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Papa: o amor de Jesus é sem medida, não seguir os “amores” mundanos

Cidade do Vaticano (RV) – O amor de Jesus é sem medida, não como os amores mundanos, que buscam poder e vaidade. Foi o que disse o Papa Francisco na Missa matutina (18/5/2017) na Casa Santa Marta.
 
“Assim como o Pai me amou, também eu vos amei”: o Pontífice desenvolveu sua homilia partindo da afirmação de Jesus, que destaca como o seu amor seja infinito. O Senhor, observou ainda, nos pede que permaneçamos no Seu amor “porque é o amor do Pai” e nos convida a observar os Seus mandamentos. Para Francisco, “certamente  os Dez Mandamentos são a base, o fundamento, mas é preciso seguir todas as coisas que Jesus nos ensinou, os mandamentos da vida cotidiana”, que representam “um modo de viver cristão”.

Uma coisa é querer bem, outra é amar

A lista dos mandamentos de Jesus é muito ampla, afirmou Francisco, mas “o cerne é um: o amor do Pai por Ele o amor Dele por nós”:

“Existem outros amores. Também o mundo nos propõe outros amores: o amor ao dinheiro, por exemplo, o amor à vaidade, exibir-se, o amor ao orgulho, o amor ao poder, inclusive cometendo muitas injustiças para ter mais poder… São outros amores, este não é de Jesus e não é do Pai. Ele nos pede para permanecer no seu amor, que é o amor do Pai. Pensemos também nesses outros amores que nos afastam do amor de Jesus. E também, existem outras medidas para amar: amar pela metade, isso não é amar. Uma coisa é querer bem, outra é amar.”

O amor de Deus é sem medida

“Amar – destacou – é mais do que querer bem”. Qual é, portanto, “a medida do amor”, se pergunta Francisco: “A medida do amor é amar sem medida”:

“E assim, realizando esses mandamentos que Jesus nos deixou, permaneceremos no Seu amor, que é o amor do Pai, é o mesmo. Sem medida. Sem este amor morno ou interesseiro. ‘Mas porque, Senhor, nos lembra dessas coisas?’, podemos perguntar. ‘Para que a minha alegria esteja em vocês e esta alegria seja plena’. Se o amor do Pai vai até Jesus, Jesus nos ensina o caminho do amor: o coração aberto, amar sem medida, deixando de lado outros amores”.

A missão do cristão é obedecer a Deus e doar alegria às pessoas

“O grande amor por Ele – acrescentou o Papa – é permanecer neste amo e se há alegria”; “o amor e a alegria são um dom”. Dons que devemos pedir ao Senhor:

“Pouco tempo atrás, um sacerdote foi nomeado bispo. Foi visitar seu pai, já idoso, para dar-lhe a notícia. Este homem idoso, aposentado, homem humilde, um operário durante toda a vida, não tinha frequentado a universidade, mas tinha a sabedoria da vida. Deu somente dois conselhos para o filho: ‘Obedeça e dê alegria às pessoas’. Este homem tinha entendido isso: obedeça ao amor do Pai, sem outros amores, obedeça a este dom e, depois, dê alegria às pessoas. E nós, cristãos, leigos, sacerdotes, consagrados, bispos, devemos dar alegria às pessoas. Mas por que? Por isso, pelo caminho do amor, sem qualquer interesse, somente pelo caminho do amor. A nossa missão cristã é dar alegria às pessoas.”

O Papa concluiu: “Que o Senhor proteja, como pedimos nas orações, este dom de permanecer no amor de Jesus para poder dar alegria às pessoas”.

 

II Domingo da Páscoa – Ano A – Divina Misericórdia

Por Mons. Inácio José Schuster

Nesta oitava de Páscoa, a Igreja apresenta um texto significativo de João, oito dias após a primeira aparição de Jesus ressuscitado. Na teologia deste Evangelista, as aparições são ambientadas no domingo porque as comunidades estavam já trocando o sábado judaico pelo primeiro dia da semana, o domingo Cristão. Jesus apresenta-Se: “A paz esteja convosco”, é o dom do ressuscitado. E desta feita – diz o Evangelista – Tomé, que não estava oito dias antes, encontra-se agora presente. Tomé não é a figura de um racionalista ou de um cético quase ateu. Tomé é uma figura simpática no Evangelho. Tomé era generoso. Certa vez insistiu com os seus colegas a marcharem resolutamente a Jerusalém, a fim de morrerem com Jesus. Tomé era observador e cuidadoso: “Senhor, não sabemos para onde vais, e como poderemos seguir-Te?” E recebe de Jesus a famosa resposta: “Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. Tomé tinha sim suas dúvidas, e as dúvidas de Tomé são as dúvidas de uma multidão de lá para cá, são as dúvidas de todos os tempos. Mas não são seres humanos desqualificados estes que tem dúvidas, não são pessoas necessariamente de má fé, não são pessoas que se fecharam a Deus. São pessoas, muitas delas, que sofrem em busca de uma razão última para a própria existência, mas não a encontraram ainda. Todas estas pessoas que giram ou vivem corroídas pelas próprias dúvidas podem ter, como seu padroeiro especial, Tomé. São Gregório nos diz que as dúvidas de Tomé fizeram mais bem à Igreja, do que o ímpeto da fé de Maria Madalena e das outras mulheres, que não duvidaram porque, através da dúvida de Tomé, e retratando o Evangelista nele a dúvida Apostólica, cura nossas perplexidades. Efetivamente, aqueles discípulos eram simples, eram Galileos, não eram estudados como nós, não tinham doutorados em universidades famosas como nós, mas também não eram credulões, não eram idiotas como muitos pensam, não eram pessoas ignorantes e pessoas que se deixassem levar por qualquer coisa. Tiveram as suas dúvidas sim, não aceitaram, à primeira vista, o incrível; o à primeira vista inacreditável, e só depois se curvaram diante da evidência do realismo da ressurreição de Jesus. E desta maneira eles podem curar também nossas dúvidas e nossas perplexidades. Afinal, é grande demais o mistério em que cremos, e do qual tornamo-nos também portadores neste mundo cético indiferente, mas que não coloca nada melhor em seu lugar.

 

2º DOMINGO DA PÁSCOA, A
“Como crianças recém-nascidas, desejai o puro leite espiritual para crescerdes na salvação, aleluia!” (cf. 1Pd 2, 2).
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha(MG)

Meus queridos irmãos, Somos convidados nestes domingos seguintes ao Domingo da Páscoa a conviver com a primeira comunidade cristã. As primeiras leituras são uma seqüência de Leituras dos Atos dos Apóstolos com o Evangelho de São João. As segundas leituras são tiradas das Cartas de Pedro. Assim, neste domingo, o tema da fé batismal, permeia toda a celebração. Os fiéis são “como crianças recém-nascidas”  e reza-se por um mais profundo entendimento do mistério da ressurreição e do batismo. Neste tempo, não existe, necessariamente, uma estreita coerência temática entre as três leituras. Porém, todas elas nos fazem participar do espírito do mistério pascal. Assim, na primeira leitura deste domingo (cf. At 2,42-47), os Atos dos Apóstolos nos apresenta como deve ser a comunidade dos cristãos batizados, que deve ter como centro a comunhão fraterna, repartindo tudo em comum, a exemplo de Cristo. Comunhão que deve ser testemunho, vivência para os que não crêem. Logo depois da Páscoa os cristãos davam demonstração de como deveria ser a sua vida: um convite permanente para restabelecermos a pureza cristã  das origens. Assim, com o Salmo Responsorial, podemos cantar as alegrais da criação e do Senhor: DAI GRAÇAS AO SENHOR, PORQUE ELE É BOM! ETERNA É A SUA MISERICÓRDIA! Nos primórdios da Igreja os fiéis tinham tudo em comum. A primeira leitura descreve a vida da comunidade apostólica em Jerusalém. A leitura de hoje se completa em At 4,32-35, que consiste em ter tudo em comum. O ensino dos apóstolos e o culto realizavam-se no templo. A alegria e a magnanimidade do grupo eram contagiosas; aí está o sucesso missionário. Estimados irmãos, A Segunda Leitura, retirada de Pedro (cf. Pd 1,3-9), é uma espécie de homilia batismal. Na perspectiva de seu autor, a volta gloriosa do Senhor estava próxima; os cristãos deviam passar por um tempo de prova, como ouro na fornalha, para depois brilhar com Cristo na sua glória. Neste horizonte, a fé batismal se concebe como antecipação da plena revelação escatológica: é amar e crer naquele que ainda não vimos, o coração já repleto de alegria com vistas à salvação que se aproxima e que já é alcançada na medida em que a fé nos coloca em verdadeira união com Cristo. A Primeira Carta de Pedro é uma carta de consolação aos cristãos oriundos do paganismo – Ásia Menor – ameaçados pela perseguição. A introdução tem um estilo de um hino. As graças recebidas são penhor dos dons definitivos – a esperança cristã. No batismo somos adotados como filhos: isto também é fundamento de uma esperança ainda maior. Esta esperança é viva, porque é baseada no Cristo Ressuscitado. Produz alegria e firmeza. Irmãos e Irmãs, Estamos celebrando os 50 dias do mistério pascal. Este tempo é chamado de um grande domingo, ou seja, um grande Dia do Senhor. Assim, como na Eucaristia, tudo é iniciado com o Ato Penitencial, a liturgia de hoje é iniciada com a reconciliação e a pacificação. Jesus se encontra com seus apóstolos, que se tinham comportado covardemente durante a Paixão e Morte. Mas Jesus, manso e misericordioso, não se mostra decepcionado e nem os repreende. Jesus vem e deseja A PAZ. A PAZ ESTEJA CONVOSCO! (cf. Jo 20, 19). Paz que é sinônimo de amor e de misericórdia! Paz que é sinônimo de perdão e de acolhida do diferente. Paz que tudo supera e que tudo ama! E Jesus dá aos seus discípulos o poder divino de perdoar os pecados, assim transmitindo a graça de Deus e a santificação do povo de Deus. O próprio Cristo dá este poder aos seus apóstolos: “A quem perdoardes os pecados, eles lhe serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhe serão retidos”. O Evangelho de hoje – Jo 20,19-31 nos demonstra que são felizes os que crêem sem terem visto. O cenário deste acontecimento foi no oitavo dia após a Páscoa. Tomé, duvidoso e incrédulo, embora zeloso apóstolo de Jesus, representa muitos cristãos que, distanciados da Páscoa no tempo, devem viver perto dela pela fé e fazer da Ressurreição o fundamento de sua vida.  Tudo isso para que nós e todo o povo, de ontem, de hoje e de sempre, sejamos testemunhas autênticas do Senhor Ressuscitado, para que “creais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo tenhais a vida em seu nome” (cf. Jo 20,31). Crer em Deus, o Deus da vida, que irrompeu a morte e nos deu a possibilidade de sermos elevados à condição de filhos e filhas de Deus. Estimados Irmãos, Oh dúvida providencial a de Tomé. E não foi só Tomé que demorou a acreditar na Ressurreição. A dúvida de Tomé é positiva. É sempre parte do caminho andado na procura da verdade. Por isso mesmo, Jesus não repreendeu Tomé. Ajudou-o a superar a dúvida e o levou a uma perfeita profissão de fé: “Meu Senhor e Meu Deus!” (cf. Jo 20, 28).  Esses dois títulos juntos, de Senhor e Deus meu, na antiga aliança era designação de JAVÉ, O NOSSO DEUS!  Tomé não só passou a acreditar que Jesus ressuscitara, porque aí estava e ele podia por o dedo nas chagas, mas também viu nele o Cristo de Deus. A Palavra SENHOR, para designar Jesus, só aparece depois da Ressurreição nos Escritos Sagrados. Assim somos convidados a ver, com Tomé, com novos olhos e um novo jeito o Senhor, ouvindo a sua voz e tendo a sua presença em nosso meio pela fé que celebramos, fé eucarística, porque o SENHOR ESTEJA CONVOSCO, ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS! Amigos e amigas, O poder das chaves que é confiado por Cristo aos discípulos é o poder de morte e de vida, de ressurreição e de condenação eterna. Jesus reparte hoje com seus seguidores o poder de santificar, de salvar, o poder de arrancar alguém do pecado e da morte eterna. Isso porque a criatura humana sozinha é incapaz de salvar-se e de salvar quem quer que seja. Mas na forca do Espírito Santo, dado por Cristo ressuscitado, prolongamos o poder redentor de Jesus na história humana. Jesus dá aos seus discípulos os meios de serem suas testemunhas, isto é, de afirmarem sua divindade e a sua missão, repartindo o perdão, a benção, a graça. Ligado a esse poder está o envio por partes de Cristo. Ele foi enviado pelo Pai e por sua vez está enviando a nós para a missão, para a evangelização. Envio que é comunidade. Envio que é convivência. Envio que benção. Envio que é partilha. Envio que é santidade. Envido que é perdão. Envio que é amor pleno. Como o Pai enviou Jesus hoje é Ele que nos envia para a missão. E Jesus nos envia com o seu espírito de conciliação, de misericórdia, de caridade, de aceitar o diferente, de sempre perdoar os “tomés” que surgirem no nosso horizonte. Aí está, queridos amigos, o Jesus humilde que reparte tudo conosco, até os seus poderes. Isso porque somente quem é humilde sabe repartir. Porque só o humilde acolhe e tem misericórdia. Jesus perdoa a traição de seus apóstolos nos ensinando que essa deve ser a nossa atitude, o perdão sempre. Estimados Irmãos, Jesus é o grande sinal de Deus entre os homens. Por isso a fé da comunidade apostólica é a nossa. Através da comunidade apostólica, da primeira leitura, nós somos partícipes da fé, antecipação da comunhão eterna com Cristo e nossa salvação. Por isso, este domingo, antigamente chamado de domingo “in albis”, no tempo em que os batizados da noite pascal depunham as vestes brancas do batismo, encerrando a oitava da Páscoa nos convida a todos para que sejamos testemunhas do Ressuscitado renovando o nosso compromisso de batizados, crismados e de homens e mulheres que buscam na Eucaristia  o alimento que dá combustível a nossa fé, fé apostólica, fé nossa de cada dia, porque a Páscoa não é só hoje, a páscoa é todo dia e se eu levar o Cristo em minha vida tudo será um eterno aleluia! Amém! Aleluia!

 

“VIMOS O SENHOR!”
Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração
II DOMINGO DA PÁSCOA
Leituras: At 2, 42-47; 1 Pd 1, 3-9; Jo 20, 19-31

“Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos” (Sl 117, 24- Salmo responsorial). Este grito de alegria acompanhou a celebração da Eucaristia e da Liturgia das Horas, desde o dia da Páscoa até o dia de hoje, oitavo dia da solenidade. A Eucaristia e a Liturgia das Horas são a fonte da vida divina da Igreja e o cume da sua relação esponsal com Cristo, a expressão mais alta da sua fé e a nascente que alimenta sua vida. No pano do fundo do canto incessante deste salmo messiânico está a visão de fé segundo a qual, contra todas as expectativas humanas, com a morte e ressurreição de Jesus, o projeto de salvação do Pai se realizou, e teve início o tempo novo, o dia definitivo, do qual Cristo é luz e vida (cf Sl 117, 22-24). É o tempo no qual estamos vivendo, animados pela mesma vida divina de Jesus e iluminados pela sua luz. É o “hoje” da atuação incessante do Espírito do Senhor que se torna sempre contemporâneo para nós. Na tarde da Páscoa Jesus ressuscitado, como atesta o evangelho de hoje, derramou o Espírito criador que tudo renova sobre os discípulos e sobre o mundo inteiro, para a remissão dos pecados, re-estabelecendo a verdadeira relação das pessoas com Deus, consigo mesmas e com os demais (cf. Jo 20, 22-23). Cristo ressuscitado é o novo Adão, a origem e a fonte da nova humanidade. Os batizados são as  primícias desta humanidade chamada a viver a mesma qualidade de vida de Cristo. (cf. Rm 5, 12-17). O segundo domingo é o oitavo dia depois da páscoa. É a sua “oitava”, como se diz na linguagem litúrgica. Celebrar uma festa durante oito dias é privilegio das Solenidades fundamentais do mistério de Cristo: seu nascimento (Natal) e sua morte e ressurreição (Páscoa). Na linguagem simbólica da bíblia, o numero oito diz plenitude, paz, fecundidade divina e repouso. O dia oitavo é o dia do descanso de Deus e de toda a criação (cf. Gn 2,3). A extensão da Solenidade da Páscoa por oito dias indica que, com o evento pascal de Jesus, a história da salvação alcançou sua meta. Nela o mundo goza finalmente a plenitude da vida pela qual foi criado. O dia da ressurreição será indicado pelos cristãos como o “dia do Senhor” por excelência –  “o domingo” – , celebrado como o dia que qualifica a existência dos discípulos, totalmente orientado para Cristo, proclamado “Senhor” da história e da própria vida. A Páscoa é assim ao mesmo tempo o “dia oitavo” (plenitude) e o “dia primeiro” (início e nascente) da nova história. Ela orienta o cristão para a meta da vida na eternidade de Deus, e em certa medida doa-lhe a graça de antecipá-la e de antegozá-la, através do seu clima de liberdade interior, da oração, da partilha fraterna e do descanso. A língua portuguesa guarda felizmente este profundo sentido antropológico e teológico do tempo presente semanal, que é derivado da relação com o Domingo, a páscoa semanal, do momento que se denominam os dias da semana como “segunda-feira”, “terça–feira”, etc., isto é, segunda-festa, terceira-festa…, haja vista que a festa primordial é o próprio Domingo. Quem sabe quantas pessoas estejam conscientes disso? Não seria uma simples e feliz oportunidade para desenvolver uma profunda e vital catequese sobre o sentido pascal da existência cristã? A partir desta perspectiva espiritual, a celebração comunitária e solene do domingo se tornou cedo para os cristãos como o dia específico da própria fé e sinal da própria identidade, e por isso mesmo irrenunciável, ainda que ao custo da própria vida. Talvez muitas pessoas conheçam a declaração feita diante do juiz por uma mártir de Abitina (África romana) no séc. IV. Para reivindicar tal direito constitutivo do cristão, dizia ela: “Não podemos viver sem a ceia do Senhor… Sim, fui à assembléia e celebrei a ceia do Senhor com os meus irmãos, porque sou cristã” [1]. Os dias da oitava estão atravessados pelo dinamismo existencial do mistério pascal, ao qual os batizados foram iniciados, e que agora procuram seguir na vida cotidiana, ansiando sua plenitude na eternidade. Do ponto de vista pastoral, seria importante valorizar o tecido espiritual de todos os dias da oitava como contexto interior dos domingos que se seguem durante o tempo pascal. No dia da Páscoa a Igreja louvou a Deus porque em Cristo, morto e ressuscitado, “nos abristes as portas da eternidade” (Oração do dia), enquanto na segunda-feira pediu que o Senhor “acompanhe” o caminho do seu povo até conseguir a autêntica liberdade, para “um dia alegrar-se no céu como exulta agora na terra” (Oração do dia). Na sexta-feira se tornou explícito o pedido da graça para “realizar em nossa vida o mistério que celebramos na fé” (Oração do dia). A Oração depois da comunhão do segundo domingo implora que “conservemos em nossa vida o sacramento pascal que recebemos”. Na base desta atitude orante da Igreja está, portanto, a clara consciência de que, em qualquer estágio do caminho cristão, somos ainda “criancinhas recém-nascidas”, que precisamos do leite do Espírito para alcançar a maturidade espiritual (Antífona de Entrada – 1 Pd 2,2). É fundamental ter presente a sábia insistência com a qual a liturgia hoje, nas leituras bíblicas, assim como nas orações, destaca que este processo dinâmico é fruto da iniciativa compassiva e misericordiosa de Deus, e se ativa graças à fé e não ao esforço humano. Pedro sublinha que “em sua grande misericórdia, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, ele nos fez nascer de novo, para uma esperança viva, para uma herança incorruptível” (1 Pd 1, 3-4). Na Oração do dia a Igreja volve seu olhar confiante ao Senhor “Deus de eterna misericórdia”, que “reacende a fé do seu povo na renovação da páscoa”. A ele pede a graça de compreender sempre melhor a experiência da iniciação cristã do batismo, da confirmação e da eucaristia. Acho que seja esta a razão profunda pela qual o bem-aventurado papa João Paulo II desejou que este domingo da oitava se qualificasse também como o “Domingo da misericórdia” de Deus para todo mundo. Focaliza mais uma vez no coração do Pai a nascente da história da salvação, do mistério pascal de Cristo, a origem e a meta do nosso caminho, seguindo a Jesus morto e ressuscitado. Este dinamismo espiritual, fundamentado na experiência sacramental da iniciação cristã, caracteriza o ciclo inteiro do tempo pascal até a celebração do Pentecostes, constituindo como uma extensão sem interrupção do único e mesmo dia da Páscoa! É um tempo precioso, para aprofundar em espírito de meditação, oração e sensibilidade pastoral, as grandes oportunidades que a liturgia oferece para viver um intenso caminho de graça, desenvolver uma autêntica formação espiritual dos fiéis a partir da liturgia e iniciá-los a uma participação sempre mais profunda e vital.  Neste segundo domingo, contemplamos a páscoa atuando na pessoa de Jesus (evangelho), nos batizados de todos os tempos (2ª leitura) e na comunidade dos primeiros discípulos (1ª leitura). É uma visão de conjunto que destaca o dinamismo permanente da páscoa e da palavra de Deus recebida na fé. Jesus, depois de ter removido, no poder do Espírito, a grande pedra do seu sepulcro, consegue não somente superar o obstáculo dos muros, mas sobretudo derrubar as barreiras do medo e as resistências da frágil fé dos discípulos, fechados em si mesmos e como sepultados em casa por medo dos judeus. O anúncio da paz por parte de Jesus, o sopro do Espírito sobre eles num gesto de nova criação, a experiência de “ver o Senhor”, transformam o pequeno grupo de medrosos em pessoas cheias de alegria e coragem, prontas para ser enviadas ao mundo, com a mesma disponibilidade livre com a qual Jesus acolheu e atuou o envio recebido pelo Pai. Na força do Espírito, eles se tornam colaboradores do próprio Senhor ao anunciar o reino ao mundo inteiro, e para a instauração da aliança nova, preanunciada pelos profetas em prol do novo povo de Deus. O novo encontro com os discípulos no domingo seguinte destaca as exigências do caminho de fé que cada discípulo é chamado a cumprir no seguimento do Senhor. Jesus frisa a bem-aventurança da fé, única condição para “ver o Senhor”, isto é, para entrar de maneira vital em relação com Jesus, até deixar que ele seja efetivamente o Senhor da própria existência. A profissão de fé em Tomé está finalmente completa e o caminho que ele utilizou para chegar a ela torna-se modelo de todo caminho e profissão de fé: “…‘Não sejas incrédulo mas fiel’. Tomé respondeu: ‘Meu Senhor e meu Deus!’. Jesus disse: ‘Acreditaste porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem ter visto” (Jo 20, 27-29). Não cessará jamais a tensão entre o desejo de “ver o Senhor”, no sentido de procurar a experiência pessoal do Senhor como fundamento da vida, e a beatitude da fé sustentada pelo amor confiante, que não pretende outras provas. “Sem ter visto o Senhor, vós o amais. Sem o ver ainda, nele acreditais. Isso será para vós fonte de alegria indizível e gloriosa, pois obtereis aquilo em que acreditais: a vossa salvação” (1 Pd 1, 8-9). A comunidade dos discípulos em Jerusalém (At 2, 42-47) é  o primeiro fruto da Páscoa e modelo de toda possível comunidade futura: uma comunidade de homens e mulheres participantes da ressurreição de Jesus. A vida deles testemunha que é possível agora uma nova maneira de viver e de relacionar-se. Ela se constrói através de um processo contínuo, sobre os fundamentos que serão os pilares da comunidade cristã de todos os tempos: a escuta perseverante da palavra dos apóstolos no espírito de fé; a comunhão fraterna que nasce da união interior, que chega até a partilha dos bens, dando atenção às necessidades diferentes de cada um; a partilha da mesa do pão eucarístico; a oração comunitária, expressão da comum orientação da vida em relação com o Senhor. O dinamismo da ressurreição se estende da pessoa de Jesus de Nazaré ao seu corpo vivente, os discípulos e a Igreja inteira ao longo do tempo. Hoje, no domingo antigamente chamado “in albis” [2], em Roma a Igreja proclama com rito solene que o Senhor fez brilhar a luz radiante e o esplendor da sua cruz e da sua ressurreição no seu servo, o Bem-aventurado papa João Paulo II. Certamente uma testemunha pascal dos nossos dias! Na vigorosa energia da sua fé e do seu ministério pastoral, assim como nas tribulações da violência sofrida e na fraqueza da doença, suportada com espírito heróico e simplicidade de criança, ele está hoje no centro da atenção da Igreja e do mundo, com o rosto do Cristo ressuscitado, portador da sua promessa: “Eis, que eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos!” (Mt 28,20) Notas: 1. Ata dos Santos mártires…. PL 8, 709-710. Hoje em dia uma visão sempre mais secular da vida, o consumismo e até mesmo a complexa organização social do trabalho, põem novos riscos e desafios ao entendimento e à prática cristã do domingo. Para valorizar as dimensões teológicas, espirituais e pastorais do domingo para o nosso tempo, à luz da páscoa e no contexto das mutações culturais e sociais, é ainda muito proveitosa uma leitura atenta da Carta apostólica do papa João Paulo II sobre o domingo. Trata-se de uma autêntica pérola de espiritualidade e de sabedoria pastoral. Cf. JOÃO PAULO II. “Dies Domini – O dia do Senhor”. São Paulo: Paulinas, 1998. n. 158. 2. In albis é uma referência às túnicas “alvas”, isto é, brancas, usadas pelos recém-batizados na noite  da Vigília Pascal, como sinal que eles tinham sido “revestidos de Cristo”, como diz Paulo. Os neófitos permaneciam vestidos com as vestes brancas durante todo o período da oitava, depondo-as neste domingo.

 

O toque da Misericórdia de Jesus
Palestra Monsenhor Jonas Abib do Domingo da Misericórdia dia 07 de Abril de 2002

Jesus pediu que o domingo da Sua misericórdia fosse justamente o segundo domingo depois da Páscoa. O centro de tudo é a Misericórdia Divina. Atos dos Apóstolos 2, 47 está escrito: “E o Senhor cada dia lhes ajuntava outros, que estavam a caminho da salvação”. Os que se refugiam no Coração Misericordioso de Jesus estão guardados para a salvação que deve se revelar nos últimos tempos. Deus Pai enviou Seu Filho ao mundo para perdoar os pecados, para tirar a ruptura que havia entre Ele e os homens e nos abrir de novo o caminho para a eternidade, para o céu. Jesus veio para perdoar todo o pecado. O Senhor quer que nós toquemos na Sua Misericórdia expressa nas Suas chagas. Jesus quer que entremos em Seu Coração ressuscitado para experimentarmos também a ressurreição. A máxima expressão de Jesus na Sua vida foi a convivência com Maria, Marta e Lázaro, porque Lázaro era leproso, eles viviam em uma cidade separada, onde viviam os leprosos. Jesus convivia com eles, comia com eles, todos tinham pavor dos leprosos, especialmente naquele tempo, mas aquela casa era a preferida de Jesus Cristo. Depois de Lázaro aparece aquela mulher que lava os pés de Jesus, inclusive no jantar de festa pela ressurreição dele [Lázaro]. Essa mulher era uma pecadora e Cristo deixou que ela Lhe lavasse os pés. Porque ela muito amou, Jesus perdoou seus pecados. Quem demonstra muito amor é porque foi muito perdoado. Os três Evangelhos de Mateus, Marcos e João mostram esse fato, que aconteceu depois da ressurreição de Lázaro. Jesus convivia com leprosos e pecadores. Isso mostra o excesso da Divina Misericórdia. Jesus Nazareno não tem medo de nada, nem da lepra nem do pecado. O Senhor não é leproso, não cometeu pecado, pelo contrário, Ele não quer a lepra nem o pecado. Mas Jesus se coloca lado a lado, até se une a leprosos e pecadores para que eles experimentem a ressurreição. Que beleza a ressurreição de Lázaro! Jesus mandou tirar a pedra do seu sepulcro. Ele não tem medo de nada, nem do cheiro da morte e do pecado. O que andava o matando e o fazendo cheirar mal? A morte traz mau cheiro e Cristo, sem dó e sem se preocupar com nada, manda tirar a pedra. Você não precisa esconder aquilo que fazia você cheirar mal porque Jesus não tem medo, muito pelo contrário, Ele o manda vir para fora. Quando apontamos para Jesus, sem medo, Ele destrói o pecado. É como a luz que entra e ilumina o escuro. São raios de Misericórdia que saem do Coração de Nosso Senhor Jesus e atingem o seu pecado para acabar com ele. Você não precisa esconder o que lhe causava morte e cheirava mal, porque o Senhor não tem nenhuma repugnância disso, muito pelo contrário, Ele manda tirar a pedra, colocar tudo às claras. Sem medo nem receio, com Jesus é preciso revelar, mostrar, apontar sem medo para Ele, pois quando fazemos isso é como a luz que entra. Eu mergulho e jogo minhas misérias na fornalha da Divina Misericórdia para que sejam incineradas! É isso que Jesus quer de você. Tire a pedra. Cristo disse para Lázaro: “Vem para fora!”, houve minutos de silêncio de expectativa. Naquele momento a vida voltou a Lázaro, mas ele estava todo amarrado, cheio de faixas, imagine-o no chão mexendo-se o que podia e como podia para vir para fora. Lázaro literalmente vem rastejando no chão. Era a força da vida, mas muito limitada, imagine a dificuldade para vir amarrado como estava. Hoje, o Dia da Misericórdia Jesus Cristo mostra o que ninguém pode fazer, só Ele pode fazer: que é nos ressuscitar sempre. O Senhor é disposto e suficientemente poderoso para ressuscitar todo aquele que se joga na Sua infinita Misericórdia e se arrepende, quer perdão e quer vida nova. Jesus tem o poder de ressuscitá-lo e Ele é a ressurreição. Ele o tira do que quer que seja e o levanta. Entre Jesus nos ressuscitar e ficarmos de pé existe toda nossa luta. Somos ressuscitados, mas ainda estamos enfaixados, aí existe todo nosso esforço, pois “o teu Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti” (Santo Agostinho). É preciso esforço, luta, seja qual foi sua situação. Para ficar em pé é preciso heroísmo e sem sua luta e esforço de nada vai adiantar Cristo tê-lo ressuscitado. Cada um de nós poderia morrer de novo depois de ressuscitados se não houver nosso esforço. O que nós podemos fazer Jesus não o faz por nós, o Senhor só faz aquilo que só Ele pode fazer. Claro que também nessa luta a graça está presente porque a ressurreição já aconteceu e a vida leva para a vida. É por graça que nos movemos, nos arrastamos, nos levantamos, mas é preciso esforço e luta. Para os moles não há possibilidade, mas para os que enfrentam o duro tudo se torna mole. Sem o seu heroísmo não haverá a sua salvação, a sua ressurreição. Cristo precisa ver sua lágrima, seu suor, o seu sangue, sua luta. Lute, a misericórdia do Senhor está aí, mas isso não quer dizer cruzarmos os braços e deslizarmos nessa graça [misericórdia]. Não! A misericórdia faz o que não podemos fazer. Ela nos dá vida e força, mas quem imprime a força e vida é você, quem se levanta é você. Do contrário você nunca sairá da sua situação. É preciso luta e heroísmo, agüente firme porque não é Jesus quem o faz se sentir assim, mas a própria situação na qual você estava, mas Ele o ressuscitou! Hoje é o dia da sua ressurreição! Oito dias depois da ressurreição de Jesus Cristo acontece o dia da sua ressurreição. Até se arrastar e sair do sepulcro Lázaro conseguiu, mas quando chegou do lado de fora precisou de outros para tirarem as faixas. Até ali precisou do próprio esforço, mas chegou a hora em que precisou dos outros. Talvez você tenha alguém na sua casa que também precisa de você. Corra para o “Lázaro” que está perto de você e retire as faixas dele. Se você não fizer isso ele não irá conseguir, pois Jesus precisa de você como auxiliar na Misericórdia d’Ele. A Misericórdia d’Ele ressuscita, nenhum de nós é capaz de ressuscitar. E o que você não pode fazer, Ele o faz, mas o restante exige de nós. A coisa mais importante é a confiança, confiar n’Aquele que recebeu a graça da ressurreição. A confiança que colocamos em Nosso Senhor Jesus Cristo e a misericórdia que colocamos n’Ele precisam ser refletidas na confiança e misericórdia para com nossos irmãos. Hoje Jesus ressuscita o seu coração duro que não tinha a “confiança de confiar”. Receba o Espírito Santo de Deus e ressuscite agora! Saia dessa vida e deixe o passado na Misericórdia de Deus.

I Domingo da Quaresma – Ano A

Por Mons. Inácio José Schuster

As famosas tentações de Jesus, que são nossas tentações também, e que com Sua graça, queremos vencer, ao longo desta quaresma. Três foram as tentações de Jesus, logo após o Batismo de João, induzido pelo Espírito Santo ao deserto, a realizar uma espécie de retiro preparador de Sua vida Apostólica, de Sua pregação do Reino de Deus, Seu Pai. Três tentações de Cristo e nossas também. A primeira tentação de Cristo, a do prazer fácil. Ele não podia multiplicar pães? Ele não faria esse milagre no decorrer de Sua vida terrestre, ou vida pública? Ele não poderia saciar a si mesmo, pois seria capaz de saciar a fome de cinco mil pessoas? “Ordeneis que estas pedras se transformem em pães”. Existe para nós a tentação do prazer fácil, a de Jesus foi servir da própria divindade para satisfazer o prazer da comida, seu estomago estava vazio. “Nem só de pão vive o homem, mas de toda Palavra que vem de Deus”. Nós também corremos o risco de buscar um sem número de prazeres na existência. Não que os prazeres sejam errados, ou ofendam a Deus, mas eles são fáceis demais e podem ser considerados a meta da própria existência, e é fácil a criança passar de uma montanha de brinquedos ao sexo, sem nenhum controle. O prazer quando é desenfreado, quando não conhece limites, é um empecilho para se chegar a Deus. Existem pessoas que vivem literalmente à busca de prazeres. Ele se transforma num ídolo, num pequeno, ou substituto deus. A segunda tentação de Jesus foi a tentação da fé fácil. Nós também somos tentados assim. Não gostamos que Deus fique silencioso, durante o nosso peregrinar terrestre. Não gostamos que Ele se intrometa em nossas vidas. Que Deus deixe as pedras em nossos caminhos a ferir os nossos pés. Deus nos deixa, a primeira vista, Ele nos abandona, a ver até onde vai a nossa perseverança. Esta tentação nos traz algo de bom no seu bojo: para vermos até onde confiamos Nele, e até que ponto nos entregamos a Ele. A última tentação de Jesus, que é também nossa, foi a tentação do poder. O tentador, grotescamente, lhe ofereceu todos os reinos deste mundo, com uma condição: que o adorasse. Quantos não são aqueles que lutam para se parafusarem à uma cadeira de deputado, de governador ou de presidente de alguma associação, qualquer que seja, contanto que se mande, e esteja acima de outros, que tenha “o cetro do poder”. Três tentações, de Cristo e nossa também. Ele nos oferece a Sua graça, para que, nesta quaresma e ao longo de nossas existências, não cedamos à tentação do prazer fácil, da fé fácil e do poder sem limites.

