V Domingo do Tempo Comum – Ano C

Por Pe. Fernando José Cardoso

Evangelho segundo São Lucas 5, 1-11
Encontrando-se junto do lago de Genesaré, e comprimindo-se à volta dele a multidão para escutar a palavra de Deus, Jesus viu dois barcos que se encontravam junto do lago. Os pescadores tinham descido deles e lavavam as redes. Entrou num dos barcos, que era de Simão, pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra e, sentando-se, dali se pôs a ensinar a multidão. Quando acabou de falar, disse a Simão: «Faz-te ao largo; e vós, lançai as redes para a pesca.» Simão respondeu: «Mestre, trabalhamos durante toda a noite e nada apanhamos; mas, porque Tu o dizes, lançarei as redes.» Assim fizeram e apanharam uma grande quantidade de peixe. As redes estavam a romper-se, e eles fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco, para que os viessem ajudar. Vieram e encheram os dois barcos, a ponto de se irem afundando. Ao ver isto, Simão Pedro caiu aos pés de Jesus, dizendo: «Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador.» Ele e todos os que com ele estavam encheram-se de espanto por causa da pesca que tinham feito; o mesmo acontecera a Tiago e a João, filhos de Zebedeu e companheiros de Simão. Jesus disse a Simão: «Não tenhas receio; de futuro, serás pescador de homens.» E, depois de terem reconduzido os barcos para terra, deixaram tudo e seguiram Jesus.

No quinto domingo do tempo comum, Lucas mostra-nos Jesus, até então sozinho anunciando o reino de Deus, chamando os primeiros companheiros. Notem a grandeza e a majestade de Jesus. Ao mesmo tempo sua simplicidade. O povo se acotovelava na praia para ouvir a Palavra de Deus. Jesus toma distância desta multidão entrando numa barca que era de Simão e anuncia-lhes a Palavra de Deus. Esta é a primeira cena. Diante dela podemos realizar uma primeira meditação. Aquele povo sedento da Palavra de Deus, que tinha a felicidade de ouvir do próprio Jesus, estava feliz e satisfeito. Mas não temos que invejar aquele povo. Também possuímos a mesma Palavra de Jesus. A única diferença entre nós e aquela gente da Galiléia é que eles viam um Homem, Jesus de Nazaré. Recebemos a mesma Palavra provinda do Cristo glorificado, invisível aos nossos olhos na glória pascal do céu, através do seu Espírito Santo. Mas esta Palavra hoje na Igreja ressoa de maneira até mais intensa do que quando Jesus estava aqui presente terrestremente. Agora, Ele nos fala do alto da glória do auge da sua autoridade e com o poder do Espírito Santo. Ao terminar aquela pregação diz a Simão que leve a barca para as águas mais profundas do lago e lance as redes para a pesca. Depois da tentativa infrutífera da noite anterior, Simão e os seus companheiros conseguem juntar uma quantidade enorme de peixes. Nesta quantidade de peixes que entram na barca de Simão, mais uma vez nós nos reconhecemos. Cada um de nós é um peixinho que foi apanhado em alto mar pela rede, não mortífera, mas salvífica dos pregadores, dos missionários, dos sacerdotes de Jesus arrancado das profundezas das águas tenebrosas e trazido para a Igreja onde crescemos, onde amadurecemos, onde podemos nos imbuir sempre mais de Jesus. Este Evangelho se presta muito à contemplação. Se você se sente como um peixinho apanhado pelos apóstolos e missionários de Jesus, se você já se sente na barca de Pedro e de seus sucessores que é a Igreja, louve e bendiga a Deus pela luz de sua fé, pelo dom inestimável que lhe fez arrancando das trevas e trazendo para o reino de seu Filho Amado. Lembre-se de muitos outros peixes que ainda navegam ou giram ou nadam em alto mar, desorientados e esperando, quem sabe, alguém que os oriente para a barca de Pedro que se encaminha através da história, apesar das tempestades, para o céu.

