembleia Plenária da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos sacramentos. Foto: Vatican Media

Vaticano, 14 Fev. 19 / 03:00 pm (ACI).- A liturgia sagrada é um “tesouro vivo que não pode ser reduzido a gostos, receitas e correntes”, assinalou o Papa Francisco durante audiência concedida à Assembleia Plenária da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos nesta quinta-feira, 14 de fevereiro, quando também disse que “para que a vida seja verdadeiramente um louvor agradável a Deus, é preciso de fato mudar o coração”.

O Santo Padre recordou que a assembleia deste ano tem como tema “A formação litúrgica do Povo de Deus” e disse que, “de fato, a tarefa que nos espera é essencialmente difundir entre o povo de Deus, o esplendor do mistério vivo do Senhor, que se manifesta na liturgia”.

“Falar da formação litúrgica do Povo de Deus significa antes de tudo tomar consciência do papel insubstituível que a liturgia desempenha na Igreja e para a Igreja. E pode ajudar concretamente o povo de Deus a interiorizar melhor a oração da Igreja, a amá-la como experiência de encontro com o Senhor e com os irmãos e, diante disso, redescobrir nela o conteúdo e observar seus ritos”, explicou o Papa.

Desse modo, o Pontífice reconheceu que “não basta mudar os livros litúrgicos para melhorar a qualidade da liturgia. Somente isto seria um engano”, mas, “para que a vida seja verdadeiramente um louvor agradável a Deus, é preciso de fato mudar o coração”.

Por isso, o Santo Padre destacou que “a conversão cristã é orientada a celebração cristã, que é um encontro da vida com o Deus dos vivos” e acrescentou que este é também o objetivo do trabalho da Congregação do Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, voltado a “ajudar o Papa a exercer o seu ministério em benefício da Igreja em oração espalhada por toda a terra”.

“Na comunhão eclesial, atuam tanto a Sé Apostólica como as Conferências Episcopais, em espírito de cooperação, diálogo e sinodalidade. A Santa Sé, de fato, não substitui os bispos, mas colabora com eles para servir, na riqueza das várias línguas e culturas, a vocação orante da Igreja no mundo”, afirmou.

Conferências Episcopais

Nesta linha, o Papa explicou que, com o Motu proprio “Magnum principium”, promulgado em3 de setembro de 2017, quis “favorecer, entre outras coisas, a necessidade de uma constante cooperação, plena de confiança recíproca, vigilante e criativa, entre as Conferências Episcopais e o Dicastério da Sé Apostólica que exerce a missão de promover a sagrada liturgia”.

Por isso, o Santo Padre assinalou que “o desejo é prosseguir no caminho da mútua colaboração, conscientes das responsabilidades envolvidas pela comunhão eclesial, na qual a unidade e a variedade encontram harmonia. É um problema de harmonia”.

O Papa Francisco também abordou o desafio da formação e disse que “não podemos esquecer que a liturgia é vida que forma, não uma ideia a ser aprendida”. E advertiu que é bom “na liturgia, como em outros âmbitos da vida eclesial, não acabar em estéreis polarizações ideológicas que nascem muitas vezes quando, considerando as próprias ideias válidas para todos os contextos, chega-se a assumir uma atitude de perene dialética em relação a quem não as compartilha”.

Portanto, o Pontífice reconheceu que em certas ocasiões “corre-se o risco de voltar-se a um passado que não existe mais ou de fugir para um futuro presumido como tal. O ponto de partida, pelo contrário, é reconhecer a realidade da sagrada liturgia, tesouro vivo que não pode ser reduzido a gostos, receitas e correntes, mas deve ser acolhido com docilidade e promovido com amor, enquanto alimento insubstituível para o crescimento orgânico do Povo de Deus”.

“A liturgia não é ‘o campo do faça-você-mesmo’, mas a epifania da comunhão eclesial”, assegurou o Papa. “Portanto, nas orações e nos gestos ressoa o ‘nós’ e não o ‘eu’; a comunidade real, não o sujeito ideal. Quando se recordam nostalgicamente tendências passadas ou se querem impor novas, corre-se o risco de antepor a parte ao todo, o eu ao Povo de Deus, o abstrato ao concreto, a ideologia à comunhão, e na raiz, o mundano ao espiritual”, indicou.

Desse modo, o Papa explicou que, “sendo a liturgia uma experiência voltada à conversão da vida pela assimilação do modo de pensar e de comportar-se do Senhor, a formação litúrgica não pode limitar-se simplesmente em oferecer conhecimentos – isso é errado –, mesmo necessários, sobre os livros litúrgicos, e tampouco tutelar o cumprimento das disciplinas rituais”, advertiu.

“Para que a liturgia possa cumprir sua função formativa e transformadora, é necessário que os pastores e leigos sejam introduzidos a compreender dela o significado e a linguagem simbólica, incluindo a arte, o canto e a música a serviço do mistério celebrado, também o silêncio”.

Além disso, o Santo Padre recordou que o Catecismo da Igreja Católica “adota o caminho mistagógico para ilustrar a liturgia, valorizando nela a oração e os sinais”, e explicou que a mistagogia é “um caminho idôneo para entrar no mistério da liturgia, no encontro vivo com o Senhor crucificado e ressuscitado. Mistagogia significa descobrir a vida nova que no Povo de Deus recebemos mediante os Sacramentos, e redescobrir continuamente a beleza de renová-la”, afirmou.

Formação permanente

Sobre as etapas da formação, o Papa Francisco recordou que “é necessário cultivar a formação permanente do clero e dos leigos, especialmente aqueles envolvidos nos ministérios ao serviço da liturgia. A formação não apenas uma vez, mas permanente”.

Assim, o Pontífice ressaltou que “as responsabilidades educativas são compartilhadas, mesmo que cada diocese esteja mais envolvida na fase operativa” e assinalou que “a reflexão de vocês vai ajudar o Dicastério a amadurecer linhas e diretrizes para oferecer, no espírito de serviço, a quem – Conferências Episcopais, dioceses, institutos de formação, revistas – tem a responsabilidade de cuidar e acompanhar a formação litúrgica do Povo de Deus”.

Ao finalizar, o Santo Padre assegurou que “todos somos chamados a aprofundar e reavivar a nossa formação litúrgica”, porque a liturgia é, de fato, “o caminho principal através do qual a vida cristã passa em cada fase de seu crescimento”.

“Diante de vocês está esta grande e bela tarefa: trabalhar para que o povo de Deus redescubra a beleza de encontrar o Senhor na celebração de seus mistérios, e encontrando-o, tenha vida em seu nome”.

Para rezar bem é preciso ter um coração de criança, diz Papa

Quarta-feira, 16 de janeiro de 2019, Da redação, com Vatican Media
https://noticias.cancaonova.com/papa/para-rezar-bem-e-preciso-ter-um-coracao-de-crianca-diz-papa

Série de Catequeses do Papa sobre o Pai Nosso continuou nesta quarta-feira, 16

Na catequese desta quarta-feira, 16, o Papa Francisco deu continuidade à série sobre a oração do Pai Nosso.

“Basta evocar esta expressão – Abbà – para que se desenvolva uma oração cristã. (…) Nesta invocação há uma força que atrai todo o resto da oração”. E para rezar bem, é preciso ter um coração de criança.

Na catequese de hoje, o Papa inspirou-se na Carta de São Paulo aos Romanos 8, 14-16, para falar sobre nossa filiação divina: “hoje partimos da observação de que, no Novo Testamento, a oração parece querer chegar ao essencial, até concentrar-se em uma única palavra: Abbà, Pai”. Nesta invocação afirmou, dirigindo-se aos 7 mil fiéis presentes na Sala Paulo VI – concentra-se toda a novidade do Evangelho:

“Depois de ter conhecido Jesus e ouvido sua pregação, o cristão não considera Deus mais como um tirano a temer, não sente mais medo dele, mas floresce em seu coração a confiança nele: pode falar com o Criador, chamando-o de “Pai”. A expressão é tão importante para os cristãos, que muitas vezes é conservada intacta em sua forma original. Paulo conservou intacta ‘Abbà’”.

