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Valorizar a família

A família nunca cairá de moda

Foi realizada em Roma, junto ao túmulo do Apóstolo São Pedro, a peregrinação internacional da família dentro do Ano da Fé. Esse evento, que reuniu 150 mil famílias, coincidiu com o encerramento da XXI Assembleia Plenária do Pontifício Conselho da Família. Constaram desse evento três jornadas dedicadas ao estudo e ao debate no 30º aniversário da Carta dos Direitos da Família, publicada pelo mesmo dicastério vaticano em 22 de outubro de 1983, sob o Pontificado do Beato João Paulo II. O encontro, aberto ao público, debateu os “Novos horizontes antropológicos e os direitos da família”.

Declarou o Arcebispo Dom Vincenzo Paglia, presidente do Conselho Pontifício para a Família, em entrevista à Rádio Vaticano, que esta Carta dos Direitos da Família é defendida e valorizada como meio “para que não nos esqueçamos que a família, como sujeito jurídico, é uma dimensão que transpassa os séculos, que não nasceu anteontem nem há cem anos. Há uma dimensão que atravessa a história, que fez da família o primeiro lugar em que aprendemos a estar juntos: a família é o primeiro ‘nós'”.

As profundas palavras do Santo Padre, o Papa Francisco, nesse evento, assim como a celebração, deixam claro a importância do tema nesse momento da história da humanidade. Ele recordou no encontro: “Quisestes chamar a este momento «Família, vive a alegria da fé!» Gosto deste título! Entretanto, escutei as vossas experiências, os casos que contastes. Vi tantas crianças, tantos avós… Pressenti a tristeza das famílias que vivem em situação de pobreza e de guerra. Ouvi os jovens que se querem casar, mesmo por entre mil e uma dificuldades. E então nos surge a pergunta: Como é possível, hoje, viver a alegria da fé em família? Mas eu pergunto-vos também: «É possível viver esta alegria ou não é possível?”. Na missa do domingo, na Praça de São Pedro, ele resumiu em três tópicos: a família reza, a família guarda a fé, a família vive a alegria. E concluiu: “E, acima de tudo, um amor paciente: a paciência é uma virtude de Deus e nos ensina, na família, a ter este amor paciente, um com o outro. Ter paciência entre nós. Amor paciente. Só Deus sabe criar a harmonia a partir das diferenças. Se falta o amor de Deus, a família também perde a harmonia, prevalecem os individualismos, apaga-se a alegria. Pelo contrário, a família que vive a alegria da fé, comunica-a espontaneamente, é sal da terra e luz do mundo, é fermento para toda a sociedade.

A família foi querida por Deus desde que o Criador concedeu Adão e lhe deu Eva como esposa, determinando que habitassem a Terra e se perpetuassem pelo seu amor esponsal. Sabemos como a instituição familiar tem sido atacada por todos os lados: instituições internacionais, legislações ideológicas, decretos do executivo, julgamentos nos tribunais, propaganda sistemática na mídia – por todos os lados há muito mais facilidade de se colocar contra a família do que a construção dos valores positivos e essenciais da família humana. São tempos difíceis para a família e é muito importante que, ao valorizarmos a família, saibamos da campanha contrária a ela em tantos âmbitos de nossa sociedade. Como cidadãos, temos o direito de dar nossas opiniões e manifestar nossas convicções, que são importantes para o futuro da humanidade.

Assim, o Papa conclamou os jovens voluntários no seu encontro no Riocentro durante a JMJ Rio 2013: “Deus chama para escolhas definitivas, Ele tem um projeto para cada um: descobri-Lo. Responder à própria vocação é caminhar para a realização feliz de si mesmo. A todos Deus chama à santidade, a viver a sua vida, mas tem um caminho para cada um. Alguns são chamados a se santificar constituindo uma família por meio do sacramento do matrimônio. Há quem diga que hoje o casamento está “fora de moda”. Está fora de moda? [Não…]. Na cultura do provisório, do relativo, muitos pregam que o importante é “curtir” o momento, que não vale a pena comprometer-se por toda a vida, fazer escolhas definitivas, “para sempre”, uma vez que não se sabe o que reserva o amanhã. Em vista disso, eu peço que vocês sejam revolucionários, eu peço que vocês vão contra a corrente; sim, nisto peço que se rebelem contra esta cultura do provisório, a qual, no fundo, crê que vocês não são capazes de assumir responsabilidades, crê que vocês não são capazes de amar de verdade. Eu tenho confiança em vocês, jovens, e rezo por vocês. Tenham a coragem de “ir contra a corrente”. E tenham também a coragem de ser felizes!”

O Documento de Aparecida nos fala dessa importância de valorizar a família e de tutelar os seus direitos neste tempo de mudança de época: a família não é uma mera instituição natural; antes, faz parte do projeto do Criador (cf. Gn 1,27), de modo que “pertence à natureza humana que o homem e a mulher busquem um no outro sua reciprocidade e complementaridade” (n. 116). Na plenitude dos tempos, o Filho de Deus assumiu a nossa natureza humana e, “optando por viver em família em meio a nós, a eleva à dignidade de ‘Igreja doméstica’” (n. 115). O amor conjugal “é assumido no sacramento do matrimônio para significar a união de Cristo com sua Igreja” (n. 117; cf. 175g; 433s). É na família que a pessoa “descobre os motivos e o caminho para pertencer à família de Deus” (n. 118).

O Beato João Paulo II, na Carta às Famílias de 1994, ensinou que: “Dentre essas numerosas estradas, a primeira e a mais importante é a família: uma via comum, mesmo se permanece particular, única e irrepetível, como irrepetível é cada homem; uma via da qual o ser humano não pode separar-se.” Com efeito, normalmente ele vem ao mundo no seio de uma família, podendo-se dizer que a ela deve o próprio fato de existir como homem. Quando falta a família logo à chegada da pessoa ao mundo, acaba por criar-se uma inquietante e dolorosa carência que pesará depois sobre toda a vida. A Igreja une-se com afetuosa solicitude a quantos vivem tais situações, porque está bem ciente do papel fundamental que a família é chamada a desempenhar. Ela sabe, ainda, que normalmente o homem sai da família para realizar, por sua vez, num novo núcleo familiar, a própria vocação de vida. Mesmo quando opta por ficar sozinho, a família permanece, por assim dizer, o seu horizonte existencial, como aquela comunidade fundamental onde se radica toda a rede das suas relações sociais, desde as mais imediatas e próximas até as mais distantes. Porventura, não usamos a expressão “família humana” para nos referirmos ao conjunto dos homens que vivem no mundo? (cf. número 02).

A Igreja protege a família, célula sacramental que nasce do amor de um homem e de uma mulher, em caráter indissolúvel, aberto à vida, promovendo três colunas vitais como direito inalienáveis: primeiro, a dignidade da pessoa humana; segundo, o sacramento do matrimônio e terceiro a inviolabilidade da vida e da família. Assim como os dogmas estão para a fé católica, estes três pilares estão para a prática cristã dos batizados na Igreja Católica, que não devem se cansar de defender os direitos da família constituída pelo amor verdadeiro e eterno.

Desde sempre, o lar formado por Jesus, Maria e José é considerado como escola de amor, oração e trabalho. Da mesma maneira, contemplando a Família Sagrada somos chamados a mostrar ao mundo o amor, o trabalho e o serviço vividos diante de Deus, tal como os viveu a Sagrada Família de Nazaré. As condições de vida mudaram muito e progrediram enormemente nos âmbitos técnicos, sociais e culturais. Não podemos contentar-nos com estes progressos. Juntamente com eles, devem estar sempre presentes os progressos morais, como a atenção, a tutela e a ajuda à família, porque o amor generoso e indissolúvel de um homem e de uma mulher constitui o âmbito eficaz e o fundamento da vida humana na sua gestação, na sua iluminação, no seu crescimento e no seu termo natural.

A família nunca cairá de moda: só onde existem o amor e a fidelidade nasce e perdura a verdadeira liberdade. Por isso, a Igreja luta por adequadas medidas econômicas e sociais, para que no lar e no trabalho a mulher encontre a sua plena realização; a fim de que o homem e a mulher que contraem matrimônio e formam uma família sejam decididamente apoiados pelo Estado; para que se defenda a vida dos filhos como sagrada e inviolável, desde o momento da sua concepção; a fim de que a natalidade seja dignificada, valorizada e apoiada jurídica, social e legislativamente. Por isso, a Igreja opõe-se a todas as formas de negação da vida humana e sustenta aquilo que promove a ordem natural no âmbito da instituição familiar.

Ensina o Concílio Ecumênico Vaticano II que: “Os próprios esposos, feitos à imagem de Deus e estabelecidos numa ordem verdadeiramente pessoal, estejam unidos em comunhão de afeto e de pensamento e com mútua santidade, de modo que, seguindo a Cristo, princípio da vida, se tornem, pela fidelidade do seu amor, através das alegrias e sacrifícios da sua vocação, testemunhas daquele mistério de amor que Deus revelou ao mundo com a sua morte e ressurreição” (GS 52).

O Documento de Aparecida nos ensina que a família se deve tornar “um dos eixos transversais de toda ação evangelizadora da Igreja” (n. 435) – e neste âmbito a “infância” se torna destinatária de uma ação “prioritária” da Igreja (n. 438). Por isso, a pastoral familiar – em suas mais variadas expressões – há de “comprometer de maneira integral e orgânica as outras pastorais, os movimentos e associações matrimoniais e familiares a favor das famílias” (n. 437a). A principal bandeira para valorizar a família é promover a formação e ação de leigos competentes, animá-los a organizar-se para defender a vida e a família, e estimulá-los a participar em organismos nacionais e internacionais.

Que a Sagrada Família proteja as nossas famílias e que seus direitos sejam respeitados para o próprio bem do futuro da humanidade!

Dom Orani João Tempesta, O. Cist
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)

3 Pistas para reconhecer a ação do diabo

Servo de Deus, Dom Fulton John Sheen
Arquidiocese de Washington

Tradução e fonte: Sentinela no escuro

1. Amor pela nudez – Isto é claramente manifestado em vários níveis. Primeiro existe a tendência generalizada de vestir-se imodestamente. Já discutimos a modéstia aqui antes e devemos notar que modéstia vem da palavra “modo”, referindo-se ao meio ou a moderação. Por isso, se por um lado procuramos evitar noções opressivamente puritanas sobre o vestuário que impõem fardos pesados (especialmente sobre as mulheres) e que vêem o corpo como algo mau, por outro também devemos criticar muitas das formas modernas de se vestir no outro extremo. Estes “estilos” revelam mais do que razoável e geralmente deveriam, com a pretensão de chamar atenção a aspectos do corpo que são privados e reservados para a união sexual no casamento. Muitos em nossa cultura não vêem problema em desfilar vários níveis de nudez, vestindo peças que possuem a intenção de descobrir e chamar a atenção em vez de esconder as áreas privadas do corpo. Este amor pela exibição e provocação é seguramente um aspecto do próprio amor do Mal pela nudez. E ele tem espalhado esta obsessão a muitas pessoas no moderno Ocidente.

2. Pornografia – como não há nada de novo neste mundo caído, seguramente alcançou proporções epidêmicas por meio da internet. Qualquer psicoterapeuta, conselheiro ou sacerdote te dirá que o vício da pornografia é um enorme problema entre as pessoas de hoje. Sites pornográficos superam outras categorias dez vezes mais. Milhões de americanos estão consumindo enorme quantidade de pornografia e a “indústria” está crescendo exponencialmente. O que uma vez foi escondido nas livrarias, hoje está à distância de um clique na internet. E a ideia de que os hábitos de navegação podem ser facilmente descobertos pouco importa aos viciados na última das formas de escravidão. Muitos estão sobre uma encosta íngreme a ponto de caírem em formas mais degradantes de pornografia. Muitos acabam em sites ilegais e antes mesmo de saberem o que aconteceu, deparam-se com o FBI batendo nas suas portas. O amor de Satanás pela nudez possuiu muitos! A cultura global de sexualização também amarra ao amor satânico pela nudez. Nós sexualizamos a mulher para vender produtos. Nós sexualizamos até mesmo as crianças. As nossas novelas tagarelam excessivamente sobre sexo de um modo muito adolescente e imaturo. Nós somos, coletivamente, tolos e imaturos a respeito do sexo e a nossa cultura vibra como adolescentes fogosos obcecados por algo que eles não compreendem. Sim, o amor satânico pela nudez e tudo o que vem com ela. Violência – nós já discutimos antes como nós, coletivamente, transformamos a violência numa forma de entretenimento. Os nossos filmes de aventura e jogos de vídeo transformam retaliação violenta numa prazerosa forma de entretenimento e a morte numa “solução”. Os últimos Papas têm-nos alertado sobre a cultura da morte, na qual a morte é cada vez mais proposta como solução para os problemas. Na nossa cultura a violência começa no ventre, onde os inocentes são atacados. Chamam isto de “direito” e “escolha”. A violência e a adoção da morte continuam movimentando-se pela cultura por meio da contracepção, atividades violentas de gangues, recursos fáceis para a guerra e pena capital. O século passado talvez tenha sido o mais sangrento já conhecido no planeta e incontáveis pessoas, na casa dos milhões, morreram durante as duas guerras. Além disso, vale lembrar das centenas de conflitos e guerras regionais, terríveis campanhas em favor da fome na Ucrânia, China e outros lugares, genocídios na Europa Central, na África e no sudeste da Ásia. Paul Johnson, no seu livro Modern Times, estima que cerca de 100.000.000 morreram em guerras e de maneiras violentas nos últimos 50 anos do século XX. E a cada morte, Satanás faz a sua “dança intrometida”. Satanás ama a violência. Ele ama colocar o fogo e ver-nos culpando uns aos outros enquanto nos queimamos.

