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Um milhão de amigos

O que você vai fazer com eles?

“Eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar…” Quem não conhece essa música do Roberto Carlos? Muito bonitinha mesmo, tem um ritmo alegre, refrão super bonder (basta passar uma vez pela sua cabeça para ficar grudado), mas será que é bom mesmo ter um milhão de amigos? Você teria tempo para todos eles? Conseguiria responder os recados do Twitter, Facebook, e-mail, SMS (mensagem de celular) de um milhão de pessoas? Será que você conseguiria ter intimidade e se sentir livre para revelar seus maiores segredos para um milhão de pessoas? Vamos descobrir se alguém consegue, realmente, ter um milhão de amigos?

Fico me perguntando o que se passa na cabeça de uma pessoa que, ao encontrar alguém que não conhece e, muitas vezes, de quem nem sabe o nome nem jamais ouviu uma só palavra sobre sua história, de repente, começa um diálogo chamando-o de “amiga”.

Sabe quando você está perdido e não consegue chegar a determinado lugar, mas encontra alguém e lhe diz: “amigo!”; chama um garçom ou recepcionista e lhe pede: ”Amigo, por favor…”

Amigo? Que história é essa? Você conhece, de verdade, o significado dessa palavra? Talvez existam outras fomas de tratamento mais adequadas para essas pessoas, como senhor (a), você…

A palavra “amigo” é sagrada. João Paulo II disse que “Cristo é o maior amigo e, simultaneamente, o educador de toda a amizade autêntica”. Se Ele é um educador, pode nos ensinar como descobrir quem são nossos verdadeiros amigos. Não é difícil descobri-los, basta pegar a Bíblia e abri-la em Jo 15,15b.

Jesus disse: “Eu vos chamo amigos”. Você acha que Ele disse isso para quantas pessoas? Será que o Senhor chamava o balconista da hospedaria de amigo? Ou o beduíno que lhe deu uma informação no meio do deserto? Não. Ele só falou isso para um grupo bem seleto de 12 pessoas, as quais possuíam, pelo menos, quatro características básicas:

1º – Escolha divina: não existia essa história de amizade forçada, pois esta não se inventa, mas é descoberta;

2º – Tempo: só depois de terem passado um bom tempo juntos, Jesus os chama de “amigos”. Essa história de amigo de Orkut, de Facebook ou um “amigo” que conhecemos, hoje, e já é nosso amigo (a) amanhã… não dá, não é bem por aí, não;

3º – Liberdade: os doze não ficaram falando na cabeça de Jesus: “diz que eu sou seu amigo vai, por favor” ou “eu sou seu melhor amigo?”. Não se esqueça de que o amor só pode florir no solo regado pela liberdade;

4º – Intimidade: Jesus disse: “Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi do meu Pai”. O dom da intimidade (recíproca) é característica básica de amizades autênticas.

Jesus tinha também “amigos íntimos”. Alguns os chamam de melhores amigos, mas talvez não seja esta a melhor forma de se referir a eles, no entanto, é uma forma de diferenciá-los. Sabe quem são? Pedro, Tiago e João. É só observar como Jesus os levava para situações-chave da Sua vida, como a Transfiguração (cf. Mt 17,1-9), o Monte das Oliveiras (cf. Mc 14,33) etc.

O mais interessante é que, mesmo que Jesus tivesse amigos íntimos, amigos, discípulos, o povo etc., Ele amava todos! Não lhe importava o “tipo de relacionamento”. Portanto, se você não é o amigo íntimo de alguém ou não consegue tratar todos os amigos da mesma maneira, fique tranquilo, porque isso é normal, chama-se “ser humano”; ser diferente disso que é o problema, pois se chama: “falsidade”. “Eu quero ter um milhão de amigos…” Você quer?

No fim das contas, o que vai valer mesmo não é quantidade de amigos que você tem ou acha que tem, mas se você vai fazer com os amigos que Deus lhe concedeu o mesmo que Jesus fez com os d’Ele: “Eu os amei até o fim (Jo 13,1)”.

Padre Sóstenes Vieira

Onde está nossa felicidade? A fé tem uma resposta para essa questão

Quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Dom Odilo fala sobre questões angustiantes como o sentido da vida e se vale a pena fazer o bem  

O fim do Ano Litúrgico nos coloca diante das “realidades últimas” da nossa existência: Para onde conduz a nossa vida? O que vem depois da vida neste mundo? Ainda haverá algo depois da morte?

No Ano da Fé, recordamos os grandes “mistérios da fé”, que Deus manifestou e nos quais cremos, junto com a Igreja. A fé é uma luz divina, que nos faz ver mais longe e compreender mais profundamente toda realidade – também aquilo que incomoda tanto o ser humano, que pensa e se interroga sobre o sentido da vida e da morte, sobre a base de sustentação do bem e da justiça, da liberdade humana e do anseio por plenitude e a saciedade para seus anseios e aspirações mais profundas.

No 33º Domingo do Tempo Comum, a Liturgia nos apresentou textos iluminadores da Palavra de Deus, que são respostas a muitas de nossas interrogações.

Vale a pena respeitar a Deus, ser honestos e praticar o bem? Ainda mais: vale a pena praticar o bem, mesmo com sofrimento? Esta sempre foi um angustiosa questão para o homem, sobretudo ao ver que os “ímpios” não respeitam o homem, nem a Deus, e vão bem na vida e até debocham de quem é honesto e reto em seu viver…

A resposta vem do profeta Malaquias, a sorte final de ímpios e justos não será a mesma; a justiça de Deus pode tardar, mas não falhará e colocará cada coisa no seu devido lugar. Os ímpios, como palha, serão queimados e não restará deles nem raiz; mas os justos podem ter a certeza: sobre eles se levantará o sol da justiça e lhes trará salvação (cf. Ml 3,19s).

Nossa Profissão de Fé católica afirma: “E de novo (Jesus) há de vir para julgar os vivos e os mortos, e o seu reino não terá fim”.

Na compreensão cristã da vida, nós não somos a última instância a decidir sobre o bem e o mal; nem tudo se resolve neste mundo, nem do jeito que cada um decide. Teremos que prestar contas a Deus sobre nossa vida e nosso agir, sobre o uso que tivermos feito de nossa liberdade.

Aliás, na visão da nossa fé, as coisas deste mundo não são ainda a realidade definitiva e final. Nem precisa ter muita fé para afirmar isso: nós passamos e as realidades deste mundo também passam; somos parte de uma realidade boa, mas ainda precária. Por isso, nossa fé nos leva a procurar os “bens eternos” e a “cidade definitiva”, onde Deus será tudo em todos.

Quando Jesus passeia no templo e os apóstolos lhe chamam a atenção para a grandiosidade e a beleza do templo de Salomão, ele responde: “Disso tudo não ficará pedra sobre pedra, mas tudo será destruído” (cf. Lucas, 21,9). E convida os apóstolos a perseverarem, firmes na fé e na prática do bem, mesmo em meio a perseguições e injúrias (cf. Lc 21, 7-19).

Se tivéssemos fé apenas para resolver questões deste mundo, seríamos os mais dignos de compaixão de todos os homens, no dizer de São Paulo. A fé firme em Deus e a esperança que brota da fé dão-nos coragem e força para a perseverança na prática do bem. A falta de fé dá origem ao imediatismo e à pretensão de ter tudo, já neste mundo.

Na “Oração do Dia” do 33º Domingo do Tempo Comum, nós pedimos a Deus: “Nossa alegria consista em vos servir de todo o coração, pois, só teremos felicidade completa, servindo a vós, o criador de todas as coisas”. Esta oração, de fato, corresponde ao primeiro mandamento da Lei de Deus: “Amar e servir a Deus de todo coração, com todas as forças”. Fora de Deus, não há felicidade plena.

Nossa fé, portanto, tem uma resposta para a questão angustiante do sentido da vida neste mundo e para a questão não menos angustiante do valor da prática do bem: há vida plena e felicidade completa para o homem, contanto que não se afaste de Deus e dos seus caminhos.

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo de São Paulo
@DomOdiloScherer

Descobriu sua vocação após pergunta de amigo agnóstico e agora é sacerdote

https://www.acidigital.com/noticias/descobriu-sua-vocacao-apos-pergunta-de-amigo-agnostico-e-agora-e-sacerdote-51060

Ordenação de Pe. Juan Pablo Aroztegi pelo Bispo de San Sebastián, Dom José Ignacio Munilla. Foto: Diocese de San Sebastián

San Sebastián, 06 Jul. 18 / 10:00 am (ACI).- Pe. Juan Pablo Aroztegi foi ordenado sacerdote no dia 2 de julho pelo Bispo de San Sebastián (Espanha), Dom José Ignacio Munilla, na catedral do Bom Pastor. O novo presbítero tem 35 anos, é engenheiro industrial e agora também é o sacerdote mais jovem da diocese.

Segundo relataram diversos meios de comunicação locais, Pe. Juan Aroztegi começou a discernir sua vocação depois que um amigo agnóstico lhe perguntou por que era cristão.

Até então, não tinha se questionado por que seguia Jesus Cristo, nem o que queria fazer de sua vida. Na época, trabalhava em uma empresa de software livre em Pamplona (Espanha), mas, depois de uma profunda reflexão, decidiu ingressar no seminário.

Quando Pe. Juan Pablo decidiu entrar no seminário, em um dos “maiores momentos de liberdade” de sua vida, e comunicou ao amigo que tinha lhe feito essas perguntas que mudaram sua vida, este o respondeu que esperava por isso.

“Os teus amigos te conhecem e podem intuir as tuas decisões. É irônico que um amigo agnóstico tenha me feito questionar minha vida cristã e minha vocação”, afirmou.

E, embora a maioria de seus amigos não sejam crentes, Pe. Juan Pablo assegura que têm “muito respeito”, por isso, alguns foram à Missa de ordenação sacerdotal no último domingo.

“As conversas que tive com alguns deles para comunicar sobre minha decisão foi um dos momentos mais bonitos da minha vida. Eu me senti livre e me mostrei como sou. Falamos de temas importantes que nunca havíamos tratado antes”, recordou.

Pe. Aroztegi explicou ao ‘Diario Vasco’ que nos dias antes da ordenação estava “tranquilo e emocionado”, porque “o que a princípio era como uma chama de fogo dentro de mim, pequena mas da qual não podia duvidar, durante esses anos foi ganhando força. Chego [à ordenação] sereno, porque me sinto muito livre. E, ao mesmo tempo, a emoção é grande. Estou emocionado por tudo o que significa e porque poderei me dar totalmente àquilo ao qual me sinto chamado”.

Segundo afirmou, sua família se surpreendeu quando contou sua decisão, embora sempre tivesse vivido a fé “de uma maneira muito natural”.

