Tag: Pai

XXVI Domingo do Tempo Comum – Ano A

Por Mons. Inácio José Schuster

26° domingo do Tempo Comum. No Evangelho de Mateus que hoje nos é proclamado, Jesus Se apresenta com nova parábola: Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, ele disse: “filho, vai trabalhar hoje na vinha.” O filho respondeu: “não quero”, mas depois mudou de opinião e foi. O pai dirigiu-se ao outro filho e disse a mesma coisa. Este respondeu: “sim, senhor”, mas não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai? O que por primeiro disse sim, mas depois não foi? À época em que Jesus pronunciou esta parábola, nos anos 20, bem podia representar as autoridades religiosas do Judaísmo. Disseram sim ao passado religioso de Israel, mas quando veio Cristo, à plenitude dos tempos, disseram não. O sim converteu-se em não. Na boca de Jesus, o filho que disse não, mas depois arrependeu-se e foi, podia representar os Judeus marginalizados e pecadores, sobretudo prostitutas e arrecadadores de impostos; normalmente ladrões. Estes converteram-se diante da pregação de João Batista e de Jesus, não todos, mas em boa parte. Esta parábola possui uma segunda chave de leitura na comunidade de Mateus. Depois da morte e da ressurreição de Jesus, o filho que disse não, mas depois mudou de idéia e foi, representa, agora, os pagãos que não receberam o Antigo Testamento, que não tinham lei, que não obedeceram a Moisés e aos profetas, mas disseram sim a Jesus Cristo, e abriram-se a Suas Palavras. E isto enquanto o outro filho, o que disse sim, mas depois não foi, representa o conjunto do Judaísmo que se fechou a Jesus Cristo, embora se tivesse, anteriormente, aberto a Moisés, e expulsou a Comunidade de Mateus de seu seio. Duas leituras possíveis; uma para a época de Jesus, anos 20 de nossa era; e outra para a época em que este Evangelho era escrito, pelos anos 85, também do primeiro século. Mas uma terceira leitura pode ser feita por nós. O que disse sim, e depois não vai, é aquele – e representa muitos de nós – cheio de retas intenções, cheio de bons propósitos, mas que nunca são colocados em prática. E estes são reprovados em um Evangelho, onde o que vale é a prática e não apenas aquele que diz Senhor; Senhor. E isto acontece enquanto se salva aquele que diz não, mas em um segundo momento arrepende-se e muda de opinião, isto é, aqueles que, depois de uma vida no pecado e afastados de Deus, atraídos pela graça, dizem sim e transformam-se em ótimos Cristãos e Católicos. A qual dos dois campos cada um de nós pertence?

 

NÃO FAÇAMOS DO PECADO UM PROJETO DE VIDA
Padre Paulo Ricardo (transcrição e adaptação da homilia dominical – canal Liturgia Diária)

Jesus, neste Evangelho, quer nos dar uma lição sobre o que é verdadeiramente ser um filho. Ele inicia Seu discurso falando a respeito de dois diferentes “tipos” de filhos. Um filho aceita o convite do pai para trabalhar na vinha. E responde: “Sim, pai. Eu vou!” Mas depois desobedece e não vai. O outro filho reage com má vontade diante de seu pai e responde: “Não, eu não vou!” Mas, depois, se arrepende e, de fato, vai trabalhar na vinha do pai. Qual dos dois filhos realizou a vontade do pai? Aquele que se arrependeu. Pois bem, é aqui que vemos como nós cristãos podemos enxergar a nossa vida. Não existem dois “tipos” de filhos de Deus, aqueles que são “pecadores, terríveis e condenados ao inferno” e aqueles que são “santos, irrepreensíveis e que irão para o céu”. Não! Os dois filhos pecaram. Os dois filhos, de alguma forma, desagradaram ao coração do pai. Só que com uma grande diferença. E essa diferença se encontra no arrependimento, numa disposição em mudar de mentalidade e voltar atrás. É aqui que vemos a diferença entre esses dois filhos. Por isso, em nosso dia a dia, nós cristãos não podemos ficar olhando para as pessoas que não frequentam a igreja, que não fazem a vontade de Deus, que estão em estado de desobediência, como se nós fôssemos melhores e disséssemos: “Vejam só aqueles pecadores… Nós, ao contrário, somos justos e irrepreensíveis!” Nada disso! Qual é a diferença entre o bom cristão – o bom filho de Deus – e aquele que é um pecador? A diferença está no fato de que o cristão se arrepende do seu pecado. Nossa reação natural seria dizer: “O bom cristão é aquele que não peca!” Mas, infelizmente, este “tipo” de filho de Deus não existe. Só há um Filho de Deus que jamais pecou: Jesus Cristo. E uma filha de Deus que jamais pecou: a Santíssima Virgem Maria. Os outros todos pecaram. Portanto, todos nós vivemos do arrependimento. O importante para nós é sabermos que – embora pequemos – não podemos fazer do pecado um projeto de vida. Aqui é que está a grande diferença entre um bom cristão e um pecador. O bom cristão também peca, assim como o homem pecador. Mas o bom cristão odeia o próprio pecado. O bom cristão está disposto a chorar todos os dias o seu pecado e a se arrepender. Um santo chamado Isaac de Nínive, certa vez, escreveu: O homem que chora os próprios pecados é maior do que aquele que ressuscita os mortos. Ou seja, um santo que realizasse grandes prodígios, que conseguisse até levantar os mortos, seria um santo “menor” do que aquele que chorasse os próprios pecados. Porque, ao chorar os próprios pecados, estamos fazendo mais do que ressuscitar corpos. Estamos “ressuscitando almas”! Com o arrependimento nós ressuscitamos para a vida nova, a vida eterna. De nada adianta ressuscitarmos os mortos que, vivendo esta vida terrena, poderão se perder e pegar o caminho do inferno… O que precisamos é ressuscitar a alma. Ressuscitar homens que, mortos para Deus pelos pecados cometidos, agora vivem. E vivem abertos à vida eterna. A ressurreição que queremos é a ressurreição da alma. É evidente, é claro, que em nada negamos a importância do corpo e a ressurreição final – que será também dos corpos – mas, aqui, Santo Isaac de Nínive coloca a centralidade da nossa fé nesta realidade: o cristão é aquele que se arrepende de seus pecados e que não fez de seu pecado um projeto de vida. Afinal de contas, é isso que nossa sociedade, desgraçadamente, prega: “O pecado é algo ‘normal’, comum, todo o mundo faz… Por que não vamos também fazer?” E o homem fica ali, contorcendo-se feito um porco na lama, no meio da lavagem, quando faz do pecado um projeto de vida. Como verdadeiros cristãos, devemos tomar o firme propósito de chorar os nossos pecados todos os dias, de fazer o nosso exame de consciência diante de Deus e de odiar o pecado cometido. É verdade, nós pecamos. Mas o Senhor quer nos tirar desta “fossa”, deste fosso do pecado e nos dar vida nova e ressurreição. É assim, e por essa razão, que Jesus diz que os pecadores – como os publicanos e as prostitutas que aceitaram a pregação de João Batista – precederiam aos fariseus no Reino dos Céus. Não tanto porque os pecadores entram por si mesmos. Nada disso. Mas porque existem dois tipos de filhos – ambos pecadores – em que um se arrepende e o outro não. Esta é a diferença. Arrependamo-nos, portanto! Choremos nossos pecados e “voltemos às costas” para eles. Não façamos do pecado um projeto de vida e abracemos a vontade do nosso Pai celeste. Se cairmos, nos levantemos sempre. O importante é odiar o próprio pecado.

 

26º Domingo do Tempo Comum
Mt 21,28-32: “Os cobradores de impostos e as prostitutas entram antes no Reino de Deus do que vós”

28Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, disse-lhe: – Meu filho, vai trabalhar hoje na vinha. 29Respondeu ele: – Não quero. Mas, em seguida, tocado de arrependimento, foi. 30Dirigindo-se depois ao outro, disse-lhe a mesma coisa. O filho respondeu: – Sim, pai! Mas não foi. 31Qual dos dois fez a vontade do pai? O primeiro, responderam-lhe. E Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo: os publicanos e as meretrizes vos precedem no Reino de Deus! 32João veio a vós no caminho da justiça e não crestes nele. Os publicanos, porém, e as prostitutas creram nele. E vós, vendo isto, nem fostes tocados de arrependimento para crerdes nele.

Antes de contemplarmos a parábola, vale a pena verificar porque Jesus pronuncia esta parábola? – Jesus, está no Templo ensinando aos discípulos, quando chegam o príncipe dos sacerdotes (que representa o poder religioso-ideológico) e os anciãos do povo (que representam o poder econômico) e começam a questioná-lo, testando a Sua autoridade, mas Jesus responde com uma pergunta que os deixa embaraçados (cf. Mt 21,23-27). Logo após, Jesus pronuncia esta parábola. A parábola dos dois filhos só aparece no Evangelho de Mateus, e tem como idéia básica a “justiça do Reino”. Jesus está em Jerusalém e, mais exatamente, no Templo. Lá, Ele contará três parábolas, sendo a primeira a “parábola dos dois filhos” (as outras duas irão aparecer nos próximos domingos: a “parábola dos vinhateiros homicidas” e “parábola dos convidados para as bodas”. Na parábola de hoje: O primeiro filho representa os pecadores e os marginalizados que aceitam a mensagem de Jesus e se comprometem com a proposta da justiça do Reino. O próprio evangelista Mateus está entre essas categorias sociais, pois era cobrador de impostos. As prostitutas e os cobradores de impostos constituíam os grupos sociais mais detestados pelas elites religiosas e políticas do tempo de Jesus. Os donos do saber e da religião haviam decretado que essas categorias de pessoas não teriam parte no mundo futuro – exatamente o contrário de tudo o que Jesus ensinou. Cobradores de impostos e prostitutas, portanto, são a síntese da marginalidade, considerados pecadores públicos. O segundo filho recorda as “pessoas de bem”, maquiadas de religiosidade e “justiça” – prontas a se escandalizar e se levantar em defesa de suposta verdade, mas presas fáceis do dinheiro e crentes de que estavam cumprindo a vontade de Deus. Desde o começo do Evangelho de Mateus, os chefes dos sacerdotes estão ao lado de Herodes, que pretende matar Jesus (cf. 2,3-4). Herodes morreu em seguida, mas os chefes dos sacerdotes, anciãos do povo e membros do sinédrio, continuarão e serão os responsáveis diretos pela morte de Jesus. A luz da convocação de Jesus como tem sido a nossa resposta hoje: Como a do primeiro filho? Ou como a do segundo? Após a apresentação da parábola, Jesus cita João Batista, que veio à Sua frente anunciar a justiça, ensinando o caminho da santidade, pregando a conversão. Os escribas e fariseus não creram no Batista, apesar de se dizerem fiéis aos planos de Deus. Perguntamos: Não são estes representados pelo filho que diz que vou, mas não vai? O Senhor quer colocar em evidência: a penitência e a conversão, que nos faz retornar ao caminho de santidade, ainda que estejamos durante muito tempo afastado de Deus. Esta riqueza podemos experimentar na Iniciação Cristã de Adultos, pelo testemunho dos vários catecúmenos, e quão consolados ficamos, após um ano de ensino e troca de experiência com os irmãos da fé, vê-los depois engajados na Comunidade. Esta parábola, também é um grave alerta a todos nós que nos julgamos seguidores de Jesus. Não raro, há muita gente por aí que, embora não freqüente igrejas e não se diga cristã, tem um sentido e uma prática de justiça muito mais acurada que as nossas. Exatamente como no tempo de Jesus, onde no caso desta parábola, o sentido da justiça se encontrava precisamente naqueles que nada tinham a ver com a religião (publicanos e prostitutas). Que saibamos discernir em nossas vidas aquilo que mais agrada a Deus?

 

As leituras bíblicas da liturgia deste domingo apresentam-nos dois temas. Em primeiro lugar, a ideia que se encontra no texto evangélico e na primeira leitura: não basta somente as boas intenções, mas também as obras. Em segundo lugar, a segunda leitura convida-nos a imitar o exemplo de humildade que nos é dado por Jesus Cristo. No texto evangélico deste domingo, Jesus diz-nos que as palavras e as belas promessas pouco valem se não são concretizadas em ações. Jesus conta esta parábola aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo que viviam na hipocrisia. Honravam a Deus com os lábios, mas os seus corações estavam muito longe Dele (cf. Is 29, 13). Apesar disso, estavam convencidos que eram bons. Jesus não aprova o seu modo de proceder. Assíduas vezes, os cristãos caiem ou podem cair no mesmo erro. Participamos na Missa Dominical, fazemos as nossas orações…, mas a nossa fé, a nossa celebração, não se “nota” no dia-a-dia. Reduzimos a identidade cristã a uma série de práticas que realizamos na intimidade e em determinados momentos, nunca sendo o cerne da nossa vida. As nossas celebrações, além de deixar uma série de ideias, devem também deixar uma marca nos corações dos fiéis. Experimentar que Deus nos ama, que nos quer salvar, perceber o resplendor da vida divina… será o melhor caminho para que a fé transcenda da palavra para as obras, ou seja, para que a fé deixe de ser somente uma série de sentenças que acreditamos, mas também que se converta num modo de viver. As primeiras comunidades cristãs, especialmente a de Filipos, tinham uma certa dificuldade em viver a unidade dos seus membros, ou seja, em viver na fraternidade. Surgiam entre eles algumas rivalidades, discórdias, defesa dos próprios interesses… Uma série de comportamentos que também acontecem entre nós. As nossas comunidades não são muito diferentes das de então. A segunda leitura apresenta-nos o modo de proceder para ultrapassar estes problemas: “Não façais nada por rivalidade nem por vanglória; mas, com humildade, considerai os outros superiores a vós mesmos, sem olhar cada um aos seus próprios interesses, mas aos interesses dos outros”. Além disso, não podemos esquecer, como nos recorda S. Paulo aos Filipenses, de que “o que nos une é o Espírito”, o qual nos orienta a viver de modo diferente, seguindo o exemplo de Jesus Cristo, narrado na segunda parte desta leitura. Sugerimos que seja proclamada a forma longa desta leitura para que se apresente a nossa referência: Jesus Cristo, o qual nos deixou um exemplo a imitar. A graça divina que hoje pedimos na oração coleta (“infundi sobre nós a vossa graça”), ajudar-nos-á na nossa missão. Podemos cair na ideia de que o convite à conversão é algo próprio da Quaresma. Em todo o ano litúrgico, somos sempre convidados a reorientar a nossa vida para Deus. A primeira leitura convida-nos a isto mesmo para podermos alcançar a salvação: “Quando o pecador se afastar do mal…, salvará a sua vida”. Também o evangelho nos fala de arrependimento, de mudança de vida: “arrependeu-se e foi… e vós… não vos arrependestes”. O convite à conversão não pode ser esquecido nas celebrações do Tempo Comum, valorizando, por isso, o ato penitencial, com o qual iniciamos cada celebração eucarística.

 

26º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha(MG)

“Senhor, tudo o que fizestes conosco, com razão o fizestes, pois pecamos contra vós e não obedecemos aos vossos mandamentos. Mas honrai o vosso nome, tratando-nos segundo vossa misericórdia”(cf. Dn 3,31.29s.43-42).