“É raro que no Novo Testamento as expressões aramaicas não são traduzidas para o grego”, observa o Papa. “Temos que imaginar que, nestas palavras em aramaico permanece como que “gravada” a voz do próprio Jesus, “respeitaram o idioma de Jesus”. Nas primeiras palavras do “Pai Nosso”, encontramos imediatamente a novidade radical da oração cristã”.

Rezar com verdade o Pai Nosso

Se entendermos que não se trata apenas de usar a figura do pai como um símbolo para relacionar ao mistério de Deus, mas o mundo inteiro de Jesus transvasado no próprio coração, podemos rezar com verdade o “Pai Nosso”:

“Dizer ‘Abbà’ é algo muito mais íntimo, mais comovente do que simplesmente chamar Deus de ‘Pai’. Eis porque alguém propôs traduzir esta palavra aramaica original ‘Abbà’ como ‘Papai’ (…). Nós continuamos a dizer “Pai nosso”, mas com o coração somos convidados a dizer “Papai”, a ter uma relação com Deus como a de uma criança com o seu papai, que diz “papai”. Na verdade, essas expressões evocam afeto, evocam calor, algo que nos remete no contexto da infância: a imagem de uma criança completamente envolvida pelo abraço de um pai que sente infinita ternura por ele. E por isso, queridos irmãos e irmãs, para rezar bem é preciso chegar a ter um coração de criança. Para rezar bem, não um coração autossuficiente. Assim não se pode rezar bem. Mas como uma criança nos braços de seu Pai, seu papai.”

Deus conhece somente amor

Mas são os Evangelhos no entanto – completa o Papa – a nos apresentarem melhor o sentido desta palavra. O “Pai Nosso” ganha sentido e cor se aprendemos a rezá-lo depois de ter lido a parábola do Pai misericordioso (cf. Lc 15,11-32):

“Imaginemos esta oração pronunciada pelo filho pródigo, depois de ter experimentado o abraço de seu pai, que o havia esperado por um tempo, um pai que não recorda as palavras ofensivas que ele havia dito, um pai que agora o faz perceber simplesmente a falta que sentiu dele. Então descobrimos como aquelas palavras ganham vida, ganham força. E nos perguntamos: como é possível que Tu, ó Deus, conheça somente o amor? Mas Tu não conheces o ódio? Não, responderia Deus. Eu conheço somente o amor. Onde está em Ti a vingança, a pretensão de justiça, a ira pela sua honra ferida? E Deus responderia: eu conheço somente amor.”

A força da palavra “Abbà”

A forma como o pai da parábola age – observa o Papa – “recorda muito o espírito de uma mãe”, pois no geral são as mães que desculpam seus filhos, que os cobrem, que não rompem a empatia que têm por eles, que continuam a querê-los bem. Mesmo quando não mereceriam mais nada:

“Basta evocar esta expressão – Abbà – para que se desenvolva uma oração cristã. (…) Nesta invocação há uma força que atrai todo o resto da oração”:

“Deus busca você, mesmo que você não o procure. Deus ama você, mesmo que você tenha se esquecido dele. Deus vê em você uma beleza, ainda que você pense ter desperdiçado inutilmente todos os seus talentos. Deus é não somente um Pai, é como uma mãe que nunca deixa de amar sua criação. Por outro lado, há uma “gestação” que dura para sempre, bem além dos nove meses daquela física, e que gera um circuito infinito de amor.”

Ter a confiança de uma criança

Para um cristão, “rezar é simplesmente dizer “Abbà”, dizer papai (…), mas com a confiança de uma criança. E acrescentou ao concluir:

“Pode acontecer que também a nós aconteça de caminhar por caminhos distantes de Deus, como aconteceu com o filho pródigo; ou de precipitar em uma solidão que nos faz sentir abandonados no mundo; ou ainda de errar e ser paralisados por um sentimento de culpa. Nesses tempos difíceis, podemos ainda encontrar a força de rezar, recomeçando pela palavra “Abbà”, mas dita com o sentido terno de uma criança, “Abbá”, papai. Ele não esconderá de nós o seu rosto. Recordem bem, talvez alguém tenha dentro de si coisas ruins, coisas que não… não sabe como resolver, tanta amargura por ter feito isto ou aquilo. Ele não esconderá o seu rosto. Ele não se fechará no silêncio. Você diz “Pai” e Ele responderá a você. Você tem um Pai! “Sim, mas eu sou um delinquente”. Mas você tem um Pai que ama você. Diga a Ele “Pai” e comece a rezar assim, e no silêncio nos dirá que nunca nos perdeu de vista. “Mas Senhor, eu fiz isto e aquilo”. Mas eu nunca perdi você de vista. Eu vi tudo. Mas sempre estive ali, próximo de você, fiel ao meu amor por você. Esta será a resposta. Não esqueçam nunca de dizer Pai. Obrigado!”.

O mistério da encarnação de Jesus

Quarta-feira, 02 de janeiro de 2013, Jéssica Marçal / Da Redação

Na catequese desta quarta-feira, Bento XVI explicou sobre a origem de Jesus

Após uma pausa de uma semana, o Papa Bento XVI retomou nessa quarta-feira, 2, seu encontro com os fiéis na Audiência Geral. Na Sala Paulo VI, o Santo Padre dedicou a catequese para explicar sobre a origem de Jesus.

Bento XVI iniciou as reflexões lembrando que o Natal do Senhor ilumina sempre com a sua luz as trevas que muitas vezes cercam o mundo. E sobre a origem desta luz, a origem de Cristo, ele explicou que dos quatro Evangelhos emerge com clareza a resposta a essa pergunta.

“… a sua verdadeira origem é o Pai; Ele vem totalmente Dele, mas de modo diferente de qualquer profeta enviado por Deus que o precederam. Esta origem do mistério de Deus, “que ninguém conhece”, está contida já nas histórias sobre a infância dos Evangelhos de Mateus e de Lucas, que estamos lendo neste tempo natalício”, disse.

E ao refletir sobre a expressão “por obra do Espírito Santo encarnou-se no seio da Virgem Maria”, professada no Credo, Bento XVI lembrou a importância de Maria nesse contexto da origem de Jesus.

“Sem ela a entrada de Deus na história da humanidade não chegaria ao seu fim e não teria tido lugar aquele que é central na nossa Profissão de fé: Deus é um Deus conosco. Assim Maria pertence de modo irrenunciável à nossa fé no Deus que age, que entra na história”, afirmou.

O Pontífice destacou ainda que, também na vida cotidiana, os fiéis podem sentir a sua pobreza, a sua insuficiência, mas lembrou que Deus escolheu justamente uma mulher humilde, em uma vila desconhecida. “Sempre, também em meio às dificuldades mais difíceis de enfrentar, devemos ter confiança em Deus, renovando a fé na sua presença e ação na nossa história, como naquela de Maria. Nada é impossível para Deus!”.

Por fim, Bento XVI enfatizou que Jesus é o Filho unigênito do Pai, vem de Deus, e este é o grande mistério que se celebra no Natal: o Filho de Deus, por obra do Espírito Santo, encarnou-se no seio da Virgem Maria.

“Este é um anúncio que soa sempre novo e que traz em si esperança e alegria ao nosso coração, porque nos doa toda vez a certeza de que, mesmo se muitas vezes nos sentimos fracos, pobres, incapazes diante da dificuldade e do mal do mundo, o poder de Deus age sempre e opera maravilhas propriamente na fraqueza”, finalizou.

 

Catequese de Bento XVI: a origem de Jesus 02/01/2013  
Boletim da Santa Sé (Tradução: Jéssica Marçal, equipe CN Notícias)

Queridos irmãos e irmãs,

O Natal do Senhor ilumina mais uma vez com a sua luz as trevas que muitas vezes cercam o nosso mundo e o nosso coração e traz esperança e alegria. De onde vem esta luz? Da gruta de Belém, onde os pastores encontraram “Maria e José e o menino, deitado na manjedoura” (Lc 2,16). Diante desta Sagrada Família surge uma outra e mais profunda pergunta: como pode aquele pequeno e indefeso Menino ter levado uma novidade tão radical no mundo a ponto de mudar o curso da história? Não tem talvez algo de misterioso na sua origem vai além daquela gruta?

