II Domingo da Páscoa – Ano C

Por Pe. Fernando José Cardoso

Evangelho segundo São João 20, 19-31
Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, com medo das autoridades judaicas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!» Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o peito. Os discípulos encheram-se de alegria por verem o Senhor. E Ele voltou a dizer-lhes: «A paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós.» Em seguida, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos.» Tomé, um dos Doze, a quem chamavam o Gémeo, não estava com eles quando Jesus veio. Diziam-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor!» Mas ele respondeu-lhes: «Se eu não vir o sinal dos pregos nas suas mãos e não meter o meu dedo nesse sinal dos pregos e a minha mão no seu peito, não acredito.» Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez dentro de casa e Tomé com eles. Estando as portas fechadas, Jesus veio, pôs-se no meio deles e disse: «A paz seja convosco!» Depois, disse a Tomé: «Olha as minhas mãos: chega cá o teu dedo! Estende a tua mão e põe-na no meu peito. E não sejas incrédulo, mas fiel.» Tomé respondeu-lhe: «Meu Senhor e meu Deus!» Disse-lhe Jesus: «Porque me viste, acreditaste. Felizes os que crêem sem terem visto». Muitos outros sinais miraculosos realizou ainda Jesus, na presença dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e, acreditando, terdes a vida nele.

Neste segundo domingo na oitava da Páscoa, o evangelista João – fiel a uma tradição anterior a ele – carregou e condensou no apóstolo Tomé a dúvida apostólica. Assim sendo, prestou-nos um grande favor, porque nos diz que os apóstolos, embora simples, não eram pessoas crédulas. Não foi a fé na ressurreição fruto de uma exaltação religiosa, ou fruto de uma alucinação psicológica; sofreram e tiveram que se render diante das evidências, afirmando que o seu Senhor, miseravelmente pregado numa cruz e morto, estava mais vivo do que nunca. Jesus ressuscitado, diz-nos o texto, sopra sobre eles numa ação simbólica, comunicando-lhes o Seu Espírito Santo. Doravante, cheios do Espírito do Ressuscitado, poderão perdoar todos os pecados, porque em Cristo – vencedor do pecado e da morte – Deus resolve dar uma grande absolvição a cada um sem nenhuma exceção, por maiores que possam ser os pecados. Nesta primeira aparição – de acordo com o texto – não estava presente o evangelista da dúvida. Ele se rende oito dias depois, num contexto dominical e, sem querer desvendar o mistério com as próprias mãos, pronuncia o ato de fé mais forte de todo o Novo Testamento, diante de Jesus Ressuscitado. O evangelista gostaria que fosse este o ato de fé provindo do nosso coração: “Meu Senhor e meu Deus”. Jesus – antes que o texto evangélico chegue ao seu final – liberta-Se das amarras do próprio texto e, contemplando-nos desde longe, pronuncia à imensa platéia que somos todos nós a bem-aventurança do final deste evangelho: “Bem aventurados aqueles que crêem sem terem visto” – bem aventurados aqueles que crêem sem sondar o mistério com as próprias mãos. Bem aventurados somos todos nós, desde que a nossa fé seja sincera e, ao mesmo tempo, alegre e feliz.

 

«Recebei o Espírito Santo»
Gregório de Narek (c. 944-c. 1010), monge e poeta arménio
Livro das orações, nº 33 (a partir da trad. SC 78, p. 206)

