Com a Palavra

Relacionamento por acaso

Não perca a oportunidade de promover o bem

Acredito que não conhecemos nem nos relacionamos com ninguém por um acaso, e todas as relações (sejam elas quais forem) são, antes de mais nada, oportunidades que Deus nos dá para sermos canais de Seu amor neste mundo.

A este respeito, Henri Nouwen afirma, no livro “Mosaicos do Presente”, que, quando tomamos consciência de que a fonte que sustenta nossas relações não são os parceiros em si nem qualquer coisa que possam oferecer um ao outro – por mais gentis que sejam -, mas Deus que, em Sua bondade, une as pessoas para, por meio de cada um, revelar-se a este mundo, todas as nossas relações mudam e ganham um novo sentido.

A verdade é que começamos a perceber que as pessoas com quem convivemos em casa e no trabalho, e também aquelas que encontramos na rua ou no mercado, não são frutos do acaso. Percebemos que, em cada uma, Deus pode revelar Seu amor a nós e, por meio de cada uma delas, também podemos manifestar nosso amor ao Senhor.

Hoje, por exemplo, eu estava indo para o trabalho com um certa pressa, quando fui surpreendida por um rapaz que varria a calçada do prédio. Ele não só parou de varrer para dar-me passagem, como também disse-me: “Bom dia, moça!”. Fiquei meio desconcertada, pois não estava esperando esta atitude. Então, sorri para ele e agradeci, desejando-lhe também um bom dia.

Foi tudo bem rápido, mas continuei meu caminho pensando no fato. Em meio a milhares de pessoas que eu havia encontrado, o rapaz fez a diferença! Inspirada pelo bem que me proporcionou, decidi procurar viver o resto do dia fazendo a diferença também por onde eu for, decidi amar.

Estou revendo minhas atitudes e percebo o quanto estou distante da perfeição que almejo. A atitude do rapaz foi um pretexto de Deus para levar-me além. Fez-me pensar quantas oportunidades tenho perdido de promover o bem na vida das pessoas com gestos de delicadeza. Na verdade, todos nós sabemos o quanto são importantes as pequenas expressões de amor, pois elas fazem toda a diferença neste mundo, no nosso mundo.

Acontece que, mesmo sem tomarmos consciência, somos marcados por lições erradas que o mundo ensina a respeito do amor e acabamos assumindo-as como verdades.

Como que por “contágio” vamos nos tornando egoístas e nos fechamos em nós mesmos, dando como desculpas a pressa, a segurança, o jeito de ser, e seguimos indiferentes a quem está à nossa volta. Mas Deus, que é o puro amor, nos ensina que amar é também acolher o outro independente da condição em que ele se encontra ou do uniforme que está usando. Todo ser humano é criatura amada por Deus e merece, no mínimo, nosso respeito e atenção. Não é por acaso que pessoas entram e saem da nossa vida.

Aquele rapaz varreu não só a calçada do prédio em que trabalha, mas, com sua atitude, varreu também a poeira do meu coração que estava envolto pela pressa e pelas sombras do ativismo. Ele, certamente, nem imagina o bem que me fez! Não conheço seus sonhos, sua família e penso que, se reencontrá-lo, já não recordo-me de sua face. No entanto, seu gesto mudou o meu dia.

Fico pensando nas minhas atitudes e me pergunto: “Será que estou conseguindo transmitir o amor de Deus àqueles que cruzam meu caminho?”. Jesus disse: “O que vocês desejam que os outros lhes façam, também vocês devem fazer a eles” (Lc 6,31).

Portanto, fiquemos atentos e sejamos criativos e empenhados na prática desta palavra. Que hoje ninguém passe em vão ao seu lado, pois os relacionamentos não são frutos do acaso. São acenos de Deus.

Dijanira Silva
[email protected]

Sobre as confissões comunitárias

O que dizer sobre isso?

A Mãe Igreja, à semelhança do Seu Senhor, deseja que todos os homens se salvem, e por isso, guardando as necessárias disposições, procura facilitar ao máximo a recepção dos auxílios da graça aos seus filhos por meio dos sacramentos.

Com base nesse princípio e motivada historicamente sobretudo pelas duas grandes guerras mundiais, a Igreja introduziu a disciplina que possibilita a administração do sacramento da penitência com a absolvição coletiva.

É provável que o leitor já tenha ouvido alguém falar – ou mesmo passado por esta experiência – de alguém que foi buscar a confissão em alguma paróquia, e, para sua surpresa, não tenha encontrado a celebração ordinária do sacramento da penitência (com a confissão auricular, e absolvição individual), senão uma celebração comunitária com absolvição coletiva. O que dizer sobre isso?

A atual legislação canônica, mais precisamente o cânon 960 do Código de Direito Canônico, destaca expressamente que a confissão individual e íntegra e a absolvição constituem o único modo ordinário, com o qual o fiel, consciente de pecado grave, se reconcilia com Deus e com a Igreja;

A absolvição dada, ao mesmo tempo, a vários penitentes sem a prévia confissão individual, constitui uma forma excepcional da administração do sacramento da Penitência que só pode ser empregada quando (cfr. c. 961):

1) Haja iminente perigo de morte e não haja tempo para que o sacerdote ou sacerdotes ouçam a confissão de cada um dos penitentes;

2) Haja grave necessidade, isto é, quando por causa do número de penitentes, não há número suficiente de confessores para ouvirem as confissões de cada um, dentro de um espaço de tempo razoável, de tal modo que os penitentes, sem culpa própria, seriam forçados a ficar muito tempo (mais de um mês) sem a graça sacramental ou sem a sagrada comunhão.

O juízo para saber se, em determinado caso concreto ocorre o que está prescrito acima (n. 2), não compete ao confessor, mas ao bispo diocesano, que só pode permitir a absolvição geral em situações objetivamente extraordinárias (cfr. Motu Proprio Misericordia Dei, 4), previamente e por escrito. Não se considera, porém, necessidade suficiente quando não é possível ter os confessores necessários só pelo fato de grande concurso de penitentes, como pode acontecer numa grande festividade ou numa peregrinação (cfr. c. 961 §1, 2º).

A absolvição geral coletiva, nos casos excepcionais previstos, deve ser precedida de uma adequada catequese que explique aos fiéis as condições para a sua validade, deixando claro que aqueles que recebem a absolvição coletiva deverão – para que o sacramento seja válido –, confessar, em tempo devido, individualmente todos os pecados graves que, naquele momento, não puderam confessar e que devem receber a absolvição individual antes de receberem uma nova absolvição geral.

Não é demais lembrar que todo aquele que, em razão do ofício, tem cura de almas (p. ex. o pároco) está obrigado a providenciar que sejam ouvidas as confissões dos fiéis que lhe estão confiados e que, de modo razoável, peçam para se confessar, a fim de que aos mesmos se ofereça a oportunidade de se confessarem individualmente em dias e horas que lhes sejam convenientes (cfr. c. 986 §1).

Padre Demétrio Gomes
Twitter: @pedemetrio
24/04/2013

Dois corações livres para amar

23 de janeiro: a memória do casamento da Virgem Maria
Por Pe. Mario Piatti, ICMS

ROMA, 23 de Janeiro de 2013 (Zenit.org) – O evangelho de Lucas nos diz que o Salvador nasceu num estábulo pobre e humilde: não havia lugar para Jesus, Maria e José nas estalagens de Belém. Uma família (e era a sagrada família de Nazaré) não foi acolhida num ambiente adequado, apesar do iminente nascimento daquele Menino: imagem certamente profética, prelúdio das incontáveis e recorrentes rejeições que, ao longo da história, sofreram e ainda sofrem os discípulos do Senhor no seu trabalho de evangelização. Não havia lugar para aquele jovem casal nas hospedarias: como há cada vez menos espaço para a “família tradicional” no panorama cultural e nos costumes do nosso tempo.

Promovem-se, agora, inclusive no âmbito legislativo, outras “formas” de convivência: substitutos, mais ou menos desajeitados, da instituição da família, da qual pretenderia preservar-se, pelo menos aparentemente, a “estrutura”, mas renegando-se, de fato, a sua natureza, caráter e missão. Uma guerra foi deflagrada para minar os alicerces da nossa civilização. O conflito está em ato, sustentado, paradoxalmente, por aqueles que dizem defender os “sagrados direitos civis”, mas que, na prática, apagam a verdade do homem e favorecem a deriva moral de magnitude e gravidade sem precedentes que está varrendo o mundo.

Foi invocada no passado, e ainda é, a “Deusa Razão” contra os crentes tidos por irracionais, mas a fé constitui agora o último bastião razoável que defende o homem de si mesmo e da sua fúria assassina e suicida. O pecado, qualquer pecado, na grande e milenar reflexão da Igreja, sempre foi entendido como um gesto irracional, contrário aos ditames da reta razão, e desumano, dirigido contra o nosso verdadeiro bem.

