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Cristãos perseguidos

A Igreja Perseguida / reportagens
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Cerca de 105 mil cristãos são perseguidos todos os anos por causa de sua fé. O número de mártires nos dois últimos séculos supera os de toda a história do cristianismo  

A história do Cristianismo é mesclada com a história de incontáveis mártires que, desde os primeiros séculos até os dias de hoje, testemunham, com o derramamento de sangue, a fé incondicional no Salvador da humanidade.
Já nos Atos dos Apóstolos, temos o relato do martírio de Estevão e o apóstolo Tiago. A partir daí, o Cristianismo é dispersado pelo mundo e chega a Roma, onde sob o imperador Nero (64 D.C) inaugura-se uma verdadeira caça aos cristãos, a qual só terá fim três séculos depois.
“No início, os cristãos precisavam ser bem preparados para assumirem o batismo, porque abraçar a fé, naquela época, significava correr um perigo constante de morte”, afirma padre Carlo, professor de história da Igreja na Universidade Santa Cruz de Roma.
Quando falamos de perseguição ao Cristianismo, nada pode se comparar ao Século XX. Só os mártires provenientes das grandes revoluções e regimes ditatoriais superam os de toda a história. A Revolução Russa (1917), por exemplo, levou à morte cerca de 17 mil sacerdotes e 34 mil religiosos. O Comunismo se espalhou pelo mundo e declarou a religião como subversiva e inimiga do Estado. Igrejas, conventos e seminários são fechados e destruídos. São incontáveis os números de mártires em países como União Soviética, Lituânia, Romênia, China, Vietnã, Camboja e Cuba.
Na Revolução Nacionalista espanhola (1931), a Igreja Católica é condenada à extinção e considerada um inimigo a ser abatido por todos os meios. Entre sacerdotes, religiosas e religiosos, o número de mortos chegou a 6.832, sendo 13 bispos, 4.184 padres diocesanos, 2.365 religiosos, 283 religiosas e vários seminaristas. Em 28 de outubro, Bento XVI beatificou 398 mártires desta revolução de uma só vez, o que ficou conhecido como a maior beatificação da história da Igreja.

Os cristãos perseguidos hoje
Em nossos tempos, o número de cristãos perseguidos também caminha para se igualar aos do século passado. Segundo o sociólogo investigador David Barrett, no seu livro World Christian Trends AD 30-AD 2200, na primeira década deste milênio foram 160 mil cristãos assassinados e, na segunda década, calcula-se o número de 150 mil. Segundo os cálculos, um cristão é assassinado a cada cinco minutos, um dado que os coloca no topo dos grupos mais perseguidos do mundo.

Por que nem todos sabem destes dados?  
“Não é interessante para a mídia divulgar o martírio de cristãos”, diz a missionária do ministério Portas Abertas, um grupo evangélico fundado por Irmão André ainda na época da ‘cortina de ferro’, o qual tem por missão dar suporte a esta Igreja perseguida. Segundo a missionária – que já visitou países como Cuba, Iraque e Paquistão -, os cristãos desses países não possuem, muitas vezes, nem sequer uma Bíblia e vivem a sua fé sob a pressão de grupos radicais islâmicos. “Estes nossos irmãos vivem uma fé autêntica, porque ser cristãos em países hostis ao Cristianismo significa viver sob o constante risco de morte ou tortura. Uma pessoa muçulmana que se converte ao Cristianismo, por exemplo, morre se não voltar atrás, mas, mesmo assim, eles não negam a fé em Jesus”, diz Elizabeth.

Um outro tipo de perseguição
A perseguição em nossos tempos não é somente a física, ou seja, o martírio de sangue. Existe uma outra forma de perseguição que se espalha pelo mundo e por países que, antes, eram profundamente cristãos.
“O Papa fala hoje do martírio da ridicularização, ou seja, se você se denomina cristão no trabalho, na universidade ou coloca um crucifixo no peito, eles o ridicularizam. Vão chamá-lo de alienado, de fundamentalista, medieval. Não é uma perseguição que vem com as armas, mas com a cultura”, explica professor Felipe Aquino, professor de História da Igreja e apresentador da TV Canção Nova.
Um exemplo desta secularização e hostilidade ao Cristianismo, sobretudo à Igreja Católica, mostra-se na França. “Recentemente, a ministra do alojamento francês acabou de pedir, publicamente, que a Igreja devolva imóveis e salas para colocar outras pessoas dentro. O atual governo decidiu voltar atrás no reconhecimento de diplomas dos estudantes sob o argumento de que estas instituições estão ligadas à Igreja e ao Vaticano e não podem gozar dos mesmos privilégios das instituições estaduais”, disse Louis-Marie Guitton, responsável pelo observatório sócio-político da diocese de Toulon, na França.
No Brasil, este laicismo também começa a dar as suas caras. Em março deste ano, a pedido da Liga Brasileira de Lésbicas, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul  (RS) determinou a retirada dos crucifixos e símbolos religiosos dos espaços públicos e prédios da justiça gaúcha. Em novembro, o Procurador Regional dos Direitos do Cidadão, Jefferson Aparecido Dias, pediu a retirada do termo “Deus seja Louvado” das cédulas da moeda brasileira, o Real, com o argumento de que o Estado é laico.

Um Estado laico significa negar a cultura religiosa de seu povo?  
“Nós estamos num Estado cuja maioria da população é cristã, isto significa que ter um crucifixo, por exemplo, num prédio público é respeitar o sentimento religioso desta maioria e também a fé cristã que está impregnada na cultura do Brasil”, diz o advogado especialista em direito civil Aleksandro Clemente.
Já para Elizabeth, da missão Portas Abertas, é preciso que os cristãos do Brasil aprendam com os países que se fecharam ao Evangelho. “Se nós formos ver, os países mais hostis ao Cristianismo, hoje, são aqueles nos quais o Cristianismo era muito forte no início, onde ele nasceu. Nós precisamos estar atentos às leis que tramitam no Congresso, porque nenhum país se fecha ao Evangelho da noite para o dia, as coisas vão acontecendo devagar”, disse a missionária.

 

