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Construir a santidade no cotidiano

Aprendendo com a vida e missão de João Batista

Santidade é vocação de todos os cristãos, sem exceção. A redescoberta da Igreja, como um povo unido pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo não pode deixar de implicar um reencontro com sua santidade, entendida no seu sentido fundamental de pertença àquele que é o Santo por antonomásia, o três vezes Santo (cf. Is 6,3). Professar a Igreja como santa significa apontar o seu rosto de Esposa de Cristo, que a amou entregando-se por ela precisamente para santificá-la (cf. Ef 5,25-26). Este dom de santidade é oferecido a cada batizado. Mas, o dom gera um dever, que há de moldar a existência cristã inteira: “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação” (1 Ts 4,3). É um compromisso que diz respeito aos cristãos de qualquer estado ou ordem, chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. Significa exprimir a convicção de que, se o batismo é um ingresso na santidade de Deus, por meio da inserção em Cristo e da habitação do Seu Espírito, seria um contrassenso contentar-se com uma vida medíocre (cf. Novo Millenio ineunte 30-31).

A formação da cultura dos povos é marcada positivamente pela presença da Igreja e por homens e mulheres que se elevam pelo seu comportamento e suas opções de vida, mostrando que, efetivamente, é possível sair da rotina do “mais ou menos” para confirmar que uma alma que se eleva, eleva o mundo. Tenho descoberto esta santidade em homens e mulheres que a testemunham na fidelidade ao Evangelho, na coerência de suas opções e na estatura com que enfrentam as dificuldades da vida. Há de se abrir os olhos e descobrir tais pessoas, vendo-as como provocação positiva ao risco de acomodamento que nos cerca continuamente.

A Igreja reconhece, publicamente, a santidade com o que chama de “beatificação” e “canonização”. Hoje, o Brasil já conta com diversas pessoas assim reconhecidas, entre cristãos leigos, religiosos ou sacerdotes, crianças, jovens e adultos, confessores da fé e mártires. São homens e mulheres, cuja santidade heroica merece ser posta diante dos olhos do mundo. Não nos envergonhemos de dizer que os cristãos têm para oferecer ao mundo o que existe de melhor em humanidade. Não nos furtemos à responsabilidade de superar as falhas humanas existentes com a virtude comprovada e testemunhada. Nosso tempo tem direito a receber dos cristãos a oferta da santidade. Ao reconhecer que o mistério da iniquidade se encontra presente no meio do mundo e também entre os cristãos, continue como referência a medida alta da santidade!

No período em que nos encontramos, chamado pela Igreja de “tempo comum”, as verdades do Evangelho são mostradas a todos pelo testemunho dos santos e santas que se consagraram a Cristo e são sinais luminosos de luta e de perfeição, além de reconhecidos como valorosos intercessores para aqueles que acreditam “na comunhão dos santos”, como dizemos na Profissão de Fé. E como sempre acontece, os santos de maior devoção geraram cultura e hábitos na sociedade. Multiplicam-se as festas patronais em nossa região, muitas pessoas retornam a sua terra natal para as férias que se aproximam e para se alimentarem de legítimas e positivas tradições religiosas que contribuem para que se tome consciência de que não nos inventamos a nós mesmos, mas somos tributários de uma magnífica herança, como tocha da grande olimpíada da vida a ser mantida acesa e passada às sucessivas gerações. São conhecidos de forma especial os santos do mês de junho, Santo Antônio, São João Batista e São Pedro. São figuras que geraram cultura popular entre nós.

Ponho em relevo, de modo especial, a figura de São João Batista, cujo nome, vida e missão são reconhecidos pela tarefa que a Providência Divina lhe confiou, como precursor da chegada do Messias, aquele que mostrou presente o Salvador do mundo, pregador da penitência, capaz de abrir, nos corações humanos, a estrada para que chegasse Aquele “que tira os pecados do mundo”, como foi por Ele mesmo apresentado (Cf. Jo 1,29).

Um dia, Jesus recebeu emissários de João Batista com a pergunta sobre sua identidade de Messias. De fato, João se revelou sempre radical em suas escolhas e profundamente honesto em seu desejo de fidelidade à missão recebida. Mandou-lhe a magnífica resposta: “Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: cegos recuperam a vista, paralíticos andam, leprosos são curados, surdos ouvem, mortos ressuscitam e aos pobres se anuncia a Boa-Nova. E feliz de quem não se escandaliza a meu respeito!” (Mt 14,4-5). Às multidões de ontem e de hoje, Jesus fala sobre João Batista: “Que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Que fostes ver? Um homem vestido com roupas finas? Olhai, os que vestem roupas finas estão nos palácios dos reis. Que fostes ver então? Um profeta? Sim, eu vos digo, e mais do que profeta. Este é de quem está escrito: ‘Eis que envio meu mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho diante de ti'” (Mt 14,7-10).

Viver para servir, ser honestos na procura da verdade e coerentes no comportamento. Com exemplos de tal quilate, descobrimos o quanto é bom viver para servir e amar. A vida e a missão de João Batista, unidas à sua oração fervorosa, nos façam acolher as verdadeiras alegrias vindas do Salvador e nossos passos se dirijam no caminho da salvação e da paz.

Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo de Belém – PA

XXIII Domingo do Tempo Comum – Ano A

Por Mons. Inácio José Schuster

Celebramos hoje o 23° Domingo do Tempo Comum. Mateus, no texto que ouvimos na Liturgia, diz-nos: “Se teu irmão cometer uma falta, vai e repreende-o a sós. Se te escutar, ganhaste teu irmão”. O capítulo 18° de Mateus trata da disciplina eclesiástica interna, ou seja, como devem proceder, internamente, os discípulos de Jesus; como deve viver a Comunidade. A correção, como vem descrita aqui pelo Evangelista Mateus, é uma correção ampla. Mateus não coloca limites para essa correção fraterna. Que dizer então? Em linha de princípio, é preciso corrigir. Mas atenção: em primeiro lugar, se se trata de uma culpa contra mim, não devo corrigir. Aqui, neste caso, é melhor perdoar. Se se trata de culpa contra outros ou, sobretudo, quando está em jogo o bem comum, a seriedade, a compostura, a dignidade ou a santidade da Comunidade, então é dever de consciência corrigir. Mas, também neste particular, uma atenção redobrada: em primeiro lugar a correção deve ser feita tu a tu, isto é, a sós. E para que? Para não humilhar desnecessariamente a pessoa do outro. Em segundo lugar, para ser uma correção evangélica. Nós devemos elevar a pessoa, e elevamos a pessoa não quando a massacramos, vomitando-lhe no rosto uma série de defeitos que detestamos, e contemplamos nela. Isto não é evangélico. Isto é rudeza, isto é falta de educação e com isto não se ganha, não se conquista o irmão. Neste caso, então, a correção deve começar pela parte positiva. É bom  dizer ao irmão errado, qual o bem que ele já fez, o que se espera dele e onde ele pode melhorar. Ainda devemos acrescentar algo neste discurso de Mateus que é essencial para a vida de uma igreja e de uma comunidade descente, digna e santa. Muitas vezes sentimo-nos apenas credores de perdão. Mas, se fizermos um exame de consciência atento, deveremos confessar que, as mais das vezes, devemos nós pedir perdão também. Somos devedores de perdão, e não apenas seus credores. E, sobretudo, devemos perdoar sempre, corrigir e perdoar, porque Deus nos perdoa sempre, e nós devemos agir com o irmão, como Deus age constantemente e pacientemente com cada um de nós.

 