Em nome de uma Razão cínica e fria, foram planejados e executados os crimes mais hediondos: da crueldade dos campos de concentração e do gulag aos genocídios e expurgos em massa; foram introduzidos na vida e na mentalidade das pessoas, como se fossem simples e inocentes “práticas médicas”, a tragédia do aborto, a manipulação genética, a eutanásia. A luta contra a vida e contra a família sempre tem uma raiz perversa e diabólica.

Não por acaso, o livro da Gênese apresenta a “primeira família” mediante uma denúncia do trabalho sutil de Satanás, dedicado, desde o início, a obstaculizar e destruir os projetos do Criador. Nosso inimigo desencadeia incompreensões, ódios e suspeitas contra o plano original de Deus, mesmo sem nunca podê-lo comprometer definitivamente. Lutar para apagar esse bem, que é o casamento e a vida dos filhos, confiado hoje pelos céus ao coração de um homem e de uma mulher, nos leva novamente ao cenário trágico de Sodoma e Gomorra: cidades destruídas não pela fúria devastadora de uma divindade vingativa e cruel, mas lançadas inexoravelmente no abismo do vício e vítimas das suas próprias contradições.

O “contra-ataque do céu”, em face da profanação desenfreada da vida e da família, não se baseia em raciocínios complexos, nem invoca tribunais ou inquisições: ao contrário, apela mais uma vez ao bom senso, à evidência inscrita no coração das coisas e esculpida no santuário da consciência. Os desafios frequentes e insistentes do mundo exigem uma “guerra cultural” clara, documentada e apaixonada, mas nunca ofensiva nem remissiva: os riscos que estão em jogo são simplesmente altos demais.

A resposta mais bonita passa pela santidade, vivida, conservada e compartilhada no coração das nossas casas. Passa através do exemplo de uma família, modelo perfeito e paradigma de amor para cada lar: a família de Nazaré, que ensina como amar e servir, e em cujo seio a alegria é de casa, apesar das tribulações de cada dia. Uma família especialista no sofrer, no gesto de dar pleno e completo sentido a cada lágrima e a cada tristeza, vividos como dons da graça e generosamente oferecidos pela salvação do mundo.

O Coração da Virgem e do seu Esposo se repropõem como modelos inigualáveis de caridade mútua, em plena conformidade com o plano de Deus. No ambiente doméstico muito concreto, tecido de trabalho e de esforço cotidiano, eles souberam lutar juntos pelo único objetivo real da vida: abraçar a vontade de Deus, andar pelos caminhos da santidade, alcançar juntos a meta do céu. Eles acreditaram, mesmo sofrendo a provação mais amarga, e ajudaram um ao outro a acreditar.

Contemplamos neles, finalmente, dois corações livres das amarras do egoísmo e comprometidos com a plena compreensão mútua, com o apreço e com o apoio do bem um do outro, na comum custódia de um tesouro que excedeu todas as expectativas possíveis: o próprio Filho de Deus, confiado aos seus cuidados e ao seu amor.

Que o modelo ideal dos esposos de Nazaré se reflita na imagem dos nossos lares, dê alívio às nossas preocupações, nos sustente na jornada dolorosa da vida. Aos desafios crescentes de um mundo enlouquecido, que confunde as mentes, que apoia e defende leis devastadoras, nós queremos aprender na escola de Nazaré a ser homens e mulheres de verdade, santos, caridosos, células vitais de um tecido social desintegrado, mas sedento, mais do que nunca, da luz e da verdade.

O pe. Mario Piatti, ICMS, é diretor da revista Maria de Fátima.

Há psicologia em Maria?

MANUAL DE PSICOLOGIA DE MARIA MÃE DE JESUS

Há sete manifestações verbais de Maria nas Escrituras.
Inicia-se com sua primeira resposta/pergunta  -“MAS COMO ISTO PODE SER?”
Segue-se por – “FAÇA-SE A SUA VONTADE”.
Continua com a terceira (implícita) de sua SAUDAÇÃO À ISABEL.
Em resposta ela rejubila com o – MAGNIFICAT.
Continuamos – “POR QUE NOS FEZ ISTO?”
– “ELES NÃO TÊM MAIS VINHO”.
Pontua-se com – “FAÇAM TUDO O QUE ELE VOS DISSER”.

MAS COMO? – Maria nos faz perceber que sempre existem dúvidas, dificuldades, incertezas, não conhecimentos. Em outras palavras, conflitos.  Nessas primeiras palavras, anuvia suas dúvidas sem querer provas, ou sorrindo incrédula. No caso, ela pensou que ela não sabia como, mas Ele saberia. Nas grandes dificuldades que enfrentamos como pais e mães quase nos afogamos exatamente nas dúvidas, incerteza, temores. Hoje em dia nas opções de valores para os filhos quando uma sociedade insiste em mostrar um lado inverso, chefiado por um outro deus qualquer é pergunta constante em todos os dias – “Mas como?”.

Ela não fica quieta, aguardando toda a comunicação do anjo Gabriel de olhos baixos e sem ousar se manifestar. Não, ela não se cala. Ela ousa e se manifesta. Uma característica de personalidade para os participativos que não temem uma atitude de iniciativa. Dá continuidade àquela conversa e a um novo rumo para a humanidade, demonstrando não haver impossibilidades superiores.

O fato psicológico, deste momento de Maria, fica por conta de ela questionar, querer entender, descobrir, saber o que aceitar. Todos estes raciocínios, referentes a atitude crítica, muitas vezes vitais. Podemos invocar por ela, nestes momentos em que senso crítico é necessidade.

Como num diálogo o anjo Gabriel retoma a palavra que agora era dele e a informa que o Espírito Santo estará com ela e que o poder do Altíssimo lhe cobrirá com sua sombra.

Ela é consciente de que GRANDES COISAS se reservam realmente para aqueles que abrem a porta ao Seu chamado. É a segunda manifestação de Maria. – “SOU A SERVA DO SENHOR, FAÇA-SE O QUE ELE DIZ SER PARA MIM”.

Este foi o SIM. Sim para Deus e para todos nós.

Como fator psicológico, desta passagem bíblica, fica o que a psicologia mais gosta – tomar consciência, vivenciar, tornar-se presente no que é preciso e válido.   A terceira manifestação nos vem implícita pela saudação de Maria a sua prima Isabel, que com sua resposta de alegria ouve a continuidade do quarto momento de pronunciamento de Maria. “MINHA ALMA GLORIFICA AO SENHOR, MEU ESPÍRITO EXULTA DE ALEGRIA EM DEUS MEU SALVADOR, PORQUE OLHOU PARA SUA POBRE SERVA”. É muito importante reavivar esta capacidade de auxílio, altruísmo, extroversão em ir alem de si mesma. Muitas famílias são marcadas pelo egoísmo, constante de ser apenas elas, serem ‘centros egocêntricos’ do mundo, não se ensinando a colaboração, a ajuda nas dificuldades de outras pessoas e a abrir espaços necessários. Há todo um fator psicológico em partilhar, cooperar e conviver. Ainda pelo Magnificat ela demonstra uma maravilhosa auto-estima – “O Senhor fez em mim maravilhas…”

Hoje em dia acha-se que as características da auto-estima estão voltadas para se defender do que se acha que é baixa-estima, muito questionável principalmente em relação à educação de filhos. Fica tudo invertido e auto-estima merece outro conceito. Vale analisar toda esta passagem completa, pois toda a maravilha do MAGNIFICAT nos mostra o poder, a bondade a misericórdia de Deus acompanhando um bom princípio de auto-estima.

…E assim Jesus nasce e vai crescendo acompanhado por Maria. Poderíamos dizer que os dois crescem se acompanhando. Mãe também deve estar em constante crescimento para si mesmo e para seus filhos. – Mãe em crescimento. Mulher em crescimento. Crescer positivo, não imitando ou paralisando-se aos filhos mesmos ou querendo fazer suas coisas. Crescer para o mundo, com suas novidades, com suas ameaças, com suas atitudes. Tomar parte do mundo, pois ninguém faz se não é. Mãe não é só para prover recursos materiais e necessários, mas também inserir seu filho com elementos positivos neste mundo que aí está. Maria estava presente nas Bodas de Cana, ela estava presente aos pés da cruz.

No quinto momento o pronunciamento de Maria é a pergunta aflita feita a seu Filho com 12 anos de idade: -“POR QUE VOCÊ FEZ ISTO?”.

Na resposta que Ele estava se ocupando das coisas de seu Pai ela guardou em seu coração, mesmo que não a compreendesse bem.

