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A Semana Santa

Quarta-feira, 27 de março de 2013, Da Redação, com Rádio Vaticano / Clarissa Oliveira / CN Roma

Papa Francisco faz primeira Catequese de seu Pontificado  

O Papa Francisco realizou sua primeira Audiência Geral nesta quarta-feira, 27, na Praça São Pedro, no Vaticano, que estava repleta de fiéis. O Santo Padre dedicou sua Catequese à Semana Santa e explicou que, após a Páscoa, irá retomar as Catequeses sobre o Ano da Fé, como vinha fazendo seu predecessor.

“Mas que significa viver a Semana Santa para nós?”, questionou o Papa. “É acompanhar Jesus no seu caminho rumo à Cruz e à Ressurreição. Em sua missão terrena, ele falou a todos, sem distinção, aos grandes e aos humildes, trouxe o perdão de Deus e sua misericórdia, ofereceu esperança; consolou e curou. Foi presença de amor”.

O Pontífice explicou que na Semana Santa, “vivemos o vértice dessa caminhada de Jesus, que se entregou voluntariamente à morte para corresponder ao amor de Deus Pai, em perfeita união com sua vontade, para demonstrar o seu amor por nós”.

Em seguida, o Santo Padre indagou: “O que tudo isso tem a ver conosco?”, e explicou que esta caminhada é também “a minha, a tua, a nossa caminhada”.

“Viver a Semana Santa seguindo Jesus quer dizer aprender a sair de nós mesmos, ir ao encontro dos outros, ir às periferias da existência, encontrar sobretudo os mais distantes, os que mais necessitam de compreensão, de consolação, de ajuda. Viver a Semana Santa é entrar sempre mais na lógica de Deus, do Evangelho. Mas acompanhar Cristo exige sair de nós mesmos, deixar de lado um modo cansado e rotineiro de viver a fé. Deus saiu de Si mesmo para vir ao nosso encontro e também nós devemos fazer o mesmo”.

A falta de tempo não é desculpa, disse o Papa. “Não podemos nos contentar com uma oração, uma Missa dominical distraída e não constante, de algum gesto de caridade, e não ter a coragem de ‘sair’ para levar Cristo”.

Após a Catequese, como de costume, o Pontífice saudou os grupos presentes. Francisco não falou nas várias línguas, mas sim em italiano. A síntese da catequese e da saudação foi lida por um tradutor. Em português, foi feita pelo padre Bruno Lins:

“Queridos irmãos e irmãs, na Semana Santa, centro de todo o Ano Litúrgico, somos chamados a seguir Jesus pelo caminho do Calvário em direção à Cruz e Ressurreição. Este é também o nosso caminho. Ele entregou-se voluntariamente ao amor de Deus Pai, unido perfeitamente à sua vontade, para demonstrar o seu amor por nós: assim o vemos na Última Ceia, dando-nos o seu Corpo e o seu Sangue, para permanecer sempre conosco. Portanto, a lógica da Semana Santa é a lógica do amor e do dom de si mesmo, que exige deixar de lado as comodidades de uma fé cansada e rotineira para levar Cristo aos demais, abrindo as portas do nosso coração, da nossa vida, das nossas paróquias, movimentos, associações, levando a luz e a alegria da nossa fé. Viver a Semana Santa seguindo Jesus significa aprender a sair de nós mesmos para ir ao encontro dos demais, até as periferias da existência. Há uma necessidade imensa de levar a presença viva de Jesus misericordioso e rico de amor. Queridos peregrinos de língua portuguesa, particularmente os grupos de jovens vindos de Portugal e do Brasil: sede bem-vindos! Desejo-vos uma Semana Santa abençoada, seguindo o Senhor com coragem e levando a quantos encontrardes o testemunho luminoso do seu amor. A todos dou a Bênção Apostólica!”

 

CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano Quarta-feira, 27 de março de 2013
Boletim da Santa Sé Tradução: Jéssica Marçal

Irmãos e irmãs, bom dia!

