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Vaticano apresenta nova exortação apostólica do Papa Francisco

Chamada à santidade

Segunda-feira, 9 de abril de 2018, Da Redação, com informações da Santa Sé

Nova exortação apostólica trata da chamada à santidade no mundo atual

O Vaticano apresentou nesta segunda-feira, 9, a nova exortação apostólica do Papa Francisco: Gaudete et exsultate, sobre a chamada à santidade no mundo atual. O documento foi apresentado aos jornalistas em coletiva de imprensa com a participação do vigário geral do Papa para a diocese de Roma, Dom Angelo De Donatis, do jornalista Gianni Valente e de Paola Bignardi, da Ação Católica.

“Com efeito, a chamada à santidade está patente, de várias maneiras, desde as primeiras páginas da Bíblia; a Abraão, o Senhor propô-la nestes termos: ‘anda na minha presença e sê perfeito’ (Gn 17, 1)”, escreve no Papa logo no início do documento.

Francisco explica que não se deve esperar da exortação um tratado sobre a santidade, com definições e análises, mas que seu objetivo é humilde: “fazer ressoar mais uma vez a chamada à santidade, procurando encarná-la no contexto atual, com os seus riscos, desafios e oportunidades”, explica o Papa.

A nova exortação é dividida em cinco capítulos: 1. A chamada à santidade, 2. Dois inimigos subtis da santidade, 3. À luz do Mestre, 4. Algumas características da santidade no mundo atual e 5. Luta, vigilância e discernimento.

Essa é a terceira exortação apostólica do pontificado de Francisco. A primeira foi a Evangelii Gaudium, em novembro de 2013, sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. Já a segunda, Amoris laetitia, sobre o amor na família, foi publicada em março de 2013, sendo uma exortação apostólica pós-sinodal, fruto do Sínodo dedicado à família.

Além dessas exortações apostólicas, os cinco anos de pontificado Francisco somam ainda duas encíclicas e 46 cartas apostólicas, sendo 18 delas em forma de Motu Proprio.

EXORTAÇÃO APOSTÓLICA GAUDETE ET EXSULTATE
DO SANTO PADRE FRANCISCO

SOBRE A CHAMADA À SANTIDADE NO MUNDO ATUAL

ÍNDICE

«Alegrai-vos e exultai» [1-2]

Capítulo I
A CHAMADA À SANTIDADE
Os santos que nos encorajam e acompanham [3-5]
Os santos ao pé da porta [6-9]
O Senhor chama [10-13]
A ti também [14-18]
A tua missão em Cristo [19-24]
A atividade que santifica [25-31]
Mais vivos, mais humanos [32-34]

Capítulo II
DOIS INIMIGOS SUBTIS DA SANTIDADE
O gnosticismo atual [36]
Uma mente sem Deus e sem carne [37-39]
Uma doutrina sem mistério [40-42]
Os limites da razão [43-46]
O pelagianismo atual [47-48]
Uma vontade sem humildade [49-51]
Um ensinamento da Igreja frequentemente esquecido [52-56]
Os novos pelagianos [57-59]
O resumo da Lei [60-62]

Capítulo III
À LUZ DO MESTRE
Contracorrente [65-66]
«Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu» [67-70]
«Felizes os mansos, porque possuirão a terra» [71-74]
«Felizes os que choram, porque serão consolados» [75-76]
«Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados» [77-79]
«Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia» [80-82]
«Felizes os puros de coração, porque verão a Deus» [83-86]
«Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus» [87-89]
«Felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu» [90-94]
A grande regra de comportamento [95]
Por fidelidade ao Mestre [96-99]
As ideologias que mutilam o coração do Evangelho [100-103]
O culto que mais Lhe agrada [104-109]

Capítulo IV
ALGUMAS CARATERÍSTICAS DA SANTIDADE NO MUNDO ATUAL
Suportação, paciência e mansidão [112-121]
Alegria e sentido de humor [122-128]
Ousadia e ardor [129-139]
Em comunidade [140-146]
Em oração constante [147-157]

Capítulo V
LUTA, VIGILÂNCIA E DISCERNIMENTO
A luta e a vigilância [159]
Algo mais do que um mito [160-161]
Despertos e confiantes [162-163]
A corrupção espiritual [164-165]
O discernimento [166]
Uma necessidade imperiosa [167-168]
Sempre à luz do Senhor [169]
Um dom sobrenatural [170-171]
Fala, Senhor [172-173]
A lógica do dom e da cruz [174-177]

1. «ALEGRAI-VOS E EXULTAI» (Mt 5, 12), diz Jesus a quantos são perseguidos ou humilhados por causa d’Ele. O Senhor pede tudo e, em troca, oferece a vida verdadeira, a felicidade para a qual fomos criados. Quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa. Com efeito, a chamada à santidade está patente, de várias maneiras, desde as primeiras páginas da Bíblia; a Abraão, o Senhor propô-la nestes termos: «anda na minha presença e sê perfeito» (Gn 17, 1).

2. Não se deve esperar aqui um tratado sobre a santidade, com muitas definições e distinções que poderiam enriquecer este tema importante ou com análises que se poderiam fazer acerca dos meios de santificação. O meu objetivo é humilde: fazer ressoar mais uma vez a chamada à santidade, procurando encarná-la no contexto atual, com os seus riscos, desafios e oportunidades, porque o Senhor escolheu cada um de nós «para ser santo e irrepreensível na sua presença, no amor» (cf. Ef 1, 4).

Capítulo I

A CHAMADA À SANTIDADE

Os santos que nos encorajam e acompanham

3. Na Carta aos Hebreus, mencionam-se várias testemunhas que nos encorajam a «correr com perseverança a prova que nos é proposta» (12, 1): fala-se de Abraão, Sara, Moisés, Gedeão e vários outros (cf. cap. 11). Mas, sobretudo somos convidados a reconhecer-nos «circundados de tal nuvem de testemunhas» (12, 1), que incitam a não deter-nos no caminho, que nos estimulam a continuar a correr para a meta. E, entre tais testemunhas, podem estar a nossa própria mãe, uma avó ou outras pessoas próximas de nós (cf. 2 Tm 1, 5). A sua vida talvez não tenha sido sempre perfeita, mas, mesmo no meio de imperfeições e quedas, continuaram a caminhar e agradaram ao Senhor.

4. Os santos, que já chegaram à presença de Deus, mantêm connosco laços de amor e comunhão. Atesta-o o livro do Apocalipse, quando fala dos mártires intercessores: «Vi debaixo do altar as almas dos que tinham sido mortos, por causa da Palavra de Deus e por causa do testemunho que deram. E clamavam em alta voz: “Tu, que és o Poderoso, o Santo, o Verdadeiro! Até quando esperarás para julgar?”» (6, 9-10). Podemos dizer que «estamos circundados, conduzidos e guiados pelos amigos de Deus. (…) Não devo carregar sozinho o que, na realidade, nunca poderia carregar sozinho. Os numerosos santos de Deus protegem-me, amparam-me e guiam-me».[1]

5. Nos processos de beatificação e canonização, tomam-se em consideração os sinais de heroicidade na prática das virtudes, o sacrifício da vida no martírio e também os casos em que se verificou um oferecimento da própria vida pelos outros, mantido até à morte. Esta doação manifesta uma imitação exemplar de Cristo, e é digna da admiração dos fiéis.[2] Lembremos, por exemplo, a Beata Maria Gabriela Sagheddu, que ofereceu a sua vida pela unidade dos cristãos.

Os santos ao pé da porta

6. Não pensemos apenas em quantos já estão beatificados ou canonizados. O Espírito Santo derrama a santidade, por toda a parte, no santo povo fiel de Deus, porque «aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo que O conhecesse na verdade e O servisse santamente».[3] O Senhor, na história da salvação, salvou um povo. Não há identidade plena, sem pertença a um povo. Por isso, ninguém se salva sozinho, como indivíduo isolado, mas Deus atrai-nos tendo em conta a complexa rede de relações interpessoais que se estabelecem na comunidade humana: Deus quis entrar numa dinâmica popular, na dinâmica dum povo.

7. Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade «ao pé da porta», daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus, ou – por outras palavras – da «classe média da santidade».[4]

8. Deixemo-nos estimular pelos sinais de santidade que o Senhor nos apresenta através dos membros mais humildes deste povo que «participam também da função profética de Cristo, difundindo o seu testemunho vivo, sobretudo pela vida de fé e de caridade».[5] Como nos sugere Santa Teresa Benedita da Cruz, pensemos que é através de muitos deles que se constrói a verdadeira história: «Na noite mais escura, surgem os maiores profetas e os santos. Todavia a corrente vivificante da vida mística permanece invisível. Certamente, os eventos decisivos da história do mundo foram essencialmente influenciados por almas sobre as quais nada se diz nos livros de história. E saber quais sejam as almas a quem devemos agradecer os acontecimentos decisivos da nossa vida pessoal, é algo que só conheceremos no dia em que tudo o está oculto for revelado».[6]

9. A santidade é o rosto mais belo da Igreja. Mas, mesmo fora da Igreja Católica e em áreas muito diferentes, o Espírito suscita «sinais da sua presença, que ajudam os próprios discípulos de Cristo».[7] Por outro lado, São João Paulo II lembrou-nos que o «testemunho, dado por Cristo até ao derramamento do sangue, tornou-se património comum de católicos, ortodoxos, anglicanos e protestantes».[8] Na sugestiva comemoração ecuménica, que ele quis celebrar no Coliseu durante o Jubileu do ano 2000, defendeu que os mártires são «uma herança que fala com uma voz mais alta do que os fatores de divisão».[9]

O Senhor chama

10. Tudo isto é importante. Mas, o que quero recordar com esta Exortação é sobretudo a chamada à santidade que o Senhor faz a cada um de nós, a chamada que dirige também a ti: «sede santos, porque Eu sou santo» (Lv 11, 45; cf. 1 Ped 1, 16). O Concílio Vaticano II salientou vigorosamente: «munidos de tantos e tão grandes meios de salvação, todos os fiéis, seja qual for a sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor à perfeição do Pai, cada um por seu caminho».[10]

11. «Cada um por seu caminho», diz o Concílio. Por isso, uma pessoa não deve desanimar, quando contempla modelos de santidade que lhe parecem inatingíveis. Há testemunhos que são úteis para nos estimular e motivar, mas não para procurarmos copiá-los, porque isso poderia até afastar-nos do caminho, único e específico, que o Senhor predispôs para nós. Importante é que cada crente discirna o seu próprio caminho e traga à luz o melhor de si mesmo, quanto Deus colocou nele de muito pessoal (cf. 1 Cor 12, 7), e não se esgote procurando imitar algo que não foi pensado para ele. Todos estamos chamados a ser testemunhas, mas há muitas formas existenciais de testemunho.[11] De facto, quando o grande místico São João da Cruz escrevera o seu Cântico Espiritual, preferia evitar regras fixas para todos, explicando que os seus versos estavam escritos para que cada um os aproveitasse «a seu modo».[12] Pois a vida divina comunica-se «a uns duma maneira e a outros doutra».[13]

12. A propósito de tais formas distintas, quero assinalar que também o «génio feminino» se manifesta em estilos femininos de santidade, indispensáveis para refletir a santidade de Deus neste mundo. E precisamente em períodos nos quais as mulheres estiveram mais excluídas, o Espírito Santo suscitou santas, cujo fascínio provocou novos dinamismos espirituais e reformas importantes na Igreja. Podemos citar Santa Hildegarda de Bingen, Santa Brígida, Santa Catarina de Sena, Santa Teresa de Ávila ou Santa Teresa de Lisieux; mas interessa-me sobretudo lembrar tantas mulheres desconhecidas ou esquecidas que sustentaram e transformaram, cada uma a seu modo, famílias e comunidades com a força do seu testemunho.

13. Isto deveria entusiasmar e animar cada um a dar o melhor de si mesmo para crescer rumo àquele projeto, único e irrepetível, que Deus quis, desde toda a eternidade, para ele: «antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei» (Jer 1, 5).

A ti também

14. Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais.[14]

15. Deixa que a graça do teu Batismo frutifique num caminho de santidade. Deixa que tudo esteja aberto a Deus e, para isso, opta por Ele, escolhe Deus sem cessar. Não desanimes, porque tens a força do Espírito Santo para tornar possível a santidade e, no fundo, esta é o fruto do Espírito Santo na tua vida (cf. Gal 5, 22-23). Quando sentires a tentação de te enredares na tua fragilidade, levanta os olhos para o Crucificado e diz-Lhe: «Senhor, sou um miserável! Mas Vós podeis realizar o milagre de me tornar um pouco melhor». Na Igreja, santa e formada por pecadores, encontrarás tudo o que precisas para crescer rumo à santidade. «Como uma noiva que se adorna com as suas joias» (Is 61, 10), o Senhor cumulou-a de dons com a Palavra, os Sacramentos, os santuários, a vida das comunidades, o testemunho dos santos e uma beleza multiforme que deriva do amor do Senhor.

16. Esta santidade, a que o Senhor te chama, irá crescendo com pequenos gestos. Por exemplo, uma senhora vai ao mercado fazer as compras, encontra uma vizinha, começam a falar e… surgem as críticas. Mas esta mulher diz para consigo: «Não! Não falarei mal de ninguém». Isto é um passo rumo à santidade. Depois, em casa, o seu filho reclama a atenção dela para falar das suas fantasias e ela, embora cansada, senta-se ao seu lado e escuta com paciência e carinho. Trata-se doutra oferta que santifica. Ou então atravessa um momento de angústia, mas lembra-se do amor da Virgem Maria, pega no terço e reza com fé. Este é outro caminho de santidade. Noutra ocasião, segue pela estrada fora, encontra um pobre e detém-se a conversar carinhosamente com ele. É mais um passo.

17. Sucede, às vezes, que a vida apresenta desafios maiores e, através deles, o Senhor convida-nos a novas conversões que permitam à sua graça manifestar-se melhor na nossa existência, «para nos fazer participantes da sua santidade» (Heb 12, 10). Outras vezes trata-se apenas de encontrar uma forma mais perfeita de viver o que já fazemos: «há inspirações que nos fazem apenas tender para uma perfeição extraordinária das práticas ordinárias da vida cristã».[15] Quando estava na prisão, o Cardeal Francisco Xavier Nguyen van Thuan renunciou a desgastar-se com a ânsia da sua libertação. A sua decisão foi «viver o momento presente, cumulando-o de amor»; eis o modo como a concretizava: «aproveito as ocasiões que vão surgindo cada dia para realizar ações ordinárias de maneira extraordinária».[16]

18. Deste modo, sob o impulso da graça divina, com muitos gestos vamos construindo aquela figura de santidade que Deus quis para nós: não como seres autossuficientes, mas «como bons administradores das várias graças de Deus» (1 Ped 4, 10). Os Bispos da Nova Zelândia ensinaram-nos, justamente, que é possível amar com o amor incondicional do Senhor, porque o Ressuscitado partilha a sua vida poderosa com as nossas vidas frágeis: «o seu amor não tem limites e, uma vez doado, nunca volta atrás. Foi incondicional e permaneceu fiel. Amar assim não é fácil, porque muitas vezes somos tão frágeis; mas, precisamente para podermos amar como Ele nos amou, Cristo partilha connosco a sua própria vida ressuscitada. Desta forma, a nossa vida demonstra o seu poder em ação, inclusive no meio da fragilidade humana».[17]

A tua missão em Cristo

19. Para um cristão, não é possível imaginar a própria missão na terra, sem a conceber como um caminho de santidade, porque «esta é, na verdade, a vontade de Deus: a [nossa] santificação» (1 Ts 4, 3). Cada santo é uma missão; é um projeto do Pai que visa refletir e encarnar, num momento determinado da história, um aspeto do Evangelho.

20. Esta missão tem o seu sentido pleno em Cristo e só se compreende a partir d’Ele. No fundo, a santidade é viver em união com Ele os mistérios da sua vida; consiste em associar-se duma maneira única e pessoal à morte e ressurreição do Senhor, em morrer e ressuscitar continuamente com Ele. Mas pode também envolver a reprodução na própria existência de diferentes aspetos da vida terrena de Jesus: a vida oculta, a vida comunitária, a proximidade aos últimos, a pobreza e outras manifestações da sua doação por amor. A contemplação destes mistérios, como propunha Santo Inácio de Loyola, leva-nos a encarná-los nas nossas opções e atitudes.[18] Porque «tudo, na vida de Jesus, é sinal do seu mistério»,[19] «toda a vida de Cristo é revelação do Pai»,[20] «toda a vida de Cristo é mistério de redenção»,[21] «toda a vida de Cristo é mistério de recapitulação»,[22] e «tudo o que Cristo viveu, Ele próprio faz com que o possamos viver n’Ele e Ele vivê-lo em nós».[23]

21. O desígnio do Pai é Cristo, e nós n’Ele. Em última análise, é Cristo que ama em nós, porque a santidade «mais não é do que a caridade plenamente vivida».[24] Por conseguinte, «a medida da santidade é dada pela estatura que Cristo alcança em nós, desde quando, com a força do Espírito Santo, modelamos toda a nossa vida sobre a Sua».[25] Assim, cada santo é uma mensagem que o Espírito Santo extrai da riqueza de Jesus Cristo e dá ao seu povo.

22. Para identificar qual seja essa palavra que o Senhor quer dizer através dum santo, não convém deter-se nos detalhes, porque nisso também pode haver erros e quedas. Nem tudo o que um santo diz é plenamente fiel ao Evangelho, nem tudo o que faz é autêntico ou perfeito. O que devemos contemplar é o conjunto da sua vida, o seu caminho inteiro de santificação, aquela figura que reflete algo de Jesus Cristo e que sobressai quando se consegue compor o sentido da totalidade da sua pessoa.[26]

23. Isto é um vigoroso apelo para todos nós. Também tu precisas de conceber a totalidade da tua vida como uma missão. Tenta fazê-lo, escutando a Deus na oração e identificando os sinais que Ele te dá. Pede sempre, ao Espírito Santo, o que espera Jesus de ti em cada momento da tua vida e em cada opção que tenhas de tomar, para discernir o lugar que isso ocupa na tua missão. E permite-Lhe plasmar em ti aquele mistério pessoal que possa refletir Jesus Cristo no mundo de hoje.

24. Oxalá consigas identificar a palavra, a mensagem de Jesus que Deus quer dizer ao mundo com a tua vida. Deixa-te transformar, deixa-te renovar pelo Espírito para que isso seja possível, e assim a tua preciosa missão não fracassará. O Senhor levá-la-á a cumprimento mesmo no meio dos teus erros e momentos negativos, desde que não abandones o caminho do amor e permaneças sempre aberto à sua ação sobrenatural que purifica e ilumina.

A atividade que santifica

25. Dado que não se pode conceber Cristo sem o Reino que Ele veio trazer, também a tua missão é inseparável da construção do Reino: «procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça» (Mt 6, 33). A tua identificação com Cristo e os seus desígnios requer o compromisso de construíres, com Ele, este Reino de amor, justiça e paz para todos. O próprio Cristo quer vivê-lo contigo em todos os esforços ou renúncias que isso implique e também nas alegrias e na fecundidade que te proporcione. Por isso, não te santificarás sem te entregares de corpo e alma, dando o melhor de ti neste compromisso.

26. Não é saudável amar o silêncio e esquivar o encontro com o outro, desejar o repouso e rejeitar a atividade, buscar a oração e menosprezar o serviço. Tudo pode ser recebido e integrado como parte da própria vida neste mundo, entrando a fazer parte do caminho de santificação. Somos chamados a viver a contemplação mesmo no meio da ação, e santificamo-nos no exercício responsável e generoso da nossa missão.

27. Poderá porventura o Espírito Santo enviar-nos para cumprir uma missão e, ao mesmo tempo, pedir-nos que fujamos dela ou que evitemos doar-nos totalmente para preservarmos a paz interior? Obviamente não; mas, às vezes, somos tentados a relegar para posição secundária a dedicação pastoral e o compromisso no mundo, como se fossem «distrações» no caminho da santificação e da paz interior. Esquecemo-nos disto: «não é que a vida tenha uma missão, mas a vida é uma missão».[27]

28. Um compromisso movido pela ansiedade, o orgulho, a necessidade de aparecer e dominar, certamente, não será santificador. O desafio é viver de tal forma a própria doação, que os esforços tenham um sentido evangélico e nos identifiquem cada vez mais com Jesus Cristo. Por isso, é usual falar, por exemplo, duma espiritualidade do catequista, duma espiritualidade do clero diocesano, duma espiritualidade do trabalho. Pela mesma razão, na Evangelii gaudium, quis concluir com uma espiritualidade da missão, na Laudato si’ com uma espiritualidade ecológica, e na Amoris laetitia com uma espiritualidade da vida familiar.

29. Isto não implica menosprezar os momentos de quietude, solidão e silêncio diante de Deus. Antes pelo contrário! Com efeito, as novidades contínuas dos meios tecnológicos, o fascínio de viajar, as inúmeras ofertas de consumo, às vezes, não deixam espaços vazios onde ressoe a voz de Deus. Tudo se enche de palavras, prazeres epidérmicos e rumores a uma velocidade cada vez maior; aqui não reina a alegria, mas a insatisfação de quem não sabe para que vive. Então, como não reconhecer que precisamos de deter esta corrida febril para recuperar um espaço pessoal, às vezes doloroso mas sempre fecundo, onde se realize o diálogo sincero com Deus? Em certos momentos, deveremos encarar a verdade de nós mesmos, para a deixar invadir pelo Senhor; e isto nem sempre se consegue, se a pessoa «não se vê à beira do abismo da tentação mais opressiva, se não sente a vertigem do precipício do abandono mais desesperado, se não se encontra absolutamente só, no cume da solidão mais radical».[28] Assim, encontramos as grandes motivações que nos impelem a viver, em profundidade, as nossas tarefas.

30. Os próprios meios de distração que invadem a vida atual levam-nos também a absolutizar o tempo livre, no qual podemos utilizar, sem limites, aqueles dispositivos que nos proporcionam divertimento e prazeres efémeros.[29] Em consequência disso, ressente-se a própria missão, o compromisso esmorece, o serviço generoso e disponível começa a retrair-se. Isto desnatura a experiência espiritual. Poderá ser saudável um fervor espiritual que convive com a acédia na ação evangelizadora ou no serviço dos outros?

31. Precisamos dum espírito de santidade que impregne tanto a solidão como o serviço, tanto a intimidade como a tarefa evangelizadora, para que cada instante seja expressão de amor doado sob o olhar do Senhor. Desta forma, todos os momentos serão degraus no nosso caminho de santificação.

Mais vivos, mais humanos

32. Não tenhas medo da santidade. Não te tirará forças, nem vida nem alegria. Muito pelo contrário, porque chegarás a ser o que o Pai pensou quando te criou e serás fiel ao teu próprio ser. Depender d’Ele liberta-nos das escravidões e leva-nos a reconhecer a nossa dignidade. Isto vê-se em Santa Josefina Bakhita, que, «escravizada e vendida como escrava com apenas sete anos de idade, sofreu muito nas mãos de patrões cruéis. Apesar disso compreendeu a verdade profunda que Deus, e não o homem, é o verdadeiro Patrão de todos os seres humanos, de cada vida humana. Esta experiência torna-se fonte de grande sabedoria para esta humilde filha da África».[30]

33. Cada cristão, quanto mais se santifica, tanto mais fecundo se torna para o mundo. Assim nos ensinaram os Bispos da África ocidental: «Somos chamados, no espírito da nova evangelização, a ser evangelizados e a evangelizar através da promoção de todos os batizados para que assumam as suas tarefas como sal da terra e luz do mundo, onde quer que se encontrem».[31]

34. Não tenhas medo de apontar para mais alto, de te deixares amar e libertar por Deus. Não tenhas medo de te deixares guiar pelo Espírito Santo. A santidade não te torna menos humano, porque é o encontro da tua fragilidade com a força da graça. No fundo, como dizia León Bloy, na vida «existe apenas uma tristeza: a de não ser santo».[32]

Capítulo II

DOIS INIMIGOS SUBTIS DA SANTIDADE

35. Neste contexto, desejo chamar a atenção para duas falsificações da santidade que poderiam extraviar-nos: o gnosticismo e o pelagianismo. São duas heresias que surgiram nos primeiros séculos do cristianismo, mas continuam a ser de alarmante atualidade. Ainda hoje os corações de muitos cristãos, talvez inconscientemente, deixam-se seduzir por estas propostas enganadoras. Nelas aparece expresso um imanentismo antropocêntrico, disfarçado de verdade católica.[33] Vejamos estas duas formas de segurança doutrinária ou disciplinar, que dão origem «a um elitismo narcisista e autoritário, onde, em vez de evangelizar, se analisam e classificam os demais e, em vez de facilitar o acesso à graça, consomem-se as energias a controlar. Em ambos os casos, nem Jesus Cristo nem os outros interessam verdadeiramente».[34]

O gnosticismo atual

36. O gnosticismo supõe «uma fé fechada no subjetivismo, onde apenas interessa uma determinada experiência ou uma série de raciocínios e conhecimentos que supostamente confortam e iluminam, mas, em última instância, a pessoa fica enclausurada na imanência da sua própria razão ou dos seus sentimentos».[35]

Uma mente sem Deus e sem carne

37. Graças a Deus, ao longo da história da Igreja, ficou bem claro que aquilo que mede a perfeição das pessoas é o seu grau de caridade, e não a quantidade de dados e conhecimentos que possam acumular. Os «gnósticos», baralhados neste ponto, julgam os outros segundo conseguem, ou não, compreender a profundidade de certas doutrinas. Concebem uma mente sem encarnação, incapaz de tocar a carne sofredora de Cristo nos outros, engessada numa enciclopédia de abstrações. Ao desencarnar o mistério, em última análise preferem «um Deus sem Cristo, um Cristo sem Igreja, uma Igreja sem povo».[36]

38. Em suma, trata-se duma vaidosa superficialidade: muito movimento à superfície da mente, mas não se move nem se comove a profundidade do pensamento. No entanto, consegue subjugar alguns com o seu fascínio enganador, porque o equilíbrio gnóstico é formal e supostamente asséptico, podendo assumir o aspeto duma certa harmonia ou duma ordem que tudo abrange.

39. Mas atenção! Não estou a referir-me aos racionalistas inimigos da fé cristã. Isto pode acontecer dentro da Igreja, tanto nos leigos das paróquias como naqueles que ensinam filosofia ou teologia em centros de formação. Com efeito, também é típico dos gnósticos crer que eles, com as suas explicações, podem tornar perfeitamente compreensível toda a fé e todo o Evangelho. Absolutizam as suas teorias e obrigam os outros a submeter-se aos raciocínios que eles usam. Uma coisa é o uso saudável e humilde da razão para refletir sobre o ensinamento teológico e moral do Evangelho, outra é pretender reduzir o ensinamento de Jesus a uma lógica fria e dura que procura dominar tudo[37].

Uma doutrina sem mistério

40. O gnosticismo é uma das piores ideologias, pois, ao mesmo tempo que exalta indevidamente o conhecimento ou uma determinada experiência, considera que a sua própria visão da realidade seja a perfeição. Assim, talvez sem se aperceber, esta ideologia autoalimenta-se e torna-se ainda mais cega. Por vezes, torna-se particularmente enganadora, quando se disfarça de espiritualidade desencarnada. Com efeito, o gnosticismo, «por sua natureza, quer domesticar o mistério»,[38] tanto o mistério de Deus e da sua graça, como o mistério da vida dos outros.

41. Quando alguém tem resposta para todas as perguntas, demonstra que não está no bom caminho e é possível que seja um falso profeta, que usa a religião para seu benefício, ao serviço das próprias lucubrações psicológicas e mentais. Deus supera-nos infinitamente, é sempre uma surpresa e não somos nós que determinamos a circunstância histórica em que O encontramos, já que não dependem de nós o tempo, nem o lugar, nem a modalidade do encontro. Quem quer tudo claro e seguro, pretende dominar a transcendência de Deus.

42. Nem se pode pretender definir onde Deus não Se encontra, porque Ele está misteriosamente presente na vida de toda a pessoa, na vida de cada um como Ele quer, e não o podemos negar com as nossas supostas certezas. Mesmo quando a vida de alguém tiver sido um desastre, mesmo que o vejamos destruído pelos vícios ou dependências, Deus está presente na sua vida. Se nos deixarmos guiar mais pelo Espírito do que pelos nossos raciocínios, podemos e devemos procurar o Senhor em cada vida humana. Isto faz parte do mistério que as mentalidades gnósticas acabam por rejeitar, porque não o podem controlar.

Os limites da razão

43. Só de forma muito pobre, chegamos a compreender a verdade que recebemos do Senhor. E, ainda com maior dificuldade, conseguimos expressá-la. Por isso, não podemos pretender que o nosso modo de a entender nos autorize a exercer um controlo rigoroso sobre a vida dos outros. Quero lembrar que, na Igreja, convivem legitimamente diferentes maneiras de interpretar muitos aspetos da doutrina e da vida cristã, que, na sua variedade, «ajudam a explicitar melhor o tesouro riquíssimo da Palavra. [Certamente,] a quantos sonham com uma doutrina monolítica defendida sem nuances por todos, isto poderá parecer uma dispersão imperfeita».[39] Por isso mesmo, algumas correntes gnósticas desprezaram a simplicidade tão concreta do Evangelho e tentaram substituir o Deus trinitário e encarnado por uma Unidade superior onde desaparecia a rica multiplicidade da nossa história.

44. Na realidade, a doutrina, ou melhor, a nossa compreensão e expressão dela, «não é um sistema fechado, privado de dinâmicas próprias capazes de gerar perguntas, dúvidas, questões (…); e as perguntas do nosso povo, as suas angústias, batalhas, sonhos e preocupações possuem um valor hermenêutico que não podemos ignorar, se quisermos deveras levar a sério o princípio da encarnação. As suas perguntas ajudam-nos a questionar-nos, as suas questões interrogam-nos».[40]

45. Com frequência, verifica-se uma perigosa confusão: julgar que, por sabermos algo ou podermos explicá-lo com uma certa lógica, já somos santos, perfeitos, melhores do que a «massa ignorante». São João Paulo II advertia, a quantos na Igreja têm a possibilidade de uma formação mais elevada, contra a tentação de cultivarem «um certo sentimento de superioridade relativamente aos outros fiéis».[41] Na realidade, porém, aquilo que julgamos saber sempre deveria ser uma motivação para responder melhor ao amor de Deus, porque «se aprende para viver: teologia e santidade são um binómio inseparável».[42]

46. São Francisco de Assis, ao ver que alguns dos seus discípulos ensinavam a doutrina, quis evitar a tentação do gnosticismo. Então escreveu assim a Santo António de Lisboa: «Apraz-me que interpreteis aos demais frades a sagrada teologia, contanto que este estudo não apague neles o espírito da santa oração e devoção».[43] Reconhecia a tentação de transformar a experiência cristã num conjunto de especulações mentais, que acabam por nos afastar do frescor do Evangelho. São Boaventura, por sua vez, advertia que a verdadeira sabedoria cristã não se deve desligar da misericórdia para com o próximo: «A maior sabedoria que pode existir consiste em dispensar frutuosamente o que se possui e que lhe foi dado precisamente para o distribuir (…). Por isso, como a misericórdia é amiga da sabedoria, assim a avareza é sua inimiga».[44] «Há atividades, como as obras de misericórdia e de piedade, que, unindo-se à contemplação, não a impedem, antes favorecem-na».[45]

O pelagianismo atual

47. O gnosticismo deu lugar a outra heresia antiga, que está presente também hoje. Com o passar do tempo, muitos começaram a reconhecer que não é o conhecimento que nos torna melhores ou santos, mas a vida que levamos. O problema é que isto foi subtilmente degenerando, de modo que o mesmo erro dos gnósticos foi simplesmente transformado, mas não superado.

48. Com efeito, o poder que os gnósticos atribuíam à inteligência, alguns começaram a atribuí-lo à vontade humana, ao esforço pessoal. Surgiram, assim, os pelagianos e os semipelagianos. Já não era a inteligência que ocupava o lugar do mistério e da graça, mas a vontade. Esquecia-se que «isto não depende daquele que quer nem daquele que se esfoça por alcançá-lo, mas de Deus que é misericordioso» (Rm 9, 16) e que Ele «nos amou primeiro» (1 Jo 4, 19).