Onipotente, Benfeitor, Amigo dos homens, Deus de todos, Criador dos seres visíveis e invisíveis, Tu que salvas e fortaleces, Tu que curas e pacificas, Espírito poderoso do Pai […], Tu participas no mesmo trono e na mesma glória, e na ação criadora do Pai […]. Por meio de Ti nos foi revelada a trindade das Pessoas, na unidade da natureza da Divindade; e Tu és uma destas Pessoas, Tu, o Incompreensível. […] Moisés Te proclamou Espírito de Deus (Gn 1, 2): a Ti, que planavas sobre as águas, com protecção envolvente, temível e cheia de solicitude; Tu abriste as asas como sinal de auxílio compadecido aos recém-nascidos, revelando-nos assim o mistério da fonte baptismal. […] Tu criaste, ó Omnipotente, enquanto Senhor, todas as naturezas de tudo quanto existe, todos os seres a partir do nada. Por Ti se renovam pela ressurreição todos os seres por Ti criados, nesse momento que é o último dia da vida nesta terra e o primeiro dia da vida na Terra dos Vivos. Aquele que tem a mesma natureza que Tu, Aquele que é consubstancial ao Pai, o Filho Unigénito, obedeceu-Te, na nossa natureza, como a Seu Pai, unindo a Sua vontade à Tua. Ele Te anunciou como Deus verdadeiro, igual e consubstancial a Seu Pai omnipotente […] e calou aqueles que a Ti resistiam, esses que combatiam Deus (cf Mt 12, 28), perdoando embora àqueles que se Lhe opunham. Ele é o Justo e o Imaculado, o Salvador de todos, que foi entregue por causa dos nossos pecados, e que ressuscitou para nossa justificação (Rm 4, 25). A Ele a glória por Ti, e a Ti o louvor pelo Pai omnipotente, pelos séculos dos séculos, Amém.

 

Páscoa: Nova Criação
Cf. B. CABALLERO. A Palavra de cada dia. Paulus: 2000.

O segundo domingo pascal, domingo das “vestes brancas”, acentua a nova existência do cristão regenerado pelo batismo (ou pela renovação do compromisso batismal). Na primeira leitura, início de uma série de leituras de At, esta novidade se manifesta na atuação da primeira comunidade cristã, suscitando admiração por causa de sua união e dos sinais que o acompanham. O novo povo de Deus cresce ligeiro. Com razão, o salmo responsorial comenta: a pedra rejeitada tornou-se a pedra angular. A segunda leitura é a visão inicial do Apocalipse. No “primeiro dia da semana”, dia da ressurreição e da assembléia cristã, ele vê o Cristo glorioso, o “primeiro e o último”, o “vivo que foi morto” e que “tem as chaves da morte”, ou seja, tem a morte em seu poder. É a aparição do Cristo como Senhor do Universo. Os tempos são nele resumidos e recapitulados. No fim do livro, ele se manifesta como o renovador do Universo. A novidade da situação pascal aparece também no legado que o ressuscitado deixa para a sua Igreja: a paz, como dom e como missão. A paz é dom escatológico por excelência, a renovação da harmonia com Deus, o perdão (evangelho). Esta nova realidade vem no Espírito, o Espírito do batismo, o Espírito de Cristo. Não é fruto do mero esforço, nosso. É um do dado a todos os verdadeiros fieis, os que se confiam a Cristo e em Cristo se tornam homens novos; os que não são determinados por critérios biológicos e sociológicos, mas “nasceram de Deus”. De modo especial, a liturgia de hoje se dirige aos recém-nascidos filhos de Deus. A esta novidade podemos dedicar uma consideração comunitária e histórica, como é sugerido especialmente pelas duas primeiras leituras. A comunidade cristã aparece, no mundo, como um mundo novo, escatológico. As pessoas aderem a ela para “serem salvas”. No Apocalipse, Cristo aparece como o Senhor da História. Este Senhor da História foi morto. Sua morte aconteceu por causa de sua total solidariedade com a história humana, na qual ele se integrou, numa práxis autêntica, conscientizadora e libertadora, procurando restituir ao homem seu Deus, e a Deus, sua Lei e seu povo. Sua prática em prol da vida o levou ao testemunho radical da morte. Ora, se este Senhor, que por nós e conosco enfrentou a rejeição e finalmente a morte, agora vive, então, a História, que ele assumiu, vive com ele. No Cristo pascal revive a História humana para uma vida nova, totalmente diferente, vencedora do antigo pecado, que em Cristo foi crucificado. Uma História que já pertence à não-História, ao fim dos tempos. Pois, “ele”é o primeiro dos homens, realizando a vocação original da humanidade, ou seja, a completa filiação divina; mas nisso ele é também o último, a plenitude. Essa novidade da História humana deve transparecer na comunidade dos renovados pelo batismo. A renovação pascal não é apenas uma revigoração interior, nem apenas um retomar de algumas boas práticas e um provisório discernir de alguns vícios. Temos de compor uma peça nova, tendo uma estrutura nova. E, mesmo se esta for a melhor, o fato de ser nova e melhor que a anterior será um sinal de escolhemos o lado daquele em quem nossa história antiga morreu, para ressuscitar na força de Deus.

