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“Cristo nos dá força para nos levantarmos”

Francisco durante a oração do Regina Coeli – ANSA
28/03/2016

Cidade do Vaticano (RV) – Na primeira recitação do Regina Coeli deste ano, a oração mariana que substitui o Angelus até a Festa de Pentecostes, o Papa disse que “nossos corações ainda estão repletos da alegria pascal” nesta segunda-feira depois da Páscoa, chamada “Segunda-feira do Anjo”.

“A vida venceu a morte. A Misericórdia e o amor venceram o pecado! Há necessidade de fé e de esperança para se abrir a este novo e maravilhoso horizonte. E nós sabemos que a fé e a esperança são um dom de Deus, e devemos pedir a Ele: ‘Senhor, doai-me a fé, doai-me a esperança! Precisamos tanto!’ Deixemo-nos invadir pelas emoções que ressoam na sequência pascal: ‘Sim, estamos certos: Cristo ressuscitou verdadeiramente. Ele está vivo no meio de nós’”, recordou Francisco.

Cristo, força para se reerguer

“Esta verdade marcou indelevelmente as vidas dos Apóstolos – continuou o Pontífice – que, depois da ressurreição, sentiram novamente a necessidade de seguir o seu Mestre e, recebido o Espírito Santo, saíram sem medo para anunciar a todos o que tinham visto com seus próprios olhos e experimentado pessoalmente”.

“Se Cristo ressuscitou, podemos olhar com olhos e corações novos a todos os eventos da nossa vida, até mesmo aqueles mais negativos. Os momentos de escuridão, de fracasso e pecado podem se transformar e anunciar um caminho novo. Quando chegamos ao fundo da nossa miséria e da nossa fraqueza, Cristo ressuscitado nos dá a força para levantarmos”, encorajou o Papa.

O silêncio de Maria

“O Senhor crucificado e ressuscitado é a plena revelação da misericórdia – afirmou ainda o Papa – presente e ativa na história. Esta é a mensagem pascal que ainda ressoa hoje e que vai ressoar em todo o tempo da Páscoa até Pentecostes”.

Ao falar novamente do silêncio e da espera de Maria pela ressurreição, que permaneceu aos pés da Cruz e não se dobrou diante da dor, ao contrário, a fé de Nossa Senhora a tornou ainda mais forte, Francisco disse:

“No seu coração dilacerado de mãe permaneceu sempre acesa a chama da esperança. Peçamos a Ela que também nos ajude a aceitarmos plenamente o anúncio pascal da Ressurreição, para encarná-lo na realidade de nossas vidas diárias”, pediu o Papa, para então concluir:

“Que a Virgem Maria nos dê a certeza da fé que, cada passo sofrido do nosso caminho, iluminado pela luz da Páscoa, se tornará bênção e alegria para nós e para os outros, especialmente para aqueles que sofrem por causa do egoísmo e da indiferença”. (rb/sp)

A espiritualidade da Sexta-feira Santa

Dar a vida pelos outros como o Senhor deu a vida dEle por nós

Neste dia, que os antigos chamavam de “Sexta-feira Maior”, quando celebramos a Paixão e Morte de Jesus, o silêncio, o jejum e a oração devem marcar este momento. Ao contrário do que muitos pensam, a Paixão não deve ser vivida em clima de luto, mas de profundo respeito e meditação diante da morte do Senhor que, morrendo, foi vitorioso e trouxe a salvação para todos, ressurgindo para a vida eterna.

É preciso manter um “silêncio interior” aliado ao jejum e à abstinência de carne. Deve ser um dia de meditação, de contemplação do amor de Deus que nos “deu o Seu Filho único para que quem n’Ele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). É um dia em que as diversões devem ser suspensas, os prazeres, mesmo que legítimos, devem ser evitados.

Uma prática de piedade valiosa é meditar a dolorosa Paixão do Senhor, se possível diante do sacrário, na igreja, usando a narração que os quatro evangelistas fizeram.

Outra possibilidade será usar um livro para meditação como “A Paixão de Cristo segundo o cirurgião”, no qual o Dr. Pierre Barbet, francês, depois de estudar por mais de vinte anos a Paixão, narra com detalhes o sofrimento de Cristo. Tudo isso deve nos levar a amar profundamente Jesus Crucificado, que se esvaziou totalmente para nos salvar de modo tão terrível. Essa meditação também precisa nos levar à associação com a Paixão do Senhor, no sentido de tomar a decisão de “gastar a vida” pela salvação dos outros. Dar a vida pelos outros, como o Senhor deu a Sua vida por nós. “Amor só se paga com amor”, diz São João da Cruz.

A meditação da Paixão do Senhor deve mostrar-nos o quanto é hediondo o pecado. É contemplando o Senhor na cruz, destruído, flagelado, coroado de espinhos, abandonado, caluniado, agonizante até a morte, que entendemos quão terrível é o pecado. Não é sem razão que o Catecismo diz que pecado é “a pior realidade para o mundo, para o pecador e para a Igreja”. É por isso que Cristo veio a este mundo para ser imolado como o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Só Ele poderia oferecer à Justiça Divina uma oblação de valor infinito que reparasse todos os pecados de todos os homens de todos os tempos e lugares.

O ponto alto da Sexta Feira Santa é a celebração das 15 horas, horário em que Jesus foi morto. É a principal cerimônia do dia: a Paixão do Senhor. Ela consta de três partes: liturgia da Palavra, adoração da cruz e comunhão eucarística. Nas leituras, meditamos a Paixão do Senhor, narrada pelo evangelista São João (cap. 18), mas também prevista pelos profetas que anunciaram os sofrimentos do Servo de Javé. Isaías (52,13-53) coloca, diante de nossos olhos, “o Homem das dores”, “desprezado como o último dos mortais”, “ferido por causa dos nossos pecados, esmagado por causa de nossos crimes”. Deus morreu por nós em forma humana.

Neste dia, podemos também meditar, com profundidade, as “Sete Palavras de Cristo na Cruz” antes de sua morte. É como um testamento d’Ele:

“Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem” “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso” “Mulher, eis aí o teu filho… Eis aí a tua Mãe” “Tenho Sede!” “Eli, Eli, lema sabachtani? – Meus Deus, meus Deus, por que me abandonastes?” “Tudo está consumado!” “Pai, em tuas mãos entrego o meu Espírito!”.

À noite, as paróquias fazem encenações da Paixão de Jesus Cristo com o sermão da descida da cruz; em seguida, há a Procissão do Enterro, levando o esquife com a imagem do Senhor morto. O povo católico gosta dessas celebrações, porque põe o seu coração em união com a Paixão e os sofrimentos do Senhor. Tudo isso nos ajuda na espiritualidade deste dia. Não há como “pagar” ao Senhor o que Ele fez e sofreu por nós; no entanto, celebrar com devoção o Seu sofrimento e morte Lhe agrada e nos faz felizes. Associando-nos, assim, à Paixão do Senhor, colheremos os Seus frutos de salvação.

Felipe Aquino
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Entenda o significado do beijo na Cruz na Sexta-feira Santa

Em todo o ano, existe somente um dia em que não se celebra a Santa Missa: a Sexta-Feira Santa. Ao invés da Missa temos uma celebração que se chama Funções da Sexta-feira da Paixão, que tem origem em uma tradição muito antiga da Igreja que já ocorria nos primeiros séculos, especialmente depois da inauguração da Basílica do Santo Sepulcro e do reencontro da Santa Cruz por parte de Santa Helena (ano 335 d.C.).

Esta celebração é dividida em três partes: a primeira é a leitura da Sagrada Escritura e a oração universal feita por todas as pessoas de todos os tempos; a segunda é a adoração da Santa Cruz e a terceira é a Comunhão Eucarística, juntas formam o memorial da Paixão e Morte de Nosso Senhor. Memorial não é apenas relembrar ou fazer memória dos fatos, é realmente celebrar agora, buscando fazer presente, atual, tudo aquilo que Deus realizou em outros tempos. Mergulhamos no tempo para nos encontrarmos com a graça de Deus no momento que operou a salvação e, ao retornarmos deste mergulho, a trazemos em nós.

Os cristãos peregrinos dos primeiros séculos a Jerusalém nos descrevem, através de seus diários que, em um certo momento desta celebração, a relíquia da Santa Cruz era exposta para adoração diante do Santo Sepulcro. Os cristãos, um a um, passavam diante dela reverenciando e beijando-a. Este momento é chamado de Adoração à Santa Cruz, que significa adorar a Jesus que foi pregado na cruz através do toque concreto que faziam naquele madeiro onde Jesus foi estendido e que foi banhado com seu sangue.

Em nosso mundo de hoje, falar da Adoração à Santa Cruz pode gerar confusão de significado, mas o que nós fazemos é venerar a Cruz e, enquanto a veneramos, temos nosso coração e nossa mente que ultrapassa aquele madeiro, ultrapassa o crucifixo, ultrapassa mesmo o local onde estamos, até encontrar-se com Nosso Senhor pregado naquela cruz, dando a vida para nos salvar. Quando beijamos a cruz, não a beijamos por si mesma, a beijamos como quem beija o próprio rosto de Jesus, é a gratidão por tudo que Nosso Senhor realizou através da cruz. O mesmo gesto o padre realiza no início de cada Missa ao beijar o Altar. É um beijo que não para ali, é beijar a face de Jesus. Por isso, não se adora o objeto. O objeto é um símbolo, ao reverênciá-lo mergulhamos em seu significado mais profundo, o fato que foi através da Cruz que fomos salvos.

Nós cristãos temos a consciência que Jesus não é apenas um personagem da história ou alguém enclausurado no passado acessível através da história somente. “Jesus está vivo!” Era o que gritava Pedro na manhã de Pentecostes e esse era o primeiro anúncio da Igreja. Jesus está vivo e atuante em nosso meio, a morte não O prendeu. A alegria de sabermos que, para além da dolorosa e pesada cruz colocada sobre os ombros de Jesus, arrastada por Ele em Jerusalém, na qual foi crucificado, que se torna o símbolo de sua presença e do amor de Deus, existe Vida, existe Ressurreição. Nossa vida pode se confundir com a cruz de Jesus em muitos momentos, mas diante dela temos a certeza que não estamos sós, que Jesus caminha conosco em nossa via sacra pessoal e, para além da dor, existe a salvação.

Ao beijar a Santa Cruz, podemos ter a plena certeza: Jesus não é simplesmente um mestre de como viver bem esta vida, como muitos se propõem, mas o Deus vivo e operante em nosso meio.

Sábado Santo

Por Pe. Fernando José Cardoso

Em nosso Credo Apostólico, recitamos: “Padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu à mansão dos mortos”. O que significa: “Desceu à mansão dos mortos?” Para muitos um artigo de fé inútil, ocioso, ou quem sabe, um resquício de uma mitologia antiga, com a qual não mais se convive na modernidade. No entanto este artigo de fé, bem entendido, é profundo! A nossa sociedade moderna e contemporânea se parece bem à um Sábado Santo. Jesus foi morto! Descido da cruz e sepultado. “Deus morreu!”, gritava o filósofo Nietzsche, nos albores do século XX. A partir de então, a humanidade alegre, divertida e experimentando uma certa maioridade, tenta assumir as rédeas do próprio destino sem Deus. A presença de um sem número de atuantes religiosos, a presença de um sem número de agnósticos e céticos, um sem número de ateus, que recusam completamente Deus, recusam a transcendência, recusam qualquer religião e tenta transformar a sociedade secularizada, Eis o mistério do Sábado Santo. Deus morreu, nós O matamos, O sepultamos e podemos construir agora, tendo atingido a nossa maioridade, uma humanidade, uma sociedade sem Deus, sem os valores tradicionais da Igreja, sem os parâmetros qualquer da moral religiosa. A morte é um mistério para cada um de nós, porque aqueles que por ela transitaram, de lá não voltaram. Nós não a conhecemos, a não ser externamente e superficialmente. No entanto, a morte pode ser definida como a suprema solidão, e de fato, cada um morre completamente abandonado. A morte pode também ser contemplada, como aquela realidade onde não penetra mais nenhum som, voz ou mão amiga, afeto ou amor. Cada um morre a sua própria morte em total solidão, e os outros todos, mesmos os mais chegados ficam no exterior, não podem descer conosco à mansão dos mortos. Mas exatamente lá, onde cada um encontraria de direito o reino da solidão e silêncio total, Jesus, ao descer à mansão dos mortos. Eis o mistério do Sábado Santo: injetou vida no coração da morte. Jesus, ao descer à mansão dos mortos, transformou a morte desde dentro, para que ela pudesse ser Passagem, Páscoa, para uma plenitude de vida que chamamos de Vida Eterna. Ele foi ao âmago da extrema solidão de cada um de nós, para que lá, onde ninguém nos atinge, encontrássemos a Sua mão amiga que nos conduz à Eternidade de Deus.

