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O verdadeiro tesouro do homem

Domingo, 11 de agosto de 2013, Da Redação, Facebook da Rádio Vaticano
Papa Francisco durante a oração mariana do Angelus neste domingo, 11.  

Milhares de fiéis lotaram novamente neste domingo, 11, a Praça São Pedro, no Vaticano, para ouvir e ver o Papa Francisco.  A reflexão do Pontífice, como já é tradição, partiu de um texto preparado, mas o Papa também improvisou e entusiasmou os presentes.

O Papa lembrou que “no Evangelho deste domingo, Lucas nos fala do desejo do encontro definitivo com Cristo, um desejo que nos faz estar sempre prontos, com o espírito desperto, porque aguardamos este encontro de todo coração, inteiramente. Este é um aspecto fundamental da vida cristã”. Envolvendo os fiéis em sua catequese, Francisco convidou a responderem a duas perguntas.

A primeira: “Vocês têm realmente um coração desejoso de encontrar Jesus? Ou seu coração está fechado, adormecido, anestesiado? Pensem e respondam em silêncio, em seus corações”, pediu.

Em seguida, comentou a afirmação de Lucas “onde está o seu tesouro, está o seu coração”, e fez a segunda pergunta. “Onde está o seu tesouro? Qual é para vocês a realidade mais importante, mais preciosa, a realidade que atrai seu coração como um imã? Pode-se dizer que é o amor de Deus? Alguns poderiam me responder: Pai, mas eu trabalho, tenho família, para mim a realidade mais importante è conseguir manter minha família, meu trabalho… Certo, é verdade, mas qual é a força que mantém unida uma família? É justamente o amor de Deus que dá sentido aos pequenos compromissos cotidianos e que ajuda a enfrentar as grandes dificuldades. Este é o verdadeiro tesouro do homem”.

Segundo Papa Francisco, “o amor de Deus não é algo indefinido, um sentimento genérico, não é ar; o amor de Deus tem um nome e um rosto: Jesus Cristo, porque não podemos amar o ar. Amamos pessoas, e aquela pessoa é Jesus”. “É um amor – explicou – que dá valor e beleza a todo o resto: à família, ao trabalho, ao estudo, à amizade, à arte, a qualquer atividade humana”.

“Este amor dá sentido também – concluiu – às experiências negativas, porque nos permite ir adiante, não ficar prisioneiros do mal, e sim ir além; nos abre sempre à esperança, ao horizonte final de nossa peregrinação. Assim, até os cansaços, quedas e pecados ganham um sentido, porque o amor de Deus nos perdoa”.

 

Papa envia benção aos brasileiros pela Semana Nacional da Família
Da Redação, com CNBB

O Papa Francisco enviou uma benção apostólica para os fiéis, comunidades e paróquias que participam, no Brasil, da Semana Nacional da Família. A programação, que começa neste domingo, 11, vai até 17 de agosto, faz a reflexão do tema “Transmissão e Educação da Fé Cristã na Família”. O evento é animado pela Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família da CNBB.

A seguir, a íntegra da mensagem do Papa Francisco:

Vaticano, 6 de agosto de 2013

Queridas famílias brasileiras,

Guardando vivas no coração as alegrias que me foram proporcionadas durante a recente visita ao Brasil, me sinto feliz em saudá-las por ocasião da Semana Nacional da Família, cujo tema é “A transmissão e a educação da fé cristã na família”, encorajando os pais nessa nobre e exigente missão que possuem de ser os primeiros colaboradores de Deus na orientação fundamental da existência e a segurança de um bom futuro. Para isso, “é importante que os pais cultivem as práticas comuns de fé na família, que acompanhem o amadurecimento de fé dos filhos” (Carta Enc. Lumen Fidei, 53). Neste sentido, os pais são chamados a transmitir, tanto por palavras como, sobretudo pelas obras, as verdades fundamentais sobre a vida e o amor humano, que recebem uma nova luz da Revelação de Deus. De modo particular, diante da cultura do descartável, que relativiza o valor da vida humana, os pais são chamados a transmitir aos seus filhos a consciência de que esta deva sempre ser defendida, já desde o ventre materno, reconhecendo ali um dom de Deus e garantia do futuro da humanidade, mas também na atenção aos mais velhos, especialmente aos avós, que são a memória viva de um povo e transmissores da sabedoria da vida. Fazendo votos de que vocês, queridas famílias brasileiras, sejam o mais convincentes arautos da beleza do amor sustentado e alimentado pela fé e como penhor de graças do Alto, pela intercessão de Nossa Senhora Aparecida, a todos concedo a Benção Apostólica.

Francisco

Monge fala sobre vida austera dos seguidores de São Bento

Oração, silêncio e trabalho são a marca dos monges que seguem as regras deixadas por São Bento

Luciane Marins e Padre Roger Araújo

Nesta terça-feira, 11, dia em que a Igreja celebra São Bento, o Canção Nova em Foco conversa com Dom Filipe da Silva. O Abade do Mosteiro de São Bento no Rio de Janeiro, fala sobre a vida e obra deste santo, que embora tenha vivido no século quinto, até hoje conquista devotos em todo mundo.

A espiritualidade beneditina é fundamentada no amor a Jesus Cristo. Para Dom Filipe, a grande lição deixada por São Bento é despertar os homens para este amor. “Ele pede que nada seja anteposto a Cristo, é uma regra, um princípio, daí decorre tudo mais. Nada antepor ao amor de Cristo”, explica.

A austeridade, vivida pelo santo, é característica comum aos monges, que onde quer que estejam, têm uma vida marcada pela oração, silêncio e trabalho.

O dia beneditino tem a marca da organização que passa pela oração. Os monges rezam no início da manhã, depois no meio da manhã, ao meio dia, no meio da tarde, ao final da tarde, e um pouco mais a noite, encerrando o dia por volta das 20h.

“A primeira norma de São Bento é harmonizar, organizar e austerizar a vida de oração, porque essa oração voltada para Deus, através de Cristo, é que vai dar o tom espiritual ao Mosteiro que ele organizou”.

O santo deixou a chamada Regra Beneditina, uma série de “normas” que dirigem os costumes dos que a ela obedecem. No capítulo 16, São Bento deixou explícito como devem ser celebrados os ofícios durante o dia. “Rendamos, portanto, nessas horas, louvores ao nosso Criador ‘sobre os juízos da sua justiça’, isto é, nas Matinas, Prima, Terça, Sexta, Noa, Vésperas e Completas; e à noite, levantemo-nos para louvá-Lo’”.

Dom Filipe deixa claro que vida disciplinada e austera não significa vida dolorosa ou inquieta.

Trabalho

Ao lado da oração está o trabalho. A regra beneditina diz que a ociosidade é inimiga da alma. Entre uma oração e outra, o monge se volta ao trabalho, que depende do lugar em que o Mosteiro está.

O trabalho realizado em um Mosteiro da área urbana se diferencia de outro que esteja na área rural, neste último por exemplo o trabalho é voltado para a agricultura e trabalhos manuais.

Já no Mosteiro do Rio de Janeiro, do qual Dom Filipe é abade, o trabalho dos monges está relacionado ao Colégio, Faculdade, Livraria e Obra social que o Mosteiro mantém, além do acolhimento às pessoas que procuram o local para retiros e confissão. Outra característica dos beneditinos é o Apostolado da liturgia.

Missão dos monges

Independente do tipo de trabalho que desenvolvem, Dom Filipe explica que a missão dos monges é rezar pelo mundo e por tantas pessoas que devido às obrigações do dia a dia não o conseguem.

“Recolhidos no silêncio, paciência, trabalho, acolhimento, na oração damos a Deus o reconhecimento do seu senhorio. Deus é sumamente bom e perfeito, é justo que Deus seja permanentemente louvado por pessoas que deixam o mundo para ter como primeira missão esse louvor a Deus”.

Na entrevista Dom Filipe fala ainda sobre a rotina e horários dos monges, que costumam acordar as 4h30 da manhã, e destaca como a oração e a medalha de São Bento tem sido usada por devotos em várias partes do mundo para alcançar graças e proteção.

Sábado Santo

Por Mons. Inácio José Schuster

Em nosso Credo Apostólico, recitamos: “Padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu à mansão dos mortos”. O que significa: “Desceu à mansão dos mortos?” Para muitos um artigo de fé inútil, ocioso, ou quem sabe, um resquício de uma mitologia antiga, com a qual não mais se convive na modernidade. No entanto este artigo de fé, bem entendido, é profundo! A nossa sociedade moderna e contemporânea se parece bem à um Sábado Santo. Jesus foi morto! Descido da cruz e sepultado. “Deus morreu!”, gritava o filósofo Nietzsche, nos albores do século XX. A partir de então, a humanidade alegre, divertida e experimentando uma certa maioridade, tenta assumir as rédeas do próprio destino sem Deus. A presença de um sem número de atuantes religiosos, a presença de um sem número de agnósticos e céticos, um sem número de ateus, que recusam completamente Deus, recusam a transcendência, recusam qualquer religião e tenta transformar a sociedade secularizada, Eis o mistério do Sábado Santo. Deus morreu, nós O matamos, O sepultamos e podemos construir agora, tendo atingido a nossa maioridade, uma humanidade, uma sociedade sem Deus, sem os valores tradicionais da Igreja, sem os parâmetros qualquer da moral religiosa. A morte é um mistério para cada um de nós, porque aqueles que por ela transitaram, de lá não voltaram. Nós não a conhecemos, a não ser externamente e superficialmente. No entanto, a morte pode ser definida como a suprema solidão, e de fato, cada um morre completamente abandonado. A morte pode também ser contemplada, como aquela realidade onde não penetra mais nenhum som, voz ou mão amiga, afeto ou amor. Cada um morre a sua própria morte em total solidão, e os outros todos, mesmos os mais chegados ficam no exterior, não podem descer conosco à mansão dos mortos. Mas exatamente lá, onde cada um encontraria de direito o reino da solidão e silêncio total, Jesus, ao descer à mansão dos mortos. Eis o mistério do Sábado Santo: injetou vida no coração da morte. Jesus, ao descer à mansão dos mortos, transformou a morte desde dentro, para que ela pudesse ser Passagem, Páscoa, para uma plenitude de vida que chamamos de Vida Eterna. Ele foi ao âmago da extrema solidão de cada um de nós, para que lá, onde ninguém nos atinge, encontrássemos a Sua mão amiga que nos conduz à Eternidade de Deus.

