Com a Palavra

As bem-aventuranças são o “GPS” da vida cristã

Segunda-feira, 6 de junho de 2016, Da Redação, com Rádio Vaticano

Santo Padre convida fiéis a seguirem as bem-aventuranças que indicam o caminho correto a seguir na vida

Na Missa desta segunda-feira, 6, na Casa Santa Marta, o Papa Francisco convidou os fiéis a seguirem as bem-aventuranças, as quais, segundo ele, são um “GPS”, uma bússola que indica aos cristãos o caminho certo da vida.

Para não se perder no caminho da fé, disse o Pontífice, os cristãos têm um indicador exato de direção: as bem-aventuranças. Ignorar as rotas que elas propõem significa escorregar nos três degraus da antítese da lei cristã: a idolatria das riquezas, da vaidade e do egoísmo.

O “GPS” da vida cristã

A homilia foi inspirada no Evangelho de Mateus, que mostra Jesus instruindo as multidões com o célebre sermão da montanha.

Francisco reiterou que Cristo ensinava a nova lei, que não cancela a antiga, mas a aperfeiçoa, levando-a “à sua plenitude”. “Essa é a lei nova, essa que nós chamamos ‘as bem-aventuranças’, é a nova lei do Senhor para nós. São o guia da rota, do itinerário, a bússola da vida cristã. Nesse caminho, segundo as indicações desse ‘GPS’, podemos prosseguir na nossa vida cristã”.

Os três degraus da perdição

O Santo Padre acrescentou uma observação sobre o que o evangelista Lucas coloca no fim das bem-aventuranças: “Ai de vocês, os ricos; ai de vocês que agora têm fartura, que agora riem; ai de vocês se todos os elogiam. O Papa recordou algo que já disse várias vezes: as riquezas são boas, mas o que faz mal é o apego a elas, que se torna uma idolatria.

“Isso é contrário à lei. É o GPS errado. É curioso! Esses são os três degraus que levam à perdição, assim como essas bem-aventuranças são os degraus que levam adiante na vida. Os três degraus que levam à perdição são: o apego às riquezas, porque eu não preciso de nada. O segundo é a vaidade: Quero que todos falem bem de mim. Se todos falam bem, sinto-me importante, muito incenso, e eu acredito ser justo, não como aquele ou como aquele outro. Pensemos na parábola do fariseu e do publicano: ‘Ó Deus, eu te agradeço, porque não sou como os outros homens…’. ‘Obrigado, Senhor, porque sou um bom católico, não como o meu vizinho ou a minha vizinha’. Todos os dias isso acontece! O terceiro degrau: o orgulho, que é a saciedade, as risadas que fecham o coração”.

A mansidão

Dentre todas as bem-aventuranças, Francisco selecionou uma que, segundo ele, não é que seja a chave de todas, mas faz pensar muito: a mansidão. “Jesus diz de si mesmo: Aprendam de mim que sou manso e humilde de coração. A mansidão é uma maneira de ser que nos aproxima muito de Jesus. Mas o comportamento contrário sempre procura as inimizades, as guerras, tantas coisas ruins que acontecem. Mas a mansidão de coração que não é tolice. É outra coisa. É a profundidade em entender a grandeza de Deus, e adoração”.

Do bom e do melhor

Leila Ferreira

Estamos obcecados com ‘o melhor’. Não sei quando foi que começou essa mania, mas hoje só queremos saber do ‘melhor’. Tem que ser o melhor computador, o melhor carro, o melhor emprego, a melhor dieta, a melhor operadora de celular, o melhor tênis, o melhor homem, o melhor vinho. Bom não basta.

O ideal é ter o top de linha, aquele que deixa os outros pra trás e que nos distingue, nos faz sentir importantes, porque, afinal, estamos com ‘o melhor’. Isso até que outro ‘melhor’ apareça – e é uma questão de dias ou de horas até isso acontecer.

Novas marcas surgem a todo instante. Novas possibilidades também. E o que era melhor de repente nos parece superado, modesto, aquém do que podemos ter. O que acontece, quando só queremos o melhor, é que passamos a viver inquietos, numa espécie de insatisfação permanente, um eterno desassossego.

Não desfrutamos do que temos ou conquistamos, porque estamos de olho no que falta conquistar ou ter. Cada comercial na TV nos convence de que merecemos ter mais do que temos. Cada artigo que lemos nos faz imaginar que os outros (ah, os outros!…) estão vivendo melhor, comprando melhor, amando melhor, ganhando melhores salários. Aí a gente não relaxa, porque tem que correr atrás, de preferência com o melhor tênis.

Não que a gente deva se acomodar ou se contentar sempre com menos. Mas o menos, às vezes, é mais do que suficiente. Se não dirijo a 140, preciso realmente de um carro com tanta potência? Se gosto do que faço no meu trabalho, tenho que subir na empresa e assumir o cargo de chefia que vai me matar de estresse porque ‘é o melhor cargo da empresa’? E aquela TV de não sei quantas polegadas que acabou com o espaço do meu quarto? O restaurante onde sinto saudades da comida de casa e vou porque tem ‘o melhor chef’? Aquele xampu que eu usei durante anos tem que ser aposentado porque agora existe um melhor e dez vezes mais caro? O cabeleireiro do meu bairro tem mesmo que ser trocado pelo ‘melhor cabeleireiro’?

Tenho pensado no quanto essa busca permanente do melhor tem nos deixado ansiosos e nos impedido de desfrutar o ‘bom’ que já temos. A casa que é pequena, mas nos acolhe. O emprego que não paga tão bem, mas nos enche de alegria. A TV que está velha, mas nunca deu defeito. O homem que tem defeitos (como nós), mas nos faz mais felizes do que os homens ‘perfeitos’. As férias que não vão ser na Europa, porque o dinheiro não deu, mas vão me dar a chance de estar perto de quem amo.

O rosto que já não é jovem, mas carrega as marcas das histórias que me constituem. O corpo que já não é mais jovem, mas está vivo e sente prazer. Será que a gente precisa mesmo de mais do que isso? Ou será que isso já é o melhor e, na busca do ‘melhor’, a gente nem percebeu?…

Uma palavra aos jovens sobre sexo

A castidade é uma das maiores disciplinas, sem a qual a mente não pode alcançar a firmeza necessária

Tenho recebido muitos e-mails de jovens que me perguntam como viver a castidade no namoro; como vencer o vício da masturbação, etc.. Certamente para o jovem cristão hoje, no meio deste mundo erotizado, viver a castidade é uma conquista heroica; pois tudo o convida a viver a vida sexual antes do casamento.  Os filmes pornôs são abundantes nas locadoras, nos canais de TV por assinatura; as músicas estão repletas de letras excitantes; os rebolados indecorosos de moças seminuas na tv , etc., lançam pólvora no sangue dos jovens.

Então, para se viver na castidade hoje, como Deus manda no sexto Mandamento (Não pecar contra a castidade), o jovem precisa ter muito amor a Deus. Só trocamos um amor por outro maior, diz o ditado. Só o amor a Jesus crucificado por nós poderá ser para o jovem de hoje um forte motivo para ser casto e aceitar o que o Papa Bento XVI tem chamado de “martírio da ridicularização”, diante dos que zombam de nossa fé.

A gravidade do pecado da impureza, luxúria, é que com ele, se mancha o Corpo de Cristo. “Ora, vós sois o corpo de Cristo e cada um de sua parte, é um dos seus membros” (1Cor 12, 27).  “Não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo?” (1Cor 6, 15).  “Fugi da fornicação. Qualquer outro pecado que o homem comete é fora do corpo, mas o impuro peca contra o seu próprio corpo” (1 Cor 6, 18). São Paulo ensina que devemos dar glória a Deus com o nosso corpo: “O corpo, porém não é para a impureza, mas para o Senhor e o Senhor para o Corpo”. (1 Cor 6,20)

Se você jovem, quer viver a castidade, então, antes de tudo precisa saber o seu valor; para isso escrevi um livro O BRILHO DA CASTIDADE, mostrando toda a sua importância e beleza. Quanto mais for difícil vivê-la, mais bela e mais importante ela será. Vejo o jovem casto hoje como aquele lírio branco que nasce no meio da podridão do lodo. Serão esses jovens que sustentarão a civilização que hoje desliza para o abismo. Para haver a castidade nos nossos atos, é preciso que antes ela exista em nossos pensamentos e palavras. Jamais será casto aquele que permitir que os seus pensamentos, olhos, ouvidos, vagueiem pelo mundo do erotismo. É por não observar esta regra que a maioria pensa ser impossível viver a castidade. Não se iluda. Não brinque com fogo.

“A castidade é a virtude que nos eleva da natureza humana à natureza angélica”, disse o Santo Padre Pio de Pietrelcina. Victor Hugo disse que “A mais forte de todas as forças é o coração puro”.

O Papa Bento XVI no Campo de Marte, São Paulo, em 11/05/2005, disse aos jovens: “É preciso dizer não àqueles meios de comunicação social que ridicularizam a santidade do matrimônio e a virgindade antes do casamento”.

Jesus proclamou no Sermão da Montanha: “Bem aventurados os de coração puro porque verão a Deus”. “Para o homem de coração puro, tudo se transforma em mensagem divina”, disse São João da Cruz, doutor da Igreja espanhol. Santo Efrém, também doutor da Igreja ensinava que a castidade nos faz semelhantes aos anjos. Enfim, a castidade é uma virtude dos fortes que se dominam. Paul Claudel disse que “a juventude não foi feita para o prazer, mas para o desafio”.

O Mahatma Ghandi, libertador da Índia, que não era católico, disse que: “A castidade não é uma cultura de estufa… A castidade é uma das maiores disciplinas, sem a qual a mente não pode alcançar a firmeza necessária. A vida sem castidade parece-me vazia e animalesca. Um homem entregue aos prazeres perde o seu vigor e vive cheio de medo. A mente daquele que segue as paixões baixas é incapaz de qualquer grande esforço. Deus não pode ser compreendido por quem não é puro de coração” (Toschi Tomás, “Gandhi, mensagem para hoje”, Ed. Mundo três, SP, 1977, pg. 105s).

Uma vida lutando pela castidade dá ao jovem o autodomínio sobre as paixões e as más inclinações do coração e o prepara, com têmpera de aço, para ser um verdadeiro homem, e não um frangalho humano que se verga ao sabor dos ventos das paixões, da influência da mídia e dos cantos das sereias deste mundo. Eu entendi que a castidade é o esteio que sustenta o equilíbrio de um homem. Os homens e mulheres casados traem seus cônjuges porque não souberam exercitar a força de vontade na luta da castidade. Um casamento forte só pode existir quando ambos aprenderam a se dominar no namoro e no noivado. Mais importante que dominar uma cidade é dominar-se a si mesmo, diz o livro dos Provérbios.

Por tudo isso, jovem cristão, não desanime e nem desista de lutar; cada um de nós tem a sua cruz nesta vida; mas com a graça de Deus é possível carregá-la até onde Deus quer. Tenha uma vida de “vigilância e oração”, como Jesus mandou; esse é o grande remédio para não pecar. Não se entregue a maus pensamentos eróticos e nem aos filmes, revistas e coisas do tipo; fuja disso heroicamente. Suplique sempre a graça de Deus. Consagre-se todos os dias a Nossa Senhora e peça sua ajuda. Participe da Missa e da comunhão sempre que puder, e se confesse sempre que pecar, para ter forças de não cair novamente.

Jamais dê ouvidos a quem lhe disser que “a masturbação não é pecado”, e que o sexo no namoro também não é; pois o Catecismo da Igreja afirma sua desordem. Ainda que você caia, se continuar a lutar, se continuar a dizer não ao pecado no seu coração, levante-se, se Confesse com um sacerdote e continue sua luta e sua caminhada. Não importa quantas vezes você cai; importa que se levante. Jesus sabe que você está numa guerra e que numa guerra às vezes o soldado pode cair e ser até baleado, mas nem por isso deve desistir de lutar.

Muitos são os psicólogos não cristãos, e também outros “orientadores”, e a mídia de modo geral, que induzem o jovem à masturbação, ao relacionamento sexual no namoro e fora dele, etc.

O namoro não existe para que vocês conheçam os seus corpos, mas as suas almas. Alguns querem se permitir um grau de intimidade “seguro”, isto é, até que o “sinal vermelho seja aceso”; aí está um grave engano.  Quase sempre o sinal vermelho é ultrapassado, e muitas vezes acontece o que não deve. Quantas namoradas grávidas…

Um namoro puro só será possível com a graça de Deus, com a oração, com a vigilância e, sobretudo quando os dois querem se preservar um para o outro. Será preciso então, evitar todas as ocasiões que possam facilitar um relacionamento mais íntimo. O provérbio diz que “a ocasião faz o ladrão”, e que, “quem brinca com o perigo nele perecerá”. É você quem decide o que quer.

O jovem casto é hoje a esperança de Deus e da Igreja para renovar esse mundo apodrecido pelo pecado do sexo que profana a mais sagrada criatura que é templo do Espírito Santo.  São Paulo diz que: “de Deus não se zomba. O que o homem semeia, isto mesmo colherá” (Gl 6,7);  a castidade que o jovem semear na juventude será transformada em frutos doces na sua futura vida familiar.

Prof. Felipe Aquino

A Inquisição – mito e realidade

A INQUISIÇÃO E A REFORMA PROTESTANTE: MITO E REALIDADE
Fonte: Apologética Siloe
Autor: Guido Zamorano
Tradução: Rogério Hirota (SacroSancttus)

A história segundo alguns é uma dama demasiadamente volúvel, somente expressa as opiniões dos vencedores. Se esta opinião é contra a uma realidade espiritual marcada com o sinal do Cristianismo e se esta realidade pertence concretamente a Igreja Católica vemos que a historia se tornam de volúvel à parcial e agressiva …os historiadores, os antigos e os modernos, e ainda os comunicadores da imprensa contemporâneos perdem a perspectiva histórica e a objetividade tão diariamente buscada. Poucos dos historiadores marcados pelo anticlericalismo, neste tempo da objetividade periodística, se dão conta de tudo o que a Igreja Católica deu neste tempo ao mundo conhecido da época:
* A Igreja deu ao mundo civilizado um Código Moral e ético com um governo internacional capaz de servir de árbitro nas disputas entre nações e governantes,
* Deu a língua latina ensinada nas escolas católicas, esta língua serviu como meio de unificação aos eruditos, os literais, os cientistas e os filósofos de diferentes culturas e os vincularam entre si;
* A liturgia e a Fé Católica deram uniformidade religiosa a Europa, serviu como tribunal internacional ante aos governantes e estados responsáveis,
* Foi a Igreja quem construiu as Universidades, centros do saber da época, quase toda a arte européia foi inspirado e patrocinado pela Igreja,
* Ligou aos indivíduos em uma tremenda relação pessoal com um Deus até o momento quase cósmico,
* Através dos monastérios femininos e da veneração da Virgem Maria deu um lugar digno a mulher,
* Os monastérios ensinaram e modernizaram a agricultura, alimentavam aos pobres desamparados, educavam as crianças, davam alojamento aos viajantes, cuidavam dos enfermos em hospitais…preservaram a cultura e copiaram milhares de manuscritos (Bíblia) para que não se perdessem… Um exemplo de como a Igreja valorosamente se preocupava e ocupava com o homem foi durante a grande Peste Negra de 1348, enquanto os médicos abandonavam a luta por não conhecer remédio efetivo, a Igreja tomou a frente e um dado da época nos dá a medida: De vinte e oito Cardeais, nove morreram, de sessenta e quatro Arcebispos, vinte e cinco morreram, de trezentos e setenta e cinco bispos, duzentos morreram junto a milhares de sacerdotes no cumprimento de seu dever, disso ninguém comenta … .e assim poderíamos seguir por páginas e páginas … É por isto que temos de começar este artigo sobre a Inquisição e o fazemos com uma profissão de Fé: A VIDA DO HOMEM É SAGRADA E NINGUÉM TEM DIREITO COM BASE A NENHUM LIVRO, IDÉIA OU CREDO RELIGIOSO, MUITO MENOS COM BASE NO EVANGELHO E O CRISTIANISMO, DE DESTRUIR ESTA VIDA IMAGEM DE DEUS. UMA SÓ VIDA PERDIDA PELA INTOLERÂNCIA CLAMA AO CÉU COMO O SANGUE DE ABEL. Essa é nossa forma de pensar e este artigo não é para remir a perda de vidas nos anos tumultuosos da Reforma. Este artigo é para por as coisas em sua devida perspectiva e fazer um pequeno estudo da sociedade da época e sua forma de pensar, também tem o propósito de mostrar a verdade ou seja, de que a Inquisição Católica NÃO é o que se tem mostrado e que a Reforma Protestante eliminou muitas vidas das quais quase não é mencionado por nenhum historiador objetivo, dando a impressão de que a Igreja Católica foi a grande assassina de seus pacíficos adversários teológicos, NÃO FOI ASSIM. Nos encontramos frente a uma época muito difícil com uma sociedade que despreciava a vida e que vivia em uma cultura de pouco valor ao sofrimento.

REALIDADE DA SOCIEDADE NOS SÉCULOS XIII, XIV, XV E XVI, MÉTODOS CRIMINAIS
Em nosso mundo moderno se tem mudado drasticamente os valores e a forma de pensar e é por isso que não se pode fazer um estudo objetivo e muito menos lançar um juízo se não nos enriquecermos antes da realidade na qual julgamos, fazer um juízo pela nossa perspectiva histórica seria uma injustiça imperdoável. Em nosso mundo hoje se castiga os que diferem em matéria de política ou em matérias econômicas, mas resulta num pensar paradoxo que castigue alguém por uma diferença teológica. Há quatro séculos não era assim. Nesses séculos e séculos anteriores um ataque a teologia oficial era considerado um ataque ao sistema social imperante e diferenças de Teologias afundaram países como França e Alemanha em séculos de lutas e centenas de milhares de mortos. Na Idade Media era certo que (no credo popular e dos governantes) quando se suprimia uma pessoa que diferenciasse da Teologia Oficial (herege) estaria se salvando do inferno a seus possíveis convertidos e também a pessoa. Também temos que ter em conta que estes foram séculos onde (sem nenhum tipo de analgésico que conhecemos hoje) as dores ocupavam um lugar diário na vida do cidadão, se somarmos a isso: as operações sem anestesia, as extrações de dentes por barbeiros, o baixo índice de estimativa de vida e toda uma série de fatores estranhos para nós, vemos que era uma cultura baseada na indiferença diante da dor. Os procedimentos da Inquisição nos chamam a atenção agora depois de mais de duzentos anos, mas no momento não foram extraordinariamente chamativos e o fato que milhares de pessoas se congregavam para ver os autos de Fé dão a medida do caso comum. Como um caso curioso para dar uma idéia da mentalidade dos homens e mulheres destes séculos incompreensíveis para nós, entre tantos casos escolho o castigo dos irmãos D’aumaile amantes das noras de Felipe o Formoso (Rei Francês). Estes jovens de 17 e 19 anos depois de torturas incríveis foram atados a uma roda e destroçaram-lhes os ossos um a um, arrancaram-lhes a pele com alicates, cortaram-lhes os testículos, foram esquartejados pela tração de quatro cavalos e finalmente foram decapitados, o mais terrível é que quatro dias antes milhares de cidadãos de todas as classes acamparam nos arredores para ver o espetáculo e segundo os cronistas da época o ambiente “era de feira”, esta conduta reprovável para nós era comum nesses momentos e a nossa será julgada igualmente nos três ou quatro séculos futuros. A unidade do estado era realmente uma necessidade, a religião era a única que podia unir estados tão dispares como os reinos da nascente Espanha, um atentado a religião era um atentado ao estado e aos reis da época assim o entendiam e viam. Como mencionei, a guerra de religião da França por teologias causou 90% mais mortes que todas as Inquisições juntas e debilitou um estado que podia ter sido o mais próspero, igualmente ocorreu na Alemanha. A Espanha saiu praticamente ilesa desta praga pela Inquisição e é precisamente a Inquisição Espanhola a mais atacada e mau apresentada. Toda esta lenda negra sobre a Inquisição Espanhola surge com o Senhor Juan Antonio Llorente espanhol afrancesado, colaborador da ocupação francesa e assalariado de José Bonaparte que saiu da Espanha acompanhando as tropas Napoleônicas e se instalou em Paris no começo do Século XIX, em 1817 editou um livro partidista e político contra os Reis Espanhóis e desses lodos temos estes lamas. NA REALIDADE O QUE FOI A INQUISIÇÃO ESPANHOLA?

