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Como escolher um bom candidato?

Não podemos ser cristãos apenas de bons sentimentos

Estamos num momento significativo na história da sociedade. Teremos de votar novamente, colocando em prática nosso direito de cidadãos brasileiros. Com isto, vamos escolher todos os nossos próximos representantes no poder executivo e legislativo dos diversos municípios. Cada eleito vai agir como nosso porta-voz e em nome do povo de seu município.

É hora de pensar em duas palavras decisivas: fé e fidelidade. Isto significa autenticidade, fato que não tem sido levado em conta em nosso país. Muitos políticos não são tementes a Deus, mas infiéis, carreiristas e não se colocam a serviço do bem comum. O povo sofre com isto e acaba assistindo às atitudes de desonestidade. O poder, verdadeiramente constituído, vem de Deus, mas isto passa pela ação livre dos eleitores. Significa que a autoridade escolhida não tem real poder se foi eleita por quem não tenha agido, na hora de votar, com plena liberdade. Comprar e vender o voto não significa liberdade plena, não é ato totalmente divino e não é voto com nobreza e consciência madura.

Todo candidato, nas eleições, procura se apresentar bem, com boa aparência e propósitos muito firmados. Mas acontece que há uma mentalidade de triunfo e muito individualista. Ela esconde interesses que não são os do povo. É como falar de fé sem obras, aparências que tentam convencer, mas privilegiam interesses próprios ou de grupos particulares.

Na verdade, ser porta-voz é ser luz para o povo. Isto é diferente de ser opressor, que tira a esperança e a alegria das pessoas. Por outro lado, o povo quase não acompanha nem é resistente diante das atitudes dos políticos eleitos. É cômodo ser passivo, porque agir supõe coragem e enfrentamento. Não podemos ser cristãos apenas de bons sentimentos e intenções, porque a fé exige fidelidade e compromisso bem definidos, principalmente nos momentos decisivos da sociedade. Não basta confessar a fé, como o fez Pedro diante de Cristo. Temos de enfrentar as diversidades e maldades que impedem a realização do bem. É um caminho de cruz, de maturidade e coragem.

Dom Paulo Mendes Peixoto

Milagres de Jesus: Fatos Históricos e Significado

PERGUNTE E RESPONDEREMOS
395/abril 1995  
Apologética  
Crítica dos Evangelhos   

Em síntese: Note-se o estilo singular segundo o qual Jesus realizava milagres: nunca em seu favor, jamais para punir, sem teatralidade, com discreção e sobriedade. Estas características diferenciam bem os milagres de Jesus dos que os taumaturgos dos judeus ou pagãos tenham realizado, e testemunham em favor da historicidade de tais feitos. Estes são entendidos por Jesus e pela Tradição dos Apóstolos como sinais (semeia, em grego) que explicitam a vinda do Messias e do Reino de Deus.

Mais: os milagres estão de tal modo inseridos na pregação e na missão de Jesus, autenticando-as e comprovando-as, que não podem ser negados sem que se negue a própria identidade de Jesus Cristo. Ver especialmente Mt 11,2-6; 12, 28; 11, 20-24. Desde os seus primórdios, a pregação dos Apóstolos apresentava Jesus como autor de portentos, mesmo perante pessoas que haviam conhecido Jesus e podiam contestar falsas notícias a respeito; cf. At 2,22; 10,38. Nem mesmo os adversários de Jesus contestaram a sua atividade taumatúrgica, mas atribuiram-na, uns, a Satanás (cf. Mt 12,24), e outros a poderes mágicos (assim o Talmud judeu).

Os Evangelhos narram que Jesus realizou muitos feitos maravilhosos, chamados em grego semeia (sinais) ou dynámeis (atos de poder). Visto que a mentalidade moderna é, não raro, cética em relação a milagres, perguntamos: podem tais feitos maravilhosos ser tidos como históricos? E, em caso positivo, que valor ou significado têm? — É a estas questões que serão dedicadas as páginas subseqüentes.

1. OS MILAGRES NO EVANGELHO: CARACTERÍSTICAS  
Segundo os evangelistas, Jesus realizou numerosos fatos extraordinários, mencionados de modo genérico nos seguintes textos:

Mc 1,32-34: “Ao entardecer, quando o sol se pôs, levaram-lhe todos os que estavam enfermos e endemoninhados. E a cidade inteira aglomerou-se à porta. E ele curou muitos doentes de diversas enfermidades e expulsou muitos demônios”.

Mc 6,56: “Em todos os lugares onde entrava, nos povoados, nas cidades e nos campos, colocavam os doentes nas praças, rogando que lhes permitisse ao menos tocar na orla de sua veste. E todos os que o tocavam, eram salvos”. Ver Lc 7,21.

São João termina o seu Evangelho escrevendo: “Jesus fez muitos outros sinais em presença dos seus discípulos, mas não foram descritos neste livro” (20, 30).

Os evangelistas só narram “pequeno” número de milagres, a saber: trinta aproximadamente. Alguns destes podem estar descritos duas vezes, como é o caso da multiplicação dos pães; cf. Mc 6,33-44 e 8,1-10; a sadia crítica julga que se trata de um só milagre descrito duas vezes com pormenores diferentes.

Os milagres de Jesus são de diversas modalidades: há curas de doenças várias (lepra, cegueira,.surdez, paralisia, epilepsia…), há expulsões de demônios, três ressurreições de mortos (o filho da viúva de Naim, a filha de Jairo, Lázaro), uma pesca milagrosa, a conversão da água em vinho, uma multiplicação de pães e peixes, o domínio sobre uma tempestade e o caminhar sobre as águas.

Examinemos as características do procedimento de Jesus taumaturgo:

1) Jesus nunca realizou um milagre em seu proveito pessoal, para pôr-se em evidência ou para sair de alguma situação embaraçosa. Sofreu fome, sede, cansaço, dormia onde se encontrava, sem ter onde reclinar a cabeça; quando foi aprisionado por seus inimigos, nada fez para se libertar e escapar da morte horrenda e humilhante; quando pregado à cruz, foi ironicamente “desafiado” por seus adversários para se libertar, mas não o quis, embora pudesse desconcertar os seus algozes, que diziam: “Salvou os outros, mas não pode salvar a si mesmo. O Cristo, o rei de Israel desça agora da cruz, para que vejamos e acreditemos” (Mc 15,31 s). Jesus quis parecer fraco e talvez impostor aos olhos de quem o desafiava.       Jesus taumaturgo não ambicionava sucesso nem benefícios materiais. Ao contrário, proibia que as pessoas curadas apregoassem a obra de Jesus. Assim, por exemplo, após ressuscitar a filha de Jairo, Jesus “recomendou com insistência a pai e mãe que ninguém viesse a saber o que tinham visto” (Mc 5,43). Após a cura do surdo-mudo curado à distância da multidão, Jesus recomendou que não o dissessem a quem quer que fosse (Mc 7,36).(*)

* O silêncio assim imposto por Jesus explica-se pelo fato de que os judeus podiam equivocar-se sobre a messianidade de Jesus; sim, podiam julgar que Ele viera para resolver problemas de ordem material e dar a Israel a hegemonia sobre os demais povos.

2) Jesus não realizava milagres para punir. Este tipo de portento encontra-se em narrações extra-bíblicas como também em escritos do Antigo Testamento: narra-se, por exemplo, que certa vez Eliseu foi escarnecido por alguns meninos por causa da sua calvície; “Eliseu virou-se, olhou para eles e os amaldiçoou em nome do Senhor. Então sairam do bosque duas ursas e despedaçaram quarenta e dois deles” (2Rs 2,23s).

Verdade é que dois episódios do Evangelho podem ser interpretados como milagres punitivos. O primeiro é o da figueira estéril, que Jesus amaldiçoa, fazendo-a murchar instantaneamente (cf. Mt 21,18s). É de notar, porém, que, no caso, não é punida uma pessoa, mas uma árvore, que é símbolo da esterilidade do povo de Israel; Jesus, fazendo secar a figueira, quis significar a sorte que tocaria ao povo judeu incrédulo quando derrotado pelos romanos em 70. — O segundo episódio é o dos porcos de Gerasa: Jesus permitiu que dois mil deles se precipitassem no mar (cf. Mc 5,9-14); notemos, porém, que este relato é diversamente interpretado pelos exegetas, dos quais alguns julgam que o evangelista usou de um artifício literário e não quis ser tomado ao pé da letra (ver Curso sobre Ocultismo, Módulo 24, Escola “Mater Ecclesiae”).

Jesus veio para salvar e não para destruir (cf. Lc 9,54s); por isto não é condizente atribuir-lhe a vontade de prejudicar pessoas, ainda que fossem pagãos, como os gerasenos. O autêntico espírito de Jesus se revela quando os filhos de Zebedeu quiseram fazer baixar fogo sobre os samaritanos inóspitos; “Jesus, voltando-se, repreendeu-os” e terá acrescentado, conforme alguns manuscritos: “Não sabeis de que espírito sois, pois o Filho do Homem não veio para perder a vida dos homens, mas para salvá-la” (Lc 9, 54s).