 

Jesus penetra no mundo da morte, no domínio do mal, onde reinam o pecado, o demônio e todos os males que afligem a humanidade. Ele não só morreu por nossos pecados, mas também, “pela graça de Deus, provou a morte em favor de todos os homens” (Hb 2, 9). E Ele sai vitorioso. Às santas mulheres, que vão ao túmulo para visitá-lo e assim prestar uma homenagem Àquele que morreu na Sexta-feira, não lhes ocorria de modo algum a sua ressurreição. Elas se interrogam: “Quem nos rolará a pedra?”, e o evangelista s. Mateus responde: “O anjo fez rolar a pedra”. O que se salienta é o poder divino todo-poderoso, que vai muito além das impossibilidades humanas. Tudo conduz ao reconhecimento que a Ressurreição é iniciativa do Pai. São Jerônimo declara: “Nosso Senhor que é um só e único Filho de Deus e Filho do homem, segundo suas duas naturezas, a divina e a humana, se revela seja por sinais de sua grandeza, seja por aqueles de sua humildade. O ministério dos anjos, desde sua natividade, demonstra que Ele é Deus (…). Um anjo vem como guardião do sepulcro do Senhor, e suas vestes brancas exprimem a glória do Triunfador”. Os anjos são anunciadores, que desaparecem tão logo surge o Sol do Cristo, em seu nascimento ou em sua ressurreição.    O Sábado torna-se assim a vigília deste grande acontecimento, pois ele se dá ao amanhecer, “isto é, quando o céu já começa a clarear a partir do oriente, escreve Santo Agostinho, o que não acontece a não ser pela proximidade do sol nascente. Seu é o resplendor que costuma denominar-se com o nome de aurora, de modo que na medida em que nasce o sol vão desaparecendo os restos da obscuridade”. Coloquemo-nos nesta vigília e deixemos Jesus entrar mais e mais em nossa vida e então irão desaparecendo em nós os sinais do pecado, do mal e de toda maldade. Nenhum túmulo no mundo pode conter o Senhor Jesus por muito tempo. Sua morte na cruz nos traz nossa redenção e seu triunfo na manhã da Páscoa derrota a morte e comunica a paz ao mundo todo. Que o Sol nascente brilhe sempre, com mais fulgor, em nossa vida! “Senhor Jesus, vós morrestes para que eu pudesse viver para sempre em vosso reino de paz e de justiça. Fortalecei minha fé, para que eu possa conhecer o poder de vossa ressurreição e viver na esperança de ver-Vos face a face por toda a eternidade”.

 

A Igreja se recolhe em oração e contemplação junto ao túmulo do seu Senhor.   Ontem ainda podíamos contemplar o Corpo de Jesus que pendia da cruz. Hoje não é mais possível porque Seu corpo foi de lá retirado e colocado num sepulcro. O mundo, caríssimos irmãos, assume as responsabilidades da própria história sem Deus e sem Cristo.
Hoje, vinte séculos passados não parece que o nosso mundo é um grande Sábado Santo? Onde está Deus? Onde está Jesus Cristo? Onde esta a Comunidade de Cristo ou a Igreja? Não somos cada vez mais relegados à insignificância? Jesus Cristo não é notícia de primeira página; Jesus Cristo não é notícia de televisão o mundo parece bem sem Deus e sem Cristo; o mundo parece suportar tranqüilamente o silêncio de Deus e o silêncio de Cristo.

Sim, este mundo em que nós vivemos, onde a Igreja de Cristo não faz mais História, não domina mais, onde as pessoas assumiram o lugar de Deus e não se espera mais nada de Deus não é verdadeiramente um grande sábado Santo? Não vivemos nós num mundo que se despediu definitivamente de Deus?

Quem não conhece a cada dia que passa mais um que abandona completamente a sua vida cristã e católica? Silêncio de Deus; morte de Deus: eis o mistério do Sábado Santo que prolonga até os nossos dias! Mas isto, caríssimos irmãos, não é motivo para nos inquietarmos tremendamente, menos ainda, perdermos a fé.

Deus se permite estar em silêncio durante este tempo. Deus permite que a história prolongue um longo sábado Santo.

No entanto Jesus, que como diz a nossa profissão de fé: “desceu à mansão dos mortos”, é o mesmo que “ressuscitará ao terceiro dia e transformará inteiramente a historia dos homens e das mulheres”, porque por mais que teimemos em viver uma história sem Cristo e sem Deus, esta história sem Cristo e sem Deus não tem nenhum significado. É conduzida melancolicamente para a morte da qual ninguém escapa e que nos traga a todos, envolvendo-nos na sua noite escura.

Nós que cremos firmemente Naquele que morreu por nós Naquele que desceu a mansão dos mortos, Naquele que foi ao coração da morte e a transformou desde dentro e tem as suas chaves nas suas próprias mãos, nós cremos que este é o Senhor da vida e o senhor da morte também. Senhor de nossa morte, quando tivermos que descer ao sepulcro.

Com estas palavras Jesus Cristo abriu o último livro da revelação o apocalipse: “Sim Eu fui morte, mas eis que estou vivo e tenho as chaves dos Hades nas minhas mãos”. Com estes sentimentos vivamos o nosso Sábado Santo prolongado na história de nossas vidas na esperança sempre mais forte consolidada na vitória de Cristo e na Ressurreição.

 

SÁBADO SANTO – VIGÍLIA PASCAL

Meus irmãos,

Nesta noite santa em que o céu assume a terra e a terra assume o céu, em que o Redentor da Humanidade abandona o vale das trevas e das lágrimas para transpor os umbrais da luz e da alegria, com a bendita e gloriosa Ressurreição, somos convidados a refletir sobre a Reconstituição do Rebanho de Cristo, o Salvador.

A comemoração da Ressurreição do Cristo ocorre, desde a mais remota memória da Tradição Católica, na noite de sábado para domingo, pois na manhã do domingo – primeiro dia da semana – o Senhor já não está no sepulcro. Além disto, não obstante a Páscoa judaica ter uma outra data – seria a mesma data da última Ceia – a tradição cristã associou a noite da Ressurreição à noite da Páscoa descrita em Êxodo 12,42: “uma noite de vigília em honra do Senhor”. É a noite da libertação. E, mais ainda, esta noite ganha o sentido de uma recapitulação do universo, o começo da criação nova e escatológica, pois o Senhor Ressuscitado é as primícias da nova criação. A Ressurreição de Jesus é o penhor da renovação do universo.

A Igreja, rica em sua tradição, diz que esta noite é em honra do Senhor. Os fiéis trazendo na mão – segundo a exortação do Evangelho de Lucas (12,35ss) – a vela acesa, assemelham-se aos que esperam o retorno do Senhor, para, quando ele chegar, encontrá-los ainda vigilantes e os faça sentar-se à sua mesa.

A liturgia desta Vigília Pascal deve falar por si mesma. Com sensibilidade artística, deve-se representar o Mistério da nova luz que surge das trevas: Cristo que venceu a morte e o pecado. Os fiéis se unem a este Mistério, acendendo uma vela no Círio Pascal, quando de sua entrada triunfal na Igreja: é a participação da vida ressuscitada do Senhor.

Como tão bem se expressou certa ocasião o saudoso e magno arcebispo primaz de Minas Gerais, expoente da Companhia de Jesus, Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida: “Na noite do Sábado Santo, as comunidades cristãs celebram a Solene vigília Pascal, a liturgia da ressurreição de Cristo, vencedor do pecado e da morte. É muito expressivo o simbolismo das trevas e da Luz. Após as leituras do Antigo e do Novo Testamento, que narram o desígnio divino da Salvação, a comunidade reunida aguarda na escuridão do recinto sagrado a entrada festiva do Círio da Páscoa. A luz de Cristo, com cantos de aleluia, é aclamada com alegria, sinal de vida e esperança para a humanidade” – até aqui, Dom Luciano.

É a Luz que se desponta das trevas, é a salvação que se confirma, é a esperança da eternidade na graça de Deus. Cristo, a vítima perene sobre nossos altares, quebra os grilhões do pecado e introduz à Jerusalém Celeste aqueles que O aguardaram pelos séculos que O antecederam. É, pois, o momento do canto do “Glória a Deus nas alturas”. O hino de louvor que os anjos cantaram no presépio de Belém pelo nascimento do Salvador, canta, agora, a humanidade toda pela sua gloriosa ressurreição, pelo renascimento de todos na vida da graça.

E reza a Igreja na oração que se segue, pedindo a Deus que se digne iluminar “esta noite santa com a glória da ressurreição do Senhor”, despertando na Santa Igreja “o espírito filial, para que, inteiramente renovados, O sirvamos de todo o coração”. É uma alusão ao nosso batismo, que tradicionalmente ocorre nesta noite e em função da qual é concebida também a leitura de São Paulo aos Romanos (Rm 6,3-11), comparando o batismo como uma descida ao sepulcro, para daí corressuscitar com Cristo: o homem velho é crucificado; revestimo-nos do homem novo; pecado e morte já não reinam sobre a humanidade, sobre cada um de nós.

Esse belo texto do Apóstolo compara-nos a Jesus e diz que, pelo batismo, nós mergulhamos com Ele na morte e somos sepultados. Pela força do batismo, como que pela força divina, com Ele ressuscitamos. São Paulo usou uma expressão que nós entendemos muito bem, porque faz parte de nosso dia a dia: “Solidários na morte, solidários na ressurreição”. Todos, e cada um de nós em particular, fomos beneficiados com a ressurreição de Jesus nessa madrugada da Páscoa, neste momento da passagem do cativeiro do pecado para vida em união com Deus. Por isso, nossa alegria não nasce apenas da vitória de Jesus sobre a morte, mas da certeza de que não morreremos para sempre, tendo, a partir desta noite bendita, a garantida da VIDA ETERNA.

Meus irmãos,

Depois desta leitura a liturgia faz uma pausa.

Como pudemos sentir, chegado o grande momento do “Aleluia”, canta-se solenemente por três vezes, entoando o salmo que fala das glórias desta noite santa.

Estamos no meio da noite, uma noite muito especial e santíssima: noite da ressurreição.

Acendendo o fogo e o Círio Pascal, celebramos a luz.

Luz significa presença amorosa de Deus.

Luz significa a salvação, a morte para o pecado e para as trevas.

As palavras que iluminam esta noite santa são as do próprio ressuscitado: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida”. É a expressão da divindade de Cristo e a salvação que trazia à humanidade.

Jesus podia ter dito essas palavras nessa madrugada da Páscoa, ao sair da sepultura. Porque em sua ressurreição, o Senhor, quis compartilhar conosco tanto a divindade quanto a salvação, ou seja, a comunhão com Deus.

O Evangelho (Mc 16,1-7) nos apresenta uma recomendação que deve ser dada às três Marias, de irem à Galiléia transmitir aos apóstolos o que viram. A famosa conclusão breve de Marcos parece, inicialmente, pouco apta para a pregação. Termina aparentemente de maneira pouco pascal, pelo silêncio das mulheres – por medo – a respeito do sepulcro vazio e a mensagem do anjo. Mas, quem sabe, para Marcos, Jerusalém é o lugar da incredulidade e a Galiléia o lugar da fé do pequeno rebanho? Ele entende que o anúncio da ressurreição não foi feito logo em Jerusalém, mas primeiro se devia reconstituir o rebanho na Galiléia, precedendo o Bom Pastor, que deve reunir o rebanho escatológico: Jesus Cristo ressuscitado. Agora já não somos mais ovelhas sem pastor. Somos ovelhas reunidas perante o grande e único pastor: o Redentor que ressuscitou para salvar nossos pecados.

Vivemos a Páscoa que significa passagem, que significa vida da graça em Deus.

Que a água consagrada para ao batismo e a renovação das promessas solenes, bem como a Ladainha de todos os Santos, enfim, todo o contexto em que se desenvolve esta liturgia nos faça mais fiéis ao projeto de Deus Pai que nos criou; o Deus Filho que nos redimiu com o sangue na cruz e conquistou para nós na ressurreição, a vida plena e eterna; a Deus Espírito Santo que Jesus nos dá, para que nos tornemos filhos em plenitude da verdade e possamos, o quanto à criatura humana for capaz, “compreender a largura, o cumprimento, a altura e a profundidade” do amor do Senhor morto e ressuscitado para conosco.