3. Divisão – Satanás ama dividir. Dom Fulton Sheen diz que a palavra “diabólico” vem de duas palavras gregas “dia Bolós”, significando separar, dividir. Tendo como base os meus próprios estudos de grego, por mais parcos que sejam, diria que os resultados da tradução não seriam os mesmos do bispo. “Dia” significa “através” ou “entre” e “bolós” “atirar ou arremessar”. Ainda assim, o bom bispo era um homem estudioso e eu peço a vocês, estudantes de grego, que me compreendam e defendam Dom Sheen. Ainda assim, é claro que o diabo nos quer dividir. Dentro da nossa própria psiqué e entre e os outros. Certamente ele se regozija a cada divisão que provoca. Ele “atira coisas entre nós” (dia bolós)! Eis o propósito diabólico. E, portanto, vemos as nossas famílias divididas, a Igreja dividida, a nossa cultura e o país divididos. Agora nós estamos divididos ao nível máximo: racial, religioso, político e econômico. Nós dividimos a nossa idade, raça, região, Estados azuis e vermelhos, liturgia, música, linguagem e demais pormenores sem fim. As nossas famílias são rachadas, os nossos casamentos são rachados. Os divórcios são exaltados e compromissos de quaisquer tipos são rejeitados e considerados impossíveis. A Igreja está rachada e dividida em facções, assim como o Estado, todos os níveis que compõem os conselhos escolares. Ainda assim, mesmo que concordemos com o essencial, verifica-se que até mesmo quando uma verdade é compartilhada somos chamados de intolerantes. E dentro também, nós lutamos com muitos ímpetos divisivos e formas de esquizofrenia figurativa e literal. Somos puxados para o que é bom, verdadeiro e belo e ainda o que é inferior, falso e mau também nos atrai. Sabemos o que é belo, o que é bom, mas desejamos o que é mau. Procuramos amor, mas cedemos ao ódio e à vingança. Admiramos o inocente, mas frequentemente nos alegramos em destruí-lo ou pelo menos em substituir isto pelo cinismo. E assim Satanás dança a sua “dança intrometida”.

Três características do diabólico: amor pela nudez, violência e divisão. O que achas? O príncipe deste mundo está cumprindo com os seus compromissos? Mais importante ainda: estamos sendo coniventes? O primeiro passo para vencer os compromissos do inimigo é conhecer os seus movimentos, nomeá-los e repreendê-los em Nome de Jesus.

Uso e abuso do celular nas escolas

Muitos dos pais talvez já tenham se descabelado com os filhos, deslizando com uma habilidade impressionante os dedos sobre o teclado de um smartphone, enquanto se tenta manter uma refeição em família… Ou mesmo muitos de nós nos surpreendemos desviando a atenção para o celular em ocasião em que deveríamos estar mais atentos às nossas companhias, como num jantar de casal ou de amigos num restaurante. E a imersão que muitas pessoas fazem nesses equipamentos eletrônicos não se restringe às refeições. Muitas vezes emperram o trânsito quando já está aberto o semáforo, participam “de corpo presente” de uma reunião de trabalho etc.

Mas talvez um ambiente mais crítico em que a indevida utilização pode atrapalhar o estudo e a própria convivência saudável é na escola. Manter a concentração dos alunos sempre foi um desafio enorme para o professor. Contudo, tem agora a “concorrência desleal” dos celulares e smartphones. E quase sempre é bem mais gostoso e aprazível manter conversas virtuais com amigos e navegar na INTERNET do que prestar atenção no mestre, por mais habilidoso que ele ou ela seja na arte de ensinar.

Muitas instituições adotam a prática de proibir o uso durante as aulas, ou mesmo o ingresso com esses aparelhos nas escolas. Essas medidas são úteis e muitas vezes necessárias para manter a atenção dos alunos, ou ao menos para evitar que se distraiam. No entanto, não podemos nos esquecer que um grande desafio do educador é formar para o bom uso da liberdade.

Quando as escolas proíbem o uso dos celulares, total ou parcialmente, também fomentam o bom uso da liberdade. Com efeito, respeitar as regras justas e legítimas não nos faz menos livres. Ao contrário, a escolha do que é bom e correto em cada situação é o que verdadeiramente nos liberta. Ao contrário, a infração e descumprimento das regras, ainda que tenham uma aparência de liberdade, no fundo nos faz escravos de nossos caprichos e egoísmo, que a pior mais cruel escravidão.

No entanto, é preciso formar os nossos filhos e alunos para exercer bem a liberdade também naquelas ocasiões em que não se está diante de uma norma específica de conduta, ou mesmo quando não há o menor risco de punição.

Nessa linha, os pais e professores precisam ter a sabedoria para lhes ensinar que, apesar de um mundo virtual e fascinante que o avanço da tecnologia lhes proporciona, há também um mundo real e concreto em que os relacionamentos também necessitam ser formados e cultivados.

Além disso, o mundo virtual tem um chamativo muito especial para fomentar atitudes egoístas. Embora possamos fazer um excelente uso dele, como por exemplo, para postar boas matérias em sites, redes sociais, ou mesmo enviar mensagens de estímulo e alento a nossos familiares, amigos e conhecidos, é também muito frequente adentrarmos no mundo virtual quando queremos, para fazer o que desejamos, buscando muitas vezes uma satisfação pessoal ou o simples entretenimento, esquecendo-nos por completo dos outros.

Também não convém esquecer o quanto os equipamentos eletrônicos nos desviam a atenção. Enquanto escrevia esse artigo fiz ao menos três interrupções para responder a sms da minha esposa, filha e amigo. E quantas vezes não farão o mesmo nossos filhos e alunos durante uma tarde de estudos ou em meio a uma aula?

No mundo cada vez mais virtual em que vivemos, talvez um bom conselho que podemos dar aos nossos filhos e alunos seja o seguinte: “faça o que deve fazer em cada momento e esteja real e concretamente no que se faz”. Isso talvez exija a valentia de desligar ou manter no silencioso os celulares durante as atividades que exijam maior concentração, mesmo que o uso não seja proibido. Porém, além de lhes propormos isso, devemos dar bons exemplos. Afinal, não são poucos os jovens da segunda ou terceira idade que também perdem longas horas do dia bem distantes deste mundo real…

Fábio Henrique Prado de Toledo é Juiz de Direito em Campinas e Especialista em Matrimônio e Educação Familiar pela Universitat Internacional de Catalunya – UIC.

A problemática do suicídio

Jéssica Marçal / Da Redação

Citando o que diz o Catecismo, padre Mário explica que ainda há salvação para os que atentaram contra a própria vida

No mês de outubro de 2013, a intenção de oração geral do Papa Francisco trouxe à tona a problemática do suicídio. O Santo Padre rezou por todos os que estão desesperados a ponto de desejar o fim da própria vida, para que sintam a proximidade de Deus.

Mas o que leva uma pessoa ao suicídio? Segundo o psicólogo João Carlos Medeiros, que trabalha com psicologia há 20 anos, os motivos podem variar de uma frustração a transtornos psiquiátricos. Especialmente o “vazio” de um mundo secularizado pode levar ao esvaziamento existencial e à depressão, causando desespero maior como o suicídio.

João explica que, por algum desses dois fatores, a mente da pessoa entra em tal estado que ela acha melhor a morte como solução para um problema que ela tem em vida.

“Ela não percebe as consequências que isso pode gerar na vida dela ou então na vida das pessoas que vão ficar. Ela não se dá conta disso. Ela está em uma frustração muito grande, em um vazio existencial e não vê sentido na vida”.

O sentido que a vida tem hoje é um dos pontos destacados pelo padre Mário Marcelo Coelho, sjc, doutor em teologia moral. Ele explica que quando o sentido da vida é colocado em algo material que não é alcançado, isso causa frustração. Entretanto, mesmo quando se consegue o que queria, isso não leva à uma realização, e a pessoa se frustra da mesma maneira.

“Tanto é que um grande índice hoje de pessoas que têm depressão, tristeza e chegam até mesmo ao suicídio são de países ricos. Então não é o bem material que vai trazer uma satisfação pessoal”, destaca o sacerdote.

Posição da Igreja

A Igreja trata da questão do suicídio no Catecismo da Igreja Católica (CIC), especificamente nos números 2280, 2281 e 2282. Uma das primeiras considerações é de que a vida é um valor e precisa ser respeitada. O padre explica, então, que é preciso cada um reconhecer a vida como um dom de Deus, sentindo-se administrador dessa vida e não seu proprietário.

“Nós não podemos dispor dessa vida. O suicídio contradiz a própria inclinação pessoal do ser humano, de perpetuar e conservar a sua vida, e ele fere gravemente o amor a si mesmo, o dom que Deus deu, que é a própria vida”, pontuou o sacerdote.

Objeto de atenção devem ser, então, segundo o padre, as causas que levam ao suicídio, que podem ser variadas, conforme já citou o psicólogo. Esses são fatores que podem, inclusive, anular a responsabilidade da pessoa diante do suicídio.

“Mesmo sendo um atentado contra a vida, a responsabilidade da pessoa pode ser diminuída. Portanto, o que a Igreja pede? Fazer um discurso valorizando a vida e ajudar as pessoas que passam por momentos difíceis a darem um sentido à sua própria vida”, disse padre Mário.

O sacerdote esclareceu que mesmo a pessoa que cometeu suicídio pode ser salva, inclusive essa é uma questão que a Igreja pede em seus documentos. Ele citou como exemplo o número 2283 do Catecismo: “Não se deve desesperar da salvação das pessoas que se mataram. Deus pode, por caminhos que só Ele conhece, dar-lhes ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida”.

E a Igreja pede um carinho e atenção para com a família de quem cometeu suicídio, pois em muitos casos os familiares acabam se responsabilizando pelo que acontece. “Rezar, pedir que a misericórdia de Deus desça sobre a família e sobre a pessoa que se matou”, finalizou o padre.

Sexta-feira da Paixão: Mistério de amor

Nada o detém na sua entrega amorosa

Vamos começar nossa reflexão a partir das palavras que São João usa para sintetizar o que aconteceu na Última Ceia e na Paixão de Jesus: “Tendo amado os Seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13, 1).
Amar até o fim significa que, no caminho da sua entrega por nós na cruz, Jesus seguiu todas as etapas, sem deixar uma só, e chegou até o final. As penúltimas palavras que pronunciou na cruz foram: “Tudo está consumado” (Jo 19, 30), antes de clamar: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!” (Lc 23, 46).
Mas amar até o fim também significa que Cristo, na cruz, nos amou sem limite algum, sem recuo algum, sem se poupar em nada, até o extremo. Nada limitou o amor do Senhor por nós. Não se deteve em barreiras, não O arredou nenhuma dor, nenhum sacrifício, nenhum horror. Acima do Seu bem-estar, da Sua honra, da Sua vida, colocou a salvação dos que amava, de cada um de nós.
Já pensamos no que é um amor ilimitado? Um amor que não depende de nada, nem exige nada, para se dar por inteiro?
O amor de Cristo começa sem que nós O tenhamos amado, não é retribuição, é puro dom; e chega até o extremo ainda que nós não o correspondamos, melhor dizendo, no meio de uma brutal falta de correspondência. Nisso consiste o amor – esclarece São João –: “Não em termos nós amado a Deus, mas em que Ele nos amou primeiro e enviou o seu Filho para expiar os nossos pecados” (1 Jo 4, 10).
A meditação da Paixão, neste sentido, é transparente. Nenhum sofrimento físico aparta Jesus da cruz. Basta que contemplemos – como numa sequência rápida de planos cinematográficos – Cristo preso, amarrado, arrastado indignamente, esbofeteado, açoitado até a Sua carne se converter numa pura chaga, coroado de espinhos, esfolado e esmagado sob o peso da cruz e de nossos pecados, cravado com pregos ao madeiro, torturado pela dor, pela sede, pelo esgotamento… Nada O detém na Sua entrega amorosa.
Podemos projetar também – em flashes consecutivos – a sequência dos sofrimentos morais do Senhor, e perceber que tampouco conseguiram afastá-Lo de chegar até o fim. É caluniado, ridicularizado, julgado iniquamente, condenado injustamente; alvo de dolorosa ingratidão, de hedionda traição; é ferido pela infidelidade, pela falta de correspondência dos que amava e escolhera como Apóstolos; é atingido pelas troças mais grosseiras, pelos insultos mais ferinos, por escarros e tapas no rosto…
Nada O faz recuar, nem sequer a última humilhação, pois não O deixaram morrer em paz, e desrespeitaram com zombarias e insultos até os últimos instantes da Sua agonia. Os que passavam perto da cruz sacudiam a cabeça e diziam: “Se és o Filho de Deus, desce da cruz!”
Os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos também zombavam de Jesus nessa hora: “Ele salvou a outros e não pode salvar-se a si mesmo! Se é rei de Israel, desça agora da cruz e creremos nele; confiou em Deus, que Deus o livre agora, se o ama…” (Mt 27, 39-43). Esta doação sem limites de Cristo é o Amor que nos salva, o caminho que Ele quis escolher para nos livrar do mal, afogando-o em si – no Seu Amor – como num abismo.
Ao mesmo tempo, é um contínuo apelo ao nosso amor. “Quem não amará o Seu Coração tão ferido? – perguntava São Boaventura. Quem não retribuirá o amor com amor? Quem não abraçará um Coração tão puro? Nós, que somos de carne, pagaremos amor com amor, abraçaremos o nosso Ferido, a quem os ímpios atravessaram as mãos e os pés, o lado e o Coração.
Peçamos que se digne prender o nosso coração com o vínculo do Seu amor e feri-lo com uma lança, pois é ainda duro e impenitente.