Uma vontade sem humildade

49. Quem se conforma a esta mentalidade pelagiana ou semipelagiana, embora fale da graça de Deus com discursos edulcorados, «no fundo, só confia nas suas próprias forças e sente-se superior aos outros por cumprir determinadas normas ou por ser irredutivelmente fiel a um certo estilo católico».[46] Quando alguns deles se dirigem aos frágeis, dizendo-lhes que se pode tudo com a graça de Deus, basicamente costumam transmitir a ideia de que tudo se pode com a vontade humana, como se esta fosse algo puro, perfeito, omnipotente, a que se acrescenta a graça. Pretende-se ignorar que «nem todos podem tudo»,[47] e que, nesta vida, as fragilidades humanas não são curadas, completamente e duma vez por todas, pela graça.[48] Em todo o caso, como ensinava Santo Agostinho, Deus convida-te a fazer o que podes e «a pedir o que não podes»;[49] ou então a dizer humildemente ao Senhor: «dai-me o que me ordenais e ordenai-me o que quiserdes».[50]

50. No fundo, a falta dum reconhecimento sincero, pesaroso e orante dos nossos limites é que impede a graça de atuar melhor em nós, pois não lhe deixa espaço para provocar aquele bem possível que se integra num caminho sincero e real de crescimento.[51] A graça, precisamente porque supõe a nossa natureza, não nos faz improvisamente super-homens. Pretendê-lo seria confiar demasiado em nós próprios. Neste caso, por trás da ortodoxia, as nossas atitudes podem não corresponder ao que afirmamos sobre a necessidade da graça e, na prática, acabamos por confiar pouco nela. Com efeito, se não reconhecemos a nossa realidade concreta e limitada, não poderemos ver os passos reais e possíveis que o Senhor nos pede em cada momento, depois de nos ter atraído e tornado idóneos com o seu dom. A graça atua historicamente e, em geral, toma-nos e transforma-nos de forma progressiva.[52] Por isso, se recusarmos esta modalidade histórica e progressiva, de facto podemos chegar a negá-la e bloqueá-la, embora a exaltemos com as nossas palavras.

51. Quando Deus Se dirige a Abraão, diz-lhe: «Eu sou o Deus supremo. Anda na minha presença e sê perfeito» (Gn 17, 1). Para poder ser perfeitos, como é do seu agrado, precisamos de viver humildemente na presença d’Ele, envolvidos pela sua glória; necessitamos de andar em união com Ele, reconhecendo o seu amor constante na nossa vida. Há que perder o medo desta presença que só nos pode fazer bem. É o Pai que nos deu vida e nos ama tanto. Uma vez que O aceitamos e deixamos de pensar a nossa existência sem Ele, desaparece a angústia da solidão (cf. Sal 139/138, 7). E, se deixarmos de pôr Deus à distância e vivermos na sua presença, poderemos permitir-Lhe que examine os nossos corações para ver se seguem pelo reto caminho (cf. Sal 139/138, 23-24). Assim conheceremos a vontade perfeita e agradável ao Senhor (cf. Rm 12, 1-2) e deixaremos que Ele nos molde como um oleiro (cf. Is 29, 16). Dissemos tantas vezes que Deus habita em nós, mas é melhor dizer que nós habitamos n’Ele, que Ele nos possibilita viver na sua luz e no seu amor. Ele é o nosso templo: «Uma só coisa (…) ardentemente desejo: é habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida» (Sal 27/26, 4). «Um dia em teus átrios vale por mil» (Sal 84/83, 11). N’Ele, somos santificados.

Um ensinamento da Igreja frequentemente esquecido

52. A Igreja ensinou repetidamente que não somos justificados pelas nossas obras ou pelos nossos esforços, mas pela graça do Senhor que toma a iniciativa. Os Padres da Igreja, já antes de Santo Agostinho, expressavam com clareza esta convicção primária. Dizia São João Crisóstomo que Deus derrama em nós a própria fonte de todos os dons, «antes de termos entrado no combate».[53] São Basílio Magno observava que o fiel se gloria apenas em Deus, porque «reconhece estar privado da verdadeira justiça e que é justificado somente por meio da fé em Cristo».[54]

53. O II Sínodo de Orange ensinou, com firme autoridade, que nenhum ser humano pode exigir, merecer ou comprar o dom da graça divina, e que toda a cooperação com ela é dom prévio da mesma graça: «até o desejo de ser puro se realiza em nós por infusão do Espírito Santo e com sua ação sobre nós».[55] Sucessivamente o Concílio de Trento, mesmo quando destacou a importância da nossa cooperação para o crescimento espiritual, reafirmou tal ensinamento dogmático: «Afirma-se que somos justificados gratuitamente, porque nada do que precede a justificação, quer a fé, quer as obras, merece a própria graça da justificação; porque, se é graça, então não é pelas obras, caso contrário, a graça já não seria graça (Rm 11, 6)».[56]

54. Também o Catecismo da Igreja Católica nos lembra que o dom da graça «ultrapassa as capacidades da inteligência e as forças da vontade humana»[57] e que, «em relação a Deus, não há, da parte do homem, mérito no sentido dum direito estrito. Entre Ele e nós, a desigualdade é sem medida».[58] A sua amizade supera-nos infinitamente, não pode ser comprada por nós com as nossas obras e só pode ser um dom da sua iniciativa de amor. Isto convida-nos a viver com jubilosa gratidão por este dom que nunca mereceremos, uma vez que, «depois duma pessoa já possuir a graça, não pode a graça já recebida cair sob a alçada do mérito».[59] Os santos evitam de pôr a confiança nas suas ações: «Ao anoitecer desta vida, aparecerei diante de Vós com as mãos vazias, pois não Vos peço, Senhor, que conteis as minhas obras. Todas as nossas justiças têm manchas aos vossos olhos».[60]

55. Esta é uma das grandes convicções definitivamente adquiridas pela Igreja e está tão claramente expressa na Palavra de Deus que fica fora de qualquer discussão. Esta verdade, tal como o supremo mandamento do amor, deveria caraterizar o nosso estilo de vida, porque bebe do coração do Evangelho e convida-nos não só a aceitá-la com a mente, mas também a transformá-la numa alegria contagiosa. Mas não poderemos celebrar com gratidão o dom gratuito da amizade com o Senhor, se não reconhecermos que a própria existência terrena e as nossas capacidades naturais são um dom. Precisamos de «reconhecer alegremente que a nossa realidade é fruto dum dom, e aceitar também a nossa liberdade como graça. Isto é difícil hoje, num mundo que julga possuir algo por si mesmo, fruto da sua própria originalidade e liberdade».[61]

56. Só a partir do dom de Deus, livremente acolhido e humildemente recebido, é que podemos cooperar com os nossos esforços para nos deixarmos transformar cada vez mais.[62] A primeira coisa é pertencer a Deus. Trata-se de nos oferecermos a Ele que nos antecipa, de Lhe oferecermos as nossas capacidades, o nosso esforço, a nossa luta contra o mal e a nossa criatividade, para que o seu dom gratuito cresça e se desenvolva em nós: «por isso, vos exorto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais os vossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus» (Rm 12, 1). Aliás, a Igreja sempre ensinou que só a caridade torna possível o crescimento na vida da graça, porque, «se não tiver amor, nada sou» (1 Cor 13, 2).

Os novos pelagianos

57. Ainda há cristãos que insistem em seguir outro caminho: o da justificação pelas suas próprias forças, o da adoração da vontade humana e da própria capacidade, que se traduz numa autocomplacência egocêntrica e elitista, desprovida do verdadeiro amor. Manifesta-se em muitas atitudes aparentemente diferentes entre si: a obsessão pela lei, o fascínio de exibir conquistas sociais e políticas, a ostentação no cuidado da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, a vanglória ligada à gestão de assuntos práticos, a atração pelas dinâmicas de autoajuda e realização autorreferencial. É nisto que alguns cristãos gastam as suas energias e o seu tempo, em vez de se deixarem guiar pelo Espírito no caminho do amor, apaixonarem-se por comunicar a beleza e a alegria do Evangelho e procurarem os afastados nessas imensas multidões sedentas de Cristo.[63]

58. Muitas vezes, contra o impulso do Espírito, a vida da Igreja transforma-se numa peça de museu ou numa propriedade de poucos. Verifica-se isto quando alguns grupos cristãos dão excessiva importância à observância de certas normas próprias, costumes ou estilos. Assim se habituam a reduzir e manietar o Evangelho, despojando-o da sua simplicidade cativante e do seu sabor. É talvez uma forma subtil de pelagianismo, porque parece submeter a vida da graça a certas estruturas humanas. Isto diz respeito a grupos, movimentos e comunidades, e explica por que tantas vezes começam com uma vida intensa no Espírito, mas depressa acabam fossilizados… ou corruptos.

59. Sem nos darmos conta, pelo facto de pensar que tudo depende do esforço humano canalizado através de normas e estruturas eclesiais, complicamos o Evangelho e tornamo-nos escravos dum esquema que deixa poucas aberturas para que a graça atue. São Tomás de Aquino lembrava-nos que se deve exigir, com moderação, os preceitos acrescentados ao Evangelho pela Igreja, «para não tornar a vida pesada aos fiéis, [porque assim] se transformaria a nossa religião numa escravidão».[64]

O resumo da Lei

60. Para evitar isso, é bom recordar frequentemente que existe uma hierarquia das virtudes, que nos convida a buscar o essencial. A primazia pertence às virtudes teologais, que têm Deus como objeto e motivo. E, no centro, está a caridade. São Paulo diz que o que conta verdadeiramente é «a fé que atua pelo amor» (Gal 5, 6). Somos chamados a cuidar solicitamente da caridade: «quem ama o próximo cumpre plenamente a Lei. (…) Assim, é no amor que está o pleno cumprimento da lei» (Rm 13, 8.10). «É que toda a Lei se resume neste único preceito: “Ama o teu próximo como a ti mesmo”» (Gal 5, 14).

61. Por outras palavras, no meio da densa selva de preceitos e prescrições, Jesus abre uma brecha que permite vislumbrar dois rostos: o do Pai e o do irmão. Não nos dá mais duas fórmulas ou dois preceitos; entrega-nos dois rostos, ou melhor, um só: o de Deus que se reflete em muitos, porque em cada irmão, especialmente no mais pequeno, frágil, inerme e necessitado, está presente a própria imagem de Deus. De facto, será com os descartados desta humanidade vulnerável que, no fim dos tempos, o Senhor plasmará a sua última obra de arte. Pois, «o que é que resta? O que é que tem valor na vida? Quais são as riquezas que não desaparecem? Seguramente duas: o Senhor e o próximo. Estas duas riquezas não desaparecem».[65]

62. Que o Senhor liberte a Igreja das novas formas de gnosticismo e pelagianismo que a complicam e detêm no seu caminho para a santidade! Estes desvios manifestam-se de formas diferentes, segundo o temperamento e as caraterísticas próprias. Por isso, exorto cada um a questionar-se e a discernir diante de Deus a maneira como possam estar a manifestar-se na sua vida.

Capítulo III

À LUZ DO MESTRE

63. Sobre a essência da santidade, podem haver muitas teorias, abundantes explicações e distinções. Uma reflexão do género poderia ser útil, mas não há nada de mais esclarecedor do que voltar às palavras de Jesus e recolher o seu modo de transmitir a verdade. Jesus explicou, com toda a simplicidade, o que é ser santo; fê-lo quando nos deixou as bem-aventuranças (cf. Mt 5, 3-12; Lc 6, 20-23). Estas são como que o bilhete de identidade do cristão. Assim, se um de nós se questionar sobre «como fazer para chegar a ser um bom cristão», a resposta é simples: é necessário fazer – cada qual a seu modo – aquilo que Jesus disse no sermão das bem-aventuranças.[66] Nelas está delineado o rosto do Mestre, que somos chamados a deixar transparecer no dia-a-dia da nossa vida.

64. A palavra «feliz» ou «bem-aventurado» torna-se sinónimo de «santo», porque expressa que a pessoa fiel a Deus e que vive a sua Palavra alcança, na doação de si mesma, a verdadeira felicidade.

Contracorrente

65. Estas palavras de Jesus, não obstante possam até parecer poéticas, estão decididamente contracorrente ao que é habitual, àquilo que se faz na sociedade; e, embora esta mensagem de Jesus nos fascine, na realidade o mundo conduz-nos para outro estilo de vida. As bem-aventuranças não são, absolutamente, um compromisso leve ou superficial; pelo contrário, só as podemos viver se o Espírito Santo nos permear com toda a sua força e nos libertar da fraqueza do egoísmo, da preguiça, do orgulho.

66. Voltemos a escutar Jesus, com todo o amor e respeito que o Mestre merece. Permitamos-Lhe que nos fustigue com as suas palavras, que nos desafie, que nos chame a uma mudança real de vida. Caso contrário, a santidade não passará de palavras. Recordemos agora as diferentes bem-aventuranças, na versão do Evangelho de Mateus (cf. 5, 3-12).[67]

«Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu»

67. O Evangelho convida-nos a reconhecer a verdade do nosso coração, para ver onde colocamos a segurança da nossa vida. Normalmente, o rico sente-se seguro com as suas riquezas e, quando estas estão em risco, pensa que se desmorona todo o sentido da sua vida na terra. O próprio Jesus no-lo disse na parábola do rico insensato, falando daquele homem seguro de si, que – como um insensato – não pensava que poderia morrer naquele mesmo dia (cf. Lc 12, 16-21).

68. As riquezas não te dão segurança alguma. Mais ainda: quando o coração se sente rico, fica tão satisfeito de si mesmo que não tem espaço para a Palavra de Deus, para amar os irmãos, nem para gozar das coisas mais importantes da vida. Deste modo priva-se dos bens maiores. Por isso, Jesus chama felizes os pobres em espírito, que têm o coração pobre, onde pode entrar o Senhor com a sua incessante novidade.

69. Esta pobreza de espírito está intimamente ligada à «santa indiferença» proposta por Santo Inácio de Loyola, na qual alcançamos uma estupenda liberdade interior: «É necessário tornar-nos indiferentes face a todas as coisas criadas (em tudo aquilo que seja permitido à liberdade do nosso livre arbítrio, e não lhe esteja proibido), de tal modo que, por nós mesmos, não queiramos mais a saúde do que a doença, mais a riqueza do que a pobreza, mais a honra do que a desonra, mais uma vida longa do que curta, e assim em tudo o resto».[68]

70. Lucas não fala duma pobreza «em espírito», mas simplesmente de ser «pobre» (cf. Lc 6, 20), convidando-nos assim a uma vida também austera e essencial. Desta forma, chama-nos a compartilhar a vida dos mais necessitados, a vida que levaram os Apóstolos e, em última análise, a configurar-nos a Jesus, que, «sendo rico, Se fez pobre» (2 Cor 8, 9).

Ser pobre no coração: isto é santidade.

«Felizes os mansos, porque possuirão a terra»

71. É uma frase forte, neste mundo que, desde o início, é um lugar de inimizade, onde se litiga por todo o lado, onde há ódio em toda a parte, onde constantemente classificamos os outros pelas suas ideias, os seus costumes e até a sua forma de falar ou vestir. Em suma, é o reino do orgulho e da vaidade, onde cada um se julga no direito de elevar-se acima dos outros. Embora pareça impossível, Jesus propõe outro estilo: a mansidão. É o que praticava com os seus discípulos, e contemplamos na sua entrada em Jerusalém: «aí vem o teu Rei, ao teu encontro, manso e montado num jumentinho» (Mt 21, 5; cf. Zc 9, 9).

72. Disse Ele: «Aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito» (Mt 11, 29). Se vivemos tensos, arrogantes diante dos outros, acabamos cansados e exaustos. Mas, quando olhamos os seus limites e defeitos com ternura e mansidão, sem nos sentirmos superiores, podemos dar-lhes uma mão e evitamos de gastar energias em lamentações inúteis. Para Santa Teresa de Lisieux, «a caridade perfeita consiste em suportar os defeitos dos outros, em não se escandalizar com as suas fraquezas».[69]

73. Paulo designa a mansidão como fruto do Espírito Santo (cf. Gal 5, 23). E, se alguma vez nos preocuparem as más ações do irmão, propõe que o abordemos para corrigi-lo, mas «com espírito de mansidão, [lembrando-nos:] e tu olha para ti próprio, não estejas também tu a ser tentado» (Gal 6, 1)». Mesmo quando alguém defende a sua fé e as suas convicções, deve fazê-lo com mansidão (cf. 1 Ped 3, 16), e os próprios adversários devem ser tratados com mansidão (cf. 2 Tm 2, 25). Na Igreja, erramos muitas vezes por não ter acolhido este apelo da Palavra divina.

74. A mansidão é outra expressão da pobreza interior, de quem deposita a sua confiança apenas em Deus. De facto, na Bíblia, usa-se muitas vezes a mesma palavra anawin para se referir aos pobres e aos mansos. Alguém poderia objetar: «Mas, se eu for assim manso, pensarão que sou insensato, estúpido ou frágil». Talvez seja assim, mas deixemos que os outros pensem isso. É melhor sermos sempre mansos, porque assim se realizarão as nossas maiores aspirações: os mansos «possuirão a terra», isto é, verão as promessas de Deus cumpridas na sua vida. Porque os mansos, independentemente do que possam sugerir as circunstâncias, esperam no Senhor, e aqueles que esperam no Senhor possuirão a terra e gozarão de imensa paz (cf. Sal 37/36, 9.11). Ao mesmo tempo, o Senhor confia neles: «é nos humildes de coração contrito que os meus olhos se fixam, pois escutam a minha palavra com respeito» (Is 66, 2).

Reagir com humilde mansidão: isto é santidade.

«Felizes os que choram, porque serão consolados»

75. O mundo propõe-nos o contrário: o entretenimento, o prazer, a distração, o divertimento. E diz-nos que isto é que torna boa a vida. O mundano ignora, olha para o lado, quando há problemas de doença ou aflição na família ou ao seu redor. O mundo não quer chorar: prefere ignorar as situações dolorosas, cobri-las, escondê-las. Gastam-se muitas energias para escapar das situações onde está presente o sofrimento, julgando que é possível dissimular a realidade, onde nunca, nunca, pode faltar a cruz.

76. A pessoa que, vendo as coisas como realmente estão, se deixa trespassar pela aflição e chora no seu coração, é capaz de alcançar as profundezas da vida e ser autenticamente feliz.[70] Esta pessoa é consolada, mas com a consolação de Jesus e não com a do mundo. Assim pode ter a coragem de compartilhar o sofrimento alheio, e deixa de fugir das situações dolorosas. Desta forma, descobre que a vida tem sentido socorrendo o outro na sua aflição, compreendendo a angústia alheia, aliviando os outros. Esta pessoa sente que o outro é carne da sua carne, não teme aproximar-se até tocar a sua ferida, compadece-se até sentir que as distâncias são superadas. Assim, é possível acolher aquela exortação de São Paulo: «Chorai com os que choram» (Rm 12, 15).

Saber chorar com os outros: isto é santidade.

«Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados»

77. «Fome e sede» são experiências muito intensas, porque correspondem a necessidades primárias e têm a ver com o instinto de sobrevivência. Há pessoas que, com esta mesma intensidade, aspiram pela justiça e buscam-na com um desejo assim forte. Jesus diz que elas serão saciadas, porque a justiça, mais cedo ou mais tarde, chega e nós podemos colaborar para o tornar possível, embora nem sempre vejamos os resultados deste compromisso.

78. Mas a justiça, que Jesus propõe, não é como a que o mundo procura, uma justiça muitas vezes manchada por interesses mesquinhos, manipulada para um lado ou para outro. A realidade mostra-nos como é fácil entrar nas súcias da corrupção, fazer parte dessa política diária do «dou para que me deem», onde tudo é negócio. E quantas pessoas sofrem por causa das injustiças, quantos ficam assistindo, impotentes, como outros se revezam para repartir o bolo da vida. Alguns desistem de lutar pela verdadeira justiça, e optam por subir para o carro do vencedor. Isto não tem nada a ver com a fome e sede de justiça que Jesus louva.

79. Esta justiça começa por se tornar realidade na vida de cada um, sendo justo nas próprias decisões, e depois manifesta-se na busca da justiça para os pobres e vulneráveis. É verdade que a palavra «justiça» pode ser sinónimo de fidelidade à vontade de Deus com toda a nossa vida, mas, se lhe dermos um sentido muito geral, esquecemo-nos que se manifesta especialmente na justiça com os inermes: «procurai o que é justo, socorrei os oprimidos, fazei justiça aos órfãos, defendei as viúvas» (Is 1, 17).

Buscar a justiça com fome e sede: isto é santidade.

«Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia»

80. A misericórdia tem dois aspetos: é dar, ajudar, servir os outros, mas também perdoar, compreender. Mateus resume-o numa regra de ouro: «o que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles» (7, 12). O Catecismo lembra-nos que esta lei se deve aplicar «a todos os casos»,[71] especialmente quando alguém «se vê confrontado com situações que tornam o juízo moral menos seguro e a decisão difícil».[72]

81. Dar e perdoar é tentar reproduzir na nossa vida um pequeno reflexo da perfeição de Deus, que dá e perdoa superabundantemente. Por esta razão, no Evangelho de Lucas, já não encontramos «sede perfeitos» (Mt 5, 48), mas «sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Dai e ser-vos-á dado» (6, 36-38). E depois Lucas acrescenta algo que não deveríamos transcurar: «a medida que usardes com os outros será usada convosco» (6, 38). A medida que usarmos para compreender e perdoar será aplicada a nós para nos perdoar. A medida que aplicarmos para dar, será aplicada a nós no céu para nos recompensar. Não nos convém esquecê-lo.

82. Jesus não diz «felizes os que planeiam vingança», mas chama felizes aqueles que perdoam e o fazem «setenta vezes sete» (Mt 18, 22). É necessário pensar que todos nós somos uma multidão de perdoados. Todos nós fomos olhados com compaixão divina. Se nos aproximarmos sinceramente do Senhor e ouvirmos com atenção, possivelmente uma vez ou outra escutaremos esta repreensão: «não devias também ter piedade do teu companheiro como Eu tive de ti?» (Mt 18, 33).

Olhar e agir com misericórdia: isto é santidade.

«Felizes os puros de coração, porque verão a Deus»

83. Esta bem-aventurança diz respeito a quem tem um coração simples, puro, sem imundície, pois um coração que sabe amar não deixa entrar na sua vida algo que atente contra esse amor, algo que o enfraqueça ou coloque em risco. Na Bíblia, o coração significa as nossas verdadeiras intenções, o que realmente buscamos e desejamos, para além do que aparentamos: «O homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração» (1 Sam 16, 7). Ele procura falar-nos ao coração (cf. Os 2, 16) e nele deseja gravar a sua Lei (cf. Jer 31, 33). Em última análise, quer dar-nos um coração novo (cf. Ez 36, 26).

84. «Vela com todo o cuidado sobre o teu coração» (Prv 4, 23). Nada de manchado pela falsidade tem valor real para o Senhor. Ele «foge da duplicidade, afasta-Se dos pensamentos insensatos» (Sab 1, 5). O Pai, que «vê no oculto» (Mt 6, 6), reconhece o que não é limpo, ou seja, o que não é sincero, mas só casca e aparência; e de igual modo também o Filho sabe o que há em cada ser humano (cf. Jo 2, 25).

85. É verdade que não há amor sem obras de amor, mas esta bem-aventurança lembra-nos que o Senhor espera uma dedicação ao irmão que brote do coração, pois «ainda que eu distribua todos os meus bens e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada me vale» (1 Cor 13, 3). Também vemos, no Evangelho de Mateus, que é «o que provém do coração (…) que torna o homem impuro» (15, 18), porque de lá procedem os homicídios, os roubos, os falsos testemunhos (cf. 15, 19). Nas intenções do coração, têm origem os desejos e as decisões mais profundas que efetivamente nos movem.

86. Quando o coração ama a Deus e ao próximo (cf. Mt 22, 36-40), quando isto é a sua verdadeira intenção e não palavras vazias, então esse coração é puro e pode ver a Deus. São Paulo lembra, em pleno hino da caridade, que «vemos como num espelho, de maneira confusa» (1 Cor 13, 12), mas, à medida que reinar verdadeiramente o amor, tornar-nos-emos capazes de ver «face a face» (1 Cor 13, 12). Jesus promete que as pessoas de coração puro «verão a Deus».

Manter o coração limpo de tudo o que mancha o amor: isto é santidade.

«Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus»

87. Esta bem-aventurança faz-nos pensar nas numerosas situações de guerra que perduram. Da nossa parte, é muito comum sermos causa de conflitos ou, pelo menos, de incompreensões. Por exemplo, quando ouço qualquer coisa sobre alguém e vou ter com outro e lho digo; e até faço uma segunda versão um pouco mais ampla e espalho-a. E, se o dano que consigo fazer é maior, até parece que me causa maior satisfação. O mundo das murmurações, feito por pessoas que se dedicam a criticar e destruir, não constrói a paz. Pelo contrário, tais pessoas são inimigas da paz e, de modo nenhum, bem-aventuradas.[73]

88. Os pacíficos são fonte de paz, constroem paz e amizade social. Àqueles que cuidam de semear a paz por todo o lado, Jesus faz-lhes uma promessa maravilhosa: «serão chamados filhos de Deus» (Mt 5, 9). Aos discípulos, pedia-lhes que, ao chegar a uma casa, dissessem: «a paz esteja nesta casa!» (Lc 10, 5). A Palavra de Deus exorta cada crente a procurar, juntamente «com todos», a paz (cf. 2 Tim 2, 22), pois «é com a paz que uma colheita de justiça é semeada pelos obreiros da paz» (Tg 3, 18). E na nossa comunidade, se alguma vez tivermos dúvidas acerca do que se deve fazer, «procuremos aquilo que leva à paz» (Rm 14, 19), porque a unidade é superior ao conflito.[74]

89. Não é fácil construir esta paz evangélica que não exclui ninguém; antes, integra mesmo aqueles que são um pouco estranhos, as pessoas difíceis e complicadas, os que reclamam atenção, aqueles que são diferentes, aqueles que são muito fustigados pela vida, aqueles que cultivam outros interesses. É difícil, requerendo uma grande abertura da mente e do coração, uma vez que não se trata de «um consenso de escritório ou uma paz efémera para uma minoria feliz»[75] nem de «um projeto de poucos para poucos».[76] Também não pretende ignorar ou dissimular os conflitos, mas «aceitar suportar o conflito, resolvê-lo e transformá-lo no elo de ligação de um novo processo».[77] Trata-se de ser artesãos da paz, porque construir a paz é uma arte que requer serenidade, criatividade, sensibilidade e destreza.

Semear a paz ao nosso redor: isto é santidade.

«Felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu»

90. O próprio Jesus sublinha que este caminho vai contracorrente, a ponto de nos transformar em pessoas que questionam a sociedade com a sua vida, pessoas que incomodam. Jesus lembra as inúmeras pessoas que foram, e são, perseguidas simplesmente por ter lutado pela justiça, ter vivido os seus compromissos com Deus e com os outros. Se não queremos afundar numa obscura mediocridade, não pretendamos uma vida cómoda, porque, «quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la» (Mt 16, 25).

91. Para viver o Evangelho, não podemos esperar que tudo à nossa volta seja favorável, porque muitas vezes as ambições de poder e os interesses mundanos jogam contra nós. São João Paulo II declarava «alienada a sociedade que, nas suas formas de organização social, de produção e de consumo, torna mais difícil a realização [do] dom [de si mesmo] e a constituição [da] solidariedade inter-humana».[78] Numa tal sociedade alienada, enredada numa trama política, mediática, económica, cultural e mesmo religiosa, que estorva o autêntico desenvolvimento humano e social, torna-se difícil viver as bem-aventuranças, podendo até a sua vivência ser mal vista, suspeita, ridicularizada.

92. A cruz, especialmente as fadigas e os sofrimentos que suportamos para viver o mandamento do amor e o caminho da justiça, é fonte de amadurecimento e santificação. Lembremo-nos disto: quando o Novo Testamento fala dos sofrimentos que é preciso suportar pelo Evangelho, refere-se precisamente às perseguições (cf. At 5, 41; Flp 1, 29; Col 1, 24; 2 Tm 1, 12; 1 Ped 2, 20; 4, 14-16; Ap 2, 10).

93. Fala-se, porém, das perseguições inevitáveis, não daquelas que nós próprios podemos provocar com um modo errado de tratar os outros. Um santo não é uma pessoa excêntrica, distante, que se torna insuportável pela sua vaidade, negativismo e ressentimento. Não eram assim os Apóstolos de Cristo. O livro dos Atos refere, com insistência, que eles gozavam da simpatia «de todo o povo» (2, 47; cf. 4, 21.33; 5, 13), enquanto algumas autoridades os assediavam e perseguiam (cf. 4, 1- 3; 5, 17-18).

94. As perseguições não são uma realidade do passado, porque hoje também as sofremos quer de forma cruenta, como tantos mártires contemporâneos, quer duma maneira mais subtil, através de calúnias e falsidades. Jesus diz que haverá felicidade, quando, «mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa» (Mt 5, 11). Outras vezes, trata-se de zombarias que tentam desfigurar a nossa fé e fazer-nos passar por pessoas ridículas.

Abraçar diariamente o caminho do Evangelho mesmo que nos acarrete problemas: isto é santidade.

A grande regra de comportamento

95. No capítulo 25 do Evangelho de Mateus (vv. 31-46), Jesus volta a deter-se numa destas bem-aventuranças: a que declara felizes os misericordiosos. Se andamos à procura da santidade que agrada a Deus, neste texto encontramos precisamente uma regra de comportamento com base na qual seremos julgados: «Tive fome e destes-Me de comer, tive sede e destes-Me de beber, era peregrino e recolhestes-Me, estava nu e destes-Me que vestir, adoeci e visitastes-Me, estive na prisão e fostes ter comigo» (25, 35-36).

Por fidelidade ao Mestre

96. Deste modo, ser santo não significa revirar os olhos num suposto êxtase. Dizia São João Paulo II que, «se verdadeiramente partimos da contemplação de Cristo, devemos saber vê-Lo sobretudo no rosto daqueles com quem Ele mesmo Se quis identificar».[79] O texto de Mateus 25, 35-36 «não é um mero convite à caridade, mas uma página de cristologia que projeta um feixe de luz sobre o mistério de Cristo».[80] Neste apelo a reconhecê-Lo nos pobres e atribulados, revela-se o próprio coração de Cristo, os seus sentimentos e as suas opções mais profundas, com os quais se procura configurar todo o santo.

97. Perante a força destas solicitações de Jesus, é meu dever pedir aos cristãos que as aceitem e recebam com sincera abertura, sine glossa, isto é, sem comentários, especulações e desculpas que lhes tirem força. O Senhor deixou-nos bem claro que a santidade não se pode compreender nem viver prescindindo destas suas exigências, porque a misericórdia é o «coração pulsante do Evangelho».[81]

98. Quando encontro uma pessoa a dormir ao relento, numa noite fria, posso sentir que este vulto seja um imprevisto que me detém, um delinquente ocioso, um obstáculo no meu caminho, um aguilhão molesto para a minha consciência, um problema que os políticos devem resolver e talvez até um monte de lixo que suja o espaço público. Ou então posso reagir a partir da fé e da caridade e reconhecer nele um ser humano com a mesma dignidade que eu, uma criatura infinitamente amada pelo Pai, uma imagem de Deus, um irmão redimido por Jesus Cristo. Isto é ser cristão! Ou poder-se-á porventura entender a santidade prescindindo deste reconhecimento vivo da dignidade de todo o ser humano?[82]

99. Para os cristãos, isto supõe uma saudável e permanente insatisfação. Embora dar alívio a uma única pessoa já justificasse todos os nossos esforços, para nós isso não é suficiente. Com clareza o afirmaram os Bispos do Canadá ao mostrar como nos ensinamentos bíblicos sobre o Jubileu, por exemplo, não se trata apenas de fazer algumas ações boas, mas de procurar uma mudança social: «para que fossem libertadas também as gerações futuras, o objetivo proposto era claramente o restabelecimento de sistemas sociais e económicos justos, a fim de que não pudesse haver mais exclusão».[83]

As ideologias que mutilam o coração do Evangelho

100. Às vezes, infelizmente, as ideologias levam-nos a dois erros nocivos. Por um lado, o erro dos cristãos que separam estas exigências do Evangelho do seu relacionamento pessoal com o Senhor, da união interior com Ele, da graça. Assim transforma-se o cristianismo numa espécie de ONG, privando-o daquela espiritualidade irradiante que, tão bem, viveram e manifestaram São Francisco de Assis, São Vicente de Paulo, Santa Teresa de Calcutá e muitos outros. A estes grandes santos, nem a oração, nem o amor de Deus, nem a leitura do Evangelho diminuíram a paixão e a eficácia da sua dedicação ao próximo; antes pelo contrário…

101. Mas é nocivo e ideológico também o erro das pessoas que vivem suspeitando do compromisso social dos outros, considerando-o algo de superficial, mundano, secularizado, imanentista, comunista, populista; ou então relativizam-no como se houvesse outras coisas mais importantes, como se interessasse apenas uma determinada ética ou um arrazoado que eles defendem. A defesa do inocente nascituro, por exemplo, deve ser clara, firme e apaixonada, porque neste caso está em jogo a dignidade da vida humana, sempre sagrada, e exige-o o amor por toda a pessoa, independentemente do seu desenvolvimento. Mas igualmente sagrada é a vida dos pobres que já nasceram e se debatem na miséria, no abandono, na exclusão, no tráfico de pessoas, na eutanásia encoberta de doentes e idosos privados de cuidados, nas novas formas de escravatura, e em todas as formas de descarte.[84] Não podemos propor-nos um ideal de santidade que ignore a injustiça deste mundo, onde alguns festejam, gastam folgadamente e reduzem a sua vida às novidades do consumo, ao mesmo tempo que outros se limitam a olhar de fora enquanto a sua vida passa e termina miseravelmente.

