Pensamentos Seletos

Quando se busca Deus no lugar errado

Onde estão hoje as chagas de Jesus?

Na noite do dia 2 de julho, cerca de duzentas pessoas, escolhidas entre os pobres e mendigos de Roma, jantaram nos jardins do Vaticano, em frente à gruta de Nossa Senhora de Lourdes. Foram acolhidas pelo Cardeal Giuseppe Bertello, que lhes deu as boas-vindas em nome do Papa Francisco: «Como vocês sabem, esta é a casa de vocês, e nós os recebemos com alegria. Diante de nós está a imagem de Nossa Senhora, que nos olha com serenidade. É o mesmo olhar que eu desejo a todos vocês e àqueles que os acompanham com muito amor».

O jantar foi organizado pelo “Círculo de São Pedro”, uma antiga associação romana de leigos cristãos, que procuram demonstrar em fatos concretos o amor de Deus e da Igreja pelas pessoas em necessidade. Foi o que explicou, naquela noite, um de seus membros: «Todos os dias, nos três refeitórios de que dispomos, alimentamos a quem nos procura, sem olhar para a nacionalidade ou religião a que pertencem. Os comensais aqui presentes foram escolhidos dentre esses nossos frequentadores habituais. Fomos buscá-los em quatro pontos da cidade».

Na manhã seguinte, festa de São Tomé, como de costume, o Papa Francisco celebrou a missa na capela da Casa Santa Marta, onde reside. Referindo-se ao Apóstolo que, tocando nas chagas de Jesus, descobriu a sua ressurreição e divindade, o Pontífice indicou o caminho mais rápido para chegar a Deus: sanar as feridas de Jesus que machucam uma multidão de irmãos sofredores.

Trago alguns tópicos de sua homilia. A tradução não é literal, mas o pensamento é autêntico.

Quando Tomé vê Jesus em seu corpo limpo, perfeito e luminoso, é convidado a colocar o dedo na ferida dos pregos e em seu lado transpassado. Com este gesto, ele reconhece a ressurreição e a divindade de Jesus, revelando, assim, que não há outro caminho para o encontro com Jesus-Deus senão as suas feridas.

Na história da Igreja, sempre houve e há enganos no percurso que leva a Deus. Muitos pensam que o Deus vivo possa ser encontrado na especulação, e se esforçam para aprofundar suas reflexões. Não são poucos os que se perdem nessa busca, pois, mesmo que possam chegar ao conhecimento da existência de Deus, nunca chegam à experiência de Jesus Cristo, Filho de Deus. É o caminho dos gnósticos, gente muito esforçada, que trabalha, mas que não descobre o rumo certo. Percorrem um caminho complicado, que não leva a lugar nenhum.

Outros pensam que, para chegar a Deus, precisam mortificar-se, ser austeros, e optam pelo caminho da penitência e do jejum. Infelizmente, nem eles chegam ao Deus vivo e verdadeiro, ao Deus de Jesus Cristo. São os pelagianos. Acreditam que só podem alcançar a Deus a partir de si mesmos, com seus esforços e méritos. Eles também não conhecem o caminho indicado por Jesus para encontrá-lo: as suas chagas.

A questão é descobrir onde estão hoje as chagas de Jesus. A resposta é simples: nós tocamos nas feridas de Jesus quando praticamos as obras de misericórdia corporais e espirituais em favor do próximo. Hoje quero destacar as corporais, aquelas que me levam a socorrer os irmãos e as irmãs que sofrem, que passam fome, que têm sede, que estão nus, que são humilhados, que são escravizados, que estão presos, que jazem nos hospitais.

Estas são hoje as chagas de Jesus. Sem dúvida, é coisa boa, útil e até mesmo necessária fundar centros para socorrer os necessitados. Mas, se pararmos nisso, não passamos de filantropos. Devemos tocar nas feridas de Jesus, acariciar as feridas de Jesus, cuidar das feridas de Jesus, beijar as feridas de Jesus. Como São Francisco que, depois de abraçar o leproso, viu a sua vida mudar.

Como se percebe, não precisamos de cursos de reciclagem para chegar a Deus, mas simplesmente sair às ruas e buscar e tocar nas chagas de Cristo em quem é pobre, frágil e marginalizado. Sem dúvida, não será simples nem espontâneo. Mas, é para isso que existem a oração e a penitência: para obtermos a coragem de penetrar nas feridas de Jesus em quem sofre ao nosso lado. E, assim, ter a certeza de encontrar o Deus vivo e verdadeiro.

Dom Redovino Rizzardo, cs
Bispo de Dourados (MS)
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Obras de misericórdia são o coração da fé

Quinta-feira, 7 de janeiro de 2016, Da Redação, com Rádio Vaticano

Em homilia, Papa falou da necessidade de discernir o espírito que vem ou não de Deus; obras de misericórdia são o coração da fé

O Papa Francisco celebrou nesta quinta-feira, 7, a Missa na Casa Santa Marta, a primeira após a pequena pausa para as celebrações de fim de ano. O Pontífice alertou sobre a necessidade dos fiéis se protegerem da mundanidade e dos espíritos que afastam de Deus.

“Permanecer em Deus”. Papa Francisco desenvolveu sua homilia a partir dessa afirmação de São João Apóstolo na Primeira Leitura. Francisco explicou que um cristão é aquele que permanece em Deus, que tem o Espírito Santo e se deixa guiar por Ele.

Ao mesmo tempo, o apóstolo adverte sobre prestar fé a todo espírito; é preciso colocar à prova os espíritos para saber se realmente são de Deus. Francisco explicou que isso significa ver o que acontece no coração, analisar qual é a raiz daquilo que se sente. O discernimento está no reconhecimento da encarnação de Jesus, conforme indica o apóstolo João: “Todo espírito que reconhece Jesus Cristo vindo na carne é de Deus e todo espírito que não reconhece Jesus não é de Deus”.

“O critério é a Encarnação. Eu posso sentir tantas coisas por dentro, também coisas boas, ideias boas. Mas se estas ideias boas, estes sentimentos, não me levam a Deus que se fez carne, não me levam ao próximo, ao irmão, não são de Deus”, disse.

As obras de misericórdia

O Santo Padre disse ainda que as pessoas podem fazer planos pastorais e pensar em novos métodos para se aproximar dos outros, mas se não fazem o caminho de Deus vindo em carne, não estão no caminho do bom espírito, e sim naquele do anticristo.

“Quanta gente encontramos na vida que parece espiritual: ‘Mas, que pessoa espiritual essa! Mas não fala de obras de misericórdia. Por que? Porque as obras de misericórdia são justamente o concreto da nossa confissão de que o Filho de Deus se fez carne: visitar os doentes, dar de comer a quem não tem comida, cuidar dos descartados… Obras de misericórdia: por que? Porque cada irmão nosso, que devemos amar, é carne de Cristo. Deus se fez carne para identificar-se conosco. Aquele que sofre é Cristo que sofre”.

Espírito que vem de Deus – serviço aos outros

“Não professem fé a todo espírito, sejam atentos!”, enfatizou o Papa, explicando que o serviço ao próximo precisa também de um conselho; estes são os sinais de que a pessoa está no caminho do bom espírito, ou seja, no caminho do Verbo de Deus que se fez carne.

“Peçamos ao Senhor, hoje, a graça de conhecer bem o que acontece em nosso coração, aquilo que gostamos de fazer, o que nos toca mais: se é o espírito de Deus, que me conduz ao serviço aos outros, ou o espírito do mundo, que gira ao meu redor, dos meus fechamentos, dos meus egoísmos e de tantas outras coisas… Peçamos a graça de conhecer o que acontece em meu coração”.

Igreja não é ‘universidade de religião’

Terça-feira, 6 de maio de 2014, Da Redação, com Rádio Vaticano

Refletindo sobre o martírio de Santo Estêvão, Francisco enfatizou a importância de os cristãos darem testemunho de Cristo

O cristão que não dá testemunho se torna estéril, afirmou o Papa Francisco, na Missa desta terça-feira, 6, na Casa Santa Marta, onde reside, no Vaticano. O Santo Padre concentrou-se no martírio de Santo Estêvão, lembrando que a Igreja não é uma universidade de religião, mas um povo que segue Jesus. Apenas desse modo, enfatizou, a Igreja é fecunda e mãe.

Na homilia, Francisco retomou o caminho que levou à morte do primeiro mártir da Igreja e explicou que o martírio de Estêvão é um modelo do martírio de Jesus. No martírio, disse o Papa, é possível ver claramente essa luta entre Deus e o demônio.

Francisco explicou que “martírio” é a tradução da palavra grega que também significa “testemunho”. Dessa forma, pode-se dizer que, para um cristão, o caminho segue os passos de Jesus para dar testemunho d’Ele e, muitas vezes, esse testemunho termina dando a vida.

“Não se pode entender um cristão sem testemunho. Nós não somos uma ‘religião’ de ideias, de pura teologia, de coisas bonitas e mandamentos. Não! Nós somos um povo que segue Jesus Cristo, que dá testemunho d’Ele e, algumas vezes, chegamos a dar a vida por Ele”.

Após a morte de Estêvão, lê-se no Ato dos Apóstolos que começou uma violenta perseguição contra a Igreja de Jerusalém, fazendo com que o povo fosse para longe. Mas lá onde chegava, esse povo explicava o Evangelho, dava testemunho de Jesus; assim começou a missão da Igreja.

“O testemunho sempre é fecundo, seja na vida cotidiana, em algumas dificuldades ou na perseguição e na morte. A Igreja é fecunda e mãe quando dá testemunho de Jesus Cristo. Em vez disso, quando ela se fecha em si mesma e acredita ser – digamos assim – uma ‘universidade de religião’, com tantas belas ideias, belos templos, belos museus, belas coisas, mas não dá testemunho, torna-se estéril. Com o cristão acontece a mesma coisa”.

O Pontífice concluiu destacando que não se pode dar testemunho sem a presença do Espírito Santo. Pensando em Estêvão, que era cheio do Espírito e sofreu com o martírio, e nos cristãos que fogem por causa da perseguição, o Papa propôs que cada fiel pense em como é seu testemunho.

“Sou um cristão testemunha de Jesus ou sou um simples número dentre os cristãos? Sou fecundo, porque dou testemunho, ou permaneço estéril, porque não sou capaz de deixar que o Espírito Santo me leve adiante na minha vocação cristã?”.

A Catolicidade: Igreja não é grupo de elite

Catequese, quarta-feira, 9 de outubro  de 2013, Jéssica Marçal, com Rádio Vaticano / Da Redação  

Papa explicou três significados fundamentais para o aspecto católico da Igreja

Na catequese desta quarta-feira, 9, Papa Francisco seguiu falando sobre a Igreja, concentrando-se, desta vez, sobre o fato dela ser “católica”. Ele destacou três significados fundamentais que explicam essa natureza da Igreja.

Francisco explicou que a palavra “católico” vem do grego ‘kath’olòn’, que significa totalidade. Com relação à Igreja, este aspecto se aplica em três significados fundamentais. O primeiro deles, segundo disse o Papa, é que a Igreja é católica porque é o espaço no qual a fé vem anunciada por inteiro, no qual a salvação de Cristo é oferecida a todos.

“Na Igreja, cada um de nós encontra o que é necessário para crer, para viver como cristãos, para tornar-se santo, para caminhar em todo lugar e em todo tempo”, disse.

Como um segundo aspecto, o Papa falou da universalidade da Igreja, uma vez que ela está espalhada em toda parte do mundo e anuncia o Evangelho a todos. “A Igreja não é um grupo de elite, não diz respeito somente a alguns. A Igreja não tem trancas, é enviada à totalidade das pessoas, à totalidade do gênero humano”.

Por fim, o Santo Padre destacou que a Igreja é católica porque é a “Casa da harmonia”, onde unidade e diversidade combinam-se para formar uma riqueza. Ele citou como exemplo a sinfonia, que é a harmonia entre diversos instrumentos que tocam juntos.