3) Jesus efetuava milagres com grande simplicidade, sem recorrer a fórmulas mágicas nem a ritos complexos. Bastava-lhe dizer uma palavra com autoridade, como no caso do leproso: “Quero, sê curado” (Mc 1,40-42). Ao paralitico disse o Senhor: “Eu te ordeno: levanta-te, toma o teu leito e vai para casa” (Mc 2,12). Ao homem que tinha a mão seca, mandou Jesus: “Estende a mão” (Mc 3,5). Ao mar agitado por violenta tempestade, imperou: “Silêncio! Acalma-te! Logo o vento serenou e houve grande bonança!” (Mc 4,39). Ver ainda o caso da filha de Jairo (Mc 5,41s), o do filho da viúva de Naím (Lc 7,14s), o de Lázaro (Jo 11,44), o do cego de Jericó (Lc 12,43).   Num episódio ou noutro, Jesus tocava a pessoa doente; era este um gesto de benevolência e compaixão, especialmente significativo no caso do leproso (cf. Mc 1,40s); os leprosos eram pela Lei banidos do convívio dos homens (cf. Lv 13, 44-46); ora Jesus tomou o leproso pela mão e o curou… Também tocou com a mão a filha de Jairo morta, que Ele ressuscitou, violando assim a Lei, que considerava impuro quem tocasse um cadáver; cf. Mc 5,41; Lv 11,39.

Os Evangelhos referem apenas três casos em que Jesus recorre aos métodos terapêuticos da medicina popular: Mc 7,31-37 (a saliva, tida como desinfetante, acompanhando a palavra Effatha, Abre-te!); Mc 8,32-35 (Jesus usa saliva e a imposição de mãos para curar o cego de Jericó); Jo 9,6s (Jesus fez lama com a saliva e aplicou-a aos olhos do cego de nascença).

Geralmente o milagre é instantâneo; apenas dois casos parecem fazer exceção: os dez leprosos foram curados quando, a mando de Jesus, iam apresentar-se aos sacerdotes (Lc 17,14); o cego de Jericó parece ter recuperado a vista por etapas (cf. Mc 8,22-25).

4) Jesus não fazia alarde nem publicidade dos seus milagres; antes, era muito discreto e reservado. Não se apresentava como taumaturgo, nem procurava doentes para curá-los; eram estes que se dirigiam espontaneamente a Jesus ou eram levados por outrem:

“Apresentaram-se a ele com um paralítico transportado por quatro homens” (Mc 2,3);   “Começaram a transportar os doentes em seus leitos onde quer que descobrissem que ele estava” (Mc 6,55);

“Levaram-lhe um surdo-mudo” (Mc 7,32);

“Mestre, eu te trouxe meu filho, que tem um espírito mudo” (Mc 9, 17);

“Ao entardecer, quando o sol se pôs, levaram-lhe todos os que estavam enfermos e endemoninhados” (Mc 1, 32).

Em outras ocasiões Jesus é convidado a ir à casa do enfermo:

“O chefe da sinagoga rogou-lhe insistentemente dizendo: ‘Minha filhinha está morrendo. Vem e impõe-lhe as mãos, para que ela seja salva e viva'” (Mc 5,23s);

“O funcionário real foi procurar Jesus e pedia-lhe que descesse e curasse seu filho, que estava à morte” (Jo 4,46).

A iniciativa do milagre não parte de Jesus, a não ser em poucos casos, nos quais o Senhor é movido por compaixão, como aconteceu na multiplicação dos pães:

“Tenho compaixão da multidão porque já faz três dias que está comigo e não tem o que comer” (Mc 8,2);

“O Senhor, ao ver a viúva de Naím, ficou comovido e disse-lhe: ‘Não chores'” (Lc 7,13).

A discrição de Jesus se revela na sua recusa de qualquer forma espetacular: realiza milagres longe da multidão (cf. Mc 7,33; 8,23). Manda que as pessoas beneficiadas se calem, embora esta ordem muitas vezes não seja respeitada pelos homens, que querem manifestar seu entusiasmo e louvar a Deus. De modo particular, Jesus rejeitava a exploração de seus milagres para fins políticos, como atesta o episódio da multiplicação dos pães: “Jesus, sabendo que viriam buscá-lo para fazê-lo rei, refugiou-se de novo a sós na montanha” (Jo 6,15).

2. CONFRONTO COM PORTENTOS EXTRA-EVANGÉLICOS  
O estilo dos milagres de Jesus contribui para diferenciar o Senhor Jesus dos magos e taumaturgos do paganismo, bem como dos piedosos (hasidim) judeus, famosos por seus prodígios.

Eis, por exemplo, um milagre atribuído a Honi, judeu devoto, quase contemporâneo de Jesus:

Honi era desenhista de círculos místicos. Um dia aconteceu que lhe disseram: “Reza para que a chuva comece a cair!” Ele rezou, mas sem resultado. Que fez então? Traçou no chão um círculo, pôs-se no meio e disse diante de Deus: “Senhor do universo, os teus filhos têm os olhos fixos em mim, como se eu fosse um familiar teu. Eu te juro pelo teu grande nome que não me moverei daqui enquanto não te compadeceres dos teus filhos”. Então começaram a cair gotas de chuva. Honi disse: “Não foi isto que eu pedi! Pedi aguaceiros capazes de encher cisternas, fossas e cavernas”. Então começou a chover a cântaros. Honi voltou à carga: “Não foi isto que eu pedi. Pedi chuva de bênçãos, de benevolência e de clemência”. Então começou a cair chuva como era de esperar. Cf. Michna Ta’anit 3,8.

A respeito de outro devoto judeu — Hanina ben Dosa — se conta o seguinte: “Enquanto Hanina ben Dosa rezava, uma serpente venenosa mordeu-o, mas ele continuou a rezar. As pessoas que o viram, afastaram-se e encontraram a mesma serpente morta com a boca aberta. Exclamaram então: “Ai do homem mordido pela serpente, mas ai da serpente que mordeu Hanina ben Dosa!” (Mishna y Ber 9a).

As notas típicas dos milagres de Jesus se evidenciam também pela consideração dos milagres atribuídos a Apolônio de Tiana.([1]) Eis um destes:

“A peste campeava em Éfeso. Apolônio, solicitado para intervir, foi rapidamente de Esmirna a Éfeso. Reuniu os efésios e disse-lhes: ‘Tende coragem! Hoje deterei a peste’. Levou então os efésios para o teatro, onde viram um velho mendigo que piscava os olhos artificiosamente. Apolônio mandou aos efésios que o apedrejassem. Quando começaram a atirar pedras, o mendigo que piscava os olhos, pôs-se a lançar olhares terríveis e a mostrar olhos inflamados. Diante disto, os efésios tomaram consciência de que era um demônio e o apedrejaram com tanta violência que em pouco tempo ele caiu recoberto por grande multidão de pedras. Pouco depois, Apolônio mandou que fossem retiradas as pedras e averiguassem o animal que tinham morto. Os efésios descobriram o corpo que eles julgavam ter esmagado, e encontraram não o homem que desaparecera,mas um cão semelhante a um lobo tão grande quanto um dos maiores leões” (Vie d’Apollonius de Tyane, par Philostrate, t. IV, Amsterdam, M.M. Rey 1779, p. 90s).

Não é necessário frisar como diferem, por sua simplicidade e dignidade, os relatos evangélicos dos relatos de milagres atribuídos aos personagens atrás mencionados.

3. HISTORICIDADE DOS MILAGRES DE JESUS
Uma das questões mais candentes que hoje se ponha a respeito dos milagres de Jesus, é precisamente a da sua historicidade; a crítica racionalista tem na conta de impossível a realização de algum milagre.

A propósito observamos:

3.1. Considerações gerais  
Os milagres estão intimamente associados à missão de Jesus, a tal ponto que, negados os milagres, se nega a própria identidade de Jesus. Os Apóstolos, desde as suas primeiras pregações, apresentaram Jesus como autor de milagres. Assim no dia de Pentecostes São Pedro se referia a Jesus como “aprovado por Deus com milagres, prodígios e sinais… como bem sabeis” (At 2,22). Depois, em casa de Cornélio, o mesmo Pedro anunciava que “Deus ungiu Jesus com o Espírito Santo e com poder; ele passou fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo diabo, porque Deus estava com ele” (At 10,38). De resto, os milagres ocupam tal espaço nos Evangelhos e estão de tal modo inseridos na trama da missão de Jesus que é impossível tê-los como inventados e artificiosamente atribuídos a Jesus; sem os milagres não se explicariam a admiração e o entusiasmo que Jesus suscitou desde o início de sua missão pública. Jesus falou mediante palavras e sinais, como bem dá a entender Mateus ao sintetizar a vida pública de Jesus: “Jesus percorria todas as cidades e aldeias ensinando nas suas sinagogas, pregando o Evangelho e curando todas as doenças e enfermidades” (Mt 9,35; cf. 4,23).

A realidade dos milagres de Jesus não foi contestada nem pelos seus adversários; apenas diziam estes que Jesus efetuava tais coisas pelo poder de Satanás; foi, por exemplo, o que se deu logo depois da cura do endemoninhado cego e mudo, segundo Mt 12,24: “Ele expulsa demônios por Beelzebu, príncipe dos demônios”. A notícia da atividade taumatúrgica de Jesus se encontra até mesmo no Talmud da Babilônia (século VI d.C), onde se diz que Jesus foi executado na vigília de Páscoa como mago e sedutor: “Ele (Jesus) foi levado para fora da cidade a fim de ser apedrejado, porque praticou a magia e seduziu Israel” (Sanhedrin 43a). Essa magia não é senão o nome dado a milagres realizados por Jesus. Raciocinando serenamente, podemos dizer que a acusação de pactuar com Satanás e praticar a magia não pode ter sido forjada pelas comunidades cristas, pois depõe contra Jesus.   Deve-se ponderar que os primeiros pregadores do Evangelho falavam a gente que tinha conhecido Jesus e que poderia contestar qualquer falso título de glória atribuído a Jesus.

