Homilia da Semana

12 Domingo TC – Ano B

Por Mons. Inácio José Schuster

Evangelho segundo São Marcos 4, 35-41
Naquele dia, ao entardecer, disse: «Passemos para a outra margem.» Afastando-se da multidão, levaram-no consigo, no barco onde estava; e havia outras embarcações com Ele. Desencadeou-se, então, um grande turbilhão de vento, e as ondas arrojavam-se contra o barco, de forma que este já estava quase cheio de água. Jesus, à popa, dormia sobre uma almofada. Acordaram-no e disseram-lhe: «Mestre, não te importas que pereçamos?» Ele, despertando, falou imperiosamente ao vento e disse ao mar: «Cala-te, acalma-te!» O vento serenou e fez-se grande calma. Depois disse-lhes: «Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» E sentiram um grande temor e diziam uns aos outros: «Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?»

Nós hoje ouvimos o texto Evangélico de Marcos que nos relata um episódio catequético, que diz respeito a Jesus e seus discípulos, dentro de uma barca envolvidos, numa violenta tempestade no lago de Genezaré: “Mestre – gritam a Jesus – não te importa que pereçamos?”
No Antigo Testamento existe um texto referente a Elias, que vale a pena a este propósito a ser recordado: “Os adoradores de Baal aceitam o convite que faz Elias. Clamam por Baal a manhã inteira, para que mande fogo do céu sobre o sacrifício”. Isto não acontece, Elias zomba deles: “Gritem mais alto, ele é deus, quem sabe esteja ocupado com outros afazeres, é possível que esteja em viagem ou até mesmo dormindo”. Gritavam, se retalhavam, conforme o costume da época, mas nenhuma voz.
Esta passagem de Elias relacionada com o texto do Evangelho de Marcos traz a nossa recordação muitas peripécias entre nós e Deus.
Quantas vezes nós também, como aquele povo de Israel da época de Elias, como os discípulos de Jesus na barca, gritamos, gritamos a mais não poder: “Senhor não te importas que eu pereça? Senhor não te importas que eu vá a pique? Senhor não te importas que a minha vida termine desta forma?”
E o silêncio de Jesus Cristo nos desconcerta por completo. Mas o Evangelho deste domingo, que é catequese, nos ensina a ler por dentro do silêncio de Jesus: “Homens de pouca fé, porque duvidastes?”
Jesus repete isto amiúde com cada um de nós: “Homem de pouca fé porque duvidaste, porque continuas a duvidar?”
Não foi exatamente o grito dos discípulos desesperados que arrancou a censura de Jesus. Jesus censurou os discípulos amedrontados naquela ocasião, porque não tinham a coragem de enfrentar o perigo juntamente com Ele. São covardes, pusilânimes, e aquele espetáculo nada mais era do que uma prévia que aconteceria no jardim das Oliveiras.
Também lá não foram capazes, não tiveram coragem de seguir a Jesus na paixão e na morte, fugiram e O deixaram sozinho.
A covardia, a pusilanimidade no livro do Apocalipse no capítulo XXI, vem descrita ao lado da incredulidade, muitas vezes medo, covardia e que nos assolam freqüentemente na vida cristã. São sinônimo de falta de fé, incredulidade. Não confiamos em Deus, imaginamos um Deus distante, longe da nossa vida. Quando não duvidamos até mesmo de Sua existência?
Cada um de nós terá oportunidade neste domingo, de refletir sobre suas tempestades e possíveis covardias, lendo e relendo com calma este texto Evangélico que nos é proclamado.

 

«Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?»
Catecismo da Igreja Católica §§280, 288-292

A criação é o fundamento de «todos os desígnios salvíficos de Deus», «o princípio da história da salvação» que culmina em Cristo. Por seu turno, o mistério de Cristo derrama a luz decisiva sobre o mistério da criação; revela o fim em vista do qual «no princípio, Deus criou o céu e a terra» (Gn 1,1); desde o princípio, Deus tinha em vista a glória da nova criação em Cristo (Rm 8, 18-23). […]
A revelação da criação é inseparável da revelação e da realização da aliança de Deus, o Deus Único, com o seu povo. A criação é revelada como o primeiro passo para esta Aliança, como o primeiro e universal testemunho do amor onipotente de Deus. […]
«No começo, Deus criou o céu e a terra». […] «No princípio era o Verbo […] e o Verbo era Deus […]. Tudo se fez por meio d’Ele e, sem Ele, nada se fez.» (Jo 1, 1-3). O Novo Testamento revela que Deus tudo criou por meio do Verbo eterno, o seu Filho muito amado. Foi n’Ele «que foram criados todos os seres que há nos céus e na terra […]. Tudo foi criado por seu intermédio e para Ele. Ele é anterior a todas as coisas, e todas se mantêm por Ele» (Cl 1, 16-17). A fé da Igreja afirma igualmente a ação criadora do Espírito Santo: Ele é Aquele «que dá a vida», «o Espírito Criador», «a Fonte de todo o bem».
Insinuada no Antigo Testamento, revelada na Nova Aliança, a ação criadora do Filho e do Espírito, inseparavelmente unida à do Pai, é claramente afirmada pela regra de fé da Igreja: «Existe um só Deus […]: Ele é o Pai, é Deus, é o Criador, o Autor, o Ordenador. Fez todas as coisas por Si mesmo, quer dizer, pelo Seu Verbo e pela Sua Sabedoria», «pelo Filho e pelo Espírito» que são como «as Suas mãos» (Santo Ireneu). A criação é a obra comum da Santíssima Trindade.

 

Homilia XII Domingo do Tempo Comum, Ano B
Dom José Luiz Azcona, Bispo da Prelazia de Marajó (PA)

A liturgia da Eucaristia que estamos celebrando, nos convida a refletirmos sobre o capitão, o guerreiro, que está na frente desta batalha onde todos nós somos soldados.
A Sagrada Escritura chama o Espírito Santo de Paráclito. Um de seus significados é ‘aquele que vai à frente’.
Vamos refletir também sobre a água, que é símbolo também do Espírito Santo. Sem a presença do Espírito Santo, a derrota é clara. A vitória se dá quando o Espírito se faz presente. E para termos um bom combate, precisamos de fé.
O amor deve ser pedido, implorado, chorado. Pelo amor devemos fazer qualquer coisa.
O amor de Deus acompanha o cristão, o combatente, e nunca o abandonará.
Deus quer dar a nós o dom do Espírito Santo. Deus te trouxe aqui para preencher o teu coração com essa água viva, que é o Espírito Santo.
A segunda leitura nos orienta quando fala no inicio: “Irmãos: 14O amor de Cristo nos pressiona, pois julgamos que um só morreu por todos, e que, logo, todos morreram.” O que significa que o amor de Cristo nos pressiona? Esse amor de Cristo se revelou morrendo por todos, pois todos estavam mortos.
O amor de Deus não é o que nasce no teu coração para com Ele. É o amor de Cristo para contigo e com todos.
Aquele que motiva nosso coração, que pressiona, impulsiona, não é o nosso coração. É o amor de Cristo em nós, por nós.
Precisamos olhar para Deus. Se Deus não regenerar o coração do homem pelo seu amor, não conseguimos amar.
Mas onde está a ponte para que nosso coração experimente que é amado? Não adianta pregar sobre o amor se não o experimentamos. Como temos acesso a esse amor? São Paulo nos ajuda a compreender Romanos 5, 5: “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”.
Como se faz experiência do amor? É no coração. E coração significa mente, vontade, inteligência, sentimentos, afetividade. É tudo.
E é ai no centro da personalidade que desce o amor de Deus e Ele nos comunica seu próprio amor.
Quando Deus derrama seu amor pelo Espírito Santo em nosso coração, é que podemos viver, ser cristãos e combatentes, e enfrentar o desprezo, a cruz, o inferno.
O amor é eterno, não cansa, é paciente, é tudo, porque o amor é Deus.
Até os 41 anos, não saberia dizer o que acabei de lhes falar. Poderia falar teologicamente do Amor, mas nunca o tinha experimentado. E eu já era religioso e padre, mas nunca tinha tido a experiência do amor de Deus no coração. Já imaginaram a situação de alguém assim?
Foram 41 anos de vazio. Mas eu precisava me apoiar em alguma coisa e era no Direito Canônico da Igreja e as ordens de minha congregação.
Eu era um bom frade, mas não amava a Deus.
Estava tão cego e errado e tão fora do caminho, que não percebia a realidade tenebrosa, sendo sacerdote e religioso desse jeito.
Até que Deus teve misericórdia, e abriu meus olhos.
Deus falou com muita simplicidade.
Em um retiro no 1981, Deus me dizia no interior: ‘José Luiz você não me ama e não ama a ninguém.’ Eu me senti estranho e me defendi daquelas palavras: ‘Como não te amo Senhor?’
Mas aquela palavra era mais poderosa do que minhas convicções.
Até que no momento do retiro houve confissões. E ali confessei que não amava a Deus e a ninguém. Envergonhado e sem saber o que acontecia comigo, mas sentindo a verdade de que estava fora do caminho de Deus, eu disse isso.
E assim foi. Eu estava completamente desnorteado. Me coloquei na fila para receber a oração dos intercessores. E falei aos meus irmãos sacerdotes tudo isso, e pedi que rezassem por mim para que Deus me fizesse experimentar esse Amor. Era 24 de abril de 1981.
E um padre rezava com palavras de Santo Agostinho: ‘Ó beleza antiga e tão nova! Tarde te amei!.’
Eu tinha ouvido essas palavras desde os 10 anos de idade, mas nunca ouvira e sentira aquelas palavras daquele jeito. Percebi que Deus preenchia 41 anos vazios de minha vida. Ele estava me comunicando o Seu amor. Eu senti, tomou conta de mim o Espírito Santo, a graça de Deus. E comecei a chorar. Alegre, doce, suave.
E eu disse àqueles padres: ‘Eu creio que Deus atendeu as minhas preces!’
E a partir daí minha vida mudou.
Deus é bom, compassivo e misericórdia.
A vida não é fácil, mas o amor é sempre maior. Confie no amor de Deus! Para Deus não importa que condições você esta nesse momento. A única coisa que Ele quer, é que você tenha um mínimo de confiança e permita que Ele o mergulhe nesse oceano de amor que emana de Seu coração. Somente isso.
Que você lhe dê a oportunidade, e lhe dê a sua liberdade nesse momento e peça o Santo Espírito em seu coração. É isso que Jesus quer.
Deus grita: ‘Se alguém tem sede, tem fome de amor, de ser amado, venha a mim! Não vá à prostituta, às drogas, ao bar. Venha a mim!’ Este convite é de Jesus.
Estenda seus braços a Cristo, e abra o seu coração para que Ele o encha de amor. Abra-se para a água do Espírito Santo.

 

XII Domingo do Tempo Comum
Jo 38, 8-11; 2Cor 5, 14-17; Mc 4, 35-41 – Frei Raniero Cantalamessa
Levantou-se uma grande tempestade

O Evangelho deste Domingo é o da tempestade acalmada. Ao entardecer, depois de uma jornada de intenso trabalho, Jesus sobe a uma barca e diz aos apóstolos que vão à outra margem. Esgotado pelo cansaço, dorme na popa. Enquanto isso, levanta-se uma grande tempestade que inunda a barca. Assustados, os apóstolos acordam Jesus, gritando-lhe: «Mestre, não te importas que pereçamos?». Após levantar-se, Jesus ordena ao mar que se acalme: «Cala, emudece». O vento se acalmou e sobreveio uma grande bonança. Depois, disse-lhe: «Por que estais com tanto medo? Ainda não tendes fé?».
Vamos tratar de compreender a mensagem que nos dirige hoje esta página do Evangelho. A travessia do mar da Galiléia indica a travessia da vida. O mar é minha família, minha comunidade, meu próprio coração. Pequenos mares, nos quais se podem desencadear, como sabemos, tempestades grandes e imprevistas. Quem não conheceu algumas dessas tempestades, quando tudo se obscurece e o barquinho de nossa vida começa a inundar-se de água por todos os lados, enquanto Deus parece que está ausente ou dorme? Um diagnóstico alarmante do médico e nos encontramos de repente em plena tempestade. Um filho que empreende um mau caminho dando de que falar, e já temos os pais em plena tempestade. Uma reviravolta financeira, a perda do trabalho, do amor do namorado, do cônjuge, e nos encontramos em plena tempestade. O que fazer? A que podemos agarrar-nos e para que lado podemos jogar a âncora? Jesus não nos dá a receita mágica para escapar de todas as tempestades. Não nos prometeu que evitaríamos todas as dificuldades; Ele nos prometeu, no entanto, a força para superá-las, se a pedirmos.
São Paulo nos fala de um problema sério que teve de enfrentar em sua vida e que chama «um espinho em minha carne». «Três vezes» (ou seja, infinitas vezes), diz, rogou ao Senhor que lhe libertasse dele e, o que respondeu? Leiamos juntos: «Minha graça te basta, minha força se mostra perfeita na fraqueza». Desde aquele dia, começou inclusive a gloriar-se de suas fraquezas, perseguições e angústias, até o ponto de poder dizer: «quando estou fraco, então é quando sou forte» (2Cor 12, 7-10).
A confiança em Deus: esta é a mensagem do Evangelho. Naquele dia o que salvou os discípulos do naufrágio foi o fato de levar Jesus na barca, antes de começar a travessia. Esta é também para nós a melhor garantia contra as tempestades da vida. Levar Jesus conosco. O meio para levar Jesus na barca da própria vida e da própria família é a fé, a oração e a observância dos mandamentos.
Quando a tempestade se desencadeia no mar, ao menos no passado, os marinheiros costumavam jogar óleo sobre as ondas para acalmá-las. Nós jogamos sobre as ondas do medo e da angústia a confiança em Deus. São Pedro exortava os primeiros cristãos a ter confiança em Deus nas perseguições, dizendo: «confiai-lhe todas as vossas preocupações, pois Ele cuida de vós» (1Pd 5, 7). A falta de fé que Jesus reprovou aos discípulos nessa ocasião se deve ao fato de pôr em dúvida que lhe «importe» sua vida e incolumidade: «não te importas que pereçamos?».
Deus cuida de nós, Ele se importa com nossa vida, e de que maneira! Uma história citada com freqüência fala de um homem que teve um sonho. Via dois pares de pegadas que se haviam ficado gravadas na areia do deserto e compreendia que um par de pegadas eram as suas e o outro par de pegadas eram as de Jesus, que caminhava a seu lado. Em um certo momento, um par de pegadas desaparece, e compreende que isso sucedeu precisamente em um momento difícil de sua vida. Então se lamenta com Cristo, que lhe deixou só no momento da prova. «Mas, eu estava contigo!», respondeu Jesus. «Como é possível que estivesse comigo, se na areia só se vê um par de pegadas?». «Eram as minhas — respondeu Jesus. Nesses momentos, eu havia te carregado». Lembremos disso, quando também nós sintamos a tentação de queixar-nos com o Senhor porque nos deixa sozinhos.

 

DÉCIMO SEGUNDO DOMINGO COMUM
Mc 4, 35-41
“Quem é este homem?”

Retomamos a caminhada pelo evangelho de Marcos. O trecho de hoje está situado na primeira parte do evangelho, onde Marcos procura demonstrar que as autoridades religiosas da época, os próprios parentes de Jesus e os discípulos d’Ele não o compreenderam, apesar de verem as suas obras e milagres (1, 19-8, 26). Toda esta primeira parte do Evangelho prepara o chão para a pergunta fundamental do evangelho: “E vocês, quem dizem que eu sou?” Por isso a história hoje relatada leva os discípulos a se perguntarem: “Quem é este homem?”
A história do evento no mar de Galiléia retrata simbolicamente a situação da comunidade marcana, pelo ano 70, quando o evangelho foi escrito. A comunidade está vacilando na sua fé, assolada por dúvidas e até perseguições. Diante do cansaço da caminhada, muitos se refugiaram na busca de uma religião de milagres, sem o esforço de seguir Jesus até a Cruz. Por isso, Marcos insiste que os milagres não são suficientes para conhecer Jesus, pois as autoridades, os familiares e os discípulos os presenciaram e não chegaram a entender nem a pessoa nem a proposta de Jesus.
O barco no lago, assolado pelos ventos e ondas, representa a comunidade dos discípulos, prestes a afundar-se por causa das dificuldades da caminhada. Jesus dorme no barco e parece não se preocupar com o perigo. Assim, para a comunidade marcana, parecia que Jesus não estava ligado aos seus sofrimentos e, como conseqüência, vacilavam na sua fé. Mas, Jesus acalmou o mar e ainda questionava a pouca fé dos Doze: “por que vocês são tão medrosos? Vocês ainda não têm fé?” (v. 3). Assim, Marcos quis mostrar aos leitores do seu tempo que Jesus estava com eles nas dificuldades e que a sua falta de fé estava causando grande parte das dificuldades que estavam enfrentando.
Hoje, em muitos lugares, a Igreja parece como a igreja marcana, ou ainda como o barco no mar. Diante das desistências, do secularismo, da diminuição da sua influência, para muitos a Igreja esta se afundando. Em lugar de assumir o doloroso seguimento de Cristo até a Cruz, muitos se refugiam numa religiosidade de milagres, assim fugindo da penosa tarefa de construir o Reino de Deus entre nós. Marcos vem corrigir esta ideologia triunfalista e nos convida a aprofundar a nossa fé, a clarear para nós mesmos e para o mundo “quem é este homem?”, e a segui-Lo no dia a dia. Pois, Jesus não está alheio às nossas dificuldades! Pelo contrário, Ele está no meio de nós. Só que não nos livra da tarefa de nos engajarmos na luta pelo Reino, mesmo que as ondas e os ventos estejam contrários. Ter fé n’Ele não é somente acreditar que Ele exista e seja Filho de Deus, mas tomar a nossa cruz e segui-Lo, na certeza que Ele não nos abandonará! Ressoa para nós hoje a pergunta de dois mil anos atrás: “Por que são tão medrosos? Ainda não têm fé?”