 

Jesus penetra no mundo da morte, no domínio do mal, onde reinam o pecado, o demônio e todos os males que afligem a humanidade. Ele não só morreu por nossos pecados, mas também, “pela graça de Deus, provou a morte em favor de todos os homens” (Hb 2, 9). E Ele sai vitorioso. Às santas mulheres, que vão ao túmulo para visitá-lo e assim prestar uma homenagem Àquele que morreu na Sexta-feira, não lhes ocorria de modo algum a sua ressurreição. Elas se interrogam: “Quem nos rolará a pedra?”, e o evangelista s. Mateus responde: “O anjo fez rolar a pedra”. O que se salienta é o poder divino todo-poderoso, que vai muito além das impossibilidades humanas. Tudo conduz ao reconhecimento que a Ressurreição é iniciativa do Pai. São Jerônimo declara: “Nosso Senhor que é um só e único Filho de Deus e Filho do homem, segundo suas duas naturezas, a divina e a humana, se revela seja por sinais de sua grandeza, seja por aqueles de sua humildade. O ministério dos anjos, desde sua natividade, demonstra que Ele é Deus (…). Um anjo vem como guardião do sepulcro do Senhor, e suas vestes brancas exprimem a glória do Triunfador”. Os anjos são anunciadores, que desaparecem tão logo surge o Sol do Cristo, em seu nascimento ou em sua ressurreição.    O Sábado torna-se assim a vigília deste grande acontecimento, pois ele se dá ao amanhecer, “isto é, quando o céu já começa a clarear a partir do oriente, escreve Santo Agostinho, o que não acontece a não ser pela proximidade do sol nascente. Seu é o resplendor que costuma denominar-se com o nome de aurora, de modo que na medida em que nasce o sol vão desaparecendo os restos da obscuridade”. Coloquemo-nos nesta vigília e deixemos Jesus entrar mais e mais em nossa vida e então irão desaparecendo em nós os sinais do pecado, do mal e de toda maldade. Nenhum túmulo no mundo pode conter o Senhor Jesus por muito tempo. Sua morte na cruz nos traz nossa redenção e seu triunfo na manhã da Páscoa derrota a morte e comunica a paz ao mundo todo. Que o Sol nascente brilhe sempre, com mais fulgor, em nossa vida! “Senhor Jesus, vós morrestes para que eu pudesse viver para sempre em vosso reino de paz e de justiça. Fortalecei minha fé, para que eu possa conhecer o poder de vossa ressurreição e viver na esperança de ver-Vos face a face por toda a eternidade”.

 

A Igreja se recolhe em oração e contemplação junto ao túmulo do seu Senhor.   Ontem ainda podíamos contemplar o Corpo de Jesus que pendia da cruz. Hoje não é mais possível porque Seu corpo foi de lá retirado e colocado num sepulcro. O mundo, caríssimos irmãos, assume as responsabilidades da própria história sem Deus e sem Cristo.
Hoje, vinte séculos passados não parece que o nosso mundo é um grande Sábado Santo? Onde está Deus? Onde está Jesus Cristo? Onde esta a Comunidade de Cristo ou a Igreja? Não somos cada vez mais relegados à insignificância? Jesus Cristo não é notícia de primeira página; Jesus Cristo não é notícia de televisão o mundo parece bem sem Deus e sem Cristo; o mundo parece suportar tranqüilamente o silêncio de Deus e o silêncio de Cristo.

Sim, este mundo em que nós vivemos, onde a Igreja de Cristo não faz mais História, não domina mais, onde as pessoas assumiram o lugar de Deus e não se espera mais nada de Deus não é verdadeiramente um grande sábado Santo? Não vivemos nós num mundo que se despediu definitivamente de Deus?

Quem não conhece a cada dia que passa mais um que abandona completamente a sua vida cristã e católica? Silêncio de Deus; morte de Deus: eis o mistério do Sábado Santo que prolonga até os nossos dias! Mas isto, caríssimos irmãos, não é motivo para nos inquietarmos tremendamente, menos ainda, perdermos a fé.

Deus se permite estar em silêncio durante este tempo. Deus permite que a história prolongue um longo sábado Santo.

No entanto Jesus, que como diz a nossa profissão de fé: “desceu à mansão dos mortos”, é o mesmo que “ressuscitará ao terceiro dia e transformará inteiramente a historia dos homens e das mulheres”, porque por mais que teimemos em viver uma história sem Cristo e sem Deus, esta história sem Cristo e sem Deus não tem nenhum significado. É conduzida melancolicamente para a morte da qual ninguém escapa e que nos traga a todos, envolvendo-nos na sua noite escura.

Nós que cremos firmemente Naquele que morreu por nós Naquele que desceu a mansão dos mortos, Naquele que foi ao coração da morte e a transformou desde dentro e tem as suas chaves nas suas próprias mãos, nós cremos que este é o Senhor da vida e o senhor da morte também. Senhor de nossa morte, quando tivermos que descer ao sepulcro.

Com estas palavras Jesus Cristo abriu o último livro da revelação o apocalipse: “Sim Eu fui morte, mas eis que estou vivo e tenho as chaves dos Hades nas minhas mãos”. Com estes sentimentos vivamos o nosso Sábado Santo prolongado na história de nossas vidas na esperança sempre mais forte consolidada na vitória de Cristo e na Ressurreição.

 

SÁBADO SANTO – VIGÍLIA PASCAL

Meus irmãos,

Nesta noite santa em que o céu assume a terra e a terra assume o céu, em que o Redentor da Humanidade abandona o vale das trevas e das lágrimas para transpor os umbrais da luz e da alegria, com a bendita e gloriosa Ressurreição, somos convidados a refletir sobre a Reconstituição do Rebanho de Cristo, o Salvador.

A comemoração da Ressurreição do Cristo ocorre, desde a mais remota memória da Tradição Católica, na noite de sábado para domingo, pois na manhã do domingo – primeiro dia da semana – o Senhor já não está no sepulcro. Além disto, não obstante a Páscoa judaica ter uma outra data – seria a mesma data da última Ceia – a tradição cristã associou a noite da Ressurreição à noite da Páscoa descrita em Êxodo 12,42: “uma noite de vigília em honra do Senhor”. É a noite da libertação. E, mais ainda, esta noite ganha o sentido de uma recapitulação do universo, o começo da criação nova e escatológica, pois o Senhor Ressuscitado é as primícias da nova criação. A Ressurreição de Jesus é o penhor da renovação do universo.

A Igreja, rica em sua tradição, diz que esta noite é em honra do Senhor. Os fiéis trazendo na mão – segundo a exortação do Evangelho de Lucas (12,35ss) – a vela acesa, assemelham-se aos que esperam o retorno do Senhor, para, quando ele chegar, encontrá-los ainda vigilantes e os faça sentar-se à sua mesa.

A liturgia desta Vigília Pascal deve falar por si mesma. Com sensibilidade artística, deve-se representar o Mistério da nova luz que surge das trevas: Cristo que venceu a morte e o pecado. Os fiéis se unem a este Mistério, acendendo uma vela no Círio Pascal, quando de sua entrada triunfal na Igreja: é a participação da vida ressuscitada do Senhor.

Como tão bem se expressou certa ocasião o saudoso e magno arcebispo primaz de Minas Gerais, expoente da Companhia de Jesus, Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida: “Na noite do Sábado Santo, as comunidades cristãs celebram a Solene vigília Pascal, a liturgia da ressurreição de Cristo, vencedor do pecado e da morte. É muito expressivo o simbolismo das trevas e da Luz. Após as leituras do Antigo e do Novo Testamento, que narram o desígnio divino da Salvação, a comunidade reunida aguarda na escuridão do recinto sagrado a entrada festiva do Círio da Páscoa. A luz de Cristo, com cantos de aleluia, é aclamada com alegria, sinal de vida e esperança para a humanidade” – até aqui, Dom Luciano.

É a Luz que se desponta das trevas, é a salvação que se confirma, é a esperança da eternidade na graça de Deus. Cristo, a vítima perene sobre nossos altares, quebra os grilhões do pecado e introduz à Jerusalém Celeste aqueles que O aguardaram pelos séculos que O antecederam. É, pois, o momento do canto do “Glória a Deus nas alturas”. O hino de louvor que os anjos cantaram no presépio de Belém pelo nascimento do Salvador, canta, agora, a humanidade toda pela sua gloriosa ressurreição, pelo renascimento de todos na vida da graça.

E reza a Igreja na oração que se segue, pedindo a Deus que se digne iluminar “esta noite santa com a glória da ressurreição do Senhor”, despertando na Santa Igreja “o espírito filial, para que, inteiramente renovados, O sirvamos de todo o coração”. É uma alusão ao nosso batismo, que tradicionalmente ocorre nesta noite e em função da qual é concebida também a leitura de São Paulo aos Romanos (Rm 6,3-11), comparando o batismo como uma descida ao sepulcro, para daí corressuscitar com Cristo: o homem velho é crucificado; revestimo-nos do homem novo; pecado e morte já não reinam sobre a humanidade, sobre cada um de nós.

Esse belo texto do Apóstolo compara-nos a Jesus e diz que, pelo batismo, nós mergulhamos com Ele na morte e somos sepultados. Pela força do batismo, como que pela força divina, com Ele ressuscitamos. São Paulo usou uma expressão que nós entendemos muito bem, porque faz parte de nosso dia a dia: “Solidários na morte, solidários na ressurreição”. Todos, e cada um de nós em particular, fomos beneficiados com a ressurreição de Jesus nessa madrugada da Páscoa, neste momento da passagem do cativeiro do pecado para vida em união com Deus. Por isso, nossa alegria não nasce apenas da vitória de Jesus sobre a morte, mas da certeza de que não morreremos para sempre, tendo, a partir desta noite bendita, a garantida da VIDA ETERNA.

Meus irmãos,

Depois desta leitura a liturgia faz uma pausa.

Como pudemos sentir, chegado o grande momento do “Aleluia”, canta-se solenemente por três vezes, entoando o salmo que fala das glórias desta noite santa.

Estamos no meio da noite, uma noite muito especial e santíssima: noite da ressurreição.

Acendendo o fogo e o Círio Pascal, celebramos a luz.

Luz significa presença amorosa de Deus.

Luz significa a salvação, a morte para o pecado e para as trevas.

As palavras que iluminam esta noite santa são as do próprio ressuscitado: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida”. É a expressão da divindade de Cristo e a salvação que trazia à humanidade.

Jesus podia ter dito essas palavras nessa madrugada da Páscoa, ao sair da sepultura. Porque em sua ressurreição, o Senhor, quis compartilhar conosco tanto a divindade quanto a salvação, ou seja, a comunhão com Deus.

O Evangelho (Mc 16,1-7) nos apresenta uma recomendação que deve ser dada às três Marias, de irem à Galiléia transmitir aos apóstolos o que viram. A famosa conclusão breve de Marcos parece, inicialmente, pouco apta para a pregação. Termina aparentemente de maneira pouco pascal, pelo silêncio das mulheres – por medo – a respeito do sepulcro vazio e a mensagem do anjo. Mas, quem sabe, para Marcos, Jerusalém é o lugar da incredulidade e a Galiléia o lugar da fé do pequeno rebanho? Ele entende que o anúncio da ressurreição não foi feito logo em Jerusalém, mas primeiro se devia reconstituir o rebanho na Galiléia, precedendo o Bom Pastor, que deve reunir o rebanho escatológico: Jesus Cristo ressuscitado. Agora já não somos mais ovelhas sem pastor. Somos ovelhas reunidas perante o grande e único pastor: o Redentor que ressuscitou para salvar nossos pecados.

Vivemos a Páscoa que significa passagem, que significa vida da graça em Deus.

Que a água consagrada para ao batismo e a renovação das promessas solenes, bem como a Ladainha de todos os Santos, enfim, todo o contexto em que se desenvolve esta liturgia nos faça mais fiéis ao projeto de Deus Pai que nos criou; o Deus Filho que nos redimiu com o sangue na cruz e conquistou para nós na ressurreição, a vida plena e eterna; a Deus Espírito Santo que Jesus nos dá, para que nos tornemos filhos em plenitude da verdade e possamos, o quanto à criatura humana for capaz, “compreender a largura, o cumprimento, a altura e a profundidade” do amor do Senhor morto e ressuscitado para conosco.

Meus queridos irmãos,

Nesta noite santa celebramos a vitória da vida, da vida em abundância, que vem da vitória da graça sobre o pecado.

Páscoa bendita da libertação. Não uma libertação política, mas uma libertação escatológica.

Cristo, com a ressurreição, é o Senhor da História, como eleição gratuita de Deus. Por esta morte bendita e, ainda mais, pela sua ressurreição, todos nós, sem exceção, devemos dar testemunho de seu Evangelho diante do mundo. Devemos ser uma comunidade que testemunha e vive a Ressurreição.