3.2. Critérios de autenticidade histórica  
Os críticos estabeleceram alguns critérios que servem para comprovar se determinado episódio do Evangelho é ou não autenticamente histórico.

1) Critério do múltiplo testemunho
Segundo este critério, pode-se ter como autêntico todo milagre que seja atestado por fontes diversas independentes entre si. É o caso, por exemplo, da multiplicação dos pães e dos peixes, relatada pelos Sinóticos e também por São João (que segue tradição diferente da Sinótica): Mt 14, 13-21; Mc 6,32-44; Lc 9, 10-17; Jo 6,1-13. É também o caso da cura do servo do centurião (Mt 8,5-13; Lc 7,1-10; Jo 4,46-54) e da caminhada de Jesus sobre as águas (Mt 14,25-27; Mc 6,48-50; Jo 6,18-20). É o caso outrossim da pesca milagrosa referida por Lucas (5,3-11) e João (21,1-6)… Isto não quer dizer que os milagres relatados por um só dos evangelistas não sejam históricos, pois outros critérios podem garantir autenticidade; o do múltiplo testemunho não é o único.

Este critério é especialmente válido quando entre os diversos testemunhos há um acordo substancial, mas existem pequenas diferenças nos pormenores e na interpretação do milagre: essas pequenas diferenças vêm a ser sólido argumento em favor da historicidade da narrativa, como geralmente afirmam os historiadores. Com efeito; uma identidade muito exata quanto ao modo de narrar é algo de artificial e “encomendado”. Exemplo dessa concórdia substancial com divergências acidentais é o episódio da cura do epilético narrada pelos três Sinóticos: Mt 17,14-20; Mc 9,14-29; Lc 9, 37-42. As três maneiras diferentes de narrar o mesmo episódio dependem da riqueza do acontecimento, que pode ser encarado sob mais de um aspecto.

2) Critério da descontinuidade
É sinal de autenticidade a diferença que possa haver entre o modo como Jesus fazia milagres e o modo como os faziam personagens contemporâneos ou anteriores a Cristo. Com efeito; se os milagres de Jesus fossem mera ficção, seguiriam o modelo dos portentos efetuados por Elias e Eliseu no Antigo Testamento ou por Pedro nos Atos dos Apóstolos. Ora os Profetas do Antigo Testamento realizavam prodígios depois de orar e invocando o nome de Deus.(2) Ao contrário, Jesus não rezava antes de um milagre e agia em seu nome próprio ou por sua própria autoridade: “Eu te ordeno: levanta-te!”, disse Ele ao paralítico (Mc 2,11). Quanto a Pedro, apelou para Jesus ao curar o paralítico à porta do templo: “Em nome de Jesus Cristo Nazareno, caminha!” (At 3,6). E a Enéias, paralítico havia oito anos, disse: “Enéias, Jesus Cristo te cura; levanta-te e arruma teu leito” (At 9,35). Somente Jesus ousava fazer milagres em seu nome próprio, como somente Ele ousava chamar Deus pelo apelativo carinhoso Abba.

(2)  1 Rs 17,7-16 Elias obtém farinha e azeita para uma viúva em tempo de penúria;  1 Rs 17,17-24 Elias ressuscita o filho de uma viúva;  1Rs 18,36-40 Elias faz descer fogo do céu;  2Rs 2, 19-25 dois milagres de Eliseu;  2Rs 4,32-37 Eliseu ressuscita o filho de uma viúva.

Uma vez estabelecida a historicidade dos milagres de Jesus, (3) resta examinar o significado que possam ter.

(3) Historicidade global; este ou aquele pormenor não vem ao caso.

4. MILAGRES DE JESUS: SIGNIFICADO
O próprio Jesus explicitou o significado dos seus milagres em três ocasiões de sua missão pública:

1)     Mt 11,2-6: João Batista manda perguntar a Jesus se Ele é o que há de vir ou o Messias. Jesus responde apontando seus milagres: “Os cegos recuperam a vista, os coxos andam, os leprosos são purificados e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados”. Com outras palavras: Jesus diz que está cumprindo as profecias messiânicas, que identificam o Messias mediante a realização de sinais prodigiosos; ver Is 26,19; 29,18s; 35, 5s; 61,1. Por conseguinte, segundo Jesus, os milagres vêm a ser os sinais de que Ele é o Messias.

2)     Mt 12,28; “Se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então o Reino de Deus já chegou até vós”. No caso, os milagres são os sinais de que o Reino de Deus já chegou à terra. Com efeito, dominando os males físicos (doenças e achaques) e morais (o pecado) dos homens, vencendo a própria morte, Jesus mostra que na sua pessoa e nas suas obras o Reino de Deus se faz presente e atuante neste mundo. Assim os milagres se inserem harmoniosamente na pregação de Jesus, comprovando-a e autenticando-a.

3)     Mt 11,20-24: “Jesus começou a verberar as cidades onde havia feito a maior parte dos seus milagres, por não se terem arrependido: ‘Ai de ti Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em ti e em Sidónia tivessem sido realizados os milagres que em vós se realizaram, há muito se teriam arrependido, vestindo-se de cilício e cobrindo-se de cinza. Mas eu vos digo: No Dia do Julgamento, haverá menos rigor para Tiro e Sidónia do que para vós. E tu, Cafarnaum, por acaso te elevarás até o céu? Antes, até o inferno descerás. Porque, se em Sodoma tivessem sido realizados os milagres que em ti se realizaram, ela teria permanecido até hoje. Mas eu vos digo que no Dia do Julgamento haverá menos rigor para a terra de Sodoma do que para vós”. — Destes dizeres se depreende que os milagres foram efetuados em Corazim, Betsaida e Cafarnaum precisamente para que tais cidades se convertessem, compreendendo a irrupção do Reino Messiânico. Os milagres são, pois, apelos ou sinais eloqüentes pelos quais Deus chama os homens a passar do pecado para uma vida nova.

Conseqüentemente os milagres evidenciam a identidade de Jesus. Ao vê-los, os homens espontaneamente perguntam: “Que é isso? Comanda até mesmo aos espfritos imundos e estes lhe obedecem!” (Mc 1,27) ou ainda: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?” (Mc 4,41). Algo de inédito aparece entre os homens, … e este inédito é o Messias assinalado por suas obras.   Este artigo muito deve ao Editorial “Storicità e Significato dei Miracoli di Gesú”, da revista La Civiltà Cattolica, no 3444, 18/12/1993, pp. 529-541.

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1 Apolônio de Tiana foi um filósofo pitagórico do século I d.C. Teria ficado praticamente ignorado se Filóstrato, no início do século III, não tivesse escrito a Vida de Apolônio, que certamente foi influenciada pelos escritos do Novo Testamento e apresenta Apolônio como herói e taumaturgo igual a Cristo.

Dinheiro e poder sujam a Igreja, alerta Papa Francisco

Terça-feira, 17 de maio de 2016, Da redação, com Rádio Vaticano

Francisco explica que desejo por poder é vontade mundana e contraria caminho que Jesus indica

Papa Francisco afirmou nesta terça-feira, 17, que o dinheiro e o poder sujam a Igreja. Na Missa celebrada esta manhã na capela da Casa Santa Marta, no Vaticano, o Santo Padre disse que o caminho que Jesus indica é o serviço, mas com frequência na Igreja buscam-se poder, dinheiro e vaidade.

Refletindo sobre o Evangelho de São Marcos (cf. Mc 9, 30-37), proposto na liturgia do dia, o Papa afirmou que estas tentações mundanas comprometem também hoje o testemunho da Igreja:

“No caminho que Jesus nos indica, o serviço é a regra. O maior é aquele que serve mais, quem está mais ao serviço dos outros, e não aquele que se vangloria, que busca o poder, o dinheiro, a vaidade, o orgulho… Não, esses não são os maiores. E o que aconteceu aqui com os apóstolos, inclusive com a mãe de João e Tiago, é uma história que acontece todos os dias na Igreja, em cada comunidade. ‘Mas entre nós, quem é o maior? Quem comanda?’ As ambições… Em cada comunidade – nas paróquias ou nas instituições – sempre existe esta vontade de galgar, de ter poder”.

Na sua homilia, o Papa Francisco sublinhou que a vontade mundana de estar com o poder acontece nas paróquias, nos colégios e também nos episcopados, uma atitude que não é a atitude de Jesus que veio para servir e ensina o serviço e a humildade.

O Pontífice destacou que todos são tentados pelas atitudes de poder e de vaidade, e pediu ao Senhor que ilumine a cada um para entender que o espírito mundano é inimigo de Deus.

“Todos nós somos tentados por estas coisas, somos tentados a destruir o outro para subir mais. É uma tentação mundana, mas que divide e destrói a Igreja, não é o Espírito de Jesus. É belo, imaginemos a cena: Jesus que diz estas palavras e os discípulos que dizem ‘não, é melhor não perguntar muito, vamos em frente’, e os discípulos que preferem discutir entre si qual deles será o maior. Vai-nos fazer bem pensar nas muitas vezes que nós vimos isto na Igreja e nas muitas vezes que nós fizemos isto, e pedir ao Senhor que nos ilumine, para entender que o amor pelo mundo, ou seja, por este espírito mundano, é inimigo de Deus”.