Esta pergunta é constantemente feita pelos pais, sempre. Sabe-se bem o que é um momento torturante. É momento de apelos, orações, ameaças, temores fortes. Mas temos que corresponder às situações para poder encaminha-las para o lado positivo. Não ter receio de perguntar. Esta atitude é muitas vezes bem difícil. Saber respeitar, reorientar, acompanhar os filhos.

…E Ele e sua mãe continuavam em seus crescimentos.

E foram a uma festa de casamento.

No sexto momento ela fala diretamente com seu Filho, adulto, ao perceber que havia algo faltando. Ela avisa a seu Filho – “ELES NÃO TÊM MAIS VINHO”. Ele respondeu que não era ainda a hora dEle, mas ela insiste, pois ela sabe que sempre Ele lhe atende. E seu sétimo e último pronunciamento firme, seguro – “FAZEI TUDO O QUE ELE VOS DISSER” – parece um legado constante para o que devemos fazer.

Reler os evangelhos e buscar inspiração nos valores que passamos para nossos filhos. Na cruz Jesus apresenta Maria e João como mãe e filho. Jesus também diz, em outro momento, que seriam seus irmãos todos aqueles que ouvissem a palavra do Pai. Mas, pensamos que neste momento das Bodas de Cana é a própria Maria quem assume a maternidade de todos nós.

Este foi o primeiro milagre da vida pública de Jesus. Ele é introduzido na vida pública pelas palavras e, novamente, iniciativa de Maria, a mesma que lhe dá a vida física. Ele até titubeia a respeito de não ser sua hora, mas ela é firme, consciente e clara.

Desde o reencontro aos doze anos, para chegar neste ápice das bodas de Cana que não limitou negativamente seu filho, muitos usariam a palavra castração. Respeitou suas necessidades para Sua missão. Acompanhou seu desenvolvimento intelectual (sabe-se que Ele era conhecedor das Escrituras) e o “lançou” na vida pública.

Não deve ter sido nada fácil, embora sublime, ser mãe do Jesus humano. Mas ela, que desde a Anunciação percebemos não ser cabisbaixa demonstra acreditar na sua positiva autoridade. Autoridade dizendo (à humanidade) para fazermos tudo o que Ele nos dissesse. O que implicitamente era uma afirmação (ordem!) para que Ele fizesse o que era necessário.

Ela sempre pensa no bem dos outros, presta atenção aos que os rodeiam e esse desenvolvimento social é crescente desde o Jesus bebê convivendo com pastores, magos e homens de todas as classes e diferenças.

A maior psicologia de Maria é descobrir que nas fraquezas, nos sofrimentos, nas incertezas há toda a contrapartida da força, da transformação.

De fato Maria é um belo exemplo psicológico a ser refletido.

É Mãe por inteiro, pois sofreu, alegrou-se, desenvolveu-se junto com seu Filho, a ponto de não se intrometer, mas o encaminhando sendo, até, um ponto de referência para sua vida pública, o seu ‘deixar o ninho’.

Um bom lembrete – somos todos irmãos de seu Filho.

Fonte: Maria Lúcia Pedroso Yoshida

Creio no Espírito Santo

Senhor que dá a vida e que com o Pai e o Filho

O Espírito Santo é uma das Pessoas da Santíssima Trindade, “consubstancial ao Pai e ao Filho”… “e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado”, como diz o Credo Constantinopolitano. Ele afirma que o Espírito Santo “foi quem falou pelos Profetas”, e fala pela Igreja. O Espírito Santo está em ação com o Pai e o Filho do início até a consumação do Projeto de nossa salvação. Mas o Catecismo nos ensina que é nos “últimos tempos”, inaugurados pela Encarnação redentora do Filho que ele é revelado e dado, reconhecido e acolhido como Pessoa.

Após a Ressurreição Jesus o enviou à Igreja; é Ele que lhe dá vida; é ele que garante a sua infalibilidade como Jesus prometeu aos Apóstolos na última Ceia:  “Quando vier o Espírito Santo, ensinar-vos-á toda a verdade…” (Jo 16,13). Por isso a Igreja Católica sabe que nunca errou e jamais errará o caminho da salvação a indicar a seus filhos; porque o Espírito Santo é seu Guia. É ele que a conduz há vinte um séculos na Verdade de Cristo. Por isso ela é também invencível; as portas do Inferno jamais a vencerão. São Paulo faz eco a isso dizendo que a Timóteo que “a Igreja é a coluna e o fundamento da verdade” (1 Tm 3,15). Ela nunca se contradiz porque o divino Espírito a assiste continuamente desde Pentecoste. A Igreja já teve 265 Papas e realizou 21 Concilios gerais, universais; e nunca um Concílio ou um Papa revogaram um ensinamento doutrinário anterior; pois a verdade que Cristo deixou com a Igreja é perene, não muda.

O Papa Paulo VI disse no “Credo o Povo de Deus”:  “Cremos no Espírito Santo, Senhor que dá a vida e que com o Pai e o Filho é juntamente adorado e glorificado. Foi Ele que falou pelos profetas e nos foi enviado por Jesus Cristo, depois de sua ressurreição e ascensão ao Pai. Ele ilumina, vivifica, protege e governa a Igreja, purificando seus membros, se estes não rejeitam a graça. Sua ação, que penetra no íntimo da alma, torna o homem capaz de responder àquele preceito de Cristo: “Sede perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (cf. Mt 5,48). (n.13)

Desde o nosso Batismo o Espírito Santo atua em cada um de nós levando-nos a nos abrir cada vez mais para a graça de Deus. Ele é o nosso santificador, mediante seus dons infusos: sabedoria, ciência, conhecimento, fortaleza, conselho, piedade e temor de Deus. São Paulo disse: “E, porque sois filhos, enviou Deus a nossos corações Espírito de seu Filho que clama: Abbá, Pai” (Gl 4,6). Na plenitude do tempo, o Espírito Santo realizou em Maria todas as preparações para a vinda de Cristo no Povo de Deus. Pela ação do Espírito Santo nela, o Pai deu ao mundo o Emanuel, “Deus-conosco” (Mt 1,23). Ele é “a alma da nossa alma”, como dizia Santo Agostinho.

A ação do Espirito Santo na vida da Igreja se manifesta de muitas maneiras: na comunhão viva na fé dos Apóstolos, que ela transmite;  nas Escrituras que Ele inspirou; na Tradição, da qual os Padres da Igreja são as testemunhas sempre atuais; no Magistério da Igreja, ao qual Ele assiste; na Liturgia sacramental, por meio de suas palavras e de seus símbolos, na qual o Espírito Santo nos coloca em Comunhão com Cristo; na oração, na qual Ele intercede por nós; nos carismas (1Cor 12, 4s; Rm 12,3s), frutos (Gl 5, 22s)  e nos ministérios, pelos quais a Igreja é edificada; nos sinais de vida apostólica e missionária; no testemunho dos santos, no qual ele manifesta sua santidade e continua a obra da salvação.

A Igreja, que é a comunhão viva na fé dos Apóstolos, que ela transmite, é o lugar de nosso conhecimento do Espírito Santo. É na Igreja que Ele vive. Ele inspirou as Sagradas Escrituras; iluminando a inteligência dos seus autores (hagiógrafos), para escreverem sem erro, embora usando os recursos literários da época.

Ele é o guia da Sagrada Tradição da Igreja, da qual os Padres da Igreja são as grandes testemunhas; essa Tradição Apostólica nos deu muitos ensinamentos como o Credo, a Liturgia, e muitos aspectos da doutrina. Ele é o guia do Sagrado Magistério da Igreja formado pelo Papa e os bispos em união com ele, ao qual ele assiste; assim o Magistério guia os fiéis nesta vida defendendo-os dos erros de doutrina e encaminhando-os à casa do Pai.

O Espírito Santo atua na Liturgia sacramental, por meio de suas palavras e de seus símbolos, e nos coloca em Comunhão com Cristo. Ele inspira as nossas orações e intercede por nós. Ele se manifesta nos  carismas e nos ministérios para a edificação da Igreja. Ele se mostra atuante na vida apostólica e missionária da Igreja e no testemunho dos santos e santas, que são a força mais poderosa da Igreja.

O divino Espírito habita nos corações dos batizados: “E, porque sois filhos, enviou Deus a nossos corações Espírito de seu Filho que clama: Abbá, Pai” (Gl 4,6). Desde quando  Deus enviou seu Filho, envia sempre seu Espírito porque a missão dos dois é conjunta e inseparável. Jesus agiu pelo Espírito Santo; foi Ele quem o gerou no seio da Virgem Santíssima e preparou-lhe digna morada; foi Ele quem inspirou Isabel, Simeão e Ana, para profetizarem sobre  o Menino; foi Ele quem conduziu Jesus aos 12 anos no Templo, perguntando e ensinando aos doutores da Lei. Foi Ele quem levou Jesus ao deserto depois de se manifestar no seu batismo no rio Jordão. Foi Ele quem operou poderosamente nos milagres, ações, pregações de Jesus.