Padre Francisco Faus
http://www.padrefaus.org/

Santo Evangelho (João 18, 33b-37)

Jesus Cristo, Rei do Universo – Domingo 22/11/2015

Primeira Leitura (Dn 7,13-14)
Leitura da Profecia de Daniel:

13“Continuei insistindo na visão noturna, e eis que, entre as nuvens do céu, vinha um como filho de homem, aproximando-se do Ancião de muitos dias, e foi conduzido à sua presença. 14Foram-lhe dados poder, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviam; seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá”.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Responsório (Sl 92)

— Deus é Rei e se vestiu de majestade,/ glória ao Senhor!
— Deus é Rei e se vestiu de majestade,/ glória ao Senhor!

— Deus é Rei e se vestiu de majestade,/ revestiu-se de poder e de esplendor!

— Vós firmastes o universo inabalável,/ vós firmastes vosso trono desde a origem,/ desde sempre, ó Senhor, vós existis!

— Verdadeiros são os vossos testemunhos,/ refulge a santidade em vossa casa,/ pelos séculos dos séculos, Senhor!

 

Segunda Leitura (Ap 1,5-8)
Leitura do Livro do Apocalipse:

5Jesus Cristo é a testemunha fiel, o primeiro a ressuscitar dentre os mortos, o soberano dos reis da terra. A Jesus, que nos ama, que por seu sangue nos libertou dos nossos pecados 6e que fez de nós um reino, sacerdotes para seu Deus e Pai, a ele a glória e o poder, em eternidade. Amém. 7Olhai! Ele vem com as nuvens, e todos os olhos o verão, também aqueles que o traspassaram. Todas as tribos da terra baterão no peito por causa dele. Sim. Amém! 8“Eu sou o Alfa e o Ômega”, diz o Senhor Deus, “aquele que é, que era e que vem, o Todo-poderoso”.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Anúncio do Evangelho (Jo 18,33b-37)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo, + segundo João.
— Glória a vós, Senhor!

Naquele tempo, 33bPilatos chamou Jesus e perguntou-lhe: “Tu és o rei dos judeus?”  34Jesus respondeu: “Estás dizendo isto por ti mesmo, ou outros te disseram isto de mim?”  35Pilatos falou: “Por acaso sou judeu? O teu povo e os sumos sacerdotes te entregaram a mim. Que fizeste?”  36Jesus respondeu: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui”. 37Pilatos disse a Jesus: “Então tu és rei?” Jesus respondeu: “Tu o dizes: eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”.

– Palavra da Salvação.
– Glória a vós, Senhor.

 

A IGREJA CATÓLICA CELEBRA E VENERA HOJE
Santa Cecília, exemplo de mulher cristã 

Santa Cecília é uma das mártires mais veneradas durante a Idade Média, tanto que uma basílica foi construída em sua honra no século V

Hoje celebramos a santidade da virgem que foi exaltada como exemplo perfeitíssimo de mulher cristã, pois em tudo glorificou a Jesus. Santa Cecília é uma das mártires mais veneradas durante a Idade Média, tanto que uma basílica foi construída em sua honra no século V. Embora se trate da mesma pessoa, na prática fala-se de duas santas Cecílias: a da história e a da lenda. A Cecília histórica é uma senhora romana que deu uma casa e um terreno aos cristãos dos primeiros séculos. A casa transformou-se em igreja, que se chamou mais tarde Santa Cecília no Trastévere; o terreno tornou-se cemitério de São Calisto, onde foi enterrada a doadora, perto da cripta fúnebre dos Papas.

No século VI, quando os peregrinos começaram a perguntar quem era essa Cecília cujo túmulo e cuja inscrição se encontravam em tão honrosa companhia, para satisfazer a curiosidade deles, foi então publicada uma Paixão, que deu origem à Cecília lendária; esta foi sem demora colocada na categoria das mártires mais ilustres. Segundo o relato da sua Paixão Cecília fora uma bela cristã da mais alta nobreza romana que, segundo o costume, foi prometida pelos pais em casamento a um nobre jovem chamado Valeriano. Aconteceu que, no dia das núpcias, a jovem noiva, em meio aos hinos de pureza que cantava no íntimo do coração, partilhou com o marido o fato de ter consagrado sua virgindade a Cristo e que um anjo guardava sua decisão.

Valeriano, que até então era pagão, a respeitou, mas disse que somente acreditaria se contemplasse o anjo. Desse desafio ela conseguiu a conversão do esposo que foi apresentado ao Papa Urbano, sendo então preparado e batizado, juntamente com um irmão de sangue de nome Tibúrcio. Depois de batizado, o jovem, agora cristão, contemplou o anjo, que possuía duas coroas (símbolo do martírio) nas mãos. Esse ser celeste colocou uma coroa sobre a cabeça de Cecília e outra sobre a de Valeriano, o que significava um sinal, pois primeiro morreu Valeriano e seu irmão por causa da fé abraçada e logo depois Santa Cecília sofreu o martírio, após ter sido presa ao sepultar Valeriano e Tibúrcio na sua vila da Via Ápia.

Colocada diante da alternativa de fazer sacrifícios aos deuses ou morrer, escolheu a morte. Ao prefeito Almáquio, que tinha sobre ela direito de vida ou de morte, ela respondeu: “É falso, porque podes dar-me a morte, mas não me podes dar a vida”. Almáquio condenou-a a morrer asfixiada; como ela sobreviveu a esse suplício, mandou que lhe decapitassem a cabeça.

Nas Atas de Santa Cecília lê-se esta frase: “Enquanto ressoavam os concertos profanos das suas núpcias, Cecília cantava no seu coração um hino de amor a Jesus, seu verdadeiro Esposo”. Essas palavras, lidas um tanto por alto, fizeram acreditar no talento musical de Santa Cecília e valeram-lhe o ser padroeira dos músicos. Hoje essa grande mártir e padroeira dos músicos canta louvores ao Senhor no céu.

Santa Cecília, rogai por nós!

Solenidade de Cristo Rei do Universo – Ano B

Por Mons. Inácio José Schuster

Vós o vereis vir entre as nuvens do céu…
Daniel 7, 13-14; Apocalipse 1, 5-8; João 18, 33b-37

No Evangelho deste domingo, Pilatos pergunta a Jesus: «Tu és o rei dos judeus?», e Jesus responde: «Tu o dizes, eu sou Rei». Pouco antes, Caifás lhe havia dirigido a mesma pergunta de outra forma: «És tu o Filho de Deus bendito?», e também desta vez Jesus respondeu afirmativamente: «Sim, eu sou». E mais: segundo o Evangelho de Marcos [Mc 14, 62. ndt.], Jesus reforçou esta resposta, citando e aplicando a si mesmo aquilo que o profeta Daniel havia dito do Filho do homem que vem entre as nuvens do céu e recebe o reino que nunca passará (primeira leitura). Uma visão grandiosa na qual Cristo aparece dentro da história e acima dela, temporal e eterno. Junto a esta imagem gloriosa de Cristo, encontramos, nas leituras da solenidade, a do Jesus humilde e sofredor, mais preocupado por fazer de seus discípulos reis que de reinar sobre eles. Na passagem do Apocalipse, Ele é definido como quem «nos ama e nos lavou com seu sangue de nossos pecados e fez de nós um Reino de Sacerdotes para seu Deus e Pai». Foi sempre difícil manter unidas estas duas prerrogativas de Cristo — majestade e humildade –, derivadas de suas duas naturezas, divina e humana. O homem de hoje não tem dificuldade para reconhecer em Jesus o amigo e o irmão universal, mas acha difícil proclamá-lo também Senhor e reconhecer n’Ele um poder real sobre ele. Nos filmes sobre Jesus, esta dificuldade salta à vista. Em geral, o cinema optou pelo Jesus humilde, perseguido, incompreendido, tão perto do homem como para compartilhar suas lutas, suas rebeliões, seu desejo de uma vida normal. Nesta linha se situam Jesus Cristo Superstar e, de maneira mais crua e dessacralizadora, A última tentação de Cristo — de Martin Scorsese. Também Píer Paolo Pasolini, no Evangelho segundo Mateus, nos apresenta esse Jesus amigo dos apóstolos e dos homens, a nosso alcance, ainda que não carente de certa dimensão de mistério, expressada com muita poesia, sobretudo através de alguns eficazes silêncios. Só Franco Zeffirelli, em seu Jesus de Nazaré, se esforçou por manter juntas as duas marcas d’Ele. Aí se vê a Jesus como homem entre os homens, afável e à mão, mas por sua vez como alguém que, com seus milagres e sua ressurreição, nos situa ante o mistério de sua pessoa que transcende o humano. Não se trata de desqualificar os intentos de voltar a propor em termos acessíveis e populares o acontecimento de Jesus. Em seu tempo, Jesus não se ofendia se «as pessoas» o consideravam um dos profetas. Mas perguntava aos apóstolos: «E vós, quem dizeis que eu sou?», dando a entender que as respostas das pessoas não eram suficientes. O Jesus que a Igreja nos apresenta na solenidade de Cristo Rei é o Jesus completo, humaníssimo e transcendente. Em Paris se conserva, sob custódia especial, a barra que serve para estabelecer a longitude exata do metro, a fim de que esta unidade de medida, introduzida pela Revolução Francesa, não se altere com o passar do tempo. De forma similar, na comunidade de crentes que é a Igreja, se custodia a verdadeira imagem de Jesus de Nazaré que deve servir como critério para medir a legitimidade de toda representação sua na literatura, no cinema, na arte. Não se trata de uma imagem fixa e inerte, que é preciso conservar ao vazio, como o metro, mas de um Cristo vivo que cresce na compreensão da Igreja, também a partir das questões e das provocações sempre novas propostas pela cultura e pelo progresso humano.

 

Evangelho segundo São João 18, 33-37
Pilatos entrou de novo no edifício da sede, chamou Jesus e perguntou-lhe: «Tu és rei dos judeus?» Respondeu-lhe Jesus: «Tu perguntas isso por ti mesmo, ou porque outros to disseram de mim?» Pilatos replicou: «Serei eu, porventura, judeu? A tua gente e os sumos sacerdotes é que te entregaram a mim! Que fizeste?» Jesus respondeu: «A minha realeza não é deste mundo; se a minha realeza fosse deste mundo, os meus guardas teriam lutado para que Eu não fosse entregue às autoridades judaicas; portanto, o meu reino não é de cá.» Disse-lhe Pilatos: «Logo, Tu és rei!» Respondeu-lhe Jesus: «É como dizes: Eu sou rei! Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. Todo aquele que vive da Verdade escuta a minha voz.»

Com toda Igreja, neste último domingo começamos o ano litúrgico, celebramos a solenidade de Cristo Rei do universo. Pede-me – diz Deus no salmo segundo – a teu Cristo, e Eu te darei as nações por herança, reergueras com cetro de ferro. Na verdade, Satanás havia antecipado a esta oferta do Pai a Jesus. Nas tentações, havia oferecido os reinos deste mundo. Dizem os Evangelistas, Matheus e Lucas, que tendo conduzido Jesus a um alto monte, numa tentação imaginativa, Satanás lhes mostra os reinos desta terra: “Tudo isto é meu, eu possuo, e tudo isto eu te darei se me adorares”. Naquela ocasião, repeliu para longe Satanás. Ele estava consciente de que receberia todos os reinos deste mundo, mas não das mãos de Satanás, e sim das mãos do Pai. E o Pai lhe daria estes reinos todos, apos uma vida de entrega e de serviço abnegado a todos os seres humanos. Como é diferente a realeza de Cristo que hoje nós celebramos, como é diferente o Seu Reino dos Reinos e realezas que conhecemos neste mundo. Neste mundo os poucos monarcas que ainda subsistem estão distantes, normalmente não s misturam com os povos. Os chefes das nações nem sempre buscam daqueles que comandam. Quantos candidatos, fazem promessas mirabolantes nos tempos de eleição, que eles mesmos estão conscientes que não poderão realizar? Quanta demagogia, quanta corrupção nos reinos e nos domínios deste mundo. Como somos diariamente vítimas deste desserviço que muitos dos grandes nos prestam na nossa história. Jesus assumiu a Sua realeza, através do duro sacrifício da cruz, foi oferecendo a vida toda inteira, se deixando alto destruir por cada um de nós, que Ele se tornou não apenas o nosso redentor, mas o Rei do Universo. Doravante, todos os redimidos, todos aqueles que de maneira misteriosa se encaminham em direção da vida eterna, possuem em Jesus um ponto de absoluta referência. Você também, juntamente comigo, tem em Cristo o centro de suas atenções. Ele deseja dominar diferentemente dos chefes deste mundo. Ele não é demagogo, não faz promessas temporais, e não nos promete bens deste mundo, Ele deseja possuir o nosso afeto, Ele deseja entrar em nosso coração. O Reino de Deus não vem com ostentação, o Reino de Deus está dentro dos corações de cada um de nós e realiza, pouco a pouco, progressos e crescimentos. Agradeçamos a Deus hoje por nos ter arrancado do poder das trevas e nos ter transferido através da graça e do sacramento da iluminação ao Reino do Seu Filho bem amado, Jesus Cristo.