“Na sinfonia que vem apresentada todos tocam juntos em ‘harmonia’, mas não é cancelado o timbre de cada instrumento, a peculiaridade de cada um, antes é valorizada ao máximo! É uma bela imagem que nos diz que a Igreja é como uma grande orquestra na qual há variedade: não somos todos iguais e não devemos ser todos iguais”.

O Papa ressaltou que esta não é uma diversidade que entra em conflito, mas que se deixa unir em harmonia pelo Espírito Santo, o verdadeiro “Maestro”.

“Rezemos ao Espírito Santo, que é propriamente o autor desta unidade na variedade, desta harmonia, para que nos torne sempre mais ‘católicos’, isso é, nessa Igreja que é católica e universal”.

 

CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Boletim da Santa Sé Tradução: Jéssica Marçal

Queridos irmãos e irmãs, bom dia! Vê-se que hoje, com esta bruta jornada, vocês são corajosos: parabéns!

“Creio na Igreja una, santa, católica…” Hoje nos concentramos em refletir sobre este aspecto da Igreja: digamos católica, é o Ano da catolicidade. Antes de tudo: o que significa católico? Deriva do grego “kath’olòn” que quer dizer “segundo o tudo”, a totalidade. Em que sentido esta totalidade se aplica à Igreja? Em que sentido nós dizemos que a Igreja é católica? Em diria que em três significados fundamentais.

1. O primeiro. A Igreja é católica porque é o espaço, a casa na qual vem anunciada toda a fé, por inteiro, na qual a salvação que nos trouxe Jesus é oferecida a todos. A Igreja nos faz encontrar a misericórdia de Deus que nos transforma porque nessa está presente Jesus Cristo, que lhe doa a verdadeira confissão de fé, a plenitude da vida sacramental, a autenticidade do ministério ordenado. Na Igreja, cada um de nós encontra o que é necessário para crer, para viver como cristãos, para tornar-se santo, para caminhar em todo lugar e em todo tempo.

Para dar um exemplo, podemos dizer que é como na vida em família; na família, a cada um de nós é dado tudo aquilo que nos permite crescer, amadurecer, viver. Não se pode crescer sozinho, não se pode caminhar sozinho, isolando-se, mas se caminha e se cresce em uma comunidade, em uma família. E assim é na Igreja! Na Igreja nós podemos escutar a Palavra de Deus, seguros de que é a mensagem que o Senhor nos doou; na Igreja podemos encontrar o Senhor nos Sacramentos que são as janelas abertas através das quais nos é dada a luz de Deus, dos córregos nos quais traçamos a própria vida de Deus; na Igreja aprendemos a viver a comunhão, o amor que vem de Deus. Cada um de nós pode perguntar-se hoje: como eu vivo na Igreja? Quando eu vou à Igreja, é como se eu fosse ao estádio, a uma partida de futebol? É como se eu fosse ao cinema? Não, é outra coisa. Como eu vou à Igreja? Como acolho os dons que a Igreja me oferece para crescer, para amadurecer como cristão? Participo da vida de comunidade ou vou à Igreja e me fecho nos meus problemas isolando-me do outro? Neste primeiro sentido, a Igreja é católica porque é a casa de todos. Todos são filhos da Igreja e todos estão nesta casa.

2. Um segundo significado: a Igreja é católica porque é universal, está espalhada em toda parte do mundo e anuncia o Evangelho a todo homem e a toda mulher. A Igreja não é um grupo de elite, não diz respeito somente a alguns. A Igreja não tem trancas, é enviada à totalidade das pessoas, à totalidade do gênero humano. E a única Igreja está presente também nas menores partes desta. Todo mundo pode dizer: na minha paróquia está presente a Igreja católica, porque também essa é parte da Igreja universal, também essa tem a plenitude dos dons de Cristo, a fé, os Sacramentos, o ministério; está em comunhão com o Bispo, com o Papa e está aberta a todos, sem distinções. A Igreja não está só na sombra do nosso campanário, mas abraça uma imensidão de pessoas, de povos que professam a mesma fé, alimentam-se da mesma Eucaristia, são servidas pelos mesmos Pastores. Sentir-nos em comunhão com todas as Igrejas, com todas as comunidades católicas pequenas ou grandes do mundo! É bonito isto! E depois sentirmos que estamos todos em missão, pequenas ou grandes comunidades, todos devemos abrir as nossas portas e sair pelo Evangelho. Perguntemo-nos então: o que faço eu para comunicar aos outros a alegria de encontrar o Senhor, a alegria de pertencer à Igreja? Anunciar e testemunhar a fé não são tarefas de poucos, diz respeito também a mim, a você, a cada um de nós!

3. Um terceiro e último pensamento: a Igreja é católica porque é a “Casa da harmonia” onde unidade e diversidade combinam-se para ser uma riqueza. Pensemos na imagem da sinfonia, que quer dizer acordo, harmonia, diversos instrumentos tocando juntos; cada um mantém o seu timbre inconfundível e as suas características de som têm algo em comum. Depois tem o guia, o diretor, e na sinfonia que vem apresentada todos tocam juntos em “harmonia”, mas não é cancelado o timbre de algum instrumento: a peculiaridade de cada um, antes, é valorizada ao máximo!

É uma bela imagem que nos diz que a Igreja é como uma grande orquestra na qual há variedade. Não somos todos iguais e não devemos ser todos iguais. Todos somos diversos, diferentes, cada um com as próprias qualidades. E este é o bonito da Igreja: cada um leva o seu, aquilo que Deus lhe deu, para enriquecer os outros. E entre os componentes há esta diversidade, mas é uma diversidade que não entra em conflito, não se contrapõe; é uma variedade que se deixa unir em harmonia pelo Espírito Santo; é Ele o verdadeiro “Mestre”, Ele mesmo está em harmonia. E aqui perguntamo-nos: nas nossas comunidades vivemos a harmonia ou brigamos entre nós? Na minha comunidade paroquial, no meu movimento, onde eu faço parte da Igreja, há fofocas? Se há fofocas, não há harmonia, mas luta. E isto não é Igreja. A Igreja é harmonia de todos: nunca fofocar um contra o outro, nunca brigar! Aceitamos o outro, aceitamos que haja uma certa variedade, que isto seja diferente, que este pensa de um modo ou de outro – mas na mesma fé se pode pensar diferente – ou tendemos a uniformizar tudo? Mas a uniformidade mata a vida. A vida da Igreja é variedade, e quando queremos colocar esta uniformidade sobre todos matamos os dons o Espírito Santo. Rezemos ao Espírito Santo, que é propriamente o autor desta unidade na variedade, desta harmonia, para que nos torne sempre mais “católicos”, isso é, nessa Igreja que é católica e universal! Obrigado.

 

A Igreja é como uma grande orquestra onde cada um enriquece os outros, diz o Papa
VATICANO, 09 Out. 13 (ACI/EWTN Noticias) .- Na catequese desta manhã ante 60 mil fiéis na Praça São Pedro, o Papa Francisco refletiu sobre o significado da catolicidade e o ser católico. A respeito disso, o Pontífice disse que a Igreja é como uma grande orquestra onde nem todos são iguais e onde cada um enriquece o outro.
Em primeiro lugar, disse o Papa, “A Igreja é católica porque é o espaço, a casa na qual vem anunciada toda a fé, por inteiro, na qual a salvação que nos trouxe Jesus é oferecida a todos… Na Igreja, cada um de nós encontra o que é necessário para crer, para viver como cristãos, para tornar-se santo, para caminhar em todo lugar e em todo tempo”.
“A Igreja é católica porque é universal, está espalhada em toda parte do mundo e anuncia o Evangelho a todo homem e a toda mulher… não é um grupo de elite, não diz respeito somente a alguns… não tem trancas, é enviada à totalidade das pessoas, à totalidade do gênero humano. E a única Igreja está presente também nas menores partes desta”.
Como terceiro significado de catolicidade, o Papa reiterou que “a Igreja é católica porque é a ‘Casa da harmonia’ onde unidade e diversidade combinam-se para ser uma riqueza”.
O Santo Padre utilizou a imagem de uma sinfonia e dos diferentes instrumentos que a interpretam. Cada um com o seu timbre inconfundível e as suas próprias características guiados por um diretor. Assim todos tocam juntos em harmonia, e não se anula o timbre de nenhum instrumento, valoriza-se ao máximo a peculiaridade de cada um deles.
A Igreja é como uma grande orquestra. “Não somos todos iguais e não devemos ser todos iguais -destacou-. Cada um oferece o que Deus lhe deu”.
Ao finalizar, o Papa pediu aos peregrinos presentes na Praça de São Pedro, que vivam esta harmonia, aceitando a diversidade: “A vida da Igreja é variedade, e quando queremos colocar esta uniformidade sobre todos matamos os dons o Espírito Santo. Rezemos ao Espírito Santo, que é propriamente o autor desta unidade na variedade, desta harmonia, para que nos torne sempre mais ‘católicos’”, concluiu.

Santo Tomás de Aquino, grande teólogo da Igreja

A Igreja celebra hoje, 28 de janeiro, o dia de São Tomás de Aquino, doutor da Igreja e um dos grandes teólogos católicos. Movido pela espiritualidade Eucarística, dedicou a vida à pesquisa, ao aprendizado e ao ensino de filosofia e teologia sobre os mistérios do amor de Deus.

Santo Tomás é autor de relevantes obras da Igreja, com destaque para a Suma Teológica, estruturada tomando por base os grandes temas do Cristianismo; também era pregador oficial da Igreja, professor e consultor da Ordem, razão pela qual ficou conhecido como ‘Doutor Angélico‘.

Para nos falar sobre este grande santo, em nosso podcast de hoje, convidamos o professor Felipe Aquino para nos explicar um pouco sobre a biografia e os ensinamentos deixados por ele.

O professor explica que este santo foi uma figura marcante na vida e na história da Igreja, porque foi um dos grandes filósofos e teólogos da instituição, por isso influenciou não só o Cristianismo como toda a humanidade.

“Chamado de ‘Doctor Communis‘ pelo Papa João Paulo II na encíclica ‘Fides et Ratio – A Fé e a razão’, o Pontífice polonês lembra que Santo Tomás de Aquino sempre é tido pela Igreja como mestre do pensamento e modelo do modo correto de entender teologia. Por isso, a Igreja sempre recomenda Santo Tomás como o mestre da teologia. Contudo, infelizmente, alguns teólogos se afastaram da Igreja e da linha ensinada no magistério da Igreja porque deixaram de estudar e ler Santo Tomás de Aquino”, exemplificou professor Felipe.

No Catecismo da Igreja Católica Santo Tomás de Aquino é citado diversas vezes em razão de seus importantes ensinamentos e doutrinas.

“Entre os escritores eclesiásticos que o Catecismo da Igreja nos lembra, Santo Tomás de Aquino é um dos mais lembrados, é 61 vezes citado nessa obra. Foi chamado de ‘Doctor Angelicus‘ por suas virtudes e em particular pela sublimidade do seu pensamento e também pela pureza da sua vida”, recordou o professor e apresentador da “Escola da Fé”.

 

Catequeses de Bento XVI sobre São Tomás de Aquino

Queridos irmãos e irmãs,

após algumas Catequeses sobre o sacerdócio e minhas últimas viagens, retornamos hoje ao nosso tema principal, à meditação de alguns grandes pensadores da Idade Média. Tínhamos visto por último a grande figura de São Boaventura, franciscano, e hoje desejo falar daquele que a Igreja chama de Doctor communis: São Tomás de Aquino. O meu venerado Predecessor, o Papa João Paulo II, na sua Encíclica Fides et Ratio, recordou que São Tomás “foi sempre proposto pela Igreja como mestre de pensamento e modelo do modo correto de se fazer teologia” (n. 43). Não surpreende que, após Santo Agostinho, entre os escritores eclesiásticos mencionados no Catecismo da Igreja Católica, São Tomás seja citado mais que qualquer outro, por não menos de sessenta vezes! Ele também é conhecido como Doctor Angelicus, talvez por suas virtudes, em particular a sublimidade do pensamento e a pureza da vida.