O Filho de Deus é consagrado Cristo (Messias) pela unção do Espírito Santo em sua Encarnação. Após a sua Ressurreição e Ascensão ao céu, Jesus  derrama o Espírito Santo sobre os Apóstolos e a Igreja para que levassem a obra da salvação a todos os povos de todos os tempos e lugares até que Ele volte.

Felipe Aquino
felip[email protected]

O Filho do Homem virá!

Nossa esperança está na vinda do Senhor

Estamos no penúltimo semana do Ano Litúrgico. No Domingo próximo, a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo encerrará este ano da Igreja. Pois bem, neste Domingo a Palavra de Deus, nos recordou que, como o ano, também a nossa vida passa, e passa veloz… Assim, o Senhor nos convida à vigilância e nos exorta a que não percamos de vista o nosso caminho neste mundo e o destino que nos espera. Nossa vida tem um rumo, caríssimos; o mundo e a história humana têm uma direção, meus irmãos!

A nossa fé nos ensina, amados no Senhor, que toda a criação e toda a história humana caminham para um ponto final. Este fim não será simplesmente o término do caminho, mas a sua plenitude, a sua finalidade, sua bendita consumação. O universo vai evoluindo, a história vai caminhando… Onde o caminho vai dar? Com palavras e idéias figuradas, a Escritura Sagrada nos ensina que tudo terminará em Jesus, o Cristo glorioso que, por sua morte e ressurreição, tornou-se Senhor e Juiz de todas as coisas. Vede bem: a criação não vai para o nada; a história humana não caminha para o absurdo! Eis aqui o essencial, que o evangelho de hoje nos coloca com palavras impressionantes:

“Então verão o Filho do Homem vindo nas nuvens com grande poder e glória!” Ou seja: tudo quanto existe caminha para Cristo, aquele que vem sobre as nuvens como Deus, aquele que é nosso Juiz porque, como Filho do Homem, experimentou nossa fraqueza e se ofereceu uma vez por todas em sacrifício por nós! Vede, irmãos: o nosso Salvador será também o nosso Juiz! Aquele que está à Direita do Pai e de lá virá em glória para levar à consumação todas as coisas é o mesmo que se ofereceu todo ao Pai por nós para nos santificar e nos levar à perfeição! Repito: nosso Juiz é o nosso Salvador! Quanta esperança isso nos causa, mas também quanta responsabilidade! Que faremos diante do seu amor? Que diremos àquele que por nós deu tudo, até entregar a própria vida para nossa salvação? Que amor apresentaremos a quem tanto e tanto nos amou? Pensai bem!

As leituras deste Domingo advertiu: tudo estará debaixo do senhorio de Cristo! Por isso, numa linguagem de cores fortes e figuras impressionantes, Jesus diz que a criação será abalada pela sua Vinda: “O sol vai escurecer e a lua não brilhará mais, as estrelas começarão a cair do céu e as forças do céu serão abaladas”. Que significa isso? Que toda a criação será palco dessa Revelação da glória do Senhor, toda a criação será transfigurada e alcançará a plenitude no parto de um novo céu e uma nova terra onde a glória de Deus brilhará para sempre! O Senhor afirma ainda que também a história chegará ao fim e será passada a limpo. Cristo fala disso usando a imagem da grande tribulação, isto é, as dores e contradições do tempo presente, que vão, em certo sentido se intensificando neste mundo. Por isso mesmo, a primeira leitura, do Profeta Daniel, fala em combate e em tempo de angústia… É o nosso tempo, este tempo presente, que se chama “hoje”.

Amados em Cristo, estas leituras são muito atuais e consoladoras, sobretudo nos dias atuais, quando vemos o Cristo enxovalhado, o cristianismo perseguido e desprezado, a santa Igreja católica caluniada… Pensem no Código da Vinci, pensem nas obras de arte blasfemas e sacrílegas frequentemente expostas sem nome de uma pérfida liberdade, pensem nas freiras das porcas novelas da Globo, pensem no ridículo a que os cristãos são expostos aqui e ali, com cínicas desculpas e camufladas intenções, pensem nos valores cristãos que vão sendo destruídos, nas famílias destruídas pelo divórcio, pela infidelidade, pela imoralidade, pensem nos jovens desorientados pela falta de Deus, pela negação de todas as certezas e o desprezo de todos os valores, pensem, por fim, na vida humana desrespeitada pelo aborto, pela manipulação genética, pelas imorais e inaceitáveis experiências com células-tronco embrionárias com pretextos e desculpas absolutamente imorais… Não é de hoje, caríssimos, que a Igreja sofre e que os cristãos são perseguidos, ora aberta, ora veladamente… Já no longínquo século V, Santo Agostinho afirmava que a Igreja peregrina neste tempo, avançando entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus… O perigo é a gente perder de vista o caminho, perder o sentido do nosso destino, esfriar na vigilância, perder a esperança, abandonar a fé…

Caminhamos para o Senhor, caríssimos – tende certeza disto! O mudo vai terminar no Cristo, como um rio termina no mar; a história vai encontrar o Cristo, tão certo quanto a noite encontra o dia; nossa vida estará diante do Senhor, tão garantido quanto o vigia cada manhã está diante da aurora! Por isso mesmo, é indispensável vigiar e trazer sempre no coração a bendita memória do Salvador, a firme esperança nas suas promessas, a segura certeza da sua salvação! Vede bem: na Manifestação do nosso Senhor, ele nos julgará! Na sua luz, tudo será posto às claras: se é verdade que sua Vinda é para a salvação, também é verdade que todos quantos se fecharam para ele, perderão essa salvação.

Caríssimos, nosso destino é o céu, mas estejamos atentos: o inferno, a condenação eterna, a danação sem fim, o fogo que devora para sempre, são uma real possibilidade para todos nós! Haverá um Juízo de Deus em Jesus Cristo, meus amados no Senhor: “Muitos dos que dormem no pó a terra despertarão, uns para a vida eterna, outros para o opróbrio eterno. Nesse tempo, teu povo será salvo, todos os que se acharem escritos no Livro”. Caríssimos, não brinquemos de viver, não vivamos em vão, não sejamos fúteis e levianos, não corramos a toa a corrida da vida! É o nosso modo de viver agora que decidirá nosso destino para sempre!

Por isso mesmo, Jesus nos previne: “Em verdade vos digo: esta geração não passará até que tudo isto aconteça!” Em outras palavras: não importa quando ele virá – ele mesmo diz: “Quanto àquele dia e hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas somente o Pai” -; importa, sim, que estejamos atentos, importa que vivamos de tal modo que, quando ele vier no momento de nossa morte, estejamos prontos para comparecer diante dele e diante dele estar no último Dia, quando tudo for julgado! O juízo que nos espera é um processo: começa logo após a nossa morte, quando, em nossa alma, estaremos diante do Cristo e receberemos nossa recompensa: o céu ou o inferno! E no final dos tempos, quando Cristo se manifestar em sua glória, nosso destino também será manifestado com toda a criação e o nosso corpo, ressuscitado no fim de tudo, receberá também a mesma recompensa de nossa alma: o céu ou o inferno, de acordo com o nosso procedimento nesta vida!

Meus caros, quando a Escritura Sagrada nos fala do fim dos tempos não é para descrever como as coisas acontecerão. Isso seria impossível, pois aqui se tratam de realidades que nos ultrapassam e que já não pertencem a este nosso mundo. Portanto, palavras deste mundo não podem descrever o que pertence ao mundo que há de vir… O que a Escritura deseja é nos alertar a que vivamos na verdade, vivamos na fé, vivamos na fidelidade ao Senhor… vivamos de tal modo esta nossa vida, que possamos, de fé em fé, de esperança em esperança, alcançar a vida eterna que o Senhor nos prepara, vida que já experimentamos hoje, agora, nesta santíssima Eucaristia, sacrifício único e santo do nosso Salvador que, à Direita do Pai nos espera como Juiz e Santificador.

A ele a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

Dom Henrique Soares da Costa
http://www.domhenrique.com.br

Creio na Santa Igreja

Não cremos em coisas, cremos em pessoas

O Ano da Fé nos introduz num campo muito interior do nosso eu. Dar crédito, sobretudo no âmbito religioso, é  aninhar no centro do coração proposições impossíveis de verificar pela experiência cotidiana. (P. ex. que Jesus é o Filho de Deus). São acolhidas em plena liberdade, pois a inteligência reconhece a razoabilidade dos artigos em questão.