 

«Venha o Teu Reino» (Mt 6, 10)
Orígenes (c. 185-253), presbítero e teólogo
A oração, 25; GCS 3, 356 (a partir da trad. do breviário)

O reino do pecado é inconciliável com o reino de Deus. Portanto se queremos que Deus reine sobre nós, «que o pecado não reine mais no vosso corpo mortal». Mas «crucifiquemos os nossos membros no que toca à prática de coisas da terra», demos frutos do Espírito. Assim, como num paraíso espiritual, o Senhor passeará em nós, reinando sozinho com o Seu Cristo. Este será entronado em nós «à direita do Todo-Poderoso» que desejamos receber até que todos os Seus inimigos presentes em nós «se tornem estrado para os Seus pés» e seja expulso para longe «todo o principado, toda a dominação e poder». Tudo isto pode acontecer em cada um de nós até que seja destruído «o último inimigo […]: a morte» e Cristo diga em nós: «Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?» Por isso, desde agora, que tudo o que é «corruptível» em nós se torne santo e «se revista de incorruptibilidade» e o que é «mortal» […] se «revista da imortalidade» do Pai. Assim, Deus reinará sobre nós e estaremos desde já na alegria do novo nascimento e da ressurreição. (Referências bíblicas: Rom 6, 12; Col 3, 5; Gn 3, 8; Mt 26, 64; Sl 110, 1; 1Cor 15, 24.26.55.53)

 

O Meu Reino não é deste mundo
Padre Paulinho

Com esta celebração estamos dando início a última semana do tempo comum, preparando nosso coração para o advento, nascimento do menino Jesus. Na verdade Jesus nasce, se dá e quer nos visitar todos os dias. Hoje proclamamos Jesus Rei do universo, e todo reino precisa de um trono. Você sabe em qual trono que Jesus quer sentar? No Trono do nosso coração. E como todo Rei, Ele quer indicar os caminhos, organizar seu reino. Pilatos perguntou para Jesus: “você é Rei?” e Jesus lhe questiona: “é você que está dizendo ou outros te disseram?”. E Jesus diz: “meu reino não é deste mundo”. Todos temos saudades de Deus, era pequenos, fomos crescendo e a saudade de Deus foi ficando maior. Todos temos saudades de nosso familiares, eu me lembro quando fiquei por 4 anos no Tocantins, quanta saudade eu senti de meus pais. Mas existe uma saudade no nosso coração muito maior da que sentimos de nossos familiares, que é a saudade do Rei do Reis, e enquanto não dermos o trono para esse Rei, sentiremos saudades, pois só Deus pode matar essa saudade de nosso coração. É só Jesus que pode organizar a nossa vida. Enquanto eu estava levando Jesus no ostensório, o Rei que se faz pequeno em uma pedaço de pão, para chegar mais perto de nós, eu pude sentir que muitas pessoas foram tocadas. Mesmo que você tenha vindo para cá por outros motivos, Jesus já te esperava. Ele esperava esse momento de se encontrar conosco, pois somos criaturas, somos filhos amados de Deus. Quando nós nos afastamos de Deus, que tristeza para o Seu coração. Eu tenho a graça de atender as pessoas em confissão, e eu vejo o que o pecado faz na vida do ser humano, ele acaba com o ser humano. O inimigo de Deus que quer nos afastar cada vez mais do Pai. Jesus tem pressa te trazer para Ele, para que você proclame que sua vida não é aqui nesta terra, que você precisa buscar as coisas do céu. Você tem que ter suas coisas aqui na terra, mas é preciso ter os pés no chão, mas o coração no céu. Quem vai na missa, está adiantando esta graça, de se chegar no céu. Quando rezamos o terço precisamos deixar a oração passar no coração, para que você experimentar a manifestação de Jesus como Rei na sua vida. Jesus nasceu na pobreza, no meio das ovelhas, cavalos, e este reinado que o Senhor vem trazer para nós. É preciso que o Reinado de Deus se manifeste em nossos atos. Daqui a pouco você irá voltar para casa, e você precisa levar o que experimentou aqui, a alegria, o amor de Deus que nos encontra como estamos. Se fossemos esperar estarmos prontos para encontrar Deus estávamos perdidos. A graça de Deus irá nos conduzir, o que experimentamos aqui, não pode ficar para trás, apenas a vida velha pode ficar para trás. Nós temos que continuar seguindo em frente, só podemos seguir em frente, e a partir desse acampamento dizer: “não dá mais para voltar.” É o amor de deus que nos faz dizer sim a vontade de Deus. Em Dezembro vai fazer dois anos que sou padre, é uma decisão a cada dia, é esta decisão de cada dia que nós fará ter uma vida plena. As coisas deste mundo passam, os desejos, os prazeres da vida passam, mas as coisas do céu não passam. Busque as coisas do céu, as coisas que nos faz matar as saudades de Deus, até que enfim possamos vê-Lo face a face. Eu trabalhava na roça, meu último trabalho ficava a 9km de casa, eu ia de bicicleta rezando o terço, e no meu coração havia uma sede de Deus que eu não tinha controle, eu ia no grupo de oração, na missa. Mas no meio de semana enquanto eu esperava chegar o dia da missa, aquela sede ia aumentando em meu coração. E eu buscava cada vez mais a Deus e eu ia descobrindo os sacramentos, sacramento da confissão. E quando eu comecei a buscar a Deus de todo o meu coração, o Senhor começou a curar essa saudade que muitas vezes eu refletia nas pessoas, indo a festas, numa vida desregrada. E Deus ia me curando, me restaurando, pois a saudade não era de pessoas, mas do próprio Deus. Reze, meu irmão e você verá que sua vida irá mudar muito. Assuma seu chamado, seu lugar na Igreja, se você já faz, continue a fazer. Continue sendo a manifestação de Deus nas vidas das pessoas, mostre a elas que quem dá ordens na sua vida é Jesus. Busquemos as coisas de Deus e sairemos saciados. Minha mãe sempre foi religiosa e ela cuidava das coisas da igreja, e um dia minha mãe, Adelaide seu nome, estava diante do santíssimo, rezando de uma forma diferente, limpando e uma mulher que estava rezando, dona Lia, olhou para ela e percebeu que estava chorando. E Dona Lia perguntou o que tinha acontecido e minha mãe chorosa disse: “eu acho que estou grávida”, e dona Lia ficou feliz e minha mãe continuou chorando, dizendo que está gravidez não poderia ter acontecido, pois ela não tinha condições de ter mais um filho e dona Lia disse: “não se preocupe dona Adelaide, é menino e vai ser padre”. E hoje eu estou aqui, sacerdote de Cristo, para glória do Senhor.

 

SOLENIDADE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO REI DO UNIVERSO

Esta é a solenidade teve sua origem com o Papa Pio XI, o qual, na Encíclica “Quas primas”, de 11 de dezembro de 1925, “desenvolve a idéia de que um dos meios mais eficazes contra as forças destruidoras da época seria o reconhecimento da realeza de Cristo”. Sua colocação no fim do Ano Litúrgico fica mais dentro daquele contexto escatológico, em que sempre se caracterizou o último domingo na liturgia. A restauração do mundo em Cristo (Cf. Cl 1,15-20), que se consumou na sua Paixão, Morte e ressurreição, com sua vitória definitiva sobre a morte (Cf. 1Cor 15,26), sendo o Cordeiro imolado digno de receber a glória e o poder (Cf. Ap 5,12), traz realmente a característica principal desta solenidade: Aquele que restaura o mundo, nele próprio criado e nele próprio subsistente, é aquele também que vai exercer sobre ele a sua realeza, e esta transcende a dimensão temporal e cósmica, isto é, os domínios de um mundo visível. A realeza, pois, que se celebra nesta solenidade é total, plena e celeste, exercida à direita do Pai (Cf. At 7,56; Hb 1,3-4; Ap 22,1). Saibamos também que a realeza de Cristo é aquela que se manifestou no sacrifício da cruz, com seu paradoxo, com sua “loucura” e com sua simplicidade redentora. Portanto, “supera de longe o modelo davídico”, embora seja, biblicamente, de sua linhagem. Escarnecido por espectadores (Cf. Mt 27,39-44), insultado pelo ladrão impenitente (Lc 23,39) e por soldados da vassalagem imperial (Lc 22,63-65), reverenciado, porém, pelas santas mulheres, venerado e adorado pela própria Mãe, estimado por amigos, mesmo trêmulos e hesitantes, Cristo lhes dá, como também a todos nós, na resposta ao ladrão arrependido, a dimensão mais profunda de sua realeza: “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43). De fato, se ele não fosse rei, no verdadeiro sentido, com domínio, pois, até sobre a morte, jamais poderia fazer tal afirmação. “Hoje”, ou seja, “agora”, para mim, para você, para todos, e não só para o ladrão arrependido, começa então de maneira viva, eficaz, definitiva e solene, o início da imortalidade, com nossa participação definitiva na realeza de Cristo, inseridos que fomos, pela graça batismal, no sacerdócio do Filho de Deus, graça que nos confere ainda, além da dimensão régia e sacerdotal, também a dimensão profética para a nossa vida. Sendo a origem, o centro e o fim do universo criado, Cristo é também a sua consumação mais profunda, na medida em que o restaura e o entrega ao Pai (Cf. 1Cor 15,24). O Rei da eterna realeza é o mesmo, “hoje, amanhã e por todos os séculos” (Cf. Hb 13,8), como também é “o Alfa e o Omega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim” (Cf. Ap 22,13). A liturgia faz contemplar a visão do Filho do Homem descrita na primeira leitura (Ano B), ao qual são dados o poder, a majestade e o império, e a segunda leitura, do mesmo ano, mostra o Cristo como “a testemunha fiel, o Primogênito dos Mortos, o Príncipe dos reis da Terra. São aqui títulos ainda tímidos para a compreensão da verdadeira soberania de Cristo. No seu mistério pascal, Ele fez de nós um reino de sacerdotes para Deus (Ap 5,10) e, ressuscitado, garantiu a nossa ressurreição, pois “Ele é o Senhor que destruirá também a morte como o último inimigo (Cf. 1Cor 15,26). A exaltação de Cristo, na solenidade de sua realeza, vai permitir-nos rogar-lhe com o coração cheio de confiança: “…fazei que todas as criaturas, libertas da escravidão e servindo à vossa majestade, vos glorifiquem eternamente” (Oração do dia – Anos A e B). Esta celebração, colocada no fim do Ano Litúrgico, como que o coroa na glória do Cristo-Rei, fazendo também ressoar em toda a Igreja e na vida de todos nós o caráter escatológico de toda a liturgia e seu dinamismo santificador, como já se falou antes. O Reino de Cristo é, pois, um reino que começa por dentro e que não se deixa corroer por forças exteriores, opostas a ele, ou não muito propensas a submeter-se a ele. É o reino da verdade, não deste mundo (Cf. Jo 18,36), que dá testemunho da Verdade, e não como os reinos da Terra, que manipulam a verdade, fabricando-a a seu gosto, substituindo-a pela mentira, fazendo com que ambas (verdade e mentira) vistam a mesma roupagem e dando-lhes o mesmo conceito e o mesmo valor. Sim, diga-se mais: o Reino de Deus não é um reino de interesses mesquinhos, de vassalos e de caricaturas, mas um reino de amor, tão-somente um reino de amor, que não se contenta com “servos”, mas que se abre para a intimidade de “amigos” (Cf. Jo 15,15). Um reino, pois, cujo Senhor revela totalmente seus segredos aos mais humildes e aos mais pequeninos (Cf. Mt 11,25; Lc 10,21).

 

Cristo é um Rei que domina com o amor, explica Papa Não se impõe, mas respeita a liberdade

CIDADE DO VATICANO, domingo, 22 de novembro de 2009 (ZENIT.org).- Cristo é um Rei que domina com o amor, sem impor-se, respeitando a liberdade do homem, explicou Bento XVI na solenidade de Cristo Rei, que a Igreja celebrou neste domingo. A realeza de Cristo não é a dos grandes deste mundo, mas consiste no poder de derrotar o mal e a morte, de “acender a esperança”, inclusive no coração mais endurecido, acrescentou o pontífice, ao rezar ao meio-dia a oração mariana do Ângelus. No último domingo antes do início do Advento, o tempo litúrgico de preparação para o Natal, o Santo Padre explicou aos fiéis reunidos na Praça de São Pedro que o poder de Cristo “não é como o dos reis e dos grandes deste mundo; é o poder divino para dar a vida eterna, para libertar do mal, derrotar o domínio da morte”. “É o poder do Amor, que sabe extrair bem do mal, enternecer um coração endurecido, levar paz ao conflito mais agudo, acender a esperança na escuridão mais densa. Este Reino da Graça não se impõe jamais, mas respeita sempre nossa liberdade”, acrescentou, falando da janela dos seus aposentos. Segundo o pontífice, “o título de ‘rei’ referido a Jesus é muito importante nos Evangelhos e permite dar uma leitura completa da sua figura e da sua missão de salvação”. “Pode-se observar, neste sentido, uma progressão: começa-se com a expressão ‘rei de Israel’ e se chega à de ‘rei universal’, Senhor do cosmos e da história; portanto, muito além das expectativas do próprio povo judeu”, esclareceu. Diante da grandeza desta realeza, diante do paradoxo do seu sinal, a cruz, toda consciência tem que realizar necessariamente uma “opção”, indicou Bento XVI: “A quem quero seguir? Deus ou o maligno? A verdade ou a mentira?”. “Optar por Cristo não garante o êxito segundo os critérios do mundo, mas assegura essa paz e essa alegria que somente Ele pode dar”, reconheceu. “Demonstra-o, em toda época, a experiência de tantos homens e mulheres que, em nome de Cristo, em nome da verdade e da justiça, souberam opor-se às adulações dos poderes terrenos com suas diferentes máscaras, até selar esta fidelidade com o martírio”, concluiu.