Sempre de novo emerge assim a pergunta sobre a origem de Jesus, a mesma que coloca o Procurador Pôncio Pilatos durante o processo: “De onde és tu?” (Gv 19,29). No entanto, trata-se de uma origem bem clara. No Evangelho de João, quando o Senhor afirma: “Eu sou o pão descido do céu”, os judeus reagem murmurando: “Não é este Jesus, o filho de José? Dele não conhecemos o pai e a mãe? Como então pode dizer: “Sou descido do céu? (Jo 6,42). E, um pouco mais tarde, os cidadãos de Jerusalém se opõem com força diante da messianidade de Jesus, afirmando que se sabe bem “de onde é; o Cristo, em vez disso, quando vier, ninguém saberá de onde é” (Jo 7,27). O próprio Jesus faz notar quanto seja inadequado a pretensão deles de conhecer a sua origem, e com isso oferece já uma orientação para saber de onde vem: “Não sou vindo de mim mesmo, mas quem me mandou é verdadeiro, e vós não o conheceis” (Jo 7, 28). Certamente, Jesus é originário de Nazaré, é nascido em Belém, mas o que se sabe da sua verdadeira origem?

Nos quatro Evangelhos emerge com clareza a resposta à pergunta “de onde” vem Jesus: a sua verdadeira origem é o Pai; Ele vem totalmente Dele, mas de modo diferente de qualquer profeta enviado por Deus que o precederam. Esta origem do mistério de Deus, “que ninguém conhece”, está contida já nas histórias sobre a infância dos Evangelhos de Mateus e de Lucas, que estamos lendo neste tempo natalício. O anjo Gabriel anuncia: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso aquele que nascerá será santo e chamado Filho de Deus” (Lc 1, 35). Repetimos estas palavras cada vez que recitamos o Credo, a Profissão de fé: “et incarnatus est de Spiritu Sancto, ex Maria Virgine”, “por obra do Espírito Santo encarnou-se no seio da Virgem Maria”. Nesta frase ajoelhamos porque o véu que escondia Deus, vem, por assim dizer, aberto e o seu mistério insondável e inacessível nos toca: Deus se torna o Emanuel, “Deus conosco”. Quando escutamos as missas compostas por grandes mestres da música sacra, penso no exemplo da Missa de Coroação de Mozart, notamos imediatamente como se afirmam, se baseiam especialmente sobre esta frase, como para tentar expressar com a linguagem universal da música isso que as palavras não podem manifestar: o grande mistério de Deus que se encarna, se fez homem.

Se considerarmos atentamente a expressão “por obra do Espírito Santo encarnou-se no seio da Virgem Maria”, encontramos que essa inclui quatro sujeitos que atuam. De modo explícito são mencionados o Espírito Santo e Maria, mas é subentendido “Ele”, isso é o Filho, que se fez carne no seio da Virgem. Na Profissão de fé, o Credo, Jesus aparece definido com nomes diversos: “Senhor, … Cristo, Filho unigênito de Deus …Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro…consubstancial ao Pai” (Credo niceno-constantinopolitano). Vemos então que “Ele” refere-se a uma outra pessoa, aquela do Pai. O primeiro sujeito desta frase é então o Pai, que, com o Filho e o Espírito Santo, é o único Deus.

Esta afirmação do Credo não é sobre o ser eterno de Deus, mas nos fala de uma ação à qual tomam parte as três Pessoas divinas e que se realiza “ex Maria Virgem”. Sem ela a entrada de Deus na história da humanidade não chegaria ao seu fim e não teria tido lugar aquilo que é central na nossa Profissão de fé: Deus é um Deus conosco. Assim Maria pertence de modo irrenunciável à nossa fé no Deus que age, que entra na história. Ela coloca à disposição toda a sua pessoa, “aceita” transformar-se lugar da morada de Deus.

Às vezes, também no caminho e na vida de fé podemos sentir a nossa pobreza, a nossa insuficiência frente ao testemunho para oferecer ao mundo. Mas Deus escolheu justamente uma mulher humilde, em uma vila desconhecida, em uma das províncias mais distantes do império romano. Sempre, também em meio às dificuldades mais difíceis de enfrentar, devemos ter confiança em Deus, renovando a fé na sua presença e ação na nossa história, como naquela de Maria. Nada é impossível para Deus! Com Ele a nossa existência caminha sempre em terras seguras e está aberta a um futuro de firme esperança.

Professando no Credo: “por obra do Espírito Santo encarnou-se no seio da Virgem Maria”, afirmamos que o Espírito Santo, como força de Deus Altíssimo, operou de modo misterioso na Virgem Maria a concepção do Filho de Deus. O Evangelista Lucas reporta as palavras do arcanjo Gabriel: “O Espírito descerá sobre ti e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra” (1, 35). Duas referências são evidentes: a primeira é no momento da criação. No início do livro do Gênesis lemos que “o espírito de Deus pairava sobre as águas” (1, 2);  é o Espírito criador que deu vida a todas as coisas e ao ser humano. Isso que acontece em Maria, através da ação do mesmo Espírito divino, é uma nova criação: Deus, que chamou o ser do nada, com a Encarnação dá vida a um novo início da humanidade. Os Padres da Igreja muitas vezes falam de Cristo como do novo Adão, para marcar o início da nova criação do nascimento do Filho de Deus no seio da Virgem Maria. Isto nos faz refletir sobre como a fé traz também em nós uma novidade tão forte a ponto de produzir um segundo nascimento. De fato, no início do ser cristão tem o Batismo que nos faz renascer como filhos de Deus, nos faz participar da relação filial que Jesus tem com o Pai. E gostaria de salientar que como o Batismo se recebe, nós “somos batizados” – é um passivo – porque ninguém é capaz de tornar-se filho de Deus por si mesmo: é um dom que é conferido gratuitamente. São Paulo refere-se a esta filiação adotiva dos cristãos em uma passagem central da sua Carta aos Romanos, onde escreve: “Todos aqueles que são guiados pelo Espírito de Deus, estes são filhos de Deus. E vós não recebestes um espírito da escravidão para cair novamente no medo, mas recebestes o Espírito que torna filhos adotivos, por meio do qual clamamos: “Abá! Pai”. O próprio Espírito, junto ao nosso espírito, atesta que somos filhos de Deus”, não servos (8,14-16). Somente se nos abrimos à ação de Deus, como Maria, somente se confiamos a nossa vida ao Senhor como a um amigo no qual nós confiamos totalmente, tudo muda, a nossa vida adquire um novo sentido e uma nova face: aquela dos filhos de um Pai que nos ama e nunca nos abandona.

Falamos de dois elementos: o elemento primeiro o Espírito sobre as águas, o Espírito Criador; tem um outro elemento nas palavras da Anunciação.

O anjo diz a Maria: “O poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra”. É um lembrete da nuvem santa que, durante o caminho do êxodo, parava na tenda do encontro, na arca da aliança, que o povo de Israel levava consigo, e que indicava a presença de Deus (cfr Es 40,40,34-38). Maria, então, é a nova tenda santa, a nova arca da aliança: com o seu “sim” às palavras do arcanjo, Deus recebe uma morada neste mundo, Aquele que o universo não pode conter para habitar no ventre de uma virgem.