Os nomes de Cristo

Muitas são as formas de relacionar-se com o Senhor

São muitos os nomes e títulos atribuídos a Cristo por teólogos e autores espirituais ao longo dos séculos. Uns são emprestados do Antigo Testamento, outros do Novo. Alguns são usados e aceitos pelo próprio Jesus; outros lhe foram aplicados pela Igreja no decorrer dos séculos. Veremos aqui os mais importantes e mais conhecidos.   Jesus (cfr. Catecismo 430-435), que em hebreu significa ‘Deus salva’: “Quando da Anunciação, o anjo Gabriel dá-Lhe como nome próprio Jesus, o qual exprime, ao mesmo tempo, a Sua identidade e a Sua missão” (Catecismo, 430), isto é, Ele é o Filho de Deus feito homem para salvar ‘o seu povo de seus pecados’ (Mt 1, 21). “O nome de Jesus significa que o próprio nome de Deus está presente na pessoa do Seu Filho (cf. At 5,41;3 Jo 7) feito homem para a redenção universal e definitiva dos pecados. Ele é o único nome divino que traz a salvação (cf.Jo 3,18; At 2,21) e pode, desde agora, ser invocado por todos, pois a todos os homens Se uniu pela Encarnação” (Catecismo, 432). O nome de Jesus está no coração da oração cristã (cfr. Catecismo, 435).

Cristo (cfr. Catecismo, 436-440), palavra que vem da tradução grega do termo hebreu ‘Messias’ e quer dizer ‘ungido’. Passa a ser nome próprio de Jesus, “porque Ele cumpre perfeitamente a missão divina que tal nome significa. Com efeito, em Israel eram ungidos, em nome de Deus, aqueles que Lhe eram consagrados para uma missão d’Ele dimanada” (Catecismo, 436). Este era o caso dos sacerdotes, dos reis e, excepcionalmente, dos profetas. Este deveria ser, por excelência, o caso do Messias que Deus enviaria para instaurar definitivamente seu Reino. Jesus cumpriu a esperança messiânica de Israel em sua tríplice função de sacerdote, profeta e rei (cfr. ibid.).

Jesus “aceitou o título de Messias a que tinha direito (cfr. Jo 4, 25-26; 11, 27), mas não sem reservas, uma vez que esse título era compreendido, por numerosos dos Seus contemporâneos, segundo um conceito demasiado humano (cfr. Mt 22, 41-46), essencialmente político (cfr. Jo 6, 15; Lc 24, 21)» (Catecismo, 439).

Jesus Cristo é o Unigênito de Deus, o Filho único do Senhor (cfr. Catecismo, 441-445). A filiação de Jesus, em relação a Seu Pai, não é adotiva como a nossa, mas a filiação divina natural, isto é, “a relação única e eterna de Jesus Cristo com Deus, Seu Pai: Ele é o Filho único do Pai (cf. Jo 1,14.18; 3,16.18) e, Ele próprio, Deus (cfr. Jo 1,1). Crer que Jesus Cristo é o Filho de Deus é condição necessária para ser cristão (cfr. At 8,37; 1 Jo 2,23)” (Catecismo, 454). “Os evangelhos se referem, em dois momentos solenes – no batismo e na transfiguração de Cristo -, a voz do Pai, que O designa como Seu «filho muito-amado» (Mt 3,17; 17,5). Designa-se a Si próprio como «o Filho único de Deus» (Jo 3,16), afirmando por este título a sua preexistência eterna” (Catecismo, 444).

Senhor (cfr. Catecismo, 446-451): “Na tradução grega dos Livros do Antigo Testamento, o nome inefável sob o qual Deus Se revelou a Moisés (cfr. Ex 3, 14), YHWH, é traduzido por « Kyrios» («Senhor»). Senhor torna-se, desde então, o nome mais habitual para designar a própria divindade do Deus de Israel. É neste sentido forte que o Novo Testamento utiliza o título de «Senhor», tanto para o Pai como também – e aí é que está a novidade – para Jesus, assim reconhecido como sendo Ele próprio Deus (1 Co 2, 8)” (Catecismo, 446).

Ao atribuir a Jesus o título divino de Senhor, as primeiras confissões de fé da Igreja afirmam, desde o princípio (cfr. At 2, 34-36), que o poder, a honra e a glória, devidos a Deus Pai, também são devidos a Jesus (cfr. Rm 9,5; Tt 2,13; Ap 5,13), porque Ele é «de condição divina» (Fl 2, 6) e o Pai manifestou esta soberania de Jesus ressuscitando-O de entre os mortos e exaltando-O na Sua glória (cfr. Rm 10,9; 1 Co 12,3; Fl 2,11)” (Catecismo, 449). A oração cristã, litúrgica ou pessoal, está marcada pelo título ‘Senhor’ (cfr. Catecismo, 451).

José Antonio Riestra
http://www.opusdei.org.br

Santo Evangelho (Lc 21, 25-28.34-36)

1º Domingo do Advento – 29/11/2015 

Primeira Leitura (Jr 33,14-16)
Leitura do Livro do profeta Jeremias:

14“Eis que virão dias, diz o Senhor, em que farei cumprir a promessa de bens futuros para a casa de Israel e para a casa de Judá. 15Naqueles dias, naquele tempo, farei brotar de Davi a semente da justiça, que fará valer a lei e a justiça na terra. 16Naqueles dias, Judá será salvo e Jerusalém terá uma população confiante; este é o nome que servirá para designá-la: ‘O Senhor é a nossa justiça’”.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Responsório (Sl 24)

— Senhor meu Deus, a vós elevo a minha alma!
— Senhor meu Deus, a vós elevo a minha alma!

— Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos, e fazei-me conhecer a vossa estrada! Vossa verdade me oriente e me conduza, porque sois o Deus da minha salvação!

— O Senhor é piedade e retidão, e reconduz ao bom caminho os pecadores. Ele dirige os humildes na justiça, e aos pobres ele ensina o seu caminho.

— Verdade e amor são os caminhos do Senhor para quem guarda sua Aliança e seus preceitos. O Senhor se torna íntimo aos que o temem e lhes dá a conhecer sua Aliança.

 

Segunda Leitura (1Ts 3,12-4,2)
Leitura da Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses:

Irmãos: 3,12O Senhor vos conceda que o amor entre vós e para com todos aumente e transborde sempre mais, a exemplo do amor que temos por vós. 13Que assim ele confirme os vossos corações numa santidade sem defeito aos olhos de Deus, nosso Pai, no dia da vinda de nosso Senhor Jesus, com todos os seus santos. 4,1Enfim, meus irmãos, eis que vos pedimos e exortamos no Senhor Jesus: Aprendestes de nós como deveis viver para agradar a Deus, e já estais vivendo assim. Fazei progressos ainda maiores! 2Conheceis, de fato, as instruções que temos dado em nome do Senhor Jesus.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Anúncio do Evangelho (Lc 21,25-28.34-36)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós!
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.
— Glória a vós, Senhor!

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 25“Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra, as nações ficarão angustiadas, com pavor do barulho do mar e das ondas. 26Os homens vão desmaiar de medo, só em pensar no que vai acontecer ao mundo, porque as forças do céu serão abaladas. 27Então eles verão o Filho do Homem, vindo numa nuvem com grande poder e glória. 28Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima. 34Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós; 35pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra. 36Portanto, ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

 

A IGREJA CATÓLICA CELEBRA E VENERA HOJE
São Francisco Antônio Fasani, modelo de Sacerdote 

Verdadeiro amigo do seu povo, ele foi para todos irmão e pai, eminente mestre de vida, por todos procurado como conselheiro iluminado e prudente

O santo de hoje nasceu em Lucera (Itália), a 6 de agosto de 1681, e lá morreu a 29 de novembro de 1742. Foi beatificado no dia 15 de abril de 1951 e canonizado a 13 de abril de 1986 pelo Papa João Paulo II. Fez os estudos no convento dos Frades Menores Conventuais. Sentindo o chamamento divino, ingressou no noviciado da mesma Ordem. Fez a profissão em 1696 e a 19 de setembro de 1705 recebeu a Ordenação Sacerdotal. Doutorou-se em Teologia e tornou-se exímio pregador e diretor de almas. Exerceu os cargos de Superior do convento de Lucera e de Ministro Provincial.

“Ele fez do amor, que nos foi ensinado por Cristo, o parâmetro fundamental da sua existência. O critério basilar do seu pensamento e da sua ação. O vértice supremo das suas aspirações”, afirmou o Papa João Paulo II a respeito de São Fasani.

São Fasani apresenta-se-nos de modo especial como modelo perfeito de Sacerdote e Pastor de almas. Por mais de 35 anos, no início do século XVIII, São Francisco Fasani dedicou-se, em Lucera, e também nos territórios ao redor, às mais diversificadas formas de ministério e do apostolado sacerdotal.

Verdadeiro amigo do seu povo, ele foi para todos irmão e pai, eminente mestre de vida, por todos procurado como conselheiro iluminado e prudente, guia sábio e seguro nos caminhos do Espírito, defensor dos humildes e dos pobres. Disto é testemunho o reverente e afetuoso título com que o saudaram os seus contemporâneos e que ainda hoje é familiar ao povo de Lucera: ele, outrora como hoje, é sempre para eles o “Pai Mestre”.

Como Religioso, foi um verdadeiro “ministro” no sentido franciscano, ou seja, o servo de todos os frades: caridoso e compreensivo, mas santamente exigente quanto à observância da Regra, e de modo particular em relação à prática da pobreza, dando ele mesmo incensurável exemplo de regular observância e de austeridade de vida.

São Francisco Antônio Fasani, rogai por nós!