O martírio dos primeiros cristãos

Os primeiros cristãos não tinham medo do martírio, pois sabiam que a morte já não exercia poder sobre eles. Cantavam e louvavam a Deus enquanto eram feitos de objetos de esporte nas arenas romanas.
Ao fazermos uma breve leitura das Sagradas Escrituras, sobretudo dos Atos dos Apóstolos em diante, os primeiros seguidores de Jesus tinham claro que a pregação do Evangelho estava intimamente acompanhada da perseguição a Igreja (At 20,23). Esta consciência da perseguição acompanhava todos os cristãos que, naquele tempo, abraçavam a fé.
“As primeiras comunidades cristãs eram pequenas, unidas e fervorosas. Para se tornar um cristão naquela época, era preciso preparar-se muito bem, porque abraçar a fé significava correr grande perigo”, diz padre Carlo Pioppi, professor de História da Igreja da Universidade Santa Cruz de Roma.
Diz a história que Nero (64 D.C) colocou fogo em Roma e, ante a revolta da pupulação, culpou os cristãos por tal ato. A partir daí, o Cristianismo foi considerado uma religião ilícita e suspeita. Seus membros estavam sujeitos ao aprisionamento, à condenação e à pena capital por todo o Império Romano. Aqueles que confessavam a fé em Jesus eram jogados às feras, crucificados ou queimados como conta os escritos do historiador romano do século I Tácito:
“Em suas mortes, eles foram feitos objetos de esporte, pois foram amarrados nos esconderijos de bestas selvagens e feitos em pedaços por cães, ou cravados em cruzes ou incendiados; ao fim do dia, eram queimados para servirem de luz noturna.”
Pedro e Paulo, assim como um número incontável de irmãos, foram martirizados sob esta “caça” aos cristãos de Roma. No entanto, esta perseguição se estendeu pelos três séculos seguintes, como nos conta um escrito de Gregório de Tours, que viveu durante o século II:
“Sob o imperador Décio, muitas perseguições se levantaram contra o nome de Cristo, e houve tamanha carnificina de fiéis que eles não podiam ser contados.”
Segundo padre Carlo Pioppi, naquele tempo, a política e a religião eram muito ligadas. O Estado não era sem religião ou laico, como aceitamos hoje. “O Estado antigo era profundamente religioso e o cidadão deveria ser totalmente submisso ao Estado e ao imperador, que era, ao mesmo tempo, a maior autoridade política e também a maior autoridade religiosa, o ‘Pontifex Maximus’. Quando os cristãos declaravam Jesus como Deus e Senhor de suas vidas, estavam, automaticamente, tirando esse poder das mãos do imperador e, é claro, eram considerados inimigos de Roma”, explicou padre Carlo.
Como naquele tempo, declarar-se cristãos, nos dias de hoje, parece ser uma verdadeira ofensa a muitos regimes e governos. Milhares de cristãos são martirizados no mundo pelo simples fato de terem Jesus como o Senhor de suas vidas.
Para padre Carlo, os primeiros cristãos nos ensinam como devemos viver a fé nos dias de hoje. “O que temos de comum com os nossos primeiros irmãos na fé é que para ser cristão, nos dias de hoje, é preciso uma força interior; caso contrário, a pressão que sentimos ao redor esvazia a nossa fé; no sentido que não existe mais uma grande conveniência social em ser cristão nos dias atuais”, concluiu o sacerdote.

Inferno e perdão… Céu e tristeza

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 031 – julho 1960
Dom Estêvão Bettencourt (OSB)
Por que no Inferno não há Perdão?