A Ascensão do Senhor

Por Mons. Inácio José Schuster

Atos 1, 11-11; Efésios 1, 17-23; Marcos 16, 15-20

A solenidade da Ascensão de Jesus «ao céu» é uma ocasião para que esclareçamos de uma vez por todas as idéias sobre o que entendemos por «céu». Em quase todos os povos, o céu identifica-se com a morada da divindade. Também a Bíblia utiliza esta linguagem espacial. «Glória a Deus no alto do céu e paz na terra aos homens». Com a chegada da era científica, este significado religioso da palavra «céu» entrou em crise. Para o homem moderno, o céu é o espaço no qual se move nosso planeta e todo o sistema solar, e nada mais. Conhecemos a fala atribuída a um astronauta soviético, de volta de sua viagem pelos cosmos: «Percorri muito o espaço e não encontrei Deus por nenhuma parte!». Deste modo, é importante esclarecer o que entendemos nós, os cristãos, quando dizemos «Pai nosso que estás nos céus», ou quando dizemos de alguém que «foi ao céu». A Bíblia adapta-se, nestes casos, ao modo de falar popular; mas ela bem sabe e ensina que Deus «está no céu, na terra e em todo lugar», que é Ele quem «criou os céus», e se os criou não pode estar «fechado» neles. Que Deus esteja «nos céus» significa que «vive em uma luz inacessível»; que dista de nós «quanto o céu eleva-se sobre a terra». Em outras palavras, que é infinitamente diferente de nós. O céu, em sentido religioso, é mais um estado que um lugar. Deus está fora do espaço e do tempo e assim é seu paraíso. À luz do que dissemos, o que significa proclamar que Jesus «subiu ao céu»? Encontramos a resposta no Credo: «Subiu ao céu e está sentado à direita do Pai». Que Cristo tenha subido ao céu significa que «está sentado à direita do Pai, isto é, que, também como homem, entrou no mundo de Deus; que foi constituído, como diz São Paulo na segunda leitura, Senhor e cabeça de todas as coisas. Jesus subiu ao céu, mas sem deixar a terra. Só saiu de nosso campo visual. Ele mesmo nos assegura: «Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo» (Mateus 28, 16-20. Ndt). As palavras do anjo –«Galileus, o que fazeis olhando para o céu?»– contêm, portanto, uma advertência, se não uma velada rejeição: não devem ficar olhando para cima, ao céu, como para descobrir aonde vai estar Cristo, mas sim viver na espera de sua volta, prosseguir sua missão, levar seu Evangelho até os confins da terra, melhorar a qualidade da vida na terra. Quando se trata de nós, «ir ao céu» ou «ao paraíso» significa estar «com Cristo» (Flp 1, 23). «Vou preparar para vós um lugar… para que onde eu esteja, estejais também vós» (João 14, 2-3). O «céu», entendido como lugar de descanso, da recompensa eterna dos bons, forma-se no momento em que Cristo ressuscita e sobe ao céu. Nosso verdadeiro céu é Cristo ressuscitado, com quem iremos nos reunir e formar «corpo» depois de nossa ressurreição, e de maneira provisória e imperfeita imediatamente após a morte. Portanto, Jesus não ascendeu a um céu já existente que o esperava, mas foi formar e inaugurar o céu para nós. Há quem se pergunta: mas o que faremos «no céu» com Cristo toda a eternidade? Não nos aborreceremos? Respondo: aborrece talvez estar bem e com ótima saúde? Perguntai aos enamorados se se aborrecem de estar juntos. Quando acontece que se vive um momento de intensa e pura alegria, não nasce em nós o desejo de que dure para sempre, de que não acabe jamais? Aqui embaixo tais estados não duram para sempre, porque não existe objeto que possa satisfazer indefinidamente. Com Deus é diferente. Nossa mente encontrará nele a Verdade e a Beleza que nunca acabará de contemplar, e nosso coração o Bem do qual jamais se cansará de desfrutar.

 

Evangelho segundo São Marcos 16, 15-20

E disse-lhes: «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for batizado será salvo; mas, quem não acreditar será condenado. Estes sinais acompanharão aqueles que acreditarem: em meu nome expulsarão demônios, falarão línguas novas, apanharão serpentes com as mãos e, se beberem algum veneno mortal, não sofrerão nenhum mal; hão-de impor as mãos aos doentes e eles ficarão curados.» Então, o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi arrebatado ao Céu e sentou-se à direita de Deus. Eles, partindo, foram pregar por toda a parte; o Senhor cooperava com eles, confirmando a Palavra com os sinais que a acompanhavam.

Hoje, domingo, em todo Brasil celebramos a Ascensão do Nosso Senhor Jesus Cristo. “Povos todos batei palmas – nos convida o Salmista – aclamai a Deus com hinos de alegria. Na verdade a Ascensão, num primeiro momento, pode ter deixado os Apóstolos desconcertados. Isto se pode notar claramente na primeira leitura, retirada dos atos de Lucas. Estão estupefatos, surpresos, todos olhando para o céu, até não poderem mais divisar Jesus, porque uma nuvem O encobriu de seus olhos. Estavam acostumados a presença de Jesus, agora Ele está ausente. Para onde foi? Aonde é o Céu? Como está e o que faz Jesus no Céu?  Podemos nós aqui na Terra olhar para Jesus no Céu? Podemos nós aqui na terra, conversar com Jesus no Céu? No entanto, apesar de uma aparente tristeza, os discípulos estavam felizes. Na verdade Jesus havia realizado uma longa peregrinação. Da Galiléia a Jerusalém, a paixão e morte. Agora do alto do Calvário sobe ao mais alto dos Céus. Jesus é Glorificado diante de Deus. Ele deixa uma presença física, para inaugurar uma outra presença, não física. Jesus abandona para sempre, com Sua morte e ressurreição, uma presença ligada ao tempo e espaço, para inaugurar uma outra, não mais relacionada e sujeita ao tempo e o espaço. Antes da Páscoa, se Jesus estivesse aqui, não poderia estar ali. Se Jesus falasse com esse, não poderia falar com aquele. Quando, com sua humanidade, penetra em Deus, possui uma presença difusa; Ele não está mais ligado nem ao tempo, nem ao espaço. Ele pode estar presente, para nós que acreditamos, em qualquer lugar e a qualquer momento. Jesus não está presente na sua Igreja e cada um de nós, apenas externamente, mas interiormente presente. Esta presença é superior à presença externa. Agora, a partir da Ascensão, é hora da Igreja peregrinar, e ela o fará longamente, até o final dos tempos, pelos quatros cantos da Terra, divulgando a boa mensagem e o bom odor de Cristo, para todo homem e toda mulher de boa vontade. Se Deus encurtasse o tempo e imediatamente viesse o fim do mundo, não haveria tempo para que nascêssemos, mas o número dos eleitos de Deus não está completo ainda. O Evangelho deve ser difundido. E esse é o tempo da Igreja, que vai da Ascensão, até a Sua segunda volta. A Igreja tem consciência de ser abandonada por Ele. Não é um barco abandonado ao furor das ondas. Apesar de todos os contratempos, a Igreja é sempre igual a si mesma, e caminha em direção à Pátria definitiva. Nós agradecemos a Deus por fazer parte desta barca e desta Igreja.

 

«Eles não são deste mundo como Eu não sou deste mundo»
Cardeal John Henry Newman (1801-1890), sacerdote, fundador de comunidade religiosa, teólogo
PPS, vol. 6, n° 15 «Rising with Christ»

Começai desde já, neste tempo santo de Páscoa, a vossa ressurreição com Cristo. Vede como Ele vos estende a mão! Ele ressuscita; ressuscitai com Ele! Saí do túmulo do velho Adão, abandonai as vossas preocupações, as invejas, as inquietações, as ambições mundanas, a escravatura do hábito, o tumulto das paixões, os fascínios da carne, o espírito frio, terra a terra e calculista, a ligeireza, o egoísmo, a preguiça, a vaidade e as manias de grandeza. Esforçai-vos doravante por fazer o que vos parece difícil, mas que não deveria, e não deve, ser negligenciado: velai, rezai e meditai. […] Mostrai que o vosso coração, as vossas aspirações e toda a vossa vida estão com o vosso Deus. Reservai em cada dia algum tempo para ir ao Seu encontro. […] Não vos peço que abandoneis o mundo nem que abandoneis os vossos deveres nesta terra, mas sim que retomeis a posse do vosso tempo. Que não consagreis horas inteiras ao lazer ou à vida em sociedade enquanto apenas consagrais alguns instantes a Cristo. Que não rezeis unicamente quando estais cansados e à beira de adormecer; que não vos esqueçais por completo de O louvar ou de interceder pelo mundo e pela Igreja. Comportai-vos segundo as palavras da Sagrada Escritura: «Procurai as realidades lá de cima». Mostrai a vossa pertença a Cristo, pois o vosso coração «ressuscitou com Ele» e «a vossa vida está oculta n’Ele» (Col 3,1-3).

 

ASCENDER HOJE COM CRISTO
Padre Fábio de Melo

É providencial o tema de hoje a partir da festa da ascensão. Toda festa cristã, não é outra coisa senão um convite a celebrar o humano que no Cristo se esconde. O meu destino como homem, está escondido inteiro no destino de Cristo. ‘Cristo é a terra prometida, aquilo que nós precisamos almejar’ Nosso destino não é Adão, somos filhos de Adão, mas somos convidados a ser o Cristo. Cristo é a terra prometida, aquilo que nós precisamos almejar. Quanto mais eu saio da minha condição de Adão, mais leve vou ficando e alcançando minha condição Crística, o que compreendemos como salvação mas também como condenação; Eu não espero Cristo de braços cruzados, eu luto para o que futuro seja antecipado agora em minha vida, o que Cristo viveu eu sou convidado a viver agora, o que me deixa mais puro, mais santo, com isso ficamos mais leve. São Paulo faz a distinção das obras da carne e das obras do espírito, o que ele faz é a dimensão ‘adâmica e Crística’. Pegue aquilo que é humano e revista de luz em você. Deus nos dá a graça de iluminarmos nossa vida. Quantas vezes reduzimos o nosso cristianismo a uma experiência pequena. A pior coisa da religião é quando nós a transformamos numa coisa mundana, quando nos esquecemos da transcendência que ela precisa sugerir. O cristianismo me convida ao equilíbrio de ser um homem na terra, mas ter a cabeça no céu, é para o alto que preciso viver. Será que estou mais próximo de Deus ou de Adão? Eu caminho olhando para Deus ou olhando para Adão, para aquilo que é medo na minha vida? Vivam para promover as coisas do alto, as transformações que o mundo precisa, a começar pela mudança de mentalidade, eu começo a ser mais elevado, não vejo as coisas de maneira tão simplória, tão rasteira, tão reduzida, mas o meu olhar se amplia para ver o todo. A Igreja carrega a missão de antecipar o que é eterno, por isso nós não anunciamos o pecado de Adão, mas a ressurreição de Jesus. Olhar para o pecado de Adão sem olhar a Ressurreição de Jesus, é viver em desespero. O que você anda escolhendo para sua vida? Em termos de amizades, relacionamentos, de cultura, isso te eleva ou te puxa para baixo? Tem pessoas que chegam todas conflituadas, sofrendo horrores, por que namora pessoas que só as puxam para baixo, que tem amizades que é causa de queda o tempo todo. A prova que você dará da ressurreição de Jesus é voltando mais humano para casa, amando mais do que já ama. Se não somos capazes de elevarmos o nosso amigo, em vão é nosso trabalho. Precisamos nos decidir a ser hoje mais elevado, a pensar mais alto. Ser cristão é não estar preso no Adão, mas estar disposto a estar sempre sendo elevado, até que Jesus volte. Você não pode esquecer que Ele volta toda vez que você se decide a ser bom, que tem disposição a ser melhor. É para cima que precisamos ir, para o céu, para o alto. Pode ser que você preste atenção demais no Adão. Não! Seu destino é outro! Adão já foi superado. Eu carrego ele dentro de mim, você dentro de você, agora dê um jeito de amarrar essa criatura e se configurar a Cristo, se tornando mais leve, de ir se livrando daquilo que não presta. Para que ficar perdendo tempo com infidelidades, se você pode ser fiel. Para que ficar perdendo tempo com infidelidades, se você pode ser fiel. Porque perder tempo com vícios, se você pode ter uma vida saudável. O destino de cristo é o destino de todos nós, nosso destino é ascensão. Se aquele programa está te fazendo mal, corta. Às vezes o programa que a gente vê, vai jogando a gente para baixo, vai nos lembrando que somos Eva e o pior, vai fazendo você ser Eva. Não! Somos ‘cristos’! Não permita, corta na raiz. Hoje você está sendo convidado a se elevar. Ser cristão é isso, é ser Jesus novamente. ‘Somos Senhor sua Igreja que aguarda e apressa tua vinda gloriosa’. Hoje eu quero neutralizar tudo o que em mim possa me deprimir, tudo que me puxa para baixo, eu quero apressar a vinda de Jesus. O rosto que você acorda, o formato que você resolve dar a ele, se é sorriso que acolhe, ou a cara que você quer jogar fora, isso apressa ou não a vinda de Cristo. Jesus passa pelo nosso rosto, pelo nosso abraço, passa pelo nosso corpo. Onde existe um o corpo preguiçoso, nele o diabo descansa, mas se o diabo descansa num corpo preguiçoso, Deus trabalha no corpo que trabalha, Deus sorri no seu sorriso. Se você lutar por aquilo que é bom, você nunca estará no erro. Deus é bom, nós não somos ainda, mas podemos ser. Antecipe a vinda de Deus. Deus voltará no momento que nós decidirmos que Ele seja vivo em nós. Precisamos deixar que Ele volte hoje em nós. É para o alto que precisamos ir, olhar para o alto. Não tenha olhar de galinha, tenha olhar de águia, é para cima que o cristão tem olhar.