 

Sobre a tentação escreve São Gregório Magno: “Sabemos que na tentação, há três graus ou fases: a sugestão, a atração, o consentimento. E nós, quando somos tentados, nós vamos geralmente até a atração, ou mesmo até o consentimento. Pois, nascidos da carne do pecado, trazemos em nós mesmos o combate que devemos manter. Mas Deus que, encarnado no seio da Virgem, veio ao mundo isento de pecado, não trazia em si nenhuma contradição. Ele pode ser tentado até à sugestão, mas a atração maldosa não teve nenhum lugar em seu espírito. Por isso toda esta tentação diabólica se passa no exterior, não no interior”. Jesus foi conduzido pelo Espírito Santo a dedicar quarenta dias e quarenta noites à oração e ao jejum no deserto. Por que é que Jesus foi compelido a buscar a solidão? Era, simplesmente, o desejo de se preparar para a sua missão ou era por que o diabo queria atraí-lo para tentá-lo? A palavra “tentar” significa na Bíblia, não só atrair para o pecado, mas também purificar e provar para ver se alguém já está pronto para sua missão. Abraão, por exemplo, é tentado para provar sua fé.  O diabo, que aponta para aquele que divide, que desune, quer provar Jesus. Jesus o vence porque está em total comunhão com o Pai e Nele coloca toda sua confiança. A obediência de Jesus ao Pai e a liberdade com a qual abraça a cruz invertem o curso da desobediência de Adão. Sua vitória sobre o pecado e a morte concede-nos não só o perdão para nossos pecados, mas nossa adoção como filhos e filhas de Deus. Jesus está pronto para derramar o Espírito, que nos dará força e coragem para resistir ao pecado e rejeitar as mentiras e atrações do Inimigo. É a atração do poder, do prazer e da glória, que é vencida. Tal poder será manifestado pelo Filho ao longo de sua missão, não unicamente pelos milagres, mas particularmente pela poder da Palavra que converte os corações e renova a vida dos que acolhem Jesus.

 

ESCOLHE, POIS, A VIDA

Estamos refletindo o quanto Deus nos ama, e o que Ele fez para nos salvar. Foi Deus quem realizou a criação, a natureza tão linda. Toda a obra saída das mãos de Deus canta a glória de Deus. Olhar para a natureza e não ver sinais da bondade e ternura de Deus é quase impossível. Deus criou o paraíso terrestre para nele habitar com o homem. Nós somos criaturas, pessoas limitadas, a todo momento estamos verificando nosso limite. Nem sempre conseguimos levar a frente o nosso propósito. Todos nós somos criaturas e somos limitados, mas nós não gostamos de nos reconhecer limitados. Todos nós sem exceção somos limitados porque somos criaturas, nós saímos das mãos de Deus, das mãos do criador. Muitos de nós reclamamos que Deus não nos ajuda, isso é mentira, é uma injustiça contra Deus. Pois Deus nos criou para viver no paraíso. Todos nós temos duas opções na vida, a árvore da vida e a árvore do bem e do mal. E qual foi a sedução do maligno? Seduziu a mulher da árvore da vida e os arrastou para a árvore do mal. A grande tentação é o homem não aceitar ser criatura, mas ser como Deus. Ainda hoje o homem sofre essa tentação de querer ser como Deus, e isso produz uma cultura de morte. Apesar do homem ter querido viver sua vida sem Deus, Deus não desistiu, o Senhor foi atrás do ser humano, deu a vida e nos salvou. Nós hoje podemos resistir, não precisamos fazer o caminho que Adão e Eva fizeram. Nós podemos fazer um caminho diferente, podemos tomar uma decisão de estar com Deus. ‘A oração é o oxigênio da alma para vencermos as tentações diabólicas’. A oração é o oxigênio da alma para vencermos as tentações diabólicas. Nossos primeiros pais no paraíso optaram pela morte, eu e você, todas as vezes, que não nos deixamos ser conduzidos pelo Senhor optamos pela morte. E dentro de nós há um grito pela vida. Hoje é domingo da “tentação”, pois Jesus foi tentado pelo demônio. A Igreja nos ensina que Jesus conduzido pelo Espírito Santo deixou-se ser tentado pelo demônio para dizer que assim como nosso Senhor venceu o inimigo, também nós, cheios do Espírito Santo com Jesus, venceremos as tentações. O demônio veio tentar Jesus quando Jesus sentiu fome. A tentação de nós nos acomodarmos. Muitas vezes estamos desanimados e corremos a tentação de cruzar os braços, e aí vem a tentação e vamos desanimando da vida. Não podemos ficar parados, quem fica parado, aceita qualquer coisa que aparece por aí. Na segunda tentação o demônio levou Jesus no templo mais alto para que ele pulasse dali de cima. Quantos de nós estamos provando a Deus e colocando Deus na parede. Não temos direito de colocar Jesus na parede. Deus não nos cura porque a gente merece, Deus nos cura porque nos ama. A terceira tentação o demônio disse para Jesus o adorar que ele daria o reino a Jesus. Não podemos nos colocar no lugar de Deus. E nem podemos adorar a não ser a Deus. Tudo que eu coloco no lugar de Deus me escraviza. As tentações que o Senhor passou e venceu, se estivermos com Ele também passaremos e venceremos.

 

I Domingo da Quaresma
Gênesis 2, 7-9; 3.1-7; Romanos 5, 12-19; Mateus 4, 1-11

O demônio, o satanismo e outros fenômenos relacionados são de grande atualidade e inquietam frequentemente a nossa sociedade. Nosso mundo tecnológico e industrializado está repletos de magos, bruxos urbanos, ocultismo, espiritismo, escrutinadores de horóscopos, vendedores de feitiços, de amuletos, assim como de autênticas seitas satânicas. Expulso pela porta, o diabo entrou pela janela. Ou seja, expulso pela fé, voltou a entrar com a superstição.
O episódio das tentações de Jesus no deserto, que se lê no primeiro domingo da Quaresma, ajuda-nos a oferecer um pouco de clareza a este tema. Antes de tudo, existe demônio? Isto é, a palavra “demônio” indica de verdade alguma realidade pessoal, dotada de inteligência e vontade, ou é simplesmente um símbolo, um modo de falar que indica a soma do mal moral do mundo, o inconsciente coletivo, a alienação coletiva e coisas pelo estilo? Muitos, entre os intelectuais, não crêem no demônio segundo o primeiro sentido. Mas se deve observar que grandes escritores e pensadores, como Goethe ou Dostoievski, levaram muito a sério a existência de satanás. Baudelaire, que não era certamente trigo limpo, disse que «a maior astúcia do demônio é fazer crer ele que não existe».
A principal prova da existência do demônio nos evangelhos não está nos numerosos episódios de libertação de possessos, porque na interpretação destes fatos pode haver influência de crenças antigas sobre a origem de certas doenças. Jesus tentado no deserto pelo demônio: esta é a prova. Provas são também os muitos santos que lutaram em vida contra o príncipe das trevas. Não são Quixotes que brigam contra moinhos de vento. Ao contrário: foram homens e mulheres concretos e de psicologia saudável.
Se muitos acham absurdo crer no demônio, é porque se baseiam em livros, passam a vida em bibliotecas ou no escritório, enquanto o demônio não se interessa por literatura, mas pelas pessoas, especialmente os santos. O que pode saber sobre satanás quem jamais teve nada a ver com sua realidade, mas só com sua idéia, isto é, com as tradições culturais, religiosas, etnológicas sobre satanás? Esses tratam habitualmente deste tema com grande segurança e superioridade, liquidando tudo como «obscurantismo medieval». Mas trata-se de uma falsa segurança. Como se alguém deixasse de temer o leão aduzindo como prova o fato de que viu muitas vezes sua imagem e jamais lhe deu medo. Por outro lado, é totalmente normal e coerente que não creia no diabo quem não crê em Deus. Seria até trágico se alguém que não crê em Deus acreditasse no diabo!
O mais importante que a fé cristã tem a dizer-nos não é, no entanto, que o demônio existe, mas que Cristo venceu o demônio. Cristo e o demônio não são para os cristãos dois princípios iguais e contrários, como em certas religiões dualistas. Jesus é o único Senhor; satanás não é senão uma criatura que «se perdeu». Se lhe concede poder sobre os homens, é para que estes tenham a possibilidade de fazer livremente uma escolha e também para que «não se ensoberbeçam» (2Cor 12, 7), crendo-se auto-suficientes e sem necessidade de redentor algum. «Que loucura a do velho satanás – diz um canto espiritual negro. Atirou para destruir minha alma, mas errou o tiro e destruiu por outro lado o meu pecado.»
Com Cristo não temos nada a temer. Nada nem ninguém pode fazer-nos dano se nós não quisermos. Satanás – dizia um antigo padre da Igreja –, após a vinda de Cristo, é como um cão atado na árvore; pode latir e balançar quanto quiser; se não nos aproximamos, não pode morder. Jesus no deserto se libertou de satanás para libertar-nos de satanás! É a gozosa notícia com a qual iniciamos nosso caminho quaresmal para a Páscoa.

 

Há realidades que devem entrar “pelos olhos adentro”, como costumamos dizer. Neste domingo, os fiéis deverão perceber-se de que a igreja se “vestiu” de Quaresma. A cor litúrgica é o roxo. No altar e no presbitério, está somente aquilo que deve estar. Nem flores. Os instrumentos musicais irão tocar, somente para acompanhar o canto da assembléia. De tal maneira, que haja o sentimento de que até ao edifício (igreja) foram impostas as cinzas.
Para muitos fiéis, somente neste domingo iniciam o seu itinerário quaresmal, porque não tiveram possibilidade de participar na celebração de quarta-feira de Cinzas. Com expressões litúrgicas, poderemos explicar, brevemente, o que é a Quaresma e como celebrá-la e vivê-la. A Quaresma é um tempo da vida cristã que supõe um certo esforço espiritual. É um caminho e um tempo de purificação que têm como finalidade à purificação dos pecados: “para que, fiéis à observância quaresmal, (os fiéis) mereçam chegar, de coração purificado, à celebração do mistério pascal do vosso Filho”; para que reconhecendo que somos pó da terra e a terra havemos de voltar, alcancemos, pelo fervor da observância quaresmal, o perdão dos pecados e uma vida nova à imagem do vosso Filho ressuscitado” (Bênção das cinzas). A observância quaresmal concretiza-se em obras de “penitência” e em “obras de caridade”; com o jejum: Jesus, “jejuando quarenta dias, santificou a observância quaresmal” (Prefácio do 1º domingo); seguindo o exemplo de Cristo e uma vida sacramental mais intensa, porque “é este o verdadeiro jejum agradável a vossos olhos” (Oração depois da Comunhão, quarta-feira de cinzas).  Resumindo, tudo aquilo que nos ajude a “alcançar maior compreensão do mistério de Cristo” (Oração Coleta do 1º domingo). Neste domingo, é importante fazer uma pequena Catequese sobre o que é a Quaresma e sobre o modo de viver a penitência (jejum), a oração (não esquecendo a leitura da Sagrada Escritura) e a prática da caridade. Seria bom fazer um programa paroquial para ajudar os fiéis a viver este tempo de graça.
“As leituras do Antigo Testamento referem-se à história da salvação, que é um tema fundamental da catequese quaresmal”. Assim, é apresentada “uma série de textos que nos fornecem os elementos principais desta história, desde o seu início até à promessa da nova aliança” (n. 97). Neste domingo, as leituras começam pelo Livro do Gênesis, que nos recorda a obra admirável da criação e também a infidelidade do homem a Deus Criador, quase desde o início. A 1ª leitura é completada pela 2ª leitura, da Carta aos Romanos, onde São Paulo faz uma catequese sobre a obra do 1º Adão e as graças de Cristo, o 2º Adão.
Jesus encontra-se no deserto, jejuando quarenta dias e quarenta noites. Pelas suas palavras e pelo seu testemunho, sentimos que, em comunhão com Ele, venceremos toda a tentação de infidelidade ao nosso Deus. Jesus vence as mesmas tentações do Povo de Israel, quando atravessou o deserto: teve fome e foi necessário recordar que nem só de pão vive o homem; adorou outros deuses e foi necessário recordar que só a Deus se deve prestar culto; por fim, pôs Deus à prova em Massa. Jesus venceu estas tentações, para que, com Ele e com a Sua Palavra, possamos “vencer as tentações do pecado” e as “insídias da antiga serpente” (Prefácio do 1º domingo). É bom não perder de vista a mensagem que nos é dada a Oração depois da Comunhão deste domingo: “Saciados com o pão do céu, que alimenta a fé, confirma a esperança e fortalece a caridade”, “ensinai-nos a ter fome de Cristo… e a alimentar-nos de toda a palavra que da vossa boca nos vem”.

Os Dez Mandamentos da Lei de Deus

“AMARÁS O SENHOR SOBRE TODAS AS COISAS”
TODO O HOMEM TEM O DIREITO E O DEVER MORAL DE PROCURAR A VERDADE
Catecismo da Igreja Católica

O Senhor revela Sua Lei a Moisés para que este a transmita a Seu povo. A vida de santidade – tanto no Antigo como no Novo Testamento – é direcionada a partir das normas contidas na Aliança de Deus com o Seu povo por intermédio dos Dez Mandamentos (cf. Ex 20, 2-17; Dt 5, 6-21). De acordo com o Catecismo da Igreja Católica, os Dez Mandamentos, ou Decálogo, significam «dez palavras» (cf. Ex 34, 28). Estas palavras se resumem na Lei, dada por Deus ao povo de Israel, no contexto da Aliança, por intermédio de Moisés. Este, ao apresentar os Mandamentos do amor a Deus (os três primeiros) e ao próximo (os outros sete), traça, para o povo eleito e, para cada um de nós em particular, o caminho duma vida liberta da escravidão do pecado. O Decálogo é compreendido à luz dessa Aliança de Deus com Seu povo, no qual o Senhor se revela e dá a conhecer a Sua vontade. Na observância dos Dez Mandamentos, o povo mostra a sua pertença ao Senhor e responde com gratidão à iniciativa de amor d’Ele. Bento XVI nos ensina que Cristo não somente é um modelo de cumprimento perfeito das Leis Divinas, como também é em si a revelação do Pai, o mandamento do Senhor, revelando o pleno significado destas e atestando a sua perenidade. Seguir Jesus implica observá-las [Leis Divinas], o homem é convidado a encontrá-las na pessoa do Divino Mestre.

O primeiro mandamento é: “Amarás o Senhor teu Deus com todo teu coração, com toda tua alma e com todas as tuas forças”. Todo o homem tem o direito e o dever moral de procurar a verdade, em especial no que se refere a Deus e à Sua Igreja, e, uma vez conhecida, abraçá-la e guardá-la fielmente, prestando ao Senhor um culto autêntico. Ao mesmo tempo, a dignidade da pessoa humana requer que, em matéria religiosa, ninguém seja forçado a agir contra a própria consciência nem seja impedido de agir em conformidade com ela, dentro dos limites da ordem pública, privada ou publicamente, de forma individual ou associada. “Os Dez Mandamentos implicam, para o fiel, guardar e praticar as três virtudes teologais e evitar os pecados que se lhes opõem. A fé crê em Deus e rejeita o que lhe é contrário, como, por exemplo, a dúvida voluntária, a incredulidade, a heresia, a apostasia e o cisma. A esperança é a expectativa confiante da visão bem-aventurada de Deus Pai e da Sua ajuda, evitando o desespero e a presunção. A caridade ama a Deus Pai sobre todas as coisas; são rejeitadas, portanto, a indiferença, a ingratidão, a tibieza, a acédia ou preguiça espiritual e o ódio ao Senhor, que nasce do orgulho” (CCIC n. 445). Implica da mesma forma, adorar a Deus como Senhor de tudo o que existe; prestar-Lhe o culto devido individual e comunitariamente, rezar-Lhe com expressões de louvor, ação de graças, intercessão e de súplica, oferecer-Lhe sacrifícios, sobretudo o sacrifício espiritual da nossa vida, em união com o sacrifício perfeito de Cristo, e manter as promessas e os votos que fizermos a Ele. O Compêndio do Catecismo da Igreja Católica (CCIC n. 445) também afirma que os Dez Mandamentos proíbem o politeísmo e a idolatria, pois estes divinizam a criatura, o poder, o dinheiro, e até mesmo o demônio. Assim como proíbem a superstição, um desvio do culto devido ao verdadeiro Deus, expressa nas várias formas de adivinhação, magia, feitiçaria e espiritismo; bem como a irreligião, expressa no tentar a Deus com palavras ou atos, no sacrilégio, que profana pessoas ou coisas sagradas, sobretudo a Eucaristia, e na simonia, que pretende comprar ou vender realidades espirituais. Proíbem também o ateísmo, que nega a existência de Deus, fundando-se muitas vezes numa falsa concepção de autonomia humana; e o agnosticismo, segundo o qual nada se poder saber de Deus, que inclui o indiferentismo e o ateísmo prático. Outro ponto interessante a ser abordado está na afirmação contida em Êxodos 20, 3: “não farás para ti qualquer imagem esculpida”. Isso significa que, no Antigo Testamento, este mandamento proibia representar o Deus absolutamente transcendente. Porém, a partir da Encarnação do Filho de Deus, o culto cristão das imagens sagradas é justificado (como afirma o segundo Concílio de Niceia, de 787), porque se funda no Mistério do Filho de Deus feito homem, no qual Deus transcendente se torna visível. Não se trata de uma adoração da imagem, mas de uma veneração de quem nela é representado: Cristo, a Virgem Santíssima, os anjos e os santos (CCIC, n. 446). Enfim, na certeza de que esses mandamentos são semelhantes aos sinais de trânsito, que se não observados causam um caos social, devemos respeitar e viver bem os preceitos do Senhor para não causarmos em nós mesmos o caos do pecado, e assim nos afastarmos da nossa meta de santidade. Somos chamados a voltar para o Senhor e amá-Lo sobre todas as coisas, renunciando ao politeísmo, à idolatria, à superstição, à irreligião, ao ateísmo, ao agnosticismo e a tudo o que nos afasta d’Ele, para desta forma restabelecer em nossa vida a aliança com o Senhor.