MITO E REALIDADE
A Inquisição Espanhola tem sido a mais duramente atacada, pela Espanha ser o baluarte do Catolicismo e ao mesmo tempo inimiga comercial e política da Inglaterra protestante. Vejamos a opinião de dois eruditos no tema: A.S. Turberville em seu Livro “A Inquisição Espanhola, pág 61 e 62 diz: “O Santo Oficio pretendia ser o Tribunal mais clemente de todos porque seus fins não eram a administração de uma justiça rígida e automática, mas a reconciliação do delinqüente. Confessar-se culpado com o Santo Oficio era obter o perdão. De qual outro tribunal pode se dizer isto? O Inquisidor era tanto o Padre Confessor como o juiz, que pretendia não uma condenação, mas acabar com um extravio e devolver ao rebanho a ovelha desgarrada. Por isso se solicitava constantemente ao acusado que recordasse a diferença fundamental entre a Inquisição e os tribunais ordinários e que sua finalidade não era o castigo do corpo, mas a salvação da alma e pelo mesmo se explicava que tratava de salvar-se por meio da Confissão”
Em outras palavras, para o leitor moderno… imaginemos que não você não pare na luz de um semáforo e a polícia o leva detido, você vai diante do juiz e confessa que realmente se arrepende de não ter se detido na luz vermelha e pede perdão, então o Juiz te absolve com uma remissão. Assim atuava o Tribunal da Inquisição, seu objetivo não era condenar, era salvar e dos famosos autos de Fé muitas pessoas era reconciliada com a Igreja depois de levar um hábito chamado “são bento”: pela similaridade do hábito desta ordem, por vários domingos diante a Igreja depois disto eram aceitos de novo na Comunhão, exemplo disso foi o avô de Santa Teresa de Ávila, que levou São Bento trocando pelos judaizante e se reconciliou com a Igreja e nos deu tal Santa. Os que não se arrependiam e se demonstrava sua culpa de heresia eram entregues a justiça do Rei, a Igreja não podia fazer nada mais além da excomunhão, isto recaia no campo político e poderia comprometer a segurança do reino. Outro ponto para se ter em conta era que estes tribunais não atuavam sob a autoridade da Igreja Católica e do Papa, a Inquisição acabou por ser um poder nas mãos do Rei e muitas vezes contra Roma como veremos nos exemplos que daremos mais tarde. Vejamos a opinião de Fernando Ayllon em seu livro “O Tribunal da Inquisição da Lenda a História” Pág 578 e 579. Diz assim: “A Inquisição espanhola esteve desde suas origens submetida a vontade real o qual a levou inclusive a enfrentar em algumas oportunidades contra o poder do próprio Pontífice. Diversos exemplos disso são os atritos dos primeiros inquisidores com os Papas Sisto IV ou Inocêncio VIII; a causa contra o Arcebispo de Toledo, Primado da Espanha Bartolome Carranza; as dificuldades ocasionadas pela Inquisição na aceitação de bulas pontifícias etc. O certo é que em ocasiões se converteu em instrumento político em poder dos reis para fins diversos, por sua característica dualística, estatal-eclesiástica. Devemos recordar também que não existia nenhum tribunal que não estivesse sujeito a dita pressão e utilização pelo poder político, não somente na Espanha mas em todo o mundo. O Santo Ofício foi o símbolo da etapa na qual se estabeleceu e desenvolveu. A alta religiosidade da época motivou o surgimento de uma instituição que se encarregava da fé ,a moral , o mantimento da ordem público e a paz social. A Inquisição, além de qualquer desvio humano de seus objetivos, cumpriu esta missão. Foi muito importante para o estado e para a formação da unidade nacional espanhola, defendendo-a contra os graves perigos que a ameaçavam. O Tribunal não foi uma trava para o progresso intelectual da Espanha como demonstra o fato contundente, amplamente documentado e fora de toda discussão, de que a época de sua maior ação coincidiu com a do apogeu hispano”. A história da Inquisição tem sido desfigurada por historiadores maçons e anticlericais e foi até o século XIX e XX que a verdade começou a brilhar neste tema. R. Cappa disse: “Ainda que a Inquisição viesse declarando o acusado réu de tal delito e se seguisse com a perda da vida, ela não obstante, não era a causa de tal perda: era isso, o delito (que a Inquisição não havia cometido) e a Lei Civil (que ela não havia feito). Para evita-lo tinha se estabelecido o perdão para todos os que se arrependesse , contanto que este arrependimento tivesse sido confessado enquanto o réu estivesse sob sua jurisdição inclusive até o último momento. Por outra parte o relaxamento ao braço secular (entrega a justiça) teve lugar relativamente em poucos casos que não existissem além disso os graves delitos. Assim o número de queimados na Espanha foi muito exíguo constituindo outro grave erro histórico das supostas alegações, das que já se burlou o historiador Hefele ao dizer que “de uma parte se imagina um braseiro imenso, uma caldera colossal e de outra os espanhóis reunidos em imensa multidão, como uma tropa de canibais com os olhos brilhantes prontos a devorar centenas de vítimas”.
A Inquisição foi muito mais benigna que os tribunais da época pois:
1) comutou a pena de morte por penitencias Canônicas quando o réu se arrependia.. Coisa que não ocorria NEM OCORRE nos tribunais civis.
2) Aboliu a pena de açoites para as mulheres e os fugitivos das cadeias, como era comum no braço secular
3) Suprimiu a argola para as mulheres
4) Limitou em cinco anos a pena as prisões femininas impondo-a sempre dentro de um marco aceitável de idade (a pena para a prisão feminina era perpetua no direito civil)
5) Suavizou o tormento e o aboliu muito antes que os tribunais civis
Muito mais sangrentas foram e ainda NESTE SÉCULO as Inquisições mexicanas da revolução e a Russa da Era Staliniana!
A Inquisição espanhola começou sob a Ordem Dominicana mas depois de 1483 toda sua estrutura se encontrava sob uma instituição governamental chamada “A Suprema”, esta jurisdição da Inquisição se estendia somente aos Cristãos da Espanha, não eram de sua incumbência os judeus de religião nem os maometanos, seus poderes se encaminhavam aos convertidos ao cristianismo que recaíam ou não abjuravam de suas práticas. A Inquisição espanhola funcionava desta forma: Antes de estabelecer o tribunal em uma cidade ou povoado se lia nas Paroquias um “edito de Fé” onde se pedia que todos o que soubesse de uma heresia revelasse aos inquisidores e se dava um prazo de graça a qualquer pessoa que se sentisse culpado de heresia, se esta pessoa se apresentasse e confessasse era imposto uma multa, requeria uma penitência e se reintegrava depois desta a vida diária. A Inquisição não tomava rapidamente as acusações mas examinava com cuidado as provas reunidas, quando estava firmemente e unanimemente convencida da culpabilidade de um indivíduo emitia um mandato de arresto e se incomunicava a pessoa, o processo era privado, dava-lhe a chance de confessar, se o acusado negasse era permitido escolher um advogado. No processo se podia dar tortura ao acusado para que confessasse, devemos tomar nota que a tortura não foi inventada pela Inquisição e era parte do procedimento legal próprio de época em todo tribunal civil e militar, a tortura se anunciava ou se aplicava com a esperança de que o acusado confessasse e recebesse uma pena menor que a de morte . A Inquisição proibia a tortura a mulheres que estavam criando, as pessoas de coração débil, e aos acusados de heresias menores, esta tortura era em muito, mais benigna que a dos tribunais da época. Um exemplo foi a tortura aplicada aos amantes das noras de Felipe o Formoso (Rei Francês) de 17 e 19 anos respectivamente como foi citado acima, frente a milhares de jubilosos espectadores de todas as classes sociais que inundaram a Praça da sentença um dia antes…isto era o tribunal civil, isso não ocorria na Inquisição, a tortura principal da Inquisição era uma prisão prolongada. Em muitos casos como disse Will Durant e, seu livro sobre o tema, era misericordioso e perdoava penas nas causa de idade, ignorância, pobreza, embriaguez ou pela boa reputação do acusado, a pena mais suave era uma repreensão verbal. O código de direito civil espanhol marcava como morte na fogueira para a heresia que causasse a desintegração da Nação e da segurança nacional, antes de aplicar a pena de morte se dava uma oportunidade a Igreja por meio da Inquisição para que a pessoa confessasse, se arrependesse e se reintegrasse a sociedade, a isso estava encaminhada a atividade da Inquisição, e não tinha jurisdição a pena de morte, quando se esgotavam os meios e a pessoa não se arrependesse a Inquisição terminava seu trabalho e entregava o réu as autoridades civis que eram os que então aplicavam a pena de morte, contrariamente no que se crê os Autos de Fé não eram a aplicação da sentença de morte, era a culminação do processo eclesiástico onde a Igreja declarava que havia tentado reconciliar a pessoa sem resultados e a pessoa era entregue as autoridades que levavam ao lugar da sentença e a executavam. Os Autos de Fé eram cerimônias religiosas destinadas a impressionar a pessoas e intimidar a futuros detratores. Até o último minuto podia se salvar a vida fazendo uma declaração publica de arrependimento. Os Inquisidores eram nomeados pelos reis e NUNCA pelo Papa. Temos o exemplo histórico do alerta do Papa Alexandro VI pela severidade da Inquisição Espanhola e em 1494 nomeou um bispo que supervisasse as sentenças, os reis passaram por cima desta disposição do papa, outros muitos Papas movidos por sentimentos humanitários tentaram freiar seus excessos e dar proteção as vítimas. Assim em 1482 o Papa Sisto IV promulgou uma bula para terminar a Inquisição em Aragón (que se queixava de que “os inquisidores mostravam mais cobiça por ouro que zelo pela religião, que haviam encarcerado e torturado cristãos por duvidosos indícios) e ordenava que a partir de então nenhum inquisidor atuasse sem a presença de um representante do bispo local, que os presos fossem confinados em cárceres dependentes do bispo local, que dessem os nomes dos delatores aos acusados, que se permitisse aos acusados apelar a Santa Sé e que se suspendesse toda atuação até haver o resultado da apelação; se exigia que todas as pessoas convictas de heresia fossem absolvidas se arrependessem sem alguma conseqüências”.
O rei Fernando prescindiu do decreto e nunca o publicou em Aragón. Outro exemplo foi a ordem de enjuizamento dada pelo Papa Júlio II ao grande inquisidor Lucero por conduta irregular e a excomunhão dos inquisidores de Toledo, outra prova é que muitos dos judeus expulsos da Espanha foram acolhidos em Roma (para escândalo dos reis Espanhóis) pelo Papa Alexandro VI que em uma acolhida na Praça de São Pedro lhes deu um sermão sobre o cristianismo e os deixou em liberdade e assim temos como resultado que a Sinagoga mas antiga de Europa está em Roma, outra prova de que não era a Igreja que estava por trás da Inquisição é o caso do Arcebispo Carranza, primado de Espanha, que foi acusado de heresia pela Inquisição e foi lançado nas cárceres espanholas por dez anos enquanto o Papa clamava que o entregasse para julga-lo em Roma, o clamor do Papa não foi escutado na Corte Espanhola.
Em resumo: a Inquisição Espanhola foi uma arma política para o saneamento social da época, que não utilizou nenhum instrumento que não fosse o comum da época em processos judiciais nem se irritou (como nos pintam) com a população em um ataque desmedido e repudiado pela mesma. Também como vimos muitos dos Papas da época não apoiaram e esta fez caso omisso aos clamores papais de moderação e misericórdia por não ser o objetivo da Inquisição e ser objeto de repressão política.

A INQUISIÇÃO PROTESTANTE
Outro ponto que nunca se é visto é que os Protestantes também tiveram uma Inquisição totalmente submetida ao poder político da Época. Os historiadores só tem dedos para acusar a Inquisição católica guardando um silêncio hipócrita sobre o acontecido nos territórios protestantes. Os primeiros protestantes não diferenciaram por ser os campeões da “liberdade de opinião” como nos tem feito crer… eles que clamavam por liberdade religiosa nos países católicos nos seus territórios a primeira medida que tomavam era a suspensão total da Missa e obrigar aos cidadãos por decreto de lei a assistir obrigatoriamente os cultos reformados, a destruição de Igrejas Católicas, de imagens junto a assassinato de bispos, Sacerdotes e religiosas marcaram estes territórios muito mais do que ocorria em sua contraparte católica.  Para citar somente alguns exemplos (já que todas as fontes investigadas só falam da Inquisição Católica e nenhuma da Protestante)
– Lembra do massacre aos monges da Abadia de São Bernardo de Bremen cujos monges foram assassinados, espancados, esfolados e jogado sal na carne viva sendo depois enforcados no campanário por uma multidão de protestantes desordeiros no século XVI.
– O enforcamento de seis monges da ordem dos cartuxos e do bispo de Rochester na Inglaterra Protestante em 1535.
– A queima na fogueira de milhares de católicos e anabatistas por Henrique VIII no século XVI sendo sua filha católica Maria que acabou herdando o título de “Maria a sanguinária”
– A queima na fogueira de Miguel Servet, o descobridor da circulação do sangue, em Genebra pela ordem de Calvino, e só se falam do “caso Galileu” que não foi injustiçado e nem assassinado.
-Quando Henrique VIII começou a perseguição católica na Irlanda existiam mais de 1.000 monges Dominicanos, dos quais somente DOIS sobreviveram a perseguição do rei protestante anglicano.
– Na época da protestante Isabel cerca de 800 católicos eram assassinados por ano.
– O historiador protestante Henrry Hallam diz : “A tortura e a execução dos Jesuítas no reinado de Isabel Tudor foi caracterizado pelo selvageria e preconceito”
– Um ato do Parlamento Inglês decretou em 1652 que “cada sacerdote católico deveria ser enforcado, decapitado, desmembrado e depois queimado e suas cabeças expostas em um poste de lugar público”
– Na Alemanha Luterana os Anabatistas era cozidos em sacos e lançados em rios ( mais de 100.000 camponeses anabatistas foram assassinados de diversos modos pelos protestantes por pregarem sua interpretação da Bíblia como exemplo o re-batismo e seu líder Tomaz Munzer foi decapitado por ordem de Lutero)
– Na Escócia Presbiteriana de John Knox em um período de seis anos se queimaram mais de 1.000 mulheres acusadas de feitiçaria.
– Nas cidades tomadas pelo Protestantismo, os católicos tinham que abandona-las deixando nelas todas suas posses ou se converter ao Protestantismo, se fossem descobertos celebrando a missa eram castigados com a morte.
Afirmar que a tática da tortura foi uma arma católica da Inquisição é um mito. Janssen um escritor desta época cita um testemunho o qual diz “ o teólogo protestante Meyfart descreve a tortura que ele pessoalmente presenciou …: Um espanhol e um Italiano foram os que sofreram esta bestialidade e brutalidade. Nos países católicos não se condena um assassino, um incestuoso ou um adúltero a mais de uma hora de tortura, mas na Alemanha a tortura se mantêm por um dia inteiro e uma noite e até mesmo se estende por dois dias …..algumas vezes até por quatro dias e depois se começa de novo… é uma história exata e horrível que não pude presenciar sem me estremecer”
– O mesmo Janssen nos dá este dado “em Augsburg no ano de 1528 cerca de 170 Anabatistas de ambos sexos foram colocados na prisão por ordem do ordem, muitos deles foram queimados vivos, outros foram marcados com ferros encandecentes na face ou suas línguas foram cortadas.
– Em Aubsburg no dia 18 de Janeiro de 1537 o conselho municipal publicou um decreto onde se proibia o culto católico e dava-lhes 8 dias para que os católicos abandonassem a cidade, passado esse tempo foram enviados soldados para perseguir aos que não aceitaram a nova fé; tomaram as Igrejas e monastérios, destruíram as estátuas e os altares. Frankfurt emitiu uma lei parecida e a suspensão total do culto católico se estendeu a todos os estados alemães e depois se taxa a Igreja Católica de intransigente!
– Em 1530 nos seus comentários ao Salmo 80, Martinho Lutero aconselhava aos governos que aplicaram assim pena de morte a todos os hereges. – No distrito de Thorgau (Suíça) um missionário Zwingliano a frente de uma multidão protestante saqueou, massacrou e destruiu o monastério local. O mesmo Erasmo de Roterdã (historiador) se aterrorizou ao ver piedosos fiéis excitados por seus pregadores protestantes “ a sair da Igreja como possessos com a ira e a raiva pintadas no rosto, como guerreiros animados por um general”. O mesmo Erasmo comenta em uma carta a Pirkheimer o seguinte “ Os ferreiros e obreiros arrancaram as pinturas das Igrejas e lançaram insultos a imagens dos santos e ate mesmo ao crucifixo o que é muito surpreendente. Não sobrou nenhuma estátua nas Igrejas nem nos monastérios… tudo o que podia arder foi jogado ao fogo e o resto reduzido a fragmentos, nada se salvou”
– Na Zurich Protestante ordenou-se arrancar todas as imagens religiosas, relíquias e adornos das Igrejas e até o órgão foi desterrado, a catedral ficou desnuda como está até hoje. Os católicos foram impedidos de ocupar cargos públicos, assistir a Missa era castigado com uma multa na primeira vez e castigado com penas mas severas aos reincidentes.
– Em Leiphein no dia 4 de Abril de 1525, 3.000 camponeses guiados por um ex-sacerdote que se tornara protestante tomaram a cidade, saquearam a Igreja, assassinaram católicos e fizeram sacrilégios no altar com a profanação dos sacramentos.
– Um fato que totalmente parecia nunca ter ocorrido se não estivesse bem documentado foi o Saqueio de Roma, nem sequer os católicos sabem que este isto ocorreu. O que foi o Saqueio de Roma?

A OPINIÃO DOS GRANDES REFORMADORES PROTESTANTES SOBRE O USO DA VIOLÊNCIA
Uma das bases da Reforma Protestante, as Indulgências, se fizermos um estudo sincero e imparcial daremos conta de que foram mal interpretadas pelos Reformadores ou pelo povo sem preparação religiosa. Em 1518 o Papa Leão X emitiu uma Bula Pontifícia onde esclarecia as indulgências e seu uso. Era recusada muito dos méritos atribuídos; as Indulgências NÃO perdoavam os pecados nem as culpas, mas somente as penitências terrenas que a Igreja (não um governante secular) havia imposto; sobre livrar as almas do Purgatório o poder do Papa se limitava as preces em que suplicava a Deus que aplicasse a alma de um defunto o excedente do mérito de Cristo os Santos. (A Reforma na Alemanha, Will Durant) De nada serviu, a Reforma seguiu seu curso. A forma de pensar dos Reformadores foi extremadamente violenta e muitas vezes foi um chamado ao crime, assim vemos Lutero em 1520 escrevia em sua “Epitome”: “Se Roma assim crê e ensina, deliberadamente pelos papas e cardeais, declaro francamente que o verdadeiro Anticristo esta entronizado no templo de Deus e reina em Roma (a empurpurada Babilônia) e que a Cúria é a Sinagoga de Satanás…..Se a fúria dos romanistas não cessar, não restará outro remédio senão que os imperadores, reis e príncipes rodeados da força e armas, ataquem a essa praga do mundo e resolvam o assunto não mais com palavras, mas com a espada……Se castigamos aos ladrões com a forca, aos salteadores com a espada, AOS HEREGES COM A FOGUEIRA. Porque, com maior razão, não atacamos com as armas a estes mestres da perdição, a esses cardeais, a esses papas, a toda essa cume da Sodoma romana, que tem corrompido perpetuamente a Igreja de Deus e lavamos as mãos em seu sangue?”
Em um folheto chamado “Contra o falsamente chamado ordem espiritual do Papa e os bispos” em Julho de 1522 , Lutero diz: “Seria melhor que se assassinasse a todos os bispos e arrasasse todas as fundações e claustros que não se destrói uma só alma, para não falar que todas as almas se perderam para salvar suas indignas fraudes e idolatrias. Que utilidade tem os que vivem assim na Injuria, alimentando-se com o suor e o sangue dos demais?..” Em seu folheto “Contra a orda de camponeses que roubam e assassinam” Lutero dizia aos príncipes: “Empunhem rapidamente a espada. Pois um príncipe ou senhor deve se recordar neste caso que é o ministro de Deus e servidor de sua ira (Romanos XIII) a quem se entregou a espada para empregá-la contra tais homens….Se pode castigar e não o faz (ainda que o castigo consista em privar da vida e derramar sangue) é culpado de todos os assassinatos e todo o mau que estes homens cometam “ Lutero escrevia em Julho de 1525 em sua “Carta aberta sobre o duro livro contra os camponeses” “Se crêem que esta resposta é demasiadamente dura e que seu único fim é fazer-lhes calar por a violência, respondo que isto é verdade. Um rebelde não merece que se conteste-lhe com razões, porque não as aceita. A resposta adequada a tal boca é um punho que faça sangrar o nariz. Os camponeses não querem escutar….temos que abrir-lhes os ouvidos com balas até que saltem de suas cabeças. O que não quer escutar a Palavra de Deus quando dizemos com bondade há de escutar na vergonha quando este chegar com seu machado.. Não quero ouvir e nem saber de nada sobre misericórdia” Sobre os judeus dizia em suas famosas “Conversas a mesa” “Lanço a quem quer que consiga enxofre e alcatrão, se alguém pudesse lançar fogo do inferno seria tanto melhor….e isto deve ser feito em honra a Nosso Senhor e do cristianismo. Sejam suas casas despedaçadas e destruídas…Seja-lhes arrancados seus livros de orações e Talmudes e também toda sua Bíblia; proíba seus rabinos de ensinar, só pena de morte, de agora em diante. E se tudo isso for pouco, sejam expulsos do pais como animais raivosos” E depois acusam a Igreja Católica de anti-semtismo e taxa as palavras de perdão do Papa de frouxas… quem da Igreja Luterana pediu perdão aos judeus? Willibald Pirkheimer (escritor anti-católico) disse em 1529 sobre a Reforma: “Não nego que a princípio todos os atos de Lutero não pareciam ser vãos, pois a nenhum homem podia condescender todos aqueles erros e imposturas que se haviam acumulado gradualmente no cristianismo. Por eles eu esperava junto com outros, que poderia se aplicar algum remédio a tão grandes males; mas fui cruelmente enganado. Pois antes que se extirpassem os erros anteriores, se introduziram muitos outros mais intoleráveis, comparando com estes os outros parecem jogos de crianças….As coisas chegaram a tal ponto que os bribões papistas parecem virtuosos ao lado dos protestantes. Lutero com sua língua desavergonhada e ingovernável, deve ter ficado louco ou estar inspirado por um espírito maligno”.

PENSAMENTO E OBRAS DE OUTROS PAIS DA REFORMA
Tampouco Calvino foi um modelo de caridade, vemos que em seus “institutos” “Pessoas que persistem nas superstições do anticristo romano devem ser reprimidas pela espada”.
Em 1547 James Gruet se atreveu a divulgar uma nota criticando Calvino e foi arrastado, torturado num cavalo duas vezes ao dia por um mês e finalmente sentenciado a morte por blasfêmia, cravaram-lhes os pés a uma estaca e cortaram-lhe a cabeça. Os irmãos Comparet em 1555 foram acusados de libertinos e foram executados e desmembrados para exibir suas partes em diferentes lugares de Genebra. Melanchtron, o Teólogo da Reforma aceitou ser o presidente da Inquisição Protestante que perseguiu aos Anabatistas. Como justificação disse “Porque temos que ter com esta pessoas mais piedade que Deus?” disse isso convencido de que os Anabatistas arderiam no inferno.. A Inquisição Luterana foi implantada com sede na Saxônia, com Melanchtron como presidente. No final de 1530 este apresentou um documento onde defendia o direito a reprimir pela espada aos Anabatistas, Lutero escrever de próprio punho uma nota que dizia “isto é de meu agrado”.
Zwinglio, em 1525 começou a perseguição dos Anabatistas em Zurique, as penas iam desde afogamento no lago ou nos rios até a fogueira. John Knox, pai do Presbiterianismo como dissemos queimou na fogueira mil mulheres acusadas de bruxas na Escócia. Rosseau disse da Reforma “a Reforma foi intolerante desde seu berço e seus autores se contam entre os grandes repressores da humanidade”. Em suas “Filosofia Positiva” dizia “ A intolerância do Protestantismo com certeza não foi menor que a do catolicismo e certamente mais reprovável”. A violência nos Reformadores foram entre si enormemente violentos.
Vejamos a opinião que se mereciam entre si: – Lutero disse: “Oecolampaius, Calvino e outros hereges similares tem demônios sobre demônios, corrompido no coração e na boca mentirosa”. Lutero na morte de Zwinglio (1531) disse “É certo que Zwinglio tenha morrido em campo de batalha, que classe de triunfo e que bem Deus leva em seus negócios!” também disse “Zwinglio esta morto e condenado e se merece como um ladrão e rebelde por levar outros a seguir seus erros”. Zwinglio não ficou atrás e dizia de Lutero “o demônio tem sido senhor de Lutero a tal grau que até nos faz crer que o tem em posse totalmente, quando o vemos entre seus seguidores parece que uma legião o tem possuído”.

SUSPENSÃO SISTEMÁTICA DO CATOLICISMO EM ÁREAS PROTESTANTES
Em Zurique a presença em sermões católicos levava a penas e castigos físicos. Ainda fora dos perímetros da cidade os sacerdotes eram proibidos de celebrar a Missa e sob ordem de “severas penas” se proibia possuir quadros religiosos e imagens nas casas particulares. Em Zurique a Missa foi proscrita em 1525, isso foi seguido de queima de Monastérios e destruições massivas de Igrejas, os bispos de Constança, Basiléia, Lausana e Genebra foram obrigados a abandonar suas cidades e território. Um observador, Willian Farel deixou escrito “o Sermão de Calvino na antiga igreja de São Pedro foi seguido de desordens onde se destruíram imagens, quadros e saquearam tesouros antigos das Igrejas”. Estrasburgo, em 1529 o Conselho da Cidade ordenou a destruição dos altares, imagens e cruzes, além das Igrejas e conventos. Igualmente aconteceu em Frankfurt. Na Convenção de Hamburgo, em Abril de 1535 os Concílios dos povos de Lubeck, Bremen, Hamburgo, Luneburgo, Stralsund, Rostock e Wismar votaram e enforcaram os Anabatistas, se açoitaram aos Católicos e aos Zwinglianos. Escócia, John Knox, pai do Presbiterianismo proibiu a Missa com penas de confiscação de bens e açoites públicos, a segunda vez que se cometesse, a pena era a morte do indivíduo.  Poderíamos seguir falando de muitos fatos, há muito material existente, mas creio que basta esta amostra para demonstrar que a Reforma Protestante não foi pacifista, nem os reformadores vítimas inocentes, a intolerância e a violência primaram em suas vidas e eu pergunto aos que lerem estas humildes páginas e que tem ouvido aos sermões de igrejas protestantes neste Século XXI ou conhecem familiares que tem ido a elas: Se estas pessoas tivessem o poder total hoje em dia o que fariam dos Católicos e da Igreja? O fanatismo é muito mau, é somente Fé sem amor.