COMUNIDADE CRISTÃ, LUGAR DA ACOLHIDA E MISERICÓRDIA
Padre Bantu Mendonça

Para entendermos melhor o trecho de hoje temos de ter em mente a figura do pastor que vai procurar a ovelha que se perdeu, deixando as noventa e nove nas montanhas. Só assim chegamos ao caso concreto: alguém da comunidade cometeu falta grave contra seu irmão. Como reagir? Fazendo-se de vítima? “Pondo a boca no mundo” e denunciando o erro? A primeira atitude – talvez a mais difícil – é perdoar e ir à procura de quem errou na qualidade de quem já perdoou, a fim de mostrar ao outro o erro e convidá-lo novamente a se reintegrar na comunidade: “Se o seu irmão pecar, vá e mostre o seu erro, mas em particular, só entre vocês dois. Se ele lhe der ouvidos, você ganhou o seu irmão”. Quero, porém, recordar a você que não se trata de “ganhar o irmão para si”, mas sim para a comunidade e, sobretudo, para Deus. Porque quem ofendeu um membro da comunidade rompeu, de certa forma, com a comunidade como um todo. Como o pastor que procura a ovelha perdida, a justiça do Reino não se cansa e tenta outra forma de aproximar quem errou: “Se ele não lhe der ouvidos, tome consigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas”. À primeira vista, tem-se a impressão de que estaríamos fazendo um cerco em torno de quem errou. Mas essa atitude pode ser vista sob a ótica da justiça do Reino, que tem como princípio fazer de tudo para que o irmão não se perca. E se isso não der certo, toda a comunidade é chamada a se pronunciar: “Caso não dê ouvidos, comunique à Igreja”. E se, depois de esgotados todos os recursos, depois de ter dado a quem errou a oportunidade de ouvir o parecer de toda a comunidade é que a pessoa, por decisão de todos, é excluída: “Se nem mesmo à Igreja ele der ouvidos, seja tratado como se fosse um pagão ou um cobrador de impostos”. Mesmo nesse caso a comunidade deve manter-se em atitude prudente, dando uma chance a longo prazo para que a pessoa se arrependa e volte à comunidade. Antes de condenar ou excluir alguém, é preciso aprender a justiça do Reino. E ter consciência de que os passos aconselhados por Jesus não são normas rígidas, e sim um modo de agir que tempera com justiça, misericórdia e caridade as relações entre pessoas. Em outras palavras, é preciso ser criativo no esforço de recuperar quem erra e se afasta da comunidade. E o espírito que anima essa tarefa não é o da exclusão, mas o da busca para reintegrá-lo. Se no capítulo 16 de Mateus, Jesus confia a Pedro a tarefa de ligar e desligar, no texto de hoje, essa missão é confiada à comunidade como um todo. Pois Pedro é sinal, é figura representativa de toda a comunidade dos seguidores de Jesus. Ligar e desligar são termos jurídicos e atribuições da comunidade inteira: “Tudo o que vocês ligarem na terra será ligado no céu, e tudo o que vocês desligarem na terra será desligado no céu”. Mateus nos mostra que o mais importante para a comunidade não é excluir alguém, mas sim a capacidade de integrar a essa pessoa. Tomar a decisão de incluir ou excluir pessoas da comunidade não é tarefa fácil, como pretendiam e faziam os chefes da sinagoga daquele tempo. É necessário que tenhamos sempre em conta a advertência de Jesus: “Se a justiça de vocês não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, vocês não entrarão no Reino dos Céus”. Para tanto, Cristo dá algumas indicações, que passam pela necessidade das pessoas se reunirem em nome d’Ele, a fim de – mediante a oração – chegarem a um consenso: “Se dois de vocês estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa (isto é, sobre qualquer tipo de litígio) que queiram pedir, isto lhes será concedido por meu Pai que está no céu. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali, no meio deles”. É urgente que a comunidade esteja sempre ligada a Cristo pelo fato de que, nela, existem tensões entre os diversos grupos e problemas de convivência: há irmãos que se julgam superiores aos outros e que querem ocupar os primeiros lugares. Há irmãos que tomam atitudes prepotentes e que escandalizam os pobres e os débeis. Há irmãos que magoam e ofendem outros membros da comunidade. Há irmãos que têm dificuldade em perdoar as falhas e os erros dos outros. Somente estando em permanente sintonia com Jesus, que nos convida à simplicidade e humildade, ao acolhimento dos pequenos, pobres e excluídos, ao perdão e ao amor que conseguiremos vencer. Aliás, com Jesus e pela força da oração tudo pode ser mudado. Só assim seremos uma comunidade verdadeiramente família de irmãos, que vive em harmonia, que dá atenção aos pequenos e aos débeis, que escuta os apelos e conselhos do Pai e que vive no amor do Filho, animada pelo Espírito Santo.

 

23º Domingo do Tempo Comum, A.
“Vós sois justo, Senhor, e justa é a vossa sentença; tratai o vosso segundo a vossa misericórdia”(cf. Sl. 118,137.124).
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha (MG)

Refletimos na liturgia de hoje a “Igreja, comunidade de salvação”. O profeta é o homem que enxerga por cima dos telhados, que tem uma visão de conjunto da realidade eclesial, é aquele que faz uma análise das coisas certas e das coisas erradas, anunciando a vontade de Deus, o hoje da salvação. O profeta enxerga o lado interior das coisas, principalmente as coisas surpresas e as maldades dos corações. O profeta é uma sentinela, que deve dar o alerta se enxergar algo suspeito no comportamento dos fiéis e na caminhada da comunidade. É o profeta que faz com que a comunidade volte para o caminho da verdade, da salvação e da fraternidade. A primeira leitura tirada do livro de Ezequiel(33, 7-9) nos adverte que como cristãos, temos todos responsabilidades uns para com os outros. Somos sentinelas da fidelidade para com Deus e para com o próximo.  Os profetas eram sentinelas em Israel; deviam dar alerta, e o fizeram. Mas o povo não prestou atenção. Veio a catástrofe – exílio. Sobra um pequeno resto. Ainda assim precisa de sentinela, de alguém que lhe avise para mudar seu caminho. E aí da sentinela que não cumprir seu dever: ela é responsável pela perda do irmão. Irmãos e Irmãs, Jesus hoje nos ensina como deve ser o comportamento cristão diante do pecador, de quem peca, de cada um dos irmãos, que pecamos quotidianamente, na caminhada para a santidade. Jesus nos adverte que a lei fundamental do cristianismo é a lei do amor, que tudo perdoa, tudo acolhe, tudo ama. A correlação fraterna deve ser ditada pelo amor fraterno e pressupõe a correspondente humildade e compreensão da parte de quem corrige. O orgulhoso não tem autoridade para corrigir. O Evangelho fala da correção fraterna, penitência e oração comunitária(cf. Mt 18,15-20). A Igreja é ao mesmo tempo santa e pecadora. Na santidade de filhos de Deus, somos irmãos, responsáveis uns pelos outros, mesmo e, sobretudo, quando o pecado está destruindo esta santidade. Só em última instância, quando a preocupação do cristão individual ou da comunidade nada resolvem, a comunidade pode excluir o pecador, para o conscientizar de que ele já não está participando da santa comunhão eclesial. A ovelha desgarrada é o pecador. Jesus se comporta diante do pecador de maneira diferente da dos homens: vai à sua procura com interesse e carinho e sente alegria em encontrar o pecador. Assim não foi com Zaqueu que desceu da árvore para atender ao apelo convocatório do Mestre que dizia que iria hospedar-se na sua casa, a casa de um pecador, anunciando que naquele dia a salvação havia entrado na sua casa. Jesus nos aponta o comportamento correto dos cristãos: o perdão e acolhida devem ser as maiores novidades do Novo Testamento. Mas amar, perdoar e acolher é uma tarefa árdua, às vezes inatingível, porque o orgulho e a auto-suficiência campeiam a mentalidade dos homens e das mulheres de nossos dias. Meus irmãos, O perdão é difícil de entender e mais difícil de viver. O Antigo Testamento não conheceu o perdão gratuito. Foi Jesus quem o trouxe, anunciou e viveu pela primeira vez na sua própria vida. O Antigo Testamento ensinou a vingança, depois a lei de talião, olho por olho, dente por dente. Entretanto, Jesus no sermão da Montanha lembrou a norma jurídica e a declarou insuficiente e superada. Jesus virou a mesa dando um passo significativo, muito adiante do seu tempo e do tempo em que vivemos: Jesus instituiu o perdão gratuito, nunca olhando o tamanho da ofensa, mas dimensionando o tamanho superior da acolhida e do perdão. Se Deus no céu nos perdoa de todas as nossas infidelidades, quem seremos nós os homens para não acolher esta diretiva de perdão, perdoar hoje, amanhã e sempre. Voltar ao irmão que foi vilipendiado e abaixar-se se humilhando no perdão misericordioso. Os cristãos tem o grave dever de ser “os mensageiros da reconciliação”, os “mensageiros do perdão”. A Igreja, ao defender aos excluídos, deve ser a mensageira no mundo da mensagem evangélica e do mandato apostólico do perdão e da reconciliação. Jesus foi o próprio modelo de quem sabe perdoar gratuitamente. Mesmo na Cruz, depois de tanto vilipêndio, injustiças e traições ele suplicou: “Pai, perdoar-lhes, eles não sabem o que fazem”. E olhando para o ladrão arrependido, São Dimas exclamou: “Hoje mesmos estarás comigo no paraíso” (Cf. Lc 23,43), perdoando-lhe os seus pecados: “Os teus pecados te são perdoados” (Cf. Lc 7,48). Meus amigos, A repreensão tem o sentimento e o gosto do perdão. Tudo isso por que o pecado, mesmo cometido por uma só pessoa, tem sentido e significado comunitário. Por que isso? Porque se corrigirmos um irmão individualmente, depois se ele não aceita, é pedido que se chame a Igreja. Quando o Padre perdoa os pecados ele age em nome da Igreja, agindo em nome de um poder que foi a ela confiada em nome de Jesus Cristo. Dentro do cristianismo e repreensão já tem o gosto de perdão. Está, portanto, muito longe de certo sadismo que sentem alguns que vivem julgando todo mundo e se arrogam o direito de corrigir os da direita, os da esquerda e os de trás, bem como os da frente. A repreensão significa compreensão e coração dilatado para a abertura. Nós cristãos formamos uma comunidade. “Igreja” significa comunidade de crentes. Por isso Jesus admitiu a possibilidade de duas ou mais pessoas terem de repreender, quando alguém errou e não quis ouvir em particular uma reprimenda. Jesus fala em “testemunhas” ao falar de correção. Ao falar em correção Jesus quis resguardar que a Igreja não se transformasse numa seita de pequenos, mesquinhas e puros, bem ao estilo dos judeus de então. Jesus não exclui, Jesus, ao contrário, acolhe. Amigos, amados, Jesus não falou em nenhum momento em julgar. Ele apenas conjugou o verbo perdoar. O perdão necessita de recolhimento, de intimidade com o Senhor, de enxergar o hoje de Deus. A misericórdia de Deus ultrapassa todos os limites imagináveis da justiça e se expressou no sangue do Filho bendito, derramado na cruz para o perdão de nossos pecados, assim o nosso perdão, fundamentado no amor e embebido no sangue do Senhor deve ir além da justiça humana e muito, muito além das satisfações que nosso coração possa exigir. Desenvolver o senso de justiça sem perdão não adianta. A justiça é apanágio da acolhida e do perdão. Caros Irmãos, A segunda Leitura(cf. Rm 13,8-10 nos ensina que Paulo, nas suas exortações resume a prática da vida cristã não ficar devendo nada aos outros senão a caridade, que é sempre insuficiente. O amor é o pleno cumprimento da Lei. Na sua justiça, Deus dá a todos o que precisam: fundamentalmente, seu amor de Pai. Nós, para sermos justos, devemos também dar-nos mutuamente este dom, embora sempre ficaremos devendo. Toda a justiça está incluída nisso. Pois a caridade é o resumo de tudo. Vamos nesta semana refletir e colocar em prática a caridade que é o resumo da liturgia de hoje. Se nos esforçamos pela caridade salvamos automaticamente todas as outras obrigações: “O amor é pleno cumprimento da lei” (cf. Rm 23,8-10). O verdadeiro amor não deixa as pessoas como são, com seus defeitos e as suas limitações. Amar um irmão significa ajudá-lo a crescer em todos os níveis, querer concretamente a sua libertação, daquilo que é defeituoso e mau, lutar por sua plena humanização. Corrigir é a grande obra de amor. Na correção fraterna o cristão faz largo uso do encorajamento. Corrigir o irmão para os caminhos de Deus é uma das maiores facetas da caridade.