102. Muitas vezes ouve-se dizer que, face ao relativismo e aos limites do mundo atual, seria um tema marginal, por exemplo, a situação dos migrantes. Alguns católicos afirmam que é um tema secundário relativamente aos temas «sérios» da bioética. Que fale assim um político preocupado com os seus sucessos, talvez se possa chegar a compreender; mas não um cristão, cuja única atitude condigna é colocar-se na pele do irmão que arrisca a vida para dar um futuro aos seus filhos. Poderemos nós reconhecer que é precisamente isto o que nos exige Jesus quando diz que a Ele mesmo recebemos em cada forasteiro (cf. Mt 25, 35)? São Bento assumira-o sem reservas e, embora isto pudesse «complicar» a vida dos monges, estabeleceu que todos os hóspedes que se apresentassem no mosteiro fossem acolhidos «como Cristo»,[85] manifestando-o mesmo com gestos de adoração,[86] e que os pobres e peregrinos fossem tratados «com o máximo cuidado e solicitude».[87]

103. Algo de semelhante propõe o Antigo Testamento, quando diz: «não usarás de violência contra o estrangeiro residente nem o oprimirás, porque foste estrangeiro residente na terra do Egito» (Ex 22, 20). «O estrangeiro que reside convosco será tratado como um dos vossos compatriotas e amá-lo-ás como a ti mesmo, porque fostes estrangeiros na terra do Egito» (Lv 19, 34). Por isso, não se trata da invenção de um Papa nem dum delírio passageiro. Também nós, no contexto atual, somos chamados a viver o caminho de iluminação espiritual que nos apresentava o profeta Isaías quando, interrogando-se sobre o que agrada a Deus, respondia: é «repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão. Então, a tua luz surgirá como a aurora» (58, 7-8).

O culto que mais Lhe agrada

104. Poder-se-ia pensar que damos glória a Deus só com o culto e a oração, ou apenas observando algumas normas éticas (é verdade que o primado pertence à relação com Deus), mas esquecemos que o critério de avaliação da nossa vida é, antes de mais nada, o que fizemos pelos outros. A oração é preciosa, se alimenta uma doação diária de amor. O nosso culto agrada a Deus, quando levamos lá os propósitos de viver com generosidade e quando deixamos que o dom lá recebido se manifeste na dedicação aos irmãos.

105. Pela mesma razão, o melhor modo para discernir se o nosso caminho de oração é autêntico será ver em que medida a nossa vida se vai transformando à luz da misericórdia. Com efeito, «a misericórdia não é apenas o agir do Pai, mas torna-se o critério para individuar quem são os seus verdadeiros filhos».[88] É «a arquitrave que suporta avida da Igreja».[89] Quero assinalar mais uma vez que, embora a misericórdia não exclua a justiça e a verdade, «antes de tudo, temos de dizer que a misericórdia é a plenitude da justiça e a manifestação mais luminosa da verdade de Deus».[90] A misericórdia «é a chave do Céu».[91]

106. Não posso deixar de lembrar a questão que se colocava São Tomás de Aquino ao interrogar-se quais são as nossas ações maiores, quais são as obras exteriores que manifestam melhor o nosso amor a Deus. Responde sem hesitar que, mais do que os atos de culto, são as obras de misericórdia para com o próximo:[92] «não praticamos o culto a Deus com sacrifícios e com ofertas exteriores para proveito d’Ele, mas para benefício nosso e do próximo: de facto Ele não precisa dos nossos sacrifícios, mas quer que Lhos ofereçamos para nossa devoção e para utilidade do próximo. Por isso a misericórdia, pela qual socorremos as carências alheias, ao favorecer mais diretamente a utilidade do próximo, é o sacrifício que mais Lhe agrada».[93]

107. Quem deseja verdadeiramente dar glória a Deus com a sua vida, quem realmente se quer santificar para que a sua existência glorifique o Santo, é chamado a obstinar-se, gastar-se e cansar-se procurando viver as obras de misericórdia. Muito bem o entendera Santa Teresa de Calcutá: «sim, tenho muitas fraquezas humanas, muitas misérias humanas. (…) Mas Ele abaixa-Se e serve-Se de nós, de ti e de mim, para sermos o seu amor e a sua compaixão no mundo, apesar dos nossos pecados, apesar das nossas misérias e defeitos. Ele depende de nós para amar o mundo e demonstrar-lhe o muito que o ama. Se nos ocuparmos demasiado de nós mesmos, não teremos tempo para os outros».[94]

108. O consumismo hedonista pode-nos enganar, porque, na obsessão de divertir-nos, acabamos por estar excessivamente concentrados em nós mesmos, nos nossos direitos e na exacerbação de ter tempo livre para gozar a vida. Será difícil que nos comprometamos e dediquemos energias a dar uma mão a quem está mal, se não cultivarmos uma certa austeridade, se não lutarmos contra esta febre que a sociedade de consumo nos impõe para nos vender coisas, acabando por nos transformar em pobres insatisfeitos que tudo querem ter e provar. O próprio consumo de informação superficial e as formas de comunicação rápida e virtual podem ser um fator de estonteamento que ocupa todo o nosso tempo e nos afasta da carne sofredora dos irmãos. No meio deste turbilhão atual, volta a ressoar o Evangelho para nos oferecer uma vida diferente, mais saudável e mais feliz.

109. A força do testemunho dos santos consiste em viver as bem-aventuranças e a regra de comportamento do juízo final. São poucas palavras, simples, mas práticas e válidas para todos, porque o cristianismo está feito principalmente para ser praticado e, se é também objeto de reflexão, isso só tem valor quando nos ajuda a viver o Evangelho na vida diária. Recomendo vivamente que se leia, com frequência, estes grandes textos bíblicos, que sejam recordados, que se reze com eles, que se procure encarná-los. Far-nos-ão bem, tornar-nos-ão genuinamente felizes.

Capítulo IV

ALGUMAS CARATERÍSTICAS DA SANTIDADE NO MUNDO ATUAL

110. Neste grande quadro da santidade que as bem-aventuranças e Mateus 25, 31-46 nos propõem, gostaria de recolher algumas caraterísticas ou traços espirituais que, a meu ver, são indispensáveis para compreender o estilo de vida a que o Senhor nos chama. Não me deterei a explicar os meios de santificação que já conhecemos: os diferentes métodos de oração, os sacramentos inestimáveis da Eucaristia e da Reconciliação, a oferta de sacrifícios, as várias formas de devoção, a direção espiritual e muitos outros. Limitar-me-ei a referir alguns aspetos da chamada à santidade, que tenham – assim o espero – uma ressonância especial.

111. Estas caraterísticas que quero evidenciar não são todas as que podem constituir um modelo de santidade, mas são cinco grandes manifestações do amor a Deus e ao próximo, que considero particularmente importantes devido a alguns riscos e limites da cultura de hoje. Nesta se manifestam: a ansiedade nervosa e violenta que nos dispersa e enfraquece; o negativismo e a tristeza; a acédia cómoda, consumista e egoísta; o individualismo e tantas formas de falsa espiritualidade sem encontro com Deus que reinam no mercado religioso atual.

Suportação, paciência e mansidão

112. A primeira destas grandes caraterísticas é permanecer centrado, firme em Deus que ama e sustenta. A partir desta firmeza interior, é possível aguentar, suportar as contrariedades, as vicissitudes da vida e também as agressões dos outros, as suas infidelidades e defeitos: «se Deus está por nós, quem pode estar contra nós?» (Rm 8, 31). Nisto está a fonte da paz que se expressa nas atitudes dum santo. Com base em tal solidez interior, o testemunho de santidade, no nosso mundo acelerado, volúvel e agressivo, é feito de paciência e constância no bem. É a fidelidade (pistis) do amor, pois quem se apoia em Deus também pode ser fiel (pistós) aos irmãos, não os abandonando nos momentos difíceis, nem se deixando levar pela própria ansiedade, mas mantendo-se ao lado dos outros mesmo quando isso não lhe proporcione qualquer satisfação imediata.

113. São Paulo convidava os cristãos de Roma a não pagar a ninguém o mal com o mal (cf. Rm 12, 17), a não fazer-se justiça por conta própria (cf. 12, 19), nem a deixar-se vencer pelo mal, mas vencer o mal com o bem (cf. 12, 21). Esta atitude não é sinal de fraqueza, mas da verdadeira força, porque o próprio Deus «é paciente e grande em poder» (Na 1, 3). Assim nos adverte a Palavra de Deus: «toda a espécie de azedume, raiva, ira, gritaria e injúria desapareça de vós, juntamente com toda a maldade» (Ef 4, 31).

114. É preciso lutar e estar atentos às nossas inclinações agressivas e egocêntricas, para não deixar que ganhem raízes: «se vos irardes, não pequeis; que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento» (Ef 4, 26). Quando há circunstâncias que nos acabrunham, sempre podemos recorrer à âncora da súplica, que nos leva a ficar de novo nas mãos de Deus e junto da fonte da paz: «por nada vos deixeis inquietar; pelo contrário: em tudo, pela oração e pela prece, apresentai os vossos pedidos a Deus em ações de graças. Então, a paz de Deus, que ultrapassa toda a inteligência, guardará os vossos corações» (Flp 4, 6-7).

115. Pode acontecer também que os cristãos façam parte de redes de violência verbal através da internet e vários fóruns ou espaços de intercâmbio digital. Mesmo nos media católicos, é possível ultrapassar os limites, tolerando-se a difamação e a calúnia e parecendo excluir qualquer ética e respeito pela fama alheia. Gera-se, assim, um dualismo perigoso, porque, nestas redes, dizem-se coisas que não seriam toleráveis na vida pública e procura-se compensar as próprias insatisfações descarregando furiosamente os desejos de vingança. É impressionante como, às vezes, pretendendo defender outros mandamentos, se ignora completamente o oitavo: «não levantar falsos testemunhos» e destrói-se sem piedade a imagem alheia. Nisto se manifesta como a língua descontrolada «é um mundo de iniquidade; (…) e, inflamada pelo Inferno, incendeia o curso da nossa existência» (Tg 3, 6).

116. A firmeza interior, que é obra da graça, impede de nos deixarmos arrastar pela violência que invade a vida social, porque a graça aplaca a vaidade e torna possível a mansidão do coração. O santo não gasta as suas energias a lamentar-se dos erros alheios, é capaz de guardar silêncio sobre os defeitos dos seus irmãos e evita a violência verbal que destrói e maltrata, porque não se julga digno de ser duro com os outros, mas considera-os superiores a si próprio (cf. Flp 2, 3).

117. Não nos faz bem olhar com altivez, assumir o papel de juízes sem piedade, considerar os outros como indignos e pretender continuamente dar lições. Esta é uma forma subtil de violência.[95] São João da Cruz propunha outra coisa: «mostra-te sempre mais propenso a ser ensinado por todos do que a querer ensinar quem é inferior a todos».[96] E acrescentava um conselho para afastar o demónio: «alegrando-te com o bem dos outros como se fosse teu e procurando sinceramente que estes sejam preferidos a ti em todas as coisas, assim vencerás o mal com o bem, afastarás o demónio para longe e alegrarás o coração. Procura exercitá-lo sobretudo com aqueles que te são menos simpáticos. E sabe que, se não te exercitares neste campo, não chegarás à verdadeira caridade nem tirarás proveito dela».[97]

118. A humildade só se pode enraizar no coração através das humilhações. Sem elas, não há humildade nem santidade. Se não fores capaz de suportar e oferecer a Deus algumas humilhações, não és humilde nem estás no caminho da santidade. A santidade que Deus dá à sua Igreja, vem através da humilhação do seu Filho: este é o caminho. A humilhação faz-te semelhante a Jesus, é parte ineludível da imitação de Jesus: «Cristo padeceu por vós, deixando-vos o exemplo, para que sigais os seus passos» (1 Ped 2, 21). Ele, por sua vez, manifesta a humildade do Pai, que Se humilha para caminhar com o seu povo, que suporta as suas infidelidades e murmurações (cf. Ex 34, 6-9; Sab 11, 23 – 12, 2; Lc 6, 36). Por este motivo os Apóstolos, depois da humilhação, estavam «cheios de alegria, por terem sido considerados dignos de sofrer vexames por causa do Nome de Jesus» (At 5, 41).

119. Não me refiro apenas às situações cruentas de martírio, mas às humilhações diárias daqueles que calam para salvar a sua família, ou evitam falar bem de si mesmos e preferem louvar os outros em vez de se gloriar, escolhem as tarefas menos vistosas e às vezes até preferem suportar algo de injusto para o oferecer ao Senhor: «se, fazendo o bem, sofreis com paciência, isso é uma coisa meritória diante de Deus» (1 Ped 2, 20). Não é caminhar com a cabeça inclinada, falar pouco ou escapar da sociedade. Às vezes uma pessoa, precisamente porque está liberta do egocentrismo, pode ter a coragem de discutir amavelmente, reclamar justiça ou defender os fracos diante dos poderosos, mesmo que isso traga consequências negativas para a sua imagem.

120. Não digo que a humilhação seja algo de agradável, porque isso seria masoquismo, mas que se trata dum caminho para imitar Jesus e crescer na união com Ele. Isto não é compreensível no plano natural, e o mundo ridiculariza semelhante proposta. É uma graça que precisamos de implorar: «Senhor, quando chegarem as humilhações, ajuda-me a sentir que estou seguindo atrás de Ti, no teu caminho».

121. Esta atitude pressupõe um coração pacificado por Cristo, liberto daquela agressividade que brota dum «ego» demasiado grande. A própria pacificação, que a graça realiza, permite-nos manter uma segurança interior e aguentar, perseverar no bem «ainda que atravesse vales tenebrosos» (Sal 23/22, 4) ou «ainda que um exército me cerque» (Sal 27/26, 3). Firmes no Senhor, a Rocha, podemos cantar: «deito-me em paz e logo adormeço, porque só Tu, Senhor, me fazes viver em segurança» (Sal 4, 9). Em suma, Cristo «é a nossa paz» (Ef 2,14) e veio «dirigir os nossos passos no caminho da paz» (Lc 1, 79). Ele fez saber a Santa Faustina Kowalska: «a humanidade não encontrará paz, enquanto não se dirigir com confiança à Minha Misericórdia».[98] Por isso, não caiamos na tentação de procurar a segurança interior no sucesso, nos prazeres vazios, na riqueza, no domínio sobre os outros ou na imagem social: «Dou-vos a minha paz. [Mas] não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou» (Jo 14, 27).

Alegria e sentido de humor

122. O que ficou dito até agora não implica um espírito retraído, tristonho, amargo, melancólico ou um perfil sumido, sem energia. O santo é capaz de viver com alegria e sentido de humor. Sem perder o realismo, ilumina os outros com um espírito positivo e rico de esperança. Ser cristão é «alegria no Espírito Santo» (Rm 14, 17), porque, «do amor de caridade, segue-se necessariamente a alegria. Pois quem ama sempre se alegra na união com o amado. (…) Daí que a consequência da caridade seja a alegria».[99] Recebemos a beleza da sua Palavra e abraçamo-la «em plena tribulação, com a alegria do Espírito Santo» (1 Ts 1, 6). Se deixarmos que o Senhor nos arranque da nossa concha e mude a nossa vida, então poderemos realizar o que pedia São Paulo: «Alegrai-vos sempre no Senhor! De novo o digo: alegrai-vos!» (Flp 4, 4).

123. Os profetas anunciavam o tempo de Jesus, que estamos a viver, como uma revelação da alegria: «exultai de alegria» (Is 12, 6). «Sobe a um alto monte, arauto de Sião. Grita com voz forte, arauto de Jerusalém» (Is 40, 9). «Exulta de alegria, ó terra! Rompei em exclamações, ó montes! Na verdade, o Senhor consola o seu povo e Se compadece dos desamparados» (Is 49, 13). «Exulta de alegria, filha de Sião! Solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém! Eis que o teu Rei vem a ti; Ele é justo e vitorioso» (Zac 9, 9). E não esqueçamos a exortação de Neemias: «não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é que é a vossa força» (8, 10).

124. Maria, que soube descobrir a novidade trazida por Jesus, cantava: «o meu espírito se alegra» (Lc 1, 47) e o próprio Jesus «estremeceu de alegria sob a ação do Espírito Santo» (Lc 10, 21). Quando Ele passava, «a multidão alegrava-se» (Lc 13, 17). Depois da sua ressurreição, onde chegavam os discípulos, havia grande alegria (cf. At 8, 8). Jesus assegurou-nos: «vós haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza há de converter-se em alegria! (…) Eu hei de ver-vos de novo! Então o vosso coração há de alegrar-se e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria» (Jo 16, 20.22). «Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa» (Jo 15, 11).

125. Existem momentos difíceis, tempos de cruz, mas nada pode destruir a alegria sobrenatural, que «se adapta e transforma, mas sempre permanece pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados».[100] É uma segurança interior, uma serenidade cheia de esperança que proporciona uma satisfação espiritual incompreensível à luz dos critérios mundanos.

126. Normalmente a alegria cristã é acompanhada pelo sentido do humor, tão saliente, por exemplo, em São Tomás Moro, São Vicente de Paulo, ou São Filipe Néri. O mau humor não é um sinal de santidade: «lança fora do teu coração a tristeza» (Qo 11, 10). É tanto o que recebemos do Senhor «para nosso usufruto» (1 Tm 6, 17), que às vezes a tristeza tem a ver com a ingratidão, com estar tão fechados em nós mesmos que nos tornamos incapazes de reconhecer os dons de Deus.[101]

127. Assim nos convida o seu amor paterno: «meu filho, se tens com quê, trata-te bem (…). Não te prives da felicidade presente» (Sir 14, 11.14). Quer-nos positivos, agradecidos e não demasiado complicados: «no dia da felicidade, sê alegre. (…) Deus criou os homens retos, eles, porém, procuraram maquinações sem fim» (Qo 7, 14.29). Em cada situação, devemos manter um espírito flexível, fazendo como São Paulo: aprendi a adaptar-me «às situações em que me encontre» (Flp 4, 11). Isto mesmo vivia São Francisco de Assis, capaz de se comover de gratidão perante um pedaço de pão duro, ou de louvar, feliz, a Deus só pela brisa que acariciava o seu rosto.

128. Não estou a falar da alegria consumista e individualista muito presente nalgumas experiências culturais de hoje. Com efeito, o consumismo só atravanca o coração; pode proporcionar prazeres ocasionais e passageiros, mas não alegria. Refiro-me, antes, àquela alegria que se vive em comunhão, que se partilha e comunica, porque «a felicidade está mais em dar do que em receber» (At 20, 35) e «Deus ama quem dá com alegria» (2 Cor 9, 7). O amor fraterno multiplica a nossa capacidade de alegria, porque nos torna capazes de rejubilar com o bem dos outros: «alegrai-vos com os que se alegram» (Rm 12, 15). «Alegramo-nos quando somos fracos e vós sois fortes» (2 Cor 13, 9). Ao contrário, «concentrando-nos sobretudo nas nossas próprias necessidades, condenamo-nos a viver com pouca alegria».[102]

Ousadia e ardor

129. Ao mesmo tempo, a santidade é parresia: é ousadia, é impulso evangelizador que deixa uma marca neste mundo. Para isso ser possível, o próprio Jesus vem ao nosso encontro, repetindo-nos com serenidade e firmeza: «não temais!» (Mc 6, 50). «Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos» (Mt 28, 20). Estas palavras permitem-nos partir e servir com aquela atitude cheia de coragem que o Espírito Santo suscitava nos Apóstolos, impelindo-os a anunciar Jesus Cristo. Ousadia, entusiasmo, falar com liberdade, ardor apostólico: tudo isto está contido no termo parresia, uma palavra com que a Bíblia expressa também a liberdade duma existência aberta, porque está disponível para Deus e para os irmãos (cf. At 4, 29; 9, 28; 28, 31; 2 Cor 3, 12; Ef 3, 12; Heb 3, 6; 10, 19).

130. O Beato Paulo VI mencionava, entre os obstáculos da evangelização, precisamente a carência de parresia, «a falta de ardor, tanto mais grave [porque] provém de dentro».[103] Quantas vezes nos sentimos instigados a deter-nos na comodidade da margem! Mas o Senhor chama-nos a navegar pelo mar dentro e lançar as redes em águas mais profundas (cf. Lc 5, 4). Convida-nos a gastar a nossa vida ao seu serviço. Agarrados a Ele, temos a coragem de colocar todos os nossos carismas ao serviço dos outros. Oxalá pudéssemos sentir-nos impelidos pelo seu amor (cf. 2 Cor 5, 14) e dizer com São Paulo: «ai de mim se eu não evangelizar!» (1 Cor 9, 16).

131. Olhemos para Jesus! A sua entranhada compaixão não era algo que O ensimesmava, não era uma compaixão paralisadora, tímida ou envergonhada, como sucede muitas vezes connosco. Era exatamente o contrário: era uma compaixão que O impelia fortemente a sair de Si mesmo a fim de anunciar, mandar em missão, enviar a curar e libertar. Reconheçamos a nossa fragilidade, mas deixemos que Jesus a tome nas suas mãos e nos lance para a missão. Somos frágeis, mas portadores dum tesouro que nos faz grandes e pode tornar melhores e mais felizes aqueles que o recebem. A ousadia e a coragem apostólica são constitutivas da missão.

132. A parresia é selo do Espírito, testemunho da autenticidade do anúncio. É uma certeza feliz que nos leva a gloriar-nos do Evangelho que anunciamos, é confiança inquebrantável na fidelidade da Testemunha fiel, que nos dá a certeza de que nada «poderá separar-nos do amor de Deus» (Rm 8, 39).

133. Precisamos do impulso do Espírito para não ser paralisados pelo medo e o calculismo, para não nos habituarmos a caminhar só dentro de confins seguros. Lembremo-nos disto: o que fica fechado acaba cheirando a mofo e criando um ambiente doentio. Quando os apóstolos sentiram a tentação de deixar-se paralisar pelos medos e perigos, juntaram-se a rezar pedindo parresia: «agora, Senhor, tem em conta as suas ameaças e concede aos teus servos poderem anunciar a tua palavra com toda a ousadia» (At 4, 29). E a resposta foi esta: «tinham acabado de orar, quando o lugar em que se encontravam reunidos estremeceu, e todos foram cheios do Espírito Santo, começando a anunciar a palavra de Deus com ousadia» (At 4, 31).

134. À semelhança do profeta Jonas, sempre permanece latente em nós a tentação de fugir para um lugar seguro, que pode ter muitos nomes: individualismo, espiritualismo, confinamento em mundos pequenos, dependência, instalação, repetição de esquemas preestabelecidos, dogmatismo, nostalgia, pessimismo, refúgio nas normas. Talvez nos sintamos relutantes em deixar um território que nos era conhecido e controlável. Todavia as dificuldades podem ser como a tempestade, a baleia, o verme que fez secar o rícino de Jonas, ou o vento e o sol que lhe dardejaram a cabeça; e, tal como para ele, podem ter a função de nos fazer voltar para este Deus que é ternura e nos quer levar a uma itinerância constante e renovadora.

135. Deus é sempre novidade, que nos impele a partir sem cessar e a mover-nos para ir mais além do conhecido, rumo às periferias e aos confins. Leva-nos aonde se encontra a humanidade mais ferida e aonde os seres humanos, sob a aparência da superficialidade e do conformismo, continuam à procura de resposta para a questão do sentido da vida. Deus não tem medo! Não tem medo! Ultrapassa sempre os nossos esquemas e não Lhe metem medo as periferias. Ele próprio Se fez periferia (cf. Flp 2, 6-8; Jo 1, 14). Por isso, se ousarmos ir às periferias, lá O encontraremos: Ele já estará lá. Jesus antecipa-Se-nos no coração daquele irmão, na sua carne ferida, na sua vida oprimida, na sua alma sombria. Ele já está lá.

136. É verdade que precisamos de abrir a porta a Jesus Cristo, porque Ele bate e chama (cf. Ap 3, 20). Mas, pensando no ar irrespirável da nossa autorreferencialidade, pergunto-me se às vezes Jesus não estará já dentro de nós, batendo para que O deixemos sair. No Evangelho, vemos como Jesus «ia de cidade em cidade, de aldeia em aldeia proclamando e anunciando a Boa-Nova do Reino de Deus» (Lc 8, 1). Mesmo depois da ressurreição, quando os discípulos partiram para toda a parte, «o Senhor cooperava com eles» (Mc 16, 20). Esta é a dinâmica que brota do verdadeiro encontro.

137. A habituação seduz-nos e diz-nos que não tem sentido procurar mudar as coisas, que nada podemos fazer perante tal situação, que sempre foi assim e todavia sobrevivemos. Pela habituação, já não enfrentamos o mal e permitimos que as coisas «continuem como estão» ou como alguns decidiram que estejam. Deixemos então que o Senhor venha despertar-nos, dar-nos um abanão na nossa sonolência, libertar-nos da inércia. Desafiemos a habituação, abramos bem os olhos, os ouvidos e sobretudo o coração, para nos deixarmos mover pelo que acontece ao nosso redor e pelo clamor da Palavra viva e eficaz do Ressuscitado.

138. Move-nos o exemplo de tantos sacerdotes, religiosas, religiosos e leigos que se dedicam a anunciar e servir com grande fidelidade, muitas vezes arriscando a vida e, sem dúvida, à custa da sua comodidade. O seu testemunho lembra-nos que a Igreja não precisa de muitos burocratas e funcionários, mas de missionários apaixonados, devorados pelo entusiasmo de comunicar a verdadeira vida. Os santos surpreendem, desinstalam, porque a sua vida nos chama a sair da mediocridade tranquila e anestesiadora.

139. Peçamos ao Senhor a graça de não hesitar quando o Espírito nos exige que demos um passo em frente; peçamos a coragem apostólica de comunicar o Evangelho aos outros e de renunciar a fazer da nossa vida um museu de recordações. Em qualquer situação, deixemos que o Espírito Santo nos faça contemplar a história na perspetiva de Jesus ressuscitado. Assim a Igreja, em vez de cair cansada, poderá continuar em frente acolhendo as surpresas do Senhor.

Em comunidade

140. É muito difícil lutar contra a própria concupiscência e contra as ciladas e tentações do demónio e do mundo egoísta, se estivermos isolados. A sedução com que nos bombardeiam é tal que, se estivermos demasiado sozinhos, facilmente perdemos o sentido da realidade, a clareza interior, e sucumbimos.

141. A santificação é um caminho comunitário, que se deve fazer dois a dois. Reflexo disto temo-lo em algumas comunidades santas. Em várias ocasiões, a Igreja canonizou comunidades inteiras, que viveram heroicamente o Evangelho ou ofereceram a Deus a vida de todos os seus membros. Pensemos, por exemplo, nos sete Santos Fundadores da Ordem dos Servos de Maria, nas sete Beatas religiosas do primeiro mosteiro da Visitação de Madrid, em São Paulo Míki e companheiros mártires no Japão, em Santo André Taegon e companheiros mártires na Coreia, em São Roque González, Afonso Rodríguez e companheiros mártires na América do Sul. E recordemos também o testemunho recente dos monges trapistas de Tibhirine (Argélia), que se prepararam juntos para o martírio. De igual modo, há muitos casais santos, onde cada cônjuge foi um instrumento para a santificação do outro. Viver e trabalhar com outros é, sem dúvida, um caminho de crescimento espiritual. São João da Cruz dizia a um discípulo: estás a viver com outros «para que te trabalhem e exercitem na virtude».[104]

142. A comunidade é chamada a criar aquele «espaço teologal onde se pode experimentar a presença mística do Senhor ressuscitado».[105] Partilhar a Palavra e celebrar juntos a Eucaristia torna-nos mais irmãos e vai-nos transformando pouco a pouco em comunidade santa e missionária. Isto dá origem também a autênticas experiências místicas vividas em comunidade, como no caso de São Bento e Santa Escolástica, ou daquele sublime encontro espiritual que viveram juntos Santo Agostinho e sua mãe Santa Mónica: «próximo já do dia em que ela ia sair desta vida – dia que Vós conhecíeis e nós ignorávamos – sucedeu, segundo creio, por disposição dos vossos secretos desígnios, que nos encontrássemos sozinhos, ela e eu, apoiados a uma janela cuja vista dava para o jardim interior da casa onde morávamos (…). Os lábios do nosso coração abriam-se ansiosos para a corrente celeste da vossa fonte, a fonte da Vida, que está em Vós (…). Enquanto assim falávamos, anelantes pela Sabedoria, atingimo-la momentaneamente num ímpeto completo do nosso coração (…) E se a vida eterna fosse semelhante a este vislumbre intuitivo?»[106]

143. Contudo estas experiências não são o mais frequente, nem o mais importante. A vida comunitária, na família, na paróquia, na comunidade religiosa ou em qualquer outra, compõe-se de tantos pequenos detalhes diários. Assim acontecia na comunidade santa formada por Jesus, Maria e José, onde se refletiu de forma paradigmática a beleza da comunhão trinitária. E o mesmo sucedia na vida comunitária que Jesus transcorreu com os seus discípulos e o povo simples.

144. Lembremo-nos como Jesus convidava os seus discípulos a prestarem atenção aos detalhes:

o pequeno detalhe do vinho que estava a acabar numa festa;
o pequeno detalhe duma ovelha que faltava;
o pequeno detalhe da viúva que ofereceu as duas moedinhas que tinha;
o pequeno detalhe de ter azeite de reserva para as lâmpadas, caso o noivo se demore;
o pequeno detalhe de pedir aos discípulos que vissem quantos pães tinham;
o pequeno detalhe de ter a fogueira acesa e um peixe na grelha enquanto esperava os discípulos ao amanhecer.

145. A comunidade, que guarda os pequenos detalhes do amor[107] e na qual os membros cuidam uns dos outros e formam um espaço aberto e evangelizador, é lugar da presença do Ressuscitado que a vai santificando segundo o projeto do Pai. Sucede às vezes, no meio destes pequenos detalhes, que o Senhor, por um dom do seu amor, nos presenteie com consoladoras experiências de Deus: «uma noite de inverno, cumpria, como de costume, o pequeno ofício. (…) De repente, ouvi ao longe o som harmonioso de um instrumento musical. Então imaginei um salão bem iluminado, todo resplandecente de dourados, de donzelas elegantemente vestidas, dirigindo-se mutuamente cumprimentos e cortesias mundanas. A seguir o meu olhar pousou na pobre doente que amparava; em vez de uma melodia, ouvia, de vez em quando, os seus gemidos queixosos (…). Não consigo exprimir o que se passou na minha alma; o que sei é que o Senhor a iluminou com os reflexos da verdade, que ultrapassavam de tal maneira o brilho tenebroso das festas da terra, que não podia acreditar na minha felicidade».[108]

146. Contra a tendência para o individualismo consumista que acaba por nos isolar na busca do bem-estar à margem dos outros, o nosso caminho de santificação não pode deixar de nos identificar com aquele desejo de Jesus: «que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti» (Jo 17, 21).

Em oração constante

147. Por fim, mesmo que pareça óbvio, lembremos que a santidade é feita de abertura habitual à transcendência, que se expressa na oração e na adoração. O santo é uma pessoa com espírito orante, que tem necessidade de comunicar com Deus. É alguém que não suporta asfixiar-se na imanência fechada deste mundo e, no meio dos seus esforços e serviços, suspira por Deus, sai de si erguendo louvores e alarga os seus confins na contemplação do Senhor. Não acredito na santidade sem oração, embora não se trate necessariamente de longos períodos ou de sentimentos intensos.

148. São João da Cruz recomendava que se procurasse «andar sempre na presença de Deus, seja ela real, imaginada ou unitiva, conforme o permitam as obras que estamos a realizar».[109] No fundo, é o desejo de Deus, que não pode deixar de se manifestar dalguma maneira no meio da nossa vida diária: «procura que a tua oração seja contínua e, no meio dos exercícios corporais, não a deixes. Quando comes, bebes, conversas com outros, ou em qualquer outra coisa que faças, sempre deseja a Deus e prende a Ele o teu coração».[110]

149. Contudo, para que isto se torne possível, são necessários também alguns tempos dedicados só a Deus, na solidão com Ele. Para Santa Teresa de Ávila, a oração é «uma relação íntima de amizade, permanecendo muitas vezes a sós com Quem sabemos que nos ama».[111] Gostaria de insistir no facto de que isto não é dito apenas para poucos privilegiados, mas para todos, porque «todos precisamos deste silêncio repleto de presença adoradora».[112] A oração confiante é uma resposta do coração que se abre a Deus face a face, onde são silenciados todos os rumores para escutar a voz suave do Senhor que ressoa no silêncio.