TEÓFILO (São Paulo): «Como pode o Pai do Céu, que é infinitamente bom, condenar o homem a um inferno eterno, quando os pais na terra não castigam seus filhos com punições sem fim? Certamente Deus há de perdoar aos pecadores que se acham no inferno».
A dificuldade acima provém de uma concepção errônea do inferno: supõe, seja este um castigo que Deus na hora do juízo concebe mais ou menos arbitrariamente para atormentar a criatura; em tal caso, a sentença divina poderia ser reformada ou até cancelada por anistia, à semelhança do que se dá nos tribunais humanos…
Na verdade, a condenação ao inferno não depende propriamente de um veredito divino pronunciado após a morte do pecador; é, antes, a consequência muito lógica de certos princípios que caracterizam a existência do ser humano, de modo que se pode dizer que, anteriormente a uma sentença divina positiva, já o pecador lavrou sua sorte infernal; não é preciso que Deus tome alguma deliberação especial para que o inferno se torne realidade para o pecador.
É o que vamos recordar sumariamente, remetendo o leitor para quanto já foi dito sobre o inferno em «P. R. 3/1957. qu. 5.
1. Todo homem traz em si uma aspiração inata e incoercível ao Bem Infinito, que é Deus (todos querem ser bem- aventurados sem que possam assinalar limites a essa sua sede de bem-aventurança).
2. Para conseguir a felicidade a que aspiram, Deus outorgou às criaturas humanas o livre arbítrio. Este lhes confere dignidade própria, fazendo que se movam, e não sejam simplesmente movidas, em demanda do Fim Supremo.
3. Se o homem, utilizando devidamente a sua liberdade de arbítrio, adere ao infinito ou a Deus, compreende-se que esta atitude se lhe torne fonte de alegria e felicidade imensas; pois então convergem para o mesmo objetivo as aspirações inatas de sua natureza humana e a opção consciente da vontade livre.
4. Admita-se, porém, que a criatura humana livremente preste adesão, e adesão total, a um bem criado (dinheiro, gozo, fama…), afastando-se conscientemente de Deus…
De tal atitude não pode deixar de resultar tremendo dualismo ou penosa dilaceração dentro da alma humana; a sua natureza, feita para o Bem Infinito, continua a bradar por Deus, enquanto a vontade adere a um bem finito.
Convém aqui lembrar que a adesão a um bem finito capaz de provocar tal dilaceração é chamada «pecado mortal», o qual só se dá quando as três seguintes condições são simultaneamente preenchidas:
a) haja matéria grave,
b) haja pleno conhecimento de causa (ato da inteligência),
c) haja vontade deliberada e consciente de aderir ao bem finito.
Caso estas três condições sejam preenchidas, toda a personalidade humana (por suas faculdades características: o intelecto e a vontade) está empenhada.
5. Enquanto o pecador é peregrino neste mundo, pode mitigar o drama que ele traz em seu íntimo: ocupando-se com as tarefas e as diversões da vida cotidiana, vai encobrindo aos seus próprios olhos a dura realidade de sua alma, e esquece, ao menos parcialmente, a dilaceração de sua personalidade.
6. Suponha-se, porém, que tal indivíduo venha a morrer nessa situação: sua alma se separa do corpo e deixa de usufruir, da parte das criaturas sensíveis, os paliativos que a consolavam neste mundo.
A consequência será clara: tal alma continuará a trazer dentro de si o desejo profundo e espontâneo de se saciar no Bem infinito; tal desejo está impregnado na natureza humana e é incoercível; nenhuma criatura humana pode ser concebida sem essa aspiração ou sem esse sinete característico. A mesma alma, porém, tomará consciência clara da monstruosidade de seu estado: sim, verificará que a sua vontade livre terá dirigido toda a personalidade do indivíduo para um bem limitado e lacunoso, incapaz de a satisfazer; ao finito terá dado a adesão que devia ter prestado ao infinito. E não lhe será possível «esquecer» essa situação, pois não terá em torno de si algum dos objetos sensíveis que lhe serviam de paliativo neste mundo.
Daí redunda a mais profunda dilaceração de que seja capaz a criatura: de um lado, haverá o brado espontâneo da natureza, anterior a qualquer deliberação, brado voltado para Deus, o Infinito; do outro lado, existirá deliberada entrega da vontade a uma criatura, ao finito; estes dois clamores estarão em luta entre si, dividindo ou retorcendo (por assim dizer) a alma.
7. Tal é o estado em que, logo após a morte, entra naturalmente a alma de quem tenha pecado gravemente. Vê-se então como, antes mesmo que Deus profira alguma sentença sobre ela, essa alma já traz dentro de si o inferno, ou o maior tormento possível. O juízo póstumo que o Senhor formula a seu respeito, não vem a ser senão o reconhecimento de tal situação; nada de novo induz na sorte que tal alma ocasionou para si.
Mas porque é que o Senhor reconhece e não muda essa ordem de coisas vigente na alma do réu?
O Senhor não a muda, porque só o faria forçando ou violentando a livre deliberação da criatura. Ora Deus, que dotou de personalidade livre o ser humano, não lhe retira a dignidade assim outorgada; antes, respeita-a plenamente.
Seja lícito lembrar de novo o seguinte: todo pecado grave supõe, da parte do homem, claro conhecimento do mal e pleno desejo de o cometer; supõe, portanto, uma tomada de posição consciente e livre de toda a personalidade humana frente à mais séria das questões, que é a questão do Fim Último. Não se poderá, por conseguinte, tachar de pecado mortal qualquer ação que tenha aspecto de culpa grave, pois nenhum observador humano é capaz de penetrar o íntimo das consciências para lá discernir as possíveis atenuantes da culpabilidade. Não nos é lícito, por conseguinte, em caso algum supor ou afirmar que determinada pessoa está no inferno. Se a justiça humana leva em conta os estados de obsessão e diminuída responsabilidade dos criminosos, muito mais a Justiça Divina os considera, de modo que ninguém padece a triste sorte do inferno sem realmente se ter encaminhado para ela.
8. Contudo talvez insista alguém: afinal, Deus, que é sumamente misericordioso, não poderia perdoar?
— Sim; Deus poderia perdoar, e de fato, perdoa às suas criaturas, desde que, da parte destas, uma condição se verifique: haja repúdio do pecado ou arrependimento; em caso contrário, isto é, se a criatura não o quer receber, vão se torna o perdão. Ora acontece justamente que nenhuma das almas que morrem em pecado mortal e, por conseguinte, nenhum dos réprobos do inferno se quer arrepender e voltar para Deus, por muito tormentosa que seja a sua situação. Com efeito, a alma só muda de disposições ou se arrepende quando unida ao corpo; é só mediante a atividade dos sentidos externos e internos que ela pode conceber novos conhecimentos e desejos; por conseguinte, quando se separa do corpo ou dos sentidos, a alma humana se fixa irrevogavelmente na última disposição que teve durante esta vida (amor ou ódio a Deus). O pecador, portanto, que morra com aversão a Deus e apego apaixonado à criatura, para o futuro sentirá, de um lado, a tremenda dilaceração que este afeto acarreta, mas, de outro lado, não desejará em absoluto voltar para Deus, desfazendo-se do seu amor desregrado ao finito; não o desejando, está claro que o Senhor não o forçará.
Vê-se assim algo de aparentemente paradoxal, mas sumamente verídico e significativo: não há quem esteja no inferno e daí queira sair; os réprobos sofrem, mas não querem abandonar o estado que lhes motiva o sofrimento. Se algum deles pedisse perdão, Deus não lho negaria.
Esta afirmação é ilustrada pela parábola do filho pródigo (cf. Lc 15, 11-32). Não há dúvida, tal trecho do S. Evangelho visa incutir a suma confiança em Deus cuja misericórdia surpreende a expectativa humana; o Senhor perdoa ultrapassando todas as categorias da benevolência humana. Contudo a parábola bem mostra que esse perdão só é outorgado à criatura que, cheia de arrependimento o deseje e peça: «Pai, pequei contra o céu e contra Ti; já não sou digno de ser chamado teu filho» (Lc 15,18), exclamou o herói da narrativa. Ora foi justamente o fato de se ter reconhecido indigno que lhe mereceu ser recebido como filho bem-amado!… Oxalá os homens que se afastam de Deus, procedessem até as últimas instâncias como o filho pródigo! Então seriam sempre tratados como este…
9. Deve-se observar outrossim que o estado aflitivo do réprobo não tem fim, porque a alma humana é, por sua natureza, imortal (não consta de partes que se desgastem e decomponham); cf. «P.R.» 2/1957, qu. 5.
Deus poderia, a rigor, aniquilar as criaturas que estão no inferno. Ele não o faz, porém, pois a existência desses seres tem seu sentido no conjunto do universo. Note-se bem que o centro ou o ponto de referência de todas as criaturas não é o homem, mas Deus; todas as criaturas são chamadas a dar glória a Deus; portanto, desde que realizem esta finalidade, sua existência tem valor no grande quadro do universo. Ora o pecador sofre no inferno justamente porque reconhece que Deus é sumamente bom e que ele voluntariamente se incompatibilizou com o Sumo Bem (se não reconhecesse a Bondade de Deus, o réprobo não sofreria). Vê-se então que o tormento mesmo do pecador é proclamação da perfeição e da santidade de Deus; destarte a existência do réprobo não é vã, mas preenche sua finalidade primária e suprema.
A modalidade de que essa existência, para o respectivo sujeito, é infeliz, torna-se secundária; Deus fez o homem para ser, e ser sempre (claro está que… à semelhança do Exemplar Divino, o qual é sempre feliz); a modalidade de ser feliz, porém, Deus a quis tornar dependente da livre opção do homem; este a pode frustrar. Contudo, o bem fundamental que é o ser, existir, Deus o quis tomar a seus exclusivos cuidados; o Criador o dá irrevogavelmente; não o retira, mesmo que o homem não cumpra a sua parte, abusando do dom do Benfeitor. O homem, por conseguinte, existirá sempre, como Deus planejou bondosamente, mesmo que, em consequência de uma livre opção sua, não exista feliz. Sua existência, mesmo nessas circunstâncias, não carecerá de significado e valor.
10. Talvez ainda nos aflore à mente uma última dúvida: Deus, sabendo que tal ou tal criatura se perderia no inferno, não poderia ter deixado de a criar? Não deveria ter feito apenas criaturas que usassem da sua liberdade para o bem?
Reflitamos um pouco sobre o valor dessa «sedutora» solução do problema. «Liberdade» diz, por seu conceito mesmo, variedade e multiplicidade de realizações; é natural, portanto, que a liberdade humana se afirme na história com essa multiplicidade de formas que a caracterizam; se tal variedade não se verifica, tem-se estranha liberdade, … liberdade artificialmente canalizada numa só direção; ora, isto não sendo normal, não se poderia pretender que Deus procedesse assim. O essencial é que nenhuma das criaturas livres, mesmo usando plenamente da sua liberdade, deixe de ser uma expressão da santidade do Criador; ora isto se verifica também nos réprobos, os quais, por todo o seu ser, no inferno, proclamam a Perfeição e, em particular, a Bondade do Criador.
O Senhor não criou seres livres que artificialmente só optassem por um alvitre, como também não criou flores de papel, mas criou flores naturais; é somente o homem que, não podendo produzir flores naturais, fabrica flores artificiais, flores que não murcham,… mas flores que parecem ser flores, quando, na verdade, não o são!
11. Outras questões atinentes ao inferno já foram abordadas em «P. R.» 3/1957, qu. 5. O que interessava, na presente questão, era mostrar que o inferno nada tem de arbitrário da parte de Deus; não é um castigo que o Criador estipule atendendo a um código de penas e sanções, à semelhança do que se dá na justiça humana, código naturalmente reformável… O inferno, em verdade, não é senão a última consequência da violação dos princípios que definem a estrutura do ser humano: quem voluntariamente ingere veneno, morre, simplesmente porque contradisse as leis que regem a vida física do homem…

 

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 017 – maio 1959
Dom Estêvão Bettencourt (OSB)
Pode Haver Tristeza no Céu?