 

CORREÇÃO FRATERNA NO SENHOR
Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração
23° DOMINGO DO TEMPO COMUM
Leituras: Ez 33, 7-9; Rm 13, 8-10; Mt 18, 15-20

“Se alguém está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas; eis que se faz realidade nova. Tudo isto vem de Deus que nos reconciliou consigo por meio de Cristo” (2 Cor 5, 17). Talvez poucas outras afirmações de Paulo nos apresentem, em síntese tão clara, a novidade radical operada por Deus na pessoa que encontrou Cristo pela fé e pelo batismo. No centro da “nova criação”, inaugurada em Cristo, está o “homem novo”, criado no Espírito para uma vida nova de justiça e santidade. Este dinamismo novo marca desde já suas relações com Deus, com os irmãos e até com a própria criação, com a qual ele partilha o mesmo anseio à plena liberdade dos filhos e filhas de Deus. Com a páscoa de Jesus, teve início uma comunidade tão rica em humanidade que, pela novidade divina que a anima, pode-se chamar comunidade do Senhor. Ela recuperou o projeto original de Deus sobre a família humana, enquanto antecipa, como profecia, a plenitude do reino de Deus na regeneração escatológica Por enquanto, porém, ela caminha na história segundo a dinâmica divina da pequena semente, guardando em si mesma a energia de uma vitalidade que não se pode conter, revestida de fragilidade e exposta a toda sorte de adversidade: como o Verbo de Deus que escolheu ficar entre nós na fragilidade da carne. O Apóstolo, com a mesma clareza, acrescenta: “Em nome de Cristo suplicamo-vos: reconciliai-vos com Deus… Eis agora o tempo favorável, por excelência. Eis agora o dia da salvação” (2 Cor 5, 20. 6,2). O dom de Deus se torna chamado a assumir uma colaboração responsável com a graça do Senhor, junto com a sua renovada oferta de perdão e reconciliação. Fragilidade e graça, ofensa e reconciliação, pecado e perdão: ações humanas e dons recebidos de Deus, que partilhados entre irmãos e irmãs constituem a “veste cotidiana” do discípulo e da comunidade, enquanto eles se empenham em realizar a vocação de despojar-se do homem velho e revestir-se plenamente do homem novo em Cristo (cf Ef 4,24). Como lidar com estas potencialidades de renovação pascal tão radical, e, por outro lado, com estas contradições, evidenciadas pela experiência cotidiana, além de toda tentativa de mascará-las? Mateus oferece à comunidade do seu tempo, assim como à nossa, um conjunto de exortações de Jesus sobre a vida da comunidade, que tem como ponto de referência os anúncios da sua paixão e ressurreição e o evento da sua transfiguração. Isso é, indica a própria pessoa de Jesus e seu mistério pascal. O batismo mergulhou o discípulo no dinamismo pascal de Jesus. Desta participação lhe derivam a energia e os critérios capazes de inspirar sua conduta. Os critérios para uma correta relação com o Pai e com os irmãos, a construir cada dia em maneira sempre nova, são os do próprio Jesus: total dedicação ao Pai e aos irmãos no amor, e no perdão sem limite. Estes critérios, no evangelho de hoje assumem a forma da correção fraterna, atenta e generosa, e no trecho que será proclamado domingo próximo (Mt 20, 21-35), se exprimirão no perdão recebido por Deus e partilhado entre os irmãos. A comunidade se torna o lugar onde se pode experimentar e testemunhar a energia criadora da páscoa, comunidade frágil, mas animada e partícipe da mesma santidade de Deus. Com humildade e renovada confiança, em cada eucaristia, celebração memorial da páscoa, a Igreja com verdade reza: “E a nós, que somos povo santo e pecador, dai força para construirmos juntos o vosso reino que também é nosso” (Oração Eucarística V). A pedagogia sugerida por Jesus para os irmãos sustentarem-se uns aos outros e corrigirem-se entre si, quando um venha a falhar contra o outro, é a mesma que ele usa com os pequenos, os marginalizados, os pecadores. Jesus vai à procura deles. Como o bom pastor que deixa nos montes as noventa e nove ovelhas para procurar aquela desgarrada (Mt 18, 12-14): assim nos lembra a pequena parábola que precede imediatamente o texto do evangelho sobre a correção fraterna. Jesus não espera que sejam aqueles que se desviaram a fazer o primeiro passo, depois de terem-se “convertido”. Ao invés os atrai a si com sua iniciativa e os transforma. No centro da pedagogia de Jesus não se encontra a legítima preocupação de restabelecer a justiça da lei violada, nem a necessária salvaguarda da mesma comunidade, que também merecem atenção (cf 1 Cor 5, 2-13; 2 Ts 3, 6). Quem escandaliza um dos pequeninos, amados pelo Pai, merece a mais dura condenação (cf Mt 18,6). Todavia no centro da atenção e da ação de Jesus está sempre a pessoa, o cuidado para ajudá-la a tomar consciência do seu desvio do caminho da vida, e a voltar para o caminho certo. Os gestos a serem assumidos por parte da pessoa ofendida, ou pela própria comunidade no seu conjunto, são gestos despojados de toda aparência de poder e de vingança, cheios, pelo contrário, de ternura persistente e apaixonada pelo irmão que falha. Os passos indicados para a correção, feitos por graus, que vão desde o dialogo a sós com o irmão, ao encontro com ele estendido à participação de algumas testemunhas, e enfim à comunidade, não descrevem somente um correto procedimento jurídico. Eles dizem respeito à progressiva aproximação a ser feita ao coração desnorteado do irmão, para carregar sobre si o peso dele, como o bom pastor põe sobre seus ombros a ovelha reencontrada e faz festa (cf Lc 15, 8-10), a fim de fazer perceber ao irmão o amor do Pai, que não desiste nem diante das resistências do filho perdido (cf Lc 15, 11-32). A correção fraterna, exercitada no estilo de Deus e de Jesus, é a maneira de atuar do próprio Deus na comunidade, e a maneira em que a comunidade vive e testemunha o reino de Deus entre os homens. Por isso, quem, consciente dos próprios limites, pretende ajudar o irmão que está errando, deve procurar a ajuda da comunidade inteira. Diante da resistência a qualquer solicitação fraterna, a ele não resta que assumir a mesma atitude de Jesus, em relação aos pecadores: redobrar a dedicação e entregar o irmão ao amor de Deus, que só conhece os mistérios do coração do homem e pode renová-lo. É verdadeiramente extraordinária a perspectiva indicada por Jesus que coloca em oração a comunidade, como seu esforço extremo e mais eficaz para ajudar o irmão! A estas condições, a sofrida tomada de distância do irmão (Mt 20, 17) assume seu verdadeiro caráter de último remédio. Assume a forma do gesto da mão estendida, que procura a solidariedade de todos os irmãos, enquanto o entregam ao Pai. A oração da comunidade se torna divinamente eficaz, enquanto nasce da caridade. O que exprime caridade realiza plenamente o projeto de Deus, em sintonia entre céu e terra (Mt 18, 18 -20). O estilo de Jesus é tremendamente desafiador! Hoje em dia, diante das fraquezas cotidianas presentes nas comunidades cristãs, não falta quem faça apelo para uma mais rigorosa e estreita aplicação da disciplina canônica, como primeiro instrumento a ser usado para corrigir os que falham, dissuadir outras faltas, e como critério para marcar mais claramente quem pertence e que não pertence à Igreja. Razões para despertar, e até revoltar, a consciência comum e de cada um de nós diante dos enfraquecimentos da fé e da falta de coerência nos comportamentos com certeza não faltam. Seria suficiente pensar aos graves abusos contra as crianças, também por parte do clero, denunciados nos últimos anos. O apelo, porém, à mais rígida aplicação da disciplina canônica para enfrentar os problemas existentes na comunidade cristã seria uma tentação e uma fuga da realidade, se a situação não nos interpelasse, antes de tudo, para uma renovada tomada de consciência da exigência de fundamentar melhor no evangelho e na experiência da iniciação cristã o caminho espiritual das pessoas e a praxe pastoral das comunidades. A comunidade não é a soma de um certo número de habitantes da paróquia, a gerenciar como um todo, mas o conjunto de pessoas individuais, cada uma em busca do cuidado do Pai e da atenção à sua situação peculiar por parte dos pastores e de cada um de nós. O descuido recíproco entre as ovelhas é condenado pelo profeta com palavras fortes, assim como o descuido dos pastores em relação às ovelhas (Ez. 34, 17-22). Para enxergar razoavelmente no olho do irmão o cisco, é preciso antes cuidar que não se encontre uma trave no próprio! (Mt 7,3-5). O apóstolo destaca que os critérios apropriados para construir relações certas dentro da comunidade, assim como na sociedade civil, são os indicados por Jesus ao mestre da Lei (cf. Mt 22, 34-40). “Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o próximo está cumprindo a lei… Os mandamentos… se resumem neste: ‘Amarás ao teu próximo, como a ti mesmo’. Portanto, o amor é cumprimento perfeito da lei” (2ª leitura – Rm 13, 8. 10). Os pastores receberam do Senhor a tarefa de vigiar em favor dos irmãos como sentinela, que vigia sobre a segurança da cidade e antecipa o alvorecer do novo dia, dando esperança aos que ficam sob o peso da noite. A missão do profeta, assim como de todos os chamados a colaborar com o Senhor, é antes de tudo ficar atentos à Palavra do próprio Senhor, para tornar-se seu fiel porta-voz “Logo que ouvires alguma palavra de minha boca, tu os deves advertir em meu nome” (Ez 33,7). A vida ou a morte do irmão podem depender da atenção ao Senhor e da coragem para transmitir sua palavra. Por isso a grave responsabilidade do profeta/pastor (1ª leitura – Ez 33, 8-9). É preciso sublinhar que a missão do pastor não é simplesmente guardar a boa ordem na comunidade, mas servir à palavra do Senhor. Por isso é a ele que será chamado a responder antes de tudo. Na comunidade dos discípulos, a autoridade é sempre reconduzida à sua verdadeira origem e finalidade: servir ao Senhor e aos irmãos, para que estes possam realizar sua verdadeira relação com o Senhor, na obediência da fé e na liberdade do amor. São Bento, na Regra para os monges, atribui muita relevância à autoridade do abade, guia e animador da comunidade, que ele convida a reconhecer em espírito de fé como aquele que no Mosteiro desempenha o papel de Cristo (Regra dos monges, indicada com a sigla RB,  c. 2, 1-2).  Ao longo da Regra, enquanto evidencia sua responsabilidade e autoridade, sublinha constantemente o fato que de toda sua decisão, o abade, assim como qualquer outro irmão em autoridade, há de dar conta a Deus. Pela correção dos irmãos que erram, São Bento prescreve (RB, c. 23-25) exatamente os passos de cuidado fraternal e paterno, indicados por Jesus no evangelho de hoje. Encontramos também um último toque, que bem evidencia o caráter evangélico da comunidade monástica e da autoridade. Se, depois de ter exercitado com diligência e amor, as artes do sábio médico e os cuidados do bom pastor (RB c. 27), o abade não conseguir algum resultado, “e ver que nada obtém com sua indústria, aplique então o que é maior: a sua oração e a de todos os irmãos por ele, para que o Senhor, que tudo pode, opere a salvação do irmão enfermo” (RB c. 28, 5). Quando a atenção ao irmão se faz plena, a correção cuidadosa se torna antecipação ao doar-se um ao outro a honra do amor fraternal, e a obediência recíproca que precede até os desejos (RB 73). A comunidade cristã: é uma comunidade não de perfeitos, mas de irmãos e irmãs que se ajudam reciprocamente a seguir o Senhor, com o mesmo coração do Pai e o mesmo estilo solidário de Jesus. Domingo próximo, iremos contemplar que esta comunidade não é somente o lugar onde a solidariedade se faz cuidado e correção fraterna, mas também lugar do perdão, recebido de Deus e generosamente partilhado uns com os outros.