 

Primeiro Domingo do Advento – Ano C

Por Mons. Inácio José Schuster

Evangelho segundo São Lucas 21, 25-28.34-36
«Haverá sinais no Sol, na Lua e nas estrelas; e, na Terra, angústia entre os povos, aterrados com o bramido e a agitação do mar; os homens morrerão de pavor, na expectativa do que vai acontecer ao universo, pois as forças celestes serão abaladas. Então, hão-de ver o Filho do Homem vir numa nuvem com grande poder e glória. Quando estas coisas começarem a acontecer, cobrai ânimo e levantai a cabeça, porque a vossa redenção está próxima.» «Tende cuidado convosco: que os vossos corações não se tornem pesados com a devassidão, a embriaguez e as preocupações da vida, e que esse dia não caia sobre vós subitamente, como um laço; pois atingirá todos os que habitam a terra inteira. Velai, pois, orando continuamente, a fim de terdes força para escapar a tudo o que vai acontecer e aparecerdes firmes diante do Filho do Homem.»

Estamos em um novo ano da graça, um novo ano litúrgico, uma nova oportunidade que no tempo presente Deus concede a todos os cristãos que querem chegar à estatura perfeita de Jesus Cristo. Recomeçamos a repassar um a um, os seus mistérios terrestres e celestes com o desejo de assimilá-los. Neste primeiro domingo do advento contrariamente ao que se poderia esperar a Igreja não nos faz recordar nos inícios da humanidade. Os inícios absolutos do nosso planeta, da nossa história ou quando éramos apenas embriões. Na verdade, Deus nunca nos pensou embriões. Deus tem um sonho para com cada um de nós e deseja realizá-lo com a nossa cooperação, com a nossa liberdade, com a nossa responsabilidade, o que supõe um estado adulto. Neste primeiro domingo do advento, a Igreja deseja que iniciemos nova peregrinação, nova apropriação dos mistérios de Cristo contemplando o final grandioso. O final grandioso da nossa história, que para nós que temos fé, será a grande manifestação da Glória de Jesus Cristo. Ele, não se esqueçam, foi expulso deste mundo mediante um processo sumário, e uma morte dolorosíssima numa cruz. Apenas nós cristãos cremos na Sua Ressurreição, na Sua vitória e na Sua realeza. E apenas escondidamente, através do Seu Espírito, Ele age na Igreja, em cada um de nossos corações. Mas, naquele dia derradeiro, último e definitivo, convém que toda história passada e presente, O contemple na majestade de Sua Glória. Até mesmo aqueles que o traspassaram, e todos aqueles que O rejeitaram de mil maneiras na própria existência. E assim, a partir de mais um início de ano litúrgico, somos endereçados para a meta final da nossa existência. O que importa é o que está pela frente; é o que vem ainda, não o que ficou para trás. Não nos esqueçamos que aquele grandioso final é antecipado pessoalmente no pequeno apocalipse, que é a morte individual de cada um de nós, e o nosso encontro definitivo com o Cristo, juiz e Senhor dos nossos atos. Assim, vamo-nos preparando, não apenas para recebê-Lo no próximo Natal, mas para recebê-Lo no final, no Último e definitivo dia que será o grande Natal, a grande apresentação, a definitiva e permanente manifestação de Jesus entre nós.

 

«Então hão-de ver o Filho do Homem vir»
Bem-aventurado Jan van Ruusbroec (1293-1381), cônego regular
Les Noces spirituelles, 1 (a partir da trad. Louf, Bellefontaine 1993, p. 39 rev.)

«Aí vem o esposo» (Mt 25, 6). Cristo, o nosso esposo, pronuncia esta palavra. Em latim, o termo «venit» contém em si dois tempos do verbo: o passado e o presente, o que não impede de visar também o futuro. É por isso que vamos considerar três vindas do nosso esposo, Jesus Cristo. Quando da primeira vinda, Ele fez-Se homem por causa do homem, por amor. A segunda vinda tem lugar todos os dias, freqüentemente e em muitas ocasiões, em todos os corações que amam, acompanhada de novas graças e de novas dádivas, consoante a capacidade de cada um. A terceira vinda é aquela que terá lugar no dia do Juízo ou na hora da morte. […] O motivo por que Deus criou os anjos e os homens foi a Sua bondade infinita e a Sua nobreza, uma vez que Ele quis fazê-lo para que a beatitude e a riqueza que Ele próprio é sejam reveladas às criaturas dotadas de razão e para que estas possam saboreá-Lo no tempo e usufruí-Lo para lá do tempo, na eternidade. O motivo por que Deus Se fez homem foi o seu amor imenso e o infortúnio dos homens, pois eles estavam alterados pela queda do pecado original e eram incapazes de se curarem dele. Mas o motivo por que Cristo realizou todas as Suas obras na terra não apenas segundo a Sua divindade, mas também segundo a Sua humanidade é quádruplo, a saber: o Seu amor divino que não tem fim; o amor criado, ou caridade, que possuía na Sua alma graças à união com o Verbo eterno e graças à dádiva perfeita que Seu Pai Lhe fez; o grande infortúnio em que se encontrava a natureza humana; e, por fim, a honra de Seu Pai. Eis os motivos da vinda de Cristo, o nosso esposo, e de todas as Suas obras.

 

‘Deus não mente, Ele cumpre suas promessas’
Padre Delton

Advento significa a espera d’Aquele que vem. Quando nos reunimos na Eucaristia, celebramos a presença de Jesus e esperamos sua volta. Estamos nos preparando para o Natal e também para o retorno de Jesus. Se Jesus viesse hoje, você estaria pronto? Tem gente que passa o ano todo preparando as férias, e não tem pecado nisso, se você tem condições de preparar as férias como você está preparando para a vida eterna? Não sei quantos anos você vai viver, mas o que são 90 anos diante da eternidade? Quando o Senhor vier será para julgar os vivos e os mortos, assim diz a Palavra. Seremos julgados pelo amor, a execução da pena será quando Ele vier em sua glória. Não existe tempo depois da morte. O Senhor é cumpridor de promessas, o coração de Deus não se engana, o que Ele prometeu para mim há de si cumprir. Na Palavra tem milhares de promessas para mim e para você, ainda que você tenha sido vítima de tanta mentira, Deus não mente, Deus não falha. A primeira leitura [Jeremias 33, 14-16], quer nos encher de esperança. Mesmo que para você, todas as esperanças humanas tenham se acabado, Deus quer cumprir Suas promessas em tua vida. Reze: “Senhor Deus, eu quero, aceito e peço o cumprimento de suas promessas em minha vida, na família. A minha casa te pertence, cumpra as Suas promessas”. O Senhor diz para você: “hoje a salvação entrou na sua casa”. O Senhor quer ser o teu íntimo. O grande dom que Deus nos deu foi Jesus e Ele quer ser seu íntimo. Acorda! O Senhor não quer passar pela tua vida, o Senhor quer ser teu íntimo e quer que você reconheça a potência dessa intimidade. Quando o Senhor está em nosso íntimo a nossa vida muda. Não pode permanecer numa vida de pecado quem recebeu Jesus como hóspede. Toda santidade é fruto da habitação de Deus. “Progrida, não pare em tua vida espiritual” Sabe qual é nosso maior defeito? Temos memória curta, quebramos a “cara”, depois passa um tempo e cometemos o mesmo erro. Na vida espiritual ou você vai para frente ou você vai para trás. É preciso progredir passo a passo, não podemos ficar parados. Progrida, não pare em tua vida espiritual. Se você está impedido de comungar, não deixe de ir ao encontro do Senhor através da Palavra, da devoção mariana, não fique parado, faça progressos. Hoje mais do que nunca estamos vendo o mundo virado, estamos vendo as mudanças climáticas. Estamos num mundo sempre a beira do colapso. Perceba os sinais de Deus em sua vida, o Senhor está investindo tudo para que você não pereça. Diga: “Senhor Jesus, eu quero assumir essa Palavra, a minha libertação está próxima”. Lá onde você é medo o Espírito Santo é coragem, onde você é fraco o Espírito Santo é a tua fortaleza. Não sabemos como orar, o que dizer, por isso Espírito Santo há de vir em nosso socorro para nos ajudar a orar.

 