Nós cristãos, mesmo em temas de grande importância, podemos ter uma grande margem de opiniões, que não exigem adesões de fé. Por exemplo, nós devemos ter firme fé que Jesus ressuscitou. Mas temos um largo campo de opiniões, para explicar como se realizou tal fenômeno.

Aceitar Jesus Cristo é o ponto fulcral, que o Espírito nos concede. Por tal graça, aceitamos na paz tranqüila da alma, as verdades que a mãe Igreja propõe a seus filhos. No Credo nós não criamos uma lista de verdades, segundo o nosso desejo pessoal. Mas aceitamos, de coração, tudo aquilo que a comunidade católica professa em público. São Paulo preceitua que entre nós deve haver “um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Ef. 4,5). Não é possível livrar o coração de dúvidas. Nas verdades essenciais devemos aplicar-nos a um diligente estudo, para reduzir ao mínimo nossas vacilações interiores.

Desde os primeiros séculos do cristianismo, foram elaborados “símbolos” da fé. Estes não contém a totalidade de tudo o que devemos crer. Mas nos levam a ter um coração dócil, para ultrapassar caprichos, e deixar de afagar opiniões de pura auto-afirmação. Não caiamos na teimosia de cultivar artigos de fé inexistentes, ou de rechaçar verdades eternas. Isso poderia nos levar a cair na repreensão do salmista que diz: “Para os ímpios não há conversão” (Sl. 119,155).

Mas professemos de coração o que proclamamos no credo: “Creio na Santa Igreja Católica”. Entretanto devemos saber fazer uma distinção. No símbolo da fé não manifestamos crença em coisas. Cremos só em pessoas. E como fica então isso de crer na Igreja? É que no Credo, antes de manifestar a nossa firme caminhada com a Igreja de Cristo, nós exclamamos “creio no Espírito Santo”. É Nele que nós cremos quando dirige a Igreja Católica, quando estabelece a comunhão entre os Santos, quando nos garante participar da vida eterna.

Dom Aloísio Roque Oppermann scj
Arcebispo Emérito de Uberaba, MG
25/10/2012

Dicas para educar os filhos

O Estado deve salvaguardar a liberdade das famílias

A escola deve ser vista como uma instituição destinada a colaborar com os pais na sua tarefa educativa. Ter consciência desta realidade torna-se mais urgente quando consideramos que, na atualidade, são numerosos os motivos que podem levar os pais – por vezes sem estarem inteiramente conscientes – a não compreender a amplitude da maravilhosa tarefa que lhes compete, renunciando na prática ao seu papel de educadores integrais.

A emergência educativa, tantas vezes evidenciada por Bento XVI tem as suas raízes nesta desorientação: a educação reduziu-se à «transmissão de determinadas habilidades ou capacidades de fazer, enquanto se procura satisfazer o desejo de felicidade das novas gerações enchendo-as de objetos de consumo e de gratificações efêmeras» (Bento XVI, Discurso à Assembleia Diocesana de Roma, 11-06-2007) e deste modo os jovens ficam «abandonados a si mesmos face às grandes perguntas que inevitavelmente surgem no seu interior» (Bento XVI, Discurso à Conferência Episcopal italiana, 28-05-2008), à mercê de uma sociedade e uma cultura que fez do relativismo o seu próprio credo.

Face a estes possíveis inconvenientes, e como consequência do seu direito natural, os pais têm que sentir que a escola é, de certo modo, um prolongamento do seu lar, um instrumento da sua própria tarefa como pais e não apenas um lugar onde se proporciona aos filhos uma série de conhecimentos.

Como primeiro requisito, o Estado deve salvaguardar a liberdade das famílias, de modo que estas possam escolher com retidão a escola ou os centros que julguem mais convenientes para a educação dos seus filhos. Certamente, no seu papel de tutelar o bem comum, o Estado possui determinados direitos e deveres sobre a educação e a eles voltaremos num próximo artigo. Mas tal intervenção não pode chocar com a legítima pretensão dos pais de educar os seus próprios filhos em consonância com os bens que eles defendem e vivem, e que consideram enriquecedores para a sua descendência.

Como o Concílio Vaticano II ensina, o poder público – ainda que seja por uma questão de justiça distributiva – deve oferecer os meios e as condições favoráveis para que os pais possam «escolher com liberdade absoluta, de acordo com a sua própria consciência, as escolas para os seus filhos»  (Concílio Vaticano II, decl. Gravissimum educationis, n. 6). Daí a importância de que aqueles que trabalham em ambientes políticos ou relacionados com a opinião pública procurem que tal direito fique salvaguardado e, na medida do possível, seja promovido.

O interesse dos pais pela educação dos filhos manifesta-se em mil detalhes. Independentemente da instituição em que os filhos estudem, é natural interessarem-se pelo ambiente existente e pelos conteúdos que se transmitem.

Tutela-se assim a liberdade dos alunos, o direito a que não se deforme a sua personalidade e não se anulem as suas aptidões, o direito a receber uma formação sã, sem que se abuse da sua docilidade natural para lhes impor opiniões ou critérios humanos parciais; permite-se e fomenta-se assim que as crianças desenvolvam um espírito crítico são, ao mesmo tempo que se lhes mostra que o interesse paterno neste âmbito vai para além dos resultados escolares.

Tão importante como esta comunicação entre os pais e os filhos é a que se verifica entre os pais e os professores. Uma clara consequência de se entender a escola como um instrumento mais da própria tarefa educativa, é colaborar ativamente com as iniciativas ou o ideário da escola.

Neste sentido, é importante participar nas suas atividades; felizmente, é cada vez mais comum que as escolas, independentemente de serem de iniciativa pública ou privada, organizem, de tempos a tempos, jornadas de portas abertas, encontros desportivos, ou reuniões informativas de caráter mais acadêmico. Especialmente neste último tipo de encontros, convém que participem – se for possível – os dois cônjuges, mesmo que isso requeira certo sacrifício de tempo ou de organização; deste modo, transmite-se ao filho – sem necessidade de palavras – que os dois, pai e mãe, consideram a escola um elemento relevante na vida familiar.

Neste contexto, comprometer-se nas associações de pais – colaborando na organização de eventos, fazendo propostas positivas, ou inclusivamente participando nos órgãos de direção – abre toda uma série de novas possibilidades educativas. Sem dúvida que desempenhar corretamente uma função desse tipo requer um notável espírito de sacrifício: é necessário dedicar tempo ao convívio com outras famílias, conhecer os professores, assistir a reuniões…

No entanto, estas dificuldades são amplamente compensadas – sobretudo, para a alma enamorada de Deus e ansiosa de servir – pela abertura de um campo apostólico cuja amplitude não se pode medir; mesmo que os regulamentos da escola não permitam intervir diretamente em alguns aspectos dos programas educativos, está-se em condições de envolver e impulsionar professores e dirigentes para que o ensino transmita virtudes, valores e beleza.

Os outros pais são as primeiras pessoas que agradecem esse esforço, e para eles um pai envolvido na tarefa da escola – quer seja porque tem esse encargo, quer seja porque por iniciativa própria mostra a sua preocupação pelo ambiente da turma, etc. – converte-se num ponto de referência, uma pessoa de cuja experiência se pode aproveitar, ou cujo conselho se pode procurar na educação dos próprios filhos.

Abre-se assim o caminho à amizade pessoal, e com ela a um apostolado que acaba beneficiando todas as pessoas do âmbito educativo em que os filhos se desenvolvem. É aqui plenamente aplicável o que São Josemaria deixou escrito em Caminho, sobre a fecundidade do apostolado pessoal: És, entre os teus -alma de apóstolo – a pedra caída no lago. – Produz, com o teu exemplo e a tua palavra um primeiro círculo…; e este, outro… e outro, e outro… Cada vez mais largo. Compreendes agora a grandeza da tua missão? (São Josemaria. Caminho, n. 831.)