 

A força do mar e das tempestades simbolizaram em muitas culturas e também na cultura bíblica as forças incontroláveis e perigosas para o homem, ou seja, uma espécie de caos anti-divino. A barca dos discípulos à deriva nas ondas é um sinal da debilidade humana perante as forças contrárias da natureza e da dureza da vida. A primeira leitura, do Livro de Jó, prepara esta passagem do evangelho. Nela, encontramos a convicção religiosa de Jó e de todo o Antigo Testamento: “E disse-lhe (ao mar): Chegarás até aqui e não irás mais além, aqui se quebrará a altivez das tuas vagas”. O poder de Deus é superior a qualquer força, tanto da natureza como do homem. Esta imagem de Deus dominou a dimensão religiosa da humanidade: Deus é o Onipotente, tudo se lhe deve submeter. Passar desta idéia para a afirmação do poder terrível de Deus era muito fácil; Deus é o poder absoluto e dominador, que se ira sobre o homem pecador e a ninguém prestará contas. Provavelmente, é esta a imagem de Deus que está por detrás do ateísmo dos tempos modernos; a “morte de Deus” é a única maneira de tornar possível a vida, a liberdade e a realização do homem. Todavia, lamentavelmente, esta imagem de Deus continua em muitas situações e ações religiosas, cultivando o medo e o escrúpulo. O temor e o respeito a Deus são bem diferentes do medo.
Jesus assume a herança do Antigo Testamento e realiza-a. Jesus, de pé na barca, falando imperiosamente ao vento e ao mar, recorda a palavra poderosa de Deus no Antigo Testamento. Mas, como o faz? Jesus, de pé na barca, é sinal do Senhor Ressuscitado; e ele a dormir no meio da tempestade é sinal da sua morte (“dormir” na cruz, porque débil e também vítima da humanidade que o crucificou). Jesus de pé vencendo o mar não mostra somente o seu poder, mas também expressa que é a prova por excelência da sua vitória. Ele vence o mal do mundo, o ódio, o orgulho, a injustiça, não simplesmente “dominando”, mas amando, perdoando e dando-se. Isto fez com que Ele fosse a vítima até perder a vida, mas foi precisamente assim que venceu. Morrendo na cruz sem ódio, sem vingança, perdoando, amando, vencia todas as forças que destroem a vida humana. É deste modo que revela o verdadeiro poder de Deus. O Onipotente não O desceu da cruz, mas pela força do Seu Espírito, Onipotência do amor, O fez Homem Pleno e Salvador.
“Porque estais tão assustados? Ainda não tendes fé?”. Estas palavras são o centro mais misterioso e mais radical da experiência cristã. Jesus exige confiança plena nele. Não quer dizer que exija confiança no seu poder; Ele não veio para exercer qualquer poder. Exige a fé nele. Quem acredita Nele é todo aquele que participa da sua experiência de amor, de pobreza e de perdão. Ele é quem vence as forças, aparentemente invencíveis, do pecado e da morte. É a única maneira de vencê-las. “Cristo morreu por todos, para que os vivos deixem de viver para si próprios, mas vivam para Aquele que morreu e ressuscitou por eles” (2ª Leitura). É necessário, então, abrir os olhos e observar o que nos rodeia. Muitos não sabem resistir aos ataques do mal e caem no orgulho, no egoísmo, na ânsia do poder, no desprezo do próximo, na busca desenfreada de dinheiro, na incapacidade de perdoar e de dialogar… Mas, há outros que “acreditam” que perante esta situação, são capazes de amar, de perdoar, de procurar e proclamar a justiça, de promover a paz, de confiar. Superaram as decepções e o medo; encontraram a vida. “Se alguém está em Cristo, é uma criatura nova. As coisas antigas passaram: tudo foi renovado” (2ª Leitura).

Cumplicidade, moralidade e escândalo

Por Mons. Inácio José Schuster, Vigário Geral da Diocese de Novo Hamburgo

1. Definição de Cumplicidade (Catecismo 1868-1869)
Por cumplicidade entendemos aqui o auxílio que alguém presta à realização de um ato mau que outra pessoa resolveu executar. Distinguimos entre cumplicidade formal e cumplicidade material.

1.1. Cumplicidade Formal
Esta consiste em colocar-se diretamente a serviço do mal, seja porque o cúmplice quer o pecado alheio, seja porque lhe presta uma colaboração que, por sua índole mesma, significa aprovação desse pecado.

A cumplicidade formal é sempre pecaminosa. Será mais ou menos grave de acordo com o tipo de pecado para o qual ela contribui e a importância de tal colaboração. A título de exemplo, seja citado o caso da enfermeira que colabora diretamente para a realização de um aborto; ainda que não tenha a intenção de contribuir para um pecado, a sua participação no abortamento é, por sua índole mesma, pecaminosa (não basta não ter a intenção de não pecar para que não haja pecado, se a ação como tal é pecaminosa). Outro exemplo é o do policial a quem mandam que aplique tortura a um prisioneiro; não pode eximir-se de responsabilidade, alegando que não age por própria iniciativa, mas apenas executa ordens superiores.

1.2. Cumplicidade Material
A cumplicidade material é um ato moralmente bom ou indiferente do qual alguém abusa, fazendo-o servir ao pecado. Quem é cúmplice nestas condições pode não saber das intenções alheias. É o caso de quem vende uma arma de caça (ação que em si não é pecaminosa) a alguém que vai utilizar-se dela para cometer um assassínio. É também o caso de quem ajuda a transportar objetos roubados, julgando que pertencem legitimamente à pessoa solicitante (e imaginando mesmo estar realizando assim um ato de caridade).

2. Moralidade da Cumplicidade Material
O cúmplice que ignora por completo as intenções do seu parceiro e age de boa fé, está isento de culpa. Há casos, porém, em que o cúmplice pode prever o mau no uso do seu serviço, ou suspeitar dele porque conhece o parceiro e o seu procedimento habitual ou porque anteriormente já fez experiências semelhantes. Em tais circunstâncias, a pessoa chamada a colaborar deve ponderar a sua cooperação:
– Se a sua ação tiver uma finalidade boa, independente do pecado do parceiro
– Se o bem visado pelo cúmplice compensar o mal ou o pecado do parceiro.
– Se a intenção do cúmplice for voltada tão somente para o bem
– Se não houver como evitar esse tipo de colaboração.
A matéria é muito complexa, pois são freqüentes os casos de colaboração na sociedade moderna. Essa finalidade boa não pode ser simplesmente o desejo de lucro, ou o receio de prejuízos materiais. Se alguém aluga um apartamento ou um quarto a um cliente cujas intenções desonestas (adultério, prostituição…) lhe são conhecidas, peca gravemente. Verdade é que quem aluga pode geralmente presumir bom uso do apartamento, mas, no caso em foco, as más intenções do locatário são patentes, o que implica na obrigação de não alugar. Quanto mais diminui a iniciativa pessoal, tanto mais diminui também a cumplicidade propriamente dita. Tais são os casos da datilógrafa que, entre outras coisas, bate faturas fraudulentas (que ela não pode identificar claramente); o do gráfico que contribui para imprimir páginas, às vezes, pornográficas (que ele não reconhece bem); … o do funcionário de balcão que faz pacotes de mercadorias que ele mal conhece … Quem presta colaboração material a uma empresa desonesta para poder ganhar seu pão, não tem a obrigação de abandonar imediatamente a empresa (o objetivo de sobrevivência justifica a sua permanência na firma), mas deve, sem demora, procurar outro emprego ou meio de subsistência. Pode-se admitir que alguém colabore materialmente com pessoas desonestas se tem em mira exercer sobre elas uma influência sadia e transformadora (esta finalidade boa compensa os males que indiretamente decorrem da colaboração). A um católico não é lícito ser testemunhas do casamento civil de dois católicos divorciados que contraem novas núpcias. Far-se-ia cúmplice de um ato que a consciência católica não aprova.

3. Definição de Escândalo (Catecismo 1938, 2282s, 2326, 2353s, 2489)
A palavra grega “skándalon” significa “pedra de tropeço”. Na linguagem teológica designa toda palavra ou obra capaz de tornar-se para outrem ocasião de ruína espiritual. Jesus Cristo mesmo censurou severamente a prática do escândalo (cf. Mt 18, 6s). Entende-se por escândalo toda palavra ou ação, contrária à caridade, que cria perigo de pecado para o próximo, seja por intenção de prejudicá-lo, seja para atender a interesses particulares. O ato em si pode não ser “mau”, mas se sua aparência for “má” deve ser evitado, segundo o conselho de Paulo: “…tomai cuidado para que essa mesma liberdade, que é vossa, não se torne ocasião de queda para os fracos” (Rm 8, 9). Podemos classificar o escândalo como intencional ou não intencional, isto é, quando é premeditado e quando ocorre por negligência. As palavras de Cristo nos advertem contra tal perigo: “Desgraçado do mundo que causa tantas quedas! decerto, é necessário que haja escândalos, mas ai do homem por quem acontece a queda!” (Mt 18, 7).

4. A Moralidade do Escândalo
O escândalo quando premeditado é pecado grave, haja vista os textos do Evangelho que o condenam: Mt 18, 7-9. São Paulo também o reprova (1Cor 8, 12s; Rm 14, 15). O fato de que a vítima não se tenha deixado seduzir para o mal não diminui a gravidade do pecado. Mesmo que alguém só procure seduzir para um pecado leve, pode estar cometendo pecado grave, especialmente se o sedutor é uma pessoa que, por seus encargos, deveria levar os outros à prática do bem. Entre as maneiras de dar escândalo, está o mau exemplo. Alguém pode induzir os outros ao mal mesmo sem falar, mas simplesmente cometendo pecados. Tal comportamento pode ser contagioso, pois os exemplos arrastam e podem alastrar-se de pessoa a pessoa ou de grupo a grupo, causando danosa degradação de costumes. Sabe-se que a tibieza de vida e a mediocridade dos cristãos, especialmente daqueles que têm mais responsabilidade, vêm a ser grandemente prejudiciais para a sociedade eclesiástica e para o foro civil. De resto, a má conduta de alguém tem suas raízes em pecados internos dessa pessoa; são estes que remotamente preparam o escândalo – o que exige sempre a conversão do sedutor. Existe grave obrigação de reparar o escândalo. Quem o provoca deve procurar deter a má influência desencadeada e restaurar os valores lesados, na medida do possível. Como já foi dito, há escândalos que decorrem de ações que em si não são moralmente pecaminosas. É lícito promover uma ação benéfica, mesmo com risco de escândalo, desde que se cumpram as condições para exercer uma causalidade com duplo efeito: assim, por exemplo, quem, levado por espírito apostólico, deseja trabalhar na recuperação de pessoas entregues à prostituição, estará exercendo uma atividade que poderá ser mal entendida; todavia esta será legítima se for isenta de pecado, visto que o bem a ser atingido será muito mais vultoso do que os males eventuais. O escândalo dos fracos deve-se à simplicidade da pessoa que se escandaliza. É necessário evitá-lo, tanto quanto possível, ainda que a custo de sacrifícios por parte da pessoa tida como escandalosa. O próprio Cristo assim procedeu: (cf. Mt 17, 24-27).

5. O Cristão e o Problema do Escândalo
Em nossos dias a consciência de muitos cristãos pode estar confusa e com a responsabilidade atenuada por causa das numerosas opiniões correntes sobre certos pontos de Moral: o aborto, os métodos de contracepção, de controle da natalidade, a masturbação, etc. É preciso que haja quem dissipe a perplexidade e as atitudes errôneas decorrentes de tal multiplicidade de “sentenças”. São Paulo considerou o caso de cristãos que, tendo a consciência mal formada, julgavam que não era lícito comer carnes imoladas aos ídolos (o que, na verdade, não era pecado); declarava, em conseqüência, que preferia abster-se de tais alimentos (renunciando a um direito seu) a escandalizar irmãos, pelos quais Cristo morreu; (cf. 1Cor 8, 7-13; Rm 14, 19-21). Fica claro que os cristãos mais esclarecidos têm a obrigação de procurar instruir os mais simples a fim de que compreendam melhor o que é e o que não é pecado. A atenção para com os fracos e a reparação dos males a eles causados são deveres que se impõem ao bom cristão. Devemos avivar o senso da responsabilidade pessoal diante dos escândalos. Não basta registrar os escândalos e lamentá-los (ou, o que é grave, comentá-los e torná-los públicos), é necessário que cada cristão lembre-se que lhe toca uma responsabilidade perante tais males; com efeito, somos todos solidários entre nós, de modo que as falhas de uns podem estar na dependência de falhas de outros e podem encontrar seu remédio na santidade de vida dos irmãos.
Para frear uma tendência a comentar o mau procedimento alheio, pode-se lembrar a máxima dos antigos monges: “Quem tem um morto em casa, não o abandona para prantear o morto do vizinho”. Denunciar os escândalos, quando necessário, não pode ser a última palavra de um programa cristão. O Senhor quer que os seus discípulos tenham uma função construtiva em relação aos irmãos, fazendo as vezes de sal da terra, luz no mundo (Mt 5, 13ss) e fermento na massa (Mt 13, 33). Aliás, Deus só permite os escândalos para que deles saiam bem maior. Podemos ainda falar de um “escândalo salutar”. Com efeito; a vida cristã coerente pode sacudir, abalar e “escandalizar”; a palavra do Evangelho, oportunamente anunciada, pode “assustar” os ouvintes e provocá-los a façanhas que fogem da rotina, deixando perplexos os espectadores. Nesta perspectiva, Jesus foi o grande Escândalo; a pregação dos Apóstolos também o foi (cf. 1Cor 1, 23). É importante considerar que neste sentido não estamos tratando de escândalo enquanto pecado, mas da força transformadora da Palavra de Deus, penetrante como uma espada de dois gumes, que fere o íntimo de cada homem (cf. Hb 4, 12ss).
Na verdade, o cristão não pode pactuar com o mal; tem que tomar posição contrária, que por vezes pode “escandalizar”… Sabiamente dizia o Papa Pio XI: “O maior obstáculo ao apostolado é a timidez ou, antes, a covardia dos bons, e Pio XII: “O cansaço dos bons é o grande mal da nossa época”. É preciso, porém que os cristãos não suscitem atritos desnecessários. Saibam aguardar e aproveitar os momentos adequados para tomar a autêntica atitude frente aos males que os cercam, evitando posições intempestivas e passionais que, em vez de edificar, só fomentam os erros. Dentro da Igreja é necessário que os fiéis saibam distinguir entre sua santidade ontológica e a fragilidade das pessoas que lhe pertencem. Se estas falham, aquela não falha, pois o Senhor lhe prometeu assistência indefectível (Mt 28, 18-20). Um Cristianismo sem fraqueza humana não existe; seria um milagre, que Deus não quer fazer. “O justo vive da fé”.

