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III Domingo do Tempo Comum – Ano B

Por Mons. Inácio José Schuster

Jonas 3, 1-5; 1 Coríntios 7, 29-31; Marcos 1, 14-20

Convertei-vos e crede no Evangelho!

Depois que João foi preso, Jesus aproximou-se da Galiléia pregando o Evangelho de Deus e dizia: «O tempo cumpriu-se e o Reino de Deus está próximo; convertei-vos e crede na Boa Nova». Devemos eliminar imediatamente os preconceitos. Primeiro: a conversão não se refere somente aos não-crentes, ou àqueles que se declaram «leigos»; todos indistintamente temos necessidade de converter-nos; segundo: a conversão, entendida em sentido genuinamente evangélico, não é sinônimo de renúncia, esforço e tristeza, mas de liberdade e de alegria; não é um estado regressivo, mas progressivo. Antes de Jesus, converter-se significava um «voltar atrás» (o termo hebreu, shub, significa inverter o rumo, regressar sobre os próprios passos). Indicava o ato de quem, em certo ponto da vida, percebia estar «fora do caminho»; então se detém, faz um novo planejamento; decide mudar de atitude e regressar à observância da lei e voltar a entrar na aliança com Deus. Há uma verdadeira mudança de sentido. A conversão, neste caso, tem um significado moral; consiste em mudar os costumes, em reformar a própria vida. Nos lábios de Jesus este significado muda. Converter-se já não quer dizer voltar atrás, à antiga aliança e à observância da lei, mas significa mais dar um salto adiante e entrar no Reino, acolher a salvação que veio aos homens gratuitamente, por livre e soberana iniciativa de Deus. Conversão e salvação trocaram de lugar. Já não está, como o primeiro, a conversão por parte do homem e portanto a salvação como recompensa da parte de Deus; mas está primeiro a salvação, como oferecimento generoso e gratuito de Deus, e depois a conversão como resposta do homem. Nisto consiste o «alegre anúncio», o caráter gozoso da conversão evangélica. Deus não espera que o homem dê o primeiro passo, que mude de vida, que faça obras boas, como se a salvação fosse a recompensa a seus esforços. Não; antes está a graça, a iniciativa de Deus. Nisto, o cristianismo se distingue de qualquer outra religião: não começa pregando o dever, mas o dom; não começa com a lei, mas com a graça. «Convertei-vos e crede»: esta frase não significa portanto duas coisas distintas e sucessivas, mas a mesma ação fundamental: Convertei-vos, isto é, crede! Convertei-vos crendo! A fé é a porta pela qual se entra no Reino. Se tivesse dito: a porta é a inocência, a porta é a observância exata de todos os mandamentos, a porta é a paciência, a pureza, poder-se-ia dizer: não é para mim, eu não sou inocente, careço de tal ou qual virtude. Mas se diz: a porta é a fé. A ninguém é impossível crer, porque Deus nos criou livres e inteligentes precisamente para fazer-nos possível o ato de fé nele. A fé tem diferentes caras: está a fé-assentimento do intelecto, a fé-confiança. Em nosso caso trata-se de uma fé-apropriação. Ou seja, de um ato pelo qual apropria-se, quase por prepotência, de algo. São Bernardo até utiliza o verbo usurpar: «Eu, o que não posso obter por mim mesmo, usurpo de Cristo!». «Converter-se e crer» significa fazer propriamente um tipo de ação repentina e engenhosa. Com ela, antes ainda de ter-nos fatigado e adquirido méritos, conseguimos a salvação, apropriamo-nos inclusive de um «reino». É Deus mesmo quem nos convida a fazê-lo; encanta-lhe ver este engenho, e é o primeiro em surpreender-se de que «tão poucos o realizem». «Convertei-vos!» não é, como se vê, uma ameaça, uma coisa que ponha triste e obrigue a caminhar com a cabeça baixa e por isso a tardar o mais possível. Ao contrário, é uma oferta incrível, um convite à liberdade e à alegria. É a «boa notícia» de Jesus aos homens de todos os tempos.

 

3º DOMINGO DO TEMPO COMUM – B
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha, MG

“Cantai ao Senhor um canto novo, cantai ao Senhor, ó terra inteira; esplendor, majestade e beleza brilham no seu templo santo” (cf. Sl. 95,1.6).

Novamente estamos diante da figura do Batista. João Batista é realçado no Evangelho de Marcos(Mc 1,14-20) como aquele que fala da conversão. Marcos apresenta o Batista como o profeta escatológico, dando ênfase para a chegada do Reino de Deus. A liturgia deste domingo nos permite fazer uma ligação entre as três leituras que acabamos de ouvir. Jonas(primeira leitura Jn 3,1-5.10) nos exorta sobre a conversão de Nínive, uma cidade que vivia no pecado e na luxúria, tendo o contexto presente das coisas que passam rapidamente, como as coisas do mundo, o prazer, o sexo, o dinheiro, a pornografia, o ter, o poder, tudo aquilo que vai na contra-mão da história do Reino de Deus. Jesus assimilou este mundo maravilhoso anunciando o primordial: a comunhão com a Trindade Santíssima, que ao contrário das coisas do mundo, tem uma beleza perene e eterna. O livro de Jonas tem como tônica mostrar que Deus quer a conversão de todos, e não só do povo de Israel. Por isso, Jonas deve pregar a conversão em Nínive, capital do Império dos gentios. Deus oferece como graça o chamado à conversão; quem o aceita, é salvo.
Meus irmãos, O Evangelho de hoje(Mc 1,14-20) nos apresenta o Reino de Deus: aqui está o mistério central da Encarnação do Senhor. O Reino de Deus não é somente aquele que viveremos depois da morte. O Reino de Deus começa aqui e agora. A plenitude do Reino de Deus fica para a vida eterna. “Kairós” é o tempo que temos neste momento e na situação peculiar em que nos encontramos, que é rico de graça, porque impregnado da presença de Deus. A nossa vida pessoal para tornar-se “kairós”  e abrir-nos a porta do Reino de Deus exige de cada um duas condições básicas: conversão e crença nos santos Evangelhos. Todos nós somos convidados, com insistência pela Santa Igreja, a nos convertermos e a crer em Cristo. Crendo em Cristo, aderindo ao seu projeto de Salvação, todos nós poderemos ter acesso a maior beleza da vida deste e do outro mundo: a vida em Deus – sentir-se na palma da mão de Deus, sentir-se amado e querido por Deus, sentir-se na presença de Deus. O eixo de toda a vida de Jesus é a instauração do Reino de Deus, que é o eixo de todo o Evangelho. Os próprios discípulos são escolhidos em função do Reino de Deus. Por isso Jesus começou a sua pregação na Galiléia, a marginal de todas as cidades de então, para demonstrar que o seu Reino é para os pequenos, para os pobres, para os excluídos da sociedade. Jesus usa do pequeno para que a grandeza do seu Reino infunde a vida dos homens e das mulheres com grande entusiasmo e revigorada vida de fé e esperança. Marcos anuncia a missão universal de Jesus à beira de um lago, o lago da Galiléia, à parte norte da Palestina, onde, aliás, em torno do lago de Genesaré, Jesus passou a maior parte de sua vida pública. Contemplaram-se os tempos, tanto para Jesus, como para a criatura humana. Jesus é a plenitude dos tempos. Deus se fez igual a nós tem tudo, menos no pecado, elevando a criatura humana à dignidade de filho e o transformando em parceiro da história. Simão e André, Tiago e João, chamados por Jesus, somos todos nós. Todos somos chamados. No Evangelho Jesus escolheu quatro pescadores, profissão malvista naquele tempo e considerada imprópria para pessoas boas e tementes a Deus.  Nenhum pecador, nenhum pobre, nenhuma criatura é excluída. As condições continuam as mesmas duas: converter-se e crer no Evangelho, na pessoa de Jesus, nos seus ensinamentos e na sua missão. Uma fé comunitária e dialogal, desapegando-se de tudo, tanto dos bens materiais, quanto dos bens pessoais e dos bens sentimentais. O desapego provavelmente é a condição mais difícil do discipulado no Novo testamento, mesmo porque, a piedade do Antigo Testamento estava muito ligada a posse de bens materiais e sociais. No desapego Jesus é o grande mestre: nada teve de próprio, nem onde reclinar a cabeça.
Meus irmãos, A segunda leitura(1Cor 7,29-31) nos relata o matrimônio e o celibato. Paulo esboça uma visão global referente à questão do estado de vida. O estado de vida não é o mais importante, acha ele, pois é uma realidade provisória, perdendo sua importância diante do definitivo, que se aproxima depressa. Casamento, prazer, posse, como também o contrário de tudo isso, são o revestimento próprio da vida, o esquema como diz o texto grego. Este esquema desaparecerá. Já temos em nós o germe de uma realidade completamente nova, e esta é que importa. Assim Paulo evoca a dialética entre o provisório e o definitivo, o necessário e o significativo, o urgente e o importante. Mas esta dialética deve ser formulada novamente por cada geração e cada pessoa.
A Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios é uma explicação de São Paulo respondendo a perguntas dos coríntios com relação ao matrimônio. As respostas, cheias de bom senso e sem desprezo algum da sexualidade, revelam um tom de “relativismo escatológico”, ou seja: tudo isso não é o mais importante, para quem vive na expectativa da Parusia. Porque o “tempo é breve”(1 Cor 7,29), matrimônio ou celibato, dor ou alegria, posse ou pobreza são, num certo sentido, indiferentes: são um esquema que passa. Paulo continua, pois, mostrando o valor de seu celibato, com plena disponibilidade para as coisas de Cristo: uma espécie de antecipação da Parusia. Irmãos, Como os primeiros apóstolos somos convidados a pescar gente dentro do projeto do Reino de Deus. Não se trata só de pescar gente para vir à Igreja, mas sim de formar parceria com muita gente para construir um mundo melhor. O pescador de peixe pesca para seu próprio benefício. A Igreja não é uma organização voltada só para si mesma, preocupada apenas com seu próprio sucesso. A pesca da Igreja, que é povo de Deus em marcha, tem que ser diferente: não é estratégia para aumentar a clientela. O pescador de gente, à moda de Jesus, pesca para dar às pessoas pescadas uma tarefa empolgante, uma oportunidade maior de fazer diferença neste mundo atribulado. Nossa pesca é concreta, com problemas, angústias, conquistas e alegrias próprios da nossa região e do nosso tempo. Aqui onde estamos, o projeto do Reino está também entre o já e o ainda-não. Temos já e ainda-não no trabalho, nas escolas, nas famílias, na política, nas Igrejas, na ciência…e tendo esperança e fé que Deus está em nós, tempo de paz e de prosperidade. Diante de tantas propostas efêmeras e falas de felicidade, o Reino de Deus é a opção mais acertada de felicidade e de compromisso de amor e de paz!

 

Jesus: o “como se” desta vida
Evangelho do terceiro domingo do Tempo Comum
Pe. Angelo del Favero *

ROMA, sexta-feira, 20 de janeiro de 2012 (ZENIT.org) – 1 Cor 7,29-31: “Isto vos digo, irmãos: o tempo é breve. A partir de agora, aqueles que têm esposas vivam como se não as tivessem; aqueles que choram, como se não chorassem; aqueles que se alegram, como se não se alegrassem; aqueles que compram, como se não possuíssem; aqueles que usam os bens do mundo, como se não os usassem plenamente. Porque a figura deste mundo passa”.