150. Neste silêncio, é possível discernir, à luz do Espírito, os caminhos de santidade que o Senhor nos propõe. Caso contrário, todas as nossas decisões não passarão de «decorações», que, em vez de exaltar o Evangelho na nossa vida, acabarão por o recobrir e sufocar. Para todo o discípulo, é indispensável estar com o Mestre, escutá-Lo, aprender d’Ele, aprender sempre. Se não escutarmos, todas as nossas palavras serão apenas rumores que não servem para nada.

151. Recordemos que «é a contemplação da face de Jesus morto e ressuscitado que recompõe a nossa humanidade, incluindo a que está fragmentada pelas canseiras da vida ou marcada pelo pecado. Não devemos domesticar o poder da face de Cristo».[113] Sendo assim, atrevo-me a perguntar-te: Tens momentos em que te colocas na sua presença em silêncio, permaneces com Ele sem pressa, e te deixas olhar por Ele? Deixas que o seu fogo inflame o teu coração? Se não permites que Jesus alimente nele o calor do amor e da ternura, não terás fogo e, assim, como poderás inflamar o coração dos outros com o teu testemunho e as tuas palavras? E se ainda não consegues, diante do rosto de Cristo, deixar-te curar e transformar, então penetra nas entranhas do Senhor, entra nas suas chagas, porque é nelas que tem a sua sede a misericórdia divina.[114]

152. Peço, porém, que não se entenda o silêncio orante como uma evasão que nega o mundo que nos rodeia. O «peregrino russo», que caminhava em contínua oração, conta que esta oração não o separava da realidade externa: «quando me encontrava com as pessoas, parecia-me que eram todas tão amáveis como se fossem da minha própria família. (…) E a felicidade não só iluminava o interior da minha alma, mas o próprio mundo exterior aparecia-me sob um aspeto maravilhoso».[115]

153. Nem a própria história desaparece. A oração, precisamente porque se alimenta do dom de Deus que se derrama na nossa vida, deveria ser sempre rica de memória. A memória das obras de Deus está na base da experiência da aliança entre Deus e o seu povo. Se Deus quis entrar na história, a oração é tecida de recordações: não só da recordação da Palavra revelada, mas também da vida própria, da vida dos outros, do que o Senhor fez na sua Igreja. É a memória agradecida de que fala o próprio Santo Inácio de Loyola, na sua «Contemplação para alcançar o amor»,[116] quando nos pede para trazer à memória todos os benefícios que recebemos do Senhor. Contempla a tua história quando rezas e, nela, encontrarás tanta misericórdia. Ao mesmo tempo, isto alimentará a tua consciência com a certeza de que o Senhor te conserva na sua memória e nunca te esquece. Consequentemente tem sentido pedir-Lhe que ilumine até mesmo os pequenos detalhes da tua existência, que não Lhe passam despercebidos.

154. A súplica é expressão do coração que confia em Deus, pois sabe que sozinho não consegue. Na vida do povo fiel de Deus, encontramos muitas súplicas cheias de ternura crente e de profunda confiança. Não desvalorizemos a oração de petição, que tantas vezes nos tranquiliza o coração e ajuda a continuar a lutar com esperança. A súplica de intercessão tem um valor particular, porque é um ato de confiança em Deus e, ao mesmo tempo, uma expressão de amor ao próximo. Alguns, por preconceitos espiritualistas, pensam que a oração deveria ser uma pura contemplação de Deus, sem distrações, como se os nomes e os rostos dos irmãos fossem um distúrbio a evitar. Ao contrário, a verdade é que a oração será mais agradável a Deus e mais santificadora, se nela procurarmos, através da intercessão, viver o duplo mandamento que Jesus nos deixou. A intercessão expressa o compromisso fraterno com os outros, quando somos capazes de incorporar nela a vida deles, as suas angústias mais inquietantes e os seus melhores sonhos. A quem se entrega generosamente à intercessão, podem-se aplicar estas palavras bíblicas: «Eis o amigo dos seus irmãos, aquele que reza muito pelo povo» (2 Mac 15, 14).

155. Se verdadeiramente reconhecemos que Deus existe, não podemos deixar de O adorar, por vezes num silêncio cheio de enlevo, ou de Lhe cantar em festivo louvor. Assim expressamos o que vivia o Beato Carlos Foucauld, quando disse: «Logo que acreditei que Deus existia, compreendi que só podia viver para Ele».[117] Na própria vida do povo peregrino, há muitos gestos simples de pura adoração, como, por exemplo, quando «o olhar do peregrino pousa sobre uma imagem que simboliza a ternura e a proximidade de Deus. O amor detém-se, contempla o mistério, desfruta dele em silêncio».[118]

156. A leitura orante da Palavra de Deus, «mais doce do que o mel» (Sal 119/118, 103) e «espada de dois gumes» (Heb 4, 12), consente de nos determos a escutar o Mestre fazendo da sua palavra farol para os nossos passos, luz para o nosso caminho (cf. Sal 119/118, 105). Como justamente nos lembraram os Bispos da Índia, «a devoção à Palavra de Deus não é apenas uma dentre muitas devoções, uma coisa bela mas facultativa. Pertence ao coração e à própria identidade da vida cristã. A Palavra tem em si mesma a força para transformar a vida».[119]

157. O encontro com Jesus nas Escrituras conduz-nos à Eucaristia, onde essa mesma Palavra atinge a sua máxima eficácia, porque é presença real d’Aquele que é a Palavra viva. Lá o único Absoluto recebe a maior adoração que se Lhe possa tributar neste mundo, porque é o próprio Cristo que Se oferece. E, quando O recebemos na Comunhão, renovamos a nossa aliança com Ele e consentimos-Lhe que realize cada vez mais a sua obra transformadora.

Capítulo V

LUTA, VIGILÂNCIA E DISCERNIMENTO

158. A vida cristã é uma luta permanente. Requer-se força e coragem para resistir às tentações do demónio e anunciar o Evangelho. Esta luta é magnífica, porque nos permite cantar vitória todas as vezes que o Senhor triunfa na nossa vida.

A luta e a vigilância

159. Não se trata apenas de uma luta contra o mundo e a mentalidade mundana, que nos engana, atordoa e torna medíocres sem empenhamento e sem alegria. Nem se reduz a uma luta contra a própria fragilidade e as próprias inclinações (cada um tem a sua: para a preguiça, a luxúria, a inveja, os ciúmes, etc.). Mas é também uma luta constante contra o demónio, que é o príncipe do mal. O próprio Jesus celebra as nossas vitórias. Alegrava-Se quando os seus discípulos conseguiam fazer avançar o anúncio do Evangelho, superando a oposição do Maligno, e exultava: «Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago» (Lc 10, 18).

Algo mais do que um mito

160. Não admitiremos a existência do demónio, se nos obstinarmos a olhar a vida apenas com critérios empíricos e sem uma perspetiva sobrenatural. A convicção de que este poder maligno está no meio de nós é precisamente aquilo que nos permite compreender por que, às vezes, o mal tem uma força destruidora tão grande. É verdade que os autores bíblicos tinham uma bagagem concetual limitada para expressar algumas realidades e que, nos tempos de Jesus, podia-se confundir, por exemplo, uma epilepsia com a possessão do demónio. Mas isto não deve levar-nos a simplificar demasiado a realidade afirmando que todos os casos narrados nos Evangelhos eram doenças psíquicas e que, em última análise, o demónio não existe ou não intervém. A sua presença consta nas primeiras páginas da Sagrada Escritura, que termina com a vitória de Deus sobre o demónio.[120] De facto, quando Jesus nos deixou a oração do Pai-Nosso, quis que a concluíssemos pedindo ao Pai que nos livrasse do Maligno. A expressão usada não se refere ao mal em abstrato; a sua tradução mais precisa é «o Maligno». Indica um ser pessoal que nos atormenta. Jesus ensinou-nos a pedir cada dia esta libertação para que o seu poder não nos domine.

161. Então, não pensemos que seja um mito, uma representação, um símbolo, uma figura ou uma ideia.[121] Este engano leva-nos a diminuir a vigilância, a descuidar-nos e a ficar mais expostos. O demónio não precisa de nos possuir. Envenena-nos com o ódio, a tristeza, a inveja, os vícios. E assim, enquanto abrandamos a vigilância, ele aproveita para destruir a nossa vida, as nossas famílias e as nossas comunidades, porque, «como um leão a rugir, anda a rondar-vos, procurando a quem devorar» (1 Ped 5, 8).

Despertos e confiantes

162. A Palavra de Deus convida-nos, explicitamente, a resistir «contra as maquinações do diabo» (Ef 6, 11) e a «apagar todas as setas incendiadas do maligno» (Ef 6, 16). Não se trata de palavras poéticas, porque o nosso caminho para a santidade é também uma luta constante. Quem não quiser reconhecê-lo, ver-se-á exposto ao fracasso ou à mediocridade. Para a luta, temos as armas poderosas que o Senhor nos dá: a fé que se expressa na oração, a meditação da Palavra de Deus, a celebração da Missa, a adoração eucarística, a Reconciliação sacramental, as obras de caridade, a vida comunitária, o compromisso missionário. Se nos descuidarmos, facilmente nos seduzirão as falsas promessas do mal. Ora, como dizia o Santo Cura Brochero, «que importa que Lúcifer prometa libertar-vos e até vos atire para o meio de todos os seus bens, se são bens enganadores, se são bens envenenados?»[122]

163. Neste caminho, o progresso no bem, o amadurecimento espiritual e o crescimento do amor são o melhor contrapeso ao mal. Ninguém resiste, se escolhe arrastar-se em ponto morto, se se contenta com pouco, se deixa de sonhar com a oferta de maior dedicação ao Senhor; e, menos ainda, se cai num sentido de derrota, porque «quem começa sem confiança, perdeu de antemão metade da batalha e enterra os seus talentos. (…) O triunfo cristão é sempre uma cruz, mas cruz que é, simultaneamente, estandarte de vitória, que se empunha com ternura batalhadora contra as investidas do mal».[123]

A corrupção espiritual

164. O caminho da santidade é uma fonte de paz e alegria que o Espírito nos dá, mas, ao mesmo tempo, exige que estejamos com «as lâmpadas acesas» (cf. Lc 12, 35) e permaneçamos vigilantes: «afastai-vos de toda a espécie de mal» (1 Ts 5, 22); «vigiai» (Mt 24, 42; cf. Mc 13, 35); não adormeçamos (cf. 1 Ts 5, 6). Pois, quem não se dá conta de cometer faltas graves contra a Lei de Deus, pode deixar-se cair numa espécie de entorpecimento ou sonolência. Como não encontra nada de grave a censurar-se, não adverte aquela tibieza que pouco a pouco se vai apoderando da sua vida espiritual e acaba por ficar corroído e corrompido.

165. A corrupção espiritual é pior que a queda dum pecador, porque trata-se duma cegueira cómoda e autossuficiente, em que tudo acaba por parecer lícito: o engano, a calúnia, o egoísmo e muitas formas subtis de autorreferencialidade, já que «também Satanás se disfarça em anjo de luz» (2 Cor 11, 14). Assim acabou os seus dias Salomão, enquanto o grande pecador David soube superar a sua miséria. Num trecho evangélico, Jesus alerta-nos contra esta tentação insidiosa que nos faz escorregar até à corrupção: fala duma pessoa libertada do demónio a qual, pensando que a sua vida já estivesse limpa, acabaria possuída por outros sete espíritos malignos (cf. Lc 11, 24-26). E outro texto bíblico usa esta imagem impressionante: «O cão volta ao seu vómito» (2 Ped 2, 22; cf. Prv 26, 11).

O discernimento

166. Como é possível saber se algo vem do Espírito Santo ou se deriva do espírito do mundo e do espírito maligno? A única forma é o discernimento. Este não requer apenas uma boa capacidade de raciocinar e sentido comum, é também um dom que é preciso pedir. Se o pedirmos com confiança ao Espírito Santo e, ao mesmo tempo, nos esforçarmos por cultivá-lo com a oração, a reflexão, a leitura e o bom conselho, poderemos certamente crescer nesta capacidade espiritual.

Uma necessidade imperiosa

167. Hoje em dia, tornou-se particularmente necessária a capacidade de discernimento, porque a vida atual oferece enormes possibilidades de ação e distração, sendo-nos apresentadas pelo mundo como se fossem todas válidas e boas. Todos, mas especialmente os jovens, estão sujeitos a um zapping constante. É possível navegar simultaneamente em dois ou três visores e interagir ao mesmo tempo em diferentes cenários virtuais. Sem a sapiência do discernimento, podemos facilmente transformar-nos em marionetes à mercê das tendências da ocasião.

168. Isto revela-se particularmente importante, quando aparece uma novidade na própria vida, sendo necessário então discernir se é o vinho novo que vem de Deus ou uma novidade enganadora do espírito do mundo ou do espírito maligno. Noutras ocasiões, sucede o contrário, porque as forças do mal induzem-nos a não mudar, a deixar as coisas como estão, a optar pelo imobilismo e a rigidez e, assim, impedimos que atue o sopro do Espírito Santo. Somos livres, com a liberdade de Jesus, mas Ele chama-nos a examinar o que há dentro de nós – desejos, angústias, temores, expetativas – e o que acontece fora de nós – os «sinais dos tempos» –, para reconhecer os caminhos da liberdade plena: «examinai tudo, guardai o que é bom» (1 Ts 5, 21).

Sempre à luz do Senhor

169. O discernimento não é necessário apenas em momentos extraordinários, quando temos de resolver problemas graves ou quando se deve tomar uma decisão crucial; mas é um instrumento de luta, para seguir melhor o Senhor. É-nos sempre útil, para sermos capazes de reconhecer os tempos de Deus e a sua graça, para não desperdiçarmos as inspirações do Senhor, para não ignorarmos o seu convite a crescer. Frequentemente isto decide-se nas coisas pequenas, no que parece irrelevante, porque a magnanimidade mostra-se nas coisas simples e diárias.[124] Trata-se de não colocar limites rumo ao máximo, ao melhor e ao mais belo, mas ao mesmo tempo concentrar-se no pequeno, nos compromissos de hoje. Por isso, peço a todos os cristãos que não deixem de fazer cada dia, em diálogo com o Senhor que nos ama, um sincero exame de consciência. Ao mesmo tempo, o discernimento leva-nos a reconhecer os meios concretos que o Senhor predispõe, no seu misterioso plano de amor, para não ficarmos apenas pelas boas intenções.

Um dom sobrenatural

170. É verdade que o discernimento espiritual não exclui as contribuições de sabedorias humanas, existenciais, psicológicas, sociológicas ou morais; mas transcende-as. Não bastam sequer as normas sábias da Igreja. Lembremo-nos sempre de que o discernimento é uma graça. Embora inclua a razão e a prudência, supera-as, porque trata-se de entrever o mistério daquele projeto, único e irrepetível, que Deus tem para cada um e que se realiza no meio dos mais variados contextos e limites. Não está em jogo apenas um bem-estar temporal, nem a satisfação de realizar algo de útil, nem mesmo o desejo de ter a consciência tranquila. Está em jogo o sentido da minha vida diante do Pai que me conhece e ama, aquele sentido verdadeiro para o qual posso orientar a minha existência e que ninguém conhece melhor do que Ele. Em suma, o discernimento leva à própria fonte da vida que não morre, isto é, conhecer o Pai, o único Deus verdadeiro, e a quem Ele enviou, Jesus Cristo (cf. Jo 17, 3). Não requer capacidades especiais nem está reservado aos mais inteligentes e instruídos; o Pai compraz-Se em manifestar-Se aos humildes (cf. Mt 11, 25).

171. Embora o Senhor nos fale de muitos e variados modos durante o nosso trabalho, através dos outros e a todo o momento, não é possível prescindir do silêncio da oração prolongada para perceber melhor aquela linguagem, para interpretar o significado real das inspirações que julgamos ter recebido, para acalmar ansiedades e recompor o conjunto da própria vida à luz de Deus. Assim, podemos permitir o nascimento daquela nova síntese que brota da vida iluminada pelo Espírito.

Fala, Senhor

172. Pode acontecer, porém, que na própria oração evitemos de nos deixar confrontar com a liberdade do Espírito, que age como quer. Não nos esqueçamos de que o discernimento orante exige partir da predisposição para escutar: o Senhor, os outros, a própria realidade que não cessa de nos interpelar de novas maneiras. Somente quem está disposto a escutar é que tem a liberdade de renunciar ao seu ponto de vista parcial e insuficiente, aos seus hábitos, aos seus esquemas. Desta forma, está realmente disponível para acolher uma chamada que quebra as suas seguranças, mas leva-o a uma vida melhor, porque não é suficiente que tudo corra bem, que tudo esteja tranquilo. Pode acontecer que Deus nos esteja a oferecer algo mais e, na nossa cómoda distração, não o reconheçamos.

173. Tal atitude de escuta implica, naturalmente, obediência ao Evangelho como último critério, mas também ao Magistério que o guarda, procurando encontrar no tesouro da Igreja aquilo que pode ser mais fecundo para «o hoje» da salvação. Não se trata de aplicar receitas ou repetir o passado, uma vez que as mesmas soluções não são válidas em todas as circunstâncias e o que foi útil num contexto pode não o ser noutro. O discernimento dos espíritos liberta-nos da rigidez, que não tem lugar no «hoje» perene do Ressuscitado. Somente o Espírito sabe penetrar nas dobras mais recônditas da realidade e ter em conta todas as suas nuances, para que a novidade do Evangelho surja com outra luz.

A lógica do dom e da cruz

174. Condição essencial para avançar no discernimento é educar-se para a paciência de Deus e os seus tempos, que nunca são os nossos. Ele não faz descer fogo do céu sobre os incrédulos (cf. Lc 9, 54), nem permite aos zelosos arrancar o joio que cresce juntamente com o trigo (cf. Mt 13, 29). Além disso requer-se generosidade, porque «a felicidade está mais em dar do que em receber» (At 20, 35). Faz-se discernimento, não para descobrir que mais proveito podemos tirar desta vida, mas para reconhecer como podemos cumprir melhor a missão que nos foi confiada no Batismo, e isto implica estar disposto a fazer renúncias até dar tudo. Com efeito, a felicidade é paradoxal, proporcionando-nos as melhores experiências quando aceitamos aquela lógica misteriosa que não é deste mundo, mas «é a nossa lógica», como dizia São Boaventura,[125] referindo-se à cruz. Quando uma pessoa assume esta dinâmica, não deixa anestesiar a sua consciência e abre-se generosamente ao discernimento.

175. Quando perscrutamos na presença de Deus os caminhos da vida, não há espaços que fiquem excluídos. Em todos os aspetos da existência, podemos continuar a crescer e dar algo mais a Deus, mesmo naqueles em que experimentamos as dificuldades mais fortes. Mas é necessário pedir ao Espírito Santo que nos liberte e expulse aquele medo que nos leva a negar-Lhe a entrada nalguns aspetos da nossa vida. Aquele que pede tudo, também dá tudo, e não quer entrar em nós para mutilar ou enfraquecer, mas para levar à perfeição. Isto mostra-nos que o discernimento não é uma autoanálise presuntuosa, uma introspeção egoísta, mas uma verdadeira saída de nós mesmos para o mistério de Deus, que nos ajuda a viver a missão para a qual nos chamou a bem dos irmãos.

176. Desejo coroar estas reflexões com a figura de Maria, porque Ela viveu como ninguém as bem-aventuranças de Jesus. É Aquela que estremecia de júbilo na presença de Deus, Aquela que conservava tudo no seu coração e Se deixou atravessar pela espada. É a mais abençoada dos santos entre os santos, Aquela que nos mostra o caminho da santidade e nos acompanha. E, quando caímos, não aceita deixar-nos por terra e, às vezes, leva-nos nos seus braços sem nos julgar. Conversar com Ela consola-nos, liberta-nos, santifica-nos. A Mãe não necessita de muitas palavras, não precisa que nos esforcemos demasiado para Lhe explicar o que se passa connosco. É suficiente sussurrar uma vez e outra: «Ave Maria…».

177. Espero que estas páginas sejam úteis para que toda a Igreja se dedique a promover o desejo da santidade. Peçamos ao Espírito Santo que infunda em nós um desejo intenso de ser santos para a maior glória de Deus; e animemo-nos uns aos outros neste propósito. Assim, compartilharemos uma felicidade que o mundo não poderá tirar-nos.

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 19 de março – Solenidade de São José – do ano 2018, sexto do meu pontificado.

Franciscus

[1] Bento XVI, Homilia no início solene do Ministério Petrino (24 de abril de 2005): AAS 97 (2005), 708.

[2] Em todo o caso, supõe-se que haja fama de santidade e uma prática das virtudes cristãs, pelo menos em grau ordinário: cf. Francisco, Carta ap. em forma de Motu Proprio Maiorem hac dilectionem (11 de julho de 2017), art. 2-c: L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 20/VII/2017), 6.

[3] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 9.

[4] Cf. Joseph Malègue, Pierres noires. Les classes moyennes du Salut (Paris 1958).

[5] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 12.

[6] Vida escondida y epifanía: Obras Completas, V (Burgos 2007), 637.

[7] São João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte (6 de janeiro de 2001), 56: AAS 93 (2001), 307.

[8] Carta ap. Tertio millennio adveniente (10 de novembro de 1994), 37: AAS 87 (1995), 29.

[9] Homilia na Celebração ecuménica das testemunhas da fé do século XX (7 de maio de 2000), 5: AAS 92 (2000), 680-681.

[10] Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 11.

[11] Cf. Hans U. von Balthasar, «Teología y santidad», Communio VI/87, 489.

[12] Cântico Espiritual B, Prólogo, 2: Opere (Roma 1979), 490.

[13] Ibid., 14-15, 2: o. c., 575.

[14] Cf. Francisco, Catequese (Audiência geral, 19 de novembro de 2014): Insegnamenti, II/2 (2014), 554-557.
[15] São Francisco de Sales, Tratado do Amor de Deus, VIII, 11: Opere complete IV (Roma 2011), 468.
[16] Cinco pães e dois peixes: um jubiloso testemunho de fé no meio das tribulações da prisão (Milão 2014), 20.

[17] Conferência dos Bispos Católicos da Nova Zelândia, Healing love (1 de janeiro de 1988).
[18] Cf. Exercícios espirituais, 102-312.
[19] Catecismo da Igreja Católica, 515.
[20] Ibid., 516.
[21] Ibid., 517.
[22] Ibid., 518.
[23] Ibid., 521.
[24] Bento XVI, Catequese (Audiência geral, 13 de abril de 2011): Insegnamenti, VII (2011), 451.
[25] Ibidem: o. c., 450.
[26] Cf. Hans U. von Balthasar, «Teología y santidad», Communio VI/87, 486-493.
[27] Xavier Zubiri, Naturaleza, historia, Dios (Madrid 31999), 427.
[28] Carlos M. Martini, As confissões de Pedro (Cinisello Balsamo 2017), 69.
[29] É necessário distinguir, esta distração superficial, duma cultura saudável do repouso, que nos abre ao outro e à realidade com um espírito disponível e contemplativo.
[30] São João Paulo II, Homilia na Missa de canonização (1 de outubro de 2000), 5: AAS 92 (2000), 852.
[31] Conferência Episcopal Regional da África Ocidental, Mensagem pastoral no final da II Assembleia Plenária (29 de fevereiro de 2016), 2.
[32] A mulher pobre (Régio Emília 1978), II, 375.
[33] «Quer o individualismo neopelagiano quer o desprezo neognóstico do corpo descaraterizam a confissão de fé em Cristo, único Salvador universal» [Congr. para a Doutrina da Fé, Carta sobre alguns aspetos da salvação cristã Placuit Deo (22 de fevereiro de 2018), 4: L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 08/III/2018), 8]. Neste documento, encontram-se as bases doutrinais para compreender a salvação face às derivas neognósticas e neopelagianas atuais.
[34] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 94: AAS 105 (2013), 1060.
[35] Ibid., 94: o. c., 1059.
[36] Francisco, Homilia da Missa na Casa de Santa Marta (11 de novembro de 2016): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 17/XI/2016), 11.
[37] Como ensina São Boaventura, «é necessário que se deixem todas as operações intelectivas e que o ápice mais sublime do amor seja transferido e transformado totalmente em Deus. (…) Dado que, para se obter isto, nada pode a natureza e pouco pode a ciência, é preciso dar pouca importância à indagação, muita à unção espiritual; pouca à língua e muita à alegria interior; pouca à palavra e aos livros e toda ao dom de Deus, isto é, ao Espírito Santo; pouca ou nenhuma à criatura e toda ao Criador: ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo» [Itinerarium mentis in Deo, VII, 4-5: Opere di San Bonaventura (Roma 1993), 577].
[38] Francisco, Carta ao Grão-Chanceler da Pontifícia Universidade Católica Argentina no centenário da Faculdade de Teologia (3 de março de 2015): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 12/III/2015), 11.
[39] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 40: AAS 105 (2013), 1037.
[40] Francisco, Mensagem-vídeo ao congresso internacional de Teologia da Pontifícia Universidade Católica Argentina (1-3 de setembro de 2015): AAS 107 (2015), 980.
[41] Exort. ap. pós-sinodal Vita consecrata (25 de março de 1996), 38: AAS 88 (1996), 412.
[42] Francisco, Carta ao Grão-Chanceler da Pontifícia Universidade Católica Argentina no centenário da Faculdade de Teologia (3 de março de 2015): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 12/III/2015), 11.
[43] Carta a Frei António, 2: Fonti Francescane, 251.
[44] De septem Donis, 9, 15.
[45] Idem, In IV Sent. 37, 1, 3, ad 6.
[46] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 94: AAS 105 (2013), 1059.
[47]«Non omnes omnia possunt» (São Boaventura, De sex alis Seraphim 3, 8). Há que entender a afirmação na linha do Catecismo da Igreja Católica, n. 1735.
[48] «Agora, porém, a graça é de certo modo imperfeita, pois – como se disse – não cura o homem totalmente» (São Tomás de Aquino, Summa Theologiae I-II, q. 109, a. 9, ad 1).
[49] De natura et gratia, XLIII, 50: PL 44, 271.
[50] Idem, Confissões, X, 29, 40: PL 32, 796.
[51]Cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 44: AAS 105 (2013), 1038.
[52] Na compreensão da fé cristã, a graça é preveniente, concomitante e subsequente a todo o nosso agir. Cf. Conc. Ecum. de Trento, Sess.VI, Decretum de iustificatione, cap. 5: DzS 1525.
[53] In Rom.9, 11: PG 60, 470.
[54] Hom. de humil.: PG 31, 530.
[55] Cânone 4: DzS 374.
[56] Sess. VI, Decretum de iustificatione, cap. 8: DzS 1532.
[57] N. 1998.
[58] Ibid., 2007.
[59] São Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I-II, q. 114, a. 5.
[60] Santa Teresa de Lisieux, “Ato de oferecimento ao Amor misericordioso” (Orações, 6): Opere Complete (Roma 1997), 943.
[61] Lucio Gera, «Sobre el misterio del pobre», in P. Grelot-L. Gera-A. Dumas, El Pobre (Buenos Aires 1962), 103.
[62] Esta é, em última análise, a doutrina católica acerca do «mérito» posterior à justificação: trata-se da cooperação do justificado no crescimento da vida da graça (cf. Catecismo da Igreja Católica, 2010). Todavia esta cooperação de forma alguma faz com que a própria justificação e a amizade com Deus se tornem objeto de um mérito humano.
[63] Cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 95: AAS 105 (2013), 1060.
[64] Summa Theologiae, I-II, q. 107, art. 4.
[65] Francisco, Homilia da Santa Missa por ocasião do jubileu das pessoas socialmente excluídas (13 de novembro de 2016): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 17/XI/2016), 5.
[66] Cf. Francisco, Homilia da Missa na Casa de Santa Marta (9 de junho de 2014): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 12/VI/2014), 11.
[67] A ordem entre a segunda e a terceira bem-aventurança diverge nas diferentes tradições textuais.
[68] Exercícios Espirituais, 23d (Roma 61984), 58-59.
[69] Manuscrito C, 12r: Opere Complete (Roma 1997), 247.
[70] Desde os tempos patrísticos, a Igreja valoriza o dom das lágrimas, como consta na sugestiva oração « ad petendam compunctionem cordis – para pedir o arrependimento do coração»: «Ó Deus omnipotente e mansíssimo, que, fizestes surgir da rocha uma fonte de água viva para o povo sedento, fazei brotar da dureza do nosso coração lágrimas de arrependimento, para podermos chorar os nossos pecados e obter, por vossa misericórdia, a sua remissão» ( Missale Romanum, ed. typ. 1962, p. 922).
[71] Catecismo da Igreja Católica, 1789; cf. 1970.
[72] Ibid., 1787.
[73] A difamação e a calúnia são comparáveis a um ato terrorista: atira-se a bomba, destrói e o terrorista segue o seu caminho feliz e tranquilo. Isto é muito diferente da nobreza de quem se aproxima para falar face a face, com sinceridade serena, pensando no bem do outro.
[74] Nalgumas ocasiões, pode ser necessário falar sobre as dificuldades dum irmão. Nestes casos, porém, pode acontecer que se transmita uma interpretação em vez do facto objetivo. A paixão deforma a realidade concreta do facto, transforma-o numa interpretação e acaba-se por transmitir esta interpretação cheia de subjetividade. Deste modo, destrói-se a realidade e não se respeita a verdade do outro.
[75] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 218: AAS 105 (2013), 1110.
[76] Ibid., 239: o. c., 1116.
[77] Ibid., 227: o. c., 1112.
[78] Carta enc. Centesimus annus (1 de maio de 1991), 41: AAS 83 (1991), 844-845.
[79] Carta ap. Novo millennio ineunte (6 de janeiro de 2001), 49: AAS 93 (2001), 302.
[80] Ibid., 49: o. c., 302.
[81] Francisco, Bula Misericordiae Vultus (11 de abril de 2015), 12: AAS 107 (2015), 407.
[82] Lembremos a reação do bom samaritano à vista do homem que os salteadores deixaram meio morto na beira da estrada (cf. Lc 10, 30-37).
[83] Conferência Canadiana dos Bispos Católicos – Comissão de Assuntos Sociais, Carta aberta aos membros do Parlamento The Common Good or Exclusion: a Choice for Canadians (1 de fevereiro de 2001), 9.
[84] A V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, atendo-se ao magistério constante da Igreja, ensinou que o ser humano «é sempre sagrado, desde a sua conceção, em todas as etapas da existência, até à sua morte natural e depois da morte», e que a sua vida deve ser cuidada «desde a conceção, em todas as suas etapas, até à morte natural» [ Documento de Aparecida (29 de junho de 2007), 388;464].
[85] Regra, 53, 1: PL 66, 749.
[86] Cf. ibid., 53, 7: o. c., 750.
[87] Ibid., 53, 15: o. c., 751.
[88] Francisco, Bula Misericordiae Vultus (11 de abril de 2015), 9: AAS 107 (2015), 405.
[89] Ibid., 10: o. c., 406.
[90] Idem, Exort. ap. pós-sinodal Amoris laetitia (19 de março de 2016), 311: AAS108 (2016), 439.
[91] Idem, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 197: AAS 105 (2013), 1103.
[92] Cf. Summa Theologiae, II-II, q. 30, a. 4.
[93] Ibid., ad 1.
[94] Cristo en los Pobres (Madrid 1981), 37-38.
[95] Há muitas formas de bulismo que, embora pareçam elegantes ou respeitosas e até mesmo muito espirituais, provocam muito sofrimento na autoestima dos outros.
[96] Cautelas, 13: Opere (Roma 41979), 1070.
[97] Ibid., 13: o. c., 1070.
[98] A Misericórdia Divina na minha alma. Diário da Beata Irmã Faustina Kowalska (Cidade do Vaticano 1996), 132.
[99] São Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I-II, q. 70, a. 3.
[100] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 6: AAS 105 (2013), 1221.
[101] Recomendo a reza desta oração atribuída a São Tomás Moro: «Dai-me, Senhor, uma boa digestão e também qualquer coisa para digerir. Dai-me a saúde do corpo, com o bom humor necessário para a conservar. Dai-me, Senhor, uma alma santa que saiba aproveitar o que é bom e puro, e não se assuste à vista do pecado, mas encontre a forma de colocar as coisas de novo em ordem. Dai-me uma alma que não conheça o tédio, as murmurações, os suspiros e os lamentos, e não permitais que sofra excessivamente por essa realidade tão dominadora que se chama “eu”. Dai-me, Senhor, o sentido do humor. Dai-me a graça de entender os gracejos, para que conheça na vida um pouco de alegria e possa comunicá-la aos outros. Assim seja».
[102] Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Amoris laetitia (19 de março de 2016), 110: AAS108 (2016), 354.
[103] Exort. ap. Evangelii nuntiandi (8 de dezembro de 1975), 80: AAS 68 (1976), 73. É interessante notar que, neste texto, o Beato Paulo VI liga intimamente a alegria à parresia. Assim como lamenta «a falta de alegria e de esperança», assim também exalta a «suave e reconfortante alegria de evangelizar» que está unida a «um impulso interior que nada e ninguém pode extinguir», para que o mundo não receba o Evangelho «de evangelizadores tristes e descoroçoados». Durante o Ano Santo de 1975, o próprio Paulo VI dedicou à alegria a Exortação apostólica Gaudete in Domino (9 de maio de 1975): AAS 67 (1975), 289-322.
[104] Cautelas, 15: Opere (Roma 41979), 1072.
[105] São João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Vita consecrata (25 de março de 1996), 42: AAS88 (1996), 416.
[106] Confissões, IX, 10, 23-25: PL 32, 773-775.
[107] Lembro de modo especial as três palavras-chave «com licença, obrigado, desculpa», porque «as palavras adequadas, ditas no momento certo, protegem e alimentam o amor dia após dia» [Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Amoris laetitia (19 de março de 2016), 133: AAS108 (2016), 363].
[108] Santa Teresa de Lisieux, Manuscrito C, 29v-30r: Opere Complete (Roma 1997), 269.
[109] Graus de perfeição, 2: Opere (Roma 41979), 1079.
[110] Idem, Conselhos para alcançar a perfeição, 9: Opere (Roma 41979), 1078.
[111] Vida autógrafa de Santa Teresa, 8, 5: Opere (Roma 1981), 95.
[112] São João Paulo II, Carta ap. Orientale lumen (2 de maio de 1995), 16: AAS87 (1995), 762.
[113] Francisco, Discurso no V Congresso Nacional da Igreja Italiana (Florença 10 de novembro de 2015): AAS107 (2015), 1284.
[114] Cf. São Bernardo, Sermão sobre o Cântico dos Cânticos, 61, 3-5: PL 183, 1071-1073.
[115] Relatos de um Peregrino Russo (Milão 31979), 41;129.
[116] Cf. Exercícios Espirituais, 230-237.
[117] Carta a Henry de Castries (14 de agosto de 1901).
[118] V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, Documento de Aparecida (29 de junho de 2007), 259.
[119] Conferência dos Bispos Católicos da Índia, Declaração final da XXI Assembleia plenária (18 de fevereiro de 2009), 3.2.
[120] Cf. Francisco, Homilia da Missa na Casa de Santa Marta (11 de outubro de 2013): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 13/X/2013), 13.
[121] «Uma das maiores necessidades é a defesa daquele mal, a que chamamos demónio. (…) O mal já não é apenas uma deficiência, mas uma eficiência, um ser vivo, espiritual, pervertido e perversor. Trata-se de uma realidade terrível, misteriosa e medonha. Sai do âmbito dos ensinamentos bíblicos e eclesiásticos quem se recusa a reconhecer a existência desta realidade; ou melhor, quem faz dela um princípio em si mesmo, como se não tivesse – como todas as criaturas – origem em Deus, ou a explica como uma pseudorrealidade, como uma personificação conceitual e fantástica das causas desconhecidas das nossas desgraças» [Beato Paulo VI, Catequese (Audiência Geral de 15 de novembro de 1972): Insegnamenti X (1972), 1168-1170].
[122] São José Gabriel do Rosário Brochero, Sermão das Bandeiras: Conferência Episcopal Argentina, El Cura Brochero. Cartas y sermones (Buenos Aires 1999), 71.
[123] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 85: AAS 105 (2013), 1056.
[124] No túmulo de Santo Inácio de Loyola, lê-se este sábio epitáfio: « Non coerceri a maximo, contineri tamen a minimo divinum est – é divino não se assustar com as coisas maiores e, simultaneamente, cuidar das menores».
[125] Collationes in Hexaemeron, 1, 30.