LEITOR AMIGO (Rio de Janeiro): Propõe-nos a objeção de um companheiro concebida nos seguintes termos:
“Se há quem sofra eternamente no inferno, não pode existir felicidade no céu. Veja cá: encerre um galinha numa gaiola das mais ricas que você possa imaginar; ponha à disposição dela o que você puder encontrar de melhor em questão de alimentação. Deixe, porém, que seus pintinhos se fiquem do lado de fora, pipiando de fome, de sede, de frio. A mãe não encontrará nenhuma delicia naquele reino que você lhe houver preparado; muito pelo contrário, nem prestará atenção a toda aquela magnificência; todas as suas atenções se voltarão para os pintinhos… Que espécie de prazer pode ter no céu que vocês pregam, um pai, uma mãe, uma esposa, um filho… sabendo da desventura eterna de um ente querido ? Você não acha que isto é uma crueldade inaudita? Deus pode permitir semelhante coisa?”
A comparação proposta, por mais impressionante que seja, perde todo o seu significado desde que se conceba a reta noção de perfeição cristã e de vida celeste.
Com efeito. É óbvio que o homem (bem pequenino e finito) foi feito para amar a Deus, o Bem Infinito, do qual ele tem sede inelutável. É entregando-se a Deus que a criatura “se realiza”, se engrandece. Por conseguinte, o bom cristão e, por excelência, o justo no céu amam a Deus diretamente com toda a veemência da sua vontade, e somente em Deus, através de Deus, amam a si mesmos e às outras criaturas. Por conseguinte, os justos no céu querem exatamente tudo que Deus quer e permite, do modo mesmo como Deus o quer e permite; estão plenamente identificados com a vontade do Senhor. Tal é, sem dúvida, a reta ordem do amor.
Consideremos agora o caso dos réprobos. Dado que alguém morra revoltado contra Deus, o Senhor permite que, segundo a livre escolha de sua vontade, esse indivíduo permaneça para sempre afastado do verdadeiro Bem. Permitindo isto, não comete injustiça. Deus não subtrai a homem algum na terra os auxílios necessários para que alcance o sumo Bem; se, não obstante, o filho rebelde recusa aderir-Lhe, Deus não é obrigado a retorcer a vontade dele; ao contrário, respeita-a (pois respeitar é mais nobre do que mutilar); consequentemente, Deus tolera que o pecador após a morte tenha por todo o resto de sua existência a sorte livremente desejada, ou seja, o alheamento ao Sumo Bem (lembremo-nos bem de que ninguém vai para o inferno senão nestas condições).
Tal sorte é certamente dolorosa para o pecador. Se fazemos do homem o centro do mundo, devemos afirmar que o réprobo no inferno não tem razão de ser, é um absurdo, pois ele nada mais é do que dilaceração e contradição vivas. Se, porém, consideramos não o homem, mas Deus, como finalidade do mundo, entendemos que mesmo a sorte do réprobo, apesar do que ela tem de doloroso para o respectivo sujeito, ainda representa um valor positivo no conjunto das criaturas; efetivamente, se o réprobo sofre no inferno, sofre justamente por reconhecer que Deus é sumamente bom, e que ele, com toda a sua personalidade, se rebelou definitivamente contra tal Bem. A dor do réprobo, portanto, vem a ser proclamação da Bondade de Deus, é louvor tributado ao Criador (tal como pode ser tributado por quem se distanciou do Senhor). Veja-se a respeito “P. R.” 3/1957, qu. 5.
Essa visão teocêntrica do mundo e da humanidade enche os justos, no céu. Eles consideram os réprobos como silabas ou acordes de um hino à Bondade de Deus, hino cantado simultaneamente por todas as criaturas dispostas em dais coros: o da direita (bem-aventurado por sua opção,) e o da esquerda (dilacerado por sua própria opção): Essa visão teocêntrica que os bem-aventurados têm, cancela qualquer consideração antropocêntrica, subjetivista; não permite, pois, que os afetos de família, laços meramente naturais, perturbem a adesão total dos santos a Deus. Daí se explica que realmente sejam isentos de toda e qualquer tristeza, caso contemplem que tal ou tal de seus familiares se acha no inferno.

Novíssimos – Morte, Juízo, Inferno e Paraíso
Estudos das realidades do além

O estudo da Escatologia individual diz respeito aos acontecimentos que afetarão cada indivíduo no fim de sua jornada terrestre. São eles: Morte, Juízo Particular, Purgatório, Inferno e Céu. E a Escatologia coletiva trata dos acontecimentos relacionado com o fim dos tempos, a saber: Parousia (2ª vinda de Cristo), Ressurreição da Carne, Juízo Final ou Universal e os “Novos Céus e Nova Terra”.

A MORTE é onde se dá a separação entre o corpo e a alma. Deus não é o autor da morte. Foi o homem que, usando mal a liberdade que Deus lhe deu, pecou, e ao pecar, permitiu que a morte entrasse no mundo.

O JUÍZO PARTICULAR ocorre imediatamente após a morte, e define se a alma vai para o Céu, inferno ou purgatório. Não há uma ação violenta de Deus, mas simplesmente a alma terá nítida consciência do que foi sua vida terrestre, e assim, se sentirá irresistivelmente impelida para junto de Deus (Céu), ou para longe da presença de Deus (Inferno) ou ainda para um estágio de purificação (Purgatório).

O PURGATÓRIO é o estado em que as almas dos fiéis que morrem no amor a Deus, mas ainda com tendências pecaminosas, se libertam delas através de uma purificação do seu amor. Ou seja, são almas justificadas, mas que ainda precisam ser santificadas. O Purgatório fortalecerá o amor de Deus no íntimo da pessoa, a fim de expurgar as más tendências. Todas as almas do Purgatório, posteriormente, irão para o Céu.

O INFERNO é um estado de total infelicidade. É viver eternamente sem Deus, sem amar, sem ser amado. A alma percebe que Deus é o Bem Maior, mas sua livre vontade o rejeita e sabe que estará para sempre incompatibilizada com Deus. Isso gera um imenso vazio na alma que passa a odiar a Deus e às suas criaturas. Só vai para o inferno quem faz uma recusa a Deus consciente, livre e voluntária. Mas como pode existir o inferno se Deus é bom e nos ama?
O inferno longe de ser incompatível com a santidade de Deus, resulta precisamente do fato de que Deus ama a criatura e a ama sem poder retirar-lhe o seu amor (2Tm 2,11-13).
Sim, precisamente porque Deus ama, e ama irreversivelmente, é que o réprobo no além pode verificar que Deus é o Sumo Bem, ao qual ele disse um NÃO voluntário e definitivo.
Se Deus retirasse seu amor e esquecesse o réprobo, este não sentiria dilaceração íntima (pois Deus não lhe seria mais o Sumo Bem), mas estaria voltado unicamente para os seus ídolos voluntariamente escolhidos. E, assim, não sofreria o inferno. O amor de Deus é consolador para o homem peregrino na terra, mas muito doloroso para quem lhe disse um NÃO definitivo.
Portanto, Deus não subtrai o amor pela criatura e, justamente por isso, é que dá ocasião a que o réprobo ressinta para todo o sempre a imensa tristeza de se ter incompatibilizado com esse amor, que o continua a sustentar e atrair.

O CÉU não é um lugar acima das nuvens, mas sim, um estado de total Felicidade capaz de realizar todas as aspirações do ser humano. No Céu participamos da Vida de Deus. E quanto maior for o amor que a pessoa desenvolveu neste mundo, mais penetrante será a participação na Vida de Deus. Assim, no Céu todos são felizes, mas em graus variados, pois cada um é correspondido na medida exata do seu amor. Deus é Amor, amor que se dá a conhecer a quem ama. Não há monotonia no Céu, mas sim, uma intensa atividade de Conhecer e Amar.
Vale aqui o registro de que o Limbo seria o “local” eterno onde ficariam as crianças que morrem sem o Batismo. Não teriam a visão sobrenatural de Deus, mas uma visão natural mais perfeita do que temos. No entanto, o Limbo sempre foi uma suposição e jamais foi um artigo de fé. Ao invés disso, tais crianças são confiadas pela Igreja à misericórdia de Deus, que acreditamos ter um caminho de salvação própria a elas.
Veremos agora a Escatologia coletiva que trata dos acontecimentos relacionados com o fim dos tempos, a saber: Parousia (2ª vinda de Cristo), Ressurreição da Carne, Juízo Final ou Universal e os “Novos Céus e Nova Terra”.

