V Domingo da Páscoa – Ano C

Por Pe. Fernando José Cardoso

O Evangelho deste domingo é o início do discurso de despedida de Jesus não só dirigido aos seus Apóstolos, mas também a cada um de nós. Nele, proclama o mandamento novo: “amai-vos”. Jesus está convencido que só amando até ao extremo vencerá a morte. Por isso, convida-nos a viver a mesma experiência. A primeira palavra do Senhor que encontramos neste evangelho é “agora”. Jesus enfrenta o seu presente, o seu “agora”, dando a vida. No domingo passado, contemplamos Jesus como o bom pastor que dá a vida pelas suas ovelhas. É deste modo que Jesus enfrenta a morte e a vence e também revela plenamente a sua identidade e missão. “Agora”, no momento da paixão e da cruz, Jesus proclama a “glória” do Pai, que é a sua própria “glória”. Jesus tem a convicção profunda de que Deus atua “agora”, não numa situação ideal ou de fantasia, onde não há traidores ou pecado… Agora. O “agora” de Jesus é o seu e também o nosso. Muitas vezes, entre os cristãos escutamos lamentações por causa das dificuldades atuais para a evangelização, para viver a fé, para construir a Igreja.  Talvez seja necessário propor uma renovação de mensagem, uma nova renovação litúrgica, o uso dos meios modernos de comunicação. Mas também podem existir muitas outras razões; todavia, devemos afirmar que não é mais difícil hoje que nos princípios da Igreja. Sem necessidade de comparação, a contemplação do evangelho deste domingo indica-nos qual a convicção profunda que é necessária. A evangelização nada exige às condições ambientais, quer sejam favoráveis ou desfavoráveis. A evangelização pede um coração disposto a amar, a olhar a realidade concreta das pessoas que sofrem injustiças sociais. É necessário hoje ter um coração e uns olhos, dispostos para dar a vida: o amor põe-nos em ação. Concluindo, a fé só se transmite com a vida e com o contato pessoal. “Agora” é a hora de acreditar. “Agora” é a hora de evangelizar. Como no passado, também hoje podemos anunciar que o Reino de Deus está no meio de nós. A “glória” de Deus é a forma como encaramos as situações atuais, sejam elas quais forem; enfrentá-las como Jesus: com um amor doado, amando até ao fim. Nesta vida – morte tão humana encontra-se a glória de Deus, encontra-se a ressurreição. Por diversas vezes, neste tempo pascal, já fizemos referência à grande novidade de Jesus que é o mandamento novo. Hoje, com a segunda leitura que nos diz “Vou renovar todas as coisas”, é mais uma oportunidade para fazê-lo. É evidente que a vida das pessoas que compõem a comunidade não se renovou totalmente desde que começamos a celebrar a Páscoa. Mas, podemos ajudá-las a vencer etapas no que se refere à relação pessoal com Deus e com os irmãos. A este nível, poderá haver uma autêntica novidade. Jesus qualifica de “novo” isto: “como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros”. É uma renovação que acontece no interior e que tem conseqüências renovadoras no exterior.

 

O amor é a base de tudo e nele tudo tem valor
É amando como Jesus que a terra se une ao céu
Dom Eurico dos Santos Veloso