Superar o “escândalo” da divisão entre os cristãos

Audiência geral: papa reflete sobre a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos e pede que os participantes do encontro Genebra 2 não poupem esforços para acabar com a violência na Síria
Por Salvatore Cernuzio

ROMA, 22 de Janeiro de 2014 (Zenit.org) – “Cristo não está dividido”; por isso, “a divisão entre os cristãos” só pode ser definida como um “escândalo”, disse hoje o papa Francisco numa chuvosa e lotada audiência geral. É uma resposta clara para a pergunta que São Paulo fez aos cristãos de Corinto: “Cristo acaso está dividido?”.
A pergunta é o tema inspirador da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, em andamento até o próximo sábado, dia da Conversão do Apóstolo dos Gentios. Uma “iniciativa espiritual preciosa”, define o papa, que, há mais de um século, envolve as comunidades cristãs e deve ser aproveitada como um “tempo dedicado à oração pela unidade de todos os batizados”, à luz da exortação de Cristo para que “todos sejam um”.
Hoje, observa o papa, “precisamos reconhecer sinceramente e com dor que as nossas comunidades continuam vivendo entre divisões que são um escândalo”. É um paradoxo, porque “o nome de Cristo cria comunhão e unidade, não divisão! Ele veio trazer a comunhão entre nós, não nos dividir”.
As divisões “enfraquecem a credibilidade e a eficácia do nosso compromisso de evangelização”, ameaçando “esvaziar” o poder do batismo e da cruz, os dois elementos centrais comuns a todo o “discipulado cristão”. O convite do papa é para “nos alegrarmos sinceramente com as graças concedidas por Deus aos cristãos”, a exemplo de Paulo, que, como recorda o Santo Padre, sabe “reconhecer com alegria os dons de Deus presentes em outras comunidades”.
“É bonito reconhecer a graça com que Deus nos abençoa”, diz o bispo de Roma, e, mais ainda, “encontrar, em outros cristãos, aquilo de que precisamos, aquilo que podemos receber como um presente dos nossos irmãos e irmãs”. O primeiro passo é, portanto, “encontrar-se”: um gesto aparentemente trivial, mas que, muitas vezes, se torna um objetivo difícil de alcançar. O encontro, explicou o papa, “exige algo mais: muita oração, humildade, reflexão e conversão contínua”. Não nos desanimemos, exorta o papa. “Sigamos em frente neste caminho, rezando pela unidade dos cristãos, para que este escândalo acabe e não exista mais entre nós”.
Como na última quarta-feira, no momento da saudação aos fiéis na Praça de São Pedro, o papa Francisco dirigiu seus pensamentos primeiramente aos peregrinos de língua árabe, especialmente aos que vieram do Egito. Para eles, o auspício de que “a fé não seja motivo de divisão, mas instrumento de unidade e de comunhão com Deus e com os irmãos (…) A invocação do nome do Senhor não seja razão de encerramento, mas de abertura do coração para o amor que une e acrescenta”. Bergoglio convidou a perseverar na oração, para que “nosso Senhor conceda a unidade aos cristãos, vivendo a diferença como riqueza; vendo no outro um irmão a ser acolhido com amor”.
O Santo Padre saudou depois os participantes do encontro e coordenadores regionais do Apostolado do Mar, liderado pelo cardeal Antonio Maria Vegliò, exortando-os a ser “a voz dos trabalhadores que vivem longe dos seus entes queridos e que enfrentam o perigo e a dificuldade”.
No final da audiência, o papa dedicou um pensamento à Conferência Internacional de Apoio à Paz na Síria, que acaba de começar em Montreux, Suíça, e que incluirá negociações de paz em Genebra a partir de 24 de janeiro. A oração do Sucessor de Pedro é um apelo tocante ao Senhor para que Ele “abrande o coração de todos, a fim de que, procurando apenas o bem maior do povo sírio, já tão duramente provado, não poupem nenhum esforço para chegar urgentemente ao fim da violência e ao fim do conflito que já causou sofrimento demais”.
Sofrimento que, traduzido em números, deixou em três anos de conflito mais de 130 mil mortos e uma quantidade incontável de refugiados. O papa pede que todos, fiéis, cidadãos e pessoas de boa vontade, contribuam para abrir nessa terra martirizada “um caminho decidido de reconciliação, de harmonia e de reconstrução (…) Que cada um encontre no outro não um inimigo, não um concorrente, e sim um irmão para aceitar e para abraçar”.

 

Texto da catequese do Papa Francisco na audiência da quarta-feira
Na Semana de oração pela Unidade, Francisco convida a reconhecer com alegria os dons de Deus presentes em outras comunidades cristãs
Por Redacao
ROMA, 22 de Janeiro de 2014 (Zenit.org) – Queridos irmão e irmãs,
Sábado passado iniciou-se a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que se concluirá sábado próximo, festa da conversão de São Paulo apóstolo. Esta iniciativa espiritual, mais do que nunca preciosa, envolve as comunidades cristãs há mais de cem anos. Trata-se de um tempo dedicado à oração pela unidade de todos os batizados, segundo a vontade de Cristo: “que todos sejam um” (Jo 17, 21). Todos os anos, um grupo ecumênico de uma região do mundo, sob a condução do Conselho Ecumênico das Igrejas e do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, sugere um tema e prepara subsídios para a Semana de Oração. Este ano, tais subsídios são provenientes das Igrejas e comunidades eclesiais do Canadá, e fazem referência à pergunta dirigida por Paulo aos cristãos de Corinto: “Então estaria Cristo dividido?” (1 Cor 1, 13).
Certamente Cristo não está dividido. Mas devemos reconhecer sinceramente e com dor que as nossas comunidades continuam a viver divisões que são um escândalo. As divisões entre nós cristãos são um escândalo. Não há outra palavra: um escândalo. “Cada um de vós – escrevia o apóstolo – diz: “Eu sou de Paulo”, “Eu sou de Apolo”, “E eu de Cefas”, “E eu de Cristo”” (1, 12). Mesmo aqueles que professavam Cristo como seu líder não são aplaudidos por Paulo, porque usavam o nome de Cristo para separar-se dos outros dentro da comunidade cristã. Mas o nome de Cristo cria comunhão e unidade, não divisão! Ele veio para fazer comunhão entre nós, não para dividir-nos. O Batismo e a Cruz são elementos centrais do discipulado cristão que temos em comum. As divisões, em vez disso, enfraquecem a credibilidade e a eficácia do nosso compromisso de evangelização e arriscam esvaziar a Cruz do seu poder (cfr 1,17).
Paulo repreende os coríntios pelas suas disputas, mas também dá graças ao Senhor “por causa da graça de Deus que vos foi dada em Cristo Jesus, porque Nele fostes enriquecidos de todos os dons, aqueles da palavra e aqueles do conhecimento” (1, 4-5). Estas palavras de Paulo não são uma simples formalidade, mas o sinal que ele vê antes de tudo – e disto se alegra sinceramente – os dons feitos por Deus à comunidade. Esta atitude do Apóstolo é um encorajamento para nós e para cada comunidade cristã a reconhecer com alegria os dons de Deus presentes nas outras comunidades. Apesar do sofrimento das divisões, que infelizmente ainda permanecem, acolhemos as palavras de Paulo como um convite a alegrar-nos sinceramente pelas graças concedidas por Deus a outros cristãos. Temos o mesmo Batismo, o mesmo Espírito Santo que nos deu a Graça: reconheçamos isso e nos alegremos.
É belo reconhecer a graça com a qual Deus nos abençoa e, ainda mais, encontrar nos outros cristãos algo de que necessitamos, algo que podemos receber como um dom dos nossos irmãos e irmãs. O grupo canadense que preparou os subsídios desta Semana de Oração não convidou as comunidades a pensarem naquilo que poderiam dar a seus vizinhos cristãos, mas os exortou a encontrar-se para entender aquilo que todos podem receber de tempos em tempos dos outros. Isso requer algo a mais. Requer muita oração, requer humildade, requer reflexão e contínua conversão. Sigamos adiante neste caminho, rezando pela unidade dos cristãos, para que este escândalo seja exterminado e não esteja mais entre nós.
(Tradução: Jéssica Marçal/Canção Nova)

XXXII Domingo do Tempo Comum – Ano C

Por Mons. Inácio José Schuster

Evangelho segundo São Lucas 20, 27-38
Aproximaram-se alguns saduceus, que negam a ressurreição, e interrogaram-no: «Mestre, Moisés prescreveu nos que, se morrer um homem deixando a mulher, mas não tendo filhos, seu irmão casará com a viúva, para dar descendência ao irmão. Ora, havia sete irmãos: o primeiro casou-se e morreu sem filhos; o segundo, depois o terceiro, casaram com a viúva; e o mesmo sucedeu aos sete, que morreram sem deixar filhos. Finalmente, morreu também a mulher. Ora bem, na ressurreição, a qual deles pertencerá a mulher, uma vez que os sete a tiveram por esposa?» Jesus respondeu-lhes: «Nesta vida, os homens e as mulheres casam-se; mas aqueles que forem julgados dignos da vida futura e da ressurreição dos mortos não se casam, sejam homens ou mulheres, porque já não podem morrer: são semelhantes aos anjos e, sendo filhos da ressurreição, são filhos de Deus. E que os mortos ressuscitam, até Moisés o deu a entender no episódio da sarça, quando chama ao Senhor o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob. Ora, Deus não é Deus de mortos, mas de vivos; pois, para Ele, todos estão vivos.»

Não é fácil crer, de acordo com a plena Doutrina Católica. Se nós fizéssemos uma pesquisa em nossas comunidades, teríamos grande surpresa. Existem pessoas que não admitem que Jesus seja Deus, existem outras que aceitam reencarnações e se dizem católicas; existem as que duvidam do além e outras ainda que duvidem da ressurreição corpórea. No entanto a revelação de Deus é clara: “Deus não destrói o que fez, construiu-nos seres para a imortalidade”.
É na matéria que Deus nos quer. Deus nos concebe espírito dentro do corpo e não fora dele.
O texto de hoje nos diz que alguns saduceus que não criam na ressurreição levaram a Jesus um caso grotesco e ridículo: “Certa mulher teve diversos maridos aqui na terra, quando ela se encontrar na Vida Eterna, de quem será esposa, já que todos sucessivamente a tiveram, aqui neste mundo, como esposa?”.
Jesus, naquela ocasião, mostrou como aqueles saduceus estavam distantes do verdadeiro sentido das Escrituras, sobretudo, do poder de Deus. A seguir diz que a ressurreição dos mortos já se encontrava na revelação do Antigo Testamento, consignada a Moisés. Lá estava escrito: “Eu sou o Deus de Abraão, Isaac e Jacó”. Naquela época os Patriarcas já haviam morrido, mas se Deus se auto-denomina Deus de Abraão, Isaque e Jacó, é porque os Patriarcas viviam para além da sua própria morte.
Deixemos de especular demais. Nós não sabemos o que se passa exatamente no ato de nossa morte. Não sabemos exatamente como será o encontro com Cristo e com Deus, logo após a morte. A revelação nos diz que se crêssemos em Cristo apenas nesta vida, seríamos os mais miseráveis de todos os homens.
Nós cremos que a morte faz cessar a vida atual, para iniciar uma vida que é definitiva e que se vive ao lado de Deus. Ele não nos quer separados do corpo. Ele nos quer agora com um corpo capaz de realizar, neste mundo ações animais e após a ressurreição, um corpo novo, adaptado à nova condição dada por Deus.

 

«Sendo filhos da ressurreição, são filhos de Deus»
Orígenes (c. 185-253), presbítero e teólogo
Comentário à Carta aos Romanos, 4, 7; PG 14, 985

No último dia, a morte será vencida. Após o suplício da cruz, a ressurreição de Cristo contém misteriosamente a ressurreição de todo o Corpo de Cristo. Assim como o corpo palpável de Cristo foi crucificado, amortalhado e, de seguida, ressuscitado, assim também todo o Corpo dos santos de Cristo foi crucificado com ele e já não vive em si. Mas quando chegar a ressurreição do verdadeiro Corpo de Cristo, do Seu Corpo total, então os membros de Cristo, agora semelhantes a ossadas ressequidas, serão reunidos articulação por articulação (Ez 37, 1 ss.), cada um encontrando o seu lugar, para que «cheguemos todos ao homem adulto, à medida completa da plenitude de Cristo» (Ef 4, 13). Então, a multidão dos membros será um só corpo porque todos pertencem ao mesmo corpo (Rom 12, 4).

 

DEUS NÃO É DEUS DE MORTOS
2 Macabeus 7, 1-2. 9-14; 2 Tessalonicenses 2, 16-3, 5; Lucas 20, 27-38

Em resposta à pergunta capciosa dos saduceus sobre o destino da mulher que teve sete maridos na terra, Jesus reafirma, sobretudo o fato da ressurreição, corrigindo, por sua vez, a representação materialista e caricaturesca que os saduceus têm dela. A bem-aventurança eterna não é simplesmente uma potenciação e prolongamento das alegrias terrenas, com desfrutes da carne e da mesa. A outra vida é realmente outra vida, uma vida de qualidade diferente. É, sim, o cumprimento de todas as esperanças que o homem tem sobre a terra – e infinitamente mais –, mas em um nível diferente. «Os que forem julgados dignos da ressurreição dos mortos e de participar da vida futura, nem eles se casam nem elas se dão em casamento; e já não poderão morrer, pois serão iguais aos anjos.»
Na parte final do Evangelho, Jesus explica o motivo pelo qual deve haver vida depois da morte. «Que os mortos ressuscitam, Moisés também o indicou na passagem da sarça, quando chama o Senhor de ‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó’». Não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para ele todos vivem». Onde está nisso a prova de que os mortos ressuscitam? Se Deus se define como «o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó» e é um Deus de vivos, não de mortos, então quer dizer que Abraão, Isaac e Jacó vivem em algum lugar, ainda que, no momento em que Deus fala a Moisés, aqueles estão mortos há séculos.
Interpretando de maneira errada a resposta que Jesus dá aos saduceus, alguns sustentaram que o matrimônio carece de toda continuidade no céu. Mas com essa frase Jesus rejeita a idéia caricaturesca que os saduceus apresentam do mais além, como se fosse uma simples continuação das relações terrenas entre os cônjuges; não exclui que estes possam reencontrar, em Deus, o vínculo que os uniu na terra.
É possível que dois esposos, após uma vida que os associou a Deus no milagre da criação, na vida eterna, já não tenham nada em comum, como se tudo estivesse esquecido, perdido? Isso não estaria em contradição com a palavra de Cristo de que não se deve dividir o que Deus uniu? Se Deus os uniu na terra, como poderia separá-los no céu? Toda uma vida juntos pode acabar em nada sem que se desminta o sentido da vida aqui embaixo, que é o de preparar a vinda do Reino, os céus novos e a terra nova?
É a própria Escritura – não só o natural desejo dos esposos – que apóia esta esperança. O matrimônio, diz a Escritura, é «um grande sacramento» porque simboliza a união entre Cristo e a Igreja (Ef 5, 32). É possível, então, que desapareça precisamente na Jerusalém celeste, onde se celebra o eterno banquete nupcial entre Cristo e a Igreja, do que aquele é imagem?
Segundo esta visão, o matrimônio não acaba totalmente com a morte, mas se transfigura, espiritualiza-se, subtrai-se a todos os limites que marcam a vida na terra, como que, no demais, não se esquecem dos vínculos existentes entre pais e filhos ou entre amigos. O prefácio da missa dos defuntos da liturgia diz que com a morte «a vida não acaba, apenas se transforma»; o mesmo se deve dizer do matrimônio, que é parte integrante da vida.
Mas o que dizer de quem teve uma experiência negativa, de incompreensão e de sofrimento, no matrimônio terreno? Não é para eles motivo de medo, mais que de consolo, a idéia de que o vínculo não se rompa nem com a morte? Não, porque no passo desde o tempo à eternidade o bem permanece, o mal cai. O amor que os uniu, talvez por breve tempo, persiste; não os defeitos, as incompreensões, os sofrimentos causados reciprocamente. Muitíssimos cônjuges experimentarão só quando se reúnam «em Deus» o amor verdadeiro entre si e, com ele, o gozo e a plenitude da união que não desfrutaram na terra. É também a conclusão de Goethe sobre o amor entre Fausto e Margarida: «só no céu o inalcançável (ou seja, a união plena e pacífica entre duas criaturas que se amam) será realidade». Em Deus tudo se entenderá, tudo se desculpará, tudo se perdoará.
E o que dizer de quem esteve legitimamente casado com várias pessoas, como os viúvos e as viúvas que voltaram a contrair matrimônio? (foi o caso apresentado a Jesus dos sete irmãos que haviam tido, sucessivamente, a mesma mulher como esposa). Também para eles devemos repetir o mesmo: aquilo que houve de autêntico amor e doação com cada um dos esposos ou das esposas, sendo objetivamente um «bem» e vindo de Deus, não será suprimido. Lá em cima não haverá rivalidades no amor ou ciúmes. Estas coisas não pertencem ao amor verdadeiro, mas ao limite intrínseco da criatura.