A PAROUSIA é a volta gloriosa de Jesus no fim do mundo. Neste dia, Deus reunirá todos os povos de todos os tempos para o Juízo Final. Deus não revelou o dia e a hora de quando Ele voltará, mas deixou alguns sinais: O Evangelho será conhecido no mundo inteiro, os judeus se converterão, haverá apostasia, manifestação do Anti-Cristo e o caos do mundo.

A RESSURREIÇÃO DA CARNE se dará no dia da Parousia. As almas que aguardavam esse dia no Céu, no Inferno ou no Purgatório, ressuscitarão e comparecerão, juntamente com os que estiverem no mundo, diante de Jesus para o Juízo Final. Então uns irão com corpo e alma para o inferno, e outros irão com corpo e alma para Novos Céus e Nova Terra (Paraíso). Portanto, justos e ímpios ressuscitarão e terão um corpo imortal e íntegro, mas somente os dos justos estarão isentos dos sofrimentos e irão refletir a glória da alma.

O JUÍZO FINAL ou UNIVERSAL é a tomada de consciência, do indivíduo e de todos os homens, das obras boas e más que cada um realizou. Note que é diferente do Juízo Particular. Neste, Deus revela a cada um, em foro privado, a pureza de intenção que definiu sua sorte no além. Já o Juízo Universal não se trata de uma segunda instância, pois o julgamento individual já ocorreu no Juízo Particular, mas simplesmente revelará a todos os homens os mistérios da história da humanidade e todos os efeitos positivos ou negativos das atitudes de cada um. Tudo será manifesto a todos. Dia de triunfo da Verdade e da Justiça. Após o Juízo Final segue-se o Tanque de Enxofre (Inferno) para os ímpios e o Paraíso para os justos.

Os NOVOS CÉUS E NOVA TERRA ou PARAÍSO é a renovação do mundo inteiro no fim dos tempos, após o Juízo Final. O mundo atual não será aniquilado, mas sim, restaurado e consumado. O homem ressuscitado habitará num mundo de Paz e Amor.

Vale lembrar que o estudo da escatologia é também conhecido como “Novíssimos do Homem”, sendo normalmente resumido em Morte, Juízo, Céu e Inferno.

Matar em nome de Deus é satânico

Quarta-feira, 14 de setembro de 2016, Rádio Vaticano

Francisco celebrou Missa em memória do padre Jacques Hamel, assassinado na França em julho

Imagem de padre Hamel na Missa desta manhã / Foto: Reprodução CTV

O Papa Francisco celebrou a Missa na manhã desta quarta-feira, 14, na capela da Casa Santa Marta, em memória do padre Jacques Hamel, sacerdote assassinado na França enquanto celebrava a Missa.

O padre francês de 85 anos foi degolado por dois jihadistas em um atentado em 26 de julho durante a celebração eucarística na igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray.
Em sua homilia, o Pontífice recordou que a Igreja celebra hoje a festa da Cruz de Jesus Cristo – e é na Cruz que se pode compreender plenamente o mistério de Cristo.

Cristo é o primeiro mártir

“Este mistério de aniquilação, de proximidade a nós. Como diz Paulo, vivendo na condição de Deus, Cristo não considera um privilégio ser como Deus, mas esvazia a si mesmo, assumindo uma condição de servo, tornando-se semelhante aos homens. Humilhou a si mesmo fazendo-se obediente até a morte, a uma morte de Cruz. Este é o mistério de Cristo. Jesus Cristo é o primeiro mártir, o primeiro que dá a vida por nós, e deste mistério de Cristo começa toda a história do martírio cristão, desde os primeiros séculos até hoje”.

Os primeiros cristãos, explicou o Papa, recebiam a proposta da apostasia, isto é: “Digam que o nosso deus é o verdadeiro. Façam um sacrifício ao nosso deus ou aos nossos deuses”, e se rejeitavam a apostasia, eram assassinados.

Matar em nome de Deus é satânico

“Esta história se repete até hoje na Igreja e hoje na Igreja há mais mártires cristãos do que nos primeiros tempos. Hoje há cristãos assassinados, torturados, encarcerados, degolados porque não renegam Jesus Cristo. Nesta história, chegamos ao nosso padre Jacques: ele faz parte dessa corrente de mártires. Os cristãos que hoje sofrem – seja na prisão ou com a morte ou com as torturas – para não renegar Jesus Cristo mostram precisamente a crueldade dessa perseguição. E esta crueldade que a apostasia exige, digamos a palavra, é satânica. E quanto seria bom que todas as confissões religiosas dissessem: “Matar em nome de Deus é satânico”.

Francisco recordou que Padre Jacques Hamel foi degolado na Cruz, justamente enquanto celebrava o sacrifício da Cruz de Cristo. “Homem bom, manso, de fraternidade, que sempre buscava fazer a paz, foi assassinado como se fosse um criminoso. Mas há algo, neste homem, que aceitou o seu martírio no altar, algo que me faz pensar muito: em meio ao momento difícil que vivia, em meio a esta tragédia que ele via se aproximar, um homem manso, um homem bom, um homem que fazia fraternidade, não perdeu a lucidez de acusar e dizer claramente o nome do assassino. E disse claramente: ‘Vai embora, Satanás!’. Deu a vida por nós, deu a vida para não renegar Jesus. Deu a vida no mesmo sacrifício de Jesus no altar e dali acusou o autor da perseguição: ‘Vai embora, Satanás!’.”

Padre Hamel é um mártir

O Pontífice concluiu: “Que esse exemplo de coragem, mas também de martírio da própria vida, de esvaziar a si mesmo para ajudar os outros, de fazer fraternidade entre os homens, ajude todos nós a ir avante sem medo. Ele do Céu, porque devemos rezar para ele, é um mártir! E os mártires são beatos – devemos rezar para ele, que nos dê a mansidão, a fraternidade, a paz e também a coragem de dizer a verdade: matar em nome de Deus é satânico”.

Peregrinos franceses

Participou da Missa um grupo de 80 peregrinos franceses de Rouen, acompanhados de seu Bispo, Dominique Lebrun. Também concelebrou o cardeal hondurenho Oscar Andrés Rodriguez Maradiaga, coordenador do Conselho de Cardeais, que conclui hoje mais um ciclo de reuniões com o Papa. No altar, foi colocada uma imagem de Padre Hamel.

Breviário de Padre Jacques em Roma

A Comunidade de Santo Egídio comunicou que o breviário de Padre Jacques Hamel será conservado em Roma. Nesta quinta-feira, 15, às 20h, haverá uma celebração em São Bartolomeu, a Igreja em Roma dedicada aos “novos mártires”, para recordar Padre Hamel.