Mc 1,14-20: “Depois que João foi preso, Jesus foi para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus e dizendo: ‘O tempo foi cumprido e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no evangelho’. Passando à beira do Mar da Galileia, viu Simão e André, irmão de Simão, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores. Jesus lhes disse: ‘Vinde e segui-me. Eu vos farei pescadores de homens’. E eles deixaram imediatamente as redes e o seguiram. Um pouco adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que também estavam no barco a consertar as redes. E logo chamou-os. Também eles deixaram seu pai, Zebedeu, no barco com os ajudantes e foram atrás dele”.

A resposta imediata dos primeiros discípulos chamados pelo Senhor mostra claramente o significado da exortação de Paulo a viver “como se” o que acontece ao nosso redor fosse, em si mesmo, completamente insignificante: “Isto vos digo, irmãos: o tempo é breve. E a figura deste mundo passa” (1 Cor 7,29-31). É claro que Simão, André, Tiago e João nunca teriam deixado o trabalho e a família se não fosse Jesus quem os chamasse. Isso quer dizer que o desapego emocional do próprio mundo não pode ser compreendido sem um encontro com aquele por meio de quem “todas as coisas foram feitas”, e sem o qual “nada foi feito de tudo o que existe” (1 Jo , 3). Quando um homem parte de casa para um lugar distante, de férias, ou para participar de uma convenção, ele se hospeda durante algum tempo num hotel. Ali ele come, dorme, usa o necessário para o dia-a-dia, conhece novas pessoas, e, no caso da convenção, participa ativamente nos trabalhos. Tudo isso é real e importante para ele, mas é temporário, de breve duração. Ele está ciente de que terá que retornar à sua cidade, à sua casa e ao seu trabalho, porque aquelas coisas é que são o seu mundo real. Este “outro” mundo do hotel é alheio a ele. Ele usa todas as coisas dali “como se não as usasse plenamente” (1 Cor 7,31), porque elas não são suas e ele as terá que abandonar. Essa convenção, ou as férias, são apenas um parêntese na sua vida e em breve serão apenas passado. A santa carmelita Teresa de Ávila comparava a existência terrena com o curto espaço de uma noite passada numa hospedaria ruim. Teresa certamente não desprezava este mundo, mas o conhecimento que lhe tinha sido concedido da sublimidade do Outro a fazia desejar a morte, como um parto necessário para começar a viver em plenitude a felicidade inefável do Reino dos Céus. Por isso ela não considerava a morte como uma destruição da vida, mas como a sua meta cobiçada, como implicitamente anuncia o Evangelho: “O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo” (Mc 1.14). Tal como para Teresa, também para os primeiros discípulos tudo isso tem apenas um nome: Jesus Cristo. “Segui-me, e eu vos farei pescadores de homens. E eles deixaram imediatamente as redes e o seguiram”(Mc 4.17). O reino de Deus é seguir Jesus. E é apenas pelo nome de Jesus que São Paulo nos exorta a viver o cenário passageiro deste mundo com um feliz e responsável desprendimento, animados e sustentados pelo pensamento da “definitividade” beata do Outro: “A partir de agora, aqueles que têm esposas vivam como se não as tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que se alegram, como se não se alegrassem…” (1 Cor 7,29-31). O apóstolo dá um testemunho significativo na carta aos Filipenses: “Eu certamente não alcancei a meta, não cheguei à perfeição, mas estou correndo para conquistá-la, porque fui conquistado por Cristo Jesus. Irmãos, eu não considero ainda que cheguei à conquista. Tudo o que sei é isto: esquecendo o que está por trás de mim e voltado em direção ao que está na minha frente, eu corro para a meta, para o prêmio que Deus me chama a receber no céu, em Cristo Jesus” (Fil. 3,12-14). Estas palavras vêm de um homem que está cheio da alegria de viver. Como os primeiros discípulos e todos os santos, Paulo foi capturado por Cristo não para abandonar a imagem deste mundo, mas para ser fermento misturado com ele. Também para nós, na medida em que conseguimos viver “santos e irrepreensíveis diante dele no amor” (Ef 1.4), a comunhão em Cristo pode se tornar uma energia incontrolável para espalharmos a alegria do Evangelho pelo mundo inteiro. O “ainda não” do Paraíso se torna um “já” na figura deste mundo, porque, de algum modo e sempre, “o viver é Cristo” (Fil. 1,21-23). Isso nos ajuda a entender aquele “como se”, que foi repetido cinco vezes e que nos soa completamente impossível do ponto de vista psicológico. O que significa, para o marido, viver como se não tivesse mulher, e vice-versa? O que quer dizer, para aqueles que trabalham, viver como se não trabalhassem; para quem estuda, como se não estudasse; para aqueles que têm, como se não tivessem; para aqueles que vivem na imagem deste mundo, como se não vivessem? Significa viver e fazer todas essas coisas sem absolutizá-las como fins em si mesmas, mas usá-las como meios para fazer a vontade de Deus, realizando o Bem e anunciando com a própria vida o Evangelho do seu amor. A alegria de viver está na Verdade e no Amor. E a Verdade e Amor é Cristo. Converter-se e crer no evangelho é exatamente isso.
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* Cardiologista, o Pe. Angelo del Favero co-fundou em 1978 um dos primeiros Centros de Apoio à Vida perto da Catedral de Trento. Tornou-se carmelita em 1987 e sacerdote em 1991. Foi conselheiro espiritual no santuário de Tombetta, perto de Verona. Atualmente se dedica à espiritualidade da vida no convento carmelita de Bolzano, na paróquia de Nossa Senhora do Monte Carmelo.

 

 

3º Domingo do Tempo Comum  

14Depois que João foi preso, Jesus dirigiu-se para a Galiléia. Pregava o Evangelho de Deus, e dizia: 15“Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; fazei penitência e crede no Evangelho.” 16Passando ao longo do mar da Galiléia, viu Simão e André, seu irmão, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. 17Jesus disse-lhes: “Vinde após mim; eu vos farei pescadores de homens.” 18Eles, no mesmo instante, deixaram as redes e seguiram-no. 19Uns poucos passos mais adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam numa barca, consertando as redes. E chamou-os logo. 20Eles deixaram na barca seu pai Zebedeu com os empregados e o seguiram.

João Batista é preso e Jesus começa sua pregação do “Evangelho de Deus”, ou seja, a Boa Nova. Aqui, já se destaca a divindade de Jesus Cristo, que inicia a pregação pela chegada iminente do Reino, onde exige conversão autêntica do homem a Deus, conforme, outrora, fizeram os Profetas (Jr 3,22; Is 30,15; Os 14,2 etc…). Tanto João Batista como Cristo e os Seus Apóstolos insistem que é preciso converter-se, mudar de atitude e de vida como condição prévia para receber o Reino de Deus. Alguns anos atrás, o Beato João Paulo II (†2005) realça a importância da conversão, expressão clara da misericórdia de Deus: “Portanto, a Igreja professa e proclama a conversão. A conversão a Deus consiste sempre em descobrir a Sua misericórdia, isto é, esse amor que é paciente e benigno” (cf. 1Cor 13,4); amor, que é fiel até às últimas conseqüências na história da aliança com o homem: até à cruz, até a morte e à ressurreição de Seu Filho. A conversão a Deus é sempre fruto do ‘reencontro’ com este Pai, rico em misericórdia.   O autêntico conhecimento de Deus, Deus da misericórdia e do amor benigno, é uma fonte constante e inesgotável de conversão, não somente como momentâneo ato interior, mas também como disposição permanente, como estado de espírito. Aqueles que assim chegam ao conhecimento de Deus, aqueles que assim O ‘vêem’, não podem viver de outro modo que não seja convertendo-se a Ele continuamente. Passam a viver in statu conversionis, em estado de conversão; e é este estado que constitui a característica mais profunda da peregrinação de todo homem sobre a terra in statu viatoris, em estado de peregrino” (Encíclica Dives in Misericórdia nº 13, João Paulo II, 1980).   O Evangelista narra nestes versículos o chamamento de Jesus a alguns dos que formariam parte do Colégio Apostólico. O Messias desde o começo do Seu ministério público na Galiléia, busca colaboradores para levar a cabo a Sua missão de Salvador e Redentor. E busca aqueles habituados ao trabalho, acostumados ao esforço e à luta constantes, simples de costumes, enfim os ocupados. A desproporção humana é patente, mas isso não constitui um obstáculo para que a entrega seja generosa e livre. A luz acesa nos seus corações foi suficiente para abandonar tudo. O simples convite ao seguimento bastou para se porem incondicionalmente à disposição do Mestre.   É Jesus quem escolhe; meteu-Se na vida dos Apóstolos, como Se mete na nossa, sem pedir autorização: Ele é o nosso Senhor.

Concluímos com trecho da canção “Caminhada” (Pe. Jonas Abib)
Alguém chama, Ele me ama e me conduz e me quer feliz.  Ele fala, só escuto, paro mudo, e o que Ele me diz…  Vem me seguir, que Eu caminho junto com você ao fim  Depois da caminhada você é feliz,  se deixa todas coisas só por mim…  Por mim!… vem me seguir…  Que o Meu caminho é o da porta estreita sim,  Porém ao acabar junto de mim,  Você vai entender porque é bom, é bom seguir…

 

Férias com Deus e não sem Ele

Será que o Senhor aprovaria os locais que escolhemos para descansar?
Pe. Anderson Marçal