“ia à Missa aos domingos com eles [sua família]. Claro que durante a minha juventude e adolescência, não via o sacerdócio para minha vida, pensava que meu futuro era o de formar uma família. Mas, a vida dá muitas voltas”, afirma.

Segundo declarações ao ‘Diario Vasco’, este jovem sacerdote assegurou que gosta de “estar aberto às surpresas da vida. Quem me diria com 15 ou 22 anos que ia acabar sendo sacerdote, nem me passava pela cabeça. Sem dúvidas, as melhores coisas que aconteceram na minha vida foram inesperadas. Nesse sentido, hoje estou ansioso por tudo o que me espera na vida sacerdotal. Sinceramente, espero uma vida intensa e apaixonante, com momentos bons e outros de cruz e sofrimento, como em qualquer outro caminho na vida”.

Além disso, indicou que gostaria de seguir o exemplo de alguns sacerdotes que foram importantes em sua vida.

“Admiro os [sacerdotes] que não buscam ter êxito nem aplausos, mas ajudar a quem precisa sem que ninguém saiba. Atrai-me o sacerdote que é humilde em todos os sentidos, o que vê a si mesmo como um cristãos a mais, um discípulo de Jesus que está a caminho como qualquer outro. O que é um homem de Deus, reza por seu povo e não busca nada mais do que as coisas de Deus. E, sobretudo, atrai-me o sacerdote que cria unidade, que sabe estar com os demais”, assegurou.

Explicou ainda que um dos desafios do sacerdote de hoje é “formar comunidades cristãs nas quais se possa viver a grandeza da vida em Cristo”. Para isso, incentiva a “ir ao essencial, ao que importa na vida, a amar e ser amados”. E afirmou que se o cristianismo é vivido com autenticidade, “é verdadeiramente atrativo”.

Deus luta por nós, não contra nós, diz Papa na Catequese

Sobre o Pai-Nosso

Quarta-feira, 1 de maio de 2019, Da redação, com VaticanNews

Na Audiência Geral, Francisco deu continuidade ao ciclo de catequese sobre o Pai-Nosso, explicando a invocação: “Não nos deixeis cair em tentação”

Na Catequese, o Papa explicou que os cristãos não lidam com um Deus invejoso, em competição com o homem. Pelo contrário, quando o mal aparece na vida do homem, Deus combate ao seu lado, para libertá-lo/ Reprodução: VaticanMedia

Esta quarta-feira, 1º de maio, foi dia de trabalho para o Papa Francisco, que acolheu na Praça São Pedro milhares de fiéis e peregrinos para a Audiência Geral.

O Pontífice deu continuidade ao ciclo de catequese sobre o Pai-Nosso, explicando hoje a penúltima invocação: “Não nos deixeis cair em tentação” (Mt 6, 13).

Esta invocação, afirmou, nos introduz no âmago do drama, isto é, no terreno do confronto entre a nossa liberdade e as insídias do maligno. Independentemente da interpretação do texto, deve-se excluir que Deus seja o protagonista das tentações que pairam sobre o caminho do homem.

“Os cristãos não lidam com um Deus invejoso, em competição com o homem, ou que gosta de colocá-lo à prova”, disse Francisco. Pelo contrário, quando o mal aparece na vida do homem, combate ao seu lado, para que possa ser libertado. “Um Deus que combate por nós, não contra nós. É um Pai. É nesse sentido que rezamos o Pai-Nosso.”

Deus está sempre conosco, prosseguiu o Papa: “Quando nos dá a vida, durante a vida, nas alegrias, nas provações, na tristeza, nos fracassos quando pecamos. Mas sempre conosco porque é Pai, não pode nos abandonar”.

Diabo não é coisa antiga

Se somos tentados em fazer o mal, negando a fraternidade com os outros e desejando um poder absoluto sobre tudo e todos, Jesus já combateu por nós essa tentação.
Jesus foi tentado no deserto pelo Satanás. A sua vida pública começou assim, recordou o Papa. Alguns recriminam: “Mas por que falar do diabo, é uma coisa antiga, não existe. Mas o Evangelho nos ensina que Jesus enfrentou o diabo. E saiu vitorioso”.

Quando Jesus se retira para rezar no Getsêmani, seu coração é invadido por uma angústia indescritível, e Ele experimenta a solidão e o abandono a ponto de pedir aos seus amigos: “Ficai aqui e vigiai comigo” (Mt 26, 38). Eles adormeceram.

Mas no tempo em que o homem conhece sua provação, Deus ao invés vigia.

“ Nos momentos mais difíceis da nossa vida, mais sofridos, mais angustiantes, Deus vigia conosco, luta conosco, sempre perto de nós. Por quê? Porque é Pai. Assim começamos a oração: Pai-Nosso. Um Pai não abandona seus filhos. ”

É o nosso conforto na hora da provação: saber que aquele vale, desde que Jesus o atravessou, não está mais desolado, mas é abençoado pela presença do Filho de Deus.

“Afasta portanto de nós, ó Deus, o tempo de provação e da tentação. Mas quando chegar para nós este tempo, mostra-nos que não estamos sozinhos, que o Cristo já tomou sobre si o peso dessa cruz, e nos chama a carregá-la com Ele, abandonando-nos confiantes no amor do Pai”, foi a oração final do Pontífice.

Urbi et Orbi: A Páscoa é o início de um mundo novo, afirmou o Papa Francisco

https://www.acidigital.com/noticias/urbi-et-orbi-a-pascoa-e-o-inicio-de-um-mundo-novo-afirmou-o-papa-francisco-87977

Papa Francisco lendo sua mensagem de páscoa neste 21 de abril. Foto: Captura de tela Youtube Vatican Media

Vaticano, 21 Abr. 19 / 08:26 am (ACI).- O Papa Francisco fez uma firme defesa da paz no mundo durante a tradicional mensagem pascal prévia à Bênção “Urbi et Orbi”, dada à cidade de Roma e ao mundo, neste domingo 21 de abril, Domingo de Ressurreição, na Praça de São Pedro, insistindo que a Páscoa é o início da vida nova e do mundo novo que Cristo inaugura.

Em sua mensagem, o Santo Padre pediu ainda o fim dos conflitos em Síria, Israel e Palestina, Líbia, Sudão e Sudão do Sul e Ucrânia. Neste sentido, recordou que “Cristo vive e permanece connosco. Mostra a luz do seu rosto de Ressuscitado e não abandona os que estão na provação, no sofrimento e no luto.

Queridos irmãos e irmãs, feliz Páscoa!

Hoje, a Igreja renova o anúncio dos primeiros discípulos: «Jesus ressuscitou!» E de boca em boca, de coração a coração, ecoa o convite ao louvor: «Aleluia!… Aleluia!» Nesta manhã de Páscoa, juventude perene da Igreja e de toda a humanidade, quero fazer chegar a cada um de vós as palavras iniciais da recente Exortação Apostólica dedicada particularmente aos jovens:

«Cristo vive: é Ele a nossa esperança e a mais bela juventude deste mundo! Tudo o que toca torna-se jovem, fica novo, enche-se de vida. Por isso as primeiras palavras, que quero dirigir a cada jovem [e a cada] cristão, são estas: Ele vive e quer-te vivo! Está em ti, está contigo e jamais te deixa. Por mais que te possas afastar, junto de ti está o Ressuscitado, que te chama e espera por ti para recomeçar. Quando te sentires envelhecido pela tristeza, os rancores, os medos, as dúvidas ou os fracassos, Jesus estará a teu lado para te devolver a força e a esperança» (Chistus vivit, 1-2).

Queridos irmãos e irmãs, esta mensagem é dirigida ao mesmo tempo a todas as pessoas e ao mundo inteiro. A Ressurreição de Cristo é princípio de vida nova para todo o homem e toda a mulher, porque a verdadeira renovação parte sempre do coração, da consciência. Mas a Páscoa é também o início do mundo novo, libertado da escravidão do pecado e da morte: o mundo finalmente aberto ao Reino de Deus, Reino de amor, paz e fraternidade.

Cristo vive e permanece connosco. Mostra a luz do seu rosto de Ressuscitado e não abandona os que estão na provação, no sofrimento e no luto. Que Ele, o Vivente, seja esperança para o amado povo sírio, vítima dum conflito sem fim que corre o risco de nos encontrar cada vez mais resignados e até indiferentes. Ao contrário, é hora de renovar os esforços por uma solução política que dê resposta às justas aspirações de liberdade, paz e justiça, enfrente a crise humanitária e favoreça o retorno em segurança dos deslocados, bem como daqueles que se refugiaram nos países vizinhos, especialmente no Líbano e Jordânia.

A Páscoa leva-nos a deter o olhar no Médio Oriente, dilacerado por divisões e tensões contínuas. Os cristãos da região não deixem de testemunhar, com paciente perseverança, o Senhor ressuscitado e a vitória da vida sobre a morte. O meu pensamento dirige-se de modo particular para o povo do Iémen, especialmente para as crianças definhando pela fome e a guerra. A luz pascal ilumine todos os governantes e os povos do Médio Oriente, a começar pelos israelitas e os palestinenses, e os instigue a aliviar tantas aflições e a buscar um futuro de paz e estabilidade.

Que as armas cessem de ensanguentar a Líbia, onde, nas últimas semanas, começaram a morrer pessoas indefesas, e muitas famílias se viram forçadas a deixar as suas casas. Exorto as partes interessadas a optar pelo diálogo em vez da opressão, evitando que se reabram as feridas duma década de conflitos e instabilidade política.

Cristo Vivente conceda a sua paz a todo o amado continente africano, ainda cheio de tensões sociais, conflitos e, por vezes, extremismos violentos que deixam atrás de si insegurança, destruição e morte, especialmente no Burkina Faso, Mali, Níger, Nigéria e Camarões. Penso ainda no Sudão, que está a atravessar um período de incerteza política e onde espero que todas as instâncias possam ter voz e cada um se esforce por permitir ao país encontrar a liberdade, o desenvolvimento e o bem-estar, a que há muito aspira.

O Senhor ressuscitado acompanhe os esforços feitos pelas autoridades civis e religiosas do Sudão do Sul, sustentados pelos frutos do retiro espiritual que, há poucos dias, se realizou aqui no Vaticano. Que se abra uma nova página da história do país, na qual todos os componentes políticos, sociais e religiosos se empenhem ativamente em prol do bem comum e da reconciliação da nação.

Nesta Páscoa, encontre conforto a população das regiões orientais da Ucrânia, que continua a sofrer com o conflito ainda em curso. O Senhor encoraje as iniciativas humanitárias e as iniciativas destinadas a buscar uma paz duradoura.

Que a alegria da Ressurreição encha os corações de quem sofre as consequências de difíceis situações políticas e econômicas, no continente americano. Penso de modo particular no povo venezuelano: em tanta gente sem as condições mínimas para levar uma vida digna e segura, por causa duma crise que perdura e se agrava. O Senhor conceda, a quantos têm responsabilidades políticas, trabalhar para pôr fim às injustiças sociais, abusos e violências e realizar passos concretos que permitam sanar as divisões e oferecer à população a ajuda de que necessita.