Um costume da Igreja Antiga, como certa vez nos indicou o papa Bento XVI, deve ainda ser um sinal para nossos tempos. Relata-nos o Vigário de Cristo que, em priscas eras, era hábito o bispo ou sacerdote, após a homilia, conclamar os fiéis “Conversi ad Dominum”, ou seja “Voltai-vos para o Senhor”. Nesse instante, todos se viravam para o Oriente, ou para a imagem do Cristo, numa expressão de retornarem ao Senhor. “Com efeito, em última análise era deste fato interior que se tratava: da ‘conversio’, de voltar a nossa alma para Jesus Cristo e, n’Ele, para o Deus vivo, para a luz verdadeira”, nos explica o Papa (Vigília Pascal de 2008).

Essa exortação que nos chama a conversão inspira-nos a uma outra, comum em nossas celebrações: “Sursum corda” – “Corações ao alto”. Devemos sempre buscar as coisas do alto, as coisas de Deus, com a sua graça, sob a inspiração do Espírito Santo. Ambas exclamações nos inspiram a busca de reforma de vida, de um renascer, a partir dos méritos da paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, para vivermos a plenitude da Ressurreição.

Meus irmãos,

Páscoa não é apenas um dia no calendário litúrgico, não é apenas uma celebração bonita, rica de simbolismos, mas uma constante renovação da vida, que nesta noite santa nos libertou do império do pecado que ameaça a dignidade dos homens.

Celebrando esta Páscoa do Senhor, cantamos antecipadamente a vitória de todos os que lutam pela vida, inclusive dando a sua própria vida em benefício da implantação do Reino de Deus neste mundo.

Aleluia!

Que esta noite sacramento, sacramento de vida eterna, nos faça cada vez mais buscar enxergar no pobre e no excluído o rosto do Senhor Ressuscitado. Amém! aleluia!

Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha (MG)

 

HOMILIA DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II – VIGÍLIA PASCAL
Sábado Santo, 30 de Março de 2002
www.vatican.va

1. “Disse Deus: «Haja Luz». E houve luz” (Gn 1, 3) Uma explosão de luz, que a palavra de Deus fez surgir do nada, rasgou a primeira noite, a noite da criação. O apóstolo João escreverá: “Deus é luz e n’Ele não há trevas” (1Jo 1, 5). Deus não criou as trevas, mas a luz! E o Livro da Sabedoria, revelando claramente que a obra de Deus obedece desde sempre a uma finalidade positiva, assim se exprime: “Ele criou tudo para a existência; / e todas as criaturas têm em si a salvação. / Não há nelas nenhum princípio de morte, / nem o domínio da morte impera sobre a terra” (Sab 1, 14). Naquela primeira noite, a noite da criação, tem as suas raízes o mistério pascal que, após o drama do pecado, constitui a restauração e a coroação daquele instante inicial. A Palavra divina trouxe à existência todas as coisas e, em Jesus, fez-se carne para nos salvar. E, se o destino do primeiro Adão foi retornar à terra donde viera (cf. Gn 3, 19), o último Adão desceu do céu para lá subir de novo vencedor, primícia da nova humanidade (cf. Jo 3, 23; 1Cor 15, 47).
2. Uma outra noite constitui o evento fundamental da história de Israel: é o êxodo prodigioso do Egito, cuja narração se lê em cada ano na solene Vigília pascal. “O Senhor fustigou o mar com um impetuoso vento do oriente, que soprou durante toda a noite. Secou o mar, e as águas dividiram-se. Os filhos de Israel desceram a pé enxuto para o meio do mar, e as águas formavam como que uma muralha à direita e à esquerda deles” (Ex 14, 21-22). O povo de Deus nasceu deste “batismo” no Mar Vermelho, quando experimentou a mão forte do Senhor que o arrancava da escravidão, para conduzi-lo à suspirada terra da liberdade, da justiça e da paz. Esta é a segunda noite, a noite do êxodo. A profecia do Livro do Êxodo cumpre-se hoje também para nós, que somos israelitas segundo o Espírito, descendência de Abraão graças à fé (cf. Rm 4, 16). Na sua Páscoa, como novo Moisés, Cristo faz-nos passar da escravidão do pecado à liberdade dos filhos de Deus. Mortos com Jesus, com Ele ressuscitamos para a vida nova, pelo poder do seu Espírito. O seu Batismo veio a ser o nosso.
3. Recebereis este Batismo, que gera o homem para a vida nova, também vós, caríssimos Irmãos e Irmãs catecúmenos, provindos de diversos Países: da Albânia, da China, do Japão, da Itália, da Polônia, da República Democrática do Congo. Dois dentre vós, uma mãe japonesa e uma chinesa, trazem consigo também o filho, de modo que, na mesma celebração, serão batizadas as mães junto com as suas crianças. “Nesta santíssima noite” em que Cristo ressuscitou dos mortos, cumpre-se para vós um “êxodo” espiritual: deixais para trás a velha existência e entrais na “terra dos vivos”. Esta é a terceira noite, a noite da ressurreição.
4. “Oh noite ditosa, única a ter conhecimento do tempo e da hora em que Cristo ressuscitou do sepulcro”. Assim cantamos no Precônio Pascal, no início desta solene Vigília, mãe de todas as Vigílias. Após a trágica noite de Sexta-feira Santa, quando «o domínio das trevas» (Lc 22, 53) parecia levar a melhor sobre Aquele que é «a luz do mundo» (Jo 8, 12), após o grande silêncio de Sábado Santo, em que Cristo, cumprida a sua obra na terra, encontrou descanso no mistério do Pai e levou a sua mensagem de vida aos abismos da morte, eis finalmente a noite que precede “o terceiro dia”, no qual, segundo as Sagradas Escrituras, o Messias havia de ressuscitar, como Ele mesmo tinha repetidamente preanunciado aos seus discípulos. “Oh noite ditosa, em que o Céu se une à terra, em que o homem se encontra com Deus!” (Precônio Pascal).
5. Esta é a noite por excelência da fé e da esperança. Enquanto tudo está mergulhado na escuridão, Deus – a Luz – vigia. Com Ele, vigiam todos que confiam e esperam n’Ele. Ó Maria, esta é por vossa excelência a vossa noite! Enquanto se apagam as últimas luzes do sábado, e o fruto do vosso ventre descansa na terra, vosso coração também vigia! A vossa fé e a vossa esperança projetam-se para diante. Para além da pesada lápide, vislumbram já o túmulo vazio; para além do espesso véu das trevas, entrevêem a aurora da ressurreição. Fazei, ó Mãe, que também nós vigiemos no silêncio da noite, crendo e esperando na palavra do Senhor. Encontraremos assim, na plenitude da luz e da vida, Cristo, primícia dos ressuscitados, que reina com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Aleluia!

 

