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A verdadeira riqueza da Igreja são os pobres

Terça-feira, 15 de dezembro de 2015, Da Redação, com Rádio Vaticano

Na homilia de hoje, Papa pediu que a Igreja seja humilde, pobre e confiante em Deus; a verdadeira riqueza da Igreja são os pobres, enfatizou

A Igreja seja humilde, pobre e confiante no Senhor. Esse foi o convite do Papa Francisco na Missa desta terça-feira, 15, na Casa Santa Marta. O Papa destacou que a pobreza é a primeira das bem-aventuranças e acrescentou que a verdadeira riqueza da Igreja são os pobres, não o dinheiro ou o poder mundano.

Jesus repreende com força os chefes dos sacerdotes e os adverte que até mesmo as prostitutas os precederão no Reino dos Céus. O Papa partiu do Evangelho do dia para alertar sobre tentações que mesmo hoje podem corromper o testemunho da Igreja. Também na Primeira Leitura, do Livro de Sofonias, se veem as consequências de um povo que se torna impuro e rebelde por não ter ouvido o Senhor.

Segundo Francisco, a Igreja fiel ao Senhor deve ser humilde, pobre e confiante em Deus. “Uma Igreja humilde, que não se escore em poderes, em grandezas. Humildade não significa uma pessoa lânguida, apática, que faz olhos brancos…Não, isso não é humildade, isso é teatro! Isso é fingir humildade. A humildade tem um primeiro passo: ‘eu sou pecador’. Se você não é capaz de dizer a você mesmo que é pecador e que os outros são melhores que você, não é humilde. O primeiro passo na Igreja humilde é sentir-se pecadora, o primeiro passo de todos nós é o mesmo”.

O segundo passo é a pobreza, que é a primeira das bem-aventuranças, disse o Papa, enfatizando que a Igreja não pode ser apegada ao dinheiro.“Os pobres são as riquezas da Igreja. Se você tem um banco seu, você é o patrão de um banco, mas o teu coração é pobre, não é apegado ao dinheiro, está a serviço sempre. A pobreza é esse desprendimento, para servir aos necessitados, para servir aos outros”, acrescentou.

O terceiro ponto destacado pelo Papa foi a confiança em Deus. “Onde está a minha confiança? No poder, nos amigos, no dinheiro? No Senhor! Essa é a herança que o Senhor nos promete: ‘Deixarei em meio a vós um povo humilde e pobre, que confiará no nome do Senhor”.

“Nesta espera pelo Senhor, pelo Natal, peçamos que nos dê um coração humilde, um coração pobre e, sobretudo, um coração confiante no Senhor porque o Senhor não desilude jamais”, concluiu Francisco.

Não há orações inúteis e Deus responde a todas

VATICANO, 12 Set. 12 / 03:23 pm (ACI/EWTN Noticias).- O Papa Bento XVI explicou que não há orações inúteis e Deus, que é Amor e Misericórdia infinita, sempre responde a todas embora às vezes essa resposta seja misteriosa.

Em sua catequese da audiência geral de hoje realizada na Sala Pablo VI, ante milhares de fiéis presentes, o Santo Padre prosseguiu com sua reflexão sobre a oração no livro do Apocalipse, e ressaltou que as orações são como incenso “cuja fragrância doce se oferece (…) a Deus”.

“Precisamos estar seguros de que não existem orações supérfluas, inúteis; nada está perdido.? E elas são respondidas, mesmo que às vezes de forma misteriosa, porque Deus é Amor e Misericórdia infinita”.

O incenso no Apocalipse, continuou, “é um simbolismo que nos diz como todas as nossas orações – com todas as limitações, a fadiga, a pobreza, a aridez, as imperfeições que podem ter – vêm quase purificar e alcançar o coração de Deus”.

Bento XVI disse também que “Deus não é indiferente às nossas súplicas, intervém e faz sentir seu poder e sua voz na terra, faz tremer e altera o sistema do Maligno”.

“Muitas vezes, diante do mal se tem a sensação de não poder fazer nada, mas é a nossa própria oração a primeira resposta e mais eficaz que podemos dar e que faz mais forte o nosso cotidiano empenho em espalhar o bem. O poder de Deus fecunda a nossa fraqueza”.

O Santo Padre explicou também que “o Apocalipse nos diz que a oração alimenta em cada um de nós e nas nossas comunidades esta visão de luz e de profunda esperança: nos convida a não nos deixarmos vencer pelo mal, mas a vencer o mal com o bem, a olhar para Cristo Crucificado e Ressuscitado que nos associa à sua vitória”.

“A Igreja vive na história, não se fecha em si mesma, mas enfrenta com coragem o seu caminho em meio à dificuldade e sofrimento, afirmando com força que o mal em definitivo não vence o bem, a escuridão não ofusca o esplendor de Deus”.

A seguir o Papa sublinhou que “como cristãos não podemos nunca ser pessimistas; sabemos bem que no caminho da nossa vida encontramos muita violência, mentira, ódio, perseguição, mas isto não nos desencoraja”.

“Sobretudo, a oração nos educa a ver os sinais de Deus, a sua presença e ação nos faz sermos nós mesmos luzes do bem, que espalham a esperança e indicam que a vitória é de Deus”.

Um dos símbolos do Apocalipse, um personagem de tal beleza que não é descrito por São João, representa a “Deus onipotente que não permaneceu fechado no seu Céu, mas se fez próximo ao homem, entrando em aliança com ele; Deus que faz sentir na história, de modo misterioso mas real, a sua voz simbolizada pelo relâmpago e pelo trovão”.

Outros dois símbolos são o livro que contém o plano de Deus e o Cordeiro que representa a Jesus Ressuscitado, que é o único capaz de “abrir o texto e iluminá-lo (…)?é o próprio Cordeiro, o Cristo morto e ressuscitado, que progressivamente abre o selo e revela o plano de Deus, o sentido profundo da história.”.

O Papa ressalta logo que “a oração é como uma janela aberta que nos permite ter o olhar voltado para Deus, não somente para nos recordar a meta para a qual nos dirigimos, mas também para deixar que a vontade de Deus ilumine o nosso caminho terrestre e nos ajude a vivê-lo com intensidade e compromisso”.

“De que modo o Senhor guia a comunidade cristã a uma leitura mais profunda da história? Primeiro convidando-a a considerar com realismo o presente que estamos vivendo”.

Bento XVI explica que “existem os males que o homem causa, como a violência, que nasce do desejo de possuir, de prevalecer uns sobre os outros, de modo a atingir para matar (…); ou a injustiça, porque os homens não respeitam as leis que lhes são dadas (…)”.

“A estes se unem os males que o homem deve sofrer, como a morte, a fome, a enfermidade (…).?Diante dessa realidade, muitas vezes dramática, a comunidade eclesial é convidada a não perder nunca a esperança, a crer firmemente que a aparente onipotência do Maligno colide com a verdadeira onipotência de Deus”.