Mesmo não querendo desenvolver uma teologia de férias ou de descanso, nos propomos a olhar a Palavra de Deus com esse tema em mente. Ao fazer isso, deparamos com alguns fatos que deveriam nos conduzir a uma reflexão pessoal de como encaramos esse período de descanso e como esse tempo é vivido para a glória do Criador. Nas primeiras páginas da Bíblia, vemos um fato que não pode passar despercebido para quem pensa nesse assunto. Vemos ali como Deus nos apresenta, pelo exemplo, o que deveria ser nossa atitude para com o trabalho e para com o descanso. “No sétimo dia Deus já havia concluído a obra que realizara, e nesse dia descansou. Abençoou Deus o sétimo dia e o santificou, porque nele descansou de toda a obra que realizara na criação” (Gn 2, 2.3). O Altíssimo não nos dá um exemplo de alguém que busca “sombra e água fresca”, Ele trabalhara muito fazendo com que a criação toda chegasse à existência. Mesmo que não precisasse tanto como nós de descanso após um esforço intenso, o Senhor nos mostra que o descanso tem o seu lugar. E mais ainda: Ele abençoa esse dia e o santifica. Mesmo sendo muito dedicado e esforçado, mesmo que não seja preguiçoso, o Todo-Poderoso também não está viciado em trabalho e proporciona a si mesmo um momento de descanso. O primeiro ensinamento a respeito de descanso e de férias é dado pelo exemplo de Deus, logo após a criação. Mas logo em seguida, nas próximas páginas da Bíblia, encontramos uma palavra de Deus a esse respeito, em forma de ordenação. “Lembra-te do dia de sábado, para santificá-lo. Trabalharás seis dias e neles farás todos os teus trabalhos, mas o sétimo dia é o sábado dedicado ao SENHOR, o teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teus filhos ou filhas, nem teus servos ou servas, nem teus animais, nem os estrangeiros que morarem em tuas cidades” (Ex 20, 8-10). Certamente, Deus não faz nada sem propósito. Se Ele ordena que descansemos no sétimo dia, então, além de usarmos este dia para a glória do Criador, o Senhor está consciente do fato de precisarmos regularmente do descanso. O Novo Testamento nos diz que o nosso corpo é o templo de Espírito Santo. Diante disso é difícil de imaginar que Deus Pai queira para si um templo que esteja cansado e exausto. Isso não seria um lugar agradável para morar. Virando várias páginas da Sagrada Escritura, chegamos ao Novo Testamento. Ali deparamos com um fato bem interessante com relação ao descanso e, por que não dizer, com relação às férias. “Os apóstolos reuniram-se a Jesus e lhe relataram tudo o que tinham feito e ensinado. Havia muita gente indo e vindo, a ponto de eles não terem tempo para comer. Jesus lhes disse: “Venham comigo para um lugar deserto e descansem um pouco” (Mc 6, 30.31). Os apóstolos acabam de retornar de um esforço missionário evangelístico. Além disso, recebem a notícia de que João Batista fora decapitado. O movimento em torno de Nosso Senhor Jesus Cristo estava tão intenso que nem mesmo há condições para alimentação adequada. Naquele momento, Cristo entra em ação com esta proposta brilhante: Ele afirma que devem procurar um lugar deserto, isto é, um lugar em que não haja tantas pessoas, um lugar que proporcione tempo e oportunidade de estarem a sós com Ele. Apesar do sucesso do Seu ministério, o Senhor está consciente de que precisa prevenir o estresse, como resultado de atividades tão intensas. Ainda outro assunto é discutido na Bíblia e bem destacado. Lemos em Êxodo 20 que todos da unidade doméstica estariam incluídos no descanso regular semanal. Interessante notar ali também que inclusive os animais não deveriam fazer tarefa alguma no dia do descanso. Isso fez com que eu me desse conta de que o Criador prevê o descanso para a natureza. Veja, por exemplo, o que lemos em Levítico 25, 2-5: “Diga o seguinte aos israelitas: Quando vocês entrarem na terra que lhes dou, a própria terra guardará um sábado para o SENHOR. Durante seis anos semeiem as suas lavouras, aparem as suas vinhas e façam a colheita de suas plantações. Mas no sétimo ano a terra terá um sábado de descanso, um sábado dedicado ao SENHOR. Não semeiem as suas lavouras, nem aparem as suas vinhas”. Assim como os homens e os animais precisam de descanso, a natureza também precisa dessa pausa e Deus já estabeleceu isso junto ao Seu povo. Há mais um momento na vida de Jesus Cristo que merece a nossa atenção nesse contexto. Mesmo que anteriormente tenha estimulado o descanso ao levar os discípulos a uma viagem de recreação, o Senhor aponta agora que o repouso também pode ocorrer em hora errada. Ele diz aos Seus seguidores, ali no Getsémani, o seguinte: “Vocês ainda dormem e descansam? Basta! Chegou a hora! Eis que o Filho do homem está sendo entregue nas mãos dos pecadores” (Mc 14, 41). Há momentos em que não comportam descanso e ócio; é preciso adotar uma atitude bem diferente. Na realidade, não se pode indicar os momentos não apropriados para o descanso, mas certamente teremos a devida orientação por parte de Deus a respeito dessa questão. Ciente de não ter esgotado esse pano de fundo para as férias e descanso, nós nos propomos agora a fazer algumas indagações e reflexões. Deus quer que tenhamos tempo para restaurar as forças físicas, mentais e espirituais. Nossa inquietação, no entanto, é o que nós chamamos de descanso, o que nós praticamos como descanso e que nós, por isso, encaramos como as bem merecidas férias. Estaria o Senhor contente com o repouso que praticamos? Ele convidou os discípulos para uma viagem de férias para estarem com Ele e terem tempo para estar em sintonia com o Filho de Deus. Será que planejamos as nossas férias para alcançar esse propósito? Podemos nos perguntar também: “Será que Deus aprovaria os locais que escolhemos para descansar?” Os lugares mais badalados e também procurados são as praias e os balneários das termas. Será que esses lugares nos proporcionam descanso e restauração física, mental e espiritual? Uma vez que ali há um aglomerado tão grande de pessoas, sempre há alguma coisa acontecendo e nos convidando para envolvimento. Por outro lado, corre solta a sensualidade em todas as formas, ela parece ser o fator principal nesses “locais de férias”. Se formos honestos e atenciosos não descobriremos que, em vez de descanso, alcançamos algo bem mais forte em emoções e adrenalina e, por que não dizer, em estímulos sexuais? Como se isso não bastasse ainda, muitos ali ficarão com a autoestima tão abalada ao verem que o corpo não está dentro dos padrões de beleza estabelecidos por aqueles que procuram e desenvolvem os padrões de beleza em nossos dias. Toda a mídia se esforça a desenvolver um modelo de repouso que prevê e precisa que as férias sejam regadas a muita bebida alcoólica. É mais do que evidente que em nossos dias realmente precisamos de férias, precisamos de descanso e precisamos “recarregar as nossas baterias”. O nosso esgotamento ocorre nas três áreas que já indicamos anteriormente: física, mental e espiritual. Muitas vezes, somos exigidos de forma tão vigorosa fisicamente que o corpo fica arrasado. Isso tem conseqüências sobre a mente e certamente também sobre a parte espiritual. Outras vezes, e isso depende da nossa atividade, a mente é exigida tanto que afeta o corpo também e, em conseqüência disso, o nosso espírito. Já outras atividades exigem tanto do “coração e do espírito”, que nos deixam arrasados nessa área. E se estamos exaustos, este cansaço também afeta o corpo e a mente. Mesmo que teoricamente funcionemos em áreas, nós formamos um todo e o todo sofre com dificuldades em uma ou outra área. Dentro desse raciocínio deve-se ter uma inquietação: nossas férias facilmente se tornam o momento ou o período em que nós também damos férias a Deus? As coisas parecem estar tão perfeitas e gostosas que não precisamos do Senhor. Ou então dormimos tanto pela manhã para já não haver mais tempo para um período devocional antes de irmos aos passeios. Por outro lado, esses passeios nos cansam tanto que à tarde temos de ter aquela soneca gostosa. À noite, muitas vezes, acontece alguma festa com amigos ou parentes que estão no mesmo lugar e a hora fica avançada demais para ainda termos tempo para Deus. Dentro dessa linha uma pergunta: Será que Deus aprovaria o fato de darmos, em nossas férias, férias também para Ele?

Os caminhos de preparação para o fim dos tempos

Homilia na Casa Santa Marta, terça-feira, 26 de novembro  de 2013, Da Redação, com Rádio Vaticano

Na homilia, Papa indicou a oração para discernir cada momento da vida e a esperança para olhar para o fim dos tempos

O homem pode sentir-se dono do momento, mas Papa ressaltou que somente Deus é o mestre do tempo / Foto: L’Osservatore Romano

Na Missa desta terça-feira, 26, Papa Francisco falou dos dois conselhos para compreender o fluxo do tempo presente e preparar-se para o fim dos tempos: oração e esperança. Ele indicou na oração a virtude para discernir cada momento da vida e na esperança em Jesus a virtude para olhar ao fim dos tempos.

As reflexões do Papa vieram do Evangelho do dia, no qual Jesus explica aos fiéis o que deverá acontecer antes do fim da humanidade, assegurando que nem o pior dos dramas poderá colocar em desespero aqueles que acreditam em Deus. E ao longo deste caminho, Francisco observou a diferença entre viver o momento e viver o tempo.

Segundo ele, o cristão é o homem ou a mulher que sabe viver tanto no momento quanto no tempo. “O momento é aquele que nós temos em mãos agora: mas este não é o tempo, este passa! Talvez nós podemos nos sentir patrões do momento, mas o engano é acreditar sermos patrões do tempo: o tempo não é nosso, o tempo é de Deus!”.

Citando as palavras de Jesus, o Pontífice advertiu que não se deve deixar enganar no momento, pois haverá quem se aproveitará da confusão para apresentar-se como Cristo. Dessa forma, as virtudes necessárias para o cristão viver o momento são a oração e o discernimento. Já para olhar para o tempo, cujo único mestre é Jesus, não há nenhuma virtude humana, mas sim aquela dada pelo Senhor: a esperança.

“O cristão sabe esperar o Senhor em todo momento, mas espera no Senhor o fim dos tempos. Homem e mulher de momento e de tempo: de oração e de discernimento, e de esperança. O Senhor nos dê a graça de caminhar com a sabedoria, que também é um dom Dele: a sabedoria que no momento nos leva a rezar e discernir. E no tempo, que é o mensageiro de Deus, nos faça viver com esperança”.

Plenitude do tempo chegou através do sim de Maria

Sexta-feira, 1 de janeiro de 2016, Kelen Galvan / Da redação

Na Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, o Papa Francisco explica o significado da plenitude dos tempos, e destaca que é preciso interpretá-la a partir de Deus

Neste primeiro dia de 2016, o Papa Francisco presidiu, na Basílica São Pedro, no Vaticano, a Missa pela Solenidade de Maria Santíssima, Mãe de Deus.

Na homilia, o Santo Padre explicou o significado histórico das palavras de São Paulo, presentes na segunda leitura de hoje (cf. Gl 4, 4-7): “Quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher”.

Francisco destacou que é preciso interpretar a “plenitude do tempo”, a partir de Deus. Pois, aos olhos humanos, aquele não era certamente o melhor tempo para os contemporâneos de Jesus, diante do império de Roma, que dominava grande parte do mundo com suas forças militares.

Porém, Deus estabeleceu o momento de cumprir sua promessa à humanidade. “Não foi a história que decidiu a hora do nascimento de Cristo. Pelo contrário, a sua vinda ao mundo permitiu à história chegar à sua plenitude”.

Foi por isso, enfatizou o Papa, que o cálculo de uma nova era começou com o nascimento do Filho de Deus:

“Logo, a plenitude do tempo é a presença de Deus em pessoa na nossa história. Agora, podemos ver a sua glória, que refulge na pobreza de uma estrebaria, e ser encorajados e sustentados pelo seu Verbo, que se fez ‘pequeno’ em uma criança. Graças a Ele, o nosso tempo encontra a sua plenitude”.

A plenitude do tempo

Entretanto, o Pontífice explicou que este mistério sempre contrasta com a dramática experiência histórica. A “plenitude do tempo” parece desmoronar diante de tantas formas de injustiça e violência, que ferem diariamente a humanidade.

“Como é possível que perdure a prepotência do homem sobre o homem? Que a arrogância do mais forte continue a humilhar o mais fraco, relegando-o às margens mais esquálidas do nosso mundo? Até quando a maldade humana semeará violência e ódio na terra, causando vítimas inocentes? Como pode ser ‘tempo da plenitude’ quando, diante dos nossos olhos, multidões de homens, mulheres e crianças fogem da guerra, da fome, da perseguição, dispostos a arriscar a vida para que sejam respeitados os seus direitos fundamentais?”, indagou o Papa.

Contudo, o Santo Padre afirmou que nada disso é maior que o oceano da misericórdia divina que inunda o mundo.

“Todos nós somos chamados a mergulhar neste oceano, a deixar-nos regenerar, para vencer a indiferença que impede a solidariedade. A graça de Cristo, que realiza a expectativa da salvação, nos impele a sermos seus cooperadores na construção de um mundo mais justo e fraterno, onde as pessoas e as criaturas possam viver em paz, na harmonia da criação primordial de Deus”.

Francisco disse ainda que, no início de um novo ano, a Igreja destaca como ícone de paz, a maternidade divina de Maria. “A antiga promessa realiza-se na sua pessoa, que acreditou nas palavras do Anjo; ela concebeu o Filho e tornou-se Mãe do Senhor. Através do ‘sim’ de Maria chegou a ‘plenitude do tempo’.”