Iniciamos, hoje, um novo Ano Litúrgico, muito antes do início de mais um ano civil. O ambiente social, através do comércio, da publicidade, já respira um “ar natalício”. Vale a pena aproveitar esta antecipação e valorizar aquilo que é interessante. Para nós, cristãos, o tempo tem outro sentido. O centro, a plenitude dos tempos, o núcleo do ano é a Páscoa do Senhor, o Tríduo Pascal no qual celebramos o mistério salvador da morte e da ressurreição de Jesus Cristo que nos convoca em cada domingo à eucaristia. Porém, há que preparar o Advento e as festas do Natal. Iremos preparar, novamente, o nosso interior para receber de novo, no hoje da nossa vida, o nascimento Daquele que dá sentido ao tempo, à história e à nossa vida. É importante que se note que estamos iniciando um novo tempo que é forte e importante. Ao começar o Advento, coloquemos já o nosso olhar na celebração do Natal – Epifania, como fazemos quando iniciamos a Quaresma que só tem sentido a partir da Páscoa. Na nossa celebração e na pastoral da comunidade, tudo tem que expressar que estamos começando de novo: a coroa do Advento, cartazes com frases alusivas ao tempo, cânticos adequados, a programação de uma celebração penitencial, vigílias de oração, atividades formativas e catequéticas, etc. O Advento situa-nos entre as duas vindas do Filho do Homem. O Prefácio do Advento I diz-nos claramente: “Ele veio a primeira vez … de novo há-de vir”. O primeiro domingo do ano litúrgico põe-nos sempre à nossa reflexão esta segunda vinda do Filho do Homem. Para esta segunda vinda, na celebração tudo nos convida a estar preparados e vigilantes, mesmo a recordação da primeira vinda. Aguardaremos pela segunda vinda do Senhor em vigilância e oração. Mas hoje, o Senhor também está presente, porque vem assiduamente ao encontro de cada um e da história. É preciso saber descobrir o Senhor, é necessário estar atento para que Ele não passe despercebido. O momento presente não é só preparação para a vinda definitiva, mas também acolher hoje a vinda do Senhor que é salvadora. Jesus diz-nos no evangelho: “Erguei-vos, levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima”. Libertação de quê? Jesus dá a resposta: de todas as coisas que escurecem e preocupam demasiado o nosso coração. Que programa mais belo para o Advento: o contraste com tudo aquilo que nestes dias que antecedem o Natal nos preocupa demais; quantos negócios e compras nos preocupam demais! Tudo isto pode criar em nós uma insensibilidade a Deus que vem para nos libertar de todas as escravidões da vida. A livre pobreza do Natal recordar-nos-á de tudo isto. A nossa pregação deverá ajudar a que todos “compareçam de pé diante do Filho do Homem” que vem amorosamente à vida humana. Como São Paulo nos diz, temos que valorizar o esforço que cada um faz na sua caminhada de fé. Não vale a pena ter sempre um discurso negativo e deprimente. “Deveis proceder para agradar a Deus e assim estais procedendo; mas deveis progredir ainda mais” (2ª leitura). Só assim tem sentido o Advento. A Oração Coleta deste domingo faz-nos pedir a Deus que despertemos em nós “a vontade firme, pela prática das boas obras, para ir ao encontro de Cristo”. “Para Vós, Senhor, elevo a minha alma”, cantaremos no Salmo Responsorial. É também o texto da Antífona de Entrada. Quando nos preparamos para viver de novo a “humilhação” de Deus que assumiu a nossa condição humana, exceto o pecado, deveremos corresponder com a nossa “elevação”. “Corações ao alto! O nosso coração está em Deus”, proclamaremos no início da Oração Eucarística. “Ensinais a amar os bens do Céu e a viver para os valores eternos”, diremos na Oração Depois da Comunhão. Este “subir” e “descer” que vivemos na Eucaristia tem de estar bem firme nos nossos corações “para nos apresentarmos santos e irrepreensíveis” diante de Deus. Esta é a nossa esperança, é a esperança do Advento.

 

PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO
Lucas 21, 25-28.34-36
“A libertação de vocês está próxima”

Neste primeiro domingo do Ano Litúrgico, Lucas nos mergulha num dos discursos escatalógicos do seu Evangelho. Sendo assim, usa imagens e símbolos que não são da nossa cultura e época, e por isso nem sempre são fáceis a serem compreendidos pelos ouvintes de hoje. Porém, na literatura apocalíptica não é necessário interpretar cada imagem detalhadamente – o mais importante não é cada pedra do mosaico, mas o padrão inteiro – não cada imagem e símbolo, mas a sua mensagem de conjunto. O texto nos apresenta a figura do “Filho do Homem” – o título que nos Evangelhos Jesus mais usava para si mesmo, e que nós pouco usamos. Este título vem de um trecho do livro apocalíptico de Daniel: “Em imagens noturnas, tive esta visão: entre as nuvens do céu vinha alguém como um filho de homem… Foi-lhe dado poder, glória e reino, e todos os povos, nações e línguas o serviram. O seu poder é um poder eterno, que nunca lhe será tirado. E o seu reino é tal que jamais será destruído” (Dn 7, 13s). Então, Jesus recorda aos seus discípulos a mensagem de ânimo que trazia o Livro de Daniel aos perseguidos do tempo dos Macabeus, pelo ano 175 a.C. – que embora possa parecer que os poderes deste mundo, os impérios opressores sejam mais fortes do que o poder de Deus, isso não passa de uma ilusão. Pois, na plenitude dos tempos, Deus, através do seu Ungido – o Filho do Homem – revelará o seu poder, e estabelecerá um Reino que jamais será destruído. Isso acontece agora em Jesus! Qualquer interpretação de um texto apocalíptico que bota medo nos ouvintes é necessariamente errada, pois a função da literatura apocalíptica é de animar e dar coragem aos oprimidos e sofredores. Por isso, o ponto central do nosso texto de hoje é uma mensagem de ânimo, coragem e fé: “Quando essas coisas começarem a acontecer, levantem-se e erguem a cabeça, porque a libertação de vocês está próxima” (v. 28). Este trecho tem uma dimensão fortemente cristológica – nos afirma que Jesus, o Filho do Homem vitorioso, tem em controle todas as forças, sejam elas de guerra (v. 9) ou do mar – símbolo de forças indomináveis na literatura judaica da época (v. 25). O versículo acima citado traz uma mensagem cheia de confiança: em contraste com a atitude de covardia dos malvados (v. 26), os discípulos ficarão com a cabeça erguida, para acolher o juiz justo, o Filho do Homem. Mesmo assim, os eleitos devem ficar atentos para não caírem. Devem cuidar muito para que: “Os corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida” (v. 34). Pois, é fácil assumir as atitudes do mundo, sem que notemos, a não ser que sejamos vigilantes. Por isso, o texto de hoje termina com um conselho válido também para os discípulos dos tempos modernos: “Fiquem atentos e rezem todo o tempo, a fim de terem força” (v. 36). O Advento é tempo oportuno para que examinemos a nossa vida para descobrir se realmente estamos atentos o tempo todo para não perdermos as manifestações da presença de Jesus no meio de nós. É tempo de nos dedicarmos mais à oração, para renovarmos as nossas forças, para não cairmos na armadilha da “inatenção” no meio das preocupações e barulhos do mundo moderno, para que os nossos corações continuem “sensíveis” aos apelos do Senhor, através dos irmãos e irmãs, no nosso dia-a-dia!

XXXIII Domingo do tempo comum – Ano B

Por Mons. Inácio José Schuster

Naqueles dias… 
Daniel 12, 1-3; Hebreus 10, 11-14. 18; Marcos 13, 24-32

O Evangelho do penúltimo domingo do ano litúrgico é o clássico texto sobre o fim do mundo. Em todas as épocas, houve quem se encarregou de agitar ameaçadoramente esta página do Evangelho ante seus contemporâneos, alimentando psicoses e angústia. Meu conselho é permanecer tranqüilos e não se deixar abater por estas previsões catastróficas. Basta ler a frase final da mesma passagem evangélica: «Mas daquele dia e hora, ninguém sabe nada, nem os anjos no céu, nem o Filho, só o Pai». Se nem sequer os anjos e o Filho» (se entende que enquanto homem, não enquanto Deus) conhecem o dia nem a hora do final, é possível que saiba e esteja autorizado a anunciá-lo o último adepto de alguma seita ou fanático religioso? No Evangelho, Jesus nos assegura o fato de que Ele voltará um dia e reunirá seus escolhidos desde os quatro ventos; o quando e como virá (entre as nuvens do céu, o escurecimento do sol e a queda das estrelas) fazem parte da linguagem figurada própria do gênero literário destes relatos. Outra observação pode ajudar a explicar certas páginas do Evangelho. Quando nós falamos do fim do mundo, segundo a idéia que temos hoje do tempo, pensamos imediatamente no fim do mundo em absoluto, depois do qual já não pode haver mais que a eternidade. Mas a Bíblia raciocina com categorias relativas e históricas, mais que absolutas e metafísicas. Quando por isso fala do fim do mundo, entende com muita freqüência o mundo concreto, aquele que de fato existe e é conhecido por certo grupo de homens: seu mundo. Trata-se, em resumo, mais do fim de um mundo que do fim do mundo, ainda que as duas perspectivas às vezes se entrecruzam. Jesus diz: «Não passará esta geração sem que tudo isto aconteça». Equivocou-se? Não; aquela geração, de fato, não passou; o mundo conhecido por aqueles que o escutavam, o mundo judaico, passou tragicamente com a destruição de Jerusalém no ano 70 depois de Cristo. Quando, no ano 410, sucedeu o saque de Roma por obra dos vândalos, muitos grandes espíritos do tempo pensaram que era o fim do mundo. Não erravam muito; acabava um mundo, o criado por Roma com seu império. Neste sentido, não se equivocavam tampouco aqueles que em 11 de setembro de 2001, vendo a queda das Torres Gêmeas, pensaram no fim do mundo… Tudo isto não diminui, mas acrescenta a seriedade do compromisso cristão. Seria a maior estupidez consolar-se dizendo que, afinal, ninguém conhece quando será o fim do mundo, esquecendo que pode ser, para cada um, esta mesma noite. Por isso, Jesus conclui o Evangelho de hoje com a recomendação: «Estai atentos e vigiai, porque não sabeis quando será o momento preciso». Devemos — considero — mudar completamente o estado de ânimo com o qual escutamos estes Evangelhos que falam do fim do mundo e do retorno de Cristo. Terminou-se por considerar um castigo e uma escura ameaça aquilo que a Escritura chama «a feliz esperança» dos cristãos, isto é, a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo (Tito 2, 13). Também está em jogo a idéia que temos de Deus. Os recorrentes discursos sobre o fim do mundo, obra freqüente de pessoas com um sentimento religioso distorcido, têm sobre muitos um efeito devastador: reforçar a idéia de um Deus perenemente bravo, disposto a dar corda à sua ira sobre o mundo. Mas este não é o Deus da Bíblia, a quem um salmo descreve como «clemente e compassivo, lento para a cólera e cheio de amor, que não se aborrece eternamente nem para sempre guarda seu rancor… ele se lembra do pó que somos nós» (Sl 103, 8-14).