Retornamos então à questão com a qual começamos, aquela sobre a origem de Jesus, sintetizada pela pergunta de Pilatos: “De onde és tu?”.  Das nossas reflexões aparece claro, desde o início dos Evangelhos, qual é a verdadeira origem de Jesus: Ele é o Filho Unigênito do Pai, vem de Deus. Estamos diante do grande e perturbador mistério que celebramos neste tempo do Natal: o Filho de Deus, por obra do Espírito Santo, encarnou-se no seio da Virgem Maria. Este é um anúncio que soa sempre novo e que traz em si esperança e alegria ao nosso coração, porque nos doa toda vez a certeza de que, mesmo se muitas vezes nos sentimos fracos, pobres, incapazes diante da dificuldade e do mal do mundo, o poder de Deus age sempre e opera maravilhas propriamente na fraqueza. A sua graça é a nossa força. (cfr 2 Cor 12,9-10). Obrigado.

7 frases de São João Paulo II para compartilhar o Natal em família

https://www.acidigital.com/noticias/7-frases-de-sao-joao-paulo-ii-para-compartilhar-o-natal-em-familia-10025

Foto: Flickr – Manuel (CC-BY-NC-ND-2.0)

REDAÇÃO CENTRAL, 19 Dez. 18 / 04:00 am (ACI).- “Mistério de alegria é o Natal… Da mesma alegria participa a Igreja, repassada, hoje, pela luz do Filho de Deus: as trevas jamais poderão obscurecê-la”, disse e certa ocasião São João Paulo II. Com este mesmo sentimento, compartilhamos 7 frases do Papa polonês para celebrar o Natal em família.

1. “Faz-Se homem entre os homens, para que, n’Ele e por Ele, todo o ser humano possa renovar-se profundamente. Com o seu nascimento, introduziu-nos a todos na dimensão da divindade, concedendo a possibilidade de participar na sua própria vida divina a quem, pela fé, se torna disponível a acolher este dom seu” (Natal de 1998).

2. “Aos pés do Verbo encarnado, coloquemos alegrias e preocupações, lágrimas e esperanças. É que o mistério do ser humano só encontra verdadeira luz em Cristo, o homem novo”. (Natal de 1999).

3. “Natal é a festa da vida, porque Vós, Jesus, vindo à luz como cada um de nós, abençoastes a hora do nascimento: uma hora que simbolicamente representa o mistério da existência humana, unindo a aflição à esperança, a dor à alegria” (Natal de 2000).

4. “Cabe a nós enchermo-nos da força do seu amor vitorioso, assumindo a sua lógica de serviço e humildade. Cada um de nós é chamado a vencer, com Ele, ‘o mistério da iniquidade’, tornando-nos testemunhas de solidariedade e construtores de paz” (Natal de 2001).

5. “Ó Natal do Senhor, que inspirastes Santos de todos os tempos! Penso, entre outros, em São Bernardo e nas suas elevações espirituais diante das cenas comovedoras do presépio; penso em São Francisco de Assis, idealizador da primeira animação ‘ao vivo’ do mistério da Noite Santa; penso em Santa Teresa do Menino Jesus, que diante da orgulhosa consciência moderna voltou a propor, com o seu ‘pequeno caminho’, o autêntico espírito do Natal” (Natal de 2002).

6. “O resplendor do teu nascimento ilumine a noite do mundo. O poder da tua mensagem de amor, destrua as orgulhosas insídias do maligno. O dom da tua vida nos faça compreender sempre mais quanto vale a vida de cada ser humano” (Natal de 2003).

7. “Recordai-Vos de nós, eterno Filho de Deus, que tomastes da Virgem Maria a forma humana! A humanidade inteira, atribulada por provas e dificuldades, precisa de Vós. Ficai conosco, Pão vivo descido do Céu para nossa salvação! Ficai conosco para sempre. Amém!” (Natal de 2004).

Que devemos fazer?

Como preparar-se para o Natal

Sempre que irrompe diante de nossos olhos a novidade, surgem com ela as interrogações e as provocações a uma reação. Os fatos mais corriqueiros, positivos ou negativos, podem ser compreendidos como sinais que pedem nossa resposta, tanto que um mínimo de consciência pessoal e social causa indignação quando se espalha a indiferença e a insensibilidade. Passar pela rua e ver um acidente de trânsito suscita curiosidade, dela se vai à pergunta sobre as causas, verifica-se a ocorrência de ajuda às pessoas envolvidas, provoca-se a coragem para parar e perguntar se se pode fazer algo. É um processo que pode durar segundos ou horas, mas faz parte de nossa humanidade desejar envolver-se e participar, responder com gestos concretos aos fatos que nos cercam.

Diante do fato mais significativo de toda a história, o mistério do Verbo de Deus encarnado, em torno do qual gira o tempo, não é possível ficar indiferentes. Ao preparar a estrada do mundo e dos corações para a manifestação de Jesus Cristo, seu precursor João Batista (Lc 3,10-18) suscitou na multidão a pergunta que muda a vida: “Que devemos fazer?” Nos tempos que correm, quando a humanidade deve, pela duomilésima décima segunda vez dizer “bem vindo” ao Menino de Belém de Judá, nosso Senhor Jesus Cristo, Redentor da humanidade, repete-se a mesma interrogação. Das respostas dadas por João Batista, colhemos indicações precisas e atuais.

Prepara-se a vinda de Jesus e se estabelece o clima para com ele conviver, quando quem “tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo!” Existem no mundo recursos para uma vida digna de todos os seus habitantes. A natureza pode oferecer o necessário para alimentar sua população. São conceitos de uma “demografia” diferente, que parte da partilha e da comunhão, semelhante à coleta feita por São Paulo: “De fato, quando existe a boa vontade, ela é bem aceita com aquilo que se tem; não se exige o que não se tem. Não se trata de vos pôr em aperto para aliviar os outros. O que se deseja é que haja igualdade: que, nas atuais circunstâncias, a vossa fartura supra a penúria deles e, por outro lado, o que eles têm em abundância complete o que acaso vos falte. Assim, haverá igualdade, como está escrito: Quem recolheu muito não teve de sobra, e quem recolheu pouco não teve falta” (2 Cor 8,12-15). Fala-se tanto de uma crise mundial, e não poucos alertam para sua possível chegada às nossas plagas, e chegará mesmo, porque a era do individualismo, da ganância e do consumo descontrolado veio na frente. Independente das eventuais crises, realiza-se como pessoa humana quem se lança na aventura da partilha e da comunhão!

No tempo de João Batista, “até alguns cobradores de impostos foram para o batismo e perguntaram: Mestre, que devemos fazer? Ele respondeu: Não cobreis nada mais do que foi estabelecido”. Recentemente celebrou-se um dia de movimentação contra a corrupção! De João Batista para cá, as mazelas humanas continuam tendo características semelhantes e as respostas são as mesmas! Se criássemos juízo, nem seriam necessárias as sucessivas operações policiais para a mudança. É hora de retornar à proposta do Evangelho!

“Alguns soldados também lhe perguntaram: E nós, que devemos fazer? João respondeu: Não maltrateis a ninguém; não façais denúncias falsas e contentai-vos com o vosso soldo”. Mais uma vez a atualidade da Palavra se revela. Todos os que detêm algum poder da sociedade podem ouvir e descobrir atual a resposta de João Batista. Se o conselho foi dado aos soldados, que dizer aos que têm parentesco ou conluio com o crime organizado? Que se pode pensar da violência organizada no campo ou na cidade, em nosso Estado e em nosso País? Ou, se voltarmos ao recesso de nosso lar, onde tantas vezes se inicia a corrupção e o relaxamento moral, ali comece a superação da violência!

Santa ingenuidade! Poderão dizer algumas pessoas. É simplória a proposta da Igreja, que pede partilha dos bens, superação da corrupção, amor ao próximo? No entanto, a realidade demonstra que não há caminho mais verdadeiro. Quando o Evangelho diz que “assim e com muitas outras exortações, João anunciava ao povo” (Lc 3,18), fica aberta a conversa, para que cada um de nós pergunte ao Precursor, com coragem para ouvir a resposta, o que deve fazer para receber Jesus, aquele de quem João disse com sinceridade: “Virá aquele que é mais forte do que eu. Eu não sou digno de desatar a correia das suas sandálias. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo. Ele traz a pá em sua mão para limpar a eira, a fim de guardar o trigo no celeiro; mas a palha, ele queimará num fogo que não se apaga” (Lc 3,16-17).

