Estas são as meditações da Via-Sacra 2019 que o Papa Francisco presidirá em Roma

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Vaticano, 18 Abr. 19 / 05:00 pm (ACI).- Ir. Eugenia Bonetti, missionária da Consolata, foi encarregada de escrever as meditações da Via-Sacra que o Papa Francisco presidirá na Sexta-feira Santa 2019, no Coliseu de Roma.

Segundo assinalou em declarações a EWTN e ao Grupo ACI, as meditações serão centradas no sofrimento das vítimas de tráfico de pessoas. Afirmou que Cristo continua morrendo “em nossas ruas e pede que nós mesmos sejamos samaritanos, pede que nós sejamos o Cirineu, que sejamos a Verônica, secarmos aquele rosto que tem lágrimas, suor, que está sujo pela rua, pela humilhação, e Ele nos pede para fazer isso hoje”.

A seguir, publicamos o texto completo das meditações que serão usadas na Via-Sacra que o Santo Padre presidirá em 19 de abril:

Introdução

Passaram-se já quarenta dias desde a imposição das cinzas, quando começamos o caminho da Quaresma. Hoje revivemos as últimas horas da vida terrena do Senhor Jesus até ao momento em que, suspenso na cruz, gritou o seu «consummatum est – tudo está consumado». Reunidos neste lugar, onde, no passado, milhares de pessoas sofreram o martírio por ter permanecido fiéis a Cristo, queremos agora percorrer este «caminho doloroso» juntamente com todos os pobres, com os excluídos da sociedade e os novos crucificados da história atual, vítimas dos nossos fechamentos, dos poderes e legislações, da cegueira e do egoísmo, mas, sobretudo do nosso coração endurecido pela indiferença. Esta é uma doença de que também nós cristãos sofremos. Possa a cruz de Cristo – instrumento de morte, mas também de vida nova que mantém unidos num abraço terra e céu, norte e sul, leste e oeste – iluminar a consciência dos cidadãos, da Igreja, dos legisladores e de quantos se professam seguidores de Cristo, para que a todos chegue a Boa Nova da redenção.

 

I Estação

Jesus é condenado à morte

«Nem todo o que Me diz: “Senhor, Senhor” entrará no Reino do Céu, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está no Céus» (Mt 7, 21)

Reflexão: Senhor, quem mais do que Maria, tua Mãe, soube ser teu discípulo? Ela aceitou a vontade do Pai, inclusive no momento mais escuro da sua vida, e, com o coração despedaçado, ficou ao teu lado. Aquela que Te gerou, trouxe no ventre, acolheu nos braços, nutriu com amor e acompanhou durante a tua vida terrena, não podia deixar de percorrer o mesmo caminho do Calvário e partilhar contigo o momento mais dramático e doloroso da tua e da sua existência.

Oração: Senhor, quantas mães vivem ainda hoje a experiência da tua Mãe e choram pela sorte das suas filhas e dos seus filhos! Quantas, depois de os ter gerado e dado à luz, veem-nos padecer e morrer por doença, por falta de comida, de água, de cuidados médicos e de oportunidades de vida e futuro! Pedimos-Te por aqueles que ocupam posições de responsabilidade para que escutem o grito dos pobres que, de todas as partes do mundo, se eleva para Ti: grito de todas aquelas vidas jovens, que de diferentes maneiras são condenadas à morte pela indiferença gerada por políticas excludentes e egoístas. Que não falte a nenhum dos teus filhos o trabalho e o necessário para uma vida honesta e digna.

Rezemos juntos, dizendo: «Senhor, ajuda-nos a fazer a tua vontade»

– Nos momentos de dificuldade e transtorno

– Nos momentos de sofrimento físico e moral

– Nos momentos de trevas e solidão.

 

II Estação

Jesus carrega a cruz

«Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz dia após dia e siga-Me» (Lc 9, 23)

Reflexão: Senhor Jesus é fácil trazer o crucifixo ao peito ou dependurá-lo como ornamento nas paredes das nossas belas catedrais ou de nossas casas, mas não é tão fácil encontrar e reconhecer os novos crucificados de hoje: os sem-abrigo, os jovens sem esperança, sem emprego nem perspectivas, os imigrantes obrigados a viver nas barracas à margem da nossa sociedade, depois de terem enfrentado tribulações inauditas. Infelizmente, estes acampamentos, sem segurança, são queimados e arrasados juntamente com os sonhos e as esperanças de milhares de mulheres e homens marginalizados, explorados, esquecidos. Além disso, quantas crianças são discriminadas por causa da sua proveniência, da cor da pele ou da sua condição social! Quantas mães sofrem a humilhação de ver os seus filhos ridicularizados e excluídos das oportunidades que têm os seus coetâneos e colegas de escola!