 

«Recebestes gratuitamente, dai gratuitamente» (Mt 10, 8)
São Josemaria Escrivá de Balaguer (1902-1975), presbítero, fundador
Homilia in Amigos de Dios

Quando Jesus saiu para o mar com os Seus discípulos, não pensava somente nessa pescaria. Foi por isso […] que respondeu a Pedro: «Não tenhas receio; de hoje em diante serás pescador de homens». E também nessa nova pesca a eficácia divina não faltará: os apóstolos serão instrumentos de grandes prodígios, apesar das suas misérias pessoais. Também nós, se lutarmos todos os dias para alcançar a santidade na nossa vida normal, cada um na sua própria condição no meio do mundo e no exercício da sua profissão, ouso afirmar que o Senhor fará de nós instrumentos capazes de realizar milagres e, se for necessário, dos mais extraordinários. Daremos luz aos cegos. Quem não poderá narrar mil exemplos de cegos quase de nascença que recuperam a visão e recebem todo o esplendor da luz de Cristo? Outro era surdo e outro ainda mudo, que não podiam ouvir nem articular uma única palavra enquanto filhos de Deus […]: e ouvem e exprimem-se como verdadeiros homens […]. «Em nome de Jesus», os apóstolos restituem as forças a um enfermo incapaz de qualquer acção útil […]: «Em nome do Senhor levanta-te e caminha!» (At 3, 6). Outro ainda, um morto, ouviu a voz de Deus como quando do milagre da viúva de Naim: «Jovem, ordeno-te que te levantes» (Lc 7, 14; At 9, 40). Faremos milagres como Cristo, milagres como os primeiros apóstolos. Estes prodígios realizaram-se talvez em ti, em mim: talvez estivéssemos cegos, ou surdos, ou enfermos, ou sentíssemos a morte, quando a Palavra de Deus nos arrancou à nossa prostração. Se amamos a Cristo, se O seguimos, se é apenas a Ele que procuramos e não a nós mesmos, em Seu nome poderemos transmitir gratuitamente o que recebemos gratuitamente.

 

Vocação: pescadores de homens
Cf. B. CABALLERO. A Palavra de cada dia. Paulus: 2000.

Uma história de pesca e pregação, eis o evangelho de hoje. Fala primeiro da pregação, depois da pesca, e finalmente une os dois numa síntese um pouco inesperada. Jesus adapta-se ao cenário local. No meio dos pescadores, seu púlpito deve ser um barco de pesca, provavelmente do mais dinâmico entre os pescadores de Cafarnaum, um certo Simão. Ao terminar, Jesus lhe devolve o barco: “Agora podes pescar” (Lc 5, 4). Pedro pode ter pensado que de pesca Jesus pouco entendia – não era tempo bom: passaram a noite sem nada apanhar. Mas a autoridade de Jesus se impõe. “Porque tu o dizes, lançarei mais uma vez as redes”. Surpreendentemente, a pescaria deu um resultado digno de qualquer reunião de pescadores. As redes começando a se romper, tiveram de chamar outro barco para recolher a quantidade de peixes que apanharam. A partir daí, muda o tom da narração. Simão reconhece uma presença misteriosa. Como Isaías, ao sentir quase palpavelmente a