Homilia da Semana

Auto-de-Fé

A Igreja na Inquisição da Opinião Pública

Zita Seabra entrevista Padre Gonçalo Portocarrero de Almada

OS CATÓLICOS: UMA ESPÉCIE EM EXTINÇÃO?

Tratamos da fé e das provas da existência ou não existência de Deus. Pedia‑lhe então que me explicasse o que é para si ser católico. Ouve‑se muitas vezes as pessoas dizerem que são católicas, mas não são praticantes. Pode ser‑se católico sem ser praticante?
Ser católico quer dizer pertencer à Igreja Católica, e essa pertença adquire‑se, sobretudo, através do sacramento do batismo, em virtude do qual a pessoa que foi validamente batizada fica membro de pleno direito dessa comunidade de crentes. A prática da fé cristã tem a ver com a sua vivência. É bom ter em conta que o cristianismo não é apenas uma doutrina, que o cristianismo é vida. É uma vida que tem, sem dúvida, um pressuposto doutrinário, uma teoria subjacente, ou que parte de um conhecimento sobrenatural. Mas o cristão não é aquele que conhece o cristianismo: o cristão é aquele que vive o cristianismo, ou pelo menos que se esforça por fazê‑lo.

Considera que viver o cristianismo implica ser católico praticante?
Sem dúvida. Ser católico praticante também não se pode reduzir, como por vezes se tende a pensar, a ir à missa. Nem pensar que o católico praticante é aquele que não falta a um ato cultual! Ser católico praticante também quer dizer praticar as virtudes cristãs: um católico que vá à missa e que não pratique a verdade, ou que não pratique a honestidade, não é um católico praticante, porque há um aspecto da sua fé que ele não está a praticar, não está a viver. O essencial, de fato, não é tanto a adesão intelectual a um conjunto de princípios, mas a prática, a vivência. Por isso, Jesus Cristo não pede aos apóstolos que assinem um conjunto de princípios, ou que subscrevam uma determinada teoria, mas que o sigam (Mt 4, 18-22; Mc 1, 16-20; Lc 5, 27-32; etc.). Ou seja, aquilo que está em primeiro lugar é a vivência, é a atitude, é a vida. É claro que é uma vida de acordo com princípios. É claro que estes princípios podem e devem ser conhecidos e aprofundados, mas pode haver uma pessoa que, por exemplo, domine o conhecimento do cristianismo, que saiba tudo da teologia católica, que saiba tudo dos padres da Igreja, mas se não quiser viver essa doutrina não é cristã, embora seja um sábio do cristianismo, talvez até o melhor especialista em cristianismo. Também pode acontecer que uma pessoa que porventura tenha menos luzes, menos conhecimentos, menos formação doutrinária, se identifique, de fato, na sua vida com o exemplo de Cristo – e, nesse sentido, é cristã. Mas a prática não é uma realidade diferente da doutrina, é a consequência lógica dessa doutrina. Aliás, quando nós falamos de princípios, falamos de princípios de quê? Princípios da ação. Se aquele princípio não informa a minha ação, se aquilo que eu faço não nasce daquele princípio, então aquilo não é princípio para mim, porque não tem consequências, não tem seguimento. Nós dizemos que o princípio é o começo, porque é a partir daquele princípio que eu, depois, atuo daquela forma. Então, é um princípio para mim. Se o princípio não tem nenhuma consequência prática, não é princípio, é uma coisa que está desligada da minha vida, não tem a ver com aquilo que eu sou. É interessante ver como o próprio Cristo fala desta realidade quando, na parábola dos dois filhos – o que diz que sim e que, depois, não vai e o que diz que não e, depois, vai –, Nosso Senhor diz que aquele que cumpriu é aquele que diz que não, mas depois foi (Mt 21, 28-32). Ou seja, aquilo que tem prioridade não é tanto a adesão intelectual, porque o outro tinha dito que sim, mas aquilo que tem prioridade é a vida, são as obras, e assim aquele que disse inicialmente que não, depois, como foi, acabou por ser fiel. Há também um outro aspecto que é muito interessante e que é sublinhado por São Tiago, na sua epístola, quando diz: «Tens fé? Ainda bem que tens fé, mas os demônios também têm fé e isso nada lhes aproveita» (Tg 2, 14-19). Por isso, uma fé sem obras é uma fé morta. É uma fé que não tem qualquer valor. Nem sequer é fé no seu sentido mais correto. Por isso, um cristão não é uma pessoa que simpatiza com Cristo, um católico não é uma pessoa que gosta da Igreja, mas um cristão ou um católico é uma pessoa que se esforça por viver de acordo com aquilo em que acredita – e, se não se esforça, é porque verdadeiramente não crê.

Permita‑me que recorra a uma versão mais completa da mesma tese. Há quem afirme: «Sou católico, gosto de Jesus Cristo, mas não da Igreja, nem dos seus padres, nem do papa», e retire a respectiva conclusão: «A minha relação é diretamente com Deus, não necessito de intermediários.»
Isso ouve‑se muito. É um disparate bastante corrente, mas é uma contradição, porque esta separação entre Cristo e a Igreja não tem lugar. E não tem lugar, porque a Igreja é Cristo. Nosso Senhor di‑lo claramente, quando explica a São Paulo – que persegue a Igreja e persegue os cristãos – que é Ele, Jesus, a quem São Paulo persegue (At 9, 39). Na realidade, Saulo persegue os cristãos, mas não persegue Cristo, porque Cristo na altura já tinha ressuscitado, já tinha subido aos céus e, para ele, Cristo era uma figura que já tinha passado, que já não interessava. Saulo persegue a Igreja, persegue os cristãos, e quando Jesus lhe aparece não diz: «Saulo, porque é que persegues os cristãos, ou porque é que persegues a Igreja, ou porque é que persegues os meus discípulos?», mas: «Porque é que Me persegues a Mim?» E, depois, quando Saulo lhe pergunta: «Mas quem és tu, Senhor?», Jesus volta a dizer: «Eu sou Jesus a quem tu persegues.» Se fosse só uma vez, ainda poderíamos dizer: bom, foi uma forma simples de se referir ao assunto – mas não; na resposta, volta a dizer o mesmo. A Igreja é Cristo, a Igreja é Cristo no mundo, a Igreja é Cristo na História. O meu amor a Cristo só é verdadeiro se for amor à Igreja também. Se o meu amor a Cristo não se manifesta no amor à Igreja, não é amor ao Cristo real.

Mas façamos então a pergunta de outra forma: também é muito comum afirmar «sou católico, mas não concordo com o atual papa, só gostava muito de João Paulo II». Esta ressalva chega a ser frequentemente bem-vista e politicamente correta. Outras vezes surge a ideia mais generalizada e sincera de que se perdeu a confiança na Igreja porque houve papas muito maus, papas que fizeram guerras, houve até um que assinalou o início do seu pontificado com uma tourada na Praça de São Pedro. Logo, associa‑se isso à imagem da Igreja, de que inevitavelmente me afasto. Então, o meu relacionamento pode ser direto com Deus.
Mas Deus quer relacionar‑se conosco diretamente através da Igreja, e não tenho ou não conheço outro canal em virtude do qual essa relação se possa estabelecer. Se excluo a Igreja, então excluo o canal através do qual Deus quer que eu me relacione com Ele. Isso não quer dizer que Deus não possa vir ao meu encontro, ou conceder‑me alguma graça, por outros caminhos que eu não sei. Mas não tenho a certeza disso. O mais provável é que se eu excluir, consciente e deliberadamente, o caminho através do qual Deus quer chegar até mim, ou me quer salvar, estou a excluir a própria salvação. E, por isso, o Evangelho é claro quando diz: «Ide por todo o mundo, proclamando a boa notícia a toda a humanidade. Quem crer e for batizado se salvará; quem não crer se condenará» (Mc 16, 15-16) Aquele que, sabendo que deve crer, não crê, incorre em culpa. Uma culpa que pode ter como consequência a sua não salvação. Mas é bom termos em conta que nós não acreditamos nem cremos na Igreja pelos papas, nem pelos cristãos, nem pelas instituições, nem pelos padres. Nós cremos por Jesus Cristo, Nosso Senhor. Essa é a razão pela qual acreditamos. A figura do Santo Padre, que é sempre uma figura venerável e uma figura queridíssima para qualquer católico coerente, é uma figura secundária, porque aquele que é a razão da fé não é o papa, mas Cristo, que é a Palavra do Pai no dom do seu Espírito.

Houve momentos na História da Igreja em que os papas não eram assim uma figura tão venerável.
Sim. Mas é interessante termos em conta que um papa pode não ser, pessoalmente, uma figura exemplar. De fato, houve papas que não tiveram uma vida exemplarmente cristã. Normalmente, é desses que se fala… Exatamente. Mas esses papas, se quisermos os maus papas, aqueles que deram um mau exemplo com a sua vida desordenada, com os seus prazeres, com a sua avareza, às vezes até com algum despotismo no exercício da sua função, esses papas fizeram um serviço enorme à Igreja, porque, sendo eles maus, não perverteram nem alteraram nada daquilo que era a doutrina, nem a moral da Igreja. Humanamente, como não tinham nenhuma autoridade sobre eles, poderiam ter dito: «Meus senhores, como não vivo desta forma, vou mudar a lei para que não esteja em contradição, para que a minha vida não esteja em oposição com aquilo que eu digo.» Mas eles sabiam que, enquanto Simão, por assim dizer, eles eram defectíveis, enquanto Simão, eles eram pecadores, enquanto Simão, eles eram homens iguais aos outros, como todos os papas são. Mas não enquanto Pedro: enquanto Pedro eles são aqueles que têm a obrigação de confirmar os irmãos na fé. São aqueles pelos quais Cristo rezou. Como disse Cristo: «Mas eu rezei por ti, para que a tua fé não desapareça. E tu, uma vez convertido, fortalece os teus irmãos» (Lc 22, 32).

Disse isso a São Pedro?
Disse isso a São Pedro. De fato, Jesus Cristo, depois de ressuscitado, teve aquele diálogo com Pedro, em que lhe perguntou três vezes se Pedro o amava (Jo 21, 15-17). Já alguma vez imaginei que aquela conversa deveria ter sido diferente e que Nosso Senhor podia ter dito: «Olha, Pedro, a história da Igreja vai ser muito complicada, vai ser muito difícil, vai haver papas que vão ficar um bocado aquém daquilo que era de esperar, isto vai escandalizar os cristãos, e mesmo os não-cristãos. Tu tiveste um episódio um bocado infeliz, negaste‑me três vezes, não estiveste a meu lado no momento da minha paixão e morte.» São Pedro claudicou, apesar de antes ter jurado que nunca o faria e de ter sido prevenido com antecedência de que tal ia acontecer (Jo 13,36-38). Nosso Senhor podia ter dito a Pedro: «Olha, Pedro, tu continuas apóstolo com certeza e eu perdoo‑te, mas não vamos exagerar e, se te parecer bem, fica João à frente da Igreja, porque João sempre foi o discípulo amado, o meu discípulo predileto, o que esteve ao pé da Cruz, a quem entreguei Nossa Senhora!» João era, a muitos títulos, o candidato ideal, até porque era mais novo e mais forte, para além de mais fiel e, seguramente, mais santo. Contudo, Nosso Senhor mantém Pedro à frente da Igreja, o Pedro que pecou, o mesmo Pedro a quem o Senhor disse: «Afasta‑te de mim, Satanás!» (Mt 16, 23). Porquê? Eu creio que é uma grande prova do amor do Senhor e uma grande lição de esperança para todos nós. Precisamente por isto, não nos podemos escandalizar com as fraquezas pessoais dos membros da Igreja, mas temos de ver neles – e apesar deles – a ação de Deus, a ação do Espírito Santo. O Senhor escolheu Pedro, sabendo da sua fraqueza e, apesar da fraqueza, Pedro foi um grande papa, um grande santo e um grande mártir. Pedro, sendo papa, podia ter dito ao evangelista: «Tira aí esse versículo em que o Senhor me chama Satanás, ou o episódio da minha tripla negação do Mestre, que está a mais e, se calhar, nem faz muita falta… Se agora os cristãos de Corinto ou os de Salónica lerem isso, depois não me aceitam nem me obedecem.» Mas, pelo contrário, Pedro faz questão que isso esteja lá, Pedro faz questão que isso conste, para que as pessoas saibam que ele não foi escolhido por ser o melhor, mas pelo amor que o Senhor lhe tem. E que, mesmo quando nós não valemos, quando nós não prestamos, o Senhor não desiste e continua a confiar inteiramente em nós. Se Nosso Senhor não se escandalizou com a fraqueza de Pedro e o quis para seu primeiro papa, para seu primeiro representante aqui na Terra, para seu primeiro vigário, quem somos nós para nos podermos escandalizar com a fraqueza de algum irmão ou de alguma irmã que, eventualmente, não se comportem de acordo com aquilo que nós desejaríamos?!

Voltando à questão dos católicos praticantes e não praticantes, o senhor padre Gonçalo escreveu um artigo sobre os «católicos adversativos». Que conceito é esse?
Já tinha há algum tempo essa ideia de rebater a atitude de algumas pessoas que dizem «sou católico, mas», e a seguir ao «mas» incluem geralmente alguma reticência em relação ao papa, em relação à doutrina, em relação à moral, em relação ao que seja. É uma atitude que não faz muito sentido. Ninguém é obrigado a ser católico, não se obriga ninguém a ser cristão.

A fé é livre.
A fé é livre e a fé só faz sentido como um todo. De certo modo, quando nós aderimos à fé, não aderimos à ideia, nem aderimos apenas a um corpo doutrinal, aderimos a Cristo. Eu não posso recusar Cristo, eu não posso dizer gosto muito de Cristo, mas não gosto da sua mão esquerda. Eu gosto muito de Cristo, mas não gosto do pé direito de Nosso Senhor. Ou O aceito na sua totalidade e O amo e O sigo, ou, então, se rejeito alguma coisa, rejeito‑O no seu todo.

Essa ideia de religião à la carte por vezes dá jeito, permite facilitar a vida de qualquer cristão.
Sim, mas seria um engano, seria uma duplicidade, uma hipocrisia. Se eu entendesse que era cristão naquilo que a mim me convém no cristianismo, mas não naquilo que não me agrada tanto, estaria a enganar‑me a mim próprio. Jesus Cristo, que tem um respeito imenso pela liberdade humana, nunca excluiu ninguém, nunca forçou ninguém, nunca amaldiçoou ninguém que dele se tivesse afastado – antes pelo contrário, deu sempre total liberdade a todos os homens, sem excluir os próprios discípulos. Com efeito, quando muitos dos seus discípulos O abandonaram, depois do discurso eucarístico proferido na sinagoga de Cafarnaúm (Jo 6, 60-67), Nosso Senhor não foi atrás deles, a chamar‑lhes nomes, mas deixou‑os ir e perguntou aos apóstolos se eles também não queriam ir, porque ele, por amor à liberdade humana, estava disposto até a ficar sozinho. Nosso Senhor, que nunca coagiu ninguém, que nunca forçou ninguém, que nunca amaldiçoou ninguém pelo fato de O não seguir, ou porque, tendo começado a segui‑lo, tivesse depois desistido, também disse claramente que aquele que descuida a coisa mais pequena é o mais pequeno no reino dos céus, e aquele que cuida até das coisas mais pequenas é o maior no reino dos céus (Mt 5, 19). Nosso Senhor dá‑nos a entender que, na nossa fé, não há nada de pouca importância. Na nossa fé, não há nada que seja acidental, na nossa vida cristã não há nada de que nós possamos prescindir. Por isso, não faz sentido o «mas». É aliás curioso o «mas», porque, quando utilizamos o «mas», como conjunção adversativa, temos a noção clara de que o «mas» restringe aquilo que nós dissemos antes. Se eu disser: «eu sou casado, mas não gosto da minha mulher», é porque se supõe que uma pessoa que é casada gosta da mulher; «sou casado, mas não tenho filhos», porque se supõe que uma pessoa que é casada tem filhos. Ninguém diz «eu sou casado, mas uso meias amarelas». As meias amarelas não têm nada a ver com o casamento, logo, se eu sou casado, posso usar meias amarelas. A própria pessoa que diz «eu sou católico, mas…» está a reconhecer implicitamente que aquilo que está a acrescentar é algo que afeta negativamente a sua própria condição cristã. Se ela própria reconhece que aquela sua característica é uma restrição da sua condição cristã, então tem de rever a sua posição, para reencontrar a plenitude da fé, que é ser católico sem «mas» – ser católico, ponto final. Ser católico sem ter a veleidade de querer corrigir de algum modo uma fé que conhecemos como um dom de Deus, uma graça sobrenatural.

 

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<< Jesus Cristo não pede aos apóstolos que assinem um conjunto de princípios, ou que subscrevam uma determinada teoria, mas que o sigam (Mt 4, 18-22; Mc 1, 16-20; Lc 5, 27-32; etc.). Ou seja, aquilo que está em primeiro lugar é a vivência, é a atitude, é a vida. É claro que é uma vida de acordo com princípios. É claro que estes princípios podem e devem ser conhecidos e aprofundados, mas pode haver uma pessoa que, por exemplo, domine o conhecimento do cristianismo, que saiba tudo da teologia católica, que saiba tudo dos padres da Igreja, mas se não quiser viver essa doutrina não é cristã, embora seja um sábio do cristianismo, talvez até o melhor especialista em cristianismo.
Também pode acontecer que uma pessoa que porventura tenha menos luzes, menos conhecimentos, menos formação doutrinária, se identifique, de fato, na sua vida com o exemplo de Cristo – e, nesse sentido, é cristã. Mas a prática não é uma realidade diferente da doutrina, é a consequência lógica dessa doutrina. Aliás, quando nós falamos de princípios, falamos de princípios de quê? Princípios da ação. Se aquele princípio não informa a minha ação, se aquilo que eu faço não nasce daquele princípio, então aquilo não é princípio para mim, porque não tem consequências, não tem seguimento. Nós dizemos que o princípio é o começo, porque é a partir daquele princípio que eu, depois, atuo daquela forma. Então, é um princípio para mim. Se o princípio não tem nenhuma consequência prática, não é princípio, é uma coisa que está desligada da minha vida, não tem a ver com aquilo que eu sou. É interessante ver como o próprio Cristo fala desta realidade quando, na parábola dos dois filhos – o que diz que sim e que, depois, não vai e o que diz que não e, depois, vai –, Nosso Senhor diz que aquele que cumpriu é aquele que diz que não, mas depois foi (Mt 21,28-32). Ou seja, aquilo que tem prioridade não é tanto a adesão intelectual, porque o outro tinha dito que sim, mas aquilo que tem prioridade é a vida, são as obras, e assim aquele que disse inicialmente que não, depois, como foi, acabou por ser fiel. Há também um outro aspecto que é muito interessante e que é sublinhado por São Tiago, na sua epístola, quando diz: «Tens fé? Ainda bem que tens fé, mas os demônios também têm fé e isso nada lhes aproveita» (Tg 2, 14-19). Por isso, uma fé sem obras é uma fé morta. É uma fé que não tem qualquer valor. Nem sequer é fé no seu sentido mais correto. Por isso, um cristão não é uma pessoa que simpatiza com Cristo, um católico não é uma pessoa que gosta da Igreja, mas um cristão ou um católico é uma pessoa que se esforça por viver de acordo com aquilo em que acredita – e, se não se esforça, é porque verdadeiramente não crê. >>

Exortação Apostólica Pós-Sinodal “Amoris laetitia”

A alegria do amor na família
http://pt.radiovaticana.va/news/2016/04/08/exorta%C3%A7%C3%A3o_%E2%80%9Camoris_laetitia%E2%80%9D_a_alegria_do_amor_na_fam%C3%ADlia/1221252

Foi publicada no dia 8 de abril a Exortação Apostólica pós-Sinodal do Papa Francisco sobre a família. “Amoris laetitia”, a “Alegria do Amor” é um texto de nove capítulos no qual o Santo Padre recolhe os resultados de dois Sínodos dos Bispos sobre a família ocorridos em 2014 e 2015 citando anteriores documentos papais, contributos de conferências episcopais e de várias personalidades.

É uma Exortação Apostólica ampla com mais de 300 parágrafos e que nos primeiros 7 evidencia a plena consciência da complexidade do tema. Em particular, o Papa escreve que para algumas questões ”em cada país ou região, é possível buscar soluções mais inculturadas, atentas às tradições e aos desafios locais. De facto, “as culturas são muito diferentes entre si e cada princípio geral (…), se quiser ser observado e aplicado, precisa de ser inculturado”.

Capítulo primeiro: “À luz da Palavra”

No primeiro capítulo o Papa articula a sua reflexão a partir das Sagradas Escrituras, em particular, com uma meditação acerca do Salmo 128, característico da liturgia nupcial hebraica, assim como da cristã. A Bíblia ”aparece cheia de famílias, gerações, histórias de amor e de crises familiares”(AL 8).

Capítulo segundo: “A realidade e os desafios das famílias”

Partindo do terreno bíblico, o Papa considera no segundo capítulo a situação atual das famílias, mantendo ”os pés assentes na terra” (AL 6) como se pode ler na Exortação. A humildade do realismo ajuda a não apresentar ”um ideal teológico do matrimónio demasiado abstrato, construído quase artificialmente, distante da situação concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são”(AL 36). O matrimónio é “um caminho dinâmico de crescimento e realização”. “Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las”(AL37) refere o Papa Francisco no seu texto, pois, Jesus propunha um ideal exigente, mas ”não perdia jamais a proximidade compassiva às pessoas frágeis como a samaritana ou a mulher adúltera” (AL 38).

Capítulo terceiro: “O olhar fixo em Jesus: a vocação da família”

O terceiro capítulo da Exortação é dedicado a alguns elementos essenciais do ensinamento da Igreja acerca do matrimónio e da família. Em 30 parágrafos ilustra a vocação à família de acordo com o Evangelho, assim como ela foi recebida pela Igreja ao longo do tempo, sobretudo quanto ao tema da indissolubilidade, da sacramentalidade do matrimónio, da transmissão da vida e da educação dos filhos. Fazem-se inúmeras citações da Gaudium et spes do Vaticano II, da Humanae vitae de Paulo VI, da Familiaris consortio de João Paulo II.

O Papa Francisco neste capítulo terceiro lembra um princípio geral importante: “Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações” (Familiaris consortio, 84). O grau de responsabilidade não é igual em todos os casos, e podem existir fatores que limitem uma capacidade de decisão. Por isso, ao mesmo tempo que se exprime com clareza a doutrina, há que evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diferentes situações e é preciso estar atentos ao modo como as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição” (AL 79).

Capítulo quarto: “O amor no matrimónio”

O amor no matrimónio é o título do quarto capítulo desta Exortação e ilustra-o a partir do “hino ao amor” de S. Paulo na Primeira Carta aos Coríntios (1 Cor 13, 4-7). Este capítulo desenvolve o carácter quotidiano do amor que se opõe a todos os idealismos: ”não se deve atirar para cima de duas pessoas limitadas o peso tremendo de ter que reproduzir perfeitamente a união que existe entre Cristo e a sua Igreja, porque o matrimónio como sinal implica um processo dinâmico, que avança gradualmente com a progressiva integração dos dons de Deus” (AL 122).

Também neste capítulo uma reflexão sobre o amor ao longo da vida e da sua transformação. Pode-se ler no documento: “Não é possível prometer que teremos os mesmos sentimentos durante a vida inteira; mas podemos ter um projeto comum estável, comprometer-nos a amar-nos e a viver unidos até que a morte nos separe, e viver sempre uma rica intimidade” (AL 163).

Capítulo quinto: “O amor que se torna fecundo”

O capítulo quinto desta Exortação Apostólica foca-se sobre a fecundidade, do acolher de uma nova vida, da espera própria da gravidez, do amor de mãe e de pai. Mas também da fecundidade alargada, da adoção, do acolhimento do contributo das famílias para a promoção de uma “cultura do encontro”, da vida na família em sentido amplo, com a presença de tios, primos, parentes dos parentes, amigos. A “Amoris laetitia” não toma em consideração a família ”mononuclear”, mas está bem consciente da família como rede de relações alargadas. A própria mística do sacramento do matrimónio tem um profundo carácter social (cf. AL 186). E no âmbito desta dimensão social, o Papa sublinha em particular tanto o papel específico da relação entre jovens e idosos, como a relação entre irmãos como aprendizagem de crescimento na relação com os outros.

Capítulo sexto: “Algumas perspetivas pastorais”

No capítulo sexto da exortação o Papa aborda algumas vias pastorais que orientam para a edificação de famílias sólidas e fecundas de acordo com o plano de Deus. Em particular, o Papa observa que ”os ministros ordenados carecem, habitualmente, de formação adequada para tratar dos complexos problemas atuais das famílias” (AL 202). Se, por um lado, é necessário melhorar a formação psico-afetiva dos seminaristas e envolver mais a família na formação para o ministério (cf. AL 203), por outro ”pode ser útil também a experiência da longa tradição oriental dos sacerdotes casados” (AL 202).

Também neste sexto capítulo uma importante referência à preparação para o matrimónio e do acompanhamento dos esposos nos primeiros anos da vida matrimonial (incluindo o tema da paternidade responsável), mas também em algumas situações complexas e, em particular, nas crises, sabendo que ”cada crise esconde uma boa notícia, que é preciso saber escutar, afinando os ouvidos do coração” (AL 232).

Espaço neste capítulo para o acompanhamento das pessoas abandonadas, separadas ou divorciadas. É colocado em relevo o sofrimento dos filhos nas situações de conflito. Ao mesmo tempo é reiterada a plena comunhão na Eucaristia dos divorciados e em relação aos divorciados recasados é reforçada a sua “comunhão eclesial” e o acompanhamento das suas situações que não deve ser visto como uma debilidade da indissolubilidade do matrimónio mas uma expressão de caridade.