O Senhor ressuscitado oriente com a sua luz os esforços que estão a ser feitos na Nicarágua para se encontrar, o mais rápido possível, uma solução pacífica e negociada em benefício de todos os nicaraguenses.

Perante os inúmeros sofrimentos do nosso tempo, o Senhor da vida não nos encontre frios e indiferentes. Faça de nós construtores de pontes, não de muros. Ele, que nos dá a paz, faça cessar o fragor das armas, tanto nos contextos de guerra como nas nossas cidades, e inspire os líderes das nações a trabalhar para acabar com a corrida aos armamentos e com a difusão preocupante das armas, de modo especial nos países mais avançados economicamente. O Ressuscitado, que escancarou as portas do sepulcro, abra os nossos corações às necessidades dos indigentes, indefesos, pobres, desempregados, marginalizados, de quem bate à nossa porta à procura de pão, dum abrigo e do reconhecimento da sua dignidade.

Queridos irmãos e irmãs, Cristo vive! Ele é esperança e juventude para cada um de nós e para o mundo inteiro.

Deixemo-nos renovar por Ele! Feliz Páscoa!

Catequese sobre o sacramento da confissão

Penitência

Para viver uma boa confissão, entenda o sentido do sacramento da reconciliação

1. O que é confissão?
Confissão ou penitência é o sacramento instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo, para que os cristãos possam ser perdoados de seus pecados e receber a graça santificante. Também é chamado de sacramento da reconciliação.

2. Quem instituiu o sacramento da confissão ou penitência?
O sacramento da penitência foi instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo nos ensina o Evangelho de São João: “Depois dessas palavras (Jesus) soprou sobre eles dizendo-lhes: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem vocês perdoarem os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (Jo 20, 22-23).

3. A Igreja tem a autoridade para perdoar os pecados pelo sacramento da penitência?
Sim, a Igreja tem essa autoridade, porque a recebeu de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Em verdade vos digo: tudo o que ligardes sobre a terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes sobre a terra será também desligado no céu” (Mt 18,18).

4. Por que me confessar e pedir o perdão para u m homem igual a mim? 
Só Deus perdoa os pecados. O Padre, mesmo sendo um homem sujeito às fraquezas como outros homens, está ali em nome de Deus e da Igreja para absolver os pecados. Ele é o ministro do perdão, isto é, o intermediário ou instrumento do perdão de Deus, como os pais são instrumentos de Deus para transmitir a vida a seus filhos; e como o médico é um instrumento para restituir a saúde física etc.

5. Os padres e bispos também se confessam?
Sim, obedientes aos ensinamentos de Cristo e da Igreja, todos os padres, bispos e mesmo o Papa se confessam com frequência, conforme o mandamento: “Confessai os vossos pecados uns aos outros” (Tg 5,16 ).

6. O que é necessário para fazer uma boa confissão?
Para se fazer uma boa confissão são necessárias 5 condições:
a) um bom e honesto exame de consciência diante de Deus;
b) arrependimento sincero por ter ofendido a Deus e ao próximo;
c) firme propósito diante de Deus de não pecar mais, mudar de vida, converter-se;
d) confissão objetiva e clara a um sacerdote;
e) cumprir a penitência que o padre nos indicar.

7. Como deve ser a confissão?
Diga o tempo transcorrido desde a última confissão. Acuse (diga) seus pecados com clareza, primeiro os mais graves, depois os mais leves. Fale resumidamente, mas sem omitir o necessário. Devemos confessar os nossos pecados e não os dos outros. Porém, se participarmos ou facilitarmos, de alguma forma, o pecado alheio, também cometeremos um pecado e deveremos confessá-lo (por exemplo, se aconselharmos ou facilitarmos alguém a praticar um aborto, seremos tão culpados quanto quem o cometeu).

8. O que pensar da confissão feita sem arrependimento ou sem propósito de conversão, ou seja, só para “descarregar” um pouco os pecados?
Além de ser uma confissão totalmente sem valor, é uma grave ofensa à Misericórdia Divina. Quem a pratica comete um pecado grave de sacrilégio.

9. Que pecados somos obrigados a confessar?
Somos obrigados a confessar todos os pecados graves (mortais). Mas é aconselhável também confessar os pecados leves (veniais) para exercitar a virtude da humildade.

10. O que são pecados graves (mortais) e suas consequências?
São ofensas graves a Deus ou ao próximo. Eles apagam a caridade no coração do homem e o desviam de Deus. Quem morre em pecado grave (mortal) sem arrependimento, merece a morte eterna, conforme diz a Escritura: “Há pecado que leva à morte” (1Jo 5,16b).

11. O que são os pecados leves (ou também chamados de veniais)?
São ofensas leves a Deus e ao próximo. Embora ofendam ao Senhor, não destroem a amizade entre Ele e o homem. Quem morre em pecado leve não merece a morte eterna. “Toda iniquidade é pecado, mas há pecado que não leva à morte” (1Jo 5, 17).

12. Pode dar alguns exemplos de pecados graves?
São pecados graves, por exemplo: assassinato, aborto provocado, assistir ou ler material pornográfico, destruir de forma grave e injusta a reputação do próximo, oprimir o pobre, o órfão ou a viúva, fazer mau uso do dinheiro público, o adultério, a fornicação entre outros.

13. Quer dizer que todo aquele que morre em pecado mortal está condenado?
Merece a condenação eterna. Porém, somente Deus, que é justo e misericordioso e que conhece o coração de cada pessoa, pode julgar.

14. E se tenho dúvidas se cometi pecado grave ou não?
Para que haja pecado grave (mortal) é necessário:
a) conhecimento, ou seja, a pessoa deve saber, estar informada que o ato a ser praticado é pecado;
b) consentimento, ou seja, a pessoa tem tempo para refletir, e escolhe (consente) cometer o pecado;
c) liberdade, isto é, significa que somente comete pecado quem é livre para fazê-lo;
d) matéria, ou seja, significa que o ato a ser praticado é uma ofensa grave aos Mandamentos de Deus e da Igreja.

Essas quatro condições também são aplicáveis aos pecados leves, com a diferença que, neste caso, a matéria é uma ofensa leve contra os Mandamentos de Deus.

15. Se esqueci de confessar um pecado que acho grave?
Se esquecer realmente, o Senhor lhe perdoou, mas é preciso acusá-lo ao sacerdote em uma próxima confissão.

16. E se não sinto remorso, cometi pecado?
Não sentir peso na consciência (remorso) não significa que não tenhamos pecado. Se nós cometemos livremente uma falta contra um Mandamento de Deus, de forma deliberada, nós cometemos um pecado. A falta de remorso pode ser um sinal de um coração duro ou de uma consciência pouco educada para as coisas espirituais (por exemplo, um assassino pode não ter remorso por ter feito um crime, mas seu pecado é muito grave).

17. A confissão é obrigatória?
O católico deve confessar-se, no mínimo, uma vez por ano, ao menos a fim de se preparar para a Páscoa. Mas somos também obrigados a nos confessar toda vez que cometemos um pecado mortal.

18. Quais os frutos de se confessar constantemente?
Toda confissão apaga completamente nossos pecados, até mesmo aqueles que tenhamos esquecido. E nos dá a graça santificante, tornando-nos, naquele instante, uma pessoa santa. Dá-nos tranquilidade de consciência e consolo espiritual. Aumenta nossos méritos diante do Criador. Diminui a influência do demônio em nossa vida. Faz criar gosto pelas coisas do alto. Exercita-nos na humildade e nos faz crescer em todas as virtudes.

19. E se tiver dificuldade para confessar um determinado pecado?
Se somos conhecidos de nosso pároco, devemos fazer a confissão com outro padre para nos sentirmos mais à vontade. Em todo caso, antes de se confessar, converse com o sacerdote sobre a sua dificuldade. Ele usará de caridade para que a sua confissão seja válida sem lhe causar constrangimentos. Lembre-se: ele está no lugar de Jesus Cristo!

20. O que significa a penitência dada no fim da confissão?
A penitência proposta no fim da confissão não é um castigo; mas antes uma expressão de alegria pelo perdão celebrado.

Padre Wagner Augusto Portugal

O Dízimo e a Taxa

O verdadeiro significado do dízimo é justo e verdadeiramente cristão
Pe. Inácio José Schuster
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Piedade
Bairro Hamburgo Velho, Novo Hamburgo, RS

O dízimo é uma doação regular e proporcional aos rendimentos do fiel, que todo batizado deve assumir. É uma forma concreta que o cristão tem para manifestar a sua fé em Deus e o seu amor ao próximo, pois é por meio dele que a Igreja realiza diversas obras de caridade e assistência aos menos favorecidos. Pelo dízimo, podemos viver as três virtudes mais importantes para todo cristão: a Fé, a Esperança e o Amor, que nos levam para mais perto de Deus.
O dízimo é um compromisso. Representa a nossa vontade de colaborar, de verdade, com o projeto divino de felicidade para todos. Os judeus davam 10% de tudo o que colhiam da terra com o seu trabalho: daí vem a palavra “dízimo”, que significa “décima parte”. Todos são convidados a oferecer de fato a décima parte daquilo que ganham, mas não somos obrigados. O importante é entender que o dízimo não é esmola. Deus merece a doação feita com alegria, e jamais nos priva da nossa liberdade. Além disso, o que é doado com alegria faz bem a quem recebe! Cada pessoa deve definir livremente, sem tristeza nem constrangimento, qual percentual dos seus ganhos irá separar para o dízimo.
A Igreja não exige a doação de 10% do que ganhamos; porém, para ser considerado dízimo, é preciso que seja um percentual, isto é, uma porcentagem dos seus ganhos, sendo no mínimo 1%. Se alguém ganhar R$ 1.000,00 e oferecer R$ 10,00, isto ainda pode ser considerado dízimo. Menos do que isso, porém, seria uma oferta.
E a experiência comprova: aqueles que, confiantes na Providência Divina, optaram pelo dízimo integral, não se arrependeram nem sentiram falta em seus orçamentos. Ao contrário, muitos dizimistas dão o testemunho de que depois que passaram a contribuir com a Igreja e a comunidade dessa maneira, passaram a se sentir especialmente abençoados: Deus não desampara os que nele confiam.
Mas isso não quer dizer que devemos dar o dízimo esperando “ganhar em dobro”, nem receber algo em troca, como se pudéssemos negociar ou barganhar com Deus. Aqueles que ensinam tais coisas nada entendem do contexto bíblico, nem do significado de partilha que era tão presente na Igreja primitiva. A entrega do dízimo normalmente é mensal, porque a maioria das pessoas recebe salário todo mês. Os que recebem semanalmente podem combinar de entregá-lo uma vez por semana, por exemplo.
O importante é saber que o dízimo deve ser entregue na comunidade com a mesma regularidade com que recebemos os nossos ganhos. Já as ofertas são doações espontâneas, com as quais o fiel também pode e deve participar da vida em comunidade, mas nesse caso não existe regularidade, como no dízimo. – Você pode doar na hora do ofertório, durante as Missas ou fazer depósitos nas caixas de coleta, mas não se trata de um compromisso fixo assumido com a sua comunidade, e sim uma manifestação de amor, caridade e confiança.
Cada vez mais católicos se conscientizam da importância do dízimo e das ofertas. É bom encontrar a igreja limpa, bem equipada e tudo funcionando bem. Mas, infelizmente, muitos se esquecem de que, para isso, todos precisam colaborar! Somos a família do Senhor, e a igreja é a casa de todos nós. Contamos com o seu desejo de viver comunidade: aceite o chamado do Pai Eterno e diga sim ao compromisso de levar adiante os trabalhos evangelizadores da Paróquia da qual você faz parte. Informe-se sobre como se tornar um dizimista.
Faça a sua parte! “Dê cada um conforme o impulso do seu coração, sem tristeza nem constrangimento. Deus ama a quem dá com alegria” (2Cor 9, 7).