O Papa afirma também que “o Apocalipse, mesmo na complexidade de símbolos, nos envolve numa oração muito rica, pela qual também nós escutamos, elogiamos, agradecemos, contemplamos o Senhor, lhe pedimos perdão”.

Sua estrutura, de grande oração litúrgica, conclui, “é também um forte chamado a redescobrir o encargo extraordinário e poder transformador que tem a Eucaristia; em particular quero convidar com força a serem fiéis à Santa Missa dominical no Dia do Senhor, o Domingo, verdadeiro centro da semana! Obrigado”.

A síntese em português da catequese desta quarta-feira está disponível no canal Youtube da ACI Digital, visite: http://www.youtube.com/watch?v=cKAX0eiTjXw&feature=player_embedded

Transfiguração do Senhor – 06 de Agosto

Por Mons. Inácio José Schuster

Evangelho segundo São Lucas 9, 28-36
Uns oito dias depois destas palavras, levando consigo Pedro, João e Tiago, Jesus subiu ao monte para orar. Enquanto orava, o aspecto do seu rosto modificou-se, e as suas vestes tornaram-se de uma brancura fulgurante. E dois homens conversavam com Ele: Moisés e Elias, os quais, aparecendo rodeados de glória, falavam da sua morte, que ia acontecer em Jerusalém. Pedro e os companheiros estavam a cair de sono; mas, despertando, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com Ele. Quando eles iam separar-se de Jesus, Pedro disse-lhe: «Mestre, é bom estarmos aqui. Façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias.» Não sabia o que estava a dizer. Enquanto dizia isto, surgiu uma nuvem que os cobriu e, quando entraram na nuvem, ficaram atemorizados. E da nuvem veio uma voz que disse: «Este é o meu Filho predileto. Escutai-o.» Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou só. Os discípulos guardaram silêncio e, naqueles dias, nada contaram a ninguém do que tinham visto.

Celebra a Igreja neste dia seis de agosto a transfiguração do Senhor. Lemos este evento nas três versões dos Evangelistas sinóticos; neste ano nós o lemos na versão lucana. Quando conduzo peregrinos à Terra Santa e, na Galiléia, vou com eles ao monte Tabor, tradicionalmente apontado como o local da transfiguração de Jesus, digo-lhes mais ou menos isto: “Jesus – diz-nos o texto do Evangelho – transfigurou-se; a beleza interna de Jesus – somente conhecida do Pai – foi, naquele momento, revelada, ainda que furtivamente, a três discípulos escolhidos, que ficaram atônitos quando O viram transfigurado. No entanto, esta transfiguração não era definitiva, pois Jesus ainda se encontrava neste mundo; a verdadeira e definitiva deu-se apenas com Sua Ressurreição dentre os mortos, quando assumiu toda a Sua realeza e poder, sentando-se à direita de Deus”. O autor da carta aos Efésios diz-nos que o Senhor Jesus, com o poder que tem, também transfigurará nosso pobre e miserável corpo, configurando-o ao Seu Corpo glorioso e ressuscitado. Contudo, esta transfiguração é apenas futura e para nós objeto de uma promessa que ainda não se realizou neste mundo e nem aqui se realizará. Ao contrário, envelhecemos e a beleza da juventude vai sendo paulatinamente perdida. Paulo diz-nos – e Santo Agostinho mais tarde, a partir daí, faz uma belíssima exegese: à medida que nosso homem exterior vai-se arruinando, o que perdemos em agilidade, beleza e atração física pode ser constantemente reciclado em nosso proveito e favor, transformando-se no homem interior em energia, virtude e beleza que atraem a Deus. Esta transfiguração, que se chama transfiguração do coração, é possível a todos já neste mundo. Você certamente terá notado pessoas de coração transfigurado, embora nem sempre ou necessariamente pessoas fisicamente atraentes. Essa beleza interna é de ordem superior à primeira, que é apenas uma casca que se esvai. Essa beleza que se adquire pouco a pouco com uma vida dedicada a Deus e à escuta da Sua palavra mantêm-se por toda Eternidade. Esta beleza do coração, agora invisível, é prévia e indispensável para que haja a futura. Persiga-a neste momento e você também se verá inteiramente transfigurado diante de Deus com Cristo.

 

«Moisés e Elias […] falavam da Sua morte, que ia acontecer em Jerusalém»
São Cirilo de Alexandria (380-444), bispo e Doutor da Igreja
Homilias sobre a Transfiguração, 9; PG 77, 1011 (a partir da trad. de Delhougne, Les Pères commentent, p. 342)

Jesus subiu à montanha com os três discípulos que escolheu. Depois foi transfigurado por uma luz fulgurante e divina, a ponto de as Suas vestes parecerem brilhar como a luz. Seguidamente, Moisés e Elias envolveram Jesus, falaram entre eles da Sua partida, que devia acontecer em Jerusalém, quer dizer, do mistério da Sua incarnação e da Sua Paixão salvadora, que devia concretizar-se na cruz. Porque é verdade que a lei de Moisés e a pregação dos profetas tinham mostrado antecipadamente o mistério de Cristo. […] Esta presença de Moisés e de Elias e a conversa entre eles tinha como objectivo mostrar que a Lei e os profetas formavam como que o cortejo de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Senhor que tinham profetizado. […] Depois de terem aparecido não se calavam, falando da glória de que o Senhor ia ser cumulado em Jerusalém pela Sua Paixão e pela Sua cruz e, sobretudo, pela Sua ressurreição. Talvez o bem-aventurado São Pedro, acreditando que tinha chegado o Reino de Deus, tenha desejado permanecer na montanha, porque disse que deviam fazer «»três tendas». […]. Não sabia o que estava a dizer». Porque ainda não tinha chegado o momento  do fim do mundo e não será no tempo presente que os santos usufruirão da esperança que lhes foi prometida. É que São Paulo afirma: «Ele transfigurará o nosso pobre corpo, conformando-o ao Seu corpo glorioso» (Fil 3, 21). Uma vez que o projecto da Salvação ainda não estava completo, estando apenas no seu começo, não era possível que Cristo, que tinha vindo ao mundo por amor, renunciasse a querer sofrer por ele. Porque Ele manteve a natureza humana para sofrer a morte na Sua carne, e para a destruir pela Sua ressurreição de entre os mortos.