 

A INQUISIÇÃO
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1) A Inquisição não foi criada de uma só vez, nem procedeu do mesmo modo no decorrer dos séculos. Por isto distinguem-se:

1) A Inquisição Medieval, voltada contra as heresias cátara e valdense nos séculos XII/XIII e contra falsos misticismos nos séculos XIV/XV;

2) A Inquisição Espanhola, instituída em 1478 por iniciativa dos reis Fernando e Isabel; visando principalmente aos judeus e muçulmanos, tornou-se poderoso instrumento do absolutismo dos monarcas espanhóis até o século XIX, a ponto de quase não poder ser considerada instituição eclesiástica (não raro a lnquisição Espanhola procedeu independentemente de Roma, resistindo à intervenção da Santa Sé, porque o rei de Espanha a esta se opunha);

3) A Inquisição Romana (também dita “o Santo Ofício”), instituída em 1542 pelo Papa Paulo III, em vista do surto do protestantismo. Apesar das modalidades próprias, a Inquisição medieval e a romana foram movidas por princípios e mentalidade características. Passamos a examinar essa mentalidade e os procedimentos de tal instituição, principalmente como nos são transmitidos por documentos medievais. Antecedentes da Inquisição Contra os hereges a Igreja antiga aplicava penas espirituais, principalmente a excomunhão; não pensava em usar a força bruta. Quando, porém, o lmperador romano se tornou cristão, a situação dos hereges mudou. Sendo o Cristianismo religião de Estado, os Césares quiseram continuar a exercer para com este os direitos dos lmperadores romanos (Pontífices maximi) em relação à religião pagã; quando arianos, perseguiam os católicos; quando católicos, perseguiam os hereges. A heresia era tida como um crime civil, e todo atentado contra a religião oficial como atentado contra a sociedade; não se deveria ser mais clemente para com um crime cometido contra a Majestade Divina do que para com os crimes de lesa-majestade humana. As penas aplicadas, do século IV em diante, eram geralmente a proibição de fazer testamento, a confiscação dos bens, o exílio. A pena de morte foi infligida pelo poder civil aos maniqueus e aos donatistas; aliás, já Diocleciano em 300 parece ter decretado a pena de morte pelo fogo para os maniqueus, que eram contrários à matéria e aos bens materiais. Agostinho, de início, rejeitava qualquer pena temporal para os hereges. Vendo, porém, os danos causados pelos donatistas (circumcelliones), propugnava os açoites e o exílio, não a tortura nem a pena de morte. Já que o Estado pune o adultério, argumentava, deve punir também a heresia, pois não é pecado mais leve a alma não conservar fidelidade (fides, fé) a Deus do que a mulher trair o marido (epist. 185, n21, a Bonifácio). Afirmava, porém, que os infiéis não devem ser obrigados a abraçar a fé, mas os hereges devem ser punidos e obrigados ao menos a ouvir a verdade. As sentenças dos Padres da lgreja sobre a pena de morte dos hereges variavam. São João Crisóstomo (†407), bispo de Constantinopla, baseando-se na parábola do joio e do trigo, considerava a execução de um herege como culpa gravíssima; não excluía, porém, medidas repressivas. A execução de Prisciliano, prescrita por Máximo lmperador em Tréviris (385), foi geralmente condenada pelos porta-vozes da lgreja, principalmente por S. Martinho e S. Ambrósio. Das penas infligidas pelo Estado aos hereges não constava a prisão; esta parece ter tido origem nos mosteiros, donde foi transferida para a vida civil. Os reis merovíngios e carolíngios castigavam crimes eclesiásticos com penas civis assim como aplicavam penas eclesiásticas a crimes civis. Chegamos assim ao fim do primeiro milênio. A Inquisição teria origem pouco depois.

As origens da lnquisição
No antigo Direito Romano, o juiz não empreendia a procura dos criminosos; só procedia ao julgamento depois que Ihe fosse apresentada a denúncia. Até a Alta ldade Média, o mesmo se deu na Igreja; a autoridade eclesiástica não procedia contra os delitos se estes não Ihe fossem previamente apresentados. No decorrer dos tempos, porém, esta praxe mostrou-se insuficiente. Além disto, no séc. XI apareceu na Europa nova forma de delito religioso, isto é, uma heresia fanática e revolucionária, como não houvera até então: o catarismo (do grego katharós, puro) ou o movimento dos albigenses (de Albi, cidade da França meridional, onde os hereges tinham seu foco principal). Considerando a matéria por si os cátaros rejeitavam não somente a face visível da lgreja, mas também instituições básicas da vida civil – o matrimônio, a autoridade governamental, o serviço militar – e enalteciam o suicídio. Destarte constituíam grave ameaça não somente para a fé cristã, mas também para a vida pública; ver capítulo 29. Em bandos fanáticos, às vezes apoiados por nobres senhores, os cátaros provocavam tumultos, ataques às igrejas, etc., por todo o decorrer do séc. XI até 1150 aproximadamente, na França, na Alemanha, nos Países-Baixos… O povo, com a sua espontaneidade, e a autoridade civil se encarregavam de reprimi-los com violência: não raro o poder régio da França, por iniciativa própria e a contra-gosto dos bispos, condenou à morte pregadores albigenses, visto que solapavam os fundamentos da ordem constituída. Foi o que se deu, por exemplo, em Orleães (1017), onde o rei Roberto, informado de um surto de heresia na cidade, compareceu pessoalmente, procedeu ao exame dos hereges e os mandou lançar ao fogo; a causa da civilização e da ordem pública se identificava com a fé! Entrementes a autoridade eclesiástica limitava-se a impor penas espirituais (excomunhão, interdito, etc.) aos albigenses, pois até então nenhuma das muitas heresias conhecidas havia sido combatida por violência física; S. Agostinho (†430) e antigos bispos, S. Bernardo († 1154), S. Norberto († 1134) e outros mestres medievais eram contrários ao uso da forma (“Sejam os hereges conquistados não pelas armas, mas pelos argumentos”, admoestava São Bernardo, In Cant, serm. 64). Não são casos isolados os seguintes: em 1144 na cidade de Lião o povo quis punir violentamente um grupo de inovadores que aí se introduzira: o clero, porém, os salvou, desejando a sua conversão, e não a sua morte. Em 1077 um herege professou seus erros diante do bispo de Cambraia; a multidão de populares lançou-se então sobre ele, sem esperar o julgamento, encerrando-o numa cabana, a qual atearam o fogo! Contudo em meados do século XII a aparente indiferença do clero se mostrou insustentável: os magistrados e o povo exigiam colaboração mais direta na repressão do catarismo. Muito significativo, por exemplo, é o episódio seguinte: o Papa Alexandre III, em 1162, escreveu ao arcebispo de Reims e ao Conde de Flândria, em cujo território os cátaros provocavam desordens: “Mais vale absolver culpados do que, por excessiva severidade, atacar a vida de inocentes… A mansidão mais convém aos homens da Igreja do que a dureza… Não queiras ser justo demais (noli nimium esse iustus)” Informado desta admoestação pontifícia, o rei Luís VII de França, irmão do referido arcebispo, enviou ao Papa um documento em que o descontentamento e o respeito se traduziam simultaneamente: “Que vossa prudência dê atenção toda particular a essa peste (a heresia) e a suprima antes que possa crescer. Suplico-vos para bem da fé cristã. concedei todos os poderes neste Campo ao arcebispo (do Reims), ele destruirá os que assim se insurgem contra Deus, sua justa severidade será louvada por todos aqueles que nesta terra são animados de verdadeira piedade. Se procederdes de outro modo, as queixas não se acalmarão facilmente e desencadeareis contra a Igreja Romana as violentas recriminações da opinião pública” (Martene, Amplissima Collectio II 638s). As conseqüências deste intercâmbio epistolar não se fizeram esperar muito: o concílio regional de Tours em 1163, tomando medidas repressivas à heresia, mandava inquirir (procurar) os seus agrupamentos secretos. Por fim, a assembléia de Verona (Itália), à qual compareceram o Papa Lúcio III, o lmperador Frederico Barba-roxa, numerosos bispos, prelados e príncipes, baixou em 1184 um decreto de grande importância: o poder eclesiástico e o civil, que até então haviam agido independentemente um do outro (aquele impondo penas espirituais, este recorrendo à força física), deveriam combinar seus esforços em vista de mais eficientes resultados: os hereges seriam doravante não somente punidos, mas também procurados (inquiridos); cada bispo inspecionaria, por si ou por pessoas de confiança uma ou duas vezes por ano, as paróquias suspeitas; os condes, barões e as demais autoridades civis os deveriam ajudar sob pena de perder seus cargos ou ver o interdito lançado sobre as suas terras; os hereges depreendidos ou abjurariam seus erros ou seriam entregues ao braço secular, que lhes imporia a sanção devida. Assim era instituída a chamada “Inquisição episcopal”, a qual, como mostram os precedentes, atendia a necessidades reais e a clamores exigentes tanto dos monarcas e magistrados civis como do povo cristão; independentemente da autoridade da lgreja, já estava sendo praticada a repressão física das heresias. No decorrer do tempo, porém, percebeu-se que a inquisição episcopal ainda era insuficiente para deter os inovadores; alguns bispos, principalmente no sul da França, eram tolerantes; além disto, tinham seu raio de ação limitado às respectivas dioceses, o que Ihes vedava uma campanha eficiente. A vista disto, os Papas, já em fins do século XII, começaram a nomear legados especiais, munidos de plenos poderes para proceder contra a heresia onde quer que fosse. Destarte surgiu a “Inquisição pontifícia” ou “legatina”, que a princípio ainda funcionava ao lado da episcopal, aos poucos, porém, a tornou desnecessária. A Inquisição papal recebeu seu caráter definitivo e sua organização básica em 1233, quando o Papa Gregório IX confiou aos dominicanos a missão de Inquisidores; havia doravante, para cada nação ou distrito inquisitorial, um lnquisidor-Mor, que trabalharia com a assistência de numerosos oficiais subalternos (consultores, jurados, notários …), em geral independentemente do bispo em cuja diocese estivesse instalado. As normas do procedimento inquisitorial foram sendo sucessivamente ditadas por Bulas pontifícias e decisões de Concílios.

Entrementes a autoridade civil continuava a agir, com zelo surpreendente contra os sectários. Chama a atenção, por exemplo, a conduta do Imperador Frederico II, um dos mais perigosos adversários que o Papado teve no séc. XIII Em 1220 este monarca exigiu de todos os oficiais de seu governo prometessem expulsar de suas terras os hereges reconhecidos pela lgreja; declarou a heresia crime de lesa-majestade, sujeito à pena de morte e mandou dar busca aos hereges. Em 1224 publicou decreto mais severo. do que qualquer das leis citadas pelos reis ou Papas anteriores: as autoridades civis da Lombardia deveriam não somente enviar ao fogo quem tivesse sido comprovado herege pelo bispo, mas ainda cortar a língua aos sectários a quem, por razões particulares, se houvesse conservado a vida. E possível que Frederico II visasse a interesses próprios na campanha contra a heresia; os bens confiscados redundariam em proveito da coroa. Não menos típica é a atitude de Henrique II, rei da Inglaterra: tendo entrado em luta contra o arcebispo Tomás Becket, primaz de Cantuária, e o Papa Alexandre III, foi excomungado. Não obstante, mostrou-se um dos mais ardorosos repressores da heresia no seu reino: em 1185, por exemplo, alguns hereges da Flândria tendo-se refugiado na Inglaterra, o monarca mandou prendê-los, marcá-los com ferro vermelho na testa e expô-los, assim desfigurados, ao povo; além disto, proibiu aos seus súditos lhes dessem asilo ou Ihes prestassem o mínimo serviço. Estes dois episódios, que não são únicos no seu gênero, bem mostram que o proceder violento contra os hereges, longe de ter sido sempre inspirado pela suprema autoridade da Igreja, foi não raro desencadeado independentemente desta, por poderes que estavam em conflito com a própria lgreja. A inquisição, em toda a sua história, se ressentiu dessa usurpação de direitos ou da demasiada ingerência das autoridades civis em questões que dependem primeiramente do foro eclesiástico.

Em síntese, pode-se dizer o seguinte:
1) A Igreja, nos seus onze primeiros séculos, não aplicava penas temporais aos hereges, mas recorria às espirituais (excomunhão, interdito, suspensão …). Somente no século XII passou a submeter os hereges a punições corporais. E por quê?

2) As heresias que surgiram no século XI (as dos cátaros e valdenses), deixavam de ser problemas de escola ou academia, para ser movimentos sociais anarquistas, que contrariavam a ordem vigente e convulsionavam as massas com incursões e saques. Assim tornavam-se um perigo público.

3) O Cristianismo era patrimônio da sociedade, à semelhança da prática e da família hoje. Aparecia como o vínculo necessário entre os cidadãos ou o grande bem dos povos; por conseguinte, as heresias, especialmente as turbulentas, eram tidas como crimes sociais de excepcional gravidade.

4) Não é, pois, de estranhar que as duas autoridades a civil e a eclesiástica tenham finalmente entrado em acordo para aplicar aos hereges as penas reservadas pela legislação da época aos grandes delitos.

5) A lgreja foi levada a isto, deixando sua antiga posição, pela insistência que sobre ela exerceram não somente monarcas hostis, como Henrique II da Inglaterra e Frederico Barba-roxa da Alemanha, mas também reis piedosos e fiéis ao Papa, como Luís VII da França.

6) De resto, a Inquisição foi praticada pela autoridade civil mesmo antes de estar regulamentada por disposições eclesiásticas. Muitas vezes o poder civil se sobrepôs ao eclesiástico na procura de seus adversários políticos.

7) Segundo as categorias da época, a Inquisição era um progresso para melhor em relação ao antigo estado de coisas, em que as populações faziam justiça pelas próprias mãos. E de notar que nenhum dos Santos medievais (nem mesmo S. Francisco de Assis, tido como símbolo da mansidão) levantou a voz contra a Inquisição, embora soubessem protestar contra o que Ihes parecia destoante do ideal na lgreja.

Procedimentos da Inquisição
As táticas utilizadas pelos Inquisidores são-nos hoje conhecidas, pois ainda se conservaram Manuais de instruções práticas entregues ao uso dos referidos oficiais. Quem lê tais textos, verifica que as autoridades visavam a fazer dos juízes inquisitoriais autênticos representantes da justiça e da causa do bem. Bernardo de Gui (séc. XIV), por exemplo, tido como um dos mais severos inquisidores, dava as seguintes normas aos seus colegas: “O Inquisidor deve ser diligente e fervoroso no seu zelo pela verdade religiosa, pela salvação das almas e pela extirpação das heresias. Em meio às dificuldades permanecerá calmo, nunca cederá cólera nem à indignação… Nos casos duvidosos, seja circunspecto, não dê fácil crédito ao que parece provável e muitas vezes não é verdade,´ também não rejeite obstinadamente a opinião contrária, pois o que parece improvável freqüentemente acaba por ser comprovado como verdade… O amor da verdade e a piedade, que devem residir no coração de um juiz, brilhem nos seus olhos, a fim de que suas decisões jamais possam parecer ditadas pela cupidez e a crueldade” (Prática VI p… ed. Douis 232s). Já que mais de uma vez se encontram instruções tais nos arquivos da Inquisição, não se poderia crer que o apregoado ideal do Juiz Inquisidor, ao mesmo tempo eqüitativo e bom, se realizou com mais freqüência do que comumente se pensa? Não se deve esquecer, porém, (como adiante mais explicitamente se dirá) que as categorias pelas quais se afirmava a justiça na ldade Média, não eram exatamente as da época moderna… Além disto, levar-se-á em conta que o papel do juiz, sempre difícil, era particularmente árduo nos casos da Inquisição: o povo e as autoridades civis estavam profundamente interessados no desfecho dos processos; pelo que, não raro exerciam pressão para obter a sentença mais favorável a caprichos ou a interesses temporais; às vezes, a população obcecada aguardava ansiosamente o dia em que o veredictum do juiz entregaria ao braço secular os hereges comprovados. Em tais circunstâncias não era fácil aos juízes manter a serenidade desejável. Dentre as táticas adotadas pelos Inquisidores, merecem particular atenção a tortura e a entrega ao poder secular (pena de morte). A tortura estava em uso entre os gregos e romanos pré-cristãos que quisessem obrigar um escravo a confessar seu delito. Certos povos germânicos também a praticavam. Em 866, porém, dirigindo-se aos búlgaros, o Papa Nicolau I a condenou formalmente. Não obstante, a tortura foi de novo adotada pelos tribunais civis da Idade Média nos inícios do séc. XII, dado o renascimento do Direito Romano. Nos processos inquisitoriais, o Papa Inocêncio IV acabou por introduzi-la em 1252, com a cláusula: “Não haja mutilação de membros nem perigo de morte” para o réu. O Pontífice, permitindo tal praxe, dizia conformar-se aos costumes vigentes em seu tempo (Bullarum amplissima collectio II 326). Os Papas subseqüentes, assim como os Manuais dos lnquisidores, procuraram restringir a aplicação da tortura; só seria lícita depois de esgotados os outros recursos para investigar a culpa e apenas nos casos em que já houvesse meia-prova do delito ou, como dizia a linguagem técnica, dois “índices veementes” deste, a saber: o depoimento de testemunhas fidedignas, de um lado, e, de outro lado, a má fama, os maus costumes ou tentativas de fuga do réu. O Concílio de Viena (França) em 1311 mandou outrossim que os Inquisidores só recorressem a tortura depois que uma comissão julgadora e o bispo diocesano a houvessem aprovado para cada caso em particular. ´
Apesar de tudo que a tortura apresenta de horroroso, ela tem sido conciliada com a mentalidade do mundo moderno … ainda estava oficialmente em uso na França do séc. XVIII e tem sido aplicada até mesmo em nossos dias… Quanto à pena de morte, reconhecida pelo antigo Direito Romano, estava em vigor na jurisdição civil da Idade Média. Sabe-se, porém, que as autoridades eclesiásticas eram contrárias à sua aplicação em casos de lesa-religião. Contudo, após o surto do catarismo (séc. XII), alguns canonistas começaram a julgá-la oportuna, apelando para o exemplo do Imperador Justiniano, que no séc. VI a infligira aos maniqueus. Em 1199 o Papa Inocêncio III dirigia-se aos magistrados de Viterbo nos seguintes termos: “Conforme a lei civil, os réus de lesa-majestade são punidos com a pena capital e seus bens são confiscados. Com muito mais razão, portanto, aqueles que, desertando a fé, ofendem a Jesus, o Filho do Senhor Deus, devem ser separados da comunhão cristã e despojados de seus bens, pois muito mais grave é ofender a Majestade Divina do que lesar a majestade humana” (epist. 2,1). Como se vê, o Sumo Pontífice com essas palavras desejava apenas justificar a excomunhão e a confiscação de bens dos hereges; estabelecia, porém, uma comparação que daria ocasião a nova praxe… O Imperador Frederico II soube deduzir-lhe as últimas conseqüências: tendo lembrado numa Constituição de 1220 a frase final de lnocêncio III, o monarca, em 1224, decretava francamente para a Lombaria a pena de morte contra os hereges e, já que o Direito antigo assinalava o fogo em tais casos, o Imperador os condenava a ser queimados vivos. Em 1230 o dominicano Guala, tendo subido à cátedra episcopal de Bréscia (Itália), fez aplicação da lei imperial na sua diocese. Por fim, o Papa Gregório IX, que tinha intercâmbio freqüente com Guala, adotou o modo de ver deste bispo: transcreveu em 1230 ou 1231 a constituição imperial de 1224 para o Registro das Cartas Pontifícias e em breve editou uma lei pela qual mandava que os hereges reconhecidos pela Inquisição fossem abandonados ao poder civil, para receber o devido castigo, castigo que, segundo a legislação de Frederico II, seria a morte pelo fogo. Os teólogos e canonistas da época se empenharam por justificar a nova praxe; eis como fazia S. Tomás de Aquino: “É muito mais grave corromper a fé, que é a vida da alma, do que falsificar a moeda que é um meio de prover à vida temporal Se, pois, os falsificadores de moedas e outros malfeitores são, a bom direito, condenados à morte pelos príncipes seculares, com muito mais razão os hereges, desde que sejam comprovados tais, podem não somente ser excomungados, mas também em toda justiça ser condenados à morte” (Suma Teológica II/II 11,3c) A argumentação do S. Doutor procede do princípio (sem dúvida, autêntico em si) de que a vida da alma mais vale do que a do corpo; se, pois, alguém pela heresia ameaça a vida espiritual do próximo, comete maior mal do que quem assalta a vida corporal; o bem comum então exige a remoção do grave perigo (veja-se também S. Teol. II/II 11,4c). Contudo as execuções capitais não foram tão numerosas quanto se poderia crer. Infelizmente faltam-nos estatísticas completas sobre o assunto; consta, porém, que o tribunal de Pamiers, de 1303 a 1324, pronunciou 75 sentenças condenatórias, das quais apenas cinco mandavam entregar o réu ao poder civil (o que equivalia à morte); o lnquisidor Bernardo de Gui em Tolosa, de 1308 a 1323, proferiu 930 sentenças, das quais 42 eram capitais; no primeiro caso, a proporção é de 1/15; no segundo caso, de 1/22. Não se poderia negar, porém, que houve injustiças e abusos da autoridade por parte dos juízes inquisitoriais. Tais males se devem a conduta de pessoas que, em virtude da fraqueza humana, não foram sempre fiéis cumpridoras da sua missão. Os Inquisidores trabalhavam a distâncias mais ou menos consideráveis de Roma, numa época em que, dada a precariedade de correios e comunicações, não podiam ser assiduamente controlados pela suprema autoridade da lgreja. Esta, porém, não deixava de censurá-los devidamente, quando recebia notícia de algum desmando verificado em tal ou tal região. Famoso, por exemplo, é o caso de Roberto o Bugro, lnquisidor-Mor de França no século XIII O Papa Gregório IX a princípio muito o felicitava por seu zelo. Roberto, porém, tendo aderido outrora à heresia, mostrava-se excessivamente violento na repressão da mesma. Informado dos desmandos praticados pelo lnquisidor, o Papa o destituiu de suas funções e mandou encarcerar. ´ lnocêncio IV, o mesmo Pontífice que permitiu a tortura nos processos da inquisição, e Alexandre IV, respectivamente em 1246 e 1256, mandaram aos Padres Provinciais e Gerais dos Dominicanos e Franciscanos, depusessem os lnquisidores de sua Ordem que se lhes tornassem notórios por sua crueldade. O Papa Bonifácio VIII (1294-1303), famoso pela tenacidade e intransigência de suas atitudes, foi um dos que mais reprimiram os excessos dos lnquisidores, mandando examinar, ou simplesmente anulando, sentenças proferidas por estes. O Concílio regional de Narbona (França) em 1243 promulgou 29 artigos que visavam a impedir abusos do poder. Entre outras normas, prescrevia aos lnquisidores só proferissem sentença condenatória nos casos em que, com segurança, tivessem apurado alguma falta, “pois mais vale deixar um culpado impune do que condenar um inocente” (cânon 23). Dirigindo-se ao Imperador Frederico II, pioneiro dos métodos inquisitoriais, o Papa Gregório IX aos 15 de julho de 1233 lhe lembrava que “a arma manejada pelo imperador Não devia servir para satisfazer aos seus rancores pessoais, com grande escândalo das populações, com detrimento da verdade e da dignidade imperial” (ep. saec. XIII 538´550).

Avaliação
Procuremos agora formular um juízo sobre a lnquisição medieval. Não é necessário ao católico justificar tudo que, em nome desta, foi feito. É preciso, porém, que se entendam as intenções e a mentalidade que moveram a autoridade eclesiástica a instituir a Inquisição. Estas intenções, dentro do quadro de pensamento da Idade Média, eram legítimas, diríamos até: deviam parecer aos medievais inspiradas por santo zelo. Podem-se reduzir a quatro os fatores que influíram decisivamente no surto e no andamento da Inquisição:

1) os medievais tinham profunda consciência do valor da alma e dos bens espirituais. Tão grande era o amor à fé (esteio da vida espiritual) que se considerava a deturpação da fé pela heresia como um dos maiores crimes que o homem pudesse cometer (notem-se os textos de S. Tomás e do Imperador Frederico II atrás citados); essa fé era tão viva e espontânea que dificilmente se admitiria viesse alguém a negar com boas intenções um só dos artigos do Credo.