HOMILIA DO PAPA NA VIGÍLIA PASCAL
A mão salvadora do Senhor nos sustenta

CIDADE DO VATICANO, domingo, 12 de abril de 2009 (ZENIT.org).- Publicamos a homilia que Bento XVI pronunciou na solene vigília da Noite Santa de Páscoa, que presidiu na Basílica de São Pedro do Vaticano. * * *
Amados irmãos e irmãs! Narra São Marcos no seu Evangelho que os discípulos, ao descer do monte da Transfiguração, discutiam entre si o que queria dizer «ressuscitar dos mortos» (cf. Mc 9, 10). Antes, o Senhor tinha-lhes anunciado a sua paixão e a ressurreição três dias depois. Pedro tinha protestado contra o anúncio da morte. Mas agora interrogavam-se acerca do que se poderia entender pelo termo «ressurreição». Porventura não acontece o mesmo também a nós? O Natal, o nascimento do Deus Menino de certo modo é-nos imediatamente compreensível. Podemos amar o Menino, podemos imaginar a noite de Belém, a alegria de Maria, a alegria de São José e dos pastores e o júbilo dos Anjos. Mas, a ressurreição: o que é? Não entra no âmbito das nossas experiências, e assim a mensagem freqüentemente acaba, em qualquer medida, incompreendida, algo do passado. A Igreja procura levar-nos à sua compreensão, traduzindo este acontecimento misterioso na linguagem dos símbolos pelos quais nos seja possível de algum modo contemplar este fato impressionante. Na Vigília Pascal, indica-nos o significado deste dia sobretudo através de três símbolos: a luz, a água e o cântico novo do aleluia. Temos, em primeiro lugar, a luz. A criação por obra de Deus – acabamos de ouvir a sua narração bíblica – começa com as palavras: «Haja luz!» (Gen 1, 3). Onde há luz, nasce a vida, o caos pode transformar-se em cosmos. Na mensagem bíblica, a luz é a imagem mais imediata de Deus: Ele é todo Resplendor, Vida, Verdade, Luz. Na Vigília Pascal, a Igreja lê a narração da criação como profecia. Na ressurreição, verifica-se de modo mais sublime aquilo que este texto descreve como o início de todas as coisas. Deus diz de novo: «Haja luz». A ressurreição de Jesus é uma irrupção de luz. A morte fica superada, o sepulcro escancarado. O próprio Ressuscitado é Luz, a Luz do mundo. Com a ressurreição, o dia de Deus entra nas noites da história. A partir da ressurreição, a luz de Deus difunde-se pelo mundo e pela história. Faz-se dia. Somente esta Luz – Jesus Cristo – é a luz verdadeira, mais verdadeira que o fenômeno físico da luz. Ele é a Luz pura: é o próprio Deus, que faz nascer uma nova criação no meio da antiga, transforma o caos em cosmos. Procuremos compreender isto um pouco melhor ainda. Porque é que Cristo é Luz? No Antigo Testamento, a Torah era considerada como a luz vinda de Deus para o mundo e para os homens. Aquela separa, na criação, a luz das trevas, isto é, o bem do mal. Aponta ao homem o caminho justo para viver de modo autêntico. Indica-lhe o bem, mostra-lhe a verdade e conduz-lo para o amor, que é o seu conteúdo mais profundo. Aquela é «lâmpada» para os passos, e «luz» no caminho (cf. Sal 119/118, 105). Ora, os cristãos sabiam que, em Cristo está presente a Torah: a Palavra de Deus está presente n’Ele como Pessoa. A Palavra de Deus é a verdadeira Luz de que o homem necessita. Esta Palavra está presente n’Ele, no Filho. O Salmo 19 comparara a Torah ao sol, que, nascendo, manifesta a glória de Deus visivelmente em todo o mundo. Os cristãos compreendem: sim, na ressurreição, o Filho de Deus surgiu como Luz sobre o mundo. Cristo é a grande Luz, da qual provém toda a vida. Ele faz-nos reconhecer a glória de Deus de um extremo ao outro da terra. Indica-nos a estrada. Ele é o dia de Deus que agora, crescendo, se difunde por toda a terra. Agora, vivendo com Ele e por Ele, podemos viver na luz. Na Vigília Pascal, a Igreja representa o mistério da luz de Cristo no sinal do círio pascal, cuja chama é simultaneamente luz e calor. O simbolismo da luz está ligado com o do fogo: resplendor e calor, resplendor e energia de transformação contida no fogo. Verdade e amor andam juntos. O círio pascal arde e deste modo se consuma: cruz e ressurreição são inseparáveis. Da cruz, da autodoação do Filho nasce a luz, provém o verdadeiro resplendor sobre o mundo. No círio pascal, todos acendemos as nossas velas, sobretudo as dos neo-batizados, aos quais, neste sacramento, a luz de Cristo é colocada no fundo do coração. A Igreja Antiga designou o Batismo como fotismos, como sacramento da iluminação, como uma comunicação de luz e ligou-o inseparavelmente com a ressurreição de Cristo. No Batismo, Deus diz ao batizando: «Haja luz». O batizando é introduzido dentro da luz de Cristo. Cristo divide agora a luz das trevas. N’Ele reconhecemos o que é verdadeiro e o que é falso, o que é o resplendor e o que é a escuridão. Com Ele, surge em nós a luz da verdade e começamos a compreender. Uma vez quando Cristo viu a gente que se congregara para O escutar e esperava d’Ele uma orientação, sentiu compaixão por ela, porque eram como ovelhas sem pastor (cf. Mc 6, 34). No meio das correntes contrastantes do seu tempo, não sabiam a quem dirigir-se. Quanta compaixão deve Ele sentir também do nosso tempo, por causa de todos os grandes discursos por trás dos quais, na realidade, se esconde uma grande desorientação! Para onde devemos ir? Quais são os valores, segundo os quais podemos regular-nos? Os valores segundo os quais podemos educar os jovens, sem lhes dar normas que talvez não subsistam nem exigir coisas que talvez não lhes devam ser impostas? Ele é a Luz. A vela batismal é o símbolo da iluminação que nos é concedida no Batismo. Assim, nesta hora, também São Paulo nos fala de modo muito imediato. Na Carta aos Filipenses, diz que, no meio de uma geração má e perversa, os cristãos deveriam brilhar como astros no mundo (cf. Fil 2, 15). Peçamos ao Senhor que a pequena chama da vela, que Ele acendeu em nós, a luz delicada da sua palavra e do seu amor no meio das confusões deste tempo não se apague em nós, mas torne-se cada vez mais forte e mais resplendorosa. Para que sejamos com Ele pessoas do dia, astros para o nosso tempo. O segundo símbolo da Vigília Pascal – a noite do Batismo – é a água. Esta aparece, na Sagrada Escritura e conseqüentemente também na estrutura íntima do sacramento do Batismo, com dois significados opostos. De um lado, temos o mar que se apresenta como o poder antagonista da vida sobre a terra, como a sua contínua ameaça, à qual, porém, Deus colocou um limite. Por isso o Apocalipse, ao falar do mundo novo de Deus, diz que lá o mar já não existirá (cf. 21, 1). É o elemento da morte. E assim torna-se a representação simbólica da morte de Jesus na cruz: Cristo desceu aos abismos do mar, às águas da morte, como Israel penetrou no Mar Vermelho. Ressuscitado da morte, Ele dá-nos a vida. Isto significa que o Batismo não é apenas um banho, mas um novo nascimento: com Cristo, como que descemos ao mar da morte para dele subirmos como criaturas novas. O outro significado com que encontramos a água é como nascente fresca, que dá a vida, ou também como o grande rio donde provém a vida. Segundo o ordenamento primitivo da Igreja, o Batismo devia ser administrado com água fresca de nascente. Sem água, não há vida. Impressiona a grande importância que têm na Sagrada Escritura os poços. São lugares donde brota a vida. Junto do poço de Jacob, Cristo anuncia à Samaritana o poço novo, a água da vida verdadeira. Manifesta-Se a ela como o novo e definitivo Jacob, que abre à humanidade o poço que esta aguarda: aquela água que dá a vida que jamais se esgota (cf. Jo 4, 5-15). São João narra-nos que um soldado feriu com uma lança o lado de Jesus e que, do lado aberto – do seu coração trespassado –, saiu sangue e água (cf. Jo 19, 34). Nisto, a Igreja Antiga viu um símbolo do Batismo e da Eucaristia, que brotam do coração trespassado de Jesus. Na morte, Jesus mesmo Se tornou a nascente. Numa visão, o profeta Ezequiel tinha visto o Templo novo, do qual jorra uma nascente que se torna um grande rio que dá a vida (cf. Ez 47, 1-12); para uma Terra que sempre sofria com a seca e a falta de água, esta era uma grande visão de esperança. A cristandade dos primórdios compreendeu: em Cristo, realizou-se esta visão. Ele é o Templo verdadeiro, o Templo vivo de Deus. E é também a nascente de água viva. D’Ele brota o grande rio que, no Batismo, faz frutificar e renova o mundo; o grande rio de água viva é o seu Evangelho que torna fecunda a terra. Mas, num discurso durante a Festa das Tendas, Jesus profetizou uma coisa ainda maior: «Do seio daquele que acreditar em Mim, correrão rios de água viva» (Jo 7, 38). No Batismo, o Senhor faz de nós não só pessoas de luz, mas também nascentes das quais brota água viva. Todos nós conhecemos tais pessoas que nos deixam de algum modo restaurados e renovados; pessoas que são como que uma fonte de água fresca borbotante. Não devemos necessariamente pensar a pessoas grandes como Agostinho, Francisco de Assis, Teresa de Ávila, Madre Teresa de Calcutá e assim por diante, pessoas através das quais verdadeiramente rios de água viva penetraram na história. Graças a Deus, encontramo-las continuamente mesmo no nosso dia a dia: pessoas que são uma nascente. Com certeza, conhecemos também o contrário: pessoas das quais emana um odor parecido com o dum charco com água estagnada ou mesmo envenenada. Peçamos ao Senhor, que nos concedeu a graça do Batismo, para podermos ser sempre nascentes de água pura, fresca, saltitante da fonte da sua verdade e do seu amor. O terceiro grande símbolo da Vigília Pascal é de natureza muito particular; envolve o próprio homem. É a entoação do cântico novo: o aleluia. Quando uma pessoa experimenta uma grande alegria, não pode guardá-la para si. Deve manifestá-la, transmiti-la. Mas que sucede quando a pessoa é tocada pela luz da ressurreição, entrando assim em contacto com a própria Vida, com a Verdade e com o Amor? Disto, não pode limitar-se simplesmente a falar; o falar já não basta. Ela tem de cantar. Na Bíblia, a primeira menção do ato de cantar encontra-se depois da travessia do Mar Vermelho. Israel libertou-se da escravidão. Subiu das profundezas ameaçadoras do mar. É como se tivesse renascido. Vive e é livre. A Bíblia descreve a reação do povo a este grande acontecimento da salvação com a frase: «O povo acreditou no Senhor e em Moisés, seu servo» (Ex 14, 31). Segue-se depois a segunda reação que nasce, por uma espécie de necessidade interior, da primeira: «Então Moisés e os filhos de Israel cantaram este cântico ao Senhor…». Na Vigília Pascal, ano após ano, nós, cristãos, depois da terceira leitura entoamos este cântico, cantamo-lo como o nosso cântico, porque também nós, pelo poder de Deus, fomos tirados para fora da água e libertos para a vida verdadeira. Para a história do cântico de Moisés depois da libertação de Israel do Egito e depois da subida do Mar Vermelho, há um paralelismo surpreendente no Apocalipse de São João. Antes de iniciarem os últimos sete flagelos impostos à terra, aparece ao vidente «uma espécie de mar de cristal misturado com fogo. Sobre o mar de cristal, estavam de pé os vencedores do Monstro, da sua imagem e do número do seu nome. Tinham na mão harpas divinas e cantavam o cântico de Moisés, o servo de Deus, e o cântico do Cordeiro…» (Ap 15, 2s). Com esta imagem, é descrita a situação dos discípulos de Jesus em todos os tempos, a situação da Igreja na história deste mundo. Considerada humanamente, tal situação é contraditória em si mesma. Por um lado, a comunidade encontra-se no Êxodo, no meio do Mar Vermelho. Num mar que, paradoxalmente, é ao mesmo tempo gelo e fogo. E não deve porventura a Igreja caminhar sempre sobre o mar através do fogo e do frio? Humanamente falando, deveria afundar. Mas não, e enquanto caminha ainda no meio deste Mar Vermelho, ela canta – entoa o cântico de louvor dos justos: o cântico de Moisés e do Cordeiro, no qual concordam a Antiga e a Nova Aliança. Enquanto, na realidade deveria afundar, a Igreja entoa o cântico de agradecimento dos redimidos. Está sobre as águas de morte da história e todavia já está ressuscitada. Cantando, ela agarra-se à mão do Senhor, que a sustenta por cima das águas. E sabe que deste modo é guindada fora da força de gravidade da morte e do mal – uma força da qual, sem tal intervenção, não haveria caminho algum de fuga – guindada e atraída para dentro da nova força de gravidade de Deus, da verdade e do amor. De momento, ela encontra-se ainda entre os dois campos gravitacionais. Mas desde que Jesus ressuscitou, a gravitação do amor é mais forte que a do ódio; a força de gravidade da vida é mais forte que a da morte. Porventura não é esta a situação da Igreja de todos os tempos? Sempre dá a impressão que ela deva afundar, e todavia já está salva. São Paulo ilustrou esta situação com as palavras: «Somos considerados (…) como agonizantes, embora estejamos com vida» (2Cor 6, 9). A mão salvadora do Senhor nos sustenta e assim podemos cantar já agora o cântico dos redimidos, o cântico novo dos ressuscitados: Aleluia! Amém.
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Sem silêncio e solidão não há encontro com Deus

”As pessoas que não suportam o silêncio é porque, na verdade, não se suportam. Elas se sentem agredidas pelo silêncio …”.

“O encontro com Deus não é possível se não silenciarmos, pois se Deus nos fala, precisamos estar prontos para ouvir”. É o que defende o padre Paulo Ricardo Azevedo Júnior, sacerdote da Arquidiocese de Cuiabá (MT).

A Igreja, junto com o Pontífice, pede a Deus para que os homens e mulheres deste tempo, “tantas vezes mergulhados num ritmo frenético de vida, redescubram o valor do silêncio e saibam escutar Deus e os irmãos”.

Em meio à correria da vida moderna, é comum perceber o pouco número daqueles que conseguem buscar esse encontro consigo e com Deus. Nesse sentido, Padre Paulo ressalta a realidade dos que, mesmo sem perceber, têm medo do silêncio ou da solidão, e por isso têm também a necessidade de estar sempre conectados a algo ou a alguém.

“As pessoas que não suportam o silêncio é porque, na verdade, não se suportam. Elas se sentem agredidas pelo silêncio, porque ele nos obriga a nos encontrarmos conosco mesmo”.

Silêncio: porta de encontro consigo e com Deus

Para o sacerdote, o encontro do indivíduo com ele mesmo é a porta que dá acesso a “Jesus, Vivo e Verdadeiro”. “É a porta em que eu me abro para o Alto, me abrindo para dentro, para o encontro comigo mesmo”.

Portanto, segundo ele, o silêncio é fundamental na vida espiritual, no encontro com Deus que é Palavra. Sem silêncio não há encontro consigo mesmo, nem com Deus. Com isso, a vida espiritual não se desenvolve.

É possível promover esse tipo de encontro a todo o momento, diz o padre. “Se eu me encontro comigo, eu estou me recolhendo, por mais que haja barulho ao meu redor”. No entanto – destacou – “é preciso também me dar um espaço de silêncio e solidão que, poderia dizer, é quase um hábito higiênico. As pessoas precisam também ter o hábito de ter um momento de recolhimento, seu, com Deus”.

O silêncio e a solidão

Esse silêncio, porta para o encontro, está ligado à solidão, segundo o padre. Não se trata de um isolamento depressivo, mas um tipo de solidão que proporciona o contato com Deus, consigo mesmo e com o outro.

Na opinião de padre Paulo, as pessoas vivem agitadas, envolvidas por barulhos e experimentando corriqueiros encontros superficiais. “Não há encontros de coração a coração”, afirmou. Os profundos encontros, segundo o sacerdote, acontecem quando duas solidões se encontram.

“Para a gente se encontrar com uma pessoa, a minha solidão tem que se encontrar com a sua solidão, ou seja, eu preciso enquanto pessoa me encontrar com alguém que sei, é uma outra pessoa que não vai saciar plenamente a minha sede de felicidade. São duas solidões que se encontram. Só assim é possível o encontro”.

Entretanto, o único encontro capaz de produzir felicidade plena é o encontro com Deus. “O encontro com Deus é diferente no sentido que é Ele que consegue saciar essa solidão, mas ele fará isso plenamente no céu. Na vida de oração, a solidão e o silêncio estão juntos, porque estes são a condição para o encontro comigo mesmo e com Deus”.

A Igreja e o valor do silêncio

Nas diversas tradições religiosas da Igreja Católica, “a solidão e o silêncio constituem espaços privilegiados para ajudar as pessoas a encontrar-se a si mesmas e àquela Verdade que dá sentido a todas as coisas”. Essa afirmação é do Papa emérito Bento XVI, em sua mensagem para o 46º Dia Mundial das Comunicações Sociais.

Para o bispo emérito de Roma, é necessário criar um ambiente propício, quase uma espécie de “ecossistema” capaz de equilibrar silêncio, palavra, imagens e sons. Ele também afirma na mensagem que o silêncio é o canal de comunicação entre Deus e o homem, e do homem com Deus.

“Temos necessidade daquele silêncio que se torna contemplação, que nos faz entrar no silêncio de Deus e assim chegar ao ponto onde nasce a Palavra, a Palavra redentora”, escreveu o Pontífice.

10 conselhos do Papa Francisco aos jovens

Por Daniel Machado, produtor do Destrave

Garimpamos, nos discursos do Papa Francisco, desde o início de seu pontificado, dicas importantes para viver bem a juventude em nossos dias, assim como os desafios reservados para a nossa geração na construção de um mundo mais justo, fraterno e solidário. Os temas não possuem importância hierárquica, trata-se apenas de tópicos que nos ajudam a entender melhor a mensagem de nosso querido pastor aos jovens de todo o mundo.