Oração: Agradecemos-Te, Senhor, porque, com a tua própria vida, nos deste exemplo de como se manifesta o amor verdadeiro e desinteressado pelo próximo, particularmente pelos inimigos ou, simplesmente, por quem não é como nós. Senhor Jesus, quantas vezes também nós, como teus discípulos, nos declaramos abertamente teus seguidores nos momentos em que realizavas curas e prodígios, quando davas de comer à multidão e perdoavas os pecados. Mas não foi tão fácil compreender-Te quando falavas de serviço e perdão, de renúncia e sofrimento. Ajuda-nos a saber como colocar sempre a nossa vida ao serviço dos outros.

Rezemos juntos, dizendo: «Senhor, ajuda-nos a esperar»

– Quando nos sentimos abandonados e sozinhos

– Quando é difícil seguir os teus passos

– Quando o serviço aos outros se torna difícil.

 

III Estação

Jesus cai pela primeira vez

«Tomou sobre Si as nossas doenças, carregou as nossas dores» (Is 53, 4)

Reflexão: Senhor Jesus, na estrada íngreme que leva ao Calvário, quiseste experimentar a fragilidade e fraqueza humanas. Que seria hoje a Igreja sem a presença e a generosidade de tantos voluntários, os novos samaritanos do terceiro milênio? Em noite fria de janeiro, numa estrada dos arredores de Roma, três africanas, pouco mais do que crianças, aninhadas no chão ao redor dum braseiro aqueciam o seu corpo jovem seminu. Alguns rapazolas que passavam de carro, para se divertir lançaram material inflamável no fogo, queimando-as gravemente. Naquele mesmo momento, passou uma das muitas unidades de voluntários de rua que as socorreram, levando-as ao hospital e acabando depois por alojá-las numa casa-família. Quanto tempo foi e ainda será necessário para que aquelas meninas se curem não apenas das queimaduras nos membros, mas também da tristeza e humilhação de se encontrar com um corpo mutilado e desfigurado para sempre?

Oração: Senhor, agradecemos-Te pela presença de tantos novos samaritanos do terceiro milênio que ainda hoje vivem a experiência do caminho, inclinando-se com amor e compaixão sobre as inúmeras feridas físicas e morais de quem vive, cada noite, o medo e o pavor das trevas, da solidão e da indiferença. Senhor, infelizmente muitas vezes hoje já não sabemos individuar quem passa necessidade, ver quem está ferido e humilhado. Muitas vezes reivindicamos os nossos direitos e interesses, mas esquecemos os dos pobres e dos últimos da fila. Senhor, concede-nos a graça de não ficar insensíveis às suas lágrimas, aos seus sofrimentos, ao seu grito de dor, porque, através deles, podemos encontrar-Te.

Rezemos juntos, dizendo: «Senhor, ajuda-nos a amar»

– Quando cansa ser samaritano

– Quando nos custa perdoar

– Quando não queremos ver o sofrimento dos outros.

 

IV Estação

Jesus encontra Maria, sua Mãe

«Uma espada trespassará a tua alma. Assim hão de revelar-se os pensamentos de muitos corações» (Lc 2, 35)

Reflexão: Maria, o velho Simeão predissera-Te, quando foste ao templo para apresentares Jesus menino e para o rito da purificação, que uma espada trespassaria o teu coração. Agora é o momento de renovar o teu fiat, a tua adesão ao querer do Pai, mesmo se o acompanhamento dum filho ao patíbulo, tratado como malfeitor, provoca uma dor lancinante. Senhor, tem piedade de tantas, demasiadas mães que deixaram partir as suas jovens filhas para a Europa na esperança de ajudar a sua família em pobreza extrema, mas encontraram humilhações, desprezo e, às vezes, até a morte. Como a jovem Tina barbaramente assassinada na estrada quando tinha apenas vinte anos, deixando uma bebé de poucos meses.

Oração: Maria, neste momento, Tu vives o mesmo drama de tantas mães que sofrem pelos seus filhos que partiram para outros países na esperança de encontrar oportunidades para um futuro melhor para eles e suas famílias, mas, infelizmente, o que encontram é humilhação, desprezo, violência, indiferença, solidão e até a morte. Dá-lhes força e coragem.