Bíblia muda rumo na vida de jovem após falecimento da mãe

Segunda-feira, 02 de setembro de 2013, André Alves / Da Redação

Kaique Duarte é universitário e mora em Teófilo Otoni, Minas Gerais.

Os cristãos consideram a Bíblia um livro sagrado, a Palavra de Deus para a humanidade. O jovem católico, Kaique Duarte também acredita nesta verdade e busca um contato diário com a Sagrada Escritura, utilizando-a como orientação para sua vida.

Segundo Kaique, a Bíblia, celebrada pela Igreja neste mês de setembro, é um caminho para o encontro com Deus em meio à pluralidade de opções do cotidiano. “Hoje com tanta coisa pra ler, assistir e fazer, a Bíblia se torna um ponto culminante de encontro verdadeiro com Jesus, é a oportunidade que tenho de aprender com Ele um pouco mais todos os dias”, afirmou o jovem de 19 anos, residente em Teófilo Otoni (MG).

Estudante de Ciência e Tecnologia, Kaique faz o estudo bíblico todos os dias e busca levar os ensinamentos de Cristo para as situações do dia a dia. Na leitura da Bíblia afirma ouvir a voz de Deus e buscar os nortes para sua vida pessoal. Segundo ele, nenhuma decisão é tomada sem antes recorrer à Palavra de Deus.

De fato, Kaique relata como a leitura bíblica influenciou suas decisões em um momento marcante da sua história: a perda da mãe, em 2011. No mesmo período, ele começaria a cursar Medicina na Universidade Federal de Minas Gerais. O jovem já havia perdido o pai anos antes, ficando somente com uma irmã. Diante disso, precisou escolher entre estudar ou cuidar da irmã. “Eu me vi em meio a uma decisão complexa e que mudaria os rumos da minha vida”, recordou.

A decisão

Em meio à dúvida, Kaique procurou direção na Bíblia. “Foi quando Deus falou comigo por meio da passagem de Eclesiastes, capítulo 3, que afirma haver um tempo para tudo. Senti Deus me dizendo que não deveria ser impaciente e soubesse esperar o tempo certo. Desde então, optei por não fazer o curso e ficar em minha cidade. Tenho trabalhado muito o meu relacionamento com a minha irmã, e creio que se eu tivesse saído da cidade para cursar medicina, nem mesmo teria chegado onde estou hoje”, disse o jovem, convicto.

A certeza de que esta palavra se tratava de uma inspiração divina veio por um discernimento espiritual. “A palavra confortou meu coração”, afirmou. “Era algo que eu já sentia e se confirmou na leitura dela. Eu realmente poderia ter ido embora, até mesmo para mudar de ambiente e mascarar a dor da perda, mas a partir dessa palavra eu escolhi o desafio de ficar e encarar para que minha dor não virasse um ‘fantasma’ que pudesse me escravizar e me atormentar”.

Diante disso, kaique explica que preferiu dar atenção a essa inspiração interior a tomar uma decisão racional e evitar um possível erro. “Eu posso tomar as decisões por mim mesmo sem refletir ou orar, sou livre pra fazer isso, porém não é conveniente que eu faça, porque as minhas vontades são falhas e egoístas mesmo sem que eu perceba”, salientou.

O jovem, empenhado nos trabalhos de evangelização da Igreja, terminou o Ensino Médio em 2011; prestou vestibular e passou em três Universidades renomadas do país: Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade de Viçosa (MG) e Universidade Federal de São Paulo. Ambas para o curso de medicina. Após a escolha por ficar próximo à irmã, Kaique optou por cursar uma faculdade de Ciências e Tecnologia, na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha, em Teófilo Otoni.

Para Kaique, ser um jovem contemporâneo, que busca alimentar a vida com a Palavra de Deus (para alguns, “ultrapassada”), representa um grande desafio, porém, viável e satisfatório, segundo ele. E testemunha que aquele que “busca conhecer a Palavra e praticá-la é muito mais feliz do que se vivesse nos padrões do mundo”.

“Os tempos mudam é claro, porém, os ensinamentos de Jesus são imutáveis, e é perfeitamente possível vivê-los atualmente, não burlando aquilo que a Palavra diz, mas atualizando-a em minha vida, não de acordo com a minha conveniência, mas de acordo com o desejo pela santidade”, reforçou.

A interpretação dos textos bíblicos

Não “burlar” aquilo que a Bíblia diz significa para Kaique interpretá-la segundo o Magistério da Igreja Católica, ou seja, segundo o discernimento dos Papas e bispos. Para evitar possíveis interpretações distorcidas, o jovem explica como procura entender o que está nos textos bíblicos.

“Existem pontos na Sagrada Escritura que são metáforas, mas mesmo assim o ensinamento transmitido por meio delas é muito grande e essencial. É difícil saber aquilo que é ou não linguagem metafórica, por isso que eu sou muito cauteloso na hora de interpretar pontos que me deixam com uma ‘pulga atrás da orelha’. Às vezes, não tem jeito, tenho que recorrer a um Padre para saber interpretar de maneira correta aquela parte”, disse.

Outro recurso utilizado por ele é o Catecismo da Igreja que apresenta a doutrina católica, assim como, a interpretação bíblica a partir da “Sagrada Tradição”, do Magistério, dos dados bíblicos contextualizados na cultura e história da época.

Vocação, dom gratuito de Deus

Discernimento

Toda vocação nos remete a uma experiência de felicidade

Vocação é um dom gratuito de Deus e nós precisamos entendê-lo muito bem. A primeira vocação que recebemos é a vida; a segunda é o chamado à santidade que todo cristão recebe de Deus. Depois, existem as vocações específicas, pessoas que são vocacionadas para a medicina, outras para o direito etc. Mas existe também a vocação cristã. É o caso da vocação ao matrimônio, à vida religiosa, ao sacerdócio, ou seja, é Deus quem nos inspira; é Ele quem nos vocaciona e coloca em nós essa iniciativa.

Algumas pessoas vão discernir que a vocação delas vai ser só a do batismo e não vão se casar; outras, vão ver que não são vocacionados a uma comunidade, à vida religiosa ou ao sacerdócio. O importante é descobrir a felicidade, porque a vocação nos remete a uma experiência de felicidade.