Dom Alberto Taveira Corrêa  
Arcebispo Metropolitano de Belém

 

O que devemos fazer?
Como podemos manifestar de maneira concreta a conversão à qual o Senhor nos chama?

É a pergunta que as diversas situações fazem a João Batista diante da pregação da chegada do Messias, Salvador do Mundo. E João convida a todos à mudança concreta de vida. Essa mudança é para nós demonstrada com a celebração penitencial. Aproximamo-nos da grande solenidade do Natal do Senhor, quando a liturgia nos fará penetrar no mistério do Salvador, que se faz homem para nos redimir e elevar-nos à Sua divina dignidade. Como na noite de Natal, há dois mil anos passados, somos chamados a reconhecer a luz que ilumina as trevas da humanidade, e, reconhecendo-a, acercar-se dela e contemplá-la, a fim de que ela nos ilumine e nos faça partícipes da sua graça. Nessa perspectiva, somos chamados a olhar para o nosso interior e perceber o quanto cada um de nós, de maneira tanto particular quanto comunitária, vive o momento propício que o Tempo do Advento nos proporciona, no qual realizamos a caminhada do Povo de Deus da antiga Aliança, que, na expectativa do Messias, vivencia uma caminhada de penitência, a fim de se preparar para a chegada d’Ele. Precisamente por isso, no tempo do Advento a Igreja celebra o Mistério do Senhor revestida da cor litúrgica roxa, remetendo-nos à penitência e à conversão, chamando-nos a corresponder a esse sinal e a manifestar desse modo que, assim como o povo de Deus de outrora, nós também estamos na expectativa pela chegada do Senhor e desejamos que ela aconteça mediante nossa pureza de coração. No Evangelho do domingo passado, vimos o clamor de João Batista incitando o povo a “aplainar os caminhos do Senhor” e “endireitar suas veredas”. Esse brado veemente que o precursor do Messias exclamava por onde passava, precisamente na iminência da chegada d’Ele, também hoje é dirigido a todo o povo de Deus. Diante dessa certeza, precisamos assumir a nossa responsabilidade e reconhecermo-nos como sendo esse povo, e, desse modo, mergulhar nesse processo de penitência e conversão a que o Senhor, pelos lábios de João Batista, nos convoca. Todavia, como podemos manifestar de maneira concreta a conversão à qual o Senhor nos chama? Certamente é preciso tomar parte de um processo de reconciliação que se inicia no íntimo de cada um de nós. A conclusão desse processo, onde se manifesta a graça salvífica de Cristo, é o Sacramento da Confissão. É por ele que somos reconduzidos ao Senhor e, desta forma, reabilitados na vida da graça. Assim sendo, somos todos convidados a voltar sua atenção para a figura dos pastores, como apresentada na noite de Natal pelos evangelhos. Eles, sempre vigilantes, estavam prontos para caminharem até o Salvador quando da Sua chegada. Precisamente a eles, o anjo do Senhor dirigiu de modo primordial o anúncio alegre e solene da Sua chegada. E este anúncio primordial que os pastores receberam certamente tem sua razão de ser na vigilância em que eles se encontravam na noite em que o Senhor chegou para nós. E nós, até que ponto somos vigilantes? O próprio Senhor, no Evangelho, nos alerta para a necessidade de mantermos tanto a vigilância quanto a oração, pois não sabemos nem o dia nem a horaem que Elevirá. Exatamente por isso, somos todos convidados a observar a importância do Sacramento da Confissão nesse contexto de penitência e conversão que o tempo do Advento nos proporciona. Iniciemos por fazer nosso devido exame de consciência e observemos a figura de Maria, mulher da pureza e da oração, sempre confiante nas promessas do Senhor e a primeira a aderir de todo o coração ao convite do próprio Deus que a escolhera para ser a mãe do Salvador e, assim, colaborar com a salvação de toda a humanidade. Em seguida, olhemos para dentro de nós mesmos e observemos até que ponto nos configuramos ao Senhor, tendo por exemplo a figura de Maria.
Nesse sentido, o nosso convite para que todos reconheçamos no tempo litúrgico do Advento o momento propício para reconciliarmo-nos com Deus, para poder assim acolher generosa e dignamente o Salvador. Os sacerdotes são convidados a assumir o papel de João Batista, anunciando a chegada do Salvador e a necessidade de uma conversão verdadeira, que faça de cada cristão verdadeiras manjedouras onde se reclina o Salvador não só na noite de Natal, mas durante toda a caminhada da vida. Os padres assumem o papel de “aplainar a caminho do Senhor” na vida de quantos lhes são confiados, tendo a viva consciência de que são os mediadores da graça sacramental e de que depende largamente de sua eficiente ação pastoral a reconciliação do povo com o seu Deus. Precisamente por isso, sabendo do valioso momento dos “mutirões de confissões” em todas as paróquias, seria muito importante neste tempo que em todas as paróquias, institutos religiosos, oratórios, comunidades diversas seja ministrado de modo mais frequente o sacramento da Penitência, de maneira auricular, criando-se para isso horários condizentes com as realidades pastorais em que estão inseridos, não se medindo os esforços necessários para que o maior número de fiéis aproxime-se desse sacramento por meio do qual são reconduzidos à vida da graça. Ainda mais neste Ano da Fé será importante essa missão nas Igrejas de “peregrinação” para obter as indulgências. Reconheçamos no Senhor que está para chegar a “luz” que ilumina a nossa escuridão e nos dá a conhecer a maravilha que Ele traz: a felicidade eterna, a nossa Salvação. Nesta perspectiva, observemos como caminha nossa sociedade nesse período de aproximação do Natal e vejamos que em não poucos ambientes o protagonismo de Cristo, como “o esperado” na noite santa, “o aniversariante” que dá sentido a toda esta comemoração, está sendo cada vez mais ofuscado nos corações e nas vidas de tantas pessoas. Esse “pecado social” certamente possui uma dimensão particular que toca a cada um de nós, porquanto nos faz enxergar que se Cristo está sendo esquecido pela nossa sociedade, há uma parcela de culpa em cada cristão. Precisamente por isso, é preciso que nos reconheçamos pecadores, pois indiretamente somos carentes de um testemunho eficaz que manifeste ao mundo a beleza e a razão de ser do Nascimento do Salvador. Poderíamos, a partir dessa constatação, iniciar o nosso exame de consciência. A nossa pequenez nos convida a uma reflexão aprofundada, por meio da qual devemos eliminar de nossa vida tudo o que reconheçamos nos afastar de Deus. E o façamos de modo concreto, recorrendo ao Sacramento da Confissão. Enfim, voltemos novamente o nosso olhar para a figura dos pastores e reconheçamos neles a figura do cristão que vive “acordado” e a quem pode chegar a mensagem solene do anjo na noite santa. Precisamente porque os pastores estavam acordados, a eles chegou a notícia que a humanidade esperava, e diante deles os anjos apareceram entoando louvores a Deus por tão grande evento. Estar acordados significa estar despertados para a realidade objetiva, não se fechando em um mundo particular, onde só existe lugar para nossos próprios impulsos e inclinações. Conduzidos por essa visão particular da vida, muitos mergulham no egoísmo e fecham-se para a liberdade própria da boa-nova de Cristo. Estar acordados, ou melhor, “estar vigilantes”, significa sair do mundo particular e abraçar a Verdade que é o próprio Cristo, que caminha ao nosso encontro e chegará de maneira solene e intensa na liturgia do Natal que estamos a esperar. É neste sentido que o nosso despertar para o Natal do Senhor concretiza-se quando nos conscientizamos da realidade de que é preciso abandonar o pecado, deixar de lado tudo o que nos afasta de Deus, realizar um sincero e compromissado exame de consciência e mergulhar na graça do Sacramento da Confissão. O mesmo Cristo cujo nascimento celebraremos na noite do Natal do Senhor é o que nos espera nos confessionários. E a luz que guiou outrora os magos do Oriente no seu caminho a Belém para adorar o Messias é a mesma que deseja guiar a nossa vida se lhe formos ao encontro. Deste modo, enquanto povo de Deus que na liturgia do Tempo do Advento caminha rumo à chegada do Salvador, vivenciamos um tempo de penitência que não deve ser próprio somente da liturgia, mas da nossa vida de maneira completa. Por isso, não tenhamos medo, não recusemos tomar parte dentre os que buscam o Sacramento da Confissão, afim de que, iluminados pela estrela de Belém, sejamos manjedouras onde o Senhor dignamente quer se reclinar na noite santa do seu Natal.