O arrependimento que é colocado nesta celebração deste domingo, dentro do mês da Bíblia, nos leva a uma reflexão necessária: todo erro é anulado com o arrependimento, nos dando a oportunidade de ver nossa vida reaberta para a graça de Deus, para a construção de redes de comunidades, e mais do que tudo isso, para a vivência de nossa fé no bem do tempo de Deus, o tempo da graça, da misericórdia, da acolhida e da gratuidade porque somos conclamados a refletir sobre a misericórdia de Deus, porque TENDE EM VÓS OS MESMOS SENTIMENTOS DE JESUS CRISTO! Meus irmãos e minhas irmãs, A conversão e a graça são os temas da liturgia deste domingo, que de uma maneira paulatina se aproxima do final do ano litúrgico, desenhando como sempre a maior nitidez da perspectiva final. Na primeira leitura de hoje, tirada no livro de Ezequiel(cf. Ez 18,25-28) Deus se defende da acusação de injustiça. Acusação, por duas razões: quando um “justo” se transvia ele se pode perder e quando um malvado se converte, ele se salva. Ora, a lição desta perícope Jesus a expõe, uma vez mais, em forma de uma parábola, própria de Mateus: a parábola dos dois filhos do agricultor. O do “sim, senhor”, que não faz o que promete, e a do “não”, que se arrepende e faz, apesar de ter recusado. Qual dos dois faz o que o pai deseja? O último. Então, é este o “justo”, o que vai bem com Deus. E, para explicar mais uma vez que “os últimos serão os primeiros”, Jesus ensina aos “bons” – os fariseus – que os publicanos e as meretrizes lhes precederão no Reino de Deus. Pois estes acreditaram na pregação da penitência de João Batista, e se converteram. Eles não. Irmãos e Irmãs, Jesus Cristo não foi sim e depois não, mas sempre foi sim (Cf. 2Cor 1,19). A religião das aparências e a religião da responsabilidade é uma vertente de nossa reflexão neste domingo. A parábola de hoje encontra-se naquelas que Jesus fez na cidade santa, quando o diálogo se tornou duro e penoso. Todos nós somos chamados a trabalhar no Reino e pelo Reino de Deus. Os fariseus e os escribas dividiam os homens em duas classes: os que eles consideravam bons e os que eles consideravam maus. Ou seja: em santos e pecadores, nas categorias muito recontes nos dias de hoje. Bons eram aqueles que cumpriam formalmente as 366 leis judaicas; eram aqueles que faziam parte da elite, daqueles que tinham posses, daqueles que cumpriam rituais e não viviam a essência do projeto de Javé, o Salvador. Maus eram todos os outros, desde os gentios até os que exerciam profissões incompatíveis com os horários da prática da lei – como pastores e pescadores, por exemplo. A imensa maioria do povo estava nesta segunda classe, por serem os pobres e os excluídos. Os dois filhos da parábola representam as duas classes sociais. A vinha é o que Jesus chamou de “Reino dos Céus”, ou seja, um modo de viver na presença de Deus. O dono deste Reino é Deus, que convida a ambos os filhos para adentrar neste Reino. A classe que se julgava eleita e santa diz “sim”. Mas é um “sim” formal, da boca para fora, sem gerar compromisso real. Não vai para a vinha. A outra classe, a dos pecadores, pelo pecado dizem “não”, mas se arrependem do pecado e vão para a vinha, isto é, aceitam Jesus e seus ensinamentos, se convertem e participam do novo povo de Deus, da nova vinha do Senhor, do seguimento do Senhor da Vida. Jesus toma na parábola dois tipos de maus: as prostitutas, consideradas as pecadoras públicas, se pegas em flagrante; e o publicano, que era o cobrador de impostos, detestado pela elite, porque trabalhava para os romanos, povo opressor. Jesus se dirige tanto para uma classe como para outra classe. Meus prezados irmãos, Palavras e obras devem se cobrir, porque Jesus com esta parábola ataca frontalmente aqueles que seguem a religião dos rituais, formalistas, tradicionalistas, que não gera um compromisso interior, comunitário, pastoral, evangelizador. O fiel pode até no primeiro momento dizer não, mas depois com todo empenho se embrenha de corpo e alma na vivência do seguimento cristão, gerando compromisso e vivência pastoral. Mateus como bom publicano que foi é o único a relatar esta parábola. Jesus defendia com esta parábola o seu comportamento misericordioso, que escandalizava, defendia os pobres e os doentes que o cercavam e condenava a atitude dos fariseus de dizer com a boca e não praticar com a vida. E a ambos convidava a trabalhar na vida, mediante a conversão, a mudança de vida, unindo fé e vida, vivência pastoral com compromisso com aqueles que vivem à margem da sociedade. Jesus é o modelo da verdadeira religião, aquele que cumpriu plenamente à vontade do Pai morrendo na Cruz pela remissão de todo o gênero humano. Jesus se torna o verdadeiro modelo de cristão, cumprindo toda à vontade do Pai. Meus irmãos e irmãs, A Segunda Leitura nos chama a uma profunda conversão, a recebermos em nós o espírito de Jesus Cristo que, em verdadeira obediência ao plano do amor do Pai, se esvaziou por nós, tomando a figura de escravo, do último dos homens. Se Jesus se esvaziou de sua justa grandeza, a glória divina, porque não nos esvaziaríamos de uma grandeza enganadora, a justiça que nos atribuímos aos nossos próprios olhos. Ou, de qualquer outra forma de grandeza passageira, como os bens materiais, a honra, a auto-suficiência, para sermos completamente doados aos nossos irmãos. A Segunda Leitura(cf. Filipenses 2,1-11) é um verdadeiro cântico de louvor: “Tende em vós o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus. Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte e morte de cruz”(cf. Fl 2, 5-8). Neste domingo temos a oportunidade de colocar no concreto de nossas caminhadas a integração fé-vida. O sim de nossa fé católica e apostólica se torna o sim de nossa vida cotidiana: a palavra e a confissão dos nossos lábios se tornam ação e gesto das nossas mãos e de nossos pés. Todos somos convidados a nos ajoelharmos no sacrário de nossas caminhadas para adorar a Jesus Cristo, modelo da autenticidade cristã e caminho seguro para o verdadeiro relacionamento com Deus, porque a obediência pode ser considerada como a sabedoria e a justiça. Obediência ao projeto da Salvação em Jesus Cristo, que por amor morreu na Cruz. Obediência que é amor gratuito, de conversão diária com a plena participação no mistério do Cristo, no mistério da Cruz Redentora, obediência salvadora que nos credencia para o Reino das Bem-Aventuranças.

 

“Diante de Deus não contam as palavras, mas o agir”
25/09/2011 

Friburgo – Diante de Deus “não contam as palavras, mas o agir, a ação de conversão e de fé”. Assim, Bento XVI comentou a parábola dos dois filhos convidados pelo pai a trabalhar na vinha, no Evangelho de Mateus. Diante de uma multidão de quase cem mil fiéis, com os bispos provenientes de todas as dioceses da Alemanha, o Papa presidiu nesta manhã no aeroporto de Friburgo a Santa Missa e a oração do Angelus no último dia desta 21ª viagem apostólica.

“Não são as palavras que contam, mas o agir, os atos de conversão e de fé”. O perigo é o de uma “religiosidade rotineira”, em que “Deus já não inquieta”. Ora – segundo as palavras de Jesus, traduzidas em linguagem do nosso tempo – “os fiéis rotineiros, que na Igreja já só conseguem ver o aparato, sem que o seu coração seja tocado pela fé” estão mais longe do Reino de Deus do que “agnósticos que se mantêm inquietos por causa da questão de Deus” e do que “pessoas que sofrem por causa dos nossos pecados e sentem desejo dum coração puro”. É importante que a palavra de Jesus nos “abale” a todos, considera o Papa. Em última análise, a renovação da Igreja só poderá realizar-se através da disponibilidade à conversão e duma fé renovada”.

“A palavra de Jesus deve fazer-nos refletir; antes, deve abalar a todos nós. Isto, porém, não significa de modo algum que todos quantos vivem na Igreja e trabalham para ela se devam considerar distantes de Jesus e do Reino de Deus. Absolutamente, não! Antes, este é o momento bom para dizer uma palavra de profunda gratidão a tantos colaboradores, contratados ou voluntários, sem os quais a vida nas paróquias e na Igreja inteira seria impensável”.

Misteriosamente, por detrás dos dois filhos da parábola do Evangelho deste dia, perfila-se um terceiro filho – observou o Papa, referindo a Jesus, “o Filho Unigênito de Deus, que aqui nos reuniu a todos”. Como tão bem exprime a Leitura aos Filipenses, em humildade e obediência, Jesus cumpriu a vontade do Pai, morreu na cruz pelos seus irmãos e irmãs e redimiu-nos da nossa soberba e obstinação. É Jesus o ponto de referência para todos os cristãos, o critério permanente para a Igreja. “A vida cristã deve medir-se continuamente pela de Cristo: Tende entre vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus”.

“Queridos amigos, com Paulo ouso exortar-vos: Tornai plena a minha alegria, permanecendo firmemente unidos em Cristo! A Igreja na Alemanha vencerá os grandes desafios do presente e do futuro e continuará a ser fermento na sociedade, se os sacerdotes, as pessoas consagradas e os leigos que acreditam em Cristo, na fidelidade à vocação específica de cada um, colaborarem em unidade; se as paróquias, as comunidades e os movimentos se apoiarem e enriquecerem mutuamente; se os batizados e os crismados, em união com o Bispo, mantiverem alta a chama de uma fé intacta e, por ela, deixarem iluminar a riqueza dos seus conhecimentos e capacidades”.

A Igreja na Alemanha continuará a ser uma bênção para a comunidade católica mundial, – sublinhou Bento XVI – se permanecer fielmente unida aos Sucessores de São Pedro e dos Apóstolos, se tiver a peito de variados modos a cooperação com os países de missão e se nisto se deixar «contagiar» pela alegria na fé das jovens Igrejas.

E o Papa concluiu, referindo outro apelo de São Paulo aos Filipenses, à humildade. “A vida cristã – sublinhou – é uma «existência-para»: um viver para o outro, um compromisso humilde a favor do próximo e do bem comum”.

“Amados fiéis, a humildade é uma virtude que hoje não goza de grande estima. Mas os discípulos do Senhor sabem que esta virtude é, por assim dizer, o óleo que torna fecundos os processos de diálogo, fácil a colaboração e cordial a unidade. Humilitas, a palavra latina donde deriva «humildade», tem a ver com humus, isto é, com a aderência à terra, à realidade. As pessoas humildes vivem com ambos os pés na terra; mas sobretudo escutam Cristo, a Palavra de Deus, que ininterruptamente renova a Igreja e cada um dos seus membros”.

 

“OS PUBLICANOS E AS PROSTITUTAS VOS PRECEDERÃO…”
Por Gabriel Frade, professor de Liturgia e Sacramentos
26º Domingo do Tempo Comum – Ano A
Leituras: Ez 18, 25-28; Sl 24(25), 4bc-5.6-7.8-9; Fl 2, 1-11; Mt 21, 28-32
“Em verdade vos digo que os publicanos e as prostitutas vos precederão no Reino de Deus” (Mt 21, 31)

A liturgia deste 26º domingo do Tempo Comum continua nos apresentando de modo particular a misericórdia e o amor de Deus pelo homem. A primeira leitura, tirada do livro do profeta Ezequiel, apresenta a palavra de Deus comunicada por meio do profeta e dirigida ao povo de Deus que se encontra na amarga experiência do exílio babilônico. Diante do sofrimento brota uma acusação: “O modo de agir do Senhor não é justo!” (Ez 18, 25). Israel apresenta-se como imagem da condição humana, a qual, diante de um sofrimento aparentemente injusto, procura pleitear sempre a justiça num plano distributivo, isto é, restaurar aquilo que é devido conforme a necessidade de cada um. Certamente, do ponto de vista humano, trata-se de um princípio justo. Afinal, em sua concepção, Israel tinha motivos para se lamentar: ele era o povo escolhido; havia construído um Templo no qual dia após dia se esmerava em prestar um culto ao Deus verdadeiro. Por que Deus fora tão injusto? Por que Israel estava no exílio? Israel deve fazer um caminho para compreender que Deus não fora injusto, ele não abandonara jamais o seu povo; quando muito, o que houve foi justamente o contrário. De fato, já o profeta Jeremias alertara que não bastava Israel possuir um Templo e ter uma conduta religiosa expressa através de culto suntuoso (cf. Jr 7, 4ss). Deus deixava claro através desse profeta que era necessário que o Templo e o culto também se refletissem diretamente nas atitudes concretas do povo, especialmente para com os mais fracos da sociedade. Fica evidente que Israel conheceu sua ruína, em boa parte, porque caiu na tentação dos caminhos fáceis: fechou-se numa liturgia ritualista; reduziu o Templo a um mero fetiche, a um objeto mágico, e o culto que deveria ser a expressão da aliança com Deus, tonou-se apenas um culto de palavras vazias (“Este povo me honra com os lábios…” Is 29,13). Israel ao proceder de forma artificial acabara por enveredar pelos caminhos dos injustos e dos ímpios (cf. Sl 1). Quantas vezes não estamos também nós nesse caminho? Quantas vezes ao rezar na liturgia o Pai-nosso, por exemplo, as palavras são pronunciadas por nossa boca apenas como uma fórmula vazia de sentido. Quantas vezes invertemos em nosso coração a petição “seja feita a vossa vontade” ao pensarmos em nosso íntimo: “Sim, mas na verdade, ó Deus, o que eu quero mesmo é que o Senhor faça a minha vontade!” (cf. Lc 22, 42)? Quantas vezes não vivemos num divórcio prático entre celebração e vida? Os profetas, de modo geral, dentre tantas denúncias feitas dos desvios do povo em relação a Deus, evidenciaram o fato das grandes liturgias de Israel terem se esvaziado de conteúdo (cf. Os 6,6) e serem realizadas sem aquilo que realmente importava: o amor a Deus e o amor ao próximo. Mais uma vez queremos lembrar aqui a afirmação profética do magistério da Igreja: “o gesto litúrgico não é autêntico se não implica um compromisso de caridade, um esforço sempre renovado por ter os sentimentos de Cristo Jesus, e para uma contínua conversão”. (Medellín, 9, 3). Por isso mesmo Deus coloca a questão sob outra perspectiva: “Não será antes o vosso modo de proceder que não está certo?… ao fazer o mal, é em virtude do mal que [o ímpio] morre…” (v. 25b-26). Parece que assim como Israel, também nós temos que aprender a praticar aquilo que realmente importa para Deus: o caminho do direito e da justiça seja para com o próximo, seja para com Deus (v. 28). Para aprender esse caminho, é preciso um toque de graça da parte de Deus: “Tudo o que fizeste conosco, com razão o fizestes, pois pecamos contra vós e não obedecemos aos vossos mandamentos. Mas honrai o vosso nome, tratando-nos segundo vossa misericórdia” (Antífona de entrada). Por isso o salmista apresenta-nos a sua súplica que se torna pedido de toda a comunidade: “Mostra-me teus caminhos, Senhor, ensina-me tuas veredas” (Salmo responsorial; tradução da Bíblia de Jerusalém). Mais uma vez nos deparamos com a metáfora do “caminho” para indicar a relação filial entre Deus e o seu povo. Um caminho pontilhado de altos e baixos, de desvios e de afastamentos de Deus; mas também um caminho de gratuidade, de perdão e de misericórdia por parte de um Deus que desce (é o tema da segunda leitura) ao encontro do homem para elevá-lo até si: “Ó Deus, que mostrais vosso poder sobretudo no perdão e na misericórdia, derramai sempre em nós a vossa graça, para que, caminhando ao encontro das vossas promessas, alcancemos os bens que nos reservais” (Oração do dia). Esse caminho de encontro é garantido pelo bem por excelência que Deus nos reservou: o Espírito, concedido por meio de seu Filho (cf. Jo 14; 15; 16) e que habita em todo batizado. No Evangelho, Jesus propõe aos judeus a parábola dos dois filhos chamados a trabalhar na vinha. A imagem usada por Jesus é uma referência à situação de Israel e da Igreja, o novo Israel. Na parábola Jesus indaga seus ouvintes sobre qual dos dois irmãos havia realizado a vontade paterna: aquele que declinara o convite do Pai – situação de envergonhar um Pai e totalmente reprovável no filho, especialmente no contexto Palestinense –, mas que ao final, tomado pelo remorso fora trabalhar, ou o outro, que havia concordado com o pai verbalmente, evitando problemas e mantendo uma “fachada” de obediência, mas que de fato decide não ir trabalhar. Todos responderam de modo unânime: o filho que, apesar de ter se pronunciado negativamente e fora até a vinha para o trabalho, este sim, cumprira a vontade do pai. É muito interessante esta imagem da parábola. Como se sabe, são as ações que revelam o mais íntimo de nosso ser e não as palavras. É o que Jesus, de certo modo, também nos mostra neste relato. Aqui vale a pena um pequeno parêntese: curiosamente estamos nos aproximando das eleições das esferas governamentais. Seria muito interessante utilizar este método ofertado pelo evangelho no momento de escolhermos nossos candidatos: já vimos que quando se trata de discursos, de palavras, os nossos políticos, em sua grande maioria, são imbatíveis. Para separar o joio do trigo é preciso olhar não para os belos discursos, mas para a prática de vida de nossos candidatos e escolher aqueles que apresentaram a maior coerência entre a fala e a ação concreta visando o bem comum. Em se tratando da revelação do ser, Cristo revelou-se como caminho que conduz ao Pai (Cf. Jo 14, 6) não só em palavras, mas com a própria vida, de fato. Esse aspecto da total revelação de Deus em Jesus na sua auto-doação ao Pai nos é mostrado de modo admirável pelo apóstolo São Paulo na segunda leitura. De fato, Ele o Cristo Senhor que “estando na forma de Deus (tradução da Bíblia de Jerusalém) não usou de seu direito de ser tratado como um deus, mas se despojou, tomando a forma de escravo. Tornando-se semelhante aos homens… abaixou-se, tornando-se obediente até a morte” (Fl 2, 6-8). “Nascendo na condição humana, renovou inteiramente a humanidade. Sofrendo a paixão, apagou nossos pecados. Ressurgindo, glorioso, da morte, trouxe-nos a vida eterna. Subindo, triunfante, ao céu, abriu-nos as portas da eternidade” (Prefácio IV dos Domingos do Tempo Comum). É um grande mistério, pois abaixando-se, o Cristo eleva-se ao céu abrindo “para nós a fonte de toda bênção” (cf. Oração sobre as oferendas). Em Cristo, Deus desceu das alturas e assumiu a baixeza de nossa condição humana. Em tudo semelhante a nós, fora o pecado, o Cristo elevou nossa humanidade à glória da Santíssima Trindade abrindo-nos o caminho para a divindade: “Nisto conhecemos o amor de Deus: Jesus deu sua vida por nós; por isso nós também devemos dar a nossa vida pelos irmãos” (antífona da comunhão) “Em verdade vos digo: os publicanos e as prostitutas vos precederão no Reino de Deus. Pois João veio a vós, num caminho de justiça e não crestes nele”. (Mt 21, 31-32). Jesus proclama a grande misericórdia de Deus. Em todo seu ministério Jesus se fez próximo àqueles que viviam fora dos padrões religiosos da sociedade judaica (cf. Mt 11, 19; Lc 7, 34; Mc 2, 16). Como terão soado essas palavras de Jesus aos ouvidos dos judeus? Certamente não terão sido acolhidas com tranquilidade, pois Jesus foi simplesmente “politicamente incorreto” dentro das convenções religiosas judaicas de então – e, quem sabe, talvez também em relação às nossas convenções de hoje… Jesus com suas palavras proclama que Deus não olha para a religião ritualista, mas sim para o essencial, para o coração; afinal, – como diria o Pequeno Príncipe, personagem da obra magistral de Antoine de Saint-Exupéry – “só se vê bem com o coração”! Jesus certamente não se opõe aos ritos, nem à religião, mas ele chama a atenção para o que é central: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia, a fidelidade. Eis o que era preciso praticar em primeiro lugar, sem contudo deixar o restante” (Mt 23, 23). Jesus também não quer dizer que Deus ama o pecado cometido pelas prostitutas e pelos publicanos, afinal o salário do pecado é morte (cf. Rm 6, 23). Jesus louva, ao invés, o fato destes pecadores arrependidos terem reconhecido a presença de um Deus misericordioso em suas vidas, coisa que os sacerdotes e doutores judeus, em sua pretensa sabedoria e santidade “conquistada” à força do exercício de ritos não conseguiram reconhecer. Diante deste Evangelho é possível que nos perguntemos: onde hoje está minha vida refletida? Nos pecadores arrependidos e desejosos de experimentar o Deus do perdão e do amor? Ou será que minha vida está refletida numa conduta religiosa que crê conquistar a simpatia de Deus apenas com o esforço pessoal? “Senhor, eu não sou digno (a) de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo (a)” (Rito da comunhão). Embora todos sejamos indignos de tal graça, o Senhor olhou para nossa sorte e nos associou ao seu mistério de morte e vida, renovando nossa vida e tornando-nos homens e mulheres novos, dignos: “Ó Deus, que a comunhão nesta Eucaristia renove a nossa vida para que, participando da paixão de Cristo neste mistério, e anunciando a sua morte, sejamos herdeiros da sua glória” (Oração depois da comunhão). Que nesta liturgia, ao celebrarmos o mistério, possamos todos experimentar o amor e a misericórdia de Deus para conosco e, desse modo, possamos igualmente corresponder a esse amor e essa misericórdia praticando a justiça e a retidão para com o próximo.