 

Evangelho de São Marcos 13, 24-32
«Mas nesses dias, depois daquela aflição, o Sol vai escurecer-se e a Lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do céu e as forças que estão no céu serão abaladas. Então, verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens com grande poder e glória. Ele enviará os seus anjos e reunirá os seus eleitos dos quatro ventos, da extremidade da terra à extremidade do céu.» «Aprendei, pois, a parábola da figueira. Quando já os seus ramos estão tenros e brotam as folhas, sabeis que o Verão está próximo. Assim, também, quando virdes acontecer estas coisas, sabei que Ele está próximo, às portas. Em verdade vos digo: Não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam. O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão. Quanto a esse dia ou a essa hora, ninguém os conhece: nem os anjos do Céu, nem o Filho; só o Pai.»

Jesus se havia distanciado do templo de Jerusalém. Do alto do Monte das Oliveiras alguns discípulos chamam sua atenção diante da belíssima construção. Jesus não se faz ilusão: “Vedes este templo, pois eu vos digo não ficará pedra sobre pedra”. Neste penúltimo domingo do tempo comum, a liturgia e as leituras nos fazem voltar a atenção para o futuro, para o grande futuro, para o derradeiro futuro da história e de todos nós. Em dois momentos distintos, Jesus fala a respeito da destruição de Jerusalém, o que se verificou no ano setenta de nossa era, com Tito e num segundo plano fala do final de todas as coisas, do final da história. Nós não sabemos como será este final, nós não sabemos se o nosso planeta entrará numa era glacial ou se será frito literalmente por uma elevação insuportável da temperatura. Nós não sabemos se alguns dos duzentos asteróides e cometas que giram aqui por perto algum dia se chocarão terrível e fatalmente com a nossa terra. Sabemos que nós encaminhamos para o fim e aqueles que têm fé sabe que no fim haverá de se manifestar plenamente a vitória de Jesus crucificado e ressuscitado. De resto, este fim de todas as coisas se antecipa para cada um de nós num pequeno cataclismo ou no apocalipse penoso daquele que parte. O último combate na agonia, medo diante do mistério desconhecido, dores físicas atiçadas por satanás nas suas últimas tentações, um mundo e a vida que se esvai das nossas mãos. Quando isto acontecer, o Evangelho de hoje nos afirma, que está próximo o grande encontro para o qual nós cristãos católicos nos preparamos a vida inteira. Pois o cristão católico naquele derradeiro e definitivo dia não entregará sua vida ao pó da terra ou a sepultura, isto o faz aqueles que não têm fé. Aquele que tem fé entrega a sua vida cheia de esperança nas mãos misericordiosas do Pai, porém é preciso viver esta esperança e vivermos de tal modo a seriedade do cristianismo que, aquele dia tremendo e ao mesmo tempo glorioso que se antecipará no ato da nossa morte, não nos apanhe despreocupados, desprevenidos e, sobretudo com as mãos vazias. Para aqueles que morrem no Senhor e carregados de boas obras, diz o Espírito no Apocalipse: “Que descansem em paz” para toda a eternidade, porque suas obras, suas boas obras, o crescimento que tiverem realizado no amor vertical para com Deus e no amor horizontal para com os irmãos, estas são as obras que nos acompanharão e advogarão a nossa causa diante do Justo Juiz.

 

Da multidão ao grupo dos discípulos
Frei Josué

Nosso Senhor em sua infinita sabedoria nos dá algumas pistas para não ficarmos preocupados com o dia e nem a hora em que Ele voltará, pois ninguém sabe quando será, somente o Pai do céu sabe. Por outro lado Ele também nos diz quando vocês começarem ver catástrofes a nível mundial, vocês estejam atentos, estejam prontos. Fazendo comparação com a figueira, quando vermos os sinais, que nós não devemos ficar desesperados como os pagãos, mas ter certeza sim que Ele está próximo. Todos nós devemos estar prontos, porque o Senhor virá ou nós iremos a Ele. Por isso a Palavra nos alerta, pedindo que estejamos vigilantes. Nosso Senhor sabe que a vida aqui na terra nos fascina, e pode nos fazer perder o verdadeiro sentido da nossa existência. A vida aqui é passageira, a nossa casa definitiva é com Deus e nós não podemos nos acostumar. Nós amamos demais as coisas deste mundo e elas acabam tomando o lugar de Deus. Se acreditamos que existe o céu e acreditamos em tudo o que a Palavra de Deus nos ensina, vivamos então de maneira diferente, porque a gloria futura não se compara a esta vida. Tenham sonhos e queiram construir famílias, nesse mundo que despreza a família, não tenha medo, pois Deus dará a graça de criá-los. Jovem descubra o seu lugar na Igreja, ande na graça de Deus porque quando o Senhor voltar ou você ir a Ele, você receberá um premio. Deus sabe que cada dia mais temos que estar em oração. Deus salvará o seu povo, então você precisa sair do grupo da multidão, e vir para o grupo dos discípulos. A multidão procura milagres e sinais e quando Jesus não faz a multidão fica revoltada, a mesma multidão que gritava hosana ao filho de Davi, gritou crucifica-o. Esta é a multidão que esta atrás das graças de Deus e não de Deus. Dessa multidão Nosso Senhor Jesus Cristo escolheu os seus discípulos, e nesse Evangelho Jesus fala para os discípulos e não para a multidão. Aos seus Jesus não dá pão da padaria, mas dá o seu corpo sangue alma e divindade. Quando foi que Jesus instituiu a Eucaristia, não foi na multiplicação dos pães, mas foi na quinta-feira junto com os seus discípulos. ‘Não faltará o pão na sua casa, não faltará alegria, porque o Senhor é fiel.’ Quem são os discípulos amados de Jesus? Aos discípulos amados Jesus entrega a sua mãe a Virgem Maria, Ele confia São Miguel Arcanjo defensor do povo de Deus como diz na primeira leitura, aos discípulos Jesus vai dar os maiores dons e ensinamentos. Não seja apenas multidão, não seja aqueles que correm para Jesus resolver os problemas, Jesus não é o teu empregado Ele é o teu Senhor. Você precisa ser servo de Deus, e você poderá dizer como o Salmista: “Guardai-me oh Deus porque em Vós me refugio”. Meus irmãos, os discípulos Jesus também recebem a cruz. “Quem quiser ser meu discípulo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. E diz também vinde a mim todos vós que estais cansados e Eu vos aliviarei”. Aos seus o Senhor oferece o seu lado aberto, também oferece o seu peito, como João você pode reclinar a sua cabeça. Discípulo sofre um pouquinho mais, mas recebe muito mais e quanto maior a dificuldade maior será a proteção. E como é bom saber que estamos na proteção de Deus e mesmo na noite escura onde você não vê nada, você sabe que a mão do Senhor está sobre a sua vida. Vale a pena entregar a nossa vida a Ele, viver nesse mundo já antecipando o céu, fugindo do pecado, fazendo o bem, andando retamente, trazendo as pessoas para perto de Deus, para que elas também experimentem esta paz. Nós somos a geração que precisa mostrar ao mundo que vale a pena ser de Deus, que vale a pena rezar, ser honesto, caminhar na justiça, mesmo que você seja tido como tolo, mas você sabe em quem você colocou a sua fé. Irmãos vivamos a santidade, saia da multidão, esse é o maior milagre que Jesus quer fazer na sua vida e lhe garanto que como Davi você dirá: “O Senhor é o meu pastor e nada me faltará”. Não faltará o pão na sua casa, não faltará alegria, porque o Senhor é fiel.

 

O exemplo da figueira
Cardeal John Henry Newman (1801-1890), presbítero, fundador de comunidade religiosa, teólogo
«The Invisible World» PPS, IV, 13

Apenas uma vez por ano, mas ainda assim uma vez, o mundo que vemos manifesta subitamente as suas capacidades escondidas e revela-se de várias formas. Então as folhas aparecem, as árvores de fruto e as flores desabrocham, a erva e o trigo germinam. Há subitamente um impulso e irrompe a vida escondida que Deus colocou no mundo material. Ora bem! Isto serve-nos como exemplo do que o mundo pode fazer a uma ordem de Deus. Esta terra […] explodirá um dia num mundo novo de luz e de glória, no qual veremos os santos e os anjos. Quem pensaria, sem a experiência que teve das Primaveras precedentes, quem poderia conceber, dois ou três meses antes, que a face da Natureza, que parecia morta, pudesse tornar-se tão esplêndida e tão variada ? […] O mesmo se passa com respeito a essa Primavera eterna que espera todos os cristãos: virá, mesmo que tarde. Esperemo-la porque «o que há-de vir virá e não tardará» (Heb 10, 37). É por isso que dizemos todos os dias «Venha a nós o Vosso reino!» O que quer dizer: Mostra a Tua grandeza, Senhor; Tu que tens o Teu trono sobre os querubins, mostra a Tua grandeza. Desperta o Teu poder e vem salvar-nos [cf. Sl 80 (79), 2-3].