Meus queridos irmãos,

Nesta noite santa celebramos a vitória da vida, da vida em abundância, que vem da vitória da graça sobre o pecado.

Páscoa bendita da libertação. Não uma libertação política, mas uma libertação escatológica.

Cristo, com a ressurreição, é o Senhor da História, como eleição gratuita de Deus. Por esta morte bendita e, ainda mais, pela sua ressurreição, todos nós, sem exceção, devemos dar testemunho de seu Evangelho diante do mundo. Devemos ser uma comunidade que testemunha e vive a Ressurreição.

Um costume da Igreja Antiga, como certa vez nos indicou o papa Bento XVI, deve ainda ser um sinal para nossos tempos. Relata-nos o Vigário de Cristo que, em priscas eras, era hábito o bispo ou sacerdote, após a homilia, conclamar os fiéis “Conversi ad Dominum”, ou seja “Voltai-vos para o Senhor”. Nesse instante, todos se viravam para o Oriente, ou para a imagem do Cristo, numa expressão de retornarem ao Senhor. “Com efeito, em última análise era deste fato interior que se tratava: da ‘conversio’, de voltar a nossa alma para Jesus Cristo e, n’Ele, para o Deus vivo, para a luz verdadeira”, nos explica o Papa (Vigília Pascal de 2008).

Essa exortação que nos chama a conversão inspira-nos a uma outra, comum em nossas celebrações: “Sursum corda” – “Corações ao alto”. Devemos sempre buscar as coisas do alto, as coisas de Deus, com a sua graça, sob a inspiração do Espírito Santo. Ambas exclamações nos inspiram a busca de reforma de vida, de um renascer, a partir dos méritos da paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, para vivermos a plenitude da Ressurreição.

Meus irmãos,

Páscoa não é apenas um dia no calendário litúrgico, não é apenas uma celebração bonita, rica de simbolismos, mas uma constante renovação da vida, que nesta noite santa nos libertou do império do pecado que ameaça a dignidade dos homens.

Celebrando esta Páscoa do Senhor, cantamos antecipadamente a vitória de todos os que lutam pela vida, inclusive dando a sua própria vida em benefício da implantação do Reino de Deus neste mundo.

Aleluia!

Que esta noite sacramento, sacramento de vida eterna, nos faça cada vez mais buscar enxergar no pobre e no excluído o rosto do Senhor Ressuscitado. Amém! aleluia!

Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha (MG)

 

HOMILIA DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II – VIGÍLIA PASCAL
Sábado Santo, 30 de Março de 2002
www.vatican.va

1. “Disse Deus: «Haja Luz». E houve luz” (Gn 1, 3) Uma explosão de luz, que a palavra de Deus fez surgir do nada, rasgou a primeira noite, a noite da criação. O apóstolo João escreverá: “Deus é luz e n’Ele não há trevas” (1Jo 1, 5). Deus não criou as trevas, mas a luz! E o Livro da Sabedoria, revelando claramente que a obra de Deus obedece desde sempre a uma finalidade positiva, assim se exprime: “Ele criou tudo para a existência; / e todas as criaturas têm em si a salvação. / Não há nelas nenhum princípio de morte, / nem o domínio da morte impera sobre a terra” (Sab 1, 14). Naquela primeira noite, a noite da criação, tem as suas raízes o mistério pascal que, após o drama do pecado, constitui a restauração e a coroação daquele instante inicial. A Palavra divina trouxe à existência todas as coisas e, em Jesus, fez-se carne para nos salvar. E, se o destino do primeiro Adão foi retornar à terra donde viera (cf. Gn 3, 19), o último Adão desceu do céu para lá subir de novo vencedor, primícia da nova humanidade (cf. Jo 3, 23; 1Cor 15, 47).
2. Uma outra noite constitui o evento fundamental da história de Israel: é o êxodo prodigioso do Egito, cuja narração se lê em cada ano na solene Vigília pascal. “O Senhor fustigou o mar com um impetuoso vento do oriente, que soprou durante toda a noite. Secou o mar, e as águas dividiram-se. Os filhos de Israel desceram a pé enxuto para o meio do mar, e as águas formavam como que uma muralha à direita e à esquerda deles” (Ex 14, 21-22). O povo de Deus nasceu deste “batismo” no Mar Vermelho, quando experimentou a mão forte do Senhor que o arrancava da escravidão, para conduzi-lo à suspirada terra da liberdade, da justiça e da paz. Esta é a segunda noite, a noite do êxodo. A profecia do Livro do Êxodo cumpre-se hoje também para nós, que somos israelitas segundo o Espírito, descendência de Abraão graças à fé (cf. Rm 4, 16). Na sua Páscoa, como novo Moisés, Cristo faz-nos passar da escravidão do pecado à liberdade dos filhos de Deus. Mortos com Jesus, com Ele ressuscitamos para a vida nova, pelo poder do seu Espírito. O seu Batismo veio a ser o nosso.
3. Recebereis este Batismo, que gera o homem para a vida nova, também vós, caríssimos Irmãos e Irmãs catecúmenos, provindos de diversos Países: da Albânia, da China, do Japão, da Itália, da Polônia, da República Democrática do Congo. Dois dentre vós, uma mãe japonesa e uma chinesa, trazem consigo também o filho, de modo que, na mesma celebração, serão batizadas as mães junto com as suas crianças. “Nesta santíssima noite” em que Cristo ressuscitou dos mortos, cumpre-se para vós um “êxodo” espiritual: deixais para trás a velha existência e entrais na “terra dos vivos”. Esta é a terceira noite, a noite da ressurreição.
4. “Oh noite ditosa, única a ter conhecimento do tempo e da hora em que Cristo ressuscitou do sepulcro”. Assim cantamos no Precônio Pascal, no início desta solene Vigília, mãe de todas as Vigílias. Após a trágica noite de Sexta-feira Santa, quando «o domínio das trevas» (Lc 22, 53) parecia levar a melhor sobre Aquele que é «a luz do mundo» (Jo 8, 12), após o grande silêncio de Sábado Santo, em que Cristo, cumprida a sua obra na terra, encontrou descanso no mistério do Pai e levou a sua mensagem de vida aos abismos da morte, eis finalmente a noite que precede “o terceiro dia”, no qual, segundo as Sagradas Escrituras, o Messias havia de ressuscitar, como Ele mesmo tinha repetidamente preanunciado aos seus discípulos. “Oh noite ditosa, em que o Céu se une à terra, em que o homem se encontra com Deus!” (Precônio Pascal).
5. Esta é a noite por excelência da fé e da esperança. Enquanto tudo está mergulhado na escuridão, Deus – a Luz – vigia. Com Ele, vigiam todos que confiam e esperam n’Ele. Ó Maria, esta é por vossa excelência a vossa noite! Enquanto se apagam as últimas luzes do sábado, e o fruto do vosso ventre descansa na terra, vosso coração também vigia! A vossa fé e a vossa esperança projetam-se para diante. Para além da pesada lápide, vislumbram já o túmulo vazio; para além do espesso véu das trevas, entrevêem a aurora da ressurreição. Fazei, ó Mãe, que também nós vigiemos no silêncio da noite, crendo e esperando na palavra do Senhor. Encontraremos assim, na plenitude da luz e da vida, Cristo, primícia dos ressuscitados, que reina com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Aleluia!

 