XXV Domingo do Tempo Comum – Ano A

Por Mons. Inácio José Schuster

A parábola que, neste domingo, nos narra o evangelista Mateus, é eivada de dificuldades. Trata-se da história de um senhor que, nas horas mais diversas do dia, sai à procura de trabalhadores para sua vinha, e os contrata. Ao final do dia, inicia o pagamento pelos últimos que recebem a mesma quantia dos primeiros. São muitos os comentaristas e os pregadores que não sabem exatamente como explicá-la ao povo fiel. Seria uma injustiça esta, equiparar os últimos aos primeiros? Bem, se se trata de um prêmio na vida eterna, então nós deveríamos dizer que um texto desses cancela outros textos do Novo Testamento, onde vem dito que Deus dará a cada um de acordo com sua conduta. É evidente que não é possível equiparar, na vida eterna, quem viveu sempre segundo Cristo, com as exigências do Evangelho, entrando sempre pela porta estreita, transitando sempre pela via estreita, perdendo-se neste mundo, a outro que arranca a salvação na última hora através de uma confissão que tente remediar uma vida inteira de pecados e desordens de todo tipo. É evidente que Deus não pode, na eternidade, equiparar estes dois tipos de pessoas. Mas aqui não se trata do prêmio eterno; aqui se trata do Reino dos Céus que é trazido a este mundo, e é assim que, efetivamente, inicia-se a parábola: “o Reino dos Céus é semelhante a…” Aqui se trata da disponibilidade diante do Reino dos Céus. Esta parábola, na boca de Jesus, quis dizer o seguinte: Existem pessoas marginais, ou consideradas tais pelas autoridades religiosas, sacerdotes e fariseus; existem pecadores públicos, prostitutas e publicanos, ladrões e arrecadadores de impostos que, diante da pregação de João, e da pregação de Jesus, converteram-se. E essas pessoas, apesar de serem o que foram no passado, agora estão em situação melhor, diante de Deus, do que a dos fariseus letrados e autoridades religiosas que não deram sequer o primeiro passo na conversão. Estes últimos aqui dão verdadeira lição aos primeiros; estes foram dóceis, os outros endureceram o próprio coração. Mais tarde, esta parábola serviu para falar dos Judeus que, em massa, apostataram, ou melhor, não quiseram entrar no Reino inicialmente oferecido por Jesus, e este Reino foi entregue aos pagãos; aos convidados da última hora que foram mais dóceis em aceitar a proposta que os primeiros. É assim que o texto deve ser lido: Deus quer sempre o acolhimento e a disponibilidade, não importa o momento. O momento é graça que não depende de nós.

 

NA JUSTIÇA DO REINO NÃO HÁ DESIGUALDADE
Padre Bantu Mendonça

A parábola de hoje nasce no contexto da realidade agrícola do povo da Galileia. Era uma região rica, de terra boa, mas com seu povo empobrecido, pois as terras estavam nas mãos de poucos e a maioria trabalhava como arrendatários. O texto nos ensina que a lógica do Reino não é a lógica da sociedade vigente. Em nossa sociedade, uma pessoa vale pelo que produz – logo, quem não produz não tem valor. Assim se faz pouco caso do idoso, do aposentado, do doente e do deficiente físico. A parábola compara o Reino dos Céus ao patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. À primeira vista, tudo bem. Se, porém, examinarmos com atenção o ambiente social da parábola, encontramos uma situação lastimável: a praça da cidade, lugar onde todos se encontram, está cheia de pessoas desempregadas. Nós, que estamos tão acostumados com essa realidade, não medimos muitas vezes o alcance dessa situação. A parábola não nos diz por que se chegou a tal situação de desemprego. Contudo, a Bíblia nos afirma que o ideal de todo israelita era ter seu pedaço de terra, plantar suas parreiras, usufruir dos frutos de seu trabalho. Por que, então, há tantas pessoas desenraizadas da terra? Por que estão perambulando pela praça da cidade? Como chegaram a esse estado? Como sobrevivem essas pessoas? Mas vamos ao nosso texto: A parábola nos diz que o patrão combinou – com os trabalhadores contratados de manhã cedo – uma moeda de prata por dia. Para o povo da Bíblia, o salário devia ser pago no fim do dia. Esse versículo nos mostra que o salário não é imposto pelo patrão. É fruto de um acordo entre ele e o empregado, de modo que seja evitada a exploração do primeiro em relação ao segundo. O empregado concordou com o salário estipulado e isso supõe que, com uma moeda de prata diária, poderia levar uma vida digna. O patrão passa novamente pela praça por volta das nove horas. Encontra mais gente desempregada. Contrata-os para trabalhar na vinha, não mais prometendo pagar uma moeda de prata, e sim o que for justo. A essa altura, a parábola começa a provocar suspense: o que o patrão entende por justiça? O versículo cinco nos mostra que o patrão faz a mesma coisa ao meio-dia, às três horas da tarde e também em torno das cinco horas, quando o dia está por terminar. A praça da cidade ainda está cheia de gente desempregada: “Ninguém nos contratou”, ou seja, não houve quem se interessasse pela situação dessa gente. Quantas pessoas – e por quantas vezes – chegaram ao fim do dia sem ter “sua moeda de prata”, sem ter como defender a própria vida e a de seus dependentes? O patrão os manda para sua vinha sem lhes dizer o que vão receber por uma hora apenas de trabalho. Isso aumenta, no ouvinte, o suspense em relação ao final da parábola. O fim do dia chegou. E chega também a novidade que nos mostra o que é a justiça do Reino: “O patrão disse ao administrador: ‘Chame os trabalhadores e pague uma diária a todos! Comece pelos últimos e termine pelos primeiros’”. A inversão na ordem de pagar os empregados cria o suspense maior, provocando assim o diálogo entre o patrão e o empregado da primeira hora que reclama pelo fato de os últimos terem sido igualados aos primeiros. A decisão do patrão é o coração da parábola e traça uma nítida distinção entre a justiça da nossa sociedade e a justiça do Reino. A justiça dos homens funciona desta forma: cada qual recebe pelo que fez, sem levar em conta as necessidades de cada um nem os motivos pelos quais as pessoas estavam desempregadas após terem perdido seu pedaço de terra. A justiça do Reino, por sua vez, tem este princípio: todos têm direito à vida em abundância. Os marginalizados não carecem em primeiro lugar de beneficência, mas da justiça que arrebenta os trilhos estreitos daquilo que normalmente entendemos por justiça. É isso que faz o patrão: dá a cada um segundo a justiça do Reino. Os que foram contratados de manhã cedo murmuram. Sua queixa revela com exatidão quais são os critérios de Deus: “Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor do dia inteiro”. Nesse sentido, “operários da primeira hora” somos todos nós quando admitimos e defendemos a desigualdade brutal existente entre o salário de um trabalhador braçal e o de um executivo, de uma professora de primeiro grau, de um político, entre outros. O projeto de Deus, diferente do nosso, – até que nos convertamos aos pensamentos e caminhos de Deus – preveem igualdade para que todos possam usufruir da vida: “Tome o que é seu e volte para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a você. Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou você está com ciúme porque eu estou sendo generoso?” O trabalho não existe para criar desigualdade. O ciúme desse operário da primeira hora é, no Evangelho de Mateus, pequena amostra de todos os conflitos que Jesus enfrentou por causa de Sua opção por fazer justiça aos últimos. Resultado final desse “ciúme” é Sua condenação à morte. Soa, portanto, aos nossos ouvidos – mais uma vez – o programa de Jesus: “Devemos cumprir toda a justiça”, e o programa dos Seus seguidores: “Se a justiça de vocês não superar a dos doutores da Lei e a dos fariseus, vocês não entrarão no Reino dos Céus”. Pai, que eu jamais me deixe levar pelo espírito de ambição e rivalidade, convencido de que, no Reino, somos todos iguais: teus filhos.

 

25º DOMINGO DO TEMPO COMUM, A
“Eu sou a salvação do povo, diz o Senhor. Se clamar por mim em qualquer provação eu o ouvirei e serei seu Deus para sempre”.
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Campanha(MG)