2) As categorias de justiça na Idade Média eram um tanto diferentes das nossas: havia muito mais espontaneidade (que as vezes equivalia a rudez) na defesa dos direitos. Pode-se dizer que os medievais, no caso, seguiam mais o rigor da lógica do que a ternura dos sentimentos; o raciocínio abstrato e rígido neles prevalecia por vezes sobre o senso psicológico (nos tempos atuais verifica-se quase o contrário: muito se apela para a psicologia e o sentimento, pouco se segue a lógica; os homens modernos não acreditam muito em princípios perenes; tendem a tudo julgar segundo critérios relativos e relativistas, critérios de moda e de preferência subjetiva).

3) A intervenção do poder secular exerceu profunda influência no desenvolvimento da inquisição. As autoridades civis anteciparam-se na aplicação da forma física e da pena de morte aos hereges; instigaram a autoridade eclesiástica para que agisse energicamente; provocaram certos abusos motivados pela cobiça de vantagens políticas ou materiais. De resto, o poder espiritual e o temporal na Idade Média estavam, ao menos em tese, tão unidos entre si que lhes parecia normal, recorressem um ao outro em tudo que dissesse respeito ao bem comum. A partir dos inícios do séc. XIV a lnquisição foi sendo mais explorada pelos monarcas, que dela se serviam para promover seus interesses particulares, subtraindo-a às diretivas do poder eclesiástico, até mesmo encaminhando-a contra este; é o que aparece claramente no processo inquisitório dos Templários, movido por Filipe o Belo da França (1285´1314) à revelia do Papa Clemente V; cf. capítulo 25.

4) Não se negará a fraqueza humana de Inquisidores e de oficiais seus colaboradores. Não seria Iícito, porém, dizer que a suprema autoridade da Igreja tenha pactuado com esses fatos de fraqueza; ao contrário, tem-se o testemunho de numerosos protestos enviados pelos Papas e Concílios a tais ou tais oficiais, contra tais leis e tais atitudes inquisitoriais. As declarações oficiais da Igreja concernentes à Inquisição se enquadram bem dentro das categorias da justiça medieval; a injustiça se verificou na execução concreta das leis. Diz-se, de resto, que cada época da história apresenta ao observador um enigma próprio na antigüidade remota, o que surpreende são os desumanos procedimentos de guerra. No lmpério Romano, é a mentalidade dos cidadãos, que não conheciam o mundo sem o seu lmpério (oikouméne – orbe habitado – lmperium), nem concebiam o Império sem a escravatura. Na época contemporânea, é o relativismo ou ceticismo público; é a utilização dos requintes da técnica para “lavar o crânio”, desfazer a personalidade, fomentar o ódio e a paixão. Não seria então possível que os medievais, com boa fé na consciência, tenham recorrido a medidas repressivas do mal que o homem moderno, com razão, julga demasiado violentas? Quanto a Inquisição Romana, instituída no séc. XVI, era herdeira das leis e da mentalidade da lnquisição medieval. No tocante à Inquisição Espanhola, sabe-se que agiu mais por influência dos monarcas da Espanha do que sob a responsabilidade da suprema autoridade da Igreja

 

A INQUISIÇÃO
Estevão Bettencourt  

A Inquisição não foi criada de uma só vez, nem procedeu do mesmo modo no decorrer dos séculos. Por isto distinguem-se:
1) A Inquisição Medieval, voltada contra as heresias cátara e valdense nos séculos XII-XIII e contra falsos misticismos nos séculos XIV-XV;
2) A lnquisição Espanhola, instituída em 1478 por iniciativa dos reis Fernando e Isabel; visando principalmente aos judeus e muçulmanos, tornou-se poderoso instrumento do absolutismo dos monarcas espanhóis até o século XIX, a ponto de quase não poder ser considerada instituição eclesiástica (não raro a lnquisição Espanhola procedeu independentemente de Roma, resistindo à intervenção da Santa Sé, porque o rei de Espanha a esta se opunha);
3) A lnquisição Romana (também dita Santo Ofício) instituída em 1542 pelo Papa Paulo III, em vista do surto do protestantismo.
Apesar das modalidades próprias, a Inquisição Medieval e a Romana foram movidas por princípios e mentalidade características. Passamos a examinar essa mentalidade e os procedimentos de tal instituição, principalmente como nos são transmitidos por documentos medievais. Antecedentes da Inquisição contra os hereges a Igreja antiga aplicava penas espirituais, principalmente a excomunhão; não pensava em usar a força bruta. Quando, porém, o Imperador romano se tornou cristão, a situação dos hereges mudou. Sendo o Cristianismo religião de Estado, os Césares quiseram continuar a exercer para com este os direitos dos imperadores romanos (Pontífices maximi) em relação à religião pagã; quando arianos, perseguiam os católicos; quando católicos, perseguiam os hereges. A heresia era tida como um crime civil, e todo atentado contra a religião oficial como atentado contra a sociedade; não se deveria ser mais clemente para com um crime cometido contra a Majestade Divina do que para com os crimes de lesa-majestade humana. As penas aplicadas, do século IV em diante, eram geralmente a proibição de fazer testamento, a confiscação dos bens, o exílio. A pena de morte foi infligida, pelo poder civil, aos maniqueus e aos donatistas; aliás, já Diocleciano em 300 parece ter decretado a pena de morte pelo fogo para os maniqueus, que eram contrários à matéria e aos bens materiais. Agostinho, de início, rejeitava qualquer pena temporal para os hereges. Vendo, porém, os danos causados pelos donatistas (circumcelliones) propugnava os açoites e o exílio, não a tortura nem a pena de morte. Já que o Estado pune o adultério, argumentava, deve punir também a heresia, pois não é pecado mais leve a alma não conservar fidelidade (fides, fé) a Deus do que a mulher trair o marido (epist. 185, n. 21, a Bonifácio). Afirmava, porém, que os infiéis não devem ser obrigados a abraçar a fé, mas os hereges devem ser punidos e obrigados ao menos a ouvir a verdade. As sentenças dos Padres da lgreja sobre a pena de morte dos hereges variavam. São João Crisóstomo (- 407) Bispo de Constantinopla, baseando-se na parábola do joio e do trigo, considerava a execução de um herege como culpa gravíssima; não excluía, porém, medidas repressivas. A execução de Prisciliano, prescrita por Máximo Imperador em Tréviris (385) foi geralmente condenada pelos porta-vozes da lgreja, principalmente por São Martinho e Santo Ambrósio. Das penas infligidas pelo Estado aos hereges não constava a prisão; esta parece ter tido origem nos mosteiros, donde foi transferida para a vida civil. Os reis merovíngios e carolíngios castigavam crimes eclesiásticos com penas civis assim como aplicavam penas eclesiásticas a crimes civis. Chegamos assim ao fim do primeiro milênio. A Inquisição teria origem pouco depois.

As origens da lnquisição  
No antigo Direito Romano, o juiz não empreendia a procura dos criminosos; só procedia ao julgamento depois que Ihe fosse apresentada a denúncia. Até à Alta ldade Média, o mesmo se deu na Igreja; a autoridade eclesiástica não procedia contra os delitos se estes não Ihe fossem previamente apresentados. No decorrer dos tempos, porém, esta praxe mostrou-se insuficiente. Além disto, no séc. XI apareceu na Europa nova forma de delito religioso, isto é, uma heresia fanática e revolucionária, como não houvera até então: O catarismo (do grego katharós, puro) ou o movimento dos albigenses (de Albi, cidade da França meridional, onde os hereges tinham seu foco principal). Considerando a matéria por si os cátaros rejeitavam não somente a face visível da lgreja, mas também instituições básicas da vida civil — o matrimônio, a autoridade governamental, o serviço militar — e enalteciam o suicídio. Destarte constituíam grave ameaça não somente para a fé cristã, mas também para a vida pública. Em bandos fanáticos, às vezes apoiados por nobres senhores, os cátaros provocavam tumultos, ataques às igrejas etc., por todo o decorrer do séc. XI até 1150 aproximadamente, na França, na Alemanha, nos Países-Baixos… O povo, com a sua espontaneidade, e a autoridade civil, se encarregavam de os reprimir com violência: Não raro o poder régio da França, por iniciativa própria e a contra-gosto dos bispos, condenou à morte pregadores albigenses, visto que solapavam os fundamentos da ordem constituída. Foi o que se deu, por exemplo, em Orleães (1017) onde o Rei Roberto, informado de um surto de heresia na cidade, compareceu pessoalmente, procedeu ao exame dos hereges e os mandou lançar ao fogo; a causa da civilização e da ordem pública se identificava com a fé! Entrementes a autoridade eclesiástica limitava-se a impor penas espirituais (excomunhão, interdito, etc.) aos albigenses, pois até então nenhuma das muitas heresias conhecidas havia sido combatida por violência física; Santo Agostinho (- 430) e antigos bispos, São Bernardo (- 1154), S. Norberto (- 1134) e outros mestres medievais eram contrários ao uso da forma (“Sejam os hereges conquistados não pelas armas, mas pelos argumentos”, admoestava São Bernardo, In Cant, serm. 64). Não são casos isolados os seguintes: Em 1144 na cidade de Lião o povo quis punir violentamente um grupo de inovadores que aí se introduzira; o clero, porém, os salvou, desejando a sua conversão, e não a sua morte. Em 1077 um herege professou seus erros diante do bispo de Cambraia; a multidão de populares lançou-se então sobre ele, sem esperar o julgamento, encerrando-o numa cabana, à qual atearam o fogo! Contudo, em meados do século XII, a aparente indiferença do clero se mostrou insustentável: Os magistrados e o povo exigiam colaboração mais direta na repressão do catarismo. Muito significativo, por exemplo, é o episódio seguinte: O Papa Alexandre III, em 1162, escreveu ao Arcebispo de Reims e ao Conde de Flândria, em cujo território os cátaros provocavam desordens: “Mais vale absolver culpados do que, por excessiva severidade, atacar a vida de inocentes… A mansidão mais convém aos homens da Igreja do que a dureza.. Não queiras ser justo demais (noli nimium esse iustus).” Informado desta admoestação pontifícia, o Rei Luís VII de França, irmão do referido arcebispo, enviou ao Papa um documento em que o descontentamento e o respeito se traduziam simultaneamente: “Que vossa prudência dê atenção toda particular a essa peste (a heresia) e a suprima antes que possa crescer. Suplico-vos para bem da fé cristã, concedei todos os poderes neste Campo ao Arcebispo (do Reims) ele destruirá os que assim se insurgem contra Deus, sua justa severidade será louvada por todos aqueles que nesta terra são animados de verdadeira piedade. Se procederdes de outro modo, as queixas não se acalmarão facilmente e desencadeareis contra a Igreja Romana as violentas recriminações da opinião pública.” (Martene, Amplissima Collectio II 638 s) As conseqüências deste intercâmbio epistolar não se fizeram esperar muito: O Concílio Regional de Tours em 1163, tomando medidas repressivas contra a heresia, mandava inquirir (procurar) os seus agrupamentos secretos. Por fim, a assembléia de Verona (Itália) à qual compareceram o Papa Lúcio III, o Imperador Frederico Barba-roxa, numerosos bispos, prelados e príncipes, baixou, em 1184, um decreto de grande importância: O poder eclesiástico e o civil, que até então haviam agido independentemente um do outro (aquele impondo penas espirituais, este recorrendo à força física) deveriam combinar seus esforços em vista de mais eficientes resultados: Os hereges seriam doravante não somente punidos, mas também procurados (inquiridos); cada bispo inspecionaria, por si ou por pessoas de confiança uma ou duas vezes por ano, as paróquias suspeitas; os condes, barões e as demais autoridades civis os deveriam ajudar sob pena de perder seus cargos ou ver o interdito lançado sobre as suas terras; os hereges depreendidos ou abjurariam seus erros ou seriam entregues ao braço secular, que lhes imporia a sanção devida. Assim era instituída a chamada “Inquisição episcopal”, a qual, como mostram os precedentes, atendia a necessidades reais e a clamores exigentes tanto dos monarcas e magistrados civis como do povo cristão; independentemente da autoridade da lgreja, já estava sendo praticada a repressão física das heresias. No decorrer do tempo, porém, percebeu-se que a inquisição episcopal ainda era insuficiente para deter os inovadores; alguns bispos, principalmente no sul da França, eram tolerantes; além disto, tinham seu raio de ação limitado às respectivas dioceses, o que lhes vedava uma campanha eficiente. À vista disto, os Papas, já em fins do século XII, começaram a nomear legados especiais, munidos de plenos poderes para proceder contra a heresia onde quer que fosse. Destarte surgiu a “Inquisição Pontifícia” ou “legatina”, que a princípio ainda funcionava ao lado da episcopal, aos poucos, porém, a tornou desnecessária. A Inquisição papal recebeu seu caráter definitivo e sua organização básica em 1233, quando o Papa Gregório IX confiou aos dominicanos a missão de Inquisidores; havia doravante, para cada nação ou distrito inquisitorial, um Inquisidor-Mor, que trabalharia com a assistência de numerosos oficiais subalternos (consultores, jurados, notários…) em geral independentemente do bispo em cuja diocese estivesse instalado. As normas do procedimento inquisitorial foram sendo sucessivamente ditadas por Bulas pontifícias e decisões de Concílios. Entrementes a autoridade civil continuava a agir, com zelo surpreendente contra os sectários. Chama a atenção, por exemplo, a conduta do Imperador Frederico II, um dos mais perigosos adversários que o Papado teve no séc. XIII. Em 1220 este monarca exigiu de todos os oficiais de seu governo prometessem expulsar de suas terras os hereges reconhecidos pela lgreja; declarou a heresia crime de lesa-majestade, sujeito à pena de morte e mandou dar busca aos hereges. Em 1224 publicou decreto mais severo do que qualquer das leis citadas pelos reis ou Papas anteriores: As autoridades civis da Lombardia deveriam não somente enviar ao fogo quem tivesse sido comprovado herege pelo bispo, mas ainda cortar a língua aos sectários a quem, por razões particulares, se houvesse conservado a vida. E possível que Frederico II visasse a interesses próprios na campanha contra a heresia; os bens confiscados redundariam em proveito da coroa. Não menos típica é a atitude de Henrique II, rei da Inglaterra: Tendo entrado em luta contra o arcebispo Tomás Becket, primaz de Cantuária, e o Papa Alexandre III, foi excomungado. Não obstante, mostrou-se um dos mais ardorosos repressores da heresia no seu reino: Em 1185, por exemplo, alguns hereges da Flândria tendo-se refugiado na Inglaterra, o monarca mandou prendê-los, marcá-los com ferro em brasa na testa e expô-los, assim desfigurados, ao povo; além disto, proibiu aos seus súditos lhes dessem asilo ou Ihes prestassem o mínimo serviço. Estes dois episódios, que não são únicos no seu gênero, bem mostram que o proceder violento contra os hereges, longe de ter sido sempre inspirado pela suprema autoridade da Igreja, foi não raro desencadeado independentemente desta, por poderes que estavam em conflito com a própria lgreja. A inquisição, em toda a sua história, se ressentiu dessa usurpação de direitos ou da demasiada ingerência das autoridades civis em questões que dependem primeiramente do foro eclesiástico.
Em síntese, pode-se dizer o seguinte:
1) A Igreja, nos seus onze primeiros séculos, não aplicava penas temporais aos hereges, mas recorria às espirituais (excomunhão, interdito, suspensão …). Somente no século XII passou a submeter os hereges a punições corporais. E por quê?
2) As heresias que surgiram-no século XI (as dos cátaros e valdenses), deixavam de ser problemas de escola ou academia, para ser movimentos sociais anarquistas, que contrariavam a ordem vigente e convulsionavam as massas com incursões e saques. Assim tornavam-se um perigo público.
3) O Cristianismo era patrimônio da sociedade, à semelhança da prática e da família hoje. Aparecia como o vínculo necessário entre os cidadãos ou o grande bem dos povos; por conseguinte, as heresias, especialmente as turbulentas, eram tidas como crimes sociais de excepcional gravidade.
4) Não é, pois, de estranhar que as duas autoridades – a civil e a eclesiástica tenham finalmente entrado em acordo para aplicar aos hereges as penas reservadas pela legislação da época aos grandes delitos.
5) A lgreja foi levada a isto, deixando sua antiga posição, pela insistência que sobre ela exerceram não somente monarcas hostis, como Henrique II da Inglaterra e Frederico Barba-roxa da Alemanha, mas também reis piedosos e fiéis ao Papa, como Luís VII da França.
6) De resto, a Inquisição foi praticada pela autoridade civil mesmo antes de estar regulamentada por disposições eclesiásticas. Muitas vezes o poder civil se sobrepôs ao eclesiástico na procura de seus adversários políticos.
7) Segundo as categorias da época, a Inquisição era um progresso para melhor em relação ao antigo estado de coisas, em que as populações faziam justiça pelas próprias mãos. E de notar que nenhum dos Santos medievais (nem mesmo S. Francisco de Assis, tido como símbolo da mansidão) levantou a voz contra a Inquisição, embora soubessem protestar contra o que Ihes parecia destoante do ideal na lgreja.

Procedimentos da Inquisição  
As táticas utilizadas pelos Inquisidores são-nos hoje conhecidas, pois ainda se conservaram manuais de instruções práticas entregues ao uso dos referidos oficiais. Quem lê tais textos, verifica que as autoridades visavam a fazer dos juízes inquisitoriais autênticos representantes da justiça e da causa do bem. Bernardo de Gui (séc. XIV), por exemplo, tido como um dos mais severos inquisidores, dava as seguintes normas aos seus colegas: “O Inquisidor deve ser diligente e fervoroso no seu zelo pela verdade religiosa, pela salvação das almas e pela extirpação das heresias. Em meio às dificuldades permanecerá calmo, nunca cederá à cólera nem à indignação… Nos casos duvidosos, seja circunspeto, não dê fácil crédito ao que parece provável e muitas vezes não é verdade; também não rejeite obstinadamente a opinião contrária, pois o que parece improvável freqüentemente acaba por ser comprovado como verdade… O amor da verdade e a piedade que devem residir no coração de um juiz, brilhem em seus olhos, a fim de que suas decisões jamais possam parecer ditadas pela cupidez e a crueldade.” (Prática VI p… ed. Douis 232 s). Já que mais de uma vez se encontram instruções tais nos arquivos da Inquisição, não se poderia crer que o apregoado ideal do Juiz Inquisidor, ao mesmo tempo eqüitativo e bom, se realizou com mais freqüência do que comumente se pensa? Não se deve esquecer, porém (como adiante mais explicitamente se dirá) que as categorias pelas quais se afirmava a justiça na Idade Média, não eram exatamente as da época moderna… Além disto, levar-se-á em conta que o papel do juiz, sempre difícil, era particularmente árduo nos casos da Inquisição: O povo e as autoridades civis estavam profundamente interessados no desfecho dos processos; pelo que, não raro exerciam pressão para obter a sentença mais favorável a caprichos ou a interesses temporais; às vezes, a população obcecada aguardava ansiosamente o dia em que o veredictum do juiz entregaria ao braço secular os hereges comprovados. Em tais circunstâncias não era fácil aos juízes manter a serenidade desejável. Dentre as táticas adotadas pelos Inquisidores, merecem particular atenção a tortura e a entrega ao poder secular (pena de morte). A tortura estava em uso entre os gregos e romanos pré-cristãos que quisessem obrigar um escravo a confessar seu delito. Certos povos germânicos também a praticavam. Em 866, porém, dirigindo-se aos búlgaros, o Papa Nicolau I a condenou formalmente. Não obstante, a tortura foi de novo adotada pelos tribunais civis da Idade Média nos inícios do séc. XII, dado o renascimento do Direito Romano. Nos processos inquisitoriais, o Papa Inocêncio IV acabou por introduzi-la em 1252, com a cláusula: “Não haja mutilação de membros nem perigo de morte para o réu”. O Pontífice, permitindo tal praxe, dizia conformar-se aos costumes vigentes em seu tempo (Bullarum amplissima collectio II 326). Os Papas subseqüentes, assim como os Manuais dos lnquisidores, procuraram restringir a aplicação da tortura; só seria lícita depois de esgotados os outros recursos para investigar a culpa e apenas nos casos em que já houvesse meia-prova do delito ou, como dizia a linguagem técnica, dois “índices veementes” deste, a saber: O depoimento de testemunhas fidedignas, de um lado e, de outro lado, a má fama, os maus costumes ou tentativas de fuga do réu. O Concílio de Viena (França) em 1311 mandou outrossim que os Inquisidores só recorressem a tortura depois que uma comissão julgadora e o bispo diocesano a houvessem aprovado para cada caso em particular. Apesar de tudo que a tortura apresenta de horroroso, ela tem sido conciliada com a mentalidade do mundo moderno… ainda estava oficialmente em uso na França do séc. XVIII e tem sido aplicada até mesmo em nossos dias… Quanto à pena de morte, reconhecida pelo antigo Direito Romano, estava em vigor na jurisdição civil da Idade Média. Sabe-se, porém, que as autoridades eclesiásticas eram contrárias à sua aplicação em casos de lesa-religião. Contudo, após o surto do catarismo (séc. XII) alguns canonistas começaram a julgá-la oportuna, apelando para o exemplo do Imperador Justiniano, que no Séc. VI a infligira aos maniqueus. Em 1199 o Papa Inocêncio III dirigia-se aos magistrados de Viterbo nos seguintes termos: “Conforme a lei civil, os réus de lesa-majestade são punidos com a pena capital e seus bens são confiscados. Com muito mais razão, portanto, aqueles que, desertando a fé, ofendem a Jesus, o Filho do Senhor Deus, devem ser separados da comunhão cristã e despojados de seus bens, pois muito mais grave é ofender a Majestade Divina do que lesar a majestade humana.” (Epist. 2,1). Como se vê, o Sumo Pontífice com essas palavras desejava apenas justificar a excomunhão e a confiscação de bens dos hereges; estabelecia, porém, uma comparação que daria ocasião a nova praxe… O Imperador Frederico II soube deduzir-lhe as últimas conseqüências: Tendo lembrado numa Constituição de 1220 a frase final de Inocêncio III, o monarca, em 1224, decretava francamente para a Lombaria a pena de morte contra os hereges e, já que o Direito antigo assinalava o fogo em tais casos, o Imperador os condenava a ser queimados vivos. Em 1230 o dominicano Guala, tendo subido à cátedra episcopal de Bréscia (Itália), fez aplicação da lei imperial na sua diocese. Por fim, o Papa Gregório IX, que tinha intercâmbio freqüente com Guala, adotou o modo de ver deste bispo: Transcreveu em 1230 ou 1231 a constituição imperial de 1.224 para o Registro das Cartas Pontifícias e em breve editou uma lei pela qual mandava que os hereges reconhecidos pela Inquisição fossem abandonados ao poder civil, para receber o devido castigo, castigo que, segundo a legislação de Frederico II, seria a morte pelo fogo. Os teólogos e canonistas da época se empenharam por justificar a nova praxe; eis como fazia S. Tomás de Aquino: “É muito mais grave corromper a fé, que é a vida da alma, do que falsificar a moeda que é um meio de prover à vida temporal Se, pois, os falsificadores de moedas e outros malfeitores são, a bom direito, condenados à morte pelos príncipes seculares, com muito mais razão os hereges, desde que sejam comprovados tais, podem não somente ser excomungados, mas também em toda justiça ser condenados à morte.” (Suma Teológica II/II 11,3c) A argumentação do Santo Doutor procede do princípio (sem dúvida, autêntico em si) de que a vida da alma mais vale do que a do corpo; se, pois, alguém pela heresia ameaça a vida espiritual do próximo, comete maior mal do que quem assalta a vida corporal; o bem comum então exige a remoção do grave perigo (veja-se também S. Teol. II/II 11,4c). Contudo as execuções capitais não foram tão numerosas quanto se poderia crer. Infelizmente faltam-nos estatísticas completas sobre o assunto; consta, porém, que o tribunal de Pamiers, de 1303 a 1324, pronunciou 75 sentenças condenatórias, das quais apenas cinco mandavam entregar o réu ao poder civil (o que equivalia à morte); o lnquisidor Bernardo de Gui, em Tolosa, de 1308 a 1323, proferiu 930 sentenças, das quais 42 eram capitais; no primeiro caso, a proporção é de 1/15; no segundo caso, de 1/22. Não se poderia negar, porém, que houve injustiças e abusos da autoridade por parte dos juízes inquisitoriais. Tais males se devem a conduta de pessoas que, em virtude da fraqueza humana, não foram sempre fiéis cumpridoras da sua missão. Os Inquisidores trabalhavam a distâncias mais ou menos consideráveis de Roma, numa época em que, dada a precariedade de correios e comunicações, não podiam ser assiduamente controlados pela suprema autoridade da lgreja. Esta, porém, não deixava de censurá-los devidamente, quando recebia notícia de algum desmando verificado em tal ou tal região. Famoso, por exemplo, é o caso de Roberto, o Bugro, Inquisidor-Mor de França no século XIII. O Papa Gregório IX a princípio muito o felicitava por seu zelo. Roberto, porém, tendo aderido outrora à heresia, mostrava-se excessivamente violento na repressão da mesma. Informado dos desmandos praticados pelo lnquisidor, o Papa o destituiu de suas funções e o mandou encarcerar. Inocêncio IV, o mesmo Pontífice que permitiu a tortura nos processos da inquisição, e Alexandre IV, respectivamente em 1246 e 1256, mandaram aos Padres Provinciais e Gerais dos Dominicanos e Franciscanos, depusessem os lnquisidores de sua Ordem que se tornassem notórios por sua crueldade. O Papa Bonifácio VIII (1294-1303) famoso pela tenacidade e intransigência de suas atitudes, foi um dos que mais reprimiram os excessos dos inquisidores, mandando examinar, ou simplesmente anulando, sentenças proferidas por estes. O Concílio regional de Narbona (França) em 1243 promulgou 29 artigos que visavam a impedir abusos do poder. Entre outras normas, prescrevia aos lnquisidores só proferissem sentença condenatória nos casos em que, com segurança, tivessem apurado alguma falta, “pois mais vale deixar um culpado impune do que condenar um inocente.” (cânon 23) Dirigindo-se ao Imperador Frederico II, pioneiro dos métodos inquisitoriais, o Papa Gregório IX aos 15 de julho de 1233 lhe lembrava que “a arma manejada pelo Imperador não devia servir para satisfazer aos seus rancores pessoais, com grande escândalo das populações, com detrimento da verdade e da dignidade imperial.” (ep. saec. XIII 538-550).