 

SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR     

A Solenidade da Ascensão de Jesus que hoje celebramos sugere que, no final do caminho percorrido no amor e na doação, está à vida definitiva, a comunhão com Deus. Sugere também que Jesus nos deixou o testemunho e que somos nós, seus seguidores, que devemos continuar a realizar o projeto libertador de Deus para os homens e para o mundo.

No Evangelho, Jesus ressuscitado aparece aos discípulos, ajuda-os a vencer a desilusão e o comodismo e envia-os em missão, como testemunhas do projeto de salvação de Deus. De junto do Pai, Jesus continuará a acompanhar os discípulos e, através deles, a oferecer aos homens a vida nova e definitiva.

Na primeira leitura, repete-se a mensagem essencial desta festa: Jesus, depois de ter apresentado ao mundo o projeto do Pai, entrou na vida definitiva da comunhão com Deus – a mesma vida que espera todos os que percorrem o mesmo “caminho” que Jesus percorreu. Quanto aos discípulos: eles não podem ficar a olhar para o céu, numa passividade alienante; mas têm de ir para o meio dos homens continuar o projeto de Jesus.

A segunda leitura convida os discípulos a terem consciência da esperança a que foram chamados (a vida plena de comunhão com Deus). Devem caminhar ao encontro dessa “esperança” de mãos dadas com os irmãos – membros do mesmo “corpo” – e em comunhão com Cristo, a “cabeça” desse “corpo”. Cristo reside no seu “corpo” que é a Igreja; e é nela que se torna hoje presente no meio dos homens.

Comentário:

A primeira leitura começa com um prólogo (v. 1-2) que relaciona o Ato dos Apóstolos com o 3º Evangelho – quer na referência ao mesmo Teófilo a quem o Evangelho era dedicado, quer na alusão a Jesus, aos seus ensinamentos e à sua ação no mundo (tema central do 3º Evangelho). Neste prólogo são também apresentados os protagonistas do livro – o Espírito Santo e os apóstolos, vinculados com Jesus.

da apresentação inicial, vem o tema da despedida de Jesus (v. 3-8). O autor começa por fazer referência aos “quarenta dias” que mediaram entre a ressurreição e a ascensão, durante os quais Jesus falou aos discípulos “a respeito do Reino de Deus” (o que parece estar em contradição com o Evangelho, onde a ressurreição e a ascensão são apresentadas no próprio dia de Páscoa – cf. Lc 24). O número quarenta é, certamente, um número simbólico: é o número que define o tempo necessário para que um discípulo possa aprender e repetir as lições do mestre. Aqui define, portanto, o tempo simbólico de iniciação ao ensinamento do Ressuscitado.

As palavras de despedida de Jesus (v. 4-8) sublinham dois aspectos: a vinda do Espírito e o testemunho que os discípulos vão ser chamados a dar “até aos confins do mundo”. Temos resumida aqui a experiência missionária da comunidade de Lucas: o Espírito irá derramar-se sobre a comunidade crente e dará a força para testemunhar Jesus em todo o mundo, desde Jerusalém a Roma. Na realidade, trata-se do programa que Lucas vai apresentar ao longo do livro, posto na boca de Jesus ressuscitado. O autor quer mostrar com a sua obra que o testemunho e a pregação da Igreja estão entroncados no próprio Jesus e são impulsionados pelo Espírito.

O último tema é o da ascensão (v. 9-11). Evidentemente, esta passagem necessita de ser interpretada para que, através da roupagem dos símbolos, a mensagem apareça com toda a claridade.

Temos, em primeiro lugar, a elevação de Jesus ao céu (v. 9a). Não estamos a falar de uma pessoa que, literalmente, descola da terra e começa a elevar-se; estamos a falar de um sentido teológico (não é o “repórter”, mas sim o “teólogo” a falar): a ascensão é uma forma de expressar simbolicamente que a exaltação de Jesus é total e atinge dimensões supra-terrenas; é a forma literária de descrever o culminar de uma vida vivida para Deus, que agora reentra na glória da comunhão com o Pai.

Temos, depois, a nuvem (v. 9b) que subtrai Jesus aos olhos dos discípulos. Pairando a meio caminho entre o céu e a terra, a nuvem é, no Antigo Testamento, um símbolo privilegiado para exprimir a presença do divino (cf. Ex 13,21.22; 14,19.24; 24,15b-18; 40,34-38). Ao mesmo tempo, simultaneamente esconde e manifesta: sugere o mistério do Deus escondido e presente, cujo rosto o Povo não pode ver, mas cuja presença adivinha nos acidentes da caminhada. Céu e terra, presença e ausência, luz e sombra, divino e humano, são dimensões aqui sugeridas a propósito de Cristo ressuscitado, elevado à glória do Pai, mas que continua a caminhar com os discípulos.

Temos ainda os discípulos a olhar para o céu (v. 10a). Significa a expectativa dessa comunidade que espera ansiosamente a segunda vinda de Cristo, a fim de levar ao seu termo o projeto de libertação do homem e do mundo.

Temos, finalmente, os dois homens vestidos de branco (v. 10b). O branco sugere o mundo de Deus, o que indica que o seu testemunho vem de Deus. Eles convidam os discípulos a continuar no mundo, animados pelo Espírito, a obra libertadora de Jesus; agora, é a comunidade dos discípulos que tem de continuar, na história, a obra de Jesus, embora com a esperança posta na segunda e definitiva vinda do Senhor.

O sentido fundamental da ascensão não é que fiquemos a admirar a elevação de Jesus; mas é convidar-nos a seguir o “caminho” de Jesus, olhando para o futuro e entregando-nos à realização do seu projeto de salvação no meio do mundo.

À ação de graças, Paulo une uma fervorosa oração a Deus, na segunda leitura, para que os destinatários da carta conheçam “a esperança a que foram chamados” (v. 18). A prova de que o Pai tem poder para realizar essa “esperança” (isto é, conferir aos crentes a vida eterna como herança) é o que Ele fez com Jesus Cristo: ressuscitou-O e sentou-O à sua direita (v. 20), exaltou-O e deu-Lhe a soberania sobre todos os poderes angélicos (Paulo está preocupado com a perigosa tendência de alguns cristãos em dar uma importância exagerada aos anjos, colocando-os até acima de Cristo – cf. Cl 1,6). Essa soberania estende-se, inclusive, à Igreja – o “corpo” do qual Cristo é a “cabeça”.

O mais significativo deste texto é, precisamente, este último desenvolvimento. A idéia de que a comunidade cristã é um “corpo” – o “corpo de Cristo” – formado por muitos membros, já havia aparecido nas “grandes cartas”, acentuando-se, sobretudo, a relação dos vários membros do “corpo” entre si (cf. 1 Cor 6,12-20; 10,16-17; 12,12-27; Rom 12,3-8); mas, nas “cartas do cativeiro”, Paulo retoma a noção de “corpo de Cristo” para refletir sobre a relação que existe entre a comunidade e Cristo.

Neste texto, em concreto, há dois conceitos muito significativos para definir o quadro da relação entre Cristo e a Igreja: o de “cabeça” e o de “plenitude” (em grego, “pleroma”).

Dizer que Cristo é a “cabeça” da Igreja significa, antes de mais, que os dois formam uma comunidade indissolúvel e que há entre os dois uma comunhão total de vida e de destino; significa também que Cristo é o centro à volta do qual o “corpo” se articula, a partir do qual e em direção ao qual o “corpo” cresce se orienta e constrói, a origem e o fim desse “corpo”; significa ainda que a Igreja/corpo está submetida à obediência a Cristo/cabeça: só de Cristo a Igreja depende e só a Ele deve obediência.

Dizer que a Igreja é a “plenitude” (“pleroma”) de Cristo significa dizer que nela reside a “plenitude”, a “totalidade” de Cristo. Ela é o receptáculo, a habitação, onde Cristo se torna presente no mundo; é através desse “corpo” onde reside, que Cristo continua todos os dias a realizar o seu projeto de salvação em favor dos homens. Presente nesse “corpo”, Cristo enche o mundo e atrai a Si o universo inteiro, até que o próprio Cristo “seja tudo em todos” (v. 23).

A questão central abordada no Evangelho é a do papel dos discípulos no mundo, após a partida de Jesus ao encontro do Pai. O texto consta de três cenas: Jesus ressuscitado define a missão dos discípulos; Jesus parte ao encontro do Pai; os discípulos partem ao encontro do mundo, a fim de concretizar a missão que Jesus lhes confiou.

Na primeira cena (v. 15-18), Jesus ressuscitado aparece aos discípulos, acorda-os da letargia em que se tinham instalado e define a missão que, doravante, eles serão chamados a desempenhar no mundo…

A primeira nota do envio e do mandato que Jesus dá aos discípulos é a da universalidade… A missão dos discípulos destina-se a “todo o mundo” e não deverá deter-se diante de barreiras raciais, geográficas ou culturais. A proposta de salvação que Jesus fez e que os discípulos devem testemunhar destina-se a toda a terra.

Depois, Jesus define o conteúdo do anúncio: o “Evangelho”. O que é o “Evangelho”? No Antigo Testamento (sobretudo no Deutero-Isaías e no Trito-Isaías), a palavra “evangelho” está ligada à “boa notícia” da chegada da salvação para o Povo de Deus. Depois, na boca de Jesus, a palavra “Evangelho” designa o anúncio de que o “Reino de Deus” chegou à vida dos homens, trazendo-lhes a paz, a libertação, a felicidade. Para os catequistas das primeiras comunidades cristãs, o “Evangelho” é o anúncio de um acontecimento único, capital, fundamental: em Jesus Cristo, Deus veio ao encontro dos homens, manifestou-lhes o seu amor, inseriu-os na sua família, convidou-os a integrar a comunidade do Reino, ofereceu-lhes a vida definitiva. Tal é o único e exclusivo “evangelho”, a “boa notícia” que muda o curso da história e que transforma o sentido e os horizontes da existência humana.

O anúncio do “Evangelho” obriga os homens a uma opção. Quem aderir à proposta que Jesus faz, chegará à vida plena e definitiva (“quem acreditar e for batizado será salvo”); mas quem recusar essa proposta, ficará à margem da salvação (“quem não acreditar será condenado” – v. 16).

O anúncio do Evangelho que os discípulos são chamados a fazer vai atingir não só os homens, mas “toda a criatura”. Muitas vezes o homem, guiado por critérios de egoísmo, de cobiça e de lucro, explora a criação, destrói esse mundo “bom” e harmonioso que Deus criou… Mas a proposta de salvação que Deus apresenta destina-se a transformar o coração do homem, eliminando o egoísmo e a maldade. Ao transformar o coração do homem, o “Evangelho” apresentado por Jesus e anunciado pelos discípulos vai propor uma nova relação do homem com todas as outras criaturas – uma relação não mais marcada pelo egoísmo e pela exploração, mas pelo respeito e pelo amor. Dessa forma, nascerá uma nova humanidade e uma nova natureza.

A presença da salvação de Deus no mundo tornar-se-á uma realidade através dos gestos dos discípulos de Jesus… Comprometidos com Jesus, os discípulos vencerão a injustiça e a opressão (“expulsarão os demônios em meu nome”), serão arautos da paz e do entendimento dos homens (“falarão novas línguas”), levarão a esperança e a vida nova a todos os que sofrem e que são prisioneiros da doença e do sofrimento (“quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados”); e, em todos os momentos, Jesus estará com eles, ajudando-os a vencer as contrariedades e as oposições.

Na segunda cena (v. 19), Jesus sobe ao céu e senta-Se à direita de Deus. A elevação de Jesus ao céu (ascensão) é uma forma de sugerir que, após o cumprimento da sua missão no meio dos homens, Jesus foi ao encontro do Pai e reentrou na comunhão do Pai.

A entronização de Jesus “à direita de Deus” mostra, por sua vez, a veracidade da proposta de Jesus. Na concepção dos povos antigos, aquele que se sentava à direita de Deus era um personagem distinto, que o rei queria honrar de forma especial… Jesus, porque cumpriu com total fidelidade o projeto de Deus para os homens, é honrado pelo Pai e sentado à sua direita. A proposta que Jesus apresentou, que os discípulos acolheram e que vão ser chamados a testemunhar no mundo, não é uma aventura sem sentido e sem saída, mas é o projeto de salvação que Deus quer oferecer aos homens.

Na terceira cena (v. 20), descreve-se resumidamente a ação missionária dos discípulos: eles partiram (quer dizer, deixaram para trás as seguranças e afetos humanos por causa da missão) a pregar (quer dizer, a anunciar com palavras e com gestos concretos essa vida nova que Deus ofereceu aos homens através de Jesus) por toda a parte (propondo a todos os homens, sem exceção, a proposta salvadora de Deus).

O autor desta catequese assegura aos discípulos que não estão sozinhos ao longo durante a missão… Jesus, vivo e ressuscitado, está com eles, coopera com eles e manifesta-se ao mundo nas palavras e nos gestos dos discípulos.

A festa da Ascensão de Jesus é, sobretudo, o momento em que os discípulos tomam consciência da sua missão e do seu papel no mundo. A Igreja (a comunidade dos discípulos, reunida à volta de Jesus, animada pelo Espírito) é, essencialmente, uma comunidade missionária, cuja missão é testemunhar no mundo a proposta de salvação e de libertação que Jesus veio trazer aos homens.