Meus irmãos, Hoje vivenciamos a liturgia da gratuidade de Deus, num estudo apurado das realidades do Reino de Deus. Tudo isso dentro daquilo que a todos os homens que não são serenos aflige: “Os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos”(cf. Mt 20,16). A liturgia quer nos ensinar o que é a justiça: a bondade que vem de Deus Nosso Senhor. A Justiça de Deus não é contrária à sua bondade, pelo contrário, ela é idêntica. Isso porque Deus perdoa a todos os pecadores que se convertem. Deus não está interessado em pagamento, mas em vida, e vida em abundância: “Não quero a morte do pecador, mas sim, que ele se converta e viva”. (cf. Ez 18, 23). Essa mensagem é a primeira mensagem que vamos levar para casa hoje, refletindo a primeira leitura de Isaías, que nos oferece o convite para o tempo messiânico, que é também o tempo da plena revelação da estranha justiça de Deus, que tanto ultrapassa à nossa, quando o céu transcende a terra. Irmãos,  A Primeira Leitura – Is 55,6-9 – nos apresenta o tempo favorável da conversão. Isaías 55 é colocado como conclusão do chamado livro da Consolação(Is 40-55, o Segundo Isaías); é uma exortação dos judeus exilados para não procurar sua consolação junto aos deuses da Babilônia, mas junto ao único Deus verdadeiro, Javé, fonte de toda a sabedoria e vida. Com palavras que lembram Ez 18,21-23, o profeta insiste que nem mesmo o pecado é um empecilho para converter-se, voltar a Javé e sua justiça, vivida na Lei judaica. Não adere à intolerância dos que só dão chances aos “impecáveis”. O povo está para voltar à sua terra, graças ao decreto do rei Ciro. Mas esta volta não resolve nada, sem a volta a Javé, o Deus que perdoa e não pensa como os homens. Amigos e amigas, O Evangelho de hoje(Mt 20,1-16) nos convida a sermos gratuitos como o Pai do Céu é gratuito para com todos os viventes, dentro da universalidade da Salvação. A lição de hoje é muito difícil e provocadora: é a lição da gratuidade. Deus oferece e dá porque é generoso, não porque alguém o mereça ou tenha “comprado” direitos que possam garantir algum ganho em troca. Todos os homens recebem o dom da vida com gratuidade, e esse deveria ser o seu comportamento por toda a sua peregrinação neste vale de lágrimas, rumo à Jerusalém Celeste. A gratuidade é a maior demonstração do tanto que Jesus nos ama e nos quer bem: “Ele morreu generosa e gratuitamente no Madeiro da Cruz para a salvação de toda a humanidade”. Hoje a parábola não nos fala de trabalho/salário, mas da generosidade do patrão, do empregador, que deve ser a nossa meta para a nossa vida diária. A lição central da Missa de hoje é a bondade do patrão, que pagou aos últimos tanto quanto aos primeiros, dentro do sentido do Reino de Deus, usando não os critérios dos homens, mas os critérios de Deus, que nos ensina que ama os últimos como ama aos primeiros. Deus não faz acepção de pessoas e nem comete injustiça, pelo contrário, é o patrão das bem-aventuranças, da acolhida sem limites, do perdão, da partilha, do acolhimento, com generosidade superabundante do amor gratuito. Irmãos e Irmãs, Não pensemos que a lição central de hoje foi fácil no tempo de Jesus. Ainda mais nos nossos tempos, a lição é provocadora, porque a gratuidade é difícil de ser entendida e dificílima de ser vivida. No tempo de Jesus os hebreus comprovam com “moeda” as bênçãos de Deus, pela observância das leis. Jesus veio dar um novo sentido de sofrimento, iluminado pela sua Cruz e Ressurreição Redentora, porque os homens recebem não porque a criatura o mereça, não porque a criatura é boa, mas porque Deus é bom, misericordioso, gratuito, generoso e quer dar.  Tudo isso junto com as boas obras que somos convidados a empreender, mas o critério básico é o desapegar-se e a gratuidade. Não adianta ao homem querer comprar a Deus, porque o Reino de Deus é o reino da gratuidade, do despojamento, da gratuidade. A gratuidade é a realização da perfeição da lei. Jesus ensinou que o operário é digno de seu salário (cf. Lc 10,7). Mas Deus ensinou mais com o projeto da gratuidade. Deus é sempre gratuito e todas as ações de seus filhos devem ser a mesma linha do desapegamento dos pagamentos e recompensas, para a generosidade de tudo, até de si mesmo, para alcançar o Reino das bem-Aventuranças. A lição da gratuidade é a grande meta desta semana, de nossas ações, de nossos trabalhos,de nossos relacionamentos, de nossa vida de comunidade. Devemos agir sem esperar receber nada, mas com bondade, compaixão, misericórdia. Jesus ensinou e viveu o que pregou. Jesus não faz acepção entre os primeiros e os últimos. Um pecador que passou toda a sua existência fazendo o mal, convertendo-se arrependido de seus pecados será acolhido no céu igualmente ao homem justo e santo, porque DEUS CARITAS EST, ou seja, DEUS É AMOR E CARIDADE. Tudo isso é muito difícil de assimilar aos olhos humanos, mas a gratuidade que provém de Deus nos chama para procurarmos o rosto sereno e radioso do Senhor “cuja plenitude recebemos graça sobre graça” (cf. Jo 1,16). O amor de Jesus é perfeito. Irmãos e Irmãs, Hoje refletimos sobre o modo de agir de Jesus. Isso é muito bom, porque se fossemos medidos por Jesus poucos entrariam no Reino dos Céus. Mas Deus não faz estatísticas. Ele faz acolhimento com generosidade. Pensemos em Paulo, que escreve aos Filipenses que ele não sabe o que escolher: viver para um frutuoso trabalho ou morrer para estar com o Ressuscitado. Continuar a trabalhar não teria para ele o sentido de ganhar o céu; desejá-lo somente porque seria bom para os filipenses. Mas o que ele deseja mesmo é participar ativamente da proximidade do Senhor Jesus. Viver, para ele, é Cristo. Uma vida animada pela amizade por Cristo, não pelo cálculo…. Na mesma Carta, ele dirá que seu espírito de merecimento, suas vantagens conforme os critérios farisaicos, ele as considera como perda, como esterco (cf. Fl 3, 7-8). Só a graça, a gratuita bondade que Deus lhe manifestou em Cristo Jesus, o impulsiona ainda. Jesus revelou com clareza e insistência a sua preferência pelos pobres, humildes e abandonados, os últimos. São eles, que em contacto com a benevolência gratuita e proveniente de Deus, são destinados a ser os primeiros, os ricos, os eleitos. Não se deve esquecer a aventura do povo judaico que, de primeiro, se torna último; de eleito, rejeitado. A parábola de Jesus mantêm atual conserva seu valor de admoestação também para os novos chamados, que já começaram a pertencer ao reino, porque para eles também há o perigo de assumir a atitude dos primeiros chamados, e de se esquecerem de que tudo quanto tem é puro dom, é pura graça, e, portanto, não pode motivar nenhuma retribuição ou pretensão. O epitáfio do túmulo do mais ilustre purpurado mineiro do século XX, Cardeal Lucas Moreira Neves, resume bem a liturgia da gratuidade deste domingo: “Passou a vida na busca do rosto sereno e radioso do Seu Senhor. Agora o encontrou”. Vamos buscar a gratuidade deste rosto e transfigurá-lo na nossa vida, no nosso compromisso evangelizador!

 

25º Domingo do Tempo Comum
Mt 20,1-16a: “Ao romper da manhã, saiu para contratar trabalhadores para sua vinha”

1Com efeito, o Reino dos céus é semelhante a um pai de família que saiu ao romper da manhã, a fim de contratar operários para sua vinha. 2Ajustou com eles um denário por dia e enviou-os para sua vinha. 3Cerca da terceira hora, saiu ainda e viu alguns que estavam na praça sem fazer nada. 4Disse-lhes ele: – Ide também vós para minha vinha e vos darei o justo salário. 5Eles foram. À sexta hora saiu de novo e igualmente pela nona hora, e fez o mesmo. 6Finalmente, pela undécima hora, encontrou ainda outros na praça e perguntou-lhes: – Por que estais todo o dia sem fazer nada? 7Eles responderam: – É porque ninguém nos contratou. Disse-lhes ele, então: – Ide vós também para minha vinha. 8Ao cair da tarde, o senhor da vinha disse a seu feitor: – Chama os operários e paga-lhes, começando pelos últimos até os primeiros. 9Vieram aqueles da undécima hora e receberam cada qual um denário. 10Chegando por sua vez os primeiros, julgavam que haviam de receber mais. Mas só receberam cada qual um denário. 11Ao receberem, murmuravam contra o pai de família, dizendo: 12- Os últimos só trabalharam uma hora… e deste-lhes tanto como a nós, que suportamos o peso do dia e do calor. 13O senhor, porém, observou a um deles: – Meu amigo, não te faço injustiça. Não contrataste comigo um denário? 14Toma o que é teu e vai-te. Eu quero dar a este último tanto quanto a ti. 15Ou não me é permitido fazer dos meus bens o que me apraz? Porventura vês com maus olhos que eu seja bom? 16Assim, pois, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos.

Contemplamos a narrativa de São Mateus sobre a Parábola dos trabalhadores da vinha, muito oportuno naquela época, em que o Evangelista pregava aos judeus convertidos, e esta parábola vai direto ao coração do povo judaico, os primeiros a ser chamados por Deus, desde séculos, com a Aliança realizada com Abraão. A partir da Encarnação do Filho de Deus, os gentios passam a ser chamados, estes são aqueles das horas posteriores, conforme a parábola. Neste sentido, todos são chamados a fazer parte deste novo Povo de Deus, que é a Igreja. Como o convite é gratuito, os judeus, que foram chamados primeiro, não tinham o que reclamar, todos têm direito ao mesmo prêmio. Em princípio o protesto parece justo, devido a maneira com que enxergamos e entendemos. Jesus na parábola deixa claro, que diversos são os caminhos pelos quais nos chama, mas o prêmio será o mesmo para todos: o Céu. O denário, citado na parábola, era uma moeda de prata com a imagem de César Augusto (Mt 22,19-21), e equivalia a um jornada de trabalho de um operário agrícola da época. Os judeus, naquela época, calculavam o tempo de modo diferente. Dividiam o tempo em oito partes, quatro para a noite (que chamavam de vigílias, cf. Lc 12,38) e quatro partes entre o nascer e o por do sol, que chamavam de horas: prima, tércia, sexta e noa. A hora prima, começava no nascer do sol e terminava pelas nove; a da tercia ia até às doze horas; a da sexta até às três da tarde e da noa até o por do sol. Com isto, podemos verificar que as horas prima e noa não possuíam o mesmo tempo, eram menores durante o outono e inverno e cresciam durante a primavera e verão. No versículo 6, vemos a expressão: “Finalmente, pela undécima hora…”, hora esta, que era para realçar o pouco tempo que faltava para o pôr do sol, fim do trabalho. A parábola quer nos mostrar que Cristo passa pela nossa vida, não importando a idade que temos. Ele passa, e chama! Qual a minha resposta? Mostra também que nossa resposta deverá ser generosa, conforme o Seu modo de agir, pois “os pensamentos de Deus não são os nossos pensamentos” (Is 55,8-9). Ao sermos chamados, que nossa resposta não seja exigente, mas amorosa e gratuita.

 

SER GENEROSO
A prática da vida cristã deve ser a do amor

Os nossos critérios de ação devem ultrapassar a realidade unicamente humana. Na origem das atitudes há os dados da ética e da moral, mas também as questões divinas que estão relacionadas com as questões da fé.

Ser generoso não é simplesmente ser justo, mas atender às necessidades de quem está em jogo. Não é fato apenas de merecimento e de justiça, mas de solidariedade e de partilha de forma fraterna, para que todos tenham vida digna.

O mundo é como um terreno onde se planta de tudo. É daí que tiramos os alimentos. Mas todos devem trabalhar, uns mais e outros menos, dependendo das condições de cada pessoa. Os frutos são para sustento da coletividade e de forma solidária. Para o trabalho, há pessoas que chegam cedo, outras trabalham menos, mas ambos têm necessidade de vida e de alimento. Na partilha, ninguém pode ser injustiçado, mesmo que alguém receba além do que é justo por não ter trabalhado o tempo todo.

Jesus conta a parábola do patrão que combinou o salário do dia com um trabalhador. Outros foram chegando ao transcorrer do dia, havendo até quem chegasse ao final da tarde. A ambos o patrão pagou o mesmo valor. Ele agiu com justiça e com generosidade.

No mundo capitalista as atitudes são diferentes, mesmo sabendo da existência de quem partilha com os trabalhadores os lucros da empresa. No mundo de Deus, a ternura e a generosidade ultrapassam as nossas, a lógica é diferente do que fazemos.

A prática da vida cristã deve ser a do amor, com capacidade de doação maior do que aquilo que merecemos. É a misericórdia, a paciência, a compaixão, a bondade e a justiça, tendo como objetivo viver bem, tendo uma vida que faça sentido.

Para Deus, a partilha não é matemática, nem é mesquinha, porque Ele olha a necessidade da pessoa. A bondade do Senhor ultrapassa os critérios humanos e Seus dons são sem medida. O que importa não é o que fazemos, mas a forma como fazemos as coisas.

Dom Paulo Mendes Peixoto

Santo Evangelho (Mt 19, 3-12)

19ª Semana Comum – Sexta-feira 18/08/2017

Primeira Leitura (Js 24,1-13)
Leitura do Livro de Josué.

Naqueles dias, 1Josué reuniu em Siquém todas as tribos de Israel e convocou os anciãos, os chefes, os juízes e os magistrados, que se apresentaram diante de Deus. 2Então Josué falou a todo o povo: “Assim diz o Senhor, Deus de Israel: Vossos pais, Taré, pai de Abraão e de Nacor habitaram outrora do outro lado do rio Eufrates e serviram a deuses estranhos. 3Mas eu tirei Abraão, vosso pai, dos confins da Mesopotâmia, e o conduzi através de toda a terra de Canaã, e multipliquei a sua descendência. 4Dei-lhe Isaac, e a este dei Jacó e Esaú. E a Esaú, um deles, dei em propriedade o monte Seir; Jacó, porém, e seus filhos, desceram para o Egito. 5Em seguida, enviei Moisés e Aarão e castiguei o Egito com prodígios que realizei em seu meio, e depois disso vos tirei de lá. 6Fiz, portanto, que vossos pais saíssem do Egito, e assim che­gastes ao mar. Os egípcios perseguiram vossos pais, com carros e cavaleiros, até o mar Vermelho. 7Vossos pais clamaram então ao Senhor, e ele colocou trevas entre vós e os egípcios. Depois trouxe sobre estes o mar, que os recobriu. Vossos olhos viram todas as coisas que eu fiz no Egito e habitastes no deserto muito tempo. 8Eu vos introduzi na terra dos amorreus que habitavam do outro lado do rio Jordão. E, quando guerrearam contra vós, eu os entreguei em vossas mãos, e assim ocupastes a sua terra e os exterminastes. 9Levantou-se então Balac, filho de Sefor, rei de Moab, e combateu contra Israel, e mandou chamar Balaão, filho de Beor, para que vos amaldiçoasse. 10Eu, porém, não o quis ouvir. Ao contrário, abençoei-vos por sua boca, e vos livrei de suas mãos. 11A seguir, atravessastes o Jordão e chegastes a Jericó. Mas combateram contra vós os habitantes desta cidade – os amorreus, os ferezeus, os cananeus, os hititas, os gergeseus, os heveus e os jebuseus. Eu, porém, entreguei-os em vossas mãos. 12Enviei à vossa frente vespões que os expulsaram da vossa presença – os dois reis dos amorreus – e isso não com a tua espada nem com o teu arco. 13Eu vos dei uma terra que não lavrastes, cidades que não edificastes, e nelas habitais, vinhas e olivais que não plantastes, e comeis de seus frutos.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Responsório (Sl 135)

— Eterna é a sua misericórdia!
— Eterna é a sua misericórdia!

— Demos graças ao Senhor, porque ele é bom: porque eterno é seu amor! Demos graças ao Senhor, Deus dos deuses: porque eterno é seu amor! Demos graças ao Senhor dos senhores: porque eterno é seu amor!

— Ele guiou pelo deserto o seu povo: porque eterno é seu amor! E feriu por causa dele grandes reis: porque eterno é seu amor! Reis poderosos fez morrer por causa dele: porque eterno é seu amor!

— Repartiu a terra deles como herança: porque eterno é seu amor! Como herança a Israel, seu servidor: porque eterno é seu amor! De nossos inimigos libertou-nos: porque eterno é seu amor!

 

Evangelho (Mt 19,3-12)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, 3alguns fariseus aproximaram-se de Jesus, e perguntaram, para o tentar: “É permitido ao homem despedir sua esposa por qualquer motivo?” 4Jesus respondeu: “Nunca lestes que o Criador, desde o início, os fez homem e mulher? 5E disse: ‘Por isso, o homem deixará pai e mãe, e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne’? 6De modo que eles já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe”. 7Os fariseus perguntaram: “Então, como é que Moisés mandou dar certidão de divórcio e despedir a mulher?” 8Jesus respondeu: “Moisés permitiu despedir a mulher, por causa da dureza do vosso coração. Mas não foi assim desde o início. 9Por isso, eu vos digo: quem despedir a sua mulher – a não ser em caso de união ilegítima – e se casar com outra, comete adultério”. 10Os discípulos disseram a Jesus: “Se a situação do homem com a mulher é assim, não vale a pena casar-se”. 11Jesus respondeu: “Nem todos são capazes de entender isso, a não ser aqueles a quem é concedido. 12Com efeito, existem homens incapazes para o casamento, porque nasceram assim; outros, porque os homens assim os fizeram; outros, ainda, se fizeram incapazes disso por causa do Reino dos Céus. Quem puder entender entenda”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

 

A IGREJA CATÓLICA CELEBRA E VENERA HOJE
Santa Helena, dedicou-se ao Cristianismo

Santa Helena se dedicou na ajuda ao Cristianismo no tempo da liberdade religiosa acontecida durante o Império Romano

Nascida no ano de 255 em Bitínia, de família plebeia, no tempo da juventude trabalhava numa pensão, até conhecer e casar-se com o oficial do exército romano, chamado Constâncio Cloro.

Fruto do casamento de Helena foi Constantino, o futuro Imperador, o qual tornou-se seu consolo quando Constâncio Cloro deixou-a para casar-se com a princesa Teodora e governar o Império Romano. Diante do falecimento do esposo, o filho que avançava na carreira militar substituiu o pai na função imperial, e devido a vitória alcançada nas portas de Roma, tornou-se Imperador.

Aconteceu que Helena converteu-se ao Cristianismo, ou ainda tenha sido convertida pelo filho que decidiu seguir Jesus e proclamar em 313 o Édito de Milão, o qual deu liberdade à religião cristã, isto depois de vencer uma terrível batalha a partir de uma visão da Cruz. Certeza é que no Império Romano a fervorosa e religiosa Santa Helena foi quem encontrou a Cruz de Jesus e ajudou a Igreja de Cristo, a qual saindo das catacumbas pôde evangelizar e com o auxílio de Santa Helena construir basílicas nos lugares santos.