Avaliação  
Procuremos agora formular um juízo sobre a Inquisição Medieval. Não é necessário ao católico justificar tudo que, em nome desta, foi feito. É preciso, porém, que se entendam as intenções e a mentalidade que moveram a autoridade eclesiástica a instituir a Inquisição. Estas intenções, dentro do quadro de pensamento da Idade Média, eram legítimas e, diríamos até, deviam parecer aos medievais inspiradas por santo zelo. Podem-se reduzir a quatro os fatores que influíram decisivamente no surto e no andamento da Inquisição:
1) Os medievais tinham profunda consciência do valor da alma e dos bens espirituais. Tão grande era o amor à fé (esteio da vida espiritual) que se considerava a deturpação da fé pela heresia como um dos maiores crimes que o homem pudesse cometer (notem-se os textos de São Tomás e do Imperador Frederico II atrás citados); essa fé era tão viva e espontânea que dificilmente se admitiria viesse alguém a negar com boas intenções um só dos artigos do Credo.
2) As categorias de justiça na Idade Média eram um tanto diferentes das nossas: Havia muito mais espontaneidade (que as vezes equivalia a rudez) na defesa dos direitos. Pode-se dizer que os medievais, no caso, seguiam mais o rigor da lógica do que a ternura dos sentimentos; o raciocínio abstrato e rígido neles prevalecia por vezes sobre o senso psicológico (nos tempos atuais verifica-se quase o contrário: Muito se apela para a psicologia e o sentimento, pouco se segue a lógica; os homens modernos não acreditam muito em princípios perenes; tendem a tudo julgar segundo critérios relativos e relativistas, critérios de moda e de preferência subjetiva).
3) A intervenção do poder secular exerceu profunda influência no desenvolvimento da inquisição. As autoridades civis anteciparam-se na aplicação da forma física e da pena de morte aos hereges; instigaram a autoridade eclesiástica para que agisse energicamente; provocaram certos abusos motivados pela cobiça de vantagens políticas ou materiais. De resto, o poder espiritual e o temporal na Idade Média estavam, ao menos em tese, tão unidos entre si que lhes parecia normal, recorressem um ao outro em tudo que dissesse respeito ao bem comum. A partir dos inícios do Séc. XIV a lnquisição foi sendo mais explorada pelos monarcas, que dela se serviam para promover seus interesses particulares, subtraindo-a às diretivas do poder eclesiástico, até mesmo encaminhando-a contra este; é o que aparece claramente no Processo Inquisitório dos Templários, movido por Filipe o Belo da França (1285-1314) à revelia do Papa Clemente V. (cf. capítulo 25)
4) Não se negará a fraqueza humana de Inquisidores e de oficiais seus colaboradores. Não seria Iícito, porém, dizer que a suprema autoridade da Igreja tenha pactuado com esses fatos de fraqueza; ao contrário, tem-se o testemunho de numerosos protestos enviados pelos Papas e Concílios a tais ou tais oficiais, contra tais leis e tais atitudes inquisitoriais. As declarações oficiais da Igreja concernentes à Inquisição se enquadram bem dentro das categorias da justiça medieval; a injustiça se verificou na execução concreta das leis. Diz-se, de resto, que cada época da história apresenta ao observador um enigma próprio na Antigüidade remota, o que surpreende são os desumanos procedimentos de guerra. No Império Romano, é a mentalidade dos cidadãos, que não conheciam o mundo sem o seu Império (oikouméne — orbe habitado — Imperium) nem concebiam o Império sem a escravatura. Na época contemporânea, é o relativismo ou ceticismo público; é a utilização dos requintes da técnica para “lavar o crânio”, desfazer a personalidade, fomentar o ódio e a paixão. Não seria então possível que os medievais, com boa fé na consciência, tenham recorrido a medidas repressivas do mal que o homem moderno, com razão, julga demasiado violentas? Quanto à Inquisição Romana, instituída no Séc. XVI, era herdeira das leis e da mentalidade da Inquisição Medieval. No tocante à Inquisição Espanhola, sabe-se que agiu mais por influência dos monarcas da Espanha do que sob a responsabilidade da suprema autoridade da Igreja.

Origem da Inquisição Espanhola  
Os reis Fernando e Isabel, visando a plena unificação de seus domínios, tinham consciência de que existia uma instituição eclesiástica, a Inquisição, oriunda na Idade Média com o fim de reprimir um perigo religioso e civil dos séculos XI/XII (a heresia cátara ou albigense); a este perigo pareciam assemelhar-se as atividades dos marranos (judeus) e mouriscos (árabes) na Espanha do século XV.
1) A Inquisição Medieval, que nunca fora muito ativa na península ibérica, achava-se a mais ou menos adormecida na segunda metade do Séc. XV Aconteceu, porém, que durante a Semana Santa de 1478 foi descoberta em Sevilha uma conspiração de marranos, a qual muito exasperou o público. Então lembrou-se o rei Fernando de pedir ao Papa, reavivasse na Espanha a antiga Inquisição, e a reavivasse sobre novas bases, mais promissoras para o reino, confiando sua orientação ao monarca espanhol. Sixto IV, assim solicitado, resolveu finalmente atender ao pedido de Fernando (ao qual, depois de hesitar algum tempo, se associara Isabel). Enviou, pois, aos reis da Espanha o Breve de 19 de novembro de 1478, pelo qual “conferia plenos poderes a Fernando e Isabel para nomearem dois ou três Inquisidores, arcebispos, bispos ou outros dignitários eclesiásticos, recomendáveis por sua prudência e suas virtudes, sacerdotes seculares ou regulares, de quarenta anos de idade ao menos, e de costumes irrepreensíveis, mestres ou bacharéis em Teologia, doutores ou licenciados em Direito Canônico, os quais deveriam passar de maneira satisfatória por um exame especial. Tais lnquisidores ficariam encarregados de proceder contra os judeus batizados reincidentes no judaísmo e contra todos os demais culpados de apostasia. o Papa delegava a esses oficiais eclesiásticos a jurisdição necessária para instaurar os processos dos acusados conforme o Direito e o costume; além disto, autorizava os soberanos espanhóis a destituir tais Inquisidores e nomear outros em seu lugar, caso isto fosse oportuno” (L.Pastor, Histoire des Papes IV 370). Note-se bem que, conforme este edito, a lnquisição só estenderia sua ação a cristãos batizados, não a judeus que jamais houvessem pertencido a lgreja; a instituição era, pois, concebida como órgão promotor de disciplina entre os filhos da Igreja, não como instrumento de intolerância em relação às crenças não-cristãs.

Procedimentos da Inquisição Espanhola
Apoiados na Licença Pontifícia, os reis da Espanha aos 17 de setembro de 1480 nomearam lnquisidores, com sede em Sevilha, os dois dominicanos Miguel Morillo e Juan Martins, dando-lhes como assessores dois sacerdotes seculares. Os monarcas promulgaram também um compêndio de “Instruções”, enviado a todos os tribunais da Espanha, constituindo como que um código da Inquisição, a qual assim se tornava uma espécie de órgão do Estado civil. Os Inquisidores entraram logo em ação, procedendo geralmente com grande energia. Parecia que a lnquisição estava a serviço não da Religião propriamente, mas dos soberanos espanhóis, os quais procuravam atingir criminosos mesmo de categoria meramente política. Em breve, porém, fizeram-se ouvir em Roma queixas diversas contra a severidade dos Inquisidores. Sixto IV então escreveu sucessivas cartas aos monarcas da Espanha, mostrando-lhes profundo descontentamento por quanto acontecia em seu reino e baixando instruções de moderação para os juízes tanto civis como eclesiásticos. Merece especial destaque neste particular o Breve de 2 de agosto de 1482, que é o Papa, depois de promulgar certas regras coibitivas do poder dos Inquisidores, concluía com as seguintes palavras: “Visto que somente a caridade nos toma semelhantes a Deus, rogamos e exortamos o Rei e a Rainha, pelo amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, a fim de que imitem Aquele de quem é característico ter sempre compaixão e perdão. Queiram, portanto, mostrar-se indulgentes para com os seus súditos da cidade e da diocese de Sevilha que confessam o erro e imploram a misericórdia.” Contudo, apesar das freqüentes admoestações pontifícias, a Inquisição Espanhola ia-se tornando mais e mais um órgão poderoso de influência e atividade do monarca nacional. Para comprovar isto, basta lembrar o seguinte: A Inquisição no território espanhol ficou sendo instituto permanente durante três séculos a fio. Nisto diferia bem da Inquisição Medieval, a qual foi sempre intermitente, tendo em vista determinados erros oriundos em tal ou tal localidade. A manutenção permanente de um tribunal inquisitório impunha avultadas despesas, que somente o Estado podia tomar a seu cargo; foi o que se deu na Espanha: Os reis atribuíam a si todas as rendas materiais da Inquisição (impostos, multas, bens confiscados) e pagavam as respectivas despesas; conseqüentemente alguns historiadores, referindo-se à Inquisição Espanhola, denominaram-na “Inquisição Régia”.

Emancipada de Roma  
A fim de completar o quadro até aqui traçado, passemos a mais um pormenor característico do mesmo. Os reis Fernando e Isabel visavam a corroborar a Inquisição, emancipando-a do controle mesmo de Roma… Conceberam então a idéia de dar à instituição um chefe único e plenipotenciário — o Inquisidor-Mor — o qual julgaria na Espanha mesma os apelos dirigidos a Roma. Para este cargo, propuseram à Santa Sé um religioso dominicano, Tomás de Torquemada (Turrecremata, em latim) o qual em outubro de 1483 foi realmente nomeado Inquisidor-Mor para todos os territórios de Fernando e Isabel. Procedendo à nomeação escrevia o Papa Sixto IV a Torquemada: “Os nossos caríssimos filhos em Cristo, o rei e a rainha de Castela e Leão, nos suplicaram para que te designássemos como Inquisidor do mal da heresia nos seus reinos de Aragão e Valença, assim como no principado de Catalunha.” (Bulla.ord. Praedicatorum / 622) O gesto de Sixto IV só se pode explicar por boa fé e confiança. O ato era, na verdade, pouco prudente… Com efeito; a concessão benignamente feita aos monarcas seria pretexto para novos e novos avanços destes: Os sucessores de Torquemada no cargo de Inquisidor-Mor já não foram nomeados pelo Papa, mas pelos soberanos espanhóis (de acordo com critérios nem sempre louváveis). Para Torquemada e sucessores, foi obtido da Santa Sé o direito de nomearem os lnquisidores regionais, subordinados ao Inquisidor-Mor. Mais ainda: Fernando e Isabel criaram o chamado “Conselho Régio da Inquisição”, comissão de consultores nomeados pelo poder civil e destinados como que a controlar os processos da Inquisição; gozavam de voto deliberativo em questões de Direito civil, e de voto consultivo em temas de Direito Canônico. Uma das expressões mais típicas da autonomia arrogante do Santo ofício espanhol é o famoso processo que os Inquisidores moveram contra o arcebispo primaz da Espanha, Bartolomeu Carranza, de Toledo. Sem descer aos pormenores do acontecimento, notaremos aqui apenas que durante dezoito anos contínuos a Inquisição Espanhola perseguiu o venerável prelado, opondo-se a legados papais, ao Concílio Ecumênico de Trento e ao próprio Papa, em meados do Séc. XVI. Frisando ainda um particular, lembraremos que o rei Carlos III (1759-1788) constituiu outra figura significativa do absolutismo régio no setor que vimos estudando. Colocou-se peremptoriamente entre a Santa Sé e a Inquisição, proibindo a esta que executasse alguma ordem de Roma sem licença prévia do Conselho de Castela, ainda que se tratasse apenas de proscrição de livros. O Inquisidor-Mor, tendo acolhido um processo sem permissão do rei, foi logo banido para localidade situada a doze horas de Madrid; só conseguiu voltar após apresentar desculpas ao rei, que as aceitou, declarando: “O Inquisidor Geral pediu-me perdão, e eu lho concedo — aceito agora os agradecimentos do tribunal — protegê-lo-ei sempre, mas não se esqueça desta ameaça de minha cólera voltada contra qualquer tentativa de desobediência” (cf. Desdevises du Dezart, L’Espagne de L’Ancien Regime. La Société 101 s). A história atesta outrossim como a Santa Sé repetidamente decretou medidas que visavam a defender os acusados frente à dureza do poder régio e do povo. A Igreja em tais casos distanciava-se nitidamente da lnquisição Régia, embora esta continuasse a ser tida como tribunal eclesiástico. Assim aos 2 de dezembro de 1530, Clemente VII conferiu aos lnquisidores a faculdade de absolver sacramentalmente os delitos de heresia e apostasia; destarte o Sacerdote poderia tentar subtrair do processo público e da infâmia da Inquisição qualquer acusado que estivesse animado de sinceras disposições para o bem. Aos 15 de junho de 1531, o mesmo Papa Clemente VII mandava aos Inquisidores tomassem a defesa dos mouriscos que, acabrunhados de impostos pelos respectivos senhores e patrões, poderiam conceber ódio contra o Cristianismo. Aos 2 de agosto de 1546, Paulo III declarava os mouriscos de Granada aptos para todos os cargos civis e todas as dignidades eclesiásticas. Aos 18 de janeiro de 1556, Paulo IV autorizava os sacerdotes a absolver em confissão sacramental os mouriscos. Compreende-se que a Inquisição Espanhola, mais e mais desvirtuada pelos interesses às vezes mesquinhos dos soberanos temporais, não podia deixar de cair em declínio. Foi o que se deu realmente nos séculos XVIII e XIX. Em conseqüência de uma revolução, o Imperador Napoleão I interveio no governo da nação, aboliu a Inquisição Espanhola por decreto de 4 de dezembro de 1808. O rei Fernando VII, porém, restaurou-a em 1814, a fim de punir alguns de seus súditos que haviam colaborado com o regime de Napoleão. Finalmente, quando o povo se emancipou do absolutismo de Fernando VIl, restabelecendo o regime liberal no país, um dos primeiros atos das Cortes de Cadiz foi a extinção definitiva da Inquisição em 1820. A medida era, sem dúvida, mais do que oportuna, pois punha termo a uma situação humilhante para a Santa Igreja.

Tomás de Torquemada  
Tomás de Torquemada nasceu em Valladolid (ou, segundo outros, em Torquemada) no ano de 1420. Fez-se Religioso dominicano, exercendo por 22 anos o cargo de Prior do convento de Santa-Cruz em Segóvia. Já aos 11 de fevereiro de 1482 foi designado por Sixto IV para moderar o zelo dos lnquisidores espanhóis. No ano seguinte o mesmo Pontífice o nomeou Primeiro Inquisidor de todos os territórios de Fernando e Isabel. Extremamente austero para consigo mesmo, o frade dominicano usou de semelhante severidade nos seus procedimentos judiciários. Dividiu a Espanha em quatro setores inquisitoriais, que tinham como sedes respectivas as cidades de Sevilha, Córdova, Jaen e Villa (Ciudad) Real. Em 1484 redigiu, para uso dos Inquisidores, uma “Instrução”, opúsculo que propunha normas para os processos inquisitoriais, inspirando-se em tramites já usuais na Idade Média; esse libelo foi completado por dois outros do mesmo autor, que vieram a lume respectivamente em 1490 e 1498. O rigor de Torquemada foi levado ao conhecimento da Sé de Roma; o Papa Alexandre VI, como dizem algumas fontes históricas, pensou então em destituí-lo de suas funções; só não o terá feito por deferência a corte da Espanha. O fato é que o Pontífice houve por bem diminuir os poderes de Torquemada, colocando a seu lado quatro assessores munidos de iguais faculdades (Breve de 23 de junho de 1494). Quanto ao número de vítimas ocasionadas pelas sentenças de Torquemada, as cifras referidas pelos cronistas são tão pouco coerentes entre si que nada se pode afirmar de preciso sobre o assunto. Tomás de Torquemada ficou sendo, para muitos, a personificação da intolerância religiosa, homem de mãos sanguinolentas… Os historiadores modernos, porém, reconhecem exagero nessa maneira de conceituá-lo; levando em conta o caráter pessoal de Torquemada, julgam que este Religioso foi movido por sincero amor e verdadeira fé, cuja integridade lhe parecia comprometida pelos falsos cristãos; daí o zelo extraordinário com que procedeu. A reta intenção de Torquemada ter-se-á traduzido de maneira pouco feliz. De resto, o seguinte episódio contribui para desvendar outro traço, menos conhecido, do frade dominicano: Em dada ocasião, foi levada ao Conselho Régio da Inquisição a proposta de se impor aos muçulmanos ou a conversão ao Cristianismo ou o exílio. Torquemada opôs-se a essa medida, pois queria conservar o clássico princípio de que a conversão ao Cristianismo não pode ser extorquida pela violência; por conseguinte, a Inquisição deveria restringir sua ação aos cristãos apóstatas; estes, e somente estes, em virtude do seu Batismo, tinham um compromisso com a Igreja Católica. Como se vê Torquemada, no fervor mesmo do seu zelo, não perdeu o bom senso neste ponto. Exerceu suas funções até à morte, aos 16/09/1498.

Poder Régio e Inquisição em Portugal  
Em síntese: O Instituto Histórico e Geográfico do Brasil publicou os Regimentos da Inquisição em Portugal (vigentes também no Brasil) datados de 1552, 1613, 1640 e 1774 (este assinado pelo Marquês do Pombal). São acompanhados de uma Introdução redigida pela Professora Sônia Aparecida de Siqueira, que põe em evidência o fato de que a Inquisição nunca foi uma instituição meramente eclesiástica, mas, em virtude da lei do padroado, foi mais e mais dirigida pela Coroa de Portugal em vista de seus interesses políticos. A Santa Sé teve de se opor mais de uma vez aos processos da Inquisição, a fim de tutelar os cristãos-novos e outros cidadãos julgados pelo Tribunal. A Inquisição está sempre em foco. É motivo de acusações à Igreja, muitas vezes mal fundamentadas ou repetidas como chavões, sem que o público tenha acesso aos documentos básicos que nortearam a Inquisição. Poucas pessoas têm contato direto com os arquivos e as fontes escritas do movimento inquisitorial. Eis que o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil (IHGB) publicou no número 392 (ano 157) da sua revista, correspondente a julho/setembro 1996 (pp. 495-1.020) os Regimentos do Santo Ofício da Inquisição do Reino de Portugal datados de 1552, 1613, 1640, 1774 (este assinado pelo Marquês de Pombal), além de um Regimento sem data. Tal edição esteve aos cuidados da Profª. Sônia Aparecida de Siqueira, sócia-correspondente do IHGB em São Paulo, que escreveu longa Introdução a tais documentos. Como nota o Prof. Arno Wehling, presidente do IHGB em 1996, a Dra- Sônia Aparecida localizou a Inquisição e seus sucessivos regimentos nos diferentes momentos históricos, sublinhando, inclusive, a progressiva expansão do poder real sobre a instituição, culminando no regime sectarista (p. 495). Como se sabe, a Inquisição nunca (nem na Idade Média) foi um Tribunal meramente eclesiástico. Isto era inconcebível outrora, dado que o Estado era oficialmente cristão e, por isto, se julgava responsável pelos interesses da fé cristã; a tal título intervinha ele em questões de foro religioso, por vezes ditando normas à Igreja. Tal realidade se acentuou na Península Ibérica (Espanha e Portugal) a partir do século XVI, em virtude dos privilégios do padroado. Com efeito, já que os reis de Espanha e Portugal eram descobridores de novas terras, às quais levavam a fé católica, a Santa Sé lhes concedeu poderes especiais para organizarem a vida da Igreja nas regiões recém-descobertas; daí a grande ingerência nos assuntos religiosos, a título de colaboração com a Igreja… colaboração que redundou, aos poucos, em sufocação da autoridade eclesiástica em favor dos interesses da Coroa. Nas linhas subseqüentes, apresentaremos as origens da Inquisição em Portugal e alguns traços da explanação da Profª. Sônia Aparecida, que põem em relevo a intervenção sempre mais prepotente dos monarcas em assuntos inquisitoriais.