Referidas também as situações dos matrimónios mistos e daqueles com disparidade de culto, e a situação das famílias que têm dentro de si pessoas com tendência homossexual, insistindo no respeito para com elas e na recusa de qualquer discriminação injusta e de todas as formas de agressão e violência. No final do capítulo uma especial nota para o tema da perda das pessoas queridas e também da viuvez.

Capítulo sétimo: “Reforçar a educação dos filhos”

O capítulo sétimo é integralmente dedicado à educação dos filhos: a sua formação ética, o valor da sanção como estímulo, o realismo paciente, a educação sexual, a transmissão da fé e, mais em geral, a vida familiar como contexto educativo. É ressaltado pelo Santo Padre que “o que interessa acima de tudo é gerar no filho, com muito amor, processos de amadurecimento da sua liberdade, de preparação, de crescimento integral, de cultivo da autêntica autonomia” (AL 261).

A secção dedicada à educação sexual intitula-se muito expressivamente: «Sim à educação sexual». Sustenta-se a sua necessidade e formula-se a interrogação de saber ”se as nossas instituições educativas assumiram este desafio (…) num tempo em que se tende a banalizar e empobrecer a sexualidade”. A educação sexual deve ser realizada ”no contexto duma educação para o amor, para a doação mútua” (AL 280) – lê-se na Exortação. É feita uma advertência em relação à expressão ”sexo seguro”, pois transmite ”uma atitude negativa a respeito da finalidade procriadora natural da sexualidade, como se um possível filho fosse um inimigo de que é preciso proteger-se. Deste modo promove-se a agressividade narcisista, em vez do acolhimento”. (AL 283).

Capítulo oitavo: “Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade”

O capítulo oitavo faz um convite à misericórdia e ao discernimento pastoral diante de situações que não correspondem plenamente ao que o Senhor propõe. O Papa usa aqui três verbos muito importantes: ”acompanhar, discernir e integrar”, os quais são fundamentais para responder a situações de fragilidade, complexas ou irregulares. Em seguida, apresenta a necessária gradualidade na pastoral, a importância do discernimento, as normas e circunstâncias atenuantes no discernimento pastoral e, por fim, aquela que é por ele definida como a ”lógica da misericórdia pastoral”.

As situações ditas de irregulares devem ter um discernimento pessoal e pastoral e – segundo a Exortação –  “os batizados que se divorciaram e voltaram a casar civilmente devem ser mais integrados na comunidade cristã sob as diferentes formas possíveis”.

Em particular, o Santo Padre afirma numa nota de pé de página que “em certos casos poderá existir também a ajuda dos sacramentos”, recordando que o confessionário não deve ser uma sala de tortura e que a Eucaristia “não é um prémio para os perfeitos, mas um alimento para os débeis”.

Mais em geral, o Papa profere uma afirmação extremamente importante para que se compreenda a orientação e o sentido da Exortação: ”é compreensível que não se devia esperar do Sínodo ou desta Exortação uma nova normativa geral de tipo canónico, aplicável a todos os casos. É possível apenas um novo encorajamento a um responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares, que deveria reconhecer: uma vez que “o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos, as consequências ou efeitos duma norma não devem necessariamente ser sempre os mesmos” (AL 300).

O Papa desenvolve em profundidade as exigências e características do caminho de acompanhamento e discernimento em diálogo profundo entre fiéis e pastores. A este propósito, faz apelo à reflexão da Igreja ”sobre os condicionamentos e as circunstâncias atenuantes” no que respeita à imputabilidade das ações e, apoiando-se em S. Tomás de Aquino, detém-se na relação entre «as normas e o discernimento», afirmando: ”É verdade que as normas gerais apresentam um bem que nunca se deve ignorar nem descuidar, mas, na sua formulação, não podem abarcar absolutamente todas as situações particulares. Ao mesmo tempo é preciso afirmar que, precisamente por esta razão, aquilo que faz parte dum discernimento prático duma situação particular não pode ser elevado à categoria de norma” (AL 304).

Espaço ainda neste capítulo para a lógica da misericórdia pastoral e para o convite do Papa Francisco nas suas palavras finais: «Convido os fiéis, que vivem situações complexas, a aproximarem-se com confiança para falar com os seus pastores ou com leigos que vivem entregues ao Senhor. Nem sempre encontrarão neles uma confirmação das próprias ideias ou desejos, mas seguramente receberão uma luz que lhes permita compreender melhor o que está a acontecer e poderão descobrir um caminho de amadurecimento pessoal. E convido os pastores a escutar, com carinho e serenidade, com o desejo sincero de entrar no coração do drama das pessoas e compreender o seu ponto de vista, para ajudá-las a viver melhor e reconhecer o seu lugar na Igreja» (AL 312).

Capítulo nono: “Espiritualidade conjugal e familiar”

O nono capítulo é dedicado à espiritualidade conjugal e familiar, ”feita de milhares de gestos reais e concretos” (AL 315). Diz-se com clareza que ”aqueles que têm desejos espirituais profundos não devem sentir que a família os afasta do crescimento na vida do Espírito, mas é um percurso de que o Senhor Se serve para os levar às alturas da união mística” (AL 316). Tudo, ”os momentos de alegria, o descanso ou a festa, e mesmo a sexualidade são sentidos como uma participação na vida plena da sua Ressurreição” (AL 317).

No parágrafo conclusivo, o Papa afirma: ”Nenhuma família é uma realidade perfeita e confecionada duma vez para sempre, mas requer um progressivo amadurecimento da sua capacidade de amar. (…). Todos somos chamados a manter viva a tensão para algo mais além de nós mesmos e dos nossos limites, e cada família deve viver neste estímulo constante. Avancemos, famílias; continuemos a caminhar! (…). Não percamos a esperança por causa dos nossos limites, mas também não renunciemos a procurar a plenitude de amor e comunhão que nos foi prometida” (AL 325).

VI Domingo do Tempo Comum – Ano C

Lc 6,17.20-26
Naquele tempo, 17Jesus desceu da montanha com os discípulos e parou num lugar plano. Ali estavam muitos dos seus discípulos e grande multidão de gente de toda a Judeia e de Jerusalém, do litoral de Tiro e Sidônia. 20E, levantando os olhos para os seus discípulos, disse: “Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus! 21Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados! Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque havereis de rir! 22Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos expulsarem, vos insultarem e amaldiçoarem o vosso nome, por causa do Filho do Homem! 23Alegrai-vos, nesse dia, e exultai, pois será grande a vossa recompensa no céu; porque era assim que os antepassados deles tratavam os profetas. 24Mas, ai de vós, ricos, porque já tendes vossa consolação! 25Ai de vós, que agora tendes fartura, porque passareis fome! Ai de vós, que agora rides, porque tereis luto e lágrimas! 26Ai de vós quando todos vos elogiam! Era assim que os antepassados deles tratavam os falsos profetas”.

 

Por Pe. Fernando José Cardoso

O Evangelho de Lucas nos fala das Bem Aventuranças de Jesus: “Bem aventurados os pobres, bem aventurados os que têm fome, bem aventurados aqueles que agora choram”.
A seguir e de maneira antitética: “Ai de vós ricos, ai de vós que agora estais saciados, ai de vós que agora rides”.
Mateus possui estas mesmas bem aventuranças. As espiritualizou bem mais do que Lucas. É possível, como elas se encontrem em Lucas, espelhem melhor as palavras proferidas efetivamente por Jesus.
Na verdade Jesus inverte a ordem deste mundo, que possui as suas bem aventuranças: Bem aventurados os ricos, bem aventurados os homens de sucesso, bem aventurados aqueles que conseguem poder, bem aventurados aqueles que fazem carreira política, bem aventurados aqueles que se tornam notórios na mídia e, sobretudo na televisão. Enfim bem aventurados aqueles que estão totalmente felizes neste mundo. Aí está o grande perigo que Jesus hoje nos põe de sobreaviso.
Estas pessoas têm excesso de coisas materiais, excesso de dinheiro, de poder, de prazer que praticamente não aspiram por uma outra vida, por um outro tesouro que provém de Deus.
Estas pessoas não são capazes na curtíssima visão que tem diante de Deus, de distinguir o provisório, o inacabado do definitivo. Estão repletas de bens deste mundo, que não aspiram os bens de Deus.
A riqueza, o excesso de prazeres, de conforto deste mundo nos deixa totalmente insensível para Deus: “Se estou tão bem aqui, o que é que Deus me pode trazer de mais alegre, mais confortante, mais profundo? Pelo contrário, gostaria de viver aqui para sempre”.
Assim raciocinam muitos daqueles que não vivem as bem aventuranças de Jesus, vivem as bem aventuranças do mundo. Preferem apostar tudo neste mundo e nada do além. Muitos deles nem mesmo acreditam ou crêem que haja alguma coisa após a morte: “Esta vida é a única e de certa maneira é a mais importante a mais decisiva. Nada, absolutamente nada pode ser sacrificado neste mundo, tudo aqui é essencial e indispensável”.
Estas pessoas não estão dispostas a se perderem neste mundo para se reencontrarem na eternidade, inverteram totalmente as palavras de Jesus e vivem o anti-evangelho.
Saibamos distinguir o evangelho do anti-evangelho. Não permitamos que o mundo através do anti-evangelho entre no nosso coração.

 

Por Pe. Inácio José Schuster

As Bem-Aventuranças, segundo o evangelista São Lucas, é a leitura evangélica deste domingo. A narração lucana é diferente da narração de São Mateus (texto mais conhecido). As diferenças e as semelhanças destes textos podem ajudar na homilia e na reflexão dos mesmos.
Em São Mateus, Jesus sobe à montanha e senta-se, como um Novo Moisés que dá uma nova Lei. Em São Lucas, Jesus desceu do monte, onde esteve a rezar ao Pai no íntimo do seu coração; escolheu os Doze e, “com eles, num lugar plano deteve-se com numerosos discípulos e uma grande multidão de toda a Judeia”. A mensagem que lhes dirigiu foi fruto da oração e da reflexão, feitas no alto do monte com Deus, Seu Pai. Tanto Mateus como Lucas dizem-nos que esta mensagem foi dirigida aos discípulos, mas a multidão estava presente. Apesar de não lermos alguns versículos intermédios, São Lucas diz que se tinham aproximado alguns pobres e doentes que desejam tocar em Jesus.
São Mateus apresenta-nos no seu texto nove bem-aventuranças, plenas de espiritualidade. São Lucas apresenta-nos somente quatro, seguidas de quatro más – aventuranças (“Ai de vós…) que são o oposto das quatro bem – aventuranças. É um gênero literário que foi usado não só pelos profetas, como Jeremias utilizou na primeira leitura deste dia, mas também no judaísmo tardio e no cristianismo primitivo (Didaké, Barnabé, etc.), apontando os dois caminhos, o da vida e o da morte. É isto que dá um realismo forte às bem-aventuranças lucanas. Os pobres só podem confiar na ajuda do Senhor, enquanto que os ricos só confiam na ajuda humana.
Continuam a ser atuais as bem-aventuranças e as más-aventuranças! A nossa riqueza material e tudo o que ela supõe (o resto das más-aventuranças: estar saciados, rir-se de tudo, elogios,…) pode ser um obstáculo na nossa vida se ocupar um lugar importante no nosso coração, lugar que deve somente ser ocupado por Deus. O contraste existente entre os discípulos e as pessoas atormentadas que escutavam Jesus era e é evidente: para quem é, então, a felicidade do Reino de Deus? Jesus prega e exige a conversão. Ele inverteu a ordem de valores da sociedade de então e também da nossa.
São Paulo, na segunda leitura, conclui esta reflexão: a plena felicidade encontra-se na ressurreição de Cristo e na nossa ressurreição. Este é o centro e o núcleo da nossa fé. “E se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé… Se é só para a vida presente que temos posta em Cristo a nossa esperança, somos os mais miseráveis de todos os homens”. Só a partir da ressurreição é que se compreende plenamente as bem-aventuranças. Se pelo batismo recebemos o dom da ressurreição, na vida poderemos viver as bem-aventuranças. Aquilo que não poderíamos viver, porque choca frontalmente com a vida do nosso mundo, é possível graças à ação de Deus que nos ressuscita para uma vida nova. Por isto o Reino é de Deus, apesar de reclamar insistentemente a nossa firme colaboração.
Na Eucaristia, encontramos a força da ressurreição de Jesus que continua a manifestar entre nós as maravilhas do Reino.

 

«Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus»
Paul VI, papa de 1963-1978 / Exortação apostólica sobre a alegria cristã «Gaudete in Domino» (© copyright Libreria Editrice Vaticana)

A alegria de estar no amor de Deus começa já aqui em baixo. É a alegria do Reino de Deus. Mas ela é concedida num caminho escarpado, que exige uma confiança total no Pai e no Filho e uma preferência dada ao Reino. A mensagem de Jesus promete sobretudo a alegria, esta alegria exigente; não é verdade que começa pelas bem-aventuranças? «Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino dos Céus. Felizes vós, os que agora tendes fome porque sereis saciados. Felizes vós, os que agora chorais porque haveis de rir».
Para arrancar do coração do homem o pecado da presunção e manifestar ao Pai uma total obediência filial, o próprio Cristo aceita misteriosamente morrer pela mão dos ímpios, morrer numa cruz. Mas […] doravante, Jesus vive para sempre na glória do Pai e foi por isso que os discípulos sentiram uma alegria imensa na tarde de Páscoa (Lc 24, 41).
Acontece que, aqui em baixo, a alegria do Reino realizado só pode brotar da celebração conjunta da morte e da ressurreição do Senhor. É o paradoxo da condição cristã, que singularmente clarifica o paradoxo da condição humana: nem a provação nem o sofrimento são eliminados deste mundo, mas tomam um sentido novo na certeza de participar na redenção operada pelo Senhor e de partilhar da Sua glória. É por isso que o cristão, submetido às dificuldades da existência comum, não está no entanto reduzido a procurar o seu caminho tacteando, nem a ver na morte o fim das suas esperanças. Com efeito, e como anunciava o profeta: «O povo que caminhava nas trevas viu uma grande luz e sobre os habitantes do país sombrio uma luz resplandeceu. Multiplicaste o seu júbilo, fizeste brotar a sua alegria» (Is 9, 1-2).

 

Felizes sois vós, pobres em espírito
Cf. B. CABALLERO. A Palavra de cada dia. Paulus: 2000.

Hoje ouvimos as bem-aventuranças dos pobres e os “ais” contra os ricos. Será uma maldição ser rico? Não criou Deus os bens deste mundo para serem usados? Há uma diferença entre possuir os bens deste mundo e ser possuído por eles. É isso que a liturgia nos ensina hoje. Os que possuem bens deveriam ser como se não os possuíssem (cf. 1Cor 7, 30-31). O contrário é geralmente o caso: os que possuem se identificam com seus bens. Nem sempre são bens calculáveis em contas bancárias. Participar da camada dominante da sociedade é também um bem, e como é difícil largá-lo para permitir mudanças na estrutura da sociedade!
Como aperitivo, a partir da primeira leitura, a liturgia nos serve uma censura de Jeremias contra os que confiam nos homens: são como os cactos secos no deserto. Quem confia em Deus, porém, é como uma árvore frondosa à beira-rio. Com essas frases, critica a atitude do rei Sedecias e de seus conselheiros, que colocam toda a sua confiança nos pactos políticos que Judá trata de estabelecer com os egípcios, julgando-os bastante fortes para desviar o perigo dos babilônios. Confiança inútil, como a história tem mostrado.
Assim são os que confiam na sua riqueza. Nenhum bem material é definitivo. Conhecendo a história da humanidade, seria ingênuo acreditar que os bens que amontoamos fossem intocáveis. Jesus veio anunciar a Boa Nova aos pobres. Este foi Seu programa. “Felizes sois vós, pobres, porque a vós pertence o Reino de Deus!” Deus não ama o homem por causa das qualidades que ele possa apresentar. Não há nada em nós que não venha d’Ele. O Senhor ama sem olhar status ou riqueza. O judeu piedoso achava que Deus mostrava Sua complacência para com o justo concedendo-lhe sólido bem-estar; julgava o bem-estar um sinal do favor divino. Mas Jesus conhece Deus melhor e vem nos mostrar a verdadeira face do Pai. Por isso começa pelos pobres. Para mostrar que o Altíssimo não olha a nossa riqueza, nada melhor que ir aos pobres e dizer: “Vós sois os filhos de Deus; a vós pertence seu Reino”! Não que o pobre seja mais virtuoso que o rico – não sejamos ingênuos -, mas porque Deus o prefere, o escolhe, este se constitui em “opção preferencial”, para que fique claro que a graça vem de Deus e não de algum fator humano.
O que vale para os pobres o vale também para os famintos, os sofridos e, sobretudo, para os perseguidos por causa do Reino. Mas não vale para os “ricos”, os “cheios”, os que têm sucesso neste mundo. Eles já têm sua recompensa. Jesus fala aqui dos que realmente consideram seu sucesso material como a gratificação que Deus lhe deve. Preferem o que já têm? Tudo bem, receberam o que desejavam! Infelizes, pois tudo isso lhes será tirado (cf. Lc 13, 16-21). São os mais infelizes de toda a humanidade!
Jesus não é contra os ricos. Tem pena deles. Por isso, os censura e os exorta a uma mudança de mentalidade, o que não deixará de ter seus reflexos na estrutura da sociedade. Não é bem verdade que não há lugar para os ricos na Igreja. Há lugar para eles à medida que se esvaziam de si mesmos e de seus bens, transformando-os em bens para todos. Há varias maneiras para isso.
A segunda leitura mereceria uma consideração à parte. Em um ponto, reforça a mensagem do Evangelho: “Se temos esperança em Cristo somente para esta vida – porque colocamos tudo em função desta vida, até o próprio Cristo -, somos os mais lamentáveis de todos os homens” (1Cor 15, 19).
Mas umas perguntas que não querem calar são estas: No que consiste a pobreza e a riqueza evangélica? A riqueza evangélica está nas posses? A pobreza evangélica está nas não posses? Compreendamos uma coisa para não cairmos num fundamentalismo exacerbado: tanto a riqueza como a pobreza não estão fora do ser humano, mas estão dentro do coração. Ou seja, o pobre – “evangelicamente” falando – não é aquele que não possui bens materiais, mas é aquele cuja única riqueza é o Senhor. O rico – “evangelicamente” falando – não é aquele que possui muitos bens materiais, mas é aquele cuja riqueza não é o Senhor, mas as coisas e ele mesmo. Rico é o autossuficiente, que não precisa de Deus e de ninguém. O pobre, por sua vez, é aquele que só depende de Deus.

 

Alegria que vem de Deus
Pe. Roger Luís

Aquele que deposita a confiança nesse mundo não experimenta a alegria que Deus nos convida a viver. O segredo da alegria está em permanecer em Deus. Todos os dias da sua vida permaneça no Senhor, não rompa, não se desvie. O projeto de Deus para nós não é de tristeza, mas sim alegria. O profeta Jeremias diz na primeira leitura: ‘Bendito o homem que confia no Senhor, cuja esperança é o Senhor’. Jeremias da resposta de como ser feliz. Porque feliz o homem que confia no Senhor.
O profeta diz feliz quem coloca sua fé, e a fé é a certeza daquilo que ainda se espera.
Muitas vezes queremos materializar a nossa alegria, em um carro novo que ganha ou compra, a nossa alegria vai além, a nossa alegria está na espera da volta do Senhor que há de vim. Deus nos diz ‘Continue a firmar na esperança, pois quem nos prometeu é fiel para cumprir’. Permanece e espere em Jesus, tenha coragem de depositar sua vida nas mãos do Senhor.
O salmista ainda afirma “É feliz quem a Deus se confia! Feliz é todo aquele que não anda conforme os conselhos dos perversos; que não entra no caminho dos malvados, nem junto aos zombadores vai sentar-se; mas encontra seu prazer na lei de Deus e a medita, dia e noite, sem cessar”.
A Palavra de Deus tem resposta para tudo, para pais, filhos, amigos e para quem se consagra.
Jovens sejam alegres e felizes por caminhar com o Senhor, mostre na sua vida que você é feliz, porque você é de Deus, há tantos jovens que optam em viver a tristeza, usam roupas pretas, mas vocês meus jovens traga com a sua vida a felicidade e os contagiem.
Voltem para casa e testemunhem a verdadeira alegria do carnaval, que não precisou de drogas e bebidas.
Jesus nos convida a olhar pela janela, olhar para o mundo, a olhar para nós. E convida a você ter uma outra visão, a visão das bem-aventuranças. Tire os olhos do mundo, e os coloquem em Deus. É preciso olhar tudo pelos olhos da fé. Cuidado para tirar os olhos de Deus e desanimar e desistir.
O salmista diz ‘O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem ao amanhecer’.
Viva a alegria de quem almeja o céu!

Mensagem do Papa para Dia Mundial do Enfermo 2019

Dom e solidariedade

Terça-feira, 8 de janeiro de 2019, Da Redação, com Boletim da Santa Sé
https://noticias.cancaonova.com/especiais/pontificado/francisco/vaticano-divulga-mensagem-papa-para-dia-mundial-enfermo-2019/

Santo Padre exalta o dom como elemento desafiador ao individualismo, contra a cultura do descarte e da indiferença

Papa evoca exemplo de Santa Madre Teresa de Calcutá na mensagem para o Dia Mundial do Enfermo 2019 / Foto: REUTERS/Max Rossi

“Recebestes de graça, dai de graça”. Este trecho do Evangelho de Mateus é o tema da mensagem do Papa Francisco para o 27º Dia Mundial do Enfermo, que será celebrado em 11 de fevereiro de 2019. O texto foi apresentado nesta terça-feira, 8, pela sala de imprensa da Santa Sé.

Com esse tema, Francisco explica que o caminho mais credível de evangelização são gestos de dom gratuito, como os do Bom Samaritano. O dom, segundo ele, deve ser colocado como paradigma capaz de desafiar o individualismo e fragmentação social dos dias atuais, numa atitude contra a cultura do descarte e da indiferença.

“No dom, há o reflexo do amor de Deus, que culmina na encarnação do Filho Jesus e na efusão do Espírito Santo”, afirma o Papa na mensagem. Ele lembra que todo homem é pobre, necessitado e indigente, de forma que, em cada fase da vida, nunca será possível ver-se livre da necessidade e da ajuda alheia. “O reconhecimento leal desta verdade convida-nos a permanecer humildes e a praticar com coragem a solidariedade, como virtude indispensável à existência”.

Santa Teresa de Calcutá

O 27º Dia Mundial do Doente será celebrado de modo solene em Calcutá, na Índia, em 11 de fevereiro de 2019. A partir disso, Francisco recorda em sua mensagem a figura de Santa Madre Teresa de Calcutá, modelo de caridade que tornou visível o amor de Deus pelos pobres e os doentes. Ela foi canonizada em setembro de 2016, pelo Papa Francisco, no contexto do Jubileu da Misericórdia.

“A Santa Madre Teresa ajuda-nos a compreender que o único critério de ação deve ser o amor gratuito para com todos, sem distinção de língua, cultura, etnia ou religião. O seu exemplo continua a guiar-nos na abertura de horizontes de alegria e esperança para a humanidade necessitada de compreensão e ternura, especialmente para as pessoas que sofrem”.

Voluntariado

Outras pessoas lembradas pelo Papa em sua mensagem são os voluntários, a quem Francisco expressa seu agradecimento e encorajamento.

“O voluntário é um amigo desinteressado, a quem se pode confidenciar pensamentos e emoções; através da escuta, ele cria as condições para que o doente deixe de ser objeto passivo de cuidados para se tornar sujeito ativo e protagonista duma relação de reciprocidade, capaz de recuperar a esperança, mais disposto a aceitar as terapias. O voluntariado comunica valores, comportamentos e estilos de vida que, no centro, têm o fermento da doação. Deste modo realiza-se também a humanização dos tratamentos”.

Francisco conclui a mensagem confiando todos a Maria. “Que Ela nos ajude a partilhar os dons recebidos com o espírito do diálogo e mútuo acolhimento, a viver como irmãos e irmãs cada um atento às necessidades dos outros, a saber dar com coração generoso, a aprender a alegria do serviço desinteressado”.

 

 

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
27º Dia Mundial do Enfermo (11 de fevereiro de 2019)

Boletim da Santa Sé

«Recebestes de graça, dai de graça» (Mt 10, 8)

Queridos irmãos e irmãs!

«Recebestes de graça, dai de graça» (Mt 10, 8): estas são palavras pronunciadas por Jesus, quando enviou os apóstolos a espalhar o Evangelho, para que, através de gestos de amor gratuito, se propagasse o seu Reino.

Por ocasião do XXVII Dia Mundial do Doente, que será celebrado de modo solene em Calcutá, na Índia, a 11 de fevereiro de 2019, a Igreja – Mãe de todos os seus filhos, mas com uma solicitude especial pelos doentes – lembra que o caminho mais credível de evangelização são gestos de dom gratuito como os do Bom Samaritano. O cuidado dos doentes precisa de profissionalismo e ternura, de gestos gratuitos, imediatos e simples, como uma carícia, pelos quais fazemos sentir ao outro que nos é «querido».

A vida é dom de Deus, pois – como adverte São Paulo – «que tens tu que não tenhas recebido?» (1 Cor 4, 7). E, precisamente porque é dom, a existência não pode ser considerada como mera possessão ou propriedade privada, sobretudo à vista das conquistas da medicina e da biotecnologia, que poderiam induzir o homem a ceder à tentação de manipular a «árvore da vida» (cf. Gn 3, 24).