J.A. Araña – J.C. Errázuriz
http://www.opusdei.org.br
15/10/2012

Síntese da Carta Apostólica Porta Fidei

CARTA APOSTÓLICA “PORTA FIDEI”- ANO DA FÉ
COMEMORAÇÃO DOS 20 ANOS DO CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

1. Preâmbulo
“Tem-se instalado em muitos um sentimento religioso vago e pouco comprometido com a vida; ou ainda várias formas de agnosticismo e de ateísmo prático, que redundam numa vida pessoal e social levada “etsi Deus non daretur, como se Deus não existisse” (João Paulo II no Congresso Nacional da Igreja Italiana em 23. 11.1995).
À luz desta observação feita pelo Beato João Paulo II podemos compreender a necessidade e utilidade pastoral do Ano da Fé, anunciado pelo Papa Bento XVI: tirar o “cansaço da fé” e tornar Deus presente no mundo. O Ano da Fé irá de 11/10/2012 (50º aniversário de abertura do Vaticano II) a 24/11/2013 (Solenidade de Cristo Rei). A fé é elemento central no cristianismo. A pergunta sobre Deus se coloca juntamente com a questão da fé.
O que é a fé? Ter fé hoje em dia? O que é ter fé, num mundo que não pergunta mais sobre a verdade das coisas, mas pergunta sobre a utilidade das coisas? O mundo hoje pede fatos concretos, eficiência. A pessoa de fé, ao contrário confia naquilo que não é feito por ela, não é visível, confia naquilo que é dado por um Outro.
A fé dá um sentido profundo à existência. Este sentido, porém, não pode ser construído pelo homem, mas recebido (é dom). Na fé eu recebo o que não pensei, por isso, a necessidade de ouvir, ouvir o que Deus revela: ouvir a Palavra de Deus.
A noção cristã de fé é correlativa à noção de Palavra de Deus. A fé tem dois aspectos interligados: confiança pessoal em Deus e aceitação-obediência ao que Ele revela. A fé é a atitude de quem está plantado no chão sólido da Palavra de Deus (cf. J. Ratzinger, in Introdução ao Cristianismo, Loyola, SP, 2005, 2ª Ed., p. 52). A Palavra se fez carne! Em Jesus Deus se manifestou, por isso nós cremos em um Tu, em uma pessoa. O sentido de tudo é Jesus, “autor e consumador da fé” (Hb 12, 2). Assim a fé cristã distingue-se da opinião, da crença, da ideologia e também da religião. A fé cristã tem a ver com a verdade e o amor.
O essencial da fé consiste na resposta confiante e no abandono a Deus que em Jesus Cristo veio até nós. O Concílio Vaticano II apresenta a fé cristã nestes termos: “A Deus que revela deve-se prestar a obediência da fé, pela qual o homem se entrega livre e totalmente, oferecendo a Deus revelador, a submissão plena da inteligência e da vontade e dando voluntariamente assentimento à revelação feita por Ele” (Dei Verbum n. 5).
A fé cristã, portanto, é atitude pessoal e livre, de entrega amorosa e confiante a Deus, a partir da aceitação da Revelação que é transmitida pela Palavra encarnada: Jesus Cristo. Vale notar que na teologia de Bento XVI é marcante o tema da fé. Ele enfatiza de um lado a centralidade da fé e a necessidade de propô-la e de outro a crise de fé.

2. Introdução
É antigo na Igreja o costume de se ter anos temáticos: Jubileus, Anos Santos, Anos Marianos, etc. João Paulo II ampliou tal costume. Recorde-se o jubileu do ano 2000 e sua preparação. Podemos auferir deste costume:
a) o reavivamento da consciência eclesial a respeito de um aspecto da vida cristã,
b) animação da ação evangelizadora das Igrejas locais,
c) solidificação do sentido da comunhão universal dos fiéis. Já houve um Ano da Fé em 1967 proclamado por Paulo VI. A ele se refere Bento XVI na Carta Apostólica Porta Fidei, com a qual faz a indicação do Ano da Fé.
Qual seria a intenção ou objetivo deste Ano da Fé? O Papa retoma o objetivo do Ano da Fé declarado por Paulo VI no 19º centenário do martírio de São Pedro e São Paulo: “retomar a exata consciência da fé para reavivar, purificar, confirmar, confessar a fé” (Paulo VI, Exort. Apost. Petrum et Paulum Apostolos in AAS 59 (1967) 801). O Papa Bento XVI afirma: “os conteúdos essenciais (da fé) necessitam ser confirmados, compreendidos e aprofundados de maneira sempre nova para se dar testemunho coerente deles em condições históricas diversas das do passado” (Porta Fidei n. 4) e ainda objetiva-se: “a profissão da verdadeira fé e sua reta interpretação” (Porta Fidei n. 5). Bento XVI anunciou sua intenção de convocar o Ano da Fé em 16 de outubro de 2011, na homilia da missa celebrada com os participantes da Congregação Plenária do Pontifício Conselho para a Nova Evangelização: “Será um momento de graça e de compromisso para uma conversão a Deus cada vez mais completa, para fortalecer a nossa fé nele e para O anunciar com alegria ao homem do nosso tempo” (Texto in www.vatican.va).
No dia seguinte foi publicada a Carta Apostólica Porta Fidei, que fora assinada dia 11 de outubro. O Papa volta ao tema na sessão plenária da Congregação para a Doutrina da Fé, dia 27 de janeiro de 2012, ele explicita como a iniciativa do Ano da Fé responde ao desafio atual que ele considera crucial: a crise de fé: “Estamos diante de uma profunda crise de fé, de uma perda do sentido religioso, que constitui o maior desafio para a Igreja de hoje. A renovação da fé deve ser, portanto, a prioridade no compromisso de toda a Igreja nos nossos dias. Desejo que o Ano da Fé possa contribuir, com a colaboração cordial de todos os componentes do Povo de Deus, para tornar Deus novamente presente neste mundo e para abrir aos homens o acesso à fé, ao confiar-se àquele Deus que nos amou até o fim (cf. Jo 13, 1), em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado” (cf. texto in www.vatican.va). Em vista do Ano da Fé foi constituído um Comitê ligado à Congregação Para a Doutrina da Fé, a qual, com a colaboração de outros organismos da Santa Sé (Pontifício Conselho para a Nova Evangelização especialmente) elaborou um conjunto de indicações, intitulado Notas com indicações pastorais para o Ano da Fé (Nota). A seguir apresenta-se uma exposição do conteúdo da Porta Fidei, também se fará uma referência ao conteúdo da Nota, e por fim uma articulação dos temas centrais com os meios indicados para se implementar o Ano da Fé.

3. Breve síntese do conteúdo da Carta Apostólica Porta Fidei
O texto está dividido em 15 parágrafos que agruparemos em seções temáticas:

a) Introdução (1-3):
A porta da fé (At 14, 27) que introduz no caminho da fé que é vida e comunhão com Deus em Igreja. Necessidade de que a fé seja proposta explicitamente.
Número 1 – São apresentados os elementos: pessoal e comunitário/eclesial, existencial e objetivo, sacramental e escatológico da fé (pontos fundamentais da teologia da fé). O caminho da fé inicia-se com o Batismo, por causa dele podemos nos dirigir a Deus como Pai. Crer na Trindade é crer no Deus de Amor.
Número 2 – Necessidade de redescobrir o caminho da fé para fazer brilhar a alegria do encontro com Cristo. Alerta para o fato de muitos cristãos sentirem maior preocupação com as consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé, como se ela fosse pré-suposta, “…tal pressuposto não só deixou de existir, mas frequentemente acaba até negado”.
Número 3 – Toca no fundamento antropológico da fé, a necessidade humana do absoluto e no aspecto teológico da antropologia: só Deus satisfaz plenamente o coração do homem. A Palavra de Deus nos orienta, Jesus a Palavra encarnada é o caminho para a salvação.

b) Proclamação do ano da fé e suas motivações (4-5)
Número 4 – Abertura do Ano da Fé coincidirá com o cinquentenário da abertura do Vaticano II e os vinte anos da promulgação do Catecismo da Igreja Católica, “… com o objetivo de ilustrar a todos os fiéis a força e a beleza da fé”, “obra fruto do Concílio” “desejada pelo Sínodo de 1985 como instrumento a serviço da Catequese”. A abertura do Ano da Fé vai também coincidir com o Sínodo dos Bispos (Tema: Nova Evangelização para a transmissão da fé cristã). Será ocasião “… para introduzir o complexo eclesial inteiro num tempo de reflexão e redescoberta da fé”. Recorda o Ano da Fé proclamado por Paulo VI em 1967. Número 5 – Alude ao Concílio Vaticano II cujos textos “não perdem seu valor nem sua beleza” “textos qualificados e normativos do Magistério” “o concílio como grande graça de que se beneficiou a Igreja” “bússola segura para nos orientar”. Os textos conciliares lidos a partir de uma justa hermenêutica são “uma grande força para a renovação sempre necessária da Igreja”.