HOMILIA DO PAPA NA VIGÍLIA PASCAL
A mão salvadora do Senhor nos sustenta

CIDADE DO VATICANO, domingo, 12 de abril de 2009 (ZENIT.org).- Publicamos a homilia que Bento XVI pronunciou na solene vigília da Noite Santa de Páscoa, que presidiu na Basílica de São Pedro do Vaticano. * * *
Amados irmãos e irmãs! Narra São Marcos no seu Evangelho que os discípulos, ao descer do monte da Transfiguração, discutiam entre si o que queria dizer «ressuscitar dos mortos» (cf. Mc 9, 10). Antes, o Senhor tinha-lhes anunciado a sua paixão e a ressurreição três dias depois. Pedro tinha protestado contra o anúncio da morte. Mas agora interrogavam-se acerca do que se poderia entender pelo termo «ressurreição». Porventura não acontece o mesmo também a nós? O Natal, o nascimento do Deus Menino de certo modo é-nos imediatamente compreensível. Podemos amar o Menino, podemos imaginar a noite de Belém, a alegria de Maria, a alegria de São José e dos pastores e o júbilo dos Anjos. Mas, a ressurreição: o que é? Não entra no âmbito das nossas experiências, e assim a mensagem freqüentemente acaba, em qualquer medida, incompreendida, algo do passado. A Igreja procura levar-nos à sua compreensão, traduzindo este acontecimento misterioso na linguagem dos símbolos pelos quais nos seja possível de algum modo contemplar este fato impressionante. Na Vigília Pascal, indica-nos o significado deste dia sobretudo através de três símbolos: a luz, a água e o cântico novo do aleluia. Temos, em primeiro lugar, a luz. A criação por obra de Deus – acabamos de ouvir a sua narração bíblica – começa com as palavras: «Haja luz!» (Gen 1, 3). Onde há luz, nasce a vida, o caos pode transformar-se em cosmos. Na mensagem bíblica, a luz é a imagem mais imediata de Deus: Ele é todo Resplendor, Vida, Verdade, Luz. Na Vigília Pascal, a Igreja lê a narração da criação como profecia. Na ressurreição, verifica-se de modo mais sublime aquilo que este texto descreve como o início de todas as coisas. Deus diz de novo: «Haja luz». A ressurreição de Jesus é uma irrupção de luz. A morte fica superada, o sepulcro escancarado. O próprio Ressuscitado é Luz, a Luz do mundo. Com a ressurreição, o dia de Deus entra nas noites da história. A partir da ressurreição, a luz de Deus difunde-se pelo mundo e pela história. Faz-se dia. Somente esta Luz – Jesus Cristo – é a luz verdadeira, mais verdadeira que o fenômeno físico da luz. Ele é a Luz pura: é o próprio Deus, que faz nascer uma nova criação no meio da antiga, transforma o caos em cosmos. Procuremos compreender isto um pouco melhor ainda. Porque é que Cristo é Luz? No Antigo Testamento, a Torah era considerada como a luz vinda de Deus para o mundo e para os homens. Aquela separa, na criação, a luz das trevas, isto é, o bem do mal. Aponta ao homem o caminho justo para viver de modo autêntico. Indica-lhe o bem, mostra-lhe a verdade e conduz-lo para o amor, que é o seu conteúdo mais profundo. Aquela é «lâmpada» para os passos, e «luz» no caminho (cf. Sal 119/118, 105). Ora, os cristãos sabiam que, em Cristo está presente a Torah: a Palavra de Deus está presente n’Ele como Pessoa. A Palavra de Deus é a verdadeira Luz de que o homem necessita. Esta Palavra está presente n’Ele, no Filho. O Salmo 19 comparara a Torah ao sol, que, nascendo, manifesta a glória de Deus visivelmente em todo o mundo. Os cristãos compreendem: sim, na ressurreição, o Filho de Deus surgiu como Luz sobre o mundo. Cristo é a grande Luz, da qual provém toda a vida. Ele faz-nos reconhecer a glória de Deus de um extremo ao outro da terra. Indica-nos a estrada. Ele é o dia de Deus que agora, crescendo, se difunde por toda a terra. Agora, vivendo com Ele e por Ele, podemos viver na luz. Na Vigília Pascal, a Igreja representa o mistério da luz de Cristo no sinal do círio pascal, cuja chama é simultaneamente luz e calor. O simbolismo da luz está ligado com o do fogo: resplendor e calor, resplendor e energia de transformação contida no fogo. Verdade e amor andam juntos. O círio pascal arde e deste modo se consuma: cruz e ressurreição são inseparáveis. Da cruz, da autodoação do Filho nasce a luz, provém o verdadeiro resplendor sobre o mundo. No círio pascal, todos acendemos as nossas velas, sobretudo as dos neo-batizados, aos quais, neste sacramento, a luz de Cristo é colocada no fundo do coração. A Igreja Antiga designou o Batismo como fotismos, como sacramento da iluminação, como uma comunicação de luz e ligou-o inseparavelmente com a ressurreição de Cristo. No Batismo, Deus diz ao batizando: «Haja luz». O batizando é introduzido dentro da luz de Cristo. Cristo divide agora a luz das trevas. N’Ele reconhecemos o que é verdadeiro e o que é falso, o que é o resplendor e o que é a escuridão. Com Ele, surge em nós a luz da verdade e começamos a compreender. Uma vez quando Cristo viu a gente que se congregara para O escutar e esperava d’Ele uma orientação, sentiu compaixão por ela, porque eram como ovelhas sem pastor (cf. Mc 6, 34). No meio das correntes contrastantes do seu tempo, não sabiam a quem dirigir-se. Quanta compaixão deve Ele sentir também do nosso tempo, por causa de todos os grandes discursos por trás dos quais, na realidade, se esconde uma grande desorientação! Para onde devemos ir? Quais são os valores, segundo os quais podemos regular-nos? Os valores segundo os quais podemos educar os jovens, sem lhes dar normas que talvez não subsistam nem exigir coisas que talvez não lhes devam ser impostas? Ele é a Luz. A vela batismal é o símbolo da iluminação que nos é concedida no Batismo. Assim, nesta hora, também São Paulo nos fala de modo muito imediato. Na Carta aos Filipenses, diz que, no meio de uma geração má e perversa, os cristãos deveriam brilhar como astros no mundo (cf. Fil 2, 15). Peçamos ao Senhor que a pequena chama da vela, que Ele acendeu em nós, a luz delicada da sua palavra e do seu amor no meio das confusões deste tempo não se apague em nós, mas torne-se cada vez mais forte e mais resplendorosa. Para que sejamos com Ele pessoas do dia, astros para o nosso tempo. O segundo símbolo da Vigília Pascal – a noite do Batismo – é a água. Esta aparece, na Sagrada Escritura e conseqüentemente também na estrutura íntima do sacramento do Batismo, com dois significados opostos. De um lado, temos o mar que se apresenta como o poder antagonista da vida sobre a terra, como a sua contínua ameaça, à qual, porém, Deus colocou um limite. Por isso o Apocalipse, ao falar do mundo novo de Deus, diz que lá o mar já não existirá (cf. 21, 1). É o elemento da morte. E assim torna-se a representação simbólica da morte de Jesus na cruz: Cristo desceu aos abismos do mar, às águas da morte, como Israel penetrou no Mar Vermelho. Ressuscitado da morte, Ele dá-nos a vida. Isto significa que o Batismo não é apenas um banho, mas um novo nascimento: com Cristo, como que descemos ao mar da morte para dele subirmos como criaturas novas. O outro significado com que encontramos a água é como nascente fresca, que dá a vida, ou também como o grande rio donde provém a vida. Segundo o ordenamento primitivo da Igreja, o Batismo devia ser administrado com água fresca de nascente. Sem água, não há vida. Impressiona a grande importância que têm na Sagrada Escritura os poços. São lugares donde brota a vida. Junto do poço de Jacob, Cristo anuncia à Samaritana o poço novo, a água da vida verdadeira. Manifesta-Se a ela como o novo e definitivo Jacob, que abre à humanidade o poço que esta aguarda: aquela água que dá a vida que jamais se esgota (cf. Jo 4, 5-15). São João narra-nos que um soldado feriu com uma lança o lado de Jesus e que, do lado aberto – do seu coração trespassado –, saiu sangue e água (cf. Jo 19, 34). Nisto, a Igreja Antiga viu um símbolo do Batismo e da Eucaristia, que brotam do coração trespassado de Jesus. Na morte, Jesus mesmo Se tornou a nascente. Numa visão, o profeta Ezequiel tinha visto o Templo novo, do qual jorra uma nascente que se torna um grande rio que dá a vida (cf. Ez 47, 1-12); para uma Terra que sempre sofria com a seca e a falta de água, esta era uma grande visão de esperança. A cristandade dos primórdios compreendeu: em Cristo, realizou-se esta visão. Ele é o Templo verdadeiro, o Templo vivo de Deus. E é também a nascente de água viva. D’Ele brota o grande rio que, no Batismo, faz frutificar e renova o mundo; o grande rio de água viva é o seu Evangelho que torna fecunda a terra. Mas, num discurso durante a Festa das Tendas, Jesus profetizou uma coisa ainda maior: «Do seio daquele que acreditar em Mim, correrão rios de água viva» (Jo 7, 38). No Batismo, o Senhor faz de nós não só pessoas de luz, mas também nascentes das quais brota água viva. Todos nós conhecemos tais pessoas que nos deixam de algum modo restaurados e renovados; pessoas que são como que uma fonte de água fresca borbotante. Não devemos necessariamente pensar a pessoas grandes como Agostinho, Francisco de Assis, Teresa de Ávila, Madre Teresa de Calcutá e assim por diante, pessoas através das quais verdadeiramente rios de água viva penetraram na história. Graças a Deus, encontramo-las continuamente mesmo no nosso dia a dia: pessoas que são uma nascente. Com certeza, conhecemos também o contrário: pessoas das quais emana um odor parecido com o dum charco com água estagnada ou mesmo envenenada. Peçamos ao Senhor, que nos concedeu a graça do Batismo, para podermos ser sempre nascentes de água pura, fresca, saltitante da fonte da sua verdade e do seu amor. O terceiro grande símbolo da Vigília Pascal é de natureza muito particular; envolve o próprio homem. É a entoação do cântico novo: o aleluia. Quando uma pessoa experimenta uma grande alegria, não pode guardá-la para si. Deve manifestá-la, transmiti-la. Mas que sucede quando a pessoa é tocada pela luz da ressurreição, entrando assim em contacto com a própria Vida, com a Verdade e com o Amor? Disto, não pode limitar-se simplesmente a falar; o falar já não basta. Ela tem de cantar. Na Bíblia, a primeira menção do ato de cantar encontra-se depois da travessia do Mar Vermelho. Israel libertou-se da escravidão. Subiu das profundezas ameaçadoras do mar. É como se tivesse renascido. Vive e é livre. A Bíblia descreve a reação do povo a este grande acontecimento da salvação com a frase: «O povo acreditou no Senhor e em Moisés, seu servo» (Ex 14, 31). Segue-se depois a segunda reação que nasce, por uma espécie de necessidade interior, da primeira: «Então Moisés e os filhos de Israel cantaram este cântico ao Senhor…». Na Vigília Pascal, ano após ano, nós, cristãos, depois da terceira leitura entoamos este cântico, cantamo-lo como o nosso cântico, porque também nós, pelo poder de Deus, fomos tirados para fora da água e libertos para a vida verdadeira. Para a história do cântico de Moisés depois da libertação de Israel do Egito e depois da subida do Mar Vermelho, há um paralelismo surpreendente no Apocalipse de São João. Antes de iniciarem os últimos sete flagelos impostos à terra, aparece ao vidente «uma espécie de mar de cristal misturado com fogo. Sobre o mar de cristal, estavam de pé os vencedores do Monstro, da sua imagem e do número do seu nome. Tinham na mão harpas divinas e cantavam o cântico de Moisés, o servo de Deus, e o cântico do Cordeiro…» (Ap 15, 2s). Com esta imagem, é descrita a situação dos discípulos de Jesus em todos os tempos, a situação da Igreja na história deste mundo. Considerada humanamente, tal situação é contraditória em si mesma. Por um lado, a comunidade encontra-se no Êxodo, no meio do Mar Vermelho. Num mar que, paradoxalmente, é ao mesmo tempo gelo e fogo. E não deve porventura a Igreja caminhar sempre sobre o mar através do fogo e do frio? Humanamente falando, deveria afundar. Mas não, e enquanto caminha ainda no meio deste Mar Vermelho, ela canta – entoa o cântico de louvor dos justos: o cântico de Moisés e do Cordeiro, no qual concordam a Antiga e a Nova Aliança. Enquanto, na realidade deveria afundar, a Igreja entoa o cântico de agradecimento dos redimidos. Está sobre as águas de morte da história e todavia já está ressuscitada. Cantando, ela agarra-se à mão do Senhor, que a sustenta por cima das águas. E sabe que deste modo é guindada fora da força de gravidade da morte e do mal – uma força da qual, sem tal intervenção, não haveria caminho algum de fuga – guindada e atraída para dentro da nova força de gravidade de Deus, da verdade e do amor. De momento, ela encontra-se ainda entre os dois campos gravitacionais. Mas desde que Jesus ressuscitou, a gravitação do amor é mais forte que a do ódio; a força de gravidade da vida é mais forte que a da morte. Porventura não é esta a situação da Igreja de todos os tempos? Sempre dá a impressão que ela deva afundar, e todavia já está salva. São Paulo ilustrou esta situação com as palavras: «Somos considerados (…) como agonizantes, embora estejamos com vida» (2Cor 6, 9). A mão salvadora do Senhor nos sustenta e assim podemos cantar já agora o cântico dos redimidos, o cântico novo dos ressuscitados: Aleluia! Amém.
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A espiritualidade da Sexta-feira Santa

Dar a vida pelos outros como o Senhor deu a vida dEle por nós

Neste dia, que os antigos chamavam de “Sexta-feira Maior”, quando celebramos a Paixão e Morte de Jesus, o silêncio, o jejum e a oração devem marcar este momento. Ao contrário do que muitos pensam, a Paixão não deve ser vivida em clima de luto, mas de profundo respeito e meditação diante da morte do Senhor que, morrendo, foi vitorioso e trouxe a salvação para todos, ressurgindo para a vida eterna.

É preciso manter um “silêncio interior” aliado ao jejum e à abstinência de carne. Deve ser um dia de meditação, de contemplação do amor de Deus que nos “deu o Seu Filho único para que quem n’Ele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). É um dia em que as diversões devem ser suspensas, os prazeres, mesmo que legítimos, devem ser evitados.

Uma prática de piedade valiosa é meditar a dolorosa Paixão do Senhor, se possível diante do sacrário, na igreja, usando a narração que os quatro evangelistas fizeram.