A Diocese de Novo Hamburgo estabeleceu, em 20 de novembro de 1998, as normas de funcionamento dos cemitérios. O item 1.) dispõe: “a contribuição para o Dízimo, a partir de janeiro de 1999, está desvinculada da contribuição para o Cemitério.” E o item 2.) “ninguém pode ser associado do cemitério sem ser contribuinte do dízimo paroquial”. Nesses dois itens, a normativa diocesana estabelece a participação, o compromisso e a responsabilidade do católico com sua paróquia.
Cabe-nos, então, refletir sobre a distinção entre dízimo que nos leva à comunhão/participação na Igreja e a taxa de cemitério que nos leva à associação/participação no cemitério. Dízimo é sinal de pertença à Comunidade de Fé. Ser dizimista fiel é graça divina é pré-requisito para associar-se ao Cemitério. Contribuir com o dízimo é acolher o quinto mandamento da Lei da Igreja, dever de todo o batizado católico.
O pagamento da taxa do cemitério permite acolhimento privilegiado da obra de misericórdia corporal: “Sepultar os mortos”, um dever de todo ser humano. A oferta do dízimo mensal é distinta da taxa do cemitério e possuem naturezas e finalidades diferentes.
Vejamos:
1. Dízimo é direito e dever de todo paroquiano para com a sua Igreja; Taxa é obrigação contratual de alguns em benefício pessoal ou familiar.
2. Dízimo é ação e compromisso comunitário de todos os católicos da paróquia; Taxa é opção e compromisso particular de alguns católicos da paróquia.
3. Dízimo é uma oferta a Deus, entregue na Comunidade de Fé, como expressão de amor e gratidão pelos bens materiais e espirituais recebidos em vida; Taxa é pagamento de aluguel e manutenção de um espaço usado na morte.
4. Dízimo vem em benefício de todos os paroquianos; Taxa vem em benefício só de alguns paroquianos.
5. Dízimo nos faz participantes da comunidade de fé; Taxa nos faz participantes do cemitério.
6. Dízimo é um bem que sustenta e dá vida à Igreja; Taxa é um bem que mantém e embeleza as sepulturas.
7. Dízimo é a resposta de um cristão católico de coração agradecido; Taxa é a resposta de um cristão católico de coração previdente.
8. Do dízimo brota a alegria da promoção da vida em comunidade; Da taxa brota o conforto de um sepultamento privilegiado.
9. Dízimo é um bem material que se converte em bem espiritual; Taxa é um bem material que se converte em bem social.
10. Dízimo possibilita investimentos na Igreja viva, corpo místico de Cristo; Taxa possibilita investimentos no cemitério, local de corpo sem vida.

A Cura entre Gerações

D. Estevão Bettencourt, osb
PERGUNTE E RESPONDEREMOS 551
maio 2008

Em síntese: A cura dita “entre gerações” não pode significar que uma geração tenha de prestar expiação pelos pecados dos antepassados, pois cada um responde por si apenas. Pode-se entender tal cura do seguinte modo: todo pecado deixa suas consequências na sociedade em que tenha sido cometido: mau exemplo, ódio de uns para os outros, estímulo à vingança… Ora o que o cristão pede a Deus, não é o perdão dos pecados alheios (no além já não há conversão), mas pede que faça cessar a má influência que os pecados dos antepassados exercem seja extinta, ficando todos os descendentes isentos de qualquer consequência negativa derivada dos pecados dos antepassados.
Debate-se muito a questão da “cura entre gerações”: Deveria uma geração prestar satisfação a Deus pelos pecados de seus antepassados? É o que passamos a examinar nas páginas subsequentes.

1. Uma falsa interpretação
Há quem julgue que o sofrimento que alguém hoje padece não é senão a consequência dos pecados dos antepassados, pois está escrito em Ex 20, 5: “Castigo a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração dos que me odeiam”. Seria preciso então pedir a Deus a cessação de tal castigo. Esta concepção é falha a mais de um título:
a) pode dar a crer que estamos sujeitos a certa fatalidade, pesada e cruel, atormentando pessoas inocentes. O livre arbítrio não funcionaria; haveria um destino traçado para cada ser humano em consequência dos pecados dos antepassados:
b)- No tempo do exílio de Judá na Babilônia (587-538), muitos dos exilados se recusavam a fazer penitência, pois diziam que estavam sendo punidos não por causa de seus pecados, mas por causa da iniquidade dos ancestrais. Assim se exprimia a mentalidade do clã: todos pagam por um.
c)- A este modo de pensar se opuseram, em nome do Senhor, os profetas Jeremias e Ezequiel: Jr 31, 29s: “Naqueles dias não se dirá mais: os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos ficaram embotados. Mas cada um morrerá por sua própria iniquidade: todo aquele que comer uvas verdes, ficará com os dentes embotados”. Ver Ez 18, 1-9.
d)- Como se vê, a responsabilidade é pessoal, ao invés do que pensavam os antigos judeus, que professava a mentalidade do clã: esta não levava devidamente em conta o indivíduo, mas o clã, o conjunto a que pertencia cada indivíduo. Aos poucos foi-se valorizando o indivíduo como tal e suas responsabilidades pessoais. Não há destino; o livre arbítrio do homem é capaz de fazer suas opções, sem depender do que tenham feito ou não feito os antepassados. Locução semelhante ocorre em Ex 20, 8: “Uso de misericórdia até a milésima geração com aqueles que me amam e observam os meus mandamentos”. A alusão à mentalidade do clã chega a ser hiperbólica.
– Daí a pergunta:

2. Como entender a cura entre gerações?
Eis a explicação mais plausível: Toda iniquidade, principalmente as graves falhas, deixam marcas na sociedade em que vive o pecador: um mau exemplo, um precedente daninho que se abre, ódio, desejo de retaliação… Não é só o pecador que se prejudica pelo pecado, mas é a sociedade que com ele sofre danos físicos ou morais. Principalmente os familiares mais próximos descendentes do delinquente culpado sentirão a amargura da herança deixada pelo(s) ancestrais falecidos.
João Paulo II dizia: “Todo pecado trás uma hipoteca social para o conjunto da Igreja, pois se um membro do corpo sofre, todos padecem com ele”. Os pecados cometidos pelos antepassados podem ter consequências para as gerações futuras não porque Deus queira castigar a estas, mas porque transmitem um âmbito marcado pelo pecado.   Esse âmbito pode influenciar o livre arbítrio de alguns descendentes, mas não lhe tira a liberdade de optar pelo bem, à revelia do que sugere o legado recebido dos ancestrais. É sobre este pano de fundo que se coloca a cura das gerações. Esta não pede a Deus perdão pelas culpas dos antepassados, mas pede que os desgastes causados pelo pecado dos mais velhos não afetem os descendentes. O sofrimento de que padece alguém hoje não é necessariamente castigo; pode ser uma provação; Deus é pai, que ama seus filhos e, por isto, os educa e corrige, burilando suas arestas para que possam ser cidadãos dignos da Jerusalém celeste. A graça de Deus pode livrar determinado indivíduo dos seus sofrimentos, principalmente quando obtida através da Santa Missa. Mas, como dito, o sofrimento pode ser uma provação valiosa que faz amadurecer a nossa fé e que convém aceitar generosamente, sem que o cristão peça a sua cessação, mas antes peça a coragem para atravessar com alegria e magnanimidade o período da provação, do qual poderá sair ainda mais santificado.
Em conclusão dizemos:
a) após quanto ponderamos não creiamos que todo sofrimento é castigo de pecados do sofredor ou dos seus antepassados.
b) mas também reconheçamos que estamos sujeitos a sofrer das imprudências ou da altivez de nossos ancestrais (sem que Deus esteja punindo por pecados do passado).

 

Pergunte e Responderemos
Ano XLIV
Dezembro de 2003 – 498
Dom Estêvão Bettencourt, OSB
Piedade em questão: “COMO REZAR PELA CURA ENTRE GERAÇÕES”
(Análise do livro de Pe. Alberto Gambarini)

Em síntese: A tese do livro supõe que alguém possa estar atua!¬mente sofrendo males físicos ou psíquicos em decorrência de faltas cometidas pelos ancestrais — o que vem a ser falso; a própria Escritura dissuade de assim pensar (ver Jr 31, 29; Ez 18, 1-4). Ademais o livro emprega certas expressões inadequadas.
* * *
O Pe. Alberto Gambarini é benemérito por seus escritos e seus trabalhos apostólicos. Todavia em alguns de seus livros defende uma tese insustentável aos olhos da reta fé: com ênfase especial é proposta no livro “Como rezar pela cura entre gerações”, obra esta cujo conteúdo será, a seguir, comentado.