 

Reze pelos sacerdotes e jamais lhe faltará Jesus Eucarístico
Padre José Augusto

Jesus está dizendo no Evangelho de hoje: “Disse-lhes outra vez: A paz esteja convosco! Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio a vós. Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (Evangelho de João 20, 21-23). Muitos se confessaram nesses dias. Alguém de vocês tiveram os pecados retidos pelos padres aqui? Não! Eles disseram a vocês: ‘Eu te absolvo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo’. Então os pecados de vocês estão perdoados. Eu quero que vocês, cada vez mais olhem para nós, sacerdotes, e confiem no ministério que Deus deu a todos nós. Vocês não podem olhar para os ministros do Altíssimo com olhar de desprezo e desconfiança. Se eles estão aqui, é porque o Senhor dos Senhores os enviou, e se o Altíssimo os enviou, nós devemos acolhê-los. E nós sacerdotes só precisamos de uma coisa: que vocês rezem por nós, porque nós é que vamos dar Jesus para vocês. Eu não sei qual é a concepção que vocês estão tendo dos padres ultimamente, mas quero dizer a vocês que nós também recebemos a graça da misericórdia, porque nós também somos pecadores, por isso nós [sacerdotes] estamos aqui e viemos também receber a graça da misericórdia. Rezem pela nossa perseverança e jamais irá faltar Jesus na vida de vocês. Isso sem falar dos outros sacramentos, mas falo agora do Sacramento da Eucaristia, porque o mundo só não entrou ainda no caos, porque ainda existe a Santa Missa e ela só acontece por causa dos ministros de nosso Senhor Jesus Cristo. Então, amem muito o sacerdote da paróquia de vocês, porque o inferno está furioso e o demônio está com raiva da Igreja Católica, mas eu estou tranqüilo porque ele jamais vai ser o vencedor. Outra coisa, diante de qualquer acontecimento fiquem em paz, porque nada pode levar vocês ao desespero. Jesus Cristo está vivo e ressuscitou de verdade, e hoje Ele os atraiu aqui e por isso estamos unidos na festa da Divina Misericórdia, aconteça o que acontecer diga: “Jesus eu confio em Vós.” “Nós sacerdotes viemos para também receber a Misericórdia de Deus” Diante das calamidades que acontecerem daqui pra frente, o fruto do dia de hoje é dizer: “Jesus eu confio em Vós”. Coloque tudo na Misericórdia do Senhor, porque Ele tem cuidado de vocês, porque Deus não esquece nenhum de seus filhos. Por isso Ele chamou os maiores pecadores para estar perto d’Ele. Hoje o Senhor trouxe cada um para dizer que perdoa os nossos pecados. É preciso apenas que você busque o sacerdote e se confesse. O Senhor que derrama a sua misericórdia também quer hoje derramar o seu Espírito Santo sobre nós. Só o Espírito Santo pode dar a certeza de todas as coisas e a paz no nosso coração. Diga comigo: ‘Ó vinde Espírito Criador, as nossas almas visitai e enchei os nossos corações com Vossos dons celestiais. Vós sois chamado o Intercessor, do Deus excelso o dom sem par, a fonte viva, o fogo, o amor, a unção divina e salutar. Sois doador dos sete dons, e Sois poder na Mão do Pai, por Ele prometido a nós, por nós Seus feitos proclamai. A nossa mente iluminai, os corações enchei de amor, nossa fraqueza encorajai, qual força eterna e protetor. Nosso inimigo repeli, e concedei-nos Vossa paz, se pela graça nos guiais, o mal deixamos para trás. Ao Pai e ao Filho Salvador, por Vós possamos conhecer, que procedeis do Seu amor, fazei-nos sempre firmes crer’ (oração: Veni Creator).