presença de Deus no santuário (primeira leitura), assim também Simão se sente invadido por um sentimento de pequenez, impureza e indignidade diante do Mistério que ele vislumbra. “Afasta-te de mim, Senhor, eu sou um homem impuro”. Não mais impuro do que qualquer outro, mas diante de Deus todo ser humano é impuro. A reação de Jesus é diferente da de Deus em Isaías na primeira leitura. Não manda um anjo com uma brasa para purificar Simão, mas diz, com toda a simplicidade: “Não temas”. Ora, como em Isaías, aqui também a presença de Deus se faz sentir com determinada intenção, a vocação: “A partir de agora serás pescador de homens.” E, assim como Isaías respondeu: “Eis-me aqui, envia-me”, Simão se dispõe a assumir sua vocação, abandonando seu barco e seguindo Jesus, com João e Tiago, os filhos de Zebedeu. Podemos ver, nesta narrativa, como são entrelaçados a vocação divina e os fundamentos humanos da mesma. Isaías é homem do templo: é lá que Deus o agarra. Simão é homem da pesca; é lá que Jesus o apanha. A vocação encarna-se na situação vital de cada um, porém, o arrasta daí para o caminho que Deus projetou. Dialética dos pressupostos humanos e da irrupção divina. Utiliza primeiro a situação da gente, o barco; depois, urge abandonar esse barco para engajar-se num caminho do qual não se conhecem as surpresas. Mas, no entremeio, há um sinal: a pesca. Ao entrar no mar para mais uma vez lançar as redes, Simão não sabia o que aconteceria. A confiança em Jesus nas coisas do dia-a-dia nos prepara para assumir a vocação do desconhecido. Também Paulo viveu irrupção de Deus em sua história: o Cristo glorioso, que lhe apareceu no caminho de Damasco, revolucionou sua vida. Esta é a resposta que Paulo dá aos coríntios que questionam a ressurreição de Cristo e dos mortos em geral, pois toda a sua vida está baseada na experiência de que Cristo ressuscitou (segunda leitura). Porém, não é apenas sua experiência pessoal; é a fé comum dos Apóstolos, a “tradição” que também ele recebeu: que Jesus foi morto por nossos pecados, cumprindo a Escritura, e foi sepultado; que ele foi ressuscitado no terceiro dia, cumprindo as Escrituras, e manifestado aos discípulos. Só depois desta referência à fé da comunidade, Paulo invoca o testemunho de sua própria experiência, equivalente à dos outros, embora ele fosse um perseguidor da Igreja. Experiência cujo efeito está presente aos olhos dos coríntios na própria figura do apóstolo. No texto que se segue ao de hoje, Paulo afirma que toda a sua e também a nossa vida seria um lamentável absurdo, se não existisse a ressurreição – de Cristo e de todos nós. Este tema é, evidentemente, um tema a parte, mas tem em comum com o do evangelho a transformação que a vocação, ou melhor, o encontro com Cristo opera na vida de cada um. Vocação transformadora, não só da gente, mas também do mundo em que a gente vive.