Papa orienta como lidar com o luto na família

Quarta-feira, 17 de junho de 2015, Jéssica Marçal / Da Redação

Fé e amor são os caminhos para lidar com a situação de luto, disse ao Papa, ao falar sobre a morte que atinge os membros da família

Francisco reitera aos fiéis que Jesus venceu a morte de uma vez por todas; a fé é um consolo nos momentos de dor / Foto: Reprodução CTV

O luto na família foi o tema da catequese do Papa Francisco, nesta quarta-feira, 17. O Santo Padre destacou que a fé restitui a esperança das famílias que se encontram nessa situação de dor.

Francisco lembrou aos fiéis que a morte é uma experiência que diz respeito a todas as famílias, mas mesmo sendo uma realidade que faz parte da vida, nunca é vista como algo natural. “A perda de um filho ou de uma filha é como se o tempo parasse. Abre-se um buraco que engole o passado e também o futuro”.

O Papa disse que a morte na família é como um buraco negro que se abre na vida das famílias e elas não sabem dar uma explicação a isso, chegando, muitas vezes, a colocar a culpa em Deus. “Quanta gente, eu entendo, fica com raiva de Deus, diz blasfêmia. (…) Mas essa raiva é um pouco o que vem da dor grande, da perda de um filho, de uma filha, de um pai, de uma mãe. Isso ocorre continuamente nas famílias”.

A morte física tem também cúmplices, disse o Papa, que são, muitas vezes, piores que ela: ódio, inveja, soberba, avareza… Em síntese, o pecado do mundo trabalha pela morte e a torna ainda mais dolorosa e injusta. Mas, no povo de Deus, muitas famílias demonstram que a morte não tem a última palavra, e esse é um verdadeiro ato de fé, declarou o Papa.

“Todas as vezes em que a família, no luto, encontra a força de preservar a fé e o amor que nos unem àqueles que nos amam, ela impede já agora a morte de pegar tudo”.

O Papa deixou um conselho sobre como enfrentar essa situação de luto: com fé e um maior trabalho de amor. “Na fé, podemos nos consolar um com o outro sabendo que o Senhor venceu a morte de uma vez por todas. Nossos entes queridos não desapareceram na escuridão do nada. A esperança nos assegura que eles estão nas mãos boas e fortes de Deus”.

Converter-nos de um deus dos milagres ao milagre de Deus, Jesus Cristo

“O único privilégio aos olhos de Deus é o de não ter privilégios, de estar abandonados nas suas mãos” – AFP
31/01/2016

Cidade do Vaticano (RV) – “Que Maria nos ajude a nos converter de um deus dos milagres ao milagre de Deus, que é Jesus Cristo”. O Papa Francisco, no Angelus deste IV Domingo do Tempo Comum, refletiu sobre a pouca fé daqueles que necessitam de milagres para acreditar e advertiu para a tentação de considerar a religião “como um investimento humano”, que leva à negociar com Deus, buscando o próprio interesse.

Inspirado na narrativa de Lucas, proposta pela Liturgia do dia, o Papa ressaltou as palavras de Jesus de que “nenhum profeta é bem recebido em sua terra”, após deparar-se com as murmurações de seus conterrâneos que queriam vê-lo realizar prodígios e milagres. Ao não fazer isto, “sentem-se ofendidos e querem jogá-lo no precipício”. “A narrativa de Lucas – explica Francisco – revela a tentação à qual o homem religioso está sempre exposto”:

Esta passagem do evangelista Lucas não é simplesmente a narrativa de uma discussão entre companheiros, como às vezes acontece também nos nossos bairros, suscitada por invejas e por ciúmes, mas revela uma tentação à qual o homem religioso está sempre exposto – todos nós estamos expostos – e da qual é necessário tomar distância com decisão: a tentação de considerar a religião como um investimento humano e, por consequência, começar a “fazer contratos” com Deus, buscando o próprio interesse”.

Pelo contrário – observa – “na verdadeira religião trata-se de acolher a revelação de um Deus que é Pai e que tem cuidado por cada uma de suas criaturas, mesmo daquela menor e insignificante aos olhos dos homens”:

“Precisamente nisto consiste o ministério profético de Jesus: em anunciar que nenhuma condição humana pode constituir motivo de exclusão – nenhuma condição humana pode ser motivo de exclusão – do coração do Pai e que o único privilégio aos olhos de Deus é o de não ter privilégios. O único privilégio aos olhos de Deus é o de não ter privilégios, de não ter padrinhos, de estar abandonados nas suas mãos”.

O Santo Padre reitera que o “hoje” do “cumprimento das Escrituras” recorda a todos a necessidade da salvação trazida por Jesus à humanidade:

“Deus vem ao encontro dos homens e das mulheres de todos os tempos e lugares, na situação concreta em que estes se encontram. Vem também ao nosso encontro. É sempre ele que dá o primeiro passo: vem visitar-nos com a sua misericórdia, levantar-nos da poeira dos nossos pecados, vem estender-nos a mão para tirar-nos do abismo em que o nosso orgulho nos fez cair, e nos convida a acolher a consoladora verdade do Evangelho e a caminhar pelo caminho do bem. Mas é sempre ele que vem nos encontrar, nos procurar”.

Ao concluir, Francisco recorda que Maria também estava na Sinagoga, e ao ver “Jesus antes admirado, depois desafiado, depois insultado, ameaçado de morte”, tem uma “pequena antecipação” daquilo que sofrerá na cruz:

“Em seu coração, pleno de fé, ela guardava cada coisa. Que ela nos ajude a nos converter de um deus dos milagres ao milagre de Deus, que é Jesus Cristo”.

Após a oração do Angelus, o Papa dedicou sua oração ao doentes de hanseníase, cujo Dia Mundial é celebrado este domingo.

Francisco, ladeado por dois adolescentes, também saudou os inúmeros jovens da Ação Católica presentes na Praça São Pedro, na sua “caravana de paz”. Uma jovenzinha leu uma mensagem agradecendo ao Papa – o “maquinista do trem” em que viajam – e contou da iniciativa da coleta realizada em favor dos migrantes jovens como eles. Ao final, foral soltos balões coloridos na praça. (JE)

Santo Evangelho (Mt 4, 12-17.23-25)

Segunda-feira depois da Epifania – Segunda-feira 04/01/2016

Primeira Leitura (1Jo 3,22-4,6)
Leitura da Primeira Carta de São João.

Caríssimos: 22qualquer coisa que pedimos recebemos dele, porque guardamos os seus mandamentos e fazemos o que é do seu agrado. 23Este é o seu mandamento: que creiamos no nome do seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, de acordo com o mandamento que ele nos deu. 24Quem guarda os seus mandamentos permanece com Deus e Deus permanece com ele. Que ele permanece conosco, sabemo-lo pelo Espírito que ele nos deu. 4,1Caríssimos, não acrediteis em qualquer espírito, mas examinai os espíritos para ver se são de Deus, pois muitos falsos profetas vieram ao mundo. 2Este é o critério para saber se uma inspiração vem de Deus: todo espírito que leva a professar que Jesus Cristo veio na carne é de Deus; 3e todo espírito que não professa a fé em Jesus não é de Deus; é o espírito do Anticristo. Ouvistes dizer que o Anticristo virá; pois bem, ele já está no mundo. 4Filhinhos, vós sois de Deus e vós vencestes o Anticristo. Pois convosco está quem é maior do que aquele que está no mundo. 5Os vossos adversários são do mundo; por isso, agem conforme o mundo, e o mundo lhes presta ouvidos. 6Nós somos de Deus. Quem conhece a Deus, escuta-nos; quem não é de Deus não nos escuta. Nisto reconhecemos o espírito da verdade e o espírito do erro.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Responsório (Sl 2)

— Eu te darei por herança os povos todos.
— Eu te darei por herança os povos todos.