1) Ter um coração jovem sempre: “Vós tendes uma parte importante na festa da fé! Vós nos trazeis a alegria da fé e nos dizeis que devemos vivê-la com um coração jovem sempre: um coração jovem, mesmo aos setenta, oitenta anos! Coração jovem! Com Cristo o coração não envelhece nunca!” (Homilia de Domingo de Ramos 24/03/2013 – Dia da Juventude)

2) Ir contra a corrente: “Sim, jovens, ouvistes bem: ir contra a corrente. Isso fortalece o coração, já que “ir contra a corrente” requer coragem, e o Senhor nos dá essa coragem. Não há dificuldades, tribulações, incompreensões que possam nos meter medo se permanecermos unidos a Deus como os ramos estão unidos à videira, se não perdermos a amizade d’Ele, se lhe dermos cada vez mais espaço na nossa vida” (Santa Missa dos crismandos em Roma – 28 de abril de 2013)

3) Apostar em grandes ideais: “Não enterrem os talentos! Apostem em grandes ideais, aqueles que alargam o coração, aqueles ideais de serviço que tornam fecundos os vossos talentos. A vida não é dada para que a conservemos para nós mesmos, mas para que a doemos. Queridos jovens, tenham uma grande alma! Não tenham medo de sonhar com coisas grandes!” (Catequese do dia 24/04/2013)

4) Estar com Deus em silêncio: “Aprendam a permanecer em silêncio diante d’Ele, a ler e meditar a Bíblia, especialmente os Evangelhos, a dialogar com Ele, todos os dias, para sentir a Sua presença de amizade e de amor”. (Mensagem aos jovens reunidos para a “Sexta Jornada dos Jovens” da Lituânia 28-30 de junho)

5) Rezar o Rosário: “Gostaria de destacar a beleza de uma oração contemplativa simples, acessível a todos, grandes e pequenos, cultos e pouco instruídos: a oração do Santo Rosário. O Rosário é um instrumento eficaz para nos ajudar a nos abrirmos a Deus, porque nos ajuda a vencer o egoísmo e a levar a paz aos corações, às famílias, à sociedade e ao mundo.” (Mensagem aos jovens reunidos para a “Sexta Jornada dos Jovens” da Lituânia 28-30 de junho)

6) Fazer barulho: “Aqui, no Rio, farão barulho, farão certamente. Mas eu quero que se façam ouvir também, nas dioceses, quero que saiam, quero que a Igreja saia pelas estradas, quero que nos defendamos de tudo o que é mundanismo, imobilismo, nos defendamos do que é comodidade, do que é clericalismo, de tudo aquilo que é viver fechados em nós mesmos” (Discurso aos Jovens argentinos durante a JMJ Rio 2013)

7) Aproximar-se da cruz de Cristo: “Queridos amigos, a Cruz de Cristo nos ensina a sermos como o Cireneu, aquele que ajuda Jesus a levar o madeiro pesado, como Maria e as outras mulheres, que não tiveram medo de acompanhar Jesus até o fim, com amor, com ternura. E você, como é? Como Pilatos, como o Cireneu, como Maria?” (Discurso aos Jovens durante a Via-sacra, em Copacabana, durante a JMJ Rio 2013)

8) Ser protagonista das mudança: “Através de vocês,entra o futuro no mundo. Também a vocês, eu peço para serem protagonistas desta mudança. Peço-lhes para serem construtores do mundo, trabalharem por um mundo melhor. Queridos jovens, por favor, não ‘olhem da sacada’ a vida, entrem nela. Jesus não ficou na sacada, Ele mergulhou… ‘Não olhem da sacada’ a vida, mergulhem nela como fez Jesus”. (Discurso na Vigília de Oração, na praia de Copacabana, durante a JMJ Rio 2013)

9) Servir sem medo: “Não tenham medo de ir e levar Cristo para todos os ambientes, até as periferias existenciais, incluindo quem parece mais distante, mais indiferente. O Senhor procura a todos, quer que todos sintam o calor da Sua misericórdia e do Seu amor”. (Homilia da Missa de encerramento da JMJ Rio 2013)

10) Ser revolucionário: “Na cultura do provisório, do relativo, muitos pregam que o importante é ‘curtir’ o momento, que não vale a pena se comprometer por toda a vida, fazer escolhas definitivas “para sempre”, uma vez que não se sabe o que reserva o amanhã. Nisso peço que se rebelem: que se rebelem contra a cultura do provisório, a qual, no fundo, crê que vocês não são capazes de assumir responsabilidades, que não são capazes de amar de verdade. Eu tenho confiança em vocês, jovens, e rezo por vocês. Tenham a coragem de ‘ir contra a corrente’. E também tenham a coragem de ser felizes!” (Discurso aos voluntários da JMJ Rio 2013)

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Março, mês de São José

“José mereceu o nome de “Justo”

Sempre fui devoto de São José, graças a Deus; e há muitos anos me recomendo a Ele diariamente, bem como a todos os meus caros. Sinto sua especial proteção em tudo o que faço. Acabei de escrever um livro sobre este glorioso santo escolhido por Deus para ser o pai adotivo de Jesus. Pode haver honra maior para um homem?

Meu desejo de escrever sobre as glórias de São José aumentou ainda mais depois que eu e minha esposa, Maria Zila, recebemos uma imensa graça que suplicamos a Deus, por muitos anos, pela intercessão de São José.

Minha esposa adquiriu o hábito de fumar em sua adolescência e sempre fumou durante nossos quatro anos de namoro e noivado e mais trinta anos de casados. Mas sempre pedíamos a Deus a graça para ela deixar esse vício. Há seis anos ela lutava com muitas orações e súplicas para deixar o cigarro; pois bem, no dia 1º de maio de 2002, pouco antes da Procissão de São José, que houve em nossa cidade de Lorena (SP), eu disse a ela: “Vamos à procissão de São José e, depois, você vai jogar a sua carteira de cigarros fora”.

Movida por Deus, ela aceitou o convite e fomos acompanhar a Procissão de São José Operário; fizemos a ele o nosso pedido. Quando chegamos em casa, ela jogou fora o seu último maço de cigarros e não mais fumou, depois de 35 anos de vício prolongado. Deus seja louvado! São José não falha!

A Igreja sempre venerou São José com muita honra e confiança e muito nos recomenda à sua intercessão. É por isso que, no seu dia 19 de março, a Igreja interrompe a Quaresma, o sacerdote troca os paramentos roxos pelo branco, para celebrar o grande santo. São José permaneceu no silêncio e na mais profunda discrição para não atrapalhar a missão de Jesus, mas Deus quis que muitos santos, padres e papas pudessem vislumbrar toda a sua grandeza e glória. Em uma aparição a Santa Margarida de Cortona, ela conta que disse Jesus: “Filha, se desejas fazer-me algo agradável, rogo-te não deixeis passar um dia sem render algum tributo de louvor e de bênção ao meu Pai adotivo São José, porque me é caríssimo”.

Santo Afonso de Ligório (†1787), doutor da Igreja, garantia que todo dom ou privilégio que Deus concedeu a outro santo também o fez a São José. São Francisco de Sales, doutor da Igreja, diz que “São José ultrapassou, na pureza, os anjos da mais alta hierarquia”.

São Jerônimo, doutor da Igreja, diz que “José mereceu o nome de “Justo”, porque possuía, de modo perfeito, todas as virtudes”.

Se São José foi escolhido por Deus para Esposo da Virgem Maria, a mais santa de todas as mulheres, é porque ele era o mais santo de todos os homens. Se houvesse alguém mais santo que José, certamente seria este escolhido por Jesus para Esposo de Sua Mãe Maria. Nós não pudemos escolher nosso pai nem nossa mãe, mas Jesus pôde; então, escolheu os melhores que existiam.

São Bernardo (†1153), doutor da Igreja, disse de São José: “De sua vocação, considerai a multiplicidade, a excelência, a sublimidade dos dons sobrenaturais com que foi enriquecido por Deus”. Os Santos Padres e Doutores da Igreja concordam em dizer que São José foi escolhido para esposo de Maria pelo próprio Deus.

É eloquente o testemunho de Santa Teresa de Ávila (†1582), doutora da Igreja, devotíssima de São José. No “Livro da Vida”, sua autobiografia, ela escreveu: “Tomei por advogado e senhor o glorioso São José e muito me encomendei a ele. Claramente vi que dessa necessidade, como de outras maiores referentes à honra e à perda da alma, esse pai e senhor meu salvou-me com maior lucro do que eu lhe sabia pedir. Não me recordo de lhe haver, até agora, suplicado graça que tenha deixado de obter. Coisa admirável são os grandes favores que Deus me tem feito por intermédio desse bem-aventurado santo, e os perigos de que me tem livrado, tanto do corpo como da alma. A outros santos parece o Senhor ter dado graça para socorrer numa determinada necessidade. Ao glorioso São José tenho experiência de que socorre em todas. O Senhor quer dar a entender com isso como lhe foi submisso na terra, onde São José, como pai adotivo, o podia mandar, assim no céu atende a todos os seus pedidos. Por experiência, o mesmo viram outras pessoas a quem eu aconselhava encomendar-se a ele. A todos quisera persuadir que fossem devotos desse glorioso santo, pela experiência que tenho de quantos bens alcança de Deus. De alguns anos para cá, no dia de sua festa, sempre lhe peço algum favor especial. Nunca deixei de ser atendida”.

Próximo de Jesus e de Maria, São José é a estrela de primeira grandeza no Céu; por isso a Igreja lhe presta um culto de “proto-dulia”, em primeiro lugar na lista dos santos. Ele intercede e cuida da Igreja sem cessar, assim como, na terra, velava sem se descuidar, do Filho de Deus a ele confiado. Nos recomendemos todos a ele, todos os dias.

Prof. Felipe Aquino
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Deus não faz show, mas age com humildade

Simplicidade

Segunda-feira, 9 de março de 2015, Da Redação, com Rádio Vaticano

Na missa desta segunda-feira, 9, Francisco refletiu sobre o estilo simples que Deus age na vida de seus filhos

Na missa celebrada na manhã desta segunda-feira, 9, na Casa Santa Marta, o Papa Francisco comentou o Evangelho do dia (Lc 4, 24-30) e ressaltou o trecho em que Jesus repreende os habitantes de Nazaré pela falta de fé.

“Naquele momento, entre as pessoas que ouviam com prazer o que Jesus dizia, um, dois ou três não gostaram do que Ele disse, e um falador se levantou e afirmou: ‘Mas o que esta pessoa está falando? Onde estudou para nos dizer essas coisas? Que nos mostre o diploma! Em qual Universidade estudou? Ele é o filho do carpinteiro e o conhecemos bem’. E começou a fúria, e também a violência. E o expulsaram da cidade e o conduziram até o cume da colina. E queriam jogá-lo lá de cima”.

Já a primeira leitura fala de Naamã que era comandante do exército sírio e tinha lepra. O Profeta Eliseu disse a ele para se banhar sete vezes no rio Jordão, ele também fica indignado porque pensava num gesto maior. Depois ouve o conselho dos servos, faz o que disse o Profeta e a lepra desaparece.

O Papa explicou que tanto os habitantes de Nazaré, como os de Naamã, “queriam um show”, mas que “o estilo do bom Deus não é dar show: Deus atua na humildade, no silêncio, nas coisas pequenas”. Ele disse que é possível observar isso em toda a história da salvação, a partir da Criação, em que o Senhor não pegou “a varinha mágica”, mas criou o homem com o barro.

“Quando Ele quis libertar o seu povo, libertou-o pela fé e a confiança de um homem, Moisés. Quando Ele quis fazer cair a poderosa cidade de Jericó, o fez através de uma prostituta. Também para a conversão dos samaritanos, pediu o trabalho de outra pecadora. Quando Ele enviou Davi para lutar contra Golias, parecia loucura: o pequeno Davi diante do gigante, que tinha uma espada, tinha muitas coisas, e Davi apenas uma funda e pedras. Quando disse aos magos, que tinha nascido o Rei, o Grande Rei, o que eles encontram? Uma criança, uma manjedoura. As coisas simples, a humildade de Deus, este é o estilo divino, jamais um show”.

O Papa recordou também que uma das três tentações de Jesus no deserto foi o “show”. Satanás o convida a lançar-se do ponto mais alto do Templo porque vendo o milagre as pessoas acreditariam n’Ele.

“O Senhor, ao invés disso, se revela na simplicidade, na humildade”, explica Francisco. Ao concluir, o Papa disse que fará bem nesta Quaresma que cada um pense em sua vida, em como o Senhor ajudou e fez cada um seguir em frente, e então será possível descobrir que Ele fez isso por meio de coisas simples.

“Assim age o Senhor: faz as coisas de forma simples. Fala-nos silenciosamente ao coração. Recordamos na nossa vida as muitas vezes que ouvimos essas coisas: a humildade de Deus é o seu estilo; a simplicidade de Deus é o seu estilo. E também na liturgia, nos sacramentos, que bonito é que se manifeste a humildade de Deus e não o show mundano. Irá nos fazer bem percorrer a nossa vida e pensar nas muitas vezes em que o Senhor nos visitou com sua graça, e sempre com esse estilo humilde, o estilo que também Ele nos pede para ter: a humildade”.

É Natal cada vez que você fica em silêncio…

… para escutar o outro

Reflexão de Santa Teresa de Calcutá sobre a vinda ao mundo do Filho de Deus
Osvaldo Rinaldi

A poucos dias do Natal, cheios de ansiedade pelos preparativos para o jantar e a compra de presentes, a iminente Solenidade nos convida a esculpir um espaço de tempo para refletir sobre o significado mais profundo deste acontecimento cristão.

Madre Teresa nos deixou uma meditação profunda sobre o significado do Natal, dando-nos um texto incrível em sua simplicidade, mas rico daquela humanidade que o Filho de Deus leva a cada ser humano.

Leiamos com humildade estas palavras repletas da gratuidade do amor de Deus por cada criatura:

É Natal cada vez que você sorri a um teu irmão e lhe estende as mãos.

É Natal cada vez que você fica em silêncio para escutar o outro.