Para a vocação religiosa, por exemplo, é fundamental estar em Deus e ver os caminhos pelos quais Ele nos leva. Para discernir uma vocação como o matrimônio, a vida ao sacerdócio ou a uma comunidade é sempre bom ter um diretor espiritual que o acompanhe, é bom fazer uma leitura de sua história e ver para onde Deus o chama, onde Ele o encaixa.

Vocação, dom gratuito de Deus  Já vocação profissional é aquela dinâmica de saber com o que nos identificamos. É uma identificação pessoal.

São vários os sinais. Na vocação religiosa, por exemplo, nós vamos percebendo cada um deles. Eu nunca me imaginei padre, não nasci sonhando que ia ser um sacerdote, não me imaginava celebrando a vida quando era criança, nunca fui coroinha. Mas, com o decorrer do tempo, eu fui me observando, vendo essas aptidões e percebendo que Deus estava me encaminhando à vocação sacerdotal, porque eu ia rezar e me vinha uma Palavra na Bíblia que me indicava essa vocação. Eu ia para a Santa Missa e me via celebrando no lugar do padre. Isso foi algo muito novo para mim, porque não era uma vontade do meu coração. A vontade que eu tinha era a de constituir uma família, mas Deus foi me convencendo a ser padre. Então, é a partir dessa experiência com o Senhor que vai se revelando a nós aquilo que é o nosso chamado.

Deus não nos obriga a nada. Ele não me obrigou a ser padre, Ele me chamou, esperou pela minha resposta e eu a dei livremente; mas poderia ter dito ‘não’. Um exemplo: eu sinto um chamado vocacional ao sacerdócio, mas vou casar. Eu não estaria pecando, não nesse mérito de pecado. Talvez, eu cometesse um pecado contra mim, porque se eu não der uma resposta positiva e não caminhar onde Deus me quer, eu posso não ser plenamente feliz como eu seria se respondesse ao Senhor. Mas eu não acho que isso entre em mérito de pecado, mas sim de liberdade. Deus não nos deu o livre-arbítrio? Eu o tenho para dizer ‘sim’ ou ‘não’ para o Senhor.

Às vezes, pai e mãe sonham que o filho será padre e ficam pressionado-o; ele se torna sacerdote, mas essa não é a vocação dele. O mesmo acontece quando o pai é médico e quer que seu filho também o seja, mas o jovem não quer, e acaba sendo infeliz ao seguir o desejo do pai.

Também pode acontecer a forma negativa, ou seja, o filho quer ser padre, mas os pais querem impedi-lo de seguir sua vocação. Geralmente, aquele que tem um chamado vai em frente, independentemente do apoio da família. É claro que, se essa pessoa foi chamada, mas se deixa influenciar pela voz dos familiares, corre o risco de não se sentir realizado. O importante é discernir o que Deus quer para nós; discernindo isso, vamos nos encontrar com Ele e ser felizes.

Eu, com um ano de caminhada com Deus, comecei a frequentar a Santa Missa diariamente e a me apaixonar pelo altar e pela Palavra. Eu via o padre celebrando e pregando, e a minha vontade era de estar no lugar dele, mas eu achava que aquilo era “coisa da minha cabeça”. Eu ia rezar, abria a Palavra e vinha-me a vocação do profeta: “Eu não sei falar, sou apenas uma criança” (Jr 1,6). Rezando, eu abria a Palavra no Salmo: “Mas que poderei retribuir ao Senhor por tudo o que Ele me tem dado? Erguerei o cálice da salvação, invocando o nome do Senhor” (Sl 115,3). Ou, então: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque” (Sl 109,4). E eu pensava: “Isso tudo é coisa da minha cabeça”.

Procurei o padre da minha paróquia para me ajudar a discernir. Falei para ele todas as coisas erradas que eu tinha feito na minha vida, pois queria que ele me dissesse: “Não, essa não é a sua vocação”. Mas, pelo contrário, ele me mostrou que eu poderia ser, realmente, um padre, mesmo tendo o passado obscuro que eu tive. No entanto, eu lhe disse: “Olhe, padre, o senhor me desculpa, mas eu não quero ser padre”. “Tudo bem, disse ele, então arruma uma namorada, viva um namoro santo como você nunca viveu antes”.

Eu saí de lá liberto, achando que eu tinha encontrado ali a resposta, mas fui percebendo, no dia-a-dia, que não era o matrimônio a minha vocação. Eu namorei e não me preenchi. A partir daí, procurei o padre e disse que queria ser acompanhado dentro da dinâmica do sacerdócio. Então, fui descobrindo que, realmente, a minha felicidade estava na vocação sacerdotal.

Padre Roger Luís
Missionário da Canção Nova

Sacerdote, o procurador da misericórdia de Deus

Confissão, ato em que você se acusa, mas não é condenado

Quem é que nunca ouviu alguém dizer: “Eu não vou me confessar com um homem, um pecador. Jamais!” Além dessas pessoas, existem outras que não se confessam por vergonha; outras, porque acham que não precisam. Enfim, os motivos são muitos, mas, de todos os motivos, o mais grave ou, talvez, que faça parte de todos os outros é a falta de conhecimento. O que você acha de conhecer a real importância da confissão?

Todo ser humano tem necessidade de compartilhar com outro sobre algo que está vivendo, sobretudo se é algo difícil, um erro, por exemplo. Já percebeu que quando você faz alguma coisa errada, sempre há alguém (às vezes a própria pessoa que praticou o erro com você) que você procura e lhe pede: “Não conta para ninguém”. Então, você fala tudo para essa pessoa. Não é verdade que, muitas vezes, depois de conversar, você se sente um pouco mais leve? É mais ou menos assim que acontece com a confissão, mas com algumas vantagens a mais.

A primeira vantagem da confissão é que você não precisa pedir sigilo ao padre, porque este não pode falar nada a ninguém, não importa o que aconteça. Segundo: quando você fala com uma pessoa qualquer, ainda continua com uma grande culpa pesando sobre você, mas quando você se confessa com o padre, na verdade, está se confessando com Jesus.

O sacerdote, no momento da confissão, é como um procurador. Quando alguém está doente e não pode ir ao banco nem resolver situações jurídicas, este faz uma procuração, e o procurador pode agir civilmente em nome do enfermo. Assim também é o sacerdote. Não importa se a pessoa que está com a procuração tem dinheiro no banco, o que importa mesmo é se quem fez a procuração tem dinheiro no banco; e para nós quem fez a procuração foi Jesus, e Este é riquíssimo em santidade e misericórdia; portanto, pecado confessado, com arrependimento no coração, é pecado perdoado. Além do mais, o Senhor mesmo nos disse para procurarmos os padres e a Igreja, a fim de nos confessarmos (cf. Jo 20,23).

Como dizia o nosso saudoso padre Léo: “Quem se confessa é absolvido, e quem não se confessa é absorvido”. Não seja mais absorvido pelo mal, pelo passado, pelos pecados; não espere a santidade do padre para se confessar, pois, por mais santo que ele possa ser, nunca poderá ter o poder por ele mesmo para perdoar você. O sacerdote é constituído e querido por Jesus, é o “procurador”, aquele quem tem a procuração da Misericórdia de Deus. Procure o padre, não tenha vergonha ou medo, pois a confissão é o ato por meio do qual você se acusa, mas não é acusado; expõe-se, mas não é exposto; pelas palavras, condena, mas não é condenado. Entra como réu confesso e sai absolvido pelo procurador da misericórdia do Senhor.

Pe. Sóstenes Vieira

Transcendência Divina

Quatro pontos que caracterizam a História da Igreja

Percorrendo as vicissitudes históricas da Santa Igreja, apontamos as linhas gerais do governo de Deus. São quatro os pontos que melhor caracterizam a História da Igreja e manifestam a sua transcendência divina.

1- Invicta estabilidade. É uma lei inexorável que todas as coisas tendem para a sua decomposição. Este princípio é aplicado por Santo Agostinho à história com a profundidade e poder do seu gênio. Nota que qualquer instituição conhece três períodos: o início, ao qual sucede quase sempre um triunfo relativo, e depois a decadência até a extinção. E aduz, como exemplos, os grandes impérios da Babilônia, da Pérsia, da Macedônia. Também o intelectual Jacques-Bénigne Bossuet na História Universal, e o erudito Henri Lacordaire, na Conferência sobre as Leis da História, põem em evidência essa verdade.

De fato, nenhuma instituição humana resistiu à erosão do tempo: empresas industriais, comerciais e econômicas, associações filantrópicas, artísticas, literárias, poderosas famílias aristocráticas, cidades, ditaduras implacáveis, monarquias absolutistas, reinos e impérios, tudo acabou no rápido turbilhão dos anos.

Mas, há uma instituição que resistiu às provas mais difíceis e renova continuamente a sua perene juventude: a Igreja Católica de Cristo. Depois de vinte séculos de existência, mantém os mesmos elementos essenciais, a mesma hierarquia, o mesmo Credo, os mesmos sacramentos, o mesmo sacrifício. As mudanças efetuadas são simplesmente acidentais. Como se explica tão poderosa vitalidade? Muito mais se pensarmos na guerra encarniçada que sempre teve de suportar.

Quantas vezes foi anunciado o seu fim! Plínio, no tempo de Trajano, escrevia: “Dentro em breve, a Igreja desaparecerá”. Mais tarde, Juliano apóstata gloriava-se de ter preparado “o caixão para o Carpinteiro de Nazaré”. Martinho Lutero, reformador alemão e inimigo de Roma, lançava o grito: “Ó Papa, eu serei a tua morte”. Também Voltaire afirmava que estava iminente o fim do Papado. Napoleão Bonaparte, à noticia da morte de Pio IV, exclamou: “Morreu o último Papa!”