 

A página evangélica deste domingo convida-nos a viver com os apóstolos a primeira semana – trabalho e festa – vivida com a novidade trazida pela ressurreição de Jesus. É a primeira semana de uma nova existência. A ressurreição de Jesus nada mudou no ritmo normal da semana, nem transtornou o trabalho nem o repouso. A Páscoa do Senhor faz que tudo se viva de uma maneira nova. No meio da normalidade da vida, os discípulos disseram: “Vimos o Senhor”, porque tinham feito essa experiência e deixaram-se tocar por Ele, pelo dom do seu Espírito e da sua paz. A narração evangélica somente nos fala de dois domingos, do primeiro e do segundo. Durante a semana, além do encontro com Tomé, nada se escreve sobre algo que tenha sido importante. Neste encontro, encontramos de forma explícita uma maneira de viver e de transmitir a fé em Jesus Ressuscitado. Viver, conviver, partilhar a vida normal na família, no trabalho, etc; momentos, onde não há nenhuma transcendência aparente. Os discípulos estão reunidos no mesmo lugar. É uma maneira de dizer que são uma comunidade eclesial. O “domingo” – as duas aparições acontecem no domingo – também nos fala de Igreja: é o dia em que nos reunimos para fazer o mesmo: celebrar o Ressuscitado que está no meio de nós. O primeiro dos dois domingos tem uma característica que não tem o segundo: estão fechados com medo dos judeus (esta expressão não tem sentido étnico; refere-se aos dirigentes religiosos do povo). Razões para tal não lhes faltavam. O evangelista João já nos tinha narrado que os seguidores de Jesus tinham “medo dos judeus”, por exemplo, na cura do cego de nascença. Eram tempos difíceis. Mas tanto naquela ocasião como nesta, ter visto o Senhor faz mudar as coisas: o cego, quando O viu perdeu o medo; com os discípulos fechados passa-se o mesmo: no segundo domingo, não se fala de medo. O medo e a fé são, pois, opostos. Como é oportuno fazer um exame de consciência sobre o estado de saúde da fé da Igreja atual! Haverá sintomas de medo e de isolamento? Estaremos, talvez, a viver tempos difíceis que originam tantos obstáculos à nossa confissão de fé em Jesus Cristo! Além do exame de consciência coletivo, que bom seria fazer um exame de consciência pessoal: hoje, como professo a fé na minha vida? Ver o Senhor, anima-nos? Apesar dos discípulos estarem fechados, o Ressuscitado visita-os, toma a iniciativa e aparece no meio deles. É a partir daqui que devemos fazer a nossa reflexão pessoal e comunitária: a Igreja só será construída com o ânimo de Jesus. “Assim como o Pai Me enviou”. O discípulo é convidado a deixar-se modelar por Jesus, da mesma forma que ele se deixou modelar pelo Pai. O que define o discípulo de Jesus é a missão, ser “enviado”. Os seus discípulos e a Igreja serão definidos pela missão que Jesus lhes dá. A missão evangelizadora e o próprio Evangelho têm sentido com a bem – aventurança que o Ressuscitado proclama: “Felizes os que acreditam sem terem visto”. A finalidade da evangelização é fazer “felizes” os que não conhecem Jesus, conhecendo-O; que sejam “felizes” na fé. Neste encontro alegre dos discípulos com o Senhor, tanto no primeiro como no segundo, ocupa um lugar de destaque o mostrar as mãos e o lado, onde estão as marcas da morte na cruz. O Ressuscitado é o próprio Crucificado. A eucaristia é celebrar isto mesmo. Não celebramos uma coisa qualquer, sobretudo não nos celebramos a nós próprios; o que celebramos é a Páscoa do Senhor, porque deste acontecimento vem a fé que nos liberta. Estamos na Páscoa. Oito dias depois, a celebração eucarística deve ser solene, a igreja ornada de flores, a água benta pronta para o rito da aspersão (que substitui o ato penitencial). O rito da aspersão dá às nossas celebrações um “tom” pascal. Para preparar a homilia, o mais importante é contemplar a Palavra de Deus e depois contemplar a vida da comunidade e das pessoas que a formam. Só depois deste duplo exercício, é que poderemos atualizar a Palavra de Deus que nos é proposta nas leituras deste domingo.

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