É Natal cada vez que você não aceita aqueles princípios que renegam os oprimidos à margem da sociedade.

É Natal cada vez que você espera com aqueles que estão desesperados na pobreza física e espiritual

É Natal cada vez que você reconhece com humildade os teus limites e as tuas fraquezas.

É Natal cada vez que você permite ao Senhor de renascer para se doar aos outros.

Estas palavras são um verdadeiro decálogo de acolhimento, de aceitação e de serviço gratuito ao próximo.

O sorriso do coração é um sinal de abertura ao outro, porque reflete a disposição dos reconciliados e pacificados, que é muito mais eloquente do que tantas palavras inúteis e vazias.

O sorriso exprime aquela abertura de quem perdoou os erros profundamente sofridos. Poderíamos dizer que o sorriso é a abertura da Porta do Jubileu da Misericórdia de sua própria casa, porque manifesta a retidão de intenção no convívio e na partilha.

A realidade, muitas vezes, é diferente, porque a dureza do nosso coração encontra dificuldade de sorrir para aquele parente que depois de meses aparece na porta da nossa casa; é mais fácil julgá-lo por seu afastamento do que acolhê-lo novamente, com a alegria de ter reencontrado alguém que estava perdido.

Como é fácil cair no risco de oferecer “falsos sorrisos” que são o prelúdio de um árido diálogo, de discursos inúteis, de falsos relacionamentos e falsa presunção.

O verdadeiro sorriso é o prelúdio da escuta, que é a chave universal para entrar no coração do nosso interlocutor. A escuta silenciosa é aquela força interior capaz de transferir o outro da periferia para o centro da atenção. A escuta devolve a dignidade e o valor a esses eventos da vida que precisam ser ditos a alguém para ser entendido pela pessoa que fala. Escutar é um serviço insubstituível e eficaz porque contém a força silenciosa de fazer sair do coração de quem está diante de nós aquelas verdades desconfortáveis, que são o prelúdio para a possibilidade de oferecer palavras de encorajamento e de esperança.

Estas palavras de Madre Teresa contêm um precioso segredo evangélico: se quisermos compreender e nos reconciliar com aquele parente que está conosco à mesa no Natal, evitemos usar muitas palavras para justificar ou para tentar minimizar a situação embaraçosa. A atitude certa que estabelece uma reconciliação saudável e duradoura é a humildade da escuta, capaz de compreender as dificuldades dos outros e consertar aquele pano velho que o nosso cruel justicialismo deixou pela soberba e dureza dos nossos corações.

O escutar, precedido pelo sorriso, é realmente misericordioso quando oferece palavras e gestos de esperança para aqueles que foram surpreendidos pelos acontecimentos da vida e não conseguem encontrar uma maneira de sair daquela deprimente situação de angústia e desespero.

Que bom seria ouvir no Natal as sogras que reconhecem os esforços das noras na criação dos filhos, conciliar o trabalho com a família, que bom seria para as crianças verem seus pais falarem com alegria de seus avôs, que alegria seria recordar nesta noite santa todos aqueles que vieram antes de nós, fazendo memória de alguns episódios de suas vidas, que bom seria conversar com aquele parente com o qual tivemos uma desavença e reconhecer nossos limites em vez de condenar a fraqueza dele.

O Natal é a celebração do memorial da vinda do Filho de Deus a Terra para que o Menino Jesus possa nascer novamente em cada ser humano e renovar a partir do nosso interior as nossas vidas com as palavras de Madre Teresa: “É Natal cada vez que você permite ao Senhor de renascer para se doar aos outros”. São palavras cheias de esperança, porque contêm uma sabedoria que não é deste mundo, que afirma a verdade cristã tão esquecida em nosso tempo: a mudança no mundo é possível quando começa a mudar primeiro o nosso coração.

A conversão é realmente contagiante, quando somos os primeiros a reconhecer que necessitamos da misericórdia de Deus. Se Cristo nascer em nós, a nossa casa se tornará o humilde estábulo de Belém, pobre de segurança terrena, mas rica em humanidade e calor humano, que será visitado por muitos pastores marginalizadas do nosso bairro, que escutando as vozes dos vizinhos, poderão correr com confiança para o nosso focolare. Seria bom pensar em um Natal que transforme as nossas famílias, onde ninguém que está batendo à porta volte para casa de mãos vazias, mas encontre muitos sinais visíveis da misericórdia de Deus, muitas vezes feitos de palavras, mas outras vezes de gestos concretos, usando a caridade cristã, que é verdadeiramente autêntica quando tem a força de tirar algo de si para socorrer as necessidades materiais e espirituais dos necessitados.

Solenidade da Imaculada Conceição – 08 de Dezembro

Por Mons. Inácio José Schuster

Evangelho segundo São Lucas 1, 26-38
Ao sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria. Ao entrar em casa dela, o anjo disse-lhe: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo.» Ao ouvir estas palavras, ela perturbou-se e inquiria de si própria o que significava tal saudação. Disse-lhe o anjo: «Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus. Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo. O Senhor Deus vai dar-lhe o trono de seu pai David, reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim.» Maria disse ao anjo: «Como será isso, se eu não conheço homem?» O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus. Também a tua parente Isabel concebeu um filho na sua velhice e já está no sexto mês, ela, a quem chamavam estéril, porque nada é impossível a Deus.» Maria disse, então: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.» E o anjo retirou-se de junto dela.

Hoje, no coração do Advento aos 8 dias de dezembro, celebramos a solenidade da Imaculada Conceição. Na segunda leitura da Liturgia, o autor da carta aos Efésios afirma-nos que Deus nos predestinou, desde toda a eternidade, a sermos santos e imaculados em Sua presença. E quando o livro do Genesis nos diz que criou Adão e de sua costela a companheira Eva, Deus os colocou no Jardim do Éden. Os padres da Igreja interpretaram muito bem este Jardim do Éden; colocou-os no Paraíso, isto é, em Cristo. Adão e Eva foram já pensados por Deus em vista de Cristo para que se realizassem plenamente como homem e mulher em Jesus Cristo e, dessa forma, todos nós somos pensados por Deus em Cristo a sermos santos e imaculados em Sua presença. Mas o que aconteceu com Adão e com Eva, melhor, o que continua a acontecer com todos os seres humanos? Degradaram-se através da tentação e da queda, buscaram outra realização à margem de Cristo. Ocorre que, contudo, não existe tal realização. Ou bem nós nos realizamos em Cristo, isto é, ou nós encetamos o caminho da vida, que é o caminho de Cristo, ou bem nós entramos para desvio e começamos a marchar na direção da morte, isto é, da morte eterna. Eis o drama de toda a humanidade. Hoje, aos 8 dias de dezembro, nós celebramos Aquela que, por graça especial de Deus e em previsão dos méritos de Cristo, pensada ela também desde toda eternidade em Cristo e em vista de Cristo, jamais se separou do Cristo, do qual seria mãe biológica neste mundo. Todos nós, em Adão e Eva, tivemos o pecado aninhado fundo em nossos corações. E temos ambos que fugir, envergonhados um do outro, da presença de Deus. Maria, na sua Imaculada Conceição, não teve jamais que fugir de Deus. Mas o que se contempla hoje em Nossa Senhora?  Sua pureza ilibada, Sua Conceição Imaculada, é o projeto. E Deus continua a tê-lo para com os degradados filhos de Eva, que somos todos nós. Deus não abandonou o Seu projeto e, ainda que nos veja desfigurados pelo pecado, Maria, em sua Imaculada Conceição, é hoje o espelho e ao mesmo tempo o futuro que nos espera, se nós deixarmos Deus trabalhar em nosso coração durante o longo tempo do Advento, que é o tempo de nossa vida que nos separa do encontro definitivo e transformante com Ele.

 

«Salve, ó cheia de graça»
Santo Epifânio de Salamina (? – 403), bispo
Homilia n°5; PG 43, 491.494.502 (a partir da trad. cf Solesmes, Lectionnaire, t. 1, p. 1003)

Que dizer? Que elogio se há-de fazer à Virgem gloriosa e santa? Ela ultrapassa todos os seres, à excepção apenas de Deus; por natureza, é mais bela que os querubins, os serafins e todo o exército dos anjos. Nem as línguas do céu nem as da terra, nem as línguas dos anjos bastam para louvá-la. Virgem bendita, pomba pura, esposa celeste […], templo e trono da divindade! Cristo, sol esplendoroso do céu e da terra, pertence-te. Tu és a nuvem luminosa que fez descer Cristo, Ele o brilho resplandecente que ilumina o mundo. Rejubila, ó cheia de graça, porta do céu; é de ti que fala o autor do Cântico dos Cânticos […] quando exclama: «És horto cerrado, minha irmã, minha esposa, horto cerrado, fonte selada» (4, 12). […] Santa Mãe de Deus, ovelha imaculada, tu trouxeste ao mundo o Cordeiro, Cristo, o Verbo encarnado em ti. […] Que maravilha espantosa nos céus: uma mulher vestida de sol (Ap 12, 1), trazendo nos braços a luz! […] Que maravilha espantosa nos céus: o Senhor dos anjos que Se torna filho da Virgem. Os anjos acusavam Eva; agora, cumulam Maria de glória, porque Ela levantou Eva da queda e abriu as portas do céu a Adão, outrora expulso do Paraíso. […] Imensa é a graça concedida a esta Virgem santa. É por isso que Gabriel a cumprimenta dizendo-lhe: «Rejubila, cheia de graça», resplandecente como o céu. «Rejubila, cheia de graça», Virgem ornada de virtudes sem número. […] «Rejubila, cheia de graça», tu que sacias os sedentos com as doçuras da fonte eterna. Rejubila, Santa Mãe Imaculada, tu que geraste Cristo, que te precede. Rejubila, púrpura real, tu que revestiste o Rei do céu e da terra. Rejubila, livro selado, tu que deste a ler ao mundo o Verbo, o Filho do Pai.

 

A Imaculada Conceição
Padre Pacheco

Hoje, dia de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, queremos lembrar a sua assunção. Sim, pois depois de assunta aos Céus, a Virgem Maria é esta que está junto do Filho, na glória do Pai, intercedendo por cada um de nós. O Papa Pio XII, em 1950, proclama o ‘Dogma da Assunção da Santíssima Virgem Maria’, que consiste no seguinte: “Cumprido o curso de sua vida terrena, Maria foi assunta ao Céu em corpo e alma”. Para dizer que:
1º) Maria tem especial participação na ressurreição do Filho – Ela está unida à glória do Filho;
2º) Ela é a antecipação da sorte dos eleitos – primícias e exemplo da Igreja.
Segundo a Tradição da Igreja, logo após a morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, João a teria levado para morar com ele, assumindo-a como mãe, numa cidade chamada Éfeso. Todavia, antes de Maria vir a morrer – entenda-se esta morte não como consequência do pecado, pois Maria não pecou, o termo “dormição” é para dizer de uma morte diferenciada, não como qualquer morte fruto de pecado; a verdade é esta: Maria morreu – João a teria trazido para Jerusalém. Maria morre e é assunta em Jerusalém; pode-se dizer que ela tenha sido velada no Monte Sião, em Jerusalém, e levada para ser sepultada ao lado do Monte das Oliveiras, túmulo este que se encontra vazio – obviamente – e que pode ser visitado e visto até hoje. A Santíssima Virgem Maria participa da Glória do Filho e é a antecipação da sorte dos eleitos; isso significa que já existe uma criatura ressuscitada no Céu em corpo e alma: Maria. Mas tudo isso devido ao fato de Deus tê-La preparado para esta missão tão linda e particular: ser a Mãe do Filho d’Ele. Todavia, houve uma colaboração e uma correspondência da parte de Nossa Senhora. Para dizer que ela é modelo de como ser Igreja. Queremos, hoje, nos ater à festa que estamos celebrando: a Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria. O dogma da Imaculada Conceição foi instituído pelo Papa Pio IX no dia 8 de dezembro de 1854, que declara: “Desde a sua concepção, Maria foi preservada do pecado original e de suas conseqüências pelos méritos de Cristo, que se chama redenção preventiva”. O devoto da Virgem Maria é aquele que toma a decisão de viver as virtudes dela. A saber:
Mulher do silêncio: Precisamos aprender com Nossa Senhora a silenciar o nosso coração de todas as agitações do mundo e de todo barulho, fruto das realidades que são contrárias à vontade de Deus na nossa vida. Silenciar é muito mais que não fazer barulho, é ter a coragem de retirar-se constantemente para encontrar-se com o Senhor, e aí escutar o Seu Coração.
Mulher da Palavra: A Santíssima Virgem rezava os salmos; era íntima da Palavra de Deus; prova disso é ela repetir o Cântico de Ana ao se encontrar com Isabel, cântico este lá do Antigo Testamento. Muito mais que o fato de narrar esse cântico, a prova de que a Virgem Maria é a mulher da Palavra é a sua total confiança na misericórdia e na providência de Deus, que regia toda a sua vida e a vida do mundo.
Mulher do serviço: Maria sobe a montanha para visitar a sua parenta Isabel; ela vai à casa da prima não tendo como prioridade tratar de serviços domésticos, mas para levar o mistério até a vida daquela que, com certeza, muitos traumas trazia pelo fato de ter sido estéril por muitos anos – fato tido como sinal de maldição para o povo daquela época e lugar. O mistério em Maria, que é o próprio Deus, a leva até a prima, para que esta possa ser curada. Isso nos diz que devemos ser, efetivamente, portadores e condutores do mistério, que é Deus, para as pessoas, pois Ele se encontra em nós, dentro de nós, desde o momento do nosso batismo.
Mulher da obediência: Maria só tinha olhos para a vontade de Deus, para obedecer ao Todo-Poderoso nas circunstâncias ordinárias da vida; é ela quem diz a cada um de nós – única frase de Maria na Sagrada Escritura, de forma direta: “Fazei tudo o que Ele vos disser.” A Santíssima Virgem Maria é aquela que pode, verdadeiramente, nos ajudar a encher as talhas da nossa vida. Esta água viva é o Espírito Santo, o Esposo de Nossa Senhora. Quando o Espírito Santo percebe uma alma tomada de amor e da presença de Maria – a Sua esposa – o Ele vem e realiza maravilhas nessa alma, pois Ele não pode ficar separado da Sua esposa. As maravilhas que o Espírito realiza em nós nada mais são do que encher as talhas da nossa vida para que Cristo nos transforme neste vinho novo. Viver esta festa de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, ser devoto de Maria por excelência,  é obedecer a Deus e fazer com que Ele seja o Senhor, verdadeiramente, da nossa vida.