c) Objetivos centrais do Ano da Fé (6-7)
Estes números explicitam e aprofundam os dois objetivos centrais do Ano da Fé que são interligados:
Número 6 – Primeiro objetivo: renovação da Igreja através de “uma autêntica e renovada conversão ao Senhor”, “A fé que atua pelo amor” (Gl 5, 6) torna-se um novo critério de entendimento e de ação que muda toda a vida do homem”. A fé é apresentada como resposta ao amor de Deus anunciado pela Palavra de Salvação.
Número 7 – Segundo objetivo: uma nova evangelização: “o amor de Cristo nos impele” assim “a fé torna-nos fecundos”. O Papa faz notar a partir de Santo Agostinho que “…só acreditando é que a fé cresce e se revigora”. O mesmo amor de Cristo que move à fé e à conversão, impele também à evangelização. Trabalha o tema da fé como perfeição antropológica que se manifesta na alegria: “A fé torna-nos fecundos, porque alarga o coração com a esperança”.

d) Ações fundamentais do Ano da Fé: refletir, confessar, celebrar e testemunhar a fé (8-9)
Número 8 – Exorta a “celebrar este ano de forma digna e fecunda”, intensificando a reflexão sobre a fé e encontrando formas “de fazer publicamente profissão do Credo”. Com a reflexão sobre a fé intensificada, se pretende “ajudar todos os crentes em cristo a tornarem-se mais conscientes e revigorarem sua adesão ao Evangelho”. A confissão da fé, em variadas formas e lugares, pretende suscitar “a exigência de conhecer melhor e transmitir às futuras gerações a fé de sempre”.
Número 9 – A celebração da fé ajudará a redescobrir a importância da liturgia e, principalmente, a centralidade da Eucaristia. Espera-se que o testemunho de vida dos crentes “cresça na sua credibilidade”. Apresenta-se então, a partir do significado do Credo para a experiência da fé, o tema da indissociabilidade entre o ato de fé e os conteúdos da fé: “Descobrir novamente os conteúdos da fé… e refletir sobre o próprio ato com que se crê, é um compromisso que cada crente deve assumir, sobretudo neste Ano”.

e) Dimensões da fé: “ato de fé” e “conteúdo da fé”, pessoal e comunitário (10)
Número 10 – Neste número, o parágrafo mais longo do documento, o Santo Padre apresenta os traços gerais do percurso de aprofundamento da compreensão dos conteúdos da fé quanto do ato de fé. Primeiro vem a reflexão entre ato e conteúdo, em seguida, a reflexão entre os aspectos: pessoal e comunitário. Partindo de Rm 10, 10, toma o coração e a boca como símbolos dos dois aspectos: o coração indica o ato pessoal e livre que acolhe o conteúdo da fé. A boca indica os conteúdos professados. O coração indica a dimensão pessoal, a boca a dimensão comunitária. O ato pessoal e livre é possibilitado pela graça que age e transforma a pessoa até o íntimo da alma. A profissão com a boca indica que a fé implica um testemunho e um compromisso públicos. Enquanto decisão é ato pessoal e leva a buscar as razões pelas quais se acredita e exige assumir a responsabilidade social daquilo que se acredita. Em seguida pondera que o primeiro sujeito da fé é a Igreja. A profissão pessoal da fé se fundamenta na fé recebida. Eu creio a fé da Igreja: eu creio, nós cremos! Concluindo o parágrafo o Papa toca na situação daqueles que embora não tenham fé, vivem na busca do sentido último e da verdade definitiva. Afirma ser esta situação um “preâmbulo” da fé.

f) Catecismo da Igreja Católica como instrumento para se chegar a um conhecimento sistemático da fé (11-12)
Número 11 – Vai indicar o Catecismo da Igreja Católica como “subsídio precioso e indispensável”(11), como meio eficaz de se chegar a um conhecimento sistemático da fé e assim atingir os objetivos deste Ano da fé : “…o Ano da Fé deverá exprimir um esforço generalizado em prol da redescoberta e do estudo dos conteúdos fundamentais da fé, que têm no Catecismo da Igreja Católica sua síntese sistemática e orgânica. Nele, de fato, sobressai a riqueza de doutrina que a Igreja acolheu, guardou e ofereceu durante seus dois mil anos de história” (11). O catecismo une os grandes temas da fé á vida cotidiana: “Em sua própria estrutura, o Catecismo da Igreja Católica apresenta o desenvolvimento da fé até chegar aos grandes temas da vida diária”. Alerta ainda para a necessidade de se unir a compreensão e profissão da fé à liturgia: “Sem a liturgia e os sacramentos, a profissão de fé não seria eficaz”.
Número 12 – O Papa indica o Catecismo da Igreja católica como verdadeiro instrumento de apoio da fé sobretudo aos que tem a incumbência da formação dos cristãos. Aborda também a situação da fé questionada pela ciência e a tecnologia, o papa escreve: “A Igreja, porém, nunca teve medo de mostrar que não é possível haver qualquer conflito entre fé e ciência autêntica, porque ambas, embora por caminhos diferentes, tendem para a verdade” (12).

g) Repassar a história de nossa fé e o testemunho da caridade (13-14)
Número 13 – A seguir o papa convida a repassar a “história da fé”, que evidencia a santidade entrelaçada com o pecado. A primeira incentiva para o progresso da fé, o segundo aponta para a necessidade de uma sincera e contínua conversão. Partindo de Jesus Cristo, repassar “os exemplos de fé que marcaram estes dois mil anos da nossa história de salvação”. Fazendo uma paráfrase de Hebreus cap. 11, o papa recorda sucintamente o testemunho dos que viveram pela fé nesses dois mil anos a começar por Maria e José, Apóstolos e Mártires das primeiras comunidades e todas as testemunhas nos diferentes contextos e situações. Em conclusão, afirma Bento XVI: “Pela fé, vivemos também nós. Reconhecendo o Senhor Jesus, vivo e presente na nossa vida e história”.
Número 14 – Neste número indica que o Ano da Fé será uma ocasião propícia também para intensificar o testemunho de caridade. A maior de todas as virtudes é a caridade. “Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta” e acrescenta: “Fé e caridade reclamam-se mutuamente, de tal modo que uma consente à outra realizar seu caminho”. O testemunho da caridade resplandece na dedicação amorosa da vida de tantos cristãos a seus semelhantes nas diversas necessidades, reconhecendo neles o rosto do Senhor (Mt 25, 40). Este testemunho tem uma dimensão escatológica.

h) Conclusão (15)
Número 15 – Convida a que sintamos dirigida a nós a exortação feita por Paulo a Timóteo para que “procure a fé” (2Tm 2, 22) com a mesma constância de quando era novo (2Tm 3, 15). Em seguida assinala temas como a resposta que devemos dar aos sinais dos tempos, e as provas da vida, “…a fé obriga cada um de nós a tornar-se sinal vivo da presença do Ressuscitado no mundo”. Expressa o desejo de que o Ano da Fé possa tornar cada vez mais firme a nossa relação com Cristo Senhor; “Com firme certeza, acreditamos que o Senhor Jesus derrotou o mal e a morte. Com esta confiança segura, nos confiamos a Ele. Ele, presente no meio de nós vence o poder do maligno” (cf. Lc 11, 20). Na sua palavra final o papa confia à Mãe de Deus, “feliz porque acreditou” (Lc 1, 45), o Ano da Fé como um tempo de graça.

4. Nota
Mencionada no número 12 da Porta Fidei, com a finalidade de oferecer indicações para viver o Ano da fé nos moldes mais eficazes e apropriados, a Nota foi publicada dia 06 de janeiro de 2012. O texto é dividido em duas partes: uma introdução e as indicações pastorais. A introdução retoma as características gerais do Ano da Fé já indicadas na Porta Fidei, ressaltando que ele quer contribuir para
a) uma conversão renovada ao Senhor Jesus
b) à redescoberta da fé,
c) para que todos os membros da Igreja sejam testemunhas credíveis e alegres do Senhor ressuscitado. Na segunda parte apresenta os objetivos das indicações pastorais: favorecer o encontro com Cristo e solicitar a responsabilidade eclesial diante do convite do Santo Padre de viver o Ano da Fé como tempo de graça. As indicações são agrupadas em níveis: Igreja Universal; Conferências Episcopais; Dioceses; Paróquias; Comunidades; Associações e Movimentos. A última indicação faz um apelo para que os fiéis comuniquem a própria experiência de fé e caridade, dialogando e sendo missionários em todas as direções e com todas as pessoas (cf. indicação IV, 10).