— O decreto do Senhor promulgarei, foi assim que me falou o Senhor Deus: “Tu és o meu Filho, e eu hoje te gerei”!

— Podes pedir-me, e em resposta eu te darei por tua herança os povos todos e as nações, e há de ser a terra inteira o teu domínio.

— E agora, poderosos, en­tendei; soberanos, aprendei esta lição: Com temor servi a Deus, rendei-lhe glória e prestai-lhe homenagem com respeito!

 

Evangelho (Mt 4,12-17.23-25)

— O Senhor esteja convosco
— Ele está no meio de nós.
—Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Marcos.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, 12Ao saber que João tinha sido preso, Jesus voltou para a Galileia. 13Deixou Na­zaré e foi morar em Cafarnaum, que fica às margens do mar da Galileia, 14no território de Zabulon e Neftali, para se cumprir o que foi dito pelo profeta Isaías: 15“Terra de Zabulon, terra de Neftali, caminho do mar, região do outro lado do rio Jordão, Galileia dos pagãos! 16O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; e para os que viviam na região escura da morte brilhou uma luz”. 17Daí em diante, Jesus começou a pregar, dizendo: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo”. 23Jesus andava por toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade do povo. 24E sua fama espalhou-se por toda a Síria. Levaram-lhe todos os doentes, que sofriam diversas enfermidades e tormentos: endemoninhados, epilépticos e paralíticos. E Jesus os curava. 25Numerosas multidões o seguiam, vindas da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia, e da região além do Jordão.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

 

A IGREJA CATÓLICA CELEBRA E VENERA HOJE
Santa Ângela de Foligno

Nasceu na Itália, no ano de 1248, em Foligno, próximo a Roma, numa família muito abastada. Mas, infelizmente, não vivia a maior riqueza, que é o amor a Deus. Dentro deste ambiente indiferente a Deus e à Igreja, a menina foi crescendo. Ela foi para o sacramento do matrimônio, teve vários filhos, mas, infelizmente, tanto os filhos e depois o esposo faleceram. Imagine como estava o coração dessa mulher! Mas, deixando-se levar por uma vida distante de Deus, entregava-se às festas, às vaidades, cada vez mais longe de Deus e dela mesma, até que sentiu o toque da misericórdia do Senhor. Ela tocou o seu vazio existencial. Foi quando recorreu à Virgem Maria e buscou o sacramento da reconciliação.

Ela tinha 40 anos quando se abriu para esse processo maravilhoso que se chama conversão. Numa peregrinação a Assis, ela fez uma profunda experiência com o amor de Deus. Doou todos os seus bens aos pobres, entrou para a família franciscana na ordem terceira, viveu uma vida reclusa e saía para peregrinações em Assis.

Santa Ângela foi instrumento de conversão a partir do momento em que se abriu e levou muito a sério sua vida de conversão.

Santa Ângela de Foligno, rogai por nós!

Luto: como superar o sentimento de culpa

O que fazer se junto com a morte de um ente querido vem o sentimento de culpa

Não existe nenhuma pessoa neste planeta que não tenha passado pela experiência da perda de um ente querido. Essa é uma experiência humana e profundamente dolorosa.

Como as pessoas reagem à morte?

Diante da morte, as reações são absolutamente únicas. Alguns tentam ignorar a tristeza, outros acabam se fechando em si mesmos. Existem aqueles ainda que reprimem a dor. Nada disso adianta! A dor é real e precisa corretamente vivida.

O luto é o tempo de que precisamos para retomar nossa vida. É um tempo difícil, mas muito importante. Muitas vezes a pessoa sente um misto de emoções: revolta, tristeza, conformismo, raiva, angústia e indignação. É normal misturar sentimentos. O coração não é uma mesa com várias gavetinhas onde separamos sentimentos, emoções e outros bichos. Por isso é preciso aprender a desabafar, em Deus. Mostre-lhe seu coração ferido e machucado.

Fiz pelo falecido tudo o que estava a meu alcance?

O luto saboreado ajuda a superar também as situações que ficaram sem solução. Não é incomum a pessoa ficar se perguntando: Fiz pelo falecido tudo o que estava a meu alcance? Será que poderia ter  feito de modo diferente?  Por que não  fiquei mais tempo a seu lado?

O triste dessas – inevitáveis – perguntas é que a pessoa acaba se autocondenando, sempre. Com isso, fica tentando achar uma desculpa ou uma justificativa. Alguns chegam a pensar que foram os culpados pela morte ou pela doença da pessoa. Outros passam o resto da vida tentando encontrar os porquês.

E se houver culpa?

Se houve culpa ou negligência, agora é hora de apresentar-se diante de Deus, com suas dores e tristezas, mas, acima de tudo, com o coração confiante de que Ele é misericordioso e poderoso o suficiente para curar seu coração confiante de que Ele é misericordioso e poderoso o suficiente para curar seu coração ferido e machucado. Deus não nos condena, e a pessoa falecida também não. A morte purifica tudo, inclusive as imperfeições de nossos relacionamentos.

Muitas vezes uma boa confissão ajuda bastante nessas horas. Diante de um sacerdote, abra seu coração ferido. Não tenha medo de reconhecer sua culpa. Entregue a pessoa falecida para Deus. Fale com o sacerdote sobre as dificuldades de relacionamento que tinha, sobre os pecados partilhados,  sobre palavras pesadas e omissões, e também sobre tudo que você acha que ficou devendo ao ente querido.

A pessoa que faleceu pode me perdoar?

Quando tenho a certeza de que meu falecido está em Deus, então não posso temer nenhuma conta a pagar. Quem está em Deus, está livre. Nenhuma ofensa atinge aquele que está no coração de Deus, porque quem morre em Deus chega a sua plenitude. Agora, do coração de Deus a pessoa enxerga com os olhos iluminados pela graça e compreende os motivos pelos quais agimos ou deixamos de agir. Ao encontrar Deus, na plenitude da vida, tudo que era imperfeito será purificado.

Tomar remédio ameniza a dor?

O luto saboreado ajuda a superar os transtornos e as tristezas da sempre dolorosa perda de alguém…

Pena que muitos não pratiquem mais nenhum ritual de luto. Tudo aparenta ser normal. Parece que nada mudou. No íntimo, todos sentem a perda. Precisamos saborear as etapas próprias do luto.

Velório, sepultamento, silêncio, missa de sétimo dia, de um mês, de um ano. Durante os primeiros dias nos reservamos para acolher melhor a dor da perda. Não adianta tomar remédio para amenizá-la: ela não deve ser amenizada, deve ser sentida, saboreada de forma madura e equilibrada.

Trecho do livro Cura dos Traumas da Morte de Padre Léo, SCJ

Desapego das falsas riquezas leva a vida verdadeira

Domingo, 11 de outubro de 2015, Da redação, com Rádio Vaticano

Na oração do Angelus, o Papa Francisco afirma que se há confiança em Deus, pode-se superar todos os obstáculos que impedem de segui-lo no caminho da fé

Neste domingo, 11, o Papa Francisco inspirou a oração do Angelus no Evangelho de Marcos e nos “três olhares” de Jesus. O Pontífice explicou a dualidade que não permitiu que o jovem rico seguisse o Senhor.