 

Subamos a montanha para nos transfigurarmos
Padre Pacheco

Hoje, celebramos, com toda a Igreja, a festa da Transfiguração do Senhor, que é a manifestação gloriosa de Jesus aos apóstolos Pedro, Tiago e João no Monte Tabor. Este local está situado a 840m de altitude do nível do mar, na região da Galileia. Um dos lugares mais lindos existentes no mundo. Ali viveram – os apóstolos – a experiência da Ressurreição de Cristo. Os três evangelistas – Mateus, Marcos e Lucas – relatam em seus Evangelhos esse estado glorioso em que Jesus Cristo apareceu aos três discípulos; todavia, Lucas nos apresenta algumas particularidades sobre o fato, as quais não constam nos outros Evangelhos. Vale a pena deter-nos. Somente Lucas especifica a razão pela qual o Senhor subiu ao monte: lá foi para orar. Jesus, muitas e muitas vezes, dedicava horas, grandes momentos – por vezes uma noite inteira – para estar em intimidade com o Pai. O Filho de Deus saía da planície do cotidiano da vida, muitas e muitas vezes, para subir à montanha, ou seja, sabia desde sempre que esse é o grande lugar da manifestação de Deus. Ali se dirigia para viver e conviver com o Pai. Nosso Senhor Jesus Cristo, desde o início de Sua vida entre os homens, assumindo a humanidade toda e toda a humanidade, nunca soube totalmente com clareza a Sua missão; conforme ia crescendo, se desenvolvendo e desenvolvendo a missão que Deus Pai lhe confiara, Ele ia percebendo e tomando consciência do plano do Pai em Sua vida e por intermédio da Sua vida, ou seja, salvar a humanidade. Durante a oração, transformou-se o rosto de Jesus; de modo diverso aos outros evangelistas, Lucas não fala da transfiguração, mas do rosto transformado. Cristo Jesus é o novo Moisés; Moisés prefigurou Jesus. Jesus, como Moisés, em contato e comunhão com Deus – com o Pai – sente seu rosto tornar-se brilhante pelo fato de estar com o Pai. Quando estamos em Deus e com Deus, numa profunda intimidade com Ele, tudo começa a se tornar brilhoso em nós; nosso rosto, nosso corpo começam a resplandecer a luz que vem do alto; mas o que mais resplandece é o testemunho de vida, que ilumina a vida dos outros. Para dizer: você anda resplandecendo o amor de Deus por onde você anda? Ou melhor, você costuma sair da planície, a exemplo de Jesus, para se encontrar com o Pai, subindo a montanha? Subir a montanha significa mergulhar a vida em Deus. Rasgar as vestes (coração). Cada encontro autêntico com Deus deixa marcas visíveis em nosso rosto, em nosso ser. A luz no rosto de Jesus indica que, durante a oração, Ele compreendeu e fez Seu o projeto do Pai; entendeu que Seu sacrifício não estaria concluído na derrota, mas na ressurreição. Lucas também ressalta que enquanto Jesus trata de realidades relacionadas com a Sua Paixão e Morte, os três apóstolos encontram-se sonolentos, dormindo; da mesma forma aconteceu no Horto das Oliveiras. O sono dos apóstolos significa que eles não estão entendendo o que acontece com Jesus. Quando Cristo realiza milagres, prodígios e curas, eles encontram-se bem acordados; agora, quando o assunto é a vontade do Pai, mesmo que custe a própria vida, uma sonolência toma conta dos apóstolos. Da mesma forma somos nós. Como estamos bem espertos, acordados, bem atentos, quando queremos as graças de Deus, os milagres, as curas; todavia, quando o Altíssimo nos quer dar e confiar a vontade d’Ele na nossa vida, principalmente quando isso envolve esforço, renúncia, sacrifício e a própria vida, logo apoderam-se de nós uma sonolência, um cansaço, uma fadiga. Subamos a montanha para que nosso rosto, nossa vida, nossas atitudes mudem; o coração é nosso, mas o rosto e vida são dos e para os outros.

 

Hoje a Igreja celebra a festa da Transfiguração do Senhor. “Mostra-me o Teu rosto, mostra-me a Tua face”. É o desejo de todo Israelita piedoso do Antigo Testamento. Moisés e Elias são dois personagens, daquela época, que se esforçaram por contemplar a Face de Deus. Nós somos convidados a deixar de contemplar por um instante o rosto dos apresentadores de televisão e dos artistas com os quais estamos acostumados a conviver diariamente, para nos concentrar na visão do Rosto de Cristo que brilha através da Sua Páscoa da Ressurreição. “Deus de Deus, Luz da Luz”, afirma-nos o credo Nicenoconstantinapolitano, Jesus Cristo é Luz da luz. A sua Face é Luz da luz.  Ela é o reflexo da Luz incriada, o próprio Pai. Esta visão se deu no alto de um monte; foi no alto da montanha que o céu procurou naquele dia se unir à Terra. Três foram os Apóstolos escolhidos para contemplar antecipadamente o que é sonho e esperança de todo Cristão: a Face de Deus, que brilha através da luminosidade da Face de Cristo. Nós temos o direito de alimentar esse desejo; ele nada mais é do que o desejo do Céu. Porque, o que é o Céu, se não a contemplação sempre mais profunda de Deus em Jesus Cristo? Mas Deus adverte no Evangelho de Mateus e no sermão da Montanha: “Bem aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”. Se você alimenta a esperança de um dia ver a Face de Deus, se você se sacrifica por causa dessa esperança, se evita o mal e faz o bem, se evita o que ofende a Deus, e não pode estar presente diante de Sua Face, então a sua esperança um dia se tornará realidade. Seria insanidade, veleidade, esperarmos contemplar a Face do Nosso Deus, se nunca nos procuramos em ser semelhante a Ele, se nunca tivemos a preocupação de sermos puros de coração. Sim, neste dia, em que com a Igreja celebramos a festa da Transfiguração, celebremos a festa da nossa esperança, celebremos a festa do fim que nos espera. Mas preparemos desde já o nosso coração para sermos admitidos à Sua Visão.

 

“Diante de testemunhas escolhidas, escreve São Leão Magno (461), o Senhor desvela sua glória… O que pretendia  fazer era, com a transfiguração, banir do coração dos discípulos o escândalo da Cruz, e que a humilhação de sua Paixão voluntária não perturbasse a fé deles, pois Ele já lhes revelava a eminência de sua dignidade escondida”.  Mas, continua São Leão, “ao mesmo tempo, e por uma igual providência, Ele fundava a fé da Santa Igreja, para que o Corpo total do Cristo soubesse de qual feliz transformação seria gratificado, e aos membros se dá a esperança de fazer parte da honra que resplandecia no Chefe”. Jesus está como que ansioso para partilhar a sua glória conosco. O sinal deste desejo é justamente a visão que os Apóstolos tem de Jesus transfigurado no alto da montanha. O Evangelho ao dizer que Ele foi transfigurado nos reenvia a Deus, autor desta transformação extraordinária. Permanecendo em sua humanidade, Jesus deixa por um instante que o brilho de sua divindade impregne seu corpo, que se torna irradiante. O divino Mestre sobe a montanha sabendo muito bem o que o aguardava em Jerusalém, a traição, rejeição e crucifixão. Na montanha, e só esta única vez, Jesus deixa aparecer a sua Glória. Ele quer que compreendamos o benefício de crer sem ter visto e que Ele há de revelar sua glória a todos os que seriamente o buscam com fé. “Ele se manifesta aos filhos da luz, que afastam as obras das trevas, escreve Orígenes (254), para que se tornem filhos do dia, e andem honestamente como de dia. Ele brilhará sobre eles não simplesmente como o sol, mas como demonstrou ser o sol de justiça”. A transfiguração de Cristo anuncia nosso estado glorioso no céu, onde o brilho da alma na comunhão com Deus tornará nossos corpos ressuscitados “gloriosos”, livres dos incômodos terrestres e participantes da Glória de Deus. Compreenderemos as palavras do Apóstolo: “Cristo em vós, esperança da Glória” (Col 1, 27).