Origens da Inquisição Portuguesa  
O rei D. João III de Portugal (1521-57) desejava que o Papa estabelecesse a Inquisição em seu reino, tendo em vista especialmente a eliminação dos judeus não plenamente convertidos ao Cristianismo. Durante 27 anos, S. Majestade e a Santa Sé se defrontaram, visto que o rei pedia poderes, em matéria religiosa, que o Papa não lhe queria conceder: Assim, conforme o monarca, o Inquisidor-mor seria escolhido pelo rei, assim como os outros Inquisidores (subordinados), podendo estes últimos ser não apenas clérigos, mas também juristas leigos, que passariam a ter a mesma jurisdição que os eclesiásticos. Mais: Conforme o desejo do rei, os Inquisidores estariam acima dos Bispos e dos Superiores das Ordens Religiosas, de modo que poderiam processar e condenar eclesiásticos sem consultar os respectivos prelados; os Bispos ficariam impedidos de intervir em qualquer causa que os Inquisidores chamassem a si. Ainda: Os Inquisidores poderiam impor excomunhões reservadas à Santa Sé e levantar as que eram impostas pelos Bispos. Como se vê, o rei queria desta maneira obter o controle total sobre os Bispos e a Igreja em Portugal. Finalmente aos 17/12/1531 o Papa Clemente VII concedeu a Inquisição em Portugal, mas em termos que contrariavam às solicitações de D. João III: Em vez de outorgar ao rei poderes para nomear os Inquisidores, o Papa nomeou diretamente um Comissário da Sé Apostólica e Inquisidor no reino de Portugal e nos seus domínios. Esse Comissário poderia nomear outros Inquisidores, mas a sua autoridade não estava acima da dos Bispos, que poderiam também, por seu lado, investigar as heresias. Os termos desta Bula ou concessão nunca foram aplicados em Portugal. O Inquisidor nomeado, Frei Diogo da Silva, era o confessor do rei; não aceitou o cargo, talvez por pressão do monarca. Apesar disto, em meio a grande agitação popular, começaram a funcionar tribunais inquisitoriais em algumas dioceses anarquicamente. Em conseqüência, o Papa suspendeu a Inquisição e, alegando que o rei o enganara (escondendo-lhe a conversão forçada de judeus no reinado de D. Manoel, 1495-1521) ordenou a anistia aos judeus e a restituição dos bens confiscados (Bula de 07/04/1535). As razões sobre as quais se baseavam tais decisões de Clemente VII, são assaz significativas: A conversão dos judeus infiéis deve ser propiciada mediante a persuasão e a doçura, das quais Cristo deu o exemplo, respeitando sempre o livre arbítrio humano; a conversão violenta ou extorquida dos judeus sob o reinado de D. Manoel era tida como façanha que não se deveria reproduzir. A Santa Sé assim procurava defender e proteger os cristãos-novos, vítimas do poder régio. O Papa Clemente VII, que resistira a D. João III, morreu em 1534, tendo por sucessor Paulo III. O rei voltou a insistir junto ao Pontífice para conseguir o tipo de tribunal de Inquisição que atendia aos interesses da Coroa. Não o obteve propriamente, mas por Bula de 23/05/1536 Paulo III restabeleceu a Inquisição em Portugal, nomeando três Inquisidores e autorizando o rei a nomear outro; além disto, o Pontífice mandava que, durante três anos, os nomes das testemunhas de acusação não fossem acobertados por segredo e durante dez anos os bens dos condenados não fossem confiscados; os Bispos teriam as mesmas faculdades que os Inquisidores na pesquisa das heresias. Por intermédio de seu Núncio em Lisboa, o Papa reservava a si o direito de fiscalizar o cumprimento da Bula, de examinar os processos quando bem o entendesse e de decidir em última instância. É a partir desta Bula (23/05/1536) que se pode considerar estabelecida a Inquisição em Portugal. O rei, que não se dava por satisfeito com as disposições da Santa Sé, começou a burlá-las. Quis, antes do mais, subtrair a Inquisição à vigilância do Pontífice e, para tanto, suscitou incidentes numerosos a ponto de obrigar a partir o Núncio Capodiferro, que tinha poderes para suspender o tribunal, caso não fossem respeitadas as cláusulas de proteção aos cristãos-novos. Além disto, nomeou Inquisidor o Infante D. Henrique, seu irmão, então Arcebispo de Braga que, com seus 27 anos, não tinha idade legal para exercer tais funções. Enfim aproveitava ou provocava ocasiões ou pretextos para fazer que o público cresse na má fé dos judeus convertidos (cristãos novos): Assim apareceu um cartaz nas portas da catedral e de outras igrejas de Lisboa, anunciando a chegada próxima do Messias… Um alfaiate de Setúbal apresentou-se ao público como Messias, o que não foi levado a sério pela população, mas bastou para que os agentes do rei fizessem grandes represálias e tentassem convencer Roma dos perigos do judaísmo em Portugal. Apesar da má vontade do rei, o Papa fazia questão de manter sob seu controle o Santo Ofício em Portugal. Reforçando normas anteriores, o Pontífice emitiu nova Bula em 12/10/1539, que proibia aduzir testemunhas secretas e concedia outras garantias aos acusados, entre as quais o direito de apelação para o Papa; determinava outrossim que os emolumentos dos Inquisidores não fossem pagos mediante os bens dos prisioneiros. Também esta Bula não foi observada em Portugal. O Papa então resolveu suspender a Inquisição pelo Breve de 22/09/1544; tomou a precaução de fazer publicar de surpresa em Lisboa este documento, levado secretamente para lá por um novo Núncio. O rei, profundamente golpeado, jogou a sua última cartada; requereu ao Papa que revogasse a suspensão e restaurasse a Inquisição sem qualquer limitação, e acrescentava a ameaça: “Se Vossa Santidade não prover nisso, como é obrigado e dele se espera, não poderei deixar de remediá-lo confiando em que não somente do que suceder Vossa Santidade me haverá por sem culpa, mas também os príncipes e os fiéis cristãos que o souberem, conhecerão que disso não sou causa nem ocasião”. Tais palavras continham a ameaça de desobediência formal ao Papa e de cisão na Igreja. D. João III seguiu o conselho que lhe fora dado pelos seus dois enviados à Santa Sé em 1535: Negasse obediência ao Papa, imitando o exemplo do rei Henrique VIII da Inglaterra. Entre a obediência ao Papa, como fiel católico, e a rebeldia declarada que lhe permitisse instituir um tribunal, que era no fundo um instrumento da política régia, o rei de Portugal estava disposto a seguir a segunda via. O Pontífice via-se naquele momento (1544/45) premido por outras graves preocupações, como a convocação e a preparação do Concílio de Trento, sobre o qual o Imperador Carlos V e outros monarcas tinham seus interesses. Em conseqüência, acabou por aceitar os pontos principais da solicitação de D. João III: Por Bula de 16/07/1547, nomeou lnquisidor-Geral o Cardeal Infante D. Henrique, e retirou aos Núncios em Lisboa a autoridade para intervirem nos assuntos de alçada da Inquisição; esta seguiria seus trâmites próprios, diversos dos habituais nos processos comuns. Ao mesmo tempo, porém, o Papa mitigava suas disposições: Promulgou um Breve que suspendia o confisco de bens por dez anos; outro Breve suspendia por um ano a entrega de condenados ao braço secular (ou a aplicação da pena de morte). Em outro Breve ainda o Papa fazia recomendações tendentes a moderar os previsíveis excessos da Inquisição e a permitir a partida dos cristãos-novos para o estrangeiro. Pouco antes de morrer ou aos 08/01/1549, Paulo III editou novo Breve, que abolia o segredo das testemunhas; Breve este que provavelmente nunca foi aplicado em Portugal. Eis algumas passagens muito significativas da Introdução redigida pela Profª. Sônia Aparecida de Siqueira:

Cristãos novos  
Urgia acalmar a inquietação causada pela presença dos cristãos-novos, inimigos em potencial pelo seu supranacionalismo. O combate às minorias dissidentes era um programa inadiável. Os neocristãos podiam ser portadores do fermento herético por suas crenças residuais e por seus íntimos contatos com luteranos e judeus. E mais: Com a frutificação das descobertas, da exploração do mundo colonial que se montava, com o comércio ultramarino, com a urbanização progressiva, os cristãos-novos ganhavam força econômica e tendiam a uma solidariedade que lhes acrescia o poder de ação no meio social. O trono sentiu a ameaça que representariam se não fossem bons cristãos. Reagiu. A Inquisição foi criada e estendeu-se sobre cristãos-novos, cristãos-velhos, povo, hierarquias (pp. 502s). Certas determinações de Roma avocando a si, diretamente, ou por meio de seus Núncios, jurisdição sobre os cristãos-novos revelam que existia ainda uma certa indefinição da hierarquia judicial, bem como o propósito pontifício de reservar para a Cúria a jurisdição superior. Em 1533, a Bula de Clemente VII Sempiterno Regi revogou todos os poderes que haviam sido outorgados a Frei Diogo da Silva, Inquisidor-mor de Portugal, chamando a si todas as causas dos cristãos-novos, mouros e heréticos. Em 1534, um Breve de Paulo III dirigido a D. João III mandava que os Inquisidores suspendessem os processos contra pessoas suspeitas de heresia. Em 1535, uma Carta Pontifícia determinava que os Núncios de Portugal pudessem conhecer as apelações dos cristãos-novos. No mesmo ano, escrevia Paulo III ao rei sobre os cristãos-novos, e aos cristãos-novos; interferindo diretamente na definição do processo, concedia que pudessem tomar por procuradores e defensores quaisquer pessoas que quisessem. As Bulas de perdão geral que paralisavam a ação do Tribunal vinham de Roma, diluindo, de tempos em tempos, a autoridade dos Inquisidores. Confirmando o primeiro perdão concedido por Clemente VII, concedia Paulo III um segundo em 1535 e, em 1547, pela Bula Illius qui misericors, concedia um terceiro. Ao depois, outros indultos gerais foram sendo concedidos, e, quando o próprio rei os negociava com os cristãos-novos, tinha de pleiteá-los junto à Cúria Romana, como aconteceu com Felipe III em 1605. Aliás, as intromissões da Cúria nas atividades da Inquisição continuaram, decrescentes sem dúvida, mas constantes pelo tempo afora, dada a natureza de sua justiça. De 1678 a 1681, o Santo Ofício chegou a ser suspenso em Portugal por decisão do Pontífice, o que indica que, apesar da amplificação do absolutismo, os tribunais continuavam a carecer da aquiescência de Roma para atuar. (pp. 506s)

A figura do Inquisidor  
Capaz, idôneo, de boa consciência, devia ser o Inquisidor: Requisitos que garantiriam a aplicação da justiça com equanimidade. Pedia-se também constância… (p. 526) O juízo coletivo sobre a Inquisição dependeria do comportamento de seus oficiais, de sua capacidade de corrigir as próprias imperfeições, de imolar impulsos e interesses em prol do bom nome do Tribunal. A verdade é que, na prática, ou por causa da vigilância social, ou do controle institucional, ou, talvez, da fusão dos ideais individuais com os do Santo Ofício, não temos notícia de escândalos ou abusos dos agentes inquisitoriais. Geralmente, as exceções apenas confirmariam a regra. Alguns Inquisidores, por suas virtudes ou pelo sacrifício, chegaram a ser elevados aos altares. Em nota (74) diz a autora: “Não pertenceram ao Santo Ofício português, mas foram santificados os Inquisidores S. Raimundo Penafort, S. Toríbio Mongrovejo, S. Pedro de Verona, mártir, S. Pio V, S. Domingos de Gusmão, S. Pedro de Arbuês, S. João Capistrano. Beatificados foram Pedro Castronovo, legado cisterciense, Raimundo, arcediago de Toledo, Bernardo, seu capelão. Inquisidores também, dois clérigos, Fortanerio e Ademaro, núncios do Santo Ofício de Tolosa, martirizados pelos albigenses, Conrado de Marburg, mártir, pároco e Inquisidor da Alemanha, e o confessor de Sta.Isabel da Hungria, João de Salermo. O Inquisidor da Frísia e Holanda no século XVI, Guilherme Lindano, foi considerado Venerável.” (p. 527).

A Inquisição Pombalina
“A idéia de separação de um Estado só político e de uma igreja só religiosa germina nessa época.” Pretende-se uma nova política religiosa que usa a tolerância como seu instrumento. Impunha-se conexão com o Absolutismo, ainda então vivo como idéia política. Limitar o poder jurisdicional da Igreja e difundir o espírito laico. Em meio a esse clima das reformas pretendidas, a questão religiosa punha em relevo o Santo Ofício, tradicional defensor da ortodoxia das crenças, fiel zelador da unidade das consciências. Não se pensa em extingui-lo, mas, sim, em reformá-lo, adequando-o aos novos tempos. Urgia a elaboração de um novo Regimento que tornasse a Inquisição mais inofensiva e pusesse o Tribunal realmente nas mãos da Coroa. Esse novo Regimento foi mandado executar pelo Cardeal da Cunha. No seu Preâmbulo, justifica-se a sua necessidade na medida em que as leis que geriam o Santo Ofício teriam sido, ao longo dos séculos, distorcidas pelos jesuítas, interessados em dar ao Papa o supremo poder sobre a Inquisição. Desde o governo do Cardeal Infante D. Henrique (dominado, diz o Cardeal da Cunha, pelo seu confessor, o jesuíta Leão Henriques) até ao Reinado de D. João V, foi o Tribunal escapando ao poder do rei. Teria chegado ao máximo a influência da Companhia, sob o Inquisidor D. Pedro de Castilho, que tornou a legislação mais jesuítica do que régia. (p. 562) Os tempos eram diversos. O Estado se configurava de outra maneira, definindo diferentes funções. Cioso de seu poder, recusava-se a partilhá-lo com quaisquer instituições ou estamentos. Impunha-se a necessidade de limitar o poder jurisdicional da Igreja. Assim o Regimento de 1774 visou o fortalecimento do poder da Coroa, invocando o direito do Reino. Instalava-se o regalismo absolutista como ideal de união cristã na ordem civil. (p. 563) É importante conhecer os dados históricos dos quais as páginas deste artigo referem apenas alguns poucos traços. Contribuem para repor a verdade em foco, mostrando as causas latentes da Inquisição em Portugal (como também na Espanha). Os estudiosos não podem deixar de exprimir sua gratidão ao Instituto Histórico e Geográfico do Brasil pela publicação do trabalho da Profª. Sônia Aparecida de Siqueira e dos Regimentos da Inquisição Portuguesa (que vigoraram também no Brasil colonial).

Volta às aulas: adaptação e readaptação

Em tempos de volta às aulas, muitas crianças, sejam elas marinheiras de primeira viagem ou veteranas, apresentam resistência em retornar à rotina escolar. Os pais devem ter uma postura precisa para evitar possíveis traumas e transtornos futuros. Penso que o segredo seja dialogar, pois quando há uma conversa franca entre pais e filhos, é possível perceber que essa atitude pode evitar problemas com os pequenos, principalmente com aqueles que estão ingressando, pela primeira vez, na escola e requerem uma atenção e um cuidado especial por parte dos seus genitores.

Para os estreantes, a atenção deve ser redobrada, afinal, o primeiro dia de aula, muitas vezes, pode trazer resistência àqueles que não foram preparados para encarar um novo ambiente com pessoas totalmente desconhecidas. A insegurança toma conta dos pequeninos, e se os pais não souberem como os preparar, as consequências podem ser imprevisíveis. Os responsáveis precisam ser sensíveis e devem começar a estimular os filhos bem antes do início das aulas, falando para eles dos novos colegas, das “tias” [professoras], das brincadeiras, daquilo de belo que elas aprenderão no novo ambiente escolar. Se possível, levá-los, antes do início das aulas, à escola para que eles possam conhecê-la e se familiarizar com ela.

No primeiro dia de aula, as crianças devem ser acompanhadas pelos pais até o portão da escola, pois a presença destes faz toda diferença para elas. Na falta deles, é preciso a companhia de alguém com quem a criança se sinta bem e segura. Sabemos que, nos primeiros dias, principalmente para os iniciantes, há um o choro incontrolável de alguns que deixam os pais de coração partido. É notório que o período de adaptação costuma ser cheio de dúvidas e receios, a impressão é que os pais sofrem tanto quanto os filhos ou até mais que estes.

Para os pais se acalmarem, em primeiro lugar, é preciso ter plena confiança na escola que escolheram para o filho. Vale trocar experiências com outros pais e ter muita paciência, pois o choro, nos primeiros dias, é normal, principalmente para os pequeninos. Eles enfrentarão mudanças de ambiente, de pessoas e de comportamentos, o que pode gerar neles insegurança e ansiedade, tendo como resultado o choro, consequência do medo que criaram dentro de si. Por isso, pais, aguentem firmes, porque vai valer a pena. Não cedam ao choro nem chorem na frente da criança. Na maioria das vezes, o que gera a ansiedade no filho é a insegurança dos pais ao deixá-lo naquele novo ambiente. Sejam confiantes, acreditem na escola e no corpo docente que é preparado para lidar com essas situações.

Outro ponto que vale ser lembrado, pois gera preocupação para os pais e insegurança para os filhos, é a troca de escola, pois os pequenos são retirados de um ambiente, com o qual já estavam adaptados, para um novo espaço desconhecido para eles.

Penso que toda mudança é difícil, mas necessária. Partindo desse pressuposto, os pais precisam preparar a criança para a mudança que está por vir, ouvindo-a e buscando conhecer seus medos, suas expectativas e seus receios. Depois do diálogo e até das possíveis resistências do filho perante a mudança, é importante que os pais exaltem os pontos positivos da nova escola, como os novos amigos, a nova professora, as atividades que serão realizadas, mostrando-lhe que a troca trará também coisas boas para ele, e não somente perdas.

É de suma importância que a criança tenha conhecimento do real motivo pelo qual está trocando de escola; isso a tranquilizará mais. Essa postura dos pais acaba deixando claro para o filho que “durante toda vida, eles terão de se submeter a mudanças”. Portanto, essa dinâmica, se for bem direcionada, poderá gerar bons frutos, ajudando no processo de formação infantil. Na verdade, a volta às aulas é sempre um momento de ansiedade para todas as crianças; para muitas delas, o retorno à rotina diária de acordar cedo, ter horários preestabelecidos e voltar ao ritmo normal das atividades, é difícil.

Sabemos que muitas crianças passam as férias sem horário certo para acordar ou dormir; e há um grande questionamento por parte dos pais sobre o que fazer para que elas levantem cedo e bem dispostas no início do ano letivo. Recomenda-se que a rotina de horários volte a ser aplicada uma semana antes. Na semana anterior à volta às aulas, os pais devem se preocupar em readaptar seus filhos aos horários de acordar e dormir que serão seguidos durante o ano inteiro, sendo que este processo deve ser feito aos poucos para não estressar nem deixar a criança ansiosa. Acordar seu filho um pouco mais cedo e colocá-lo para dormir um pouco antes, todos os dias, vai ajudá-lo na volta à rotina.

Dicas práticas que contribuirão com a retomada da vida escolar dos pequenos no período que antecede os primeiros dias letivos:

– Faça com que a criança volte à rotina gradualmente, sem estabelecer mudanças bruscas a ela, pois ela sofre mais com mudanças radicais. Vá diminuindo o tempo diário de TV; o mesmo vale para as horas de sono, o horário de acordar, o tempo para brincar etc;

– Inclua a criança na preparação da volta às aulas. Isso é bastante positivo! Na hora de comprar o material escolar, leve seu filho e deixe-o ajudar você na escolha de algumas coisas;

– Estimule a confiança dele, em diversos momentos, durante o período que antecede a volta às aulas. Se ele já está inseguro e sofrendo pela separação, é necessário mostrar que você vai deixá-lo pela manhã, mas voltará para buscá-lo na hora combinada. Estimular a confiança é uma forma de reduzir este sofrimento e familiarizá-lo com o novo;

– Separe o uniforme e prepare o lanche, no dia anterior, para evitar surpresas e possíveis constrangimentos nos primeiros dias de aula;

– Saia de casa com antecedência para que seu filho não chegue atrasado;

– Pergunte ao seu filho como foi o dia dele quando estiverem voltando para casa. Procure saber detalhes, pois isso estimula a criança a voltar no dia seguinte.

Lembre-se sempre de que a adaptação e a readaptação não são instantâneas, mas requerem bastante paciência, tanto dos pais quanto das crianças.

Edivoneide Andrade
Psicopedagoga do Instituto Canção Nova

O Conceito de Deus como “energia cósmica”, …

… reiki e o “ecologismo” (Não confundir com Ecologia) NÃO são cristãos
http://blog.comshalom.org/carmadelio/37626-conceito-deus-energia-cosmica-reiki-ecologismo-nao-confundir-ecologia-nao-sao-cristaos

Segundo a Nova Era, estamos mergulhados em um mar energético, ainda que não vejamos a energia cósmica – assim como o peixe não vê o oceano no qual está nadando, nem sua imensidade.
Mas o que se entende por “energia”, na Nova Era?
Segundo a ciência moderna, tudo é energia. E a Nova Era está influenciada pelos progressos da ciência moderna. Porém, a Nova Era  faz uma transferência literal da física quântica ao divino, em um sincretismo de cunho “cristão”.
Segundo a Nova Era, “a base energética de toda a criação – o sol central primário e a corrente etérea, o éter – são o Deus impessoal, o Espírito Santo”, que consta de “duas formas primárias, a positiva e a negativa”, como “os dois polos de um ímã, de uma corrente elétrica”. A “partícula positiva” é composta por dois terços, e a negativa, de um terço da força primária”.
Esta proporção foi tirada da física moderna, ou seja, do elemento mais diminuto dos conhecidos até agora: o quark, composto de 1/3 (negativo) e 2/3 (positivo) da carga dos prótons. Mas a Vida Universal não concebe isso assim, pois considera o quark como reflexo da constituição do Espírito Santo (cf. El Dios personal e impersonal. ¿Quién o qué es Dios?, Gabriele Wittek).
Ainda que surpreenda à primeira vista, a Nova Era tem razão, na medida em que se aproxima da verdade, da realidade. Mas não a tem quando nega a existência de seres puramente espirituais. Ela reduz tudo a energia – também Deus, os anjos, a alma ou espírito humano, Cristo.
Jesus Cristo seria Deus somente a partir do instante em que, no Jordão, recebeu não o Espírito Santo, mas a “energia cósmica” ou “crística”.
As testemunhas de Jeová escrevem “espírito santo”, com iniciais minúsculas, porque, segundo suas crenças, Ele não seria Deus, nem uma Pessoa, mas “uma energia, uma força ativa”.
Não é que o universo – como o homem – seja composto de corpo visível e alma invisível, mas ensina o estoicismo, mas o universo inteiro e todos os seus integrantes, especialmente a Terra, seriam energia, e esta seria divina. Assim, a física é transformada em realidade metafísica, teologal.
O divino, entendido assim, não é um ser pessoal, “alguém”, nem “único”, transcendente, capaz de julgar, salvar ou condenar, mas “algo” imanente no universo, com o qual a pessoa pode se comunicar, abrindo-se a ele, mas que está presente também em cada um.
Algumas manifestações da energia da Nova Era são: o ecologismo e os métodos do potencial humano: reiki, tai chi etc.
A ecologia trata do meio ambiente e se preocupa por que seja adequado para o desenvolvimento da vida. Mas a Nova Era deu um passo a mais, transformando a ecologia em ecologismo, ao considerar a Terra como um organismo vivo, auto-organizado e, além disso, divino, chamado Gaia (uma das denominações de “Terra” em grego), a Pachamama (indígenas americanos), a deusa Mãe Terra.
O ecologismo da Nova Era palpita em vários grupos de protesto ecológicos. Parecem conceder menos importância ao ser humano e à melhoria sensata da mídia, que à natureza em seu estado atual. Protestam contra a construção de estradas, ferrovias etc., por considerar isso como uma espécie de “sacrilégio” do caráter numinoso da Terra.
A Nova Era criou o clima propício para a proliferação de inúmeros métodos do potencial humano, reiki, tai chi (“ki”, em japonês, “chi”, em chinês, significam “energia”), ioga, Energia Humana e Universal, meditação transcendental, Kryon etc.
Nestas práticas, é preciso distinguir a técnica da ideologia. Seus recursos psicotécnicos (exercícios respiratórios, físicos etc.) costumam ser o anzol para que seus praticantes acabem aderindo à ideologia da Nova Era, geralmente com raízes budistas, hinduístas e taoistas.
De todos, ou quase todos, pode-se afirmar o que foi dito pelo Comitê Doutrinal da Conferência dos Bispos dos EUA, em um documento sobre o reiki: “Falta credibilidade científica”, “é incompatível com a doutrina cristã” (cf. texto em InfoRIES 132 -2009- p.1-18).
O panteísmo, vigente no hinduísmo desde o século VIII a.C., identifica o divino, Átman-Brâhman, o Uno Todo, com o “prana”, palavra sânscrita que significa a essência do éter, elemento imaterial e difuso por todo o universo, e com sua “alma” (“átman”, em sânscrito).
Por isso, no hinduísmo e em suas seitas, no ioga e em tantos métodos do potencial humano, ou em geral na Nova Era, os exercícios de respiração diafragmática ou profunda têm uma finalidade fisiológica (uma melhor oxigenação das células), mas sobretudo teologal, ou seja, respirar mais e melhor o divino, para chegar ao endeusamento próprio, até no campo fisiológico.
Até o século XX, acreditava-se que o éter preenchia todos os espaços vazios moleculares e interplanetários, e que era necessário para a transmissão das ondas eletromagnéticas. Mas a física moderna declarou isso desnecessário e inexistente.
Então, por que o hinduísmo, o budismo, a Nova Era mantêm esta crença? Ela continuará sendo uma crença, mas incompatível com a ciência.