O SEGUNDO MANDAMENTO DO DECÁLOGO
NÃO TOMARÁS O NOME DE DEUS EM VÃO
Javier López
http://www.opusdei.org.br

O segundo mandamento da Lei de Deus é: “Não tomarás o nome de Deus em vão”. Esse mandamento «manda respeitar o nome do Senhor» (Catecismo da Igreja Católica (CIC), n. 2142) e honrar o nome de Deus. Não se deve pronunciar «senão para bendizê-lo, louvá-lo e glorificá-lo» (CIC  n. 2143).   O nome de Deus «O nome de uma pessoa expressa a essência, sua identidade e o sentido de sua vida. Deus tem um nome. Não é uma força anônima» (CIC n. 203). No entanto, O Todo-Poderoso não pode ser abarcado pelos conceitos humanos, nem há ideia alguma capaz de representá-Lo, nem nome que possa expressar exaustivamente a essência divina. Deus é “Santo”, o que significa que é absolutamente superior, que está acima de toda criatura, que é transcendente. Apesar de tudo, para que O possamos invocar e nos dirigir pessoalmente a Ele, no Antigo Testamento «se revelou progressivamente e sob diversos nomes a seu povo» (CIC n. 204). O nome que manifestou a Moisés indica que Deus é o Ser por essência. «Disse Deus a Moisés: “Eu sou o que sou”. E acrescentou: “Assim dirás aos filhos de Israel: ‘Eu sou’ [Yahvé: ‘Ele é’] me enviou a vocês”… Este é meu nome para sempre» (Ex 3, 13-15; cf. CIC n. 213). Por respeito à santidade de Deus, o povo de Israel não pronunciava este nome, mas o substituía pelo título “Senhor” (“Adonai”, em hebreu; “Kyrios”, em grego) (cf. CIC n. 209). Outros nomes de Deus no Antigo Testamento são: “Élohim”, termo que é o plural majestático de plenitude ou de grandeza; “O-Saddai”, que significa poderoso, onipotente. No Novo Testamento, Deus dá a conhecer o mistério de Sua vida íntima trinitária: um único Deus em Três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Jesus Cristo ensina-nos a chamar a Deus “Pai” (cf. Mt 6, 9): “Abbá”, que é o modo familiar de dizer “Pai” em hebreu (cf. Rm 8, 15). Deus é Pai de Jesus Cristo e Pai nosso, ainda que não do mesmo modo, porque Ele é o Filho Unigênito e nós filhos adotivos. No entanto, somos verdadeiramente filhos (cf. 1Jo 3, 1), irmãos de Jesus Cristo (cf. Rm 8, 29), porque o Espírito Santo foi enviado a nossos corações e participamos da natureza divina (cf. Gl 4, 6; 2Pd 1, 4). Somos filhos de Deus em Cristo. Em consequência podemos dirigir-nos a Deus chamando-O com verdade: “Pai”, como aconselha São Josemaria: «Deus é um Pai cheio de ternura, de infinito amor. Chama-O ‘Pai’ muitas vezes ao dia, e diz-Lhe – a sós, em teu coração – que O amas, que O adoras; que sentes o orgulho e a força de ser Seu filho».

Honrar o nome de Deus No Pai-nosso rezamos: “Santificado seja o vosso nome”. O termo “santificar” deve entender-se aqui no sentido de «reconhecer o nome de Deus como santo, tratar seu nome de uma maneira santa» (CIC n. 2807). É o que fazemos quando adoramos, louvamos ou damos graças a Deus. Mas as palavras “santificado seja o vosso nome” são também uma das petições do Pai-nosso: ao pronunciá-las pedimos que o nome do Senhor seja santificado por nosso intermédio, isto é, que demos glória a Ele com nossa vida e que os demais O glorifiquem (cf. Mt 5, 16). «Depende de nossa vida e de nossa oração que seu Nome seja santificado entre as nações» (CIC n. 2814). O respeito ao nome de Deus reclama também respeito ao nome da Santíssima Virgem Maria, dos santos e das realidades santas nas quais Deus está presente de um modo ou outro, antes de mais nada, na Santíssima Eucaristia, verdadeira Presença de Jesus Cristo, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, entre os homens. O segundo mandamento proíbe todo uso inconveniente do nome de Deus (cf. CIC n. 2146) e, em particular, a blasfêmia que «consiste em proferir contra Deus – interior ou exteriormente – palavras de ódio, de repreensão, de desafio (…). É também blasfemo recorrer ao nome de Deus para justificar práticas criminosas, reduzir povos à servidão, torturar ou gerar morte. (…) A blasfêmia é em si um pecado grave» (CIC n. 2148). Também proíbe o juramento em falso (cf. CIC n. 2150). Jurar é tomar a Deus por testemunha do que se afirma (por exemplo, para dar garantia de uma promessa ou de um depoimento, para provar a inocência de uma pessoa injustamente acusada ou exposta a suspeita, ou para pôr fim a pleitos e controvérsias, etc.). Há circunstâncias nas quais é lícito o juramento, se for feito com verdade e com justiça, e se for necessário, como pode suceder em um julgamento ou ao assumir um cargo (cf. CIC n. 2154). Nos demais casos, o Senhor ensina a não jurar: «seja vossa linguagem: sim, sim; não, não» (cf. Mt 5, 37; cf. Tg 5, 12; CIC n. 2153).

O nome do cristão O homem é a única criatura na Terra a qual Deus amou por si mesma. Não é “algo” mas “alguém”, uma pessoa. «Só ele está chamado a participar, pelo conhecimento e pelo amor, da vida de Deus. Para este fim foi criado e esta é a razão fundamental de sua dignidade» (CIC n. 356). No batismo, ao ser feito filho de Deus, recebe um nome que representa sua singularidade irrepetível diante de Deus e diante dos demais (cf. CIC n. 2156 e 2158). Batizar também se diz “cristianizar”: cristão, seguidor de Jesus Cristo, é nome próprio de todo batizado, que recebeu o chamado a se identificar com o Senhor: «foi em Antioquia onde os discípulos [os que se convertiam no nome de Jesus Cristo, pela ação do Espírito Santo] receberam pela  primeira vez o nome de cristãos» (At 11, 26). Deus chama a cada um por seu nome (cf. 1Sm 3, 4-10; Is 43, 1; Jo 10, 3; At 9, 4 ). Ama a cada um pessoalmente. Jesus Cristo, diz São Paulo, «amou-me e entregou-se a si mesmo por mim» (Gl 2, 20). Da cada um espera uma resposta de amor: «amarás ao Senhor teu Deus com todo teu coração e com toda tua alma e com toda tua mente e com todas tuas forças» (Mc 12, 30). Ninguém pode substituir nessa resposta de amor a Deus. São Josemaria nos anima a meditar «com calma aquela divina advertência que enche a alma de inquietação e, ao mesmo tempo, lhe traz sabores de mel: redemi te, et vocavi te nomine tuo: meus é tu (cf. Is 43,1); Eu te redimi e te chamei pelo teu nome: tu és meu! Não roubemos de Deus o que é d’Ele. Um Deus que nos amou a ponto de morrer por nós, que nos escolheu desde toda a eternidade, antes da criação do mundo, para que sejamos santos em Sua presença (cf. Ef 1, 4)».

O TERCEIRO MANDAMENTO DO DECÁLOGO
DOMINGO É DIA DE SANTA MISSA
Catecismo da Igreja Católica, 2168 a 2195

O terceiro mandamento do decálogo ressalta a santidade do sábado: “O sétimo dia é sábado, repouso absoluto em honra do Senhor” (Ex 31, 15). Este dia marca também a libertação de Israel da escravidão do Egito e a Aliança que Deus estabeleceu com o povo. As pessoas devem interromper o trabalho e tomarem novo fôlego. Neste dia, portanto, se recorda a festa da liberdade humana. Jesus reconheceu a santidade do sábado e, com a Sua autoridade divina, deu-lhe a Sua interpretação autêntica: «O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado» (cf. Mc 2, 27). Os cristãos trocaram a celebração deste dia pelo domingo, em virtude da Ressurreição de Cristo, que se torna o Dia do Senhor. O domingo é o dia da Ressurreição de Jesus Cristo. Como «primeiro dia da semana» (cf. Mc 16, 2) ele evoca a primeira criação. E como «oitavo dia», que segue o sábado, significa a nova criação, inaugurada com a Ressurreição de Cristo. Tornou-se assim para os cristãos o primeiro de todos os dias e de todas as festas: o dia do Senhor, no qual Ele, com a Sua Páscoa, leva à realização a verdade espiritual do sábado judaico e anuncia o repouso eterno do homem em Deus. Os cristãos devem santificar o domingo e as festas de preceito participando na Eucaristia do Senhor e abstendo-se também das atividades que o impedem de prestar culto a Deus e perturbam a alegria própria do dia do Senhor ou o devido descanso da mente e do corpo. São permitidas as atividades ligadas a necessidades familiares ou a serviços de grande utilidade social, desde que não criem hábitos prejudiciais à santificação do domingo, à vida de família e à saúde. O beato João Paulo II, na Carta Apostólica Dies Domini, afirma que o domingo, dia do Senhor — como foi definido, desde os tempos apostólicos, mereceu sempre, na história da Igreja, uma consideração privilegiada devido à sua estreita conexão com o próprio núcleo do mistério cristão. O domingo, de fato, recorda, no ritmo semanal do tempo, o dia da Ressurreição de Cristo. É a Páscoa da semana, na qual se celebra a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, o cumprimento n’Ele da primeira criação e o início da «nova criação» (cf. 2Cor 5, 17; DD 1). Desta forma, o domingo é um verdadeiro serviço ao bem da sociedade, porque é um sinal de resistência contra a liquidação do ser humano pelo mundo do trabalho, por isso, os cristãos dos países marcados pelo Cristianismo devem não somente solicitar a proteção estatal para este dia, como também não exigir aos outros o trabalho que eles não querem fazer nesse dia [domingo]. Portanto, deve-se reconhecer civilmente o domingo como dia festivo, para que todos possam gozar de repouso suficiente e de tempo livre para cuidar da vida religiosa, familiar, cultural e social e dispor de tempo propício para a meditação, reflexão, silêncio e estudo; assim como para praticar boas obras, servir os doentes e os anciãos. Enfim, o cristão católico é chamado a participar da Santa Missa aos domingos, deixando de lado todos os trabalhadores que o impedem de adorar a Deus e de viver este dia nas suas dimensões de festa, alegria, descanso e restabelecimento. Razão pela qual é de interesse central para cada cristão católico “santificar” o domingo e outras festas de guarda.

O QUARTO MANDAMENTO DO DECÁLOGO: HONRAR PAI E MÃE
DEVEMOS AMAR E RESPEITAR A TODOS
Catecismo da Igreja Católica, 2197 a 2257

O Quarto Mandamento do Decálogo: Honrar pai e mãe. Refere-se, em primeiro lugar, aos pais biológicos, mas também às pessoas a quem devemos a nossa vida, a nossa prosperidade, a nossa segurança e a nossa fé. Aquilo que devemos aos nossos pais: amor, gratidão e atenção, também deve reger o nosso relacionamento com as pessoas e com nossos deveres de cidadãos diante do Estado. Ele nos manda honrar e respeitar os nossos pais e aqueles que Deus, para o nosso bem, revestiu com a Sua autoridade. O Quarto Mandamento refere-se, em primeiro lugar, às relações entre pais e filhos no seio da família. «Ao criar ao homem e à mulher, Deus instituiu a família humana e dotou-a de sua constituição fundamental» (CIC 2203). «Um homem e uma mulher unidos em casamento formam com seus filhos uma família» (CIC 2202). «A família cristã é uma comunhão de pessoas, reflexo e imagem da comunhão do Pai e do Filho no Espírito Santo» (CIC 2205). Um homem e uma mulher, unidos em matrimônio, formam com os filhos uma família. Deus instituiu a família e dotou-a de sua constituição fundamental. O matrimônio e a família são ordenados ao bem dos esposos e à procriação e educação dos filhos. Entre os membros da família estabelecem-se relações pessoais e responsabilidades primárias. Em Cristo, a família torna-se Igreja doméstica, porque ela é comunidade de fé, de esperança e de amor. Sendo assim, a família é a célula originária da sociedade humana e precede qualquer reconhecimento da autoridade pública. Os princípios e os valores familiares constituem o fundamento da vida social. A vida de família é uma iniciação à vida da sociedade. A sociedade tem o dever de sustentar e consolidar o matrimônio e a família, no respeito também do princípio de subsidiariedade. Os poderes públicos devem respeitar, proteger e favorecer a verdadeira natureza do matrimônio e da família, a moral pública, os direitos dos pais e a prosperidade doméstica. Os filhos devem aos pais respeito (piedade filial), reconhecimento, docilidade e obediência, contribuindo, assim, também com as boas relações entre irmãos e irmãs, para o crescimento da harmonia e da santidade de toda a vida familiar. Se os pais se encontrarem em situação de indigência, de doença, de solidão ou de velhice, os filhos adultos devem-lhes ajuda moral e material. Os pais são os primeiros responsáveis pela educação dos filhos e os primeiros anunciadores da fé. Têm o dever de amar e respeitá-los [filhos] como pessoas e filhos de Deus e, dentro do possível, de prover  suas necessidades materiais e espirituais, escolhendo-lhes uma escola adequada e ajudando-os com prudentes conselhos na escolha da profissão e do estado de vida. Em particular, têm a missão de educá-los na fé cristã. Desta forma, os laços familiares são importantes, mas não absolutos, porque a primeira vocação do cristão é seguir Jesus e amá-Lo: «Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; quem ama a filha ou o filho mais do que a Mim não é digno de Mim» (Mt 10, 37). Os pais devem, com alegria, ajudar os filhos no seguimento de Jesus, em todos os estados de vida, mesmo na vida consagrada ou no ministério sacerdotal. No âmbito civil a autoridade deve ser exercida, como um serviço, respeitando os direitos fundamentais da pessoa humana, uma justa hierarquia de valores, as leis, a justiça distributiva, e o princípio de subsidiariedade. No exercício da autoridade, cada um deve procurar o interesse da comunidade em vez do próprio e deve inspirar as suas decisões na verdade acerca de Deus, do homem e do mundo. Portanto, os que estão submetidos à autoridade devem ver os superiores como representantes de Deus e colaborarem lealmente no bom funcionamento da vida pública e social. Isso comporta o amor e o serviço da Pátria, o direito e o dever de votar, o pagamento dos impostos, a defesa do país e o direito a uma crítica construtiva. Porém, a estes, em consciência, não devem obedecer quando os mandamentos das autoridades civis se opõem às exigências da ordem moral: «É necessário obedecer mais a Deus do que aos homens» (At 5, 29).

QUINTO MANDAMENTO: NÃO MATARÁS
UM ACORDO PARA A PAZ!
Catecismo da Igreja Católica, 2258 a 2330

“Não matarás” (Ex 20, 13). Este mandamento atesta que a vida humana é sagrada e desde seu início ela supõe a ação criadora de Deus e mantém-se para sempre numa relação especial com o Criador, seu único fim. A ninguém é lícito destruir diretamente um ser humano inocente, pois é um ato gravemente contrário à dignidade da pessoa e à santidade do Criador. O direito inalienável à vida de cada ser humano, desde a sua concepção, é um elemento constitutivo da sociedade civil e da sua legislação. Quando o Estado não coloca a sua força ao serviço dos direitos de todos, e em particular dos mais fracos, e entre eles dos concebidos ainda não nascidos, passam a ser minados os próprios fundamentos do Estado de direito. Assim, o Quinto Mandamento proíbe e os considera como gravemente contrários à lei moral: O homicídio direto e voluntário e a cooperação nele. O aborto direto, querido como fim ou como meio, e também a cooperação nele, crime que leva consigo a pena de excomunhão, porque o ser humano, desde a sua concepção, deve ser, em modo absoluto, respeitado e protegido totalmente. A eutanásia direta, que consiste em pôr fim à vida de pessoas com deficiências, doentes ou moribundas, mediante um ato ou omissão duma ação devida. O suicídio e a cooperação voluntária nele, enquanto ofensa grave ao justo amor de Deus, de si e do próximo: a responsabilidade pode ser ainda agravada por causa do escândalo ou atenuada por especiais perturbações psíquicas ou temores graves. São consideradas práticas contra o respeito à integridade corpórea da pessoa humana os raptos e sequestros de pessoas, o terrorismo, a tortura, as violências, a esterilização direta. As amputações e as mutilações duma pessoa só são moralmente consentidas para indispensáveis fins terapêuticos. Proteger a vida humana requer também do homem um devido cuidado com a saúde física, da nossa e da dos outros, evitando todavia o culto do corpo e toda a espécie de excessos. Por isso deve ser  evitado o uso de substâncias que colocam em risco a saúde e também o abuso dos alimentos, do álcool, do tabaco e dos remédios. Esse mandamento é um clamor pela paz, o Senhor, que proclama «bem-aventurados os obreiros da paz» (Mt 5, 9), pede a paz do coração e denuncia a imoralidade da ira, que é desejo de vingança pelo mal recebido, e do ódio, que leva a desejar o mal ao próximo. Essas atitudes, se voluntárias e consentidas em matéria de grande importância, são pecados graves contra a caridade. A paz no mundo, a qual é exigida para o respeito e desenvolvimento da vida humana, não é a simples ausência de guerra ou equilíbrio entre as forças em contraste, mas é «a tranquilidade da ordem» (Santo Agostinho), «fruto da justiça» (Is 32, 17) e efeito da caridade. A paz terrena é imagem e fruto da paz de Cristo. Para isso se exige a distribuição equitativa e a tutela dos bens das pessoas, a livre comunicação entre os seres humanos, o respeito da dignidade das pessoas e dos povos, a assídua prática da justiça e da fraternidade. Por outro lado, o Catecismo da Igreja Católica ensina que o uso da força militar é moralmente consentido quando há a certeza de um dano permanente e grave; a ineficácia de outras alternativas pacíficas. Essa alternativa é fundamentada na possibilidade concreta de êxito; quando há ausência de males piores, considerado o poder atual dos meios de destruição. Porém, devemos fazer tudo o que é razoavelmente possível para evitar, de qualquer modo, a guerra, devido aos males e injustiças provocados por ela. É necessário, em especial, evitar a acumulação e o comércio de armas não devidamente regulamentadas pelos poderes legítimos; assim como as injustiças, sobretudo, econômicas e sociais; as discriminações étnicas e religiosas; a inveja, a desconfiança, o orgulho e o espírito de vingança. Tudo quanto se fizer para eliminar estas e outras desordens ajudará a construir a paz e a evitar a guerra. Portanto, a ordem do Senhor para não matar é acima de tudo um mandamento que respeita a dignidade da pessoa humana como um direito inalienável, condenando todas as formas de violação ao homem desde o momento da concepção até a morte natural, evitando assim, toda violência física, psíquica e social. Desta forma, para vivermos a santidade proposta neste mandamento, devemos, acima de tudo, respeitar o ser humano, afastando toda atividade nociva a ele, procurando sempre a paz.