Por fim, o Papa explicou que a “plenitude do tempo” leva a singularizar o sentido dos acontecimentos que tocam cada pessoa, cada família, país e o mundo inteiro.

“Aonde não pode chegar a razão dos filósofos, nem as negociações políticas conseguem fazer o que a força da fé e da graça do Evangelho de Cristo faz, abrindo sempre novos caminhos à razão e às negociações”.

 

HOMILIA
Santa Missa na Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus

Ouvimos as palavras do apóstolo Paulo: «Quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher» (Gl 4, 4).

Que significa Jesus nasceu na «plenitude do tempo»? Se o nosso olhar se fixa no momento histórico, podemos imediatamente ficar decepcionados. Sobre grande parte do mundo conhecido de então, dominava Roma com o seu poderio militar. O imperador Augusto chegara ao poder depois de cinco guerras civis. Também Israel fora conquistado pelo Império Romano e o povo eleito estava privado da liberdade. Por conseguinte, aquele não era certamente o tempo melhor para os contemporâneos de Jesus. Portanto, se queremos definir o clímax do tempo, não é para a esfera geopolítica que devemos olhar.

É necessária uma interpretação diferente, que entenda a plenitude a partir de Deus. No momento em que Deus estabelece ter chegado a hora de cumprir a promessa feita, realiza-se então, para a humanidade, a plenitude do tempo. Por isso, não é a história que decide acerca do nascimento de Cristo; mas, ao invés, é a sua vinda ao mundo que permite à história chegar à sua plenitude. É por isso que se começa, do nascimento do Filho de Deus, o cálculo duma nova era, ou seja, a que vê o cumprimento da antiga promessa. Como escreve o autor da Carta aos Hebreus, «muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por meio de quem fez o mundo. Este Filho é resplendor da sua glória e imagem fiel da sua substância e tudo sustenta com a sua palavra poderosa» (1, 1-3). Assim, a plenitude do tempo é a presença de Deus em pessoa na nossa história. Agora, podemos ver a sua glória que refulge na pobreza dum estábulo, e ser encorajados e sustentados pelo seu Verbo que Se fez «pequeno» numa criança. Graças a Ele, o nosso tempo pode encontrar a sua plenitude.

Este mistério, porém, sempre contrasta com a dramática experiência histórica. Cada dia, quereríamos ser sustentados pelos sinais da presença de Deus, mas o que constatamos são sinais opostos, negativos, que fazem antes senti-Lo como ausente. A plenitude do tempo parece esboroar-se perante as inúmeras formas de injustiça e violência que ferem diariamente a humanidade. Às vezes perguntamo-nos: Como é possível que perdure a prepotência do homem sobre o homem? Que a arrogância do mais forte continue a humilhar o mais fraco, relegando-o para as margens mais esquálidas do nosso mundo? Até quando a maldade humana semeará na terra violência e ódio, causando vítimas inocentes? Como pode ser o tempo da plenitude este que coloca diante dos nossos olhos multidões de homens, mulheres e crianças que fogem da guerra, da fome, da perseguição, dispostos a arriscar a vida para verem respeitados os seus direitos fundamentais? Um rio de miséria, alimentado pelo pecado, parece contradizer a plenitude do tempo realizada por Cristo.

Contudo este rio alagador nada pode contra o oceano de misericórdia que inunda o nosso mundo. Todos nós somos chamados a mergulhar neste oceano, a deixarmo-nos regenerar, para vencer a indiferença que impede a solidariedade e sair da falsa neutralidade que dificulta a partilha. A graça de Cristo, que realiza a expectativa da salvação, impele a tornar-nos seus cooperadores na construção dum mundo mais justo e fraterno, onde cada pessoa e cada criatura possam viver em paz, na harmonia da criação primordial de Deus.

No início dum novo ano, a Igreja faz-nos contemplar, como ícone de paz, a maternidade divina de Maria. A antiga promessa realiza-se na sua pessoa, que acreditou nas palavras do Anjo, concebeu o Filho, tornou-Se Mãe do Senhor. Através d’Ela, por meio do seu «sim», chegou a plenitude do tempo. O Evangelho, que escutámos, diz que a Virgem «conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração» (Lc 2, 19). Aparece-nos como vaso sempre cheio da memória de Jesus, Sede da Sabedoria, onde recorrer para termos a interpretação coerente do seu ensinamento. Hoje dá-nos a possibilidade de individuar o sentido dos acontecimentos que nos tocam pessoalmente a nós, às nossas famílias, aos nossos países e ao mundo inteiro. Aonde não pode chegar a razão dos filósofos, nem as negociações da política, consegue fazê-lo a força da fé que a graça do Evangelho de Cristo nos traz e que pode abrir sempre novos caminhos à razão e às negociações.

Feliz sois Vós, ó Maria, por terdes dado ao mundo o Filho de Deus; mas mais feliz ainda sois porque acreditastes n’Ele. Cheia de fé, concebestes Jesus, primeiro no coração e depois no seio, para Vos tornardes Mãe de todos os crentes (cf. Santo Agostinho, Sermo 215, 4). Lançai sobre nós a vossa bênção neste dia que Vos é consagrado; mostrai-nos o rosto do vosso Filho Jesus, que dá ao mundo inteiro a misericórdia e a paz.

 

Primeiro Angelus de 2016: Paz deve ser conquistada, diz Papa
Sexta-feira, 1 de janeiro de 2016, Da redação, com Rádio Vaticano

Neste dia em que se celebra o Dia Mundial da Paz, o Papa disse no Angelus que a paz que Deus deseja semear no mundo deve ser cultivada por cada pessoa

Após presidir a Missa por ocasião da Solenidade da Mãe de Deus, o Papa Francisco rezou o Angelus da janela do apartamento pontifício, com os milhares de fiéis reunidos na Praça São Pedro, no Vaticano.

Neste primeiro dia de 2016, Francisco quis desejar a todos um futuro amparado por “uma esperança real”.

O Santo Padre observou que a troca de felicitações na virada no ano é “um sinal da esperança que nos anima e nos convida a acreditar na vida”, de que aquilo que nos espera “seja um pouco melhor”. Recordando também que todos sabemos “que com o ano novo nem tudo mudará, e que tantos problemas de ontem permanecerão também amanhã”. Apesar desta constatação, a sua mensagem é de esperança.

Inspirado nas palavras da liturgia do dia em que “o Senhor mesmo quis abençoar o seu povo”, Francisco diz que também ele deseja isto: “que o Senhor coloque o seu olhar sobre vocês e que possam se alegrar, sabendo que em cada dia o seu rosto misericordioso, mais radiante do que o sol, resplandece sobre vós e não se põe nunca!”.

O Pontífice disse ainda que descobrir o rosto de Deus renova a vida. “Porque é um Pai enamorado do homem, que não se cansa nunca de recomeçar conosco do início, para nos renovar. Porém, não promete mudanças mágicas. Ele não usa a varinha mágica. Ama mudar a realidade a partir de dentro, com paciência e amor; pede para entrar na nossa vida com delicadeza, como a chuva na terra, para dar fruto. E sempre nos espera e nos olha com ternura. A cada manhã, ao despertar, podemos dizer: ‘Hoje o Senhor faz resplandecer a sua face sobre mim!’”.

Dia Mundial da Paz

O Papa recordou que a Igreja celebra hoje o Dia Mundial da Paz com o tema “Vença a indiferença e conquista a paz”. “A paz que Deus deseja semear no mundo – disse – deve ser cultivada por nós. E não somente, mas deve ser “conquistada””:

“Isto comporta uma verdadeira luta, um combate espiritual, que tem lugar em nosso coração. Porque inimiga da paz não é somente a guerra, mas também a indiferença, que faz pensar somente em si mesma e cria barreiras, suspeitas, medos, fechamentos. Temos, graças a Deus, tantas informações; mas às vezes somos tão bombardeados por notícias que ficamos distraídos da realidade, do irmão e da irmã que tem necessidade de nós. Comecemos a abrir o coração, despertando a atenção pelo próximo. Este é o caminho para a conquista da paz”.

Ao concluir sua reflexão, o Santo Padre dirige-se a Rainha da Paz, a Mãe de Deus, cuja Solenidade é celebrada neste 1º de janeiro, perguntando “de que se trata estas coisas que ela guardava, meditando-as em seu coração?”:

“Certamente da alegria pelo nascimento de Jesus, mas também das dificuldades que havia encontrado: teve que colocar o seu Filho em uma manjedoura porque para eles não havia lugar no alojamento e o futuro era muito incerto. As esperanças e as preocupações, a gratidão e os problemas: tudo aquilo que acontecia na vida tornava-se, no coração de Maria, oração, diálogo com Deus. Eis o segredo da Mãe de Deus. E ela faz isto também por nós: guarda as alegrias e desata os nós da nossa vida, entregando-os ao Senhor”.

Após recitar a oração do Angelus, o Papa dirigiu-se aos fieis manifestando o seu reconhecimento “pelas inúmeras iniciativas de oração e de ação pela paz organizadas e todas as partes do mundo por ocasião do Dia Mundial da Paz.

O Pontífice também saudou os “Cantores da Estrela” – “crianças e jovens que na Alemanha e na Áustria levam nas casas a bênção de Jesus e fazem uma coleta de ofertas para os pobres”.

Ao concluir, o Santo Padre desejou a todos um “ano de paz na graça do Senhor, rico de misericórdia, e com a proteção materna de Maria, a Santa Mãe de Deus”.

Ação de Graças pelo fim do Ano

Por Mons. Inácio José Schuster

Chegamos ao final do ano da graça de 2017! Muitas comemorações serão feitas na passagem de 31 de dezembro para 1º de janeiro de 2018! Dos corações retos e sinceros brota uma prece neste dia, prece de pedido de perdão pelo tempo desperdiçado, de agradecimento pelas graças recebidas e um desejo que consagrar ao Senhor o tempo que está para vir.

“Obrigado, Senhor, por este ano que vai terminando. Obrigado pelo ano que começa. Obrigado, Senhor, por tudo, pelo tempo, pela vida, por tudo o que faremos e por tudo o que viveremos, pelo que receberemos e pelo que daremos, sempre a ti unidos” (André Delapierre).

“Meu Deus, eu vos ofereço este ano que começa. Em vossa bondade fazei com que seja um tempo de ascensão para vós. Que cada dia eu me encontre mais forte na fé e no amor. Eu vos ofereço todos aqueles que estão sob os meus cuidados, diante dos quais treme meu coração tão frágil. Que eu não venha a faltar a todos eles e que possa ser para eles um canal invisível de vossa graça. Meu Deus eu vos ofereço também a grande dor deste mundo, a dor dos inocentes e os fardos que pesam sobre tantos. Meu Deus, que uma chispa de vossa caridade espanque as trevas e que a aurora da paz se erga diante de nós” (Madeleine Daniélou).

Eis a verdade: amar-se uns aos outros. Amar… amar a todos, não em determinadas horas, mas toda a vida. Amar os pobres e amar as pessoas felizes (…). Amar o vizinho, amar o desconhecido, amar o próximo que se encontra no extremo do mundo…amar, amar (Raul Foulerau).