Fonte: Agência Ecclesia

4º Domingo de Quaresma – Ano B

Por Mons. Inácio José Schuster

DEUS AMOU TANTO O MUNDO!
2 Crônicas 36, 14-16. 19-23; Efésios 2, 4-10; João 3, 14-21

No Evangelho deste domingo, encontramos uma das frases absolutamente mais belas e consoladoras da Bíblia: «Deus tanto amou o mundo que deu seu Filho único, para que todo aquele que nele creia não pereça, mas tenha vida eterna». Para falar-nos de seu amor, Deus serviu-se das experiências de amor que o homem tem no âmbito natural. Dante diz que em Deus existe, como atado em um único volume, «o que no mundo se desencaderna».
Todos os amores humanos –conjugal, paterno, materno, de amizade– são páginas de um caderno, ou fagulhas de um incêndio, que tem em Deus sua fonte e plenitude. Antes de tudo, Deus, na Bíblia, fala-nos de seu amor por meio da imagem do amor paterno. O amor paterno está feito de estímulo, de impulso. O pai quer fazer crescer o filho, impulsionando-o a que dê o melhor de si. Por isso, dificilmente um pai louvará o filho incondicionalmente em sua presença. Teme que não se esforce mais.
Uma marca do amor paterno é também a correção. Mas um verdadeiro pai é desta forma aquele que dá liberdade, segurança ao filho, que o faz sentir-se protegido na vida. Eis aqui por que Deus se apresenta ao homem, ao longo de toda a revelação, como sua «rocha e baluarte», «fortaleza sempre perto nas angústias».
Outras vezes, Deus fala-nos com a imagem do amor materno. «Acaso uma mulher esquece seu filho, sem compadecer-se do filho de suas entranhas? Pois ainda que essas chegassem a esquecer, eu não te esqueço» (Is 49, 15). O amor da mãe está feito de acolhida, de compaixão e de ternura; é um amor «entranhável». As mães são sempre um pouco cúmplices dos filhos e com freqüência devem defendê-los e interceder por eles perante o pai. Fala-se sempre do poder de Deus e de sua força; mas a Bíblia fala-nos também de uma fraqueza de Deus, de uma impotência sua. É a «fraqueza» materna.
O homem conhece por experiência outro tipo de amor, o amor esponsal, do qual se diz que é «forte como a morte» e cujas chamas «são flechas de fogo» (Ct 8, 6). E também a este tipo de amor recorreu Deus para convencer-nos de seu apaixonado amor por nós. Todos os termos típicos do amor entre homem e mulher, inclusive o termo «sedução», são empregados na Bíblia para descrever o amor de Deus pelo homem. Jesus levou a cumprimento todas estas formas de amor, paterno, materno, esponsal (quantas vezes se comparou a um esposo!); mas lhes acrescentou outra: o amor de amizade. Dizia a seus discípulos: «Já não vos chamo de servos… chamo-vos de amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai vos dou a conhecer» (João 15, 15).
O que é a amizade? A amizade pode constituir um vínculo mais forte que o parentesco mesmo. O parentesco consiste em ter o mesmo sangue; a amizade em ter os mesmos gostos, ideais, interesses. Nasce da confidência, isto é, do fato de que confio a outro o mais íntimo e pessoal de meus pensamentos e experiências. Agora: Jesus explica que nos chama amigos porque tudo o que ele sabia de seu Pai celestial nos deu a conhecer, confiou-nos. Fez-nos partícipes dos segredos da família da Trindade! Por exemplo, do fato de que Deus prefere os pequenos e os pobres, de que nos ama como um pai, de que nos tem preparado um lugar. Jesus dá à palavra «amigos» seu sentido mais pleno.
Que devemos fazer depois de ter recordado este amor? Algo simplíssimo: crer no amor de Deus, acolhê-lo; repetir comovidos, com São João: «Nós cremos no amor que Deus tem por nós!» (I João 4, 16).

 

Na tradição litúrgica da Igreja, este DOMINGO foi sempre conhecido pelo nome “LAETARE” (Alegrai-vos). A preparação da celebração e a sua própria realização devem ter em conta o que diz a Oração Coleta: “Deus de misericórdia… concedei ao povo cristão fé viva e espírito generoso, a fim de caminhar alegremente para as próximas solenidades pascais”. Os ornamentos de flores poderão aparecer, mas muito discretos, como sinal deste momento de alegria que se situa a meio do caminho da Páscoa.
Seguindo a sequência das etapas mais importantes da história da salvação, na 1ª Leitura iremos ouvir a crônica do exílio (Segundo Livro das Crônicas). Para o cronista, a história do povo judeu é um hino à fidelidade de Deus e à sua paciência que tudo fez para manter e renovar a fidelidade dos homens. No centro de toda esta narração, encontramos o templo, destruído em primeiro lugar, e depois a convocatória para a sua reconstrução.
O salmo 136 canta não só o passado marcado pelo pecado (“se eu me não lembrar de ti, Jerusalém”), mas também o futuro que poderá ser melhor, através da graça do perdão. São Paulo convida-nos a alegria, porque a ressurreição de Jesus é a nossa ressurreição por obra e graça do amor de Deus. Estando mortos por causa dos nossos pecados, Deus deu-nos a vida. “É pela graça que fostes salvos, por meio da fé”. Sendo assim, não podemos ficar indiferentes. Temos que corresponder com boas obras ao amor imenso de Deus, manifestado em Jesus Cristo.
O melhor itinerário quaresmal é ter os olhos fixos na morte e ressurreição de Cristo, realizando ao mesmo tempo uma conversão. Nas trevas da noite pessoal de Nicodemos, Jesus vem ao seu encontro e entra em diálogo com ele. Toda a caminhada de fé se orienta para o mistério pascal. Hoje, a partir da imagem da serpente elevada no deserto para ser salvação, este mistério apresenta-se através de uma linguagem de exaltação. O Filho do Homem será elevado pelos homens na cruz; Deus O exaltará na sua glorificação. A cruz e a glória encontram-se. A cruz torna-se luz e ilumina todos os homens e as suas obras.
A partir da cruz, o Filho do Homem torna-se visível a todos os homens que o queiram “ver”, que desejem vê-lo face a face para n’Ele descobrir toda a radicalidade da humanidade que é a mesma que Deus assumiu ao enviar o seu único Filho ao mundo para redimi-lo. Por isso, a cruz é o caminho da fé e, com ela, da verdadeira salvação, para que todos os que acreditam tenham a vida eterna. Deus não enviou o seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele.
Não podemos esquecer isto, porque, hoje, Deus envia a sua Igreja (todos nós) ao mundo para que continue a ser instrumento de salvação. Deus ama este mundo e nós devemos imitar o nosso Pai. Este amor divino é manifestado a todos nós na Eucaristia. Novamente, Deus é “elevado” e apresentado a todos, para que a nossa fé cresça e ansiemos pela salvação que nos vem da Páscoa do Senhor. “Nós somos obra de Deus, criados em Jesus Cristo, em vista das boas obras que Deus de antemão preparou, como caminho que devemos seguir” (2ª Leitura). Que Cristo continue a modelar a nossa vida.

 

A LUZ DA VERDADE ILUMINA NAS TREVAS
Evangelho do IV Domingo da Quaresma
Por Padre Angelo del Favero

Jo 3,14-21
“Então Jesus disse a Nicodemos: ‘Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que seja levantado o filho do Homem, a fim de que todo aquele que crer tenha nele vida eterna. Pois Deus não enviou o seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. Quem nele crê não é julgado; quem não crê, já está julgado; porque não creu no Nome do filho único de Deus. Este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque as suas obras eram más. Pois quem faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que suas obras não sejam demonstradas como culpáveis. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se manifeste que suas obras são feitas em Deus’.

Neste IV domingo da Quaresma (“laetare”), a Palavra divina bate em nosso coração trazendo a alegria de um grande anúncio: “Pois Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16); e é justamente o Filho unigênito que o revela “de noite” para Nicodemos, figura de cada homem, pesquisador (por natureza) da Verdade (Jo 3,1). Conversando com ele, Jesus declara: “Em verdade, em verdade, te digo: quem não nascer do alto não pode ver o Reino de Deus” (Jo 3,3); e o “mestre em Israel” ingenuamente pergunta como pode um homem voltar para útero materno. A resposta é um caminho da mente que começa há muito tempo: “Pois Deus amou o mundo ..”. Com este “pois”, Jesus traça um paralelo entre o fato narrado no livro dos Números e o seu destino: “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que seja levantado o Filho Homem, a fim de que todo o que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna”(Jo 3,14).
Lembro-me aqui do episódio: no tempo do êxodo dos israelitas no deserto, muitos deles morreram por causa da picada de serpentes venenosas enviadas por Deus para punir a desconfiança do povo. Só se salvaram aqueles que conseguiram olhar para uma serpente de bronze colocada em um poste por Moisés, sob as instruções do próprio Deus (Nm 21, 4b-9). A partir da figura deste evento bíblico, Jesus revela a Nicodemos a necessidade salvífica (“necessita”) que Ele mesmo seja levantado no madeira da cruz, em uma espécie de identificação vicária e reparadora com a serpente – pecado: “Aquele que não conhecera o pecado, Deus o fez pecado por causa de nós, a fim de que, por ele, nos tornemos justiça de Deus “(2 Cor 5,21). Essa nossa “justificação” consiste em uma espécie de “gravidez” da natureza humana na morte de Cristo, graças à qual cada um de nós foi regenerado Nele para a vida nova do Espírito Santo. Nenhum homem da história humana foi excluído deste renascimento “do alto”, mas só a vida daqueles que não querem fazer o mal pode ser efetivamente regenerada.
De fato, Jesus diz a Nicodemos: “quem faz o mal odeia a luz e não vem para luz, para que suas obras não sejam demonstradas como culpáveis. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se manifeste que suas obras são feitas em Deus”(Jo 3,20-21). Estas palavras do Senhor lançam um raio de luz divina na questão aparecida no dia 23 de Fevereiro de 2012 no Journal of Medical Ethics, título de um artigo de medicina moral. Ela foi colocada por dois estudiosos italianos que operam na Austrália, e já percorreu o mundo, não só científico. A questão (perversamente retórica) é esta: “O aborto depois do nascimento: por que a criança deveria viver?”.
A tese dos dois “pesquisadores” é expressa com palavras que comparam a vida da criança antes e depois do nascimento, aspecto que pode trazer o mal-entendido “gestacional” de Nicodemos. E eis aqui as suas declarações absurdas: “quando depois do nascimento se verificam as mesmas circunstâncias que justificam o aborto antes do nascimento, deveria ser permitido o que nós chamamos de aborto pós-natal” (do Zenit italiano, 13/03/2012: “O aborto após o nascimento? “). Porém, eis, ao contrário, a pergunta sincera de Nicodemos: “Como pode um homem nascer, sendo velho? Por acaso pode entrar pela segunda vez no ventre de sua mãe e renascer? “(Jo 3,4).
Do artigo em questão, eu só li as citações publicadas pela agência Zenit, que entre outras coisas, informa que “numa carta aberta, os autores do artigo se declararam maravilhados pela reação hostil, dizendo que “devia ser um mero exercício de lógica”” (Zenit, italiano, 12/03/2012: “O aborto eo infanticídio”). Apesar das minhas limitações, acho que posso comentar o conjunto com o juízo que Jesus faz hoje: “a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque as suas obras eram más. Pois quem faz o mal odeia a luz, para que suas obras não sejam demonstradas como culpáveis. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se manifeste que suas obras são feitas em Deus” (Jo 3,19-21).
Em outras palavras, baseando-se somente na lógica “pura” (e não na razão iluminada pela luz da Verdade), é arriscado acabar no abismo moral do qual os autores escrevem: substituir o valor da vida com a qualidade da vida significa simplesmente não reconhecer a dignidade do homem. E a sua dignidade, fonte de grande alegria, é esta: “Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).

 

QUARTO DOMINGO DA QUARESMA – Ano B
“Alegra-te, Jerusalém! Reuni-vos, vós todos que a amais; vós que estais tristes, exultai de alegria! Saciai-vos com a abundância de suas consolações” (Is 66, 10s).
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha, MG

Meus irmãos,
Estamos vivendo um momento de aproximação do teatro da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Este é o domingo LAETERE, ou seja, o domingo em que os paramentos podem ser róseos. Por isso, todos nós somos convidados a restaurar nossas vidas em Cristo Senhor.
Na Quaresma, a liturgia relaciona a caminhada de Israel com a revelação em Cristo e a nossa salvação pela fé, professada no Batismo. Por isso, pela recepção do Batismo o fiel é convidado a formar uma comunidade de luz e de misericórdia.
A primeira leitura – 2Cr 36,14-16.19-23) Deus encarregou Ciro de reconstruir o Templo. O final de 2Cr esboça uma teologia da história de Israel – que findou, pelo Exílio, em 587 aC. O Cronista pensa como Jeremias e Ezequiel: Deus advertiu bastante, pela boca dos profetas, mas Israel não obedeceu e os reis quiseram fazer a sua própria vontade: por isso veio o Juízo: a destruição de Jerusalém e o exílio de sua elite. Mas a última palavra de Deus é de misericórdia: como ele fez destruir, assim, também faz reconstruir. Para isso, usa-se do vencedor dos babilônios: Ciro, o persa. Deus castiga mas não para destruir, mas para renovar o homem.