Milagres de Jesus: Fatos Históricos e Significado

PERGUNTE E RESPONDEREMOS
395/abril 1995  
Apologética  
Crítica dos Evangelhos   

Em síntese: Note-se o estilo singular segundo o qual Jesus realizava milagres: nunca em seu favor, jamais para punir, sem teatralidade, com discreção e sobriedade. Estas características diferenciam bem os milagres de Jesus dos que os taumaturgos dos judeus ou pagãos tenham realizado, e testemunham em favor da historicidade de tais feitos. Estes são entendidos por Jesus e pela Tradição dos Apóstolos como sinais (semeia, em grego) que explicitam a vinda do Messias e do Reino de Deus.

Mais: os milagres estão de tal modo inseridos na pregação e na missão de Jesus, autenticando-as e comprovando-as, que não podem ser negados sem que se negue a própria identidade de Jesus Cristo. Ver especialmente Mt 11,2-6; 12, 28; 11, 20-24. Desde os seus primórdios, a pregação dos Apóstolos apresentava Jesus como autor de portentos, mesmo perante pessoas que haviam conhecido Jesus e podiam contestar falsas notícias a respeito; cf. At 2,22; 10,38. Nem mesmo os adversários de Jesus contestaram a sua atividade taumatúrgica, mas atribuiram-na, uns, a Satanás (cf. Mt 12,24), e outros a poderes mágicos (assim o Talmud judeu).

Os Evangelhos narram que Jesus realizou muitos feitos maravilhosos, chamados em grego semeia (sinais) ou dynámeis (atos de poder). Visto que a mentalidade moderna é, não raro, cética em relação a milagres, perguntamos: podem tais feitos maravilhosos ser tidos como históricos? E, em caso positivo, que valor ou significado têm? — É a estas questões que serão dedicadas as páginas subseqüentes.

1. OS MILAGRES NO EVANGELHO: CARACTERÍSTICAS  
Segundo os evangelistas, Jesus realizou numerosos fatos extraordinários, mencionados de modo genérico nos seguintes textos:

Mc 1,32-34: “Ao entardecer, quando o sol se pôs, levaram-lhe todos os que estavam enfermos e endemoninhados. E a cidade inteira aglomerou-se à porta. E ele curou muitos doentes de diversas enfermidades e expulsou muitos demônios”.

Mc 6,56: “Em todos os lugares onde entrava, nos povoados, nas cidades e nos campos, colocavam os doentes nas praças, rogando que lhes permitisse ao menos tocar na orla de sua veste. E todos os que o tocavam, eram salvos”. Ver Lc 7,21.

São João termina o seu Evangelho escrevendo: “Jesus fez muitos outros sinais em presença dos seus discípulos, mas não foram descritos neste livro” (20, 30).

Os evangelistas só narram “pequeno” número de milagres, a saber: trinta aproximadamente. Alguns destes podem estar descritos duas vezes, como é o caso da multiplicação dos pães; cf. Mc 6,33-44 e 8,1-10; a sadia crítica julga que se trata de um só milagre descrito duas vezes com pormenores diferentes.

Os milagres de Jesus são de diversas modalidades: há curas de doenças várias (lepra, cegueira,.surdez, paralisia, epilepsia…), há expulsões de demônios, três ressurreições de mortos (o filho da viúva de Naim, a filha de Jairo, Lázaro), uma pesca milagrosa, a conversão da água em vinho, uma multiplicação de pães e peixes, o domínio sobre uma tempestade e o caminhar sobre as águas.

Examinemos as características do procedimento de Jesus taumaturgo:

1) Jesus nunca realizou um milagre em seu proveito pessoal, para pôr-se em evidência ou para sair de alguma situação embaraçosa. Sofreu fome, sede, cansaço, dormia onde se encontrava, sem ter onde reclinar a cabeça; quando foi aprisionado por seus inimigos, nada fez para se libertar e escapar da morte horrenda e humilhante; quando pregado à cruz, foi ironicamente “desafiado” por seus adversários para se libertar, mas não o quis, embora pudesse desconcertar os seus algozes, que diziam: “Salvou os outros, mas não pode salvar a si mesmo. O Cristo, o rei de Israel desça agora da cruz, para que vejamos e acreditemos” (Mc 15,31 s). Jesus quis parecer fraco e talvez impostor aos olhos de quem o desafiava.       Jesus taumaturgo não ambicionava sucesso nem benefícios materiais. Ao contrário, proibia que as pessoas curadas apregoassem a obra de Jesus. Assim, por exemplo, após ressuscitar a filha de Jairo, Jesus “recomendou com insistência a pai e mãe que ninguém viesse a saber o que tinham visto” (Mc 5,43). Após a cura do surdo-mudo curado à distância da multidão, Jesus recomendou que não o dissessem a quem quer que fosse (Mc 7,36).(*)

* O silêncio assim imposto por Jesus explica-se pelo fato de que os judeus podiam equivocar-se sobre a messianidade de Jesus; sim, podiam julgar que Ele viera para resolver problemas de ordem material e dar a Israel a hegemonia sobre os demais povos.

2) Jesus não realizava milagres para punir. Este tipo de portento encontra-se em narrações extra-bíblicas como também em escritos do Antigo Testamento: narra-se, por exemplo, que certa vez Eliseu foi escarnecido por alguns meninos por causa da sua calvície; “Eliseu virou-se, olhou para eles e os amaldiçoou em nome do Senhor. Então sairam do bosque duas ursas e despedaçaram quarenta e dois deles” (2Rs 2,23s).

Verdade é que dois episódios do Evangelho podem ser interpretados como milagres punitivos. O primeiro é o da figueira estéril, que Jesus amaldiçoa, fazendo-a murchar instantaneamente (cf. Mt 21,18s). É de notar, porém, que, no caso, não é punida uma pessoa, mas uma árvore, que é símbolo da esterilidade do povo de Israel; Jesus, fazendo secar a figueira, quis significar a sorte que tocaria ao povo judeu incrédulo quando derrotado pelos romanos em 70. — O segundo episódio é o dos porcos de Gerasa: Jesus permitiu que dois mil deles se precipitassem no mar (cf. Mc 5,9-14); notemos, porém, que este relato é diversamente interpretado pelos exegetas, dos quais alguns julgam que o evangelista usou de um artifício literário e não quis ser tomado ao pé da letra (ver Curso sobre Ocultismo, Módulo 24, Escola “Mater Ecclesiae”).