Outra possibilidade será usar um livro para meditação como “A Paixão de Cristo segundo o cirurgião”, no qual o Dr. Pierre Barbet, francês, depois de estudar por mais de vinte anos a Paixão, narra com detalhes o sofrimento de Cristo. Tudo isso deve nos levar a amar profundamente Jesus Crucificado, que se esvaziou totalmente para nos salvar de modo tão terrível. Essa meditação também precisa nos levar à associação com a Paixão do Senhor, no sentido de tomar a decisão de “gastar a vida” pela salvação dos outros. Dar a vida pelos outros, como o Senhor deu a Sua vida por nós. “Amor só se paga com amor”, diz São João da Cruz.

A meditação da Paixão do Senhor deve mostrar-nos o quanto é hediondo o pecado. É contemplando o Senhor na cruz, destruído, flagelado, coroado de espinhos, abandonado, caluniado, agonizante até a morte, que entendemos quão terrível é o pecado. Não é sem razão que o Catecismo diz que pecado é “a pior realidade para o mundo, para o pecador e para a Igreja”. É por isso que Cristo veio a este mundo para ser imolado como o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Só Ele poderia oferecer à Justiça Divina uma oblação de valor infinito que reparasse todos os pecados de todos os homens de todos os tempos e lugares.

O ponto alto da Sexta Feira Santa é a celebração das 15 horas, horário em que Jesus foi morto. É a principal cerimônia do dia: a Paixão do Senhor. Ela consta de três partes: liturgia da Palavra, adoração da cruz e comunhão eucarística. Nas leituras, meditamos a Paixão do Senhor, narrada pelo evangelista São João (cap. 18), mas também prevista pelos profetas que anunciaram os sofrimentos do Servo de Javé. Isaías (52,13-53) coloca, diante de nossos olhos, “o Homem das dores”, “desprezado como o último dos mortais”, “ferido por causa dos nossos pecados, esmagado por causa de nossos crimes”. Deus morreu por nós em forma humana.

Neste dia, podemos também meditar, com profundidade, as “Sete Palavras de Cristo na Cruz” antes de sua morte. É como um testamento d’Ele:

“Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem” “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso” “Mulher, eis aí o teu filho… Eis aí a tua Mãe” “Tenho Sede!” “Eli, Eli, lema sabachtani? – Meus Deus, meus Deus, por que me abandonastes?” “Tudo está consumado!” “Pai, em tuas mãos entrego o meu Espírito!”.

À noite, as paróquias fazem encenações da Paixão de Jesus Cristo com o sermão da descida da cruz; em seguida, há a Procissão do Enterro, levando o esquife com a imagem do Senhor morto. O povo católico gosta dessas celebrações, porque põe o seu coração em união com a Paixão e os sofrimentos do Senhor. Tudo isso nos ajuda na espiritualidade deste dia. Não há como “pagar” ao Senhor o que Ele fez e sofreu por nós; no entanto, celebrar com devoção o Seu sofrimento e morte Lhe agrada e nos faz felizes. Associando-nos, assim, à Paixão do Senhor, colheremos os Seus frutos de salvação.

Felipe Aquino
felipeaquino@cancaonova.com

 

Entenda o significado do beijo na Cruz na Sexta-feira Santa

Em todo o ano, existe somente um dia em que não se celebra a Santa Missa: a Sexta-Feira Santa. Ao invés da Missa temos uma celebração que se chama Funções da Sexta-feira da Paixão, que tem origem em uma tradição muito antiga da Igreja que já ocorria nos primeiros séculos, especialmente depois da inauguração da Basílica do Santo Sepulcro e do reencontro da Santa Cruz por parte de Santa Helena (ano 335 d.C.).

Esta celebração é dividida em três partes: a primeira é a leitura da Sagrada Escritura e a oração universal feita por todas as pessoas de todos os tempos; a segunda é a adoração da Santa Cruz e a terceira é a Comunhão Eucarística, juntas formam o memorial da Paixão e Morte de Nosso Senhor. Memorial não é apenas relembrar ou fazer memória dos fatos, é realmente celebrar agora, buscando fazer presente, atual, tudo aquilo que Deus realizou em outros tempos. Mergulhamos no tempo para nos encontrarmos com a graça de Deus no momento que operou a salvação e, ao retornarmos deste mergulho, a trazemos em nós.

Os cristãos peregrinos dos primeiros séculos a Jerusalém nos descrevem, através de seus diários que, em um certo momento desta celebração, a relíquia da Santa Cruz era exposta para adoração diante do Santo Sepulcro. Os cristãos, um a um, passavam diante dela reverenciando e beijando-a. Este momento é chamado de Adoração à Santa Cruz, que significa adorar a Jesus que foi pregado na cruz através do toque concreto que faziam naquele madeiro onde Jesus foi estendido e que foi banhado com seu sangue.

Em nosso mundo de hoje, falar da Adoração à Santa Cruz pode gerar confusão de significado, mas o que nós fazemos é venerar a Cruz e, enquanto a veneramos, temos nosso coração e nossa mente que ultrapassa aquele madeiro, ultrapassa o crucifixo, ultrapassa mesmo o local onde estamos, até encontrar-se com Nosso Senhor pregado naquela cruz, dando a vida para nos salvar. Quando beijamos a cruz, não a beijamos por si mesma, a beijamos como quem beija o próprio rosto de Jesus, é a gratidão por tudo que Nosso Senhor realizou através da cruz. O mesmo gesto o padre realiza no início de cada Missa ao beijar o Altar. É um beijo que não para ali, é beijar a face de Jesus. Por isso, não se adora o objeto. O objeto é um símbolo, ao reverênciá-lo mergulhamos em seu significado mais profundo, o fato que foi através da Cruz que fomos salvos.

Nós cristãos temos a consciência que Jesus não é apenas um personagem da história ou alguém enclausurado no passado acessível através da história somente. “Jesus está vivo!” Era o que gritava Pedro na manhã de Pentecostes e esse era o primeiro anúncio da Igreja. Jesus está vivo e atuante em nosso meio, a morte não O prendeu. A alegria de sabermos que, para além da dolorosa e pesada cruz colocada sobre os ombros de Jesus, arrastada por Ele em Jerusalém, na qual foi crucificado, que se torna o símbolo de sua presença e do amor de Deus, existe Vida, existe Ressurreição. Nossa vida pode se confundir com a cruz de Jesus em muitos momentos, mas diante dela temos a certeza que não estamos sós, que Jesus caminha conosco em nossa via sacra pessoal e, para além da dor, existe a salvação.

Ao beijar a Santa Cruz, podemos ter a plena certeza: Jesus não é simplesmente um mestre de como viver bem esta vida, como muitos se propõem, mas o Deus vivo e operante em nosso meio.

As fases do Amor

O amor gera a vida; o egoísmo produz a morte. A psicologia mostra hoje com toda clareza que as graves perversões morais tem quase sempre como causa principal uma frustração de amor. Os jovens se encaminham para as drogas, para o sexo vazio, para o alcoolismo e para tantas violências, porque são carentes de amor, desnutridos de amor. A pior anemia é a do amor. Leva à morte do espírito. Ninguém pode ser feliz se não for amado; se não fizer uma experiência de amor. Se isto é importante na infância e na adolescência, também na vida conjugal isto é verdade.

E esse amor conjugal começa a ser aprendido e treinado no namoro. Na longa viagem da vida conjugal, que começa no namoro, você precisa levar a bagagem do amor. Você amará de verdade o seu namorado, não só porque ele é simpático, bonito ou porque é um atleta, mas porque você quer o bem dele e quer ajudá-lo a ser ainda melhor, com a sua ajuda. Muitas vezes você quis e procurou uma namorada perfeita, ou um rapaz ideal, mas saiba que isto não existe.

A primeira exigência do amor é aceitar o outro como ele é, com todas as suas qualidades e defeitos. Só assim você poderá ajudá-lo a crescer, amando-o como ele é. Alguém já disse que o amor é mais forte do que a morte, e capaz de remover montanhas. O amor tem uma força misteriosa; quando você ama o outro gratuitamente, sem cobrar nada em troca, você desperta-o para si mesmo, revela-o a si mesmo, dá-lhe ânimo e vida, ressuscita-o. É com a chama de uma vela que você acende outra. É com a doação da sua vida que você faz a vida do outro reviver. Desde o namoro você precisa saber que “amar não é querer alguém construído, mas construir alguém querido.”

É claro que um casal se aproxima pelo coração, mas cresce pelo amor, que transcende os sentimentos e se enraíza na razão. Todo relacionamento humano só terá sentido se implicar no crescimento dos envolvidos. De modo especial no namoro e no casamento isto é fundamental. A ordem de Deus ao casal é esta: crescei. Deus não nos dá uma ajuda adequada para curtirmos a vida a dois; mas para crescermos a dois. Isto vale desde o namoro. E o que faz crescer é o fermento do amor. Ninguém melhor do que São Paulo expressou as exigências do verdadeiro amor: “O amor é paciente, O amor é bondoso. Não tem inveja. O amor não é orgulhoso. Não é arrogante. Nem escandaloso. Não busca os seus próprios interesses, Não se irrita, Não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, Mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa. Tudo crê, Tudo espera, Tudo suporta. O amor jamais acabará” (1Cor 13, 4-7).

Medite um pouco em cada linha deste hino do amor, e pergunte a você mesmo, se você está vivendo isto no seu namoro. Você é paciente com a namorada ou não, sabe se controlar diante dos defeitos dela? Você é bondoso para com ele, ou será que algumas vezes exige vingança, e quer ir à desforra por causa de algo que ele fez e que você não gostou? Ser bondoso é saber perdoar, é ser compreensivo e tolerante, sem ser conivente com o erro, claro. Será que você tem inveja dele porque ele a supera em certas atividades? Será que você é um namorado orgulhoso, que acha que só por ser homem já é suficientemente superior a ela? Se você não admite ser ultrapassado pelo outro nas coisas boas, saiba que você não o ama de verdade; pois, quando se ama queremos que o outro seja melhor que nós. Será que você não é arrogante, que se acha superior ao outro, e que quer sempre impor a sua vontade? Até que ponto você permite que a presunção o domine, fazendo-o achar-se o bom?

Saiba que a arrogância e a prepotência atravancam o caminho do amor e do crescimento do casal. Será que você é escandalosa, e parte para a chantagem emocional para conseguir aquilo que você não consegue pela força dos argumentos? Saiba que a gritaria é muitas vezes a linguagem dos fracos, que agem assim por falta de razões.

Será que você é egoísta no seu namoro, e ele tem que fazer tudo o que você quer? Aqui está a pedra de tropeço principal para muitos casais. Uma vez que o egoísmo é o oposto do amor, um casal egoísta pode ser comparado a duas bolas de bilhar: só se encontram para se chocarem e se afastarem em sentidos opostos… Será que você é daquelas que vive mau humorada ou que derruba o beiço por qualquer contrariedade? Será que você é daqueles que se irrita por qualquer coisinha dela que não esteja do seu gosto? Você perdeu a linha porque ele se atrasou quinze minutos? Você deixou o seu namoro azedar porque ele olhou apenas um instante para a outra moça que passou ao lado?