 

Fim de ano – tudo tem seu tempo e ocasião
Ao longo do ano, vivemos envolvidos no amor do Pai
Por Maria Emmir Nogueira, Co-fundadora da Comunidade Shalom, Revista Shalom Maná

“Tudo tem seu tempo e ocasião”, diz o Eclesiastes. “Para cada coisa”, dirá outra tradução, “há um tempo debaixo do sol.” O autor continua a repetir as palavras, sem a menor pressa, criando, em sua narrativa, um ritmo que, por si só, expressa o que ele quer dizer: tudo tem seu tempo, tudo tem seu ritmo. “Tempo de nascer, tempo de morrer; tempo de plantar, tempo de colher; tempo de derrubar, tempo de construir; tempo de chorar, tempo de rir; tempo de fazer luto, tempo de bailar; tempo de abraçar, tempo de separar-se; tempo de procurar, tempo de perder; tempo de calar, tempo de falar; tempo de amar, tempo de odiar; tempo de guerra, tempo de paz”. Como não rezar com esta passagem a cada final de ano? Como vivi os tempos que o Senhor providenciou? Como acertei o meu passo ao sábio compasso que marca o ritmo da vida, de tudo o que existe debaixo do sol, inclusive eu? Quem nasceu? Quem morreu? Em que nasci? Em que morri? O que plantei? O que colhi? O que derrubei? O que construí? Como chorei? Como ri? Como vivi o luto e a dança? A quem acolhi? De quem parti? A quem deixei partir? Como falei? Como calei? O que calei? Para que calei? O que falei? Como falei? Para que falei? Odiei? Fiz guerra? Perdi, então, todo o meu ritmo, todo o meu tempo. Gastei inutilmente os tempos que o Senhor providenciou. Atravessei o compasso que marca o ritmo da vida, inclusive da minha. Matei e morri. Plantei, mas não colhi. Destruí. Se ri, foi pantomima. Se chorei, foi de desgosto. Se dancei, foi grotesco. Se acolhi, só foi a mim mesma. A tudo e a todos enxotei. Minhas palavras destruíram, meu silêncio foi omissão, falsa proteção a mim mesma. Odiei. Amei? Então construí e promovi a paz, encontrei, então, o sábio ritmo da vida, o tempo interior só conhecido de quem ama. Aproveitei bem os tempos que me deu a Providência. Dancei, feliz e equilibrada, conduzida por meu divino par, ora valsas, ora noturnos, ora barcarolas, ora polcas e mazurcas, ao compasso que marca o ritmo da vida, de toda vida, da minha vida, da sua vida. Dancei, com toda a criação, com Deus e com os irmãos. Deixei-me conduzir pelo hábil Cavalheiro. Nasci e dei à luz. Plantei e colhi. Derrubei feiúra, colhi beleza, bem, verdade. Ri, feliz ao acolher, nas dobras da renúncia do amor, meu irmão, a vida, as circunstâncias. Rodopiei, confiante e tranquila, a guardar segredos de amor em meu coração. Amei. Ora amei, ora odiei? Natural. Sou pecadora. Sou imperfeita. Sou humana. Simplesmente vivi. Colhi os frutos do meu ódio e do meu amor. Uma coisa sei que, com a mais absoluta certeza, tive, eu, assim como você: o amor do Pai em toda circunstância. A salvação do Filho todos os dias do nosso ano. A ação santificadora do Espírito, disponível em toda ocasião. Criador e criatura dançamos juntos, tal pai e filha na festa dos quinze anos, tal casal de noivos nas bodas, envolvidos, sempre, por muitos outros pares, milhares, milhões, bilhões de outros pares. Chegamos ao fim de mais um ano em nossa bela sonata da vida. É preciso dar o comando de replay e assisti-la outra vez, serenamente, ouvindo detalhes perdidos na correria, na emoção dos acontecimentos: stacatos sutis, ligaduras ressonantes, fermatas desconcertantes. Começa uma nova página. Quantos compassos teremos? Que temas se repetirão? Que novos tons serão adotados? Que novas frases musicais serão relidas, recriadas? Que outros instrumentos entrarão? Que interpretação escolheremos dar? Que passos criaremos? Como faremos a leitura, compasso a compasso? Deus sabe! E é nisso que reside nossa tranqüilidade, nossa confiança. Não conhecemos o que virá, mas pelos temas, frases, harmonias e compassos, pelo ritmo e pelo tom já tocados, sabemos que, tocada a quatro mãos, nossa composição será bela. O ritmo, por vezes sincopado, combinará com soluços. O compasso em sua batida convencional, evocará a rotina, que também revela beleza. As notas que voam, oração. As que ficam na memória, contemplação. As que marcam a base, convicção. As que desenham a melodia, inventividade. Deus sabe! Deus sabe! Deus sabe! Que a proposta de uma vida alucinada não nos seduza. Que o ritmo da evangelização, do amor, este, sim, seja alucinado, sem medida: Jesus tem sede, tem pressa. O ritmo interior, porém, este seja aquele secreto, confiante, sábio, paciente ritmo interior de Maria: “Deus sabe! Deus sabe! Deus sabe! Tudo passa! Deus fica! Deus sabe! Para tudo há um tempo debaixo do sol. Não temo! Deus sabe! Deus sabe! Deus sabe!” Neste ano, conceda-nos Deus dançarmos tranqüilos, ao ritmo interior do mistério da vida.

 

Sete dicas para permanecer na graça
Felipe Aquino

O mais importante é aprender a permanecer na graça de Deus, permanecer na graça que recebemos. O mundo é mal educado, mas Jesus é muito educado e não arromba a porta do coração de ninguém. Ele pede que aceitemos o seu amor e assim entra no nosso coração na medida em que dizemos sim. Então diga: “Senhor Jesus eu te aceito na minha vida, eu abro a porta aqui do meu coração e ponho a minha mão no meu coração para com este gesto eu também me ajudar, eu abro a porta do meu coração entra Jesus na minha vida, eu te quero e sei que Tu me amas como sou, pode vir, pode entrar na minha vida. Jesus é muito educado, o mal não, ele invade a vida da gente, se aproveita de nossas quedas e da nossa inclinação ao pecado. Nós recebemos muitas graças, mas o mais importante que receber as graças é permanecer é ser fiel todos os dias. E não podemos nos enganar, pois estamos em um mundo que não quer Deus, e se você se sente remando contra a maré, se você se sente assim, considere-se o cristão mais normal do mundo e quem não se sente assim é preciso rever-se como cristão. É como aquela música: “Procuro abrigo nos corações, de porta em porta desejo entrar, se alguém me acolhe com gratidão faremos juntos a refeição”. Eu vou lhe indicar sete pontos para permanecer na graça de Deus:

Primeiro: A vida espiritual. Não deixe a oração para depois. Não diga vou rezar depois. Coloque a oração como mais importante. Ficar a sós com Deus que continua cantando que procura abrigo nos corações. A oração tem que estar em primeiro lugar. Orar é parar para estar com Deus, é colocar a oração acima de tudo. Não deixe que paire na sua cabeça de que aquilo que Deus te deu é só isso, não, porque Ele tem muito mais para você.

Segundo: Amizades verdadeiras. Escolha bem as suas amizades, não despreze ninguém a sua volta, mas preste atenção com quem você anda, são pessoas que te constroem? Nós precisamos de amizades verdadeiras que nos levem a compreender a ação de Deus na nossa vida. É preciso andar com quem constrói em você a novidade de Deus. Não ande com quem não lhe constrói. Agora o que vamos fazer com as pessoas que estão ao nosso lado? Partilhar com o outro pedindo que a pessoa te ajude a ser mais de Deus, que ela te ajude a não ter mais os comportamentos que não são coerentes. Se não somos sinceros um com o outro então não é amizade. Quem tem que fazer a escolha é você que recebeu as graças, porque o mais importante é permanecer na graça.

Terceiro: Tenha metas. Que tipo de pessoa você decide ser? Santa Tereza de Calcutá dizia: “Não importam as circunstancias, nem se ninguém vai me compreender, eu vou seguir em frente, porque eu vou me transformar na pessoa que eu me decidi ser. Depois das graças recebidas qual é a sua meta. Uma meta que diz respeito a você? Um convite que a Canção Nova, a Igreja, é um convite de Nosso Senhor, é para que você seja santo, mas que você o seja em todos os aspectos. Escreva sobre as suas metas, é claro que a nossa meta é o céu, mas qual é a meta na sua família? É perdoar? É sorrir? Porque talvez você já não de nenhum sorriso há muito tempo. Talvez a sua meta seja não reclamar mais, e você terá que reunir todas as forças para não reclamar. Não brinquemos com a graça que recebemos. Foi Deus que te ama, quem derramou sobre você essas graças e a gente não brinca com quem nos ama. É preciso se confessar. Não construa coisas novas em cima das máscaras. Deus te ama então não tenha medo de tirar as máscaras. Deus vê o coração sonda com compaixão, pois Deus só sabe amar você.

Quarto: Você tem que ter quem te conhece de verdade. Estamos em um mundo de muitas mentiras, um mundo de aparências. É preciso ter alguém com quem você se encontre, e que você pode falar tudo. Pode ser um diretor espiritual ou um amigo. Nosso Senhor não constrói nada sobre os escombros, Ele quer fazer tudo novo. É preciso eleger uma pessoa e dizer a ela(e): meu amigo eu quero contar tudo para você o que está se passando comigo, coisas da minha alma. Você precisa ser quem você é, por causa da graça que você recebeu, e porque você não quer entrar nessa onda de viver de aparências e por isso você precisa ter alguém que te conhece mesmo, de verdade.

Quinto: Viver em atitude de vigilância. O que precisamos vigiar? O que você quer de fato? Eu quero ser de Deus. Então vigie naquilo que te rouba de Deus, aquilo que te leva ao pecado. Vigiar para que o mal não se aproxime. Você tem todo o direito de pedir a Nosso Senhor, então peça agora: “Meu Deus me livra da tentação que me derruba, me livra da tentação que me faz cair, porque eu não tenho forças. Livra-me Senhor do mal que domina o meu jeito de falar. Viver assim é muito duro, mas é assim que um cristão vive. É assim mesmo, nós ainda não estamos no céu, mas nós vamos para lá em uma atitude de vigilância, e por isso recebemos tanta graça de Deus. É por causa da vontade de Deus, por causa dos seus desígnios, que eu aqui estou, mas eu sou igualzinho a você, então por isso preciso vigiar sempre. Santo Agostinho diz que o cristão que não controla a boca, não consegue controlar mais nada. Jesus não está brincando conosco e o tempo está passando rápido.

Sexto: Colocar-se a serviço do próximo. Você precisa ter um apostolado, este é o remédio contra todo o egoísmo. Porque a graça que Deus deu, ela não é só para você, ela é tão grande que deve crescer em você e transbordar para o outro. Já não perguntamos mais como o outro está com medo que ele diga que não está bem e aí você ter que ouvir, e você está sem tempo. Isso não é ser cristão. Quem não sabe fazer coisas ao outro, nunca vai saber se dar ao outro, porque ficamos com medo de entregar o nosso olhar ao outro. Quando é que vamos ser capazes de fazer da nossa vida um serviço? De dar o nosso rosto e poder chegarmos a ser como Jesus? Você precisa servir alguém. Mate de amor aquele que está ao seu lado! Quem sabe dando um copo d’água.