 

TRIGÉSIMO SEGUNDO DOMINGO COMUM
Lucas 20, 27-38
“Deus não é Deus de mortos, mas de vivos”

Novamente a nossa leitura exige que tenhamos alguma noção dos partidos político-religiosos do tempo de Jesus.  Depois de serem mencionados “os Fariseus”, “os Escribas”, e “os Herodianos”, entram em cena “os Saduceus”!  Para entender a controvérsia no texto, é imprescindível conhecer algo sobre este partido. Não há consenso referente a origem do nome “Saduceu”. Alguns estudiosos acham que vem do nome do Sumo Sacerdote de Davi, “Sadoc”, enquanto outros, diante do fato de que muito dos seus membros eram leigos, acham mais provável que o nome venha duma palavra hebraica que significa “justo”. Eles se consideravam “os justos” (uma ilusão também partilhada por outros partidos da época, como os fariseus e os essênios!). A primeira menção deles é do tempo dos Macabeus (cerca 130 ªC.) quando fizeram parte duma delegação judaica que foi à Roma. Podemos dizer que eles representavam a “elite conservadora” do judaísmo do tempo de Jesus.  Defendiam os interesses da classe alta de Jerusalém, os grandes comerciantes e donos de terras, e dos “donos” do Templo – uma fonte de muito lucro. No tempo dos Romanos, praticamente todos os Sumos Sacerdotes vieram deste grupo. Dominavam o Sinédrio, ou Grande Conselho (realmente seriam eles os responsáveis pela condenação de Jesus), colaboravam com os Romanos, desprezavam o povo simples – ao contrário dos fariseus e escribas, não tinham muito influência com eles -e mantinham uma interpretação conservadora da Escritura, não admitindo a tradição oral e limitando-se ao Pentateuco, ou “Torá”. Não aceitavam a doutrina da ressurreição dos mortos, nem a dos anjos, e eram opositores dos fariseus. A partir da lei do casamento levirítico do Livro de Deuteronômio, eles propõe para Jesus um argumento – que nos poderia parecer absurdo – para contestar a doutrina tardia da ressurreição dos mortos. Vale a pena lembrar-nos do que diz Dt 25,5-6: “Quando dois irmãos moram juntos e um deles morre sem deixar filhos, a viúva não sairá da casa para casar-se com nenhum estranho; seu cunhado se casará com ela, cumprindo o dever de cunhado. O primogênito que nascer receberá o nome do irmão morto, para que o nome deste não se apague em Israel”. Certamente uma lei que para nós parece no mínimo estranha!  Mas na época antes da fé na ressurreição, era de suma importância para Israel que o nome dum homem se propagasse nos seus filhos.  Por isso, era dever do irmão sobrevivente suscitar um filho para o falecido, para que este não morresse na memória do seu povo.  Naquele tempo, a família estendida, ou clã, era mais importante do que a família nuclear de hoje. Jesus ataca a premissa básica dos Saduceus – para eles a vida vindoura é simplesmente uma continuação desta vida, e por isso precisa de procriação humana. Em lugar de fazer um argumento casuística, que não levaria a nada, Jesus apresenta o ponto central da Escritura – que Deus é o Deus da vida! Não criou ninguém para a morte, mas para a vida eterna com ele! O argumento dos saduceus dificilmente encontraria eco entre nós hoje. Mas como eles nesta ocasião, quantas vezes nós nos preocupamos mais como que possa acontecer depois a morte, do que com a vida aqui e agora. Quanta preocupação hoje com o fim do mundo, com as almas e os espíritos, com supostas visões e revelações – e tão pouca com os problemas práticos que trazem tanto sofrimento aos nossos irmãos e irmãs. Jesus não permite que nós gastemos tempo e energias com discussões inúteis sobre “como é” a vida além-morte.  Chama a nossa atenção para a vida real – pois é aqui que devemos concretizar o seguimento dele, que veio “para que todos tenham a vida e a vida em abundância “ ( Jo 10, 10). Pode parecer que a preocupação dos saduceus era ridícula – mas não era mais ridícula do que a dos cristãos que gastam as suas forças em discussões fúteis sobre a vida do além, que ninguém – segundo Paulo – é capaz de imaginar, enquanto ignoram o Cristo presente nos sofredores ao seu lado. A fé de Jesus não permite alienação, “Deus não é Deus de mortos, mas de vivos” (v.38), e nos desafia para que vivamos esta fé na luta para que o mundo sonhado por Jesus se torne realidade.

XXI Domingo do Tempo Comum – Ano C

Por Mons. Inácio José Schuster

Evangelho segundo São Lucas 13, 22-30
Jesus percorria cidades e aldeias, ensinando e caminhando para Jerusalém. Disse-lhe alguém: «Senhor, são poucos os que se salvam?» Ele respondeu-lhes: «Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir. Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta, ficareis fora e batereis, dizendo: ‘Abre-nos, Senhor!’ Mas ele há-de responder-vos: ‘Não sei de onde sois.’ Começareis, então, a dizer: ‘Comemos e bebemos contigo e Tu ensinaste nas nossas praças.’ Responder-vos-á: ‘Repito vos que não sei de onde sois. Apartai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade.’ Lá haverá pranto e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac, Jacob e todos os profetas no Reino de Deus, e vós a serdes postos fora. Hão-de vir do Oriente, do Ocidente, do Norte e do Sul, sentar-se à mesa no Reino de Deus. E há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos.»

“Senhor, são poucos os que se salvam”? Eis a pergunta de alguém que definitivamente era uma pessoa pragmática! Queria saber quais eram as suas chances reais. Queria saber se aquele último vestibular seria difícil ou fácil. Jesus como sempre se esquiva destas perguntas que não servem para nada mais a não ser para alimentar a nossa curiosidade. Não são perguntas construtivas. Se dissesse são poucos, desmontaria a todos nós, desmobilizaria a todos, porque nos sentiríamos quase que desesperados. Se pouco são os que se salvam, com certeza não conseguimos nos salvar, vista a nossa mediocridade. Se Jesus dissesse o contrário: “São muitos”. Bem, não é preciso mais se esforçar, no final tudo termina muito bem e para todos, independente dos seus esforços e de seus méritos, existe um lugar no Céu. “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita”. E nós nos pomos a refletir no exato momento. Qual é esta porta estreita, ou quem entra pela porta estreita? A primeira resposta: Os Fariseus devem entrar pela porta estreita, os Escribas do tempo de Jesus, a oposição Judaica, aqueles que mantinham o poder religioso, quem sabe os Nazaretanos, aqueles que conviveram com Jesus e conheceram tão bem Jesus durante a Sua vida oculta. Mas é possível dar outra resposta. Os que devem entrar pela porta estreita somos nós. Nos aeroportos do primeiro mundo, da Europa ou dos Estados Unidos, existe uma porta larga, por onde entram todos os cidadãos americanos ou da União Européia, e uma porta estreita, onde os estrangeiros, nós do terceiro mundo fazemos fila para pacientemente entrar. Nas coisas de Deus dá-se o contrário, nós os privilegiados de Deus, entraremos pela porta estreita, e os ignorantes, os que receberam menos talentos que nós, os que foram menos agraciados que nós, estes serão mais perdoados, estes poderão entrar pelo corredor mais espaçoso, mas nós, os batizados, nós aqueles que ouvimos o Evangelho, nós aqueles que fazemos parte uma elite religiosa, nós receberemos um julgamento mais severo. Porque a quem deu muito, muito mais será exigido. Levemos a sério, entremos desde já pela porta estreita, façamos todo esforço para que o Senhor não nos encontre medíocres ou completamente destituídos da graça. Os Japoneses na última guerra formaram um exército, mais de quatro mil kamikazes capazes de destruírem inimigos por amor a pátria. Nós não somos capazes de fazer um pouco para entrarmos finalmente no Reino de Deus?

 

Ter lugar no banquete do Reino de Deus
Santo Anselmo (1033-1109), monge, bispo, Doutor da Igreja
Proslogion, 25-26 (a partir da trad. Orval)

Que grande felicidade é possuir o Reino de Deus! Que grande alegria para ti, coração humano, pobre coração habituado ao sofrimento e esmagado pela dor, quando usufruíres de uma felicidade tal. […] E contudo, se outra pessoa, alguém que amasses como a ti mesmo, participasse de felicidade idêntica, a tua alegria redobraria, porque te alegrarias tanto por ti como por ele. E se dois ou três, ou muitos mais, possuíssem essa mesma felicidade, sentirias por cada um deles a mesma alegria que sentes por ti próprio, porque amarias cada um deles como a ti mesmo. Assim, pois, nesta plenitude de amor que unirá os numerosos bem-aventurados, em que ninguém amará os outros menos que a si mesmo, cada um usufruirá da felicidade dos outros como da própria. E o coração do homem, incapaz de conter a própria alegria, será imerso no oceano de tão grandes e numerosas beatitudes. Ora, como sabeis, cada um se alegra com a felicidade dos outros na medida em que os ama; assim, nesta beatitude perfeita em que cada um amará a Deus incomparavelmente mais do que a si mesmo e a todos os outros, a felicidade infinita de Deus será para todos uma fonte de incomparável alegria.

 

A salvação é para todos que querem
Padre Pacheco

O Evangelho deste final de semana nos mostra, por intermédio de São Lucas, Jesus percorrendo cidades e povoados, ensinando e prosseguindo o caminho para Jerusalém. Aliás, esta é uma marca significante no Evangelho de Lucas: Cristo está em constante movimento, caminhando para Jerusalém, ou seja, o Senhor tem uma meta clara: Jerusalém, pois é ali que entregará a vida em resgate de todos nós. Alguém no meio do povo questiona Jesus; interessante é que Lucas não diz o nome da pessoa, pois esta pessoa é você, sou eu, ou seja, esta pessoa que pergunta a Jesus é o anseio da alma de cada um de nós; daí a pergunta: “Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?” O grande milagre da salvação, em si, não é difícil ou reservado a algumas pessoas. Não! O milagre da salvação foi conquistado por Cristo para toda a humanidade, sem distinção de ninguém. Para dizer que, no que depender de Deus, não seremos salvos, pois já o fomos [salvos] pela morte d’Ele na Cruz. A salvação já aconteceu, meus irmãos! Contudo, entretanto, sendo assim, é preciso que urgentemente venhamos a entender uma coisa que é fundamental para a nossa salvação: o milagre da salvação é uma via de mão dupla, ou seja, Deus já fez a Sua parte; cabe a nós fazermos a nossa. Com o evento Cristo – Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição – o pecado e a morte não possuem mais a última palavra na nossa vida; quem dá a última palavra na nossa vida é Jesus Cristo. E esta palavra nada mais é que: salvação! Para dizer que tudo concorre para a nossa salvação; em Deus, já estamos salvos. Mas, como a salvação é uma via de mão dupla – repito: precisamos fazer a nossa parte. Precisamos fazer a nossa parte no milagre da salvação! Aí “aperta o sapato”, como diz o ditado. Por quê? Porque – me desculpe e permita-me falar – estamos acostumados a receber tudo pronto, sem esforço. Estamos nos acostumando com uma vida medíocre, fraca, sem luta, sem esforço, vivendo cada vez mais do mínimo esforço possível. Aí está a grande dificuldade da salvação, ou seja, em nós mesmos, pois não queremos tomar a vida das mãos e viver de acordo com o Evangelho; aliás, não queremos adequar a nossa vida ao Evangelho, mas sim, queremos adequá-lo à nossa mediocridade de vida. Salvação é luta, é esforço, é garra e combate! É ter a coragem de querer recomeçar a cada novo dia, a cada instante; isso só é possível para pessoa de garra e não para pessoa medíocre. Desculpe a franqueza! Por isso é tão difícil a salvação: porque não queremos nada disso, muitas e muitas vezes, e depois dizemos  que Deus e Sua Igreja dificultam as coisas. Tomemos consciência! No que consiste a nossa parte no milagre da salvação? Consiste em vivermos de acordo com o Evangelho; em criarmos uma sociedade mais justa e solidária (também com o nosso voto: jamais votando naquelas pessoas que são a favor do aborto, contra a vida, mesmo quando a desculpa é o fator da saúde pública),  em nos doando aos outros, gastando a nossa vida pelos irmãos, a começar por aqueles que mais próximos de nós se encontram; e em sermos modelos das virtudes e dos valores com uma vida fundamentada na Palavra de Deus e na Eucaristia.

 

Cristão de qualidade
Padre Roger Luis

Deus nos presenteia com esta liturgia da vigésima primeira semana do tempo comum e eu o convido a proclamar um versículo do salmo: “Pois comprovado é o seu amor para conosco, para sempre Ele é fiel!” O amor do Pai é revelado no seu Filho, e hoje o Evangelho de São Lucas nos revela esta caminhada que Jesus fez para chegar até Jerusalém, onde Ele nos dá a sua vida, por amor a nós. Nesses dias estivemos aqui recebendo de Deus este ensinamento, é isso que Jesus faz com seus discípulos, os ensina enquanto sobem para Jerusalém, este caminho é onde Ele vai entregar a sua vida livremente, não coloca nenhuma resistência, mas se entrega por amor a nós, porque Ele é fiel. Jesus sobe a Jerusalém e experimenta a dor abraçando a cruz, mas depois desta experiência de estar por três dias no sepulcro, Ele ressuscita, recebendo do Pai a vida plena. Esta é a experiência que temos de fazer, porque depois da cruz vem a nossa ressurreição. São Lucas também narra a subida de Jesus ao céu, mas não temos como alcançar o céu sem antes passarmos pela experiência da cruz, e você ressuscitará com Cristo no dia final, não negue a cruz, ela faz parte do caminho e faz parte da vida do cristão combatente. Deus tem o céu para nós e o melhor de Deus ainda está por vir, nós ainda não vivemos o melhor. O nosso lugar é o céu e não vamos desistir diante da cruz do dia a dia. Porque lá no céu vai ser alegria e realização plena. Jesus percebeu que os discípulos estavam curiosos, jogando verde para colher maduro, para saber sobre a salvação. E Jesus muito inteligente não responde, mas diz: “Fazei todo esforço para entrar pela porta estreita” A porta é estreita e nós precisamos passar por ela, o nosso chamado não é de facilidades, mas de lutas e combates que vamos passar no nosso dia a dia, e precisa existir o esforço da nossa parte para alcançarmos o céu. O Senhor já conquistou a salvação para nós, mas precisamos lutar, e dependemos totalmente da graça de Deus para sermos salvos, mas é preciso colaborar com a graça para fazermos esta experiência de céu. O nosso chamado não é de facilidades, mas de lutas e combates Jesus não esta preocupado com quantidade, mas com a qualidade. Então nos perguntemos: “Que qualidade de católico estamos sendo? A porta é estreita e não podemos dar contratestemunho, não podemos brincar com Deus. É preciso passar pelo esforço, assim como uma criança que precisa se esforçar para nascer. Quem é a mãe que está nos gerando para o céu? É a Igreja. Por isso ela ensina o que é certo, a verdade. A salvação é graça de Deus, mas hoje o próprio Jesus está nos dizendo: Fazei todo o esforço. É preciso ser fiel nas pequenas coisas, deixar que o Espírito Santo nos revele o que temos feito de errado. Por isso a segunda leitura nos diz: Qual é o filho no qual o Pai não corrige? Quem ama mais? O pai que corrige ou aquele que passa a mão na cabeça? Deus quer que sejamos católicos de qualidade, que as pessoas vejam em nós um testemunho coerente de quem abraçou a fé, e cristãos que vivem uma vida como aqueles que vivem longe de Deus. A misericórdia de Deus exige de nós mudança de vida. Não confie nessa misericórdia falsa, porque a que vem do Senhor causa em nós reação e conversão. A salvação de Deus é para todos. Na Canção Nova não se prega meia verdade, pregamos verdade inteira. Aqui é um lugar onde acontece muito trabalho de parto, para que muitas pessoas possam nascer para uma vida nova, renunciando a vida velha e entrar pela porta estreita. Jesus quer que olhemos para o hoje, como estamos nos posicionando em relação a Jesus. Muitas vezes somos prepotentes, e por isso a porta vai se tornando cada vez mais estreita, porque vamos nos enchendo de nós mesmos. Mas é preciso nascer hoje para a vida nova. Sejamos justo, porque Deus é justiça, misericórdia e amor.