Faleceu em 327 ou 328 em Nicomédia, pouco depois de sua visita à Terra Santa. Os seus restos foram transportados para Roma, onde se vê ainda agora, no Vaticano, o sarcófago de pórfiro que os inclui.

Santa Helena, rogai por nós!

Espírito Santo nos impulsiona a chamar Deus de Pai

Quarta-feira, 23 de maio de 2012 / Nicole Melhado / Da Redação 

Junto aos fiéis e peregrinos reunidos na Praça São Pedro, o Papa deu continuidade ao ciclo de catequeses sobre a oração  

Nesta quarta-feira, 23, o Papa Bento XVI continuou o ciclo de Catequeses sobre a oração. Aos peregrinos e fiéis reunidos na Praça São Pedro, o Santo Padre ressaltou que o Espírito Santo “nos ensina a nos dirigir a Deus como filhos, chamando-O de ‘Abbá, Pai’” com a simplicidade, o respeito, a confiança e o afeto de um filho por seus pais.

“Queridos irmãos e irmãs, o Espírito Santo nos ensina a tratar Deus, na oração, com os termos afetuosos de ‘Abbá, Pai!’, como fez Jesus. São Paulo, tanto na carta aos Gálatas como na carta aos Romanos, afirma que é o Espírito que clama em nós ‘Abbá, Pai!’”, ressaltou o Pontífice.

Bento XVI enfatiza ainda que a Igreja acolheu esta invocação, que é repetida na oração do “Pai-Nosso” e “poder chamar Deus de Pai é um dom inestimável”. Ele não é somente o Criador, explica o Papa, mas é quem conhece cada um pelo nome, Aquele que cuida e ama todos imensamente, como ninguém no mundo é capaz de amar.

“Hoje muitos não se dão conta da grandeza e da consolação profunda contidas na palavra ‘Pai’, dita por nós a Deus na oração. O Espírito Santo ilumina o nosso espírito, unindo-nos à relação filial de Jesus com o Pai. Realmente, sempre que clamamos ‘Abbá, Pai!’, fazemos isso movidos pelo Espírito, com Cristo e em Cristo, e sempre em união com toda a Igreja”, afirma o Papa.

Talvez o homem de hoje, ressaltou o Pontífice, não perceba a beleza, a grandeza e a consolação profunda contida na palavra “pai”, porque a própria figura paterna não seja suficientemente presente e, muitas vezes, suficientemente positiva na vida cotidiana.

“A ausência do Pai, o fato de um pai não ser presente na vida de uma criança é um grande problema do nosso tempo, por isso, torna-se difícil entender na sua profundidade o que quer dizer que Deus é Pai para nós”, salienta.

Na oração, explica ainda Bento XVI, entramos numa relação de intimidade e familiaridade com um Deus pessoal, que quis nos fazer participantes da plenitude da vida, que nunca nos abandona. Na oração, não somente nos dirigimos a Deus, mas entramos numa relação recíproca com Ele. Uma relação em que nunca estamos sós: Cristo nos acompanha pessoalmente, e também a comunidade cristã, com toda a diversidade e a riqueza dos seus carismas, como família dos filhos de Deus.

No final da catequese, o Santo Padre saudou os fiéis e grupos de peregrinos nos vários idiomas, entre eles, os brasileiros.   “Queridos peregrinos de língua portuguesa: sede bem-vindos! Saúdo de modo particular os brasileiros do Rio de Janeiro, do Rio Grande de Sul, bem como as Irmãs Franciscanas de São José. Com a proximidade da solenidade de Pentecostes, procurai, a exemplo de Nossa Senhora, estar abertos à ação do Espírito Santo na vossa oração, de tal modo que o vosso pensar e agir se conformem sempre mais com os do seu Filho Jesus Cristo. De coração vos abençôo a vós e às vossas famílias!”, disse o Papa em português.

 

Catequese Bento XVI – Oração Cartas de Paulo (2)  
Boletim da Santa Sé (Tradução: Mirticeli Medeiros – equipe do CN notícias)

Queridos irmãos e irmãs.

Quarta-feira passada mostrei como São Paulo diz que o Espírito Santo é o grande mestre da oração e nos ensina a nos dirigirmos a Deus com os termos afetuosos de filhos, chamando-o de “Abbá, Pai”. Assim fez Jesus: também no momento mais dramático da sua vida terrena, Ele não perdeu a confiança no Pai e sempre o invocou com a intimidade do Filho Amado. No Getsêmani, quando sente a angústia da morte, a sua oração é: “Abbá! Pai! Tudo é possível a ti: afasta de mim este cálice! Mas, não se faça aquilo que quero, mas aquilo que queres” (Mc 14,36).

Desde os primeiros passos do seu caminho, a Igreja acolheu esta invocação e a fez própria, sobretudo na oração do Pai Nosso, na qual dizemos todos os dias: “Pai, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6, 9-10). Nas cartas de São Paulo a encontramos duas vezes. O apóstolo se dirige aos Gálatas com estas palavras: “E pelo fato de serdes filhos de Deus é a prova que Ele mandou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, o qual grita em nós: “Abbá! Pai!” (Gal 4,6). E no centro desse canto ao Espírito que está no capítulo oitavo da carta aos Romanos, São Paulo afirma: “E vós não recebestes um espírito de escravos para cair no medo, mas recebestes o Espírito que vos torna filhos adotivos, por meio do qual gritamos: “Abbá, Pai!” (Rom 8,15). O cristianismo não é uma religião do medo, mas da confiança e do amor do Pai que nos ama. Essas duas grandes afirmações nos falam do envio e do acolhimento dado ao Espírito Santo, o dom do Ressuscitado, que nos torna filhos em Cristo, o Filho Unigênito, e nos coloca em uma relação filial com Deus, relação de profunda confiança, como aquela das crianças; uma relação filial análoga àquela de Jesus, mesmo essa sendo de origem e teor diferentes: Jesus é o Filho eterno de Deus que se fez carne, por outro lado, nós, nos tornamos filhos nele, no tempo, mediante a fé e os Sacramentos do Batismo e do Crisma; graças a esses dois Sacramentos, mergulhamos no Mistério Pascal de Cristo. O Espírito Santo é o dom precioso e necessário que nos torna filhos de Deus, que realiza aquela adoção filial a qual somos chamados, todos os seres humanos, para que, como retrata a benção divina da Carta aos Efésios, Deus, em Cristo, “nos escolheu antes da criação do mundo para sermos santos e imaculados diante dele na caridade, predestinando-nos a sermos para Ele filhos adotivos mediante Jesus Cristo” (Ef 1,4).

Talvez o homem de hoje não perceba a beleza, a grandeza, e a consolação profunda contidas na palavra “pai” com a qual podemos nos dirigir a Deus na oração, por causa da figura paterna que geralmente não é suficientemente presente, ou suficientemente positiva na vida cotidiana, nos tempos de hoje. A essência do pai, o problema de um pai não presente na vida de uma criança é um grande problema do nosso tempo, por isso, se torna difícil entender na sua profundidade o que significa dizer que Deus é Pai para nós. A partir do próprio Jesus, do seu relacionamento filial com Deus, podemos aprender o que significa exatamente o “pai”, qual é a verdadeira natureza do Pai que está nos céus. Críticos da religião disseram que falar do “Pai”, de Deus, seria uma projeção dos nossos pais ao céu. Mas, é verdade o contrário: no Evangelho, Cristo nos mostra quem é o pai e como é um verdadeiro pai, para que possamos intuir a verdadeira paternidade, aprender também a verdadeira paternidade. Pensemos nas palavras de Jesus no sermão da montanha onde diz: “amais os vossos inimigos e orais por aqueles que vos perseguem, para que sejais filhos do Pai vosso que está nos céus” (Mt 5,44-45). É exatamente no amor de Jesus, o Filho Unigênito – que é ampliado pelo dom de si mesmo na cruz –  que se é revelada a nós a verdadeira natureza do pai: “Ele é Amor, e também nós, na nossa oração de filhos, entramos nesse circuito de amor, amor de Deus que purifica os nosso desejos, as nossas atitudes marcadas pelo fechamento, autossuficiência, do egoísmo típico do homem velho.

Gostaria de concentrar-me sobre a paternidade de Deus, para que possamos fazer com que o nosso coração seja abrasado por esta profunda realidade que Jesus Cristo nos fez conhecer plenamente e para que a nossa oração seja nutrida. Podemos dizer, portanto, que em Deus, o ser Pai tem duas dimensões. Antes de tudo, Deus é nosso Pai, porque é nosso Criador. Cada um de nós, todo homem e toda mulher é um milagre de Deus, é desejado por Ele e é conhecido pessoalmente por Ele. Quando no livro do Gênesis se diz que o ser humano é criado à imagem de Deus (CFR 1,27), se deseja exprimir exatamente esta realidade: Deus é nosso Pai, para Ele não somos anônimos, impessoais, mas temos um nome. E uma palavra nos Salmos, me toca sempre quando a rezo: “As tuas mãos me plasmaram”, diz o salmista (Sal 119,73). Cada um de nós, pode dizer, nesta bela imagem da relação pessoal com Deus: “As tuas mãos me plasmaram. Pensaste em mim, me criaste, me quiseste”. Mas isso ainda não basta. O Espírito de Cristo nos abre a uma segunda dimensão da paternidade de Deus, além da criação, porque Jesus é o Filho em sentido pleno, consubstancial ao Pai, como professamos no Creio. Se tornando um ser humano como nós, com a encarnação, a morte e a ressurreição, Jesus, por sua vez, nos acolhe na sua humanidade e no próprio ser Filho, assim, também nós podemos entrar na sua específica pertença a Deus. Certamente o nosso ser filhos não tem a plenitude do ser Filho de Jesus: nós devemos nos tornar sempre mais, ao longo do caminho de toda a nossa existência cristã, crescendo no seguimento de Cristo, na comunhão com Ele para entrar sempre mais intimamente na relação de amor com Deus Pai, que sustenta nossa vida. E é essa a realidade fundamental que nos vem aberta quando nos abrimos ao Espírito Santo e Ele nos faz dirigir a Deus dizendo-lhe “Abbá”, Pai! Entramos realmente além da criação na adoção com Jesus; estamos realmente unidos em Deus, e filhos em um modo novo, em uma dimensão nova.

Mas gostaria agora de retornar aos dois trechos de São Paulo nos quais estamos considerando a ação do Espírito Santo na nossa oração; também aqui são dois passos que se correspondem, mas contém uma definição diferente. Na carta aos Gálatas, de fato, o apóstolo afirma que o Espírito grita em nós “Abbá!Pai!”; já na carta aos Romanos diz que somos nós a gritar “Abbá!Pai!”. E São Paulo quer nos fazer compreender que a oração cristã não é nunca, não acontece nunca em sentido único de nós a Deus, não é somente um “agir nosso”, mas é expressão de uma relação recíproca na qual Deus age primeiro: é o Espírito Santo que grita em nós, e nós podemos gritar para que o impulso venha do Espírito Santo. Nós não poderíamos rezar se não fosse inscrito na profundidade do nosso ser o desejo de Deus, o ser filhos de Deus. Desde quando passou a existir, o homo sapiens está sempre à procura de Deus, à procura de falar com Deus, porque Deus inscreveu-se nos nossos corações. Portanto, a primeira iniciativa vem de Deus, e com o Batismo, Ele de novo age em nós, o Espírito Santo age em nós; é o primeiro iniciador da oração para que possamos depois realmente falar com Deus e dizer “Abbá” a Deus. Portanto, a sua presença abre a nossa oração e a nossa vida, abre os horizontes da Trindade e da Igreja.

Além disso, compreendemos – este é um segundo ponto – que a oração do Espírito de Cristo em nós e a nossa nele, não é somente um ato individual, mas um ato de toda a Igreja. No rezar se abre o nosso coração, entramos em comunhão não somente com Deus, mas exatamente com todos os filhos de Deus, para que sejamos uma coisa só. Quando nos dirigimos ao Pai na nossa morada interior, no silêncio e no recolhimento, não estamos nunca sozinhos. Quem fala com Deus não está sozinho. Estamos na grande oração da Igreja, somos parte de uma grande sinfonia que  a comunidade cristã, espalhada em todas as partes da terra e em todos os tempos, eleva a Deus; claro, os músicos e os instrumentos são diferentes –  e isso é um elemento de riqueza – , mas a melodia de louvor é única e em harmonia. Todas as vezes, então, que gritamos e dizemos: “Abbá!Pai!” é a Igreja, toda a comunhão dos homens em oração que sustenta a nossa invocação, e a nossa invocação é a invocação da Igreja. Isso também se reflete na riqueza dos carismas, dos ministérios, das tarefas que realizamos na comunidade. São Paulo escreve aos cristãos de Corinto: “Existem diversos carismas, mas somente um é o Espírito; existem diversos ministérios, mas um só é o Senhor; existem diversas atividades, mas um só é o Deus que age em todos nós” (I Cor 12,4-6). A oração guiada pelo Espírito Santo, que nos faz dizer: “Abbá! Pai” com Cristo e em Cristo, nos insere no único grande mosaico da família de Deus no qual cada um tem um lugar importante e um papel importante, em profunda unidade com o todo.

Uma última reflexão: nós aprendemos a gritar “Abbá, Pai” também com Maria, a Mãe do Filho de Deus. O cumprimento da plenitude dos tempos, do qual fala São Paulo na Carta aos Gálatas (cfr 4,4), acontece no momento do sim de Maria, da sua adesão plena à vontade de Deus: “eis, sou a serva do Senhor” (Lc 1,38).

Queridos irmãos e irmãs, aprendemos a provar na nossa oração a beleza de sermos amigos, filhos de Deus, de poder invocá-lo com a confiança de uma criança que se dirige aos pais que a amam. Abramos a nossa oração à ação do Espírito Santo para que nós gritemos a Deus “Abbá! Pai” e para que a nossa oração transforme, converta constantemente o nosso pensar, o nosso agir para torná-lo sempre mais conforme àquele do Filho Unigênito, Jesus Cristo. Obrigado.

Papa fala da paternidade de Deus como fonte de esperança

Quarta-feira, 7 de junho de 2017, Da Redação, com Rádio Vaticano

Chamar Deus de “Pai” é uma grande revolução do cristianismo e exprime relação de confidência com Deus, disse o Papa

Na catequese desta quarta-feira, 7, o Papa Francisco abordou o tema “A paternidade de Deus, fonte da nossa esperança”, dando continuidade ao ciclo de reflexões sobre a esperança cristã.

Francisco explicou que chamar Deus com o nome de “Pai” é a grande revolução que o cristianismo imprime na psicologia religiosa do homem. O Evangelho de Lucas é o que melhor documenta o “Cristo orante” e a oração do Pai Nosso revela justamente esta intimidade de Jesus com seu Pai.

“Todo o mistério da vida cristã está resumido aqui, nesta palavra: ter a coragem de chamar Deus com o nome de Pai. Mesmo a Liturgia, quando nos convida a rezar o Pai Nosso na comunidade, utiliza a expressão ‘ousemos dizer’”.

O Santo Padre ressaltou que chamar Deus de “Pai” não é um fato óbvio, uma vez que o normal é que se use “títulos mais elevados”, que pareçam mais respeitosos à sua transcendência. “Ao invés disto, invocá-lo como ‘Pai’ nos coloca em relação de confiança com Ele, como uma criança que se dirige ao seu pai, sabendo ser amada e cuidada por ele. Esta é a grande revolução que o cristianismo imprime na psicologia religiosa do homem. O mistério de Deus, que sempre nos fascina e nos faz sentir pequenos, porém, não causa medo, não nos sufoca, não nos angustia. Esta é uma revolução difícil de acolher em nossa alma humana”.

Este Deus que é um Pai, que sabe ser somente amor por seus filhos, encontra grande expressão na Parábola do Filho Pródigo, narrada em Lucas. “Um Pai que não pune o filho pela sua arrogância e que é capaz até mesmo de confiar a ele a sua parte de herança e deixá-lo ir embora de casa. Deus é Pai, diz Jesus, mas não da maneira humana, porque não existe nenhum pai neste mundo que se comportaria como o protagonista desta parábola. Deus é Pai à sua maneira: bom, indefeso diante do livre arbítrio do homem, capaz somente de declinar o verbo amar”.