O ser humano egoísta, fechado em si mesmo, procura a própria glória. Jesus, cumprindo a vontade do Pai, dá glória a Deus e mostra que o projeto divino é ser plenamente humano: as pessoas o escutarão vivendo o amor que tem como único ponto de referência a vida e ação de Jesus. Para realizar esse projeto, que é, ao mesmo tempo, divino e humano, os cristãos são convidados a reforçar constantemente suas opções, a fim de superar, vitoriosos, as tribulações, mantendo-se unidos na fé e no amor. Em Jesus, Deus se tornou um de nós, tornando possível a intimidade do Pai com as pessoas. Jesus dera o exemplo. Pouco antes, lavara os pés dos discípulos, mostrando o que é amar. “Como eu os amei”. O amor é gratuito. Ele não pede amor para Ele, mas para os irmãos. O Amor é ativo. Deve ser manifestado em gestos. Dessa forma, a revelação de Jesus se prolonga no amor das pessoas na comunidade: “Nisso conhecerão que vocês são meus discípulos, se tiverem amor uns para com os outros”. O mundo, diante do amor, que é uma maneira de Cristo estar presente, acreditará n’Ele. Esse mandamento, característico de Jesus, é, antes de tudo, um novo modo de vida, um novo objetivo. Para Cristo, e também para a Igreja, o amor é a base de tudo e nele tudo tem valor, enquanto que, sem ele, nada é agradável a Deus. Esse amor de que Jesus fala não é senão o amor divino que nos foi dado pelo Espírito Santo. Percebido no Batismo, ele nos insere na Trindade, fazendo-nos filhos de Deus. É amando como Jesus que a terra se une ao céu. E é por meio desse amor que a realidade divina vive na terra, dando-nos a certeza de que o paraíso se constrói aqui, como uma antecipação da graça definitiva no céu. Somos cristãos à medida que amamos e expressamos esse amor como Jesus: fazendo a vontade do Pai, construindo seu Reino, deixando cair por terra à mentira que nos impede de dar ao mundo a resposta que Deus deseja. Nunca deixemos de amar, particularmente os que nos perseguem, caluniam e injuriam. Mais do que amar por fora, devemos amar em gestos concretos de tolerância, de amor e de recuperação dos que insistem em não amar. Amar a Deus no próximo e nos que são pedra em nossos sapatos é a gênese da vida cristã, ensinada pelo Ressuscitado!

 

Um mandamento novo para um mundo novo
Cf. B. CABALLERO. A Palavra de cada dia. Paulus: 2000.

Muitas pessoas hoje demonstram desânimo. As notícias são deprimentes. Guerras intermináveis,  sempre  sendo inflamadas por baixo das brasas. Populações africanas que são extintas pela fome, pelas epidemias. Cruéis guerras religiosas na Ásia, na Indonésia. Extermínio das crianças meninas na China. Violência em nossos bairros e cidades, corrupções em nossas instituições. Existe alguém que pode dar um novo rumo a este mundo? A resposta é: você mesmo, mas não sozinho. Alguém faz aliança com você. Ou melhor: com vocês, como comunidade. E em sinal dessa aliança, deixou-lhes um exemplo e modo de proceder: um novo mandamento. “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”, isto é, até o fim, até o dom da própria vida, seja vivendo, seja morrendo. É o que nos recorda o Evangelho de hoje. Não há governo ou poder que possa nos eximir deste mandamento. Só se o assumirmos como regra de nossa vida o mundo vai mudar. Não existe um mundo tão bom e tão bem governado que possamos deixar de nos amar mutuamente com ações e de verdade. Mas, por mais desgovernado que o mundo seja, se nos amarmos mutuamente como Jesus nos tem amado, o planeta vai mudar. Por que então, depois de dois mil anos de Cristianismo, o mundo está tão ruim assim? A este respeito pode-se fazer diversas perguntas, por exemplo: Será que os homens se têm amado suficientemente com o amor que Jesus nos mostrou? E como seria a terra se não tivesse existido um pouco de amor cristão? Não seria bem pior ainda? O Apocalipse, lido nas liturgias deste tempo pascal, muitas vezes é considerado um livro de terror e de medo. Mas, na realidade, ele termina numa visão radiante da nova criação, da nova Jerusalém, simbolizando a indizível felicidade, a ”paz” que Deus prepara para os que são fiéis ao novo mandamento do seu Filho (2ª leitura). A nova Jerusalém é o povo de Deus envolvido pelo esplendor, ainda escondido, do amor de Cristo, que o torna radiante, como o amor do noivo torna radiante a sua amada. Quem é amado e se entrega ao amor, torna-se amor. É isso que deve acontecer entre nós. Jesus nos amou até o fim. Nossa comunidade eclesial deve transformar-se em amor, irradiando um mundo infeliz e desviado por interesses egoístas e mortíferos.  Em vez de ver somente o lado ruim da Igreja – talvez porque nosso olho é ruim -, vamos tratar de vê-la como uma moça um tanto desajeitada e acanhada, mas que aos poucos vai sentindo o quanto ela está sendo amada e, por isso, se torna cada dia mais amável e radiante. Ora, para isso, é preciso que deixemos penetrar em nós o amor de Deus e o façamos passar aos nossos irmãos, não em palavras, mas com ações e verdadeiramente.
Cf. Konings, J. “Liturgia Dominical”, p.386-387. Ed. Vozes. Petrópolis RJ: 2004.