Rezemos juntos, dizendo: «Senhor, faz que saibamos sempre dar apoio e conforto e estar presente para oferecer ajuda»

– Às mães que choram a sorte dos seus filhos

– A quem, na vida, perdeu toda a esperança

– A quem, todos os dias, sofre violência e desprezo.

 

V Estação

O Cireneu ajuda Jesus a levar a cruz

«Carregai as cargas uns dos outros e assim cumprireis plenamente a lei de Cristo» (Gal 6, 2)

Reflexão: Senhor Jesus, a caminho do Calvário, sentiste forte o peso e a fadiga de carregar aquela tosca cruz de madeira. Em vão, esperaste pelo gesto de ajuda vindo dum amigo, dum dos teus discípulos, duma das inúmeras pessoas cujos sofrimentos aliviaste. Só um desconhecido, Simão de Cirene, e por constrição Te deu uma mão. Onde estão hoje os novos cireneus do terceiro milênio? Onde os encontramos? Quero recordar a experiência dum grupo de religiosas de diferentes nacionalidades, proveniências e congregações com as quais todos os sábados, há mais de dezessete anos, visitamos em Roma um Centro para mulheres imigradas sem documentos: mulheres, frequentemente jovens, à espera de conhecer o seu destino, oscilando entre expulsão e possibilidade de permanecer. Nestas mulheres, quanto sofrimento encontramos, mas também quanta alegria ao depararem-se com religiosas originárias dos seus países, que falam a sua língua, limpam as suas lágrimas, compartilham momentos de oração e de festa, tornam menos duros os longos meses passados por detrás de barras de ferro e no asfalto de cimento!

Oração: Por todos os cireneus da nossa história, para que jamais esmoreça neles o desejo de Te acolher sob a fisionomia dos últimos da terra, cientes de que, ao acolher os últimos da nossa sociedade, Te acolhemos a Ti. Que estes samaritanos sejam porta-voz de quem não tem voz.

Rezemos juntos, dizendo: «Senhor, ajuda-nos a levar a nossa cruz»

– Quando estamos cansados e desanimados

– Quando sentimos o peso das nossas fraquezas

– Quando nos pedes para compartilhar os sofrimentos dos outros.

 

VI Estação

A Verônica limpa o rosto de Jesus

«Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40)

Reflexão: Pensemos nas crianças que, em tantas partes do mundo, não podem ir à escola, mas são exploradas nas minas, nos campos, na pesca, vendidas e compradas – por traficantes de carne humana – para transplante de órgãos, e também usadas e exploradas nas nossas estradas por muitos, inclusive cristãos, que perderam o sentido da sacralidade própria e alheia. Como aquela menor de corpinho frágil, encontrada uma noite em Roma, com uma fila de homens a bordo de carros luxuosos para dela se aproveitarem. E, no entanto, poderia ter a idade das suas filhas… Que grande desequilíbrio pode criar esta violência na vida de tantas jovens que sentem apenas o abuso, a arrogância e a indiferença de quem, de noite e de dia, as procura, usa, explora, para depois as jogar de novo na estrada como presa do próximo mercante de vidas!

Oração: Senhor Jesus, limpa os nossos olhos, para sabermos descobrir o teu rosto nos nossos irmãos e irmãs, especialmente em todas aquelas crianças que, em tantas partes do mundo, vivem na indigência e na miséria. Crianças privadas do direito a uma infância feliz, a uma educação escolar, à inocência. Criaturas usadas como mercadoria de pouco valor, vendidas e compradas à vontade do freguês. Senhor, pedimos-Te que tenhas piedade e compaixão deste mundo doente e nos ajudes a redescobrir a beleza da dignidade, nossa e alheia, de seres humanos criados à tua imagem e semelhança.

Rezemos juntos, dizendo: «Senhor, ajuda-nos a ver»

– O rosto das crianças inocentes que pedem ajuda

– As injustiças sociais

– A dignidade que cada pessoa encerra em si e é espezinhada.

 

VII Estação

Jesus cai pela segunda vez

«Ao ser insultado, não respondia com insultos, (…) mas entregava-Se Àquele que julga com justiça» (1Pd 2, 23)

Reflexão: Quantas vinganças no nosso tempo! A sociedade atual perdeu a noção do grande valor do perdão, dom por excelência, remédio para as feridas, fundamento da paz e da convivência humana. Numa sociedade onde o perdão é visto como fraqueza, Tu, Senhor, pedes-nos para não nos determos na aparência. E não o fazes com as palavras, mas sim com o exemplo. Tu, a quem Te maltrata, respondes «por que Me persegues?», bem sabendo que a verdadeira justiça nunca se pode basear no ódio e na vingança. Torna-nos capazes de pedir e dar perdão.