“O Evangelho de Jesus Cristo nos revela que Deus não pode estar sem nós: Ele nunca será um Deus ‘sem o homem’; é Ele que não pode estar sem nós, e isto é um grande mistério… Deus não pode ser Deus sem o homem: um grande mistério isto”, exclamou o Pontífice. “Mesmo que nos afastemos, sejamos hostis, nos professemos ‘sem Deus’. E esta certeza é a fonte de nossa esperança’, que está em todas as invocações do Pai Nosso”.

E quando o homem precisa de ajuda, observou por fim o Papa, Jesus não diz para ele se resignar e fechar-se em si mesmo, mas para dirigir-se ao Pai e pedir a Ele com confiança. “Todas as nossas necessidade, desde as mais evidentes e cotidianas, como a comida, a saúde, o trabalho, até aquelas como ser perdoados e sustentados nas tentações, não são o espelho de nossa solidão, pois existe um Pai que sempre nos olha com amor e que, seguramente, não nos abandona”.

Santo Evangelho (Jo 20, 19-23)

Pentecostes – Domingo 04/06/2017

Primeira Leitura (At 2,1-11)
Leitura dos Atos dos Apóstolos:

1Quando chegou o dia de Pentecostes, os discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar. 2De repente, veio do céu um barulho como se fosse uma forte ventania, que encheu a casa onde eles se encontravam. 3Então apareceram línguas como de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. 4Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os inspirava. 5Moravam em Jerusalém judeus devotos, de todas as nações do mundo. 6Quando ouviram o barulho, juntou-se a multidão, e todos ficaram confusos, pois cada um ouvia os discípulos falar em sua própria língua. 7Cheios de espanto e admiração, diziam: “Esses homens que estão falando não são todos galileus? 8Como é que nós os escutamos na nossa própria língua? 9Nós, que somos partos, medos e elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, 10da Frígia e da Panfília, do Egito e da parte da Líbia próxima de Cirene, também romanos que aqui residem; 11judeus e prosélitos, cretenses e árabes, todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus em nossa própria língua!”

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Responsório (Sl 103)

— Enviai o vosso Espírito, Senhor,/ e da terra toda a face renovai!
— Enviai o vosso Espírito, Senhor,/ e da terra toda a face renovai!

— Bendize, ó minha alma, ao Senhor!/ Ó meu Deus e meu Senhor, como sois grande!/ Quão numerosas, ó Senhor, são vossas obras!/ Encheu-se a terra com as vossas criaturas!

— Se tirais o seu respiro, elas perecem/ e voltam para o pó de onde vieram./ Enviais o vosso espírito e renascem/ e da terra toda a face renovais.

— Que a glória do Senhor perdure sempre,/ e alegre-se o Senhor em suas obras!/ Hoje seja-lhe agradável o meu canto,/ pois o Senhor é a minha grande alegria!

 

Segunda Leitura (1Cor 12,3b-7.12-13)
Leitura da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios:

Irmãos: 3bNinguém pode dizer: Jesus é o Senhor, a não ser no Espírito Santo. 4Há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito. 5Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor. 6Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos. 7A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum. 12Como o corpo é um, embora tenha muitos membros, e como todos os membros do corpo, embora sejam muitos, formam um só corpo, assim também acontece com Cristo. 13De fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito, para formarmos um único corpo, e todos nós bebemos de um único Espírito.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Anúncio do Evangelho (Jo 20,19-23)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.
— Glória a vós, Senhor.

19Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”. 20Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. 21Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. 22E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. 23A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

 

A IGREJA CATÓLICA CELEBRA E VENERA HOJE
São Crispim, primeiro santo canonizado pelo Papa João Paulo II 

São Crispim, testemunhava em tudo o amor de Deus

Neste dia lembramos o primeiro santo canonizado pelo Papa João Paulo II: São Crispim, que nasceu em Viterbo, na Itália, em 1668.

Chamado à vida religiosa, recebeu uma formação jesuíta. Porém, acabou entrando para a família franciscana, despertado pela piedade dos noviços. Ocupou cargos de grande simplicidade dentro da comunidade como a horta, a cozinha, e tantos outros serviços onde ele testemunhava em tudo o amor de Deus.

Falava e vivia a seguinte frase: “Quem ama a Deus com pureza de coração, vive feliz e morre contente”

Crispim deixou essa marca da pureza e da alegria. Ele viveu tudo com pureza de coração, foi feliz e morreu contente em 1748.

Que nosso caminho seja marcado pelo amor e pela verdadeira alegria.

São Crispim, rogai por nós!

Subiu aos céus

Está sentado à direita de Deus

O evangelista São Marcos disse: “O Senhor Jesus, depois de ter-lhes falado, foi arrebatado ao Céu e sentou-se à direita de Deus” (Mc 9). O sentar-se à direita do Pai significa a inauguração do Reino do Messias, a realização daquela visão do profeta Daniel: “A Ele foram outorgados o império, a honra e o reino, e todos os povos, nações e línguas o serviram. Seu império é um império eterno que jamais passará, e seu reino jamais será destruído” (Dn 7,14).

A Ascensão do Senhor marca, assim, a entrada definitiva da humanidade de Jesus no céu, donde voltará, embora até esteja escondido dos homens. Com Ele a humanidade pode agora ser introduzida na comunhão plena com Deus que, por causa do pecado original, o homem perdeu. A Igreja ensina que, a partir desse momento, os apóstolos se tomaram as testemunhas do “Reino que não terá fim”.

Durante os quarenta dias, que ainda permaneceu na terra para dar as últimas instruções aos apóstolos, Jesus comeu e bebeu com eles, mostrando-lhes que era Ele mesmo. A sua última aparição a eles foi na  entrada irreversível de sua humanidade na glória divina; isso é simbolizado pela nuvem e pelo céu. O “sentar-se à direita de Deus” significa o lugar de honra no céu.

São João Damasceno (†749), doutor da Igreja de Constantinopla, ensinava que: “Por ‘direita do Pai’ entendemos a glória e a honra da divindade, no qual Aquele que existia como Filho de Deus antes de todos os séculos como Deus e consubstancial ao Pai, sentou-se corporalmente depois de encarnar-se e de sua carne ser glorificada” (De fide orthodoxa, 4,2,2).

O Corpo de Cristo foi glorificado desde a Sua Ressurreição e adquiriu propriedades novas e sobrenaturais; não está mais sujeito ao  tempo nem ao espaço; pode “atravessar paredes” como ao entrar no Cenáculo onde estavam os discípulos e se mostrar com feições diferentes à Madalena e aos discípulos de Emaús. Depois de ressuscitado, Jesus esteve, de fato, com os discípulos; eles o apalparam e com Ele comeram. Mostrou-lhes, assim, que Ele não é um espírito e que o Seu Corpo ressuscitado é o mesmo que foi martirizado e crucificado, pois traz as marcas da Paixão. Contudo, este corpo autêntico e real possui, ao mesmo tempo, as propriedades novas de um corpo glorioso. Não está mais situado no espaço ou no tempo, mas pode se tornar presente a seu modo, onde e quando quiser, pois sua humanidade não pode mais ficar presa à terra, mas já pertence ao domínio do Pai. Por esta razão, Jesus Ressuscitado, é livre de aparecer como quiser: sob a aparência de um jardineiro ou “de outra forma” (Mc 16,12)  para fortalecer a fé deles.

Sua glória ainda permaneceu velada aos discípulos como se fosse um homem comum; e isso pode ser notado na palavra misteriosa que Ele disse a Maria Madalena: “Ainda não subi para o Pai, mas vai aos meus irmãos e dizer-lhes ‘Eu subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus’” (Jo 20,17). Isso mostra a diferença entre a glória de Cristo ressuscitado e a glória de Cristo exaltado à direita do Pai.

A Igreja ensina que a Ascensão de Jesus ao céu é, ao mesmo tempo, um fato histórico e transcendente. Daí para frente, Jesus não mais se apresentará aos apóstolos. Um caso excepcional é quando Ele se apresenta a São Paulo no caminho de Damasco, como ele disse: “como a um abortivo” (1 Cor 15,8), em uma última aparição que o constitui apóstolo.

A subida de Jesus ao céu está unida à Sua descida do céu na encarnação. Ele disse que só aquele que “saiu do Pai” pode “retomar ao Pai” (cf.Jo 16,28). “Ninguém jamais subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem” (Jo 3,13). “Quando subiu ao alto, levou muitos cativos, cumulou de dons os homens” (Sl 67,19). Ora, que quer dizer “ele subiu”, senão que antes havia descido a esta terra? Aquele que desceu é também o que subiu acima de todos os céus para encher todas as coisas” (Ef 4,8-10).

Por si mesma a humanidade não consegue chegar à “Casa do Pai”, à vida e à felicidade de Deus. Só Cristo pôde abrir esta porta ao homem. Ele disse que: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não fora assim, e eu vos teria dito; pois vou preparar-vos um lugar. Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei comigo, para que, onde eu estou, também vós estejais” (Jo 14,2). O prefácio da Missa da Ascensão reza: “de sorte que nós, seus membros, tenhamos a esperança de encontrá-lo lá onde Ele, nossa cabeça e nosso princípio, nos precedeu”. Jesus Cristo é a Cabeça da Igreja, por isso nos precede no Reino glorioso do Pai, para que nós, membros de Seu Corpo, vivamos na esperança de estarmos com Ele na eternidade.

A Igreja também nos ensina que a elevação de Jesus na Cruz significa e anuncia a elevação da ascensão ao céu. “E, quando eu for elevado da terra, atrairei todos os homens a mim” (Jo 12,32). É o começo da ascensão. Jesus é o Único Sacerdote da nova e eterna Aliança que entrou no céu. “Eis por que Cristo entrou, não em santuário feito por mãos de homens, que fosse apenas figura do santuário verdadeiro, mas no próprio céu, para agora se apresentar intercessor nosso ante a face de Deus”. (Hb 9,24)

O nosso Catecismo ensina (§665-667) que, no céu, Cristo exerce Seu sacerdócio, como diz a Carta aos Hebreus: “por isso é capaz de salvar totalmente aqueles que, por meio dele, se aproximam de Deus, visto que ele vive eternamente para interceder por eles” (Hb 7,25). Jesus intercede, sem cessar, por nós como mediador que nos garante a efusão do Espírito Santo. E, como “sumo sacerdote dos bens vindouros” (Hb 9,11), ele é o centro e o ator principal da liturgia que honra o Pai nos Céus.  Por isso São João pode escrever: “Filhinhos meus, isto vos escrevo para que não pequeis; mas, se alguém pecar, temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo”. (I Jo 2,1)

Prof. Felipe Aquino
[email protected]

Santo Evangelho (Jo 15, 9-11)

5ª Semana da Páscoa – Quinta-feira 18/05/2017 

Primeira Leitura (At 15,7-21)
Leitura dos Atos dos Apóstolos.

Naqueles dias, 7depois de longa discussão, Pedro levantou-se e falou aos apóstolos e anciãos: “Irmãos, vós sabeis que, desde os primeiros dias, Deus me escolheu, do vosso meio, para que os pagãos ouvissem de minha boca a palavra do Evangelho e acreditassem. 8Ora, Deus, que conhece os corações, testemunhou a favor deles, dando-lhes o Espírito Santo como o deu a nós. 9E não fez nenhuma distinção entre nós e eles, purificando o coração deles mediante a fé. 10Então, por que vós agora pondes Deus à prova, querendo impor aos discípulos um jugo que nem nossos pais e nem nós mesmos tivemos força para suportar? 11Ao contrário, é pela graça do Senhor Jesus que acreditamos ser salvos, exatamente como eles”. 12Houve então um grande silêncio em toda a assembleia. Depois disso, ouviram Barnabé e Paulo contar todos os sinais e prodígios que Deus havia realizado, por meio deles, entre os pagãos. 13Quando Barnabé e Paulo terminaram de falar, Tiago tomou a palavra e disse: “Irmãos, ouvi-me: 14Simão acaba de nos lembrar como, desde o começo, Deus se dignou tomar homens das nações pagãs para formar um povo dedicado ao seu Nome. 15Isso concorda com as palavras dos profetas, pois está escrito: 16“Depois disso, eu voltarei e reconstruirei a tenda de Davi que havia caído; reconstruirei as ruínas que ficaram e a reerguerei, 17a fim de que o resto dos homens procure o Senhor com todas as nações que foram consagradas ao meu Nome. É o que diz o Senhor, que fez estas coisas, 18conhecidas há muito tempo’. 19Por isso, sou do parecer que devemos parar de importunar os pagãos que se convertem a Deus. 20Vamos somente prescrever que eles evitem o que está contaminado pelos ídolos, as uniões ilegítimas, comer carne de animal sufocado e o uso do sangue. 21Com efeito, desde os tempos antigos, em cada cidade, Moisés tem os seus pregadores, que leem todos os sábados nas sinagogas”.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Responsório (Sl 95)

— Anunciai as maravilhas do Senhor entre todas as nações.
— Anunciai as maravilhas do Senhor entre todas as nações.

— Cantai ao Senhor Deus um canto novo, cantai ao Senhor Deus, ó terra inteira! cantai e bendizei seu santo nome!

— Dia após dia anunciai sua salvação, manifestai a sua glória entre as nações, e entre os povos do universo seus prodígios!

— Publicai entre as nações: “Reina o Senhor!” Ele firmou o universo inabalável pois os povos ele julga com justiça.

 

Evangelho (Jo 15,9-11)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 9“Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor. 10Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor. 11Eu vos disse isto, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

 

A IGREJA CATÓLICA CELEBRA E VENERA HOJE
São João I – eleito o sucessor de Pedro 

São João I, viveu uma vida de oração, oferecendo e sempre buscando ser dócil à vontade de Deus

O santo de hoje governou a Igreja por apenas dois anos e meio. Foi eleito Papa em 523. Nasceu na Toscana, Florência, no século V. De Florência foi para Roma e tornou-se um sacerdote, um presbítero cardeal. Com a morte do Papa, ele foi eleito o sucessor de Pedro.

Marcou a Igreja com muitos trabalhos pastorais, foi o precursor do canto gregoriano e da restauração de muitas igrejas, mas o objetivo dele como Papa, foi de confirmar a fé dos irmãos; sem dúvida nenhuma, era o serviço da salvação das almas.

Papa João I viveu num tempo e contexto político-religioso complexo. Quem reinava na Itália era Teodorico, um cristão ariano, ou seja, não era fiel à doutrina católica, mas se dizia cristão. Por outro lado, existia um conflito entre Teodorico e Justino; e os dois imperadores se chocavam. No meio deste contexto complexo, a vítima foi o Papa João I, que foi forçado por Teodorico a uma missão. Nunca um Papa tinha saído da Itália; ele foi o primeiro.

A missão não agradou, porque Teodorico queria que o Papa fosse o porta-voz de uma mensagem ariana, por interesses econômicos e políticos. Mas o que podemos perceber é que este homem santo, autoridade máxima da Igreja de Cristo, não perdeu sua paz, não perdeu sua obediência a Deus. Tornou-se santo em meio aos conflitos.

Ele viveu uma vida de oração, uma vida penitencial, oferecendo e sempre buscando ser dócil à vontade de Deus. Papa João I, por causa do ódio de Teodorico, foi aprisionado para morrer de fome e de sede. Foi mártir.

Hoje, podemos recordar este Pastor da Igreja como o pastor que, a exemplo de Cristo, deu a vida pelo rebanho.

São João I, rogai por nós!