Contra a cultura do descarte e da indiferença, cumpre-me afirmar que se há de colocar o dom como paradigma capaz de desafiar o individualismo e a fragmentação social dos nossos dias, para promover novos vínculos e várias formas de cooperação humana entre povos e culturas. Como pressuposto do dom, temos o diálogo, que abre espaços relacionais de crescimento e progresso humano capazes de romper os esquemas consolidados de exercício do poder na sociedade. O dar não se identifica com o ato de oferecer um presente, porque só se pode dizer tal se for um dar-se a si mesmo: não se pode reduzir a mera transferência duma propriedade ou dalgum objeto. Distingue-se de presentear, precisamente porque inclui o dom de si mesmo e supõe o desejo de estabelecer um vínculo. Assim, antes de mais nada, o dom é um reconhecimento recíproco, que constitui o caráter indispensável do vínculo social. No dom, há o reflexo do amor de Deus, que culmina na encarnação do Filho Jesus e na efusão do Espírito Santo.

Todo o homem é pobre, necessitado e indigente. Quando nascemos, para viver tivemos necessidade dos cuidados dos nossos pais; de forma semelhante, em cada fase e etapa da vida, cada um de nós nunca conseguirá, de todo, ver-se livre da necessidade e da ajuda alheia, nunca conseguirá arrancar de si mesmo o limite da impotência face a alguém ou a alguma coisa. Também esta é uma condição que carateriza o nosso ser de «criaturas». O reconhecimento leal desta verdade convida-nos a permanecer humildes e a praticar com coragem a solidariedade, como virtude indispensável à existência.

Esta consciência impele-nos a uma práxis responsável e responsabilizadora, tendo em vista um bem que é indivisivelmente pessoal e comum. Apenas quando o homem se concebe, não como um mundo fechado em si mesmo, mas como alguém que, por sua natureza, está ligado a todos os outros, originariamente sentidos como «irmãos», é possível uma práxis social solidária, orientada para o bem comum. Não devemos ter medo de nos reconhecermos necessitados e incapazes de nos darmos tudo aquilo de que teríamos necessidade, porque não conseguimos, sozinhos e apenas com as nossas forças, vencer todos os limites. Não temamos este reconhecimento, porque o próprio Deus, em Jesus, Se rebaixou (cf. Flp 2, 8), e rebaixa, até nós e até às nossas pobrezas para nos ajudar e dar aqueles bens que, sozinhos, nunca poderíamos ter.

Aproveitando a circunstância desta celebração solene na Índia, quero lembrar, com alegria e admiração, a figura da Santa Madre Teresa de Calcutá, um modelo de caridade que tornou visível o amor de Deus pelos pobres e os doentes. Como dizia na sua canonização, «Madre Teresa, ao longo de toda a sua existência, foi uma dispensadora generosa da misericórdia divina, fazendo-se disponível a todos, através do acolhimento e da defesa da vida humana, dos nascituros e daqueles abandonados e descartados. (…) Inclinou-se sobre as pessoas indefesas, deixadas moribundas à beira da estrada, reconhecendo a dignidade que Deus lhes dera; fez ouvir a sua voz aos poderosos da terra, para que reconhecessem a sua culpa diante dos crimes (…) da pobreza criada por eles mesmos. A misericórdia foi para ela o “sal”, que dava sabor a todas as suas obras, e a “luz” que iluminava a escuridão de todos aqueles que nem sequer tinham mais lágrimas para chorar pela sua pobreza e sofrimento. A sua missão nas periferias das cidades e nas periferias existenciais permanece nos nossos dias como um testemunho eloquente da proximidade de Deus junto dos mais pobres entre os pobres» (Homilia, 4/IX/2016).

A Santa Madre Teresa ajuda-nos a compreender que o único critério de ação deve ser o amor gratuito para com todos, sem distinção de língua, cultura, etnia ou religião. O seu exemplo continua a guiar-nos na abertura de horizontes de alegria e esperança para a humanidade necessitada de compreensão e ternura, especialmente para as pessoas que sofrem.

A gratuidade humana é o fermento da ação dos voluntários, que têm tanta importância no setor socio-sanitário e que vivem de modo eloquente a espiritualidade do Bom Samaritano. Agradeço e encorajo todas as associações de voluntariado que se ocupam do transporte e assistência dos doentes, aquelas que providenciam nas doações de sangue, tecidos e órgãos. Um campo especial onde a vossa presença expressa a solicitude da Igreja é o da tutela dos direitos dos doentes, sobretudo de quantos se veem afetados por patologias que exigem cuidados especiais, sem esquecer o campo da sensibilização e da prevenção. Revestem-se de importância fundamental os vossos serviços de voluntariado nas estruturas sanitárias e no domicílio, que vão da assistência sanitária ao apoio espiritual. Deles beneficiam tantas pessoas doentes, sós, idosas, com fragilidades psíquicas e motoras. Exorto-vos a continuar a ser sinal da presença da Igreja no mundo secularizado. O voluntário é um amigo desinteressado, a quem se pode confidenciar pensamentos e emoções; através da escuta, ele cria as condições para que o doente deixe de ser objeto passivo de cuidados para se tornar sujeito ativo e protagonista duma relação de reciprocidade, capaz de recuperar a esperança, mais disposto a aceitar as terapias. O voluntariado comunica valores, comportamentos e estilos de vida que, no centro, têm o fermento da doação. Deste modo realiza-se também a humanização dos tratamentos.

A dimensão da gratuidade deveria animar sobretudo as estruturas sanitárias católicas, porque é a lógica evangélica que qualifica a sua ação, quer nas zonas mais desenvolvidas quer nas mais carentes do mundo. As estruturas católicas são chamadas a expressar o sentido do dom, da gratuidade e da solidariedade, como resposta à lógica do lucro a todo o custo, do dar para receber, da exploração que não respeita as pessoas.

Exorto-vos a todos, nos vários níveis, a promover a cultura da gratuidade e do dom, indispensável para superar a cultura do lucro e do descarte. As instituições sanitárias católicas não deveriam cair no estilo empresarial, mas salvaguardar mais o cuidado da pessoa que o lucro. Sabemos que a saúde é relacional, depende da interação com os outros e precisa de confiança, amizade e solidariedade; é um bem que só se pode gozar «plenamente», se for partilhado. A alegria do dom gratuito é o indicador de saúde do cristão.

A todos vos confio a Maria, Salus infirmorum. Que Ela nos ajude a partilhar os dons recebidos com o espírito do diálogo e mútuo acolhimento, a viver como irmãos e irmãs cada um atento às necessidades dos outros, a saber dar com coração generoso, a aprender a alegria do serviço desinteressado. Com afeto, asseguro a todos a minha proximidade na oração e envio-vos de coração a Bênção Apostólica.

Vaticano, 25 de novembro de 2018

Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo

FRANCISCUS

Nossa Senhora de Lourdes – Dia Mundial do Enfermo

“Abriu-se o Templo de Deus no céu” (Ap 11, 19); o véu da fé rasgou-se e deixou-nos passar, a fim de vermos o céu, o que se passa lá em cima, a sua glória e perene juventude, a sua força e o seu poder.

Isto é Lourdes: a porta do céu que se entreabre. Quando a ciência médica e cirúrgica pensava ter atingido o zênite de progresso, a Virgem Santíssima valia àqueles que os médicos desenganavam. Quando a ciência racionalista se ria do sobrenatural e tinha como infantis os Vaticanistas que aceitavam a palavra infalível do “ultrapassado” Pontífice, que a 8 de dezembro de 1854 definira solenemente a Imaculada Conceição, a muralha do sobrenatural deu passagem a Maria e ela apareceu no Sul da França a uma menina do campo, e disse-lhe também: “Sou a Imaculada Conceição”.

De 11 de fevereiro a 10 de julho, a bem-aventurada Virgem Imaculada dignou-se transmitir uma missão durante 18 aparições:

1ª aparição – 11 de fevereiro.
Na manhã dessa quinta-feira, as duas irmãs Bernadette e Antonieta, e uma amiga Joana Abadie, procuravam lenha junto à gruta de Massabielle, nas margens do rio Gave. As duas pequenas saltam sem dificuldade um regato. Bernadette descalça-se para meter os pés na água e passar ao outro lado. Entretanto – escreve ela – “vi numa cavidade do rochedo uma moita, uma só, que se agitava como se houvesse muito vento. Quase ao mesmo tempo saiu do interior da gruta uma nuvem dourada, e logo a seguir uma Senhora nova e bela, bela mais que todas as criaturas, como eu nunca tinha visto nenhuma. Veio pôr-se à entrada da concavidade, por cima do tufo de mato. Logo olhou para mim, sorriu-me e fez-me sinal para que me aproximasse, como o faria minha mãe. Tinha-me passado o medo, mas parecia-me que não sabia onde estava. Esfreguei os olhos, fechei-os, tornei-os a abrir; mas a Senhora estava lá sempre, continuando a sorrir e fazendo-me compreender que eu não estava enganada. Sem saber o que fazia, tomei o terço e ajoelhei-me. A Senhora aprovou com um sinal de cabeça e passou para os seus dedos um rosário que trazia no braço direito. Quando quis começar a rezar e erguer a mão à testa, o meu braço ficou imóvel, como que paralisado. Só depois de a Senhora fazer o sinal da cruz é que eu o pude fazer também. A Senhora deixava-me rezar sozinha. Ela apenas passava as contas pelos dedos, sem falar. Só no fim de cada mistério dizia comigo: Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Quando acabou a reza, a Senhora voltou a entrar do interior do rochedo e a nuvem de ouro desapareceu com Ela”. A quem lhe perguntava como era a Senhora, Bernadette fazia esta descrição: “Tem as feições duma donzela de 16 ou 17 anos. Um vestido branco cingido com faixa azul até aos pés. Traz na cabeça véu igualmente branco, que mal deixa ver os cabelos, caindo-lhe pelas costas. Vem descalça, mas as últimas dobras do vestido encobrem-lhe um pouco os pés. Na ponta de cada um sobressai uma rosa dourada. Do braço direito pende um rosário de contas brancas encadeadas em ouro, brilhante como as duas rosas dos pés”.

2ª aparição – 14 de fevereiro.
Tudo, mais ou menos, como na primeira. Temendo que fosse alguma alma do outro mundo, como lhe tinham dito, Bernadette asperge o penedo com água benta. “Ela não se zanga” diz a pequena com satisfação. “Pelo contrário, sorri para todos nós”. Nestas duas primeiras aparições, Nossa Senhora nada disse, além de rezar os Glórias dos mistérios.

3ª aparição – 18 de fevereiro.
A celestial aparição pergunta delicadamente à menina: “Queres fazer-me o favor de vir aqui durante 15 dias?” – “Assim o prometo” – respondi. “Também eu prometo fazer-te feliz, não neste, mas no outro mundo”.

4ª aparição – 19 de fevereiro.
Enquanto a vidente rezava, uma multidão de vozes sinistras, que pareciam sair das cavernas da terra, cruzaram-se e entrechocaram-se, como os clamores duma multidão em desordem. Uma dessas vozes, que dominava as outras, gritava em tom estridente, raivoso, para a pastorinha: Foge! Foge daqui! Nossa Senhora ergueu a cabeça, franziu ligeiramente a fronte e logo aquelas vozes fugiram em debandada.

5ª aparição – 20 de fevereiro.
Nossa Senhora ensinou pacientemente, palavra por palavra, uma oração só para Bernadette, que ela devia repetir todos os dias.

6ª aparição – 21 de fevereiro.
“A Senhora – escreve a vidente – desviou durante um instante de mim o seu olhar, que alongou por cima da minha cabeça. Quando voltou a fixá-lo em mim, perguntei-lhe o que é que a entristecia e Ela respondeu-me: “Reza pelos pecadores, pelo mundo tão revolto.”

7ª aparição – 23 de fevereiro.
A Vidente, caminhando de joelhos e beijando o chão, vai do lugar onde se encontrava até à gruta. Nossa Senhora comunica-lhe um segredo que a ninguém podia revelar.

8ª aparição – 24 de fevereiro.
A Santíssima Virgem disse estas palavras: “Reza a Deus pelos pecadores! Penitência! Penitência! Penitência! Beija a terra em penitência pela conversão dos pecadores!”

9ª aparição – 25 de fevereiro.
“A Senhora disse-me: “Vai beber à fonte e lavar-te nela.” Não vendo ali fonte alguma, eu ia ao rio Gave beber. Ela disse-me que não era ali. Fez-me sinal com o dedo mostrando-me o sítio da fonte. Para lá me dirigi. Vi apenas um pouco de lama. Meti a mão e não pude apanhar água. Escavei e saiu água mais suja. Tirei-a três vezes. À quarta já pude beber”. Era a água milagrosa que tantos prodígios tem realizado. Nossa Senhora mandou-lhe ainda fazer esta penitência pelos pecadores: “Come daquela erva que ali está!” Quando troçavam da pequena por tão estranha ordem, respondia: – “Mas vocês também não comem salada!?”

10ª e 11ª aparições – 27 e 28 de fevereiro.
Na primeira destas visitas, a Virgem Imaculada tornou a mandar beijar o chão em penitência pelos pecadores; na segunda sorriu e não respondeu quando a Vidente lhe perguntou o nome.

12ª aparição – 1º de março.
A Aparição manda a Bernadette rezar o terço pelas suas contas e não pelas duma companheira, Paulina Sans, que lhe tinha pedido para usar as suas.

13ª aparição – 2 de março.
A Virgem pede: “Vai dizer aos sacerdotes que tragam o povo aqui em procissão e que me construam uma capela”.

14ª aparição – 3 de março.
A Senhora não aparece à hora habitual, mas sim ao entradecer e deu explicação. “Não me viste esta manhã porque havia pessoas que desejavam examinar o que fazias enquanto eu estava presente. Mas elas eram indignas. Tinham passado a noite na gruta, profanando-a”.

15ª aparição – 4 de março.
No segundo mistério do primeiro terço, Bernadette começa a ver Nossa Senhora. Acabou esse terço e rezou outros dois, refletindo ora alegria, ora tristeza. Durante esta quinzena, Nossa Senhora comunicou à menina três segredos e uma oração com esta ordem: “Proíbo-te de dizer isto, seja a quem for”.

16ª aparição – 25 de março.
Na manhã da festa da Anunciação dirigiu-se para a gruta a privilegiada menina. “Peguei no terço – escreve ela – Enquanto rezava, assaltava-me teimosamente o desejo de lhe pedir que dissesse o seu nome. Receava, porém, ser importuna com uma pergunta que já tinha ficado sem resposta mais de uma vez… Num impulso, que não me foi possível conter, as palavras saíram me boca… – Senhora, quereis ter a bondade de me dizer quem sois? A única resposta foi uma saudação de cabeça, acompanhada dum sorriso. Nova tentativa, seguida de idêntica resposta. A terceira vez que lhe perguntei, tomou um ar grave e humilde. Em seguida, juntou as mãos, ergueu-as… olhou para o céu… depois separando lentamente as mãos e inclinando-as para mim, deixando tremer um pouco voz, disse-me: “Eu sou a Imaculada Conceição”.

17ª aparição – 7 de abril.
Nossa Senhora nada disse, mas verificou-se nesta aparição o chamado milagre da vela. A vela benta, que Bernadette segurava, escorregou-lhe pela mão atingindo-lhe os dedos. – Meu Deus, ela queima-se! – gritam várias pessoas. – Deixem-na estar! ordena o Dr. Dozous. Bernadette não se queimou.

18ª aparição – 16 de julho.
Como é festa de Nossa Senhora do Carmo, a Vidente assiste à missa e comunga na igreja. À tarde sente que Deus a chama para a gruta, mas não pode aproximar-se devido à sebe, e aos soldados que, por malvada ordem do governo, cercam o recinto. A menina contempla a Senhora, de além do rio e da sebe. “Não via o rio, nem as tábuas – explicará ela mais tarde. Parecia-me que entre mim e a Senhora, não havia mais distância que nas outras vezes. Só a via a Ela. Nunca a vi tão bela”. Foi o último adeus da Senhora até ao céu.

Desde 1858 até hoje, contínuas multidões se têm reunido em Lourdes, às vezes presididas por papas ou seus legados, e muito mais freqüentemente por bispos e cardeais. Os milagres de curas são estudados com todo o rigor e só reconhecidos quando de todo certos. Mais numerosas são as curas de almas, embora mais difíceis de contar. Como vimos, Nossa Senhora pediu a Bernadette que se dirigisse aos sacerdotes e lhes dissesse que levantassem uma capela no lugar das aparições. “Uma capela!”, comentou um sacerdote a quem foi comunicado o pedido. “Tens tu dinheiro para erguê-la?” “Não tenho”, disse com muita naturalidade a Vidente. – “Pois nós também não. Diz a essa Senhora que to dê”. Maria Imaculada deu mais que dinheiro. Abriu-se o céu, choveram e continuam a chover ainda agora os seus tesouros.

“O dedo de Deus” está em Lourdes há mais de cento e cinquenta e quatro anos. Quanto ao caráter sobrenatural das Aparições, indicamos alguns pensamentos que deveriam ser cotejados com os fatos decorridos: Bernadette estava de perfeita boa fé ao relatar as manifestações recebidas, e, sendo a menos nervosa das meninas, não foi vítima de exaltação entusiasta. O caráter sobrenatural deduz-se da atitude que prudentemente assumiu a hierarquia da Igreja: o pároco, o bispo e tantos outros prelados e mesmo os vários Papas. E tenha-se presente que o estudo dos pretensos milagres se faz em Lourdes por uma comissão médica que trabalha com máxima seriedade.

Qual é a mensagem que se depreende das 18 aparições de Lourdes?
“O elemento principal – responde Laurentin, grande teólogo da Virgem – é a manifestação de Maria na sua Imaculada Conceição… O resto é função deste primeiro elemento e pode também resumir-se numa palavra: em contraste com a Virgem sem mancha, o pecado… Mas, inimiga do pecado, Ela é também amiga dos pecadores, não enquanto estão ligados às suas faltas ou se gloriam delas, mas enquanto se vêem esmagados pelos sofrimentos físicos e morais, conseqüência do pecado. Reduzida à sua expressão mais simples, poderíamos sintetizar desta forma a mensagem de Lourdes: A Virgem sem pecado, que vem socorrer os pecadores. E para isso propõe três meios: a fonte de águas vivas, oração, a penitência”.

Texto extraído de: Leite, José (Org.). Santos de cada dia. 3.ed. Vol. I. Braga: Editorial A.O., 1993. p.206-210. Fonte: http//www.capeladelourdes.org.br/

 

NOSSA SENHORA DE LOURDES

A Imaculada e a Camponesa.
A história do acontecimento de Lourdes tem momentos de excepcional humanidade, sobretudo no que se refere ao diálogo entre Maria e Bernadete Soubirous. A Senhora dá dignidade á camponesa e a camponesa, apesar de sua extrema simplicidade e pouca instrução, reconhece perfeitamente isso.

Entre a Senhora e a serva, só existe Deus.
A senhora vive a plenitude das Bem-aventuranças; a serva percorre ainda o estreito caminho até elas. A Senhora é Imaculada; a serva é inocente, e ambas dialogam como mãe e filha, na intimidade. A Senhora é “a serva do Senhor”, em que foi feita a vontade dele; a serva está disponível a servir com fiel humildade. A Senhora pede a conversão, à volta á inocência vigorosa do Batismo; a serva vai e escava a terra e a água brota e jorra até hoje. A Senhora aponta para o grande dom da Eucaristia; a serva não quer outro pão, como nada mais desejam os milhões de peregrinos que ali vão até hoje.

Entre a Senhora e a Serva, só existe Cristo Jesus.
154 anos (1858-2012) nos separam das 16 aparições que mudaram a vida da camponesa e daquele pequeno povoado, que iluminaram a vida da Igreja. A Senhora continua a dialogar com os servos: a quem chega, sobretudo aos doentes, ela oferece seu regaço de mãe, sua paciência amorosa, seu zelo acolhedor, seus cuidados extremados. Não há dor que não encontre consolo e alívio nos braços da mãe. Continua a Senhora a pedir nossa conversão, a apontar para seu filho, e sorri comovida durante a celebração das missas que sucedem como um louvor contínuo ao Senhor da vida. Nas noites, quando se apagam as velas da longa procissão, quando se calam os cantos em todas as línguas, os servos voltam á gruta para escutar a Senhora e, na alegria da intimidade, conversar sobre Jesus.

Nossa Senhora de Lourdes, Rogai por de nós!
Santa Bernadete, ensina-nos a ouvir a Imaculada!

 

APARIÇÕES DE NOSSA SENHORA

APRESENTAÇÃO
Apresento e Aprovo as Orientações contidas em “ALGUMAS QUESTÕES SOBRE AS APARIÇÕES DE NOSSA SENHORA”, de Pe. Otacílio F. Lacerda, e gostaria de salientar que estas devoções como outras que são aprovadas pela Igreja não substituem a Bíblia e a Tradição da Igreja, fontes legítimas da Revelação. Estas devoções são legítimas enquanto estejam concordes e ajudem a vivenciar a verdadeira revelação (Bíblia e Tradição) + Dom Luiz Gonzaga Bergonzini Guarulhos, 14 de setembro de 2008. Festa da Exaltação da Santa Cruz

ALGUMAS QUESTÕES SOBRE AS APARIÇÕES DE NOSSA SENHORA
O povo faz muitas perguntas sobre as Aparições de Nossa Senhora. O assunto é complicado e merece ser tratado com cuidado. Vejamos as principais questões que se colocam hoje algumas dicas e orientações pastorais.

1 – As aparições existem mesmo ou são invenção das pessoas?
A pergunta deve ser respondida concretamente para cada caso. Há ocasiões em que há muitos indícios de uma forte presença de Deus, fazendo-nos acreditar que não é algo inventado ou sonhado pelas pessoas. Assim aconteceu em Guadalupe, Lurdes e Fátima. Em outras ocasiões, os sinais são tão confusos, que devemos desconfiar, como quando aparecem videntes fanáticos com mensagens esquisitas, que não estão em sintonia com o Evangelho e a caminhada da Igreja. De qualquer forma, as aparições não são uma comunicação de Deus totalmente pura. Na mensagem do vidente, sempre vêm misturadas as suas experiências psicológicas e culturais, a visão que ele tem do mundo, a mentalidade da época e tantas outras coisas. Por isso a mensagem das aparições não pode ser tomada ao pé da letra, como se fosse uma comunicação “diretinha” de Jesus ou de Nossa Senhora. Devemos separar o que nos parece mais próximo de Deus, daquilo que é limitação humana. Tomar o que é bom e deixar fora o que não nos ajuda a viver na “liberdade dos filhos de Deus” (Gl 5, 1).

2 – Por que só algumas pessoas vêem Nossa Senhora? Ela tem mais fé do que a gente?
O fato de ver ou ouvir Nossa Senhora não significa que os videntes tenham mais fé do que nós. Para um cristão, o mais importante não é ver coisas extraordinárias, mas entregar o coração para Deus, buscar realizar sua vontade e esperar Nele. A fé não precisa de sinais, embora a devamos agradecer muito a Deus quando Ele nos deixa algum sinal. As pessoas que vêem e ouvem Nossa Senhora são chamadas de “videntes” ou “confidentes”. Normalmente, elas têm um poder mental extraordinário, são “sensitivas” ou “paranormais” Captam e interpretam a presença de Deus de maneira mais intensa do que nós. No momento de uma provável “aparição”, elas entram em “êxtase”, uma forma de consciência diferente do normal. Para nós, importa saber que Deus se serve dessa capacidade extraordinária das pessoas para nos comunicar algo de seu amor, através de Maria.

3 – Para que existem aparições, se Deus deixou sua revelação na Bíblia?
As aparições não podem ser uma nova revelação de Deus para completar ou continuar o que Jesus Cristo nos deixou. Elas são uma experiência mística, vivida pelos videntes na presença de Nossa Senhora, para recordar a única revelação de Deus em Jesus Cristo. Os videntes destacam alguns aspectos da vida de fé, como a conversão, a penitência, a renovação da opção pelo Evangelho e a oração. Embora seja uma forma de comunicação extraordinária, as mensagens das aparições não substituem a Bíblia nem o Espírito Santo, que fala no coração de cada cristão e da comunidade.

4 – Por que hoje há tantas prováveis aparições?
O mundo de hoje está em crise, conturbado. A passagem do milênio deixou muitas perguntas sobre o futuro do nosso planeta. As pessoas, desesperadas, confusas, cheias de problemas pessoais e familiares, com medo, procuram na religião alguma coisa segura, na qual se agarrar. Buscam alívio, consolo e algumas certezas para viver. Ficam encantadas com as coisas maravilhosas e mágicas da religião. Todo esse contexto de insegurança, crise, medo e misticismo da atualidade cria um ambiente favorável para surgir e se desenvolver fenômenos místicos extraordinários. Quando se tem notícia de uma possível aparição, as multidões correm para lá, na esperança de encontrar o que buscam. E o fato se divulga logo, com a facilidade dos transportes e dos meios de comunicação (sensacionalismo midiático em busca de audiência).

5 – Como saber se uma aparição é verdadeira ou não?
Dificilmente se pode afirmar com total certeza. Nada como acolher aquelas aparições que a Igreja já reconheceu. Divinamente inspirada, e com a experiência de 20 séculos de História, a Igreja analisa com muito cuidado todas as manifestações supostamente sobrenaturais. Depoimentos são tomados, analisados, revisados. Verifica-se se não há algo que deponha contra a aparição e se nenhum detalhe desabonador foi esquecido. E só após cuidadoso exame a Santa Igreja reconhece a autenticidade desta ou daquela aparição. Mais precisamente: declara-as “dignas de crédito”, sem impor aos fiéis a sua aceitação. A Igreja é cautelosa: antes de se pronunciar a respeito de alguma aparição, manda examinar o caso criteriosamente, pois sabe que muitas vezes os fiéis, com toda boa fé, podem imaginar estar vendo e ouvindo o que não passa de projeções de sua fantasia. Não existe legislação canônica sobre a avaliação do fenômeno das aparições e manifestações miraculosas. O Direito Canônico cala sobre o assunto. O que existe é uma práxis observada pelos bispos e pela Sé Apostólica.
No livro intitulado “Enquête sobre as aparições da Virgem”,* que procura fazer uma análise, com rigor histórico, das diversas aparições marianas ocorridas no século XX. O autor não toma posição nas controvérsias, não se manifestando a favor ou contra esta ou aquela aparição. Limita-se a registrar os fatos. No final da obra, no último capítulo encontra-se uma tabela registrando as aparições desde 1900 até 1993; portanto, durante quase todo o século XX. No total, são 362 aparições analisadas.
Há um aspecto que chama a atenção: o baixíssimo número de aparições aprovadas: apenas quatro. Ao que se saiba, mais uma foi aprovada posteriormente — totalizando cinco, portanto — mas isto representa pouco mais de 1% das aparições analisadas. Outras 11 tiveram algum culto autorizado, sendo a maioria destas anteriores a 1950. Em sentido contrário, há 79 aparições desautorizadas, ou seja, pouco mais de 20%.
Traduzindo os números em linguagem mais simples: a Igreja, das aparições do século XX, aprovou uma em cada 100 e desautorizou uma em cada 5. São dados significativos para exprimir o rigor da Igreja Católica ao examinar os fatos, revelando a seriedade e cautela os fiéis devem agir nesta matéria, não se deixando levar por sensacionalismos.