† Orani João Tempesta, O. Cist.  
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

Solenidade da Imaculada Conceição – 08 de Dezembro

Padre Wagner Augusto Portugal

“Com grande alegria rejubilo-me no Senhor, e minha alma exultará no meu Deus, pois me revestiu de justiça e salvação, como a noiva ornada de suas jóias” (cf. Is 61, 10).

Meus queridos Irmãos,
Neste sábado celebramos uma festa muito cara a todo o povo cristão: a IMACULADA CONCEIÇÃO DA VIRGEM MARIA. O que significa Imaculada Conceição? Maria foi agraciada por Deus, elevada para assumir com eficiência sua vocação. Nela não esteve presente o pecado original, porque o Espírito de Deus operou maravilhas em sua vida e permitiu que fosse diferente das dos outros seres humanos. Maria conceberá e dará à luz Jesus virginalmente, selando a aliança definitiva de Deus com a humanidade. O dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora foi proclamado pelo Papa Pio IX, em 1854.

Caros Irmãos, Celebramos a festa da Imaculada Conceição no tempo do Advento. Maria está à raiz do mistério pascal e é o fundamento do mistério da Encarnação. Celebramos hoje uma mulher concreta, Maria de Nazaré. Deus, a quem nada é impossível criou como quis sua própria Mãe, a criou imaculada e santíssima, prevendo a encarnação de seu Filho na terra. Quando o arcanjo Gabriel lhe trouxe o anúncio da maternidade do Filho de Deus, lhe disse que ela estava repleta da graça de Deus. E no momento que ela fez uma coisa só com o Filho de Deus em seu ventre, a plenitude da graça ultrapassou todos os limites imagináveis pela criatura humana. Desde sempre o fruto mais precioso da redenção de Cristo, Maria é na história da salvação a imagem ideal de todos os redimidos.

O que vem a ser o pecado original lembrado na liturgia de hoje, tendo em vista que NOSSA SENHORA FOI PRESERVADA DO MESMO? Pecado Original é o pecado quer significar o pecado cometido por aqueles que foram os protagonistas do mistério da criação. Pecado original foi o pecado cometido por Adão e por Eva na origem da humanidade. Ensina as Escrituras Sagradas que Deus criou o homem e a mulher à sua imagem e os constituiu na sua amizade. Com o tempo, gozando da amizade do Criador, as criaturas humanas desobedeceram a Deus, ou seja, quebraram aquele anelo que uniam a absoluta confiança que havia entre Criador e criatura. Isso foi o primeiro pecado, o chamado pecado original. Portanto é bom sabermos que o pecado original não é o pecado do sexo livre, aquele pecado do sexto mandamento da Lei de Deus. O pecado original é o pecado raiz de todos os pecados e desequilíbrios da criatura humana. Todos nós, indistintamente, somos implicados no pecado de Adão e de Eva. Entretanto, por causa de sua maternidade divina, Maria Santíssima foi preservada tanto do pecado original quanto das conseqüências daquele Pecado.

Por isso celebramos a festa de hoje, a festa da Imaculada Conceição desde a concepção e que a Virgem viveu toda a sua peregrinação neste mundo sem pecado. Mulher privilegiada, em vista dos méritos de seu Filho, o Salvador, o Redentor da humanidade. Ensina a Igreja, pela palavra proclamada por Pio IX que: “A Beatíssima Virgem Maria, no primeiro instante de sua conceição, por singular graça e privilégio de deus onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha de pecado original…” Maria é a nova Eva. Isso porque Deus não usou de Maria como um instrumento somente passivo, mas, sobretudo, porque Maria colaborou para a salvação humana com livre fé e obediência espontânea. Maria foi à criatura que forneceu a Jesus as possibilidades humanas, sendo dele a maior colaboradora na restauração da aliança com Deus. A iconografia da Virgem Imaculada lembra Maria com o pé calcando a cabeça da serpente. Isso lembra também Eva, que fez o contrário: ouviu a voz da serpente, que é o diabo e acreditou nela. Maria, calcando a cabeça do monstro do mal está nos lembrando que ela esteve acima do pecado, que ela é a vitoriosa com Jesus na história da redenção.

Caros irmãos, A Primeira Leitura (Gn 2, 9-15.20) demonstra a vitória sobre a serpente. Deus quer oferecer ao homem sua amizade, mas o homem prefere estar cheio de sua auto-suficiência: a história do pecado de Adão. Mas, ao mesmo tempo em que ele toma conhecimento de sua desgraça, a promessa de que ele calcará aos pés a serpente sedutora aparece-lhe como sinal da restauração da amizade com Deus. A Segunda Leitura (Ef 1, 3-6.11-12) nos introduz no plano de Deus para com os homens, destinados a serem imaculados. O começo de Efésios resume todo o agir de Deus na palavra “bênção”. Deus é sempre; seu amor para conosco, também, desde a eternidade. E Deus é, ao mesmo tempo, a nossa meta. Mas não a podemos alcançar por nossas próprias forças. Aí intervém a graça de Deus, dando-nos Cristo como Salvador e Cabeça; por ele também, nosso pecado é apagado; nele, temos esperança: Deus nos adotou como seus filhos. O Evangelho (Lc 1, 26-38) nos defrontamos com a Anunciação: “Encontraste graça junto a Deus”. Maria conclui e supera toda a série de eleitos de Deus. Ela é a plenitude de Jerusalém, em que o amor de predileção de Deus se plenifica. A mensagem a Maria, a respeito de Jesus, supera aquela a Zacarias, a respeito de João (Lc 1, 31-33). Jesus é filho da Virgem Maria, mas também presente de Deus à humanidade. Diferentemente de Zacarias, Maria responde, com a palavra ao mesmo tempo singela e grandiosa: “Faça-se em mim segundo a tua Palavra”.

Irmãos Caríssimos, Maria não é uma figura fora da humanidade. Ela encarna a criatura que Deus sempre quis, isto é, santa e em comunhão com ele. Por isso é modelo nosso: a contemplamos como um espelho daquilo que devemos, e que queremos ser. Ela é chamada de estrela da nova evangelização, mas não há entre nós e ela a lonjura de uma estrela. Porque, embora santíssima e imaculada, é carne de nossa carne, como carne de nossa carne é o seu Filho redentor, que quis conosco repartir sua privilegiada mãe. A Imaculada Conceição pode ser considerada como Maria do Advento, pois o Senhor vem para restaurar os seres humanos, assemelhando-os mais e mais ao ser humano ideado por Deus, realizado plenamente em MARIA. AJUDE-NOS A CONCEIÇÃO IMACULADA a santos e imaculados festejarmos o Natal do seu Filho. Amém!

 

IMACULADA CONCEIÇÃO

Ninguém pode dizer não ter existido, pelo menos desde o século XII, a crença explícita na conceição imaculada da Virgem. Existiu, espalhou-se gradualmente por toda a Igreja ocidental e assim se explica que, antes da definição dogmática, de tantas centenas de pastores, aparecesse apenas um ou outro que tenha posto em dúvida esta verdade.