Santo Evangelho (Jo 14, 1-12)

5º Domingo da Páscoa – Domingo 14/05/2017 

Primeira Leitura (At 6,1-7)
Leitura dos Atos dos Apóstolos:

1Naqueles dias: o número dos discípulos tinha aumentado, e os fiéis de origem grega começaram a queixar-se dos fiéis de origem hebraica. Os de origem grega diziam que suas viúvas eram deixadas de lado no atendimento diário. 2Então os Doze Apóstolos reuniram a multidão dos discípulos e disseram: “Não está certo que nós deixemos a pregação da Palavra de Deus para servir às mesas. 3Irmãos, é melhor que escolhais entre vós sete homens de boa fama, repletos do Espírito e de sabedoria, e nós os encarregaremos dessa tarefa. 4Desse modo nós poderemos dedicar-nos inteiramente à oração e ao serviço da Palavra”. 5A proposta agradou a toda a multidão. Então escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo; e também Filipe, Prócoro, Nicanor, Timon, Pármenas e Nicolau de Antioquia, um grego que seguia a religião dos judeus. 6Eles foram apresentados aos apóstolos, que oraram e impuseram as mãos sobre eles. 7Entretanto, a Palavra do Senhor se espalhava. O número dos discípulos crescia muito em Jerusalém, e grande multidão de sacerdotes judeus aceitava a fé.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Responsório (Sl 32)

— Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça,/ da mesma forma que em vós nós esperamos!
— Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça,/ da mesma forma que em vós nós esperamos!

— Ó justos, alegrai-vos no Senhor!/ Aos retos fica bem glorificá-lo./ Dai graças ao Senhor ao som da harpa,/ na lira de dez cordas celebrai-o!

— Pois reta é a palavra do Senhor,/ e tudo o que ele faz merece fé./ Deus ama o direito e a justiça,/ transborda em toda a terra a sua graça.

— O Senhor pousa o olhar sobre os que o temem,/ e que confiam esperando em seu amor,/ para da morte libertar as suas vidas/ e alimentá-los quando é tempo de penúria.

 

Segunda Leitura (1Pd 2,4-9)
Leitura da Primeira Carta de São Pedro:

Caríssimos: 4Aproximai-vos do Senhor, pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e honrosa aos olhos de Deus. 5Do mesmo modo, também vós, como pedras vivas, formai um edifício espiritual, um sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus, por Jesus Cristo. 6Com efeito, nas Escrituras se lê: “Eis que ponho em Sião uma pedra angular, escolhida e magnífica; quem nela confiar, não será confundido”. 7A vós, portanto, que tendes fé, cabe a honra. Mas, para os que não creem, “a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular, 8pedra de tropeço e rocha que faz cair”. Nela tropeçam os que não acolhem a Palavra; esse é o destino deles. 9Mas vós sois a raça escolhida, o sacerdócio do Reino, a nação santa, o povo que ele conquistou para proclamar as obras admiráveis daquele que vos chamou das trevas para a sua luz maravilhosa.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Anúncio do Evangelho (Jo 14,1-12)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.
— Glória a vós, Senhor!

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 1”Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também. 2Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós 3e, quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós. 4E, para onde eu vou, vós conheceis o caminho”. 5Tomé disse a Jesus: “Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?” 6Jesus respondeu: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim. 7Se vós me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. E desde agora o conheceis e o vistes”. 8Disse Felipe: “Senhor, mostra-nos o Pai, isso nos basta!” 9Jesus respondeu: “Há tanto tempo estou convosco, e não me conheces, Felipe? Quem me viu, viu o Pai. Como é que tu dizes: ‘Mostra-nos o Pai’? 10Não acreditas que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo, mas é o Pai, que, permanecendo em mim, realiza as suas obras. 11Acreditai-me: eu estou no Pai e o Pai está em mim. Acreditai, ao menos, por causa destas mesmas obras. 12Em verdade, em verdade vos digo, quem acredita em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas. Pois eu vou para o Pai”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

 

A IGREJA CATÓLICA CELEBRA E VENERA HOJE
São Matias, testemunha do Ressuscitado 

Nós estamos em festa com toda a Igreja, pois lembramos a santidade de vida de um escolhido do Espírito Santo para o grupo dos apóstolos. São Matias era um discípulo que acompanhou Jesus no tempo de Seu apostolado e foi tão fiel na vivência dos ensinamentos do Mestre, que tornou-se testemunha de Sua ressurreição.

No livro dos Atos dos Apóstolos, estão registrados os fatos que levaram à escolha de um discípulo que ocupasse o lugar deixado por Judas, o traidor: “…é preciso, pois, que um dentre eles se torne conosco testemunha de sua ressurreição. Apresentaram então dois homens: José chamado Barsabás, que tinha o apelido de Justo, e Matias” (Atos 1,22-23).

São Matias recebeu em Pentecostes a efusão do Espírito Santo, e tornou-se um apóstolo ardoroso como os demais, testemunha do Ressuscitado. Evangelizou na Palestina e na Ásia Menor, e morreu mártir por apedrejamento.

São Matias, rogai por nós!

V Domingo da Páscoa – Ano A

Por Mons. Inácio José Schuster

Estamos à meio do Tempo Pascal. Celebramos há quase um mês o Domingo da Ressurreição. Nunca é demais recordar o tom festivo que devem ter as nossas celebrações dominicais, não esquecendo alguns elementos litúrgicos que nos ajudam a manter a alegria pascal: as flores, a iluminação, o rito da aspersão da água benta, o canto do Glória, o uso da terceira fórmula de aclamação depois da consagração (cantada, se possível), a bênção solene sobre o povo… Nos primeiros domingos da Páscoa, os textos evangélicos narravam-nos as aparições de Jesus Ressuscitado. No domingo passado, Jesus foi apresentado como o Bom Pastor e como a única Porta que dá acesso ao Pai. Nos próximos domingos (5º e 6º), teremos as palavras de despedida de Jesus, ditas na Última Ceia aos discípulos. Hoje, o texto evangélico recorda-nos que o centro da nossa fé é Jesus Cristo: “Se acreditais em Deus, acreditai também em Mim”. Também Jesus nos diz que Ele é o caminho, a verdade e a vida. 1) Perante os imensos caminhos que o mundo nos oferece para alcançar a felicidade que desejamos, Jesus é o caminho certo para a obter. Não é um caminho, mas o caminho, porque Jesus nos conduz para o Pai: “Ninguém vai ao Pai senão por Mim”. Quanto mais acolhermos Deus na nossa vida, tanto mais seremos repletos do seu amor, fonte da verdadeira felicidade. As coisas deste mundo somente geram uma felicidade passageira e superficial. Recordemos a célebre frase de Santo Agostinho: “Criastes-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração não descansa enquanto não repousar em Vós” (Confissões 1,1). 2) Jesus diz que é a verdade. Jesus concede a verdade ao ser humano, porque “o mistério do homem só se esclarece verdadeiramente no mistério do Verbo Encarnado” (GS 22). Jesus, Homem Perfeito, diz-nos como o homem (humanidade) deve ser. Ele é o modelo para todos aqueles que desejam a plenitude humana. 3) Jesus diz-nos que é a vida. Ele dá-nos a verdadeira vida. Quem se configura a Jesus, vivendo à sua maneira e ao seu jeito, é consciente do que vive, perante uma humanidade que se limita a sobreviver. Além disso, por Cristo a vida divina brota do coração humano, alcançando assim a nossa vocação mais sublime: a divinização. Cristo oferece-nos a plenitude da vida: a imortalidade, como nos diz o evangelho: “virei novamente para vos levar comigo, para que, onde Eu estou, estejais vós também”. Cristo faz-nos participar da sua ressurreição. Tendo em conta a segunda leitura, este domingo é um dia propício para uma reflexão sobre o sacramento do Batismo, tão vinculado está à Páscoa. Nos domingos anteriores, foi feita uma reflexão sobre a Eucaristia. No próximo domingo e no domingo de Pentecostes, poder-se dedicar um pouco da homilia para refletir sobre o sacramento da Confirmação. Assim, os três sacramentos da iniciação cristã, o grande sacramento que nos une à Páscoa de Cristo, não perdem o seu protagonismo neste Tempo Pascal. São Pedro, na segunda leitura, diz-nos que somos “uma geração eleita, sacerdócio real, nação santa”. 1) Por um lado, é o batismo que nos introduz nesse “povo adquirido por Deus”, que é a Igreja, aberta a todos os homens e mulheres. Por isso, Pedro convida todos os batizados a proclamarem “os louvores d’ Aquele que vos chamou das trevas para a sua luz admirável”. Assim, atrairemos outros a fazer parte, como “pedras vivas, na construção deste templo espiritual”. 2) Por outro lado, é o batismo que nos “enxerta” em Cristo, participando do seu sacerdócio (o sacerdócio batismal). Assim, todos os batizados são convidados a “oferecer os seus corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus”, mas o melhor sacrifício é a oferta de nós próprios como “hóstia viva”, imitando Jesus Cristo.

 

O “VERDADEIRO JESUS” NÃO É AQUELE QUE CADA UM SE CONSTRÓI
Há muitas imagens distorcidas e fantasiadas…
“EU SOU O CAMINHO, A VERDADE E A VIDA”, diz Jesus.

Convido os católicos a não se contentaram com qualquer imagem de Jesus Cristo. Não devemos nos contentar com as imagens de Jesus que só prometem milagres e não pedem a conversão do coração, ou escondem o caminho da cruz. São tantas as imagens distorcidas e fantasiadas sobre Jesus, ao longo da história e também hoje. A Igreja, comunidade dos discípulos de Jesus Cristo, sofreu muito no seu início para afirmar e preservar a imagem fidedigna de Jesus Cristo e para transmiti-la, de modo fiel, através dos séculos. Ela nunca assumiu interpretações discordantes com o testemunho dos apóstolos, aqueles que ‘viram’ Jesus, estiveram com ele e o encontraram depois de sua morte e ressurreição – ‘não podemos deixar de falar do que vimos e ouvimos’ (At 4, 20). As celebrações da Semana Santa e da Páscoa suscitaram algumas perguntas para as quais se devemos buscar respostas sinceras. Afinal, quem é Jesus Cristo? Quais foram seus ensinamentos? Por que foi condenado à morte de cruz? O que dizem os testemunhos do Novo Testamento sobre os fatos recordados na celebração da Páscoa? Que significado tem sua vida, paixão e morte para a humanidade e para cada um de nós? Qual é minha relação pessoal com Jesus Cristo? Recentemente foi publicada a tradução portuguesa da 2ª parte do livro do papa Bento 16 – Jesus de Nazaré – que se ocupa, justamente, da entrada de Jesus em Jerusalém até a ressurreição. Seria ótimo ler esse livro no tempo pascal. Uma das preocupações do Papa é a de proporcionar aos leitores o acesso ao ‘verdadeiro Jesus’ e o encontro com ele, como nos é dado a conhecer pela Escritura e pela fé da Igreja. É isso mesmo: o ‘verdadeiro Jesus’ não é aquele que cada um se constrói, conforme suas conveniências, sentimentos ou preconceitos, mas aquele que nos é dado a conhecer por aqueles que estiveram com ele e deixaram isso relatado no Novo Testamento. E também pela fé da comunidade dos fiéis, na Igreja, que persevera ‘no ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações’ (cf. At 2,42); ali, o próprio Ressuscitado continua presente e se manifesta aos seus, como fez após a ressurreição.

 

5º DOMINGO DA PÁSCOA, A
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha(MG)

“Cantai ao Senhor um canto novo,  porque ele fez maravilhas; e revelou sua justiça diante das nações, aleluia!”(cf. Sl. 97, 1s)

Meus queridos Irmãos, Depois de termos contemplado no domingo passado Jesus como a porta que dá acesso ao Reino dos Céus à liturgia deste domingo nos convida a ver em Jesus como o CAMINHO, A VERDADE E A VIDA. O acesso ao Pai passa por Jesus. Assim, o sentido destes três termos que constituem a unidade – o Caminho da Verdade e da Vida – é apresentado através de uma pequena encenação. Jesus inicia sua despedida dizendo que é uma viagem necessária, para lhes preparar um lugar, e que eles conhecem o caminho. Tomé responde que não. Jesus explica que ele mesmo é o caminho da Verdade e da Vida, o caminho pelo qual se chega ao Pai. Toda pessoa piedosa sonha ou deseja, ou melhor, quer ver e conhecer a Deus. Mas, nos anuncia João no prólogo de seu Evangelho, que ninguém jamais o viu…(cf. Jo 1,18). Agora, Jesus explica a Filipe, que lhe pede para mostrar-lhe o Pai, e a resposta de Jesus é a seguinte: “Quem me vê, vê o Pai!”. Em outras palavras: em Jesus, o Cristo contemplamos Deus. Nosso perguntar encontra Nele resposta, nosso espírito, verdade; nossa angústia, a fonte da vida. Neste sentido, ele mesmo é o caminho que nos conduz ao Pai e, ao mesmo tempo, a Verdade e a Vida que se tornam acessíveis para nós. Estimados Irmãos, Jesus hoje nos ensina que Ele e o Pai são um só. Jesus nos ensina que Ele voltará para junto do Pai; que as criatura humanas têm um destino eterno; Jesus nos ensina que Ele é o único caminho de acesso a Deus, e que os apóstolos, em conhecendo esse caminho, deviam encher-se de fé e de confiança na sua misericórdia. O homem e a mulher vive sempre apreensivo. A apreensão faz parte da natureza humana e não poderia ser diferente com os apóstolos. Todos nós queremos ver ao Pai, sentindo um desejo, menor ou mais intenso, de ver o rosto de Deus. E na procura de Deus, precisamos de pontos de referência para não nos perder. Jesus se coloca como ponto de referência, seja para vencer a angústia pelo que pode acontecer, seja para encontrar a Casa do Pai e fazer comunhão com Ele. Amados e amadas, O Evangelho de hoje(cf. Jo 14,1-12) é o Testamento de Jesus. Por isso os ensinamentos são repletos de emoção, conselho e de encantamento espiritual. E o testamento de Jesus nos deixa verdades acerca de nossa fé: Jesus é igual ao Pai; toda a obra de Jesus é divina e salvadora; a criatura humana tem um destino e um horizonte eterno; esse horizonte e destino é garantido por Jesus aos que tiverem fé nele; Jesus é o caminho que une a terra ao Céu e por esse caminho a criatura humana pode chegar a Deus; por Jesus conhecemos toda a verdade em torno de Deus; a vida não se esgota aqui na terra e Jesus reparte com o homem o poder de salvar. Estas são as verdades fundamentais do cristianismo, por isso não podemos deixar o nosso coração se perturbar por coisas pequenas diante da normalidade da vida. Jesus confia no homem e na mulher e o cobre com seu manto protetor!  Por isso o próprio Cristo anunciou aos seus: “Eu estarei convosco todos os dias até a consumação dos tempos”(cf. Mt 28,20). Jesus não só assumiu a condição humana nos anos de sua vida terrena, mas para todo o sempre.  Jesus é o nosso companheiro de caminhada, de trajetória e por isso nos encoraja. Irmãos e Irmãs, Jesus no Evangelho de hoje anima e consola os seus discípulos. Por isso nada deve perturbar o coração do discípulo fiel. Isso porque na hora de nossa morte, Jesus virá ao nosso encontro pessoalmente. Vê-lo-emos face a face. Será pela mão de Jesus que entraremos no céu. Ele virá para nos julgar com misericórdia e justiça, conforme professamos em nosso Credo. A misericórdia de Cristo é a misericórdia que vem ao nosso socorro e que em cada sacrifício Eucarístico repetidos com fé: “ajudados pela Vossa Misericórdia, sejamos protegidos de todos os perigos, enquanto aguardamos a vinda do Cristo Salvador”, depois da recitação da Oração que o Senhor nos ensinou. Caríssimos amigos, A Primeira Leitura de hoje(cf. At 6,1-7) nos fala dos diáconos no contexto da expansão da Igreja entre os helenistas. Continua os Atos dos Apóstolos a narração dos primórdios da Igreja. O seu vertiginoso crescimento traz problemas. Além dos convertidos do judaísmo tradicional, ascendem a Igreja também os convertidos do judaísmo helênico, ou seja, daqueles que vêem das cidades comerciais da Grécia, da Armênia, da Síria, etc, ou pagãos convertidos anteriormente ao judaísmo, como os prosélitos. A organização da assistência às viúvas deste grupo provocou um novo serviço na comunidade: os diáconos, os que são servidores da caridade e que assumem o ministério da caridade entre os mais pobres da comunidade. Prezados irmãos, A Segunda leitura hodierna(cf. 1Pd 2,4-9) apresenta a Igreja – como templo de pedras vivas, da qual Jesus Cristo é a pedra angular. A presente leitura é rica de imagens, que se determinam mutuamente. Cristo é a pedra viva, rejeitada pelos sumos sacerdotes e pelos mestres da lei; pedra morta, mas ressuscitada por Deus. Quem a Jesus se une na construção do Seu Reino é pedra viva também. Cristo é o sacrifício espiritual; quem adora a ele, o é também. Por isso somos santificados com ele pelo sacerdócio real que recebemos pelo batismo. Irmãos caríssimos, Cristo é a verdade, na confusão ruidosa das mil “verdades”que só duram um dia. Jesus permanece como o termo último de todas as verdades. Cristo é a vida: todos os esforços do homem para vencer as barreiras da morte só conseguem retardar de um momento o terrível encontro. Só Cristo destrói essa barreira e nos abre as portas para um vida sem fim, em plenitude total. Jesus ao se proclamar como o Caminho único de se chegar ao Pai lembra que é possível chegar ao Pai somente por meio dele. Assim a segunda leitura, continuação da Carta de Pedro canta a dignidade do povo constituído em Cristo, construído com pedras vivas sobre a pedra rejeitada pelos construtores, que se tornou à pedra angular. Nem mesmo os conflitos da comunidade iniciante dos Atos pode nos abalar. Devemos dar louvor ao Deus bom e fiel, ou seja, a providência de Deus para todos os seus. Ele vem em nosso auxílio e em nosso refúgio. Com Jesus estamos no Pai, somos conduzidos ao Pai, participando de sua vida e do seu amor. Que Deus nos ajude e nos conduza todos ao único caminho, sempre lembrando do chamado da Igreja que peregrina no  Brasil  – pelos nossos Pastores – aonde somos convidados a Ver Jesus, único Caminho, Verdade e Vida. Amém!