Sacerdote, o procurador da misericórdia de Deus

Confissão, ato em que você se acusa, mas não é condenado

Quem é que nunca ouviu alguém dizer: “Eu não vou me confessar com um homem, um pecador. Jamais!” Além dessas pessoas, existem outras que não se confessam por vergonha; outras, porque acham que não precisam. Enfim, os motivos são muitos, mas, de todos os motivos, o mais grave ou, talvez, que faça parte de todos os outros é a falta de conhecimento. O que você acha de conhecer a real importância da confissão?

Todo ser humano tem necessidade de compartilhar com outro sobre algo que está vivendo, sobretudo se é algo difícil, um erro, por exemplo. Já percebeu que quando você faz alguma coisa errada, sempre há alguém (às vezes a própria pessoa que praticou o erro com você) que você procura e lhe pede: “Não conta para ninguém”. Então, você fala tudo para essa pessoa. Não é verdade que, muitas vezes, depois de conversar, você se sente um pouco mais leve? É mais ou menos assim que acontece com a confissão, mas com algumas vantagens a mais.

A primeira vantagem da confissão é que você não precisa pedir sigilo ao padre, porque este não pode falar nada a ninguém, não importa o que aconteça. Segundo: quando você fala com uma pessoa qualquer, ainda continua com uma grande culpa pesando sobre você, mas quando você se confessa com o padre, na verdade, está se confessando com Jesus.

O sacerdote, no momento da confissão, é como um procurador. Quando alguém está doente e não pode ir ao banco nem resolver situações jurídicas, este faz uma procuração, e o procurador pode agir civilmente em nome do enfermo. Assim também é o sacerdote. Não importa se a pessoa que está com a procuração tem dinheiro no banco, o que importa mesmo é se quem fez a procuração tem dinheiro no banco; e para nós quem fez a procuração foi Jesus, e Este é riquíssimo em santidade e misericórdia; portanto, pecado confessado, com arrependimento no coração, é pecado perdoado. Além do mais, o Senhor mesmo nos disse para procurarmos os padres e a Igreja, a fim de nos confessarmos (cf. Jo 20,23).

Como dizia o nosso saudoso padre Léo: “Quem se confessa é absolvido, e quem não se confessa é absorvido”. Não seja mais absorvido pelo mal, pelo passado, pelos pecados; não espere a santidade do padre para se confessar, pois, por mais santo que ele possa ser, nunca poderá ter o poder por ele mesmo para perdoar você. O sacerdote é constituído e querido por Jesus, é o “procurador”, aquele quem tem a procuração da Misericórdia de Deus. Procure o padre, não tenha vergonha ou medo, pois a confissão é o ato por meio do qual você se acusa, mas não é acusado; expõe-se, mas não é exposto; pelas palavras, condena, mas não é condenado. Entra como réu confesso e sai absolvido pelo procurador da misericórdia do Senhor.

Pe. Sóstenes Vieira

Via Sacra com os Jovens

Nesta Terça-feira Santa, com piedade e fervor, celebramos a Via-Sacra com os nossos jovens, acompanhando Cristo na sua Paixão e Morte. As reflexões do livrinho dos encontros quaresmais, facilitaram-nos a entrada nos mistérios da gloriosa Cruz de Cristo, que encerra a verdadeira sabedoria de Deus, aquela que julga o mundo e quantos se crêem sábios (cf. 1Cor 1, 17-19). 

 

A incrível jornada Divina de Um Humano

Deus quis ser humano para se mostrar divino. Jesus Cristo, em sua caminhada junto aos humanos, deixou uma extraordinária herança, uma intensíssima lição de amor, um maravilhoso tratado de vida, um impressionante exemplo de compromisso, de responsabilidade e de resiliência, tudo sem escrever uma linha sequer. Seus passos, suas palavras, seus milagres, sua bondade e sua rudeza, ficaram registrados nos Evangelhos de seus mais letrados discípulos.
E até hoje e por todos os tempos que ainda virão, todos terão a oportunidade de escutar e absorver Seus ensinamentos. Regra de vida e guia de santidade, o objetivo que cada cristão busca e encontra está à disposição nas Sagradas Escrituras. Deus veio entre nós, caminhou, amou e salvou as pessoas, foi traído, padeceu e foi brutalmente torturado e assassinado, por homens e mulheres.
Hoje, novamente temos a chance de ouvir, perceber e entender a mensagem que Jesus nos deixou. Com sofrimento, humilhação e morte na cruz, Cristo quer nos dizer: “Eu, vos amei primeiro, amem-se uns aos outros”.
Os jovens da Paróquia Nossa Senhora da Piedade, através dos movimentos do CLJ e do Onda, têm experimentado e vivenciado o Amor maior.
No dia 27 de março, com a presença de muitas pessoas da comunidade e com o desempenho de vários jovens, tivemos a oportunidade de ter uma bonita experiência visual encenada do que foi o envolvimento abominável dos poderes políticos e religiosos da época, a ganância e a inveja de uns tantos e o sofrimento de uma Mãe abraçando a palidez inerte de seu Filho no suplício de Jesus Cristo encerrando sua caminhada terrena.
Na Semana Santa, sofrendo e chorando com Maria e Jesus e absorvendo Suas palavras e Seus atos para as nossas vidas. Que a Mãe da Piedade e Jesus Cristo morto e ressuscitado, sempre encontrem guarida em nossos corações.
Feliz Páscoa de 2018!
Tio Irineu

A purificação do coração transformará o mundo

Seja extirpada a mentira do coração e da fala!

Da Igreja se diz que sempre pode ser reformada e renovada. Verdadeiras transformações são realizadas em seu seio, muito mais pela santidade de seus filhos do que por eventuais projetos de transformação, ainda que estes sejam necessários, na justa medida e no realismo de seus encaminhamentos. A santidade presente na Igreja é prova de que nela habita seu esposo, que a amou e se entregou por ela, para torná-la santa e perfeita. À santidade que é dom descido do Céu, pela ação do Espírito Santificador, derramado abundantemente em todas as épocas da história, deve corresponder o esforço humano, que se expressa na prática da virtude em todos os seus membros.

O povo de Deus recebeu, por intermédio de Moisés, a perfeição da lei (cf. Ex 20, 1-17ss). Um santo orgulho era cultivado por todos, por saberem ter, no decálogo, o que existe de melhor para toda a humanidade. No entanto, muitas vezes aqueles que tinham sido escolhidos com tamanha gratuidade e generosidade se tornaram um povo de cabeça dura, infiéis aos preceitos do Senhor, profanando a santidade com a qual tinham sido escolhidos. A este povo foram enviados continuamente os profetas, que anunciavam a misericórdia e o perdão e, ao mesmo tempo, denunciavam as falhas das sucessivas gerações. Nem sempre foram bem acolhidos, alguns morreram testemunhas da verdade, mas todos eles, quando verdadeiros profetas, iluminaram com sabedoria a prática religiosa.

Profeta é aquele que fala diante dos outros com clareza, ou aquele que põe à disposição de Deus a sua fala, para que o Senhor se dirija ao povo. Jesus, que é profeta e mais do que profeta, encontra pecadores e os perdoa, acolhe publicanos e prostitutas, cura as doenças do corpo e da alma. Seus gestos proféticos, como a purificação do templo (cf. Jo 2, 13-15), expressam o zelo amoroso e forte de Deus que O devora por dentro. O verdadeiro Templo, edificado por Deus e reedificado após a morte redentora em três dias, na ressurreição, é o próprio Cristo. Está agora presente em toda parte. Seu amor salvador é destinado a todos os homens e mulheres de todos os tempos. Dali para frente, Jesus atrai todas as gerações. O ponto de chegada, Nova Jerusalém, abre-se como espaço acolhedor, casa de oração para todos os povos, abraço amigo em que, começando dos mais distantes, todos podem ser recebidos.

Templo a ser purificado são também os corações e os corpos de todos os homens e mulheres que professam a fé. Deixando o Senhor entrar em suas casas e em suas almas, proclamem um tempo de conversão, deixem-se tocar pela palavra da penitência e se voltem de novo para Deus. Ressoe o pregão quaresmal incansavelmente em nossas ruas e casas!

Nossa geração precisa também ser purificada e acolher o convite a uma renovação de vida. O “chicote” da verdade, que fere e cura a ferida, é-nos de novo oferecido como dom. Quem se submete à Palavra de Deus entenderá a dureza da palavra da verdade, que ao mesmo tempo cauteriza todos os machucados. Caia o orgulho de Babel, terra da confusão, desmorone-se a grande Babilônia, cidade que quer se edificar sem Deus! Caiam e renasçam renovadas e purificadas as estruturas humanas construídas sobre os fundamentos do egoísmo. Sejam expulsos dos pátios dos templos e dos espaços abertos nos corações os negócios ilícitos. Seja extirpada a mentira do coração e da fala! A profanação do sagrado seja superada e a vida dos cristãos seja o desagravo por todo o desrespeito reinante. O descaso pela vida seja curado, a saúde se difunda sobre a terra!

Para chegar lá, a purificação dos templos e dos corações ilumine os passos de todos os cristãos, para que eles sejam fermento de novos valores nas estruturas do mundo. Superando o denuncismo fácil, sejam construtores e companheiros de tantas pessoas de boa vontade, para edificar juntos as desejadas estruturas diferentes na sociedade. Sejam eles próprios homens e mulheres de tamanha capacidade de relacionamento, que arrebanhem, mesmo no silêncio, multidões de pessoas.

O que não pode faltar, neste tempo da Quaresma, é o engajamento de todos no projeto de um mundo diferente. Seu início ocorre nos corações, pelo que havemos de pedir confiantes: “Ó Deus, fonte de toda misericórdia e de toda bondade, vós nos indicastes o jejum, a esmola e a oração como remédio contra o pecado. Acolhei esta confissão da nossa fraqueza para que, humilhados pela consciência de nossas faltas, sejamos confortados pela vossa misericórdia” (Oração do dia no III Domingo da Quaresma).

Dom Alberto Taveira Corrêa Arcebispo de Belém – PA

Retiro de carnaval

Sex

LEVE UMA VIDA SANTA
Padre José Augusto

Quero lhes fazer um pedido: sejam santos, lutem pela santidade. A única coisa que Deus quer de nós é a santidade, pois é por meio dela que estaremos com Ele na eternidade. Não tenham vergonha de Jesus Cristo, porque se isso ocorrer, o Senhor também terá vergonha de você. Não há motivos para termos vergonha de Cristo. É ilógico termos vergonha de quem que deu a vida por nós! No dia a dia, numa conversa na faculdade, não tenha vergonha de se dizer cristão, de dizer que vai à Missa, que participa de grupos de jovens. Estamos numa sociedade secularizada que está se esquecendo de Jesus Cristo, pois os filmes, as novelas, os jornais e livros não falam mais do Senhor. A intenção é abafar, fazer com que o nome de Cristo seja esquecido totalmente. Mas se, junto dessa sociedade, nós também nos calarmos, ficarmos frios e nos esquivarmos do Senhor, Deus realmente será esquecido. Daí, eu lhes pergunto: “Quem irá nos salvar?”.
A segunda condição para você ser santo é amar mais o céu do que a terra. Nós estamos no mundo, mas precisamos saber que Jesus veio do céu. Nós fomos criados do nada, depois gerados no ventre de nossa mãe. No entanto, agora estamos caminhando em direção ao céu. Nós estamos neste mundo apenas de passagem. Quando vocês passarem a amar mais o céu, serão mais santos. Desejem ter uma vida santa para um dia estarem com Deus. Aspirem a eternidade. O Evangelho de hoje nos diz: “de que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro se perde a própria vida?” (Marcos 8, 36). Amar a Deus sobre todas as coisas, ser somente d’Ele, fazer tudo por Ele; tudo por Jesus. Não estou falando de uma fantasia, de um super-herói, mas de uma realidade, que é Jesus Cristo, pois Ele morreu por nós, ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus e está sentado ao lado do Pai. Essa é a minha fé, essa é a fé da Igreja. Esse é o grito que a humanidade precisa ouvir. No entanto, querem abafá-la de nós, mas isso não irá acontecer, porque somos de Cristo. No Evangelho, Jesus diz: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Marcos 8, 34).
Você, que é seguidor de Nosso Senhor, o que Ele tem lhe pedido para renunciar? Estou junto com você nesse processo de renúncia. Eu não nego que sou seguidor de Jesus; há 26 anos eu O sigo, mas ainda há muita coisa que eu preciso abdicar. Há coisas neste mundo que não são fáceis de serem renunciadas. Não pensem que isso é feito num piscar de olhos. Se você sabe disso, empenhe-se cem vezes mais do que já tem feito, pois pode ser isso que o impeça de entrar no céu. Peça ao Senhor que lhe dê força, que lhe dê a graça de ser melhor cada vez mais. Precisamos ser melhores. Rezem pelo amor de Deus, rezem por vocês. Uma vida santa é um contínuo questionamento para sabermos quem somos. “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, a saber, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito” (Romanos 12, 2). Neste mundo secularizado, procure ver o que é bom e o que agrada a Deus. O Evangelho é Palavra de salvação, por isso precisa ser pronunciado.

 

Sab

É PRECISO VIVER NA VONTADE DE DEUS
Padre Roger Luís

Deus nos convida neste carnaval para nos retirarmos para Ele revelar Sua vontade para a nossa vida. O apóstolo Paulo diz que Deus preparou para aqueles que O ama, nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem ninguém sentiu. Escolher passar o carnaval na Canção Nova é prova de amor, Deus reservou graças para você neste carnaval. Às vezes ficamos esperando e não damos nenhum passo para nossa felicidade.
“Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e os levou sozinhos a um lugar à parte sobre uma alta montanha. E transfigurou-se diante deles. Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar. Apareceram-lhe Elias e Moisés, e estavam conversando com Jesus. Então Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Pedro não sabia o que dizer, pois estavam todos com muito medo. Então desceu uma nuvem e os encobriu com sua sombra. E da nuvem saiu uma voz: “Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz!” “E, de repente, olhando em volta, não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus com eles. Ao descerem da montanha, Jesus ordenou que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos. Eles observaram esta ordem, mas comentavam entre si o que queria dizer “ressuscitar dos mortos. Os três discípulos perguntaram a Jesus: “Por que os mestres da Lei dizem que antes deve vir Elias?” Jesus respondeu: “De fato, antes vem Elias, para pôr tudo em ordem. Mas, como dizem as Escrituras, que o Filho do Homem deve sofrer muito e ser rejeitado? Eu, porém, vos digo: Elias já veio, e fizeram com ele tudo o que quiseram, exatamente como as Escrituras falaram a respeito dele”.
Ser discípulo de quem faz milagre é fácil, mas é difícil ser discípulo daquele que vai até a cruz, e que nos promete a cruz em nossas vidas. Deus coloca os discípulos no Monte Tabor eles experimentarem um pouco do céu. A Canção Nova tem tentado ser um Monte Tabor para que quando descermos para a nossa realidade, lembremos que existe um céu e que vale a pena perseverar. Não desista quando a cruz pesar, lembre que vale a pena deixar a droga, vale a pena renunciar o sexo antes do casamento. Tudo isso vale a pena por causa do céu. Que nos momentos da cruz em nossa vida, lembremos que há um céu para nós. Você é convidado fazer a vontade de Deus, estar na vontade de Deus nos realiza até na dor.

 

UM CORAÇÃO PURO E DECIDIDO
Dunga

“Cria em mim, ó Deus, um coração puro, renova em mim um espírito resoluto” (Salmo 51,12). Buscar a Deus já é uma tremenda decisão da parte de cada um de nós. Muitos vem até a Canção Nova motivados por amigos, ou por diversos problemas na sua vida, são muitas motivações que te trouxeram aqui neste retiro, mas tenha a certeza absoluta que Deus está olhando para você sorrindo, Ele está feliz em te ver aqui, por você ter optado por estar aqui e rezar. Quem toma uma decisão está praticamente resolvendo um problema, e quem demora muito para tomar uma decisão, está praticamente arrumando um problema.
Lembra da Palavra: “se fôsseis morno Deus te vomitaria?” – o morno cria problema para si próprio. Ele vai retardando a decisão. Quem dá vida a minha alma é o Espírito, isso diz o salmista, renova em mim um espírito resoluto, uma alma decidida, pura, resoluta, com personalidade.
Você diz assim: “eu resolvo amanhã”, mas o amanhã não existe, o único dia que existe é o hoje. Para se fazer o papel, a matéria prima é o eucalipto, que passa por todo um processo até se tornar branco. Se nós comparássemos este processo com cada um de nós, iríamos perceber como Deus tem trabalhado em nós com sua misericórdia infinita. Muitas vezes no auge do nosso pecado, ficamos cansados, porque o pecado nos cansa, até o prazer do corpo tem fim, mesmo o prazer da comida dura rápido, o corpo não aguenta tanto tempo no pecado. Você não pode dormir mais de 8 horas, que seu corpo já começa a reclamar, você começa a ter dores no corpo, dores de cabeça. Se o processo da madeira para fazer o papel é duro, para que se torne um papel branco, imagine cumprir esta palavra: ”criai em mim um coração puro”, pensa no trabalho de Deus para tornar este coração puro, vai dar trabalho, é isso mesmo que você quer ?
A cada passo que você dá em direção a Deus, as impurezas do seu coração vão saindo. Aquele pensamento em que você se deleitava nele, hoje você pede a Deus que ele saia. Você pediu um coração puro e você o terá, você verá que seus atos vão mudar, a natureza vai continuar a pedir para atender os desejos da carne, mas o seu interior vai querer viver na santidade. Como foi difícil você chegar até aqui arrastando estas tralhas que você trouxe, eu não sei o que é, pode ser o homem velho, o pecado, seus problemas. É muito esforço que você está fazendo de carregar tudo isso, eu nem desconfio que peso é esse que você carrega, mas o Espírito Santo já está trabalhando em você. Você precisa cortar a corda que está te amarrando em todo este peso, você precisa tomar esta decisão. Você não pode viver de ressentimento, viver de novo aqueles sentimentos que tanto te fizeram mal, isso vai acabando com você. Você vai ao médico e não encontra nada em você, mas você está sofrendo por causa do seu desejo de vingança, do seu ressentimento. Você se confessou, mas você não assumiu que Deus já te perdoou. A decisão que você está tomando de vir para cá é fácil, mas a decisão de cortar tudo aquilo que te prende é muito mais difícil.
Quando você tomar a decisão, você entrará num novo tempo, você vai ver a graça de Deus acontecer na sua vida. Jesus na Palavra se encontrou com aqueles dez leprosos, e você pode considerar que aqueles dez leprosos é a sua casa, aqueles que moram com você. Jesus os ouvia gritar: ”Jesus, mestre tem compaixão de nós”. A sua casa precisa gritar essa frase. Jesus não curou os leprosos imediatamente, mas Ele disse para os leprosos se apresentarem ao sacerdote, e no caminho a cada passo as feridas iam embora e eles iam vendo um no outro a cura realizada por Jesus. Você eu temos uma vida inteira para vermos um no outro a cura de Deus nos irmãos, nos da nossa casa.

 

LIBERTOS DAS AMARRADAS DO PASSADO
Márcio Mendes

Você é um homem de Deus, você é uma mulher de Deus. Quando estamos em Deus queremos descobrir o que Deus tem para nós. Se você busca a Deus, você nunca ficará perdido. Você pode dizer que houve momentos na sua vida que você ficou perdido, mas Deus te encontrou.
“Desde o princípio Deus criou o ser humano e o entregou às mãos do seu arbítrio, * { e o deixou em poder da sua concupiscência. }15.Acrescentou-lhe seus mandamentos e preceitos e a inteligência, para fazer o que lhe é agradável.16.Se quiseres observar os mandamentos, eles te guardarão; se confias em Deus, tu também viverás.17.Diante de ti, ele colocou o fogo e a água; para o que quiseres, tu podes estender a mão.18.Diante do ser humano estão a vida e a morte, o bem e o mal; ele receberá aquilo que preferir.19.A Sabedoria do Senhor é imensa, Ele é forte e poderoso e tudo vê * { continuamente. }20.Os olhos do Senhor estão voltados para os que o temem; Ele conhece todas as obras do ser humano.21.Não mandou ninguém agir como ímpio e a ninguém deu licença para pecar” (Eclesiástico 15, 14-21).
Toda transformação na vida da gente tem que partir da verdade. A verdade é o ponto de partida para a transformação, para a vida nova. Quando você busca o Senhor Ele ilumina seu caminho, e a sabedoria passa a te visitar de maneira nova. Quem busca o Senhor nunca fica perdido, Deus mostra por onde caminhar. Existe um caminho infalível para a felicidade. Quando a pessoa coloca em prática a Palavra de Deus, a pessoa é resguardada pela Palavra. O caminho infalível para a felicidade, é colocar em prática a Palavra de Deus. Não adianta saber, é preciso querer fazer a coisa certa. A pergunta que deve acompanhar você que veio até aqui é: “Estou fazendo a coisa certa? Nesta minha vida tão curta eu estou sendo agradável àquele que me criou?” Peça a Deus o que você quiser, mas saiba que quem manda na sua vida é Deus, pelo contrário, você será o deus e não Ele. É Deus quem governa a nossa vida, basta nos lembrarmos disso para que nossos fardos se tornem mais leves. Você já parou para pensar que talvez você seja o grande meio para salvar as pessoas que convivem com você? É nossa missão.
Imagine se você estivesse nesse mundo só para se realizar e ser feliz, sua vida seria um fracasso. Quanta coisa difícil você já experimentou e teve que superar, quem quer só se realizar, diminui muito o que é a vida. Os grandes homens descobriram que o sentido da vida é servir a Deus e por causa de Deus servir aos outros. Quantas pessoas você conhece que se tornaram infelizes porque a vida delas era se preocupar consigo. Quanta gente você conhece que se tornaram infelizes porque se fecharam em seu passado, vivem dos restos que não voltam mais, estão presas nas lembranças e não conseguem avançar. São João da Cruz diz: “não importa se o passarinho está amarrado com uma corrente de aço ou um barbante, ele nunca vai voar”. Essas coisas que no seu passado foram românticas e bonitas, e quando você se lembra te prende ao passado, não irão voltar. Às vezes as pessoas fazem de tudo para avançar, mas a vida delas não deslancha. Por que é que não deslancha? Porque o coração está amarrado a um fato que ela não se liberta, não avança.
Você precisa se desamarrar do passado que te prende na tristeza. Deus não te fez triste, a tua tristeza não é agradável a Deus. Existe um remédio para a tristeza, ela precisa ser lavada com o perdão. Você não é, nunca foi e nunca será uma pessoa triste porque Deus não te fez triste, você pode está triste, mas se você lavar o seu passado com o perdão você ficará livre da tristeza. Você não pode deixar que a paixão vivida no passado te impeça de viver um novo amor. Quantas mulheres não se realizaram afetivamente porque ficaram presas a um amor ilusório. Quantos homens casaram com uma mulher, com o coração preso a outra; não deixe que uma paixão do passado continue destruindo seu relacionamento.

 

O DESEJO DE SER FELIZ
Adriano Gonçalves

Estou muito feliz de está aqui, e mais feliz ainda de saber que você escolheu nestes dias de carnaval viver uma experiência com Deus. Tenho certeza que estes dias serão dias de felicidades. Quero convidar vocês a tirarem uma foto da pessoa que está do seu lado, para registrar este momento de felicidade. A sua alegria aqui é grande, mas será maior ainda quando vocês voltarem para casa, porque estes dias vocês terá um tratamento de “beleza” com Jesus, pois tenho certeza todos viverão uma experiência com Jesus. Porém, a maior felicidade deste mundo, ainda não se pode comparar com a alegria que nos espera no céu. O que poderia fazer você mais feliz? Ganhar na loteria? Perder alguns quilos? Encontrar a pessoa amada e ouvir ela dizendo que te ama? Sinceramente você acha que tudo isso é capaz de lhe dar a felicidade?
Pesquisadores americanos da Universidade de Harvard, foram pesquisar a razão da felicidade, e divulgaram o resultado no ano passado, descobriram que a felicidade não está nas coisas, conquistas, mas sim dentro do coração. E para alcançá-la são necessários dois pontos: Fortes laços afetivos, e um sentido para a vida, ou seja, busca a Deus. Nos cristão já entendemos isso há muito tempo, Jesus nos ensinou dois mandamentos que resumem toda a pesquisa dos cientistas, a ordem de amar a Deus e ao próximo. Se vivemos isso, nós doando a Deus e aos outros, certamente seremos felizes. Recentemente li um testemunho de um homem que perdeu tudo na vida após um acidente, uma queda, ficou cego por alguns dias, mudou de profissão, foi abandonado por seus amigos, preso em virtude de suas novas ideias e valores, apanhou muito, como se não bastasse o navio no qual ele viajava afundou, mas suportou tudo isso com alegria, e na cadeia escreveu uma carta aos seus amigos, dizendo o seguinte: “Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos! Seja conhecida de todos os homens a vossa bondade. O Senhor está próximo. Não vos inquieteis com nada! Em todas as circunstâncias apresentai a Deus as vossas preocupações, mediante a oração, as súplicas e a ação de graças”. Este homem foi São Paulo, a carta se encontra em Filipenses 4, 4-6.
O Apóstolo Paulo, mesmo em meio a muitos sofrimentos descobriu o segredo da felicidade na alegria de servir ao Senhor. Meus irmãos, é a busca pela felicidade que move o mundo, as indústrias já descobriram que o homem deseja incansavelmente ser feliz, por isso querem colocar nos produtos, nas coisas a felicidade, porém ela está dentro de nós, de forma alguma podemos encontrá-la nas coisas, mas sim dentro do nosso coração. Quando buscamos a felicidade fora caímos em um abismo e jamais seremos saciados, por isso, não podemos projetar nossa capacidade de sermos felizes nas coisas. Basta olhar para galera que está no carnaval enchendo a cara, fantasiados, entendemos que eles estão buscando a felicidade nestas coisas, porém, estão jamais serão verdadeiramente saciados, procuram a felicidade fora de Deus, longe da voz do seu coração.
No carnaval cristão não há fantasias, máscaras, porque assumimos que somos filhos de Deus, e entendemos que nossa felicidade está nele, e o buscamos em sua morada dentro de nós. Meus irmãos, nestes dias iremos encontrar verdadeiramente nossa felicidade, pois em nosso coração pulsa está vontade, e aqui, independente de tudo o que vivemos até agora, inclusive nossos pecados, hoje Deus nos dá uma oportunidade única, no lugar certo, nos dias certos, para encontramos a felicidade que tem um nome: Jesus!
O Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 33 nos ensina que o desejo de felicidade foi colocado pelo próprio Deus no coração do homem. Esta felicidade ela tem um nome, tem um rosto, Jesus de Nazaré, conforme afirmou Papa Bento XVI. Meus irmãos agora é o momento de ser feliz, você nasceu para ser feliz, neste carnaval, o maior evento é você, seu encontro com a verdadeira felicidade, Jesus. Por isso lhe convido a dá uma chance a Ele, e certamente Jesus te encontrará, e você será feliz. Porém, você é livre, há em suas mãos está bela oportunidade de ser feliz. Tenho certeza que a alegria fruto do Espírito Santo vai te envolver nestes dias, e assim você produzira sementes para a eternidade. Saiba que a força do Senhor é a nossa alegria, Ele mesmo promete a plenitude da alegria.
Você nasceu para ter um sorriso largo, uma felicidade do céu, pois a força do Senhor é a sua alegria. Então lhe digo coragem, assuma o Senhor em sua vida hoje, pois Ele quer lhe dá a felicidade verdadeira. Assim, não nos resta outra coisa a não ser cantarmos a música: Santos ou Nada! Cantemos com todo o nosso coração desejando a santidade, na alegria, na certeza que Ele não nos tira nada, nos dá tudo, que é a verdadeira felicidade. Ou Santos ou Nada! Santos queremos ser!