Oração: «Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem» (Lc 23, 34). Também Tu, Senhor, sentiste o peso da condenação, da rejeição, do abandono, do sofrimento infligido por pessoas que Te tinham encontrado, acolhido e seguido. Foi na certeza de que o Pai não Te havia abandonado que encontraste a força para aceitar a sua vontade, perdoando, amando e oferecendo esperança a quem, como Tu, hoje caminha pela mesma estrada da zombaria, do desprezo, do escárnio, do abandono, da traição e da solidão.

Rezemos juntos, dizendo: «Senhor, ajuda-nos a dar conforto»

– A quem se sente ofendido e insultado

– A quem se sente traído e humilhado

– A quem se sente julgado e condenado.

 

VIII Estação

Jesus encontra as mulheres

«Filhas de Jerusalém, não choreis por Mim, chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos» (Lc 23, 28)

Reflexão: A situação social, econômica e política dos migrantes e das vítimas do tráfico de seres humanos interpela-nos e mexe conosco. Devemos ter a coragem – como afirma vigorosamente o Papa Francisco – de denunciar como crime contra a humanidade o tráfico de seres humanos. Todos nós, especialmente os cristãos, devemos crescer na consciência de que somos todos responsáveis pelo problema e todos podemos e devemos ser parte da solução. A todos, mas, sobretudo a nós mulheres, é pedida a coragem do desafio. A coragem de saber ver e agir, individualmente e como comunidade. Só juntando as nossas pobrezas é que estas poderão tornar-se uma grande riqueza, capaz de mudar a mentalidade e aliviar os sofrimentos da humanidade. O pobre, o estrangeiro, o diferente não deve ser visto como um inimigo a rejeitar ou a combater, mas sim como um irmão ou uma irmã a acolher e ajudar. Não são um problema, mas um recurso precioso para as nossas cidadelas blindadas, onde o bem-estar e o consumo não aliviam o crescente cansaço e fadiga.

Oração: Senhor, ensina-nos a possuir o teu olhar; aquele olhar de acolhimento e misericórdia, com que vês os nossos limites e os nossos medos. Ajuda-nos a ver assim as divergências de ideias, costumes e perspectivas. Ajuda a reconhecermo-nos como parte da mesma humanidade e a fazermo-nos promotores de novos e ousados caminhos de acolhimento da pessoa diferente, para juntos criarmos comunidade, família, paróquia e sociedade civil.

Rezemos juntos, dizendo: «Ajuda-nos a compartilhar o sofrimento alheio»

– Com quem sofre pela morte de entes queridos

– Com quem sente dificuldade em pedir ajuda e conforto

– Com quem experimentou abusos e violências.

 

IX Estação

Jesus cai pela terceira vez

«Foi maltratado, mas humilhou-Se e não abriu a boca, como um cordeiro que é levado ao matadouro» (Is 53, 7)

Reflexão: Senhor, pela terceira vez, caíste, exausto e humilhado, sob o peso da cruz. Precisamente como tantas moças, forçadas à vida de estrada por grupos de traficantes de escravos, as quais não aguentam a fadiga e a humilhação de ver o seu corpo jovem manipulado, abusado, destruído, juntamente com os seus sonhos. Aquelas jovens mulheres sentem-se como que desdobradas: por um lado procuradas e usadas, por outro rejeitadas e condenadas por uma sociedade que se recusa a ver este tipo de exploração, causado pela afirmação da cultura do usa e joga fora. Numa das muitas noites passadas pelas estradas de Roma, eu procurava uma jovem que acabava de chegar à Itália. Não a vendo no seu grupo, chamava-a insistentemente pelo nome: «Mercy». Na escuridão, vislumbrei-a aninhada e adormecida na beira da estrada. À minha chamada, acordou e disse-me que não aguentava mais. «Estou exausta»: repetia. Pensei na sua mãe: se soubesse o que aconteceu à filha, secavam-lhe as lágrimas.