Esta persuasão foi-se espalhando e radicando, para o que contribuiu não somente a singeleza dos rudes, mas também e, sobretudo a autoridade dos doutos, chegando um autor insuspeito a afirmar, no fim do século XVI, que mais de seis mil escritores a ela se referiram. Mas não foram somente os indivíduos; academias inteiras, como nos afirma Bartolomeu Medina, obrigaram-se por juramento a defender a Conceição Imaculada de Maria. E nós, portugueses, podemos afirmar com satisfação que também tivemos duas dessas academias cujos membros juravam a crença nesta verdade: eram as Universidades de Coimbra e Évora.

Em 1304, o Papa Bento XI reuniu na Universidade de Paris uma assembléia dos doutores mais eminentes em teologia, para terminar as questões de escola sobre a Imaculada Conceição da Virgem; João Duns Escoto foi o encarregado pelo superior de defender e sustentar aquela consoladora verdade. Duns Escoto, franciscano, implorou o auxílio de Maria que escutou as suas súplicas, assegurando-lhe a mais completa vitória. E foi tão agradável à Mãe de Deus a prece deste filho humilde que a imagem, diante da qual estava prostrado, se inclinou para ele e nesta posição se venerava ainda três séculos depois.

Venceu, e desde esse momento a Universidade de Paris, que lhe outorgou o título de Doutor subtil, determinou que de futuro se celebrasse em toda a França a festa da Imaculada Conceição e que não fosse admitido nas suas aulas aquele que se não obrigasse a defender que Maria, Mãe de Deus, foi concebida sem mácula do pecado original.

Desde então, a Imaculada resplandeceu no mundo católico com luz mais viva. E os argumentos de Duns Escoto são os mesmos com que os teólogos defendem e sustentam o dogma tão simpático, tão consolador, tão poético, da santidade original de Maria, são os mesmos que Pio IX, de santa e feliz memória, compendiou na sua admirável bula Ineffabilis Deus.

A isto juntemos a autoridade dos santos padres. Ouçamos Santo Agostinho com aquela eloqüência e sabedoria que de todos é bem conhecida: «A natureza humana, dizia ele, foi reparada em Jesus Cristo pelos mesmos graus pelos quais ela tinha perecido. Adão foi soberbo, humilde foi Jesus; por uma mulher veio a morte, por uma mulher veio a vida; por Eva a desgraça, por Maria a salvação; aquela corrompida seguiu o sedutor, esta íntegra deu à luz o Salvador. Aquela de bom grado recebeu e entregou ao esposo o veneno fornecido pela serpente, do qual resultou a morte de ambos; esta, pela graça divina que recebeu, deu origem à vida pela qual a carne morta pode ser ressuscitada».

Recordemos ainda os concílios: o Concílio de Éfeso, condenando a heresia de Nestório que ousou negar a maternidade divina de Maria, e o concílio de Trento, declarando que não era intenção sua compreender no decreto do pecado original a Bem-aventurada Virgem Maria, proclamam implicitamente a puríssima e imaculada conceição da Mãe de Deus. E se não a definiram expressamente, foi porque ainda não tinha soado a hora marcada nos insondáveis desígnios da Providência.

As declarações dogmáticas da Igreja não têm somente a sabedoria e a infalibilidade, têm também a oportunidade. Aparecem no mundo quando devem aparecer, brilham no mundo quando ele tem necessidade dos seus eternos esplendores, alumiam as consciências quando elas precisam da sua luz.

O concílio de Basiléia, celebrado em 1439, declarou que a doutrina sobre a Imaculada Conceição era pia, muito conforme com o culto eclesiástico, com a fé católica, com a reta razão e a Sagrada Escritura, e que por isso devia ser aprovada, seguida e abraçada por todos os católicos.

Temos ainda os pontífices: Sisto IV determinando que se celebrasse em todas as igrejas o oficio e missa da Puríssima Conceição, concedendo copiosas indulgências a todos os fiéis que assistissem e condenando como falsas e errôneas as afirmações dos que dissessem que os que crêem que Maria foi concebida sem pecado original são hereges ou pecam mortalmente.

Temos Paulo V, Gregório XIV, Alexandre VIII, Clemente IX, Clemente XIII, e uma longa série de pontífices venerandos que promoveram e enriqueceram com inúmeras graças a antiga devoção à pureza e santidade original da Virgem Santíssima.

É que eles reconheciam que, assim como as águas do rio Jordão se tinham detido para deixar passar ilesa a arca do Antigo Testamento onde se encerravam umas figuras, também as águas corruptoras do pecado original se haviam de deter para deixar passar imaculada a Arca do Novo Testamento onde se encerraria, durante nove meses, a realidade que eles reconheciam. A Filha do Eterno, a Mãe de Jesus, a Esposa e o Templo do Espírito Santo não podia sofrer as conseqüências da tentação da serpente maldita.

Este dogma constitui também uma glória para Maria, concebida sem pecado. Oh! Quem nos dera graça igual; este mundo, longe de ser um vale de lágrimas, seria um jardim de delícias onde poderíamos antegozar a felicidade eterna que com certeza nos esperava.

Quem nos dera graça igual! As flores seriam para nós mais lindas, uma vez que, não tendo a vista enuviada pelo fumo das paixões, somente veríamos nelas os reflexos da beleza de Deus. As águas seriam mais cristalinas para não macularem a quem Deus criou imaculado. As avezinhas do céu acercar-se-iam de nós como dum perfeito exemplar do seu Criador. Nem paixões que abrasam, nem vícios que degradam, nem tristezas que definham, nem desilusões que desesperam; nada disto poderia escurecer o sol brilhante da nossa existência. Mas essa felicidade foi perdida com a falta dos nossos primeiros pais. Só Maria a gozou.

Só vós e vossa Mãe, dizia santo Efrém ao Senhor, só vós estais puros a todos os respeitos, porque em vós, ó Senhor, não há mancha e em vossa Mãe não há mácula; Ela foi o santuário da inocência, inacessível ao pecado, o paraíso virginal donde devia surgir o novo Adão.

Ela calcou aos pés a serpente, por isso trouxe em seu seio a realização de todas as promessas da antiga aliança, a bênção encarnada em quem foram abençoadas todas as nações da terra. Ela foi a verdadeira arca da aliança que encerrou em si o Todo Poderoso.

Como à primeira Eva foi concedida a graça da santidade original e da justiça, assim em grau muito mais elevado a outorgou Deus à segunda Eva: a Maria. Santificados foram os profetas que receberam a inspiração do Senhor; santo foi João, o último e maior deles; Maria, porém, foi maior do que todos, porque foi Mãe do Senhor e por isso cheia de graça desde a sua Conceição.

Resplandece de luz ante os olhos do Pai, que nela mostrou quanto sabe amar e encher de graças. Resplandece de luz ante os olhos do Espírito Santo, que nela preparou a morada para o Verbo Divino. E se Este, o Criador, baixou do céu à terra na humilhação da criatura, de Maria, porque não havia de subir esta da terra ao céu, a primeira de todas as criaturas, a Mãe que lhe dera a humanidade?

Temos também o testemunho de Maria. Do alto das Rochas de Massabille, quando a Pastorinha de Lourdes lhe perguntou quem era, respondeu: Eu sou a Imaculada Conceição, e mandou-a dizer aos homens que viessem ali invocá-la sob esse título, pois desejava que as iras divinas se quebrassem de encontro àquelas pedras enegrecidas.

Ó Maria, vós ultrapassastes os esplendores de todas as ordens de anjos e eclipsastes o brilho dos Arcanjos, abaixo de vós ficam os tronos, sois superior aos domínios e principados, sois mais forte do que as potestades, mais pura do que as virtudes, assentais-vos acima dos Querubins.

Foi em 8 de Dezembro de 1854 que se realizou a festa desejada por ,tantos santos, solicitada por tantos séculos, intentada por tantos pontífices, mas que o Senhor, em sua infinita misericórdia, reservou para tempos mais recentes, como uma esperança, como um auxílio. Presidiu-a o chefe da Igreja católica, Pio IX.