 

Lucas, capítulo 1, versículos de 26 a 38.
No coração do Advento, hoje 8 de dezembro, celebramos a Solenidade da Imaculada Conceição. No Brasil é festa de preceito. Esta celebração se solenizou após a proclamação do dogma da Imaculada Conceição, pelo Papa Pio IX, no dia 08 de dezembro de 1854. Na verdade o texto da definição dogmática nos diz que Maria foi concebida sem a mancha do pecado de natureza, o pecado hereditário, o pecado de Adão. Mas nós celebramos muito mais do que uma simples Imaculada Conceição. Nós celebramos hoje toda a pureza de coração da Virgem Maria, que desde a sua mais tenra idade soube agradar a Deus. E agradou a Deus durante toda a sua vida. Nós desconhecemos a vida de Nossa Senhora. Nós desconhecemos sua infância, adolescência, juventude, seu casamento e vida de casada e até sua viuvez. Desconhecemos tudo. Mas uma coisa nos diz hoje a igreja: do primeiro ao último instante Maria outra coisa não fez a não ser agradar imensamente a Deus, seu Criador. Ao celebrarmos a Imaculada Conceição, a Solenidade da pureza de coração, da Virgem Maria, nós hoje, olhamos para aquela que deseja ser nosso modelo e nossa advogada. Sim, porque como ela, nós também, embora manchados pelo pecado, mas, porém lavados e purificados, gostaríamos de viver o resto da nossa existência, numa vida de agrado a Deus. Vida de busca incessante de Sua face, numa vida de ausência do pecado que Lhe ofende a vista. Nós fomos pecadores e podemos ser atualmente pecadores, mas não é esta uma necessidade ontológica do nosso ser; não necessitamos ser pecadores até o final de nossas existências. O sangue de Jesus nos diz o evangelista João, purifica-nos de todo pecado, e uma vida nova nos é proposta. Deus simplesmente fez com que se dissolvessem no Sangue do Cristo os nossos pecados. Doravante nos é restituída a inocência, e nós podemos caminhar e progredir na santidade.  Podemos nos tornar impecáveis. Sim, a Sagrada Escritura fala de cristãos que, com o tempo, tornaram-se praticamente impecáveis. De qualquer modo a impecabilidade é uma graça que já se pode obter ao menos parcialmente neste mundo. Eis o nosso sonho, neste advento: deixar de lado, abandonar definitivamente o pecado, e já viver na terra como os bem-aventurados de Céu.

 

O anjo Gabriel foi enviado não ao santuário de Jerusalém ou Ain-Karem, situados nos impressionantes montes da Judéia, onde nasceu João Batista, mas à simples cidade de Nazaré. Aí ele fala à Virgem Maria, comprometida com José, o que é destacado por Santo Ambrósio (397), ao dizer que “a Escritura tem razão de especificar estas duas coisas: que Maria era comprometida e virgem: Virgem, para que se saiba que não teve relações com um homem; comprometida, a fim de que ela não fosse censurada por ter perdido a sua virgindade… O Senhor preferiu que se duvidasse de seu nascimento, antes que da honra de sua Mãe (…). Ela é o tipo da Igreja, que é imaculada, e, no entanto esposa”. O anjo Gabriel foi enviado por Deus, mostrando pela forma do verbo: foi enviado que a iniciativa vem do mais alto, do Deus altíssimo. Por Ele foi enviado para anunciar a concepção virginal daquele que ama se dizer “enviado do Pai”. O anjo a saúda: Ave, fórmula corrente de saudação, que em seu sentido original expressa um desejo de alegria. E acrescenta: “cheia de graça”, por benevolência divina, pois o sujeito desta ação é Deus e a sua ternura suprema para com a humilde Virgem.  É a eficácia do amor de Deus, do poder transformante do olhar divino, do seu gesto criador. Daí reconhecermos na saudação a verdade: “Tu que eras e permaneces objeto da graça de Deus”.   Maria, concebida sem pecado, a Imaculada Conceição é glorificada junto a seu Filho, Rei e Senhor de todo o Universo. “Convinha que a Mãe virgem, escreve São Amadeus de Lausana (1159), pela honra devida a seu Filho, reinasse primeira na terra e, assim, penetrasse logo gloriosa no céu; convinha que fosse engrandecida aqui, para penetrar logo, cheia de santidade, nas mansões celestiais, indo de virtude em virtude e de glória em glória por obra do Espírito Santo”. Ela é a cheia de graça, em quem não há pecado, toda acolhida do dom de Deus. “Senhor, deixai vossa luz brilhar em meu coração para que eu conheça a alegria e a liberdade de vosso Reino. Enchei-me com vosso Santo Espírito e fortalecei-me para testemunhar a verdade de vosso Evangelho de Jesus Cristo”.

 

Não raro somos ao mesmo tempo “sim” e “não”. Somos “não” quando deixamos o mal dominar nossa existência e somos “sim” quando nos transformamos em instrumentos do bem e do amor! Que possamos sempre repetir com Maria: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Meditar e viver este compromisso nos ajudaria a crescer em muito na fidelidade a Palavra de Deus e aos valores do Evangelho. Mesmo que nos custe sacrifícios devemos nos esforçar em viver este compromisso de entrega total a Vontade de Deus. É claro que para saber qual é concretamente a vontade divina precisamos de muito discernimento, e para isto nos ajudará a oração, a meditação e o conselho do irmão mais experiente no caminho do Senhor. Que a Imaculada no ajude a dar nosso “sim” nos momentos mais desafiantes da vida. Quando sentimos desânimo, ou somos oprimidos pela doença, injustiça e perseguição, nos momentos de desencanto, nas horas de incerteza. Na dor da traição ou do abandono dos amigos! Que nossa mãe nos ajude nestas difíceis situações da existência a reafirmarmos na fé, que vale mais seguir a Palavra de Deus. E nos livre da tentação de responder o mal com o mal! Que a Imaculada nos auxilie a cada dia no esforço de sermos uma verdadeira imagem e semelhança de Deus! Homens e mulheres novos, amigos de Deus, fraternos entre nós e construtores de um mundo melhor. Que a Imaculada nos ajude a viver na graça divina, a buscarmos sempre o bem, ela que é a plena da graça, e nos acompanhe na nossa luta contra o pecado em todas as suas formas. Repitamos, pois com Maria muitíssimas vezes: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. E revalorizemos a importância da atitude de serviço. Ela foi Serva de Deus e dos irmãos, e nós também devemos ser. Aliás, o próprio Jesus disse que veio para servir e dar sua vida, e nos convidou a seguir o seu exemplo. Que nesta semana nos esforcemos por ser o que Deus deseja de nós, buscando sinceramente em nossa vida uma maior comunhão com Ele, abrindo-nos cada vez mais solidariamente aos irmãos e fugindo do pecado que desfigura em nós a imagem de Deus, e que causa tantos transtornos a nossa vivência comunitária. Seria bom que pudéssemos manifestar alguma atitude concreta de serviço aos irmãos”.

Ó Maria Concebida sem Pecado, rogai por nós que recorremos a vós!

 

IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA
São João Paulo II
Alocução de 27.11.1983
“Rejubila, cheia de graça!”

A alegria é uma componente fundamental do tempo sagrado que começa. O Advento é um tempo de vigilância, de oração, de conversão, para além de uma espera fervorosa e alegre. O motivo é claro: «O Senhor está próximo» (Fl 4, 5).
A primeira palavra dirigida a Maria no Novo Testamento é um convite jubiloso: «Exulta, rejubila!» (Lc 1,28 grego). Tal saudação está ligada à vinda do Salvador. Maria é a primeira a quem é anunciada uma alegria que, em seguida, será proclamada a todo o povo; Maria participa nela de uma forma e numa medida extraordinária. Em Maria, a alegria do antigo Israel concentra-se e encontra a sua plenitude; nela, a felicidade dos tempos messiânicos manifesta-se irrevogavelmente. A alegria da Virgem Maria é, de modo particular, a do «pequeno resto» de Israel (Is 10, 20 sg), dos pobres que esperam a salvação de Deus e que experimentam a sua fidelidade.
Para participarmos também nesta festa, é necessário esperarmos com humildade e acolhermos o Salvador com confiança. «Todos os fiéis que, pela liturgia, vivem o espírito do Advento, considerando o amor inefável com que a Virgem Maria esperava o Filho, serão levados a tomá-la como modelo e a preparar-se para ir ao encontro do Senhor que vem, ‘vigilantes na oração e cheios de alegria’» (Paulo VI, Marialis cultus,4; Missal Romano).

 

SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO –  Ano A
Pe. Antonio Luiz Heggendorn, CP.