 

Muitas vezes, Jesus surpreende e perturba, com as suas palavras e com os seus gestos, as pessoas que O ouviam. E é impressionante como ainda hoje as suas palavras e os seus gestos causam surpresa e perturbação, porque não permitem que nos fechemos na nossa maneira de pensar, porque ainda a sua mensagem não está totalmente assimilada na nossa vida e na nossa sociedade. No evangelho deste domingo e em outras ocasiões, Jesus diz que os critérios de pensar, de fazer, de dizer que Ele propõe, nem sempre são os nossos. A salvação, ou seja, participar na mesa do Reino de Deus, não chega às nossas vidas por caminhos largos, fáceis e claros, mas tantas vezes através de momentos e caminhos inesperados da vida: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita”. O Povo de Israel acreditava que tinha tudo assegurado pelo fato de ser o povo escolhido por Deus. Pensavam que tinham um “seguro” divino que, acontecesse o que acontecesse, “cobria” tudo: “Comemos e bebemos contigo e tu ensinaste nas nossas praças”. Mas, ainda faltava algo: “Não sei donde sois, afastai-vos de mim, todos os que praticais a iniqüidade”. A salvação chega onde há homens e mulheres que a acolhem na vida, na realidade de todos os dias, onde vivem, nas circunstâncias concretas que têm de viver individual ou coletivamente. Por isso, “hão-de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus”. Ainda hoje isto nos surpreende. Não existem os “seguros” que tudo cobrem. Só encontramos “segurança” em Jesus, na sua palavra e nas suas promessas. É aqui que se fundamenta a nossa fé, é este o fundamento que dá sentido às nossas assembléias: escutar estas palavras e gestos que nos continuam a surpreender, partilhar a nossa fé com todos aqueles que querem ser felizes, pedir ânimo e coragem para não nos distrairmos nem nos desviarmos do verdadeiro caminho e participar do alimento que Jesus nos oferece para sermos fortes e fiéis.

 

A porta estreita
É necessário fazermos opção pelo caminho mais exigente
Dom José Alberto Moura

Todos desejamos conquistar o melhor para nossa própria felicidade. Nossos instintos primam por nos estimular apetites ou atrativos para nosso próprio bem-estar. A sociedade de consumo aproveita dessa nossa realidade sensível para aguçar nossos desejos e comprarmos ou usarmos de tudo para a busca de prazeres e compensações gratificantes a nível sensorial. A correria pela sobrevivência vai também muito na direção do ter mais coisas materiais, prestígio, fama e prazeres. Busca-se isso freqüentemente como finalidade absoluta. Muitos até conseguem o máximo dessas possibilidades. Mesmo assim não estão plenamente satisfeitos. Enquanto o ser humano não se encontrar consigo mesmo, percebendo Deus no âmago de sua existência, não se realiza a contento! Jesus não renunciou sua condição divina, mas aceitou privar-se de seus efeitos enquanto viveu conosco de forma humana. Deu-nos a grande lição de caminhar pela “porta estreita”. Veio nos ensinar a lição da busca humana de felicidade verdadeira e duradoura. “Onde está o teu tesouro estará também teu coração”, disse. Se nosso maior tesouro estiver na busca de um prazer efêmero, nossa felicidade também será muito fugaz. Ele nos prova que o tesouro absoluto é conquistado por uma vida de canalização dos impulsos instintivos para a busca do sentido absoluto da vida. Nossa vida terrena é passageira. É necessário fazermos opção pelo caminho mais exigente. O que é material – os bens, o dinheiro, os prazeres e o poder -, são bons, mas usados ética e moralmente. Se forem absolutizados tornam-se falsas divindades. Tudo deve ser usado dentro de seu valor relativo. O Absoluto é Deus. Pautando-nos pelo amor trazido e ensinado pelo Cristo a pessoa é capaz de ser solidária com os que sofrem. Renunciam o luxo. O esbanjamento, o ter desnecessário, o prazer fora de sentido e contrário à lei natural e a divina, o poder usado para injustiçar ao invés de servir o ser humano e toda a sociedade são superados por uma vida de doação e verdadeiro serviço ao semelhante. A felicidade total, apresentada por Jesus, como o Reino definitivo, só se conquista com uma vida de oblatividade, mesmo com renúncia ao mais cômodo e do conforto desnecessário. Ele não vem trazer regras de massacre ao eu individual. Vem, sim, apresentar-nos a escolha pelo único caminho condutor ao objetivo maior. É a “porta estreita” da renúncia por amor e busca de um valor maior. Nossa vida deveria ser uma caminhada contínua na busca de sentido. Este só se dá no amor a Deus e, por sua causa, na doação de si pelo bem dos outros, mesmo tendo-se que renunciar muito dos atrativos da vida. Aqui não se conquista nada de valor sem renúncias. O Reino definitivo muito menos! Os bens, os poderes e o bem-estar são importantes, mas mal aplicados! A “porta estreita” apresentada por Jesus é justamente fazer com que todos tenham acesso à vida de sentido, com o necessário para viverem dignamente, mas com o uso de tudo dentro de sua relatividade e com o sentido dado pelo Criador!

 

Porta estreita: esforce-se para ajustar sua vida
Não podemos desprezar a educação do Senhor
Pe. Eliano Luiz Gonçalves, sjs

Refletindo o Evangelho de Lucas 13, 23 temos, sem dúvida, a oportunidade de crescer fortalecendo as nossas decisões, como também, a virtude da vigilância. Em Lucas 13, 23, nós encontramos alguém que faz uma pergunta a Jesus: “Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?” Diante da pergunta, Cristo a responde com uma forte afirmação no versículo seguinte: “Fazei todo o esforço possível para entrar pela porta estreita. Por que eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão”. A exigência do Evangelho deve, portanto, nos questionar se a vida que levamos, verdadeiramente, nos forma e prepara, para as diversas “portas estreitas da vida”, inclusive, para a porta estreita, por excelência, que é o julgamento final. É muito significativo e profundo o fato de Jesus afirmar que muitos tentarão e não conseguirão entrar. O que isso pode significar para nós? Será que esses levavam uma vida de completa ilusão acerca do seu preparo? Ou seja, viviam uma ilusão de seguimento de Jesus, de estar preparados, contudo, sem as condições necessárias para responder a exigência da porta estreita. Estar com Nosso Senhor Jesus Cristo, mas não ser inteiramente d’Ele constitui a ilusão que mais frustra o homem. A porta estreita nos revela o quão importante é ter uma vida de intimidade com Cristo, que compromete o ser, ou seja, a vida na sua totalidade. Em 1 João 2, 4, colhemos o critério que nos prova: “Aquele que diz: ‘Eu conheço’, mas não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e a verdade não está nele”. Tal dimensão nos encaminha para um exame de consciência intenso, por meio do qual percebemos que – sem a prática dos ensinamentos de Jesus – no concreto da vida, nosso preparo revela-se ilusório e fantasioso. Se a consciência, o conhecimento e a fé não se revelam capazes de governar a vida, a existência torna-se mentira e falsidade. E, de fato, tudo aquilo que não é construído na verdade sempre irá cair por terra um dia, o tempo é o seu maior adversário, pois, este [tempo] sempre vence aquilo que não possui raiz profunda e substância! Agora, quem pode nos preparar para a exigência da porta estreita? Constatamos que somente Alguém pode nos formar para tal realidade: Deus, que nos criou! Por esse motivo a Carta aos Hebreus afirma que não podemos desprezar a educação do Senhor, que nos repreende e corrige em vista da salvação. Contudo, sem o “fazei todo o esforço possível”, acaba-se por não viver o comprometimento e o dinamismo do ser melhor, da mudança, que nos faz vir para fora, inserindo-nos nessa realidade de purificação e preparação. Nesse Evangelho Jesus coloca ainda um outro questionamento no versículo 25a e 26: “Uma vez que o dono da casa se levantar e fechar a porta, vós, do lado de fora, começareis a bater, dizendo: ‘Senhor, abre-nos a porta!’. Ele responderá: ‘Não sei de onde sois'”. É, sem dúvida, muito triste seguir um caminho e ver as esperanças frustradas, mas isso é justamente o resultado de uma vida feita de “meias medidas”, de “jeitinhos” aqui e lá, enfim, de meras aparências. Precisamos ser responsáveis, reconhecendo que Deus nos conhece inteiramente e que o improviso e a imprudência não são salvíficos. Portanto, não nos enganemos, sigamos um caminho permitindo que o “Dono da Porta” nos ajuste na medida da “porta estreita”, pois, a medida correta está em Deus, não em nós mesmos. Mas, infelizmente, vivemos em um mundo onde a busca de muitos é pela “porta larga”, ou seja, pelo mais fácil e rápido. Que tipo de pessoas podem surgir de uma formação que busca a facilidade e a falsa proteção? Pessoas desanimadas e excessivamente sensíveis, que tendem à perda de sentido da vida, pelo simples fato de não conseguirem enfrentar as exigências naturais da vida e da fé. Por isso, decida-se por um caminhar no qual a referência seja a Palavra de Deus, que além de nos revela Jesus, também nos desvela a verdade de nós mesmos. O que precisamos fazer e deixar Deus fazer em nós? Que Deus o abençoe, o prepare e o ajuste na medida da “porta estreita”; o tempo da graça, o Kairós de Deus para ser estreitado é hoje!

 

VIGÉSIMO PRIMEIRO DOMINGO COMUM
Lucas 13, 22-31 “É verdade que são poucos os que se salvam?”

Jesus continua a sua caminhada em direção à Jerusalém, e no caminho, prossegue ensinando os seus discípulos. O debate agora é sobre uma questão que sempre intrigava os cristãos – e também os de outras crenças: “É verdade que são poucos aqueles que se salvam?” (v. 23). Durante muito tempo, o assunto de muitas pregações nas igrejas era a condenação. Falava-se muito mais em pecado do que na graça, no diabo do que em Jesus, do inferno do que no céu ou no projeto de Jesus para este mundo. Infelizmente, especialmente nos ambientes fundamentalistas, tanto católicos como protestantes, essa tendência volta a vigorar. Neste trecho Jesus nos ensina como enfrentar esta questão! Chama a atenção que Jesus não responde à pergunta. Ele não indica se são muitos os que se salvam, ou não. A preocupação d’Ele é que as pessoas vivam de acordo com o projeto de Deus. Nisso encontrarão a salvação. Por isso, ele desvia a atenção do ouvinte da questão do “além morte” para que volte à vivência prática da fé. O conselho d’Ele é claro: “Façam todo o esforço possível para entrar pela porta estreita” (v. 24). Resta perguntar – em que consiste esta “porta estreita”? O texto nos dá a resposta: “Ele responderá: “Não sei de onde são vocês. Afastem-se de mim todos vocês que praticam a injustiça” (v. 27) Interessante que Deus afastará os que praticam a injustiça – não fala daqueles que têm fraquezas humanas, que têm uma fé diferente, que ignoram as verdades da teologia – ou seja, se preocupa com a prática da injustiça. Pois o seguimento de Jesus é basicamente isso – o amor prático, que se manifesta na justiça. Sem esta prática, simplesmente a fé é vã! A “porta estreita” é a prática da justiça! Jesus adverte que talvez não sejam os que conhecem a sua mensagem que irão herdar o Reino. Pois o critério do julgamento não será o conhecimento teórico do evangelho, mas muito antes a sua vivência concreta na justiça, conforme ele diz: “Muita gente virá do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa no Reino de Deus” (v. 29) Diante do fechamento do judaísmo farisaico, com a sua religião nacionalista, Jesus abre perspectivas ecumênicas – a salvação não se restringe aos que faziam parte oficialmente do Povo de Deus! Virão pessoas do mundo todo – as pessoas que, mesmo sem conhecer a Bíblia – viviam a luta pela justiça! É impossível, no nosso mundo de exclusão, fugir da questão da justiça. A Conferência de Santo Domingo, seguindo as de Medellin e Puebla, já perguntou como era possível que as piores injustiças do mundo se dão exatamente no continente nosso, que se diz cristão! A Conferência de Aparecida continua com essa preocupação. Como é possível que nos países oficialmente católicos há tantos rostos do Cristo crucificado? Não é possível ser cristão sem lutar em favor das pessoas com “rostos desfigurados pela fome, rostos desiludidos pelas promessas políticas, rostos humilhados de quem vê desprezada a própria cultura, rostos assustados pela violência cotidiana e indiscriminada, rostos angustiados de menores, rostos de mulheres ofendidas e humilhadas, rostos cansados de migrantes sem um digno acolhimento, rostos de idosos sem as mínimas condições para uma vida digna” (João Paulo II, Vita Consecrata nº 76). Não devemos medir o nosso cristianismo e a pujança da nossa fé pelos belos edifícios e imponentes matrizes, nem pelas belas celebrações e concentrações nas grandes ocasiões, por tão válidas e até importantes que possam ser. Meçamos a nossa fé, a nossa adesão ao Reino pelo nosso empenho em prol dos empobrecidos, pelos injustiçados, não nos limitando a uma ação meramente assistencialista (por tão imprescindível que tais ações sejam), mas também nos engajando na luta pela mudança estrutural de uma sociedade cujo projeto de vida – o neo-liberalismo selvagem – nada mais é do que um projeto de morte, e portanto anti-evangélico e pecaminoso. É mister unirmos as nossas forças às das pessoas de boa vontade de todas as crenças e de nenhuma, para que em parceria defendamos a vida ameaçada na sociedade moderna. Aprendamos de Jesus neste trecho – ele não permite que os seus interlocutores fiquem olhando só para o que acontecerá depois da morte, lá no além, mas insiste que olhem para a vida cotidiana, com as suas exigências em favor dos oprimidos. Ressoa uma advertência para nós que somos frequentadores das Igrejas, que conhecemos os ensinamentos do Evangelho, e que talvez caiamos na tentação de um certo elitismo religioso: “Vejam: há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos” (v. 30). Ser primeiro ou último, acolhido ou afastado, depende em primeiro lugar do nosso empenho pela justiça!

Papa Francisco fala aos jovens na Vigília JMJ

27/07/2013 

Queridos Jovens

Recentemente, lembrou-se da história de São Francisco de Assis. Diante do crucifixo, ele ouve a voz de Jesus que diz: “Vai, Francisco, e repara a minha casa.” E o jovem Francis responde prontamente e generosamente a este chamado do Senhor, reparar a sua casa. Mas que casa? Aos poucos, ela percebe que era para reparar um edifício pedreiro e pedra, mas de dar a sua contribuição para a vida da Igreja, que foi colocado a serviço da Igreja, amando e trabalhando para você ela cada vez mais refletir o rosto de Cristo.

Também hoje o Senhor continua a exigir os jovens para a Igreja. Também hoje chama cada um de vocês para seguir em sua Igreja e para serem missionários. Como? Como? Pensei em três imagens que podem ajudar-nos a entender melhor o que significa ser discípulo-missionário: em primeiro lugar, o campo como um lugar onde a semeadura, o Em segundo lugar, o campo como um campo de treinamento, e, o terceiro, o campo como um canteiro de obras.

1. O campo como um lugar onde a semeadura. Nós todos sabemos que a parábola de Jesus que fala de um semeador saiu a semear em um campo, uma parte da semente caiu à beira do caminho, entre pedras ou entre espinhos, e não conseguiu se desenvolver, mas outras caíram em boa terra e trouxe muito frutos (cf. Mt 13.1-9). O próprio Jesus explicou o significado da parábola: A semente é a Palavra de Deus semeada em nossos corações (cf. Mt 13:18-23). Por favor, deixe Cristo e sua Palavra entrar em sua vida, para germinar e crescer.

Jesus nos diz que as sementes que caíram à beira do caminho, ou debaixo de pedras e entre os espinhos, foram infrutíferos. Que tipo de terreno é, o tipo de terreno que queremos ser? Talvez, por vezes, como o caminho: ouvimos o Senhor, mas não muda nada na vida, porque nos deixamos atordoar tantas queixas superficiais que ouvimos, ou o pedregoso terreno: congratulamo-nos com Jesus com entusiasmo, mas são inconstantes e, nas dificuldades, temos a coragem de ir contra, ou são como o terreno espinhoso: as coisas, as paixões negativas abafar em nós as palavras do Senhor (cf. Mt 13,18-22). Hoje, no entanto, tenho certeza de que a semente cai em terra boa, você quer ser boa terra, e não cristãos em tempo parcial, e não “amido” fachada, mas é verdade. Tenho certeza que você não quer viver na ilusão de liberdade que é levado pela moda e conveniência do momento. Eu sei que você sugere acima, as decisões finais dar pleno sentido à vida. Jesus é capaz de oferecer isso. Ele é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14:6). Confiar nele. Deixemo-nos guiar por ele.