 

BENTO XVI: JESUS, ROSTO VISÍVEL DO PAI
Palavras ao rezar o Regina Coeli
CIDADE DO VATICANO, domingo, 22 de maio de 2011

Queridos irmãos e irmãs! O Evangelho do domingo de hoje, Quinto de Páscoa, propõe um duplo mandamento da fé: crer em Deus e crer em Jesus. O Senhor, de fato, diz a seus discípulos: “Credes em Deus, crede também em mim” (Jo 14,1). Não são dados separados, mas um único ato de fé, a plena adesão à salvação realizada por Deus Pai mediante seu Filho Unigênito. O Novo Testamento pôs fim à invisibilidade do Pai. Deus mostrou seu rosto, como confirma a resposta de Jesus ao apóstolo Felipe: “Aquele que me viu, viu também o Pai (Jo 14, 9). O Filho de Deus, com sua encarnação, morte e ressurreição, libertou-nos da escravidão do pecado, para nos dar a liberdade de filhos de Deus, e nos revelou o rosto de Deus, que é amor: Deus pode ser visto, é visível em Cristo. Santa Teresa d’Ávila escreve que “não devemos nos afastar do que constitui todo nosso bem e nosso remédio, quer dizer, da santíssima humanidade de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Castello interiore, 7, 6: Opere Complete, Milano 1998, 1001). Portanto, só crendo em Cristo, permanecendo unidos a Ele, os discípulos, entre os quais estamos nós, podem continuar sua ação permanente na história: “Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço (Jo 14, 12). A fé em Jesus implica segui-lo cotidianamente, nas simples ações que compõem nossa jornada. “É próprio do mistério de Deus atuar de modo oculto. Só pouco a pouco Ele constrói na grande história da humanidade sua história. Faz-se homem mas de maneira que possa ser ignorado por seus contemporâneos, pelas forças que contam na história. Sofre e morre e, como Ressuscitado, quer chegar à humanidade só através da fé dos seus, a quem se manifesta. Continuamente Ele bate às portas do nosso coração e, se abrimos, lentamente nos torna capazes de ‘ver’” (Jesus de Nazaré II, 2011). Santo Agostinho afirma: “era necessário que Jesus dissesse: ‘eu sou o caminho, a verdade e a vida’ (Jo 14, 6), porque uma vez conhecido o caminho, faltava conhecer a meta” (Tractatus in Ioh., 69, 2: CCL 36, 500), e a meta é o Pai. Para os cristãos, para cada um de nós, portanto, o Caminho para o Pai é se deixar guiar por Jesus, por sua palavra de Verdade, e acolher o dom de sua Vida. Façamos nosso o convite de São Boaventura: “Abre portanto os olhos, tende um ouvido espiritual, abre teus lábios e dispõe ter coração, para que possas em todas as criaturas ver, escutar, louvar, amar, venerar, glorificar, honrar teu Deus” (Itinerarium mentis in Deum, I, 15). Queridos amigos, o compromisso de anunciar Jesus Cristo, “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6), constitui a tarefa principal da Igreja. Invoquemos a Virgem Maria, para que auxilie sempre os Pastores e todos que nos diversos ministérios anunciam a alegre Mensagem de salvação, para que a Palavra de Deus se difunda e o número dos discípulos se multiplique (cf. At 6, 7).
[Traduzido por ZENIT ©Libreria Editrice Vaticana]

 

“QUEM ME VÊ, VÊ O PAI”
Por Gabriel Frade, professor de Liturgia e Sacramentos
5º Domingo da Páscoa
Leituras: At 6, 1-7; Sl 32 (33) 1-2.4-5.18-19; 1Pd 2, 4-9; Jo 14 1-12

“Os cinqüenta dias entre a Ressurreição e o Domingo de Pentecostes sejam celebrados com alegria e exultação, como se fossem um só dia de festa, ou melhor, ‘como um grande domingo’.” (Normas Universais sobre o Ano litúrgico e o Calendário, n. 22). Ainda marcada pela alegria pascal, a liturgia da Palavra deste V Domingo da Páscoa nos apresenta uma grande riqueza de conteúdos. A leitura semi-contínua do livro dos Atos dos Apóstolos nos oferece uma imagem da Igreja nascente na qual a comunidade, impelida pelo Espírito do seu Senhor Ressuscitado e à semelhança de sua Pessoa (cf. Lc 2, 40), é descrita como um organismo que cresce de modo progressivo, encontrando graça aos olhos do Pai. Apesar disso, dentro da comunidade cristã aparentemente nem tudo é dom, nem tudo é bondade. Ao contrário daquela imagem idealizada pelo autor dos Atos no capítulo segundo, onde todos eram unânimes na partilha dos bens e nas orações (cf. At 2, 42ss), a passagem apresentada neste sexto capítulo nos mostra uma comunidade onde há murmurações e divisões. No centro da contenda, algo escandaloso: no momento de distribuir os bens da comunidade às viúvas dos chamados “helenistas” – provavelmente judeus advindos da diáspora e falantes da língua grega – ocorre um “esquecimento”, por parte dos “hebreus”. Diante do problema, os Doze não hesitam em pedir a participação da comunidade – identificada possivelmente com a “multidão dos discípulos” mencionada no v. 2: esta deve escolher de seu meio “sete homens de boa reputação, repletos do Espírito e de sabedoria” (v. 3) para proverem às necessidades da igreja. O papel da comunidade nesse processo, ou seja, na eleição madura daqueles membros que deverão exercer um ministério – escolha esta a ser confirmada pelos Apóstolos –, encontra um paralelismo muito belo e profundo na segunda leitura. São Pedro, ao dirigir-se a toda comunidade, lembra com palavras fortes o seu protagonismo, através de uma referência à dignidade sacerdotal que todo fiel possui: “Mas vós sois uma raça eleita, um sacerdócio real, uma nação santa, o povo de sua particular propriedade […] Vós que outrora não éreis povo, mas agora sois o Povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia” (vv. 9-10). Diante da eleição feita pela comunidade e a julgar pelo nome dos escolhidos – todos nomes oriundos da língua grega –, é possível intuir que tenham sido eleitos apenas membros do grupo dos helenistas para exercer a diakonia, isto é, o serviço dentro da comunidade. Se assim foi, é interessante notar que a escolha recaiu sobre aqueles que estariam de certo modo “contaminados” pelo paganismo da cultura helênica e, por isso mesmo, possivelmente discriminados por aqueles membros da comunidade cristã, chamados no texto de “hebreus” (v. 1). Estes eram assim denominados porque eram provavelmente cristãos ligados ao judaísmo hierosolimitano, talvez considerado mais puro, mais tradicional em relação ao elemento estrangeiro. Nesse sentido, sabe-se, por exemplo, que naquela época os judeus de língua grega tinham sinagogas separadas daqueles que falavam o aramaico: para além de uma questão apenas lingüística, há a possibilidade de uma separação dessas comunidades judaicas em função de outros elementos de caráter discriminatório. O mais curioso é que não obstante o fato de ter sido justamente no grupo dos helenistas o local onde surgiram as “murmurações” contra a injustiça perpetrada pelos hebreus, o autor dos Atos não hesita em nomear um desses escolhidos para servir a comunidade como “homem cheio de fé e do Espírito Santo” (v. 5). Ao que parece, este episódio contém algum elemento de uma escolha inusual e que nos remete a uma mesma lógica já delineada pelas escolhas divinas no Antigo Testamento. De fato, existem várias passagens onde Deus expressa uma predileção pelos mais fracos. Por exemplo, as grandes figuras bíblicas sobre as quais recaiu a escolha de Deus não seriam, segundo uma lógica puramente humana, os modelos mais indicados, já que se apresentam cheios de falhas: Moisés, por exemplo, cometera um assassinato (Ex 2, 12); o Patriarca Jacó havia roubado a bênção de seu irmão Esaú (Gn 27, 1ss); Davi, além de adúltero, tramou a morte de Urias (2 Sam 11), um homem inocente… Obviamente há que se dizer que Moisés, Jacó e Davi se sobressaíram não propriamente por esses pecados, mas justamente pelo fato que, não obstante suas fraquezas humanas, não se fecharam para a ação de Deus, mas antes, voltaram-se para Deus com todas as suas forças. Outro elemento que exprime a predileção divina no AT pelos pobres e fracos é a tríplice categoria que sintetiza de modo emblemático a situação de todo pobre em Israel: além dos órfãos, compunham essa categoria os estrangeiros e as viúvas (ver, por exemplo, Dt 24, 17ss e 1 Re 17, 9ss). De fato, na pregação de Jesus, recorre com certa freqüência a figura da viúva, especialmente no evangelho de S. Lucas, autor também dos Atos dos Apóstolos (Lc, 2, 37; Lc 4, 26; Lc 7, 12; Lc 18, 3; Lc 20, 28; Lc 21,2). Por esse motivo, o “esquecimento” narrado em Atos, nos parece na verdade um forte indício de algo ainda mais grave: um fechamento ao amor mútuo entre irmãos. Um dobrar-se às tradições humanas em detrimento à correspondência do amor ao próximo (“Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros”. Jo 13, 34). Deus não fica indiferente a isso: “Eis que o olho do Senhor está sobre os que o temem, sobre aqueles que esperam seu amor, para da morte libertar a sua vida e no tempo da fome fazê-los viver”. (Salmo Responsorial. Trad. Bíblia de Jerusalém) Apesar dessas incongruências, a comunidade cristã é animada pela força do Espírito, fruto do Mistério Pascal de seu Senhor que supera toda dificuldade humana. Aliás, esse é o modo misterioso do agir de Deus: sua ação se coloca muitas vezes contra a lógica meramente humana (1 Cor 1, 27): “A pedra que os edificadores rejeitaram, essa tornou-se a pedra angular” (1Pd 2, 7. Segunda Leitura). Diante das fraquezas humanas, do medo da solidão e do abandono, Deus se revela como um Deus condescendente, um Deus que quer a salvação de todos os homens (cf. 1Tm 2, 3-4) e oferece paz ao nosso coração irrequieto, muitas vezes tomado pelas preocupações humanas: “Cesse de perturbar-se o vosso coração” (Evangelho, v. 1). Deus conhece nossas limitações e se nos faz próximo, nos oferece um ambiente familiar, um lar onde possamos encontrá-lo e fazer comunhão com ele: “Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Evangelho, v. 2). Mas muitas vezes nos encontramos tão céticos que não conseguimos enxergar – assim como os discípulos de Emaús (Lc 24) – a predileção de Deus por nós e sua presença em nossas vidas. Perante nossa freqüente incapacidade de perceber como seja possível encontrar Deus, Cristo se nos apresenta como “Caminho, verdade e vida” (v. 6): Ele é, de certo modo, o “método” por excelência que o Pai nos doa para que possamos realizar o desejo mais profundo de toda a humanidade, que é aquele de contemplar o rosto do Pai, de viver em comunhão com Deus. Jesus, Mestre Divino, inspirou um grande número de fiéis na Igreja a buscarem no rosto do Filho a contemplação do Pai – dentre estes fiéis, lembramos do Beato Pe. Tiago Alberione e a irmã Tecla Merlo, fundadores da família paulina e que tinham particular veneração por Cristo Caminho, Verdade e Vida. Cristo inspira ainda hoje sua amada esposa, a Igreja, a ter o mesmo carinho e solicitude, para que todos os homens possam ter a vida e a vida em abundância, pois para isso Cristo nossa Páscoa foi imolado, com sua morte venceu a corrupção do pecado destruiu nossa morte e nos garantiu a vida em plenitude (cf. Prefácio IV da Páscoa). Essa inspiração está particularmente presente na América Latina e no Caribe, onde a Igreja está atenta a ouvir o Cristo Mestre, como bem o afirmaram os bispos reunidos na Conferência de Aparecida: Com a luz do Senhor ressuscitado e com a força do Espírito Santo, nós os bispos da América nos reunimos em Aparecida, Brasil, para celebrar a V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Fizemos isso como pastores que querem seguir estimulando a ação evangelizadora da Igreja, chamada a fazer de todos os seus membros discípulos e missionários de Cristo, Caminho, Verdade e Vida, para que nossos povos tenham vida n’Ele. (Documento de Aparecida, n. 1) “Quem me vê, vê o Pai” (v. 9). Essa percepção da presença do Senhor na Igreja (“Cristo está sempre presente na sua Igreja, especialmente nas ações litúrgicas” – SC 7), se traduz em grande alegria pascal, que da celebração litúrgica deve reverberar ao longo da vida concreta do cristão, no seu dia a dia, pois o “O gesto litúrgico não é autêntico se não implica um compromisso de caridade, um esforço sempre renovado para ter os sentimentos de Jesus Cristo e uma continua conversão” – Documento de Medellin, 9,3. A Igreja é de fato esse “edifício espiritual” do qual cada um de nós é chamado a ser “pedra viva” para oferecer “sacrifícios espirituais agradáveis a Deus”. Em sendo assim, ao nos tornarmos templos do Espírito Santo (cf. 1 Cor 6, 19) fazemos presente o rosto de Cristo no hoje de nossa história: na medida em que seguimos Cristo Caminho, Verdade e Vida, fazemos as mesmas obras que Jesus faz (Evangelho, v. 12), fazemos a Palavra de Deus Crescer [1] (Primeira leitura v. 7), finalmente, fazemos presente no mundo o rosto do Filho, nos tornamos para o outro um “alter Christus” (outro Cristo) onde é possível contemplar o rosto do Filho e bendizer as obras do Pai: “Vede como se amam! [2]”.
Notas: 1. É o princípio formulado por São Gregório Magno: Scriptura crescit cum legente, isto é, a Escritura cresce com quem a lê. O Espírito que repousa nas Escrituras está presente também em nós.
2. Essa expressão é do cristianismo antigo e nos foi conservada por Tertuliano. Tratava-se da exclamação que os pagãos emitiam ao ver o despojamento e amor dos cristãos, dispostos a dar a vida pelos irmãos.

Desenvolvido por Origy Networks – Criação de sites e propaganda