1. A tese do livro
O autor afirma que certas pessoas podem estar padecendo males físicos ou psíquicos em conseqüência de faltas cometidas pelos antepassados. Haveria também maldições hereditárias ou proferidas por ancestrais e aplicadas à geração presente. O autor explica seu modo de pensar relatando o seguinte caso: “Um exemplo simples de como a oração pelos falecidos é eficaz foi dado por uma pessoa de minha paróquia. ‘Quando comecei a fazer a árvore da família, não imaginava a possibilidade de ser curada de uma insônia crônica. Já havia tentado todo tipo de tratamento sem alcançar êxito. Aparentemente, não existia motivo para eu não conseguir dormir Perguntando aos meus familiares sobre os nossos antepassados, cheguei ao meu avô. Ele sofria de insônia e ficava acordado a noite inteira. Essa situação incomodava os filhos, que não entendiam seu sofrimento. E ele rogou uma praga dizendo que os filhos dos seus filhos teriam o mesmo problema. Eu era sua neta e estava sofrendo deste mal. Rezando, pude reviver todo o sofrimento de meu avô pela incompreensão dos familiares e, ao mesmo tempo, pedi a Deus para que seu amor misericordioso fosse dado a ele. Também mandei celebrar algumas missas pelo meu avô. Na medida em que eu intercedia em favor de meu avô, pelos seus filhos, meu pai e tios, meu coração foi invadido por uma experiência profunda de paz, e também fui curada para sempre da minha insônia”’ (pp. 22s). Para justificar sua tese, o Pe. Alberto cita passagens bíblicas: “Eu sou o Senhor, teu Deus, um Deus zelosa que vinga a iniqüidade dos pais nos filhos, nos netos e nos bisnetos daqueles que me odeiam”(Ex 20, 5). “Senhor, dignai-vos, pela vossa misericórdia, afastar de vossa cidade santa, Jerusalém, vossa cólera e vossa exasperação, porque é devido às nossas iniqüidades e aos pecados de nossos antepassados que Jerusalém e vosso povo são alvo de insultos de todos os nossos vizinhos”(Dn 9, 16).

2)- Pergunta-se agora: Que dizer?
Proporemos três ponderações:

2.1. Mentalidade do clã
Os textos bíblicos sobre os quais se baseia a tese do Pe. Gambarini, supõem a mentalidade do clã, segundo a qual o individuo não tem valor como tal; é o clã ou o grupo que dá significado ao indivíduo; o clã arca com as conseqüências daquilo que o indivíduo faz. Essa mentalidade primitiva foi posteriormente corrigida em Israel; com efeito, durante o exílio na Babilônia (587-538) os exilados alegavam estar sendo punidos por causa dos pecados dos antepassados; seriam eles, no exílio, inocentes e não teriam necessidade de fazer penitência. Intervieram então os Profetas para dissipar o raciocínio e o princípio que o sustentava: Ez 18, 1-4: “A palavra do Senhor veio a mim nestes termos: Que provérbio é este que andais repetindo na terra de Israel ‘Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos ficaram embotados’ Juro por minha vida — oráculo do Senhor Deus — não repetireis mais esse provérbio. Tanto a vida do pai como a vida do filho me pertencem. Quem peca é que morrerá”. Jr 31, 29: “Nesses dias já não se dirá: ‘Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos se embotaram’. Mas cada um morrerá por sua própria falta. Todo homem que tenha comido uvas verdes, terá seus dentes embotados”. Por conseguinte vê-se que Deus não castiga os pecados dos antepassados ferindo os seus descendentes. Em conseqüência não se eximissem de fazer penitência os filhos de Israel exilados.

2.2. Transmissão do pecado
Pelas razões indicadas também não se deve dizer que o pecado se transmite como uma doença física se transmite; não se diga que alguém é hoje libertino(a) em matéria sexual porque sua avó foi tal. Existem micróbios e bactérias que transmitem doenças corporais, sim; mas não existem micróbios que transmitem doenças do espírito ou do comportamento. Não se pode negar que o mau exemplo seja um convite à prática do mal; assim os antepassados criminosos deixam aos seus descendentes uma afinidade familiar com o crime, que estimula a prática do mal não por um vírus do crime, mas por um apelo psicológico.

2.3. Os traumas dos antepassados
Pelo mesmo motivo não se pode dizer que os traumas, os choques ou os males sofridos pelos ancestrais perduram no além, como se as almas dos defuntos continuassem a sofrer as emoções e os sentimentos que sofriam na terra, podendo ser curadas desses traumas pelas orações de seus descendentes. Todas estas concepções redundam, de algum modo, em espiritismo kardecista ou em umbandismo e candomblé. Na verdade, não há comunicação das pessoas na Terra com o além senão pela oração. As preces que são feitas pelos falecidos ou pelas almas do purgatório têm por objetivo tão somente pedir a Deus que o amor as purifique de qualquer resquício de pecado pessoal para que possam desfrutar da visão de Deus sem demora. Podemos também rezar aos Santos, pedindo-lhes que intercedam por nós, a fim de que sejamos dotados das graças necessárias para chegarmos à pátria celeste.

3. Observações complementares

3.1. Feitiço
Às páginas 58s do livro de Gambarini lê-se a seguinte oração: ‘Pai, eu te peço que desfaças na vida de…todo mal. Quebra, Senhor, todo jugo hereditário negativo de …, que caiu sobre ele(a). Quebra toda maldição, praga, feitiço que possam ter recaído sobre esse(a) teu(tua) filho(a)”. Na verdade, nenhuma maldição tem poder mágico, nem é transmissível (como ensinam os profetas). Quanto ao feitiço, seria um objeto manipulado para fazer bem ou mal a alguém. Ora tal tipo de objeto não existe, de modo que é inútil pedir ao Senhor que afaste os malefícios do feitiço; chega a ser nociva tal prece porque dá a crer que feitiços são eficazes, como se crê em terreiros de Umbanda e em certas comunidades pentecostais protestantes.

3.2. Alívio para as almas do purgatório
A pag. 61 encontra-se a seguinte prece: “Pelo último suspiro na cruz, livrai as dores e abrandai as penas das almas santas e benditas do purgatório”. É errônea a concepção que parece estar subjacente a este texto. —O purgatório não é um castigo, mas uma concessão da misericórdia divina para que as almas que não se tenham purificado dos resquícios do pecado na vida presente, possam fazê-lo na vida futura. Na verdade, ninguém pode ver Deus face-a-face trazendo sombra de pecado ou “pecadinho” (impaciência, maledicência, preguiça…). Se o cristão não consegue extinguir as escórias de tais pecados antes de deixar este mundo, deverá fazê-lo posteriormente para poder entrar na visão de Deus. O sofrimento do purgatório não depende de maior ou menor rigor da parte do Juiz Divino, mas sim do fato de ter sido tal cristão negligente ou leviano sobre a Terra, de modo que não se preparou (não preparou a veste nupcial) para poder entrar na ceia da vida eterna logo depois da morte.   Essa dor não passa nem é aliviada por decreto divino; só passa na medida em que a alma se vai libertando do apego ao pecado. Os sufrágios pelos mortos, por conseguinte, não consistem em pedir a Deus anistia para as almas do purgatório, mas sim em pedir que o amor a Deus existente em tais almas acabe quanto antes de extinguir todo amor desregrado remanescente nessas almas; sem demora possa haver nelas tão somente o amor a Deus não contraditado por tendências desordenadas. À guisa de observação final, ainda perguntamos: Que são “os espíritos de hereditariedade má”? E que significa “amarrar esses espíritos”? Tal vocabulário é ambíguo. São estas algumas ponderações que podem ocorrer a um leitor da obra do Pe. Gambarini.

Palavra final: Reconheça-se a boa intenção do autor, mas não se pode deixar de apontar aí concepções estranhas à doutrina Católica.

 

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 394
Ano: 1995 – PR. 131
Análise do livro de Pe. Robert De Grandis

O livro de Robert DeGrandis supõe que pecados cometidos e traumas sofridos por pessoas já falecidas estejam atualmente influenciando a vida dos respectivos descendentes; haveria uma hereditariedade de males morais e desgraças, que se dissiparia mediante a oração de cura interior. Supõe também que haja maldições de antepassados desgraçando a vida de pessoas existentes na Terra. Haveria outrossim objetos portadores de infelicidades…, objetos que atrairiam maus espíritos…
Respondemos que a presumida hereditariedade no plano moral não existe; cada ser humano responde por sua conduta pessoal e não pela de seus ancestrais; cf. Ez 18,2-32; Jr 31, 29s. Também não existem objetos contagiados e contagiantes por efeito de maus espíritos; a desgraça e o pecado não se transmitem por “micróbios ou bactérias espirituais”. São Paulo, em 1Cor 8, refere-se a um caso paralelo ao que consideramos: os cristãos de Corinto que tinham consciência fraca, não queriam comer carne que tivesse sido oferecida aos ídolos em templo pagão, porque a julgavam contaminada, veículo de comunhão com os demônios; o Apóstolo dissipou esta concepção, dizendo que os ídolos nada são (cf. 1Cor 8,4); por isto não contaminam os objetos a eles oferecidos.
Em suma, o livro de R. DeGrandis professa teorias pouco fundamentadas na doutrina católica, podendo até confundir-se com teses do espiritismo. Está circulando em ambientes católicos um livro que tem suscitado dúvidas e mal-entendidos.
Traz o título “Cura entre Gerações” e deve-se à autoria de Robert DeGrandis, membro da Associação Nacional de Terapeutas dos Estados Unidos e dedicado ministro da “cura interior” ou da cura de males espirituais mediante a oração inspirada pelo Espírito Santo.
O autor cita e segue freqüentemente a linha de pensamento e ação do Dr. Kenneth McAll, cirurgião e psiquiatra inglês, que escreveu Healing the Family Tree (Curando a Árvore da Família), “livro capaz de transformar vidas”. (p. 3). Visto que a obra é realmente inovadora, merecerá atenção nas páginas subseqüentes.