Mas há alguns CRITÉRIOS que nos ajudam para avaliar a veracidade da aparição:

a) Equilíbrio mental do vidente: Se a pessoa tem boa saúde física e psíquica (mental), por parte de médicos competentes e psicólogos ou psiquiatras a fim de que não se confunda alucinação com visão. Pessoas desequilibradas mentalmente podem ter visões de Nossa Senhora que são apenas criação de sua imaginação e do seu desejo. Na verdade, o vidente não deve buscara aparição. Ela vem por pura graça de Deus e deve acontecer em pessoas mentalmente saudáveis.

b) Honestidade do vidente e de seu grupo: Por vezes, a busca de fama, poder ou dinheiro, ou a pressão de parentes e amigos acaba provocando aparições falsas nos videntes, que, como gravadores, passam a repetir mensagens para atrair um grande público. O vidente e seu grupo devem buscar, com simplicidade, a fidelidade à vontade de Deus, e não seus interesses pessoais. É importante verificar se há falta de sinceridade e de humildade da parte dos videntes, se há interesse em tirar proveito próprio ou em se colocar no centro das atenções. É preciso verificar os contra-testemunhos que os videntes apresentam na vida cotidiana, a falta de respeito e de obediência aos pastores, a exploração das emoções com objetivos comerciais, políticos ou outros interesses. O objetivo de qualquer revelação autêntica é a edificação da Igreja. Por isso, tudo o que a divide, tudo o que leva ao pecado, tudo o que não leva à evangelização não pode vir de Deus. Os videntes deixam de ter credibilidade a partir do momento em que procuram sustentar com apoio celestial, portanto, com autoridade pretensamente superior à da Igreja, uma certa orientação doutrinária, da qual se estivesse convencido; ou então promover mais facilmente certos aspectos da vida cristã, como os sacramentos, valendo-se da tendência das massas para o maravilhoso.

c) A qualidade da mensagem: A mensagem do vidente deve estar de acordo com o Evangelho e com a caminhada da Igreja no Brasil e no mundo. Tem de ser Boa Notícia, atualização do Evangelho. Se, ao contrário, o vidente só lembra do castigo e da ira de Deus, está esquecendo a mensagem da misericórdia do Evangelho (Lc 15). Se começa a falar mal dos outros, a criticar as pastorais e os movimentos, especialmente os que defendem os pobres, é sinal de que não vem de Deus, mas do engano, do orgulho e da vaidade.

Há basicamente três CRITÉRIOS para avaliar a mensagem:

1 – Ortodoxia: o conteúdo da mensagem das aparições não pode estar em contradição com a revelação bíblica, nem com a Doutrina da Igreja.
2 – Convergência: O conteúdo da mensagem deve estar em sintonia com as linhas pastorais da Igreja e os pastores podem encontrar nessa mensagem matéria para incentivar a vida pastoral e a conversão e renovação da vida cristã.
3 – Coerência: Deve haver uma coerência entre o que os videntes vêem, ouvem e dizem. O conjunto deve formar uma mensagem coerente. Além disso, toda autêntica aparição há de ser coerente com as linhas e o espírito do Evangelho. Assim, as muitas minúcias (quanto a datas, local, duração e tipo dos fenômenos preditos) merecem reservas, pois não são habituais na linguagem da Sagrada Escritura. O Senhor Jesus mesmo recusou-se, mais de uma vez, a revelar a data de sua vinda e do fim dos tempos (cf. Mc 13, 32; At 1, 7).

d) Os frutos das aparições: Se o movimento de uma aparição eleva muitos cristãos a viver melhor na fé, na esperança e na caridade, é um bom sinal. Também as curas e milagres podem nos dizer que Deus está agindo ali de maneira especial.

alguns CRITÉRIOS a respeito das ressonâncias da aparição:

Os Sinais: O fenômeno pode estar acompanhado de milagres, curas, conversões, fenômenos cósmicos extraordinários em favor da veracidade da aparição, os quais, porém, devem ser cuidadosamente examinados pela ciência e pela teologia. E como dizia o Papa João XXIII, em sua radiomensagem de 18/2/1959, comemorativa do centenário de Lourdes, que os dons extraordinários são concedidos aos fiéis “não para propor doutrinas novas, mas para guiar nossa conduta”.
Há que se perguntar quais os Frutos espirituais estão surgindo em decorrência da aparição?
Trata-se de conversões, renovação da vida cristã, devoção mais intensa e mais qualificada a Nossa Senhora, amor à Igreja, vocações missionárias, sacerdotais e consagradas? Caso o resultado dos exames acima sejam positivos, a Igreja não somente permite, mas favorece o culto ao Senhor ou ao santo(a) que se julga ter aparecido. É o caso do culto a Nossa Senhora de Fátima ou de Lourdes, havendo inclusive a festa respectiva no calendário da Igreja.
Importante: embora a Igreja favoreça o culto a Nossa Senhora em tal ou tal lugar, ela não obriga os fiéis a acolher as respectivas revelações particulares, uma vez que elas não fazem parte do depósito da fé. Fica a critério de cada fiel julgar as razões pró e contra a autenticidade de cada ´aparição´ não condenada pela Igreja e daí assumir ou não sua mensagem para a própria vida.
A respeito de tais fenômenos extraordinários, o Papa Bento XIV (1740-1758) publicou o seguinte: “A aprovação (de aparições) não é mais do que a permissão de publicá-las, para instrução e utilidade dos fiéis, depois de maduro exame. Pois estas revelações assim aprovadas, ainda que não se lhes dê nem possa dar um assentimento de fé católica, devem, contudo ser recebidas com fé humana segundo as normas da prudência, que fazem de tais revelações objeto provável e piedosamente aceitável”. Esta posição tornou-se clássica na prática da Igreja. Pode acontecer ainda que a Igreja se abstenha de qualquer pronunciamento a respeito dos fenômenos e do culto prestado em decorrência dos mesmos.
É o que acontece na maioria dos casos: não há motivos para condenar os fenômenos relatados; nem a saúde mental dos (as) videntes dá lugar à suspeitas nem as mensagens apresentadas por eles contêm alguma heresia ou erro na fé.
A Igreja considera os frutos pastorais que decorrem de tais mensagens: muitos fiéis se beneficiam peregrinando a tal ou tal lugar ou santuário; aí se convertem, recuperam ou adquirem o hábito da prática sacramental, da oração… Por tudo isso, a Igreja deixa que a piedade se desenvolva até haver razões de ordem doutrinária ou moral que exijam algum pronunciamento.
Diante dos fenômenos de aparições e revelações particulares, a Igreja tem a obrigação de ser prudente. Ela é responsável pela preservação da doutrina da fé. Por um lado, ela sabe que o Espírito Santo pode falar por vias extraordinárias, de tal modo que não lhe é lícito extinguir o Espírito (cf. 1Ts 5, 19s); por outro lado, o extraordinário não é a via normal pela qual Deus guia seus filhos.
A fé madura não diz Sim a qualquer notícia sobre portentos, prodígios e milagres, mas pergunta sempre: por que deveria eu crer? Qual a autoridade de quem me transmite a notícia? Em que se baseia? Como fala?
Aparições e revelações particulares não devem ser presumidas nem admitidas em primeira instância num juízo precipitado. Os fenômenos alegados hão de ser comprovados ou criteriosamente credenciados. Diante de um fenômeno tido como extraordinário, procurem-se, antes do mais, as explicações ordinárias ou naturais (físicas, psicológicas, parapsicológicas).
É preciso levar em conta a fragilidade humana, sujeita a engano, sugestões, alucinações coletivas, etc. Facilmente quem conta um fato acrescenta-lhe ou subtrai-lhe um traço que pode ter importância; em conseqüência, um acontecimento explicável por vias naturais pode tornar-se,na boca dos narradores, um fenômeno altamente portentoso. Daí o senso crítico, que deve começar por investigar de que realmente se trata, para depois procurar a explicação adequada.
Leve-se em conta especialmente à tendência dos meios de comunicação social a provocar artificiosamente as emoções e o sensacionalismo, sem compromisso sério com a verdade. São critérios que podem ajudar a analisar se um movimento de supostas aparições é bom ou não, se pode ser digno de crédito ou não.

6 – Quando acontecem milagres ou sinais do céu, é uma prova de que a aparição é divina?
Não. No local de possíveis aparições é comum a gente presenciar curas de doenças, consolo espiritual e conversões. Pode acontecer que, mesmo que o vidente seja desonesto ou desequilibrado, as pessoas também vejam sinais no sol, na lua, nas nuvens ou em qualquer outra coisa da natureza. A força do poder da mente, associada à fé das pessoas que procurar esses locais, pode produzir frutos maravilhosos, mesmo que a aparição não seja verdadeira.

7 – Por que muitos videntes insistem sobre o fim do mundo e o castigo de Deus sobre a humanidade?
Esse é um exemplo típico de como se misturam, na experiência de vidente, as coisas de Deus com as coisas humanas. No passado, muitos santos e videntes já erraram quando fizeram previsão do fim do mundo e da segunda vinda de Jesus (parusia). Sempre que há uma grande crise nas civilizações, única forma de limpar tudo e começar direito outra vez. Nós não sabemos sobre o fim do mundo (Mt 24, 36). O futuro do mundo está nas mãos de Deus e depende também da humanidade. De qualquer forma, a verdadeira conversão não nasce do medo de ser destruído, mas da certeza de que Deus é bom, de que ele age com misericórdia em relação a nós e nos chama a conversão e vida plena (João 10, 10).

8 – Somos obrigados a acreditar nas aparições?
Não. As aparições não fazem parte do credo e dos dogmas católicos. Temos a liberdade de aceitar ou ignorar essa experiência religiosa. As aparições têm seu valor, mas não são absolutas. Até os pedidos dos videntes – que eles consideram vindos de Maria -, como rezar o terço ou fazer penitencia, são apenas conselhos para ajudar a nossa vida cristã. Ninguém é obrigado a segui-los. Se a pessoa sente que isso a faz ficar mais perto de Deus e realizar sua vontade, pode agir assim. Mas ela não tem direito de julgar e condenar os que não acreditam nas aparições nem seguem os pedidos dos videntes. Por outro lado, os que não crêem em aparições devem respeitar os que pensam diferente deles. O católico pode confiar na experiência e na mensagem de alguns videntes, mas será uma confiança humana, mesmo que haja muitos sinais maravilhosos.

9 – Orientações Pastorais
Algumas orientações para a prática do povo de Deus:
a) Não se faça, em nome de Pastorais, Movimentos e Espiritualidades, lotações para afluírem aos locais de supostas aparições.
b) Não se divulgue nas Pastorais, Movimentos e Espiritualidades, folhetos, apostilas, fitas cassete ou vídeos com mensagens de cunho milenarista, apocalíptico ou catastrófico. Seja mantida a devida prudência com relação aos escritos de pessoas que teriam a faculdade de locução interior. O devido cuidado deve ser tomado de não colocá-los em forma de leitura espiritual como substituto ou auxiliar da Palavra de Deus.
c) Em última instância, prevaleça sempre a Orientação e Ensinamento do Magistério, representada pela palavra do Bispo Diocesano, em comunhão com seus Conselhos e Organismos.

10 – Conclusão:
O Documento Vaticano II, nos ensina em relação ao culto da Bem Aventurada Virgem, que os filhos e filhas da Igreja ”generosamente promovam o culto, sobretudo o litúrgico, para com a Bem Aventurada Virgem, dêem grande valor às práticas e aos exercícios de piedade recomendados pelo Magistério no curso dos séculos e observem religiosamente o que em tempos passados foi decretado sobre o culto das imagens de Cristo, da Bem-aventurada Virgem e dos Santos” (LG 67). Aos fiéis, insiste ainda que, a verdadeira devoção não consiste num estéril e transitório afeto, nem numa certa vã credulidade, mas procede da fé verdadeira pela qual somos levados a reconhecer a excelência da Mãe de Deus, excitados a um amor filial para com nossa Mãe e à imitação das suas virtudes (LG 67). Enquanto peregrinamos, Maria será a mãe educadora da fé (cf. LG 63). A Igreja cuida que o Evangelho nos penetre intimamente, plasme nossa vida de cada dia e produza em nós frutos de santidade (cf. Puebla, 290).

Texto Adaptado para a Pastoral tendo como Referência Bibliográfica:
-Com Maria rumo ao novo Milênio – a Mãe de Jesus na devoção, na Bíblia e nos dogmas – CNBB – Editora Paulus – 91 páginas
-CNBB (Comissão Episcopal de doutrina) Aparições e revelações particulares. Subsídios doutrinais da CNBB – São Paulo, Paulinas 1990, 62 páginas.
-Ir. Afonso Murad, Visões e Aparições. Deus continua falando? Vozes, Valdis 1997, 214 páginas.
-O que pensar das aparições de Nossa Senhora – Grinsteins – www.catolicismo.com.br
Texto elaborado por Pe. Otacílio Ferreira de Lacerda Diocese de Guarulhos-SP

 

Lourdes: reconhecido o 69º milagre
Bispo de Pavia assina decreto que declara oficialmente a cura “prodigiosa” de uma mulher
Roma,  23 de Julho de 2013  (Zenit.org)  Redação

O presidente do Comitê Médico deLourdes, dr. Alessandro De Franciscis, anunciou que o bispo da diocese italiana de Pavia, dom Giovanni Giudici, reconheceu como “milagrosa” a cura da sra. Danila Castelli, moradora da cidade de Bereguardo. É a 69ª cura reconhecida oficialmente por um bispo católico como “milagrosa”, ou seja, “cientificamente inexplicável”.

Nascida em janeiro de 1946, Danila Castelli começou a sofrer de hipertensão aos 34 anos, mas os exames médicos não conseguiram encontrar a causa.

Em 1982, uma série de raios-X e ecografias revelaram uma massa para-uterina e um útero fibromatoso. A conselho do marido, médico de origem iraniana, ela retirou os ovários e o útero. Em novembro do mesmo ano, Danila foi submetida a uma remoção parcial do pâncreas.

O sofrimento da mulher continuou no ano seguinte, quando, em novembro, novos exames revelaram a presença de um tumor que provocava catecolaminas na região retal, na bexiga e na vagina. Os novos procedimentos cirúrgicos não conseguiram melhorar as suas condições.

Em maio de 1989, Danila fez uma peregrinação a Lourdes junto com o marido, pensando que seria a última viagem da sua vida.

Ao sair das piscinas do santuário, ela percebeu uma sensação extraordinária de bem-estar. O próprio marido, que estava esperando a sua vez, notou que ela estava melhor. Depois disso, Danila não voltou a apresentar crises graves de hipertensão e pôde interromper todos os tratamentos, recuperando-se completamente.

Danila se apresentou várias vezes ao Comitê Médico de Lourdes para testemunhar a sua cura. Em setembro de 2010, o Bureau des Constatations Médicales de Lourdes confirmou definitivamente e por unanimidade de votos a sua recuperação, com apenas uma abstenção, e divulgou a seguinte declaração: “A sra. Danila Castelli está curada de modo completo e duradouro desde a data de sua peregrinação a Lourdes em 1989, ou seja, há 21 anos, da síndrome da qual sofria, sem que haja qualquer relação entre a cura e as intervenções e tratamentos realizados”. Desde então, acrescentou o dr. De Franciscis, “ela vem levando uma vida completamente normal”.

Em sua reunião de 19 de novembro de 2011, em Paris, o Comitê Médico Internacional de Lourdes certificou que “esta recuperação continua inexplicada no atual estágio do conhecimento científico”.

Em fevereiro de 2012, o então bispo de Tarbes-Lourdes, dom Jacques Perrier, enviou o seu relatório ao bispo de Pavia, a diocese em que vive Danila Castelli.

O decreto, assinado recentemente por mons. Giovanni Giudici, proclama o caráter “prodigioso-milagroso” e “simbólico” da cura, semelhante aos sinais realizados por Jesus no evangelho.

“Esse decreto é uma grande oportunidade para reencontrar o frescor da alegria de viver com o Senhor. É a reproposição de um caminho, e acontece, como sempre, no momento perfeito, porque perfeitos são os tempos de Deus”, declarou Danila Castelli ao informativo semanal Il Ticino, da diocese de Pavia.

V Domingo do Tempo Comum – Ano C

Por Pe. Fernando José Cardoso

Evangelho segundo São Lucas 5, 1-11
Encontrando-se junto do lago de Genesaré, e comprimindo-se à volta dele a multidão para escutar a palavra de Deus, Jesus viu dois barcos que se encontravam junto do lago. Os pescadores tinham descido deles e lavavam as redes. Entrou num dos barcos, que era de Simão, pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra e, sentando-se, dali se pôs a ensinar a multidão. Quando acabou de falar, disse a Simão: «Faz-te ao largo; e vós, lançai as redes para a pesca.» Simão respondeu: «Mestre, trabalhamos durante toda a noite e nada apanhamos; mas, porque Tu o dizes, lançarei as redes.» Assim fizeram e apanharam uma grande quantidade de peixe. As redes estavam a romper-se, e eles fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco, para que os viessem ajudar. Vieram e encheram os dois barcos, a ponto de se irem afundando. Ao ver isto, Simão Pedro caiu aos pés de Jesus, dizendo: «Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador.» Ele e todos os que com ele estavam encheram-se de espanto por causa da pesca que tinham feito; o mesmo acontecera a Tiago e a João, filhos de Zebedeu e companheiros de Simão. Jesus disse a Simão: «Não tenhas receio; de futuro, serás pescador de homens.» E, depois de terem reconduzido os barcos para terra, deixaram tudo e seguiram Jesus.

No quinto domingo do tempo comum, Lucas mostra-nos Jesus, até então sozinho anunciando o reino de Deus, chamando os primeiros companheiros. Notem a grandeza e a majestade de Jesus. Ao mesmo tempo sua simplicidade. O povo se acotovelava na praia para ouvir a Palavra de Deus. Jesus toma distância desta multidão entrando numa barca que era de Simão e anuncia-lhes a Palavra de Deus. Esta é a primeira cena. Diante dela podemos realizar uma primeira meditação. Aquele povo sedento da Palavra de Deus, que tinha a felicidade de ouvir do próprio Jesus, estava feliz e satisfeito. Mas não temos que invejar aquele povo. Também possuímos a mesma Palavra de Jesus. A única diferença entre nós e aquela gente da Galiléia é que eles viam um Homem, Jesus de Nazaré. Recebemos a mesma Palavra provinda do Cristo glorificado, invisível aos nossos olhos na glória pascal do céu, através do seu Espírito Santo. Mas esta Palavra hoje na Igreja ressoa de maneira até mais intensa do que quando Jesus estava aqui presente terrestremente. Agora, Ele nos fala do alto da glória do auge da sua autoridade e com o poder do Espírito Santo. Ao terminar aquela pregação diz a Simão que leve a barca para as águas mais profundas do lago e lance as redes para a pesca. Depois da tentativa infrutífera da noite anterior, Simão e os seus companheiros conseguem juntar uma quantidade enorme de peixes. Nesta quantidade de peixes que entram na barca de Simão, mais uma vez nós nos reconhecemos. Cada um de nós é um peixinho que foi apanhado em alto mar pela rede, não mortífera, mas salvífica dos pregadores, dos missionários, dos sacerdotes de Jesus arrancado das profundezas das águas tenebrosas e trazido para a Igreja onde crescemos, onde amadurecemos, onde podemos nos imbuir sempre mais de Jesus. Este Evangelho se presta muito à contemplação. Se você se sente como um peixinho apanhado pelos apóstolos e missionários de Jesus, se você já se sente na barca de Pedro e de seus sucessores que é a Igreja, louve e bendiga a Deus pela luz de sua fé, pelo dom inestimável que lhe fez arrancando das trevas e trazendo para o reino de seu Filho Amado. Lembre-se de muitos outros peixes que ainda navegam ou giram ou nadam em alto mar, desorientados e esperando, quem sabe, alguém que os oriente para a barca de Pedro que se encaminha através da história, apesar das tempestades, para o céu.

 

«Recebestes gratuitamente, dai gratuitamente» (Mt 10, 8)
São Josemaria Escrivá de Balaguer (1902-1975), presbítero, fundador
Homilia in Amigos de Dios

Quando Jesus saiu para o mar com os Seus discípulos, não pensava somente nessa pescaria. Foi por isso […] que respondeu a Pedro: «Não tenhas receio; de hoje em diante serás pescador de homens». E também nessa nova pesca a eficácia divina não faltará: os apóstolos serão instrumentos de grandes prodígios, apesar das suas misérias pessoais. Também nós, se lutarmos todos os dias para alcançar a santidade na nossa vida normal, cada um na sua própria condição no meio do mundo e no exercício da sua profissão, ouso afirmar que o Senhor fará de nós instrumentos capazes de realizar milagres e, se for necessário, dos mais extraordinários. Daremos luz aos cegos. Quem não poderá narrar mil exemplos de cegos quase de nascença que recuperam a visão e recebem todo o esplendor da luz de Cristo? Outro era surdo e outro ainda mudo, que não podiam ouvir nem articular uma única palavra enquanto filhos de Deus […]: e ouvem e exprimem-se como verdadeiros homens […]. «Em nome de Jesus», os apóstolos restituem as forças a um enfermo incapaz de qualquer acção útil […]: «Em nome do Senhor levanta-te e caminha!» (At 3, 6). Outro ainda, um morto, ouviu a voz de Deus como quando do milagre da viúva de Naim: «Jovem, ordeno-te que te levantes» (Lc 7, 14; At 9, 40). Faremos milagres como Cristo, milagres como os primeiros apóstolos. Estes prodígios realizaram-se talvez em ti, em mim: talvez estivéssemos cegos, ou surdos, ou enfermos, ou sentíssemos a morte, quando a Palavra de Deus nos arrancou à nossa prostração. Se amamos a Cristo, se O seguimos, se é apenas a Ele que procuramos e não a nós mesmos, em Seu nome poderemos transmitir gratuitamente o que recebemos gratuitamente.

 

Vocação: pescadores de homens
Cf. B. CABALLERO. A Palavra de cada dia. Paulus: 2000.

Uma história de pesca e pregação, eis o evangelho de hoje. Fala primeiro da pregação, depois da pesca, e finalmente une os dois numa síntese um pouco inesperada. Jesus adapta-se ao cenário local. No meio dos pescadores, seu púlpito deve ser um barco de pesca, provavelmente do mais dinâmico entre os pescadores de Cafarnaum, um certo Simão. Ao terminar, Jesus lhe devolve o barco: “Agora podes pescar” (Lc 5, 4). Pedro pode ter pensado que de pesca Jesus pouco entendia – não era tempo bom: passaram a noite sem nada apanhar. Mas a autoridade de Jesus se impõe. “Porque tu o dizes, lançarei mais uma vez as redes”. Surpreendentemente, a pescaria deu um resultado digno de qualquer reunião de pescadores. As redes começando a se romper, tiveram de chamar outro barco para recolher a quantidade de peixes que apanharam. A partir daí, muda o tom da narração. Simão reconhece uma presença misteriosa. Como Isaías, ao sentir quase palpavelmente a presença de Deus no santuário (primeira leitura), assim também Simão se sente invadido por um sentimento de pequenez, impureza e indignidade diante do Mistério que ele vislumbra. “Afasta-te de mim, Senhor, eu sou um homem impuro”. Não mais impuro do que qualquer outro, mas diante de Deus todo ser humano é impuro. A reação de Jesus é diferente da de Deus em Isaías na primeira leitura. Não manda um anjo com uma brasa para purificar Simão, mas diz, com toda a simplicidade: “Não temas”. Ora, como em Isaías, aqui também a presença de Deus se faz sentir com determinada intenção, a vocação: “A partir de agora serás pescador de homens.” E, assim como Isaías respondeu: “Eis-me aqui, envia-me”, Simão se dispõe a assumir sua vocação, abandonando seu barco e seguindo Jesus, com João e Tiago, os filhos de Zebedeu. Podemos ver, nesta narrativa, como são entrelaçados a vocação divina e os fundamentos humanos da mesma. Isaías é homem do templo: é lá que Deus o agarra. Simão é homem da pesca; é lá que Jesus o apanha. A vocação encarna-se na situação vital de cada um, porém, o arrasta daí para o caminho que Deus projetou. Dialética dos pressupostos humanos e da irrupção divina. Utiliza primeiro a situação da gente, o barco; depois, urge abandonar esse barco para engajar-se num caminho do qual não se conhecem as surpresas. Mas, no entremeio, há um sinal: a pesca. Ao entrar no mar para mais uma vez lançar as redes, Simão não sabia o que aconteceria. A confiança em Jesus nas coisas do dia-a-dia nos prepara para assumir a vocação do desconhecido. Também Paulo viveu irrupção de Deus em sua história: o Cristo glorioso, que lhe apareceu no caminho de Damasco, revolucionou sua vida. Esta é a resposta que Paulo dá aos coríntios que questionam a ressurreição de Cristo e dos mortos em geral, pois toda a sua vida está baseada na experiência de que Cristo ressuscitou (segunda leitura). Porém, não é apenas sua experiência pessoal; é a fé comum dos Apóstolos, a “tradição” que também ele recebeu: que Jesus foi morto por nossos pecados, cumprindo a Escritura, e foi sepultado; que ele foi ressuscitado no terceiro dia, cumprindo as Escrituras, e manifestado aos discípulos. Só depois desta referência à fé da comunidade, Paulo invoca o testemunho de sua própria experiência, equivalente à dos outros, embora ele fosse um perseguidor da Igreja. Experiência cujo efeito está presente aos olhos dos coríntios na própria figura do apóstolo. No texto que se segue ao de hoje, Paulo afirma que toda a sua e também a nossa vida seria um lamentável absurdo, se não existisse a ressurreição – de Cristo e de todos nós. Este tema é, evidentemente, um tema a parte, mas tem em comum com o do evangelho a transformação que a vocação, ou melhor, o encontro com Cristo opera na vida de cada um. Vocação transformadora, não só da gente, mas também do mundo em que a gente vive.