SEXTO MANDAMENTO: NÃO COMETER O ADULTÉRIO
O DOM DA SEXUALIDADE HUMANA
Catecismo da Igreja Católica, 2331 a 2400

O Sexto Mandamento apresenta as ordens do Senhor para a vivência de um dos mais belos dons que Ele concedeu aos homens: a sexualidade humana. Esta afeta todos os aspectos da pessoa humana, em unidade de corpo e alma, diz respeito à afetividade, à capacidade de amar e de procriar e, de maneira mais geral, à aptidão para criar vínculos de comunhão com os outros. Embora no texto bíblico se leia «não cometerás adultério» (cf. Ex 20, 14), a Tradição da Igreja segue complexivamente todos os ensinamentos morais do Antigo e Novo Testamento, e considera o Sexto Mandamento como englobando todos os pecados contra a castidade.  Afirma o Catecismo da Igreja Católica que Deus criou o ser humano como homem e mulher, com igual dignidade pessoal, e inscreveu neles a vocação ao amor e à comunhão. Compete a cada um aceitar a sua identidade sexual, reconhecendo a sua importância para a pessoa toda, bem como o valor da especificidade e da complementaridade. O beato João Paulo II, na Exortação Apostólica Familiaris Consortio (FC), afirmou que: “Deus criou o homem à sua imagem e semelhança: chamando-o à existência por amor, chamou-o ao mesmo tempo ao amor. Deus é amor e vive em si mesmo um mistério de comunhão pessoal de amor. Criando-a à sua imagem e conservando-a continuamente no ser, Deus inscreve na humanidade do homem e da mulher a vocação, e, assim, a capacidade e a responsabilidade do amor e da comunhão. O amor é, portanto, a fundamental e originária vocação do ser humano” (FC 11). Desta maneira, a sexualidade torna-se verdadeiramente humana quando é bem integrada na relação pessoa a pessoa, tendo como via a castidade, que é a integração positiva da sexualidade na pessoa. Esta supõe a aprendizagem do domínio de si, para tal fim, é necessária uma educação integral e permanente em etapas graduais de crescimento. Os meios para se viver a castidade propostos pela Igreja são numerosos, dentre eles estão à disposição: a graça de Deus, a ajuda dos sacramentos, a oração, o conhecimento de si, a prática de uma ascese adaptada às situações, o exercício das virtudes morais, em particular da virtude da temperança, que procura fazer com que as paixões sejam guiadas pela razão. Portanto, todos, seguindo Cristo, nosso modelo de castidade, são chamados a levar uma vida casta, segundo o próprio estado de vida: alguns na virgindade ou no celibato consagrado; os outros, se casados, vivendo a castidade conjugal; os solteiros, namorados, ou seja, todos os não casados devem viver a castidade na continência. O ato conjugal possuiu um duplo significado: unitivo (a mútua doação dos esposos) e procriador (a abertura à transmissão da vida). Ninguém deve quebrar a conexão inquebrável que Deus quis entre os dois significados do ato conjugal, excluindo um deles. Por isso, a relação sexual, quando não contém estes elementos, é considerada um pecado contra a castidade. São consideradas ofensas à dignidade do matrimônio: o adultério, o divórcio, a poligamia, o incesto, a união de fato (convivência, concubinato) e o ato sexual antes ou fora do matrimônio. O Catecismo da Igreja Católica afirma que os filhos são um dom de Deus, o maior dom do matrimônio. Não existe um direito a ter filhos («o filho exigido, a todo o custo»). Existe, ao contrário, o direito do filho a ser o fruto do ato conjugal dos seus progenitores e o direito a ser respeitado como pessoa desde o momento da sua concepção. Aqueles casais que não possuem filhos, esgotados os recursos médicos legítimos, podem mostrar a sua generosidade, mediante o cuidado ou a adoção, ou então realizando serviços significativos em favor do próximo. Deste modo, realizarão uma preciosa fecundidade espiritual. Enfim, o Sexto Mandamento é uma ordem de Deus aos homens para conservarem, em sua vocação original e fundamental, o amor. Desta forma, ele nos ensina a viver a castidade, a paternidade e a maternidade responsáveis dos cônjuges, e a evitarmos os danos morais da fertilização e inseminação artificial, por fim, apresenta diretrizes para a vivência do ato conjugal. Este mandamento é, sobretudo, uma ordem de Deus aos homens, para que estes vivam a santidade por meio da sexualidade ordenada. Portanto, a vivência deste sacramento se torna um instrumento eficaz de testemunho a Deus, por intermédio de uma vida casta e santa, em meio à sociedade cada vez mais distante imoral.

O SÉTIMO MANDAMENTO: NÃO ROUBAR
ELE DIRECIONA O HOMEM AO VERDADEIRO DESENVOLVIMENTO
Catecismo da Igreja Católica, 2401 a 2463

O Sétimo Mandamento não nos proíbe apenas de retirar algo de outra pessoa; ele exige também uma justa administração e divisão dos bens da terra, isto é, a regulação da propriedade privada e da distribuição dos rendimentos do trabalho humano. Também é denunciada, nesse mandamento, a injusta repartição das matérias-primas. A Igreja encontra fundamentada neste mandamento também a sua doutrina social, que compreende o reto agir na atividade econômica e na vida social e política, o direito e o dever do trabalho humano, a justiça e a solidariedade entre as nações, o amor aos pobres. Desta forma, o Catecismo da Igreja Católica afirma que esse mandamento prescreve o respeito aos bens alheios com a prática da justiça e da caridade, da temperança e da solidariedade. Em particular, exige o respeito das promessas e dos contratos estipulados; a reparação da injustiça cometida e a restituição do mal feito; bem como o respeito pela integridade da criação com o uso prudente e moderado dos recursos minerais, vegetais e animais existentes no universo, com especial atenção para com as espécies ameaçadas de extinção. O Sétimo Mandamento, antes de mais, proíbe o furto, que é a usurpação do bem alheio contra a razoável vontade do seu proprietário. É o que também sucede no pagamento de salários injustos; na especulação sobre o valor dos bens para obter vantagens com prejuízo para os outros; na falsificação de cheques ou faturas. Proíbe, além disso, cometer fraudes fiscais ou comerciais, causar um dano às propriedades privadas ou públicas. Proíbe também a usura, a corrupção, o abuso privado dos bens sociais, os trabalhos culpavelmente mal feitos e o esbanjamento.  O furto também diz respeito aos bens imateriais. Esse tipo de pecado começa, por exemplo, quando copiamos alguém na escola, baixamos ilegalmente conteúdos da internet, fazemos fotocópias ilegais ou cópias piratas dos mais diversos tipos. O vandalismo e a danificação intencional do equipamento ou patrimônio público são formas de roubo e também devem ser reparados, afirma o Youcat – Catecismo Jovem (429). A Igreja afirma que, tendo em vista que as pessoas são filhas de Deus, detentoras de uma dignidade única, é dever da doutrina social da Igreja interferir-se nas relações humanas, dando diretrizes a respeito da política, economia, ciências, entre outros, quando a dignidade delas é ameaçada. Assim, a Igreja emite um juízo moral em matéria econômica e social quando isso é exigido pelos direitos fundamentais da pessoa, do bem comum ou da salvação das almas. Pois todas estas relações sociais devem ter o homem como seu autor, centro e fim. Portanto, todo homem tem o dever e o direito a um trabalho, por meio do qual ele colabora com Deus criador, pois, ao trabalhar com empenho e competência, a pessoa põe em ação capacidades inscritas na sua natureza, exalta os dons do Criador e os talentos recebidos, sustenta-se a si e aos seus familiares, serve a comunidade humana. Além disso, com a graça de Deus, o trabalho pode ser meio de santificação e de colaboração com Cristo para a salvação dos outros. Os trabalhadores devem realizar o seu trabalho, com consciência, competência e dedicação, procurando resolver, com o diálogo, eventuais controvérsias. O recurso à greve, quando esta não é violenta, é moralmente legítimo ao se apresentar como instrumento necessário em vista dum benefício proporcionado e tendo em conta o bem comum. Compete ao Estado fornecer a segurança das garantias das liberdades individuais e da propriedade, para além duma moeda estável e de serviços públicos eficientes; compete-lhe ainda zelar e orientar o exercício dos direitos humanos no setor econômico. A sociedade deve ajudar os cidadãos a encontrar trabalho, conforme as circunstâncias. No plano internacional, todas as nações e instituições devem atuar na solidariedade e na subsidiariedade, com vista a eliminar, ou pelo menos reduzir, a miséria, a desigualdade dos recursos e dos meios econômicos, as injustiças econômicas e sociais, a exploração das pessoas, a acumulação da dívida dos países pobres, os mecanismos perversos que criam obstáculos ao progresso dos países menos desenvolvidos. O homem é autor, centro e fim de toda a vida econômica e social, sendo assim, o ponto central das questões sociais, tratadas no Sétimo Mandamento, para que os bens criados por Deus para todos, de fato, cheguem a todos, conforme a justiça e com a ajuda da caridade.

O OITAVO MANDAMENTO – NÃO LEVANTAR FALSO TESTEMUNHO
APRENDA A VIVER NA VERDADE
Catecismo da Igreja Católica, 2464 a 2513

O Oitavo Mandamento prescreve o seguinte: Não levantar falso testemunho (cf. Ex 20, 16), ou seja, proíbe-nos falsear a verdade nas relações com os outros. Essa prescrição moral decorre da vocação do povo santo a ser testemunho de seu Deus, que é e quer a verdade. As ofensas à verdade exprimem, por palavras ou atos, uma recusa de abraçar a retidão moral: são infidelidades fundamentais a Deus, e neste sentido, minam as bases da Aliança com Ele. Ele exige de nós a verdade. Mentir significa falar ou agir consciente e voluntariamente contra a verdade. Quem mente se engana a si mesmo e ilude os outros, os quais têm o direito a conhecer a verdade integral de um fato. Desta forma, toda a pessoa é chamada à sinceridade e à veracidade no agir e no falar. Cada um tem o dever de procurar a verdade e de aderir a ela, organizando toda a sua vida segundo as exigências dessa virtude. Viver no respeito pela verdade não significa apenas ser fiel a si mesmo. Ser verdadeiro significa ser fiel a Deus, pois, em Jesus Cristo, a verdade de Deus manifestou-se na sua totalidade: Ele é a Verdade. Seguir Jesus é viver do «Espírito de verdade» (cf. Jo 14, 17) e evitar a duplicidade, a simulação e a hipocrisia. O cristão deve testemunhar a verdade evangélica em todos os campos da atividade pública e privada, mesmo com o sacrifício da própria vida, se necessário. O martírio é o supremo testemunho dado em favor da verdade da fé. O Oitavo Mandamento proíbe: O falso testemunho, o perjúrio e a mentira, cuja gravidade se mede pela natureza da verdade que estes deformam, das circunstâncias, das intenções do mentiroso e dos danos causados às vítimas. Proíbe também: O juízo temerário, a maledicência, a difamação, a calúnia, que lesam ou destroem a boa reputação e a honra a que a pessoa tem direito. Ele condena também: a lisonja, a adulação ou complacência, sobretudo se finalizadas à realização de pecados graves ou à obtenção de vantagens ilícitas. Uma culpa contra a verdade exige a reparação, quando se ocasionou dano a outrem. Este mandamento requer o respeito da verdade, acompanhado pela discrição da caridade: na comunicação e na informação, que devem assegurar o bem pessoal e comum, a defesa da vida particular e o perigo de escândalo; na reserva dos segredos profissionais, que se devem sempre manter, salvo em casos excepcionais, por motivos graves e proporcionados. Exige-se também o respeito pelas confidências feitas sob o sigilo do segredo. Dessa forma, ser verdadeiro significa agir seriamente e falar honestamente. Quem é a favor da verdade se protege da ambiguidade, do fingimento, da ilusão e da dissimulação. A pior forma de mentira é o juramento falso. Quando se fala em não levantar falso testemunho, a Doutrina da Igreja chama a atenção para os meios de comunicação em massa, hoje com o advento destes meios, este pecado é cada vez mais comum, por isso, a informação mediática deve estar a serviço do bem comum, ser sempre verdadeira no conteúdo e, salva a justiça e a caridade, deve ser também íntegra. Além disso deve expressar-se de modo honesto e conveniente, respeitando escrupulosamente as leis morais, os direitos legítimos e a dignidade da pessoa. O Magistério da Igreja aponta alguns perigos existentes nos meios de comunicação, uma vez que, muitas pessoas, especialmente as crianças, consideram real o que veem na mídia. Quando no contexto da diversão, a violência é glorificada, o comportamento antissocial e a sexualidade humana são banalizadas, pecam tanto os responsáveis pela mídia, como as instâncias de controle, que deveriam rejeitar os produtores sem qualidade ética. Por fim, o Catecismo da Igreja Católica nos ensina que a verdade é bela por si mesma. Ela comporta o esplendor da beleza espiritual. E existem numerosas formas de expressão da verdade, em especial as obras artísticas. São o fruto do talento dado por Deus e do esforço do homem, destacando a arte sacra, que, para ser verdadeira e bela, deve evocar e glorificar o Mistério de Deus, revelado em Cristo e conduzir à adoração e ao amor de Deus Criador e Salvador, Beleza excelsa de Verdade e de Amor. Portanto, o homem é chamado a buscar e viver a verdade no agir e no falar, fugindo da duplicidade, da simulação e da hipocrisia, não se envergonhando de dar testemunho de Nosso Senhor, que é a Verdade plena, mesmo que, por amor à verdade, este alcance o martírio.

NONO MANDAMENTO
GUARDAR A CASTIDADE NOS PENSAMENTOS E NOS DESEJOS

Não cobiçaras a casa de teu próximo, não desejarás sua mulher, nem seu servo, nem sua serva, nem seu boi, nem seu jumento, nem coisa alguma que pertença a teu próximo (Ex 20, 17). Todo aquele que olha para uma mulher com o desejo libidinoso à cometeu adultério com ela em seu coração (Mt 5, 28). O Nono Mandamento exige vencer a concupiscência carnal nos pensamentos e nos desejos. A luta contra a concupiscência passa pela purificação do coração e pela prática da virtude da temperança. São João distingue três espécies de cobiça ou concupiscência: a da carne, a dos olhos e a soberba da vida. O Catecismo da Igreja Católica nos ensina, no número 2514, que concupiscência significa qualquer forma veemente de desejo humano. São Paulo a identifica com a revolta que a “carne” provoca contra o “espírito” (cf. Gl 5, 16.17.24). O Nono Mandamento não se dirige contra o desejo em si, mas contra os desejos desordenados. Portanto, este proíbe cultivar pensamentos e desejos relativos às ações proibidas pelo Sexto Mandamento – Não cometer o adultério. A atração erótica entre um homem e uma mulher foi criada por Deus e é, consequentemente, boa, pertence ao ser humano. Ela procura unir o homem e a mulher, fazendo nascer deles a descendência do seu amor. Esta união deve ser protegida pelo Nono Mandamento. Jogando com o fogo, isto é, lidando negligentemente com a crepitação erótica entre o homem e a mulher, podem ser colocados em risco o casamento e a família, afirma o Catecismo Jovem – Youcat (462). A pureza de coração é o objetivo deste mandamento; para conquistá-la é necessário que o batizado conte com a graça de Deus e lute contra os desejos desordenados, chegando à pureza do coração mediante a virtude e o dom da castidade, tendo a pureza de intenção e do olhar exterior e interior, procurando tudo isso por intermédio da disciplina dos sentidos e da imaginação e pela oração. A pureza exige o pudor, que, ao preservar a intimidade da pessoa, exprime a delicadeza da castidade e orienta os olhares e os gestos em conformidade com a dignidade das pessoas e da sua comunhão. Ela liberta do erotismo difuso e afasta de tudo aquilo que favorece a curiosidade mórbida. Requer uma purificação do ambiente social, mediante uma luta constante contra a permissividade dos costumes, que assenta numa concepção errônea da liberdade humana. O pudor protege o espaço íntimo da pessoa, isto é, o seu mistério, o que tem de mais próprio e interior: a sua dignidade. Acima de tudo, defende a sua capacidade para o amor e a entrega erótica. Ele remete ao que deve ser amor. Muitos cristãos vivem num ambiente em que o sentimento do pudor é desaprendido. Mas a impudência não é humana. Os animais não conhecem sentimentos de pudor, pelo contrário, no ser humano, é um distintivo essencial. O pudor não esconde uma coisa sem valor, mas protege algo valioso, isto é, a dignidade da pessoa na sua capacidade para amar. O sentimento de pudor encontra-se em todas as culturas, ainda que sob diferentes formas. Não tem nada a ver com beatice ou educação frustrada. O ser humano também tem vergonha dos seus pecados e de outras coisas cuja divulgação o rebaixariam. Quem, mediante palavras, olhar, gestos e atos, fere o sentimento de pudor natural de outra pessoa rouba-lhe a dignidade, segundo o Catecismo Jovem – Youcat (464).   Portanto, fazei morrer o que em vós é terreno: imoralidade, impureza, paixões, maus desejos e avareza, que é uma idolatria (Cl 3, 5). Esta é a ordem de Deus expressa nesse mandamento, o Senhor deseja que o homem viva uma vida casta e pura, valorizando-se e respeitando o outro, por meio da castidade em atos, pensamentos e palavras, pois, quando nos dedicamos ao Altíssimo com o intuito puro, Ele transforma o nosso coração, dá-nos a força necessária para correspondermos à Sua vontade e para nos afastarmos de pensamentos e desejos impuros.