Tomás nasceu entre 1224 e 1225 no castelo que sua família, nobre e rica, possuía em Roccasecca, próximo a Aquino, perto da célebre abadia de Montecassino, para onde foi enviado pelos pais para receber os primeiros elementos de sua instrução. Alguns anos mais tarde ele transferiu-se para a capital do Reino da Sicília, Nápoles, onde Federico II tinha fundado uma prestigiada Universidade. Ali era ensinado, sem as limitações vigentes em outros lugares, o pensamento do filósofo grego Aristóteles, ao qual o jovem Tomás foi introduzido, e do qual imediatamente percebeu o grande valor. Mas, sobretudo naqueles anos passados em Nápoles, nasceu sua vocação dominicana. Tomás foi de fato atraído pelo ideal da Ordem fundada há então pouco tempo por São Domingos. No entanto, quando revestiu-se do hábito dominicano, sua família se opôs a esta opção, e ele foi forçado a deixar o convento e passar algum tempo com a família.

Em 1245, já adulto, poderia retomar o seu caminho de resposta ao chamado de Deus. Foi enviado para Paris para estudar teologia, sob a orientação de um outro santo, Alberto Magno, sobre o qual falei recentemente. Alberto e Tomás tiveram uma amizade profunda e verdadeira e aprenderam a se estimar e querer bem, ao ponto de Alberto desejar que seu discípulo o acompanhasse a Colônia, para onde havia sido enviado pelos superiores da Ordem para fundar um studio teológico. Tomás, em seguida, tem contato com todas as obras de Aristóteles e seus comentadores árabes, que Alberto apresentava e explicava.

Naquele período, a cultura do mundo latino era profundamente estimulada pelo encontro com as obras de Aristóteles, que haviam permanecido desconhecidas por muito tempo. Tratava-se de escritos sobre a natureza do conhecimento, sobre ciências naturais, sobre metafísica, ética e alma, cheio de informações e intuições que pareciam válidas e convincentes. Era toda uma visão completa do mundo desenvolvida sem e antes de Cristo, através da pura razão, e parecia impor-se à razão como “a” visão mesma; era, portanto, um incrível fascínio para os jovens verem e conhecerem essa filosofia. Muitos saudaram com entusiasmo, também com entusiasmo acrítico, a essa enorme riqueza do saber antigo, que parecia poder renovar vantajosamente a cultura, abrir completamente novos horizontes. Outros, porém, temiam que o pensamento pagão de Aristóteles se opusesse à fé cristã, e recusavam-se a estudá-lo. Encontraram-se duas culturas: a cultura pré-cristã de Aristóteles, com sua racionalidade radical, e a clássica cultura cristã. Certos ambientes eram levados a rejeitar Aristóteles também pelo fato de que a apresentação de tal filósofo havia sido feita pelos comentadores árabes Avicenna e Averroè. Na verdade, foram eles que transmitiram ao mundo latino a filosofia aristotélica. Por exemplo, esses comentadores haviam ensinado que os homens não dispõem de uma inteligência pessoal, mas que existe apenas um único intelecto universal, uma substância espiritual comum a todos, que opera em todos como “única”: então uma despersonalização do homem. Um outro ponto discutível veiculado pelos comentadores árabes era aquele segundo o qual o mundo é eterno como Deus. Desencadearam-se compreensivelmente disputas intermináveis no mundo universitário e eclesiástico. A filosofia aristotélica foi-se difundindo até mesmo entre as pessoas comuns.

Tomás de Aquino, na escola de Alberto Magno, teve uma importância fundamental para a história da filosofia e da teologia, diria para a história da cultura: estudou minuciosamente Aristóteles e seus intérpretes, procurando novas traduções latinas dos textos originais em grego. Assim, não apoiava-se mais somente nos comentadores árabes, mas podia ler pessoalmente os textos originais, e comentou grande parte das obras de Aristóteles, distinguindo aquilo que era válido daquilo que era dúbio ou devia ser refutado como um todo, mostrando a consonância com os dados da Revelação cristã e utilizando larga e agudamente o pensamento aristotélico na exposição dos escritos teológicos que compôs. Em definitivo, Tomás de Aquino mostrou que entre a fé cristã e a razão subsiste uma harmonia natural. E essa foi a grande obra de Tomás, que naquele momento de confronto entre duas culturas – aquele momento no qual parecia que a fé devia render-se diante da razão – revelou que elas são indissociáveis, que quando aparecia razão não compatível com a fé não era razão, e que quando aparecia fé não era fé de oposta à verdadeira racionalidade; assim ele criou uma nova síntese, que formou a cultura dos séculos seguintes.

Pelos seus excelentes dons intelectuais, Tomás foi chamado a Paris como professor de teologia na cátedra dominicana. Aqui iniciou também a sua produção literária, que continuou até sua morte, e que foi prodigiosa: comentários sobre a Sagrada Escritura, porque o professor de teologia era sobretudo intérprete da Escritura, comentários sobre os escritos de Aristóteles, obras sistemáticas poderosas, entre as quais a sobressaliente Summa Theologiae, tratados e discursos sobre vários temas. Para a composição de seus escritos, foi assistido por alguns secretários, entre os quais o irmão Reginaldo de Piperno, que o seguiu fielmente e ao qual foi ligado por uma amizade fraterna e sincera, caracterizada por uma grande confidência e confiança. Essa é uma característica dos santos: cultivam a amizade, porque é uma das manifestações mais nobres do coração humano e tem em si algo de divino, como Tomás mesmo explicou em algumas quaestiones da Summa Theologiae, na qual ele escreve: “A caridade é a amizade do homem com Deus em primeiro lugar, e com os seres que a Ele pertencem” (II, q. 23, a.1).

Ele não permaneceu muito tempo em Paris. Em 1259, participou do Capítulo Geral dos Dominicanos em Valenciennes, onde foi membro de uma comissão que estabilizou o programa de estudos na Ordem. De 1261 a 1265, então, Tomás foi para Orvieto. O Papa Urbano IV, que nutria por ele uma grande estima, lhe confiou a composição dos textos litúrgicos para a festa de Corpus Domini [Corpus Christi], que celebraremos amanhã, instituída na sequência do milagre eucarístico de Bolsena. Tomás tinha uma alma absolutamente eucarística. Os belíssimos hinos que a liturgia da Igreja canta para celebrar o mistério da presença real do Corpo e do Sangue do Senhor na Eucaristia são atribuídos à sua fé e conhecimento teológico. De 1265 até 1268, Tomás residiu em Roma, onde, provavelmente, dirigia um Studium, isto é, uma Casa de Estudos da Ordem, e onde começou a escrever sua Summa Theologiae (cf. Jean-Pierre Torrell,Tommaso d’Aquino. L’uomo e il teologo, Casale Monf., 1994, pp. 118-184).

Em 1269 foi re-enviado a Paris para um segundo ciclo de ensinos. Os estudantes – pode-se entender – eram entusiasmados por suas aulas. Um de seus ex-aluno declarou que uma grandíssima multidão de estudantes seguia os cursos de Tomás, de modo que as salas de aula mal podiam abrigá-los, e acrescentava, com uma anotação pessoal, que “ouvi-lo era para si uma felicidade profunda”. A interpretação de Aristóteles dada por Tomás não era aceita por todos, mas mesmo os seus adversários no campo acadêmico, como Goffredo de Fontaines, por exemplo, admitiam que a doutrina do irmão Tomás era superior a outras pela utilidade e valor e servia como corretivo a de todas os outros doutores. Talvez também para protegê-lo das vivazes discussões de então, seus superiores enviaram-lhe novamente a Nápoles, para estar à disposição do rei Carlo I, que desejava reorganizar os estudos universitários.

Além do estudo e do ensino, Tomás dedicou-se também a pregar ao povo. E também o povo ia de bom grado ouvi-lo. Diria que é realmente uma grande graça quando os teólogos sabem falar com simplicidade e fervor aos fiéis. O ministério da pregação, além disso, ajuda os próprios estudiosos de teologia a um são realismo pastoral, e reforça com vivazes estímulos a própria pesquisa.

Os últimos meses da vida terrena de Tomás foram circundados por uma atmosfera especial, diria que misteriosa. Em dezembro de 1273, chamou seu amigo e secretário Reginaldo para comunicá-lo da decisão de interromper todo o trabalho, porque, durante a celebração da Missa, havia entendido, após uma revelação sobrenatural, que tudo o quanto havia escrito até então era apenas “um monte de palha”. É um episódio misterioso, que nos ajuda a compreender não somente a humildade pessoal de Tomás, mas também o fato de que tudo o que possamos pensar e dizer sobre a fé, por mais elevado e puro, é infinitamente superado pela grandeza e beleza de Deus, que nos será revelada em plenitude no Paraíso. Alguns meses depois, sempre mais absorto em uma pensativa meditação, Tomás morre enquanto estava em viagem a Lyon, aonde estava indo para participar do Concílio Ecumênico convocado pelo Papa Gregório X. Morreu na Abadia cisterciense de Fossanova, após ter recebido o Viático com sentimentos de grande piedade.

A vida e o ensinamento de São Tomás de Aquino poderia ser resumida através de um episódio transmitido pelos antigos biógrafos. Enquanto o Santo, como de costume, estava em oração diante do Crucifixo, no início da manhã na Capela de São Nicolas, em Nápoles, Domenico da Caserta, o sacristão da igreja, ouviu desenvolver-se um diálogo. Tomás perguntava, preocupado,se o que ele havia escrito sobre os mistérios da fé cristã estava certo. E o Crucifixo responde: “Tu tens falado bem de mim, Tomás. Qual será a tua recompensa?”. E a resposta que Tomás ofereceu é aquela que também nós, amigos e discípulos de Jesus, desejamos sempre dar: “Nada além de Ti, Senhor!” (Ibid., p. 320).

Queridos irmãos e irmãs,

hoje desejo continuar a apresentação de São Tomás de Aquino, um teólogo de tal valor que o estudo de seu pensamento foi explicitamente recomendado pelo Concílio Vaticano II em dois documentos, o decreto Optatam totius, sobre a formação ao sacerdócio, e a declaração Gravissimum educationis, que trata da educação cristã. Além disso, já em 1880 o Papa Leão XII, grande apreciador e promotor dos estudo tomísticos, quis declarar São Tomás Patrono das Escolas e Universidades Católicas.

O motivo principal deste apreço reside não somente no conteúdo de seu ensinamento, mas também no método por ele adotado, sobretudo a sua nova síntese e distinção entre filosofia e teologia. Os Padres da Igreja encontravam-se confrontados por diversas filosofias de tipo platônico, nas quais apresentava-se uma visão abrangente do mundo e da vida, incluindo a questão de Deus e da religião. No confronto com essas filosofias, eles mesmos haviam elaborado uma visão abrangente da realidade, partindo da fé e usando elementos do platonismo, para responder às questões essenciais dos homens. A essa visão, baseada sobre a revelação bíblica e elaborada com um platonismo correto à luz da fé, eles chamavam de “filosofia nostra”. A palavra “filosofia” não era então expressão de um sistema puramente racional e, como tal, distinto da fé, mas indicava uma visão complexa da realidade, construída à luz da fé, mas tornada própria e pensada pela razão; uma visão que, certamente, ia além das capacidades próprias da razão, mas que, como tal, era também por ela satisfeita. Para São Tomás, o encontro com a filosofia pré-cristã de Aristóteles (morto cerca de 322 a.C.) abria uma perspectiva nova. A filosofia aristotélica era, obviamente, uma filosofia elaborada sem conhecimento do Antigo e do Novo Testamento, uma explicação do mundo sem a revelação, através da pura razão. E esta racionalidade consequente era convincente. Assim, a antiga forma da “filosofia nostra” dos Padres não funcionava mais. A relação entre filosofia e teologia, entre fé e razão, tinha de ser repensada. Existia uma “filosofia” completa e convincente em si mesma, uma racionalidade precedente à fé, e, também, a “teologia”, um pensar com a fé e na fé. A questão premente era esta: o mundo da racionalidade, a filosofia pensada sem Cristo, e o mundo da fé são compatíveis? Ou se excluem um ao outro? Não faltavam elementos que afirmavam a incompatibilidade entre os dois mundos, mas São Tomás esta firmemente convencido da sua compatibilidade – também que a filosofia elaborada sem o conhecimento de Cristo quase que esperava a luz de Jesus para ser completa. Essa foi a grande “surpresa” de São Tomás, que determinou o seu caminho como pensador. Mostrar esta independência entre a filosofia e a teologia e, ao mesmo tempo, a sua recíproca relacionalidade foi a missão histórica do grande mestre. E, assim, entendemos que, no século XIX, quando se declarava fortemente a incompatibilidade entre a razão moderna e a fé, o Papa Leão XIII tenha indicado São Tomás como um guia para o diálogo entre uma e outra. Em seu trabalho teológico, São Tomás supõe e concretiza esta relação. A fé consolida, integra e ilumina o patrimônio da verdade que a razão humana adquire. A confiança que São Tomás dispensa a estes dois instrumentos de conhecimento – a fé e a razão – pode ser atribuída à convicção de que ambos provêm da única fonte de toda a verdade, o Logos divino, que atua seja no âmbito da criação, seja no da redenção.