Jesus veio para salvar e não para destruir (cf. Lc 9,54s); por isto não é condizente atribuir-lhe a vontade de prejudicar pessoas, ainda que fossem pagãos, como os gerasenos. O autêntico espírito de Jesus se revela quando os filhos de Zebedeu quiseram fazer baixar fogo sobre os samaritanos inóspitos; “Jesus, voltando-se, repreendeu-os” e terá acrescentado, conforme alguns manuscritos: “Não sabeis de que espírito sois, pois o Filho do Homem não veio para perder a vida dos homens, mas para salvá-la” (Lc 9, 54s).

3) Jesus efetuava milagres com grande simplicidade, sem recorrer a fórmulas mágicas nem a ritos complexos. Bastava-lhe dizer uma palavra com autoridade, como no caso do leproso: “Quero, sê curado” (Mc 1,40-42). Ao paralitico disse o Senhor: “Eu te ordeno: levanta-te, toma o teu leito e vai para casa” (Mc 2,12). Ao homem que tinha a mão seca, mandou Jesus: “Estende a mão” (Mc 3,5). Ao mar agitado por violenta tempestade, imperou: “Silêncio! Acalma-te! Logo o vento serenou e houve grande bonança!” (Mc 4,39). Ver ainda o caso da filha de Jairo (Mc 5,41s), o do filho da viúva de Naím (Lc 7,14s), o de Lázaro (Jo 11,44), o do cego de Jericó (Lc 12,43).   Num episódio ou noutro, Jesus tocava a pessoa doente; era este um gesto de benevolência e compaixão, especialmente significativo no caso do leproso (cf. Mc 1,40s); os leprosos eram pela Lei banidos do convívio dos homens (cf. Lv 13, 44-46); ora Jesus tomou o leproso pela mão e o curou… Também tocou com a mão a filha de Jairo morta, que Ele ressuscitou, violando assim a Lei, que considerava impuro quem tocasse um cadáver; cf. Mc 5,41; Lv 11,39.

Os Evangelhos referem apenas três casos em que Jesus recorre aos métodos terapêuticos da medicina popular: Mc 7,31-37 (a saliva, tida como desinfetante, acompanhando a palavra Effatha, Abre-te!); Mc 8,32-35 (Jesus usa saliva e a imposição de mãos para curar o cego de Jericó); Jo 9,6s (Jesus fez lama com a saliva e aplicou-a aos olhos do cego de nascença).

Geralmente o milagre é instantâneo; apenas dois casos parecem fazer exceção: os dez leprosos foram curados quando, a mando de Jesus, iam apresentar-se aos sacerdotes (Lc 17,14); o cego de Jericó parece ter recuperado a vista por etapas (cf. Mc 8,22-25).

4) Jesus não fazia alarde nem publicidade dos seus milagres; antes, era muito discreto e reservado. Não se apresentava como taumaturgo, nem procurava doentes para curá-los; eram estes que se dirigiam espontaneamente a Jesus ou eram levados por outrem:

“Apresentaram-se a ele com um paralítico transportado por quatro homens” (Mc 2,3);   “Começaram a transportar os doentes em seus leitos onde quer que descobrissem que ele estava” (Mc 6,55);

“Levaram-lhe um surdo-mudo” (Mc 7,32);

“Mestre, eu te trouxe meu filho, que tem um espírito mudo” (Mc 9, 17);

“Ao entardecer, quando o sol se pôs, levaram-lhe todos os que estavam enfermos e endemoninhados” (Mc 1, 32).

Em outras ocasiões Jesus é convidado a ir à casa do enfermo:

“O chefe da sinagoga rogou-lhe insistentemente dizendo: ‘Minha filhinha está morrendo. Vem e impõe-lhe as mãos, para que ela seja salva e viva'” (Mc 5,23s);

“O funcionário real foi procurar Jesus e pedia-lhe que descesse e curasse seu filho, que estava à morte” (Jo 4,46).

A iniciativa do milagre não parte de Jesus, a não ser em poucos casos, nos quais o Senhor é movido por compaixão, como aconteceu na multiplicação dos pães:

“Tenho compaixão da multidão porque já faz três dias que está comigo e não tem o que comer” (Mc 8,2);

“O Senhor, ao ver a viúva de Naím, ficou comovido e disse-lhe: ‘Não chores'” (Lc 7,13).

A discrição de Jesus se revela na sua recusa de qualquer forma espetacular: realiza milagres longe da multidão (cf. Mc 7,33; 8,23). Manda que as pessoas beneficiadas se calem, embora esta ordem muitas vezes não seja respeitada pelos homens, que querem manifestar seu entusiasmo e louvar a Deus. De modo particular, Jesus rejeitava a exploração de seus milagres para fins políticos, como atesta o episódio da multiplicação dos pães: “Jesus, sabendo que viriam buscá-lo para fazê-lo rei, refugiou-se de novo a sós na montanha” (Jo 6,15).

2. CONFRONTO COM PORTENTOS EXTRA-EVANGÉLICOS  
O estilo dos milagres de Jesus contribui para diferenciar o Senhor Jesus dos magos e taumaturgos do paganismo, bem como dos piedosos (hasidim) judeus, famosos por seus prodígios.

Eis, por exemplo, um milagre atribuído a Honi, judeu devoto, quase contemporâneo de Jesus:

Honi era desenhista de círculos místicos. Um dia aconteceu que lhe disseram: “Reza para que a chuva comece a cair!” Ele rezou, mas sem resultado. Que fez então? Traçou no chão um círculo, pôs-se no meio e disse diante de Deus: “Senhor do universo, os teus filhos têm os olhos fixos em mim, como se eu fosse um familiar teu. Eu te juro pelo teu grande nome que não me moverei daqui enquanto não te compadeceres dos teus filhos”. Então começaram a cair gotas de chuva. Honi disse: “Não foi isto que eu pedi! Pedi aguaceiros capazes de encher cisternas, fossas e cavernas”. Então começou a chover a cântaros. Honi voltou à carga: “Não foi isto que eu pedi. Pedi chuva de bênçãos, de benevolência e de clemência”. Então começou a cair chuva como era de esperar. Cf. Michna Ta’anit 3,8.

A respeito de outro devoto judeu — Hanina ben Dosa — se conta o seguinte: “Enquanto Hanina ben Dosa rezava, uma serpente venenosa mordeu-o, mas ele continuou a rezar. As pessoas que o viram, afastaram-se e encontraram a mesma serpente morta com a boca aberta. Exclamaram então: “Ai do homem mordido pela serpente, mas ai da serpente que mordeu Hanina ben Dosa!” (Mishna y Ber 9a).