E, contudo, o Papa e a Igreja continuam hoje mais vivos do que nunca. Nem se creia poder explicar o fenômeno afirmando que a Igreja encontrou caminho favorável para a sua expansão. Pelo contrário. Já vimos que nenhuma outra instituição teve tanto que sofrer como a Igreja. A única explicação conveniente é que a Igreja não é uma instituição humana. Como diz o Papa Francisco: “A Igreja não é uma ONG piedosa”. Teve origem na vontade de Deus e é sustentada pelo Pai celeste. Por isso, nem o diabo, nem o tempo, nem as vicissitudes humanas poderão destruí-la.

2- Unidade católica. Outro fenômeno singular é a unidade da Igreja de Cristo. Munida do magistério infalível e da autoridade suprema, goza duma ordem perfeita, donde deriva a indefectível coesão de todos os seus elementos. Tal unidade manifesta-se visivelmente na doutrina, no culto e no governo. Os mais diversos povos por origem, por ação, por língua, por caráter, por costumes e por civilização fazem parte da Igreja Católica Apostólica Romana. Apesar disso, todos professam o mesmo Credo, participam dos mesmos sacramentos, assistem ao mesmo sacrifício e praticam a mesma moral. E a unidade também aparece perfeita no governo. Em toda a parte a hierarquia é composta de párocos, sujeitos aos seus bispos e todos conjuntamente ao Papa. Essa unidade, glória e grandeza da Igreja Católica, é tanto mais admirável se a comparamos com as infinitas divisões das Igrejas dissidentes, cada uma das quais tem uma doutrina, um culto e um governos próprios.

Existe na Igreja Romana, além da unidade, a catolicidade. Universal é a sua fisionomia e abrange, acima das divisões nacionalistas e raciais, povos de todas as cores e civilizações. Aqui está, em parte, o segredo da sua força expansionista. Não tem preconceitos que a impeçam ou barreiras que a detenham no seu caminho. A sua missão é a plena obediência ao Seu Senhor de anunciar o Seu Santo Evangelho no mundo inteiro.

Nos três primeiros séculos, embora no seio das mais tremendas dificuldades, conquista a maior parte do mundo greco-romano. Depois, expande-se por toda a Europa. Descobertas novas terras pelos navegadores e exploradores intrépidos, espalha os seus valentes missionários por todos os cantos do mundo. Hoje, conta milhões de católicos na Ásia, na África, nas Américas e na Oceania e, enquanto os missionários pacientes, mas continuamente estendem o seu reino entre os cismáticos, muitos são os que voltam do cisma e do protestantismo para unidade católica.

3- Santidade admirável. Outra característica da Igreja de Cristo, refulgente ainda hoje de luz admirável, é a sua santidade. Santa é a doutrina da Igreja. Ela ensinou sempre as mais belas virtudes individuais e sociais: a caridade, a humildade, a justiça, o amor para com os inimigos. Deu à família uma vida nova, repudiando a poligamia, impondo a indissolubilidade do matrimônio, defendendo os direitos da mulher, da criança e do idoso.

No campo social, primeiro suavizou e, a seguir, trabalhou contra a escravatura, condenou sempre o despotismo absoluto, limitando as funções do Estado, inculcou aos súditos a submissão que não deriva do terror servil, mas da convicção religiosa de que toda a autoridade vem de Deus. Deus é amor e justiça, daí as autoridades têm que praticar esses valores para o bem comum.

Doutrina tão sublime não podia deixar de produzir frutos admiráveis de santidade, e eis que ao lado dos mártires que deram a vida com heroísmo sobre-humano para defender esta mesma doutrina, germinaram no seio da Igreja falanges escolhidas de virgens, de confessores, de eremitas, monges, frades e de apóstolos. Forjas de santidade souberam ser as famílias espirituais – as ordens religiosas – no seio das quais desabrocham os mais ilustres campeões do catolicismo.

Tal floração maravilhosa de santidade não impede que na Igreja Romana se tenham manifestado fraquezas. Não devemos exagerar como fazem os nossos adversários. A luz excede em muito as sombras e as próprias sombras contribuem para salientar mais a ação da assistência divina a uma instituição em que entra o elemento humano com as suas inevitáveis deficiências.

4- Fecundidade inesgotável. Com a santidade admirável está intimamente ligada a fecundidade prodigiosa que se manifesta, sobretudo na conservação do patrimônio de fé por intermédio das provas mais árduas e do pulular contínuo das mais diversas heresias.

A este propósito escreve o célebre historiador G. Kurtb, autor das “Origens das civilizações modernas”: “Sozinha no meio do turbilhão, que agitava os espíritos com todos os ventos de doutrina, a Igreja de Roma, semelhante a um farol sublime na noite tempestuosa, fez sempre brilhar a chama da ortodoxia. Sempre fez ouvir a voz da mais pura tradição apostólica. O apóstolo que tinha recebido a gloriosa missão de confirmar os seus irmãos na fé, não cessou de denunciar o erro e de proclamar a verdade e tal foi a vigor desta palavra invicta e invencível no meio de todas as revoluções dogmáticas que deteve todas as heresias e Roma sozinha salvou a unidade da sociedade cristã e a integridade da sua fé”.

E a Igreja aumenta e desenvolve esta fé assimilando, entretanto, tudo o que de verdade, de belo e de bom encontra nas outras doutrinas. Aos poucos e simples escritos dos tempos apostólicos seguem-se as grandes obras dos Santos Padres, as imensas coleções conciliares, as Sumas Teológicas. A mestra da fé tornou-se a mestra da ciência. Das escolas de Alexandrina e de Antioquia às Universidades medievais, aos Seminários, às faculdades filosóficas, teológicas, às universidades católicas, dos últimos tempos, é um gigantesco caminho percorrido pela Igreja no campo científico e da cultura em beneficio da civilização cristã.

Padre Inácio José do Vale
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Por que a Igreja Católica é Santa?

Alguns confundem os pecados dos “filhos da Igreja” com “pecados da Igreja”. É dogma de fé que a Igreja não tem pecado. O Papa Paulo VI disse no Credo do Povo de Deus, que ela é “indefectivelmente Santa”. Mas, por que ela é santa?

Em primeiro lugar porque é divina, Cristo é sua Cabeça e o Espírito Santo é sua alma. O seu único Fundador é santo: Jesus Cristo, o Verbo de Deus. Ele é a fonte de toda santidade, o “único santo”[LG, 39]. Todos os outros santos chegaram à santidade porque participaram da Sua Santidade. São Paulo disse aos efésios que Cristo santificou a Igreja – “se entregou por ela para santifica-la”. “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para santificá-la, purificando-a pela água do batismo com a palavra, para apresentá-la a si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível (Ef 5, 25-27).”

A Igreja é santa pelos meios de santificação que ela oferece: a graça santificante. Só quem é santa pode dar levar outros à santidade. O Papa João Paulo II disse que a Igreja existe para nos levar à santidade. É pelos Sacramentos, pela doutrina que está nos Evangelhos, pela Liturgia, etc., que a Igreja santifica. Paulo VI disse no seu Credo que ela “não possui outra vida senão a da graça”[n.19] a qual procede de seu Fundador. Por isso o nosso Catecismo afirma que: “A Igreja, unida a Cristo, é santificada por Ele; por Ele e n’Ele torna-se também santificante. Todas as obras da Igreja tendem, como seu fim, ‘à santificação dos homens em Cristo e à glorificação de Deus’. É na Igreja que está depositada ‘a plenitude dos meios de salvação’. É nela que ‘adquirimos a santidade pela graça de Deus’.”[n.824]

E a Igreja é santa também em seus membros: São Paulo chamava os cristãos de “santos”[ Cf. Rm 1,7; Rm 15,26; Rm 16,15; 1Cor 1,2; 2Cor 1,1; Ef 1,1; Fl 1,1; 1Te 5,27; Hb 3,1.]. Todo cristão que está em estado de graça assemelha-se a Cristo, e vive a santidade. E a Igreja já canonizou mais de vinte mil santos; mesmo em nossos tempos de tanto paganismo e pecado, a Igreja continua canonizando santos: João Paulo II, João XIII, José de Anchieta, Padre Pio, Madre Paulina, Santa Faustina, Edith Sthein… Continuamente o Papa proclama novos beatos e santos. Essas pessoas são o reflexo da santidade da Igreja. Ela os levou à santidade.

A santa por excelência, Santíssima, foi a Virgem Maria, isenta de toda culpa do pecado original e de toda culpa pessoal. Nela, diz o Catecismo da Igreja,  “a Igreja já atingiu a perfeição, pela qual existe sem mácula e sem ruga, nela, a Igreja é já a toda santa”[n.829]. Além de Imaculada, ela é Virgem Perpétua e Assunta ao céu de corpo e alma, porque é a Santa Mãe de Deus (Aghios Theotókos).

Ao fundar a Igreja Jesus já sabia que nela haveria pecadores como Judas. Ele comparou sua Igreja à “rede que apanha maus e bons peixes” (cf Mt 13, 47-50); ao joio no meio do trigo (cf Mt 13, 24-30); à festa de casamento onde há convidados  sem a veste nupcial (cf Mt 22, 11-14)”.

A Igreja é santa porque é a única Instituição terrena que tem uma dimensão divina. Sua substância [=natureza, essência] permanece pura. Os homens  podem pecar, mas a Igreja não.