 

Suas fraquezas não são obstáculos para Deus
Padre Gleuson Gomes

Eu fiquei surpreendido quando me deparei com o Evangelho de Hoje, o encontro de Jesus com Pedro, ainda chamado Simão, ali com suas redes, com seu barco de pesca, com sua história a ser completamente refeita por aquele encontro. Acredito que hoje todas as leituras nos ajudam a compreender o mistério deste encontro. A primeira leitura que mostra a grandeza de Deus, diante de um coração perdoado, é o testemunho de Paulo que se diz um abortivo, e que completamente transformado, de um perseguidor para um pregador, e o evangelho que nos mostra também o encontro de Pedro com o homem que iria mudar a sua vida. Uma barca que antes servia apenas para pegar tantos peixes, e que agora vai se transformar em uma barca para pescar muitos corações e muitas vidas, é misterioso este dialogo, Jesus vai roubar seu coração, tomar para si a sua vida, pois a fraquezas de Pedro não são obstáculos para Deus, as suas fraquezas não são obstáculos para Deus. Jesus pede a barca de Pedro emprestada, e fala ao coração de uma grande multidão, e Pedro estava ali cansado, frustrado e decepcionado, o estado do coração de Pedro propõe para nos o que vivemos tantas vezes diante das tentativas desta vida, nosso desejo de acertar, de ver os frutos do nosso trabalho, somos frustrados, desgastados pela vida, abatidos. E parece que exatamente nestes momentos em que estamos triturados, destruídos, cansados, desacreditados, e é exatamente nestes momentos que Deus usa para falar ao nosso coração e nossa vida da aquela ‘reviravolta’. Jesus olhou nos olhos de Simão Pedro, e o coração de Pedro foi mexido ali, algo tocou o coração de Pedro, Jesus começou o dialogo e aparentemente falou algo para Pedro que para um pescador era uma ousadia, pois Jesus era filho de um carpinteiro e provavelmente não entendia nada de pescaria e disse a Pedro: “Lança as redes”.
Você pode imaginar o que isto significava no coração de Pedro, depois de uma noite inteira de tentativas frustradas, cheio de cansaço e vem o profeta, e diz lança a redes, imagina aqueles dias que não dormimos direito, estamos cansados, estamos triturados por um dia difícil e vem alguém e põe o dedo na ferida da gente. Jesus na verdade queria dizer: ‘Abre mão da sua experiência de pesca, abre mão das suas lógicas, por que eu vou te ensinar um outra tipo de pesca, abre mão da sua forma de ver e pensar as coisas, pois eu vou te abrir um novo mar’. Imagina o sofrimento para abrir mão das nossas lógicas e perceber que Deus nos dá uma nova direção, isto é lindo. Olha o quanto nos não queremos ouvir o que Deus tem falado ao nosso coração, tem gente que não quer abrir mão das suas lógicas, que não quer se desvencilhar da história não curada. Abra os olhos para este novo mar, nada te prenda, nada te aprisione, seja livre no Espírito Santo. Nos não precisamos crendices, de amuletos, de horóscopo, nem de simpatias, a nossa sorte, o nosso destino esta nas mãos de Deus, só o Senhor é dono da nossa historia. Que nada nos impeça de enxergar a Graça que esta em Cristo Jesus, seja uma pessoa livre, nada de magoa, nada de ressentimento, você foi a confissão e Deus te tocou, Deus afundou no mar, os seus pecados, um mar de graça vai se abrir diante de você, abra os teus olhos, abre o teu coração. Pedro melhor do que ninguém sabia que o ‘mar não estava pra peixe’ mas Pedro lançou as redes, e seus olhos contemplaram as redes que voltaram abarrotadas de peixes, então Pedro começou a pensar: ‘Quem é este, que pode fazer uma pesca tão frutuosa? Que conhece este mar mais do que eu? Que pode ver meu coração? Quem é este?’, deve ter pensado Pedro. Jesus podia se afastar de Pedro, podia o rejeitar, mas Jesus diz a Pedro: “vinde após mim, e eu farei de vós pescador de homens.” Mesmo que você tenha vindo da bebida, vindo das drogas, de uma história de podridão, de sujeira mesmo, Cristo continua te dizendo: “Eu te farei pescador de homens”. Toda a vez que venho a Canção Nova eu me surpreendo com tudo que Deus fez aqui nesta obra, e como é bom participar e então vemos o que é o poder de Deus quando alguém se coloca humilde, e se coloca a disposição da Graça de Deus, e ai vemos o local de benção e de salvação que é a Canção Nova. Imagina o que Deus ia fazer com a vida de Pedro, e ele não imaginava, não era mais uma pesca, mas era o homem que iria mudar a sua vida, mudar a sua história, naquele lugar que em tantas vezes Pedro pescou, agora ele é pescado por Deus. Nada gere obstáculos para que você abrace a vontade de Deus. Se apaixona de novo, pede o Dom do Espírito Santo, para voltar ao primeiro amor, que hoje a Canção Nova seja a sua barca, que hoje você possa ser pescado por Deus nesta tarde reservada pra você, peça que Deus pesque o seu coração, e diga eu estou disposto, rompa definitivamente com as obras da carne, volta pra Deus e que nada seja obstáculo para Deus na sua vida.

 