O amor não se irrita, não xinga, não ofende, não grita! O amor não guarda rancor, diz o apóstolo. É claro que haverá no namoro momentos de desencontros. São normais os pequenos desentendimentos. É fruto das diferenças individuais e das circunstâncias da vida. O feio não é brigar, mas não se reconciliar, não saber perdoar, não saber quebrar o silêncio mortal e manter o diálogo. Para evitar as brigas e desentendimentos é preciso saber combinar as coisas. O povo diz que aquilo que é combinado não é caro. Aprendam a combinar sobre o passeio, sobre as atividades que cada um gosta de fazer, etc… É preciso dizer aqui que a face mais bela do amor é a do perdão. Você tem o direito de ser perdoada, pois errar é humano; mas tem também o dever de perdoar quando ele errar e pedir perdão.

O gesto mais nobre de Jesus foi o de perdoar os algozes que o crucificavam. Não pode haver futuro para um casal que não sabe se perdoar mutuamente. Esta é a maior reserva de estabilidade para o casal. Outra face bela do amor é a fidelidade. Ser fiel ao outro não quer dizer apenas não ter outro parceiro; é muito mais do que isto, é ser verdadeiro em tudo. É não tapear o outro em nada. É não ser fingido, mascarado ou dissimulador. Se você mente para a sua namorada saiba que está destruindo o amor entre vocês. Nada é mais fatal para o amor! A mentira gera a desconfiança; a desconfiança gera o ciúme; o ciúme gera a briga e a separação. Ser fiel ao outro é saber respeitá-lo, defendê-lo, e não traí-lo de qualquer forma, seja por pensamentos ou palavras. Se você fizer dos seu namoro uma brincadeira de esconde-esconde, você estará brincando de amar, e isto é muito mal. Portanto, quebre toda falsidade, dissimulação e fingimento, porque isto destrói o amor.

A mentira tem pernas curtas, diz o povo; ela logo aparece, e quando isto ocorre deixa o mentiroso desqualificado, e não mais digno de confiança. Desde o namoro é preciso ter em mente que a beleza do amor está exatamente na construção da pessoa amada. É uma missão para gente madura, com grandeza de alma. Construir uma pessoa é educá-la em todos os aspectos, e isso é uma obra do coração. O amor tudo suporta, tudo crê, tudo espera; o amor não passa jamais. Não há o que o amor não possa fazer. Quando não ajudamos o outro a crescer é sinal de que o nosso amor por ele ainda é pequeno. Se o seu namoro não for um exercício constante do amor, ele ficará vazio, monótono, e sem sabor. E como a natureza tem horror ao vácuo, este vazio será preenchido por desentendimentos e brigas.

Namorando se aprende a amar, mas amando se aprende a namorar. Para você meditar:

Sete vezes menosprezei a minha alma

1. Quando a vi disfarçar-se com a humildade para alcançar a grandeza;

2. Quando a vi coxear na presença dos coxos;

3. Quando lhe deram para escolher entre o fácil e o difícil, e escolheu o fácil;

4. Quando cometeu o mal e consolou-se com a ideia de que outros cometem o mal também;

5. Quando aceitou a humilhação por covardia e atribuiu sua paciência à fortaleza;

6. Quando desprezou a lealdade de uma face que não era, na realidade, senão uma de suas próprias máscaras;

7. Quando considerou uma virtude elogiar e glorificar.

Prof. Felipe Aquino

Março, mês de São José

“José mereceu o nome de “Justo”

Sempre fui devoto de São José, graças a Deus; e há muitos anos me recomendo a Ele diariamente, bem como a todos os meus caros. Sinto sua especial proteção em tudo o que faço. Acabei de escrever um livro sobre este glorioso santo escolhido por Deus para ser o pai adotivo de Jesus. Pode haver honra maior para um homem?

Meu desejo de escrever sobre as glórias de São José aumentou ainda mais depois que eu e minha esposa, Maria Zila, recebemos uma imensa graça que suplicamos a Deus, por muitos anos, pela intercessão de São José.

Minha esposa adquiriu o hábito de fumar em sua adolescência e sempre fumou durante nossos quatro anos de namoro e noivado e mais trinta anos de casados. Mas sempre pedíamos a Deus a graça para ela deixar esse vício. Há seis anos ela lutava com muitas orações e súplicas para deixar o cigarro; pois bem, no dia 1º de maio de 2002, pouco antes da Procissão de São José, que houve em nossa cidade de Lorena (SP), eu disse a ela: “Vamos à procissão de São José e, depois, você vai jogar a sua carteira de cigarros fora”.

Movida por Deus, ela aceitou o convite e fomos acompanhar a Procissão de São José Operário; fizemos a ele o nosso pedido. Quando chegamos em casa, ela jogou fora o seu último maço de cigarros e não mais fumou, depois de 35 anos de vício prolongado. Deus seja louvado! São José não falha!

A Igreja sempre venerou São José com muita honra e confiança e muito nos recomenda à sua intercessão. É por isso que, no seu dia 19 de março, a Igreja interrompe a Quaresma, o sacerdote troca os paramentos roxos pelo branco, para celebrar o grande santo. São José permaneceu no silêncio e na mais profunda discrição para não atrapalhar a missão de Jesus, mas Deus quis que muitos santos, padres e papas pudessem vislumbrar toda a sua grandeza e glória. Em uma aparição a Santa Margarida de Cortona, ela conta que disse Jesus: “Filha, se desejas fazer-me algo agradável, rogo-te não deixeis passar um dia sem render algum tributo de louvor e de bênção ao meu Pai adotivo São José, porque me é caríssimo”.

Santo Afonso de Ligório (†1787), doutor da Igreja, garantia que todo dom ou privilégio que Deus concedeu a outro santo também o fez a São José. São Francisco de Sales, doutor da Igreja, diz que “São José ultrapassou, na pureza, os anjos da mais alta hierarquia”.

São Jerônimo, doutor da Igreja, diz que “José mereceu o nome de “Justo”, porque possuía, de modo perfeito, todas as virtudes”.

Se São José foi escolhido por Deus para Esposo da Virgem Maria, a mais santa de todas as mulheres, é porque ele era o mais santo de todos os homens. Se houvesse alguém mais santo que José, certamente seria este escolhido por Jesus para Esposo de Sua Mãe Maria. Nós não pudemos escolher nosso pai nem nossa mãe, mas Jesus pôde; então, escolheu os melhores que existiam.

São Bernardo (†1153), doutor da Igreja, disse de São José: “De sua vocação, considerai a multiplicidade, a excelência, a sublimidade dos dons sobrenaturais com que foi enriquecido por Deus”. Os Santos Padres e Doutores da Igreja concordam em dizer que São José foi escolhido para esposo de Maria pelo próprio Deus.

É eloquente o testemunho de Santa Teresa de Ávila (†1582), doutora da Igreja, devotíssima de São José. No “Livro da Vida”, sua autobiografia, ela escreveu: “Tomei por advogado e senhor o glorioso São José e muito me encomendei a ele. Claramente vi que dessa necessidade, como de outras maiores referentes à honra e à perda da alma, esse pai e senhor meu salvou-me com maior lucro do que eu lhe sabia pedir. Não me recordo de lhe haver, até agora, suplicado graça que tenha deixado de obter. Coisa admirável são os grandes favores que Deus me tem feito por intermédio desse bem-aventurado santo, e os perigos de que me tem livrado, tanto do corpo como da alma. A outros santos parece o Senhor ter dado graça para socorrer numa determinada necessidade. Ao glorioso São José tenho experiência de que socorre em todas. O Senhor quer dar a entender com isso como lhe foi submisso na terra, onde São José, como pai adotivo, o podia mandar, assim no céu atende a todos os seus pedidos. Por experiência, o mesmo viram outras pessoas a quem eu aconselhava encomendar-se a ele. A todos quisera persuadir que fossem devotos desse glorioso santo, pela experiência que tenho de quantos bens alcança de Deus. De alguns anos para cá, no dia de sua festa, sempre lhe peço algum favor especial. Nunca deixei de ser atendida”.

Próximo de Jesus e de Maria, São José é a estrela de primeira grandeza no Céu; por isso a Igreja lhe presta um culto de “proto-dulia”, em primeiro lugar na lista dos santos. Ele intercede e cuida da Igreja sem cessar, assim como, na terra, velava sem se descuidar, do Filho de Deus a ele confiado. Nos recomendemos todos a ele, todos os dias.

Prof. Felipe Aquino
felipeaquino@cancaonova.com

Sem silêncio e solidão não há encontro com Deus

”As pessoas que não suportam o silêncio é porque, na verdade, não se suportam. Elas se sentem agredidas pelo silêncio …”.

“O encontro com Deus não é possível se não silenciarmos, pois se Deus nos fala, precisamos estar prontos para ouvir”. É o que defende o padre Paulo Ricardo Azevedo Júnior, sacerdote da Arquidiocese de Cuiabá (MT).

A Igreja, junto com o Pontífice, pede a Deus para que os homens e mulheres deste tempo, “tantas vezes mergulhados num ritmo frenético de vida, redescubram o valor do silêncio e saibam escutar Deus e os irmãos”.

Em meio à correria da vida moderna, é comum perceber o pouco número daqueles que conseguem buscar esse encontro consigo e com Deus. Nesse sentido, Padre Paulo ressalta a realidade dos que, mesmo sem perceber, têm medo do silêncio ou da solidão, e por isso têm também a necessidade de estar sempre conectados a algo ou a alguém.

“As pessoas que não suportam o silêncio é porque, na verdade, não se suportam. Elas se sentem agredidas pelo silêncio, porque ele nos obriga a nos encontrarmos conosco mesmo”.

Silêncio: porta de encontro consigo e com Deus

Para o sacerdote, o encontro do indivíduo com ele mesmo é a porta que dá acesso a “Jesus, Vivo e Verdadeiro”. “É a porta em que eu me abro para o Alto, me abrindo para dentro, para o encontro comigo mesmo”.

Portanto, segundo ele, o silêncio é fundamental na vida espiritual, no encontro com Deus que é Palavra. Sem silêncio não há encontro consigo mesmo, nem com Deus. Com isso, a vida espiritual não se desenvolve.

É possível promover esse tipo de encontro a todo o momento, diz o padre. “Se eu me encontro comigo, eu estou me recolhendo, por mais que haja barulho ao meu redor”. No entanto – destacou – “é preciso também me dar um espaço de silêncio e solidão que, poderia dizer, é quase um hábito higiênico. As pessoas precisam também ter o hábito de ter um momento de recolhimento, seu, com Deus”.

O silêncio e a solidão

Esse silêncio, porta para o encontro, está ligado à solidão, segundo o padre. Não se trata de um isolamento depressivo, mas um tipo de solidão que proporciona o contato com Deus, consigo mesmo e com o outro.

Na opinião de padre Paulo, as pessoas vivem agitadas, envolvidas por barulhos e experimentando corriqueiros encontros superficiais. “Não há encontros de coração a coração”, afirmou. Os profundos encontros, segundo o sacerdote, acontecem quando duas solidões se encontram.

“Para a gente se encontrar com uma pessoa, a minha solidão tem que se encontrar com a sua solidão, ou seja, eu preciso enquanto pessoa me encontrar com alguém que sei, é uma outra pessoa que não vai saciar plenamente a minha sede de felicidade. São duas solidões que se encontram. Só assim é possível o encontro”.