2. O campo como um treinamento. Jesus nos convida a segui-lo por toda a vida, nos chama a ser seus discípulos, que “jogar na sua equipa.” Acho que a maioria de vocês, como o esporte. E aqui, no Brasil, como em outros países, o futebol é uma paixão nacional. Bem, o que faz um jogador quando ele é chamado para ser parte de uma equipe? Tem que treinar e treinar muito. Por isso, é em nossas vidas como discípulos do Senhor. São Paulo nos diz: “Todo atleta exerce ao redor, e eles o fazem para alcançar uma coroa corruptível, mas nós fazemos isso por uma coroa incorruptível” (1 Coríntios 9:25). Jesus nos oferece algo maior do que a Copa do Mundo! Ele oferece a possibilidade de uma vida produtiva e feliz, e um futuro com ele sem fim, a vida eterna. Mas nós treinamos nos pede para “entrar em forma”, sem medo de enfrentar qualquer situação da vida, testemunhar a nossa fé. Como? Através do diálogo com ele: a oração, que é a conversa diária com Deus que sempre escuta. Através dos sacramentos, que são cultivadas em nossa presença e nós conformados com Cristo. Através do amor fraterno, a capacidade de ouvir, compreender, perdoar, aceitar, ajudar os outros, a todos, excluindo sem marginalizar. Queridos jovens, vocês são os “Atletas de Cristo” autênticos!

3. O campo como um canteiro de obras. Quando o nosso coração é uma boa terra que recebe a Palavra de Deus, quando “sweatshops”, tentando viver como cristãos, nós experimentamos algo grande: nunca estamos sozinhos, somos parte de uma família de irmãos que viajam da mesma forma: nós somos parte da Igreja, de fato, nos tornamos construtores da Igreja e protagonistas da história. São Pedro nos diz que somos pedras que formam uma casa espiritual (cf. 1 Pe 2:05) que vivem. E olhando para este estágio, vemos que tem a forma de uma igreja construída com pedras, tijolos. Na Igreja de Jesus, somos pedras vivas, e Jesus nos pede para construir a Sua Igreja, e não como uma pequena capela onde ser apenas um punhado de pessoas. Nós pedimos que a sua igreja é tão grande que pode acomodar toda a humanidade, que é a casa de todos. Jesus diz para mim, para você, para cada uma delas: “Ide e fazei discípulos de todas as nações.” Esta tarde, respondamos-lhes: Sim, eu também quero ser uma pedra viva, juntos, edificar a Igreja de Jesus. Digamos juntos: eu quero ir e ser um construtor da Igreja de Cristo.

Seu jovem coração tem o desejo de construir um mundo melhor. Tenho acompanhado de perto as notícias sobre tantos jovens em muitas partes do mundo, têm saído às ruas para expressar um desejo para uma civilização mais justa e fraterna. No entanto, fica a pergunta: Por onde começar? Quais são os critérios para a construção de uma sociedade mais justa? Quando Madre Teresa foi perguntado o que mudaria na Igreja, disse: Você e eu.

Queridos amigos, não se esqueça: você é do domínio da fé. Vocês são os atletas de Cristo. Vocês são os construtores de uma igreja mais bonita e um mundo melhor. Levantai os vossos olhos para a Virgem. Ela nos ajuda a seguir Jesus nos dá um exemplo com o seu “sim” a Deus: “Eis aqui a serva do Senhor, para ser feito em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). É o que nós também dizemos a Deus com Maria: Faça-se em mim segundo a tua palavra. Assim seja.

Fonte: Portal Católico  

XIV Domingo do Tempo Comum – Ano C

Por Mons. Inácio José Schuster

14ª Domingo do tempo comum
Lucas, capítulo 10, versículos 1 a 12 e 17 a 20
O Senhor designou outros tantos setenta e dois discípulos e os enviou dois a dois, para cada cidade e lugar para onde se dirigia, e lhes dizia: “A messe é grande, mas os operários são poucos. Pedi ao senhor da messe que envie operários a Sua messe”. Não bastaram Doze, para este Evangelista, além dos Doze destinados para a primeira missão, mais setenta e dois discípulos. Setenta e dois é um número altamente expressivo e simbólico no Antigo Testamento. Nos primeiros capítulos do Gênesis, setenta e duas foram as nações que existiam na Terra. Setenta e dois discípulos: o texto quer dizer que todos se transformam em Apóstolos e enviados de Jesus. Hoje, neste domingo, através deste texto, a Igreja deseja, bem na linha da nossa última Conferência Episcopal Americana, em Aparecida, realizar um movimento amplo, uma ampla movimentação de todos os fiéis católicos. Não estamos mais em tempos de tranqüilidade e não é esta uma tática para desbancarmos seitas que pululam no meio de nós. O Papa, quando veio ao Brasil, disse que a Igreja não faz proselitismo. A Igreja acolhe por atração. Todos os católicos, aqueles que freqüentam uma Assembléia Eucarística, ou tem consciência clara do momento grave em que vivemos, somos convocados, hoje, através deste texto de Lucas, porque a messe é grande e os operários são poucos. Imaginem a tristeza e a desilusão de um agricultor ou de um fazendeiro ao ver os seus frutos se perderem todos por falta absoluta de operários para a sua colheita. Assim acontece entre nós. Os nossos sacerdotes são poucos, nós não chegamos a vinte mil padres, no Brasil, mas os sacerdotes necessitam da sua ajuda. Você pode começar movimentando primeiramente a sua família, quem sabe indiferente ou não praticante. Você pode ajudar através de um movimento missionário em sua comunidade e sua paróquia. O que desejo comunicar e inculcar é que ninguém fique tranqüilamente guardando a fé para si próprio. A fé foi feita para que seja transmitida e nós só nos enriquecermos diante de Deus, na medida em que deixarmos o nosso conforto para anunciar o Evangelho da nossa Salvação. Ouça-me o Senhor deseja vê-lo entre os demais setenta e dois discípulos que o precederam onde quer que ele vá.

 

Jesus envia seus discípulos em missão e a escolha dos setenta e dois indica o alcance universal que o Senhor dá a este envio. Colocado justamente no início da subida de Jesus para Jerusalém, ele acrescenta a esta grande secção de São Lucas, em que a formação dos discípulos tem tanta importância, uma perspectiva missionária. Jesus quer justamente formar seus continuadores e fundar sua Igreja, em sua intenção, “católica”. É verdade, que isto só se concretizará após Pentecostes, sendo assim um anúncio da futura missão dos seus Apóstolos. Com efeito, escreve Orígenes, “não só os Doze Apóstolos pregaram a fé de Cristo, mas se nos diz que outros setenta foram enviados para pregar a Palavra de Deus, para que graças a eles, o mundo conhecesse as palmas da vitória de Cristo”. “Se houver um homem de paz, a vossa paz…”. O missionário de Cristo anuncia a Sua paz e deve comunicá-la aos que se preparam para recebê-la. Eles pertencem ao grupo dos artesãos da paz, do qual também faz parte São Francisco de Assis, que suplica: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz”. Até a segunda vinda do Senhor, os discípulos, no entanto, devem estar preparados para enfrentar oposição e perseguição, como ovelhas no meio de lobos. Jesus veio como cordeiro que tira os pecados do mundo. Nós somos convocados a oferecer nossa vida no humilde serviço de nosso Senhor e Mestre.

 

14º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO C

No evangelho deste domingo Jesus chama 72 discípulos e envia-os dois a dois a pregar e a dar testemunho. Cristo “designou” estes discípulos, ou seja, chamou-os por sua própria iniciativa, e “enviou-os”. O número 72 indica que o chamamento e a missão não são coisas exclusivas dos Doze apóstolos, mas de um maior número de discípulos; ou seja, abrange cada um de nós. Todos somos chamados e enviados, todos temos a missão de ser testemunhas de Jesus. Todavia, hoje, teremos que afirmar que “a messe é grande e os trabalhadores são poucos”. É preciso pedir “ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe”. Cada um de nós tem de pertencer a este grupo dos trabalhadores; há trabalho para todos. Esta missão não é individual, mas comunitária (“dois a dois”). Toda a comunidade é enviada, é missionária, identificada com os 72 discípulos. Quando os 72 são enviados, Jesus fez-lhes uma série de conselhos e de advertências. Envia-os “como cordeiros para o meio de lobos”; ou seja, que devem estar preparados para enfrentar as dificuldades, com perseverança e serenidade. Alguns povos não os quererão receber. Mesmo assim, deverão continuar a ser pessoas de paz, mesmo para todos aqueles que a não têm. Outro conselho é que “não leveis bolsa, nem sacola, nem sandálias”. Uma vida sóbria, desinteressada. Nada poderá prejudicar a sua missão: “não vos demoreis a saudar alguém pelo caminho”. Então, qual é a missão dos 72? “Curai os enfermos e dizei-lhes: Está perto de vós o Reino de Deus”. O anúncio da Boa Nova do Reino, a mensagem do Evangelho, deve ser acompanhada de obras que mostrem a paz e o amor de Deus. Os destinatários deste anúncio são todos os homens: aqueles que o acolhem ou que o rejeitam. “Os 72 discípulos voltaram cheios de alegria”. Regressam à comunidade e relatam a sua experiência. Estão alegres, porque a sua missão foi frutífera. Mas, Jesus diz-lhes: “não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos antes porque os vossos nomes estão escritos nos Céus”. A alegria da missão não dever ser pelos resultados alcançados, mas pela satisfação de missão cumprida. É a alegria da fé. Na 1ª leitura, o profeta Isaías convida à alegria, à festa, porque Deus derrama um rio de paz sobre Jerusalém. “Quando o virdes, alegrar-se-á o vosso coração”. O Salmo convida a louvar o Senhor pelas suas obras admiráveis: “Alegremo-nos Nele”. São Paulo, na 2ª leitura, ao terminar a Carta aos Gálatas, reconhece que só na Cruz de Cristo pode gloriar-se. Identifica-se com Jesus Crucificado (“trago no meu corpo os estigmas de Jesus”), sabendo que é Nele que encontrará a paz, a misericórdia de Deus e a salvação. “Pois nem a circuncisão nem a incircuncisão valem alguma coisa: o que tem valor é a nova criatura”; para todos nós, é esta a fonte de uma profunda alegria. Por isso, na Oração de Coleta, pedimos: “dai aos vossos fiéis uma santa alegria, para que, livres da escravidão do pecado, possam chegar à felicidade eterna”. Devemos, pois, ser missionários e testemunhas do evangelho, enviados por Jesus, e viver na alegria; não pelos resultados alcançados, mas pela satisfação em viver intensamente a nossa fé.

 

Isaías 66, 10-14c; Gálatas 6, 14-18; Lucas 10, 1-12.17-20
«O Reino de Deus está perto de vós»

Também desta vez comentamos o Evangelho com a ajuda do livro do Papa Bento XVI sobre Jesus. Antes, contudo, desejaria fazer uma observação de caráter geral. A crítica feita ao livro do Papa desde alguns setores é que ele se atenha ao que dizem os Evangelhos sem ter em conta os resultados da pesquisa histórica moderna, a qual levaria, segundo aqueles, a conclusões muito diferentes. Trata-se de uma idéia muito difundida que está alimentando toda uma literatura do tipo O Código da Vinci, de Dan Brown, e obras de divulgação histórica baseadas nos mesmos pressupostos. Creio que é urgente esclarecer um equívoco fundamental presente em tudo isso. A idéia de uma pesquisa histórica sobre Jesus unitária, retilínea, que prossegue sem obstáculos até a plena luz sobre Ele é um puro mito que se vende às pessoas, mas no qual nenhum historiador sério de hoje já crê. Cito uma das mais conhecidas representantes da pesquisa histórica sobre Jesus, a americana Paula Fredriksen: «Os livros se multiplicam — escreve –. Na pesquisa científica recente, Jesus foi apresentado como a figura de um santo do século primeiro, como um filósofo cínico itinerante, como um visionário radical e um reformador social que prega uma ética igualitária a favor dos últimos, como um regionalista galileu que luta contra as convenções religiosas da elite da Judéia (como o templo e a Torah), como um campeão da libertação nacional ou, ao contrário, como seu opositor e crítico, e assim sucessivamente. Todas essas figuras foram apresentadas com argumentos acadêmicos rigorosos e metodologia; todas foram defendidas apelando a dados antigos. Os debates continuam e o consenso — inclusive sobre pontos tão básicos como o que constitui evidência — parece uma remota esperança» [1]. Com frequência se apela aos novos dados e às descobertas recentes que por fim teriam situado a pesquisa histórica em uma posição de vantagem com respeito ao passado. Mas estas novas fontes históricas deram lugar a duas imagens de Cristo opostas e inconciliáveis entre si, ainda presentes neste contexto. Por um lado, um Jesus «judeu de pés e cabeça»; por outro, um Jesus filho da Galiléia helenizada de seu tempo, impregnado da filosofia cínica. À luz deste dado de fato, pergunto-me: o que deveria ter feito o Papa? Escrever a enésima reconstrução histórica para debater e rebater todas as objeções contrárias? O que o Papa optou por fazer foi apresentar positivamente a figura e ensinamento de Jesus como é entendido pela Igreja, partindo da convicção de que o Cristo dos Evangelhos é, também desde o ponto de vista histórico, a figura mais confiável e segura. Após esta declaração, passemos ao Evangelho do domingo. Trata-se do episódio do envio em missão dos setenta e dois discípulos. Depois de ter-lhes dito como devem ir (de dois em dois, como cordeiros, sem levar dinheiro…), Jesus lhes explica também o que devem anunciar: «Dizei-lhes: “O Reino de Deus está próximo de vós…”». Sabe-se que a frase «Chegou a vós o Reino de Deus» é o coração da pregação de Jesus e a premissa implícita de todo seu ensinamento. O Reino de Deus chegou entre vós, por isso, amai os vossos inimigos; «o Reino de Deus está próximo», por isso, se tua mão te escandaliza, corta-a: é melhor entrar sem uma das mãos no Reino de Deus do que com as duas mãos ficar fora… Tudo toma sentido de Reino. Sempre se discutiu sobre o que entendia precisamente Jesus com a expressão «Reino de Deus». Para alguns seria um reino puramente interior que consiste em uma vida conforme à lei de Deus; para outros, seria, ao contrário, um reino social e político que o homem deve concretizar, se necessário também com a luta e a revolução. O Papa observa essas interpretações do passado e revela o que têm em comum: o centro do interesse se traslada de Deus ao homem; já não se trata de um Reino de Deus, mas um reino do homem, do qual o homem é o artífice principal. Esta é uma idéia de reino compatível, em última instância, também com o ateísmo. Na pregação de Jesus, a vinda do Reino de Deus indica que, enviando ao mundo Seu Filho, Deus decidiu — por assim dizer — tomar pessoalmente em sua mão a sorte do mundo, comprometer-se com ele, atuar desde seu interior. É mais fácil intuir o que significa Reino de Deus que explicá-lo, porque é uma realidade que ultrapassa toda explicação. Segue ainda muito difundida a idéia de que Jesus esperasse um iminente fim do mundo e de que, portanto, o Reino de Deus por Ele pregado não se realizasse neste mundo, mas no que nós chamamos «o mais além». Os Evangelhos contêm, com efeito, algumas afirmações que permitem essa interpretação. Mas esta não se sustenta se se olha o conjunto das palavras de Cristo: «O ensinamento de Jesus não é uma ética para aqueles que esperam um rápido fim do mundo, mas para aqueles que experimentaram o fim deste mundo e a chegada nele do Reino de Deus: para aqueles que sabem que “as coisas velhas passaram” e o mundo se converteu em uma “nova criação”, dado que Deus veio como rei» (Ch. Dodd). Em outras palavras: Jesus não anunciou o fim do mundo, mas o fim de um mundo, e nisso os fatos não o desmentiram. Mas também João Batista pregava esta mudança, falando de um iminente juízo de Deus. Então onde está a novidade de Cristo? A novidade se contém do todo em um advérbio de tempo: «agora», «já». Com Jesus, o Reino de Deus já não é algo só «iminente», mas presente. «O aspecto novo e exclusivo da mensagem de Jesus — escreve o Papa — consiste no fato de que Ele nos diz: Deus atua agora — é esta a hora na qual Deus, de uma forma que vai mais além de qualquer outra modalidade precedente, revela-se na história como seu próprio Senhor, como o Deus vivo». Daqui surge esse sentido de urgência que se traduz em todas as parábolas de Jesus, especialmente nas chamadas «parábolas do Reino». Soou a hora decisiva da história, agora é o momento de tomar a decisão que salva; o banquete está preparado: rejeitar entrar porque se acaba de tomar esposa ou se acaba de comprar um par de bois ou por outro motivo, significa estar excluídos para sempre e ver o próprio lugar ocupado por outros. Partamos desta última reflexão para uma aplicação prática e atual da mensagem escutada. O que Jesus dizia a seus contemporâneos serve também para nós hoje. Esse «agora» e «hoje» permanecerá invariável até o fim do mundo (Hb 3, 13). Isto significa que a pessoa que escuta hoje, talvez de forma casual, a palavra de Cristo: «O tempo de Deus se cumpriu e o Reino de Deus está próximo; convertei-vos e crede no Evangelho» (Mc 1, 15), encontra-se ante a própria eleição que aqueles que a escutavam há dois mil anos em uma aldeia da Galiléia: ou crer e entrar no Reino, ou rejeitar crer e ficar fora. Lamentavelmente, a de crer parece ao contrário a última das preocupações para muitos que lêem hoje o Evangelho ou escrevem livros sobre ele. Em lugar de submeter-se ao juízo de Cristo, muitos se erigem em seus juízos. Jesus está mais que nunca sob processo. Trata-se de uma espécie de «juízo universal» ao contrário. Sobretudo os estudiosos correm este perigo. O estudioso deve «dominar» o objeto da ciência que cultiva e permanecer neutro ante ele; mas como «dominar» ou ser neutro ante o objeto, quando se trata de Jesus Cristo? Neste caso, mais que «dominar» conta «deixar-se dominar». O Reino de Deus era tão importante para Jesus que nos ensinou a orar cada dia por sua vinda. Dirigimos-nos a Deus dizendo: «Venha a nós o vosso Reino»; mas também Deus se dirige a nós e diz pela boca de Jesus: «O Reino de Deus veio entre vós; não esperais, entrai nele!».