Os textos da Liturgia da Palavra deste Domingo abordam um tema comum. O tema que tem como idéia mestra a Vocação ou o chamamento de Deus para uma missão especial, pessoal e intransmissível, no meio do seu Povo. Mas a vocação nunca pode ser algo de genérico, de abstrato, de meramente humano. Por isso, nas três leituras, temos três idéias – chave que nos ajudam a compreender toda a vocação: primeiro, há um Deus que se revela; segundo, esse Deus chama a pessoa e faz-lhe compreender o Seu chamamento; por fim, esse mesmo Deus, que se revela e chama, envia para uma missão concreta. A 1ª Leitura relata-nos a vocação de Isaías, que se encontra no Templo para  participar na Liturgia. De repente, sente-se envolto no mistério de uma teofania de Deus. A linguagem usada transporta-nos imediatamente para a transcendência de Deus: Ele é, por excelência, o “Santo, sentado em trono alto e elevado…”; o Forte, Senhor dos Exércitos, cercado de Glória! A esta divina luz, Isaías toma consciência das suas limitações e fragilidades de homem. Sente necessidade de se purificar, de se converter para se tornar capaz de uma missão divina. O texto refere-nos o inefável diálogo de Deus com o homem, que é convidado a participar com Ele na obra de salvação do Povo. Mas, como será isso possível, se sente indigno e incapaz? O próprio Deus, pelo Serafim, o purificará de toda a sua indignidade. Aquele que gozou da inefável experiência de santidade e transcendência de Deus deverá ser mensageiro da conversão do Povo a essa mesma santidade. Temeroso, mas com coragem, aceita essa missão: “Eis-me aqui, Senhor; podeis enviar-Me…”. Para anunciar a Deus, é preciso “conhecê-Lo”. Isaías fez a inefável experiência do Deus Santo através da teofania em que se sentiu maravilhosamente imerso em Deus e este se Lhe revela. A iniciativa da revelação e do chamamento é sempre d’ Ele. Vivendo a experiência do seu Deus, Isaías compreenderá o que Deus é e o que quer dele. E aceitará a missão. Vocação e missão andarão sempre intimamente unidas. O começo da 2ª Leitura é precisamente a continuação deste mesmo tema, agora aplicado aos que seguem Jesus Cristo, a partir do anúncio das primeiras testemunhas: Cristo, a salvação de Deus, é anunciado através do Evangelho. Os Coríntios acolhem-n’O e vivem-n’O; permanecem-lhe fiéis e testemunham-n’O aos outros. É a maneira prática e verdadeira de acreditar – ter fé. Também a Paulo, no seu itinerário espiritual, Jesus se lhe revela no caminho de Damasco. Esta experiência maravilhosa leva-o a acolher, viver, anunciar e testemunhar Jesus até as últimas conseqüências. Por Ele se sente enviado, e viverá a sua missão de “apóstolo dos gentios” como testemunha fiel até ao fim. Paulo sabe que agora, nos “novos tempos”, a revelação fundamental de Deus é Seu Filho Jesus Cristo, e toda a vocação e missão passam necessariamente por Ele e pela Comunidade dos que O aceitam e O vivem. Por isso, nesta 1ª Carta aos Coríntios encontramos, talvez, o mais antigo “Credo cristão”, recebido das primeiras testemunhas da Ressurreição. “Credo” que, por sua vez, deverá continuar a ser transmitido, pelo tempo fora, na vida de cada crente. No Evangelho encontramos fundamentalmente estas mesmas idéias, embora sob roupagem diferente. O texto está relacionado com o chamamento e a vocação de Simão ao ministério apostólico. Após uma noite de faina intensa, mas infrutífera, às ordens de Jesus as redes são novamente lançadas à água. Para espanto geral, dá-se uma pesca abundante. São tantos os peixes que eles têm de pedir ajuda “aos colegas que estavam no outro barco”. Há aqui vários elementos fundamentais que devemos ter em conta para entender bem a mensagem desta Leitura: 1) O povo comprimia-se à volta de Jesus, para escutar a Sua Palavra. A Palavra congrega, ilumina. É a Palavra imperativa de Jesus que provoca uma “nova criação”, sobretudo no interior de Pedro e todos os seguidores do Evangelho. Por isso é que São Lucas insiste tanto na necessidade dos apóstolos terem sido companheiros e discípulos de Jesus. São os Seus primeiros ouvintes. Serão também as Suas primeiras testemunhas; 2) “Já que o dizes, largarei as redes”. Obediência à Palavra de Jesus, sem reticências, nem delongas inúteis. Por essa Palavra, viva e eficaz, a Igreja ganhou vida; obediente a essa mesma Palavra, ainda hoje será sinônimo de vida, de “Vida em abundância” para todos aqueles que neste mundo – que parece não querer nada com Deus nem de Deus – sentem verdadeira fome do Deus vivo; 3) “Não tenhas receio”. Diante das maravilhas do Senhor, Pedro sente-se indigno, pecador, como certamente cada um de nós. Ele veio para chamar os pecadores e fala-nos até da infinita alegria de Deus por um só pecador que se converta. “Não temas!”. O espírito de ousadia, de perseverança e de dedicação a toda a prova do pescador, que enfrenta os perigos do mar, serão postos ao serviço do Evangelho. E o Senhor estará com ele, como estará sempre conosco.