As notas típicas dos milagres de Jesus se evidenciam também pela consideração dos milagres atribuídos a Apolônio de Tiana.([1]) Eis um destes:

“A peste campeava em Éfeso. Apolônio, solicitado para intervir, foi rapidamente de Esmirna a Éfeso. Reuniu os efésios e disse-lhes: ‘Tende coragem! Hoje deterei a peste’. Levou então os efésios para o teatro, onde viram um velho mendigo que piscava os olhos artificiosamente. Apolônio mandou aos efésios que o apedrejassem. Quando começaram a atirar pedras, o mendigo que piscava os olhos, pôs-se a lançar olhares terríveis e a mostrar olhos inflamados. Diante disto, os efésios tomaram consciência de que era um demônio e o apedrejaram com tanta violência que em pouco tempo ele caiu recoberto por grande multidão de pedras. Pouco depois, Apolônio mandou que fossem retiradas as pedras e averiguassem o animal que tinham morto. Os efésios descobriram o corpo que eles julgavam ter esmagado, e encontraram não o homem que desaparecera,mas um cão semelhante a um lobo tão grande quanto um dos maiores leões” (Vie d’Apollonius de Tyane, par Philostrate, t. IV, Amsterdam, M.M. Rey 1779, p. 90s).

Não é necessário frisar como diferem, por sua simplicidade e dignidade, os relatos evangélicos dos relatos de milagres atribuídos aos personagens atrás mencionados.

3. HISTORICIDADE DOS MILAGRES DE JESUS
Uma das questões mais candentes que hoje se ponha a respeito dos milagres de Jesus, é precisamente a da sua historicidade; a crítica racionalista tem na conta de impossível a realização de algum milagre.

A propósito observamos:

3.1. Considerações gerais  
Os milagres estão intimamente associados à missão de Jesus, a tal ponto que, negados os milagres, se nega a própria identidade de Jesus. Os Apóstolos, desde as suas primeiras pregações, apresentaram Jesus como autor de milagres. Assim no dia de Pentecostes São Pedro se referia a Jesus como “aprovado por Deus com milagres, prodígios e sinais… como bem sabeis” (At 2,22). Depois, em casa de Cornélio, o mesmo Pedro anunciava que “Deus ungiu Jesus com o Espírito Santo e com poder; ele passou fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo diabo, porque Deus estava com ele” (At 10,38). De resto, os milagres ocupam tal espaço nos Evangelhos e estão de tal modo inseridos na trama da missão de Jesus que é impossível tê-los como inventados e artificiosamente atribuídos a Jesus; sem os milagres não se explicariam a admiração e o entusiasmo que Jesus suscitou desde o início de sua missão pública. Jesus falou mediante palavras e sinais, como bem dá a entender Mateus ao sintetizar a vida pública de Jesus: “Jesus percorria todas as cidades e aldeias ensinando nas suas sinagogas, pregando o Evangelho e curando todas as doenças e enfermidades” (Mt 9,35; cf. 4,23).

A realidade dos milagres de Jesus não foi contestada nem pelos seus adversários; apenas diziam estes que Jesus efetuava tais coisas pelo poder de Satanás; foi, por exemplo, o que se deu logo depois da cura do endemoninhado cego e mudo, segundo Mt 12,24: “Ele expulsa demônios por Beelzebu, príncipe dos demônios”. A notícia da atividade taumatúrgica de Jesus se encontra até mesmo no Talmud da Babilônia (século VI d.C), onde se diz que Jesus foi executado na vigília de Páscoa como mago e sedutor: “Ele (Jesus) foi levado para fora da cidade a fim de ser apedrejado, porque praticou a magia e seduziu Israel” (Sanhedrin 43a). Essa magia não é senão o nome dado a milagres realizados por Jesus. Raciocinando serenamente, podemos dizer que a acusação de pactuar com Satanás e praticar a magia não pode ter sido forjada pelas comunidades cristas, pois depõe contra Jesus.   Deve-se ponderar que os primeiros pregadores do Evangelho falavam a gente que tinha conhecido Jesus e que poderia contestar qualquer falso título de glória atribuído a Jesus.

3.2. Critérios de autenticidade histórica  
Os críticos estabeleceram alguns critérios que servem para comprovar se determinado episódio do Evangelho é ou não autenticamente histórico.

1) Critério do múltiplo testemunho
Segundo este critério, pode-se ter como autêntico todo milagre que seja atestado por fontes diversas independentes entre si. É o caso, por exemplo, da multiplicação dos pães e dos peixes, relatada pelos Sinóticos e também por São João (que segue tradição diferente da Sinótica): Mt 14, 13-21; Mc 6,32-44; Lc 9, 10-17; Jo 6,1-13. É também o caso da cura do servo do centurião (Mt 8,5-13; Lc 7,1-10; Jo 4,46-54) e da caminhada de Jesus sobre as águas (Mt 14,25-27; Mc 6,48-50; Jo 6,18-20). É o caso outrossim da pesca milagrosa referida por Lucas (5,3-11) e João (21,1-6)… Isto não quer dizer que os milagres relatados por um só dos evangelistas não sejam históricos, pois outros critérios podem garantir autenticidade; o do múltiplo testemunho não é o único.

Este critério é especialmente válido quando entre os diversos testemunhos há um acordo substancial, mas existem pequenas diferenças nos pormenores e na interpretação do milagre: essas pequenas diferenças vêm a ser sólido argumento em favor da historicidade da narrativa, como geralmente afirmam os historiadores. Com efeito; uma identidade muito exata quanto ao modo de narrar é algo de artificial e “encomendado”. Exemplo dessa concórdia substancial com divergências acidentais é o episódio da cura do epilético narrada pelos três Sinóticos: Mt 17,14-20; Mc 9,14-29; Lc 9, 37-42. As três maneiras diferentes de narrar o mesmo episódio dependem da riqueza do acontecimento, que pode ser encarado sob mais de um aspecto.

2) Critério da descontinuidade
É sinal de autenticidade a diferença que possa haver entre o modo como Jesus fazia milagres e o modo como os faziam personagens contemporâneos ou anteriores a Cristo. Com efeito; se os milagres de Jesus fossem mera ficção, seguiriam o modelo dos portentos efetuados por Elias e Eliseu no Antigo Testamento ou por Pedro nos Atos dos Apóstolos. Ora os Profetas do Antigo Testamento realizavam prodígios depois de orar e invocando o nome de Deus.(2) Ao contrário, Jesus não rezava antes de um milagre e agia em seu nome próprio ou por sua própria autoridade: “Eu te ordeno: levanta-te!”, disse Ele ao paralítico (Mc 2,11). Quanto a Pedro, apelou para Jesus ao curar o paralítico à porta do templo: “Em nome de Jesus Cristo Nazareno, caminha!” (At 3,6). E a Enéias, paralítico havia oito anos, disse: “Enéias, Jesus Cristo te cura; levanta-te e arruma teu leito” (At 9,35). Somente Jesus ousava fazer milagres em seu nome próprio, como somente Ele ousava chamar Deus pelo apelativo carinhoso Abba.

(2)  1 Rs 17,7-16 Elias obtém farinha e azeita para uma viúva em tempo de penúria;  1 Rs 17,17-24 Elias ressuscita o filho de uma viúva;  1Rs 18,36-40 Elias faz descer fogo do céu;  2Rs 2, 19-25 dois milagres de Eliseu;  2Rs 4,32-37 Eliseu ressuscita o filho de uma viúva.