Referências:
-Conselho Pontifício da Cultura e Diálogo Inter-Religioso, “Jesucristo, portador del agua de la vida”. Una reflexión cristiana sobre la “Nueva Era”, Cidade do Vaticano 2004;
-R. Bosca, New Age. La utopía religiosa de fin de siglo, Atlántida, Buenos Aires 1993;
-M. Guerra, 100 preguntas-clave sobre “New Age”, Monte Carmelo, Burgos 2004;
-Idem, La evolución del universo, de la vida y del hombre. ¿El hombre, compuesto de cuerpo físico o material, cuerpo energético o inmaterial y alma espiritual? HomoLegens/Intereconomía, Madrid 2009;
-Idem, Diccionario enciclopédico de las sectas, B.A.C., Madrid 20135 (palabras budismo, ecología, energía, Energía Humana y Universal, Espíritu Santo, gnosticismo, hinduismo, jehovismo, Jesucristo, MacLaine, mana, Meditación transcendental, Nueva Era, panteísmo, Potencial Humano, prana, reiki, taichí, Vida Universal, yoga).

Um pouco de New Age

A Nova Era como neo-gnosticismo: auto-salvação de baixo para cima
Por Sandro Leoni

A Nova Era, ou New Age, é um fenômeno contemporâneo, de invenção “laica”, que copiou a ideia de São Pedro: foi ele o primeiro a dizer que os cristãos esperam “novos céus e nova terra”, aludindo à palingênese do cosmo na segunda vinda de Jesus Cristo. Mas, sendo laica, a New Age deturpou-lhe tanto o propósito, que para nós é a vida eterna na glória de Deus e para ela é um progresso indefinido na terra, quanto a causa, que para nós é Deus e para ela são as estrelas: o motor do seu mecanismo seria a astrologia, a passagem da constelação de Peixes para a de Aquário.

Esta ideologia, que remonta à revolução estudantil de 1968, diferentemente da seita que acredita numa mensagem de salvação que vem de cima, confia a “redenção” dos indivíduos ao agir pessoal e a ideias particulares. É um neo-gnosticismo: a gnose, presente desde os tempos apostólicos, confia à mente, ao seja, ao próprio homem, o caminho da salvação, uma salvação que é concebida como iluminação, emancipação, desenvolvimento de potencialidades interiores, autodivinização (“nós somos Deus”, declarou a atriz Shirley MacLaine, adepta e divulgadora).

A New Age (que, após o fracasso das suas promessas sociais, evoluiu para uma “Next Age”, apontando para o “Yes, we can”) não é uma doutrina, uma ideologia, não tem uma estrutura organizada com ativistas, centros específicos, etc… Ela é uma “atmosfera”, um “clima”, uma tensão emocional, alimentada por várias redes que desembocam nela como em um lago. Alguns dos “afluentes” estão presentes desde sempre como um problema pastoral para a Igreja. Astrologia, magia, espiritismo (reciclado como channeling) formam a sua espinha dorsal, mas a “salada” (sim, esta é uma das definições!) é formada ainda por terapias alternativas, medicina holística, a chamada nova música, uma nova política, a crença em “energias sutis” que devemos aprender a canalizar ou evitar, a crença na reencarnação, a existência de chacras que canalizam as energias do cosmo, a pranoteapia, o reiki, a energia terapêutica e formativa das pedras, os florais de Bach e uma longa lista de outros elementos… Em resumo, o sincretismo é o padrão da Nova Era.

A Conferência Episcopal Italiana (CEI) apontou a Nova Era, juntamente com o movimento das Testemunhas de Jeová (salvação alternativa vinda de cima), como um símbolo do neo-gnosticismo (auto-salvação vinda de baixo):
“A New Age:
41. Mais do que grupos individuais e movimentos religiosos definidos, com estruturas e doutrinas próprias, devemos levar em consideração a propagação de uma nova maneira de compreender o mundo, que atende pelo nome de New Age: nela, confluem e se confundem pensamento oriental, elementos de derivação cristã, doutrinas esotéricas, novas cosmologias e interpretações astrológicas, numa composição sincretista que tende a responder às mais diversas e até opostas exigências da sociedade contemporânea. A New Age desvaloriza e torna irrelevante o critério de verdade, e quem evoca a sua necessidade é considerado perigoso para a concórdia entre os homens, perturbador do caminho rumo à nova era, a qual estaria destinada a pôr fim às disputas e divisões das idades anteriores do mundo. No limiar do milênio, é prometida uma “nova era” do mundo, a “Era de Aquário”, que será de unidade e paz universal, caracterizada pelo advento de uma religião planetária, herdeira do que houve de positivo em todas as religiões anteriores, levando-as, assim, ao seu cumprimento. Embora faça referências também ao pensamento de autores cristãos, esse movimento esvazia o evento salvífico de Cristo eliminando a sua verdade, singularidade e plenitude. Além do sincretismo, a New Age é dominada por um vago naturalismo e imanentismo. O homem, de acordo com essa linha de pensamento, pode se tornar capaz, através de algumas técnicas, de fazer a experiência do divino sem a ajuda da graça divina, realizando com as próprias forças a sua salvação, da qual depende a harmonia universal.
42. O pensamento da New Age se espalha de modo sutil e quase imperceptível, por muitos canais e formas, e é apresentado com metodologias adequadas inclusive para as crianças, sublinhando as suas características de amor universal e de proteção da natureza. Esta proposta pode ser enganosa, porque apresenta determinados objetivos com os quais é fácil concordar: harmonia entre homem e natureza, consciência e compromisso para tornar o mundo melhor, mobilização de todas as forças do bem para um novo projeto unitário de vida. Algumas técnicas propostas podem ser consideradas naturalmente boas e psicologicamente úteis, mas outras são altamente questionáveis, porque usam formas que violam a ética natural e o respeito pelo ser humano. Exige-se, portanto, um aprofundamento e um esclarecimento sobre esta nova forma de sincretismo religioso, que é difícil de definir. Só é bom o que é verdadeiro: este é o critério que deve nos guiar. Temos uma obrigação de consciência para com a verdade e um dever de obediência à Palavra revelada, advertidos que fomos por São Paulo de que existe sempre o risco de trocarmos a verdade de Deus pela mentira e de adorarmos “a criatura no lugar do Criador” (Rm 1, 25).
43. A resposta cristã para a Nova Era está no mistério da Encarnação: o Filho de Deus nasceu da Virgem Maria “para nos salvar”. Não há salvação em nenhum outro nome (cf. At 4 , 12). Ninguém pode salvar a si mesmo, com técnicas humanas. Apesar da companhia de todas as constelações e com todas as práticas psicológicas possíveis, o homem permanece irremediavelmente sozinho. Veio Outro para nos salvar, aquele que “por nós, homens, e pela nossa salvação, desceu dos céus” e está vivo e operante mediante o seu Espírito na Igreja. O cristão não adere a um salvador humanamente inventado, mas ao Jesus Cristo do Evangelho, que nos salva através da cruz e da ressurreição, propondo o caminho das bem-aventuranças e nos fazendo transcender o horizonte terreno, ainda que o ilumine e o promova”.

Liberte-se para uma vida nova

Cure-se dos venenos emocionais

Você já passou dias, semanas, meses e até anos carregando consigo sentimentos negativos em relação a pessoas ou situações? Creio que todos nós já passamos por isso alguma vez na vida. O mais interessante a observar é que sentir coisas “más” nos faz carregar um peso ainda maior do que a situação em si. Como cristãos, não admitimos alguns desses sentimentos, fazemos de conta que não existem. Um passo muito importante é assumir nossos sentimentos e a possibilidade de tocar nestas emoções e desabafar.

Mas de que forma eu posso fazer este desabafo?

O perdão é uma decisão, mas não apenas uma decisão simples: é um processo contínuo, que gera memórias, dores, ativa ressentimentos, e, acima de tudo, gera libertação. Libertamo-nos dos sentimentos maus para que o novo seja gerado em nós. Libertamo-nos para uma vida nova!

Esse tipo de sentimento, guardado em nosso interior, é como um alimento estragado na geladeira; aos poucos, contamina todos os outros produtos e deixa aquele cheiro mau. Imagine você assim, cheio de coisas estragadas dentro de si. Logo, as dores começam a aparecer, assim como doenças estranhas, sentimentos maus, humor deprimido. Esses são nossos “venenos emocionais”: venenos que nos entristecem e, consecutivamente, nos adoecem.

O venenoso não envenena apenas a si, mas também ao outro. Falar mal, difamar, reclamar, queixar-se, murmurar, tudo isso pouco adianta. Não cura nenhuma ferida, pelo contrário, abre outras.

Quando falamos para o outro sobre nosso sentimento negativo, corremos o risco de nos machucar ainda mais. Por isso, preparar o terreno para conversar é muito importante. Se não há condições para o diálogo, uma boa sugestão é escrevê-los [seus sentimentos] num papel, como numa carta que, muitas vezes, não será mandada. Isso funciona como forma de libertação.

Coloque, nesse papel, tudo o que gostaria. Escreva sobre as situações que o machucaram, sobre suas dores e dificuldades com aquela pessoa. Algumas pessoas gostam de jogar essa folha de papel num rio, outras de queimá-la, outras a levam à capela e oferecem, em oração, esses sentimentos descritos nela. Essas atitudes funcionam como meio saudável de superar essas dificuldades, sem que para isso você precise descarregar toda a raiva na outra pessoa.

Se para você é muito difícil escrever, poderá pensar nas situações em algum lugar de que você goste ou ficar recolhido e dizer a uma cadeira vazia, representando a pessoa de quem tem mágoa, tudo aquilo que você sente. “Mas, a pessoa não está ali” você pode pensar. O mais importante é que seus sentimentos sejam ditos. É o esvaziar-se daquele sentimento e ponto final. Faça isso com o desejo de se libertar pela última vez daquele sentimento negativo. Em geral, depois de fazê-lo, tendemos a iniciar o processo de perdão e esquecimento.

Muitas vezes, murmurar e se queixar só potencializam nossos “venenos” emocionais. E, então, nesta Páscoa, o que você deseja?

Ressuscitar para uma vida nova, liberta dos seus “venenos” ou manter-se no sepulcro escuro e repleto de amarguras? Faça a sua opção! Certamente, ela não será fácil, muito menos doce, mas, certamente, os frutos dessa escolha serão grandiosos!

Elaine Ribeiro
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Significado dos Números na Bíblia

http://www.padrefelix.com.br/b_numeros_bib.htm

Devemos prestar muita atenção ao valor dos números na Bíblia, sobretudo no texto hebraico, pois estamos diante de uma mentalidade diferente da nossa. Os números, na maioria das vezes, não querem transmitir uma quantidade exata, um dado preciso, mas sim expressar uma realidade, um valor teológico, um dado simbólico. Vejamos o significado dos principais números e alguns exemplos interessantes, assim como algumas passagens bíblicas onde o número aparece:

1 (um): Deus é Um (Dt 6,4; Zc 14,9)

2 (dois): é o par perfeito. Dos animais puros, Noé levará para a arca sempre pares (Gn 7,2). É o dobro e pode significar “de sobra”, como em Is 40,2; 61,7; Ap 18,6.

3 (três): número da unidade e da Trindade. É usado para reforçar ou dar ênfase a uma expressão. Assim, quando se quer dizer que Deus é Santo, repete-se três vezes: «Deus é Santo, Santo, Santo» (Is 6,3; Ap 4,8). Deus abençoa três vezes (Nm 6,24-26). Três são os mensageiros que anunciam o nascimento de Isaac (Gn 18,1ss). É o número da plenitude (Ap 21,13) e da santidade (Ap 4,8).

4 (quatro): número da totalidade: os quatro cantos da terra; quatro evangelhos; quatro Seres vivos (Ap 4,6; 7,1; 20,8). Os quatro elementos do universo: terra, fogo, água e ar. Quadrangular (Ap 21,16). Representa sinal de plenitude.

5 (cinco): cinco dedos da mão. O primeiro bloco da Bíblia (a Lei) tem 5 livros, o Pentateuco. No Apocalipse pode ser negativo.

6 (seis): número imperfeito, não chegou à perfeição, que é o número 7. No Apocalipse (13,18) é repetido três vezes, por isso o número da besta é 666. Imperfeição total!

7 (sete): é a soma de 4 + 3. Por isso é o número perfeito, indica o máximo da perfeição (Nm 23,4; Mt 15,36); grande quantidade (Is 30,26; Pr 24,16; Mt 18,21); totalidade (Ap 1,4); indica séries completas como no Apocalipse: 7 Cartas (Ap 2-3); 7 Selos (Ap 6,1-17); 7 cabeças (Ap 12,3). O Cordeiro imolado recebe 7 dons (Ap 5,12). O sábado é o sétimo dia; Deus fez a Criação em 7 dias; a festa de Pentecostes acontece 7 vezes 7 dias depois da Páscoa. Cada sétimo ano é sabático (descanso para a terra e libertação dos oprimidos – Lv 25) e depois de 7 vezes 7 anos vem o Jubileu. Não se deve perdoar 7 vezes, mas 70 vezes 7 (Mt 18,22). É importante ver que no Apocalipse aparece a metade de 7, isto é 3,5 (Ap 11,9). Às vezes diz-se: um tempo, dois tempos, meio tempo (Ap 12,14; Dn 7,25), isto é três anos e meio. Também pode ser 42 meses (Ap 11,2), é igual a 1.260 dias (Ap 12,6), isto é, sempre a metade de 7. É a duração limitada das perseguições. É o tempo controlado por Deus.

8 (oito): é sete mais um, é como que o transbordar da plenitude. As bem-aventuranças em Mateus são sete mais uma (Mt 5).

10 (dez): Indica grande quantidade (Gn 31,7) ou é simplesmente um número redondo (Mt 25,1). Indica também listas completas. Pelos dez dedos das mãos é fácil lembrar a lista. Indica um tempo limitado; curta duração (Dn 1,12.14; Ap 2,10). Pode indicar também imperfeição: a besta só tem 10 chifres (Ap 12,3).

12 (doze): é o resultado de 4 vezes 3, isto é um número bem completo. É o número da escolha: 12 tribos no AT; 12 Apóstolos no NT; 12 legiões de anjos (Mt 26,53). Os anciãos são 24, isto é: 2 X 12 (Ap 4,4). Os que serão salvos (Ap 7,4) serão 144.000, isto é 12 X 12 X 1000! Número de totalidade (Ap 21,12 – 14).

40 (quarenta): número que indica um tempo necessário de preparação para algo novo que vai chegar: 40 dias e quarenta noites do dilúvio (Gn 7, 4.12); 40 dias e 40 noites passa Moisés no Monte (Ex 24, 18; 34, 26; Dt 9, 9-11; 10, 10); 40 anos foi o tempo da peregrinação pelo deserto (Nm 14, 33; 32, 13; Dt 8, 2; 29, 4, etc.); Jesus jejuou 40 dias antes de começar o seu ministério (Mt 4, 2; Mc 1, 12; Lc 4, 2); a Ascensão de Jesus acontece 40 dias depois da Ressurreição (At 1, 3). Quando alguém errava, era corrigido com 40 chicotadas (Dt 25, 3) e Paulo também recebeu cinco vezes as 40 chicotadas menos uma (2 Cor 11, 24).

70 (setenta): jogo de números 10 X 7. Moisés comunica o espírito profético aos 70 anciãos (Nm 11,16-17.24-25). O exílio na Babilônia é interpretado como a duração de 70 anos (Jr 25,11; 29,10; 27,7; 2Cr 36,21; Dn 9). A tradução da Bíblia hebraica para o grego foi feita por 70 escribas e por isso recebeu o nome de LXX ou Septuaginta.

1000 (mil): uma quantidade tão grande que não se pode contar. Prazo de tempo completo e comprido. Reino de mil anos (Ap 20,2). Ver as combinações: 7 X 1000 (Ap 11,13; 12 X 1000 (Ap 7,5-8); 144 X 1000 (Ap 7,4).

É interessante também notar como os hebreus faziam combinações de números. Por exemplo: Abraão fez a Aliança com Deus quando tinha 99 anos (Gn 17,24), assim a Aliança completou o número 100. É o sábado que dá valor aos demais dias da semana, assim transforma os 6 dias (imperfeitos) em 7 dias (perfeito). O único dia da semana que tem um nome.

Outro exemplo: seis povos habitavam a Terra Prometida (Ex 3,8). Mas são imperfeitos. Israel será o sétimo povo, aquele que tornará a terra perfeita (7). Ver também o jogo num rico feito na elaboração de alguns provérbios (Pr 6,16-19; 30,15-33).

Interessante é saber que os israelitas escreviam os seus números com letras alfabéticas (não tinham vogais). Assim podia-se escrever um nome com um valor numérico genial.

Por exemplo, Mateus divide a genealogia de Jesus em três grupos de 14 gerações. Ora, o número 14 é o resultado das somas das letras do nome de David (d + w + d): 4 + 6 + 4 = 14. Então Jesus é três vezes David, é o David por excelência.

Em Ap 13,18, o famoso número da “besta do Apocalipse” é 666, que provém da soma das consoantes hebraicas (n + w + r + n + r + s + q) de KAISAR NERON: Imperador Nero, o grande perseguidor dos cristãos (100 + 60 + 200 + 50 + 200 + 6 + 50 = 666). Ou «César Deus», no grego. Hoje poderíamos fazer o mesmo com o nome do Bush (que tanto mal faz ao mundo!). Ora, o nome completo dele é: George (6 letras) + Walker (6 letras) + Bush Jr (6 letras), ou seja: 666! O número da Besta do Apocalipse!

No capítulo 17 do Evangelho de João, a palavra «mundo» aparece 18 vezes, isto é: 6 + 6 + 6. Ora, para João não é a terra ou o mundo – como nós entendemos hoje – que era mau. «Mundo» significava: o sistema, ou seja, aqueles que não aceitavam Jesus (podiam ser os judeus do Templo ou também os romanos).

No capítulo 9 do Evangelho de João, o verbo «abrir» aparece 7 vezes, justamente no relato em que Jesus abre os olhos ao cego; um sinal importante no quarto Evangelho.

Muitas vezes, no AT, fala-se de personagens que viveram idades incrivelmente avançadas (Matusalém viveu 969 anos: Gn 5,27; Noé viveu 950 anos: Gn 9,29). Neste caso os números têm um valor simbólico. Querem indicar que estas foram pessoas importantes, fiéis a Deus, e que a época em que elas viveram foi de muito valor. Quanto maior o número de anos, mais importante essa pessoa foi diante de Deus.

Outro exemplo: na expressão «filhos de Israel» temos também um exemplo de como os escritores bíblicos gostavam de fazer os jogos de palavras baseadas no valor numérico das letras do alfabeto hebraico. Em laer’f.yI ynEB. (filhos de Israel), a soma dos valores das consoantes é: 2 + 50 + 10 + 10 + 300 + 1 + 30 = 603. Isto é a cifra da multidão do primeiro total do povo no recenseamento antes de partir em direção ao Sinai: 603.550 (Nm 1,46; 2,32). É o mesmo número dos homens que deixaram o Egito (Ex 12,37).

Frei Acílio Mendes, ofm cap – LISBOA (Portugal)

Nossa Senhora de Lourdes, Saúde dos enfermos

Santíssima Virgem de Lourdes

Abriu-se o Templo de Deus no céu (Ap 11, 19); o véu da fé rasgou-se e deixou-nos passar, a fim de vermos o céu, o que se passa lá em cima, a sua glória e perene juventude, a sua força e o seu poder. Isto é Lurdes (em francês Lourdes), a porta do céu que se entreabre. Quando a ciência médica e cirúrgica pensava ter atingido o cume do progresso, a Virgem Santíssima valia àqueles que os médicos desenganavam. Quando a ciência racionalista se ria do sobrenatural e tinha como infantis os Vaticanistas que aceitavam a palavra infalível do “ultrapassado” Pontífice, que a 8 de Dezembro de 1854 definira solenemente a Imaculada Conceição, a muralha do sobrenatural deu passagem a Maria e ela apareceu no Sul da França a uma menina do campo, e disse-lhe também: “Sou a Imaculada Conceição”. A festa de hoje, ao que parece, mereceria ser chamada Memória ou Comemoração das aparições. porque, na verdade, de 11 de Fevereiro a 10 de Julho, a bem-aventurada Virgem Imaculada dignou-se transmitir uma missão durante 18 Aparições:

1ª Aparição – 11 de Fevereiro
Na manhã dessa quinta-feira, as duas irmãs Bernadette (ou Bernardina) e Antonieta, e uma amiga Joana Abadie, procuravam lenha junto à gruta de Massabielle, nas margens do rio Gave. As duas pequenas saltam sem dificuldade um regato. Bernadette descalça-se para meter os pés na água e passar ao outro lado. Entretanto – escreve ela – “vi numa cavidade do rochedo uma moita, uma só, que se agitava como se estivesse muito vento. Quase ao mesmo tempo saiu do interior da gruta uma nuvem do irada, e logo a seguir uma Senhora nova e bela, bela mais que todas as criaturas, como eu nunca tinha visto nenhuma.
Veio pôr-se à entrada da concavidade, por cima do tufo de verdura. Logo olhou para mim, sorriu-me e fez-me sinal para que me aproximasse, como o faria minha mãe. Tinha-me passado o medo, mas parecia-me que não sabia onde estava. Esfreguei os olhos, fechei-os, tomei-os a abrir; mas a Senhora estava lá sempre, continuando a sorrir-se e fazendo-me compreender não estar eu enganada. Sem saber o que fazia, tomei o terço e ajoelhei-me. A Senhora aprovou com um sinal de cabeça e passou para os seus dedos um rosário que trazia no braço direito. Quando quis começar a rezar e erguer a mão à testa, o meu braço ficou imóvel, como que paralisado. Só depois de a Senhora fazer o sinal da cruz é que eu o pude”, fazer também. A Senhora deixava-me rezar sozinha. Ela apenas passava as contas pelos dedos, sem falar. Só no fim de cada mistério dizia comigo: Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo… Quando acabou a reza, a Senhora voltou a entrar no interior do rochedo e a nuvem de ouro desapareceu com Ela”. A quem lhe perguntava como era a Senhora, Bernadette fazia esta descrição: “Tem as feições duma donzela de 16 ou 17 anos. Um vestido branco cingido com faixa azul até aos pés. Traz na cabeça véu igualmente branco, que mal deixa ver os cabelos, caindo-lhe pelas costas. Vem descalça, mas as últimas pregas do vestido encobrem-lhe um pouco os pés. Na ponta de cada um sobressai uma rosa doirada. Do braço direito pende um rosário de contas brancas encadeadas em ouro, brilhante como as duas rosas dos pés”.