“Aquele jovem, entretanto, tem o coração dividido entre dois patrões: Deus e o dinheiro, e vai embora triste. Isso demonstra que a fé e o apego às riquezas não podem conviver. Assim, ao final, o ímpeto inicial do jovem se apaga na infelicidade de um seguimento que não advém”.

Francisco prosseguiu afirmando que somente acolhendo com humildade e gratidão o amor do Senhor, as pessoas se libertarão das seduções dos ídolos e da cegueira das ilusões. “O dinheiro, o prazer, o sucesso, deslumbram, mas depois desiludem: prometem vida, mas trazem morte. O Senhor nos pede para nos desapegarmos destas falsas riquezas para entrar na vida verdadeira, na vida plena, autêntica, iluminada”.

“O jovem não se deixou conquistar pelo olhar de amor de Jesus e, assim, não pôde mudar”, refletiu, ao recordar que ele tinha um coração bom, e que fitando-o, Jesus o amou, apesar do jovem não se ter deixado envolver pelo olhar de ternura de Cristo.,

Ao citar o olhar pensativo e de advertência de Jesus, o Papa recordou o trecho em que Cristo afirma aos discípulos: “Como é difícil a quem tem riquezas entrar no Reino de Deus”.

“Os discípulos, então, se perguntam: Quem pode ser salvo? Jesus responde com um olhar de encorajamento, o terceiro olhar, e diz: a salvação é sim, impossível aos homens, mas não a Deus. Se confiamos no Senhor, podemos superar todos os obstáculos que nos impedem de segui-lo no caminho da fé”.

Priva-se dos bens

E, assim, chegamos ao terceiro episódio, aquele da solene declaração de Jesus: “Em verdade vos digo: quem deixa tudo para me seguir terá a vida eterna no futuro e o cêntuplo já no presente”.

O Pontífice explica que este cêntuplo é feito das coisas antes possuídas e depois abandonadas, mas que são multiplicadas ao infinito. “Priva-se dos bens e recebe-se em troca a satisfação do verdadeiro bem; libera-se da escravidão das coisas e recebe-se a liberdade do serviço por amor; renuncia-se à posse e ganha-se a alegria do dom”.

Por fim, improvisando, o Papa lançou uma pergunta aos jovens presentes na Praça São Pedro: “Vocês sentiram o olhar de Jesus sobre vocês? O que vocês responderão a Ele? Preferem deixar esta praça com a alegria que Jesus nos dá ou com a tristeza no coração que a mundanidade nos oferece?”

O Santo Padre conclui pedindo a Nossa Senhora que ajude todos a abrir o coração ao amor de Jesus, pois somente Ele pode satisfazer nossa sede de felicidade.

Desceu à mansão dos mortos

É na esperança que fomos Salvos!

O Credo ensina que “Jesus desceu à mansão dos mortos”. Isso significa que, de fato, Ele morreu e que, por Sua morte por nós, venceu a morte e o diabo, o dominador da morte (Hb 2,14). São João disse que Ele veio a nós para “destruir as obras do demônio” (1 Jo 3,8). “Ele foi eliminado da terra dos vivos” (Is 53,8). “Minha carne repousará na esperança, porque não abandonarás minha alma no Hades nem permitirás que teu Santo veja a corrupção” (At 2,26-27).

Jesus morreu, mas Sua alma, embora separada de Seu corpo, ficou unida à Sua Pessoa Divina, o Verbo, e desceu à morada dos mortos para abrir as portas do céu aos justos que o haviam precedido (cf. Cat. §637). Para lá foi como Salvador, proclamando a Boa Nova aos espíritos que ali estavam aprisionados. Os Santos Padres da igreja dos primeiros séculos explicaram bem isso. São Gregório de Nissa (†340) disse: “Deus [o Filho] não impediu a morte de separar a alma do corpo, segundo a ordem necessária à natureza, mas os reuniu novamente um ao outro pela Ressurreição, a fim de ser Ele mesmo, em Sua pessoa, o ponto de encontro da morte e da vida, e tornando-se, Ele mesmo, princípio de reunião para as partes separadas” (Or. Catech. , 16: PG: 45,52B).

São João Damasceno (†407), doutor da Igreja e patriarca de Constantinopla ensinou que: “Pelo fato de que, na morte de Cristo, a Sua alma tenha sido separada da carne, a única pessoa não foi dividida em duas pessoas, pois o corpo e alma de Jesus existiram da mesma forma desde o início na pessoa do Verbo; e na Morte, embora separados um do outro, ficaram cada um com a mesma e única pessoa do Verbo” (De fide orthodoxa, 3, 37: PG 94, 109 BA).

A Escritura chama de ‘Morada dos Mortos’, Inferno, Sheol ou Hades, o estado das almas privadas da visão de Deus; são todos os mortos, maus ou justos, à espera do Redentor. Mas o destino deles não é o mesmo como mostra Jesus na parábola do pobre Lázaro recebido no “seio de Abraão”. Jesus não desceu aos infernos (= interior) para ali libertar os condenados nem para destruir o inferno da condenação, mas para libertar os justos, diz o Catecismo (§ 633).

Assim, a Boa Nova foi anunciada também aos mortos, como fala São Pedro (1Pd 4,6). Esta descida de Jesus ao Hades é o cumprimento, até sua plenitude, do anúncio do Evangelho da salvação, e é a última fase da missão de Cristo, é a extensão da redenção a todos os homens de todos os tempos e de todos os lugares. São João disse que Cristo desceu ao seio da terra [um modo de falar], a fim de que “os mortos ouçam a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem vivam” (Jo 5,25). Assim, Jesus, “o Príncipe da vida”, “destruiu  pela morte o dominador da morte, isto é, o diabo, e libertou os que passaram toda a vida em estado de servidão, pelo temor da morte” (Hb 2,5). A partir de agora, Cristo ressuscitado “detém a chave da morte e do Hades” (Ap 1,18), e “ao nome de Jesus todo joelho se dobra no Céu, na Terra e nos Infernos” (Fl 2,10). Uma antiga homilia, de um autor grego desconhecido, e que a Igreja colocou na segunda leitura da Liturgia das Horas, no dia de Sábado Santo, diz:

“Um grande silêncio reina, hoje, na terra, um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei dorme. A terra tremeu e acalmou-se, porque Deus adormeceu na carne e foi acordar os que dormiam desde séculos. Ele vai procurar Adão, nosso primeiro Pai, a ovelha perdida. Quer visitar todos os que se assentaram nas trevas e à sombra da morte. Vai libertar de suas dores aqueles dos quais é filho e para os quais é Deus: Adão, acorrentado, e Eva com ele cativa. “Eu sou teu Deus e por causa de ti me tornei teu filho. Levanta-te, tu que dormes, pois não te criei para que fiques prisioneiro do Inferno: Levanta-te dentre os mortos, eu sou a Vida dos mortos.”

O Papa beato João Paulo II, falando sobre este mistério, disse: “Depois da deposição de Jesus no sepulcro, Maria é a única que permanece a ter viva a chama da fé, preparando-se para acolher o anúncio jubiloso e surpreendente da ressurreição. A espera vivida no Sábado Santo constitui um dos momentos mais altos da fé da Mãe do Senhor. Na obscuridade que envolve o universo, Ela se entrega plenamente ao Deus da vida e, recordando as palavras do Filho, espera a realização plena das promessas divinas”. (L’Osservatore Romano, ed. port. n.21, 24/05/1997, pag. 12(240).

Felipe Aquino
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