Uma vez estabelecida a historicidade dos milagres de Jesus, (3) resta examinar o significado que possam ter.

(3) Historicidade global; este ou aquele pormenor não vem ao caso.

4. MILAGRES DE JESUS: SIGNIFICADO
O próprio Jesus explicitou o significado dos seus milagres em três ocasiões de sua missão pública:

1)     Mt 11,2-6: João Batista manda perguntar a Jesus se Ele é o que há de vir ou o Messias. Jesus responde apontando seus milagres: “Os cegos recuperam a vista, os coxos andam, os leprosos são purificados e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados”. Com outras palavras: Jesus diz que está cumprindo as profecias messiânicas, que identificam o Messias mediante a realização de sinais prodigiosos; ver Is 26,19; 29,18s; 35, 5s; 61,1. Por conseguinte, segundo Jesus, os milagres vêm a ser os sinais de que Ele é o Messias.

2)     Mt 12,28; “Se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então o Reino de Deus já chegou até vós”. No caso, os milagres são os sinais de que o Reino de Deus já chegou à terra. Com efeito, dominando os males físicos (doenças e achaques) e morais (o pecado) dos homens, vencendo a própria morte, Jesus mostra que na sua pessoa e nas suas obras o Reino de Deus se faz presente e atuante neste mundo. Assim os milagres se inserem harmoniosamente na pregação de Jesus, comprovando-a e autenticando-a.

3)     Mt 11,20-24: “Jesus começou a verberar as cidades onde havia feito a maior parte dos seus milagres, por não se terem arrependido: ‘Ai de ti Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em ti e em Sidónia tivessem sido realizados os milagres que em vós se realizaram, há muito se teriam arrependido, vestindo-se de cilício e cobrindo-se de cinza. Mas eu vos digo: No Dia do Julgamento, haverá menos rigor para Tiro e Sidónia do que para vós. E tu, Cafarnaum, por acaso te elevarás até o céu? Antes, até o inferno descerás. Porque, se em Sodoma tivessem sido realizados os milagres que em ti se realizaram, ela teria permanecido até hoje. Mas eu vos digo que no Dia do Julgamento haverá menos rigor para a terra de Sodoma do que para vós”. — Destes dizeres se depreende que os milagres foram efetuados em Corazim, Betsaida e Cafarnaum precisamente para que tais cidades se convertessem, compreendendo a irrupção do Reino Messiânico. Os milagres são, pois, apelos ou sinais eloqüentes pelos quais Deus chama os homens a passar do pecado para uma vida nova.

Conseqüentemente os milagres evidenciam a identidade de Jesus. Ao vê-los, os homens espontaneamente perguntam: “Que é isso? Comanda até mesmo aos espfritos imundos e estes lhe obedecem!” (Mc 1,27) ou ainda: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?” (Mc 4,41). Algo de inédito aparece entre os homens, … e este inédito é o Messias assinalado por suas obras.   Este artigo muito deve ao Editorial “Storicità e Significato dei Miracoli di Gesú”, da revista La Civiltà Cattolica, no 3444, 18/12/1993, pp. 529-541.

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1 Apolônio de Tiana foi um filósofo pitagórico do século I d.C. Teria ficado praticamente ignorado se Filóstrato, no início do século III, não tivesse escrito a Vida de Apolônio, que certamente foi influenciada pelos escritos do Novo Testamento e apresenta Apolônio como herói e taumaturgo igual a Cristo.

Dinheiro e poder sujam a Igreja, alerta Papa Francisco

Terça-feira, 17 de maio de 2016, Da redação, com Rádio Vaticano

Francisco explica que desejo por poder é vontade mundana e contraria caminho que Jesus indica

Papa Francisco afirmou nesta terça-feira, 17, que o dinheiro e o poder sujam a Igreja. Na Missa celebrada esta manhã na capela da Casa Santa Marta, no Vaticano, o Santo Padre disse que o caminho que Jesus indica é o serviço, mas com frequência na Igreja buscam-se poder, dinheiro e vaidade.

Refletindo sobre o Evangelho de São Marcos (cf. Mc 9, 30-37), proposto na liturgia do dia, o Papa afirmou que estas tentações mundanas comprometem também hoje o testemunho da Igreja:

“No caminho que Jesus nos indica, o serviço é a regra. O maior é aquele que serve mais, quem está mais ao serviço dos outros, e não aquele que se vangloria, que busca o poder, o dinheiro, a vaidade, o orgulho… Não, esses não são os maiores. E o que aconteceu aqui com os apóstolos, inclusive com a mãe de João e Tiago, é uma história que acontece todos os dias na Igreja, em cada comunidade. ‘Mas entre nós, quem é o maior? Quem comanda?’ As ambições… Em cada comunidade – nas paróquias ou nas instituições – sempre existe esta vontade de galgar, de ter poder”.

Na sua homilia, o Papa Francisco sublinhou que a vontade mundana de estar com o poder acontece nas paróquias, nos colégios e também nos episcopados, uma atitude que não é a atitude de Jesus que veio para servir e ensina o serviço e a humildade.

O Pontífice destacou que todos são tentados pelas atitudes de poder e de vaidade, e pediu ao Senhor que ilumine a cada um para entender que o espírito mundano é inimigo de Deus.

“Todos nós somos tentados por estas coisas, somos tentados a destruir o outro para subir mais. É uma tentação mundana, mas que divide e destrói a Igreja, não é o Espírito de Jesus. É belo, imaginemos a cena: Jesus que diz estas palavras e os discípulos que dizem ‘não, é melhor não perguntar muito, vamos em frente’, e os discípulos que preferem discutir entre si qual deles será o maior. Vai-nos fazer bem pensar nas muitas vezes que nós vimos isto na Igreja e nas muitas vezes que nós fizemos isto, e pedir ao Senhor que nos ilumine, para entender que o amor pelo mundo, ou seja, por este espírito mundano, é inimigo de Deus”.

Os nomes de Cristo

Muitas são as formas de relacionar-se com o Senhor

São muitos os nomes e títulos atribuídos a Cristo por teólogos e autores espirituais ao longo dos séculos. Uns são emprestados do Antigo Testamento, outros do Novo. Alguns são usados e aceitos pelo próprio Jesus; outros lhe foram aplicados pela Igreja no decorrer dos séculos. Veremos aqui os mais importantes e mais conhecidos.   Jesus (cfr. Catecismo 430-435), que em hebreu significa ‘Deus salva’: “Quando da Anunciação, o anjo Gabriel dá-Lhe como nome próprio Jesus, o qual exprime, ao mesmo tempo, a Sua identidade e a Sua missão” (Catecismo, 430), isto é, Ele é o Filho de Deus feito homem para salvar ‘o seu povo de seus pecados’ (Mt 1, 21). “O nome de Jesus significa que o próprio nome de Deus está presente na pessoa do Seu Filho (cf. At 5,41;3 Jo 7) feito homem para a redenção universal e definitiva dos pecados. Ele é o único nome divino que traz a salvação (cf.Jo 3,18; At 2,21) e pode, desde agora, ser invocado por todos, pois a todos os homens Se uniu pela Encarnação” (Catecismo, 432). O nome de Jesus está no coração da oração cristã (cfr. Catecismo, 435).