Juntamente com o acordo entre a razão e a fé, deve-se reconhecer, por outro lado, que elas se utilizam de processos cognitivos diferentes. A razão acolhe uma verdade por força de sua evidência intrínseca, mediata ou imediata; a fé, contudo, aceita uma verdade com base na autoridade da Palavra de Deus que se revela. Escreve São Tomás no início de sua Summa Theologiae: “Há dois gêneros de ciências. Umas partem de princípios conhecidos à luz natural do intelecto, como a aritmética, a geometria e semelhantes. Outras provêm de princípios conhecidos mediante uma ciência superior; como a perspectiva, de princípios explicados na geometria, e a música, de princípios aritméticos. E deste modo é ciência a doutrina sagrada (isto é, a teologia), pois deriva de princípios conhecidos à luz de uma ciência superior, a saber: a de Deus e dos santos”(I, q. 1, a. 2).

Essa distinção assegura a autonomia tanto das ciências humanas, quanto das ciências teológicas. Isso, no entanto, não equivale à separação, mas implica, acima de tudo, uma mútua e benéfica cooperação. A fé, de fato, protege a razão de toda a tentação de desconfiança nas próprias capacidades, a incentiva a se abrir a horizontes sempre mais amplos, mantém viva a busca dos fundamentos e, quando a razão mesma é aplicada na esfera sobrenatural do relacionamento entre Deus e o homem, enriquece o seu trabalho. Segundo São Tomás, por exemplo, a razão humana pode definitivamente iniciar a afirmação da existência de um único Deus, mas somente a fé, que acolhe a Revelação divina, é capaz de alcançar o mistério do Amor de Deus Uno e Trino.

Por outro lado, não é somente a fé que ajuda a razão. Também a razão, com os seus meios, pode fazer algo de importante pela fé, tornando-se um tríplice serviço que São Tomás resume no prefácio de seu comentário ao De Trinitate de Boezio: “Demonstrar os fundamentos da fé; explicar mediante semelhanças a verdade da fé; rejeitar as objeções que se levantam contra a fé” (q. 2, a. 2). Toda a história da teologia é, no fundo, o exercício desse esforço de inteligência, que mostra a inteligibilidade da fé, a sua articulação e harmonia interna, a sua racionalidade e a sua capacidade de promover o bem-estar humano. A exatidão dos raciocínios teológicos e o seu real significado cognitivo são baseados no valor da linguagem teológica, que é, de acordo com São Tomás, principalmente uma linguagem analógica. A distância entre Deus, o Criador, e o ser das suas criaturas é infinita; a dessemelhança é sempre maior que a semelhança (cf. DS 806). No entanto, em toda a diferença entre Criador e criatura, existe uma analogia entre o ser criado e o ser do Criador, que nos permite falar com palavras humanas sobre Deus.

São Tomás estabeleceu a doutrina da analogia, bem como, com base em argumentos puramente filosóficos, também o fato de que com a Revelação Deus mesmo falou a nós e, portanto, nos autorizou a falar d’Ele. Considero importante chamar atenção para esta doutrina. Essa, de fato, nos ajuda a superar algumas objeções do ateísmo contemporâneo, que nega que a linguagem religiosa seja fornecida com um significado objetivo, e sustenta, ao contrário, que tenha apenas um valor subjetivo ou simplesmente emotivo. Essa objeção decorre do fato de que o pensamento positivista está convencido de que o homem não conhece o ser, mas somente as funções experimentáveis da realidade. Com São Tomás e com a grande tradição filosófica, estamos convencidos de que, na realidade, o homem não conhece apenas as funções, objeto das ciências naturais, mas conhece algo do próprio ser – por exemplo, conhece a pessoa, o Tu do outro, e não apenas o aspecto físico e biológico do seu ser.

À luz desse ensinamento de São Tomás, a teologia afirma que, embora limitada, a linguagem religiosa é dotada de sentido – porque tocamos o ser -, como uma flecha que se dirige a uma realidade que significa. Esse acordo fundamental entre razão humana e fé cristã é identificado em outro princípio básico do pensamento de Tomás de Aquino: a Graça divina não anula, mas supõe e aperfeiçoa a natureza humana. Essa última, de fato, também após o pecado, não está completamente corrompida, mas ferida e enfraquecida. A Graça, concedida por Deus e comunicada através do Mistério do Verbo encarnado, é um dom absolutamente gratuito com o qual a natureza é curada, fortalecida e ajudada a perseguir o desejo inato no coração de todo o homem e toda a mulher: a felicidade. Todas as faculdades do ser humano são purificadas, transformadas e elevadas pela Graça divina.

Uma importante aplicação desta relação entre natureza e Graça encontra-se na teologia moral de São Tomás de Aquino, que mostra-se de grande atualidade. No centro de seu ensinamento neste campo, ele coloca a nova lei, que é a lei do Espírito Santo. Com um olhar profundamente evangélico, insiste no fato de que esta lei é a Graça do Espírito Santo, dada a todos aqueles que creem em Cristo. A tal Graça une-se o ensinamento escrito e oral das verdades doutrinais e morais, transmitidas pela Igreja. São Tomás, sublinhando o papel fundamental, na vida moral, da ação do Espírito Santo, da Graça, para cultivar as virtudes teologais e morais, nos faz entender que todo o cristão pode alcançar as altas perspectivas do “Sermão da Montanha” se vive uma relação autêntica de fé em Cristo, se se abre à ação de seu Santo Espírito. Mas – acrescenta o Aquinense – “também se a graça é mais eficaz que a natureza, todavia a natureza é mais essencial para o homem” (Summa Theologiae Ia, q. 29, a. 3), pelo que, na perspectiva moral cristã, há um lugar para a razão, a qual é capaz de discernir a lei moral natural. A razão pode reconhecê-la considerando o que é bom e o que deve-se evitar para alcançar aquela felicidade que é desejada por todos, e que impõe também uma responsabilidade para com os outros, e, portanto, a busca do bem comum. Em outras palavras, as virtudes humanas, teologais e morais, estão enraizadas na natureza humana. A Graça divina acompanha, sustenta e incentiva o compromisso ético, mas, de per si, segundo São Tomás, todos os homens, crentes e não crentes, são chamados a reconhecer as exigências da natureza humana expressas na lei natural e a se inspirar nela para a formulação das leis positivas, isto é, aquelas emanadas pelas autoridades civis e políticas para regular a convivência humana.

Quando a lei natural e as responsabilidades que implica são negadas, abre-se dramaticamente o caminho para o relativismo ético no plano individual e ao totalitarismo do Estado no plano político. A defesa dos direitos universais do homem e a afirmação do valor absoluto da dignidade da pessoa postulam um fundamento. Não é exatamente a lei natural este fundamento, com os valores não negociáveis que indica? O Venerável Papa João Paulo II escreveu na sua Encíclica Evangelium Vitae palavras que permanecem de grande atualidade: “Para bem do futuro da sociedade e do progresso de uma sã democracia, urge, pois, redescobrir a existência de valores humanos e morais essenciais e congênitos, que derivam da própria verdade do ser humano, e exprimem e tutelam a dignidade da pessoa: valores que nenhum indivíduo, nenhuma maioria e nenhum Estado poderão jamais criar, modificar ou destruir, mas apenas os deverão reconhecer, respeitar e promover” (n. 71).

Em conclusão, Tomás nos propõe um conceito da razão humana amplo e confiante: amplo porque não é limitado aos espaços da assim chamada razão empírico-científica, mas aberto a todo o ser e, portanto, também às questões fundamentais e irrenunciáveis do viver humano; e confiante porque a razão humana, especialmente se acolhe as inspirações da fé cristã, é promotora de uma civilização que reconhece a dignidade da pessoa, a intangibilidade de seus direitos e a irrefutabilidade de seus deveres. Não surpreende que a doutrina acerca da dignidade humana, fundamental para o reconhecimento da inviolabilidade dos direitos humanos, tenha sido amadurecida no ambiente de pensamento que recolheu o legado de São Tomás de Aquino, que tinha um conceito altíssimo da criatura humana. A define, com a sua linguagem rigorosamente filosófica, como “o que há de mais perfeito em toda a natureza, isto é, um sujeito subsistente em uma natureza racional” (Summa Theologiae, Ia, q. 29, a. 3).

A profundidade do pensamento de São Tomás de Aquino surge – não o esqueçamos nunca – da sua fé e da sua devoção fervorosa, que expressava em orações inspiradas, como esta em que pede a Deus: “Concede-me, te peço, uma vontade que te busque, uma sabedoria que te encontre, uma vida que te apraza, uma perseverança que espera em ti com confiança e uma confiança que ao final chegue a possuir-te”.

Queridos irmãos e irmãs,

desejo hoje completar, com uma terceira parte, as minhas catequeses sobre São Tomás de Aquino. Mesmo após mais de setecentos anos de sua morte, podemos aprender muito com ele. O recordava também o meu predecessor, o Papa Paulo VI, que, em uma homilia em Fossanova, aos 14 de setembro de 1974, por ocasião do sétimo centenário da morte de São Tomás, se perguntava: “Mestre Tomás, que lições pode nos dar?”. E respondia assim: “a confiança na verdade do pensamento religioso católico, do qual ele foi defensor, expositor, aberto à capacidade cognitiva da mente humana” (Insegnamenti di Paolo VI, XII[1974], pp. 833-834). E, no mesmo dia, em Aquino, referindo-se sempre a São Tomás, afirmava: “todos, enquanto filhos fiéis da Igreja, podemos e devemos, ao menos em alguma medida, ser seus discípulos!” (Ibid., p. 836).

Coloquemo-nos, então, também nós na escola de São Tomás e de sua obra principal, a Summa Theologiae [Suma Teológica]. Ela permaneceu inacabada, e todavia é uma obra monumental: contém 512 questões e 2.669 artigos. Trata-se de um argumento forte, em que a aplicação da inteligência humana aos mistérios da fé procede com clareza e profundidade, entrelaçando perguntas e respostas, nas quais São Tomás nos aprofunda o ensinamento que vem da Sagrada Escritura e dos Padres da Igreja, sobretudo de Santo Agostinho. Nesta reflexão, no encontro com as verdadeiras questões de seu tempo, que são também, muitas vezes, as nossas questões, São Tomás, utilizando o método e o pensamento dos filósofos antigos, especialmente Aristóteles, chega assim a formulações precisas, lúcidas e pertinentes da verdade de fé, onde a verdade é dom da fé, resplandece e torna-se acessível para nós, para nossa reflexão. Tal esforço, no entanto, da mente humana – recorda o Aquinense com a sua própria vida -, é sempre iluminado pela oração, pela luz que vem do Alto. Somente quem vive com Deus e com os mistérios pode também entender o que eles dizem.