Sétimo: Tenha paciência consigo mesmo e com os outros. É isso mesmo. Sabe porque? Nem tudo acontece de uma só vez. A vida do cristão é um cai e levanta, então tenha paciência com você e com os outros. Jesus está dizendo aqui nesta parábola (ver: São Mateus 13, 24) como o reino de Deus se estabelece aqui dentro de mim e de você e São Paulo nos explica, sobre as lutas que vivemos dentro de nós. Por isso: Agüenta firme meu filho! Porque temos tanta coisa boa, mas dentro de nós cresce trigo e também o joio, então tenha paciência, porque muitas vezes temos vontade de arrancar tudo, não faça isso. Tenha paciência, porque nosso Senhor vai voltar e os anjos vão separar o joio do trigo de dentro de nós. O trigo quanto mais cresce, mais ele floresce, e ele se dobra, agora o joio não se dobra. Esta luta dentro de nós deve nos levar a adoração ao Santíssimo Sacramento para nos dobrar diante de nosso Senhor Jesus Cristo. Se vivermos um desses sete pontos buscando a perfeição, com certeza nós vamos nos santificar. Abra-se, pois Jesus quer se revelar a você!

Que devemos fazer?

Como preparar-se para o Natal

Sempre que irrompe diante de nossos olhos a novidade, surgem com ela as interrogações e as provocações a uma reação. Os fatos mais corriqueiros, positivos ou negativos, podem ser compreendidos como sinais que pedem nossa resposta, tanto que um mínimo de consciência pessoal e social causa indignação quando se espalha a indiferença e a insensibilidade. Passar pela rua e ver um acidente de trânsito suscita curiosidade, dela se vai à pergunta sobre as causas, verifica-se a ocorrência de ajuda às pessoas envolvidas, provoca-se a coragem para parar e perguntar se se pode fazer algo. É um processo que pode durar segundos ou horas, mas faz parte de nossa humanidade desejar envolver-se e participar, responder com gestos concretos aos fatos que nos cercam.

Diante do fato mais significativo de toda a história, o mistério do Verbo de Deus encarnado, em torno do qual gira o tempo, não é possível ficar indiferentes. Ao preparar a estrada do mundo e dos corações para a manifestação de Jesus Cristo, seu precursor João Batista (Lc 3,10-18) suscitou na multidão a pergunta que muda a vida: “Que devemos fazer?” Nos tempos que correm, quando a humanidade deve, pela duomilésima décima segunda vez dizer “bem vindo” ao Menino de Belém de Judá, nosso Senhor Jesus Cristo, Redentor da humanidade, repete-se a mesma interrogação. Das respostas dadas por João Batista, colhemos indicações precisas e atuais.

Prepara-se a vinda de Jesus e se estabelece o clima para com ele conviver, quando quem “tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo!” Existem no mundo recursos para uma vida digna de todos os seus habitantes. A natureza pode oferecer o necessário para alimentar sua população. São conceitos de uma “demografia” diferente, que parte da partilha e da comunhão, semelhante à coleta feita por São Paulo: “De fato, quando existe a boa vontade, ela é bem aceita com aquilo que se tem; não se exige o que não se tem. Não se trata de vos pôr em aperto para aliviar os outros. O que se deseja é que haja igualdade: que, nas atuais circunstâncias, a vossa fartura supra a penúria deles e, por outro lado, o que eles têm em abundância complete o que acaso vos falte. Assim, haverá igualdade, como está escrito: Quem recolheu muito não teve de sobra, e quem recolheu pouco não teve falta” (2 Cor 8,12-15). Fala-se tanto de uma crise mundial, e não poucos alertam para sua possível chegada às nossas plagas, e chegará mesmo, porque a era do individualismo, da ganância e do consumo descontrolado veio na frente. Independente das eventuais crises, realiza-se como pessoa humana quem se lança na aventura da partilha e da comunhão!

No tempo de João Batista, “até alguns cobradores de impostos foram para o batismo e perguntaram: Mestre, que devemos fazer? Ele respondeu: Não cobreis nada mais do que foi estabelecido”. Recentemente celebrou-se um dia de movimentação contra a corrupção! De João Batista para cá, as mazelas humanas continuam tendo características semelhantes e as respostas são as mesmas! Se criássemos juízo, nem seriam necessárias as sucessivas operações policiais para a mudança. É hora de retornar à proposta do Evangelho!

“Alguns soldados também lhe perguntaram: E nós, que devemos fazer? João respondeu: Não maltrateis a ninguém; não façais denúncias falsas e contentai-vos com o vosso soldo”. Mais uma vez a atualidade da Palavra se revela. Todos os que detêm algum poder da sociedade podem ouvir e descobrir atual a resposta de João Batista. Se o conselho foi dado aos soldados, que dizer aos que têm parentesco ou conluio com o crime organizado? Que se pode pensar da violência organizada no campo ou na cidade, em nosso Estado e em nosso País? Ou, se voltarmos ao recesso de nosso lar, onde tantas vezes se inicia a corrupção e o relaxamento moral, ali comece a superação da violência!

Santa ingenuidade! Poderão dizer algumas pessoas. É simplória a proposta da Igreja, que pede partilha dos bens, superação da corrupção, amor ao próximo? No entanto, a realidade demonstra que não há caminho mais verdadeiro. Quando o Evangelho diz que “assim e com muitas outras exortações, João anunciava ao povo” (Lc 3,18), fica aberta a conversa, para que cada um de nós pergunte ao Precursor, com coragem para ouvir a resposta, o que deve fazer para receber Jesus, aquele de quem João disse com sinceridade: “Virá aquele que é mais forte do que eu. Eu não sou digno de desatar a correia das suas sandálias. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo. Ele traz a pá em sua mão para limpar a eira, a fim de guardar o trigo no celeiro; mas a palha, ele queimará num fogo que não se apaga” (Lc 3,16-17).

Dom Alberto Taveira Corrêa  
Arcebispo Metropolitano de Belém

 

O que devemos fazer?
Como podemos manifestar de maneira concreta a conversão à qual o Senhor nos chama?

É a pergunta que as diversas situações fazem a João Batista diante da pregação da chegada do Messias, Salvador do Mundo. E João convida a todos à mudança concreta de vida. Essa mudança é para nós demonstrada com a celebração penitencial. Aproximamo-nos da grande solenidade do Natal do Senhor, quando a liturgia nos fará penetrar no mistério do Salvador, que se faz homem para nos redimir e elevar-nos à Sua divina dignidade. Como na noite de Natal, há dois mil anos passados, somos chamados a reconhecer a luz que ilumina as trevas da humanidade, e, reconhecendo-a, acercar-se dela e contemplá-la, a fim de que ela nos ilumine e nos faça partícipes da sua graça. Nessa perspectiva, somos chamados a olhar para o nosso interior e perceber o quanto cada um de nós, de maneira tanto particular quanto comunitária, vive o momento propício que o Tempo do Advento nos proporciona, no qual realizamos a caminhada do Povo de Deus da antiga Aliança, que, na expectativa do Messias, vivencia uma caminhada de penitência, a fim de se preparar para a chegada d’Ele. Precisamente por isso, no tempo do Advento a Igreja celebra o Mistério do Senhor revestida da cor litúrgica roxa, remetendo-nos à penitência e à conversão, chamando-nos a corresponder a esse sinal e a manifestar desse modo que, assim como o povo de Deus de outrora, nós também estamos na expectativa pela chegada do Senhor e desejamos que ela aconteça mediante nossa pureza de coração. No Evangelho do domingo passado, vimos o clamor de João Batista incitando o povo a “aplainar os caminhos do Senhor” e “endireitar suas veredas”. Esse brado veemente que o precursor do Messias exclamava por onde passava, precisamente na iminência da chegada d’Ele, também hoje é dirigido a todo o povo de Deus. Diante dessa certeza, precisamos assumir a nossa responsabilidade e reconhecermo-nos como sendo esse povo, e, desse modo, mergulhar nesse processo de penitência e conversão a que o Senhor, pelos lábios de João Batista, nos convoca. Todavia, como podemos manifestar de maneira concreta a conversão à qual o Senhor nos chama? Certamente é preciso tomar parte de um processo de reconciliação que se inicia no íntimo de cada um de nós. A conclusão desse processo, onde se manifesta a graça salvífica de Cristo, é o Sacramento da Confissão. É por ele que somos reconduzidos ao Senhor e, desta forma, reabilitados na vida da graça. Assim sendo, somos todos convidados a voltar sua atenção para a figura dos pastores, como apresentada na noite de Natal pelos evangelhos. Eles, sempre vigilantes, estavam prontos para caminharem até o Salvador quando da Sua chegada. Precisamente a eles, o anjo do Senhor dirigiu de modo primordial o anúncio alegre e solene da Sua chegada. E este anúncio primordial que os pastores receberam certamente tem sua razão de ser na vigilância em que eles se encontravam na noite em que o Senhor chegou para nós. E nós, até que ponto somos vigilantes? O próprio Senhor, no Evangelho, nos alerta para a necessidade de mantermos tanto a vigilância quanto a oração, pois não sabemos nem o dia nem a horaem que Elevirá. Exatamente por isso, somos todos convidados a observar a importância do Sacramento da Confissão nesse contexto de penitência e conversão que o tempo do Advento nos proporciona. Iniciemos por fazer nosso devido exame de consciência e observemos a figura de Maria, mulher da pureza e da oração, sempre confiante nas promessas do Senhor e a primeira a aderir de todo o coração ao convite do próprio Deus que a escolhera para ser a mãe do Salvador e, assim, colaborar com a salvação de toda a humanidade. Em seguida, olhemos para dentro de nós mesmos e observemos até que ponto nos configuramos ao Senhor, tendo por exemplo a figura de Maria.
Nesse sentido, o nosso convite para que todos reconheçamos no tempo litúrgico do Advento o momento propício para reconciliarmo-nos com Deus, para poder assim acolher generosa e dignamente o Salvador. Os sacerdotes são convidados a assumir o papel de João Batista, anunciando a chegada do Salvador e a necessidade de uma conversão verdadeira, que faça de cada cristão verdadeiras manjedouras onde se reclina o Salvador não só na noite de Natal, mas durante toda a caminhada da vida. Os padres assumem o papel de “aplainar a caminho do Senhor” na vida de quantos lhes são confiados, tendo a viva consciência de que são os mediadores da graça sacramental e de que depende largamente de sua eficiente ação pastoral a reconciliação do povo com o seu Deus. Precisamente por isso, sabendo do valioso momento dos “mutirões de confissões” em todas as paróquias, seria muito importante neste tempo que em todas as paróquias, institutos religiosos, oratórios, comunidades diversas seja ministrado de modo mais frequente o sacramento da Penitência, de maneira auricular, criando-se para isso horários condizentes com as realidades pastorais em que estão inseridos, não se medindo os esforços necessários para que o maior número de fiéis aproxime-se desse sacramento por meio do qual são reconduzidos à vida da graça. Ainda mais neste Ano da Fé será importante essa missão nas Igrejas de “peregrinação” para obter as indulgências. Reconheçamos no Senhor que está para chegar a “luz” que ilumina a nossa escuridão e nos dá a conhecer a maravilha que Ele traz: a felicidade eterna, a nossa Salvação. Nesta perspectiva, observemos como caminha nossa sociedade nesse período de aproximação do Natal e vejamos que em não poucos ambientes o protagonismo de Cristo, como “o esperado” na noite santa, “o aniversariante” que dá sentido a toda esta comemoração, está sendo cada vez mais ofuscado nos corações e nas vidas de tantas pessoas. Esse “pecado social” certamente possui uma dimensão particular que toca a cada um de nós, porquanto nos faz enxergar que se Cristo está sendo esquecido pela nossa sociedade, há uma parcela de culpa em cada cristão. Precisamente por isso, é preciso que nos reconheçamos pecadores, pois indiretamente somos carentes de um testemunho eficaz que manifeste ao mundo a beleza e a razão de ser do Nascimento do Salvador. Poderíamos, a partir dessa constatação, iniciar o nosso exame de consciência. A nossa pequenez nos convida a uma reflexão aprofundada, por meio da qual devemos eliminar de nossa vida tudo o que reconheçamos nos afastar de Deus. E o façamos de modo concreto, recorrendo ao Sacramento da Confissão. Enfim, voltemos novamente o nosso olhar para a figura dos pastores e reconheçamos neles a figura do cristão que vive “acordado” e a quem pode chegar a mensagem solene do anjo na noite santa. Precisamente porque os pastores estavam acordados, a eles chegou a notícia que a humanidade esperava, e diante deles os anjos apareceram entoando louvores a Deus por tão grande evento. Estar acordados significa estar despertados para a realidade objetiva, não se fechando em um mundo particular, onde só existe lugar para nossos próprios impulsos e inclinações. Conduzidos por essa visão particular da vida, muitos mergulham no egoísmo e fecham-se para a liberdade própria da boa-nova de Cristo. Estar acordados, ou melhor, “estar vigilantes”, significa sair do mundo particular e abraçar a Verdade que é o próprio Cristo, que caminha ao nosso encontro e chegará de maneira solene e intensa na liturgia do Natal que estamos a esperar. É neste sentido que o nosso despertar para o Natal do Senhor concretiza-se quando nos conscientizamos da realidade de que é preciso abandonar o pecado, deixar de lado tudo o que nos afasta de Deus, realizar um sincero e compromissado exame de consciência e mergulhar na graça do Sacramento da Confissão. O mesmo Cristo cujo nascimento celebraremos na noite do Natal do Senhor é o que nos espera nos confessionários. E a luz que guiou outrora os magos do Oriente no seu caminho a Belém para adorar o Messias é a mesma que deseja guiar a nossa vida se lhe formos ao encontro. Deste modo, enquanto povo de Deus que na liturgia do Tempo do Advento caminha rumo à chegada do Salvador, vivenciamos um tempo de penitência que não deve ser próprio somente da liturgia, mas da nossa vida de maneira completa. Por isso, não tenhamos medo, não recusemos tomar parte dentre os que buscam o Sacramento da Confissão, afim de que, iluminados pela estrela de Belém, sejamos manjedouras onde o Senhor dignamente quer se reclinar na noite santa do seu Natal.