Oração: Senhor, quantas vezes nos fizeste esta pergunta incômoda: «Onde está o teu irmão? Onde está a tua irmã?» Quantas vezes nos lembraste que o seu grito lancinante tinha chegado a Ti! Ajuda-nos a compartilhar o sofrimento e a humilhação de tantas pessoas tratadas como desperdício. É demasiado fácil condenar seres humanos e situações de mal-estar que humilham a nossa falsa modéstia, mas não é tão fácil assumirmos as nossas responsabilidades como indivíduos, governos e também comunidades cristãs.

Rezemos juntos, dizendo: «Senhor, dá-nos força e coragem para denunciar»

– À vista da exploração e da humilhação vivida por tantos jovens

– À vista da indiferença e do silêncio de muitos cristãos

– À vista de leis injustas carentes de humanidade e solidariedade.

 

X Estação

Jesus é despojado das suas vestes

«Revesti-vos, pois, de sentimentos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência» (Col 3, 12)

Reflexão: Dinheiro, bem-estar, poder. São os ídolos de todos os tempos. Também e sobretudo do nosso, que se vangloria de passos enormes dados no reconhecimento dos direitos da pessoa. Tudo é adquirível, inclusive o corpo dos menores, depredados da sua dignidade e do seu futuro. Esquecemos a centralidade do ser humano, a sua dignidade, beleza, força. Enquanto no mundo se vão levantando muros e barreiras, queremos recordar e agradecer àqueles que nestes últimos meses, com funções diferentes, arriscaram a própria vida, especialmente no mar Mediterrâneo, para salvar a vida de tantas famílias à procura de segurança e oportunidades. Seres humanos, em fuga de pobreza, ditaduras, corrupção, escravidão.

Oração: Ajuda-nos, Senhor, a redescobrir a beleza e a riqueza que cada pessoa e cada povo encerram em si mesmos como um presente teu, único e irrepetível, para ser colocado ao serviço de toda a sociedade e não para servir interesses pessoais. Pedimos-Te, Jesus, que o teu exemplo e o teu ensinamento de misericórdia e perdão, de humildade e paciência nos tornem um pouco mais humanos e, consequentemente, mais cristãos.

Rezemos juntos, dizendo: «Senhor, dá-nos um coração cheio de misericórdia»

– Perante a avidez do prazer, do poder e do dinheiro

– Perante as injustiças infligidas aos pobres e aos mais frágeis

– Perante a miragem de interesses pessoais.

 

XI Estação

Jesus é pregado na cruz

«Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem» (Lc 23, 34)

Reflexão: A nossa sociedade proclama a igualdade em direitos e dignidade de todos os seres humanos. Mas pratica e tolera a desigualdade. Aceita até as suas formas mais extremas. Homens, mulheres e crianças são comprados e vendidos como escravos pelos novos mercantes de seres humanos. Depois, as vítimas deste tráfico são exploradas por outros indivíduos. E por fim jogadas fora, como mercadoria sem valor. Quantos enriquecem devorando a carne e o sangue dos pobres!

Oração: Senhor, quantas pessoas acabam ainda hoje pregadas numa cruz, vítimas duma exploração desumana, privadas da dignidade, da liberdade, do futuro. O seu grito de ajuda interpela-nos como homens e mulheres, como governos, como sociedade e como Igreja. Como é possível continuarmos a crucificar-Te, tornando-nos cúmplices do tráfico de seres humanos? Dá-nos olhos para ver e um coração para sentir os sofrimentos de tantas pessoas que ainda hoje são pregadas na cruz pelos nossos sistemas de vida e consumo.

Rezemos juntos, dizendo: «Senhor, piedade»

– Pelos novos crucificados de hoje, espalhados por toda a terra

– Pelos poderosos e legisladores da nossa sociedade

– Por quem não sabe perdoar nem sabe amar.

 

XII Estação

Jesus morre na cruz

«Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?» (Mc 15, 34)

Reflexão: Também Tu, Senhor, sentiste na cruz o peso da zombaria, do escárnio, dos insultos, das violências, do abandono, da indiferença. Apenas Maria, tua Mãe, e poucas mais discípulas permaneceram lá, testemunhas do teu sofrimento e da tua morte. Que o seu exemplo nos inspire a comprometer-nos para não deixar sentir a solidão a quantos agonizam hoje nos inúmeros calvários espalhados pelo mundo, incluindo os campos de arrecadação que parecem «lágueres» nos países de trânsito, os navios a que é recusado um porto seguro, as longas negociações burocráticas para o destino final, os centros de permanência, os pontos de acesso, os campos para trabalhadores sazonais.