DÉCIMO MANDAMENTO
NÃO COBIÇARÁS OS BENS DO TEU PRÓXIMO!
Catecismo da Igreja Católica, 2534 a 2557

Encerrando a série sobre o Decálogo, o Décimo Mandamento ordena: “Não cobiçar as coisas alheias”. Este proíbe ao cristão a cobiça dos bens alheios, sentimento que é a raiz do roubo e da fraude. Assim, ele proíbe avidez e o desejo de uma apropriação desmedida dos bens terrenos. Proíbe também o desejo de cometer uma injustiça pela qual se prejudicaria o próximo em seus bens temporais. O cristão deve aprender a distinguir as ambições razoáveis dos desejos insensatos e injustos, adquirindo uma atitude interior de respeito pelos bens alheios. O Catecismo da Igreja Católica nos ensina que, ao desejarmos obter bens semelhantes aos de nossos próximos, não violaremos esse mandamento, contando que os obtenhamos por meios justos. O Décimo Mandamento da Lei de Deus exige banir a inveja do coração humano, pois esta pode levar às piores ações. A inveja é o ciúme e a fúria de quem vê a prosperidade dos outros e deseja apoderar-se injustamente do que eles têm. Quem deseja mal aos outros peca gravemente. A inveja diminui à medida que a pessoa procura cada vez mais alegrar-se com as conquistas e os dons dos próximos, quando ela crê na providência de Deus também para si e quando ela dirige o seu coração para a verdadeira riqueza, que consiste no fato de já participarmos em Deus pelo Espírito Santo.   A confiança em Deus, acima de todas as coisas, foi pedida por Jesus aos Seus discípulos, isso para que estes tivessem um coração livre, pobre, desprendido das riquezas, isso é o princípio do espírito da pobreza evangélica, pois é o abandono à providência de Deus, que nos liberta da preocupação pelo amanhã, prepara-nos para a bem-aventurança dos «pobres em espírito, porque deles é já o Reino dos céus» (Mt 5, 3). Portanto, o desprendimento total do homem dos bens materiais, manifestado principalmente nas prescrições indicadas por esse mandamento, vem ao encontro do seu desejo final, que é ver a Deus. Muitas vezes, o vazio interior é causado pelo amor desmedido às coisas, roubando, assim, do Senhor a possibilidade de ocupar inteiramente o coração humano. Somente por intermédio de uma vida justa e honesta, o grito interior presente em todo homem: “Quero ver a Deus!” será realizado, pois, a verdadeira e perfeita felicidade se concretiza na visão e na bem-aventurança d’Aquele que nos criou por amor e nos atrai a Si no Seu infinito amor.

A verdadeira riqueza da Igreja são os pobres

Terça-feira, 15 de dezembro de 2015, Da Redação, com Rádio Vaticano

Na homilia de hoje, Papa pediu que a Igreja seja humilde, pobre e confiante em Deus; a verdadeira riqueza da Igreja são os pobres, enfatizou

A Igreja seja humilde, pobre e confiante no Senhor. Esse foi o convite do Papa Francisco na Missa desta terça-feira, 15, na Casa Santa Marta. O Papa destacou que a pobreza é a primeira das bem-aventuranças e acrescentou que a verdadeira riqueza da Igreja são os pobres, não o dinheiro ou o poder mundano.

Jesus repreende com força os chefes dos sacerdotes e os adverte que até mesmo as prostitutas os precederão no Reino dos Céus. O Papa partiu do Evangelho do dia para alertar sobre tentações que mesmo hoje podem corromper o testemunho da Igreja. Também na Primeira Leitura, do Livro de Sofonias, se veem as consequências de um povo que se torna impuro e rebelde por não ter ouvido o Senhor.

Segundo Francisco, a Igreja fiel ao Senhor deve ser humilde, pobre e confiante em Deus. “Uma Igreja humilde, que não se escore em poderes, em grandezas. Humildade não significa uma pessoa lânguida, apática, que faz olhos brancos…Não, isso não é humildade, isso é teatro! Isso é fingir humildade. A humildade tem um primeiro passo: ‘eu sou pecador’. Se você não é capaz de dizer a você mesmo que é pecador e que os outros são melhores que você, não é humilde. O primeiro passo na Igreja humilde é sentir-se pecadora, o primeiro passo de todos nós é o mesmo”.

O segundo passo é a pobreza, que é a primeira das bem-aventuranças, disse o Papa, enfatizando que a Igreja não pode ser apegada ao dinheiro.“Os pobres são as riquezas da Igreja. Se você tem um banco seu, você é o patrão de um banco, mas o teu coração é pobre, não é apegado ao dinheiro, está a serviço sempre. A pobreza é esse desprendimento, para servir aos necessitados, para servir aos outros”, acrescentou.

O terceiro ponto destacado pelo Papa foi a confiança em Deus. “Onde está a minha confiança? No poder, nos amigos, no dinheiro? No Senhor! Essa é a herança que o Senhor nos promete: ‘Deixarei em meio a vós um povo humilde e pobre, que confiará no nome do Senhor”.

“Nesta espera pelo Senhor, pelo Natal, peçamos que nos dê um coração humilde, um coração pobre e, sobretudo, um coração confiante no Senhor porque o Senhor não desilude jamais”, concluiu Francisco.

A teologia da libertação não faz falta para cuidar dos pobres

ROMA, 26 Ago. 13 / 01:30 pm (ACI/EWTN Noticias).- O secretário da Pontifícia Comissão para a América Latina, o leigo Guzmán Carriquiry, afirmou que “não faz falta uma teologia da libertação” para cuidar dos pobres, basta viver o Evangelho, “o abraço da caridade, o testemunho comovido de si”.

O leigo uruguaio fez esta afirmação durante um encontro convocado pelo movimento Comunhão e Libertação na cidade de Rímini, ao norte da Itália, no último dia 21 de agosto, onde também disse que a Igreja precisa “libertar” a fé de “incrustações mundanas” para torna-la novamente atrativa.

“Certamente já seus predecessores iniciaram um progressivo desmantelamento da sujeira real da cúria. João Paulo II preferia estar pelas ruas do mundo que no Vaticano. E Bento XVI disparou raios contra o carreirismo, o clericalismo, a mundanidade, a divisão, as ambições de poder e a sujeira na Igreja. Agora Francisco realiza o que seu predecessor pediu tantas vezes… e muito mais. Tudo isto faz parte da ‘revolução evangélica’ que marca uma profunda mudança do modo mesmo de ser Papa”, afirmou.

Nesse sentido, destacou a continuidade entre Bento XVI e Francisco. Concluiu propondo que a encíclica Lumen Fidei seja lida à luz do pontificado do Papa Francisco, das “pérolas” de suas homilias cotidianas, de sua catequese e do “sair missionário” para compartilhar a luz da fé ad gentes.

 

A Teologia da Libertação não era necessária para pregar o evangelho aos pobres
Professor Carriquiry, no Meeting de Rímini: É diabólico insistir numa descontinuidade entre Bento XVI e Francisco
Por Sergio Mora

ROMA, 22 de Agosto de 2013 (Zenit.org) – Após a palestra do padre José Maria “Pepe” Di Paola, sobre o trabalho de integração da população marginalizada que lhe rendeu ameaças de morte por combater as drogas na favela Villa 21, de Buenos Aires, o Meeting de Rímini para a Amizade entre os Povos passou a palavra ao professor Guzmán Carriquiry, durante a conferência sobre a encíclica Lumen Fidei. O secretário da Pontifícia Comissão para a América Latina afirmou que “quando ouvimos o padre ‘Pepe’ falar da sua experiência nas favelas de Buenos Aires, é como se víssemos o bispo Jorge Mário Bergoglio quando compartilhava o pão com os pobres, junto com seus sacerdotes, naquelas mesmas favelas”. “No fundo”, disse o professor uruguaio, “é a mesma imagem que nós vimos quando ele lavou os pés dos menores no centro para menores infratores; quando ele visitou Lampedusa, a favela de Varginha, o hospital para dependentes químicos no Rio de Janeiro…”. E enfatizou: “Não precisa de uma teologia da libertação para isso. É suficiente o evangelho vivido, o abraço da caridade, o testemunho comovido de si mesmo”. Sobre a encíclica Lumen Fidei, depois de elogiar o trabalho dos pontífices vindos de contextos tão diferentes, com sensibilidades e estilos diversos, Carriquiry avaliou como “obra do demônio, príncipe da mentira e da divisão, esse esforço obsessivo em querer confrontar o bispo emérito de Roma e o seu sucessor”. “Isso vale tanto para o desmedido apego nostálgico ao papa anterior, que vira uma ‘nostalgia canalha’ quando se degenera em julgamentos farisaicos sobre o papa atual, quanto para os elogios ao papa atual feitos para denegrir os predecessores”. O palestrante recordou ainda: “Apesar de que as favelas cresceram muito nas últimas décadas, Buenos Aires é certamente muito mais do que isso”. E complementa: “É uma enorme cidade cosmopolita, onde há raízes católicas populares, mas que também é marcada por todas as realidades, estímulos e chagas da cultura global”, onde existe um “norte e um sul” que apresentam “grandes desafios pastorais”. O secretário do Pontifício Conselho recordou também as palavras do papa Bento XVI no voo de São Paulo a Aparecida, quando disse: “Tenho certeza, pelo menos em parte, que aqui se decide o futuro da Igreja católica. Para mim, isto sempre foi evidente”. Sobre a situação atual da Igreja, Carriquiry comentou que “era preciso libertar a fé das incrustações mundanas, para torná-la novamente atraente”. E, citando um autor italiano, prosseguiu: “Os predecessores começaram, sem dúvida, um progressivo desmantelamento desse aspecto realmente pesado da cúria. João Paulo II preferia andar pelas ruas do mundo a ficar no Vaticano. E Bento XVI disparou raios contra o carreirismo, o clericalismo, a mundanidade, a divisão, as ambições de poder e a sujeira na Igreja. Agora, Francisco realiza o que o seu predecessor pediu tantas vezes… E muito mais. Tudo isso faz parte da ‘revolução evangélica’, que marca uma profunda mudança do próprio modo de ser papa”. Carriquiry finalizou propondo que a encíclica Lumen Fidei seja lida à luz do pontificado do papa Francisco, das “joias” das suas homilias cotidianas, da sua catequese e do “ato de sair como missionário” para compartilhar a luz da fé “ad gentes”.

Não há orações inúteis e Deus responde a todas

VATICANO, 12 Set. 12 / 03:23 pm (ACI/EWTN Noticias).- O Papa Bento XVI explicou que não há orações inúteis e Deus, que é Amor e Misericórdia infinita, sempre responde a todas embora às vezes essa resposta seja misteriosa.

Em sua catequese da audiência geral de hoje realizada na Sala Pablo VI, ante milhares de fiéis presentes, o Santo Padre prosseguiu com sua reflexão sobre a oração no livro do Apocalipse, e ressaltou que as orações são como incenso “cuja fragrância doce se oferece (…) a Deus”.

“Precisamos estar seguros de que não existem orações supérfluas, inúteis; nada está perdido.? E elas são respondidas, mesmo que às vezes de forma misteriosa, porque Deus é Amor e Misericórdia infinita”.

O incenso no Apocalipse, continuou, “é um simbolismo que nos diz como todas as nossas orações – com todas as limitações, a fadiga, a pobreza, a aridez, as imperfeições que podem ter – vêm quase purificar e alcançar o coração de Deus”.

Bento XVI disse também que “Deus não é indiferente às nossas súplicas, intervém e faz sentir seu poder e sua voz na terra, faz tremer e altera o sistema do Maligno”.

“Muitas vezes, diante do mal se tem a sensação de não poder fazer nada, mas é a nossa própria oração a primeira resposta e mais eficaz que podemos dar e que faz mais forte o nosso cotidiano empenho em espalhar o bem. O poder de Deus fecunda a nossa fraqueza”.

O Santo Padre explicou também que “o Apocalipse nos diz que a oração alimenta em cada um de nós e nas nossas comunidades esta visão de luz e de profunda esperança: nos convida a não nos deixarmos vencer pelo mal, mas a vencer o mal com o bem, a olhar para Cristo Crucificado e Ressuscitado que nos associa à sua vitória”.

“A Igreja vive na história, não se fecha em si mesma, mas enfrenta com coragem o seu caminho em meio à dificuldade e sofrimento, afirmando com força que o mal em definitivo não vence o bem, a escuridão não ofusca o esplendor de Deus”.

A seguir o Papa sublinhou que “como cristãos não podemos nunca ser pessimistas; sabemos bem que no caminho da nossa vida encontramos muita violência, mentira, ódio, perseguição, mas isto não nos desencoraja”.

“Sobretudo, a oração nos educa a ver os sinais de Deus, a sua presença e ação nos faz sermos nós mesmos luzes do bem, que espalham a esperança e indicam que a vitória é de Deus”.

Um dos símbolos do Apocalipse, um personagem de tal beleza que não é descrito por São João, representa a “Deus onipotente que não permaneceu fechado no seu Céu, mas se fez próximo ao homem, entrando em aliança com ele; Deus que faz sentir na história, de modo misterioso mas real, a sua voz simbolizada pelo relâmpago e pelo trovão”.

Outros dois símbolos são o livro que contém o plano de Deus e o Cordeiro que representa a Jesus Ressuscitado, que é o único capaz de “abrir o texto e iluminá-lo (…)?é o próprio Cordeiro, o Cristo morto e ressuscitado, que progressivamente abre o selo e revela o plano de Deus, o sentido profundo da história.”.

O Papa ressalta logo que “a oração é como uma janela aberta que nos permite ter o olhar voltado para Deus, não somente para nos recordar a meta para a qual nos dirigimos, mas também para deixar que a vontade de Deus ilumine o nosso caminho terrestre e nos ajude a vivê-lo com intensidade e compromisso”.

“De que modo o Senhor guia a comunidade cristã a uma leitura mais profunda da história? Primeiro convidando-a a considerar com realismo o presente que estamos vivendo”.

Bento XVI explica que “existem os males que o homem causa, como a violência, que nasce do desejo de possuir, de prevalecer uns sobre os outros, de modo a atingir para matar (…); ou a injustiça, porque os homens não respeitam as leis que lhes são dadas (…)”.

“A estes se unem os males que o homem deve sofrer, como a morte, a fome, a enfermidade (…).?Diante dessa realidade, muitas vezes dramática, a comunidade eclesial é convidada a não perder nunca a esperança, a crer firmemente que a aparente onipotência do Maligno colide com a verdadeira onipotência de Deus”.

O Papa afirma também que “o Apocalipse, mesmo na complexidade de símbolos, nos envolve numa oração muito rica, pela qual também nós escutamos, elogiamos, agradecemos, contemplamos o Senhor, lhe pedimos perdão”.

Sua estrutura, de grande oração litúrgica, conclui, “é também um forte chamado a redescobrir o encargo extraordinário e poder transformador que tem a Eucaristia; em particular quero convidar com força a serem fiéis à Santa Missa dominical no Dia do Senhor, o Domingo, verdadeiro centro da semana! Obrigado”.

A síntese em português da catequese desta quarta-feira está disponível no canal Youtube da ACI Digital, visite: http://www.youtube.com/watch?v=cKAX0eiTjXw&feature=player_embedded

Transfiguração do Senhor – 06 de Agosto

Por Mons. Inácio José Schuster

Evangelho segundo São Lucas 9, 28-36
Uns oito dias depois destas palavras, levando consigo Pedro, João e Tiago, Jesus subiu ao monte para orar. Enquanto orava, o aspecto do seu rosto modificou-se, e as suas vestes tornaram-se de uma brancura fulgurante. E dois homens conversavam com Ele: Moisés e Elias, os quais, aparecendo rodeados de glória, falavam da sua morte, que ia acontecer em Jerusalém. Pedro e os companheiros estavam a cair de sono; mas, despertando, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com Ele. Quando eles iam separar-se de Jesus, Pedro disse-lhe: «Mestre, é bom estarmos aqui. Façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias.» Não sabia o que estava a dizer. Enquanto dizia isto, surgiu uma nuvem que os cobriu e, quando entraram na nuvem, ficaram atemorizados. E da nuvem veio uma voz que disse: «Este é o meu Filho predileto. Escutai-o.» Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou só. Os discípulos guardaram silêncio e, naqueles dias, nada contaram a ninguém do que tinham visto.

Celebra a Igreja neste dia seis de agosto a transfiguração do Senhor. Lemos este evento nas três versões dos Evangelistas sinóticos; neste ano nós o lemos na versão lucana. Quando conduzo peregrinos à Terra Santa e, na Galiléia, vou com eles ao monte Tabor, tradicionalmente apontado como o local da transfiguração de Jesus, digo-lhes mais ou menos isto: “Jesus – diz-nos o texto do Evangelho – transfigurou-se; a beleza interna de Jesus – somente conhecida do Pai – foi, naquele momento, revelada, ainda que furtivamente, a três discípulos escolhidos, que ficaram atônitos quando O viram transfigurado. No entanto, esta transfiguração não era definitiva, pois Jesus ainda se encontrava neste mundo; a verdadeira e definitiva deu-se apenas com Sua Ressurreição dentre os mortos, quando assumiu toda a Sua realeza e poder, sentando-se à direita de Deus”. O autor da carta aos Efésios diz-nos que o Senhor Jesus, com o poder que tem, também transfigurará nosso pobre e miserável corpo, configurando-o ao Seu Corpo glorioso e ressuscitado. Contudo, esta transfiguração é apenas futura e para nós objeto de uma promessa que ainda não se realizou neste mundo e nem aqui se realizará. Ao contrário, envelhecemos e a beleza da juventude vai sendo paulatinamente perdida. Paulo diz-nos – e Santo Agostinho mais tarde, a partir daí, faz uma belíssima exegese: à medida que nosso homem exterior vai-se arruinando, o que perdemos em agilidade, beleza e atração física pode ser constantemente reciclado em nosso proveito e favor, transformando-se no homem interior em energia, virtude e beleza que atraem a Deus. Esta transfiguração, que se chama transfiguração do coração, é possível a todos já neste mundo. Você certamente terá notado pessoas de coração transfigurado, embora nem sempre ou necessariamente pessoas fisicamente atraentes. Essa beleza interna é de ordem superior à primeira, que é apenas uma casca que se esvai. Essa beleza que se adquire pouco a pouco com uma vida dedicada a Deus e à escuta da Sua palavra mantêm-se por toda Eternidade. Esta beleza do coração, agora invisível, é prévia e indispensável para que haja a futura. Persiga-a neste momento e você também se verá inteiramente transfigurado diante de Deus com Cristo.