Na Suma de Teologia, São Tomás parte do fato de que existem três maneiras diferentes do ser e da essência de Deus: Deus existe em si mesmo, é o princípio e o fim de todas as coisas, e, por isso, todas as criaturas procedem e dependem d’Ele; depois, Deus está presente através da sua Graça na vida e atividade dos cristãos, dos santos; e, finalmente, Deus está presente de um modo todo especial na Pessoa de Cristo unido aqui realmente com o homem Jesus, e operante nos Sacramentos, que emanam de sua obra redentora. Por isso, a estrutura dessa obra monumental (cf. Jean-Pierre Torrell, La “Summa” di San Tommaso, Milano 2003, pp. 29-75), uma pesquisa com “olhar teológico” da plenitude de Deus (cf. Summa Theologiae, Ia, q. 1, a. 7), é articulada em três partes, e é ilustrada pelo próprio Doctor Communis – São Tomás – com estas palavras: “O principal objetivo da sagrada doutrina é o de dar a conhecer a Deus, e não sobretudo em si mesmo, mas também enquanto princípio e fim das coisas e, especialmente, da criatura racional. No intento de expor esta doutrina, trataremos primeiro de Deus; em segundo lugar, do movimento da criatura rumo a Deus; e, por terceiro, de Cristo, o qual, enquanto homem, é, para nós, via para ascender a Deus” (Ibid., I, q. 2). É um círculo: Deus em si mesmo, que sai de si mesmo e nos toma pela mão, de tal modo que, com Cristo, retornemos a Deus, estejamos unidos a Deus, e Deus será tudo em todos.

A primeira parte da Summa Theologiae investiga, por conseguinte, sobre Deus em si mesmo, sobre o mistério da Trindade e sobre a atividade criadora de Deus. Nesta parte, encontramos também uma profunda reflexão sobre a realidade autêntica do ser humano enquanto nascido das mãos criadoras de Deus, fruto do seu amor. Por um lado, somos um ser criado, dependente, não viemos de nós mesmos; mas, por outro lado, temos uma verdadeira autonomia, de modo que somos não qualquer coisa de aparente – como dizem alguns filósofos platônicos -, mas uma realidade querida por Deus como tal, e com valor em si mesma.

Na segunda parte, São Tomás considera o homem, impelido pela Graça, na sua aspiração de conhecer e amar a Deus para ser feliz no tempo e na eternidade. Primeiro, o Autor apresenta os princípios teológicos do agir moral, estudando como, na liberdade de escolha humana para praticar o bem, integram-se a razão, a vontade e as paixões, às quais se acrescenta a força que dá a Graça de Deus através das virtudes e dos dons do Espírito Santo, bem como a ajuda que é oferecida também pela lei moral. Então, o ser humano é um ser dinâmico que procura a si mesmo, busca tornar-se a si mesmo e busca, neste sentido, praticar atos que o constróem, o fazem verdadeiramente homem; e aqui entra a lei moral, entra a Graça e a própria razão, a vontade e as paixões. Sobre este fundamento, São Tomás delineia a fisionomia do homem que vive segundo o Espírito e que se torna, assim, um ícone de Deus. Aqui, o Aquinense dedica-se a estudar as três virtudes teologais – fé, esperança e caridade -, seguidas do agudo exame de mais de cinquenta virtudes morais, organizadas em torno das quatro virtudes cardeais – prudência, justiça, temperança e fortaleza. Termina, então, com a reflexão sobre as diferentes vocações na Igreja.

Na terceira parte da Summa, São Tomás estuda o Mistério de Cristo – o caminho e a verdade – por meio do qual podemos alcançar novamente a Deus Pai. Nesta seção, escreve páginas praticamente insuperáveis sobre o Mistério da Encarnação e da Paixão de Jesus, acrescentando, em seguida, uma ampla discussão sobre os sete sacramentos, porque neles o Verbo divino encarnado estende os benefícios da Encarnação para a nossa salvação, para o nosso caminho de fé em direção a Deus e à vida eterna, permanece materialmente quase presente com as realidades da criação, nos toca, assim, no íntimo.

Falando dos Sacramentos, São Tomás detém-se especialmente sobre o Mistério da Eucaristia, pelo qual tinha uma grandíssima devoção, a tal ponto que, de acordo com os antigos biógrafos, era seu costume encostar a cabeça no Tabernáculo, como que para sentir palpitar o Coração divino e humano de Jesus. Em uma obra de comentário à Escritura, São Tomás nos ajuda a compreender a excelência do Sacramento da Eucaristia, quando escreve: “Sendo a Eucaristia o sacramento da Paixão de Nosso Senhor, contém em si Jesus Cristo que sofreu por nós. Portanto, tudo que é efeito da Paixão de nosso Senhor, é também efeito desse sacramento, não sendo esse outra coisa que não a aplicação em nós da Paixão do Senhor” (In Ioannem, c.6, lect. 6, n. 963). Compreendamos bem por que São Tomás e outros santos haviam celebrado a Santa Missa derramando lágrimas de compaixão pelo Senhor, que se oferece em sacrifício por nós, lágrimas de alegria e de gratidão.

Queridos irmãos e irmãs, na escola dos Santos, enamoremo-nos por este sacramento! Participemos da Santa Missa com recolhimento, para obter os frutos espirituais, nutramo-nos do Corpo e do Sangue do Senhor, para sermos incessantemente alimentados pela Graça divina! Entretenhamo-nos de bom grado e frequentemente, cara a cara, na companhia do Santíssimo Sacramento!

Tudo quanto São Tomás ilustrou com rigor científico nas suas obras teológicas maiores, como considero a Summa Theologiae, também a Summa contra Gentiles foi exposta na sua pregação, dirigida aos alunos e aos fiéis. Em 1273, um ano antes de sua morte, durante toda a Quaresma, ele pregou sermões na igreja de São Domingos Maior, em Nápoles. O conteúdo daqueles sermões foi recolhido e conservado: são os Opúsculos em que ele explica o Símbolo dos Apóstolos [Credo], interpreta a oração do Pai Nosso, ilustra o Decálogo e comenta a Ave Maria. O conteúdo das pregações do Doctor Angelicus corresponde quase inteiramente à estrutura do Catecismo da Igreja Católica. De fato, na catequese e na pregação, em um tempo como o nosso, de renovado compromisso com a evangelização, nunca deveriam faltar esses temas fundamentais: o que nós cremos, e eis o Símbolo da fé; o que nós rezamos, e eis o Pai Nosso e a Ave Maria; e o que nós vivemos como nos ensina a Revelação bíblica, e eis a lei do amor a Deus e ao próximo e os Dez Mandamentos, como explicação desse mandamento do amor.

Desejo propor alguns exemplos do conteúdo, simples, essencial e convincente, do ensinamento de São Tomás. No seu Opúsculo sobre o Símbolo dos Apóstolos, ele explica o valor da fé. Por meio dessa, diz, a alma une-se a Deus, e se produz como que uma semente da vida eterna. A vida recebe uma orientação segura, e nós superamos facilmente as tentações. Àqueles que objetam que a fé seja uma loucura, porque faz crer em algo que não se inscreve no âmbito da experiência dos sentidos, São Tomás oferece uma resposta muito abrangente, e recorda que essa é uma objeção inconsistente, porque a inteligência humana é limitada e não pode conhecer a tudo. Somente no caso em que nós pudéssemos conhecer perfeitamente todas as coisas visíveis e invisíveis, então seria uma autêntica loucura aceitar a verdade pela pura fé. Além disso, é impossível viver, diz São Tomás, sem confiarmos na experiência de outros, onde o conhecimento pessoal não chega. É razoável, portanto, prestar fé em Deus que se revela e no testemunho dos Apóstolos: eram poucos, simples e pobres, esgotados por causa da Crucificação de seu Mestre; no entanto, muitas pessoas sábias, nobres e ricas se converteram em pouco tempo escutando sua pregação. Trata-se, com efeito, de um fenômeno historicamente prodigioso, ao qual dificilmente pode-se dar outra resposta razoável, exceto aquela do encontro dos Apóstolos com o Senhor Ressuscitado.

Comentando o artigo do Símbolo sobre a Encarnação do Verbo Divino, São Tomás faz algumas considerações. Afirma que a fé cristã, considerando o mistério da Encarnação, é reforçada; a esperança eleva-se mais confiante, a partir do pensamento de que o Filho de Deus veio entre nós, como um de nós, para comunicar aos homens a própria divindade; o amor é reavivado, pois não há sinal mais evidente do amor de Deus por nós que ver o Criador do universo tornar-se Ele próprio criatura, um de nós. Finalmente, considerando o mistério da Encarnação de Deus, sentimos inflamar o nosso desejo de contemplarmos Cristo na glória. Usando uma comparação simples e eficaz, São Tomás observa: “Se o irmão de um rei estivesse distante, certamente desejaria poder viver ao seu lado. Cristo nos é este irmão: devemos, portanto, desejar a sua companhia, tornarmo-nos um só coração com ele” (Opuscoli teologico-spirituali, Roma 1976, p. 64).

Apresentando a oração do Pai Nosso, São Tomás mostra que ela é perfeita em si mesma, tendo todas as cinco características que uma oração bem feita deveria possuir: confiante e tranquilo abandono; conveniência de seu conteúdo, porque – observa São Tomás – “é muito difícil saber exatamente o que é oportuno pedir e o que não é, dado que estamos em dificuldade frente à seleção dos desejos” (Ibid., p. 120); e, então, ordens apropriadas dos pedidos, fervor da caridade e sinceridade da humildade.

São Tomás foi, como todos os santos, um grande devoto de Nossa Senhora. A definia com um nome bonito: Triclinium totius Trinitati – triclínio, isto é, lugar onde a Trindade encontra o seu repouso, porque, devido à Encarnação, em nenhuma criatura, como n’Ela, as três divinas Pessoas habitaram e provaram a delícia e a alegria de viver na sua alma cheia de Graça. Pela sua intercessão, podemos obter todo o auxílio.

Com uma oração, que é tradicionalmente atribuída a São Tomás e que, em todo o caso, reflete os elementos de sua profunda devoção mariana, também nós dizemos: “Ó beatíssima e dulcíssima Virgem Maria, Mãe de Deus […], eu confio ao teu coração misericordioso toda a minha vida […] Obtém-me, ó minha dulcíssima Senhora, amor verdadeiro, com o qual possa amar com todo o coração o teu santíssimo Filho e a ti, depois d’Ele, sobre todas as coisas, e o próximo em Deus e por Deus”.

Educar para a liberdade

A liberdade somente encontra sentido na verdade

A educação bem pode ser entendida como uma habilitação da liberdade, a fim de perceber o apelo do valioso – daquilo que enriquece e convida a crescer – e a enfrentar as suas exigências práticas. Isso se consegue com o propondo usos da liberdade, propondo tarefas plenas de sentido.

Cada idade da vida tem seus aspetos positivos. Um dos mais nobres, que tem a juventude, é a facilidade para confiar e responder positivamente à exigência amável. Num tempo relativamente curto, pode-se apreciar mudanças notáveis em jovens a quem se confiaram encargos que podiam assumir e que consideravam importantes: ajudar uma pessoa, colaborar com os pais em alguma função educativa…

Pelo contrário, essa nobreza manifesta-se, de forma pervertida e, frequentemente, violenta contra aqueles que se limitam a satisfazer os seus caprichos. À primeira vista, esta atitude é mais cômoda, mas, a longo prazo, os custos são muito mais gravosos e, sobretudo, não ajuda a amadurecer, pois não os prepara para a vida.

Quem se acostuma, desde pequeno, a pensar que tudo se resolve de forma automática, sem nenhum esforço ou abnegação, provavelmente não amadurecerá no tempo devido. E quando a vida magoar – coisa que inevitavelmente acontecerá – talvez não tenha conserto. O homem deve modelar o seu caráter, aprender a esperar os resultados de um esforço longo e continuado, a superar a escravidão do imediato.

Certamente, o ambiente hedonista e consumista que hoje respiram muitas famílias no chamado “primeiro mundo” – e também noutros muitos ambientes de países menos desenvolvidos – não facilita captar o valor da virtude ou a importância de atrasar uma satisfação para obter um bem maior.

Face a esta circunstância adversa, o senso comum evidencia a importância do esforço; por exemplo, nos nossos dias tem especial vigor a referência à cultura desportiva, na qual se nota que quem deseja ganhar uma medalha tem de estar disposto a sofrer treinos prolongados e árduos.