Oração: Nós Te pedimos, Senhor: ajuda a aproximar-nos dos novos crucificados e desesperados do nosso tempo. Ensina-nos a limpar as suas lágrimas, a confortá-los como souberam fazer Maria e as outras mulheres ao pé da tua cruz.

Rezemos juntos, dizendo: «Senhor, ajuda-nos a dar a nossa vida»

– A quantos sofreram injustiças, ódio e vingança

– A quantos foram injustamente caluniados e condenados

– A quantos se sentem sozinhos, abandonados e humilhados.

 

XIII Estação

Jesus é descido da cruz

«Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto» (Jo 12, 24)

Reflexão: Quem se lembra, nesta época de notícias depressa arquivadas, daquelas vinte e seis jovens nigerianas engolidas pelas ondas, cujos funerais foram celebrados em Salerno? Foi duro e longo o seu calvário. Primeiro, a travessia do deserto do Saara, empilhadas em transportes improvisados. Depois, a paragem forçada nos espaventosos centros de arrecadação na Líbia. Por fim, o salto para o mar, onde encontraram a morte às portas da «terra prometida». Duas delas traziam no ventre o dom duma nova vida, bebés que nunca verão a luz do sol. Mas a sua morte, como a de Jesus descido da cruz, não foi em vão. Todas estas vidas, confiamo-las à misericórdia do Pai nosso e de todos, mas sobretudo Pai dos pobres, dos desesperados e dos humilhados.

Oração: Senhor, nesta hora, ouvimos ressoar mais uma vez o grito que o Papa Francisco elevou de Lampedusa, meta da sua primeira viagem apostólica: «Quem chorou?» E agora, depois de naufrágios sem fim, continuamos a gritar: «Quem chorou?» Quem chorou?: perguntamo-nos diante daqueles vinte e seis caixões alinhados e encimados por uma rosa branca. Apenas cinco delas foram identificadas. Com ou sem nome, todas elas, porém, são nossas filhas e irmãs. Todas merecem respeito e memória. Todas nos pedem para nos sentirmos responsáveis: instituições, autoridades e nós também, com o nosso silêncio e a nossa indiferença.

Rezemos juntos, dizendo: «Senhor, ajuda-nos a compartilhar o pranto»

– Perante os sofrimentos alheios

– Perante todos os caixões sem nome

– Perante o choro de tantas mães.

 

XIV Estação

Jesus é depositado no sepulcro

«Tudo está consumado» (Jo 19, 30).

Reflexão: O deserto e os mares tornaram-se os novos cemitérios de hoje. Perante estas mortes, não há respostas. Mas há responsabilidades. Irmãos que deixam morrer outros irmãos. Homens, mulheres, crianças que não pudemos ou não quisemos salvar. Enquanto os governos discutem, fechados nos palácios do poder, o Saara enche-se de esqueletos de pessoas que não resistiram à fadiga, à fome, à sede. Quanta dor custam os novos êxodos! Quanta crueldade que se encarniça sobre quem foge: as viagens do desespero, as extorsões e as violências, o mar transformado em túmulo de água!

Oração: Senhor, faz-nos entender que somos todos filhos do mesmo Pai. Possa a morte do teu Filho Jesus dar aos chefes das nações e aos responsáveis pela legislação a consciência do seu papel na defesa de toda a pessoa criada à tua imagem e semelhança.

 

Conclusão

Queremos lembrar a história da pequenina Favour, de nove meses, que deixou a Nigéria juntamente com seus jovens pais à procura dum futuro melhor na Europa. Durante a longa e perigosa viagem no Mediterrâneo, a mãe e o pai foram mortos juntamente com centenas de outras pessoas que se haviam confiado a traficantes sem escrúpulos para poder chegar à «terra prometida». Só Favour sobreviveu; como Moisés, também ela foi salva das águas. Que a sua vida se torne luz de esperança no caminho rumo a uma humanidade mais fraterna!

Oração: No final da tua Via-Sacra, pedimos-Te, Senhor, que nos ensines a permanecer vigilantes, juntamente com a tua Mãe e as mulheres que Te acompanharam no Calvário, à espera da tua ressurreição. Que esta seja farol de esperança, alegria, vida nova, fraternidade, acolhimento e comunhão entre os povos, as religiões e as leis, para que cada filho e filha do homem sejam verdadeiramente reconhecidos na sua dignidade de filho e filha de Deus e nunca mais sejam tratados como escravos!

 

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