Caros fiéis,
O trecho que relaciona o episódio referente a Israel, narrado neste domingo, à primeira vista não parece ilustrar o Evangelho. Contudo, é bom que se observe que a liturgia de hoje apareça atravessada de um fio homogêneo: a passagem da morte à vida, das trevas à luz, do pecado à reconciliação, do pecado à graça santificante. Israel estava morto, a terra e a cidade estavam destruídos. E, pior do que tudo isso, o povo hebreu estava exilado. Mas, Deus fez o povo hebreu reviver, levando-o de volta. E isso, sem mérito da parte daquele Povo, mas pelo intermédio de um pagão, o rei Ciro, conforme relata a primeira leitura, que se apresenta a si mesmo como encarregado de Javé para realizar esta obra.
Na mesma linha de entendimento, a segunda leitura fala de nossa revivificação com Cristo, numa terminologia eminentemente batismal. Acentua fortemente a gratuidade desse agir de Nosso Deus. Não foi por nossos méritos, mas porque Deus assim o quis, em sua grande e insondável misericórdia. O que não quer dizer que não precisamos fazer nada. Não somos salvos pelas obras, mas para as obras, para as obras boas que Deus nos preparou em sua eterna providência.  A Carta aos Efésios(Ef 2,4-10) apresenta Deus que restaurou a nossa vida em Cristo. Todos os homens afastaram-se de Deus e estão mais perto da morte do que da vida. A isso responde o texto deste domingo: Deus nos corressuscitou em Cristo e nos deu um lugar na sua vida. Morto mesmo é quem está entregue ao seu egoísmo; para reviver, precisa de amor que seja maior do que o seu fechamento à riqueza da graça, que Deus nos demonstra em Jesus Cristo. Esta maravilha do amor deve manifestar-se, também, na vida dos que assim são renovados: devem realizar a caridade que Deus desde sempre sonhou para eles.

Irmãos e Irmãs,
Da morte de Jesus nasce a vida. Por isso, celebramos este domingo que é chamado de Domingo da Alegria, conforme canta a antífona da entrada: “Alegra-te, Jerusalém! Exultai e alegrai-vos, vós todos que estáveis tristes!”. É o domingo do amor de Deus, do amor narrado – primeira leitura retirada do Livro das Crônicas -; do amor anunciado – segunda leitura; e do amor plenamente revelado na pessoa de Jesus Cristo – Evangelho. Um amor surpreendente e único de Jesus que assume a condição humana, inclusive a morte. Da morte de Jesus, porém, nasce a vida, a vida eterna. Da maldição da cruz brota a graça salvadora para as criaturas.
Nicodemos era fariseu, magistrado e membro do Sinédrio. Foi um dos poucos da classe dominante a reconhecer que na pessoa de Jesus havia alguma coisa a mais que profeta. Mas se manteve sempre com discrição, tanto que foi procurar Jesus pela noite, ou seja, às escondidas. Foi Nicodemos quem teve a oportunidade para defender Jesus, estando presente e agindo com desenvoltura no sepultamento de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Caríssimos irmãos,
Deus amou o mundo, assim anuncia o Evangelista João(cf. Jo 3,14-21). Mundo significa o universo e as criaturas criadas. Mundo pode significar a humanidade invadida pelo mal, que não quer receber a doutrina salvadora de Jesus, que se opõe ao Reino de Deus, especialmente nos grandes momentos da paixão, morte e ressurreição. Por isso, Jesus anunciou: “Coragem, eu venci o mundo!” (Jo 16,33).
É, pois, necessário fazer uma transposição de mundo para o sentido da liturgia de hoje: “Deus amou o mundo” (Jo 3, 16a). Esse amor de Deus mistura dois sentidos: o  de enviar o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. O mundo é englobado por tudo: pecadores, ovelhas desgarradas, corações transviados, os Zaqueus, os Dimas, as Madalenas, os Judas. A condição para todos é a mesma: crer que no nome do Filho único de Deus.
Crer é ter a experiência de Cristo, como temos do alimento, da alegria, das cores. Crer implica entrar em contacto com o Mistério da Salvação. É preciso estar em comum união com Cristo, o que implica falar, agir, viver, conviver com o mistério da Cruz, que é escândalo para uns, loucura para outros, e poder e sabedoria de Deus para os cristãos verdadeiros, porque enquanto o mundo gira a Cruz permanece de pé.
A cruz não é um incidente de percurso. A cruz está prevista e querida por Deus, ainda que espante o modo de pensar humano. Aqui reside a novidade da liturgia de hoje: na Páscoa podemos vestir as vestes da luz, da salvação, da comunhão com Deus, sob a condição de ser levantado com o Cristo na cruz.
A salvação que vem da Cruz é certa. Cristo não mente. Não será por acaso que, no momento em que se fala da salvação que vem da Cruz, menciona-se a palavra “verdade” e a palavra “luz”. Quem age conforme a verdade, se aproxima da luz. João aproxima no seu Evangelho a verdade da luz. Luz, com um sentido maior que claridade, significa presença de Deus e o estado em que se encontram os que foram redimidos por Jesus. São Paulo diz que os cristãos são filhos da luz, isto é, vivem envolvidos por Deus.
Jesus se identificou com a verdade e é um único caminho da verdade e da vida. Agir conforme a verdade significa pautar o pensamento, o sentimento e a ação no modo de agir, sentir e pensar de Jesus. Como São Francisco, que fez da verdade um critério básico do seguimento de Cristo, iluminando sua vida e seu agir, podemos seguir o que nos ensinou Pio XI a respeito do pobre frade de Assis: “um quase Cristo redivivo”.

Meus irmãos,
Como batizados, podemos nos perguntar: participamos da comunidade? Nossa comunidade reflete a luz de Cristo? Nosso mundo é um pouco melhor porque nossa comunidade existe?
No momento em que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil nos propõe um tema específico para meditação durante a Quaresma, por meio da Campanha da Fraternidade, busquemos nos identificar com tão salutar proposta e posicionemo-nos em defesa da dignidade humana, contra todas as formas de violência, construindo um mundo de paz. Isso porque cremos em Cristo e crer nEle significa segui-Lo. Crer em Cristo significa amá-Lo. Crer em Cristo significa viver nEle e por Ele em Deus.
Aproximamo-nos da grande Festa da Páscoa. Por isso, somos chamados à alegria de uma estreita preparação para esta festa da misericórdia, da redenção, do amor. Não há lugar para a tristeza onde o amor está vencendo. A certeza do amor de Deus nos enche de consolação e nos afasta de qualquer atitude de desesperança e de tristeza.
Apesar de nossas contínuas infidelidades, Deus, misericordioso e sempre fiel à sua aliança, incansavelmente nos chama à obediência filial e à reconciliação. Que Deus nos ajude e nos ilumine a perceber os sinais de amor presente na vida quotidiana, porque da morte gloriosa de Cristo nasceu a vida plena.

Caríssimos irmãos,
Nesta ocasião especial de uma experiência mística especial, em que a liturgia nos propõe a meditação da misericórdia de Deus que sempre se nos derrama como bálsamo em nossas chagas, abertas pelo pecado, as rosas deste domingo, no prenúncio da primavera (lembrando que estamos às vésperas da estação das flores nos trópicos), nos antecipa, por meio da Santa Igreja e, mais ainda, da participação à Sagrada Eucaristia, o gozo eterno que desfrutaremos no céu.
Na Antigüidade cristã, este Domingo era chamado Dia das Rosas, pois os cristãos se presenteavam mutuamente com as primeiras rosas da primavera. No século X, entrou na liturgia deste dia a singular Bênção da Rosa, sendo que em Roma a rosa passou a ser de ouro. O Papa ia à Basílica estacional de Santa Cruz de Jerusalém, levando na mão uma rosa de ouro que significava a alegria pela proximidade da Páscoa e, regressando, presenteava com ela o prefeito de Roma.
Dessa solenidade derivou o costume, ainda hoje em vigor, do Soberano Pontífice benzer neste dia uma rosa de ouro e a oferecer a uma pessoa, a uma igreja ou a uma instituição, em sinal de particular atenção. No Brasil há três rosas de ouro: uma que foi ofertada à Princesa Isabel, em 1888, pelo papa Leão XIII, pela abolição da escravatura; uma outra oferecidas à Basílica Nacional de Nossa Senhora Aparecida, em 1966, pelo papa Paulo VI, devido à monumentalidade de sua edificação; e o papa Bento XVI, em visita àquele Santuário Nacional, em 2007, ofereceu a simbólica rosa de ouro à Senhora Aparecida.
Neste dia, a Santa Igreja faz como que uma pausa na penitência quaresmal e demonstra alegria pelo toque do órgão, pelos ornamentos dos altares e pela cor rósea dos paramentos. Toda a missa respira alegria e júbilo pela grande festa que se aproxima.
Vivendo esse momento especial da liturgia, procederemos, após o Ofertório da Missa, a bênção das rosas. Na oração. Pediremos a Deus a graça de, ao experimentar a fragrância de tão belas rosas, sejamos reconciliados “no odor dos vossos ungüentos e, cheios de alegria e exaltando de fé, corramos ao encontro das festas que se aproximam”, a alegria pascal. Amém.

Vai e restaura a minha Igreja!

A Igreja deve despojar-se da mundanidade

No dia 4 de outubro, o Papa Francisco esteve em Assis para uma visita de amizade e gratidão a um santo de quem escolheu não apenas o nome, mas o ardor de levar adiante uma missão que ambos assumiram, sintetizada nas palavras que São Francisco ouviu na ermida de São Damião: «Vai e restaura a minha Igreja!».

Dentre os vários discursos que o Pontífice fez na cidade, ganhou as manchetes dos jornais o que pronunciou na residência do bispo local, no ambiente denominado “Sala do Despojamento”, onde, em 1205, o jovem Francisco, aos 23 anos, devolveu suas roupas ao progenitor, Pedro Bernardo, afirmando que, daquele momento em diante, seu pai era Deus e sua família era a Igreja.

Além do bispo de Assis – a quem o Papa saudou carinhosamente como «meu irmão Domingos» –, estavam na sala várias pessoas assistidas pela Cáritas diocesana. Foi a elas que Francisco dirigiu a palavra, aprofundando o conceito de despojamento, considerando-o essencial para uma autêntica restauração da Igreja e da sociedade. Trago seus tópicos mais incisivos: o conteúdo é dele, a tradução (nem sempre literal) é minha.

A Igreja deve despojar-se constantemente de um perigo extremamente grave que ameaça a todos os seus membros: a “mundanidade”, ou seja, a tentativa de conciliar o Cristianismo com o espírito do mundo. Esse despojamento não se refere tanto – ou não somente – aos trajes, aos pertences, às estruturas e aos ambientes eclesiásticos. O passo a ser dado é muito mais amplo e radical, e envolve o estilo de vida e de atuação do cristão. Ele foi sintetizado por São Paulo nas palavras com que apresenta o exemplo de Jesus: «Esvaziou-se a si mesmo, assumiu a condição de servo e se fez semelhante aos homens» (Fl 2,7).

Quando não existe esse despojamento interior – e, na medida do possível, também exterior – o coração humano passa a ser ocupado pelo orgulho, pela vaidade e pela ambição, que transformam a vida, a Igreja e a sociedade num campo minado, onde tudo e todos devem estar ao meu dispor e serviço. Muito diferente do caminho percorrido por Jesus, «que veio não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida pela salvação de todos» (Mt 20,28). Sem esse despojamento, ninguém terá vontade e forças para ocupar “o último lugar” – o único onde se encontra Deus – e muito menos para procurar “os últimos” da sociedade (Cf. Lc 14,10.13).

É preciso despojar-se para ter condições de acolher a multidão de despojados por um mundo selvagem que não oferece condições, não socorre, não se importa se há crianças morrendo de fome, famílias sem ter com o que se alimentar e tanta gente sujeita à escravidão. O caminho de quem não se esvazia para se preencher de Deus termina num beco sem saída, e quem o percorre tenta o impossível: servir a Deus e ao dinheiro, conciliar a segurança da fé com a do mundo. Um caminho que mata a alma, as pessoas, a Igreja. Não existe Cristianismo sem cruz nem cristãos de pastelaria com tortas e doces fascinantes!

Francisco encerrou suas palavras pedindo a Deus «que dê a todos a coragem de nos despojarmos não de 20 centavos, mas do espírito do mundo, que é a lepra, o câncer da Igreja e da sociedade!». Talvez tenha sido por isso que, poucos dias depois, pediu a dois bispos europeus que deixassem o cargo, já que pareciam não ter forças suficientes para acompanhá-lo nessa tarefa.

Essa sua constante preocupação pela renovação da Igreja lhe foi impressa no coração por seu predecessor, o Papa João XXIII, o qual, em 1959, a um diplomata que lhe perguntava quais seriam os objetivos do Concílio, respondeu: «Precisamos retirar a poeira imperial que, desde Constantino, se acumulou sobre a cátedra de São Pedro, prejudicando a verdadeira imagem e missão da Igreja no mundo».

Inclusive nas críticas que recebe por apresentar mais o caminho a percorrer do que os perigos a evitar, Francisco se mantém fiel à orientação do mesmo Pontífice, expressa no dia 11 de outubro de 1962, ao inaugurar o Concílio: «A Igreja sempre se opôs aos erros e, muitas vezes, os condenou com a maior severidade. Em nossos dias, porém, ela prefere recorrer mais ao remédio da misericórdia que ao da severidade, e julga satisfazer melhor às necessidades atuais mostrando o valor de sua doutrina do que censurando os desvios».

Dom Redovino Rizzardo, cs
Bispo de Dourados (MS)
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