[1] [Texto original em inglês]: «In recent scholarship, Jesus has been imagined and presented as a type of first-century shaman figure; as a Cynic-sort of wandering wise man; as a visionary radical and social reformer preaching egalitarian ethics to the destitute; as a Galilean regionalist alienated from the elitism of Judean religious conventions (like Temple and Torah); as a champion of national liberation and, on the contrary, as its opponent and critic — on and on. All these figures are presented with rigorous academic argument and methodology; all are defended with appeals to the ancient data. Debate continues at a roiling pitch, and consensus — even on issues so basic as what constitutes evidence and how to construe it — seems a distant hope».

Sétimo Domingo do Tempo Comum B

Por Mons. Inácio José Schuster

Isaías 43, 18-19.21-22.24b-25; 2 Coríntios 1, 18-22; Marcos 2, 1-12

Teus pecados estão perdoados

Um dia que Jesus estava em casa (talvez na casa de Simão Pedro, em Cafarnaum), reuniu-se tal multidão que não se podia de modo algum entrar pela porta. Um pequeno grupo de pessoas que tinha um familiar ou amigo paralítico pensou em superar o obstáculo tirando o teto e descendo o enfermo pelas pontas de um lençol diante de Jesus. Ele, diante daquilo, disse ao paralítico: «Filho, teus pecados estão perdoados».

Alguns escribas presentes pensam em seus corações: «Blasfêmia! Quem pode perdoar os pecados, senão Deus somente?». Jesus não desmente sua afirmação, mas demonstra com os fatos ter sobre a terra o poder próprio de Deus: «Para que saibais que o Filho do homem tem na terra o poder de perdoar pecados –diz ao paralítico–: “A ti te digo, levanta-te, toma tua maca e vai-te para casa”».

O que ocorreu naquele dia na casa de Simão é o que Jesus continua fazendo hoje na Igreja. Nós somos aquele paralítico, cada vez que nos apresentamos, escravos do pecado, para receber o perdão de Deus.

Uma imagem da natureza nos ajudará (pelo menos ajudou a mim) a entender porque só Deus pode perdoar os pecados. Trata-se da imagem da estalagmite. A estalagmite é uma dessa colunas calcárias que se forma no fundo de certas grutas milenares pela queda de água calcária do teto da caverna. A coluna que pende do teto da gruta se chama estalactite, a que se forma abaixo, no ponto em que cai a gota, estalagmite. A questão não é a água e seu fluxo ao exterior, mas sim que em cada gota de água há uma pequena porcentagem de calcário que se deposita e faz massa com a precedente. É assim que, com o passar de milênios, formam-se essas colunas de reflexos brilhantes, belas de contemplar, mas que se se vêem melhor se parecem barras de uma cela ou a afiados dentes de uma fera de boca aberta de par em par.

O mesmo ocorre em nossa vida. Nossos pecados, no curso dos anos foram caindo no fundo de nosso coração como muitas gotas de água calcária. Cada um depositou aí um pouco de calcário –isto é, de opacidade, de dureza e de resistência a Deus– que ia fazendo massa com o que havia deixado o pecado precedente. Como acontece na natureza, o grosso se ia, graças às confissões, às Eucaristias, à oração. Mas cada vez permanecia algo não dissolvido, e isso porque o arrependimento e o propósito não eram «perfeitos». E assim nossa estalagmite pessoal cresceu como uma coluna de calcário, como um rígido busto de gesso que enjaula nossa vontade. Entende-se então de uma vez só o que é o famoso «coração de pedra» do qual a Bíblia fala: é o coração que nós mesmos criamos, por força de pecados.

O que fazer nesta situação? Não posso eliminar essa pedra com minha vontade somente, porque aquela está precisamente em minha vontade. Compreende-se pois o dom que representa a redenção operada por Cristo. De muitas maneiras, Cristo continua sua obra de perdoar os pecados. Mas existe um modo específico ao qual é obrigatório recorrer quando se trata de rupturas graves com Deus, e é o sacramento da penitência.

O mais importante que a Bíblia tem a nos dizer acerca do pecado não é que somos pecadores, mas que temos um Deus que perdoa o pecado e, uma vez perdoado, o esquece, cancela-o, faz algo novo. Devemos transformar o arrependimento em louvor e ação de graças, como fizeram aquele dia, em Cafarnaum, os homens que haviam assistido ao milagre do paralítico: «Todos se maravilharam e glorificavam a Deus dizendo: “Jamais vimos coisa parecida”».

 

Evangelho segundo São Marcos 2, 1-12
Dias depois, tendo Jesus voltado a Cafarnaúm, ouviu-se dizer que estava em casa. Juntou-se tanta gente que nem mesmo à volta da porta havia lugar, e anunciava-lhes a Palavra. Vieram, então, trazer-lhe um paralítico, transportado por quatro homens. Como não podiam aproximar-se por causa da multidão, descobriram o teto no sítio onde Ele estava, fizeram uma abertura e desceram o catre em que jazia o paralítico. Vendo Jesus a fé daqueles homens, disse ao paralítico: «Filho, os teus pecados estão perdoados.» Ora estavam lá sentados alguns doutores da Lei que discorriam em seus corações: «Porque fala este assim? Blasfema! Quem pode perdoar pecados senão Deus?» Jesus percebeu logo, em seu íntimo, que eles assim discorriam; e disse-lhes: «Porque discorreis assim em vossos corações? Que é mais fácil? Dizer ao paralítico: ‘Os teus pecados estão perdoados’, ou dizer: ‘Levanta-te, pega no teu catre e anda’? Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar os pecados, Eu te ordeno disse ao paralítico: levanta-te, pega no teu catre e vai para tua casa.» Ele levantou-se e, pegando logo no catre, saiu à vista de todos, de modo que todos se maravilhavam e glorificavam a Deus, dizendo: «Nunca vimos coisa assim!»

No domingo passado era um leproso que se aproximava de Jesus: “Se queres tens o poder de curar-me”. Hoje é um paralítico que é conduzido por outros quatro, solidários com ele já que não pode mover-se, até a presença de Jesus.

O auditório estava repleto, todos se sentiam testemunhas privilegiadas, escolhidas a dedo, para assistirem a uma cena espetacular que se desenrolaria imediatamente aos próprios olhos, veriam com eles, uma cura extraordinária, se houvesse televisão naquela época, lá estariam os câmeras preparados para captar o ângulo mais forte e decisivo do gesto taumatúrgico e curador de Jesus.

A primeira palavra de Jesus, no entanto desconcerta a todos: “Filho os teus pecados estão perdoados”. Esperava isto o paralítico?

O texto não nos diz: Ficou feliz ao saber que seus pecados, diante de Deus, estavam perdoados? Não sabemos. Terá ficado desiludido, não foi para isto que vinha aqui?

Também não conhecemos a reação desta pessoa, mas conhecemos a reação do auditório de suspense, à irritação: “Este blasfema”, porque quem pode perdoar pecados, a não ser somente Deus?

Diz-nos o Evangelista, que Jesus com olhos longemirantes, lendo por dentro os pensamentos dos corações, se auto-defende: “O que é mais fácil dizer, teus pecados são perdoados, ou levanta-te, toma a tua cama e vai para casa?”

Claro, no pensamento daquela gente, a resposta deveria ser a primeira, os teus pecados são perdoados, pois não há meio de se acertar, se realmente foram ou não, mas se o milagre fracassa, então se percebe que era um falso Profeta.

“No entanto, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder de perdoar pecados, eu digo ao paralítico: Levanta-te, toma o teu leito e vai para a tua casa”, imediatamente curou-se no seu físico, depois de ter sido curado no coração completamente no corpo e no espírito, foi para casa.

Nós sofremos muito com nossas doenças materiais, basta um sinalzinho qualquer dentro de nós, não é preciso uma paralisia nem de longe, basta um pequeno alarme, e corremos todos para médicos, hospitais, exames que não tem fim, porque estamos todos preocupados com a saúde física, mas Jesus neste Evangelho, sem nos dizer que erramos e afirma-nos, porque isto é catequese, que existe um mal incomparavelmente pior, a respeito do qual nós olhamos pouco e fazemos tão pouco para extirpá-lo; o pecado dentro de nós.

Este sim causa um estrago muito mais irreparável do que os nossos males físicos e se nós vemos apenas o contrário é por que nós não temos os olhos de Deus, nós vemos as coisas com olhos meramente humanos e no horizonte meramente humano que termina com a morte, a sepultura, o cemitério e nada mais.

Peçamos hoje a Deus, que mostre-nos com Seus olhos os estragos que o pecado pode fazer em cada um de nós, mas que cada um de nós tenha a graça de ouvir de sua boca, através desta leitura e meditação: “Filho os teus pecados te são perdoados também”.

 

RECONHECER-SE INDIGENTE
Padre Fábio de Melo

Quanta sabedoria quando o salmista coloca a necessidade da cura para o pecado.

Há um cuidado humano com a saúde, no que comemos, como vivemos, como forma de prevenir as enfermidades nessa responsabilidade que cabe a mim e a você na observância da vida, no respeito ao organismo que somos. Não somos um mecanismo, somos organismo e precisamos respeitá-lo. Se não o fazemos, o levamos a falência antes da hora. Definhamos antes da hora.

E aqui, o salmista pede a Deus que lhe cure. Considerando o pecado como enfermidade.

Da mesma forma como nós interpretamos o cuidado da saúde com o corpo, descobrimos que a vida espiritual precisa seguir as mesmas regras.

O corpo é o território do sagrado.

E como medicamos o corpo para que ele seja curado, o salmista nos inspira e nos ensina que quando Deus nos perdoa, encontramos o processo de cura.

Curai-me Senhor pois pequei contra vós.

O perdão de Deus, o reconhecimento de Sua misericórdia, é um soro que colocamos em nossas veias todos os dias.

De vez em quando eu preciso bater na porta das pessoas que me amam e dizer: “Me ajuda a chegar até Deus? Porque está difícil sozinho.” A possibilidade de estar com vocês aqui, é um soro que entra na minha veia.

Deus não é sim e não. Deus é apenas ‘sim’. Aqui você pode decidir-se pelo processo de reconhecer que há um Deus que nos ama de maneira única, e que não há nenhuma realidade humana que possa ser capaz de ofuscar e ser maior do que esse amor.

O evangelho de hoje é uma prova concreta de que Deus continua apostando em Sua misericórdia conosco. Você que ama, eu pergunto: pode haver algo mais curativo em nossas vidas, do que amar e ser amado?

O ódio nos rouba, o amor nos devolve. Quando você não tem muitos motivos para se alegrar, e tem que lidar com suas fragilidades e não sabe o que fazer com elas, você não procura seus companheiros de copo, ou de fofoca. Você vai querer bater na porta de alguém que verdadeiramente vai saber olhar para suas indigências do jeito que elas merecem ser olhadas. Por que o primeiro milagre que Jesus faz de perdoar pecados, também participamos na dimensão humana.

‘Não podemos pensar na nossa indigência fora da misericórdia de Deus’

A cura que muitas vezes nos falta na vida, não é o perdão divino. Deus não tem nenhum problema em nos reconciliar com Ele. É especialidade dEle perdoar, compadecer-se, mas ainda não é minha, nem a sua.

Quantas vezes você sofreu na pele a vergonha de ter que mostrar quem você era para alguém que achava que te amava? E você errou?

Não tenho tido medo de ser fraco, indigente. E acolho como dom de Deus, porque a concretização do evangelho de hoje só acontecerá em nós no momento que a gente reconhecer que de vez em quando precisamos ser colocados na maca para que alguém nos leve na presença do Senhor.

Por que nos esconderam tanto tempo que Deus prefere os piores? E que no acolhimento da fraqueza podemos chegar a algum lugar, e que o contrário não? Nós não podemos negligenciar a oportunidade de dizer isso a ninguém.

Somos indigentes. É o que você precisa ver em mim, em cada um de nós, no seu pároco, nas pessoas que você diz amar. O amparo humano que nos anuncia o amparo de Deus. Deus segurou na minha mão e ele tinha rosto de gente.

Não temos outra coisa a anunciar nessa vida a não ser a misericórdia de Deus. Nada do teu passado pode ser maior do que força do futuro de Deus. Nada.

Falar do perdão de Deus na nossa vida, é falar do perdão que nós nos entregamos o tempo todo. A primeira parte desse milagre, que foi fazer a voltar a andar o que era paralítico, foi o Senhor perdoar o pecado dele. Quantas vezes na vida ficamos paralisados? Não vamos pra lugar algum. E quando investigamos a paralisia, vemos que em algum momento não soubemos nos reconciliar com aquilo que a gente é. A gente se projetou melhor do que era, ou o pior do que era e a gente acabou não sendo nada.

‘Nada do teu passado pode ser maior do que força do futuro de Deus’

Quantas vezes você se estragou porque não foi capaz de se perdoar? Não foi capaz de usar de misericórdia consigo mesmo? Não reconheceu que estava indigente, ou que na corrida chegou em último lugar.

Como é duro ser o último. Agora, quando estamos no pódio é fácil achar quem nos ama. Alguma coisa dentro de nós pede para que o fracasso do outro seja ridicularizado. Isso é demoníaco. Nós não sabemos lidar com o fracasso dos outros.

O mais desconcertante disso tudo é que Jesus ficava de olho em quem chegava por último, e deles fazia seguidores.

Pode ser que a gente esteja tentado a olhar só o ‘batalhão de frente’. Jesus ficava de olho para ver quem estava em último e o trazia para dentro. Por isso o cristianismo é anúncio de salvação.

O presente é para todos. Só basta querer receber. Nisso está a dimensão humana da salvação: eu quero, aceito, me disponho, e recebo aquilo que Deus quer me ofertar. Eu quero essa participação direta nesse presente que Deus me oferece.

Por isso, não olhe para trás. Não preste atenção no que não deu certo. Não ponha seu empenho no que você não tem. Deus só pode trabalhar naquele que se reconhece indigente. Qual é pior doente? É aquele que não quer ser tratado.

Aqui está a origem de toda enfermidade: o pecado que não recebe cura.

Como tratamos o corpo, precisamos tratar o espírito, a alma.

Não podemos pensar na nossa indigência fora da misericórdia de Deus. Ele nos quer arrependidos dos erros e prontos para começarmos de novo.

Deus nos ama, mesmo na indigência. Não negligencie a oportunidade de trazer Jesus ao coração das pessoas que você encontrar na sua vida.

A face mais sedutora de Deus é a misericórdia.