2ª Aparição -14 de Fevereiro
Tudo, mais ou menos, como na primeira. Temendo que fosse alguma alma do outro mundo, como lhe tinham dito, Bernadette asperge o penedo com água benta. Ela não se zanga – diz a pequena com satisfação. Pelo contrário, sorri para todos nós. Nestas duas primeiras aparições, Nossa Senhora nada disse, além de rezar as Glórias dos mistérios.

3ª Aparição – 18 de Fevereiro
A celestial Aparição pergunta delicadamente à menina: – Queres fazer-me o favor de vir aqui durante 15 dias? – Assim o prometo – respondi. – Também eu prometo fazer-te feliz, não neste, mas no outro mundo.

4ª Aparição – 19 de Fevereiro
Enquanto a vidente rezava, uma multidão de vozes sinistras, que pareciam sair das cavernas da terra, cruzaram-se e entrechocaram-se, como os clamores duma multidão em desordem. Uma dessas vozes, que dominava as outras, gritava em tom estridente, raivoso, para a pastorinha: Foge! Foge daqui! Nossa Senhora ergueu a cabeça, franziu ligeiramente a fronte e logo aquelas vozes fugiram em debandada.

5ª Aparição – 20 de Fevereiro
Nossa Senhora ensinou pacientemente, palavra por palavra, uma oração só para Bernadette, que ela devia repetir todos os dias.

6ª Aparição – 21 de Fevereiro
“A Senhora – escreve a vidente – desviou durante um instante de mim o seu olhar, que alongou por cima da minha cabeça. Quando voltou a fixá-lo em mim, perguntei-lhe o que é que a entristecia e Ela respondeu-me: – Reza pelos pecadores, pelo mundo tão revolto”.

7ª Aparição – 23 de Fevereiro
A Vidente, caminhando de joelhos e beijando o chão, vai do lugar onde se encontrava até à gruta. Nossa Senhora comunica-lhe um segredo que a ninguém podia revelar.

8ª Aparição – 24 de Fevereiro
A Santíssima Virgem disse estas palavras: Reza a Deus pelos pecadores! Penitência! Penitência! Penitência! Beija a terra em penitência pela conversão dos pecadores.

9ª Aparição – 25 de Fevereiro
“A Senhora disse-me: – Vai beber à fonte e lavar-te nela. Não vendo ali fonte alguma, eu ia ao rio Gave beber. Ela disse-me que não era ali. Fez-me sinal com o dedo mostrando-me o local da fonte. Para lá me dirigi. Vi apenas um pouco de lama. Meti a mão e não pude apanhar água. Escavei e saiu água mais suja. Tirei a três vezes. A quarta já pude beber”. Era a água milagrosa que tantos prodígios tem realizado. Nossa Senhora mandou-lhe ainda fazer esta penitência pelos pecadores: – Come daquela erva que ali está! Quando troçavam da pequena por tão estranha ordem, respondia: – “Mas vocês também não comem salada!?”

10ª e 11ª Aparições – 27 e 28 de Fevereiro
Na primeira destas visitas, a Virgem Imaculada tomou a mandar beijar o chão em penitência pelos pecadores; na segunda sorriu e não respondeu quando a Vidente lhe perguntou o nome.

12ª Aparição -1º de Março
A Aparição manda a Bernadette rezar o terço pelas suas contas e não pelas duma companheira, Paulina Sans, que lhe tinha pedido para usar as suas.

13ª Aparição – 2 de Março
A Virgem pede: – Vai dizer aos sacerdotes que tragam aqui o povo em procissão e que me construam uma capela.

14ª Aparição – 3 de Março
A Senhora não aparece à hora habitual, mas sim ao entardecer e deu a explicação: – Não me viste esta manhã porque havia pessoas que desejavam examinar o que fazias enquanto eu estava presente. Mas elas eram indignas. Tinham passado a noite na gruta, profanando-a.

15ª Aparição – 4 de Março
No segundo mistério do primeiro terço, Bernadette começa a ver Nossa Senhora. Acabou esse terço e rezou outros dois, refletindo ora alegria, ora tristeza. Durante esta quinzena, Nossa Senhora comunicou à menina três segredos e uma oração com esta ordem: – Proibo-te de dizer isto, seja a quem for.

16ª Aparição – 25 de Março
Na manhã da festa da Anunciação dirigiu-se para a gruta a privilegiada menina. “Peguei no terço – escreve ela. Enquanto rezava, assaltava-me teimosamente o desejo de lhe pedir que dissesse o seu nome. Receava, porém, ser importuna com uma pergunta que já tinha ficado sem resposta mais de uma vez… Num impulso, que não me foi possível conter, as palavras saíram-me da boca… – Senhora, quereis ter a bondade de me dizer quem sois? A única resposta foi uma saudação de cabeça, acompanhada dum sorriso. Nova tentativa, seguida de idêntica resposta. A terceira vez que lhe perguntei, tomou um ar grave e humilde. Em seguida, juntou as mãos, ergueu-as… olhou para o céu… depois, separando lentamente as mãos e inclinando-as para mim, deixando tremer um pouco a voz, disse-me: – Eu sou a Imaculada Conceição”.

17ª Aparição – 7 de Abril
Nossa Senhora nada disse, mas verificou-se nesta aparição o chamado milagre da vela. A vela benta, que Bernadette segurava, escorregou lhe pela mão atingindo-lhe os dedos. – Meu Deus, ela queima-se! – gritam várias pessoas. – Deixem-na estar! – ordena o Dr. Dozous. Bernadette não se queimou.

18ª Aparição -16 de Julho
Como é festa de Nossa Senhora do Carmo, a Vidente assiste à missa e comunga na igreja. À tarde sente que Deus a chama para a gruta, mas não pode aproximar-se devido à sebe e aos soldados que, por malvada ordem do governo, cercam o recinto. A menina contempla a Senhora, de além do rio e da sebe. “Não via o rio, nem as tábuas – explicará ela mais tarde. Parecia-me que, entre mim e a Senhora, não havia mais distância que nas outras vezes. Só a via a Ela. Nunca a vi tão bela”. Foi o último adeus da Senhora até ao céu.

 

Saúde dos enfermos
http://blog.cancaonova.com/padrejoaozinho/2009/03/26/31-saude-dos-enfermos/

Algumas palavras são muito ricas de significados. A palavra “cura”, por exemplo, pode significar a solução para um mal que aflige o nosso corpo ou também o “cuidado” que umamãe tem por seu filho. Podemos dizer que Maria “cuida” de cada um de nós, ou seja, ela nos “cura”. É isso mesmo. Certa vez entrei em um hospital e havia na parede uma lista de nomes com a inscrição “Conselho Curador”. Perguntei se eram os médicos daquela casa. A recepcionista respondeu prontamente: “- Não, padre, são os nossos benfeitores e o grupo que cuida deste hospital”. Entendi que cuidar e curar é a mesma coisa. Há crianças que, quando estão um pouco doentes, ficam boas só de encontrar o refúgio no colo materno. Cheiro de mãe cura. Infelizmente, nos dias de hoje, não podemos dizer isso de todas as ães. Mas tems uma mãe no céu que sempre está pronta para nos dar seu colo, seu cuidado, sua cura. Você já ouviu falar de São João Maria Vianei? É o padrono de todos os párocos. Ele é cconhecido também como Santo Cura D’Ars. Sabe por quê? Ele era o pároco da pequena cidade francesa de Ars. Ali, como se dizia na época, ele era  “cura das almas”. Ou seja, ele “cuidava” do rebanho do Senhor. Mais uma vez vemos que cura é cuidado. Quem sabe cuidar das pessoas está colaborando com a sua cura. É por isso que chamamos Maria de “Saúde dos Enfermos”. Ela é mãe de todas as mães e cuida de nós… e cura cada um de nós. Quer saúde? Procure o colo de Maria.

A palavra “saúde” também tem raízes de vários significados. Salutar pode ignificar saudável ou salvífico. Quando Jesus realizava curas, na verdade estava fazendo o silencioso sermãode anunciar um Reino onde não haverá doenças, nem pranto, nem dor: o Reino nos céus, da salvação. Quando perguntaram se ele era de fato o Messias, ao invés de fazer um discurso ele simplesmente mandou olhar os sinais de vida que estavam acontecendo. Paralíticos andando, cegos vendo, leprosos purificados! O Reino havia chegado. É sempre assim. O Reino dos céus está no meio de nós, mas aguardamos sua plenitude para um dia junto de Deus.

Uma ocasião Jesus curou dez leprosos de uma vez. Somente um voltou para agradecer. Este recebeu o elogio de Jesus: “- Vai em paz, tua fé te salvou”. Viu o detalhe? Nove foram curados. Somente um foi salvo, porque mudou de vida. São tantos milagres que Deus realiza todos os dias. Alguns deles são realmente incríveis. Até os médicos ficam admirados com algumas curas que para a medicina seriam impossíveis. Mas será que todos estes estarão no céu? Este já é um outro discurso. Precisamos corresponder aos dons de Deus. Neste sentido, Maria não quer apenas a nossa cura física, sem somente a saúde do nosso corpo. Ela quer colaborar com a nossa saude eterna, ou seja, com a nossa salvação.

Ao enviar seus apóstlos em missão, Jesus lhes deu o poder de curar toda espécie de doença (Mc 16,18). De modo ainda mais sublime, Maria recebeu este ministério. Não erra quem se consagra aos cuidados da Mãe de Deus. Ela é realmente a “saúde dos enfermos”. A Igreja repete esta mesma invocação na celebração litúrgica da Unção dos Enfermos. Antes de ungir o doente, pedimos a intercessão da mãe.

Conheço muitos doentes que vivem o ministério da dor em uma cama de hospital. Como faz bem aquela visita serena e pacífica! Visitar os doentes é uma obra de misericórdia. Em cada um deles encontramos a face desfigurada do próprio Cristo sofredor. Devemos ser portadores desta boa notícia de cura e salvação. Levemos conosco  exemplo de Maria, saúde dos enfermos. Uma boa idéia é levar uma pequena estampa ou até um terço abençoado para aquele doente. Quem está enfermos precisa segurar na mãe de alguém. O terço é um jeito de segurar nas mãos de Maria, que nos leva até o Coração de seu Filho, aonde encontramos refúgio seguro.

Saúde dos enfermos, rogai por nós!

 

Santíssimo Nome de Maria
O Nome  de Maria é nome de salvação para os regenerados, sinal de todas as virtudes, honra da castidade; é o sacrifício agradável a Deus; é a virtude da hospitalidade; é a escola de santidade;  é, enfim, um nome completamente maternal.  

O nome de Maria é como um bálsamo que corre agradavelmente sobre os membros dos enfermos e os penetra com eficácia. Ele é semelhante a este óleo que, por suas unções, reanima e suaviza, dá força, flexibilidade e saúde. Mais do que o nome de todos os Santos. O de Maria nos repousa de nossas fadigas, cura todos os nossos males, ilumina nossa cegueira, comove nosso endurecimento e nos encoraja em nossos desânimos. Maria é a vida e a respiração de seus servidores, a saúde dos enfermos, o remédio dos pecadores. Ricardo de São Vítor, interpretando estas palavras do Eclesiastes (VII, 2): “É melhor o bom nome do que os bálsamos preciosos”, as aplica assim à Bem-aventurada Virgem: “O nome de Maria cura os males do pecador com maior eficácia do que a dos unguentos mais procurados; não há doença, por desastrosa que seja, que não ceda imediatamente à voz desse bendito nome”.

O nome de Maria abre o coração de Deus e põe todos os  seus tesouros à disposição da  alma que o invoca.

Nosso Divino Salvador, se não me engano, no-lo quis recomendar quando, ressuscitando dos mortos, o primeiro nome que aflorou em seus lábios foi o de Maria.

Com efeito, dirigindo-se à Madalena, a primeira a quem Ele aparecia após sua Ressurreição, disse-lha (Jo XX, 16): “Maria”, para nos significar que o nome de Maria encerra a vida em si mesmo, e se harmoniza tão bem com a vida imortal, que merece ser o primeiro a sair da boca do Salvador, já em possessão da imortalidade. Esta reflexão é de Cesário, em sua bomilia sobre a Visitação.

Nome que desarma e abre o coração de Deus, em favor dos homens  
E acrescentamos com o Pe. J. Guibert, que assim se expressa na sua Meditação para a festa do Santo Nome de Maria: “O nome de Maria desarma o coração de Deus. Não há pecador, por mais criminoso, que pronuncie em vão esse nome. Embora merecesse, por suas faltas, todas as cóleras do céu, ele se vê protegido como por inviolável pára-raios, logo que articule o nome de Maria.

A este nome, o perdão desce infalivelmente sobre as almas pecadoras, não porque tenha Ela o direito de concedê-lo, mas porque é onipotente para implorá-lo – Omnipotentia suppex. O nome de Maria abre o coração de Deus e põe todos os seus tesouros à disposição da alma que o invoca.

A História nos ensina que uma multidão de Santo caridosos fizeram voto de jamais recusar a esmola que lhes fosse pedida em tal ou tal nome. Assim que ouviam o nome amada, eles davam, davam sempre, até o último óbulo e até suas próprias vestimentas. O nome de Maria tem esse poder mágico sobre o coração de Deus. Deus Filho, Jesus Cristo, entrega tudo o que tem àqueles que Lhes estendem a mão em nome de sua Mãe; Deus Padre, fonte de toda riqueza, concede toda graça àqueles que mendigam diante dEle invocando o nome de sua Filha Bem-amada. (…)

Nome de salvação e de alegria  
O nome de Maria é um nome salvador, sobretudo nos perigos de ordem moral. Quantas tentações por ele foram vencidas, quantos pecados evitados, quantos imundos corações purificados, quantas penosas confissões extraídas de almas que se cria para sempre fechadas!   É também um nome de consolação e de alegria. Ele dissipa a tristeza na alma que o pronuncia. Tendes medo de Deus e de seus julgamentos? Pensai em Maria e invocai seu nome: vossa confiança em Deus renascerá. Tendes medo dos homens, diante dos quais vos cobristes de vergonha e perdestes a reputação? Pensai em Maria e invocai seu nome: e não tereis mais receio de levantar os olhos diante de vossos semelhantes. Esmaga-vos o peso da humilhação ou da dor física? Pensai em Maria, invocai seu nome, e sereis aliviado. Tendes a horrível morte que rompe e põe fim a tudo? Pensai em Maria, invocai seu nome, e tereis coragem de aceitar esse supremo sacrifício.

“Este nome tem mais virtude do que todos os nomes dos Santos para confortar os débeis, curar os enfermos, iluminar os cegos, abrandar os corações endurecidos, fortificar  os que  combatem, dar ânimo aos cansados e derrubar o poderio dos demônios”

Nome de força  
O nome de Maria, enfim, é um nome de força. Quaisquer que sejam os inimigos que vos ameaçam, venham eles do Inferno, como o demônio que vos tenta; ou venham do mundo, como os adversários que vos perseguem, invocai o poderoso nome de Maria e a todos vencereis.

Quaisquer que sejam vossas próprias fraquezas, provenham elas do orgulho, da inveja, da sensualidade ou da preguiça, confiai vosso débil coração à solicitude da Virgem, invocai o poderoso nome de Maria, e vos vencereis a vós mesmos.

Precioso tesouro da Santíssima Trindade  
Recolhendo opiniões dos santos Doutores sobre o nome de Maria, traça São João Eudes esta admirável síntese:

“O nome de Maria, diz Santo Antônio de Pádua, é júbilo para o coração, mel na boca e doce melodia no ouvido.”

“Bem-aventurado o que ama vosso nome, ó Maria (é São Boaventura quem fala), porque este santo nome é uma fonte de graça que refresca a alma sedenta e a faz produzir frutos de justiça.”

“Ó Mãe de Deus, diz o mesmo Santo, que glorioso e admirável é vosso nome. O que o leva em seu coração se verá livre do medo da morte. Basta pronunciá-lo para fazer tremer a todo inferno e por em fuga a todos os demônios. O que deseja possuir a paz e a alegria do coração, que honre vosso santo nome.”

“O nome de Maria, diz São Pedro Crisólogo, é nome de salvação para os regenerados, sinal de todas as virtudes, honra da castidade; é o sacrifício agradável a Deus; é a virtude da hospitalidade; é a escola de santidade; é, enfim, um nome completamente maternal.”

“Ó amabílissima Maria, exclama também São Bernardo, vosso santo nome não pode passar pela boca sem abrasar o coração! Os que Vos amam não podem pensar em Vós, sem um consolo e um gozo muito particulares. Nunca entrais sem doçura na memória dos que Vos honram.”

“Ó Maria, diz o Santo Abade Raimundo Jordão, o chamado Idiota, a Santíssima Trindade Vos deu um nome que, depois do de vosso Filho, está acima de todos os nomes; nome a cuja pronunciação devem dobrar o joelho todas as criaturas do Céu, da terra e do Inferno, e toda língua confessar e honrar a graça, a glória e a virtude do santo nome de Maria. Porque, depois do nome de vosso Filho, não há quem seja tão poderoso para nos assistir em nossas necessidades, nem de quem devamos esperar mais os socorros que necessitamos para nossa eterna salvação.”

“Este nome tem mais virtude do que todos os nomes dos Santos para confortar os débeis, curar os enfermos, iluminar os cegos, abrandar os corações endurecidos, fortificar os que combatem, dar ânimo aos cansados e derrubar o poderio dos demônios” (…).

“Ouçamos a São Germano de Constantinopla: “Como a respiração, diz, não só é o sinal como também a causa da vida, assim quando vedes cristãos que tem com frequência o santo nome de Maria na boca, é sinal de que estão vivos com a verdadeira vida. O afeto particular que se tem a este sagrado nome, dá vida aos mortos, a conserva nos vivos, e os enche de gozo e de benção.”

O nome de Maria é um nome salvador, sobretudo  nos perigos de ordem moral. Quantas tentações por ele  foram vencidas, quantos pecados evitados,  quantos imundos corações   purificados, quantas penosas confissões  extraídas  de almas que se cria  para sempre fechadas!

Numa palavra, quem diz Maria, diz o mais precioso tesouro da Santíssima Trindade, como afirma Orígenes.

Quem diz Maria, diz o mais admirável ornamento da casa de Deus. Quem diz Maria, diz a glória, o amor e as delícias do Céu e da Terra.

Nome terrível para os demônios 
Concluímos com estas fervorosas palavras do venerável Tomás de Kempis, a respeito do glorioso nome da Mãe de Deus:

Os espíritos malignos tremem ante a Rainha dos Céus, e fogem como se corre do fogo, ao ouvir seu santo nome. Causa-lhes pavor o santo e terrível nome de Maria, que para o cristão é um extremo amável e constantemente celebrado.

Não podem os demônios comparecer nem poder por em jogo suas artimanhas onde vêem resplandecer o nome de Maria. Como trovão que ressoa no céu, assim caem derrubados ao ouvirem o nome de Santa Maria. E quanto mais amiúde se profere este nome, e mais fervorosamente se invoca, mais céleres e para mais longe escapam.

Nome a ser continuamente invocado  
De outro lado, os Santos Anjos e os espíritos dos justos se alegram e se deliciam com a devoção dos fiéis, ao verem com quanto afeto e frequência celebram estes a memória de Santa Maria, cujo glorioso nome aparece em todas as igrejas do orbe, que tem especialmente consagradas a seu louvor. E é justo e digno que acima de todos os Santos seja honrada na Terra a Mãe de Deus, a quem os Anjos veneram todos a uma só voz, com sublimes cânticos.

Seja, pois, o nome de Maria venerado por todos os fiéis, sempre amado pelos devotos, vinculado aos religiosos, recomendado aos seculares, anunciado pelos pregadores, infundindo aos atribulados, invocado em toda sorte de perigos. É desejo de Deus que os homens amem a Nossa Senhora.

É desejo de Deus que os homens amem a Nossa Senhora   Devemos amar a Santíssima Virgem – escreve Santa Antônio Maria Claret – porque Deus o quer. (…) Ele próprio nos dá exemplo e nos incita a amar a Maria: O Padre Eterno A escolheu por Filha sua muito amada; o Filho Eterno A tomou por Mãe, e o Espírito Santo, por Esposa. Toda a Santíssima Trindade A coroou como Rainha e Imperatriz do Céu e da terra, e A constituiu dispensadora de todas as graças (…)

Devemos amar a Maria Santíssima porque Ela o merece, pelo cúmulo de graças que recebeu sobre a Terra, pela eminência da glória que possui no Céu, pela dignidade quase infinita de Mãe de Deus a que foi exaltada, e pelas prerrogativas inerentes a esta sublime dignidade. (…) Devemos amar a Maria Santíssima e ser seus devotos verdadeiros, porque a devoção a Ela é um meio poderosíssimo para alcançar a salvação.

Bem-aventurados os que amam a Maria
Feliz, feliz aquele que Vos ama, ó Maria, Mãe dulcíssima” – exclama Santo Afonso de Ligório. São João Berchmans, da Companhia de Jesus, costumava dizer: Se amo a Maria, estou certo da minha perseverança e de Deus obtenho tudo o que quiser. Renovava por isso sem cessar este propósito: Quero amar a Maria, quero amá-La sempre.

Oh! como esta boa Mãe excede em amor a todos os seus filhos! Amem-Na estes quanto puderem, sempre serão vencidos pelo amor que lhes consagra Maria, observa Pseudo-Inácio, mártir.

Tenham-lhe a mesma ternura de amor com que A tem amado tantos de seus servos, que já nem sabiam o que mais fazer como prova muito que Lhe bem-queriam. (…)

O nome de Maria cura os males do pecador com maior eficácia do que a dos unguentos mais procurados; não há doença, por desastrosa que seja, que não ceda  imediatamente à voz desse bendito nome”.

Estava uma vez ao pé de uma imagem de Maria o Venerável Afonso Rodriguez, da Companhia de Jesus. Abrasado de amor para com a Santíssima Virgem, disse-lhe: Minha Mãe amabilíssima, bem sei que Vós me amais; mas Vós não me quereis tanto quanto eu Vos amo. Então, Maria, como que ofendida em seu amor, lhes respondeu: Que dizes, Afonso, que dizes? Oh! Quanto é maior o meu amor por ti do que o teu por Mim! Sabe, lhe disse, que do meu amor ao teu há mais distância do que do céu à Terra.

Tem, pois, razão São Boaventura ao exclamar: Bem-aventurados aqueles que tem a felicidade de ser fiéis servos e amantes desta Mãe amantíssima! Sim, porque esta gratíssima Rainha não admite que em amor A vençam os seus devotos servidores. Maria, imitando nisto a Nosso Senhor Jesus Cristo, com seus benefícios e favores dá a quem A ama o seu amor duplicado.

Ao amor de Mãe, deve corresponder nosso amor de filhos   Sendo assim, ao amor de Mãe que nos tem Maria, devemos corresponder com nosso amor de filhos. Pois é justo que nosso coração se mostre conquistado pelo seu. Se nós A amamos, devemos nos comprazer com sua lembrança, falar dEla com agrado e obedecê-La com diligência (…)

Devemos nos esforçar por imitá-La. A mais bela homenagem que um filho pode render à sua mãe é de lhe reproduzir os traços em sua própria conduta. Que nosso coração, portanto, seja semelhante ao de Maria. Antes de tudo, que ele seja puro como o dEla; evitemos, pois, a imundície do pecado. Que nosso coração seja bom e terno como o dEla; compassivo, acolhedor, benévolo, generoso. Portanto, que nada exista de duro em nossos pensamentos nem em nossas palavras, em relação ao nosso próximo.

Enfim, que nosso coração seja forte, como o dEla, indomável quando se trata da salvação das almas, não abandonando jamais o terreno, quando nos tenha sido confiado o regate de uma alma, trabalhando para isto com o perigo de nossa própria vida. Portanto, nada dessas timidezes que se recusam a abordar as almas, nada de covardias que recuam diante dos dificuldades.

(Clá Dias, João – Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado, Artpress, São Paulo, 1997, p. 299 à 304)

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