Em geral, a pessoa capaz de se orientar, livremente, para bens que “valem a pena” deve estar preparada para enfrentar tarefas de grande envergadura (aggredi) e para resistir com tenacidade no empenho quando chega o desalento e aparecem as dificuldades (sustinere). Estas duas dimensões da fortaleza fornecem a energia moral para não nos conformarmos com aquilo que já foi conseguido e continuar a crescer, chegar a ser mais. Hoje, é especialmente importante mostrar, com eloquência, que uma pessoa, que dispõe dessa energia moral, é mais livre do que quem não dispõe dela.

Todos estamos chamados a conseguir essa liberdade moral, que só se pode obter com o uso, moralmente bom, da liberdade de arbítrio. Constitui um desafio para os educadores, em particular para os pais, mostrar, de modo convincente, que o uso autenticamente humano da liberdade não consiste tanto em fazer o que nos apeteça, mas o bem, como costumava dizer São Josemaria.

É esse o caminho para se libertar do clima asfixiante de suspeita e de coação moral que impedem procurar, pacificamente, a verdade e o bem, aderir, cordialmente, a eles. Não há cegueira maior do que a de quem se deixa levar pelas paixões, pelas “vontades” (ou pela falta delas). Quem só pode aspirar ao que lhe apetece é menos livre do que aquele que pode procurar, não apenas na teoria, mas com obras, um bem árduo. Não há desgraça maior do que a de quem, ambicionando um bem, surpreende-se sem forças para o levar a cabo, porque a liberdade encontra todo o seu sentido quando se exercita no serviço da verdade que resgata, “quando se gasta em procurar o Amor infinito de Deus, que nos desata de todas as escravidões”, afirma São Josemaria Escrivá em sua obra ‘Amigos de Deus’.

J.M. Barrio
http://www.opusdei.org.br

Como superar as perdas na vida?

O tempo de Deus é um grande aliado em matéria de superação

Certamente, você já ouviu falar sobre a fábula “A raposa e as uvas”, atribuída a Esopo, lendário grego. O conto fala de uma raposa faminta que, ao vir pela estrada, encontrou uma parreira carregada de uvas maduras e apetitosas, no entanto, um pouco mais alta do que ela conseguiria alcançar. Então, com muitas tentativas para alcançá-las sem sucesso e já cansada pelo esforço frustrado, a raposa saiu amargurada, afirmando para si mesma que, na verdade, não queria aquelas uvas, porque estavam verdes e não deviam ser boas. Porém, quando já havia dado alguns passos conduzida pelo insucesso, escutou um barulho como se alguma coisa tivesse caído no chão. O coração disparou e ela não pensou duas vezes. Voltou correndo, achando que as uvas tivessem caído, mas, para sua decepção, era apenas uma folha que havia despencado da parreira. A raposa virou as costas e foi-se embora ainda mais chateada e resmungando amargurada.

Agora pense um pouco: será que isso só aconteceu com a raposa ou acontece também conosco? Dizem que chega a ser uma tendência natural da humanidade denegrir uma meta, quando não se consegue alcançá-la, para diminuir o peso do insucesso. No entanto, essa não é uma postura madura e está longe de solucionar o problema, ao menos para quem deseja viver em paz consigo mesmo e com seus semelhantes.

Acredito que ninguém consiga ser autenticamente feliz fugindo da verdade. A mentira escraviza, rouba a liberdade e, sem a verdadeira liberdade, como ser feliz? É claro que a essa altura você pode pensar: “Mas quando a verdade é dura demais para ser assumida, o que fazer?”. Assuma-a mesmo assim! Encare sua dor unida a Jesus Cristo. Ele também sofreu decepções e perdas enquanto esteve neste mundo e jamais fugiu da verdade. Ele está disposto a ajudá-lo a vencer e lhe ensina o caminho: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8,32).

A raposa sabia que as uvas estavam maduras e apetitosas, mas foi injusta consigo mesma ao afirmar que estavam verdes e que não tinha interesse nelas. Não podemos agir assim! Ao mentirmos para nós mesmos optamos por viver na ilusão, travamos um duelo entre a verdade que está diante dos nossos olhos e a mentira que escolhemos ostentar. É como se criássemos um monstro que irá nos seguir por toda a vida. Deus não deseja isso para nenhum dos Seus filhos! Ele nos criou para sermos livres e felizes.

Portanto, reconciliemo-nos com a verdade e fujamos das máscaras que a dor sugere. Elas até podem ser atrativas, mas são máscaras que um dia perderão sua cor e cairão trazendo à tona a dor da verdade.

A vida nos ensina que nem sempre ganhamos e nem sempre perdemos, mas uma coisa é certa: em cada acontecimento acrescentamos experiência à nossa existência e temos mais chances de acertar numa próxima vez. Portanto, coragem! Se as “uvas” que você deseja hoje estão longe do seu alcance, não se desespere nem se deixe levar pelo orgulho, considerando que elas estão “verdes” e já não lhe interessam. Admita a perda e não tenha medo de passar pelo processo necessário da dor que o fará crescer. Continue caminhando e fazendo o bem. Outras “uvas maduras” aparecerão em sua jornada, talvez bem antes do que você imagina!

O tempo de Deus é diferente do nosso, mas é um grande aliado em matéria de superação. Quem sabe, se a raposa tivesse esperado um pouco mais, não teria visto as uvas caírem aos seus pés? Sua atitude de ir embora apoiada numa mentira foi alicerçada na terrível dor da desilusão, por isso precipitada, imatura e tempestuosa. Não tive mais notícias da “Dona Raposa”, mas duvido que ela esteja feliz caso não tenha se reconciliado com a perda das uvas, assumindo sua verdade.

E você, como tem lidado com a dor das perdas? Sua verdade tem o feito livre ou prisioneiro? Pode ser que a vida esteja lhe pedindo calma. O imediatismo próprio da nossa época nos distancia da sublime arte do saber esperar o tempo certo para cada coisa.

Respirar fundo, contar até dez (ou até mil dependendo do caso), pode nos livrar de grandes catástrofes. Espere mais um pouco, talvez suas “uvas” caiam. Esperar o tempo de Deus. Reconciliado com sua verdade, esse pode ser o caminho para a felicidade que você deseja alcançar.

Lembre-se: com os raios do sol de cada amanhecer, Deus também lhe concede uma nova chance de acertar. Recomeçar, entre perdas e ganhos, faz parte da bonita dinâmica da vida. Não pare na dor! Você nasceu para a felicidade. E esta é uma conquista que se faz todos os dias, a partir da decisão de assumir a verdade.

Coragem! Rezo por você.

Dijanira Silva
[email protected]

Regras para uma vida piedosa

Platon, Arcebispo de Kostroma / Bispo Alexander (Mileant)
Traduzido por Balark de Sá Peixoto Junior

Obrigue-se a acordar cedo, numa hora previamente marcada. Tão logo levante, volte sua mente para Deus. Faça o sinal da cruz, e agradeça-lhe pela noite que passou e por todos os seus dons em seu favor. Peça-lhe para guiar todos os seus pensamentos, sentimentos e desejos de forma que tudo o que você disse ou desejar seja agradável a Ele.

Enquanto se arruma, perceba a presença do Senhor e de seu anjo da guarda. Peça ao Senhor Jesus Cristo para lhe colocar o manto da salvação.

Depois de banhar-se, recolha-se nas orações matinais. Reze ajoelhado, com concentração, reverência e simplicidade, como‚ adequado diante dos olhos do Altíssimo. Peça que lhe dê fé‚ esperança e prática da caridade, como também resignação para aceitar tudo o que o dia que chegou possa trazer – suas dificuldades e problemas. Peça-lhe que abençoe as suas atividades. Peça-lhe ajuda: para realizar aquela tarefa especialmente desagradável que lhe espera, para evitar de maneira especial um determinado pecado.

Se puder, leia algum trecho da bíblia, especialmente do Novo Testamento ou do Livro dos Salmos. Leia com o desejo de receber luz espiritual, inclinando seu coração para reconhecer seus pecados e deles se arrepender. Tendo lido um pouco, pare e reflita sobre o que leu; e leia mais um pouco, escutando aquilo que o Senhor sugere ao seu coração.

Tente reservar ao menos quinze minutos para contemplar espiritualmente os ensinamentos da fé‚ e tirar proveito espiritual do que tiver lido.

Sempre agradeça ao Senhor que não lhe deixa perecer em seus pecados, mas cuida de você e de todas as maneiras possíveis o conduz para o seu reino celestial.

Comece o dia como você tivesse acabado de decidir tornar-se cristão e viver de acordo com os mandamentos de Deus.

Ao cumprir suas obrigações, esforce-se para que tudo seja feito para a glória de Deus. Nada comece sem orar, pois tudo o que fazemos sem rezar depois se mostra improdutivo ou incompleto. As palavras do Senhor são verdadeiras: “Sem mim, nada podeis fazer.”

Imite Nosso Senhor, que trabalhou ajudando José e sua puríssima Mãe. Enquanto trabalha, mantenha-se em bom estado de espírito, sempre contando com a ajuda do Senhor. É bom repetir sem cessar a oração: “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim, pecador.”

Se suas atividades têm sucesso, agradeça a Deus. Se não, coloque-se no Seu arbítrio, pois Ele cuida de você e tudo direciona para o melhor. Aceite as dificuldades como uma penitência por seus pecados em espírito de obediência e humildade.

Antes de qualquer refeição, peça que Deus abençoe a comida e a bebida; ao terminar, agradeça e peça-Lhe que não o prive de suas bênçãos espirituais. É bom deixar a mesa ainda com um pouco de fome. Em tudo, evite excessos. Seguindo o exemplo dos antigos cristãos, jejue às quartas e sextas-feiras.

Não seja guloso. Contente-se em ter o que comer e o que vestir, imitando Cristo que veio pobre para o nosso bem.

Esforce-se por louvar ao Senhor em tudo, de forma que você não seja reprovado pela sua própria consciência. Lembre-se: Deus sempre vê você e observa cuidadosamente os sentimentos, pensamentos e desejos do seu coração.

Evite mesmo os menores pecados, para não cair nos grandes. Tire de seu coração cada um e todo pensamento e desígnio que o leva para longe do Senhor. Lute especialmente contra os desejos impuros; tire-os do seu coração como você tiraria uma fagulha de suas roupas. Se você não quer ficar confuso com desejos impuros, aceite humildemente ser humilhado pelos outros.

Não fale muito. Lembre-se que prestaremos contas a Deus por cada palavra que tivermos dito. É melhor ouvir que falar: falar muito torna impossível evitar pecados. Não seja curioso para ouvir novidades, as quais apenas envolvem e distraem o espírito. Não condene ninguém, e considere-se o pior de todos. Quem condena os outros, está tomando para si os seus pecados. É melhor se apiedar do pecador, e rezar para que Deus o corrija à sua maneira. Se alguém não ouve os seus conselhos, não discuta. Mas se os atos desse alguém são uma tentação para outros, tome atitudes corretas, pois os bem dos outros, que são muitos, pesam mais que o bem de um só.

Nunca rejeite ou invente desculpas. Seja gentil, calmo e humilde. Resista a tudo, de acordo com o exemplo de Jesus. Ele não vai sobrecarregar você com uma cruz que exceda a sua força; e sim ajudá-lo a carregar a cruz que você tem.

Peça ao Senhor a graça de cumprir seus santos mandamentos da melhor maneira que puder, mesmo se pareçam muito difíceis de observar. Agindo bem, não espere gratidão, mas tentação: pois o amor a Deus é testado pelos obstáculos. Não espere adquirir alguma virtude sem sofrimento. No meio das tentações, não desespere, mas dirija-se a Deus com pequenas orações: “Senhor, me ajude… Ensina-me a… Não deixe-me… Proteje-me…” O Senhor sempre permite tentações e provações. Ele também dá a força para superá-las.

Peça a Deus para tirar de você tudo o que alimenta seu orgulho, mesmo que isso seja amargo. Evite ser áspero, aborrecido, desanimado, desconfiado, suspeitoso ou hipócrita, e evite a rivalidade. Seja sincero e simples em suas atitudes. Humildemente aceite os conselhos dos outros, mesmo se você conhece mais e é mais experiente.