1. OS TRAÇOS PRINCIPAIS DO LIVRO

1. Antes do mais, pergunta-se: que significa “cura entre gerações”?
Para Roberto DeGrandis e seus seguidores, muitos dos males que as pessoas hoje em dia padecem, são herança recebida de gerações passadas (pais, avós, bisavós…). Por isto, para curar estes males, é preciso curar a respectiva fonte, isto é, a falha ou a deficiência ainda existente nas almas dos falecidos. O Espírito Santo revela aos carismáticos o tipo de causa que provoca a desgraça das pessoas na Terra. Após esta revelação, o cristão carismático faz a prece correspondente para sanar o(a) falecido(a) e assim libertar os que sofrem de má herança neste mundo. São palavras de Robert DeGrandis: “O cirurgião e psiquiatra inglês Dr. Kenneth McAll abriu meus olhos para alguns modos de cura… Ensinou-me a procurar fontes além dos vivos, para explicar alguns problemas dos vivos. Mas, enquanto ele toma um além, e fala de cura dos mortos através das orações dos vivos, não pretendo focalizar este aspecto. Orações pelos mortos são, porém, parte de nossa tradição católica, e creio que este é um campo importante para estudo… Neste livro falamos da cura dos vivos através de orações pelos mortos. Referimo-nos à cura de certos problemas físicos, mentais, emocionais e espirituais que não têm tratamento” (pp. 17s). “Equipes de oração, usando os dons carismáticos, descobriram, em meus ancestrais, uma variedade de espíritos e adoração do culto, assassinato e todo tipo de negatividade que se possa imaginar. Em minha família, é longa a historia de brutalidade e de tratar sem amor as pessoas. Muitos traços ancestrais de desamor refletiram-se, de certo modo, em minha própria natureza. O Senhor tem querido tocar essas áreas com seu amor e trazer a cura para que eu não aja sob a negatividade não resolvida de eras passadas. Quanto perdoo esses antepassados, cortando os laços com seus pecados, e visualizando-os na presença de Jesus, sinto ser curado. O fruto dessa cura é evidente em minha crescente capacidade de relacionar-se com as pessoas de modo mais solícito e amoroso”” (p. 20). O autor se detém no relato de outros exemplos típicos “Tome, por exemplo, uma mulher hipotética, Henriqueta, que tem um profundo medo irracional de homens. Esse medo pode estar ligado a um trauma não resolvido da bisavó, a quem um homem fez realmente mal. Isto abre algumas interessantes possibilidades na cura interior” (p. 17). “Em 1979, eu estava fazendo cura interior numa senhora negra. Ela e suas irmãs tinham um problema sempre que saíam a lugares públicos. Homens gravitavam em torno delas, mais do que se poderia normalmente esperar. Elas eram todas boas católicas, bastante simpáticas, mas exerciam uma atração sobre os homens mais do que o normal. Em oração com ela, tive uma visão do que pensei ser um navio negreiro. Porque ela era uma líder madura, e compreendia o processo da cura interior, continuei em profundidade: “Você está vendo alguma coisa?”, perguntei. Respondeu: “Estou vendo um navio negreiro”. Quando começou a descrever o que estava acontecendo, eu também o estava vendo em minha mente. Podia dizer, pelo estilo do navio e dos trajes, que estávamos vendo os dias da escravidão.A senhora descreveu uma mulher, que sentia ser sua antepassada. Eu a vi simultaneamente em visão. Usava um lenço vermelho em volta da cabeça e era, claramente, muito promíscua.Imaginamos se a promiscuidade não teria passado abaixo, de geração em geração. Consideramos a possibilidade de que a inexplicável atenção masculina fosse um efeito residual da atividade de sua ancestral promíscua” (P. 21).

2. Mais: segundo R. DeGrandis, pode haver também objetos impregnados de maldição (como se a maldição fosse um micróbio ou um vírus); têm que ser jogados fora.
Tais objetos constituem uma realidade que o livro designa como “o oculto”. Eis um caso típico: “Às vezes, quando estamos fazendo libertação, há bloqueio devido a um amuleto. Tive um caso, em certa cidade, em que um homem tinha uma ardência em sua boca. Ele tinha estado na Clínica Mayo, na Universidade de Alabama e na Clínica Lahey em Boston, e nenhuma delas pôde retirar a ardência de sua boca. Pus a mão sobre ele, e a primeira palavra que o Espírito Santo me deu em diagnóstico, foi “oculto”. Perguntei-lhe se tinha ido a um curandeiro ou adivinho. Disse que sim, de modo que rezei e lhe pedi que renunciasse a ter buscado auxílio em uma fonte oculta.Não houve alívio depois que ele fez a renúncia, de forma que rezei um pouco mais. A próxima ampliação do diagnóstico do Espírito Santo foi: “amuleto”. Perguntei-lhe se a pessoa a quem tinha ido lhe dera alguma coisa. Disse que recebera um amuleto. Perguntado se estava disposto a jogá-lo fora, disse que sim. Sua esposa o fez. Rezei de novo, e a ardência desapareceu. Isto foi há algum tempo, e a última vez que o vi, a ardência não tinha voltado” (p. 45). Mais outra história exemplar: “Lembro-me de ter estado numa cidade, onde pessoas estavam ouvindo vozes à noite. Pediram-nos que abençoássemos a casa. Fizemo-lo, lançando água benta em todos os quartos. Acredito que isto tenha resolvido a dificuldade. Como norma, dever-se-iam procurar na casa objetos do oculto, e então os donos renunciariam a eles e queimá-los-iam. Pedimos a todas as pessoas presentes que renunciassem ao envolvimento com o oculto. Amarramos o mal e o expulsamos, numa oração de libertação normal. Tenta-se obter a identidade da pessoa que assombra a casa, e oferece-se por ela o Santo Sacrifício da Missa. A Eucaristia é oferecida, quer se saiba, quer não se saiba o nome da pessoa. Os moradores então entregam-se ao Senhor Jesus Cristo” (p. 117)

3. Segundo o mesmo autor, a desgraça atual pode decorrer também de uma palavra de maldição proferida por antepassados em desabono das gerações futuras.
São dizeres de Robert DeGrandis: “As maldições são outra área servidão que o Espírito Santo revela com freqüência. A maioria das pessoas que fazem cura interior, identificou maldições, muitas vezes de gerações passadas. Por exemplo, na parte sul dos Estados Unidos, maldições de vudu são especialmente freqüentes. Há efeitos físicos dessas maldições. Assim como o Espírito do Senhor pode tocas as pessoas e libertá-las física, psicologicamente etc., o espírito maligno pode também ligar pessoas na época da maldição e em futuras gerações. A quebra das cadeias dessas maldições e a aplicação da luz e amor do Senhor as libertará na maioria dos casos, desde que não haja outras formas de “feitiço”. O Dr. McAll conta o caso e uma alcóolatra de 45 anos de idade, que destruiu totalmente a vida da família com seu vício. Sua mãe estava profundamente envolvida com o espiritismo e tentando contar seu falecido marido. O Dr. McAll soube que a excessiva bebida da mulher estava ligada com a maldição de mãe sobre ela, por recusar-se a assinar alguns documentos legais sem os ler primeiro. Ele quebrou a maldição sobre ela, ela parou de beber, e sua vida familiar foi restaurada. Quebramos uma maldição orando como segue: “Em nome de Jesus e por sua autoridade, eu venho contra esta maldição (etc.). Invoco o Preciosíssimo Sangue de Jesus e quebro esta maldição sobre minha família ou pessoa, no nome de Jesus”. Esta oração e, com freqüência, dita três vezes para quebrar a maldição porque, em rebelião contra a Santíssima Trindade, as maldições são, freqüentemente, pronunciadas três vezes quando feitas. É também importante que as pessoas compreendam porque devem não dar novamente poder à maldição” (pp. 44s).

4. É interessante notar a oração que DeGrandis profere e recomenda aos leitores para afastar os maus agouros ou as desgraças:
“Coloco-me na presença de Jesus Cristo, e submeto-me ao seu Senhorio. “Revisto-me da armadura de Deus para poder resistir às táticas do demônio” (Ef 6, 10-11). Ocupo o meu terreno, “com o cinturão da verdade em torno da cintura, e a justiça por couraça…” (Ef 6, 14). Empunho o “escudo da fé” para “extinguir os dardos inflamados do maligno …” (Ef 6, 16). Aceito “a salvação de Deus como meu capacete, e recebo a Palavra de Deus do Espírito, para usá-la como espada” (Ef 6,17).No nome de Jesus Cristo crucificado, morto e ressuscitado, amarro todos os espíritos do ar, da atmosfera, da água, do fogo, do vento, da terra, de debaixo da terra e do mundo inferior. Amarro também a influência de qualquer alma perdida ou caída, que possa estar presente, e todos os emissários do quartel-general demoníaco, ou todo círculo de bruxas, magos e feiticeiros ou adoradores de Satanás, que possam estar presentes de algum modo sobrenatural. Clamo o sangue de Jesus sobre o ar e a atmosfera, a água, o fogo, o vento, a terra e seus frutos à nossa volta, a região abaixo da terra e o mundo inferior.No nome de Jesus Cristo, proíbo todos os adversários mencionados de comunicarem-se com outros ou se ajudarem de alguma forma, ou comunicarem-se comigo, ou fazerem qualquer coisa senão o que eu mando em nome de Jesus.No nome de Jesus Cristo, eu selo este lugar e todos os presentes e suas famílias e associados, e seus lugares e posses e fontes de suprimento, no sangue de Jesus. (Repetir três vezes). No nome de Jesus Cristo, proíbo quaisquer espíritos perdidos, círculos de feiticeiras ou feiticeiros, grupos ou emissários satânicos ou qualquer de seus associados, subordinados ou superiores, de prejudicar ou tirar vingança de mim, minha família e meus associados, ou causar mal ou dano a qualquer coisa que tenhamos.No nome de Jesus Cristo, e pelos merecimentos de seu Preciosíssimo sangue, quebro e dissolvo toda maldição, malefício, selo, encantamento, feitiço, laço, tentação, armadilha, instrumento, mentira, pedra de tropeço, obstáculo, ilusão, engano, diversão ou distração, corrente espiritual ou influência espiritual, e também qualquer doença de corpo, alma ou espírito lançados sobre nós, ou sobre este lugar, ou sobre algumas pessoas, lugares e coisas mencionadas, por qualquer agente, ou lançada sobre nós por nossos próprios enganos ou pecados. (Repetir três vezes). Agora coloco a cruz de Jesus Cristo entre mim e todas as gerações de minha árvore genealógica. Digo, no nome de Jesus Cristo, que não haverá direta comunicação entre as gerações. Toda comunicação será filtrada no Preciosíssimo Sangue do Senhor Jesus Cristo” (pp. 9s).

4. Em suma, o livro inteiro de R. DeGrandis versa sobre a concepção de que existem forças ocultas derivadas de artimanhas, trabalhos ou também de pecados dos antepassados que causam a infelicidade dos viventes deste planeta. Pelo que se depreende da oração publicada às páginas 9 e 10 do livro, o autor parece acreditar na eficácia de feitiços, amuletos, bentinhos, bruxarias, encantamentos, despachos, etc.
– Daí a surpresa de muitos leitores católicos… Daí também a pergunta:

2. QUE DIZER?
Proporemos três observações conclusivas:

1ª)- Não existe hereditariedade espiritual a pagar de males morais cometidos no passado. Não se pode dizer que os pecados de familiares falecidos são punidos por Deus nos respectivos descendentes. O pecado é de responsabilidade estritamente pessoal: “Cada qual responde a Deus por seu comportamento próprio, e individualmente na liberdade de escolha que Deus lhe deu, prestará contas pessoalmente por ele”. É o que os Profetas do Antigo Testamento ensinaram muito enfaticamente, contradizendo à tese de que Deus castiga filhos e netos por causa das faltas dos antepassados: Jr 31, 29s: “Nesses dias já não se dirá: “Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos se embotaram”. Mas cada um morrerá por sua própria falta. Todo homem que tenha comido uvas verdes, terá seus dentes embotados”. Cf. Ez 18, 2-32.

2ª)- Por isto também, não se deve dizer que o nosso pecado pessoal se transmite como uma doença física se transmite. Não se diga que alguém é hoje libertino(a) em matéria sexual porque sua avó foi tal. Existem micróbios e bactérias que transmitem doenças corporais, sim; mas não existem micróbios que transmitam doenças do espírito.

3ª)- Pelo mesmo motivo não se pode dizer que os traumas, os choques ou os males sofridos pelos ancestrais perduram no além. Como se as almas dos defuntos continuassem a sofrer as emoções e os sentimentos que sofriam na terra, podendo ser curadas desses traumas pelas orações de seus descendentes, isto é um entendimento deturpado sobre a doutrina do Purgatório.