 

Dom

ADESÃO A FILIAÇÃO DIVINA
Padre Fabrício Andrade

É Deus que confirma, a nós e a vós, em nossa adesão a Cristo. A liturgia de hoje nos convida a tomarmos uma decisão, a configurar a nossa vida com a de Cristo Jesus, para assim, testemunhá-lo com autenticidade. Adesão é consentir, tomar parte, é Deus quem nos confirma, em nossa adesão e ela requer uma mudança de vida. Porque, quando tomamos uma decisão, esta vai configurando nossa vida! Hoje é dia de decisão. Precisamos dar uma resposta a Deus.
As leituras de hoje, Deus mesmo vem nos advertir: Pare de ficar lembrando das coisas do passado, Deus hoje quer atualizar em você a sua filiação divina (Isaías 43, 25): Sou eu, eu mesmo, que cancelo tuas culpas por minha causa e já não me lembrarei de teus pecados”. Deus que tomou a iniciativa de escolher você, Ele é sempre fiel. E quantas e quantas vezes nós vacilamos em nossa fé e nos afastamos de Deus, e pouco a pouco fomos nos desconfigurando, paralisando no processo de conversão e espiritual. Hoje, precisamos fazer um exame de consciência, para tomarmos uma decisão madura.
O evangelho diz que hoje é o tempo favorável. Jesus estava cercado por uma multidão, e anunciava-lhes a Palavra de Deus, e é o que nós estamos experimentando nesse carnaval, uma grande multidão, onde o centro deste carnaval é Jesus Cristo. Levaram para Jesus um paralítico, carregado por quatro homens, vou parar por aqui, porque, esse é o detalhe mais importante deste evangelho, e muita gente deve ter perdido este detalhe. Por isso, eu quero chamar a sua atenção, porque muitas vezes o mundo não nos deixa entender as palavras escritas no evangelho, aqui no evangelho diz que havia quatro homens e um paralitico, e é isso que o mundo quer fazer conosco, nos rotular, veja, eram cinco homens, porque o paralítico era um homem, mas o que mais chamou a atenção deles foi o seu “rótulo” de paralítico… hoje o mundo quer nos rotular pelo nosso pecado, como por exemplo: a pessoa que roubou é um ladrão, a pessoa que matou alguém é um assassino, a pessoa que faz o uso de drogas é um drogado ou viciado.
Mas hoje Deus vem nos mostrar que o pecado e o erro não tem o poder de transformar a nossa identidade. O evangelista narra do começo ao fim esta passagem usando o rótulo daquele como um paralítico. Mas a principal característica deste evangelho foi o encontro do paralítico com Jesus. Jesus vê a fé daqueles homens, assim como também nós precisamos ter fé para ultrapassar as nossas paralisias, aqueles amigos do paralítico, não desistiram diante dos obstáculos, nem mesmo uma multidão, mas persistiram para levá-lo até Jesus. Veja, Jesus estava pregando em uma casa e de repente, o centro atenção daqueles que ali estavam, passa a ser o paralítico, onde muitas vezes em nossa vida colocamos no centro de nossa vida a nossa paralisia, diz o evangelista que Jesus fala com o paralítico, que neste texto todo era citado como paralítico, Jesus diz: “Filho, seus pecados estão perdoados”.
Jesus inicia um processo de cura daquele homem, através do resgate de sua identidade de filho de Deus. Quantas e quantas vezes rotulamos as pessoas, e esquecemos que por detrás dos rótulos existe uma pessoa. Jesus está nos ensinando a não olharmos para os rótulos, pecados e misérias das pessoas, mais nos incentiva a olhamos primeiramente para a pessoa.
Na segunda leitura (2Cor 1, 22)Deus mesmo nos fala: “Foi ele que nos marcou com o seu selo e nos adiantou como sinal o Espírito derramado em nossos corações”. Ninguém tem a coragem de pedir perdão se não se reconhece como filho de Deus, mas quando nós nos esquecemos desta condição, de que fomos feito as imagem e semelhança de Deus, começa em nossa vida um verdadeiro baile de máscaras. O mundo quer que esqueçamos que somos filhos de Deus. O filho que esquece que tem Pai transforma a sua própria vida em baile a fantasia, quando eu esqueço que eu sou um filho de Deus eu me empresto, desgasto o meu corpo, o alugo o tempo inteiro para o pecado.
Todo pecado dos mais graves aos mais leves que seja, são precedidos pela falta da experiência de Deus. Quando nós perdemos a referência de Deus, perdemos tudo. Passamos querer naturalizar as nossas fantasias em realidade. Quando nós perdemos a referência de Deus, transforma mentira em verdade.
O que a liturgia está nos mostrando é que não podemos perder a nossa referência, somos filhos de Deus. Em Romanos 8, 19 diz: “De fato, toda a criação espera ansiosamente a revelação dos filhos de Deus; pois sua criação foi sujeita ao que é vão e ilusório, não por seu querer, mas por dependência daquele que a sujeitou. O mundo está querendo mascarar os filhos de Deus, para que esta manifestação dos filhos de Deus não aconteça.
O carnaval do mundo nos fala que nos podemos ser o que queremos, podemos realizar as nossas fantasias, pois são só quatro dias, mas depois do carnaval nos tornamos um nada. O paralitico do evangelho de hoje entrou naquela casa como um nada, ele nem era contado com o número dos homens presentes, e saiu de lá como um filho de Deus. “Quem esquece que é filho de Deus se transforma num filho de qualquer uma”.
O evangelho começou com um paralítico, hoje somos nós estes paralíticos e estamos em muitos aqui, só que o centro da nossa atenção não é a nossa paralisia, e sim o ser filho de Deus, A filiação divina desmorona a nossa fantasia, E Jesus continua falar com o paralítico: “Levanta-te,” nesta ordem Jesus toca na realidade dele naquele momento, “toma a tua cama,” imagine o sofrimento daquele homem, quanto que ele sofreu naquela cama, e Jesus mandou ele tomar aquele cama, justamente para lembrá-lo do seu passado, da sua história, e como ele chegou diante de Jesus, mas a ultima ordem de Jesus é espetacular: “vai para tua casa!” e a mais bonita, porque Jesus não estava apenas curando aquele homem, Ele estava pensando na família e no futuro daquele homem, Quando um homem lembra que é um filho de Deus o mundo não consegue fantasiá-lo de outra coisa.
Hoje nós somos convidados a temos uma atitude, que ira mostrar a nossa adesão à filiação divina, vou-lhe fazer uma pergunta e a sua resposta precisa ser decisiva, a partir da liturgia de hoje, o que você é paralitico ou filho de Deus? Quando a proposta do pecado chegar até você, você também convidado a proclamar que você é filho de Deus!

 

A ESCOLHA ENTRE DUAS ESTRADAS
Ricardo Sá: Eu sei que Nossa Senhora está aqui para trabalhar em seu coração como você nunca tinha percebido. Nossa Senhora revelou para nós que precisamos fixar nossos olhos em Jesus. Sou eu quem escolho ter Jesus por perto, pois eu quero e eu acolho Jesus na minha vida. “Se quiseres observar os mandamentos, eles te guardarão; se confias em Deus, tu também viverás. Diante de ti, ele colocou o fogo e a água; para o que quiseres, tu podes estender a mão” (Eclesiástico 15, 17-16).
Eliana Sá: Durante a oração da manhã foi pedido para aqueles que não oravam em língua que levantassem o braço, Deus quer dar este dom a você hoje, Ele quer dar este dom que é o menor de todos, é com este auxílio do céu que vamos aprender a decidir entre o bem e o mau.
Ricardo: Queremos seguir em frente sabendo que precisamos escolher novamente a cada dia. As suas lágrimas vão te levar para o céu, suas dores, seus pés ensanguentados vão te levar para o céu. É preciso renunciar a si mesmo a cada dia. O que ninguém vê em você, mas que faz de você um cristão de verdade, tenha a certeza que Jesus vê.
Eliana: Não perca tempo com aquilo que é passageiro, não perca tempo com novelas. Eu me preocupo muito com o que as novelas fazem nas nossas famílias. Os cristãos não podem dar IBOPE para as novelas. As novelas podem ter bons atores, podem até parecer um cinema, mas só tem feito mau às nossas famílias. O bem e o mau estão a sua frente, só Deus te dá forças para escolher o bem. O que você tem escolhido? O caminho fácil ou o caminho estreito, cheio de espinhos e de pedras? Nós tropeçamos tentando acertar, e isso acontece mesmo, caímos por cima das pedras, dos espinhos, mas no final desta estrada, diz Santa Faustina, há um jardim de felicidades.

 

DECOLAR COM O AUXÍLIO DA GRAÇA
Padre Roger Luís

“Grandes multidões acompanhavam Jesus. Voltando-se, ele lhes disse:26.“Se alguém vem a mim, mas não me prefere a seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs, e até à sua própria vida, não pode ser meu discípulo.27.Quem não carrega sua cruz e não caminha após mim, não pode ser meu discípulo.28.De fato, se algum de vós quer construir uma torre, não se senta primeiro para calcular os gastos, para ver se tem o suficiente para terminar?29.Caso contrário, ele vai pôr o alicerce e não será capaz de acabar. E todos os que virem isso começarão a zombar:30.‘Este homem começou a construir e não foi capaz de acabar! ’31.Ou ainda: um rei que sai à guerra contra um outro não se senta primeiro e examina bem se com dez mil homens poderá enfrentar o outro que marcha contra ele com vinte mil?32.Se ele vê que não pode, envia uma delegação, enquanto o outro ainda está longe, para negociar as condições de paz.33.Do mesmo modo, portanto, qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!34.“O sal é bom. Mas se até o sal perder o sabor, com que se há de salgar?35.Não serve nem para a terra, nem para o esterco, mas só para ser jogado fora. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Lucas 14, 25-35).
É preciso entender esse ensinamento de Jesus sobre a renúncia. Você é capaz de dar passos decididos no seguimento de Cristo porque você é do céu, e Deus te faz capaz. Nós precisamos ser realistas, é fácil renunciar as coisas desse mundo? Não. É bonito ver a revelação de Deus que não nos engana, que fala que nós teremos uma cruz, mas é de Deus que recebemos essa força para renunciar as coisas velhas. Para preparar essa pregação eu precisei olhar para as minhas fraquezas, pois eu não estou pronto. Mas eu posso dizer é possível viver o discipulado de Jesus Cristo aqui nesta terra. Deus te trouxe aqui para te dar uma vida nova, para transformar você em um homem novo.
Vale a pena seguir Jesus, existe uma graça atual, que atua hoje e nos faz capaz de dar os passos na radicalidade do Evangelho e renunciar aquilo que não é de Deus, é graça eficiente. Eu vivia nas baladas, até que um dia eu fui batizado no Espírito Santo, e a graça eficiente começou atuar na minha vida. E depois quando eu ouvi uma pregação do Monsenhor Jonas Abib eu mudei de vida. “Se alguém está em Cristo é criatura nova, passou o que era velho. Tudo se fez novo” (conforme II Cor 5,17). Eu aprendi com Padre Paulo Ricardo que nós que já experimentamos um dia a conversão, temos uma segunda “decolagem”, segunda conversão. Você não pode voltar atrás na sua conversão. “De fato, se, pelo conhecimento do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, escaparam uma vez da contaminação do mundo, mas novamente se deixam enredar e por ela são dominados, no fim estão piores que no começo” (II Pedro 2, 20).
Não podemos voltar atrás na nossa decisão por Deus. Precisamos da segunda conversão, e que passo devemos dar? É hora da segunda “decolagem” que é aquela da virtude teologal da caridade e do amor, é amar a Deus com toda a força e com todo coração. Foi essa decisão que os santos tomaram, que Madre Teresa de Calcutá tomou. Aqui recebemos uma graça santificante que confirma nossa decisão, mas é preciso tomar uma decisão. A primeira decisão Deus já tomou por você e Ele nunca vai voltar a atrás, e você? Será que não chegou a hora?
Peça ao Senhor a graça de tomar a decisão para a segunda “decolagem”, essa segunda “decolagem” é quando não temos mais vergonha do que as pessoas falam de nós por sermos radicais, o importante é o que Deus pensa de mim. Deus pensa em céu, vida eterna, salvação. “O que esperamos, de acordo com a sua promessa, são novos céus e uma nova terra, nos quais habitará a justiça” (II Pedro 3, 13). Leia II Pedro 3, 1-13. Eu não sei qual é o seu pecado, sua fraqueza, eu sei que céus novos e uma terra nova vão se realizar, e Deus não quer perder você.

 

A SANTIDADE ESTÁ A CAMINHO
Eugênio Jorge

Meus irmãos, amar, seguir, adorar, entregar a Jesus é fruto de uma decisão, nesta tarde somos convidados a buscar dentro do nosso coração a motivação para glorificarmos a Deus, porque ninguém pode impedir-nos de tomarmos a decisão pelo Senhor. Quando queremos, ninguém tem o poder de nos deter, então vamos obedecer, amar, adorar a Deus de verdade nesta tarde. Hoje eu lhe convido a adorá-lo com toda a sua vida. Quantos de vocês querem adorar a Deus de verdade hoje? Sei que muitos estão unidos a nós em todo o mundo com o desejo verdadeiro de adorar a Deus. Então levante a sua voz, e solte o seu louvor a Deus. Deus quer estabelecer conosco uma relação, sua essência é salvar. Ele deseja amar e salvar a todos nós.
Então diga no íntimo do seu coração: Salva-me Senhor, ama-me Senhor, perdoa-me, cura-me, lava-me, sonda o meu coração e livra-me das minhas lepras, dos meus pecados, dos pesos que carrego sobre mim, visita Senhor o meu coração, as áreas escondidas e salva-me. Há 28 anos atrás quando compus a canção: “A Ele a Glória”. A canção que diz: “Alfa, Ômega, Princípio e Fim, sim Ele É, sim Ele É…” Não imagina que uma frase desta música, teria a força de guiar toda a minha vida, quando canto: “A Ele o Domínio, Ele é meu Senhor”. Tenho certeza que Ele é o meu Senhor, o Deus da minha vida. Mas não é nada fácil ainda hoje estou aqui neste vale de lágrimas lutando para que Deus dite as coisas para que eu obedeça, pois infelizmente fomos marcados pelo pecado, e há um homem novo que luta pela santidade, mas há o pecado que nos ronda quer roubar de mim a capacidade de servir a Deus.
Descobrir há muito tempo que Jesus quer ser o meu Senhor, não porque Ele quer prevalecer apenas sobre mim, mas porque Ele quer me fazer feliz, e felicidade é obedecer ao Senhor. Agora é a hora de decidirmos pela santidade. E cantar com coragem que Ele é meu Senhor! Imagine que você ganhou o direito de sacar dos bancos o maior valor possível, e assim você entra no cofre do banco, abre-o e vê um monte de notas novas de 100,00 reais, porém no canto do cofre há um pequeno pacote de notas de 1,00 real, e você pega apenas um nota de 1,00 real. Sai do banco, devolve as chaves e com apenas 1,00 real. De quem é a “culpa” por você não ficar rico? É apenas sua. Mas no Reino dos Céus, Deus abre para nós todas as portas, para desfrutarmos da riqueza de graça. Com ele somos ricos, por isso meu irmão tome posse da graça de Deus em sua vida, não viva na miséria Ele quer nos dá tudo, todas as suas bênçãos.
Desperta povo de Deus, porque Deus está gritando! Estamos vivendo um tempo de sonolência, são tantas vozes, correrias, informações, etc, que nos envolvem, colocando-nos em uma situação de paralisia, ficamos presos em uma teia de aranha, parados, incapazes de viver a Palavra de Deus, e por fim, esquecemos que somos filhos de Deus, e deixamos de viver a sua vontade. Desperta meu irmão, porque Deus está chamando você! Não fica parado, vem para fora, e volta a vida! Se você ofendeu alguém, se pisou na bola, volte, peça perdão e recomece a vida! Pois onde quer que você esteja o amor de Deus pode nos salvar! Isso aconteceu comigo, eu era sambista e em 1979 o Senhor veio a meu encontro, e desde daquele tempo é ele que vem conduzindo a minha vida.
Hoje é o tempo de você tomar uma decisão, e proclamar que Ele é o seu Senhor! Deus quer de nós a santidade e são de pequenos gestos que vivemos na santidade. Meu irmão, a santidade está a caminho, assuma que Ele é o seu Senhor! Então cante comigo: “A Ele a Glória. Alfa, Ômega, Princípio e Fim, sim Ele É, sim Ele É… A Ele o Domínio, Ele é meu Senhor”.

 

Seg

ONDE ESTÁ DEUS?
Padre Reinaldo Cazumbá

Onde está Deus? Ora ou outra, diante dos sofrimentos, decepções, fazemos a nós mesmos esta pergunta. Somos um povo que gosta de viver o toque, a sensibilidade, e compreender. Quero conduzir você a uma maturidade espiritual na fé. Mas por que em nós surge esta pergunta, se não sentimos Deus, não tocamos e não vemos mudança na nossa vida? Se não sinto Deus, se não tenho relação com Ele, se não tenho resposta, se o Senhor não corresponde ao que espero, a minha tendência é sempre de querer abandoná-Lo.
”Isso é motivo de alegria para vós, embora seja necessário que no momento estejais por algum tempo aflitos, por causa de várias provações. Deste modo, o quilate de vossa fé, que tem mais valor que o ouro testado no fogo, alcançará louvor, honra e glória, no dia da revelação de Jesus Cristo” (1 Pedro 1, 6-7).
Precisamos descobrir o novo de Deus na nossa vida espiritual, precisamos buscar, pois o Senhor vai agir no momento oportuno.
“Durante as noites, no meu leito, busquei aquele que meu coração ama; procurei-o, sem o encontrar” (Cântico do Cânticos 3, 1).
O sofrimento gera fé. Muitas vezes, sucumbimos ao sofrimento por não entender o seu significado. Veja a vida dos santos, nós não somos 100% na vida de oração, a nossa vida é feita de altos e baixos, existem vezes em que procuramos Deus, mas em outras não. No entanto, o sofrimento não deve nos afastar de Deus.
Como rezar diante de uma secura espiritual? De uma frieza espiritual? Como sair desta situação? Como se libertar de seus pecados e entrar num relacionamento com Deus?
Agarre-se a Deus se você está sofrendo! A secura espiritual, que é esta privação do sentimental, na qual você não sente mais nada, deve ser vista como um momento propício para um relacionamento com Deus Pai. Muitas vezes, seu corpo não quer permanecer, mas a sua razão vai fazê-lo permanecer. É preciso servir a Deus mesmo sem gosto, é preciso ter perseverança. Eu sei quem é Deus, por isso eu vou. Não se preenche vazio com vazio. Não adianta você tentar preencher com outra coisa o que somente Deus pode preencher.
O deserto é lugar de encontro com o Senhor, a tendência deste lugar é de haver tentações, purificações, assim como há o risco de construir falsos deuses. O deserto é uma etapa na nossa vida espiritual na qual nós precisamos caminhar somente com o Senhor. Deserto é o lugar onde temos sede de Deus, mas não nos saciamos, no entanto, não é um tempo eterno na nossa vida. Mesmo que eu não sinta Deus eu quero permanecer n’Ele.
”Conheço a tua conduta. Não és frio, nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, porque és morno, nem frio nem quente, estou para vomitar-te deminha boca” (Ap 3, 15-16).
Tibieza nos leva ao pecado, e se você não tem vontade de confessar os pecados capitais talvez seja porque já tenha se tornado uma pessoa tíbia. Para o tíbio sair da tibieza ele precisa se converter, ele precisa da parusia, do fervor, da disposição para com o Senhor. Ele só consegue essa mudança pelo batismo no Espírito Santo, sem Ele não funciona. Somente com a busca de santidade seremos cristãos que não se deixam se abalar por nada, pois somos de Deus e devemos permanecer n’Ele.

 

PEREGRINO DE DEUS RUMO AO CÉU
Padre Wagner Ferreira

O céu é a vida de Deus, por isso nós podemos afirmar que, mesmo sabendo que devemos experimentar essa vida de forma plena, aquele que cultiva a comunhão com Deus sabe onde está seu destino.
Santo Agostinho nos diz que o coração humano só encontra a sua plenitude no louvor de Deus, porque o Senhor nos fez para Ele e nosso coração não descansará enquanto não repousar n’Ele.
Deus nos criou, por isso, nossa origem e nosso destino é o próprio Pai. Nós somos peregrinos de Deus, trazendo no coração um desejo de realização, mas jamais esquecendo que nosso verdadeiro repouso só será alcançado por intermédio da comunhão eterna com Nosso Senhor.
O Pai nos dá a graça de saborearmos o céu em vida, pois aqueles que, pela fé, cultivam a união com Deus, já saboreiam o céu.
Quem já fez uma experiência concreta de felicidade e realizações? Se a experiência que você fez aqui valeu a pena, não se empolgue ainda, porque a experiência feita no céu será muito melhor.
Nós precisamos orientar nossa vida para a glória de Deus. E, dessa forma, Jesus nos ensina que devemos viver como bem- aventurados.
O bem-aventurado tem Deus como sua riqueza, ele não coloca a esperança da sua felicidade no poder ou no dinheiro. Os pobres de espírito cultivam a humildade, como pessoas que colocam em Deus a sua confiança e o sonho de suas realizações.
O sofrimento é próprio do cristão, mas é preciso passar pela experiência da dor agarrados a Deus. É claro que Nosso Senhor não quer masoquismo da nossa parte, mas devemos buscar, inclusive com ajuda da ciência, os auxílios necessários para nossa cura e restauração.
A fidelidade a Cristo nos leva a compartilhar o mistério do Seu sofrimento. Peça a graça de permanecer fiel ao Senhor na hora da dor e do sofrimento, pois bem -aventurados os que choram, pois serão consolados.
Existem pessoas que, mesmo em meio às tormentas e tribulações, conseguem seguir calmas. Essa é a mansidão de quem se deixa conduzir pela Palavra de Jesus. Aquele que experimenta a mansidão de Deus, mesmo em meio às tribulações e tempestades, consegue se decidir pela verdade do Pai.
O cristão que busca a justiça será recompensado com a eternidade; assim como todo aquele que não se compromete com o suborno e falsas promessas o será. Os misericordiosos são aqueles que, pela sua vida, testemunham o amor de Deus.
Os bem-aventurados conseguem compreender as limitações humanas e se compadecem do outro procurando proporcionar a reconciliação. Assim como o puro de coração que não deixa que as impurezas entrem em sua vida.
Feliz daquele que é capaz de superar as tentações, pois dele será o Reino dos Céus. O céu começa aqui, então tome posse do seu lugar no céu, como um peregrino de Deus. Seja manso, humilde, justo e paciente; dessa forma será recompensado com a eternidade ao lado do Pai.

 

CONSTRUIR A QUALIDADE DE VIDA
Padre Adriano Zandoná

Meus irmãos e irmãs, vocês são corajosos se desfazendo deste feriado para estar na presença do Senhor. Meu coração se alegra ainda mais por dirigir estas palavras a heróis e heroínas que escolheram a melhor parte – o Senhor! Eu me sinto muito pequeno em dirigir hoje a Palavra de Deus a vocês, por recordar que, no Carnaval do ano passado, eu estava sentado no presbitério como diácono, aprendendo a dar os primeiros passos no ministério, e hoje estou aqui, presidindo a Eucaristia e partilhando com vocês a Palavra de Deus.
Nestes dias estamos reunidos com o único propósito de louvar a Deus por intermédio de um sacrifício de louvor, e o louvor que o Senhor deseja de nós é o sacrifício de nossas vidas, e, assim, na doação de nossa vida, nos transformamos à imagem de Cristo. Meu irmão, para fazer da própria vida um louvor é preciso seguir um itinerário concreto.
Na primeira leitura São Tiago nos apresenta a sabedoria como uma realidade que possibilita fazer da nossa vida um sacrifício de louvor. Construindo, dessa forma, uma qualidade de vida. Esta qualidade de vida não está nas coisas externas apenas, mas antes e acima de tudo ela começa dentro de nós, a partir da forma na qual organizamos as coisas em nós. A sabedoria é a qualidade que acrescenta o sabor à vida humana, sem ela a vida fica sem “sal”.
Segundo São Tiago, a sabedoria é um elemento necessário em nosso itinerário de vida. Mas esta realidade é construída na humildade, no perdão, não na esperteza e no orgulho. Quantos lares não possuem harmonia, as pessoas se suportam. Muitos estão sofrendo, doentes porque gastam a sua vida não na verdadeira sabedoria, são escravos da inveja, da concorrência, faltando-lhes a verdadeira sabedoria. A sabedoria proposta por São Tiago nos ensina a perdoar. O perdão nos proporciona a aquisição de qualidade de vida para nós mesmos.
A Palavra nos diz que a Lei do Senhor Deus é um conforto para a alma, e este caminho é feito no saber perder para ganhar em Deus, quando obedecemos a Ele fazemos o bem em primeiro lugar para nós mesmos. Este conforto para a alma é a qualidade de vida, que está dentro, na alma. Quando vivemos os preceitos do Senhor nossa alma se abre para receber o sopro de Deus, e assim, alcançamos a verdadeira qualidade de vida.
O Evangelho de hoje nos apresenta Jesus que expulsou o demônio de um menino e afirmou que alguns tipos de demônio somente serão vencidos pela oração. Este ensinamento de Jesus nos apresenta a oração como um elemento essencial para que construamos a qualidade de vida por meio da intimidade com Deus. Sabemos que viver as realidades do dia a dia não é fácil, estamos em uma sociedade sensualizada e sensualizante, todos os dias temos um “leão” para matar. Como São Paulo nos ensina: fazemos o mal que não queremos. Vivemos em um campo de tensão, e como gerir tudo isso?
Jesus nos ensina a oração como o meio para administrarmos tudo o que está desordenado em nós. Não tenha medo de rezar, de entregar tudo para Deus, principalmente os jovens: não tenham vergonha de ser de Deus e testemunhar o Evangelho em todas as suas realidades. Não tenham medo de falar da Palavra de Deus! Jesus está chamando vocês hoje para que sejam somente d’Ele. Então sonhem com a santidade e não tenham medo dela, pois o Senhor quer vocês por inteiro. Eu sinto que muitos dos jovens aqui hoje estão sendo chamados por Jesus para uma vocação especial, não fechem os ouvidos a Ele!
Então, meus irmãos, antes de tudo, é necessário que vocês se ajoelhem diante de Jesus Cristo e se prostrem, pois quem não se prostra diante de Jesus, se prostra diante da vida. Quem não gerir a sua vida, acabará sendo possuído por ela. Deixemos, portanto, de ser “moles”, e construamos a verdadeira qualidade de vida, que se dá em um relacionamento verdadeiro com Jesus.
Convido todos os jovens a se levantarem. Vamos rezar por vocês suplicando que sejam batizados no Espírito Santo, a fim de que tenham uma vida de sabedoria e santidade. Louvado seja Deus!

 

Ter

FEITOS PARA A FELICIDADE ETERNA
Felipe Aquino

“De que me vale viver bem nesta vida se eu não puder viver para sempre?” (Santo Agostinho).
De que vale ganhar o mundo inteiro se viermos a perder a vida eterna?
Jesus disse claramente a Pilatos que o Reino d’Ele não era deste mundo, e vocês vão entender por que esta frase mudou a história do mundo. Durante o Império de Nero, quando os cristãos eram perseguidos e mortos, queimados e degolados, eles entregavam a vida para não negar Jesus Cristo. Os cristãos morriam na certeza absoluta de que eles iriam ressuscitar em Deus.
Uma rica moça chamada Perpétua, que morava na cidade de Cartago, foi presa, pois era cristã, foi levada a uma masmorra fedida, suja, num calor sufocante, e estava prestes a dar à luz, no oitavo mês de gravidez. Certo dia, na cadeia, seu pai foi lhe suplicar  que queimasse incenso aos ídolos para que sua vida fosse poupada, mas ela não aceitou e, na véspera de ser morta, ela deu à luz na cadeia. Quando sofria as dores do parto na masmorra o guarda lhe disse que ela iria sofrer ainda mais no dia seguinte, dia de sua morte. Essa santa respondeu-lhe que chorava, sim, naquele momento do parto, e disse que ali era ela mesma quem sofria, mas no dia seguinte, quando seria lançada aos animais, ela não iria gritar, pois já não era mais ela quem sofreria, mas o próprio Cristo que sofreria nela e, assim, foi o que aconteceu. Perpétua foi jogada aos animais e, mesmo toda machucada, ela não morria; foi preciso um guarda ir até ela e perfurar seu pescoço com uma lança.
Quem vive os Mandamentos de Deus não peca e agrada o coração de Deus. Se você quer viver para ser como Deus o criou, então viva os Dez Mandamentos. O domingo pertence ao Senhor e não a você. Não podemos paganizar esse dia [domingo]. Domingo significa dominus, isto é, do Senhor, é o Dia do Senhor. Um dos Dez Mandamentos é o: “Honra teu pai e tua mãe”, cuide deles, principalmente na velhice, não os jogue num asilo, dê a eles uma morte digna. Se você quer honrá-los, coloque uma coroa neles, cuide deles.
Eu peço a Deus que o braço da Sua justiça não pese sobre nós, pois eu nunca vi tanta podridão como nos tempos em que estamos vivendo! Quanto cristão que comunga e que reza, mas que só pensa em trapacear o outro, em levar vantagem, quer vender o carro para o outro porque o motor está fundindo, para que o outro  seja prejudicado no lugar dele.
São Tiago diz: o homem que domina a sua língua é um homem perfeito, com a sua língua, com um comentário, você incendeia a vida de uma comunidade. Nossas palavras devem ser somente para santificar e para salvar.
Não podemos nem beber um copo d’água sem louvar o Senhor, pois tudo o que temos vem de Deus. Obrigado, Senhor, por tudo! Temos que passar o dia no louvor a Deus Pai. Nós não temos o nosso ser sem Deus, então nós só temos que louvá-Lo. Servir a Deus nesta vida é a coisa mais bonita que existe. Tudo o que vocês fizerem façam-no para a glória de Deus Pai, não para os homens, para o Senhor. Se você é professor e vai dar uma aula, dê essa aula como se Jesus fosse o aluno; se você é médico aja como se Jesus fosse o seu paciente, e assim por diante. Isso mudará a sua vida. Seja um marido, uma esposa, uma mãe em nome de Jesus, por causa de Jesus e Deus lhe dará a herança que Ele prometeu.
Quando temos de buscar o céu nós não temos de desprezar a terra. Jesus nos mandou fazer render os talentos, e todos nós temos talentos, nós fomos criados à imagem de Deus. O talento que você tem eu não tenho e vice-versa e isso faz que eu precise de você e você de mim. Você precisa dos outros para tudo, então saiba amá-los e respeitá-los, e louvar a Deus por ele. Dê graças a Deus pelo dom que o o outro tem, o dom dele vai beneficiar você.
Meus irmãos, esta é a nossa alegria: Amar, louvar, servir e abraçar este Deus pela eternidade!

 

VIDA BOA
Diácono Nelsinho Corrêa

Quando uma mulher está grávida, tudo que ela faz é pensando no bebê, e o que ela prepara para chegada da criança se chama enxoval. Deus também preparou um grande “enxoval” para nós. Sabe qual é esse enxoval? É a natureza. O Altíssimo, ao criar as montanhas, já pensava em você, Ele fazia as estrelas e a lua e já pensava em você. Deus criou a natureza para o homem ser feliz.
Quando você acorda mal-humorado, os passarinhos já de madrugada estavam cantando, declarando o amor de Deus por você. A natureza é um presente do Senhor para mim e para você.
Deus Pai o criou à Sua imagem e semelhança. O Senhor não o criou para a depressão, Ele o criou para a felicidade, o criou para ter uma vida boa e não uma vida ruim. No paraíso o homem e a mulher, Adão e Eva, tinham uma vida boa, até que um dia eles comeram do fruto que não era para ser comido, pois achavam que lhes faltava alguma coisa, e cometeram o pecado do orgulho. O início do pecado do homem é o orgulho, ele quis ser mais que Deus.
No paraíso o homem estava unido a Deus e, ao pecar, ele rompeu com o Senhor. Se unido a Deus ele tinha alegria, sem Deus ele passou a ter tristeza. Se unido a Deus o homem tinha vida, sem Deus ele passou a ter a morte.
Deus não nos criou para a tristeza, mas para sermos felizes e, mesmo assim, o homem quer negar ao Senhor. Mesmo com o pecado original, o Senhor não nos abandonou, Ele nos deu Jesus. E criou o homem para ser feliz, por isso Ele enviou Jesus ao mundo.
Ser rico ou ser pobre não é pecado; o pecado é ser apegado às coisas.
Deus Pai nos criou para uma vida boa, mas nós estamos sempre reclamando, nós estragamos nossa vida com a reclamação. O Senhor não tem culpa do seu sofrimento; é você quem procura a encrenca. Nós nos expomos ao ridículo quando abandonamos Deus.
Vida boa é estar com Deus!