Prof. Felipe Aquino

Van Thuan: um homem de esperança que amava os seus perseguidores

OS CINCO DEFEITOS DE JESUS
O Cardeal vietnamita Francisco Xavier Nguyen Van Thuan declara-se apaixonado pelos defeitos de Jesus e os descreve no livro “Testemunhas da Esperança”:

PRIMEIRO DEFEITO: JESUS NÃO TEM MEMÓRIA
No calvário, no auge da indescritível agonia, Jesus ouve a voz do ladrão à sua direita: “Jesus, lembra-te de mim quando estiveres em teu reino” (Lc 23, 43). Se fosse eu, teria respondido: “Não vou esquecê-lo, mas seus crimes devem ser pagos por longos anos no purgatório”. No entanto, Jesus respondeu-lhe: “… hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43). Jesus esqueceu todos os crimes desse homem.
Semelhante atitude Jesus teve com a pecadora que banhou os seus pés com perfume… Não faz nenhuma pergunta sobre seu escandaloso passado. Simplesmente diz: “Seus inúmeros pecados estão perdoados, porque muito amor demonstrou” (Lc 7, 47)…
A memória de Jesus não é igual à minha…

SEGUNDO DEFEITO: JESUS NÃO “SABE” MATEMÁTICA
Se Jesus tivesse se submetido a um exame de matemática, por certo teria sido reprovado… “Um pastor tinha 100 ovelhas. Uma se extravia. Ele, imediatamente, deixa as 99 no redil e vai em busca da desgarrada. Reencontra-a, coloca-a no ombro e volta feliz” (cf. Lc 15, 4-7).
Para Jesus, uma pessoa tem o mesmo valor de noventa e nove e, talvez, até mais. Quem aceita tal procedimento? Sua misericórdia se estende de geração em geração…

TERCEIRO DEFEITO: JESUS DESCONHECE A LÓGICA
Uma mulher possuía 10 dracmas. Perdeu uma. Acende a lâmpada; varre a casa… procura até encontrá-la. Quando a encontra convida suas amigas para partilhar sua alegria pelo reencontro da dracma… (Lc 15, 8-10)… de fato, não tem lógica fazer festa por uma dracma… O coração tem motivações que a razão desconhece… Jesus deu uma pista: “Eu vos digo que haverá mais alegria diante dos anjos de Deus por um só pecador que se converte…” (Lc 15, 10).

QUARTO DEFEITO: JESUS É AVENTUREIRO
Executivos, pessoas encarregadas do “marketing das empresas”, levam em suas pastas projetos, planos cuidadosamente elaborados… Em todas as instituições, organizações civis ou religiosas não faltam programas prioritários; objetivos, estratégias…
Nada semelhante acontece com Jesus. Humanamente analisando, seu projeto está destinado ao fracasso.
Aos apóstolos, que deixaram tudo para segui-lo, não garante sustento material, casa para morar, somente partilhar do seu estilo de vida. A um desejoso de unir-se aos seus, responde: “As raposas têm tocas e as aves do céu ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8, 20)…
Os doze confiaram neste aventureiro. Milhões e milhões de outros igualmente. Já vão lá mais de dois mil anos e a incalculável multidão de seguidores continua a peregrinar. Galerias enormes de santos e santas, bem-aventurados, heróis e heroínas da aventura. No Universo inteiro esta abençoada romaria continua… Vai que este aventureiro tem razão…? Neste caso, a mais fantástica viagem na “contramão” da história será a verdadeira…! “A quem iremos?”…

QUINTO DEFEITO: JESUS NÃO ENTENDE DE FINANÇAS NEM ECONOMIA
Se Jesus fosse o administrador da empresa, da comunidade, a falência seria uma questão de dias. Como entender um administrador que paga o mesmo salário a quem inicia o trabalho cedo e a outro que só trabalha uma hora? Um descuido? Jesus errou a conta?…
Por que Jesus tem esses defeitos? Porque é o Deus da Misericórdia e Amor Encarnado. Deus Amor (cf. 1Jo 4, 16). Portanto, não um amor racional, calculista, que condiciona, recorda ofensas recebidas. Mas um amor doação, serviço, misericórdia, perdão, compreensão, acolhida… Em que medida? Infinita.
Os defeitos de Jesus são o caminho da felicidade. Por isso, damos graças a Deus. Para alegria e esperança da humanidade, esses defeitos são incorrigíveis.

 

Entrevista com o postulador da causa de beatificação do cardeal vietnamita José Antonio Varela Vidal

ROMA, quarta-feira, 25 de julho de 2012 (ZENIT.org) – Falar do Servo de Deus François-Xavier Nguyen Van Thuan significa tratar de uma vida provada pelo sofrimento, pela injustiça e pelas três virtudes teologais: fé, esperança e caridade. Ele passou fome e frio e sofreu o desprezo da prisão. Foi vítima de um sistema totalitário e cego, que o prendeu sem acusação alguma, só porque era “perigoso”. Mas ele estava convencido de que tudo fazia parte do plano de Deus, esperava contra toda esperança e amava os seus perseguidores a ponto de alguns deles terem se convertido durante a época em que o cardeal ficou na prisão. ZENIT conversou com Waldery Hilgeman, postuladora do processo de beatificação.

De tudo o que aconteceu na vida do cardeal Van Thuan, o que a impacta mais?
Waldery Hilgeman: Ele é um personagem muito complexo, no sentido de que toda a vida dele foi como gotas contínuas de evangelho, uma chuva incessante de santidade, desde o início. Uma coisa que me impressiona em sua espiritualidade é a constância do amor ao próximo. Ele foi até preso, e, na cadeia, nunca deixou de amar aqueles que o perseguiam, desde os funcionários de mais alto grau do sistema até os carcereiros. Esse amor total de Cristo pelo inimigo, sem interesses pessoais, nos atinge com muita força ainda hoje, neste contexto social de tanto egoísmo.

De que exatamente ele foi acusado?
Waldery Hilgeman: O cardeal Van Thuan foi um prisioneiro sem culpa. Nunca houve uma acusação contra ele de verdade, assim como também nunca houve um julgamento, muito menos uma sentença. Então, dizer de que ele foi acusado é uma grande dificuldade até para nós. Há muitos fatores no ambiente social daquele período que indicam que esse bispo era “perigoso” para um sistema vazio, um sistema baseado em nada, como é o sistema comunista, mas ele nunca foi formalmente acusado de nada concreto.

A partir dos escritos do cardeal na prisão, qual era o seu espírito, a sua reflexão como prisioneiro?
Waldery Hilgeman: O pensamento mais frequente do cardeal desde o primeiro momento do cativeiro, que durou treze anos, era que Deus estava pedindo que ele desse tudo, que ele abandonasse tudo e vivesse para Deus. Ele sentiu, especialmente no primeiro período de prisão, algo muito forte: a obra de Deus é Deus. Já desde antes, como arcebispo coadjutor, Van Thuan vivia para a obra de Deus. E ele sentiu que, naquele cativeiro, Deus pedia que ele deixasse o trabalho e vivesse só para Ele.

Você deve ter lido muitas histórias e relatos de testemunhas oculares do período na prisão…
Waldery Hilgeman: A história mais bonita é a da conversão de um dos guardas. Vários daqueles guardas, responsáveis pelo acompanhamento dos presos, no final se converteram. O cardeal Van Thuan, com amor total por essas pessoas, mostrou o que é o amor de Cristo. Sem poder pregar, sem poder falar diretamente de Cristo com aquelas pessoas, ele conseguiu convertê-los ao longo do tempo com o seu exemplo de Cristo encarnado. Isto continua sendo muito peculiar.

Para o processo de beatificação, a Igreja conseguiu contatar esses guardas?
Waldery Hilgeman: O ambiente político torna muito difícil ter contato com essas pessoas. Eles não foram questionados durante o julgamento, mas, talvez de maneira muito excepcional, vamos colocar o depoimento deles nos documentos processuais, que reconstroem a vida e as virtudes heroicas do cardeal Van Thuan.

Depois da transferência para Roma, qual foi a principal contribuição do cardeal Van Thuan à Igreja, como chefe de dicastério do Vaticano?
Waldery Hilgeman: Na verdade, parece que Deus queria desde o início preparar o cardeal Van Thuan para o ministério na Cúria Romana e no serviço do papa e da Igreja. Porque, já como jovem bispo, ele tinha se concentrado muito no papel dos leigos na diocese dele e no maior envolvimento dos leigos na vida social vietnamita. Basta pensar que em poucos anos ele conseguiu dobrar o número de vocações: ele queria bons leigos a serviço da Igreja, que poderiam ser chamado por Cristo.

Ele também trabalhou no Pontifício Conselho para os Leigos…
Waldery Hilgeman: O cardeal Van Thuan sempre lutou pelo papel dos leigos no Vietnã, porque justificava a presença deles como testemunhas diretas de Cristo na vida política, social, no trabalho. Não foi à toa que ele foi um dos primeiros a serem chamados para o Pontifício Conselho para os Leigos, que ainda estava sendo criado. Apesar de viver a meio mundo de distância, a Santa Sé estava de olho desde o início no potencial desse homem.

Ele colaborou também no Conselho Justiça e Paz…
Waldery Hilgeman: Sim. Com a chegada dele a Roma, as coisas mudaram, porque o papel do Pontifício Conselho Justiça e Paz é de extrema sensibilidade no nosso contexto, porque ele monitora a economia, a justiça, a fome no mundo, a solidariedade, a paz, e assim por diante; ele abrange toda a doutrina social da Igreja. Um bispo que veio de um tecido social de extrema pobreza, como era o Vietnã, e que, além disso, tinha sido preso, viveu na própria pele o que é a injustiça no mundo pelo simples fato de ser cristão. Não há dúvidas de que Cristo o preparou muito bem para o ministério aqui em Roma.