O que você não quer que seja feito para você, não faça para os outros. Ao invés, faça aos outros aquilo que você queria que fizessem para você. Se alguém lhe visita, seja atencioso com ele. Seja modesto, sensato e, às vezes, dependendo das circunstâncias, seja também cego e surdo.

Quando se sentir mole ou resfriado, não deixe de realizar suas habituais orações e práticas piedosas. Tudo o que você faz em nome do Senhor Jesus, mesmo as menores e imperfeitas coisas, tornam-se um ato de piedade.

Se você quer encontrar paz, confie-se inteiramente a Deus. Você não encontrará paz até que repouse em Deus, amando somente a Ele.

De vez em quando, isole-se, seguindo o exemplo de Jesus, para orar e contemplar Deus. Contemple o infinito amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, seus sofrimentos e morte, sua ressurreição, sua Segunda vinda e o Juízo Final.

Vá à Igreja tanto quanto possível. Confesse-se mais freqüentemente e receba os santos mistérios. Fazendo isso, você aproxima-se de Deus, e essa é a maior bênção. Durante a confissão, reconheça e confesse abertamente e com contrição todos os seus pecados, pois os pecados não reconhecidos levam à morte.

Dedique os domingos para obras de caridade e misericórdia. Por exemplo, visite alguém doente, console quem estiver sofrendo, salve quem estiver perdido. Se alguém ajuda o perdido a encontrar Deus receberá uma grande recompensa nesta vida e no mundo futuro. Estimule seus amigos a ler literatura espiritual cristã e a debater temas espirituais.

Deixe Cristo Jesus, o Senhor, ser seu mestre em tudo. Constantemente recorra a Ele, voltando sua mente a Ele; pergunte a si mesmo: “O quê Ele faria em similar circunstância?”

Antes de ir dormir, reze abertamente e com todo o coração, examinando os pecados cometidos durante o dia que passou. Condicione-se a reconhecer seus pecados com coração contrito, com sofrimento e lágrimas, para que não repita os pecados cometidos. Ao ir para a cama, faça o sinal da cruz, beije a cruz e confie-se ao Senhor Deus, que é o seu bom Pastor. Considere que talvez você possa encará-lo nesta noite.

Recorde-se do amor do Senhor para com você e ame-O com todo o seu coração, sua alma e sua mente.

Agindo assim, você alcançará a vida abençoada no reino da eterna luz.

A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja convosco. Amém.

Passos concretos para conversão

Quinta-feira, 22 de outubro de 2015, Da Redação, com Rádio Vaticano

Francisco explicou que a conversão exige esforço diário e é graça de Deus; o Papa exortou ainda a não retroceder diante das tentações

“O esforço do cristão é propenso a abrir a porta do coração ao Espírito Santo.” Foi o que disse o Papa Francisco, na Missa celebrada na manhã desta quinta-feira, 22, na Casa Santa Marta.

O Pontífice sublinhou que a conversão para o cristão é uma tarefa de todos os dias, que o leva ao encontro com Jesus. Como exemplo, Francisco contou a história de uma mãe doente de câncer que fez de tudo para combater a doença.

O Papa se baseou na Carta de São Paulo aos Romanos para destacar que para passar do serviço da iniquidade à santidade, é preciso esforço diário.

“São Paulo usa a imagem do atleta, pessoa que treina para se preparar para a jogo e faz um esforço enorme”, disse o Pontífice. “Mas se essa pessoa faz todo esse esforço para vencer um jogo, nós, que devemos obter a vitória grande do céu, o que devemos fazer? São Paulo nos exorta a  prosseguirmos nesse esforço”.

“Padre, podemos pensar que a santidade vem do esforço que eu faço, assim como a vitória do atleta vem por causa do treinamento? Não. O esforço que nós fazemos, esse trabalho cotidiano de servir ao Senhor com a nossa alma, com o nosso coração, com o nosso corpo, com toda a nossa vida somente abre a porta ao Espírito Santo. É Ele quem entra em nós e nos salva! Ele é o dom em Jesus Cristo. Caso contrário, assemelharemo-nos aos faquires: não, nós não somos faquires. Nós, com o nosso esforço, abrimos a porta.”

Não retroceder diante das tentações

O Papa reconheceu que não retroceder diante das tentações é uma tarefa difícil, porque a  fraqueza humana, o pecado original e o diabo sempre levam o homem para trás. Ele explicou que o autor da Carta aos Hebreus nos adverte contra essa tentação de retroceder, mas que é preciso ir avante sempre, um pouco a cada dia, mesmo quando existe uma grande dificuldade.

“Alguns meses atrás, encontrei uma mulher. Jovem, mãe de família – uma bela família – que tinha um câncer. Um câncer feio. Mas ela vivia com felicidade, agia como se estivesse saudável. Ao falar dessa atitude, disse-me: ‘Padre, faço de tudo para vencer o câncer!’. Assim deve ser o cristão. Nós que recebemos esse dom em Jesus Cristo e passamos do pecado, da vida de injustiça à vida do dom em Cristo, no Espírito Santo, devemos fazer o mesmo. Um passo a cada dia, um passo a cada dia.”

Treinamento da vida

O Papa indicou algumas tentações, como a vontade de falar mal de alguém. Nesse caso, disse: é preciso se esforçar para calar. Ou quando ficamos com preguiça de rezar, mas depois acabamos rezando um pouco. Francisco disso que é preciso partir das pequenas coisas.

“Essas coisas nos ajudam a não ceder, a não retroceder, a não voltar para a injustiça, mas ir avante rumo a esse dom, essa promessa de Jesus Cristo, que será propriamente o encontro com Ele. Peçamos ao Senhor essa graça de sermos bons nesse treinamento da vida rumo ao encontro, porque recebemos o dom da justificação, da graça e do Espírito em Cristo Jesus”.

Fidelidade a Jesus Cristo e a Sua Igreja

FIDELIDADE A DEUS
http://reporterdecristo.com/fidelidade-a-deus

Há um versículo que aparece pelo menos quatro vezes na Sagrada Escritura: ´O justo vive pela fé´ (Hab 2, 4; Rm 1, 17; Gl 3, 11; Hb 10, 36). A palavra fé na Bíblia é também traduzida como ´fidelidade´ a Deus. É a atitude daquele que crê e que obedece o Senhor. Neste sentido São Paulo fala aos romanos da ´obediência da fé´ (Rm 1, 5). A fé é um ato de adesão a Deus; isto é, submissão que implica obediência à Sua santa e perfeita vontade. A fraqueza da nossa natureza humana impede muitas vezes que a nossa fé seja coerente; quer dizer, às vezes os nossos atos não estão conforme as exigências da fé. Portanto, não basta crer, é preciso obedecer. Depois que o povo hebreu recebeu a Lei de Deus por meio de Moisés, exclamou: ´Tudo do que Iahweh falou, nós o faremos e obedeceremos´ (Ex 24, 7). Esta era a vontade do povo, no entanto, sabemos que este mesmo povo prevaricou tantas vezes prestando culto aos deuses dos pagãos. Depois que Josué, no limiar da morte, conclamou o povo, a ser fiel a Deus, e só a Ele prestar culto na Terra que Deus lhe dava, o povo respondeu: ´A Iahweh nosso Deus serviremos e à sua voz obedeceremos´ (Js 24, 24). Mas sabemos que logo após atravessar o rio Jordão, e tomar posse da Terra tão esperada, este povo não demorou a render-se aos encantos dos deuses dos cananeus. Isto mostra que não é fácil, também para nós, viver a fidelidade a Deus, pois também hoje os deuses falsos nos atraem, e querem ocupar o nosso coração. A obediência sempre foi e sempre será a prova e a garantia da fidelidade. Foi por ela que Jesus salvou a humanidade, porque fez exatamente o que o primeiro Adão recusara fazer. Na obediência radical a Deus o Cristo desatou o nó da desobediência de Adão e nos reconciliou com o Pai. Da mesma forma, ensinam os Santos Padres, pela obediência da Virgem, ela desatou o laço da desobediência de Eva que lançou a humanidade na danação. A partir daí, a obediência a Deus passou a ser a marca principal daquele que crê. Ela é o melhor remédio para os males que o pecado original deixou em nossa natureza: orgulho, vaidade, presunção, auto-suficiência, exibicionismo, etc. O profeta afirma que: ´A obediência é melhor do que o sacrifício´ (1Sm 15, 22). E Thomas de Kempis, na ´Imitação de Cristo´, assegura que: ´Obedecer é muito mais seguro do que mandar´. No pátio da Academia Militar das Agulhas Negras, está escrito, para que os cadetes leiam todos os dias: ´Cadete, ide comandar, aprendei a obedecer!´ Se a obediência é tão necessária para com os homens, quanto mais para com Deus. A outra característica da fidelidade a Deus é o firme propósito de servir-lhe sempre e com perseverança e reta intenção, mesmo nos momentos mais difíceis. Como agrada a Deus o filho fiel! O profeta diz: ´Iahweh guarda os passos dos que lhe são fiéis´ (2Sm 22, 26). E o Senhor Jesus disse: ´Muito bem servo bom e fiel! Sobre o pouco foste fiel, sobre o muito te colocarei. Vem alegrar-te com o teu Senhor´ (Mt 25, 21). Tudo o que recebemos de Deus nesta vida, é este ´pouco´ sobre o qual é testada a nossa fidelidade a Deus. Ser fiel a Deus é ser obediente às suas leis, à sua vontade, e servir-lhe com toda a alma. Santo Inácio de Loyola afirmava que viver bem é ´amar e servir a Deus nesta vida´. Jesus disse aos Apóstolos na última Ceia: ´Se me amais, guardareis os meus mandamentos´ (Jo 14, 15). Portanto, amar a Deus, mais do que um sentimento, é uma ´decisão´: guardar os seus mandamentos, cumprir a sua vontade. ´Nem todo aquele que diz, Senhor, Senhor,… mas aquele que faz a vontade de meu Pai´ (Mt 7, 21). Dessas palavras fica claro que amar a Deus é viver os seus ensinamentos. O Senhor deixou a Igreja para que a Sua vontade fosse expressa e objetivamente conhecida, e não ficasse ao sabor do julgamento de cada um. Ele garantiu à Sua Igreja que o Espírito Santo a conduziria ´a toda a verdade´ (Jo 16, 13), e que a voz da Igreja é a Sua voz. ´Quem vos ouve, a Mim ouve; quem vos rejeita, a Mim rejeita; e quem Me rejeita, rejeita aquele que me enviou´ (Lc 10, 16). Então, ser fiel ao Senhor, é ser fiel à Sua Igreja, e tudo aquilo que ela ensina. O Papa Paulo Vi disse certa vez que: ´quem não ama a Igreja, não ama Jesus Cristo´. É lógico, a Igreja é o Corpo de Cristo! Quem não é fiel à Igreja, não é fiel a Jesus Cristo! Quem não serve a Igreja, não serve a Jesus Cristo… A Igreja é o Cristo prolongado na história dos homens. Quando se toca a Igreja, se toca o próprio Senhor. A fidelidade está muito ligada à perseverança e à paciência. Santo Agostinho disse: ´Os que perseveram em vossas companhias sejam vossos modelos. E os que vão ficando pelas calçadas, aumentem vossa vigilância´. E o grande São João da Cruz ensinava que: ´A constância de ânimo, com paz e tranquilidade, não só enriquece a pessoa, como a ajuda muito a julgar melhor as adversidades, dando-lhes a solução conveniente.´ Mas, para que haja serviço a Deus, perseverante e alegre, e para que possamos amar e cumprir os seus mandamentos, é preciso uma vida de piedade, vigilância e oração, sem o que, a alma esfria. Sabemos que ´mosca não assenta em prato frio´; quando a alma esfria, os demônios se aproximam dela para vencê-la pela tentação. Não seremos julgados pela nossa capacidade intelectual, e nem pela grandeza das nossas obras, mas, como disseram os santos, pela pureza do nosso amor a Deus e pela perseverança nesta vivência. Jesus garantiu que diante de todas as adversidades que virão, ´quem perseverar até o fim será salvo´ (24, 13).