III Domingo do Tempo Comum – Ano C

Por Pe. Inácio José Schuster

OS EVANGELHOS SÃO RELATOS HISTÓRICOS?
Neemias 8, 2-4ª.5-6.8-10; I Coríntios 12, 12-31a; Lucas 1, 1-4; 4, 14-21

Antes de começar o relato da vida de Jesus, o evangelista Lucas explica os critérios que o guiaram. Assegura que refere fatos transmitidos por testemunhas oculares, verificados pelo mesmo com «comprovações exatas» para que quem lê possa perceber a solidez dos ensinamentos contidos no Evangelho. Isso nos oferece a ocasião de nos ocuparmos do problema da historicidade dos Evangelhos. Até pouco tempo atrás, não se mostrava entre as pessoas o sentido crítico. Tomava-se por historicamente ocorrido tudo o que era referido. Nos últimos dois ou três séculos nasceu o sentido histórico, pelo qual, antes de crer em um fato do passado, ele é submetido a um atento exame crítico para comprovar sua veracidade. Esta exigência foi aplicada também aos Evangelhos. Resumamos as diversas etapas pelas que a vida e o ensinamento de Jesus atravessaram antes de chegar a nós.
Primeira fase: vida terrena de Jesus. Jesus não escreveu nada, mas em sua pregação utilizou alguns recursos comuns às culturas antigas, os quais facilitavam muito a retenção de um texto na memória: frases breves, paralelismo e antítese, repetições rítmicas, imagens, parábolas… Pensemos em frases do Evangelho como: «Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos», «Larga é a entrada e espaçoso o caminho que leva à perdição…, estreita a entrada e o caminho que leva à Vida» (Mt 7, 13-14). Frases como estas, uma vez escutadas, até as pessoas de hoje dificilmente as esquecem. O fato, portanto, de que Jesus não tenha escrito Ele mesmo os Evangelhos não significa que as palavras neles referidas não sejam suas. Ao não poder imprimir as palavras no papel, os homens da antiguidade as fixavam na mente.
Segunda fase: pregação oral dos apóstolos. Depois da ressurreição, os apóstolos começaram imediatamente a anunciar a todos a vida e as palavras de Cristo, levando em conta as necessidades e as circunstâncias dos diversos ouvintes. Seu objetivo não era o de fazer história, mas de levar as pessoas à fé. Com a compreensão mais clara que agora temos disso, eles foram capazes de transmitir aos outros o que Jesus havia dito e feito, adaptando-o às necessidades daqueles a quem se dirigem.
Terceira fase: os Evangelhos escritos. Cerca de trinta anos após a morte de Jesus, alguns autores começaram a escrever esta pregação que lhes havia chegado por via oral. Nasceram assim os quatro Evangelhos que conhecemos. Das muitas coisas chegadas até eles, os evangelistas escolheram algumas, resumiram outras e explicaram finalmente outras, para adaptá-las às necessidades do momento das comunidades às quais escreviam. A necessidade de adaptar as palavras de Jesus a exigências novas e diferentes influiu na ordem com o que se relatam os fatos nos quatro Evangelhos, na diversa colocação e importância que revestem, mas não alterou a verdade fundamental deles. Que os evangelistas tenham tido, na medida do possível naquele tempo, uma preocupação histórica e não só edificante é demonstrado na precisão a que situam o acontecimento de Cristo no espaço e no tempo. Pouco mais adiante, Lucas nos proporciona todas as coordenadas políticas e geográficas do início do ministério público de Jesus (Lc 3, 1-2).
Em conclusão, os Evangelhos não são livros históricos no sentido moderno de um relato o mais neutro possível dos fatos ocorridos. Mas são históricos no sentido de que o que nos transmitem reflete em substância o acontecimento. Mas o argumento mais convincente a favor da fundamental verdade histórica dos Evangelhos é o que experimentamos dentro de nós cada vez que somos tocados em profundidade por uma palavra de Cristo. Que outra palavra, antiga ou nova, teve o mesmo poder?

 

Evangelho segundo São Lucas 1, 1-4.4, 14-21
Visto que muitos empreenderam compor uma narração dos factos que entre nós se consumaram, como no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram Servidores da Palavra , resolvi eu também, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expô-los a ti por escrito e pela sua ordem, caríssimo Teófilo, a fim de reconheceres a solidez da doutrina em que foste instruído. Impelido pelo Espírito, Jesus voltou para a Galileia e a sua fama propagou-se por toda a região. Ensinava nas sinagogas e todos o elogiavam. Veio a Nazaré, onde tinha sido criado. Segundo o seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-se para ler. Entregaram-lhe o livro do profeta Isaías e, desenrolando-o, deparou com a passagem em que está escrito: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor.» Depois, enrolou o livro, entregou-o ao responsável e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Começou, então, a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir.»

Por Pe. Fernando José Cardoso

Neste terceiro domingo do tempo comum, iniciamos a leitura que será constante do evangelista Lucas durante todo este ano chamado na liturgia ano C. Após o prólogo do Evangelho, excluindo os capítulos da infância já lidos e meditados no tempo do natal, iniciamos a vida pública de Jesus em seu capítulo quarto. De acordo com este evangelista, Jesus inicia a sua vida publica numa visita e num discurso inaugural na sinagoga de Nazaré, cidade onde se havia criado. “O Espírito do Senhor está sobre mim”. Esta é uma afirmação diante da qual nos detemos. Aquele filho do carpinteiro, até então conhecido como filho de Maria e de José, é alguém que surpreendentemente pode dizer: “Estou cheio, repleto do espírito de Deus”. E de fato Lucas se compraz em dizer-nos que é na força vivificante deste espírito de Deus que Jesus exercerá todo o seu ministério. O discurso de Nazaré é programático, na força do espírito de Deus, Ele é enviado a levar a boa nova aos pobres. Quem são esses pobres, que de acordo com o evangelista se transformaram em destinatários da boa nova de Jesus, ungido pelo Espírito Santo? Podemos hoje afirmar que são as pessoas que não contam com nada deste mundo. São pessoas humildes e simples que não podem fazer valer a sua força. São pessoas de pouca importância ou insignificantes aos olhos mundanos, mas buscam em Deus o seu sustentamento, a sua coragem, a sua esperança. Estes são sempre os destinatários primeiro da boa nova de Jesus. Onde quer que ela seja pregada são estas pessoas mais despojadas, mais humildes, que acorrem pressurosas a pregação do evangelho e tratam de colocá-lo em prática, louvando e bendizendo a Deus pelo bem que lhes fez. Ainda hoje o evangelho é bem mais recebido por este nível de pessoas do que por aqueles que tendo tantos bens materiais se sentem dispensados de Deus. Não sabem exatamente o que buscar em Deus, tão felizes estão com esta vida que vivem na terra. Jesus continua dizendo que irá libertar os cativos, os prisioneiros, e dar vista aos cegos. Tomemos estas afirmações nos dois sentidos: no sentido material e no sentido espiritual. No sentido espiritual é mais fácil de entender a libertação dos prisioneiros da alma e dos cegos do coração, mas do sentido material, Jesus para transformar este mundo num mundo melhor, pede a minha e a sua cooperação, a da sua comunidade e da sua Igreja também.

 

«Com o poder do Espírito»
Hugo de São-Victor (?-1141), cónego regular, teólogo
Tratado dos Sacramentos da fé cristã, II, 1-2; PL 176, 415 (a partir da trad. de Orval)

A Santa Igreja é o corpo de Cristo: um só Espírito a vivifica, a unifica na fé e a santifica. Este corpo tem por membros os crentes, de cujo conjunto se forma um só corpo, graças a um só Espírito e a uma só fé. […] Assim, portanto, aquilo que cada um tem como próprio não é apenas para si; porque Aquele que nos concede tão generosamente os Seus bens e os reparte com tanta sabedoria quer que cada coisa seja de todos e todas de cada um. Se alguém tem a felicidade de receber um dom por graça de Deus, deve então saber que ele não lhe pertence apenas a si, mesmo que seja o único a possui-lo. É por analogia com o corpo humano que a Santa Igreja, quer dizer, o conjunto dos crentes, é chamada corpo de Cristo, uma vez que recebeu o Espírito de Cristo, cuja presença num homem é indicada pelo nome «cristão» que Cristo lhe dá. Com efeito, este nome designa os membros de Cristo, os que participam do Espírito de Cristo, aqueles que recebem a unção d’Aquele que é ungido; porque é de Cristo que vem o nome de Cristão, e «Cristo» quer dizer «ungido»; ungido com este óleo da alegria que, preferido entre todos os companheiros (Sl 44, 8), recebeu em plenitude para partilhar com todos os seus amigos, como a cabeça o faz com os membros do corpo. «É como óleo perfumado derramado sobre a cabeça, a escorrer pela barba […], a escorrer até à orla das suas vestes» (Sl 132, 2) para se espalhar por todo o lado e tudo vivificar. Portanto, quanto te tornas cristão, tornas-te membro de Cristo, membro do corpo de Cristo, participante do Espírito de Cristo.

 