 

ALINHADOS PELA FORÇA DO ESPÍRITO
Padre Fabrício Andrade

Nós não poderíamos encerrar este acampamento sem o desafio de levar um pouco do que você experimentou aqui até a sua casa. O desafio de agora é experimentar a grandiosidade do Salmo 96, 1-12:
“Cantai ao SENHOR um cântico novo, cantai ao SENHOR, terra inteira. Cantai ao SENHOR, bendizei o seu nome, anunciai dia após dia a sua salvação. Entre os povos narrai a sua glória, entre todas as nações dizei seus prodígios. Pois o SENHOR é grande e digno de todo louvor, terrível acima de todos os deuses. Todos os deuses das nações são um nada, mas o SENHOR fez os céus. Majestade e beleza estão à sua frente, poder e esplendor moram no seu santuário. Dai ao SENHOR, ó famílias dos povos, dai ao SENHOR glória e poder, dai ao SENHOR a glória do seu nome. Trazei oferta e entrai nos seus átrios, adorai o SENHOR na sua santa aparição. Tremei diante dele, terra inteira. Dizei entre os povos: “O SENHOR reina!” Ele sustenta o mundo para que não vacile; julga as nações com retidão”.
No fim deste acampamento, somos enviados a cantar uma “canção nova”. Vocês precisam sustentar esse cântico novo em seu dia a dia, agora é a hora de anunciar a todas as nações o que experimentaram aqui. Vocês são hoje os apóstolos do cântico novo. Um homem e uma mulher renovados não cantam um cântico velho. Se, em seu dia a dia, você não atualizar a sua experiência com Deus, você correrá o risco de ficar uma “pessoa velha”.
E para que o cântico novo seja atualizado em nós diariamente, precisamos estar “alinhados” e encontrar a harmonia entre o que sentimos, falamos e pensamos.
Assim como o carro precisa estar bem alinhado e balanceado, porque se ele não estiver nessa condição, acontecerá um desgaste maior em um lado do pneu do que do outro e poderá até provocar um acidente. Da mesma forma, o homem novo precisa estar equilibrado, “alinhado” entre a sua cabeça, sua boca e o seu coração.
Hoje a Palavra de Deus quer nos alinhar, porque se estamos desalinhados, desequilibrados, a probabilidade de um “acidente” é muito grande, principalmente na parte afetiva.
Precisamos nos deixarmos ser “alinhados” por Deus, assim como o carro precisa ser ser alinhado pelo mecânico.
Vou apresentar para você duas rédeas que vão ajudá-lo a refrear a sua boca, a começar da sua língua. Acompanhe comigo: Carta de São Tiago 1, 26: “Se alguém julga ser religioso, mas não refreia a sua língua, engana-se a si mesmo: a sua religiosidade é vazia.” Se a nossa língua não está em sintonia com a nossa cabeça e com o nosso coração, corremos o risco de estragar tudo com a nossa amargura, murmuração e reclamação. Por isso, precisamos colocar freios em nossa língua. Quantas vezes você falou uma bobagem, porque não pensou e logo falou e estragou tudo.
A língua desenfreada gera desordem e confusão, o “homem novo” tem sua língua em harmonia com o coração.
Leia comigo o Salmo 32, 9 e descubra o que a língua pode fazer: “Não sejas como o cavalo ou o jumento sem inteligência; se avanças para dominá-los com freio e rédea, de ti não se aproximam”.
Por isso é preciso usar a inteligência para colocar rédeas na língua.
É pelo louvor que vamos alinhar a cabeça, a língua e o coração.
Precisamos colocar duas rédeas: uma em nossa língua, como vimos, e outra em nosso coração, ou seja, em nossos sentimentos.
Vamos entender a importância delas [rédeas] em nosso coração: “Disse o SENHOR: “Esse povo me procura só de palavra, honra-me apenas com a boca, enquanto o coração está longe de mim. Seu temor para comigo é feito de obrigações tradicionais e rotineiras” (Isaías 29, 13). Se a boca não estiver em sintonia com o coração, correremos o risco de nos aproximarmos do Senhor só com a boca e não com o coração, correremos o risco de esvaziar a nossa espiritualidade. É por intermédio do Espírito Santo de Deus que seremos “alinhados” e encontraremos o equilíbrio entre o que pensamos, sentimos e como agimos.
A evangelização dos nossos sentimentos é necessária para o “homem novo” vir à tona e cantar o cântico novo.
Outra rédea de que precisamos é a da cabeça, porque, muitas vezes, falamos sem pensar e causamos um desastre.
“Por isso, aprontai a vossa mente, sede sóbrios e colocai toda a vossa esperança na graça que vos será oferecida no dia da revelação de Jesus Cristo. Como filhos obedientes, não moldeis a vossa vida de acordo com as paixões de antigamente, do tempo de vossa ignorância” (I Pedro 1, 13-14).
A ignorância é falta de conhecimento, por isso a Palavra nos aconselha: “não moldeis a vossa vida segundo as vossas paixões de antigamente” (ou de quatro dias atrás).
São Paulo diz, em sua Carta aos Efésios 4, 22-24: “Precisais deixar a vossa antiga maneira de viver e despojar-vos do homem velho, que vai se corrompendo ao sabor das paixões enganadoras. Por outro lado, precisais renovar-vos, pela transformação espiritual de vossa mente, e vestir-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, na verdadeira justiça e santidade”. É necessária a conversão do nosso coração e também da nossa mente.
Nessas passagens bíblicas está o segredo do “alinhamento” da nossa cabeça, coração e língua.
O “homem novo” é imagem e semelhança de Deus.
Acabaram-se os desfiles próprios do Carnaval e agora chegou a nossa vez de nos apresentarmos para este mundo vestidos como “homens novos”, criados à imagem de Deus, na verdadeira justiça e santidade.
Precisamos investir nessa “fantasia”! Irmãos, acabou o Carnaval e começa agora a nossa missão.
Mais do que falar, é preciso purificar a nossa cabeça, pensamentos e o coração. Você já parou para pensar que todos as vezes em que fazemos o sinal da cruz abençoamos nossa cabeça, nosso corpo e nosso coração, que está no “eixo” do nosso corpo. São Paulo continua nos exortando em Efésios 1, 11-14: “Em Cristo, segundo o propósito daquele que opera tudo de acordo com a decisão de sua vontade, fomos feitos seus herdeiros, predestinados a ser, para louvor da sua glória, os primeiros a pôr em Cristo nossa esperança. Nele, também vós ouvistes a palavra da verdade, a Boa Nova da vossa salvação. Nele acreditastes e recebestes a marca do Espírito Santo prometido, que é a garantia da nossa herança, até o resgate completo e definitivo, para louvor da sua glória”.

 

DISCÍPULOS FORMADOS PARA SERVIR
Padre Donizete Heleno

Meus irmãos e irmãs, em breve vamos retornar as nossas casas, na força e no poder do Espírito Santo. Gostaria que você pegasse comigo o Evangelho de hoje que se encontra em São Marcos 9, 30-37. Nesta leitura vimos Jesus deixando a Galileia, que significa o seu lugar familiar, para se dirigir a Jerusalém. Estamos aqui como Jesus em um lugar de conforto, familiar, e logo iremos voltar para a nossa Jerusalém.
Você sabe o que Jesus iria encontrar em Jerusalém? Iria encontrar a sua cruz, mas principalmente a vontade de Deus. Logo retornaremos para a nossa Jerusalém, que é nosso trabalho, família, e lá não encontraremos apenas nossa cruz, mas principalmente a vontade de Deus para nós. Este carnaval foi portanto o lugar onde Jesus nos falou ao coração, assim como aos discípulos, conforme a narrativa de São Marcos, no qual Jesus revelou a eles que iria sofrer, morrer, mas ressuscitaria ao terceiro dia.
Quando Jesus anunciou sua paixão, revelando o projeto de Deus em sua vida, muitos de seus discípulos reagiram contrariamente, alguns queriam sentar ao lado do Senhor na glória, alcançando alguns privilégios, outros, não queriam que ele sofresse, inclusive Pedro, este por sinal foi repreendido duramente pelo Senhor, com a frase: Afasta-te de mim satanás!
O Evangelho de Marcos narra três anúncios da paixão, a liturgia de hoje afirma que os discípulos não entendiam a palavra, e tinham medo de perguntar. Entendemos neste ensinamento de Jesus que o Filho do homem será entregue, morto e ressuscitado no terceiro dia. O autor sagrado usa todos os verbos na voz passiva, que é aquela no qual o sujeito sofre a “ação” do verbo. Jesus entregou a sua vida nas mãos dos homens, o entregou em nossas mãos.
O mistério que hoje celebramos é esta entrega de amor no qual Deus nos oferece seu Filho, não há nada mais precioso que o amor do Pai por mim e por você, é um escândalo de amor. Você pode mudar o rumo da sua vida se assumir este escândalo de amor, do Senhor que dá a vida por nós.
A narrativa de hoje diz que Jesus entrou em casa (Mc 9, 32) em Cafarnaum, quer dizer, que Ele entrou na intimidade, e falou coisas preciosas. Como seria bom se nossas casas fossem um lugar de intimidade com o Senhor, infelizmente transformamos suas casas em verdadeiros cassinos, bares, e o pior em motéis domésticos, permitindo que seus filhos mantém relações sexuais em casa, dando a desculpa que é mais seguro, alimentando assim o pecado em casa.
Jesus está em casa, e Ele quer transformar a sua casa em céu, onde a vontade Dele acontece, e eu creio que o Senhor transformará a sua casa, e reinará se você abrir as portas, seu coração para que Ele tome posse da sua intimidade. O Senhor corrige seus discípulos em casa, e em sua pedagogia orienta-os a vontade de Deus. E neste ambiente de intimidade Ele quer tomar posse de sua vida.
Na continuação do capítulo 9 do Evangelho de São Marcos, os discípulos estão discutindo quem é o maior, estão ambicionados por cargos, enquanto Jesus anunciava sua paixão, eles queriam saber quem era o maior. Ora, autoridade quer dizer serviço, nos precisamos compreender isso, que a vontade de Deus em nossa vida é que sejamos servos. Entendemos assim, que a mentalidade dos discípulos destoava do pensamento de Jesus, do projeto de Deus para eles.
Infelizmente em nossa casa não é diferente, muitos católicos estão dando ibope para programas de TV no qual a mentalidade é eliminar o outro, este pensamento diabólico sorrateiramente vai entrando em nossa vida, nos ensinamento a eliminar o outro para sermos felizes.
Não tenha medo de assumir uma postura de cristão de verdade, de abraçar o projeto de Deus, este que Jesus ensinou-nos na intimidade, dentro de casa aos discípulos, que iria morrer, e ressuscitar no terceiro dia. Caso contrário você discutirá no caminho como os discípulos, cheio de vaidade, murmuração, querendo eliminar e humilhando os outros.
Meus irmãos, o ensinamento de Jesus é para sermos melhores, a partir da humildade, de sermos como crianças, e nas Sagradas Escrituras o termo original referente a criança quer dizer trabalhador que não recebe salário, ou seja servos, sem remuneração, Ele sentou-se para ensinar-nos a sermos servos humildes, e desta forma Ele verdadeiramente se torna o centro de nossa vida, e nós operários de sua obra.
O Senhor hoje nos chama e nos envia para voltarmos para nossa casa com humildade, aceitando o projeto Dele, servindo os irmãos por causa do Reino de Deus. Sabemos que nosso coração não está pronto, em nós ainda há o orgulho, não entendemos que os discípulos devem se colocar a serviço, ainda queremos méritos e cargos.
Por isso vamos pedir a Jesus, aquele que tem um coração humilde e simples, que nos dê um coração como o Dele, e assim Ele se torne o centro da nossa vida. Pois fomos muitos amados nestes dias, Jesus nos falou através de tantas pregações, orações, deu inclusive na Santa Missa o seu Corpo e Sangue por nós. Supliquemos a Ele, que nos ensine hoje o caminho para a nossa Jerusalém, e que neste retorno para casa verdadeiramente sejamos propriedades do Senhor, assim Ele será o centro da nossa vida.
Cantemos: “Lava, purifica e restaura-me de novo, será o nosso Deus e nós seremos o teu povo, derrama sobre nós a água do amor, Espírito de Deus, nosso Senhor. Jesus manda teu Espírito para transformar meu coração, Jesus manda teu Espírito para transformar meu coração”.
Meus irmãos, vocês levarão Deus para a sua família, para sua casa, para a sua Jerusalém, se vocês verdadeiramente aprender com Ele a humildade para serem servos um dos outros, em todos os lugares, na paróquia, no trabalho, na família, esta é a vontade de Deus para nós.
Voltemos para a casa, para nossa Jerusalém, livres de toda a disputa, e assim encontraremos a vontade de Deus em nossa vida.
Deus nos abençoe.

Por que batizar uma criança?

Sacramento

“Crê no Senhor Jesus e serás salvo, como também todos os de tua casa”

O batismo é um sinal visível da realidade oculta da salvação, de acordo com o Catecismo da Igreja Católica, número 774. A Igreja ensina isso a respeito de todos os sacramentos; nesse caso, o sacramento se mostra visível pelo sinal da água, que é derramada sobre a criatura. Por meio dessa graça, a pessoa se torna filho ou filha de Deus.

No início da Igreja, os apóstolos obedeceram ao mandato do Senhor: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19). No livro dos Atos dos Apóstolos, vemos que os apóstolos foram testemunhas do principal evento da humanidade: a Morte de Jesus por amor à humanidade e Sua Ressurreição.

Os apóstolos anunciavam o Cristo, e aqueles que aderiam a Ele eram batizados. “Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado” (Mc 16,16). Quando Pedro anunciou Jesus para a família de Cornélio, este e toda sua família foram batizados. Ora, será que só havia adultos na família? Quando o carcereiro fez uma experiência de Deus, o que Paulo disse a ele? “Crê no Senhor Jesus e serás salvo, como também todos os de tua casa”; depois, completou o autor dos Atos dos Apóstolos: “E, imediatamente, foi batizado, junto com todos os seus familiares (cf. Atos 16,31-33). Será que as crianças não faziam parte da família?

Jesus sempre quis bem às crianças. “Trouxeram-lhe também criancinhas, para que ele as tocasse. Vendo isso, os discípulos as repreendiam. Jesus, porém, chamou-as e disse: ‘Deixai vir a mim as criancinhas e não as impeçais, porque o Reino de Deus é daqueles que se parecem com elas. Em verdade vos declaro: quem não receber o Reino de Deus como uma criancinha, nele não entrará’” (Lc 18, 15-17).

Podemos constatar que há batismo de crianças no tempo da Igreja primitiva, pois Jesus quer bem a elas. Se ganho algo bom, quero partilhar com os meus. Os adultos fizeram uma experiência com Jesus Salvador e foram batizados e conquistaram esse sacramento também para os seus filhos.

Em nossa Igreja, os sacramentos da iniciação são: batismo, Eucaristia e crisma, sendo o primeiro a porta de entrada para os demais. Após o batismo, os pais e padrinhos se tornam os principais evangelizadores e catequistas dos neobatizados, vão ensiná-los sobre a fé e proporcionar-lhes experiências de oração. O padrinho deve ser presente e dar testemunho de fé em Jesus Cristo, esse é o maior presente que pode e deve dar ao seu afilhado.

O batismo, além da graça da filiação divina, concede o perdão dos pecados. A criança possui pecado? Sim, ela possui o pecado original, que significa o mal cometido por Adão e Eva. Eles foram chamados à santidade original – todos os homens foram e são chamados à santidade em Adão e Eva. Uma vez que os primeiros pais pecaram pela desobediência, a santidade original foi ferida. O apóstolo São Paulo confirmou isso quando disse: “Assim como, pelo pecado de um só, veio para todos os homens a condenação…” Mas como uma criancinha pode ter pecado?

O pecado não foi cometido e sim transmitido. O Catecismo da Igreja Católica ainda ensina “é um pecado «contraído» e não «cometido» um estado, não um ato.” (n. 404), e a consequência dele é a morte da alma. Por essa razão, a Igreja confere o batismo às crianças. Que desgraça foi o pecado original! No entanto, o mesmo São Paulo continuou: “Assim também, pela obra de justiça de um só [Cristo], virá para todos a justificação que dá a vida” (Rm 5,18). Jesus Cristo concede a graça da santidade original graças à Sua Páscoa e todo aquele que O acolhe e é batizado e salvo (cf. Mc 16,16).

Enfim, o batismo é um sacramento, uma graça sobrenatural. Já ouvi testemunhos em que os pais disseram que a criança havia melhorado após o batismo ou que nasceu com problemas e tiveram de batizá-la ali mesmo no hospital, às pressas, e ela saiu de lá sadia. Não é superstição. O batismo é um sinal visível de uma graça invisível, pode e é recomendado pela Igreja, insere a pessoa na linda família cristã, perdoa o pecado original e devolve a santidade original, a qual, a partir daí, deve ser ajudada com os pais, padrinhos e pela comunidade de fé.

Padre Márcio do Prado, natural de São José dos Campos (SP), é sacerdote na Comunidade Canção Nova. Ordenado em 20 de dezembro de 2009, cujo lema sacerdotal é “Fazei-o vós a eles” (Mt 7,12), padre Márcio cursou Filosofia no Instituto Canção Nova, em Cachoeira Paulista; e Teologia no Instituto Mater Dei, em Palmas (TO). Twitter: @padremarciocn

Ano Novo! Vida Nova!

SERÁ PARA MIM O ANO DA GRAÇA
Por Mons. Inácio José Schuster

Dirigiu-se a Nazaré, onde se havia criado. Entrou na sinagoga em dia de sábado, segundo o seu costume, e levantou-se para ler. Foi-lhe dado o livro do profeta Isaías. Desenrolando o livro, escolheu a passagem onde está escrito (61, 1s.): O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu; e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os cativos, para publicar o ano da graça do Senhor’ (Lucas 4, 16-19). Estamos no ano de 2018, e neste dia podemos proclamar sobre o nosso ano toda graça. Este ano de 2018 será o ano da graça do Senhor em sua vida. Posso declarar que este ano será da graça, mas posso fazer dele com minhas atitudes uma ‘desgraça’. ‘Portanto, sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito’ (Mateus 5, 45). Neste ano devemos buscar ser perfeito como Deus é perfeito, é preciso buscar nas mínimas coisas a perfeição. Estamos vivendo o ano novo, então vivamos também uma vida nova. Você tem repetido as atitudes da mulher velha, do homem velho que você fazia em 2017? Você precisa ter uma nova postura, postura de quem declarou um ano de graça. Não podemos nos apoiar em superstições – quantos católicos pulam ondas nas praias – precisamos apoiar somente em Jesus. Precisamos fixar a nossa vida na Palavra do Senhor, e é na Palavra que estão as exigências para termos um ano de graça. O que é ser perfeito? Eu resumiria na palavra de São Paulo que diz: ‘Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação; que eviteis a impureza’ (I Tessalonicenses 4, 3). E Paulo ainda diz o que não devemos viver em 2018 – ‘Não se pode deixar levar pelas paixões desregradas, como os pagãos que não conhecem a Deus; e que ninguém, nesta matéria, oprima nem defraude a seu irmão. Pois Deus não nos chamou para a impureza, mas para a santidade. Por conseguinte, desprezar estes preceitos é desprezar não a um homem, mas a Deus, que nos deu o seu Espírito Santo’ (I Tessalonicenses 4, 4-8). A vontade de Deus para nós, neste ano, é a nossa santificação; e santificação é santificar aquelas realidades que vivemos. Não podemos nos deixar levar pelas paixões da carne. Se você ama a Deus, lute para não desagradá-Lo em nada. O ano de 2017 passou. O que era velho ficou para trás, começamos um ano novo, não com o pé direito, mas apoiados na Palavra de Deus. Diante de todas as nossas atitudes precisamos fazer a seguinte pergunta: ‘Isso agrada a Deus?’ “Onde o meu clergyman não entra, significa que também não posso entrar como padre”. Assim também é para os casados, ambiente que você não pode ficar com sua aliança, não é um ambiente para você. Santifique a sua vida naquelas áreas que hoje precisam ser santificada, e em tudo agrademos o Senhor Jesus. Agrademos a Deus quando estivermos em púbico, no quarto, na casa… essa é a proposta de Deus para 2018, e assim teremos um ano na Graça e na Misericórdia do Senhor. Faça uma revolução na sua vida no ano de 2018 através da Palavra de Deus e dos Sacramentos.

 

A ALEGRIA DE SER CATÓLICO
Professor Felipe Aquino

Às vezes a gente reza bastante, mas medita pouco e não muda de vida. Mas, se meditamos, deixamos a luz de Deus entrar, então, mudamos. Santa Catarina de Sena dizia: “Entra na sala do seu interior”. Se você se conhecer, você vai ser humilde, vai conhecer a sua pequenez e isso agrada a Deus. Sabemos que o que mais encantou a Deus em Nossa Senhora, foi a sua pequenez. O evangelho diz que aquele que se humilha será exaltado. A meditação faz a gente conhecer o nosso tamanho e amar o outro. Quando se encerra um ano, eu penso que vem ao nosso coração um pensamento muito forte: é tempo de agradecer. Por isso, mandamos um cartãozinho agradecendo a amizade, mas é preciso agradecer a Deus. O Senhor não precisa de aplausos porque não podemos acrescentar em nada sua glória, mas Ele quer a sua gratidão. Não existe nada mais triste que a ingratidão. Ser rico não é ter muito, ser rico é precisar de pouco para ser feliz. Deus não deixa faltar o pouco para os que têm fé. Vejam os lírios dos campos, os pássaros do céu… Deus cuida deles. O pouco que precisamos, Deus não deixa faltar, mas é preciso agradecer a Ele. O Papa São João Paulo II, antes da sua morte, no seu sofrimento, dizia: “Quanto mais a gente sofre, mais a gente precisa rezar, quanto mais sofremos, mais precisamos de Deus”. É preciso limpar a alma! Muitas vezes pensamos que os maiores pecados são a inveja, a preguiça, a mentira, a omissão, a luxúria. Não, nenhum desses é o maior pecado! O pior pecado de todos é o de não aceitar Jesus Cristo. Irmãos, estamos ainda na oitava de Natal, este é o maior acontecimento da humanidade, ele é o centro da história, que se divide no antes e o depois de Jesus Cristo. Jesus em uma discussão com os judeus disse: “Por isso vos disse: morrereis no vosso pecado; porque, se não crerdes o que eu sou, morrereis no vosso pecado” (São João 8, 24). Se não aceitarmos Jesus verdadeiramente, vamos morrer no nosso pecado. É viver nesta vida sem Deus e na outra vida também sem Deus. Então, temos que levar Jesus as pessoas neste ano de 2018. Mas repito: é preciso deixar o pecado. Em 1978, São João Paulo II, em seu primeiro discurso, disse: “Abra as portas do mundo para Cristo!” Precisamos abrir as portas das famílias, da política, mas muitos não querem. Muitos não querem saber de Jesus Cristo e também não querem a Igreja que é o corpo de Cristo. Por que tantos ataques contra Igreja? Porque ela é Cristo que ilumina as trevas. Cristo nos chama para sermos a sua luz no mundo. “Vós sois o sal da terra e a luz do mundo”, diz a palavra do Senhor. Não tem coisa mais pavorosa do que a escuridão, mas basta uma pessoa acender uma vela, um palitinho de fósforo, que vem o alivio. Aqui a gente aprende uma lição muito grande: ainda que você seja apenas um palitinho de fósforo na escuridão do mundo, isso já é muito. É melhor acender um fósforo do que ficar maldizendo a escuridão. O que adianta você ficar em casa reclamando do seu pai, da Igreja, do bispo? Pare, acenda uma luzinha. Mas como acender uma vela apagada? Encostando-se em outra. Então, se a sua vela está apagada, chegue em outra vela acesa, a vela da Igreja que nunca se apaga; a vela da fé, dos sacramentos, da palavra de Deus, da Eucaristia. O Beato Papa Paulo VI dizia: ”Quem não ama a Igreja, não ama a Jesus cristo. A Igreja é o corpo de Cristo, é a Igreja que vai sustentar e você e levá-lo para o céu”. Em 2018, se você quer ser feliz, ame a Igreja que nos deu o batismo, que lava nossos pecados no sangue de Cristo. Sem a Igreja, não tem a Eucaristia, o sacrário. Você que brigou com a Igreja, foi atrás de falsos profetas, volte! Não confunda a Igreja com as pessoas! Tem gente que se decepcionou com as pessoas e abandonou a Igreja. Em Efésios 5, 5, Jesus diz: “A Igreja não tem pecado, quem tem pecado são os filhos da Igreja”. “Você pode ter perdido tudo, mas se não perdeu Deus, não perdeu o essencial”. As portas do inferno jamais prevalecerão sobre a Igreja, ela é infalível! Eu poderia citar dez, mas vou citar apenas um versículo que comprava isso. Leia São João 16, 12: “Deus quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade”. Aonde que está esta verdade ? Em I Timóteo 3, 15  você encontra: “A Igreja é o fundamento, a coluna da verdade. A verdade esta na Igreja que é o alicerce, a coluna da verdade”. O Beato Papa Paulo VI disse: “Aquele que não ama a Igreja não ama a Jesus cristo”. Podemos desdobrar esta palavra: quem não caminha com a Igreja, não caminha com Jesus Cristo. O meu coração tem que pulsar com o coração da Igreja, nada diferente daquilo que a Igreja ensina. Há uma frase de São João Paulo II que eu quero que vocês repitam neste ano de 2018: “Você pode ter perdido tudo, mas se não perdeu Deus, não perdeu o essencial”. Você pode ter perdido sua casa nas enchentes, seu carro, sua fazenda, mas se você não perdeu Deus, não perdeu a sua fé, então, não perdeu o essencial. Vamos caminhar para 2018, sem tristeza. Não tenha medo porque o Senhor ressuscitado caminha convosco!

 

O VERDADEIRO RÉVEILLON
Márcio Mendes

“É hoje o dia favorável, é agora o dia da salvação” (Ezequiel 37, 1-14). Quem está em busca de uma resposta, o Senhor lhe dará através desta palavra. Esta passagem bíblica está se cumprindo para você. O que hoje está morto na sua vida, o Senhor ressuscitará. Talvez você esteja com o coração apertado, talvez um relacionamento acabado, uma amizade que terminou. O Senhor diz: “Eu vou abrir a tua sepultura! E, por causa desta palavra, você poderá testemunhar para todos que foi encontrado por Deus”. Réveillon significa despertar, é o Senhor que vai despertar você. Existem muitos tipos de morte, pode ser afetiva, psicológica. Onde seus pensamentos estão amortecidos? Talvez, hoje, você traga muitos tons de morte em você, mas, em nome de Jesus, você será ressuscitado. No versículo 11, também de Ezequiel, encontramos: “Nossos ossos estão secos, nossa esperança acabou. Eu direi o que fazer”. Hoje, o Senhor vai lhe mostrar o que você precisa fazer. A palavra fala de sofrimento, mas fala ainda do socorro que Deus vai nos dar, é um socorro espiritual. Qual é o motivo pelo qual você está lendo esta passagem agora? O Senhor atraiu você para que esta palavra se realize. Mas é preciso ter a humildade de reconhecer que você é este osso ressequido. Quantos erros cometemos durante todo este ano,? Quantas vezes nos sentimos perdidos? O Senhor está lhe dizendo: “Eu vos devolverei a vida, lhe darei a vida nova, receberá a vida nova que é a do meu filho”.  Mas, para que esta palavra se cumpra, é preciso reconhecer que você precisa dela, de que sozinho você não consegue. “O que hoje está morto na sua vida, o Senhor ressuscitará” É preciso renunciar tudo aquilo que está estragando você, que está matando você. Abandone o coração velho, o ano novo velho. Despoje-se do seu pecado. O Senhor vai derramar a sua água viva para limpar todo o nosso pecado. Que este dia seja para marcar o fim de muitos adultérios, alcoolismo, prostituição, em nome de Jesus. Que hoje o Senhor coloque um fim naquilo que está matando você. Despoje deste pecado, desta mágoa, de todo o vício das drogas. Hoje é o dia da sua libertação! Deus não condena você, mas quer mostrar onde está a força de que você precisa. São João diz: “Jovens, eu vos escrevi, porque sois fortes e a palavra de Deus permanece em vós, e vencestes o maligno”. Eu falo a você jovem, eu quero lembrar que você é um homem novo. Deus diz a você: “Escute-me, eu vos digo, vós sois fortes e venceste a satanás, e vos falo para que tomes consciência de que a força que está em vós é muito maior que a força que está no mundo”. Nenhum homem, nenhuma mulher, por mais sedutores que sejam, têm maior força do que a que está em você. O Senhor não acusa você, ele te ama; e o Espírito Santo que é o amor, está restabelecendo a paz dentro de você. O Senhor  está concluindo uma grande vitória em você, está colocando em ti o seu amor, que é muito grande. Ele está colocando em você uma nova capacidade de amar. Sabe como descobrimos quando uma pessoa passou da morte para a vida? Quando ela passa a amar o outro. Quem ama faz bem todas as coisas, quem ama tem asas nos pés, tem uma palavra sempre boa na boca, tem sempre um calor, os olhos brilham e nada é difícil para quem ama. Ter vida nova é amar. Toda vida começa depois de uma morte, a vida velha precisa acabar e ficar na cruz porque acabou as tristezas de 2017 e 2018 está sorrindo para você. Em Romanos 8, 13 o Senhor nos diz: “De fato, se viverdes segundo a carne, haveis de morrer; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis”. Se você tiver coragem de crucificar estes pecados, você viverá, o Espírito Santo lhe dará a vida. É matar o que matava você.

Construir a santidade no cotidiano

Aprendendo com a vida e missão de João Batista

Santidade é vocação de todos os cristãos, sem exceção. A redescoberta da Igreja, como um povo unido pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo não pode deixar de implicar um reencontro com sua santidade, entendida no seu sentido fundamental de pertença àquele que é o Santo por antonomásia, o três vezes Santo (cf. Is 6,3). Professar a Igreja como santa significa apontar o seu rosto de Esposa de Cristo, que a amou entregando-se por ela precisamente para santificá-la (cf. Ef 5,25-26). Este dom de santidade é oferecido a cada batizado. Mas, o dom gera um dever, que há de moldar a existência cristã inteira: “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação” (1 Ts 4,3). É um compromisso que diz respeito aos cristãos de qualquer estado ou ordem, chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. Significa exprimir a convicção de que, se o batismo é um ingresso na santidade de Deus, por meio da inserção em Cristo e da habitação do Seu Espírito, seria um contrassenso contentar-se com uma vida medíocre (cf. Novo Millenio ineunte 30-31).

A formação da cultura dos povos é marcada positivamente pela presença da Igreja e por homens e mulheres que se elevam pelo seu comportamento e suas opções de vida, mostrando que, efetivamente, é possível sair da rotina do “mais ou menos” para confirmar que uma alma que se eleva, eleva o mundo. Tenho descoberto esta santidade em homens e mulheres que a testemunham na fidelidade ao Evangelho, na coerência de suas opções e na estatura com que enfrentam as dificuldades da vida. Há de se abrir os olhos e descobrir tais pessoas, vendo-as como provocação positiva ao risco de acomodamento que nos cerca continuamente.

A Igreja reconhece, publicamente, a santidade com o que chama de “beatificação” e “canonização”. Hoje, o Brasil já conta com diversas pessoas assim reconhecidas, entre cristãos leigos, religiosos ou sacerdotes, crianças, jovens e adultos, confessores da fé e mártires. São homens e mulheres, cuja santidade heroica merece ser posta diante dos olhos do mundo. Não nos envergonhemos de dizer que os cristãos têm para oferecer ao mundo o que existe de melhor em humanidade. Não nos furtemos à responsabilidade de superar as falhas humanas existentes com a virtude comprovada e testemunhada. Nosso tempo tem direito a receber dos cristãos a oferta da santidade. Ao reconhecer que o mistério da iniquidade se encontra presente no meio do mundo e também entre os cristãos, continue como referência a medida alta da santidade!

No período em que nos encontramos, chamado pela Igreja de “tempo comum”, as verdades do Evangelho são mostradas a todos pelo testemunho dos santos e santas que se consagraram a Cristo e são sinais luminosos de luta e de perfeição, além de reconhecidos como valorosos intercessores para aqueles que acreditam “na comunhão dos santos”, como dizemos na Profissão de Fé. E como sempre acontece, os santos de maior devoção geraram cultura e hábitos na sociedade. Multiplicam-se as festas patronais em nossa região, muitas pessoas retornam a sua terra natal para as férias que se aproximam e para se alimentarem de legítimas e positivas tradições religiosas que contribuem para que se tome consciência de que não nos inventamos a nós mesmos, mas somos tributários de uma magnífica herança, como tocha da grande olimpíada da vida a ser mantida acesa e passada às sucessivas gerações. São conhecidos de forma especial os santos do mês de junho, Santo Antônio, São João Batista e São Pedro. São figuras que geraram cultura popular entre nós.

Ponho em relevo, de modo especial, a figura de São João Batista, cujo nome, vida e missão são reconhecidos pela tarefa que a Providência Divina lhe confiou, como precursor da chegada do Messias, aquele que mostrou presente o Salvador do mundo, pregador da penitência, capaz de abrir, nos corações humanos, a estrada para que chegasse Aquele “que tira os pecados do mundo”, como foi por Ele mesmo apresentado (Cf. Jo 1,29).