† Orani João Tempesta, O. Cist.  
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

Advento, tempo de faxina interior

Estamos no tempo do cuidado na vida espiritual

As estações da natureza nos ensinam a reconciliar em nosso coração o tempo dos mistérios que abraçam nossa fé. Advento é o tempo da espera. Ainda não é Natal, mas antecipa a alegria desta festa. Viver cada tempo litúrgico com o coração é um jeito nobre de não adiantar um tempo que ainda não chegou. Na sobriedade que este tempo litúrgico exige, vamos tecendo a colcha das alegrias do Cristo que vem ao nosso encontro.

Esperar é uma alegria antecipada de algo que ainda não chegou. A mulher grávida vive na alma a felicidade antecipada pela vida que, em seu ventre, vai sendo gerada no tempo que lhe cabe. A natureza cumpre o ritual das estações para que cada tempo seja único. Os casais apaixonados esperam o momento do encontro. As famílias organizam a casa no cuidado da espera dos parentes que vão chegar. Esperar é uma metáfora do cotidiano da vida. No contexto do Advento, a espera ganha tonalidades alegres e sóbrias.

Casa mal arrumada não é adequada para acolher os amigos e familiares que irão chegar. Jardim sujo não pode se tornar um canteiro para novas sementes. Esperar é também tempo de cuidado, tempo de organização. No tempo da espera, o tempo do cuidado na vida espiritual. Chegando ao final de mais um ano, muitos corações se encontram totalmente bagunçados. Raivas armazenadas nos potes da prepotência, mágoas guardadas nas gavetas do rancor, amizades sendo consumidas pelo micro-ondas da inveja, tristezas crescendo no jardim da infelicidade, violência sendo gerada no silêncio do coração.

Enquanto as lojas fazem o balanço, somos convidados a fazer o balanço de nossa situação emocional. No balancete da vida, o amor deve sempre ser o saldo positivo que nos impulsiona a sermos mais humanos a cada dia.

Casa mal arrumada não é local adequado para receber quem nos visita. Coração bagunçado dificilmente tem espaço para acolher quem chega. Neste tempo do advento, a faxina da espera deve remover as teias de aranha dos sentimentos que estacionaram em nossa alma. O pó que asfixia o amor deve ser varrido. Tempo novo exige um coração novo.

Jesus, com Seu amor sem limites, adentrava o coração de cada pessoa e fazia uma faxina de amor, abria as janelas da vida que impediam cada pessoa de ver a luz de um novo tempo chegar, devolvia às flores já secas pelas dores e tristezas as alegrias da ressurreição, semeava nos sertões sem vida as sementes do amor e da paz.

No Advento da Vida, as estações do coração se tornam tempo propício para limpar os quartos da alma à espera do Cristo que vem. Se o jardim do coração estiver sendo cuidado, as sementes da esperança irão germinar no tempo que lhes cabe e o Amor irá nascer nas alegrias da chegada.

Padre Flávio Sobreiro

As linguagens do amor no relacionamento

Conhecimento

Podemos ter dificuldades de entender a forma de amar e ser amado no relacionamento

Deus é tão perfeito que fez cada um de nós de um jeito diferente. Ele é único ao nos criar; logo, somos também únicos. Ouvi um “graças a Deus”?

Ao nos criar, o Senhor nos dotou com um jeito de receber e dar amor. Agora, somemos isso à educação familiar de cada um, ou seja, à maneira como a mãe, o pai e os irmãos nos amaram. Adicionemos também a nossa maneira de nos relacionarmos com os amigos, com os colegas, os professores etc. Juntando tudo isso, teremos uma noção de como, no decorrer de nossa história, fomos sendo educados no amor. Cada um dá sua parcela e age de determinada forma, e nós reagimos de outra!

Em algumas famílias, por exemplo, o jeito de amar é todos se sentarem à mesa e passarem horas a fio na refeição, trocando ideias do que cada um vive e sente. Para outras, amar é estar na varanda com seus pratos super à vontade conversando alto e tal. Cada um foi amado de um jeito e respondeu de outro. Isso é bonito, pois diz de nossa identidade. Não há como falar que um é melhor que o outro, são jeitos diferentes e pronto!

Quando trazemos tudo isso para o namoro, podemos ter dificuldades de entender a forma de amar e ser amado do outro! E aí, meu amigo, nada sairá da maneira como pensávamos. Assim, se não entendemos a maneira como ela se sente amada, podemos pensar que estamos “abafando” ao enviar uma carta a ela, quando, na verdade, ela está mais interessada no tempo que passaremos juntos do que aquilo que escrevemos na carta.

Para mim, amar é dar algo que esteja cheio de afeto; mas, para ela, se sentir amada está na quantidade e na qualidade do tempo que passamos juntos.

Cada ser humano nasce com uma forma de identificar, dar e receber amor. No livro ‘As cinco linguagens do amor’, de Gary Chapman, ele, após várias experiências em encontros com casais, disse que “o amor não apresenta uma linguagem universal, mas cada um tem a sua ‘linguagem de amor’”. Desse modo, elencou cinco delas e cada uma possui certos “dialetos”, ou seja, uma maneira concreta com que essa linguagem se expressa!

Sabendo e acreditando que a pessoa humana é um eterno mistério e que somos muito diferentes uns dos outros, creio que temos muitas outras linguagens de amor e que cada um pode viver seu próprio “idioma”. Mas é bacana a reflexão feita por Chapman, nesse livro, valendo a pena termos como referência as cinco linguagens e, quem sabe, na aventura de se descobrir e descobrir o outro, você não encontrará outras, não é?

Falar em nosso “idioma de amor” para alguém é o mesmo que ler um livro inteiro em alemão, sem nunca ter tido contato com a língua. Ninguém vai entender nada!

O primeiro passo, num relacionamento, é identificar a nossa linguagem e, em seguida, descobrir a linguagem da pessoa que namoramos. Com isso, é possível expressar nosso amor de forma que ela se sinta amada e também fazê-la perceber sua própria linguagem, a fim de que ela descubra, de forma efetiva, nossa expressão de amor por ela. Ufa! Achou complicado? Mas não o é. Esteja atento à sua maneira de amar e como se sente amado; perceba como ela o ama e como se sente amada!

Segundo Chapman, as cinco linguagens são (lembrando que não há determinismos):

Palavras de afirmação: são sentenças expressas em elogios. Os dialetos são falas como “Nossa, você está linda!”; afirmações do tipo: “Você é bem verdadeira!”; e incentivos como “Eu acredito em você”.

Qualidade de tempo: é a dedicação de um tempo exclusivo ao outro, ainda que esse seja curto. As expressões ou dialetos podem ser: conversar com qualidade, passear, assistir a filme juntos, acordar mais cedo para ir à Missa das sete quando você poderia ir à das onze, porque ela, devido aos trabalhos da faculdade, não poderá ir mais tarde à Celebração Eucarística. Assim, ela perceberá seu “sacrifício” e se sentirá lisonjeada.

Presentes: o que menos importa é o valor financeiro. Dialetos: colher uma flor, comprar uma pizza, dar uma joia… Uma maneira de se fazer presente é pegar um guardanapo da lanchonete, no dia de prova da faculdade, e escrever: “A prova foi difícil, mais é fácil provar para você que a amo”.

Gestos de serviços: uma atitude sua fala mais que qualquer palavra. Dialetos: lavar a louça na casa dos pais dela depois do almoço de domingo, consertar a fechadura, levar o lixo para fora, abrir a porta do carro para ela entrar etc.

Toque físico: o importante é saber quando, como e onde tocar a pessoa. Dialetos: beijos, abraços, cutucão com o cotovelo, mão no ombro, relações sexuais (no casamento, né!) etc. Lembre-se: tocar com amor, sem querer usá-la. A castidade é possível até na maneira como tocamos o outro.

Todos nós temos uma linguagem principal. Ainda que você diga “eu te amo”, nas outras quatro linguagens, sua namorada continuará se sentindo indiferente às suas ações, pois a linguagem dela pode ser outra, como a de tempo, e não de afirmação, por exemplo.

O bacana é usar a linguagem correta, constantemente, e aperfeiçoar-se em conhecer, a cada  dia, todas as formas ou todos os dialetos pelos quais sua expressão é entendida da forma mais concreta.

Experimente: o amor é incrível e os resultados ainda mais! Qual sua linguagem de amor? Qual sua jeito de se sentir amado? Qual a maneira de o outro se sentir amado e amar?

Tratei essas linguagens pensando em nós, homens, para as mulheres. Mas você, mulher, tem de saber que nós, homens, temos as mesmas linguagens, só mudam os dialetos.

Conhecendo a linguagem de amor de nossa namorada, fica mais fácil encontrar o caminho para chegar ao coração dela. Saiba que, no namoro, não é necessário sexo para dizer que ama alguém! O sexo terá sua linguagem própria no casamento. Você é bem mais que um ato!