 

«Moisés e Elias […] falavam da Sua morte, que ia acontecer em Jerusalém»
São Cirilo de Alexandria (380-444), bispo e Doutor da Igreja
Homilias sobre a Transfiguração, 9; PG 77, 1011 (a partir da trad. de Delhougne, Les Pères commentent, p. 342)

Jesus subiu à montanha com os três discípulos que escolheu. Depois foi transfigurado por uma luz fulgurante e divina, a ponto de as Suas vestes parecerem brilhar como a luz. Seguidamente, Moisés e Elias envolveram Jesus, falaram entre eles da Sua partida, que devia acontecer em Jerusalém, quer dizer, do mistério da Sua incarnação e da Sua Paixão salvadora, que devia concretizar-se na cruz. Porque é verdade que a lei de Moisés e a pregação dos profetas tinham mostrado antecipadamente o mistério de Cristo. […] Esta presença de Moisés e de Elias e a conversa entre eles tinha como objectivo mostrar que a Lei e os profetas formavam como que o cortejo de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Senhor que tinham profetizado. […] Depois de terem aparecido não se calavam, falando da glória de que o Senhor ia ser cumulado em Jerusalém pela Sua Paixão e pela Sua cruz e, sobretudo, pela Sua ressurreição. Talvez o bem-aventurado São Pedro, acreditando que tinha chegado o Reino de Deus, tenha desejado permanecer na montanha, porque disse que deviam fazer «»três tendas». […]. Não sabia o que estava a dizer». Porque ainda não tinha chegado o momento  do fim do mundo e não será no tempo presente que os santos usufruirão da esperança que lhes foi prometida. É que São Paulo afirma: «Ele transfigurará o nosso pobre corpo, conformando-o ao Seu corpo glorioso» (Fil 3, 21). Uma vez que o projecto da Salvação ainda não estava completo, estando apenas no seu começo, não era possível que Cristo, que tinha vindo ao mundo por amor, renunciasse a querer sofrer por ele. Porque Ele manteve a natureza humana para sofrer a morte na Sua carne, e para a destruir pela Sua ressurreição de entre os mortos.

 

Subamos a montanha para nos transfigurarmos
Padre Pacheco

Hoje, celebramos, com toda a Igreja, a festa da Transfiguração do Senhor, que é a manifestação gloriosa de Jesus aos apóstolos Pedro, Tiago e João no Monte Tabor. Este local está situado a 840m de altitude do nível do mar, na região da Galileia. Um dos lugares mais lindos existentes no mundo. Ali viveram – os apóstolos – a experiência da Ressurreição de Cristo. Os três evangelistas – Mateus, Marcos e Lucas – relatam em seus Evangelhos esse estado glorioso em que Jesus Cristo apareceu aos três discípulos; todavia, Lucas nos apresenta algumas particularidades sobre o fato, as quais não constam nos outros Evangelhos. Vale a pena deter-nos. Somente Lucas especifica a razão pela qual o Senhor subiu ao monte: lá foi para orar. Jesus, muitas e muitas vezes, dedicava horas, grandes momentos – por vezes uma noite inteira – para estar em intimidade com o Pai. O Filho de Deus saía da planície do cotidiano da vida, muitas e muitas vezes, para subir à montanha, ou seja, sabia desde sempre que esse é o grande lugar da manifestação de Deus. Ali se dirigia para viver e conviver com o Pai. Nosso Senhor Jesus Cristo, desde o início de Sua vida entre os homens, assumindo a humanidade toda e toda a humanidade, nunca soube totalmente com clareza a Sua missão; conforme ia crescendo, se desenvolvendo e desenvolvendo a missão que Deus Pai lhe confiara, Ele ia percebendo e tomando consciência do plano do Pai em Sua vida e por intermédio da Sua vida, ou seja, salvar a humanidade. Durante a oração, transformou-se o rosto de Jesus; de modo diverso aos outros evangelistas, Lucas não fala da transfiguração, mas do rosto transformado. Cristo Jesus é o novo Moisés; Moisés prefigurou Jesus. Jesus, como Moisés, em contato e comunhão com Deus – com o Pai – sente seu rosto tornar-se brilhante pelo fato de estar com o Pai. Quando estamos em Deus e com Deus, numa profunda intimidade com Ele, tudo começa a se tornar brilhoso em nós; nosso rosto, nosso corpo começam a resplandecer a luz que vem do alto; mas o que mais resplandece é o testemunho de vida, que ilumina a vida dos outros. Para dizer: você anda resplandecendo o amor de Deus por onde você anda? Ou melhor, você costuma sair da planície, a exemplo de Jesus, para se encontrar com o Pai, subindo a montanha? Subir a montanha significa mergulhar a vida em Deus. Rasgar as vestes (coração). Cada encontro autêntico com Deus deixa marcas visíveis em nosso rosto, em nosso ser. A luz no rosto de Jesus indica que, durante a oração, Ele compreendeu e fez Seu o projeto do Pai; entendeu que Seu sacrifício não estaria concluído na derrota, mas na ressurreição. Lucas também ressalta que enquanto Jesus trata de realidades relacionadas com a Sua Paixão e Morte, os três apóstolos encontram-se sonolentos, dormindo; da mesma forma aconteceu no Horto das Oliveiras. O sono dos apóstolos significa que eles não estão entendendo o que acontece com Jesus. Quando Cristo realiza milagres, prodígios e curas, eles encontram-se bem acordados; agora, quando o assunto é a vontade do Pai, mesmo que custe a própria vida, uma sonolência toma conta dos apóstolos. Da mesma forma somos nós. Como estamos bem espertos, acordados, bem atentos, quando queremos as graças de Deus, os milagres, as curas; todavia, quando o Altíssimo nos quer dar e confiar a vontade d’Ele na nossa vida, principalmente quando isso envolve esforço, renúncia, sacrifício e a própria vida, logo apoderam-se de nós uma sonolência, um cansaço, uma fadiga. Subamos a montanha para que nosso rosto, nossa vida, nossas atitudes mudem; o coração é nosso, mas o rosto e vida são dos e para os outros.

 

Hoje a Igreja celebra a festa da Transfiguração do Senhor. “Mostra-me o Teu rosto, mostra-me a Tua face”. É o desejo de todo Israelita piedoso do Antigo Testamento. Moisés e Elias são dois personagens, daquela época, que se esforçaram por contemplar a Face de Deus. Nós somos convidados a deixar de contemplar por um instante o rosto dos apresentadores de televisão e dos artistas com os quais estamos acostumados a conviver diariamente, para nos concentrar na visão do Rosto de Cristo que brilha através da Sua Páscoa da Ressurreição. “Deus de Deus, Luz da Luz”, afirma-nos o credo Nicenoconstantinapolitano, Jesus Cristo é Luz da luz. A sua Face é Luz da luz.  Ela é o reflexo da Luz incriada, o próprio Pai. Esta visão se deu no alto de um monte; foi no alto da montanha que o céu procurou naquele dia se unir à Terra. Três foram os Apóstolos escolhidos para contemplar antecipadamente o que é sonho e esperança de todo Cristão: a Face de Deus, que brilha através da luminosidade da Face de Cristo. Nós temos o direito de alimentar esse desejo; ele nada mais é do que o desejo do Céu. Porque, o que é o Céu, se não a contemplação sempre mais profunda de Deus em Jesus Cristo? Mas Deus adverte no Evangelho de Mateus e no sermão da Montanha: “Bem aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”. Se você alimenta a esperança de um dia ver a Face de Deus, se você se sacrifica por causa dessa esperança, se evita o mal e faz o bem, se evita o que ofende a Deus, e não pode estar presente diante de Sua Face, então a sua esperança um dia se tornará realidade. Seria insanidade, veleidade, esperarmos contemplar a Face do Nosso Deus, se nunca nos procuramos em ser semelhante a Ele, se nunca tivemos a preocupação de sermos puros de coração. Sim, neste dia, em que com a Igreja celebramos a festa da Transfiguração, celebremos a festa da nossa esperança, celebremos a festa do fim que nos espera. Mas preparemos desde já o nosso coração para sermos admitidos à Sua Visão.

 

“Diante de testemunhas escolhidas, escreve São Leão Magno (461), o Senhor desvela sua glória… O que pretendia  fazer era, com a transfiguração, banir do coração dos discípulos o escândalo da Cruz, e que a humilhação de sua Paixão voluntária não perturbasse a fé deles, pois Ele já lhes revelava a eminência de sua dignidade escondida”.  Mas, continua São Leão, “ao mesmo tempo, e por uma igual providência, Ele fundava a fé da Santa Igreja, para que o Corpo total do Cristo soubesse de qual feliz transformação seria gratificado, e aos membros se dá a esperança de fazer parte da honra que resplandecia no Chefe”. Jesus está como que ansioso para partilhar a sua glória conosco. O sinal deste desejo é justamente a visão que os Apóstolos tem de Jesus transfigurado no alto da montanha. O Evangelho ao dizer que Ele foi transfigurado nos reenvia a Deus, autor desta transformação extraordinária. Permanecendo em sua humanidade, Jesus deixa por um instante que o brilho de sua divindade impregne seu corpo, que se torna irradiante. O divino Mestre sobe a montanha sabendo muito bem o que o aguardava em Jerusalém, a traição, rejeição e crucifixão. Na montanha, e só esta única vez, Jesus deixa aparecer a sua Glória. Ele quer que compreendamos o benefício de crer sem ter visto e que Ele há de revelar sua glória a todos os que seriamente o buscam com fé. “Ele se manifesta aos filhos da luz, que afastam as obras das trevas, escreve Orígenes (254), para que se tornem filhos do dia, e andem honestamente como de dia. Ele brilhará sobre eles não simplesmente como o sol, mas como demonstrou ser o sol de justiça”. A transfiguração de Cristo anuncia nosso estado glorioso no céu, onde o brilho da alma na comunhão com Deus tornará nossos corpos ressuscitados “gloriosos”, livres dos incômodos terrestres e participantes da Glória de Deus. Compreenderemos as palavras do Apóstolo: “Cristo em vós, esperança da Glória” (Col 1, 27).

Como escolher um bom candidato?

Não podemos ser cristãos apenas de bons sentimentos

Estamos num momento significativo na história da sociedade. Teremos de votar novamente, colocando em prática nosso direito de cidadãos brasileiros. Com isto, vamos escolher todos os nossos próximos representantes no poder executivo e legislativo dos diversos municípios. Cada eleito vai agir como nosso porta-voz e em nome do povo de seu município.

É hora de pensar em duas palavras decisivas: fé e fidelidade. Isto significa autenticidade, fato que não tem sido levado em conta em nosso país. Muitos políticos não são tementes a Deus, mas infiéis, carreiristas e não se colocam a serviço do bem comum. O povo sofre com isto e acaba assistindo às atitudes de desonestidade. O poder, verdadeiramente constituído, vem de Deus, mas isto passa pela ação livre dos eleitores. Significa que a autoridade escolhida não tem real poder se foi eleita por quem não tenha agido, na hora de votar, com plena liberdade. Comprar e vender o voto não significa liberdade plena, não é ato totalmente divino e não é voto com nobreza e consciência madura.

Todo candidato, nas eleições, procura se apresentar bem, com boa aparência e propósitos muito firmados. Mas acontece que há uma mentalidade de triunfo e muito individualista. Ela esconde interesses que não são os do povo. É como falar de fé sem obras, aparências que tentam convencer, mas privilegiam interesses próprios ou de grupos particulares.

Na verdade, ser porta-voz é ser luz para o povo. Isto é diferente de ser opressor, que tira a esperança e a alegria das pessoas. Por outro lado, o povo quase não acompanha nem é resistente diante das atitudes dos políticos eleitos. É cômodo ser passivo, porque agir supõe coragem e enfrentamento. Não podemos ser cristãos apenas de bons sentimentos e intenções, porque a fé exige fidelidade e compromisso bem definidos, principalmente nos momentos decisivos da sociedade. Não basta confessar a fé, como o fez Pedro diante de Cristo. Temos de enfrentar as diversidades e maldades que impedem a realização do bem. É um caminho de cruz, de maturidade e coragem.

Dom Paulo Mendes Peixoto

Milagres de Jesus: Fatos Históricos e Significado

PERGUNTE E RESPONDEREMOS
395/abril 1995  
Apologética  
Crítica dos Evangelhos   

Em síntese: Note-se o estilo singular segundo o qual Jesus realizava milagres: nunca em seu favor, jamais para punir, sem teatralidade, com discreção e sobriedade. Estas características diferenciam bem os milagres de Jesus dos que os taumaturgos dos judeus ou pagãos tenham realizado, e testemunham em favor da historicidade de tais feitos. Estes são entendidos por Jesus e pela Tradição dos Apóstolos como sinais (semeia, em grego) que explicitam a vinda do Messias e do Reino de Deus.

Mais: os milagres estão de tal modo inseridos na pregação e na missão de Jesus, autenticando-as e comprovando-as, que não podem ser negados sem que se negue a própria identidade de Jesus Cristo. Ver especialmente Mt 11,2-6; 12, 28; 11, 20-24. Desde os seus primórdios, a pregação dos Apóstolos apresentava Jesus como autor de portentos, mesmo perante pessoas que haviam conhecido Jesus e podiam contestar falsas notícias a respeito; cf. At 2,22; 10,38. Nem mesmo os adversários de Jesus contestaram a sua atividade taumatúrgica, mas atribuiram-na, uns, a Satanás (cf. Mt 12,24), e outros a poderes mágicos (assim o Talmud judeu).

Os Evangelhos narram que Jesus realizou muitos feitos maravilhosos, chamados em grego semeia (sinais) ou dynámeis (atos de poder). Visto que a mentalidade moderna é, não raro, cética em relação a milagres, perguntamos: podem tais feitos maravilhosos ser tidos como históricos? E, em caso positivo, que valor ou significado têm? — É a estas questões que serão dedicadas as páginas subseqüentes.

1. OS MILAGRES NO EVANGELHO: CARACTERÍSTICAS  
Segundo os evangelistas, Jesus realizou numerosos fatos extraordinários, mencionados de modo genérico nos seguintes textos:

Mc 1,32-34: “Ao entardecer, quando o sol se pôs, levaram-lhe todos os que estavam enfermos e endemoninhados. E a cidade inteira aglomerou-se à porta. E ele curou muitos doentes de diversas enfermidades e expulsou muitos demônios”.

Mc 6,56: “Em todos os lugares onde entrava, nos povoados, nas cidades e nos campos, colocavam os doentes nas praças, rogando que lhes permitisse ao menos tocar na orla de sua veste. E todos os que o tocavam, eram salvos”. Ver Lc 7,21.

São João termina o seu Evangelho escrevendo: “Jesus fez muitos outros sinais em presença dos seus discípulos, mas não foram descritos neste livro” (20, 30).

Os evangelistas só narram “pequeno” número de milagres, a saber: trinta aproximadamente. Alguns destes podem estar descritos duas vezes, como é o caso da multiplicação dos pães; cf. Mc 6,33-44 e 8,1-10; a sadia crítica julga que se trata de um só milagre descrito duas vezes com pormenores diferentes.

Os milagres de Jesus são de diversas modalidades: há curas de doenças várias (lepra, cegueira,.surdez, paralisia, epilepsia…), há expulsões de demônios, três ressurreições de mortos (o filho da viúva de Naim, a filha de Jairo, Lázaro), uma pesca milagrosa, a conversão da água em vinho, uma multiplicação de pães e peixes, o domínio sobre uma tempestade e o caminhar sobre as águas.

Examinemos as características do procedimento de Jesus taumaturgo:

1) Jesus nunca realizou um milagre em seu proveito pessoal, para pôr-se em evidência ou para sair de alguma situação embaraçosa. Sofreu fome, sede, cansaço, dormia onde se encontrava, sem ter onde reclinar a cabeça; quando foi aprisionado por seus inimigos, nada fez para se libertar e escapar da morte horrenda e humilhante; quando pregado à cruz, foi ironicamente “desafiado” por seus adversários para se libertar, mas não o quis, embora pudesse desconcertar os seus algozes, que diziam: “Salvou os outros, mas não pode salvar a si mesmo. O Cristo, o rei de Israel desça agora da cruz, para que vejamos e acreditemos” (Mc 15,31 s). Jesus quis parecer fraco e talvez impostor aos olhos de quem o desafiava.       Jesus taumaturgo não ambicionava sucesso nem benefícios materiais. Ao contrário, proibia que as pessoas curadas apregoassem a obra de Jesus. Assim, por exemplo, após ressuscitar a filha de Jairo, Jesus “recomendou com insistência a pai e mãe que ninguém viesse a saber o que tinham visto” (Mc 5,43). Após a cura do surdo-mudo curado à distância da multidão, Jesus recomendou que não o dissessem a quem quer que fosse (Mc 7,36).(*)

* O silêncio assim imposto por Jesus explica-se pelo fato de que os judeus podiam equivocar-se sobre a messianidade de Jesus; sim, podiam julgar que Ele viera para resolver problemas de ordem material e dar a Israel a hegemonia sobre os demais povos.

2) Jesus não realizava milagres para punir. Este tipo de portento encontra-se em narrações extra-bíblicas como também em escritos do Antigo Testamento: narra-se, por exemplo, que certa vez Eliseu foi escarnecido por alguns meninos por causa da sua calvície; “Eliseu virou-se, olhou para eles e os amaldiçoou em nome do Senhor. Então sairam do bosque duas ursas e despedaçaram quarenta e dois deles” (2Rs 2,23s).