 

MAR ADENTRO… – V Dom TC – Ano C

1. EXISTE QUEM PENSA QUE A MENSAGEM DA IGREJA É DE OUTROS TEMPOS…
Aos sacerdotes nos toca as vezes receber as reclamações de quem pensa que a mensagem da Igreja é velha, é antiquada, e tem que mudar, porque já não tem nada que dizer ao mundo de hoje… Em muitos temas se colocam estas reclamações de atualização. Alguns dirão que já não é momento para que a Igreja siga insistindo na indissolubilidade do matrimônio e se oponha ao divórcio, já que neste tempo são muitos os que passam por esta situação, e o matrimônio perdurável é um ideal inalcançável. Outros pensarão que em toda a moral sexual a Igreja ficou no passado, que tem que mudar, porque o que propõe (respeitando a natureza original deste dom de Deus), não se pode já viver em nosso tempo, na qual se liberalizaram os costumes, e se reclamam, com mais ou com menos violência, maiores liberdades, que permitam buscar com mais espontaneidade o prazer. Outros também dirão que já é tempo de que a Igreja deixe de lado o celibato dos sacerdotes, que se possam casar “como faz todo o mundo”, já que é “mais normal” que possam viver dessa maneira, sem uma exigência que não é necessária para seu ministério… Na realidade, estes reclamações não são novas. Já Jesus, quando pregou em seu tempo, dizia palavras que resultavam duras e estranhas na cultura decadente que se vivia no império desse momento. Em seu tempo havia muito divórcio, assim como também aberrações e abusos no uso da sexualidade, incluído o homossexualismo, como na cultura universal que nos coloca o império de nosso tempo. Mas hoje, como ontem, não será a acomodação da Igreja à cultura do momento, senão a fidelidade às raízes, o que permitirá viver com gozo o conteúdo salvador da mensagem evangélica…

2. COM JESUS, A IGREJA NAVEGA NO MUNDO, MAR ADENTRO…
A Igreja tem o que recebeu de Jesus, nem mais nem menos. Sempre sua missão será a mesma, levar e dar ao mundo o que Jesus pôs em suas mãos. Poderão mudar as formas, a linguagem, os instrumentos que se utilizem, mas a mensagem da Igreja será sempre a mesma, a que recebeu das mãos de Jesus… A Palavra de Jesus, que a Igreja deve fazer chegar a todos os rincões do mundo inteiro, tem uma eficácia que vai mais além do que se pode esperar das realidades meramente humanas. Desde este ponto de vista, a tarefa da Igreja termina sendo sempre como uma “pesca milagrosa”, cujos resultados superam amplamente o que ela pode esperar de suas limitadas forças. A Igreja é convidada cada dia por Jesus a introduzir-se até os rincões mais afastados e inóspitos do mundo, levando a todos lados a mensagem que recebeu, uma mensagem de salvação que os homens de todos os tempos necessitam, e que não podem alcançar por si mesmos. A mesma mensagem que São Paulo recebeu, como os demais Apóstolos, e transmitiu com sua pregação: que Cristo morreu por nossos pecados, conforme à Escritura; que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, de acordo com a Escritura; que apareceu a Pedro e depois aos Doze, o mesmo que a São Paulo, mostrando-lhes que havia ressuscitado, e que dessa maneira havia vencido as barreiras da morte e do pecado, para dar-nos a Vida eterna… Ante semelhante realidade, como se pode esperar que a Igreja mude sua mensagem, para fazer-se à medida das ondas de cada momento, ou para que sua palavra soe “agradável” segundo as modas de cada tempo? A sua é uma Palavra recebida de Deus, cujo conteúdo e mensagem está mais além do que se espera em cada momento. É uma Palavra de salvação, que deve aproximar a todos os homens de todos os tempos, com suas redes abertas, ainda que pareça que ninguém queira entrar nelas. Por isso João Paulo II, ao começar o terceiro milênio da Igreja, fazendo pé neste Evangelho, nos recordava que Jesus nos segue convidando para que, na barca da Igreja, seguíssemos metendo-nos em todas as realidades do mundo, “mar adentro”, até suas mais recônditas profundidades, anunciando e levando a salvação que Dele mesmo recebemos…

3. NOSSA MISSÃO: LEVAR A TODO O MUNDO A VIDA DE JESUS…
Também hoje, como em tempos de Jesus, Deus nos encarrega uma missão que tem algo de epopéia impossível, que prolonga a que receberam os Apóstolos, até que seja realizada em toda sua dimensão… Nós, que recebemos de Jesus a Vida que surge do sepulcro, na qual a morte é vencida por sua Ressurreição, temos a missão de levar o anúncio desta salvação, com fidelidade e perseverança, fiéis a sua Palavra salvadora, confiados muito mais em sua eficácia que em nossas limitações, tanto ou mais evidentes que as dos profetas de todos os tempos…

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