Adriano Gonçalves

A morte na mídia…

Despudorada e gananciosa como mulher de lupanar, a imprensa consegue turbinar a dor provocada pela morte
Ucho Haddad

A morte é um ato inevitável no palco da vida. O último deles. Todos sabem disso, mas preferimos fingir desconhecimento por causa da dor causada pela ausência. É melhor assim, pois do contrário a vida perderia a graça, seria tomada pela contínua preocupação com o fim. Disse o poeta e astrólogo romano Marcus Manilius: “Começamos a morrer no momento em que nascemos, e o fim é o desfecho do início”. Manilius tinha razão. O fim é a cortina do prelúdio, é o fim de um começo sem fim. O tempo é o senhor da razão. Transmuta-se em verdade. O problema maior é encará-la, porque por vezes ela é maior que a nossa capacidade de suportar, de compreender, de aceitar.

Algumas verdades sempre ecoarão como mentiras dentro de cada um. Há quem garanta que o tempo cicatriza as úlceras da alma, cura os arranhões do coração. Pode ser, mas não tenho certeza. Creio que o tempo se incumbe de colocar pensamentos e sentimentos complexos, dolorosos e mais doloridos, em um compartimento equidistante da razão e da emoção. Mas é um serviço sem garantia eterna. Em algum momento, mesmo que por curto tempo, o pensamento volta e causa uma revolução. Eis o que faz da imperfeição humana algo interessante e, muitas, vezes, prazeroso. Somos feitos também de sentimentos.

Algumas pessoas entram e saem das nossas vidas como o abrir e fechar da porta de um “saloon” de faroeste. Algumas entram porque queremos, mas saem sem que saibamos a razão. Algumas entram e ficam, deixando lembranças, ensinamentos, saudades. Há as que entram nas nossas vidas e as levamos para sempre, até o outro lado da vida, para a eternidade. Se é que isso de fato existe. O importante é que essas pessoas, as que entram e levamos, ficam de maneira especial, em lugar especial dentro de nós.

A involução do ser humano patrocinou, com o passar do tempo, a banalização da morte. Como nominei um dos meus tantos artigos, a morte é um espetáculo midiático. Os comunicadores encontraram nesse mórbido nicho uma incansável cornucópia. Afinal, o calvário alheio funciona como o éter que anestesia a dor e os problemas daqueles que alimentam esse tipo de negócio. E essa fórmula covarde e milagreira precisa ser vendida aos bolhões. Um dia, esses serão o anestésico da próxima leva de desumanos.

A vida é assim, é cíclica. É com a morte que a vida aciona a sua essência ciclotímica. Em tempos outros, alguém inventou que a vida do ser humano tinha um prazo máximo de validade. Cem anos. Quem fosse antes era alvo de uma frase quase lapidar: “morreu tão cedo!”. Não se morre cedo ou tarde, apenas morre-se. A dolorosa linha do tempo será de responsabilidade dos que ficaram. Esses definirão se foi cedo ou tarde. Nunca é tarde, por mais que a razão nos sussurre o oposto. Essa invenção que surgiu do nada ganhou força e foi ficando.

Tanto é assim, que quando alguém ultrapassa a casa dos cem anos a comemoração é maior. Dependo do grau de notabilidade do aniversariante, o centenário vira manchete, entra para o livro dos recordes. Não importa se a morte ocorre aos 20 ou aos 100. É morte e quem fica sofre. O sofrimento tende a mergulhar em um processo de auto-absorção, mas o período para que isso ocorra depende de cada um, da forma de reagir e de enfrentar a realidade. Certas pessoas não morrem, apenas saem de cena. Continuam no palco do nosso imaginário, nas coxias das nossas lembranças, nos bastidores do nosso pensamento.

Contudo, há um detalhe no cenário de morte que a faz ainda mais dolorida e difícil de administrar. A forma como ela ocorre. E é por isso que insisto em criticar o sensacionalismo midiático que tomou conta da tragédia ocorrida em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, assim como em outras tantas que marcaram a história. Há mortes que são aguardadas, o que não as tornam menos duras e difíceis para os que ficam. Mas a cicatrização da dor é mais célere, talvez menos vagarosa. Há mortes inesperadas, que ocorrem do nada e sem explicação. Como alguém que dorme e não acorda. Quem fica “só” precisa encarar a morte como uma realidade inevitável e administrar a dor que ela provoca.

A morte que ocorre no vácuo de uma tragédia é diferente. Traz na receita da dor um ingrediente a mais, teimoso, disposto a ficar incomodando durante muito tempo, talvez durante a vida toda, até chegar a nossa vez. Qual é esse ingrediente? Imaginar como tudo aconteceu. É o movimento natural do pensamento de quem perdeu uma pessoa querida. Quem está noticiando o fato quer saber do ineditismo, da exclusividade, do furo de reportagem, dos índices de audiência, o quanto o sensacionalismo renderá em termos financeiros. Não se pensa em momento algum na dor de quem fica. Na dor que fica. Para ser mais claro, cito como exemplo a reportagem feita dentro da boate que foi consumida pelo fogo em Santa Maria e tirou a vida de 231 pessoas, na maioria jovens.

O que essas imagens sórdidas, exibidas como troféu, podem acrescentar em termos jornalísticos na história de um veículo de comunicação, no currículo de um jornalista ou repórter? Nada, absolutamente nada. O que podem as imagens subtrair daqueles que perderam seus familiares na tragédia? Muito! Elas tiram o sono, o sossego da alma, o pouco que restou da alegria de viver, a dignidade daqueles que ficaram. Dos que esperaram um retorno que não aconteceu. Situação idêntica ocorreu nos acidentes da Gol, da TAM e da Air France.

Para que serviram as imagens feitas na selva brasileira, no aeroporto da capital paulista, nas águas do Atlântico? Serviram para deixar dentro de cada um que perdeu alguém querido um oceano de dúvidas, um matagal de conjecturas, que jamais terão um pouso seguro no rasar da mente. Por certo alguém me acusará de falso pudor, mas hei de não me incomodar com ataques. Entre as tantas críticas que recebi de desafetos profissionais, saqueadores da honra alheia, a de não ter diploma universitário, e por isso não poder exercer o jornalismo, foi uma das mais banais.

Questionados, alguns detratores responderam que só o banco da faculdade é capaz de ensinar como atuar e se comportar como um profissional da notícia. Que dentro do canudo que se recebe no final do curso vem, além do diploma, importantes lições de ética. Mentira! As reportagens que foram levadas ao ar a partir de Santa Maria provaram o contrário. As imagens macabras não deixaram dúvidas sobre isso. Ética não se aprende sentado no banco da escola. Conquista-se no berço, no ventre materno, vem no DNA, desenvolve-se no seio familiar. Bom senso não se compra no armazém da esquina mais próxima.

Coerência não está disponível nas prateleiras dos supermercados com uma infinidade de sabores e cores. A diferença está entre transformar-se em jornalista e nascer jornalista. Pode parecer pouco, mas não é. Quem nasce jornalista traz o ofício incrustado na alma. Quem transforma-se em jornalista escora a profissão no sindicato pelego da categoria, que dá ao incauto e soberbo um número rebuscado, como se fosse mais uma vítima do holocausto da imprensa. Entre ofício e profissão há uma monumental distância.

Jornalismo é meu ofício. E eu nasci jornalista. É por isso que respeito a dor alheia e me recuso a embarcar no sensacionalismo barato e chicaneiro, que serve apenas e tão somente para entupir os cofres dos veículos de comunicação e saquear a dignidade de quem sofre. Por sorte Deus me presenteou com a capacidade de escrever e me livrou da obrigação de gastar o suado dinheiro para desaprender o que um saudoso e humilde engraxate me ensinou.

Eliminando os maus vícios

Para manter-se fiel é preciso ser coerente

Nossa vida nem sempre está preparada para acolher novidades, projetos novos, etc. A vida pode ser comparada a um campo virgem; no momento em que se deseja plantar nele, é preciso prepará-lo bem. O agricultor, que somos nós, prepara o terreno, busca fertilizar a terra e só depois planta os grãos. Enquanto não era fértil, nada nele crescia, mas agora que o terreno é bom, nele também podem crescer sementes de outras plantas que não foram semeadas, que estavam ali antes do solo ser adubado e que colocam em risco a boa semente. Assim também acontece com um ideal.

Ao lado de um ideal, surgem também vícios e hábitos adquiridos antes dele, os quais, se não forem combatidos, acabam por ferir ou mesmo destruir todo o objetivo, todo o projeto e, por fim, toda a vida. Não é possível cultivar costumes de naturezas diversas no mesmo campo. No Evangelho de Mateus (Mt 13), encontramos a parábola do semeador e vemos os riscos que a semente corre para seu desenvolvimento, porque o terreno está cheio de hostilidades. Se os espinhos crescem ao lado da boa semente, podem vir a sufocá-la. O ideal, que é a semente, era boa; a terra era de boa qualidade e fertilizada, mas as pragas do campo terminaram por sufocar a semente.

O bom trigo não cresce onde os espinhos não são arrancados. Por isso, se não arrancamos de nós os hábitos contrários aos nossos projetos, eles acabarão sufocando aquilo que de bom estávamos cultivando. Ao lado de um ideal sempre crescem seus opostos; se algo é exigente, a preguiça e a distração logo se achegam como uma força contrária que impulsiona a abandonar tudo. Podemos ter os melhores projetos e propósitos, mas se não estivermos atentos às vozes contrárias que se insinuam, desorganizam nossa vida e enfraquecem nossas determinações, teremos nosso terreno, onde foi semeado o bom trigo, transformado em um grande matagal de espinhos; pior ainda quando se termina por apenas justificar a infidelidade e abandonar o terreno.

É sempre muito forte em nós um hábito antigo, um vício, etc. Se não ficarmos atentos, podemos, depois de ter trabalhado tanto, ter nosso terreno transformado em selva. Imagine tanto tempo e esforço investido em algo que, depois, termina em nada, porque faltou o último esforço. Parecendo com alguém que prepara um bolo e, depois, o deixa queimar no forno, perdendo, assim, os ingredientes e o esforço, ainda sobrando a fôrma para ser lavada.

Um exemplo disto nos dá São Paulo (1Cor 9,24-25) “Correi de tal maneira que conquisteis o prêmio. Todo atleta se impõe todo tipo de disciplina. Eles assim procedem para conseguir uma coroa corruptível. Quanto a nós, buscamos uma coroa incorruptível”.

Não se compreende alguém que, desejando um casamento feliz, não procura crescer nas qualidades necessárias para um bom matrimônio e termina por destruí-lo apenas por não ter lutado contra os hábitos incompatíveis a ele. Ou alguém que, num momento de dificuldade, não busca adequar seu jeito de ser ou comportamento, de tal forma que possa superar o problema. A boa disposição deve comportar a capacidade de privar-se daquilo que é menor que o ideal, de tal forma a poder conquistá-lo. Não é possível ficar com a melhor parte de tudo.

Para manter-se fiel e perseverante é preciso ser coerente. Quando se propõe uma meta, um ideal de vida e um crescimento é preciso limpar a alma do vício que lhe é contrário. Interessante que uma gota de veneno em um copo de água limpa torna toda a água um veneno; mesmo a proporção do mal sendo pequena, ele é sempre nocivo. É preciso escolher. Não pode haver incompatibilidade entre os ideais e os meios para atingi-los. Devemos rejeitar tudo que é incompatível com nosso ideal de vida para conseguirmos realizá-lo um dia. Uma vez que se deseja algo também é preciso desejar os meios corretos que conduzem a ele, mesmo que existam incômodos que, se rejeitados, conduziriam o ideal ao fracasso.

Padre Antônio Xavier – Comunidade Canção Nova
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