Entretanto, o único encontro capaz de produzir felicidade plena é o encontro com Deus. “O encontro com Deus é diferente no sentido que é Ele que consegue saciar essa solidão, mas ele fará isso plenamente no céu. Na vida de oração, a solidão e o silêncio estão juntos, porque estes são a condição para o encontro comigo mesmo e com Deus”.

A Igreja e o valor do silêncio

Nas diversas tradições religiosas da Igreja Católica, “a solidão e o silêncio constituem espaços privilegiados para ajudar as pessoas a encontrar-se a si mesmas e àquela Verdade que dá sentido a todas as coisas”. Essa afirmação é do Papa emérito Bento XVI, em sua mensagem para o 46º Dia Mundial das Comunicações Sociais.

Para o bispo emérito de Roma, é necessário criar um ambiente propício, quase uma espécie de “ecossistema” capaz de equilibrar silêncio, palavra, imagens e sons. Ele também afirma na mensagem que o silêncio é o canal de comunicação entre Deus e o homem, e do homem com Deus.

“Temos necessidade daquele silêncio que se torna contemplação, que nos faz entrar no silêncio de Deus e assim chegar ao ponto onde nasce a Palavra, a Palavra redentora”, escreveu o Pontífice.

É Natal cada vez que você fica em silêncio…

… para escutar o outro

Reflexão de Santa Teresa de Calcutá sobre a vinda ao mundo do Filho de Deus
Osvaldo Rinaldi

A poucos dias do Natal, cheios de ansiedade pelos preparativos para o jantar e a compra de presentes, a iminente Solenidade nos convida a esculpir um espaço de tempo para refletir sobre o significado mais profundo deste acontecimento cristão.

Madre Teresa nos deixou uma meditação profunda sobre o significado do Natal, dando-nos um texto incrível em sua simplicidade, mas rico daquela humanidade que o Filho de Deus leva a cada ser humano.

Leiamos com humildade estas palavras repletas da gratuidade do amor de Deus por cada criatura:

É Natal cada vez que você sorri a um teu irmão e lhe estende as mãos.

É Natal cada vez que você fica em silêncio para escutar o outro.

É Natal cada vez que você não aceita aqueles princípios que renegam os oprimidos à margem da sociedade.

É Natal cada vez que você espera com aqueles que estão desesperados na pobreza física e espiritual

É Natal cada vez que você reconhece com humildade os teus limites e as tuas fraquezas.

É Natal cada vez que você permite ao Senhor de renascer para se doar aos outros.

Estas palavras são um verdadeiro decálogo de acolhimento, de aceitação e de serviço gratuito ao próximo.

O sorriso do coração é um sinal de abertura ao outro, porque reflete a disposição dos reconciliados e pacificados, que é muito mais eloquente do que tantas palavras inúteis e vazias.

O sorriso exprime aquela abertura de quem perdoou os erros profundamente sofridos. Poderíamos dizer que o sorriso é a abertura da Porta do Jubileu da Misericórdia de sua própria casa, porque manifesta a retidão de intenção no convívio e na partilha.

A realidade, muitas vezes, é diferente, porque a dureza do nosso coração encontra dificuldade de sorrir para aquele parente que depois de meses aparece na porta da nossa casa; é mais fácil julgá-lo por seu afastamento do que acolhê-lo novamente, com a alegria de ter reencontrado alguém que estava perdido.

Como é fácil cair no risco de oferecer “falsos sorrisos” que são o prelúdio de um árido diálogo, de discursos inúteis, de falsos relacionamentos e falsa presunção.

O verdadeiro sorriso é o prelúdio da escuta, que é a chave universal para entrar no coração do nosso interlocutor. A escuta silenciosa é aquela força interior capaz de transferir o outro da periferia para o centro da atenção. A escuta devolve a dignidade e o valor a esses eventos da vida que precisam ser ditos a alguém para ser entendido pela pessoa que fala. Escutar é um serviço insubstituível e eficaz porque contém a força silenciosa de fazer sair do coração de quem está diante de nós aquelas verdades desconfortáveis, que são o prelúdio para a possibilidade de oferecer palavras de encorajamento e de esperança.

Estas palavras de Madre Teresa contêm um precioso segredo evangélico: se quisermos compreender e nos reconciliar com aquele parente que está conosco à mesa no Natal, evitemos usar muitas palavras para justificar ou para tentar minimizar a situação embaraçosa. A atitude certa que estabelece uma reconciliação saudável e duradoura é a humildade da escuta, capaz de compreender as dificuldades dos outros e consertar aquele pano velho que o nosso cruel justicialismo deixou pela soberba e dureza dos nossos corações.

O escutar, precedido pelo sorriso, é realmente misericordioso quando oferece palavras e gestos de esperança para aqueles que foram surpreendidos pelos acontecimentos da vida e não conseguem encontrar uma maneira de sair daquela deprimente situação de angústia e desespero.

Que bom seria ouvir no Natal as sogras que reconhecem os esforços das noras na criação dos filhos, conciliar o trabalho com a família, que bom seria para as crianças verem seus pais falarem com alegria de seus avôs, que alegria seria recordar nesta noite santa todos aqueles que vieram antes de nós, fazendo memória de alguns episódios de suas vidas, que bom seria conversar com aquele parente com o qual tivemos uma desavença e reconhecer nossos limites em vez de condenar a fraqueza dele.

O Natal é a celebração do memorial da vinda do Filho de Deus a Terra para que o Menino Jesus possa nascer novamente em cada ser humano e renovar a partir do nosso interior as nossas vidas com as palavras de Madre Teresa: “É Natal cada vez que você permite ao Senhor de renascer para se doar aos outros”. São palavras cheias de esperança, porque contêm uma sabedoria que não é deste mundo, que afirma a verdade cristã tão esquecida em nosso tempo: a mudança no mundo é possível quando começa a mudar primeiro o nosso coração.

A conversão é realmente contagiante, quando somos os primeiros a reconhecer que necessitamos da misericórdia de Deus. Se Cristo nascer em nós, a nossa casa se tornará o humilde estábulo de Belém, pobre de segurança terrena, mas rica em humanidade e calor humano, que será visitado por muitos pastores marginalizadas do nosso bairro, que escutando as vozes dos vizinhos, poderão correr com confiança para o nosso focolare. Seria bom pensar em um Natal que transforme as nossas famílias, onde ninguém que está batendo à porta volte para casa de mãos vazias, mas encontre muitos sinais visíveis da misericórdia de Deus, muitas vezes feitos de palavras, mas outras vezes de gestos concretos, usando a caridade cristã, que é verdadeiramente autêntica quando tem a força de tirar algo de si para socorrer as necessidades materiais e espirituais dos necessitados.

IV Domingo do Advento – Ano A

Por Mons. Inácio José Schuster

Estamos nas vésperas do Natal. Quarto domingo de Advento. Lá fora o comércio está fervilhando, os Shoppings estão superlotados, alguns meses atrás se lançava uma grande expectativa de todos os lojistas e comerciantes, um Natal tão rendoso, como nunca houve neste país. São muitas as pessoas atarantadas com os presentes e a ceia do Natal. Nós, porém, com a Igreja, assumimos uma direção diversa. Nós queremos um Natal mais contemplativo, mais veraz, um Natal que permaneça conosco, por isso mesmo nesse último domingo do Advento, nós contemplamos uma figura excepcional, após Nossa Senhora, São José, seu pai adotivo. José sempre foi uma pessoa silenciosa. Nenhuma palavra nos veio por ele, na Sagrada Escritura, transmitida nem mesmo se pronunciou como sua esposa, “eis aqui o servo do Senhor”, no entanto, nós podemos com toda justiça, concluir que Deus pediu o consentimento de São José. José, diz o texto de Mateus capítulo primeiro, versículos 18 a 24, não sabendo, ignorando por completo o que se passava com sua esposa, resolveu abandoná-la secretamente. Não que José imaginasse um adultério, ou qualquer falta grave por parte de sua esposa. Ela não era leviana e não levava José a suspeitas quanto a sua integridade moral. José se sentia diante de um mistério que não conseguia desvendar, que era maior do que a as pessoas. Ele se sente pequeno insignificante. Quer deixar o palco e o cenário nas pontas dos pés. É então que o Anjo do Senhor lhe pede o consentimento: “Não temas, em assumir tua esposa!”. Ele humildemente fará também a vontade de Deus e cooperará, a seu modo, para que Jesus entre neste mundo de forma conveniente e honesta. Ele lhe dará um nome! Jesus é da linhagem de Davi e Messias, graças a José. Neste quarto domingo do Advento, esta figura silenciosa se impõe a nossa contemplação. Nós como ele, podemos imaginar que o mistério de Deus, a respeito de cada um de nós é muito grande. Sobrepassa e muito a nossa pequenez, mas tenhamos paciência como José. Peçamos a Deus aquele lume, ou aquele raio de luz, suficiente para enxergar o dia de hoje, ou quem sabe o ano que vem, deixando para o futuro novas revelações que Deus nos quiser fazer. Nossa vida é também misteriosa como a de José, mas ela toda está nas mãos de Deus e podemos agradecer-lhe por essa segurança que ela nos traz.

 

Referindo-se à genealogia de Adão, o evangelista indica que Jesus é o Novo Adão. Se Adão gera Set à sua semelhança, como à sua imagem, ou seja, “vindo da terra ele gera homens terrestres”, caídos no pecado, “o Adão, que vem na plenitude dos tempos”, nos transmite o espírito que dá a vida, nos restaurando à imagem e semelhança de Deus. A Tradição tem sublinhado também o paralelo entre a Virgem Maria e Eva “mãe de todos os viventes”, entre o “fiat”, faça-se da Anunciação e a desobediência que é causa decisiva do “Pecado Original”. Santo Efrém entoa à Virgem um hino: “Que em Maria se alegre toda a ordem dos profetas, pois as visões, nela encontram o término, as profecias sua realização, os oráculos sua força e seu cumprimento. (…) A árvore da vida que se escondia no meio do paraíso cresceu em Maria. Sua sombra abriga o mundo inteiro, ela oferece seus frutos, longe e perto”. José, homem justo, longe de condenar Maria, conserva tudo em segredo, o que atesta em favor da Virgem. Daí o comentário de São Jerônimo, com sua profundidade religiosa habitual: “Como pode José ser declarado “justo”, se ele escondeu a falta de sua esposa? Longe disto. É um testemunho em favor de Maria: José conhecendo sua castidade e tocado pelo que lhe sucede, esconde, por seu silêncio, o acontecimento do qual ele ignora o mistério”. O que São Jerônimo destaca aqui é, sobretudo a atitude espiritual e quase mística de São José: no fato inexplicável, ele soube reconhecer e respeitar o Mistério: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e o chamarão com o nome de Emanuel”. É a vinda do Filho de Deus, que se encarna e nasce da Virgem Maria, por ação do Espírito Santo. “Senhor Jesus, vós trouxestes esperança e salvação para vosso povo. Restaurai e fortalecei a família cristã em nossos dias. Ajudai-me a amar e a servir minha família. Que eu possa remover todos os obstáculos que impedem a paz e a harmonia em todo meu relacionamento familiar”.