 

Suas fraquezas não são obstáculos para Deus
Padre Gleuson Gomes

Eu fiquei surpreendido quando me deparei com o Evangelho de Hoje, o encontro de Jesus com Pedro, ainda chamado Simão, ali com suas redes, com seu barco de pesca, com sua história a ser completamente refeita por aquele encontro. Acredito que hoje todas as leituras nos ajudam a compreender o mistério deste encontro. A primeira leitura que mostra a grandeza de Deus, diante de um coração perdoado, é o testemunho de Paulo que se diz um abortivo, e que completamente transformado, de um perseguidor para um pregador, e o evangelho que nos mostra também o encontro de Pedro com o homem que iria mudar a sua vida. Uma barca que antes servia apenas para pegar tantos peixes, e que agora vai se transformar em uma barca para pescar muitos corações e muitas vidas, é misterioso este dialogo, Jesus vai roubar seu coração, tomar para si a sua vida, pois a fraquezas de Pedro não são obstáculos para Deus, as suas fraquezas não são obstáculos para Deus. Jesus pede a barca de Pedro emprestada, e fala ao coração de uma grande multidão, e Pedro estava ali cansado, frustrado e decepcionado, o estado do coração de Pedro propõe para nos o que vivemos tantas vezes diante das tentativas desta vida, nosso desejo de acertar, de ver os frutos do nosso trabalho, somos frustrados, desgastados pela vida, abatidos. E parece que exatamente nestes momentos em que estamos triturados, destruídos, cansados, desacreditados, e é exatamente nestes momentos que Deus usa para falar ao nosso coração e nossa vida da aquela ‘reviravolta’. Jesus olhou nos olhos de Simão Pedro, e o coração de Pedro foi mexido ali, algo tocou o coração de Pedro, Jesus começou o dialogo e aparentemente falou algo para Pedro que para um pescador era uma ousadia, pois Jesus era filho de um carpinteiro e provavelmente não entendia nada de pescaria e disse a Pedro: “Lança as redes”.
Você pode imaginar o que isto significava no coração de Pedro, depois de uma noite inteira de tentativas frustradas, cheio de cansaço e vem o profeta, e diz lança a redes, imagina aqueles dias que não dormimos direito, estamos cansados, estamos triturados por um dia difícil e vem alguém e põe o dedo na ferida da gente. Jesus na verdade queria dizer: ‘Abre mão da sua experiência de pesca, abre mão das suas lógicas, por que eu vou te ensinar um outra tipo de pesca, abre mão da sua forma de ver e pensar as coisas, pois eu vou te abrir um novo mar’. Imagina o sofrimento para abrir mão das nossas lógicas e perceber que Deus nos dá uma nova direção, isto é lindo. Olha o quanto nos não queremos ouvir o que Deus tem falado ao nosso coração, tem gente que não quer abrir mão das suas lógicas, que não quer se desvencilhar da história não curada. Abra os olhos para este novo mar, nada te prenda, nada te aprisione, seja livre no Espírito Santo. Nos não precisamos crendices, de amuletos, de horóscopo, nem de simpatias, a nossa sorte, o nosso destino esta nas mãos de Deus, só o Senhor é dono da nossa historia. Que nada nos impeça de enxergar a Graça que esta em Cristo Jesus, seja uma pessoa livre, nada de magoa, nada de ressentimento, você foi a confissão e Deus te tocou, Deus afundou no mar, os seus pecados, um mar de graça vai se abrir diante de você, abra os teus olhos, abre o teu coração. Pedro melhor do que ninguém sabia que o ‘mar não estava pra peixe’ mas Pedro lançou as redes, e seus olhos contemplaram as redes que voltaram abarrotadas de peixes, então Pedro começou a pensar: ‘Quem é este, que pode fazer uma pesca tão frutuosa? Que conhece este mar mais do que eu? Que pode ver meu coração? Quem é este?’, deve ter pensado Pedro. Jesus podia se afastar de Pedro, podia o rejeitar, mas Jesus diz a Pedro: “vinde após mim, e eu farei de vós pescador de homens.” Mesmo que você tenha vindo da bebida, vindo das drogas, de uma história de podridão, de sujeira mesmo, Cristo continua te dizendo: “Eu te farei pescador de homens”. Toda a vez que venho a Canção Nova eu me surpreendo com tudo que Deus fez aqui nesta obra, e como é bom participar e então vemos o que é o poder de Deus quando alguém se coloca humilde, e se coloca a disposição da Graça de Deus, e ai vemos o local de benção e de salvação que é a Canção Nova. Imagina o que Deus ia fazer com a vida de Pedro, e ele não imaginava, não era mais uma pesca, mas era o homem que iria mudar a sua vida, mudar a sua história, naquele lugar que em tantas vezes Pedro pescou, agora ele é pescado por Deus. Nada gere obstáculos para que você abrace a vontade de Deus. Se apaixona de novo, pede o Dom do Espírito Santo, para voltar ao primeiro amor, que hoje a Canção Nova seja a sua barca, que hoje você possa ser pescado por Deus nesta tarde reservada pra você, peça que Deus pesque o seu coração, e diga eu estou disposto, rompa definitivamente com as obras da carne, volta pra Deus e que nada seja obstáculo para Deus na sua vida.

 

Os textos da Liturgia da Palavra deste Domingo abordam um tema comum. O tema que tem como idéia mestra a Vocação ou o chamamento de Deus para uma missão especial, pessoal e intransmissível, no meio do seu Povo. Mas a vocação nunca pode ser algo de genérico, de abstrato, de meramente humano. Por isso, nas três leituras, temos três idéias – chave que nos ajudam a compreender toda a vocação: primeiro, há um Deus que se revela; segundo, esse Deus chama a pessoa e faz-lhe compreender o Seu chamamento; por fim, esse mesmo Deus, que se revela e chama, envia para uma missão concreta. A 1ª Leitura relata-nos a vocação de Isaías, que se encontra no Templo para  participar na Liturgia. De repente, sente-se envolto no mistério de uma teofania de Deus. A linguagem usada transporta-nos imediatamente para a transcendência de Deus: Ele é, por excelência, o “Santo, sentado em trono alto e elevado…”; o Forte, Senhor dos Exércitos, cercado de Glória! A esta divina luz, Isaías toma consciência das suas limitações e fragilidades de homem. Sente necessidade de se purificar, de se converter para se tornar capaz de uma missão divina. O texto refere-nos o inefável diálogo de Deus com o homem, que é convidado a participar com Ele na obra de salvação do Povo. Mas, como será isso possível, se sente indigno e incapaz? O próprio Deus, pelo Serafim, o purificará de toda a sua indignidade. Aquele que gozou da inefável experiência de santidade e transcendência de Deus deverá ser mensageiro da conversão do Povo a essa mesma santidade. Temeroso, mas com coragem, aceita essa missão: “Eis-me aqui, Senhor; podeis enviar-Me…”. Para anunciar a Deus, é preciso “conhecê-Lo”. Isaías fez a inefável experiência do Deus Santo através da teofania em que se sentiu maravilhosamente imerso em Deus e este se Lhe revela. A iniciativa da revelação e do chamamento é sempre d’ Ele. Vivendo a experiência do seu Deus, Isaías compreenderá o que Deus é e o que quer dele. E aceitará a missão. Vocação e missão andarão sempre intimamente unidas. O começo da 2ª Leitura é precisamente a continuação deste mesmo tema, agora aplicado aos que seguem Jesus Cristo, a partir do anúncio das primeiras testemunhas: Cristo, a salvação de Deus, é anunciado através do Evangelho. Os Coríntios acolhem-n’O e vivem-n’O; permanecem-lhe fiéis e testemunham-n’O aos outros. É a maneira prática e verdadeira de acreditar – ter fé. Também a Paulo, no seu itinerário espiritual, Jesus se lhe revela no caminho de Damasco. Esta experiência maravilhosa leva-o a acolher, viver, anunciar e testemunhar Jesus até as últimas conseqüências. Por Ele se sente enviado, e viverá a sua missão de “apóstolo dos gentios” como testemunha fiel até ao fim. Paulo sabe que agora, nos “novos tempos”, a revelação fundamental de Deus é Seu Filho Jesus Cristo, e toda a vocação e missão passam necessariamente por Ele e pela Comunidade dos que O aceitam e O vivem. Por isso, nesta 1ª Carta aos Coríntios encontramos, talvez, o mais antigo “Credo cristão”, recebido das primeiras testemunhas da Ressurreição. “Credo” que, por sua vez, deverá continuar a ser transmitido, pelo tempo fora, na vida de cada crente. No Evangelho encontramos fundamentalmente estas mesmas idéias, embora sob roupagem diferente. O texto está relacionado com o chamamento e a vocação de Simão ao ministério apostólico. Após uma noite de faina intensa, mas infrutífera, às ordens de Jesus as redes são novamente lançadas à água. Para espanto geral, dá-se uma pesca abundante. São tantos os peixes que eles têm de pedir ajuda “aos colegas que estavam no outro barco”. Há aqui vários elementos fundamentais que devemos ter em conta para entender bem a mensagem desta Leitura: 1) O povo comprimia-se à volta de Jesus, para escutar a Sua Palavra. A Palavra congrega, ilumina. É a Palavra imperativa de Jesus que provoca uma “nova criação”, sobretudo no interior de Pedro e todos os seguidores do Evangelho. Por isso é que São Lucas insiste tanto na necessidade dos apóstolos terem sido companheiros e discípulos de Jesus. São os Seus primeiros ouvintes. Serão também as Suas primeiras testemunhas; 2) “Já que o dizes, largarei as redes”. Obediência à Palavra de Jesus, sem reticências, nem delongas inúteis. Por essa Palavra, viva e eficaz, a Igreja ganhou vida; obediente a essa mesma Palavra, ainda hoje será sinônimo de vida, de “Vida em abundância” para todos aqueles que neste mundo – que parece não querer nada com Deus nem de Deus – sentem verdadeira fome do Deus vivo; 3) “Não tenhas receio”. Diante das maravilhas do Senhor, Pedro sente-se indigno, pecador, como certamente cada um de nós. Ele veio para chamar os pecadores e fala-nos até da infinita alegria de Deus por um só pecador que se converta. “Não temas!”. O espírito de ousadia, de perseverança e de dedicação a toda a prova do pescador, que enfrenta os perigos do mar, serão postos ao serviço do Evangelho. E o Senhor estará com ele, como estará sempre conosco.

 

MAR ADENTRO… – V Dom TC – Ano C

1. EXISTE QUEM PENSA QUE A MENSAGEM DA IGREJA É DE OUTROS TEMPOS…
Aos sacerdotes nos toca as vezes receber as reclamações de quem pensa que a mensagem da Igreja é velha, é antiquada, e tem que mudar, porque já não tem nada que dizer ao mundo de hoje… Em muitos temas se colocam estas reclamações de atualização. Alguns dirão que já não é momento para que a Igreja siga insistindo na indissolubilidade do matrimônio e se oponha ao divórcio, já que neste tempo são muitos os que passam por esta situação, e o matrimônio perdurável é um ideal inalcançável. Outros pensarão que em toda a moral sexual a Igreja ficou no passado, que tem que mudar, porque o que propõe (respeitando a natureza original deste dom de Deus), não se pode já viver em nosso tempo, na qual se liberalizaram os costumes, e se reclamam, com mais ou com menos violência, maiores liberdades, que permitam buscar com mais espontaneidade o prazer. Outros também dirão que já é tempo de que a Igreja deixe de lado o celibato dos sacerdotes, que se possam casar “como faz todo o mundo”, já que é “mais normal” que possam viver dessa maneira, sem uma exigência que não é necessária para seu ministério… Na realidade, estes reclamações não são novas. Já Jesus, quando pregou em seu tempo, dizia palavras que resultavam duras e estranhas na cultura decadente que se vivia no império desse momento. Em seu tempo havia muito divórcio, assim como também aberrações e abusos no uso da sexualidade, incluído o homossexualismo, como na cultura universal que nos coloca o império de nosso tempo. Mas hoje, como ontem, não será a acomodação da Igreja à cultura do momento, senão a fidelidade às raízes, o que permitirá viver com gozo o conteúdo salvador da mensagem evangélica…

2. COM JESUS, A IGREJA NAVEGA NO MUNDO, MAR ADENTRO…
A Igreja tem o que recebeu de Jesus, nem mais nem menos. Sempre sua missão será a mesma, levar e dar ao mundo o que Jesus pôs em suas mãos. Poderão mudar as formas, a linguagem, os instrumentos que se utilizem, mas a mensagem da Igreja será sempre a mesma, a que recebeu das mãos de Jesus… A Palavra de Jesus, que a Igreja deve fazer chegar a todos os rincões do mundo inteiro, tem uma eficácia que vai mais além do que se pode esperar das realidades meramente humanas. Desde este ponto de vista, a tarefa da Igreja termina sendo sempre como uma “pesca milagrosa”, cujos resultados superam amplamente o que ela pode esperar de suas limitadas forças. A Igreja é convidada cada dia por Jesus a introduzir-se até os rincões mais afastados e inóspitos do mundo, levando a todos lados a mensagem que recebeu, uma mensagem de salvação que os homens de todos os tempos necessitam, e que não podem alcançar por si mesmos. A mesma mensagem que São Paulo recebeu, como os demais Apóstolos, e transmitiu com sua pregação: que Cristo morreu por nossos pecados, conforme à Escritura; que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, de acordo com a Escritura; que apareceu a Pedro e depois aos Doze, o mesmo que a São Paulo, mostrando-lhes que havia ressuscitado, e que dessa maneira havia vencido as barreiras da morte e do pecado, para dar-nos a Vida eterna… Ante semelhante realidade, como se pode esperar que a Igreja mude sua mensagem, para fazer-se à medida das ondas de cada momento, ou para que sua palavra soe “agradável” segundo as modas de cada tempo? A sua é uma Palavra recebida de Deus, cujo conteúdo e mensagem está mais além do que se espera em cada momento. É uma Palavra de salvação, que deve aproximar a todos os homens de todos os tempos, com suas redes abertas, ainda que pareça que ninguém queira entrar nelas. Por isso João Paulo II, ao começar o terceiro milênio da Igreja, fazendo pé neste Evangelho, nos recordava que Jesus nos segue convidando para que, na barca da Igreja, seguíssemos metendo-nos em todas as realidades do mundo, “mar adentro”, até suas mais recônditas profundidades, anunciando e levando a salvação que Dele mesmo recebemos…

3. NOSSA MISSÃO: LEVAR A TODO O MUNDO A VIDA DE JESUS…
Também hoje, como em tempos de Jesus, Deus nos encarrega uma missão que tem algo de epopéia impossível, que prolonga a que receberam os Apóstolos, até que seja realizada em toda sua dimensão… Nós, que recebemos de Jesus a Vida que surge do sepulcro, na qual a morte é vencida por sua Ressurreição, temos a missão de levar o anúncio desta salvação, com fidelidade e perseverança, fiéis a sua Palavra salvadora, confiados muito mais em sua eficácia que em nossas limitações, tanto ou mais evidentes que as dos profetas de todos os tempos…

Santa Josefina Bakhita – 08 de Fevereiro

JOSEFINA BAKHITA (1869-1947)

Religiosa sudanesa da Congregação das Filhas da Caridade (Canossianas) 

Irmã Josefina Bakhita nasceu no Sudão (África), em 1869 e morreu em Schio (Vicenza-Itália) em 1947.  

Flor africana, que conheceu a angústia do rapto e da escravidão, abriu-se admiravelmente à graça junto das Filhas de Santa Madalena de Canossa, na Itália.

A irmã morena

Em Schio, onde viveu por muitos anos, todos ainda a chamam «a nossa Irmã Morena».

O processo para a causa de Canonização iniciou-se doze anos após a sua morte e no dia 1 de dezembro de 1978, a Igreja emanava o Decreto sobre a heroicidade das suas virtudes.

A Providência Divina que «cuida das flores do campo e dos pássaros do céu», guiou esta escrava sudanesa, através de inumeráveis e indizíveis sofrimentos, à liberdade humana e àquela da fé, até a consagração de toda a sua vida a Deus, para o advento do Reino.

Na escravidão

Bakhita não é o nome recebido de seus pais ao nascer. O susto provado no dia em que foi raptada, provocou-lhe alguns profundos lapsos de memória. A terrível experiência a fizera esquecer também o próprio nome.

Bakhita, que significa «afortunada», é o nome que lhe foi imposto por seus raptores.

Vendida e comprada várias vezes nos mercados de El Obeid e de Cartum, conheceu as humilhações, os sofrimentos físicos e morais da escravidão.

Rumo à liberdade

Na capital do Sudão, Bakhita foi, finalmente, comprada por um Cônsul italiano, o senhor Calixto Legnani. Pela primeira vez, desde o dia em que fora raptada, percebeu com agradável surpresa, que ninguém usava o chicote ao lhe dar ordens, mas, ao contrário, era tratada com maneiras afáveis e cordiais. Na casa do Cônsul, Bakhita encontrou serenidade, carinho e momentos de alegria, ainda que sempre velados pela saudade de sua própria família, talvez perdida para sempre.

Situações políticas obrigaram o Cônsul a partir para a Itália. Bakhita pediu-lhe que a levasse consigo e foi atendida. Com eles partiu também um amigo do Cônsul, o senhor Augusto Michieli.

Na Itália

Chegados em Gênova, o Sr. Legnani, pressionado pelos pedidos da esposa do Sr. Michieli, concordou que Bakhita fosse morar com eles. Assim ela seguiu a nova família para a residência de Zeniago (Veneza) e, quando nasceu Mimina, a filhinha do casal, Bakhita se tornou para ela babá e amiga.

A compra e a administração de um grande hotel em Suakin, no Mar Vermelho, obrigaram a esposa do Sr. Michieli, dona Maria Turina, a transferir-se para lá, a fim de ajudar o marido no desempenho dos vários trabalhos. Entretanto, a conselho de seu administrador, Iluminado Checchini, a criança e Bakhita foram confiadas às Irmãs Canossianas do Instituto dos Catecúmenos de Veneza. E foi aqui que, a seu pedido, Bakhita, veio a conhecer aquele Deus que desde pequena ela «sentia no coração, sem saber quem Ele era».

«Vendo o sol, a lua e as estrelas, dizia comigo mesma: Quem é o Patrão dessas coisas tão bonitas? E sentia uma vontade imensa de vê-Lo, conhecê-Lo e prestar-lhe homenagem».

Filha de Deus

Depois de alguns meses de catecumenato, Bakhita recebeu os Sacramentos de Iniciação Cristã e o novo nome de Josefina. Era o dia 9 de janeiro de 1890. Naquele dia não sabia como exprimir a sua alegria. Os seus olhos grandes e expressivos brilhavam revelando uma intensa comoção. Desse dia em diante, era fácil vê-la beijar a pia batismal e dizer: «Aqui me tornei filha de Deus!».

Cada novo dia a tornava sempre mais consciente de como aquele Deus, que agora conhecia e amava, a havia conduzido a Si por caminhos misteriosos, segurando-a pela mão.

Quando dona Maria Turina retornou da África para buscar a filha e Bakhita, esta, com firme decisão e coragem fora do comum, manifestou a sua vontade de permanecer com as Irmãs Canossianas e servir aquele Deus que lhe havia dado tantas provas do seu amor.

A jovem africana, agora maior de idade, gozava de sua liberdade de ação que a lei italiana lhe assegurava.

Filha de Madalena

Bakhita continuou no Catecumenato onde sentiu com muita clareza o chamado para se tornar religiosa e doar-se totalmente ao Senhor, no Instituto de Santa Madalena de Canossa.

A 8 de dezembro de 1896, Josefina Bakhita se consagrava para sempre ao seu Deus, que ela chamava com carinho «el me Paron!».

Por mais de 50 anos, esta humilde Filha da Caridade, verdadeira testemunha do amor de Deus, dedicou-se às diversas ocupações na casa de Schio.

De fato, ela foi cozinheira, responsável do guarda-roupa, bordadeira, sacristã e porteira. Quando se dedicou a este último serviço, as suas mãos pousavam docemente sobre a cabecinha das crianças que, diariamente, freqüentavam as escolas do Instituto. A sua voz amável, que tinha a inflexão das nênias e das cantigas da sua terra, chegava prazerosa aos pequeninos, reconfortante aos pobres e doentes e encorajadoras a todos os que vinham bater à porta do Instituto.

Testemunha do Amor

A sua humildade, a sua simplicidade e o seu constante sorriso, conquistaram o coração de todos os habitantes de Schio. As Irmãs a estimavam pela sua inalterável afabilidade, pela fineza da sua bondade e pelo seu profundo desejo de tornar Jesus conhecido.

«Sede bons, amai a Deus, rezai por aqueles que não O conhecem. Se, soubésseis que grande graça é conhecer a Deus!».

Chegou a velhice, chegou a doença longa e dolorosa, mas a Irmã Bakhita continuou a oferecer o seu testemunho de fé, de bondade e de esperança cristã. A quem a visitava e lhe perguntava como se sentia, respondia sorridente: «Como o Patrão quer».

A última prova

Na agonia reviveu os terríveis anos de sua escravidão e vária vezes suplicava à enfermeira que a assistia: «Solta-me as correntes … pesam muito!».

Foi Maria Santíssima que a livrou de todos os sofrimentos. Assuas últimas palavras foram: «Nossa Senhora! Nossa Senhora!», enquanto o seu último sorriso testemunhava o encontro com a Mãe de Jesus.

Irmã Bakhita faleceu no dia 8 de fevereiro de 1947, na Casa de Schio, rodeada pela comunidade em pranto e em oração. Uma multidão acorreu logo à casa do Instituto para ver pela última vez a sua «Santa Irmã Morena», e pedir-lhe a sua proteção lá do céu. Muitas são as graças alcançadas por sua intercessão.
“Vou devagar, passo a passo, porque levo duas grandes malas: numa vão os meus pecados, e na outra, muito mais pesada, os méritos infinitos de Jesus. Quando chegar ao céu abrirei as malas e direi a Deus: Pai eterno, agora podes julgar. E a São Pedro: Fecha a porta, porque fico”. Santa Josefina Bakhita.

 

SANTA JOSEFINA MARGARIDA FORTUNATA BAKHITA

Dificilmente se encontrará na hagiografia da Igreja caso semelhante ao de Josefina Bakhita, que veio ao mundo em terras do Sudão (África) por volta de 1870, de pais pagãos. Desconhece-se o seu nome de origem, pois o trauma causado pelos espantosos sofrimentos da infância e adolescência levaram-na a esquecer o próprio nome. Foram os seus raptores que – por ironia da história – a apelidaram de Bakhita, que quer dizer afortunada.

Apesar de ser de família rica, logo de pequena começou a sofrer ao presenciar o rapto de uma irmã mais velha. Dois anos depois, quando contava cerca de nove primaveras, também ela teve a mesma desgraça. Submetida a terríveis sevícias, caminhou com muitos outros prisioneiros durante dias seguidos. Numa noite conseguiu fugir com uma companheira, mas terminou por cair nas unhas de outros negreiros, que a venderam a um oficial turco. Este entregou-a ao tirânico poder da esposa, mulher sem sentimentos, que mais parecia uma fera selvagem. É impossível descrever quanto a inocente criança sofreu nas mãos daquela sádica criatura. Basta dizer que a sujeitou ao tormento espantoso da tatuagem, abrindo-lhe feridas no corpo e cobrindo-as com sal.

Deus, porém, protegeu àquela vítima inocente, dispondo as coisas de tal forma que em 1884 fosse comprada pelo cônsul italiano em Cartum. Ele depois levou-a para o seu país e deu-a de presente a um amigo, que tinha em casa um administrador muito piedoso e empenhado na difusão da fé católica. Este tratou logo de ensinar os rudimentos da doutrina cristã à empregada negra, que não tinha religião nenhuma, mas possuía uma alma bem disposta. Com efeito, quando ainda era escrava, ao contemplar o céu estrelado, exclamava: “Que patrão tão poderoso, que acende tantas luzes!”

Em Veneza foi admitida no Pio Instituto dos Catecúmenos, dirigido pelas Irmãs Canossianas. Em 1889 ela pediu para ficar com as religiosas e que a não forçassem a voltar para casa da família que a havia recebido e agora exigia o seu regresso para a levar consigo para África. Felizmente, as Irmãs conseguiram por meio de um Cardeal que o Governo Italiano declarasse a escrava africana livre, com direito a escolher o seu futuro.