Rescontruir os muros da Igreja
Padre Paulo Ricardo

Meus queridos irmãos e irmãs a liturgia da Palavra de hoje nos propõe algo sobre nossa missão de paz na família, paz na Igreja. Vou tentar explicar como tirar as lições destas leituras. Na primeira leitura do livro de Neemias acontece algo muito importante. O povo de Israel ficou algum tempo exilado na Babilônia e lá eles foram perdendo sua identidade como povo. O povo de Israel estava perdendo sua identidade nestes 70 anos que ficaram exilados. Os netos daqueles que foram exilados foram os que voltaram para Jerusalém. Neemias, que ficou perplexo quando viu a cidade que estava completamente desolada e destruída. A primeira preocupação de Neemias era reerguer as muralhas, pois eram elas que defendiam as cidades dos inimigos. Depois que Neemias reergue as muralhas, Esdras aparece na história e traz o Livro da Lei, a Palavra de Deus, e ele lê a Palavra em hebraico e alguém traduz para aramaico para que o povo compreenda e o povo reencontra a sua identidade. Nos podemos tirar desta primeira leitura uma grande lição a respeito da nossa Igreja. A Igreja no Brasil se encontra como a situação de Jerusalém, pois nossos muros foram derrubados. Há alguns anos atrás nos tivemos o Concilio Vaticano II, onde foram feitos muitos documentos preciosíssimos, documentos que deram um novo impulso para a Igreja. O Papa João XXIII quando convocou o Concílio Vaticano II pedia que se abrisse uma janela para o mundo, pois a Igreja não podia ficar fechada e o Papa quis que se abrisse esta janela para o mundo moderno. Isto foi bom, mas aconteceu algumas coisas erradas.
“Há uma escolha racional no amor”
Teve gente que pegou a desculpa da abertura da janela e pôs abaixo as muralhas da Igreja, entenderam errado. Não foi uma Igreja nova que começou a 50 anos atrás, é a mesma Igreja de sempre, a mesma Igreja de Cristo de dois mil anos atrás. E o Papa Bento XVI nos diz que precisamos ler o Concilio Vaticano II em sintonia com a mesma tradição de dois mil anos atrás. E aconteceu que uma enxurrada de pessoas trazendo filosofias mundanas para dentro da Igreja. Nós abrimos uma grande brecha, de tal forma que o Papa na década de 70 disse: “A fumaça de satanás entrou dentro da Igreja.” Nós precisamos ter clareza do que é ser católico, ter clareza da nossa identidade, pois o povo que não tem clareza de sua identidade se perde. Certa vez lá em Cuiabá, quando eu ainda era padre jovem, eu era conservador, cabeça quadrada e eu cresci vendo foto do meu de batina, pois ele foi seminarista. Graças a Deus fui educado em uma família cristã. Chegando em Cuiabá, na porta da catedral um rapaz me pediu para que eu o atendesse em confissão e me disse que era amigo de uma padre que andava de moto pela cidade, bebia cerveja com ele e eu lhe disse porque você não se confessa com ele e ele me respondeu: “Não padre eu quero um padre para me confessar”. Quando o padre é padre com a identidade de padre ele faz um bem maior, assim também você quando você é católico, você também estará fazendo um bem maior para o mundo. Quando você se veste de forma comportada, quando você não tem medo de defender a sua fé, não tem medo de crer em Deus, mesmo sendo minoria onde você estiver você estará fazendo um bem ao mundo, pois a luz de Cristo brilhará em você. Você não precisa ser igual ao mundo, você precisa ser diferente, não tenha medo! Desta forma estaremos reconstruindo os muros da Igreja, como fez Neemias, a porta se abre, mas também se fecha para que não entre o inimigo. A função do sacerdote é recordar ao povo a sua identidade, a identidade de nossos pais, a identidade que temos. O povo católico quer que seus padres se identifiquem como padres, que não percam sua identidade. Um dia perguntaram para o padre se ele não sentia calor com aquela batina e ele respondeu, eu não tenho problema nenhum com a batina, pois sempre eu quis ser padre. Quem foram nossos heróis? O mundo foi diminuindo todos os nossos heróis e depois como o povo brasileiro vai amar a sua pátria? Nós precisamos como povo nos orgulhar de nossos heróis, pois assim também um povo mantém a sua identidade. Estão destruindo a nossa língua, o português está sendo destruído.
“Há uma escolha racional no amor”
Outro ponto que faz um povo ser povo é a religião. Nossa história está ligada a evangelização, de homens como padre Anchieta, padre Manoel da Nóbrega e os nossos professores estão ensinando que estes evangelizadores da nossa história oprimiam os índios. Nós precisamos ter a nossa identidade e não podemos ter medo de conservar a nossa identidade católica, nós precisamos ter veneração pela história de nosso país por aquilo que tem de bom, claro que o que há de ruim precisamos denunciar, mas precisamos ter amor a nossa língua, amor a pátria, a nossa religião. Por isso neste acampamento para as famílias deixo a mensagem que vem da primeira leitura, precisamos transmitir aos nossos filhos o amor a nossa pátria, o amor a nossa língua e a nossa religião.

 

Vários acontecimentos da História recente podem servir para ilustrar a situação descrita na primeira leitura da Liturgia deste Domingo. Depois do regresso do exílio e de reconstruída a cidade de Jerusalém, o povo reúne-se agora para iniciar a sua nova vida. É exatamente na Lei do Senhor que Israel encontra a “norma” e o sentido da vida. Tem lugar então a grande Assembléia de escuta da Palavra de Deus: durante toda a manhã, o povo escutou atentamente as Palavras do Livro da Lei de Deus, e muitos emocionaram-se e choravam. De tarde, teve lugar o convívio, a festa. Esta vivência do Povo de Israel tem a sua ressonância noutras vivências de outros povos ao longo da História. Israel experimentou as amarguras do cativeiro, mas finalmente soou a hora da liberdade e a reconstrução nacional apresenta-se agora como objetivo. Israel só pode reconstruir a sua vida com Deus, em quem teve a origem como povo. Deus é verdadeiramente o grande companheiro na marcha da libertação e da liberdade. O Evangelho de São Lucas, ao relatar a primeira visita de Jesus a Nazaré, terra onde cresceu, apresenta-o a proclamar este trecho de Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu. Enviou-me para anunciar a Boa Nova aos pobres, a proclamar a libertação aos cativos e a vista aos cegos, a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável do Senhor”. A missão de Jesus é libertadora e a história da Cristandade está recheada de gestos libertadores. São Paulo diz que todos somos chamados para constituirmos um só corpo, judeus ou gregos, escravos ou homens livres (2ª leitura). Liberdade e Deus parecem ser, nesta Liturgia, duas realidades inseparáveis: Deus é quem liberta e é com Deus que se encontrará a vida livre. Mas, a liberdade, o que é? Na raiz etimológica grega, ser livre significa ser membro do povo, cidadão com plenos direitos. Esta liberdade concretiza-se no direito de exprimir o próprio parecer na assembléia, poder dispor livremente de si. Em Israel, a liberdade, a vida, o matrimônio, a honra, a propriedade são direitos fundamentais do homem, que Deus dá e garante ao Seu povo. Olhar para a liberdade só no sentido exterior ou político é empobrecê-la; assim a viam muitos contemporâneos de Jesus. O Cristianismo trouxe um novo sentido de liberdade: a autêntica liberdade do homem não consiste na possibilidade de dispor livremente de si mesmo, mas na vida com Deus, uma vida em conformidade com o projeto de Deus, uma liberdade que se conquista renegando-se a si mesmo. Quem é livre não pertence a si mesmo, mas Àquele que o libertou, afirma São Paulo.

Para compreender a fé, devemos estar sempre em caminho

Quinta-feira, 11 de maio de 2017, Da redação, com Rádio Vaticano

Em homilia na Casa Santa Marta, Papa Francisco apresenta confissão como um passo no caminho até Deus

O Povo de Deus está sempre em caminho para aprofundar a fé: foi o que disse o Papa na missa celebrada na manhã desta quinta-feira, 11 na capela da Casa Santa Marta.

A homilia foi centralizada na Primeira Leitura, extraída dos Atos dos Apóstolos, em que São Paulo fala da história da salvação desde que o Povo de Israel saiu do Egito até Jesus.

“A salvação de Deus – disse o Papa – está em caminho rumo à plenitude dos tempos, “um caminho com santos e pecadores”. O Senhor “guia o seu povo, com momentos bons e momentos ruins, com liberdade e escravidão; mas guia o povo rumo à plenitude”, rumo ao encontro com o Senhor. No final, portanto, está Jesus. Todavia, observou o Papa, “não acaba ali”. De fato, Jesus “deixou o Espírito”. E justamente o Espírito Santo “nos faz recordar, nos faz entender a mensagem de Jesus: começa um segundo caminho”. A Igreja vai avante assim, disse ainda Francisco, com muitos santos e pecadores; entre graça e pecado”.

Escravidão e pena de morte eram aceitas, hoje são pecado mortal

Este caminho, prosseguiu, é necessário “para entender, para aprofundar a pessoa de Jesus, para aprofundar a fé” e também para “entender a moral, os Mandamentos”. E o que no “passado parecia normal, que não era pecado, hoje é considerado pecado mortal”:

“Pensemos na escravidão: quando íamos à escola, nos diziam o que os escravos faziam, eram trazidos de um lugar, vendidos em outro, na América Latina se vendiam, se compravam … É pecado mortal. Hoje dizemos isso. Mas então se dizia: ‘Não’. Ou melhor, alguns diziam que era permitido, porque essas pessoas não tinham alma! Mas era preciso ir adiante para entender melhor a fé, para entender melhor a moral. ‘Ah, Padre, graças a Deus que hoje não existem mais escravos!’. E existem ainda mais!… mas pelo menos sabemos que é pecado mortal. Fomos para frente: o mesmo com a pena de morte que era normal, uma vez. E hoje dizemos que a pena de morte é inadmissível”.

O povo de Deus está sempre em caminho

O mesmo vale para as “guerras de religião”. Em meio a este “esclarecimento da fé”, “esclarecimento da moral”, retomou o Papa, “existem os santos, os santos que todos conhecemos e os santos escondidos”. A Igreja “está cheia de santos escondidos” e “esta santidade é que nos leva para frente, rumo à segunda plenitude dos tempos, quando o Senhor virá, no final, para ser tudo em todos”. Foi assim que o “Senhor Deus quis se mostrar para o seu povo: em caminho”:

“O povo de Deus está em caminho. Sempre. Quando o povo de Deus para, se torna prisioneiro numa estrebaria, como um burro, ali: não entende, não vai para frente, não aprofunda a fé, o amor, não purifica a alma. Mas há outra plenitude dos tempos, a terceira. A nossa. Cada um de nós está em caminho rumo à plenitude do próprio tempo. Cada um de nós chegará ao momento do tempo pleno e a vida acabará e deverá encontrar o Senhor. E este é o nosso momento. Pessoal. Que nós vivemos no segundo caminho, a segunda plenitude dos tempos do povo de Deus. Cada um de nós está em caminho. Pensemos nisso: os apóstolos, os pregadores, os primeiros, tinham necessidade de fazer entender que Deus amou, escolheu, amou o seu povo em caminho, sempre”.

“Jesus – prosseguiu Francisco – enviou o Espírito Santo para que pudéssemos ir em caminho” e é justamente “o Espírito que nos impulsiona a caminhar: esta é a grande obra de misericórdia de Deus” e “cada um de nós está em caminho rumo à plenitude dos tempos pessoal”. O Papa então destacou que é preciso se questionar se acreditamos que “a promessa de Deus era em caminho” e que ainda hoje a Igreja “está em caminho”.

Confessar-se é um passo no caminho rumo ao encontro com o Senhor

Quando nos confessamos, também devemos nos perguntar se, além da vergonha pelos nossos pecados, compreendemos que “aquele passo que eu dei é um passo no caminho rumo à plenitude dos tempos”. “Pedir perdão a Deus – advertiu – não é algo automático”:

“É entender que estou a caminho, num povo em caminho e que um dia – talvez hoje, amanhã ou daqui 30 anos – me encontrarei cara a cara com aquele Senhor que jamais nos deixa sós, mas nos acompanha neste caminho. Pensem nisso: quando me confesso, penso nessas coisas? Que estou em caminho? Que é um passo rumo ao encontro com o Senhor, rumo à minha plenitude dos tempos? E esta é a grande obra de misericórdia de Deus”.

 

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