 

QUARTO DOMINGO DO ADVENTO
Mt 1, 18-24: “Ele vai salvar o seu povo dos seus pecados”

Este texto nos relata a história da concepção virginal de Jesus, na versão mateana. Tipicamente deste evangelho, escrito para uma comunidade predominantemente judeu-cristã em polêmica com o judaísmo rabínico dos últimos anos do primeiro século, o texto traz muitas releituras de trechos do Antigo Testamento. Para entendê-lo bem, devemos examiná-lo passo por passo, sempre lembrando do contexto em que foi escrito. A primeira coisa a ser entendida é a situação “matrimonial” de Maria e José. O casamento judaico da época se dava em duas etapas – primeiro os noivos assumiam o compromisso publicamente, diante de testemunhas, mesmo que não coabitassem durante mais ou menos um ano. A situação era mais séria do que o nosso noivado – na lei judaica, qualquer relação sexual neste período era considerada adultério. Num segundo momento, a noiva era levada à casa do noivo, que assumia a responsabilidade pelo bem-estar dela, e os dois começavam a morar juntos. Foi no período entre as duas etapas que o texto coloca a Anunciação a José. No relato de Mateus, diferentemente de Lucas, Maria não age diretamente – é José que desempenha o papel principal. A atitude de José de repudiar Maria secretamente sempre levantava problemas. Pois para que um repúdio fosse legal, tinha que ser feito publicamente com um certificado oficial (Dt 24, 1). Vários autores antigos debateram sobre a atitude de José. Como podia ser chamado de “homem justo”, se ele esconde o crime da sua desposada? (São Jerônimo). São Bernardo pensava que José conhecia, ou por revelação de Deus, ou por Maria, o fato da concepção virginal. Então, diante da presença de Deus Infinito, por temor reverencial e respeito ao mistério, queria se retirar em silêncio. Escrevendo para uma comunidade de tradição judaica, Mateus quer mostrar que Jesus, mesmo gerado pelo Espírito Santo, era realmente descendente de Davi, e herdeiro das promessas messiânicas, pois José o assumiu e deu-lhe o nome. Na Bíblia, o nome muitas vezes significa a missão, ou a identidade, da pessoa. O nome Jesus significa “o Senhor salva”. O nome resume toda a missão e projeto de vida do recém concebido! Os vv. 22-23 nos dão um belo exemplo de como os primeiros cristãos faziam a releitura do Antigo Testamento à luz da vida de Jesus. Infelizmente, muitas vezes este trecho é muito mal explicado, como se o profeta Isaías tivesse uma visão dos futuros acontecimentos de Nazaré e Belém, assim reduzindo o profeta a um mero vidente! De novo, cumpre lembrar que Mateus, na sua polêmica com o judaísmo rabínico formativo, quer mostrar que Jesus realiza as promessas do Antigo Testamento; e, portanto, que os seus seguidores são os verdadeiramente fiéis à tradição judaica. Por isso, ele usa a tática de “citações de cumprimento das Escrituras” para interpretar os acontecimentos mais marcantes da vida de Jesus (1, 22; 2, 15.23; 4, 14; 8, 17; 13, 35; 21, 4; 27, 9). Assim, o trecho de hoje usa um texto de Isaías, onde, diante da recusa do Rei Acaz de pedir um sinal de Deus, o profeta aponta para a sua jovem esposa, já grávida, e diz que antes do filho chegar à idade de razão, os dois reis que o atacavam seriam derrotados (Is 7, 1-15). O texto original hebraico não falava de uma “virgem”, mas usava um termo hebraico “almah” que significava tanto uma menina virgem, como uma jovem recém-casada. L. Stadelmann mostrou que o termo também designava uma senhora nobre estrangeira, no caso, a esposa estrangeira do Rei Acaz. Também, o texto hebraico diz que ela “concebeu” e não que “conceberá” (como foi traduzido para o grego pela versão dos Setenta – LXX, ou Septuaginta). Portanto, a profecia de Is 7, 14 originalmente não se referia a Maria. A interpretação mariana vem de Mateus. Usando a tradução grega da Septuaginta, ele fala que “a virgem conceberá” e dará à luz o filho. A mudança do tempo do verbo, do passado para o futuro, na tradução da LXX, testemunha as expectativas messiânicas do tempo da tradução. Usando o texto de Is 7, 14, Mateus faz uma releitura do texto profético, aplicando-o ao Messias e à sua mãe. Esse texto é muitas vezes explicado de uma maneira fundamentalista, sem levar em conta nem o contexto da profecia de Isaías, nem do escrito de Mateus, como se a frase “conforme as escrituras” significasse que Jesus só tinha que seguir tarefas predestinadas pelo Pai, de uma forma mecânica. Como diz o mariólogo brasileiro A. Murad, “a frase salienta que o grande sonho do povo, as suas aspirações, os seus desejos mais íntimos e utopias, as suas expectativas messiânicas, encontram realização na pessoa de Jesus… a partir da sua Ressurreição, os cristãos olham para o passado e se servem de imagens e trechos de profecias, para justificar esta experiência indescritível. Algumas vezes, como faz Mateus, chegam até a forçar e alterar parte do texto original. Não se sentem presos à letra da Escritura, mas movidos pelo Espírito, que os faz ver o sentido último dos acontecimentos… Eles conferem sentido novo aos textos antigos, que muitas vezes extrapola a intenção original do seu autor. Assim acontece com Is 7, 14, reinterpretado por Mt 1, 22s. O primeiro texto não diz respeito a Maria e Jesus, o segundo sim.” (Quem É Esta Mulher? – Paulinas p. 213). O texto de hoje nos dá o verdadeiro motivo da alegria do Natal – não porque é festa de presentes e festividades, mas porque recordamos (fazemos passar de novo pelo coração!) a verdadeira Boa-Nova: que Jesus era o “Emanuel”, o Deus-Conosco, Aquele que veio nos salvar dos nossos pecados! Era a Encarnação da bondade e do amor gratuito de Deus!

 

“Maria, sua Mãe”. Com estas palavras, São Mateus começa por explicar que Jesus, o filho de Maria, é Filho de Deus: “O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo”. Maria e José são figuras muito importantes nesta narração. A figura de Maria encontra-se no centro da celebração deste domingo; ela é a Mãe Daquele cuja morte e ressurreição celebramos na Eucaristia; ela foi convidada por Deus a participar ativamente no plano salvífico. Juntamente com José, seu esposo, disseram sim ao Senhor. Com Maria, toda a humanidade coloca-se no centro da história da salvação. Deus nunca desistiu de salvar a humanidade, contando com todos.

A humanidade é a protagonista da história que se inicia em Belém. Para aqueles que desejam fazer parte desta história, um requisito é exigido: ter o perfil de Maria e de José. O protagonismo que Deus nos dá no plano salvífico não é o de líderes, ou de quem domina, ou de ter que aparecer em encontros sociais. Nesta história, os personagens mais importantes são todos aqueles que são desprezados ou que vivem na penumbra. No domingo passado, Jesus enumerava-os: os cegos, os surdos, os leprosos, os mortos, os pobres. É destes que Jesus se aproxima, os toca. Sentem-se atraídos por Ele, pela sua bondade e pela sua mensagem. Aceitam viver segundo o plano de Jesus. Amam e seguem Aquele que os amou primeiro. Um caso concreto vê-se, neste domingo, com José. O esposo de Maria pretende fazer a vontade de Deus. E ao procurar o melhor para Maria, encontra-se com o próprio Deus que lhe fala, através do anjo. Deus, como aconteceu com Maria, teve a iniciativa de ir ao encontro de José. Deus manifesta-se, fala, atua. José responde com a vida: “José… recebeu sua esposa”.

Maria e José aceitam o convite de Deus e cumprem a sua missão na humildade e na simplicidade. São protagonistas, tendo aceitado o convite do Senhor, manifestado através das suas obras. Deus escolheu uma maneira muito simples de se tornar presente na história da humanidade. Todavia, não foi fácil aceitar esta realidade por José, pelos contemporâneos de Jesus e até pela sociedade atual. Deus quis ser, no aspecto físico, um homem como os outros. Só se entende este mistério, porque o Pai no-lo deu a conhecer e quando escutarmos a Palavra, vivendo-a no quotidiano, meditando em todos os momentos da vida, como José fazia.

Rezar para conhecer Jesus; o catecismo não é suficiente

Papa celebra missa na Capela da Casa Santa Marta, 20/10/16 – OSS_ROM

Cidade do Vaticano (RV) – Para conhecer realmente Jesus precisamos de oração, adoração e reconhecer-nos pecadores. Foi o que disse o Papa Francisco na Missa matutina (20/10) na Casa Santa Marta. O Pontífice destacou que o catecismo não é suficiente para compreender a profundidade do mistério de Cristo.

Francisco desenvolveu sua homilia partindo da Carta de São Paulo aos Efésios. O Apóstolo dos Gentios, observou ele, pede que o Espírito Santo dê aos Efésios a graça de “serem fortes, robustos”, que faça de modo que Cristo habite em seus corações. Ali está o centro”.

Não se conhece Jesus somente com o catecismo, é preciso rezar

O Papa observou que Paulo “se imerge” no “mar imenso que é a pessoa de Cristo”. Mas como podemos conhecer Cristo?”, questionou Francisco. Como podemos compreender “o amor de Cristo que supera todo conhecimento”?:

“Cristo está presente no Evangelho, lendo o Evangelho conhecemos Cristo. E todos fazemos isso, pelo menos ouvimos o Evangelho quando vamos à Missa. Com o estudo do catecismo: o catecismo nos ensina quem é Cristo. Mas isso não é suficiente. Para ser capaz de compreender qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade de Jesus Cristo é preciso entrar num contexto, primeiro, de oração, como faz Paulo, de joelhos: ‘Pai, envia-me o Espírito para conhecer Jesus Cristo”.

Encontrar o Senhor no silêncio da adoração

Para conhecer realmente Cristo, “é necessária a oração”. “Paulo não somente reza, adora este mistério que supera todo conhecimento e num contexto de adoração pede esta graça” ao Senhor:

“Não se conhece o Senhor sem este hábito de adorar, de adorar em silêncio, adorar. Se não estou enganado, creio que esta oração de adoração seja a menos conhecida entre nós, é a que menos rezamos. Perder tempo, permito-me dizer, diante do Senhor, diante do mistério de Jesus Cristo. Adorar. Ali em silêncio, o silêncio da adoração. Ele é o Senhor e eu o adoro”.

Reconhecer-se pecadores para entrar no mistério de Jesus

O Papa disse ainda que “para conhecer Cristo é necessário ter consciência de nós mesmos, ou seja, ter o hábito de nos acusar”, de reconhecer-nos pecadores:

“Não se pode adorar sem acusar-se a si mesmo. Para entrar neste mar sem fundo, sem margens, que é o mistério de Jesus Cristo, estas coisas são necessárias: Primeira, a oração: Pai, envia-me o Espírito para que Ele me leve a conhecer Jesus. Segunda, a adoração ao mistério, entrar no mistério, adorando. E terceira, acusar-se a si mesmo: Sou um homem dos lábios impuros. Que o Senhor dê esta graça que Paulo pediu para os Efésios também a nós, esta graça de conhecer e merecer Cristo”. (BF/MJ)

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