Pode nos contar algo sobre o processo de beatificação?
Waldery Hilgeman: O processo é muito especial. E nós temos a sorte de que este processo está no Tribunal do Vicariato de Roma, que é um tribunal com grande experiência. É uma causa muito grande, de um personagem que viajou muito, que envolve fiéis e imigrantes que moram em todos os continentes. O trabalho é imenso. Desde que o processo começou, em outubro de 2010, na paróquia, até agora, nós já demos grandes passos, ouvimos cerca de 130 testemunhas, incluindo cardeais, bispos, sacerdotes, religiosos e leigos, toda a realidade da Igreja. Até o processo “viajou”, por assim dizer, já que nós fomos para a Austrália, onde ouvimos inúmeras testemunhas; nos Estados Unidos, onde uma proporção significativa da população é de imigrantes vietnamitas, também ouvimos muita gente. Fomos à Alemanha, onde encontramos muitos fiéis de países vizinhos, Holanda e Bélgica, e fomos também à França. Eu diria que estamos em um estágio bem avançado.

Há relatos de algum suposto milagre?
Waldery Hilgeman: Vários! Eu, como postuladora, juntamente com o Conselho Pontifício Justiça e Paz, que promove a causa, estou estudando com a ajuda de especialistas médicos qual seria a forma mais adequada de iniciar um processo sobre o milagre que poderia levar o cardeal à canonização.

Que mensagem você pode mandar para os muitos “devotos” do cardeal Van Thuan, que esperam vê-lo logo nos altares?
Waldery Hilgeman: Nos escritos e nos livros dele, existe um tema recorrente, que também aparece nos depoimentos que chegam ao tribunal: a esperança, não perder a esperançaem Deus. François-Xavier Nguyen Van Thuan vai ser o “santo da esperança”.
(Tradução:ZENIT)

Jejuar é não envergonhar-se da carne de Cristo

É dividir o pão com os esfomeados, tratar os doentes e idosos – o Papa em Santa Marta

‘Eu envergonho-me da carne do meu irmão ou da minha irmã?’ – esta a principal pergunta feita pelo Papa Francisco na Missa em Santa Marta nesta sexta-feira. O cristianismo – afirmou o Santo Padre – não é uma regra sem alma; um prontuário de observações formais para gente com o coração vazio de caridade. O cristianismo é a própria carne de Cristo que se inclina sem envergonhar-se sobre quem sofre. Tomando a Palavra do Evangelho do dia, proposta por S. Mateus, o Papa Francisco refere-se ao facto dos discípulos de Jesus não jejuarem e serem criticados pelos fariseus que, por sua vez, jejuavam muito. Tinham transformado os Mandamentos numa ética, numa formalidade – observou o Santo Padre:

“Receber do Senhor o amor de um Pai, receber do Senhor a identidade de um povo e depois transforma-la numa ética é recusar aquele dom de amor. Esta gente hipócrita são pessoas boas, fazem tudo aquilo que se deve fazer. Parecem boas!”

Segundo o Papa Francisco já o profeta Isaías na Primeira Leitura tinha deixado claro qual fosse o jejum na visão de Deus: ‘libertar os que foram presos injustamente, (…) pôr em liberdade os oprimidos, quebrar toda a espécie de opressão, repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa’. E o jejum mais difícil apresentou-o Jesus na Parábola do Bom Samaritano – referiu o Papa – ter a capacidade de se inclinar sobre o homem ferido. E não esqueçamos que o sacerdote passa, olha mas não pára, se calhar com medo de contaminar-se – afirmou o Papa Francisco:

“Aquele é o jejum que quer o Senhor! Jejum que se preocupa da vida do irmão, que não se envergonha da carne do irmão – di-lo o próprio Isaías. A nossa perfeição, a nossa santidade vai para a frente com o nosso povo, no qual nós somos eleitos e inseridos. O nosso maior ato de santidade está na carne do irmão e na carne de Jesus Cristo. O ato de santidade hoje, nosso, aqui no altar, não é um jejum hipócrita: é não envergonharmo-nos da carne de Cristo que vem hoje aqui! É o mistério do Corpo e do Sangue de Cristo. É ir dividir o pão com o esfomeado, tratar os doentes, os idosos, aqueles que não podem dar-nos nada em troca: aquilo é não envergonhar-se da carne!”

“Quando eu dou a esmola, deixo cair a moeda sem tocar a mão? E se por acaso a toco, faço assim, de repente? Quando eu dou uma esmola olho nos olhos o meu irmão ou irmã? Quando eu sei que uma pessoa está doente vou visitá-la? Cumprimento-a com ternura? Há um sinal que talvez nos ajudará, é uma pergunta: sei acariciar os doentes, os idosos, as crianças, ou perdi o sentido da carícia? Estes hipócritas não sabiam acariciar! Tinham-se esquecido… Não envergonhar-se da carne do nosso irmão: é a nossa carne! Como nós fazemos com este irmão e com esta irmã, seremos julgados”.

A purificação do coração transformará o mundo

Seja extirpada a mentira do coração e da fala!

Da Igreja se diz que sempre pode ser reformada e renovada. Verdadeiras transformações são realizadas em seu seio, muito mais pela santidade de seus filhos do que por eventuais projetos de transformação, ainda que estes sejam necessários, na justa medida e no realismo de seus encaminhamentos. A santidade presente na Igreja é prova de que nela habita seu esposo, que a amou e se entregou por ela, para torná-la santa e perfeita. À santidade que é dom descido do Céu, pela ação do Espírito Santificador, derramado abundantemente em todas as épocas da história, deve corresponder o esforço humano, que se expressa na prática da virtude em todos os seus membros.

O povo de Deus recebeu, por intermédio de Moisés, a perfeição da lei (cf. Ex 20, 1-17ss). Um santo orgulho era cultivado por todos, por saberem ter, no decálogo, o que existe de melhor para toda a humanidade. No entanto, muitas vezes aqueles que tinham sido escolhidos com tamanha gratuidade e generosidade se tornaram um povo de cabeça dura, infiéis aos preceitos do Senhor, profanando a santidade com a qual tinham sido escolhidos. A este povo foram enviados continuamente os profetas, que anunciavam a misericórdia e o perdão e, ao mesmo tempo, denunciavam as falhas das sucessivas gerações. Nem sempre foram bem acolhidos, alguns morreram testemunhas da verdade, mas todos eles, quando verdadeiros profetas, iluminaram com sabedoria a prática religiosa.

Profeta é aquele que fala diante dos outros com clareza, ou aquele que põe à disposição de Deus a sua fala, para que o Senhor se dirija ao povo. Jesus, que é profeta e mais do que profeta, encontra pecadores e os perdoa, acolhe publicanos e prostitutas, cura as doenças do corpo e da alma. Seus gestos proféticos, como a purificação do templo (cf. Jo 2, 13-15), expressam o zelo amoroso e forte de Deus que O devora por dentro. O verdadeiro Templo, edificado por Deus e reedificado após a morte redentora em três dias, na ressurreição, é o próprio Cristo. Está agora presente em toda parte. Seu amor salvador é destinado a todos os homens e mulheres de todos os tempos. Dali para frente, Jesus atrai todas as gerações. O ponto de chegada, Nova Jerusalém, abre-se como espaço acolhedor, casa de oração para todos os povos, abraço amigo em que, começando dos mais distantes, todos podem ser recebidos.

Templo a ser purificado são também os corações e os corpos de todos os homens e mulheres que professam a fé. Deixando o Senhor entrar em suas casas e em suas almas, proclamem um tempo de conversão, deixem-se tocar pela palavra da penitência e se voltem de novo para Deus. Ressoe o pregão quaresmal incansavelmente em nossas ruas e casas!

Nossa geração precisa também ser purificada e acolher o convite a uma renovação de vida. O “chicote” da verdade, que fere e cura a ferida, é-nos de novo oferecido como dom. Quem se submete à Palavra de Deus entenderá a dureza da palavra da verdade, que ao mesmo tempo cauteriza todos os machucados. Caia o orgulho de Babel, terra da confusão, desmorone-se a grande Babilônia, cidade que quer se edificar sem Deus! Caiam e renasçam renovadas e purificadas as estruturas humanas construídas sobre os fundamentos do egoísmo. Sejam expulsos dos pátios dos templos e dos espaços abertos nos corações os negócios ilícitos. Seja extirpada a mentira do coração e da fala! A profanação do sagrado seja superada e a vida dos cristãos seja o desagravo por todo o desrespeito reinante. O descaso pela vida seja curado, a saúde se difunda sobre a terra!

Para chegar lá, a purificação dos templos e dos corações ilumine os passos de todos os cristãos, para que eles sejam fermento de novos valores nas estruturas do mundo. Superando o denuncismo fácil, sejam construtores e companheiros de tantas pessoas de boa vontade, para edificar juntos as desejadas estruturas diferentes na sociedade. Sejam eles próprios homens e mulheres de tamanha capacidade de relacionamento, que arrebanhem, mesmo no silêncio, multidões de pessoas.

O que não pode faltar, neste tempo da Quaresma, é o engajamento de todos no projeto de um mundo diferente. Seu início ocorre nos corações, pelo que havemos de pedir confiantes: “Ó Deus, fonte de toda misericórdia e de toda bondade, vós nos indicastes o jejum, a esmola e a oração como remédio contra o pecado. Acolhei esta confissão da nossa fraqueza para que, humilhados pela consciência de nossas faltas, sejamos confortados pela vossa misericórdia” (Oração do dia no III Domingo da Quaresma).

Dom Alberto Taveira Corrêa Arcebispo de Belém – PA

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