 

V DOMINGO DA PÁSCOA
Sonhar com um mundo novo sem injustiça, violência e nem exploração, é o desejo de todo cristão fiel a Jesus. Neste domingo, junto com Deus, podemos concretizar esse sonho. Antes, porém, devemos fortalecer os laços de amor que nos une como assembléia celebrativa e nos identificam como discípulos e discípulas de Jesus, pois muitos aderem à palavra de Deus e se comprometem com ela. No entanto, a Palavra aponta para um novo mundo, novo céu e nova terra, sem tristeza nem dor, e conclama todos a viver o amor uns para com os outros. Toda a vida de Jesus foi um dom ao mundo O que era um fim para os fariseus que programaram a morte de Jesus, na realidade era a glorificação de Jesus em Deus. Judas sai para entregá-lo. Se há um mal na traição de Judas, o mal maior está naqueles chefes religiosos de Israel que articularam a morte de Jesus. Jesus está prestes a terminar sua missão. Dá o maior testemunho: “Prova de amor maior não há, do que doar a vida pelo irmão” (15, 13). Toda a vida de Jesus foi um dom ao mundo. Nas comunidades joaninas, às quais João dirige seu Evangelho, diante da ausência de Jesus, os discípulos oram e meditam sobre sua vida e, iluminados pelo Espírito, começam a entendê-lo, particularmente quanto à sua permanência, vivo, entre eles. É a glorificação de Jesus: sua missão cumprida e continuada por seus discípulos, ao longo do tempo e duradoura na eternidade. É a glorificação de Deus. “Filhinhos!” Este diminutivo carinhoso não aparece em nenhum outro Evangelho. Só é usado por João aqui e, com freqüência, na sua primeira carta, dirigindo-se às comunidades. Jesus dá um novo mandamento (entolê). Temos uma referência direta aos mandamentos dados a Moisés no Sinai, e muito decantados no Salmo 119. Jesus faz uma oposição à Lei antiga. Israel, dentre os demais povos, considerados gentios, orgulhava-se e escudava-se na originalidade de seu Deus “único”, de sua Lei, de suas observâncias e cultos. Possuía uma sólida ideologia e teologia do poder e, em nome de seu Deus, exterminava os que eram considerados inimigos. Agora o novo mandamento diferencia-se do antigo. Os sinóticos já anunciavam: a Lei se resume no mandamento de amar a Deus e no “amar o próximo como a si mesmo”. Em João a medida do amor é o próprio Jesus. É o mandamento da união no amor com Jesus: amor universal, sem fronteiras, amor que não passa por instituições e é aberto a todos os povos, a todos os homens e mulheres. É o amor que gera a vida eterna. Aos discípulos, às comunidades, é confiado o testemunho deste amor, pelo qual se reconhece a presença de Jesus na história. Este amor concreto, vivido nas comunidades, é a esperança de vida diante dos desafios desumanizantes da sociedade de mercado, idólatra do dinheiro. O anúncio da Palavra e a exortação à perseverança na fé (primeira leitura) geram e orientam as comunidades para viverem, já, a dimensão apocalíptica de “um novo céu e uma nova terra” (segunda leitura). Oração Espírito de amor, não permitas que eu seja mesquinho no amor; antes, que eu seja capaz de amar como Jesus.

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