Estando bem instruída nas verdades da fé, no dia 9 de Janeiro de 1890 foi batizada com o nome de Josefina Margarida Fortunata Bakhita. Nesse mesmo dia recebeu o sacramento do Crisma e a Primeira Comunhão. Podemos imaginar os sentimentos de júbilo que inundaram a alma pura daquela jovem sudanesa, que de escrava passou a ser filha de Deus. Estes sentimentos vão renovar-se sete anos mais tarde, a 8 de Dezembro de 1896, quando – depois de haver ingressado no noviciado das Irmãs Canossianas – pronunciou os votos de pobreza, castidade e obediência. Agora era não só filha de Deus, mas também esposa do Cordeiro Imaculado.

Em toda a sua vida, Josefma Bakhita foi profundamente humilde, virtude que a acompanhou até à morte. A par da humildade, sobressaiu na obediência e no amor a Deus e ao próximo, desempenhando com alegria todos os ofícios que as Superioras lhe confiaram: cozinheira, porteira, sacristã e enfermeira. O que mais lhe custou foi ter de percorrer as diversas casas do Instituto numa promoção em favor das missões. Sujeitou-se, no entanto, sem palavra de queixa.

Em 1945 celebrou com alegria os 50 anos de vida consagrada. Os tormentos que padecera na infância deixaram-na marcada para o resto da vida. Com o andar dos anos foram-se acentuando os seus efeitos negativos. Começou por sofrer de artrite e sentir dificuldades na respiração e no caminhar. No Inverno de 1947 foi atacada por uma pneumonia dupla. Sentindo que a morte se aproximava, pediu o sacramento da santa Unção que recebeu com sinais de grande fervor. No dia 8 de Fevereiro desse ano, partiu para os braços do Pai.

Deus, que glorifica os humildes, glorificou a antiga escrava sudanesa com as honras da beatificação – a que assistiram centenas de milhares de pessoas, provenientes de 60 países dos vários continentes – no dia 17 de Maio de 1992. Foi canonizada a 1º de Outubro de 2000.

AAS 71 (1979) 460-4; I. ZANOLINI, Bakhita, Roma, 1961

O espiritismo nega, pelo menos, 40 Verdades da Fé Cristã

1 – O espiritismo NEGA o mistério, e ensina que tudo pode ser compreendido e explicado / o espírita proclama que absolutamente não há mistérios e tudo o que a mente humana não pode compreender, é falso e deve ser rejeitado.

2 – O espiritismo NEGA a inspiração divina da Bíblia / o espírita rejeita a possibilidade do milagre e dogmatiza que também Deus deve obedecer às leis da natureza.

3 – O espiritismo NEGA o milagre / o espírita declara que a Bíblia está cheia de erros e contradições e que nunca foi inspirada por Deus.

4 – O espiritismo NEGA a autoridade do Magistério da Igreja / o espírita declara que os apóstolos e seus sucessores, o Papa e os Bispos, não entenderam os ensinamentos de Cristo e que tudo o que eles nos transmitiram, está errado e falsificado.

5 – O espiritismo NEGA a infalibilidade do Papa / o espírita proclama que os Papas só espalharam o erro e a incredulidade.

6 – O espiritismo NEGA a instituição divina da Igreja / o espírita declara que até a vinda de Allan Kardec a obra de Cristo estava perdida e inutilizada

7 – O espiritismo NEGA a suficiência da Revelação / o espírita proclama que o espiritismo é a terceira revelação, destinada a retificar e mesmo a substituir o Evangelho de Cristo.

8 – O espiritismo NEGA o mistério da Santíssima Trindade / o espírita NEGA este augusto e fundamental mistério da Santíssima Trindade.

9 – O espiritismo NEGA a existência de um Deus Pessoal e distinto do mundo / grande parte dos espíritas afirmam que Deus é a alma do mundo e que os homens são partículas de Deus, professando assim um perfeito panteísmo.

10 – O espiritismo NEGA a liberdade de Deus / muitos espíritas dogmatizam que Deus devia necessariamente desde toda eternidade criar e devia fazer todos os homens iguaizinhos.

11 – O espiritismo NEGA a criação a partir do nada / o espírita dogmatiza que o mundo, ou sempre existiu e apenas se aperfeiçoou, ou é uma emanação de Deus.

12 – O espiritismo NEGA a criação da alma humana por Deus / o espírita dogmatiza que a nossa alma é o resultado de lenta e longa evolução, tendo passado pelo reino mineral, vegetal e animal.

13 – O espiritismo NEGA a criação do corpo humano / o espírita dogmatiza que o primeiro homem era um macaco evoluído.

14 – O espiritismo NEGA a união substancial entre o corpo e a alma / o espírita dogmatiza que é um composto entre perispírito e alma e que o corpo é apenas um invólucro temporário, um “alambique para purificar o espírito”.

15 – O espiritismo NEGA a espiritualidade da alma / o espírita dogmatiza que a alma “é a matéria quintessenciada”.

16 – O espiritismo NEGA a unidade do gênero humano / o espírita fez desta evocação uma nova religião.

17 – O espiritismo NEGA a existência dos anjos / o espírita dogmatiza que não há anjos, mas apenas espíritos mais evoluídos e que eram homens.

18 – O espiritismo NEGA a existência dos demônios / o espírita dogmatiza que não há demônios, mas apenas espíritos imperfeitos, mas que alguma vez alcançarão a perfeição.

19 – O espiritismo NEGA a divindade de Jesus / o espírita NEGA esta verdade fundamental da fé cristã e dogmatiza que Cristo era apenas um grande médium e nada mais.

20 – O espiritismo NEGA os milagres de Cristo / o espírita NEGA as ressurreições e os outros milagres operados por Cristo.

21 – O espiritismo NEGA a humanidade de Cristo / grande parte dos espíritas dogmatiza que Cristo tinha apenas um corpo aparente ou fluídico.

22 – O espiritismo NEGA os dogmas de Nossa Senhora (Imaculada Conceição, Virgindade perpétua, Assunção, Maternidade divina) / o espírita NEGA e ridiculariza todos os privilégios da excelsa Mãe de Jesus.

23 – O espiritismo NEGA nossa Redenção por Cristo (é o mais grave!) / o espírita dogmatiza que Jesus não é nosso redentor, mas apenas veio para ensinar algumas verdades e isso mesmo ainda de um modo obscuro e incerto e que cada um precisa remir-se a si mesmo.

24 – O espiritismo NEGA o pecado original / o espírita dogmatiza que Deus assim seria injusto e por isso NEGA o pecado original.

25 – O espiritismo NEGA a graça divina / o espírita dogmatiza que Deus não pode conceder nem graças nem favores, mas tem que dar a todos exatamente o mesmo.

26 – O espiritismo NEGA a possibilidade do perdão dos pecados / o espírita dogmatiza que Deus não pode perdoar pecados sem que preceda rigorosa expiação e reparação feita pelo próprio pecador, em sempre novas encarnações.

27 – O espiritismo NEGA o valor da vida contemplativa e ascética / o espírita dogmatiza que a penitência voluntária e a contemplação nada valem perante Deus.

28 – O espiritismo NEGA toda a doutrina cristã do sobrenatural / o espírita NEGA qualquer graça santificante e a vida sobrenatural.

29 – O espiritismo NEGA o valor dos Sacramentos / o espírita NEGA toda eficácia sobrenatural dos sacramentos.

30 – O espiritismo NEGA a eficácia redentora do Batismo / o espírita NEGA que Jesus mandou que se batizassem todos os homens para a remissão dos pecados e a infusão da vida sobrenatural.

31 – O espiritismo NEGA a presença real de Cristo na Eucaristia / o espírita ridiculariza a Eucaristia como pura “pantomima e palhaçada do catolicismo”.

32 – O espiritismo NEGA o valor da Confissão / o espírita dogmatiza que cada qual precisa reparar o mal por meio de novas reencarnações, sem o que Deus não pode perdoar pecados.

33 – O espiritismo NEGA a indissolubilidade do Matrimônio / o espírita proclama que o casamento é solúvel e que o divórcio é uma lei natural

34 – O espiritismo NEGA a unicidade da vida terrestre / o espírita dogmatiza que a gente nasce, vive e morre e renasce ainda e progride continuamente.

35 – O espiritismo NEGA o juízo particular depois da morte / o espírita dogmatiza que este juízo particular é pura fantasia e imaginação.

36 – O espiritismo NEGA a existência do Purgatório / o espírita decreta que este purgatório não existe, mas foi inventado pela Igreja para ganhar dinheiro.

37 – O espiritismo NEGA a existência do Céu / o espírita ridiculariza e zomba deste céu como de um lugar de “eterna e fastidiosa ociosidade”.

38 – O espiritismo NEGA a existência do Inferno / o espírita dogmatiza que o inferno foi inventado para assustar crianças.

39 – O espiritismo NEGA a ressurreição da carne / o espírita dogmatiza que não pode haver ressurreição dos mortos.

40 – O espiritismo NEGA o juízo final / o espírita dogmatiza que Jesus não virá para julgar todos os homens.”

Fonte: Friderichs, Edvino A., S.J. – “Caixinha de Perguntas, sobre religião e superstições”, Gráfica Vicentina Ltda. – Editora, 1996, [cf. páginas 54-60]. KLOPPENBURG, Pe Edvino A Friderichs & Frei Boaventura.

 

A RESSURREIÇÃO E A REENCARNAÇÃO

Nós católicos, cremos na ressurreição da carne. É o que nos ensina a Igreja e é o que professamos quando vamos às Missas, ou seja, acreditamos que… da mesma forma que Cristo ressuscitou verdadeiramente dos mortos, e vive para sempre, assim também, depois da morte, os justos viverão para sempre com Cristo ressuscitado e que Ele os ressuscitará no último dia. Como a ressurreição de Cristo, assim também a nossa será obra da Santíssima Trindade. Mas infelizmente, muitas pessoas professam a fé na ressurreição, mas na prática, acreditam na reencarnação. O fato é que a doutrina espírita da reencarnação acaba sendo normal, para aqueles que não conhecem a sua fé, não querem levar a vida a sério e se deixam contaminar pelo espiritismo, que ultimamente vem sendo fortemente divulgado, pelas novelas e pelos apresentadores de programas de TV, que sempre exibem um espaço em seus programas para essa doutrina.
Mas o que é ressurreição da carne? Vejamos o que diz o Catecismo da Igreja Católica: O termo carne designa o homem em sua condição de fraqueza e de mortalidade. A “ressurreição da carne” significa que após a morte não haverá somente a vida da alma imortal, mas que os nossos “corpos mortais” readquirirão vida. Diz a Palavra: “Se o espírito Daquele que ressuscitou Jesus dos mortos habita em vós, ele, que ressuscitou Jesus Cristo dos mortos, também dará a vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós” (Rm 8, 11). E o que é reencarnação? A reencarnação é uma doutrina espírita, sem fundamentos bíblicos. Seus ensinamentos são totalmente contrários à doutrina da ressurreição da carne. Diz o espiritismo: As almas foram todas criadas simples e ignorantes, em igualdade de condições. Enveredam, porém, pelos diversos caminhos do bem e do mal, em virtude de sua liberdade de arbítrio. Devem mediante sucessivas encarnações, purificar-se dos pecados e das paixões imoderadas a fim de atingir a perfeição, o que por certo necessita de muito tempo. A lei do karma, segundo a qual cada um, na encarnação seguinte, paga os desvios da vida anterior, rege as reencarnações do espírito. Ficaram claras, as diferenças entre essas duas doutrinas. Vejamos agora, alguns erros da doutrina da reencarnação, segundo as Escrituras: Quanto às sucessivas encarnações que defende o espiritismo, a palavra é clara; quem morre não volta mais a esse mundo, encarnando-se em outro corpo. Diz a Palavra: “Como está determinado que os homens morram uma só vez, e logo em seguida vem o juízo…” (Hb 9, 27). Quanto à purificação dos pecados mediante sucessivas encarnações, fazendo do homem seu próprio salvador, como afirma o livro espírita: “A salvação não se obtém por graça, nem pelo sangue derramado no madeiro, mas a salvação é o ponto de esforço individual que cada um emprega na medida de suas forças” (O reformador de outubro de 1955, pág. 236). A Palavra nos diz claramente que Jesus é o nosso Salvador, é Ele quem venceu a morte, reconciliou-nos com Deus, abriu-nos o céu e deu-nos a graça da salvação (veja Rm 5, 1-11 e Jo 3, 17). Afirmam os espíritas, através da lei do karma, que pessoas portadoras de deficiências, em outras encarnações, cometeram graves pecados. Deus não é um juiz injusto, ele não condenaria seres inocentes sem que a vítima soubesse, isso é contrário até mesmo a Constituição Brasileira (réu condenado sem saber o porquê). Que dirá a justiça de Deus! Jesus afirmou que essas pessoas sofrem para que manifestemos nelas as obras da misericórdia de Deus (Jo 9, 1-7). Com esses poucos exemplos pudemos perceber que a doutrina da reencarnação nada tem a ver com a ressurreição de Cristo e a nossa. Percebemos que negam pontos importantes da fé cristã, por isso, o católico consciente não pode compactuar com a doutrina da reencarnação. Crer na ressurreição da carne foi desde o início, um elemento essencial da fé cristã. Não façamos confusão, e estejamos atentos para professarmos a nossa fé com coerência!

 

DESCOBRINDO A VERDADE SOBRE O ESPIRITISMO
Padre Léo – 22/11/2003

Se somos cristãos, não podemos nos deixar enganar pelas falsas doutrinas, principalmente por aqueles que pregam e falam sobre a reencarnação, por que somente em Jesus encontramos verdadeiramente a nossa salvação.

Antíoco, rei muito importante, que nome medonho, esse homem foi capaz de dominar o mundo, mas não foi capaz de dominar a si mesmo, morreu de tristeza e de depressão, pensava na morte, por isso antecipava a morte. Antíoco sofria de insônia. A meu Deus, eu não consigo é acordar, quando eu trabalhava na roça, eu dormia era no guidão da bicicleta. Dizia o Rei Antíoco, em que aflição eu fui cair, eu que era bom e querido no tempo do meu poder, Antíoco, Anta oca, você já procurou saber que anta você era na vida passada, saiba se você pensar assim é parente do Antíoco, me recordo dos males de Jerusalém, das jóias, reconheço que foi por causa disso que sofre, pois a pessoa cai na cova que abre. A Bíblia afirma no Salmo 9, 16 que caiu na armadilha que preparou. Os Saduceus vão até Jesus para justificar os seus erros. Vão falar sobre a mulher que matou sete maridos. Ela era prima irmã de Saara que também matou os maridos que tinha o demônio Asmodeu. Os saduceus não foram capazes nem de inventar uma história, eles já vieram com uma história pronta. Jesus falou que o homem no céu, eles serão como anjos, mas após a Ressurreição, não terão mais marido, nem mulher, aqui Jesus está esclarecendo a reencarnação pregada pelo Espiritismo (2000 anos atrás). Alan Kardec, confundiu, fundiu o Cristianismo, o Darvinismo e o Budismo, daí chega ao nirvana, isso é, o nada absoluto, nossa confusão absoluta, daí nasceu o Espiritismo (há 150 Anos atrás). O demônio para ser livre, ele fez uma opção radical contra Deus, por isso é absolutamente impossível o demônio se converter (Catecismo da Igreja Católica). Assim também aqueles que morreram em pecado mortal, também não tem salvação, se você não acredita, deixe de ser católico. Não podemos deixar de falar que nós padres e católicos, esperamos a segunda vinda de Jesus, que virá para julgar como Senhor, como Juiz e como Rei, por isso, não podemos temer o julgamento. Não há a menor possibilidade de uma conciliação mesmo que falemos de ecumenismo entre a teoria da reencarnação e a teologia do cristão. Nós decidimos o destino da nossa alma se fazemos uma opção radical contra Deus, daí quem faz essa opção vai para o inferno. Após o julgamento eternamente no fogo do inferno, só se desespera diante da morte, quem vive a vida de qualquer jeito. Quem se desespera, é peso de consciência, por que em vida, nunca mandou um bilhete, agora que a pessoa morreu, quer falar com a pessoa morta por isso acaba se envolvendo com o espiritismo. Os filhos participam da mesma carne dos pais, Jesus passou pela morte, para destruir a morte, e libertar aqueles que por medo da morte, estavam toda vida sujeitos a escravidão. Somos inteiramente do Senhor Deus. Uma receita: pare, se você passar o sinal vermelho, você vai cair num buraco, por isso é hora de salvar aqueles que estão amarrados ao demônio. Tanta gente boa, como a família do Padre Jonas, graças a Deus acordou a tempo, e por isso hoje, ele padre Jonas, pode abrir o sinal verde do Sim, Sim, que nos leva para o Céu. 2º Tessalonicenses 4, 13 Não queremos que ignoreis coisa alguma a respeito dos mortos, para que não percam as esperanças. Não podemos ter medo da morte, para não irmos em busca das falsas doutrinas, que pregam a reencarnação, a evocação dos mortos etc. Pessoas que vivem no espiritismo, estão fragilizadas. Não tenha medo da morte, lembre-se que Jesus Cristo enfrentou a morte, ele não fugiu da morte. Deus não trouxe a morte, a morte está ligada pelo pecado, o senhor do pecado é o mesmo senhor da morte! Ó feliz culpa de Adão, que nos fez merecer a redenção. O poder redentor do humano está dando show na pessoa do Papa João Paulo II. O mundo Light, o mundo espírita, precisa conhecer o mundo da dor como caminho da redenção, então nos identificamos com as dores de Jesus, Colossensses 3, Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto, buscai a vida plena, não vá buscar a vida eterna na umbanda, quimbanda, qualquer grupo de Umbanda. Repito, Ressurreição e reencarnação, a teoria da reencarnação, não acredita em Jesus como o salvador, a onde você conseguiu chegar sozinho? Não responda, no fundo do poço, pois hoje não resistimos até mesmo a um prato de comida, pelo próprio pecado da gula. As pessoas mais antigas saberão o que vou falar, as pessoas hoje morrem friamente, você vê o seu filho, o seu pai, por um vidrinho. Antigamente morria-se mais humanamente, morria-se em casa, na cama, chamavam-se os parentes, ascendia vela para colocar na mão, chorava-se um pouco, rezava o terço, velava-se em casa. Respeitava-se o luto, tinha missa de Sétimo dia, distribuía-se santinho. Hoje não se saboreia mais a morte, o vizinho mudava a festa pela morte do seu vizinho, antes havia solidariedade, hoje se morre na UTI. O nosso Deus é um Deus da vida, da saúde, unamo-nos a Ele, por que Ele ressuscita.

 

RESSURREIÇÃO SIM! REENCARNAÇÃO NÃO!
“Jesus Ressuscitou, como disse” (Mt 28, 6)

Ao rezarmos pelos nossos queridos falecidos, somos convidados a renovar a fé num artigo que é fundamental para nossa vida cristã e que nos diferencia de outras expressões religiosas. A cada dia, na Eucaristia, na meditação da Palavra de Deus, na oração pessoal e comunitária, no exercício da caridade e na celebração da vida, precisamos renovar a nossa fé. A fé é um dom de Deus. É uma graça. Deus confiou este tesouro a nós. Assim como a vida, Deus nos dá a fé, e espera que nós cuidemos bem, tanto do dom da vida, como do dom da fé. É muito comum ouvirmos as seguintes perguntas: Ressurreição ou Reencarnação? Ou ainda: é possível acreditar nas duas coisas? Ou Um católico pode ser espírita? Diante disso, vamos refletir um pouco mais sobre este tema de grande importância, de modo especial, para nós que queremos ver e seguir Jesus, conhecendo e testemunhando o Seu Evangelho para o mundo e para a humanidade. Nós não podemos “fugir” de temas complexos e nem vivermos como se estas questões não existissem. Pela reflexão podemos aprofundar ainda mais a nossa fé. Pelo estudo temos a chance de tornar a nossa fé ainda mais cristalina. Sendo assim, é bom destacar que pelo título deste artigo já começamos a responder a estas perguntas e a outros possíveis questionamentos: “RESSURREIÇÃO SIM! REENCARNAÇÃO NÃO!”. Lendo e meditando, atentamente, a Bíblia, em nenhum capítulo e em nenhum versículo, do Gênesis ao Apocalipse, encontramos qualquer referência que indique a possibilidade da reencarnação. Fazendo um estudo sério da Bíblia, sem nos deixar influenciar por “leituras tendenciosas” ou interpretações deturpadas, não encontramos nenhum parecer favorável a esta doutrina. Pelo contrário, pelos lábios de Jesus, nos é ensinado: “Eu sou a Ressurreição e a vida. Aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá” (Jo 11, 25). A gente nasce e morre uma única vez. Por isso precisamos viver bem cada instante da nossa história. Depois da morte, vem a Ressurreição: a Vida Eterna! Na Carta aos Hebreus encontramos a comprovação exata que diz: “E como é um fato que os homens devem morrer uma só vez” (Hb 9, 27). Diante da Bíblia não fica nenhuma sombra de dúvida quanto a este tema. Nós cremos e sempre vamos crer na Ressurreição. A Ressurreição significa a vitória da vida sobre a morte. Cristo inaugurou a Ressurreição, garantindo a todos nós a certeza da nossa ressurreição. Pois, como está na Bíblia: “Se Cristo não Ressuscitou, é vã a nossa fé” (1Cor 15, 17). Exatamente, porque Cristo Ressuscitou que a nossa fé não é vã. É na Ressurreição de Jesus e na certeza de que Nele e por Ele nós haveremos de ressuscitar, que a nossa fé se torna sólida, firme e inabalável como a rocha. Um católico praticante e conhecedor da sua fé, mesmo que desejasse, não conseguiria ser espírita. É bom que fique bem claro, que isto não tem nada haver com discriminação ou preconceito. E sim, um esclarecimento catequético para melhor vivermos a nossa fé católica. Pois, as duas doutrinas são opostas. Não se pode acreditar ao mesmo tempo na Doutrina da Ressurreição e na Doutrina da Reencarnação. Nós católicos, com base na Bíblia, na Tradição e no Magistério da Igreja, acreditamos de todo coração na Ressurreição. A Ressurreição é a base da nossa fé. E ao acreditarmos, de todo coração, na Ressurreição, fica descartada, a idéia da Reencarnação. A Santa Mãe Igreja nos ensina que nós viemos ao mundo, pela Graça de Deus. Aqui vivemos como peregrinos, a caminho da Jerusalém Celeste, ou seja, do Paraíso. E para passarmos da vida terrena para a vida celeste, experimentamos a morte, não como derrota, mas como passagem para a Glória de Deus. O processo é assim: concepção, gestação, nascimento, morte e ressurreição. O Mistério Pascal de Cristo: Paixão, Morte e Ressurreição, é a garantia de que existe Vida Eterna! Que existe Ressurreição! Como padre católico, desejo respeitar a todos. Sei que há pessoas que acreditam diferente de nós. Contudo, sem faltar com o respeito com meus irmãos quero, em primeiro lugar, respeitar a Jesus e proclamar a sua Santa Palavra. Só há diálogo inter-religioso se temos clareza quanto a nossa fé! Quando dialogamos não devemos colocar tudo misturado, mas sublinhar bem as nossas diferenças que revelam nossas identidades singulares. E é por isso que cada católico precisa ter claro, na mente e no coração, a certeza da Ressurreição da carne e a certeza da Vida Eterna! É a certeza da Ressurreição que nos consola na hora da dor e da saudade de um familiar ou amigo nosso que parte para a Eternidade. Nós podemos até chorar diante da morte. A morte é uma experiência muito difícil, inclusive para nós que cremos. O próprio Jesus, o Autor da vida, chorou diante da morte. A morte é um drama. Mas, a morte não tem e nunca terá a última palavra sobre nós. A vida é que tem. “Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6). Jesus que é Vida nos dá a garantia da Vida Eterna, onde não haverá nem lágrima e nem dor. Às vezes, na hora do sofrimento, por conta da morte de alguém muito próximo de nós surge o desespero e a vontade enorme de uma resposta imediata, de uma explicação clara e palpável. É neste momento, que muitos se deixam “seduzir” por doutrinas como a da Reencarnação. Por isso, mais do que nunca, renovemos, pratiquemos e professemos a nossa fé, que de Cristo nós recebemos: “cremos na ressurreição da carne; cremos na vida eterna” (Credo Apostólico). É somente pela fidelidade à nossa fé que seremos verdadeiramente consolados e fortalecidos em todas as situações da nossa vida. Se estivermos convictos na certeza da Ressurreição nada e nem ninguém poderá nos confundir; e aconteça o que acontecer iremos sempre testemunhar: RESSURREIÇÃO SIM! REENCARNAÇÃO NÃO!

 

RESSURREIÇÃO E REENCARNAÇÃO
A doutrina espírita nega a redenção dos pecados realizada por Cristo no Calvário. É o que verificamos claramente nas palavras de Leão Denis, famoso escritor kardecista: “Não, a missão de Cristo não era resgatar com o seu sangue os crimes da humanidade. O sangue, mesmo de um Deus, não seria capaz de resgatar ninguém. Cada qual deve resgatar-se a si mesmo, resgatar-se da ignorância e do mal” (Leão Denis, “Cristianismo e espiritismo”, p. 88). Este escritor espírita, em suas palavras, apenas repete a doutrina que Kardec ensina no Livro dos Espíritos com relação à redenção. Kardec, no entanto, não usa o termo redenção, mas fala em “expiação”. Passo a citar-lhe então palavras de Kardec acerca da “expiação” dos pecados, retiradas todas do Livro dos Espíritos do Kardec (FEB, 76ª edição, 1944): “…ensinam também [os espíritos superiores] não haver faltas irremissíveis, que a expiação não possa apagar. Meio de consegui-lo encontra o homem nas diferentes existências que lhe permitem avançar, conformemente aos seus desejos e esforços, na senda do progresso, para a perfeição, que é o seu destino final” (Introdução VI, p.27); q. 998: expiação se cumpre no estado corporal ou no estado espiritual? “A expiação se cumpre durante a existência corporal, mediante as provas a que o Espírito se acha submetido e, na vida espiritual, pelos sofrimentos morais, inerentes ao estado de inferioridade do Espírito” (p. 461); q. 999: Basta o arrependimento durante a vida para que as faltas do Espírito se apaguem e ele ache graça diante de Deus? “O arrependimento concorre para a melhoria do Espírito, mas ele tem que expiar o seu passado” (p. 461); “…para alcançarem essa perfeição, [os Espíritos] têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação” (q. 132, p. 103). “Toda falta cometida, todo mal realizado é uma dívida contraída que deverá ser paga; se não for em uma existência, sê-lo-á na seguinte ou seguintes” (Allan Kardec, “O céu e o inferno”, p. 88). Note nestas palavras que, segundo Kardec, não é Cristo que nos redime, mas somos nós mesmos que alcançamos nossa salvação por meio das diferentes existências, isto é, por meio da reencarnação. Disso decorre que a doutrina da reencarnação vai diametralmente contra as palavras do próprio Cristo, que disse: “Isto é o meu sangue (…) o qual será derramado por muitos para remissão dos pecados” (Mt 26, 28). E vai contra também as palavras de São Paulo: “É nele [em Cristo] que temos a redenção pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo as riquezas da sua graça a qual ele derramou abundantemente sobre nós” (Ef 1, 7). Esta divergência entre os ensinamentos de Cristo e a doutrina espírita provam como o kardecismo não é cristão, e que os espíritas só falam de Cristo para atrair cristãos para seus centros, a fim de os desviar do reto caminho.