Cristo (cfr. Catecismo, 436-440), palavra que vem da tradução grega do termo hebreu ‘Messias’ e quer dizer ‘ungido’. Passa a ser nome próprio de Jesus, “porque Ele cumpre perfeitamente a missão divina que tal nome significa. Com efeito, em Israel eram ungidos, em nome de Deus, aqueles que Lhe eram consagrados para uma missão d’Ele dimanada” (Catecismo, 436). Este era o caso dos sacerdotes, dos reis e, excepcionalmente, dos profetas. Este deveria ser, por excelência, o caso do Messias que Deus enviaria para instaurar definitivamente seu Reino. Jesus cumpriu a esperança messiânica de Israel em sua tríplice função de sacerdote, profeta e rei (cfr. ibid.).

Jesus “aceitou o título de Messias a que tinha direito (cfr. Jo 4, 25-26; 11, 27), mas não sem reservas, uma vez que esse título era compreendido, por numerosos dos Seus contemporâneos, segundo um conceito demasiado humano (cfr. Mt 22, 41-46), essencialmente político (cfr. Jo 6, 15; Lc 24, 21)» (Catecismo, 439).

Jesus Cristo é o Unigênito de Deus, o Filho único do Senhor (cfr. Catecismo, 441-445). A filiação de Jesus, em relação a Seu Pai, não é adotiva como a nossa, mas a filiação divina natural, isto é, “a relação única e eterna de Jesus Cristo com Deus, Seu Pai: Ele é o Filho único do Pai (cf. Jo 1,14.18; 3,16.18) e, Ele próprio, Deus (cfr. Jo 1,1). Crer que Jesus Cristo é o Filho de Deus é condição necessária para ser cristão (cfr. At 8,37; 1 Jo 2,23)” (Catecismo, 454). “Os evangelhos se referem, em dois momentos solenes – no batismo e na transfiguração de Cristo -, a voz do Pai, que O designa como Seu «filho muito-amado» (Mt 3,17; 17,5). Designa-se a Si próprio como «o Filho único de Deus» (Jo 3,16), afirmando por este título a sua preexistência eterna” (Catecismo, 444).

Senhor (cfr. Catecismo, 446-451): “Na tradução grega dos Livros do Antigo Testamento, o nome inefável sob o qual Deus Se revelou a Moisés (cfr. Ex 3, 14), YHWH, é traduzido por « Kyrios» («Senhor»). Senhor torna-se, desde então, o nome mais habitual para designar a própria divindade do Deus de Israel. É neste sentido forte que o Novo Testamento utiliza o título de «Senhor», tanto para o Pai como também – e aí é que está a novidade – para Jesus, assim reconhecido como sendo Ele próprio Deus (1 Co 2, 8)” (Catecismo, 446).

Ao atribuir a Jesus o título divino de Senhor, as primeiras confissões de fé da Igreja afirmam, desde o princípio (cfr. At 2, 34-36), que o poder, a honra e a glória, devidos a Deus Pai, também são devidos a Jesus (cfr. Rm 9,5; Tt 2,13; Ap 5,13), porque Ele é «de condição divina» (Fl 2, 6) e o Pai manifestou esta soberania de Jesus ressuscitando-O de entre os mortos e exaltando-O na Sua glória (cfr. Rm 10,9; 1 Co 12,3; Fl 2,11)” (Catecismo, 449). A oração cristã, litúrgica ou pessoal, está marcada pelo título ‘Senhor’ (cfr. Catecismo, 451).

José Antonio Riestra
http://www.opusdei.org.br

Você crê na existência de Deus?

O Criador deixou sua marca em suas obras

“O conhecimento da existência de Deus está naturalmente infundido em todos. Logo, a existência de Deus é por si evidente” (Santo Tomás de Aquino, Sacerdote e Doutor da Igreja).

Você crê na existência de Deus? Em caso afirmativo, pode provar que Ele existe? Na realidade, estamos cercados de evidências de que existe um Criador Sábio, Poderoso, Amoroso e Eterno. Que evidências são essas? Elas são convincentes? Encontramos a resposta ao considerar as palavras do apóstolo São Paulo em sua carta aos cristãos em Roma.

Referindo-se a Deus, o grande apóstolo São Paulo disse: “As suas qualidades invisíveis são claramente vistas desde a criação do mundo em diante, porque são percebidas por meio das coisas feitas, mesmo seu sempiterno poder e divindade, de modo que eles são inescusáveis” (Rm 1,20). O Criador deixou Sua marca em Suas obras, como São Paulo destacou.

Vejamos mais a fundo as palavras do apóstolo dos gentios: As qualidades de Deus podem ser vistas “desde a criação do mundo em diante”, observa São Paulo. Nesse contexto, a palavra grega traduzida por “mundo” não se refere ao planeta Terra, mas à humanidade. Portanto, São Paulo estava dizendo que, a partir do momento em que foram criados, os seres humanos podiam ver as qualidades do Criador evidentes nas coisas que Ele fez.

Essas evidências estão à nossa volta. Não estão escondidas na natureza, mas são “claramente vistas”. Da maior à menor, as criações revelam claramente não apenas que existe um Criador, mas também que Ele tem qualidades maravilhosas. Projetos inteligentes tão óbvios na natureza nos revelam a sabedoria de Deus. Os céus estrelados e a rebentação das ondas do mar mostram o poder do Criador. A variedade de alimentos que tanto apreciamos e a beleza do nascer e do pôr do sol revelam o amor de Deus pela humanidade. (Cf. Sl 19,1-8; Sl 104,24; Is 40,26).

É fácil reconhecer essas evidências? Elas são tão claras que os que não as veem e os que se recusam a acreditar em Deus “são inescusáveis”, ou seja, não têm desculpa. Um sábio ilustra isso da seguinte maneira: imagine um motorista que ignora uma placa com o aviso: “Desvio – vire à esquerda”. Um policial pede para o motorista parar e começa a multá-lo. O motorista tenta argumentar dizendo que não viu a placa. Mas suas palavras não convencem o policial, porque a placa é bem visível e o motorista não tem nenhum problema na vista. Além disso, é responsabilidade do motorista prestar atenção nas placas. O mesmo acontece com as evidências de Deus na natureza, que são como uma placa bem visível. Como criaturas racionais, somos capazes de vê-las. Não há desculpas para ignorá-las!

De fato, o “livro” da criação revela muito sobre nosso Criador, mas há outro livro que revela muito mais sobre Ele: a Sagrada Escritura.

Padre Inácio José do Vale
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