5. Articulação dos temas centrais da Porta Fidei com os meios indicados para implementar o Ano da Fé
O modo como se articulam os diversos elementos e temas na Porta Fidei é linear e simples. O encontro com Jesus Cristo confere pleno sentido á vida humana. A partir deste encontro, tem início o caminho da fé que revela a Trindade Santa: Deus de Amor. Deus pode ser chamado de Pai. Este encontro se dá no itinerário da experiência de fé, como um ato plenamente pessoal, consciente e livre, cujo início é o anúncio do Evangelho, a conversão e o batismo. Em seu início está a experiência da conversão, na qual a vida é plasmada pela graça que transforma. O encontro com Cristo traz em si mesmo a exigência de compreensão das razões pelas quais se crê. O conhecimento do conteúdo da fé é essencial para se dar o próprio assentimento, isto é, para aderir plenamente com a inteligência e a vontade. Há também a necessidade de não dar por pressuposto o conhecimento do conteúdo da própria fé, pois tal pressuposto deixou de existir. É preciso explicitar a fé. A profissão, a vivência e o testemunho da fé, é fato pessoal e comunitário indissociável. Cada crente crê a fé da Igreja, transmitida por ela e em seu âmbito, vivida e celebrada. A comunidade eclesial está sujeita ao mesmo processo contínuo de progresso na fé. Também ela é sujeita à conversão permanente, como renovação e reforma. O compromisso da Comunidade com o anúncio do Evangelho a faz procurar formas adequadas para a transmissão da fé nos novos contextos, respondendo aos novos desafios (nova evangelização). A missão, a comunicação aos outros é parte dessa experiência. “A fé cresce quando é vivida como experiência de um amor recebido e é comunicada como experiência de graça e de alegria” (n. 7). Os temas indicados neste último parágrafo, reforma e nova evangelização, estão a serviço dos temas indicados no primeiro, experiência e conhecimento da fé. As indicações práticas dadas pelo papa, são também objetivas e tradicionais: confessar a fé, celebrar a fé, refletir a fé pessoal e comunitariamente, em vista de seu renovado testemunho no mundo de hoje.
Os instrumentos são também os da Tradição:
a) textos do Concílio Vaticano II, (interpretados com uma correta hermenêutica),
b) Catecismo da Igreja Católica (como fruto do concílio e síntese sistemática e orgânica da fé da Igreja),
c) a história da fé,
d) o testemunho de caridade que procede da fé vivida.
*(Aqui talvez pudéssemos acrescentar como outro instrumento válido, também o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, redigido pelo Pontifício Conselho Justiça e Paz, a pedido do Beato João Paulo II, e publicado em junho de 2004. Na Porta Fidei o Papa Bento XVI, chama atenção para a necessidade do testemunho de fé através da caridade e o próprio Catecismo diz: “A Revelação cristã leva a uma compreensão mais profunda das leis da vida social” (cf. n. 2419).

6. Conclusão
Reavivar a fé, aprofundar seu conteúdo, dar testemunho da alegria de crer. Este tempo de graça que o Ano da Fé nos propõe, e que a Carta Apostólica Porta Fidei nos explicita, merece nossa acolhida e nosso compromisso de desenvolvê-lo da melhor maneira possível entre nós. Quanto às dificuldades e desafios que nos são propostos neste tempo de mudança de época, permitam-me recordar o Evangelho de Mateus (10, 16): “Eis que eu vos envio como ovelhas em meio aos lobos”.
Este é um convite de Jesus para não lamentarmos. Para a missão e vivência da fé os tempos serão sempre difíceis. Jesus quis alertar os apóstolos desde o início a respeito desta realidade. Seria ilusão pensar que os tempos serão melhores para receber e viver a fé. Haja vista os mártires que sempre existiram. O ministério em favor da fé será sempre contestado, mas também, será sempre sustentado pela virtude do Espírito e da graça, sinais da força do Reino de Deus.

Dom Pedro Carlos Cipolini
Bispo de Amparo-SP

Tudo para a glória de Deus

Como fazer a vontade de Deus no trabalho?

A profissão de cada um é um meio para se fazer a vontade de Deus no dia a dia. Viver mal a profissão, trabalhar mal, sem competência e bom desempenho é uma forma de desobedecer à vontade de Deus. O trabalho foi colocado em nossa vida, por Deus, como “um meio de santificação”. Depois que o homem pecou no paraíso e perdeu o “estado de justiça” e “santidade” originais, Deus Pai fez do trabalho um meio de redenção para o homem.

“Porque escutaste a voz de tua mulher e comeste da árvore que eu te proibira de comer, maldito é o solo por causa de ti. Com sofrimentos dele te nutrirás todos os dias de tua vida. Ele produzirá para ti espinhos e cardos e comerás a erva dos campos. Com suor do teu rosto comerás teu pão até que retornes ao solo, pois dele foste tirado” (Gen 3,17-19).Mais do que um castigo para o homem, o trabalho foi inserido na sua vida para a sua redenção. Por causa do pecado ele agora é acompanhado do “suor”, mas este sofrimento Deus o fez matéria-prima de salvação.

Sem o trabalho do homem não há o pão e o vinho que, na Mesa Eucarística, se transformam no Corpo e no Sangue de Cristo. Sem o trabalho do homem não teríamos o pão de cada dia na mesa, a roupa, a casa, o transporte, o remédio, a cultura, entre outros. Tudo que chega a nós é fruto do trabalho de alguém; é por isso que o labor é santo e nos santifica quando realizado com fé, conforme a vontade de Deus.

São Josemaría Escrivá, fundador do Opus Dei, durante a celebração de uma Santa Missa, no campus da grande universidade de Navarra, na Espanha, fez uma histórica homilia, como título “Amar o Mundo Apaixonadamente”. Ele fundou a prelazia para difundir a santidade no trabalho profissional e nas atividades diárias. Na homilia, ele falava da necessidade de “materializar a vida espiritual”. O objetivo era combater a perigosa tentação do cristão de “levar uma espécie de vida dupla: a vida interior, a vida de relação com Deus, por um lado; e, por outro, diferente e separada, a vida familiar, profissional e social, cheia de pequenas realidades terrenas”.

Santo Escrivá, um santo dos nossos dias, canonizado em 2002 por João Paulo II, olhava a vida com grande otimismo e considerava o trabalho e as relações humanas com alegria e dizia que: “O mundo não é ruim, porque saiu das mãos de Deus”. “Qualquer modo de evasão das honestas realidades diárias é para os homens e mulheres do mundo coisa oposta à vontade de Deus”.

Na verdade, somente com essa ótica podemos entender plenamente o mundo com os olhos de Deus. Nem o marxismo cultural, materialista e ateu, nem o consumismo desenfreado de nossos dias, nem o hedonismo, que busca o prazer como fim, podem dar ao homem moderno a felicidade e a verdadeira paz.

Qualquer que seja o trabalho, sendo honesto, é belo aos olhos de Deus Pai, porque com ele estamos “cooperando com Deus na obra da criação”. Não importa se o trabalho consiste nos simples afazeres de uma doméstica ou nas complicadas tarefas de um cirurgião que salva uma vida, tudo é importante diante do Senhor. O que mais importa é a intensidade do amor com que cada trabalho é realizado. Ele se tornará eterno na vida futura.

São Josemaría Escrivá falava da necessidade de o Cristianismo ser encarnado na vida cotidiana. “Tudo o que fizerdes, fazei-o de bom coração, como para o Senhor e não para os homens. Sabeis que recebereis como recompensa a herança das mãos do Senhor. Servi ao Senhor Jesus Cristo” (Col 3,13).

Tudo o que fazemos deve ser feito “para o Senhor”. Não importa o que seja, se é grande ou pequeno, deve ser feito tendo o Senhor como o “Patrão”. Se você é lavadeira, então lave cada camisa ou cada calça como se o próprio Jesus fosse vesti-las. Se você cozinha, faça a comida como se o Senhor fosse comê-la. Se você é um pintor de paredes, pinte a casa como se ela fosse a morada do Senhor. Se você varre a rua, limpe-a como se o Senhor fosse passar por ela… Se você é um aluno, estude a lição como se o professor fosse o Senhor Deus.

É isso que São Paulo quer nos ensinar quando diz que “tudo deve ser feito de bom coração, como para o Senhor, e não para os homens”. É claro que com essa “nova ótica”, você vai trabalhar da melhor maneira possível, com todo o talento, cuidado, dedicação, competência, honestidade, pontualidade… perfeição, porque o fará para Deus. Isso santifica. Isso muda a nossa vida; e é a vontade de Deus. Isso o fará feliz. Quando trabalhamos assim, toda a vida se torna “sagrada”, pois é vivida plenamente para Deus.

É importante também notar o que São Paulo diz a seguir: “Sabeis que recebereis como recompensa a herança das mãos do Senhor”. Que “herança” é essa? É a vida eterna, o céu, o prêmio, por você ter sido “fiel no pouco”. Isso mostra que cada minuto do nosso labor aqui na terra, vivido por amor a Deus, com “reta intenção” de agradá-Lo, se transforma em semente de eternidade.

Felipe Aquino
[email protected] 

Desenvolvido por Origy Networks – Criação de sites e propaganda