 

ESPIRITISMO E SEUS ERROS
A Sagrada Escritura nega a Reencarnação

A morte é uma conseqüência do Pecado Original. Quem nos traz a vida, novamente, é Nosso Senhor Jesus Cristo, através da Redenção. Não há segunda chance, como está em São Paulo: “Está decretado que o homem morra uma só vez, e depois disto é o julgamento” (Hb 9, 27). “Assim o homem, quando dormir, não ressuscitará, até que o céu seja consumido, não despertará, nem se levantará de seu sono” (Jó 14, 12). A doutrina espírita, com o seu reencarnacionismo, defende que o homem é o seu próprio salvador. Cada um se “auto-salva” através da iluminação progressiva. Portanto, há uma negação da Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo. A tese de que São João Batista é Elias reencarnado, como eles defendem, não procede, visto que São João respondeu peremptoriamente a uma comissão de judeus que o interrogavam a respeito: “Não sou Elias” (Jo 1, 21). Depois, na própria Transfiguração do Tabor, apareceram Elias e Moisés. Ora, pela tese espírita, o espírito toma a forma do último corpo que habitou. Como São João já havia morrido, não seria possível ele aparecer como Elias… As palavras de Nosso Senhor só podem ser entendidas no sentido que a Igreja ensina, ou seja, que São João Batista era como um outro Elias. Se assim não for, a Bíblia estaria em contradição e a própria tese espírita-cristã ficaria sem fundamento. A morte é, pois, uma conseqüência do pecado e um castigo sobre os homens, que precisam da graça que nos vem através da Redenção. Onde está escrito que a Ressurreição será em nosso mesmo corpo? A Ressurreição da carne é um dogma católico constante no Credo. Base da Fé católica. Na Sagrada Escritura, são inúmeros os trechos que afirmam, explicitamente, a ressurreição de nossa mesma carne. Jó, no meio de seus sofrimentos (com sua carne já corrompida pela lepra), consolava-se com a lembrança da sua futura ressurreição (Jó 19, 35), os irmãos Macabeus também (2Mac 7, 2). Marta também disse a Nosso Senhor: “Sei que meu irmão há de ressurgir na ressurreição que haverá no último dia” (Jo 11, 24). Não apenas os santos ressuscitarão, mas também os réprobos (Jo 5, 28; Mt 25, 31). Além disso, a ressurreição de todos os homens será instantânea e universal (1Cor 15, 62). Nosso Senhor Jesus Cristo declarou muitas vezes que ressuscitaria os mortos: “Virá uma hora em que todos os que se acham nos sepulcros ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que obraram bem, sairão para a ressurreição da vida; mas os que obraram mal, sairão para a ressuscitados para a condenação” (Jo 5, 28). E: “O que come a minha carne e bebe o meu sangue, tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6, 55). Cristo provou, diversas vezes, que tem o poder de ressuscitar os mortos e nos disse: “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11, 25).  Ao mesmo tempo, se só a alma fosse punida ou recompensada, a retribuição aos méritos dos homens não seria perfeita. Diz Tertuliano: “porque muito boas obras, como o jejum, a castidade, o martírio, não podem ser realizadas senão por meio do corpo, é, pois justo que ele participe da felicidade da alma”. “Quando, diz Teodoreto, se levanta uma estátua a um general vitorioso, gosta-se de representá-lo com a armadura que usava no combate; e a alma não deveria ser glorificada no corpo em que venceu o seu inimigo?” “A retribuição é, pois, a razão última da ressurreição” (Tert).  Depois, Cristo quis salvar o homem todo, em corpo e alma; se, portanto, pelo seu sacrifício só tivesse salvado a alma, sem o corpo, a redenção seria incompleta (Tert.); o demônio, na sua obra de destruição, teria sido mais poderoso que Cristo na sua obra de restauração; isto é impossível: o triunfo de Cristo foi completo. “Por um só homem entrou a morte no mundo, e por um só homem a ressurreição” (1Cor 15, 2). (apud. Francisco Spirago “Catecismo Popular”)   Podemos transcrever citações múltiplas na mesma linha, o que não deixa margem à dúvidas em relação à ressurreição da carne: “Este [corpo] corruptível revestirá a incorruptibilidade e este [corpo] mortal, a imortalidade” (1Cor 15, 52). “Nós teremos, portanto, os mesmos corpos e não outros novos, a fim de que um receba o que é devido às boas ou más ações que houver praticado enquanto andava revestido do seu corpo” (2Cor 5, 10). Filosoficamente, explica Santo Tomás de Aquino: “Ainda que dentro de 10 ou 12 anos todas as moléculas materiais do nosso corpo hão de estar mudadas, o nosso corpo conserva-se idêntico a si próprio, porque o princípio, a substância são os mesmos; assim os corpos ressuscitados conservarão a sua identidade, ainda quando todas as moléculas materiais lhes não fossem restituídas” (Santo Tomás de Aquino). A comunicação com os mortos é real ou ilusória Existe a possibilidade de almas que estão no purgatório pedirem orações pelos vivos. Todavia, a comunicação com os mortos nunca pode ser provocada: “Não se ache no meio de ti quem pratique a adivinhação, o sortilégio, a magia, o espiritismo, a evocação dos mortos: porque todo homem que fizer tais coisas constitui uma abominação para o Senhor” (Dt 18, 9-14) As diversas condenações ao espiritismo na Sagrada Escritura “Se uma pessoa recorrer aos espíritos, adivinhos, para andar atrás deles, voltarei minha face contra essa pessoa e a exterminarei do meio do meu povo”. “Qualquer mulher ou homem que evocar espíritos, será punido de morte” (Lev 20, 6 – 27). Em Isaías, vemos que é do espiritismo que se trata, quando Deus fala de feitiçaria, adivinho, etc… pois no cap. 8, 19, se lê a queixa de Deus “Acaso não consultará o povo o seu Deus? Há de ir falar com os mortos acerca dos vivos”? Em Jeremias lemos: “Não vos seduzam os vossos profetas, nem os vossos adivinhos… eu não os enviei” (19, 8-9). No Levítico (20, 27), Deus ordena a pena de morte de apedrejamento contra os pitões e adivinhos, que seriam – e eram de verdade – como os médiuns e esoteristas de hoje (vê-se isso especialmente em Isaías 47, 13). No Deuteronômio (13, 1 a 5) se encontram passagens bem sugestivas de como Deus se ira contra os que forjam religiões falsas: “Quando profeta ou sonhador de sonhos se levantar no meio de ti e te der um sinal ou prodígio e suceder tal sinal ou prodígio… não ouvirás as palavras de tal profeta e sonhador, porquanto o Senhor vosso Deus vos prova se amais o Senhor vosso Deus… E aquele profeta sonhador de sonhos morrerá, pois falou rebeldia contra o Senhor vosso Deus.” A quem consultar? A Deus ou aos espíritos? Além disso, temos o fato de que esses espíritos entram em contradição entre si (Ver “O Livro dos Espíritos” cap. V, n. 222, p. 139, do próprio Alan Kardec). Mesmo em relação à reencarnação, os espíritos divergem em seus pronunciamentos (“Livro dos Médiuns” C. 27, n. 8, p. 338). A Igreja católica considera que esses espíritos podem ser demônios (como descreve a Sagrada Escritura) ou simples manifestações subjetivas dos envolvidos (como descreve a psicologia). Como explicar o sofrimento na visão católica Sobre o sofrimento, o que ocorre é que a mentalidade do século XXI é muito influenciada por uma visão de “gozo da vida”. Nosso Senhor, que não tinha nenhum pecado, sofreu por todos nós. Santa Terezinha do Menino Jesus, quando descobriu sua doença (tuberculose), ficou muito feliz por poder sofrer em união à Cristo. Ensina São Paulo: “Agora eu me regozijo nos meus sofrimentos por vós, e completo, na minha carne, o que falta das tribulações de Cristo” (Colossenses 1, 24). Nosso Senhor também disse: “quem quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. Ora, a vida do católico (e de toda a criatura), nesta terra, é um “vale de lágrimas”. O sofrimento é um sinal de benção de Deus, que ama seus filhos e os ajuda e chegarem até Ele. Quando você conhecer alguém que não tenha sofrimento, desconfie. Ele pode estar recebendo nessa terra o pagamento pelo que já fez de bom, pois não receberá na eternidade… O homem justo expia os seus pecados e os dos outros, como Cristo expiou por nós na Redenção. Existe um livro muito interessante, chamado “carta do Além”, que não tem nada de espírita. Trata-se de um sonho de uma freira. Nesse sonho, essa freira recebe uma carta de uma antiga amiga, que havia sido condenada ao inferno. Depois de ler a carta, ela transcreve em um papel. Nesse documento, a amiga diz, claramente, que Deus já tinha dado a ela, durante a sua vida, tudo o que lhe era de “direito”, por cada ato bom que, em algum momento de sua vida, ela havia feito. Voltando ao sofrimento, hoje é pouco conhecido o motivo que leva o Padre, durante o ofertório, a acrescentar uma gota de água ao vinho que será transformado no Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Essa gota de água é o nosso sofrimento, de cada homem, que é unido ao sofrimento de Cristo, segundo nos ensina São Paulo, como já visto: “Agora eu me regozijo nos meus sofrimentos por vós, e completo, na minha carne, o que falta das tribulações de Cristo” (Colossenses 1, 24). Quanto mais uma pessoa pode sofrer pelos outros (e por si), tanto mais ela se aproxima de Deus por seus méritos e pela assistência de que necessita. Pode-se observar que, normalmente, quanto mais sofrida é a pessoa, tanto mais ela tem Fé em Deus. O sofrimento aproxima o homem de seu criador, assim como uma criança procura seu pai quando não consegue resolver por si mesma algum problema. Portanto, não devemos nos assustar com pessoas que sofrem mais do que outras. Elas foram chamadas a uma vocação específica e muito grande. Elas compram graças para os outros e intercedem, com seus sofrimentos, junto ao trono de Deus. Temos o caso de Jó, na Sagrada Escritura. Como Jó era fiel, o demônio dizia que a fidelidade dele advinha do fato de que ele tinha riquezas. Deus, então, permitiu que o demônio retirasse a riqueza de seu servo Jó. E assim foi. Jó ficou pobre e, na sua pobreza, bendizia ao Senhor seu Deus: “Deus me deu, Deus me tirou, louvado seja o santo nome de Deus”. O demônio, ainda não satisfeito, afirmou que ele era fiel apenas por que tinha uma família muito boa e com muitos filhos. Novamente, Deus permitiu que o demônio atentasse contra a família de Jó. Morreram os seus filhos, ficou apenas a sua mulher. Esta, para provocar a Jó, dizia que ele deveria maldizer a Deus. Jó, porém, repetia: “Deus me deu, Deus me tirou, louvado seja o santo nome de Deus!”. O demônio continuava insatisfeito e lançou sua última carta: retirou a saúde do grande homem que os séculos cantam e glorificam em sua paciência. Jó, conta a Sagrada Escritura, ficou com a pior doença da época: a lepra. No monte de sua desgraça, Jó repetia: “Deus me deu, Deus me tirou, louvado seja o santo nome de Deus!”. Depois de tantas provas de fidelidade, Deus restituiu a saúde, a família e o dinheiro a Jó. Esse é o amor filial, o amor de reverência, o amor de adoração que se deve a Deus. Jó é um dos maiores homens do Antigo Testamento! Ele foi grande por quê? Porque soube amar a Deus no seu sofrimento. Soube se entregar por inteiro ao seu criador, de quem recebeu tudo sem nenhum mérito. Agora, ele retribuía com um pouco o muito que recebera: a sua existência. Deus nos convida a tomarmos a nossa “Cruz” e a “segui-lo”.
O Demônio é o pai da gnose, fundamento do Espiritismo. O demônio é o pai do espiritismo. Ele não é um “estado de espírito”, mas o autor da religião gnóstica (fundamento do espiritismo). Foi dele o primeiro brado igualitário do mundo: “Não servirei!”. Foi com a mesma falácia que ele tentou Eva: “Se comeres desse fruto, sereis iguais a deus”. A gnose preceitua exatamente a igualdade dos homens com Deus, tanto em seu fundamente filosófico, como em sua doutrina da reencarnação e da iluminação evolucionista. Na Sagrada Escritura fica claro que o demônio é um ser criado, que se revoltou (através do seu livre-arbítrio) contra o seu criador. Tanto anjos como demônios podem interferir na vida dos homens, assim como podem se manifestar com vozes e se materializar em corpos (ou possuí-los).

São Brás, Bispo e Mártir – 03 de Fevereiro

(Revista Arautos do Evangelho, Fevereiro/2002, n. 2, p. 22-23)

De onde vem esse costume singular, de pedir a São Brás a cura das doenças de garganta?
Convidamos o leitor a reviver os fatos maravilhosos da vida deste mártir dos primeiros tempos do cristia­nismo, nos quais encontrará a origem da poderosa intercessão de São Brás. Neste dia, lembramos a vida São Brás, venerado tanto no Oriente como no Ocidente, nasceu na Armênia, no século III, foi médico e bispo em Sebaste. Como médico, usava dos seus conhecimentos para resgatar a saúde, não só do corpo, mas também da alma, pois se ocupava em evangelizar os pacientes. No tempo deste santo aconteceu uma forte perseguição religiosa, por isso, como santo bispo, procurou exortar seus fiéis à firmeza da fé. Por sua vez, São Brás, que era testemunho de segurança em Deus, retirou-se para um lugar solitário, a fim de continuar governando aquela Igreja, porém, ao ser descoberto por soldados, disse: “Sede benditos, vós me trazeis uma boa-nova: que Jesus Cristo quer que o meu corpo seja imolado como hóstia de louvor”. Morreu em 316. Quando as perseguições começaram sob o Imperador Dioclecius (284-305). São Brás fugiu para uma caverna onde ele cuidou dos animais selvagens. Anos mais tarde, caçadores o encontraram e o levaram preso para o governador Agrícola, da Capadócia na Baixa Armênia, durante a perseguição do então Imperador Licinius Lacinianus (308-324). São Brás foi torturado com ferros em brasa e depois foi decapitado. O costume de abençoar as gargantas no seu dia continua até hoje, sendo usadas velas nas cerimônias comemorativas. São utilizadas para lembrar o fato da mãe do menino curado por São Brás, ter levado a ele velas na prisão. Muitos eventos miraculosos são mencionados nos estudos sobre São Brás e é muito venerado na França e Espanha. Suas relíquias estão em Brusswick, Mainz, Lubeck, Trier e Cologne na Alemanha. Na França em Paray-le-Monial. Em Dubrovnik na antiga Iugoslávia e em Roma, Taranto e Milão na Itália. Na liturgia da Igreja Católica São Brás é mostrado com velas nas mãos e em frente a ele, uma mãe carregando uma criança com a mão na garganta, como pedindo para ele curá-la. Daí se originou a benção da garganta no seu dia.

Aos pés de uma montanha, numa gruta, nos campos de Sebaste, na Armênia, morava um homem puro e inocente, doce e modesto. O povo da cidade, movido pelas virtudes do Santo Varão, inspirado pelo Espírito Santo, o escolheu como Bispo. Os habitantes da cidade, e até os animais, iam procurá-lo, para obter alívio de seus males. Um dia, os soldados de Agrícola, governador da Capadócia, procuravam feras nos campos de Sebaste, para martirizar os cristãos na arena, quando depararam com muitos animais ferozes de todas as espécies, leões, ursos, tigres, hienas, lobos e gorilas convivendo na maior harmonia. Olhando-se estupefatos e bo­quiabertos, perguntavam-se o que acontecia, quan­do da negra gruta surge, da escuridão para a luz, um homem caminhando entre as feras, levantando a mão, como que abençoando-as. Tranqüilas e em ordem voltaram para suas covas e desertos de onde vieram. Um enorme leão de juba ruiva permaneceu. Os soldados, mortos de medo, viram-no levantar a pata e logo após, Brás aproximou-se dele para extrair-lhe uma farpa que lá se cravara. O animal, tranqüilo, foi-se embora. Sabendo do fato, o governador Agrícola mandou prender o homem da caverna. Brás foi preso sem a menor resistência. Não conseguindo vergar o santo ancião, que se recusou a adorar os ídolos pagãos, Agrícola mandou que o açoitassem e depois o prendessem na mais negra e úmida das masmorras. Muitos iam procurar o Santo Bispo, que os aben­çoava e curava. Uma pobre mulher o buscou, aflita, com seu filho nos braços, quase estrangulado por uma espinha de peixe que lhe atravessava a garganta. Comovido com a fé daquela pobre mãe, São Brás passou a mão na cabeça da criança, ergueu os olhos, rezou por um instante, fez o sinal da cruz na garganta do menino e pediu a Deus que o acudisse. Pouco depois a criança ficou livre da espinha que a maltra­tava. Por várias vezes o santo foi levado à presença de Agrícola, mas sempre perseverava na fé de Jesus Cristo. Em revide era supliciado.

Movido por sua fidelidade e amor a Nosso Senhor Jesus Cristo, São Brás curava e abençoava. Sete mulheres que cui­da­ram de suas fe­ridas, provocadas pelos suplícios de Agrícola, fo­ram também castigadas. Depois o governador foi informado que elas haviam atirado seus ídolos no fundo de um lago próximo, e mandou matá-las. São Brás chorou por elas e Agrícola, enfurecido, con­denou-o à morte, decretando que o lançassem no lago. Brás fez o sinal da cruz sobre as águas e avançou sem afundar. As águas pareciam uma estrada sob seus pés. No meio do lago parou e desafiou os soldados: – Venham! Venham e ponham à prova o poder de seus deuses! Vários aceitaram o desafio. Entraram no lago e afundaram no mesmo instante. Um anjo do Senhor apareceu ao bom Bispo e ordenou que voltasse à terra firme para ser martirizado. O governador o condenou à decapitação. Antes de apresentar a cabeça ao carrasco, São Brás suplicou a Deus por todos aqueles que o haviam assistido no sofrimento, e também por aqueles que lhe pedissem socorro, após ter ele entrado na glória dos céus. Naquele instante, Jesus lhe apareceu e prometeu conceder-lhe o que pedia. Morreu São Brás em plena época de ascensão do Cristianismo, em Sebaste, a 3 de fevereiro. Era natural da Armênia. Brás, brasa, chama do amor de Deus, da fé, do amor ao próximo. A vida heróica de São Brás é um estímulo para que mantenhamos também acesa em nossas almas a brasa da fé, que em meio às trevas sempre arda de zelo, fidelidade e intrepidez a favor do bem. Dentre os milagres que cercaram a vida deste grande santo, há um que chama particularmente a atenção: seu domínio sobre os animais ferozes, que, na companhia do santo, se tornavam mansos como cordeiros.

Qual o sentido de tal fato? No Paraíso Terrestre, antes do pecado original, Adão e Eva tinham poder sobre os animais, que vi­viam em harmonia com o homem, e o serviam. Como castigo do primeiro pecado, que foi uma revolta contra Deus, a natureza se insurgiu contra o violador da ordem, e os animais passaram a hostilizar o homem. Pelo apaziguamento que São Brás operava sobre os animais selvagens, quis Deus mostrar aos peca­dores o poder da virtude, que ordena até a natureza indomável das feras. Hoje em dia, a humanidade geme sob o peso do caos, provocado pelo pecado. E os homens praticam atos de ferocidade nunca vistos. Procuremos a so­lução para a desordem do mundo na Lei de Deus. Pela força da virtude, não só os homens, mas também a própria natureza entrará em ordem. E então que belezas não surgirão de uma sociedade, onde todos pratiquem o bem e amem a verdade?

 

São Brás e sua bênção
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha(MG)

Conhecido como um dos 14 “santos auxiliares” – grupo dos santos que, desde o século XIV são famosos, pela eficácia de sua intercessão contra várias enfermidades, São Brás, segundo a tradição, nasceu em Sebaste, na Armênia, e foi bispo dessa cidade. As informações históricas são escassas. A lenda preencheu os vazios, adornando a sua vida com relatos milagrosos que fizeram dele um dos santos mais populares da Idade Média. Parece ter sofrido martírio durante a perseguição de Licínio, no século IV. Este mandou prendê-lo numa gruta ou cova que lhe servia de refúgio para suas fugas da cidade. Dali se aproximava, segundo a lenda, até as próprias feras para serem curadas. Um dia, recorreu a ele uma mãe pedindo-lhe que auxiliasse seu filho que estava asfixiando-se por causa de uma espinha de peixe que se havia atravessado em sua garganta. O santo curou-o fazendo o sinal da cruz. Estando mais tarde no cárcere, a mesma mulher trouxe-lhe alimentos e velas. Daí vem à tradição de que aos que sofrem da garganta, se lhes aplica duas velas enquanto se invoca o santo. Ele foi decapitado por volta de 316. Que possamos pedir a São Brás que nos livre de todos os males da garganta e que possamos sempre anunciar, com força o Evangelho da Vida!

O SENTIDO DA BÊNÇÃO DA GARGANTA 

São Brás nasceu em Sebaste, cidade da Armênia, no fim do século III. Era médico, mas abandonou tudo para se dedicar inteiramente ao serviço de Deus, numa vida solitária e penitente.
Segundo a tradição, vivia na gruta do Monte Argeu, rodeado de animais selvagens, mas obedientes às suas ordens. E a ele recorriam numerosas pessoas, buscando alento para suas aflições.
Foi aclamado pelo povo bispo de Sebaste e sofreu o martírio durante a perseguição de Licínio, em 323, pelas mãos de Agrícola, governador da Capadócia.
Um dia recorreu a ele uma mãe pedindo-lhe que auxiliasse seu filho que estava asfixiando-se por causa de uma espinha de peixe que se havia atravessado em sua garganta. O santo curou-o fazendo o sinal da cruz. Estando mais tarde no cárcere, a mesma mulher trouxe-lhe alimentos e velas. Daí vem à tradição de que aos que sofrem da garganta, se lhes apliquem duas velas, enquanto se invoca o santo; “Por intercessão de São Brás, te livre Deus do mal da garganta e de qualquer outro mal”.
São Brás é o protetor contra as doenças da garganta e a festa dedicada a ele é no dia 3 de fevereiro. Vamos acorrer no dia de hoje em nossas Igrejas pedindo aos nossos sacerdotes a bênção da garganta para que Deus nos livre dos males da garganta, amém!

 

ORAÇÃO A SÃO BRÁS

Ó Bem-aventurado São Brás, que recebestes de Deus o poder de proteger os homens contra as doenças da garganta e outros males, afastai de mim a doença que me aflige, conservai a minha garganta sã e perfeita para que eu possa falar corretamente e assim proclamar e cantar os louvores de Deus.
Eu vos prometo, São Brás, que a fala que sair da minha garganta será sempre:
De verdade e não de mentira.
De justiça e não de calúnias.
De bondade e não de aspereza.
De compreensão e não de intransigência.
De perdão e não de condenação.
De desculpa e não de acusação.
De respeito e não de desacato.
De conciliação e não de intriga.
De calma e não de irritação.
De desapego e não de egoísmo.
De edificação e não de escândalo.
De ânimo e não de derrotismo.
De conformidade e não de lamúrias.
De amor e não de ódio.
De alegria e não de tristeza.
De fé e não de descrença.
De esperança e não de desespero.
São Brás, conservai minha garganta livre daquela doença braba, para que minhas palavras possam louvar a Deus, meu Criador, e agradecer a Vós, meu protetor.
Assim seja.