 

A CURA FÍSICA COMO PROVA DA CURA ESPIRITUAL
Mais uma vez o evangelista Marcos narra-nos uma cura de Jesus; agora, é a cura do paralítico. Jesus pregava e curava, palavras e obras, mensagem acompanhada de sinais para a salvação em nome de Deus e que já se concretizava na Sua Pessoa. A cura do paralítico tem muito a ver com a cura do leproso que meditamos na semana passada. No domingo passado, verificamos que Jesus não só curava o mal físico, mas também devolvia ao leproso a sua dignidade de pessoa. Além disso, libertava-o do pecado que, para muitos, era a causa da doença. Hoje, este elemento do perdão dos pecados é-nos mais claro, através da cura narrada por S. Marcos. Jesus diz ao paralítico: “Filho, os teus pecados estão perdoados”. O homem ansiava ser curado (andar por si próprio), mas, em primeiro lugar, Jesus concede-lhe uma cura espiritual. A cura física será uma prova da cura espiritual que antes tinha acontecido. Para Jesus, o mais importante é o perdão dos pecados, ou seja, é a renovação interior da pessoa. A fé em Jesus cura-nos por dentro para que o nosso coração possa ser renovado. Na 1ª Leitura do Livro de Isaías, encontramos o mesmo convite à renovação interior: “Não vos lembreis mais dos acontecimentos passados, não presteis atenção às coisas antigas. Eu vou realizar uma coisa nova, que já começa a aparecer; não o vedes?… Sou Eu, sou Eu que, em atenção a Mim, tenho de apagar as tuas transgressões e não mais recordar as tuas faltas”. Perdoar os pecados é algo reservado somente a Deus. Por isso, os escribas protestam e acusam Jesus de blasfêmia: “Não é só Deus que pode perdoar os pecados?” Concordamos com esta pergunta, mas “o Filho do Homem tem na terra o poder de perdoar os pecados”. Jesus é o Messias, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo. Com as suas palavras e obras, isto começa a tornar-se claro à vista de todos.
Meditemos na atitude do paralítico e dos seus acompanhantes. O texto diz que Jesus estava rodeado por uma multidão que não deixava ninguém aproximar-se Dele. “Trouxeram-Lhe um paralítico, transportado por quatro homens; e, como não podiam levá-lo até junto d’Ele, devido à multidão, descobriram o teto por cima do lugar onde Ele se encontrava e, feita assim uma abertura, desceram a enxerga em que jazia o paralítico”. É, de fato, um grande exemplo de fé, de confiança, de convicção e de luta contra as dificuldades. Aqueles homens acreditavam que Jesus podia curar o paralítico, tinham fé nisso mesmo; por isso, as dificuldades não lhes causavam desânimo, mas davam alento para lutar por aquilo que pretendiam. É um exemplo a registrar para a nossa vida: lutar pelas coisas; o que custa é que tem valor, mas não é fácil alcançar; é preciso lutar, sem desfalecer. É também um exemplo para a nossa caminhada de fé: quantas vezes temos dificuldades em viver a nossa fé, em viver como cristãos, desanimando facilmente? Viver a fé neste mundo é lutar contra a corrente. Por isso, não é fácil. Exige esforço, vontade, convicção. Mas vale a pena, porque seremos curados, fortalecidos e renovados, como o paralítico. São Paulo, na 2ª Leitura (iniciamos a leitura da 2ª Carta aos Coríntios), diz-nos que a nossa fé não pode ser sim e não, cheios de dúvidas e inseguranças, mas sempre um sim muito firme e convicto, um “amém”, ou seja, um sim a Deus e a Jesus Cristo. Esta firmeza tem de ser testemunhada no quotidiano. Que Jesus também nos possa dizer: “A tua fé te salvou”.
Mais um pormenor a ter em conta. Depois de Jesus ter curado o paralítico, diz-lhe: “levanta-te, toma a tua enxerga e vai para casa”. Cada um de nós tem uma enxerga para carregar, ou seja, todos temos uma cruz para transportar. Provavelmente, os problemas do dia a dia não serão resolvidos por Jesus. Todavia, temos esta força interior, este espírito renovado, que nos dá luz e coragem para olhar o horizonte da vida com otimismo. Com este interior forte e seguro, entoemos um hino de louvor e de ação de graças ao Senhor. Isaías, na 1ª Leitura, diz-nos: “O povo que formei para Mim proclamará os meus louvores”. Marcos, no evangelho, também nos diz: “todos ficaram maravilhados e glorificavam a Deus”. É esta a nossa atitude, quando celebramos a Eucaristia.
Com informações do Missal Romano, da CNBB e do SDPL

Quarto Domingo do Tempo comum B

Por Mons. Inácio José Schuster

Deuteronômio 18, 15-20; 1 Coríntios 7, 32-35; Marcos 1, 21-28

O espírito imundo saiu dele

«Então um homem possuído por um espírito imundo pôs-se a gritar: “O que temos nós a ver contigo, Jesus de Nazaré? Viestes para nos destruir? Sei quem tu és: o Santo de Deus”. Jesus, então, disse: “Cala-te e sai dele”. E agitando-se violentamente o espírito imundo deu um forte grito e saiu dele». O que pensar deste episódio narrado no evangelho deste domingo e de muitos outros acontecimentos análogos presentes no Evangelho? Existem ainda os «espíritos imundos»? Existe o demônio? Quando se fala da crença no demônio, devemos distinguir dois níveis: o nível das crenças populares e o nível intelectual (literatura, filosofia e teologia). No nível popular, ou de costumes, nossa situação atual não é muito distinta da Idade Média, ou dos séculos XIV-XVI, tristemente famosos pela importância outorgada aos fenômenos diabólicos. Já não há, é verdade, processos de inquisição, fogueiras para endemoniados, caça de bruxas e coisas pelo estilo; mas as práticas que têm no centro o demônio estão ainda mais difundidas que então, e não só entre as classes pobres e populares. Transformou-se em um fenômeno social (e comercial!) de proporções vastíssimas. E mais, diria que quanto mais se procura expulsar o demônio pela porta, tanto mais volta a entrar pela janela; quanto mais é excluído pela fé, tanto mais prende na superstição. Muito diferentes estão as coisas no nível intelectual e cultural. Aqui reina já o silêncio mais absoluto sobre o demônio. O inimigo já não existe. O autor da desmitificação, R. Bultmann, escreveu: «Não se pode recorrer em caso de enfermidade a meios médicos e clínicos e por sua vez crer no mundo dos espíritos». Creio que um dos motivos pelos quais muitos acham difícil crer no demônio é porque se busca nos livros, enquanto que ao demônio não interessam os livros, mas as almas, e não se encontra freqüentado os institutos universitários, as bibliotecas e as academias, mas, precisamente, as almas. Paulo VI reafirmou com força a doutrina bíblica e tradicional em torno a este «agente obscuro e inimigo que é o demônio». Escreveu, entre outras coisas: «O mal já não é só uma deficiência, mas uma eficiência, um ser vivo, espiritual, pervertido e perversor. Terrível realidade. Misteriosa e espantosa». Também neste campo, contudo, a crise não passou em vão e sem trazer inclusive frutos positivos. No passado, com freqüência se exagerou ao falar do demônio, foi visto onde não estava, muitas ofensas e injustiças cometeram-se com o pretexto de combatê-lo; é necessária muita discrição e prudência para não cair precisamente no jogo do inimigo. Ver o demônio por todas as partes não é menos errôneo que não vê-lo por nenhuma. Dizia Agostinho: «Quando é acusado, o diabo se satisfaz. É mais, quer que o acuse, aceita com gosto toda tua recriminação, se isto serve para dissuadir-te de fazer tua confissão!». Entende-se portanto a prudência da Igreja ao desalentar a prática indiscriminada do exorcismo por parte de pessoas que não receberam nenhum mandato para exercer este ministério. Nossas cidades pululam de pessoas que fazem do exorcismo uma das muitas práticas de pagamento e atuações de «feitiços, mau-olhado, má sorte, negatividades malignas sobre pessoas, casas, empresas, atividades comerciais». Surpreende que em uma sociedade como a nossa, tão atenta às fraudes comerciais e disposta a denunciar casos de exaltado crédito e abusos no exercício da profissão, haja muitas pessoas dispostas a acreditar em superstições como estas. Antes ainda que Jesus dissesse algo aquele dia na sinagoga de Cafarnaum, o espírito imundo sentiu-se desalojado e obrigado a sair ao descoberto. Era a «santidade» de Jesus que aparecia «insustentável» para o espírito imundo. O cristão que vive em graça e é templo do Espírito Santo leva em si um pouco desta santidade de Cristo, e é precisamente esta a que opera, nos ambientes onde vive, um silencioso e eficaz exorcismo.

 

4º Domingo do Tempo Comum
Mc 1,21-28: “Até mesmo aos espíritos impuros. Ele dá ordem” (29.jan.2012)  

21Dirigiram-se para Cafarnaum. E já no dia de sábado, Jesus entrou na sinagoga e pôs-se a ensinar. 22Maravilhavam-se da sua doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas. 23Ora, na sinagoga deles achava-se um homem possesso de um espírito imundo, que gritou: 24“Que tens tu conosco, Jesus de Nazaré? Vieste perder-nos? Sei quem és: o Santo de Deus! 25Mas Jesus intimou-o, dizendo: “Cala-te, sai deste homem!” 26O espírito imundo agitou-o violentamente e, dando um grande grito, saiu. 27Ficaram todos tão admirados, que perguntavam uns aos outros: “Que é isto? Eis um ensinamento novo, e feito com autoridade; além disso, ele manda até nos espíritos imundos e lhe obedecem!” 28A sua fama divulgou-se logo por todos os arredores da Galiléia.

A Sinagoga quer dizer reunião, assembléia, comunidade. Assim se chamava – e se chama – o lugar em que os Judeus se reuniam para escutar a leitura da Sagrada Escritura e rezar. No tempo de nosso Senhor havia Sinagogas em todas as cidades e aldeias da Palestina de certa importância; e fora da Palestina nos lugares onde havia uma comunidade de Judeus suficientemente numerosos. A Sinagoga constava principalmente de uma sala retangular, construída de tal forma que os assistentes, sentados, olhassem para Jerusalém. Na sala havia uma tribuna onde se lia e se explicava a Sagrada Escritura.

Na Sinagoga, Jesus mostrava a Sua autoridade ao ensinar. Tomava como base a Escritura, e como no Sermão da Montanha, distinguia-Se dos outros mestres, pois falava em nome próprio: “Mas Eu digo-vos”. O Senhor, na verdade, fala dos mistérios de Deus e das relações entre os homens; explica com simplicidade e com poder, porque fala do que sabe e dá testemunho do que viu. Os escribas ensinavam também ao povo o que está escrito em Moisés e nos profetas; mas Jesus pregava ao povo como Deus e Senhor do próprio Moisés (cf. São Beda (†735), In Marci Evangelium exposito). Jesus, primeiro faz e depois diz e não é como os escribas que dizem e não fazem.

Havia na Sinagoga, um homem possesso, mas Jesus o enfrenta com autoridade. A vitória de Jesus sobre o espírito imundo (demônio) é um sinal claro de que chegou a salvação divina. Jesus, ao vencer o Maligno, revela-Se como o Messias, o Salvador, com um poder superior ao dos demônios. Ao longo do Evangelho torna-se patente a luta contínua e vitoriosa do Senhor contra o demônio.

A oposição do demônio a Jesus vai aparecendo, cada vez mais clara: primeiro de forma sutil no deserto; depois se manifesta de forma violenta nos endemoninhados; torna-se radical e total na Paixão, que é “a hora e o poder das trevas” (Lc 22, 53). Mas, a vitória de Jesus é também cada vez mais patente, até ao triunfo total da Ressurreição.

São João Crisóstomo (†407) chama o demônio de imundo, devido a sua impiedade e afastamento de Deus, e porque se mistura em toda a obra má e contrária a Deus. Reconhece de alguma maneira a santidade de Cristo, mas este conhecimento não vai acompanhado pela caridade. A luta pode ser longa, mas terminará com uma vitória: o espírito maligno não pode nada contra Cristo.

A mesma autoridade que Jesus mostrou no ensino (Mc 1, 22) aparece agora nos seus atos. As palavras e os atos de Jesus evidenciam algo de superior, um poder divino, que enche de admiração e de temor aqueles que O escutam e observam.

Jesus de Nazaré é o Salvador esperado. Ele sabe e manifesta-se precisamente nos Seus atos e nas Suas palavras, que constituem uma unidade inseparável segundo os relatos evangélicos. Como ensina o Vaticano II (Dei Verbum, 2): “a Revelação faz-se com atos e palavras intimamente unidos entre si. As palavras esclarecem os atos; os fatos confirmam as palavras. Deste modo Jesus vai revelando progressivamente o mistério da Sua pessoa”.

Em continuidade a este episódio, o Evangelista narra a ida de Jesus, com os discípulos, para a casa de Pedro, que será a base da comunidade em seu convívio e em seu ministério. É a substituição da sinagoga pela igreja doméstica.

Fonte: Bíblia Sagrada, Santos Evangelhos, Edições Theologica, Braga, 1994.

 

O EXORCISMO SEGUNDO O CATECISMO DA IGREJA
Padre Rufus é sacerdote da arquidiocese de Bombaim, na Índia, e um dos exorcistas oficiais do Vaticano, responsável por analisar possíveis casos de possessão. 

O exorcismo é a invocação que a Igreja faz, em nome de Jesus Cristo, por intermédio de um ministro ordenado, para proteger e afugentar o demônio de uma pessoa ou objeto.

Eles podem ser divididos em dois tipos: simples e solenes. O exorcismo simples ocorre no rito do batismo, quando o cristão é preparado para confessar sua fé à Igreja. Já o exorcismo solene, que só pode ser celebrado por um presbítero designado, tem aspecto sacramental e é celebrado em casos de opressão ou possessão. Esse tipo de prática precisa ser autorizada pelo Ordinário, o bispo local, que pode ordenar um exorcismo solene mediante estudo do caso.

O exorcista deve ser um sacerdote, autorizado pelo bispo local ou com autorização expressa da Santa Sé.

Nos dias de hoje, muito se confunde a prática do exorcismo com orações de cura e libertação. Com relação a isso, o padre Gabriele Amorth, exorcista da diocese de Roma e autor do livro “Habla un Exorcista”, diz que o exorcismo é apenas o sacramental instituído pela Igreja. O poder de expulsar demônios que Jesus conferiu a todos os fiéis é válido. Este poder é baseado na lei e na oração, e pode ser exercido por indivíduos ou comunidades sem nenhuma autorização. Entretanto, esse tipo de ato, trata-se de preces de libertação, e não devem ser chamadas de exorcismos.

O que diz o Catecismo da Igreja a respeito do exorcismo:

E.56.1 Exorcismo na celebração do Batismo

§1237 Visto que o Batismo significa a libertação do pecado e de seu instigador, o Diabo, pronuncia-se um (ou vários) exorcismo(s) sobre o candidato. Este é ungido com o óleo dos catecúmenos ou então o celebrante impõe-lhe a mão, e o candidato renuncia explicitamente a satanás. Assim preparado, ele pode confessar a fé da Igreja, à qual será “confiado” pelo Batismo.

E.56.2 Significação dos exorcismos de Jesus

§517 Toda a vida de Cristo é mistério de Redenção. A Redenção nos vem antes de tudo pelo sangue da Cruz, mas este mistério está em ação em toda a vida de Cristo: já em sua Encarnação, pela qual, fazendo-se pobre, nos enriqueceu por sua pobreza; em sua vida oculta, que, por sua submissão, serve de reparação para nossa insubmissão; em sua palavra, que purifica seus ouvintes; em suas curas e em seus exorcismos, pelos quais “levou nossas fraquezas e carregou nossas doenças” (Mt 8, 17); em sua Ressurreição, pela qual nos justifica. §550 O advento do Reino de Deus é a derrota do reino de Satanás: “Se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demônios, então o Reino de Deus já chegou a vós” (Mt 12, 28). Os exorcismos de Jesus libertam homens do domínio dos demônios. Antecipam a grande vitória de Jesus sobre “o príncipe deste mundo”. E pela Cruz de Cristo que o Reino de Deus ser definitivamente estabelecido: “Regnavit a ligno Deus – Deus reinou do alto do madeiro”.

E.56.3 Significação e fins do exorcismo e de sua maneira de fazer

§1673 Quando a Igreja exige publicamente e com autoridade, em nome de Jesus Cristo, que uma pessoa ou objeto seja protegido contra a influência do maligno e subtraído a seu domínio, fala-se de exorcismo. Jesus o praticou, é dele que a Igreja recebeu o poder e o encargo de exorcizar. Sob uma forma simples, o exorcismo é praticado durante a celebração do batismo. O exorcismo solene, chamado “grande exorcismo”, só pode ser praticado por um sacerdote, com a permissão do bispo. Nele é necessário proceder com prudência, observando estritamente as regras estabelecidas pela Igreja. O exorcismo visa expulsar os demônios ou livrar da influência demoníaca, e isto pela autoridade espiritual que Jesus confiou à sua Igreja. Bem diferente é o caso de doenças, sobretudo psíquicas, cujo tratamento depende da ciência médica. É importante, pois, verificar antes de celebrar o exorcismo se se trata de uma presença do maligno ou de uma doença.

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