Um dia, Jesus recebeu emissários de João Batista com a pergunta sobre sua identidade de Messias. De fato, João se revelou sempre radical em suas escolhas e profundamente honesto em seu desejo de fidelidade à missão recebida. Mandou-lhe a magnífica resposta: “Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: cegos recuperam a vista, paralíticos andam, leprosos são curados, surdos ouvem, mortos ressuscitam e aos pobres se anuncia a Boa-Nova. E feliz de quem não se escandaliza a meu respeito!” (Mt 14,4-5). Às multidões de ontem e de hoje, Jesus fala sobre João Batista: “Que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Que fostes ver? Um homem vestido com roupas finas? Olhai, os que vestem roupas finas estão nos palácios dos reis. Que fostes ver então? Um profeta? Sim, eu vos digo, e mais do que profeta. Este é de quem está escrito: ‘Eis que envio meu mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho diante de ti'” (Mt 14,7-10).

Viver para servir, ser honestos na procura da verdade e coerentes no comportamento. Com exemplos de tal quilate, descobrimos o quanto é bom viver para servir e amar. A vida e a missão de João Batista, unidas à sua oração fervorosa, nos façam acolher as verdadeiras alegrias vindas do Salvador e nossos passos se dirijam no caminho da salvação e da paz.

Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo de Belém – PA

XXIII Domingo do Tempo Comum – Ano A

Por Mons. Inácio José Schuster

Celebramos hoje o 23° Domingo do Tempo Comum. Mateus, no texto que ouvimos na Liturgia, diz-nos: “Se teu irmão cometer uma falta, vai e repreende-o a sós. Se te escutar, ganhaste teu irmão”. O capítulo 18° de Mateus trata da disciplina eclesiástica interna, ou seja, como devem proceder, internamente, os discípulos de Jesus; como deve viver a Comunidade. A correção, como vem descrita aqui pelo Evangelista Mateus, é uma correção ampla. Mateus não coloca limites para essa correção fraterna. Que dizer então? Em linha de princípio, é preciso corrigir. Mas atenção: em primeiro lugar, se se trata de uma culpa contra mim, não devo corrigir. Aqui, neste caso, é melhor perdoar. Se se trata de culpa contra outros ou, sobretudo, quando está em jogo o bem comum, a seriedade, a compostura, a dignidade ou a santidade da Comunidade, então é dever de consciência corrigir. Mas, também neste particular, uma atenção redobrada: em primeiro lugar a correção deve ser feita tu a tu, isto é, a sós. E para que? Para não humilhar desnecessariamente a pessoa do outro. Em segundo lugar, para ser uma correção evangélica. Nós devemos elevar a pessoa, e elevamos a pessoa não quando a massacramos, vomitando-lhe no rosto uma série de defeitos que detestamos, e contemplamos nela. Isto não é evangélico. Isto é rudeza, isto é falta de educação e com isto não se ganha, não se conquista o irmão. Neste caso, então, a correção deve começar pela parte positiva. É bom  dizer ao irmão errado, qual o bem que ele já fez, o que se espera dele e onde ele pode melhorar. Ainda devemos acrescentar algo neste discurso de Mateus que é essencial para a vida de uma igreja e de uma comunidade descente, digna e santa. Muitas vezes sentimo-nos apenas credores de perdão. Mas, se fizermos um exame de consciência atento, deveremos confessar que, as mais das vezes, devemos nós pedir perdão também. Somos devedores de perdão, e não apenas seus credores. E, sobretudo, devemos perdoar sempre, corrigir e perdoar, porque Deus nos perdoa sempre, e nós devemos agir com o irmão, como Deus age constantemente e pacientemente com cada um de nós.

 

COMUNIDADE CRISTÃ, LUGAR DA ACOLHIDA E MISERICÓRDIA
Padre Bantu Mendonça

Para entendermos melhor o trecho de hoje temos de ter em mente a figura do pastor que vai procurar a ovelha que se perdeu, deixando as noventa e nove nas montanhas. Só assim chegamos ao caso concreto: alguém da comunidade cometeu falta grave contra seu irmão. Como reagir? Fazendo-se de vítima? “Pondo a boca no mundo” e denunciando o erro? A primeira atitude – talvez a mais difícil – é perdoar e ir à procura de quem errou na qualidade de quem já perdoou, a fim de mostrar ao outro o erro e convidá-lo novamente a se reintegrar na comunidade: “Se o seu irmão pecar, vá e mostre o seu erro, mas em particular, só entre vocês dois. Se ele lhe der ouvidos, você ganhou o seu irmão”. Quero, porém, recordar a você que não se trata de “ganhar o irmão para si”, mas sim para a comunidade e, sobretudo, para Deus. Porque quem ofendeu um membro da comunidade rompeu, de certa forma, com a comunidade como um todo. Como o pastor que procura a ovelha perdida, a justiça do Reino não se cansa e tenta outra forma de aproximar quem errou: “Se ele não lhe der ouvidos, tome consigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas”. À primeira vista, tem-se a impressão de que estaríamos fazendo um cerco em torno de quem errou. Mas essa atitude pode ser vista sob a ótica da justiça do Reino, que tem como princípio fazer de tudo para que o irmão não se perca. E se isso não der certo, toda a comunidade é chamada a se pronunciar: “Caso não dê ouvidos, comunique à Igreja”. E se, depois de esgotados todos os recursos, depois de ter dado a quem errou a oportunidade de ouvir o parecer de toda a comunidade é que a pessoa, por decisão de todos, é excluída: “Se nem mesmo à Igreja ele der ouvidos, seja tratado como se fosse um pagão ou um cobrador de impostos”. Mesmo nesse caso a comunidade deve manter-se em atitude prudente, dando uma chance a longo prazo para que a pessoa se arrependa e volte à comunidade. Antes de condenar ou excluir alguém, é preciso aprender a justiça do Reino. E ter consciência de que os passos aconselhados por Jesus não são normas rígidas, e sim um modo de agir que tempera com justiça, misericórdia e caridade as relações entre pessoas. Em outras palavras, é preciso ser criativo no esforço de recuperar quem erra e se afasta da comunidade. E o espírito que anima essa tarefa não é o da exclusão, mas o da busca para reintegrá-lo. Se no capítulo 16 de Mateus, Jesus confia a Pedro a tarefa de ligar e desligar, no texto de hoje, essa missão é confiada à comunidade como um todo. Pois Pedro é sinal, é figura representativa de toda a comunidade dos seguidores de Jesus. Ligar e desligar são termos jurídicos e atribuições da comunidade inteira: “Tudo o que vocês ligarem na terra será ligado no céu, e tudo o que vocês desligarem na terra será desligado no céu”. Mateus nos mostra que o mais importante para a comunidade não é excluir alguém, mas sim a capacidade de integrar a essa pessoa. Tomar a decisão de incluir ou excluir pessoas da comunidade não é tarefa fácil, como pretendiam e faziam os chefes da sinagoga daquele tempo. É necessário que tenhamos sempre em conta a advertência de Jesus: “Se a justiça de vocês não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, vocês não entrarão no Reino dos Céus”. Para tanto, Cristo dá algumas indicações, que passam pela necessidade das pessoas se reunirem em nome d’Ele, a fim de – mediante a oração – chegarem a um consenso: “Se dois de vocês estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa (isto é, sobre qualquer tipo de litígio) que queiram pedir, isto lhes será concedido por meu Pai que está no céu. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali, no meio deles”. É urgente que a comunidade esteja sempre ligada a Cristo pelo fato de que, nela, existem tensões entre os diversos grupos e problemas de convivência: há irmãos que se julgam superiores aos outros e que querem ocupar os primeiros lugares. Há irmãos que tomam atitudes prepotentes e que escandalizam os pobres e os débeis. Há irmãos que magoam e ofendem outros membros da comunidade. Há irmãos que têm dificuldade em perdoar as falhas e os erros dos outros. Somente estando em permanente sintonia com Jesus, que nos convida à simplicidade e humildade, ao acolhimento dos pequenos, pobres e excluídos, ao perdão e ao amor que conseguiremos vencer. Aliás, com Jesus e pela força da oração tudo pode ser mudado. Só assim seremos uma comunidade verdadeiramente família de irmãos, que vive em harmonia, que dá atenção aos pequenos e aos débeis, que escuta os apelos e conselhos do Pai e que vive no amor do Filho, animada pelo Espírito Santo.

 

23º Domingo do Tempo Comum, A.
“Vós sois justo, Senhor, e justa é a vossa sentença; tratai o vosso segundo a vossa misericórdia”(cf. Sl. 118,137.124).
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha (MG)

Refletimos na liturgia de hoje a “Igreja, comunidade de salvação”. O profeta é o homem que enxerga por cima dos telhados, que tem uma visão de conjunto da realidade eclesial, é aquele que faz uma análise das coisas certas e das coisas erradas, anunciando a vontade de Deus, o hoje da salvação. O profeta enxerga o lado interior das coisas, principalmente as coisas surpresas e as maldades dos corações. O profeta é uma sentinela, que deve dar o alerta se enxergar algo suspeito no comportamento dos fiéis e na caminhada da comunidade. É o profeta que faz com que a comunidade volte para o caminho da verdade, da salvação e da fraternidade. A primeira leitura tirada do livro de Ezequiel(33, 7-9) nos adverte que como cristãos, temos todos responsabilidades uns para com os outros. Somos sentinelas da fidelidade para com Deus e para com o próximo.  Os profetas eram sentinelas em Israel; deviam dar alerta, e o fizeram. Mas o povo não prestou atenção. Veio a catástrofe – exílio. Sobra um pequeno resto. Ainda assim precisa de sentinela, de alguém que lhe avise para mudar seu caminho. E aí da sentinela que não cumprir seu dever: ela é responsável pela perda do irmão. Irmãos e Irmãs, Jesus hoje nos ensina como deve ser o comportamento cristão diante do pecador, de quem peca, de cada um dos irmãos, que pecamos quotidianamente, na caminhada para a santidade. Jesus nos adverte que a lei fundamental do cristianismo é a lei do amor, que tudo perdoa, tudo acolhe, tudo ama. A correlação fraterna deve ser ditada pelo amor fraterno e pressupõe a correspondente humildade e compreensão da parte de quem corrige. O orgulhoso não tem autoridade para corrigir. O Evangelho fala da correção fraterna, penitência e oração comunitária(cf. Mt 18,15-20). A Igreja é ao mesmo tempo santa e pecadora. Na santidade de filhos de Deus, somos irmãos, responsáveis uns pelos outros, mesmo e, sobretudo, quando o pecado está destruindo esta santidade. Só em última instância, quando a preocupação do cristão individual ou da comunidade nada resolvem, a comunidade pode excluir o pecador, para o conscientizar de que ele já não está participando da santa comunhão eclesial. A ovelha desgarrada é o pecador. Jesus se comporta diante do pecador de maneira diferente da dos homens: vai à sua procura com interesse e carinho e sente alegria em encontrar o pecador. Assim não foi com Zaqueu que desceu da árvore para atender ao apelo convocatório do Mestre que dizia que iria hospedar-se na sua casa, a casa de um pecador, anunciando que naquele dia a salvação havia entrado na sua casa. Jesus nos aponta o comportamento correto dos cristãos: o perdão e acolhida devem ser as maiores novidades do Novo Testamento. Mas amar, perdoar e acolher é uma tarefa árdua, às vezes inatingível, porque o orgulho e a auto-suficiência campeiam a mentalidade dos homens e das mulheres de nossos dias. Meus irmãos, O perdão é difícil de entender e mais difícil de viver. O Antigo Testamento não conheceu o perdão gratuito. Foi Jesus quem o trouxe, anunciou e viveu pela primeira vez na sua própria vida. O Antigo Testamento ensinou a vingança, depois a lei de talião, olho por olho, dente por dente. Entretanto, Jesus no sermão da Montanha lembrou a norma jurídica e a declarou insuficiente e superada. Jesus virou a mesa dando um passo significativo, muito adiante do seu tempo e do tempo em que vivemos: Jesus instituiu o perdão gratuito, nunca olhando o tamanho da ofensa, mas dimensionando o tamanho superior da acolhida e do perdão. Se Deus no céu nos perdoa de todas as nossas infidelidades, quem seremos nós os homens para não acolher esta diretiva de perdão, perdoar hoje, amanhã e sempre. Voltar ao irmão que foi vilipendiado e abaixar-se se humilhando no perdão misericordioso. Os cristãos tem o grave dever de ser “os mensageiros da reconciliação”, os “mensageiros do perdão”. A Igreja, ao defender aos excluídos, deve ser a mensageira no mundo da mensagem evangélica e do mandato apostólico do perdão e da reconciliação. Jesus foi o próprio modelo de quem sabe perdoar gratuitamente. Mesmo na Cruz, depois de tanto vilipêndio, injustiças e traições ele suplicou: “Pai, perdoar-lhes, eles não sabem o que fazem”. E olhando para o ladrão arrependido, São Dimas exclamou: “Hoje mesmos estarás comigo no paraíso” (Cf. Lc 23,43), perdoando-lhe os seus pecados: “Os teus pecados te são perdoados” (Cf. Lc 7,48). Meus amigos, A repreensão tem o sentimento e o gosto do perdão. Tudo isso por que o pecado, mesmo cometido por uma só pessoa, tem sentido e significado comunitário. Por que isso? Porque se corrigirmos um irmão individualmente, depois se ele não aceita, é pedido que se chame a Igreja. Quando o Padre perdoa os pecados ele age em nome da Igreja, agindo em nome de um poder que foi a ela confiada em nome de Jesus Cristo. Dentro do cristianismo e repreensão já tem o gosto de perdão. Está, portanto, muito longe de certo sadismo que sentem alguns que vivem julgando todo mundo e se arrogam o direito de corrigir os da direita, os da esquerda e os de trás, bem como os da frente. A repreensão significa compreensão e coração dilatado para a abertura. Nós cristãos formamos uma comunidade. “Igreja” significa comunidade de crentes. Por isso Jesus admitiu a possibilidade de duas ou mais pessoas terem de repreender, quando alguém errou e não quis ouvir em particular uma reprimenda. Jesus fala em “testemunhas” ao falar de correção. Ao falar em correção Jesus quis resguardar que a Igreja não se transformasse numa seita de pequenos, mesquinhas e puros, bem ao estilo dos judeus de então. Jesus não exclui, Jesus, ao contrário, acolhe. Amigos, amados, Jesus não falou em nenhum momento em julgar. Ele apenas conjugou o verbo perdoar. O perdão necessita de recolhimento, de intimidade com o Senhor, de enxergar o hoje de Deus. A misericórdia de Deus ultrapassa todos os limites imagináveis da justiça e se expressou no sangue do Filho bendito, derramado na cruz para o perdão de nossos pecados, assim o nosso perdão, fundamentado no amor e embebido no sangue do Senhor deve ir além da justiça humana e muito, muito além das satisfações que nosso coração possa exigir. Desenvolver o senso de justiça sem perdão não adianta. A justiça é apanágio da acolhida e do perdão. Caros Irmãos, A segunda Leitura(cf. Rm 13,8-10 nos ensina que Paulo, nas suas exortações resume a prática da vida cristã não ficar devendo nada aos outros senão a caridade, que é sempre insuficiente. O amor é o pleno cumprimento da Lei. Na sua justiça, Deus dá a todos o que precisam: fundamentalmente, seu amor de Pai. Nós, para sermos justos, devemos também dar-nos mutuamente este dom, embora sempre ficaremos devendo. Toda a justiça está incluída nisso. Pois a caridade é o resumo de tudo. Vamos nesta semana refletir e colocar em prática a caridade que é o resumo da liturgia de hoje. Se nos esforçamos pela caridade salvamos automaticamente todas as outras obrigações: “O amor é pleno cumprimento da lei” (cf. Rm 23,8-10). O verdadeiro amor não deixa as pessoas como são, com seus defeitos e as suas limitações. Amar um irmão significa ajudá-lo a crescer em todos os níveis, querer concretamente a sua libertação, daquilo que é defeituoso e mau, lutar por sua plena humanização. Corrigir é a grande obra de amor. Na correção fraterna o cristão faz largo uso do encorajamento. Corrigir o irmão para os caminhos de Deus é uma das maiores facetas da caridade.

 

CORREÇÃO FRATERNA NO SENHOR
Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração
23° DOMINGO DO TEMPO COMUM
Leituras: Ez 33, 7-9; Rm 13, 8-10; Mt 18, 15-20

“Se alguém está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas; eis que se faz realidade nova. Tudo isto vem de Deus que nos reconciliou consigo por meio de Cristo” (2 Cor 5, 17). Talvez poucas outras afirmações de Paulo nos apresentem, em síntese tão clara, a novidade radical operada por Deus na pessoa que encontrou Cristo pela fé e pelo batismo. No centro da “nova criação”, inaugurada em Cristo, está o “homem novo”, criado no Espírito para uma vida nova de justiça e santidade. Este dinamismo novo marca desde já suas relações com Deus, com os irmãos e até com a própria criação, com a qual ele partilha o mesmo anseio à plena liberdade dos filhos e filhas de Deus. Com a páscoa de Jesus, teve início uma comunidade tão rica em humanidade que, pela novidade divina que a anima, pode-se chamar comunidade do Senhor. Ela recuperou o projeto original de Deus sobre a família humana, enquanto antecipa, como profecia, a plenitude do reino de Deus na regeneração escatológica Por enquanto, porém, ela caminha na história segundo a dinâmica divina da pequena semente, guardando em si mesma a energia de uma vitalidade que não se pode conter, revestida de fragilidade e exposta a toda sorte de adversidade: como o Verbo de Deus que escolheu ficar entre nós na fragilidade da carne. O Apóstolo, com a mesma clareza, acrescenta: “Em nome de Cristo suplicamo-vos: reconciliai-vos com Deus… Eis agora o tempo favorável, por excelência. Eis agora o dia da salvação” (2 Cor 5, 20. 6,2). O dom de Deus se torna chamado a assumir uma colaboração responsável com a graça do Senhor, junto com a sua renovada oferta de perdão e reconciliação. Fragilidade e graça, ofensa e reconciliação, pecado e perdão: ações humanas e dons recebidos de Deus, que partilhados entre irmãos e irmãs constituem a “veste cotidiana” do discípulo e da comunidade, enquanto eles se empenham em realizar a vocação de despojar-se do homem velho e revestir-se plenamente do homem novo em Cristo (cf Ef 4,24). Como lidar com estas potencialidades de renovação pascal tão radical, e, por outro lado, com estas contradições, evidenciadas pela experiência cotidiana, além de toda tentativa de mascará-las? Mateus oferece à comunidade do seu tempo, assim como à nossa, um conjunto de exortações de Jesus sobre a vida da comunidade, que tem como ponto de referência os anúncios da sua paixão e ressurreição e o evento da sua transfiguração. Isso é, indica a própria pessoa de Jesus e seu mistério pascal. O batismo mergulhou o discípulo no dinamismo pascal de Jesus. Desta participação lhe derivam a energia e os critérios capazes de inspirar sua conduta. Os critérios para uma correta relação com o Pai e com os irmãos, a construir cada dia em maneira sempre nova, são os do próprio Jesus: total dedicação ao Pai e aos irmãos no amor, e no perdão sem limite. Estes critérios, no evangelho de hoje assumem a forma da correção fraterna, atenta e generosa, e no trecho que será proclamado domingo próximo (Mt 20, 21-35), se exprimirão no perdão recebido por Deus e partilhado entre os irmãos. A comunidade se torna o lugar onde se pode experimentar e testemunhar a energia criadora da páscoa, comunidade frágil, mas animada e partícipe da mesma santidade de Deus. Com humildade e renovada confiança, em cada eucaristia, celebração memorial da páscoa, a Igreja com verdade reza: “E a nós, que somos povo santo e pecador, dai força para construirmos juntos o vosso reino que também é nosso” (Oração Eucarística V). A pedagogia sugerida por Jesus para os irmãos sustentarem-se uns aos outros e corrigirem-se entre si, quando um venha a falhar contra o outro, é a mesma que ele usa com os pequenos, os marginalizados, os pecadores. Jesus vai à procura deles. Como o bom pastor que deixa nos montes as noventa e nove ovelhas para procurar aquela desgarrada (Mt 18, 12-14): assim nos lembra a pequena parábola que precede imediatamente o texto do evangelho sobre a correção fraterna. Jesus não espera que sejam aqueles que se desviaram a fazer o primeiro passo, depois de terem-se “convertido”. Ao invés os atrai a si com sua iniciativa e os transforma. No centro da pedagogia de Jesus não se encontra a legítima preocupação de restabelecer a justiça da lei violada, nem a necessária salvaguarda da mesma comunidade, que também merecem atenção (cf 1 Cor 5, 2-13; 2 Ts 3, 6). Quem escandaliza um dos pequeninos, amados pelo Pai, merece a mais dura condenação (cf Mt 18,6). Todavia no centro da atenção e da ação de Jesus está sempre a pessoa, o cuidado para ajudá-la a tomar consciência do seu desvio do caminho da vida, e a voltar para o caminho certo. Os gestos a serem assumidos por parte da pessoa ofendida, ou pela própria comunidade no seu conjunto, são gestos despojados de toda aparência de poder e de vingança, cheios, pelo contrário, de ternura persistente e apaixonada pelo irmão que falha. Os passos indicados para a correção, feitos por graus, que vão desde o dialogo a sós com o irmão, ao encontro com ele estendido à participação de algumas testemunhas, e enfim à comunidade, não descrevem somente um correto procedimento jurídico. Eles dizem respeito à progressiva aproximação a ser feita ao coração desnorteado do irmão, para carregar sobre si o peso dele, como o bom pastor põe sobre seus ombros a ovelha reencontrada e faz festa (cf Lc 15, 8-10), a fim de fazer perceber ao irmão o amor do Pai, que não desiste nem diante das resistências do filho perdido (cf Lc 15, 11-32). A correção fraterna, exercitada no estilo de Deus e de Jesus, é a maneira de atuar do próprio Deus na comunidade, e a maneira em que a comunidade vive e testemunha o reino de Deus entre os homens. Por isso, quem, consciente dos próprios limites, pretende ajudar o irmão que está errando, deve procurar a ajuda da comunidade inteira. Diante da resistência a qualquer solicitação fraterna, a ele não resta que assumir a mesma atitude de Jesus, em relação aos pecadores: redobrar a dedicação e entregar o irmão ao amor de Deus, que só conhece os mistérios do coração do homem e pode renová-lo. É verdadeiramente extraordinária a perspectiva indicada por Jesus que coloca em oração a comunidade, como seu esforço extremo e mais eficaz para ajudar o irmão! A estas condições, a sofrida tomada de distância do irmão (Mt 20, 17) assume seu verdadeiro caráter de último remédio. Assume a forma do gesto da mão estendida, que procura a solidariedade de todos os irmãos, enquanto o entregam ao Pai. A oração da comunidade se torna divinamente eficaz, enquanto nasce da caridade. O que exprime caridade realiza plenamente o projeto de Deus, em sintonia entre céu e terra (Mt 18, 18 -20). O estilo de Jesus é tremendamente desafiador! Hoje em dia, diante das fraquezas cotidianas presentes nas comunidades cristãs, não falta quem faça apelo para uma mais rigorosa e estreita aplicação da disciplina canônica, como primeiro instrumento a ser usado para corrigir os que falham, dissuadir outras faltas, e como critério para marcar mais claramente quem pertence e que não pertence à Igreja. Razões para despertar, e até revoltar, a consciência comum e de cada um de nós diante dos enfraquecimentos da fé e da falta de coerência nos comportamentos com certeza não faltam. Seria suficiente pensar aos graves abusos contra as crianças, também por parte do clero, denunciados nos últimos anos. O apelo, porém, à mais rígida aplicação da disciplina canônica para enfrentar os problemas existentes na comunidade cristã seria uma tentação e uma fuga da realidade, se a situação não nos interpelasse, antes de tudo, para uma renovada tomada de consciência da exigência de fundamentar melhor no evangelho e na experiência da iniciação cristã o caminho espiritual das pessoas e a praxe pastoral das comunidades. A comunidade não é a soma de um certo número de habitantes da paróquia, a gerenciar como um todo, mas o conjunto de pessoas individuais, cada uma em busca do cuidado do Pai e da atenção à sua situação peculiar por parte dos pastores e de cada um de nós. O descuido recíproco entre as ovelhas é condenado pelo profeta com palavras fortes, assim como o descuido dos pastores em relação às ovelhas (Ez. 34, 17-22). Para enxergar razoavelmente no olho do irmão o cisco, é preciso antes cuidar que não se encontre uma trave no próprio! (Mt 7,3-5). O apóstolo destaca que os critérios apropriados para construir relações certas dentro da comunidade, assim como na sociedade civil, são os indicados por Jesus ao mestre da Lei (cf. Mt 22, 34-40). “Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o próximo está cumprindo a lei… Os mandamentos… se resumem neste: ‘Amarás ao teu próximo, como a ti mesmo’. Portanto, o amor é cumprimento perfeito da lei” (2ª leitura – Rm 13, 8. 10). Os pastores receberam do Senhor a tarefa de vigiar em favor dos irmãos como sentinela, que vigia sobre a segurança da cidade e antecipa o alvorecer do novo dia, dando esperança aos que ficam sob o peso da noite. A missão do profeta, assim como de todos os chamados a colaborar com o Senhor, é antes de tudo ficar atentos à Palavra do próprio Senhor, para tornar-se seu fiel porta-voz “Logo que ouvires alguma palavra de minha boca, tu os deves advertir em meu nome” (Ez 33,7). A vida ou a morte do irmão podem depender da atenção ao Senhor e da coragem para transmitir sua palavra. Por isso a grave responsabilidade do profeta/pastor (1ª leitura – Ez 33, 8-9). É preciso sublinhar que a missão do pastor não é simplesmente guardar a boa ordem na comunidade, mas servir à palavra do Senhor. Por isso é a ele que será chamado a responder antes de tudo. Na comunidade dos discípulos, a autoridade é sempre reconduzida à sua verdadeira origem e finalidade: servir ao Senhor e aos irmãos, para que estes possam realizar sua verdadeira relação com o Senhor, na obediência da fé e na liberdade do amor. São Bento, na Regra para os monges, atribui muita relevância à autoridade do abade, guia e animador da comunidade, que ele convida a reconhecer em espírito de fé como aquele que no Mosteiro desempenha o papel de Cristo (Regra dos monges, indicada com a sigla RB,  c. 2, 1-2).  Ao longo da Regra, enquanto evidencia sua responsabilidade e autoridade, sublinha constantemente o fato que de toda sua decisão, o abade, assim como qualquer outro irmão em autoridade, há de dar conta a Deus. Pela correção dos irmãos que erram, São Bento prescreve (RB, c. 23-25) exatamente os passos de cuidado fraternal e paterno, indicados por Jesus no evangelho de hoje. Encontramos também um último toque, que bem evidencia o caráter evangélico da comunidade monástica e da autoridade. Se, depois de ter exercitado com diligência e amor, as artes do sábio médico e os cuidados do bom pastor (RB c. 27), o abade não conseguir algum resultado, “e ver que nada obtém com sua indústria, aplique então o que é maior: a sua oração e a de todos os irmãos por ele, para que o Senhor, que tudo pode, opere a salvação do irmão enfermo” (RB c. 28, 5). Quando a atenção ao irmão se faz plena, a correção cuidadosa se torna antecipação ao doar-se um ao outro a honra do amor fraternal, e a obediência recíproca que precede até os desejos (RB 73). A comunidade cristã: é uma comunidade não de perfeitos, mas de irmãos e irmãs que se ajudam reciprocamente a seguir o Senhor, com o mesmo coração do Pai e o mesmo estilo solidário de Jesus. Domingo próximo, iremos contemplar que esta comunidade não é somente o lugar onde a solidariedade se faz cuidado e correção fraterna, mas também lugar do perdão, recebido de Deus e generosamente partilhado uns com os outros.

Bíblia muda rumo na vida de jovem após falecimento da mãe

Segunda-feira, 02 de setembro de 2013, André Alves / Da Redação

Kaique Duarte é universitário e mora em Teófilo Otoni, Minas Gerais.

Os cristãos consideram a Bíblia um livro sagrado, a Palavra de Deus para a humanidade. O jovem católico, Kaique Duarte também acredita nesta verdade e busca um contato diário com a Sagrada Escritura, utilizando-a como orientação para sua vida.

Segundo Kaique, a Bíblia, celebrada pela Igreja neste mês de setembro, é um caminho para o encontro com Deus em meio à pluralidade de opções do cotidiano. “Hoje com tanta coisa pra ler, assistir e fazer, a Bíblia se torna um ponto culminante de encontro verdadeiro com Jesus, é a oportunidade que tenho de aprender com Ele um pouco mais todos os dias”, afirmou o jovem de 19 anos, residente em Teófilo Otoni (MG).

Estudante de Ciência e Tecnologia, Kaique faz o estudo bíblico todos os dias e busca levar os ensinamentos de Cristo para as situações do dia a dia. Na leitura da Bíblia afirma ouvir a voz de Deus e buscar os nortes para sua vida pessoal. Segundo ele, nenhuma decisão é tomada sem antes recorrer à Palavra de Deus.

De fato, Kaique relata como a leitura bíblica influenciou suas decisões em um momento marcante da sua história: a perda da mãe, em 2011. No mesmo período, ele começaria a cursar Medicina na Universidade Federal de Minas Gerais. O jovem já havia perdido o pai anos antes, ficando somente com uma irmã. Diante disso, precisou escolher entre estudar ou cuidar da irmã. “Eu me vi em meio a uma decisão complexa e que mudaria os rumos da minha vida”, recordou.

A decisão

Em meio à dúvida, Kaique procurou direção na Bíblia. “Foi quando Deus falou comigo por meio da passagem de Eclesiastes, capítulo 3, que afirma haver um tempo para tudo. Senti Deus me dizendo que não deveria ser impaciente e soubesse esperar o tempo certo. Desde então, optei por não fazer o curso e ficar em minha cidade. Tenho trabalhado muito o meu relacionamento com a minha irmã, e creio que se eu tivesse saído da cidade para cursar medicina, nem mesmo teria chegado onde estou hoje”, disse o jovem, convicto.

A certeza de que esta palavra se tratava de uma inspiração divina veio por um discernimento espiritual. “A palavra confortou meu coração”, afirmou. “Era algo que eu já sentia e se confirmou na leitura dela. Eu realmente poderia ter ido embora, até mesmo para mudar de ambiente e mascarar a dor da perda, mas a partir dessa palavra eu escolhi o desafio de ficar e encarar para que minha dor não virasse um ‘fantasma’ que pudesse me escravizar e me atormentar”.

Diante disso, kaique explica que preferiu dar atenção a essa inspiração interior a tomar uma decisão racional e evitar um possível erro. “Eu posso tomar as decisões por mim mesmo sem refletir ou orar, sou livre pra fazer isso, porém não é conveniente que eu faça, porque as minhas vontades são falhas e egoístas mesmo sem que eu perceba”, salientou.

O jovem, empenhado nos trabalhos de evangelização da Igreja, terminou o Ensino Médio em 2011; prestou vestibular e passou em três Universidades renomadas do país: Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade de Viçosa (MG) e Universidade Federal de São Paulo. Ambas para o curso de medicina. Após a escolha por ficar próximo à irmã, Kaique optou por cursar uma faculdade de Ciências e Tecnologia, na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha, em Teófilo Otoni.

Para Kaique, ser um jovem contemporâneo, que busca alimentar a vida com a Palavra de Deus (para alguns, “ultrapassada”), representa um grande desafio, porém, viável e satisfatório, segundo ele. E testemunha que aquele que “busca conhecer a Palavra e praticá-la é muito mais feliz do que se vivesse nos padrões do mundo”.

“Os tempos mudam é claro, porém, os ensinamentos de Jesus são imutáveis, e é perfeitamente possível vivê-los atualmente, não burlando aquilo que a Palavra diz, mas atualizando-a em minha vida, não de acordo com a minha conveniência, mas de acordo com o desejo pela santidade”, reforçou.

A interpretação dos textos bíblicos

Não “burlar” aquilo que a Bíblia diz significa para Kaique interpretá-la segundo o Magistério da Igreja Católica, ou seja, segundo o discernimento dos Papas e bispos. Para evitar possíveis interpretações distorcidas, o jovem explica como procura entender o que está nos textos bíblicos.

“Existem pontos na Sagrada Escritura que são metáforas, mas mesmo assim o ensinamento transmitido por meio delas é muito grande e essencial. É difícil saber aquilo que é ou não linguagem metafórica, por isso que eu sou muito cauteloso na hora de interpretar pontos que me deixam com uma ‘pulga atrás da orelha’. Às vezes, não tem jeito, tenho que recorrer a um Padre para saber interpretar de maneira correta aquela parte”, disse.

Outro recurso utilizado por ele é o Catecismo da Igreja que apresenta a doutrina católica, assim como, a interpretação bíblica a partir da “Sagrada Tradição”, do Magistério, dos dados bíblicos contextualizados na cultura e história da época.

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