Alegre, satisfeito como um pai carinhoso quando se vê cercado dos filhos queridos da sua alma, rodeado por 54 cardeais, um patriarca, 42 arcebispos, 100 bispos, 300 prelados inferiores, muitos milhares de sacerdotes e religiosos de todos os ritos, regiões, ordens e trajes, e por mais de 50.000 fiéis de todas as classes e nações, Pio IX, a 8 de Dezembro de 1854, na atitude própria de doutor supremo encarregado de interpretar a divina revelação e de pronunciar os oráculos da fé, principia com voz grave, sonora e majestosa, a leitura do decreto que define a Imaculada Conceição da Virgem.

Mas, ao chegar à passagem em que se referia à Imaculada Conceição, essa voz enternece-se, as lágrimas assomam-lhe aos olhos e quando pronuncia as palavras decisivas: «Definimos, decretamos e confirmamos», a emoção e o pranto embargam-lhe a palavra e vê-se obrigado a suspender, para enxugar as lágrimas que pelo rosto lhe deslizam. Eloqüência sublime, eloqüência dum grande pai, pregando bem alto este privilégio da melhor das mães. Contudo, fez um esforço supremo para dominar a emoção e continuou a leitura com a inteireza da voz e autoridade próprias do juiz da fé. Seu coração eleva-se aos lábios e conhece-se bem que falam ao mesmo tempo o pai da Cristandade, o filho afetuoso de Maria e o supremo pastor da Igreja, aliando, dum modo sublime, o oráculo do doutor da verdade com os sentimentos dum coração ternamente dedicado à Virgem.

Oh! Como tudo isto era belo e agradável ao Senhor, como era imponente aquela assembléia inumerável, em que batia um só coração para amar a Maria, em que falava uma só boca para saudar a Maria, coroada com o diadema da Imaculada Conceição. Terminada a leitura do decreto, Pio IX entoou o Te Deum que se repetiu em toda a basílica como hino infinito de ação de graças e de reconhecimento singular, imenso, universal, ao glorioso privilégio de Maria, como uma oração ardente, unânime, apaixonada mesmo Àquela a quem o anjo, 19 séculos antes, saudara, dizendo: Ave cheia de graça, e a quem os homens hoje saúdam dizendo: Ave-Maria, concebida sem pecado original.

 

Maria, estrela da primeira e da nova evangelização
A festa da Imaculada Conceição de Maria no Ano da Fé
Pe. Giuseppe Buono, PIME

ROMA, quarta-feira, 5 de dezembro de 2012 (ZENIT.org) – Ao se aproximar a festa da Imaculada Conceição, neste Ano da Fé, queremos recordar algumas expressões do amor de Bento XVI e de João Paulo II por Nossa Senhora.

Bento XVI
O papa confiou a Maria o sucesso espiritual do Ano da Fé na carta apostólica Porta Fidei: “Confiamos este tempo de graça à Mãe de Deus, proclamada bendita porque acreditou (Lc 1, 45)” [1]. Ele já havia mencionado anteriormente a fé de Maria: “Pela fé, Maria acolheu as palavras do anjo e acreditou no anúncio de que seria a Mãe de Deus. Visitando Isabel, elevou seu hino de louvor ao Altíssimo pelas maravilhas que ele fez em quem nele confiou. Deu à luz, com alegria, o seu Filho único, mantendo intacta a sua virgindade” [2]. Sua contínua referência a Maria, Mãe da Igreja, é peculiar nos escritos de seu magistério. Em sua primeira encíclica, Deus caritas est, do natal de 2005, ele tece um elogio denso de teologia e de amor a Maria, em seu papel associado à obra redentora do Filho. “Entre os santos, sobressai Maria, a Mãe do Senhor e espelho de toda a santidade. No evangelho de Lucas, encontramo-la empenhada num serviço de caridade à prima Isabel, junto de quem permanece durante cerca de três meses (1, 56) para auxiliar na fase final da sua gravidez. ‘Magnificat anima mea Dominum’, proclama ela nessa visita: ‘a minh’alma engrandece o Senhor’ (1, 46). Ela expressa, assim, o seu programa de toda a vida: não colocar-se no centro, mas dar espaço para Deus tanto na oração quanto no serviço ao próximo: só então é que o mundo se tornará bom. Maria é grande, mas não quer aumentar a si mesma, e sim a Deus. Ela é humilde: não pretende ser nada mais do que a serva do Senhor (cf. Lc 1, 38.48). Ela sabe que contribui para a salvação do mundo não realizando uma obra sua, mas colocando-se totalmente à disposição das iniciativas de Deus. É uma mulher de esperança: só porque ela crê nas promessas de Deus e porque espera a salvação de Israel é que o anjo pode visitá-la e chamá-la ao serviço decisivo daquelas promessas. Ela é uma mulher de fé: ‘Bem-aventurada és tu que acreditaste’, diz-lhe Isabel (cf. Lc 1, 45). O magnificat, retrato da sua alma, é tecido inteiramente de fios da Sagrada Escritura, revelando que na Palavra de Deus ela se sente em casa com toda a naturalidade. Ela fala e pensa com a Palavra de Deus. A Palavra de Deus se torna sua palavra, e sua palavra nasce da Palavra de Deus. Revela-se ainda que os seus pensamentos estão em sintonia com os pensamentos de Deus, que a sua vontade é uma só com a vontade de Deus. Impregnada da Palavra de Deus, ela pode tornar-se a Mãe do Verbo Encarnado. Enfim, Maria é uma mulher que ama. Poderia ser diferente? Como crente, que, na fé, pensa com os pensamentos de Deus e deseja com a vontade de Deus, ela não pode não ser uma mulher que ama. Nós o sentimos em seus gestos silenciosos durante os evangelhos da infância. Na delicadeza com que ela reconhece a necessidade dos esposos de Caná e a expõe a Jesus. Na humildade com que ela se afasta durante o período da vida pública de Jesus, sabendo que o Filho deve fundar uma família nova e que a hora da Mãe chegará apenas na cruz, a verdadeira hora de Jesus (cf. Jo 2, 4; 13, 1). Então, quando os discípulos tiverem fugido, Maria permanecerá junto da cruz (cf. Jo 19, 25-27) e, mais tarde, na hora de Pentecostes, eles se reunirão junto a ela, na espera do o Espírito Santo! (Atos 1, 14) [3]. Em Loreto, na homilia da missa de 4 de outubro de 2012, véspera da abertura do Sínodo dos Bispos e do início do Ano da Fé, o papa afirmou: “Queridos irmãos e irmãs, nesta peregrinação que refaz o peregrinar do beato João XXIII, e que acontece, providencialmente, no dia de São Francisco de Assis, verdadeiro evangelho vivo, eu quero confiar à Santa Mãe de Deus todas as dificuldades do nosso mundo que está em busca de serenidade e de paz, bem como os problemas de tantas famílias que olham para o futuro com preocupação, os desejos dos jovens que se abrem para a vida, o sofrimento de quem espera gestos e escolhas de solidariedade e de amor. Eu gostaria de confiar à Mãe de Deus este tempo especial de graça para a Igreja, que se abre diante de nós. Maria, Mãe do sim, que ouviste Jesus, fala-nos dele, conta-nos da tua estrada para segui-lo na fé, ajuda-nos a proclamá-lo, para que cada homem aceite e se torne um lugar de habitação de Deus. Amém”. Na homilia da missa do último dia do ano de 2006, ele convidou: “Peçamos que a Mãe de Deus nos consiga o dom de uma fé madura: fé que gostaríamos que fosse o mais possível parecida com a dela. Uma fé clara, genuína, humilde e corajosa, cheia de esperança e de entusiasmo pelo Reino de Deus, uma fé desprovida de todo fatalismo e totalmente disposta a cooperar em obediência plena e alegre com a vontade divina, na certeza absoluta de que Deus não quer nada mais do que amor e vida, sempre e para todos. Alcança-nos, ó Maria, uma fé autêntica e pura!”
NOTAS
[1] Porta fidei, cit. 13.
[2] Ibid, 15.
[3] Idem, Deus Caritas Est, 41.
(Trad.ZENIT)

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