 

FIDELIDADE AO SENHOR
Cardeal D. Eusébio Oscar Scheid, Arcebispo emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro  

Nenhuma situação na vida, nem as dificuldades, ou mesmo as tentações são tão fortes, que possam superar a graça de Deus e o seu amor por nós e em nós. Assim, a cada passo de fé, o cristão vai crescendo na presença do Senhor e se fortalecendo em suas convicções sobre as realidades da vida com Cristo. Se, por acaso, tropeçar, cair ou se ferir, Deus estende a mão para levantá-lo. “Deus é fiel: não permitirá que sejamos tentados além das nossas forças…” (cf. 1Cor 10, 13). Na vida espiritual, a fidelidade nasce como um fruto do Espírito, entendida, desse modo, como “uma perfeição que o Espírito Santo modela em nós como parte daquelas primícias da glória eterna” (Cat. Ig.Católica, n.1832). A cada ato de fidelidade, amplia-se, diante dos seus olhos, o entendimento que deve ter da misericórdia, do perdão e, enfim, da salvação em Jesus Cristo. A Cruz do Senhor é o maior testemunho de fidelidade que o homem recebe para todas as circunstâncias da sua vida. Aliás, em todos os momentos, Jesus demonstrou uma fidelidade absoluta aos desígnios do Pai. Em Cristo, enxergamos a “trajetória” da fidelidade humana, o caminho que devemos percorrer para sermos fiéis: da confiança na humilhação, passando pela firmeza em meio às tentações, até a alegria da vida transformada. A fidelidade nasce da conversão de nossos desejos e de nossas vontades. Nutridos pela confiança, pela fé e pela alegria, nós, os filhos de Deus, experimentamos uma fidelidade redentora, que nos assegura a salvação prometida pelo Senhor, pois Ele mesmo a faz crescer pela sua graça. Não obstante, a Igreja é fortalecida pelo testemunho sempre vivo dos mártires e dos santos. Exemplos de solicitude e de doação, os santos não colocaram limites na sua entrega absoluta a Deus. Enquanto Pedro estava preso, a comunidade cristã permanecia em oração; por ocasião das perseguições aos cristãos dos primeiros séculos da era cristã, Santo Inácio de Antioquia, o Diácono São Lourenço, São Sebastião, patrono de nossa Arquidiocese e Santa Inês se tornaram, entre tantos outros, modelos de fidelidade. Mesmo ameaçados de morte, mantiveram integra a sua postura diante da verdade e do Evangelho, dando a própria vida em testemunho de lealdade a Cristo e à sua Igreja. Não são poucos e nem mesmo menores os desafios que hoje a Igreja enfrenta, enquanto busca os “caminhos da fidelidade total” ao Divino Mestre e Senhor da História. A vida conjugal tem sido, constantemente, ameaçada por inúmeros problemas. Em pouco tempo de matrimônio, vários casais já estão se separando. Outros mais abrem mão dos filhos, que poderiam ter, em nome de um bem-estar exagerado. De fato, o homem e a mulher são muito tentados a serem infiéis. A infidelidade no matrimônio é um mal que cresce cada vez mais. A Igreja insiste em ensinar, que é por meio da mútua fidelidade que os pais assumirão a responsabilidade primordial de educar os filhos. Para estes a ternura, o perdão, o respeito e o serviço desinteressado servem como regra de crescimento e amadurecimento diante de Deus. Desta forma, os filhos são educados na fidelidade a serem também fiéis (cf. Cat. Ig. Católica, n. 2223). Por um lado, encontramos a proposta cristã de permanecermos fiéis àquilo que Jesus Cristo nos ensinou. Por outro, nos deparamos com o fascínio das novelas e as fantasias das produções cinematográficas que insistem na infidelidade. Pretendem dizer, que não é possível alguém permanecer fiel. Por isso, “a fidelidade dos batizados é a condição primordial para o anúncio do Evangelho e para a missão da Igreja no mundo. Para manifestar diante dos homens a sua força de verdade e de irradiação, a mensagem da salvação deve ver autenticada pelo testemunho da vida dos cristãos” (Cat. Ig. Católica, n. 2044). Revestida com a glória celestial, pelos méritos do seu Filho Ressuscitado, Nossa Senhora nos apresenta o resultado final da fidelidade. “A Assunção da Virgem Maria é uma participação singular na Ressurreição de seu Filho e uma antecipação da ressurreição dos outros cristãos” (Cat. Ig. Católica, n. 966). Na sua humildade e na sua simplicidade, a Virgem Silenciosa soube ser fiel e Deus recompensou essa fidelidade. Ela foi fiel, quando escutou as palavras de Jesus e as conservava em seu coração; foi fiel, quando, de pé, viu o seu Filho morto na cruz; foi fiel, quando, no cenáculo, se reunia com os Apóstolos; foi fiel até o dia da sua glorificação. O “Magnificat” de Nossa Senhora canta as bênçãos para os que desejam caminhar com fidelidade: sentimentos de ação de graças, humildade, santidade, misericórdia, justiça… Nossa fidelidade consiste no amor a Deus e aos irmãos, segundo os ensinamentos de Jesus. Somos fiéis, quando nos empenhamos a caminhar em comunhão com Cristo e com a Igreja, superando os interesses próprios e os conceitos pessoais, acolhendo, com firmeza, o que nos é transmitido pela Palavra de Deus. Dificilmente, seremos infiéis se cultivarmos, em nosso coração, a confiança no Senhor, a busca da Verdade e a resposta, livre e pronta, à graça divina. Permanecendo fiéis à Igreja e à vocação para a qual fomos chamados, não queremos frustrar os desígnios de Deus em nossa vida ou decepcionar as pessoas que amamos. “As misericórdias do Senhor não terminaram, sua compaixão não se esgotou; ela se renova todas as manhãs e grande é a sua fidelidade! Por isso, eu repito: a minha escolha é o Senhor! Eis, porque nele espero” (Lm 3, 23-24).

 

A IGREJA, MINHA MÃE
http://www.veritatis.com.br/apologetica/105-igreja-papado/845-a-igreja-minha-mae
D. Estêvão Bettencourt, OSB

Existe na rica Tradição cristã uma afirmação de São Cipriano, Bispo de Cartago e mártir (+ 258), que talvez surpreenda muitos cristãos de nossos dias: «Não pode ter Deus como Pai quem não tenha a Igreja por Mãe» (De Catholicae Ecclesiae Unitate, c. 6). Estas palavras foram escritas numa época turbulenta, em que São Cipriano se via frente a duas tentativas de ruptura da Igreja; para ele, a fidelidade à Igreja era a fidelidade a Deus Pai; ser filho do Pai Celeste é ser filho da Igreja. Como entender isso? O Evangelho nos diz que «ninguém vai ao Pai senão por Cristo” (Jo 14, 6)… Cristo que é inseparável do seu corpo eclesial ou da sua Igreja (cf. Cl 1, 24). O mistério da Encarnação não é um fato isolado, mas algo que repercute em toda a história do Cristianismo. A vida do Pai, que se derramou sobre a humanidade de Cristo, chega a cada cristão através da Santa Igreja, que, por isto, é adequadamente chamada “Mãe” na Tradição cristã. Mãe… Este vocábulo é dos mais significativos para todo ser humano. É talvez o primeiro conceito que a criança formula, a primeira palavra que ela pronuncia. É da mãe que a criança recebe a vida e os rudimentos da educação e do saber; os ensinamentos, os exemplos, os costumes, o amor da mãe se gravam na memória dos filhos e se tornam decisivos para o futuro destes. É na sua mãe que a criança encontra o primeiro sustentáculo, o seu amparo, a sua força e alegria; é a mãe que explica o mundo ao filho e lhe mostra tudo o que há de bom e belo, como também o que há de insidioso, neste mundo. Pois bem. A Tradição cristã é constante ao afirmar que a Igreja é nossa Mãe. Não conheço Jesus Cristo senão através dos ensinamentos multisseculares da Santa Mãe Igreja; recebi o Livro que me fala de Jesus Cristo das mãos dessa Mãe e Mestra; foi ela que ouviu, por primeiro, a Palavra de Cristo; vivenciou-a, aprofundou-a e consignou-a por escrito nos livros do Novo Testamento. Aliás, que cristão seria eu, que seria de minha fé, que seria minha oração, se eu estivesse entregue a mim mesmo e me encontrasse a sós diante da Bíblia? Talvez eu fizesse a Bíblia dizer o que eu pensasse, em vez de ouvir a genuína mensagem de Cristo recebida de viva voz pela Igreja e oportunamente redigida pelas suas mãos, que foram Mateus, Marcos, Lucas,… Mesmo aqueles que se afastam da Igreja para ficar somente com Jesus Cristo só podem falar do Cristo que eles conhecem através da Igreja. Não há outra via de acesso a Cristo senão a Tradição viva da Igreja. Apesar disto, há aqueles que a abandonam, embora alimentados por essa Santa Mãe. Um vento de crítica amarga bate em muitas mentes e resseca os corações, impedindo-os de ouvir o sopro do Espírito. Muito sabiamente dizia Santo Agostinho: «Onde está a Igreja, aí está o Espírito de Deus». A Igreja é minha Mãe… As censuras que lhe são feitas, não carecem, todas, de fundamento. Mas o volume dessas queixas não supera a grandeza do mistério-sacramento que é a Santa Igreja, o Corpo de Cristo prolongado!

 

A FIDELIDADE À IGREJA
Escrito por Prof. Felipe Aquino

Os cristãos dos primeiros tempos não tinham dúvidas em afirmar que “O mundo foi criado em vista da Igreja”. São Clemente de Alexandria († 215), por exemplo, dizia: “Assim como a vontade de Deus é um ato e se chama mundo, assim também sua intenção é a salvação dos homens, e se chama Igreja” (Catecismo nº 760). Muitos filhos dessa querida Mãe souberam ser-lhe fiel até o fim. Em 1988, Monsenhor Ignatius Ong Pin-Mei, Bispo de Shangai, no dia seguinte de sua libertação, depois de passar 30 longos anos nas prisões da China, por amor a Cristo e fidelidade à Igreja Católica, declarou: “Eu fiquei fiel à Igreja Católica Romana. Trinta anos de prisão não me mudaram. Eu guardei a fé. Eu estou pronto amanhã a voltar novamente à prisão para defender minha fé”. Igualmente o Cardeal da Tchecoslováquia, Frantisek Tomasek, arcebispo de Praga, no ano de 1985, nos tempos difíceis da perseguição comunista, perguntado por um repórter: “Eminência, não está cansado de combater sem êxito?”, respondeu: “Digo sempre uma coisa: quem trabalha pelo Reino de Deus faz muito; quem reza, faz mais; quem sofre, faz tudo. Este tudo é exatamente o pouco que se faz entre nós na Tchecoslováquia” (IL Sabato 8, 14/6/1985, p.11), (PR, n.284, jan86). É bom recordar aqui que, alguns anos depois, em 1989, o comunismo começava a desmoronar em toda a Cortina de Ferro. Em todos os tempos, os cristãos derramaram o seu sangue por causa da fé da Igreja; desde os mártires do império romano, passando pelos mártires do nazismo, do comunismo e também dos tempos modernos. No século III, o bispo e historiador da Igreja Tertuliano, escrevia ao imperador do seu tempo, dizendo que não adiantava eliminar os cristãos porque “o sangue dos mártires é semente de novos cristãos”. Quanto mais cristãos eram devorados pelas feras, queimados vivos ou eliminados pela espada, tanto mais crescia o Cristianismo em Roma, até que o próprio imperador Constantino se converteu a Cristo, por volta do ano 313, quando então, proibiu a perseguição aos cristãos. No ano 390 o imperador Teodósio transformava o Cristianismo na religião do Império. Anos depois o seu sucessor, Juliano, cognominado de “o apóstata”, quis voltar atrás e ressuscitar o paganismo, mas já era tarde; morreu com essa exclamação nos lábios: “Tu venceste ó Galileu!”.

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