Verdade é que dois episódios do Evangelho podem ser interpretados como milagres punitivos. O primeiro é o da figueira estéril, que Jesus amaldiçoa, fazendo-a murchar instantaneamente (cf. Mt 21,18s). É de notar, porém, que, no caso, não é punida uma pessoa, mas uma árvore, que é símbolo da esterilidade do povo de Israel; Jesus, fazendo secar a figueira, quis significar a sorte que tocaria ao povo judeu incrédulo quando derrotado pelos romanos em 70. — O segundo episódio é o dos porcos de Gerasa: Jesus permitiu que dois mil deles se precipitassem no mar (cf. Mc 5,9-14); notemos, porém, que este relato é diversamente interpretado pelos exegetas, dos quais alguns julgam que o evangelista usou de um artifício literário e não quis ser tomado ao pé da letra (ver Curso sobre Ocultismo, Módulo 24, Escola “Mater Ecclesiae”).

Jesus veio para salvar e não para destruir (cf. Lc 9,54s); por isto não é condizente atribuir-lhe a vontade de prejudicar pessoas, ainda que fossem pagãos, como os gerasenos. O autêntico espírito de Jesus se revela quando os filhos de Zebedeu quiseram fazer baixar fogo sobre os samaritanos inóspitos; “Jesus, voltando-se, repreendeu-os” e terá acrescentado, conforme alguns manuscritos: “Não sabeis de que espírito sois, pois o Filho do Homem não veio para perder a vida dos homens, mas para salvá-la” (Lc 9, 54s).

3) Jesus efetuava milagres com grande simplicidade, sem recorrer a fórmulas mágicas nem a ritos complexos. Bastava-lhe dizer uma palavra com autoridade, como no caso do leproso: “Quero, sê curado” (Mc 1,40-42). Ao paralitico disse o Senhor: “Eu te ordeno: levanta-te, toma o teu leito e vai para casa” (Mc 2,12). Ao homem que tinha a mão seca, mandou Jesus: “Estende a mão” (Mc 3,5). Ao mar agitado por violenta tempestade, imperou: “Silêncio! Acalma-te! Logo o vento serenou e houve grande bonança!” (Mc 4,39). Ver ainda o caso da filha de Jairo (Mc 5,41s), o do filho da viúva de Naím (Lc 7,14s), o de Lázaro (Jo 11,44), o do cego de Jericó (Lc 12,43).   Num episódio ou noutro, Jesus tocava a pessoa doente; era este um gesto de benevolência e compaixão, especialmente significativo no caso do leproso (cf. Mc 1,40s); os leprosos eram pela Lei banidos do convívio dos homens (cf. Lv 13, 44-46); ora Jesus tomou o leproso pela mão e o curou… Também tocou com a mão a filha de Jairo morta, que Ele ressuscitou, violando assim a Lei, que considerava impuro quem tocasse um cadáver; cf. Mc 5,41; Lv 11,39.

Os Evangelhos referem apenas três casos em que Jesus recorre aos métodos terapêuticos da medicina popular: Mc 7,31-37 (a saliva, tida como desinfetante, acompanhando a palavra Effatha, Abre-te!); Mc 8,32-35 (Jesus usa saliva e a imposição de mãos para curar o cego de Jericó); Jo 9,6s (Jesus fez lama com a saliva e aplicou-a aos olhos do cego de nascença).

Geralmente o milagre é instantâneo; apenas dois casos parecem fazer exceção: os dez leprosos foram curados quando, a mando de Jesus, iam apresentar-se aos sacerdotes (Lc 17,14); o cego de Jericó parece ter recuperado a vista por etapas (cf. Mc 8,22-25).

4) Jesus não fazia alarde nem publicidade dos seus milagres; antes, era muito discreto e reservado. Não se apresentava como taumaturgo, nem procurava doentes para curá-los; eram estes que se dirigiam espontaneamente a Jesus ou eram levados por outrem:

“Apresentaram-se a ele com um paralítico transportado por quatro homens” (Mc 2,3);   “Começaram a transportar os doentes em seus leitos onde quer que descobrissem que ele estava” (Mc 6,55);

“Levaram-lhe um surdo-mudo” (Mc 7,32);

“Mestre, eu te trouxe meu filho, que tem um espírito mudo” (Mc 9, 17);

“Ao entardecer, quando o sol se pôs, levaram-lhe todos os que estavam enfermos e endemoninhados” (Mc 1, 32).

Em outras ocasiões Jesus é convidado a ir à casa do enfermo:

“O chefe da sinagoga rogou-lhe insistentemente dizendo: ‘Minha filhinha está morrendo. Vem e impõe-lhe as mãos, para que ela seja salva e viva'” (Mc 5,23s);

“O funcionário real foi procurar Jesus e pedia-lhe que descesse e curasse seu filho, que estava à morte” (Jo 4,46).

A iniciativa do milagre não parte de Jesus, a não ser em poucos casos, nos quais o Senhor é movido por compaixão, como aconteceu na multiplicação dos pães:

“Tenho compaixão da multidão porque já faz três dias que está comigo e não tem o que comer” (Mc 8,2);

“O Senhor, ao ver a viúva de Naím, ficou comovido e disse-lhe: ‘Não chores'” (Lc 7,13).

A discrição de Jesus se revela na sua recusa de qualquer forma espetacular: realiza milagres longe da multidão (cf. Mc 7,33; 8,23). Manda que as pessoas beneficiadas se calem, embora esta ordem muitas vezes não seja respeitada pelos homens, que querem manifestar seu entusiasmo e louvar a Deus. De modo particular, Jesus rejeitava a exploração de seus milagres para fins políticos, como atesta o episódio da multiplicação dos pães: “Jesus, sabendo que viriam buscá-lo para fazê-lo rei, refugiou-se de novo a sós na montanha” (Jo 6,15).

2. CONFRONTO COM PORTENTOS EXTRA-EVANGÉLICOS  
O estilo dos milagres de Jesus contribui para diferenciar o Senhor Jesus dos magos e taumaturgos do paganismo, bem como dos piedosos (hasidim) judeus, famosos por seus prodígios.

Eis, por exemplo, um milagre atribuído a Honi, judeu devoto, quase contemporâneo de Jesus:

Honi era desenhista de círculos místicos. Um dia aconteceu que lhe disseram: “Reza para que a chuva comece a cair!” Ele rezou, mas sem resultado. Que fez então? Traçou no chão um círculo, pôs-se no meio e disse diante de Deus: “Senhor do universo, os teus filhos têm os olhos fixos em mim, como se eu fosse um familiar teu. Eu te juro pelo teu grande nome que não me moverei daqui enquanto não te compadeceres dos teus filhos”. Então começaram a cair gotas de chuva. Honi disse: “Não foi isto que eu pedi! Pedi aguaceiros capazes de encher cisternas, fossas e cavernas”. Então começou a chover a cântaros. Honi voltou à carga: “Não foi isto que eu pedi. Pedi chuva de bênçãos, de benevolência e de clemência”. Então começou a cair chuva como era de esperar. Cf. Michna Ta’anit 3,8.

A respeito de outro devoto judeu — Hanina ben Dosa — se conta o seguinte: “Enquanto Hanina ben Dosa rezava, uma serpente venenosa mordeu-o, mas ele continuou a rezar. As pessoas que o viram, afastaram-se e encontraram a mesma serpente morta com a boca aberta. Exclamaram então: “Ai do homem mordido pela serpente, mas ai da serpente que mordeu Hanina ben Dosa!” (Mishna y Ber 9a).

As notas típicas dos milagres de Jesus se evidenciam também pela consideração dos milagres atribuídos a Apolônio de Tiana.([1]) Eis um destes:

“A peste campeava em Éfeso. Apolônio, solicitado para intervir, foi rapidamente de Esmirna a Éfeso. Reuniu os efésios e disse-lhes: ‘Tende coragem! Hoje deterei a peste’. Levou então os efésios para o teatro, onde viram um velho mendigo que piscava os olhos artificiosamente. Apolônio mandou aos efésios que o apedrejassem. Quando começaram a atirar pedras, o mendigo que piscava os olhos, pôs-se a lançar olhares terríveis e a mostrar olhos inflamados. Diante disto, os efésios tomaram consciência de que era um demônio e o apedrejaram com tanta violência que em pouco tempo ele caiu recoberto por grande multidão de pedras. Pouco depois, Apolônio mandou que fossem retiradas as pedras e averiguassem o animal que tinham morto. Os efésios descobriram o corpo que eles julgavam ter esmagado, e encontraram não o homem que desaparecera,mas um cão semelhante a um lobo tão grande quanto um dos maiores leões” (Vie d’Apollonius de Tyane, par Philostrate, t. IV, Amsterdam, M.M. Rey 1779, p. 90s).

Não é necessário frisar como diferem, por sua simplicidade e dignidade, os relatos evangélicos dos relatos de milagres atribuídos aos personagens atrás mencionados.

3. HISTORICIDADE DOS MILAGRES DE JESUS
Uma das questões mais candentes que hoje se ponha a respeito dos milagres de Jesus, é precisamente a da sua historicidade; a crítica racionalista tem na conta de impossível a realização de algum milagre.

A propósito observamos:

3.1. Considerações gerais  
Os milagres estão intimamente associados à missão de Jesus, a tal ponto que, negados os milagres, se nega a própria identidade de Jesus. Os Apóstolos, desde as suas primeiras pregações, apresentaram Jesus como autor de milagres. Assim no dia de Pentecostes São Pedro se referia a Jesus como “aprovado por Deus com milagres, prodígios e sinais… como bem sabeis” (At 2,22). Depois, em casa de Cornélio, o mesmo Pedro anunciava que “Deus ungiu Jesus com o Espírito Santo e com poder; ele passou fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo diabo, porque Deus estava com ele” (At 10,38). De resto, os milagres ocupam tal espaço nos Evangelhos e estão de tal modo inseridos na trama da missão de Jesus que é impossível tê-los como inventados e artificiosamente atribuídos a Jesus; sem os milagres não se explicariam a admiração e o entusiasmo que Jesus suscitou desde o início de sua missão pública. Jesus falou mediante palavras e sinais, como bem dá a entender Mateus ao sintetizar a vida pública de Jesus: “Jesus percorria todas as cidades e aldeias ensinando nas suas sinagogas, pregando o Evangelho e curando todas as doenças e enfermidades” (Mt 9,35; cf. 4,23).

A realidade dos milagres de Jesus não foi contestada nem pelos seus adversários; apenas diziam estes que Jesus efetuava tais coisas pelo poder de Satanás; foi, por exemplo, o que se deu logo depois da cura do endemoninhado cego e mudo, segundo Mt 12,24: “Ele expulsa demônios por Beelzebu, príncipe dos demônios”. A notícia da atividade taumatúrgica de Jesus se encontra até mesmo no Talmud da Babilônia (século VI d.C), onde se diz que Jesus foi executado na vigília de Páscoa como mago e sedutor: “Ele (Jesus) foi levado para fora da cidade a fim de ser apedrejado, porque praticou a magia e seduziu Israel” (Sanhedrin 43a). Essa magia não é senão o nome dado a milagres realizados por Jesus. Raciocinando serenamente, podemos dizer que a acusação de pactuar com Satanás e praticar a magia não pode ter sido forjada pelas comunidades cristas, pois depõe contra Jesus.   Deve-se ponderar que os primeiros pregadores do Evangelho falavam a gente que tinha conhecido Jesus e que poderia contestar qualquer falso título de glória atribuído a Jesus.

3.2. Critérios de autenticidade histórica  
Os críticos estabeleceram alguns critérios que servem para comprovar se determinado episódio do Evangelho é ou não autenticamente histórico.

1) Critério do múltiplo testemunho
Segundo este critério, pode-se ter como autêntico todo milagre que seja atestado por fontes diversas independentes entre si. É o caso, por exemplo, da multiplicação dos pães e dos peixes, relatada pelos Sinóticos e também por São João (que segue tradição diferente da Sinótica): Mt 14, 13-21; Mc 6,32-44; Lc 9, 10-17; Jo 6,1-13. É também o caso da cura do servo do centurião (Mt 8,5-13; Lc 7,1-10; Jo 4,46-54) e da caminhada de Jesus sobre as águas (Mt 14,25-27; Mc 6,48-50; Jo 6,18-20). É o caso outrossim da pesca milagrosa referida por Lucas (5,3-11) e João (21,1-6)… Isto não quer dizer que os milagres relatados por um só dos evangelistas não sejam históricos, pois outros critérios podem garantir autenticidade; o do múltiplo testemunho não é o único.

Este critério é especialmente válido quando entre os diversos testemunhos há um acordo substancial, mas existem pequenas diferenças nos pormenores e na interpretação do milagre: essas pequenas diferenças vêm a ser sólido argumento em favor da historicidade da narrativa, como geralmente afirmam os historiadores. Com efeito; uma identidade muito exata quanto ao modo de narrar é algo de artificial e “encomendado”. Exemplo dessa concórdia substancial com divergências acidentais é o episódio da cura do epilético narrada pelos três Sinóticos: Mt 17,14-20; Mc 9,14-29; Lc 9, 37-42. As três maneiras diferentes de narrar o mesmo episódio dependem da riqueza do acontecimento, que pode ser encarado sob mais de um aspecto.

2) Critério da descontinuidade
É sinal de autenticidade a diferença que possa haver entre o modo como Jesus fazia milagres e o modo como os faziam personagens contemporâneos ou anteriores a Cristo. Com efeito; se os milagres de Jesus fossem mera ficção, seguiriam o modelo dos portentos efetuados por Elias e Eliseu no Antigo Testamento ou por Pedro nos Atos dos Apóstolos. Ora os Profetas do Antigo Testamento realizavam prodígios depois de orar e invocando o nome de Deus.(2) Ao contrário, Jesus não rezava antes de um milagre e agia em seu nome próprio ou por sua própria autoridade: “Eu te ordeno: levanta-te!”, disse Ele ao paralítico (Mc 2,11). Quanto a Pedro, apelou para Jesus ao curar o paralítico à porta do templo: “Em nome de Jesus Cristo Nazareno, caminha!” (At 3,6). E a Enéias, paralítico havia oito anos, disse: “Enéias, Jesus Cristo te cura; levanta-te e arruma teu leito” (At 9,35). Somente Jesus ousava fazer milagres em seu nome próprio, como somente Ele ousava chamar Deus pelo apelativo carinhoso Abba.

(2)  1 Rs 17,7-16 Elias obtém farinha e azeita para uma viúva em tempo de penúria;  1 Rs 17,17-24 Elias ressuscita o filho de uma viúva;  1Rs 18,36-40 Elias faz descer fogo do céu;  2Rs 2, 19-25 dois milagres de Eliseu;  2Rs 4,32-37 Eliseu ressuscita o filho de uma viúva.

Uma vez estabelecida a historicidade dos milagres de Jesus, (3) resta examinar o significado que possam ter.

(3) Historicidade global; este ou aquele pormenor não vem ao caso.

4. MILAGRES DE JESUS: SIGNIFICADO
O próprio Jesus explicitou o significado dos seus milagres em três ocasiões de sua missão pública:

1)     Mt 11,2-6: João Batista manda perguntar a Jesus se Ele é o que há de vir ou o Messias. Jesus responde apontando seus milagres: “Os cegos recuperam a vista, os coxos andam, os leprosos são purificados e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados”. Com outras palavras: Jesus diz que está cumprindo as profecias messiânicas, que identificam o Messias mediante a realização de sinais prodigiosos; ver Is 26,19; 29,18s; 35, 5s; 61,1. Por conseguinte, segundo Jesus, os milagres vêm a ser os sinais de que Ele é o Messias.

2)     Mt 12,28; “Se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então o Reino de Deus já chegou até vós”. No caso, os milagres são os sinais de que o Reino de Deus já chegou à terra. Com efeito, dominando os males físicos (doenças e achaques) e morais (o pecado) dos homens, vencendo a própria morte, Jesus mostra que na sua pessoa e nas suas obras o Reino de Deus se faz presente e atuante neste mundo. Assim os milagres se inserem harmoniosamente na pregação de Jesus, comprovando-a e autenticando-a.

3)     Mt 11,20-24: “Jesus começou a verberar as cidades onde havia feito a maior parte dos seus milagres, por não se terem arrependido: ‘Ai de ti Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em ti e em Sidónia tivessem sido realizados os milagres que em vós se realizaram, há muito se teriam arrependido, vestindo-se de cilício e cobrindo-se de cinza. Mas eu vos digo: No Dia do Julgamento, haverá menos rigor para Tiro e Sidónia do que para vós. E tu, Cafarnaum, por acaso te elevarás até o céu? Antes, até o inferno descerás. Porque, se em Sodoma tivessem sido realizados os milagres que em ti se realizaram, ela teria permanecido até hoje. Mas eu vos digo que no Dia do Julgamento haverá menos rigor para a terra de Sodoma do que para vós”. — Destes dizeres se depreende que os milagres foram efetuados em Corazim, Betsaida e Cafarnaum precisamente para que tais cidades se convertessem, compreendendo a irrupção do Reino Messiânico. Os milagres são, pois, apelos ou sinais eloqüentes pelos quais Deus chama os homens a passar do pecado para uma vida nova.

Conseqüentemente os milagres evidenciam a identidade de Jesus. Ao vê-los, os homens espontaneamente perguntam: “Que é isso? Comanda até mesmo aos espfritos imundos e estes lhe obedecem!” (Mc 1,27) ou ainda: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?” (Mc 4,41). Algo de inédito aparece entre os homens, … e este inédito é o Messias assinalado por suas obras.   Este artigo muito deve ao Editorial “Storicità e Significato dei Miracoli di Gesú”, da revista La Civiltà Cattolica, no 3444, 18/12/1993, pp. 529-541.

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1 Apolônio de Tiana foi um filósofo pitagórico do século I d.C. Teria ficado praticamente ignorado se Filóstrato, no início do século III, não tivesse escrito a Vida de Apolônio, que certamente foi influenciada pelos escritos do Novo Testamento e apresenta Apolônio como herói e taumaturgo igual a Cristo.

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