No primeiro domingo do advento fomos convidados a reviver a experiência do Povo de Israel em sua longa espera pela vinda do Messias. A palavra de ordem era, vigilância! Assim, procurando crescer numa esperança verdadeiramente ativa, e estando atentos as vindas constantes do Senhor, trabalhar pelo progresso do Reino de Deus. No segundo domingo do advento éramos convidados à conversão de nossa mente e de nossas atitudes. Hoje, ainda neste tempo de espera e preparação ao Natal, celebramos a festa da Imaculada Conceição de Nossa Senhora.  Trata-se de olhar para o papel único e insubstituível de Maria na História da salvação. Ela que nasceu sem a mancha do pecado original e que colaborou plenamente com o projeto de Deus. As leituras de hoje nos ajudam a entender o significado do que estamos a comemorar. A primeira leitura (Gn 3, 9-15.20) está situada logo após o pecado da origem. O livro do Gênesis não é um livro de ciência, mas da revelação de Deus e sua mensagem é, portanto religiosa. Logo na primeira narrativa da criação encontramos a igualdade fundamental entre o homem e a mulher quando se diz que Deus criou o homem a sua imagem e semelhança (Gn 1, 27). Na segunda narrativa da criação é destacada a complementaridade entre o homem e a mulher, existem diferenças, mas não para dividir se não para unir (Gn 2, 21 ss). Assim o homem foi criado em comunhão com Deus, em abertura aos demais e como senhor das coisas materiais. Este era o projeto divino. Portanto o ser humano foi criado “imaculado”, isto é sem pecado! Mas o homem preferiu declarar independência diante de Deus, na sua arrogância quis ser igual a Deus. Numa palavra não aceitou a soberania divina e quis ser ele mesmo o senhor de sua vida. Desobedecendo a Deus, acabou rompendo a amizade com Ele. Poeticamente diz o texto que Deus passeava com o homem no Éden, e mesmo depois da ruptura realizada pelo pecado voltou a procurar o homem. Mas agora Adão estava escondido e com medo. Aqui já percebemos algo bem claro, quando pecamos não é Deus que se afasta de nós, mas somos nós que nos escondemos de Deus! E o medo diante de Deus nunca é bom sinal, pois não podemos ter medo de um amigo e muito menos daquele que nos ama como o melhor dos pais. Ao ser interrogado sobre seu ato Adão empurra a culpa para Eva, e de modo indireto para Deus: “A mulher que tu me deste” (Gn 3, 12), pois seria como se quisesse dizer: a culpa foi de Deus por ter lhe dado Eva. Ainda hoje esta atitude de Adão repete se em todos aqueles que colocam em Deus a culpa pelos males que existem no mundo. Quantos culpam Deus pelo nascimento de uma criança defeituosa, pelas doenças, pela violência, etc. Por sua vez a mulher empurra a culpa para a serpente! Isto nos leva a perceber que o pecado não é só uma ruptura com Deus, mas atinge também o relacionamento com os irmãos. O não assumir a responsabilidade do próprio erro, o jogar nos outros a culpa dos próprios defeitos leva freqüentemente a divisões, ódios e agressões. O ser humano ficaria para sempre neste estado de inimizade com Deus e de divisão com os demais? Aí nosso texto apresenta a grande promessa, a boa notícia o que se chama de “Proto-Evangelho” – Deus providenciará a salvação! (Gn 3, 15) A descendência da mulher, isto é seu Filho, vencerá o mal e esmagará a serpente! Como vemos Deus promete que como por um homem e uma mulher, Adão e Eva, entrou no mundo o pecado, no futuro por um novo homem e uma nova mulher (Jesus e Maria) virá a vitória definitiva do bem e a restauração de seu projeto original. Na segunda leitura (Ef 1, 3-6.11-12) o Apóstolo aponta que fomos criados para participar da família de Deus. Diz que somos escolhidos desde a fundação do mundo para sermos santos e irrepreensíveis. Assim devemos nos alegrar porque desde antes da criação do mundo Deus já havia pensado em nós. E o ser humano não é destinado a ruína, mas a vida plena! No fundo Paulo agradece ao Pai, pois por Jesus tivemos a possibilidade de sermos filhos de Deus. A redenção realizada pelo Senhor foi a vitória sobre o mal e a restauração do plano divino sobre o homem.  O ser humano agora pode viver como “imagem e semelhança de Deus” e mais ainda, pode ser seu filho e deve relacionar-se com os demais como irmãos. Bendito seja Deus por esta maravilha proclama Paulo neste texto. É verdade que ainda vemos em nosso mundo muita maldade, fatos tristes e até trágicos, mas somos chamados a “bendizer a Deus” a todo o momento, pois cremos que mesmo do mal produzido pelo homem, e não querido pela vontade de Deus, o Senhor é capaz de tirar um bem!  Mais uma vez somos convidados, a crescer na virtude da esperança colocando nossa confiança nas mãos amorosas de Deus nosso Pai. O Evangelho (Lc 1, 26- 38) de hoje é um texto muito conhecido por todos nós e nos apresenta o convite do Senhor a Virgem Maria. O relato segue um esquema parecido com os anúncios do Velho Testamento do nascimento de grandes líderes que nasceram de mães velhas, ou de pais que não tinham mais fertilidade. Mas existe agora uma enorme diferença, não é uma casada estéril que dá a luz, como a mãe de João Batista, mas uma Virgem. Isto é algo totalmente novo na Escritura Sagrada e não encontramos nada semelhante!   Os caminhos de Deus são mesmo diferentes dos nossos notemos alguns detalhes: O anjo é enviado a Nazaré na Galiléia, um lugar que era mal visto pelos judeus. Naquela época os galileus eram considerados ignorantes e impuros, pois estavam numa proximidade maior com os pagãos. Pode vir algo bom de Nazaré, perguntavam (Jo 1, 46). Ainda hoje encontramos estes preconceitos regionais e muito fortes por vezes. Não é o que acontece quando alguns falam de nosso bom povo nordestino? Quem é chamado? Um homem forte e valente? Não, uma virgem. Naquela época tinha mais valor a mulher casada e mãe de muitos filhos. Era uma vergonha a mulher que não conseguisse casar, e era desprezava a casada estéril.  Na Escritura Jerusalém é chamada de Virgem justamente nos momentos mais terríveis de sua história, quando estava derrotada, destruída ou sem esperança (Jr 31, 4). Pois bem é nesta lógica diferente que Deus inicia o cumprimento daquela promessa feita após a queda original, que meditávamos na primeira leitura de hoje. Ele através do anjo vai convidar Maria para uma missão especialíssima, ser a mãe do Redentor. Ela não é para Deus apenas um instrumento para que o Verbo possa encarnar-se, ela não é como uma mãe de aluguel, mas é uma eleita de Deus! Por isto o anjo a saúda como “cheia de graça”. A Virgem de Nazaré é convocada a uma colaboração consciente e ativa na obra da salvação. É certo que quem traz a salvação é Jesus, mas também é certo que quem nos dá Jesus é Maria! A mensagem central deste texto é sem dúvida a apresentação de Jesus como Filho do Pai, como aquele prometido que veio para nos salvar. Ele reinará para sempre e terá o trono de Davi! Podemos perceber a diferente lógica de Deus, pois naquela época a família de Davi não era nem grande, nem poderosa, mas totalmente decadente! Maria dialoga com o anjo procurando discernir as coisas, pois sabe muito bem que não pode dar a luz um filho se nunca teve relações com algum homem, como aponta a expressão “não conheço homem algum” (Lc 1, 34). O anjo explica a Maria que tudo ocorrerá pelo poder divino. A “sombra” de que fala o texto recorda-nos a “nuvem” que acompanhava o povo de Israel no deserto, e que posteriormente estava sobre a Arca da Aliança. Esta nuvem indica a presença de Deus. Assim Maria é a Nova Arca da Aliança, a antiga continha as tábuas da Lei, a nova traz em si o próprio Filho de Deus. Termina nosso texto apontando que para Deus tudo é possível, é esta sem dúvida para nós mais uma Boa Notícia! Pois mesmo apesar da nudez de nosso ser criatural, de nossas fraquezas e pecados, Deus pode fazer maravilhas se nos abrirmos ao seu amor. Maria então aceita o chamado e se colocada a disposição como a serva do Senhor!  Ofereceu sua pobreza a Deus e sua virgindade tornou-se fecunda.  Na vida de Maria tudo decorre da escolha divina para que ela fosse a mãe do salvador. Esta vocação é só dela e de ninguém mais. Assim o que celebramos hoje é uma conseqüência lógica da chamada “Maternidade Divina”. Ela foi concebida sem o pecado original, é a plena de graça desde o seu nascimento em vista dos méritos da Redenção de Jesus. Ela nasce Imaculada, sem a mancha do pecado da mesma forma que Adão e Eva foram criados imaculados. Mas existe uma enorme diferença: enquanto nossos primeiros pais pecaram e perderam a inocência, Maria não pecou e sempre foi em sua vida um pleno “sim” aos apelos e a vontade de Deus. O “SIM” dado por Maria na anunciação repetiu-se muitas vezes, e consumou-se aos pés da Cruz na entrega de seu Filho pela salvação da humanidade. Maria é desde a sua concepção o que Deus queria que todos os seres humanos fossem: “santos e irrepreensíveis”. Numa palavra, Maria não é deusa, mas a perfeita “imagem e semelhança de Deus”. Pois bem ao contemplarmos Maria, na festa de hoje, primeiramente busquemos em nossa vida viver como ela viveu. Oferecer nossa pobreza a Deus para que dela brote uma grande riqueza. Precisamos ser capazes de assumir nossos compromissos, e responder aos convites que o Senhor nos faz, como verdadeiros servos Dele como nossa mãe o foi. E que possamos dizer sempre “sim” à vontade de Deus em nossa vida. Não raro somos ao mesmo tempo “sim” e “não”. Somos “não” quando deixamos o mal dominar nossa existência e somos “sim” quando nos transformamos em instrumentos do bem e do amor! Que possamos sempre repetir com Maria: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Meditar e viver este compromisso nos ajudaria a crescer em muito na fidelidade a Palavra de Deus e aos valores do Evangelho. Mesmo que nos custe sacrifícios devemos nos esforçar em viver este compromisso de entrega total a Vontade de Deus. É claro que para saber qual é concretamente a vontade divina precisamos de muito discernimento, e para isto nos ajudará a oração, a meditação e o conselho do irmão mais experiente no caminho do Senhor. Que a Imaculada no ajude a dar nosso “sim” nos momentos mais desafiantes da vida. Quando sentimos desânimo, ou somos oprimidos pela doença, injustiça e perseguição, nos momentos de desencanto, nas horas de incerteza. Na dor da traição ou do abandono dos amigos! Que nossa mãe nos ajude nestas difíceis situações da existência a reafirmarmos na fé, que vale mais seguir a Palavra de Deus. E nos livre da tentação de responder o mal com o mal! Que a Imaculada nos auxilie a cada dia no esforço de sermos uma verdadeira imagem e semelhança de Deus! Homens e mulheres novos, amigos de Deus, fraternos entre nós e construtores de um mundo melhor. Que a Imaculada nos ajude a viver na graça divina, a buscarmos sempre o bem, ela que é a plena da graça, e nos acompanhe na nossa luta contra o pecado em todas as suas formas. Que nesta semana nos esforcemos por ser o que Deus deseja de nós, buscando sinceramente em nossa vida uma maior comunhão com Ele, abrindo-nos cada vez mais solidariamente aos irmãos e fugindo do pecado que desfigura em nós a imagem de Deus, e que causa tantos transtornos a nossa vivência comunitária. Repitamos, pois com Maria muitíssimas vezes: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. E revalorizemos a importância da atitude de serviço. Ela foi Serva de Deus e dos irmãos, e nós também devemos ser. Aliás, o próprio Jesus disse que veio para servir e dar sua vida, e nos convidou a seguir o seu exemplo. Seria bom que nesta semana pudéssemos manifestar alguma atitude concreta de serviço aos irmãos. Não nos esqueçamos de que “quem não vive para servir não serve para viver”.

Santo Evangelho (Lc 14, 1-6)

30ª Semana Comum – Sexta-feira 03/11/2017

Primeira Leitura (Rm 9,1-5)
Leitura da Carta de São Paulo aos Romanos.

Irmãos, 1não estou mentindo, mas, em Cristo, digo a verdade, apoiado no testemunho do Espírito Santo e da minha consciência: 2Tenho no coração uma grande tristeza e uma dor contínua, 3a ponto de desejar ser eu mesmo segregado por Cristo em favor de meus irmãos, os de minha raça. 4Eles são israelitas. A eles pertencem a filiação adotiva, a glória, as alianças, as leis, o culto, as promessas 5e também os patriarcas. Deles é que descende, quanto à sua humanidade, Cristo, o qual está acima de todos – Deus bendito para sempre! – Amém!

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Responsório (Sl 147)

— Glorifica o Senhor, Jerusalém!
— Glorifica o Senhor, Jerusalém!

— Glorifica o Senhor, Jerusalém! Ó Sião, canta louvores ao teu Deus! Pois reforçou com segurança as tuas portas, e os teus filhos em teu seio abençoou.

— Glorifica o Senhor, Jerusalém!

— A paz em teus limites garantiu e te dá como alimento a flor do trigo. Ele envia suas ordens para a terra, e a palavra que ele diz corre veloz.

— Anuncia a Jacó sua palavra, seus preceitos, suas leis a Israel. Nenhum povo recebeu tanto carinho, a nenhum outro revelou os seus preceitos.

 

Evangelho (Lc 14,1-6)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.
— Glória a vós, Senhor.

1Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam. 2Diante de Jesus, havia um hidrópico. 3Tomando a palavra, Jesus falou aos mestres da Lei e aos fariseus: “A Lei permite curar em dia de sábado, ou não?” 4Mas eles ficaram em silêncio. Então Jesus tomou o homem pela mão, curou-o e despediu-o. 5Depois lhes disse: “Se algum de vós tem um filho ou um boi que caiu num poço, não o tira logo, mesmo em dia de sábado?” 6E eles não foram capazes de responder a isso.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

 

A IGREJA CATÓLICA CELEBRA E VENERA HOJE
São Martinho de Lima, cheio do Espírito Santo

São Martinho, homem cheio do Espírito Santo e de obras no amor, conseguia servir a Cristo no próximo

Com alegria celebramos a santidade de vida de um santo do nosso chão latino-americano. São Martinho nasceu no Peru em 1579, filho de um conquistador espanhol com uma mulata panamenha.

Grande parte da sociedade de Lima não diferenciava tanto da nossa atual, pois sustentava a hipócrita postura do preconceito racial, por isso Martinho sofreu humilhações, por causa de sua pele escura.

Aconteceu que São Martinho não foi reconhecido portador de sangue nobre, e nem precisava, porque educado de forma cristã pela mãe, descobriu com a vida que o “aspecto mais sublime da dignidade humana está na vocação do homem à comunhão com Deus” (Catecismo da Igreja Católica).

Com idade suficiente, São Martinho, homem cheio do Espírito Santo e de obras no amor, conseguia servir a Cristo no próximo, primeiramente pela suas diversas profissões (barbeiro, dentista, ajudante de médico), e mais tarde amou Deus no outro e o outro em Deus, como irmão da Ordem Dominicana. Mendigo por amor aos mendigos, São Martinho de Porres, ou de Lima, destacou-se dentre tantos pela sua luta contra o Tentador e a tentação, além da humildade, piedade e caridade. Sendo assim, Deus pôde munir Martinho com muitos Carismas, como o de cura e milagres, sem que estes o orgulhasse e o impedisse de ir para o Céu, onde entrou em 1639.

São Martinho de Lima, rogai por nós!

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