IV Domingo do Tempo Comum – Ano C

Por Frei Raniero Cantalamessa, OFMCap

Se não tenho amor… 
Jr 1, 4-5.17-19; 1Cor 12, 31-13, 13; Lc 4, 21-30

Dedicamos nossa reflexão à segunda leitura, onde encontramos uma mensagem importantíssima. Trata-se do célebre hino à caridade, de São Paulo. Caridade é o termo religioso para dizer amor. Portanto, trata-se de um hino ao amor, talvez o mais célebre e sublime que se tenha escrito até hoje. Quando o cristianismo apareceu no âmbito do mundo, o amor havia tido já diversos cantores. O mais ilustre tinha sido Platão, que havia escrito sobre ele um tratado inteiro. O nome comum do amor era então Eros (daí os termos atuais erótico e erotismo). O cristianismo percebeu que esse amor passional de busca e de desejo não bastava para expressar a novidade do conceito bíblico. Por isso evitou completamente o termo Eros e o substituiu com o de ágape, que se deveria traduzir por dileção ou caridade, se este termo não tivesse sido adquirido já um sentido demasiado restringido (fazer caridade, obras de caridade). A diferença principal entre os dois amores é esta. O amor de desejo, o erótico, é exclusivo; ele se consuma entre duas pessoas; a intromissão de uma terceira pessoa significaria seu final, a traição. Às vezes, até a chegada de um filho pode pôr em crise esse tipo de amor. O amor de doação, o ágape, pelo contrário, abraça todos, não pode excluir ninguém, nem sequer o inimigo. A fórmula clássica do primeiro amor é a que ouvimos nos lábios de Violeta na Traviata de Verdi: «Ama-me Alfredo, ama-me quanto eu te amo». A fórmula clássica da caridade é aquela de Jesus, que diz: «Como eu vos amei, amai-vos uns aos outros». Esse é um amor feito para circular, para expandir-se. Outra diferença é esta. O amor erótico, na forma mais típica, que é o enamoramento, por sua natureza, não dura muito tempo, ou dura só mudando de objeto, isto é, enamorando-se sucessivamente de várias pessoas. Da caridade, São Paulo diz, ao contrário, que «permanece», ainda mais, é o único que permanece eternamente, inclusive depois de que tenham cessado a fé e a esperança. Entre os dois amores, contudo, – o de busca e o de doação – não existe separação clara nem contraposição, mas desenvolvimento, crescimento. O primeiro, o Eros, é para nós o ponto de partida; o segundo, a caridade, o ponto de chegada. Entre ambos existe todo o espaço para uma educação ao amor e um crescimento nele. Tomemos o caso mais comum, que é o amor de casal. No amor entre esposos, no princípio prevalecerá o Eros, a atração, o desejo recíproco, a conquista do outro e, portanto, um certo egoísmo. Se esse amor não se esforça por enriquecer-se, pouco a pouco, de uma dimensão nova, feita de gratidão, de ternura recíproca, de capacidade de esquecer-se pelo outro e de projetar-se nos filhos, todos sabemos como acabará. A mensagem de Paulo é de grande atualidade. O mundo do espetáculo e da publicidade parece hoje empenhado em incutir nos jovens que o amor se reduz ao Eros, e o eros ao sexo. Que a vida é um idílio contínuo em um mundo onde tudo é belo, jovem, saudável; onde não existe velhice, doença, e todos podem gastar o quanto quiserem. Mas esta é uma colossal falsidade que gera expectativas desproporcionadas, que desilude, provocando frustrações, rebelião contra a família e a sociedade, e abre com freqüência a porta ao delito. A Palavra de Deus nos ajuda a que não se apague totalmente nas pessoas o sentido crítico frente ao que diariamente lhe é proposto.

 

Evangelho segundo São Lucas 4, 21-30
Começou, então, a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir.» Todos davam testemunho em seu favor e se admiravam com as palavras repletas de graça que saíam da sua boca. Diziam: «Não é este o filho de José?» Disse-lhes, então: «Certamente, ides citar-me o provérbio: ‘Médico, cura-te a ti mesmo.’ Tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaúm, fá-lo também aqui na tua terra.» Acrescentou, depois: «Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria. Posso assegurar-vos, também, que havia muitas viúvas em Israel no tempo de Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a terra; contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas sim a uma viúva que vivia em Sarepta de Sídon. Havia muitos leprosos em Israel, no tempo do profeta Eliseu, mas nenhum deles foi purificado senão o sírio Naaman.» Ao ouvirem estas palavras, todos, na sinagoga, se encheram de furor. E, erguendo-se, lançaram-no fora da cidade e levaram-no ao cimo do monte sobre o qual a cidade estava edificada, a fim de o precipitarem dali abaixo. Mas, passando pelo meio deles, Jesus seguiu-o seu caminho.

Por Pe. Fernando José Cardoso

No quarto domingo do tempo comum a Igreja nos faz refletir sobre o discurso inaugural Lucano de Jesus em Nazaré, sua pátria. Depois de um primeiro momento de admiração mostra-nos o evangelista o escândalo dos compatriotas de Jesus. “É este o filho do carpinteiro, o filho de Maria, nós o conhecemos há anos. Cresceu no nosso meio. Nunca foi diferente e agora se mostra repleto do espírito de Deus, profeta de boa nova e de Evangelho?” Escandalizaram-se. E aquele escândalo foi o primeiro de uma série de outros escândalos que se sucederiam, não apenas na vida de Jesus, mas na vida da Igreja também. Não é verdade que ainda hoje se escandaliza com a Igreja por ser demasiadamente humana? Não é verdade que ainda hoje se escandaliza com a Igreja por conter em seu seio sacerdotes que não a dignificam com a própria vida e conduta? Não é verdade que ainda hoje se escandaliza com a Igreja por causa de tantos católicos que dão mau exemplo dentro dela, e são espetáculo deprimente ao mundo? Sim, ainda hoje o que aconteceu em Nazaré repercute no meio da Igreja e no meio das nossas comunidades. Jesus, no entanto se defende com um provérbio: “Certamente me direis: médico cura-te a ti mesmo, o que fizeste em Cafarnaum faze-o aqui na tua terra”. É um pecado grande exigir de Deus milagres atuais. Quando Deus deliberadamente realiza um gesto miraculoso, não é que Ele queira chamar a atenção de todos sobre o extraordinário. Quando Jesus curou, por exemplo, um cego ou um paralítico, não era sobre o maravilhoso natural e material que Ele queria chamar atenção. Ele queria mostrar que é capaz de curar outras tantas cegueiras espirituais mais nefastas do que aquela, outras tantas paralisias espirituais mais dolorosas e de maiores conseqüências trágicas. Tornemos a Igreja tanto quanto depende de nós, menos sujeita a críticas. Em segundo lugar, não exijamos de Deus milagres na ordem natural, saibamos que os milagres realizados por Sua livre iniciativa, na ordem natural, são apenas sinais que apontam numa outra direção, na direção do espiritual e desta maneira nós continuamos a ser evangelizados por Lucas.

 

Assim «renovas a face da terra» (Sl 103, 30)
São Cirilo de Alexandria (380-444), Bispo e Doutor da Igreja
Sobre o Profeta Isaías, 5, 5; PG 70, 1352-1353 (a partir da trad. de Delhougne, Les Pères commentent, p. 394)

Cristo quis trazer a Si o mundo inteiro e conduzir a Deus Pai todos os habitantes da terra. Quis restabelecer todas as coisas num estado melhor e renovar, por assim dizer, a face da terra. Eis por que, mesmo sendo o Senhor do Universo, tomou «a condição de servo» (Fil 2, 7). Por isso, anunciou a Boa Nova aos pobres, afirmando que tinha sido enviado com esse objectivo (Lc 4, 18). Os pobres, ou antes, as pessoas que podemos considerar como pobres, são as que sofrem por se verem privadas de todo o bem, as «sem esperança e sem Deus no mundo» (Ef 2, 12), como diz a Escritura. São, parece-nos, as pessoas vindas do paganismo e que, enriquecidas pela fé em Cristo, beneficiaram deste tesouro divino: a proclamação que trouxe a Salvação. Por ela, tornaram-se participantes do Reino dos céus e concidadãos dos santos, herdeiros das realidades que o homem não pode compreender nem exprimir – daquilo que, segundo o apóstolo Paulo, «os olhos não viram, os ouvidos não ouviram, o coração do homem não pressentiu, isso Deus preparou para aqueles que O amam» (1Cor 2, 9). […] Também os descendentes de Israel tinham o coração ferido, eram pobres e como que prisioneiros, estavam cheios de trevas. […] Cristo veio anunciar os benefícios da Sua vinda precisamente aos descendentes de Israel, antes dos outros, e ao mesmo tempo proclamar o ano da graça do Senhor (Lc 4, 19) e o dia da recompensa.

 

Jesus rejeitado em sua própria terra
Cf. B. CABALLERO. A Palavra de cada dia. Paulus: 2000.

Hoje encontramos a resposta de várias perguntas que ficaram abertas no domingo anterior. Será mesmo que Jesus veio para instaurar o ano da remissão das dívidas (cf. Lc 4, 19)?  O Senhor teria desejado realizar materialmente essa utopia? Parece que Lucas, o único evangelista que aborda este tema, quer dizer algo mais. Na sua descrição, ele reúne diversos elementos. A citação de Is 61, 1-3, na boca de Jesus (cf. Lc 4, 16-19), tem por quadro uma combinação de Mc 1, 21 (ensino na sinagoga) e 6, 1-6 (rejeição em Nazaré). Percebemos uma correspondência de teor teológico entre o versículo 19, “um ano agradável da parte do Senhor”, e o versículo 24 “nenhum profeta é agradável em sua terra”. A citação do “ano da graça” não é relacionada, por Lucas, com uma mera reforma social, mas com a pessoa de Jesus mesmo. Cristo anuncia o “ano agradável da parte do Senhor”, a encarnação dos dons de Deus para Seu povo, especialmente para os pobres e humildes (cf. Dt 15). Mas o povo de Nazaré não recebe com agrado o profeta que anuncia isso… Nazaré aplaude a mensagem do ano de remissão, mas rejeita aquilo que o profeta em pessoa representa: a salvação universal. A restauração dos empobrecidos é a porta de entrada da salvação universal, pois o que é para todos tem de começar com os últimos, os excluídos. A rejeição acontece mansamente e devemos admirar novamente a arte narrativa de Lucas. Primeiro, o povo admira Jesus e as palavras d’Ele. Mas sua admiração é a negação daquilo que o Messias quer. Desconhecendo o “Filho de Deus”, tropeçam na sua origem por demais comum: “Não é este o filho de José?” Jesus toma a dianteira prevendo que eles apenas quererão ver Suas façanhas, como as feitas em Cafarnaum. Por isso, o Senhor lança um desafio: Ele não é um médico para uso caseiro. Como nenhum profeta é agradável à sua própria gente, a missão de Cristo ultrapassa os morros de Nazaré. E insiste: Elias, expulso de Israel, ajudou a viúva de Sarepta, na Finícia, e Eliseu curou o sírio Naamã… Os nazarenses, ciosos, não aguentam essas palavras e querem jogá-Lo no precipício (uma variante do apedrejamento). Mas Jesus, com a autoridade do Espírito, que repousa sobre Ele, passa no meio deles e vai adiante… Nazaré perdeu sua oportunidade, prefigurando assim a sorte da “pátria” do judaísmo: “Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados, quantas vezes quis eu reunir teus filhos…” (Lc13, 34-35) – “ Ah, se nesse dia conhecesses a mensagem da paz… Não conheceste o dia em que forte visitado!” Trata-se da visita de Deus a Seu povo e a Seu santuário, que não foi “agradável”, “bem recebida”. Que a Palavra de Deus, neste quarto domingo do tempo comum – tempo de amadurecimento na fé – nos leve a acolher o Cristo na Sua totalidade. O grande sinal da presença do Altíssimo em nós é a vivência do amor concreto por cada um de nós, pois nada possui valor em nós se aí não existir a caridade. Caridade esta que não é sentimento – passa pelos sentimentos – mas acima de tudo é decisão.
*Cf. KONINGS J., Liturgia Dominical, p.405. Ed. Vozes, Petrópolis 2004.

 

Caridade e amor, frutos de Deus
Padre Eliano Gonçalves

São Lucas 4, 21-30: “Naquele tempo, estando Jesus na sinagoga, começou a dizer: ‘Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir’. Todos davam testemunho a seu respeito, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca. E diziam: ‘Não é este o filho de José?’ Jesus, porém, disse: ‘Sem dúvida, vós me repetireis o provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo. Faze também aqui, em tua terra, tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum’. E acrescentou: ‘Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria. De fato, eu vos digo: no tempo do profeta Elias, quando não choveu durante três anos e seis meses e houve grande fome em toda a região, havia muitas viúvas em Israel. No entanto, a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a uma viúva que vivia em Sarepta, na Sidônia. E no tempo do profeta Eliseu, havia muitos leprosos em Israel. Contudo, nenhum deles foi curado, mas sim Naamã, o sírio’. Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no até ao alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício. Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho”.

Para quem tem ouvido para ouvir, esta profecia acontece. Por isso, é importante estar de ouvidos atentos. O gesto de Jesus marca um tempo único. O Senhor é aquele que dá sentido, é ungido por excelência. Veja como é bela essa expressão do Evangelho, porque chegou um tempo de graça. Mas o coração que está preso em seus limites não consegue perceber a salvação prometida por Deus. Esta salvação não se limita aos critérios pobres e estreitos dos seus conterrâneos. È necessário a pobreza do coração. Para aquilo que é o principal na minha vida eu sempre irei disponibilizar tempo, porque justamente esta dedicação vai determinando aquilo que vou me tornando. A profecia de amor sempre irá nos desafiar, uma palavra que vai realmente nos incomodar. Os conterrâneos de Jesus ficam com os seus preconceitos. Todas às vezes que nós tomamos a decisão de ficar fechados em nós, fazemos a mesma coisa que eles: negamos os dons do Senhor. Quem semeia na carne só pode colher corrupção. Quem semeia no Espírito só pode colher a graça. Este coração que só quer as provas extraordinárias é um coração que não irá crer nunca. Um amor seletivo é sempre pobre, estreito, restrito. Nós precisamos aprofundar e ampliar a nossa visão da vida porque Jesus oferece a oportunidade. Será que o seu coração se abre para amar de todo coração a Deus e se entregar com caridade? O coração que é preconceituoso sempre vai ficar revoltado e vai rejeitar a verdade do amor. Quantas vezes a verdade lhe foi dita e você a rejeitou? Entenda que quando nós rejeitamos o amor nunca conseguimos ser felizes. Não conseguimos abraçar aquilo que é mais belo e digno de uma pessoa. A reação perante os fatos verdadeiros não é uma escuta que se contenta; é uma escuta que se revolta porque justamente não quer uma mudança. Jesus sempre vai insistir conosco, como insiste na liturgia de hoje.

“Quem semeia na carne só pode colher corrupção. Quem semeia no Espírito só pode colher a graça”

Qual tem sido a sua reação perante a verdade que lhe é proclamada? Eles [na passagem bíblica acima] rejeitaram a Jesus por conhecerem sua origem humilde. E você como está reagindo a verdade? Se avalie. A sua capacidade de amar, de acolher está nula? Como está o seu coração? Faça um revisão de vida nesta tarde. Amar é ir ao encontro. A experiência do verdadeiro amor acontece quando nós damos o passo de fazer o que o samaritano fez. Chegar perto, parar a nossa viagem, derramar o azeite, o vinho, dar de nós mesmo… Quem não chega perto vai sempre rejeitar o ferido para amar simplesmente aquele que você acha que é são, mas que também tem deficiências. Quem não adora a Deus de todo o coração não consegue amar o próximo como a si mesmo. Ame a Deus de todo o coração! É preciso ouvir a Palavra de Deus e amá-la de uma forma que eu possa acolhê-la verdadeiramente. O amor sempre vai falar e vai incomodar. Um acolhimento que é interesseiro sempre deseja manipular a Deus. Lute para não ser este interesseiro, dentro da sua casa e com as pessoas que você convive. Porque a todo o momento esta opção egoísta nos é oferecida. É preciso ouvir a palavra de Deus com amor, assim você sempre contemplará as verdades do seu coração. Respire este ar puro do seu estado de vida, da sua consagração, da sua vocação… Quando nós perdemos o foco, ficamos endurecidos. Em tudo que você fizer, se não houver caridade, não vale de nada. Só existe sentido de caridade quando realizamos algo em Deus. Se Deus não for o primeiro na sua vida, você não irá saber aquilo que é belo e que é bom nela. Sem Deus nem aquilo que é belo saberemos administrar. Nós fomos feitos para seguir o caminho, cujo o modelo perfeito é Jesus.

“Eu só tenho condições de enfrentar o mundo lá fora, se tenho os elementos da fé para me amparar”

Você não pode tudo, é por isso que a palavra de Deus nos ensina o que é realidade. Sem caridade você não é nada. Você ama produzindo liberdade? O amor não vive para si mesmo. A caridade só pode guardar em si aquilo que é belo; aquilo que é santo. O perdão nos torna livres. A caridade não guarda rancor. Ela nunca estabelecerá união com as trevas, ela não quer modelar o outro. Está faltando amor verdadeiro em nosso meio. Despertem porque está faltando o essencial, uma vida sem o essencial deixa de ser profecia. Eu só tenho condições de enfrentar o mundo lá fora, se tenho os elementos da fé para me amparar. Somente o amor pode colocar em ordem e harmonizar o seu interno para que você seja capaz de enfrentar as coisas externas. Você precisa deixar-se amar para amar. Deus conhece você, Ele o escolheu. É preciso viver a entrega na promessa de Deus, se não vou viver tremendo diante dos combates da vida. É preciso acreditar. Não temas, pois Deus está contigo. Confie n’Ele. Deus não envia ninguém para a derrota e, sim, para vitória. Mas a forma como eu parto para guerra também influencia nesta vitória.

 

O texto do evangelho que lemos neste domingo é o complemento do texto evangélico do domingo passado. Jesus está ainda no início da sua vida pública, na sinagoga de Nazaré, imediatamente a seguir ao seu “discurso programático” e novamente repete: “Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir”. A pregação de Jesus causou uma certa reação entre os habitantes de Nazaré, porque estes conheciam-no muito bem, desde a sua infância. Mas, o que mais causou admiração foi o conteúdo da pregação de Jesus que não era uma nova doutrina forte e consiste, mas era a sua própria pessoa: Ele era a mensagem! Por isso, “se admiravam das palavras cheias de graça que saíam da sua boca”. Jesus pede, em nome de Deus, a conversão do coração. E este pedido é feito a todas as pessoas. A desculpa dos presentes para não converter o coração era exigir um testemunho de quem pregava. Por isso Jesus disse: “Por certo Me citareis o ditado: ‘Médico, cura-te a ti mesmo’. Aquele que disse “O Espírito do Senhor está sobre mim” não tem necessidade de se curar nem de se converter. Esta situação de recusa aconteceu sempre na história do povo eleito com os profetas: anulando-os, pensavam que anulavam o que diziam. A primeira leitura fala-nos disto mesmo. O profeta Jeremias foi escolhido “no seio de sua mãe”, consagrado e constituído “profeta entre as nações”; por isso, ele é “a cidade fortificada, a coluna de ferro e a muralha de bronze, diante de todo este país”. A sua palavra e a sua vida profética permanecerão para sempre, porque “eles combaterão contra ti, mas não poderão vencer-te, porque Eu estou contigo para te salvar”. Para o profeta Jeremias, Deus é o “seu refúgio seguro”, a sua esperança, o seu auxílio, como cantaremos no salmo responsorial deste domingo. É necessário continuar na Igreja esta missão profética, de pregação, de ensino, de desejar que seja feita não só com palavras, mas também com a vida de cada batizado que se converte em testemunho da Palavra de Deus. Perante a fragilidade do pregador e de cada fiel cristão, o que permanece sempre é a Palavra que tem de ser pregada. Não nos pregamos a nós próprios (a nossa vida é muito frágil, demasiado pecadora), pregamos a Palavra, pregamos Jesus, Palavra Encarnada do Pai, enquanto pedimos a conversão do coração para nós e para cristão. Imitando os profetas e perante a adversidade dos habitantes de Nazaré, Jesus proclama a universalidade da sua mensagem. Elias e Eliseu também foram enviados para além das fronteiras do povo de Israel ao encontro de pessoas com o coração disposto à conversão. É a sua missão: fazer chegar a Boa Nova a todos os pobres e oprimidos. A universalidade da mensagem de Jesus é o amor. Só o amor conta. O amor é o conteúdo da pregação de Jesus, a Boa Nova do amor de Deus por todos, para despertar na pessoa humana, através da fé, este amor. Na segunda leitura, encontraremos o belíssimo hino à caridade que São Paulo nos deixou: “Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade”. Este é o último objetivo da pregação e da celebração: poder viver plenamente o amor de Deus. A Eucaristia é a síntese do amor. Em cada Eucaristia, somos confrontados com a Palavra de Deus e com a sua explicação, somos convidados a reviver o amor de Deus que nos é dado sem medida e somos convidados a crescer na caridade na nossa vida, porque sem caridade, a vida não tem sentido. É esta a Boa Nova de Jesus.

 

O CORAÇÃO SEMPRE ABERTO… – IV Dom TC – Ano C

1. ÀS VEZES OS QUE MAIS NOS CONHECEM PODEM SER OS QUE MENOS NOS ACREDITAM…
Isto passa a todos, em maior ou menor medida, em todos os lugares onde mais nos conhecem. Como nos vêem todos os dias, e sabem como nos movemos e como nos comportamos em cada oportunidade,  não é fácil que possamos mudar uma imagem, que quem sabe se foi construindo ao longo de muitos anos, com um arranque do momento, ou com uma frase inspirada, ainda que seja guiada pelas melhores intenções, simplesmente porque nos decidimos a mudar em algo… Por isso, com os que mais nos conhecem, são mais eloqüentes os fatos que as palavras, e quando crescemos em nossa fé, quem sabe a partir de uma experiência forte ou especial, que nos marcou profundamente, se queremos que compreendam o que nos passou, não bastarão as palavras, que não alcançarão para mudar a imagem que com o tempo nos formamos, senão que teremos que armar-nos de paciência, para que nos acreditem, pelo que vêem nos fatos, dos quais as palavras poderão dar uma boa explicação, mas aos que não poderão substituir… Por esta razão, quem sabe, tenha nascido o refrão que Jesus hoje nos recorda, “nenhum profeta é bem recebido em sua terra”, ou como nós dizemos habitualmente, “ninguém é profeta em sua terra”. Entretanto, isso não nos dispensa de ser testemunhas de nossa fé, também, e quem sabe especialmente, entre os que mais nos conhecem, já que se a fé nos vai mudando a vida (e é lógico que assim seja, se a tomamos em sério), é justo e necessário que também eles o vejam… Jesus também passou por esta dificuldade. Em Cafarnaum, onde não o conheciam, começou sua pregação  reunindo os primeiros discípulos. Mas em Nazaré, onde havia crescido não lhes bastava com o que de Jesus se dizia, para aceitá-lo como profeta e como Filho de Deus, queriam “provas”…

2. A HUMANIDADE DE JESUS NOS MOSTRA A DEUS, MAS TAMBÉM NOS OCULTA…
Deus se fez Homem, para poder falar-nos com palavras humanas. Desta maneira, a Palavra de Deus se fez carne e começou a pronunciar-se humanamente. É lógico pensar que isto nos permitiu conhecer e compreender a Deus de uma maneira que nunca tivéssemos podido alcançar, se não fosse por esta grande inquietação de seu amor, que o aproximou de nós de uma maneira tão intensa… Mas, de todos os modos, à luz do que lhes passou aos que o conheciam “de toda a vida” em Nazaré, faz falta que estejamos atentos, para que não nos passe a nós o mesmo. A humanidade de Jesus, que o fazia próximo e compreensível para todos, ao mesmo tempo lhes ocultava sua mais verdadeira e profunda realidade, sua condição divina… No começo deste terceiro milênio da era cristã, e quem sabe tendo crescido muitos de nós rodeados do testemunho vivo de Jesus, que recebemos de nossas famílias e dos ambientes nos quais nos movemos habitualmente, é bom que nos perguntemos se Jesus não se converteu, em alguma medida, alguém tão familiar, que já não esperamos Dele nada que nos possa assombrar, e acostumados a ouvir sua Palavra (quantas vezes ouvimos a leitura dos fatos mais importantes de sua vida, como seu nascimento, sua morte na Cruz e sua Ressurreição, o das palavras mais importantes que pronunciou, como as parábolas ou as bem-aventuranças?), já não esperamos Dele nada que nos surpreenda ou nos comova. Se isto acontecesse, estaríamos nas mesmas condições que seus concidadãos de Nazaré, que de tanto vê-lo crescer entre eles, já não estavam dispostos a presta-lhe atenção enquanto não lhes mostrasse sinais especiais. Quando isto nos sucede, a humanidade de Jesus, que nos mostra a Deus, sua proximidade e familiaridade, pode ser também o que nos oculte seu mistério e a salvação, que Ele nos aproxima… Quem sabe por isso Jesus previu também que suas palavras nos cheguem através de ecos inesperados. Muitas vezes pensei que Deus se vale às vezes de instrumentos impensados. Alguns poetas, como Antonio Machado, ou cantores, como o mesmo Serrat, ou muitos outros, que é impossível recolher de maneira completa, definindo-se como céticos (quer dizer, afirmando que é inútil perguntar-se sobre Deus, porque, já que, se existe, é impossível conhecê-lo, e, portanto é colocar-se uma pergunta sem resposta), deixam ver em suas criações palavras que parecem postas pelo mesmo Jesus em suas bocas…

3. É PRECISO ESTAR COM O CORAÇÃO SEMPRE ABERTO, PARA RECEBER A DEUS QUE SE MOSTRA…
Por esta razão, me parece que os que estamos mais habituados a “tratar” com Jesus com freqüência, temos que estar muito atentos, para que no se nos feche o coração, de maneira que já nada nos chame a atenção Dele, e o que nos quer dizer se nos perca… Poderiam pensar-se outros modos, mas me parece que o que nos pode ajudar a estar sempre com o coração aberto, para receber a Deus que nos mostra através dos caminhos habituais, na pregação do Evangelho e na vida da Igreja, é manter aceso em nós o coração mesmo do Evangelho, que é o amor. Um amor como o que nos convida a viver o mesmo Jesus, com cada palavra do Evangelho, e que nos descreve com precisão São Paulo, ao dizer-nos que o amor que nos ensina Jesus como um caminho de vida é um amor paciente, serviçal; sem inveja, sem alarde, sem grandezas vãs (vazias), que não procede com baixeza, não busca seu próprio interesse, não se irrita, não tem em conta o mal recebido, não se alegra da injustiça, senão que se regozija com a verdade. Um amor, portanto, à medida de Deus, que tudo desculpa, tudo crê, tudo suporta, tudo espera…

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