 

Estamos no penúltimo domingo do Ano Litúrgico. Todo o ciclo litúrgico ajudou-nos não só a conhecer melhor Jesus Cristo, mas também a conhecer melhor o significado do Reino. Progressivamente, Jesus foi revelando o mistério de Deus. Da nossa parte, como será importante assimilar e compreender toda a mensagem divina e destruir no nosso íntimo tudo o que nos impede de ver e de seguir Jesus! Como verdadeiros discípulos, queremos viver a nossa fé. Jesus entregou-se por nós, mas a Igreja propõe uma nova reflexão a partir das palavras que Jesus proferiu diante do Templo para nos sentirmos fortes nos momentos em que os esquemas que nos dão segurança poderão vacilar. Quem poderia prever que o Templo, sinal do orgulho e da vaidade da alma judaica daquele tempo, desapareceria? Quando isso aconteceu, as palavras de Jesus converteram-se numa nova fonte de esperança, de realismo, de conforto. Quando o evangelho de São Marcos foi escrito, já a comunidade cristã tinha vivido a destruição do Templo de Jerusalém e já conhecia com sofrimento o que significava dar testemunho da fé. O Livro de Daniel diz-nos umas palavras que poderão ser muito atuais e adequadas ao mundo de hoje: “será um tempo de angústia, como não terá havido até então, desde que existem nações. O profeta fala de uma situação de guerra em que o povo de Israel se tinha envolvido e tinha perdido, provocando uma grande mortandade. A linguagem de Jesus, olhando o Templo a partir do Monte das Oliveiras a dois dias da sua paixão, é de desânimo e angústia: “Depois de uma grande aflição, o sol escurecerá e a lua não dará a sua claridade; as estrelas cairão do céu e as forças que há no céu serão abaladas”. Há que salientar que esta linguagem é apocalíptica. Não se trata de levar à letra esta frase, mas o texto transmite poeticamente uma vivência dura e desesperada. Também hoje há experiências duras e cheias de desespero. Contudo, a linguagem apocalíptica não fica numa visão negativa. O profeta Daniel fala de Miguel, “o grande chefe dos Anjos”, “que protege os filhos do teu povo” e diz que “muitos dos que dormem no pó da terra acordarão”, ou seja, fala da ressurreição dos mortos. A mensagem de Jesus fala da vinda do Filho do Homem, um título messiânico, da força da salvação. A sua vinda, a Parusia, é a manifestação evidente do seu Poder e da sua Glória e reunirá todos aqueles que se sentiram irmãos na fé e vivem agora unidos ao coração do Pai. No evangelho, Jesus diz-nos que olhando para uma figueira damos conta que as coisas mudam, “sabeis que o Verão está próximo”. Esta parábola ensina-nos a ler a realidade das coisas (no contexto do evangelho é a destruição de Jerusalém e do Templo) como um sinal de que Ele se aproxima, está já “à porta”. Perante as situações catastróficas, a escatologia bíblica ensina-nos que há coisas terrestres que mudam, mas o Espírito de Deus estará sempre presente. Esta é a consolação que deveremos neste dia gravar no nosso coração. Saber ler a vida é também tomar consciência de que, quando no evangelho lemos a frase “as minhas palavras não passarão”, está a dizer-nos que apesar das coisas naturais mudarem, a realidade eclesial mudar, as transformações culturais e sociais acontecerem, a Palavra de Deus permanece sempre e será sempre sinal de salvação. É importante a convicção de que Deus virá ao nosso encontro. Somos peregrinos, vivemos provisoriamente, a caminho do Paraíso, do Reino, do Céu, para viver na plenitude de Deus.

 

TRIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO COMUM
Mc 13, 24-32

“O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”

O texto nos apresenta diversas dificuldades de interpretação, pois está saturado com conceitos apocalípticos, referências veladas a possíveis eventos históricos, e referências tiradas de escritos do tempo do Antigo Testamento, muitas das quais desconhecidas para nós. Porém, a sua mensagem central fica clara – o triunfo final do Filho do Homem, mandando por Deus para estabelecer o seu Reino. A linguagem vetero-testamentária de sinais cósmicos, a figura do Filho do Homem e a reunião dos eleitos de Deus são unidas num contexto novo, em que a vinda escatalógica de Jesus como Filho do Homem se torna o evento central. A sua vinda gloriosa no fim dos tempos servirá como prova da vitória de Deus – e a expectativa desta chegada serve como base da vigilância paciente que é recomendada aos discípulos ao longo de todo o Discurso Escatalógico de Marcos. Os sinais cósmicos que antecederão o fim fazem referência a textos do Antigo Testamento: Is 13, 10; Ez 32, 7; Am 8, 9; Jl 2, 10.31; 3, 1-5; Is 34, 4; Ag 2, 6.21. Mas, em nenhum lugar no Antigo Testamento se referem à vinda do Filho do Homem – é uma novidade do evangelho. A lista desses sinais é uma maneira de dizer que toda a citação assinalará a sua vinda final. A descrição da chegada do Filho do Homem, rodeado das nuvens, é tirada do livro de Daniel 7, 13; mas, aqui se refere claramente a Jesus e não à figura angélica “em forma humana” do livro apocalíptico de Daniel. A ação de Jesus em reunir os eleitos é o oposto de Zc 2, 10. Este reunir-se dos eleitos do seu povo por parte de Deus se encontra em Dt 30, 4; Is 11, 11.16; 27, 12, Ez 39, 7 etc, – mas nunca no Antigo Testamento é o Filho do Homem que faz esse trabalho. A segunda parte do texto consiste numa parábola (vv. 28-29), um ditado sobre a hora do fim (v. 30), sobre a autoridade de Jesus (v. 31) e de novo sobre a hora (v. 32). Nem sempre fica claro a que se refere – o que se fala sobre essas coisas acontecerem “nessa geração” tem como contrabalanço o v. 32 que diz que somente Deus sabe a hora exata. A parábola sobre os sinais claros da chegada do fim (vv. 28-29) tem em contraposição a parábola da vigilância constante (vv. 33-37). Mas, continua clara a mensagem básica – a vitória final do projeto de Deus, concretizada através de Jesus, o Filho do Homem. Mas, a certeza dessa vitória não dispensa a atitude de vigilância constante por parte dos discípulos, para que não se desviem do caminho. Pode parecer confuso o nosso texto – e para nós hoje, de uma certa forma o é. Mas, inserido no contexto do Discurso Escatalógico (referente aos tempos finais) do Evangelho, nos traz uma mensagem de esperança e uma advertência. A esperança nasce do fato de que a vitória de Deus é garantida – um elemento fundamental em todo apocaliptismo. A advertência está na necessidade de vigilância constante, para que não percamos a hora do Filho. Num mundo de desesperança e falta de ânimo por parte de muitos, o texto nos convida, os discípulos, a uma atitude positiva que nos leva a um engajamento maior em prol da construção do Reino entre nós. Mas, também nos desafia para que estejamos sempre vigilantes para não sermos cooptados pela sociedade vigente, opressora e consumista, que muitas vezes se baseia em princípios contrários aos do Reino de Deus. As palavras de Jesus têm um valor permanente, para que possamos julgar as diversas propostas de vida que o mundo nos apresenta. “O céu a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”.

Você crê na existência de Deus?

O Criador deixou sua marca em suas obras

“O conhecimento da existência de Deus está naturalmente infundido em todos. Logo, a existência de Deus é por si evidente” (Santo Tomás de Aquino, Sacerdote e Doutor da Igreja).

Você crê na existência de Deus? Em caso afirmativo, pode provar que Ele existe? Na realidade, estamos cercados de evidências de que existe um Criador Sábio, Poderoso, Amoroso e Eterno. Que evidências são essas? Elas são convincentes? Encontramos a resposta ao considerar as palavras do apóstolo São Paulo em sua carta aos cristãos em Roma.

Referindo-se a Deus, o grande apóstolo São Paulo disse: “As suas qualidades invisíveis são claramente vistas desde a criação do mundo em diante, porque são percebidas por meio das coisas feitas, mesmo seu sempiterno poder e divindade, de modo que eles são inescusáveis” (Rm 1,20). O Criador deixou Sua marca em Suas obras, como São Paulo destacou.

Vejamos mais a fundo as palavras do apóstolo dos gentios: As qualidades de Deus podem ser vistas “desde a criação do mundo em diante”, observa São Paulo. Nesse contexto, a palavra grega traduzida por “mundo” não se refere ao planeta Terra, mas à humanidade. Portanto, São Paulo estava dizendo que, a partir do momento em que foram criados, os seres humanos podiam ver as qualidades do Criador evidentes nas coisas que Ele fez.

Essas evidências estão à nossa volta. Não estão escondidas na natureza, mas são “claramente vistas”. Da maior à menor, as criações revelam claramente não apenas que existe um Criador, mas também que Ele tem qualidades maravilhosas. Projetos inteligentes tão óbvios na natureza nos revelam a sabedoria de Deus. Os céus estrelados e a rebentação das ondas do mar mostram o poder do Criador. A variedade de alimentos que tanto apreciamos e a beleza do nascer e do pôr do sol revelam o amor de Deus pela humanidade. (Cf. Sl 19,1-8; Sl 104,24; Is 40,26).

É fácil reconhecer essas evidências? Elas são tão claras que os que não as veem e os que se recusam a acreditar em Deus “são inescusáveis”, ou seja, não têm desculpa. Um sábio ilustra isso da seguinte maneira: imagine um motorista que ignora uma placa com o aviso: “Desvio – vire à esquerda”. Um policial pede para o motorista parar e começa a multá-lo. O motorista tenta argumentar dizendo que não viu a placa. Mas suas palavras não convencem o policial, porque a placa é bem visível e o motorista não tem nenhum problema na vista. Além disso, é responsabilidade do motorista prestar atenção nas placas. O mesmo acontece com as evidências de Deus na natureza, que são como uma placa bem visível. Como criaturas racionais, somos capazes de vê-las. Não há desculpas para ignorá-las!

De fato, o “livro” da criação revela muito sobre nosso Criador, mas há outro livro que revela muito mais sobre Ele: a Sagrada Escritura.

Padre Inácio José do Vale
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