Tenho o prazer de acolher-vos nesta minha primeira Audiência Geral. Com grande reconhecimento e veneração acolho o “testemunho” das mãos do meu amado predecessor Bento XVI. Depois da Páscoa retomaremos as catequeses do Ano da Fé. Hoje gostaria de concentrar-me um pouco sobre a Semana Santa. Com o Domingo de Ramos iniciamos esta Semana – centro de todo o Ano Litúrgico – na qual acompanhamos Jesus em sua Paixão, Morte e Ressurreição.

Mas o que pode querer dizer viver a Semana Santa para nós? O que significa seguir Jesus em seu caminho no Calvário para a Cruz e a ressurreição? Em sua missão terrena, Jesus percorreu os caminhos da Terra Santa; chamou 12 pessoas simples para que permanecessem com Ele, compartilhando o seu caminho e para que continuassem a sua missão; escolheu-as entre o povo cheio de fé nas promessas de Deus. Falou a todos, sem distinção, aos grandes e aos humildes, ao jovem rico e à pobre viúva, aos poderosos e aos indefesos; levou a misericórdia e o perdão de Deus; curou, consolou, compreendeu; doou esperança; levou a todos a presença de Deus que se interessa por cada homem e cada mulher, como faz um bom pai e uma boa mãe para cada um de seus filhos. Deus não esperou que fôssemos a Ele, mas foi Ele que se moveu para nós, sem cálculos, sem medidas. Deus é assim: Ele dá sempre o primeiro passo, Ele se move para nós. Jesus viveu a realidade cotidiana do povo mais comum: comoveu-se diante da multidão que parecia um rebanho sem pastor; chorou diante do sofrimento de Marta e Maria pela morte do irmão Lázaro; chamou um cobrador de impostos como seu discípulo; sofreu também a traição de um amigo. Nele Deus nos doou a certeza de que está conosco, em meio a nós. “As raposas – disse Ele, Jesus – as raposas têm suas tocas e as aves do céu os seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça” (Mt 8, 20). Jesus não tem casa porque a sua casa é o povo, somos nós, a sua missão é abrir a todos as portas de Deus, ser a presença do amor de Deus.

Na Semana Santa nós vivemos o ápice deste momento, deste plano de amor que percorre toda a história da relação entre Deus e a humanidade. Jesus entra em Jerusalém para cumprir o último passo, no qual reassume toda a sua existência: doa-se totalmente, não tem nada para si, nem mesmo a vida. Na Última Ceia, com os seus amigos, compartilha o pão e distribui o cálice “por nós”. O Filho de Deus se oferece a nós, entrega em nossas mãos o seu Corpo e o seu Sangue para estar sempre conosco, para morar em meio a nós. E no Monte das Oliveiras, como no processo diante de Pilatos, não oferece resistência, doa-se; é o Servo sofredor profetizado por Isaías que se despojou até a morte (cfr Is 53,12).

Jesus não vive este amor que conduz ao sacrifício de modo passivo ou como um destino fatal; certamente não esconde a sua profunda inquietação humana diante da morte violenta, mas se confia com plena confiança ao Pai. Jesus entregou-se voluntariamente à morte para corresponder ao amor de Deus Pai, em perfeita união com a sua vontade, para demonstrar o seu amor por nós. Na cruz Jesus “me amou e entregou a si mesmo” (Gal 2,20). Cada um de nós pode dizer: amou-me e entregou a si mesmo por mim. Cada um pode dizer este “por mim”.

O que significa tudo isto para nós? Significa que este é também o meu, o teu, o nosso caminho. Viver a Semana Santa seguindo Jesus não somente com a emoção do coração; viver a Semana Santa seguindo Jesus quer dizer aprender a sair de nós mesmos – como disse domingo passado – para ir ao encontro dos outros, para ir para as periferias da existência, mover-nos primeiro para os nossos irmãos e as nossas irmãs, sobretudo aqueles mais distantes, aqueles que são esquecidos, aqueles que tema mais necessidade de compreensão, de consolação, de ajuda. Há tanta necessidade de levar a presença viva de Jesus misericordioso e rico de amor!

Viver a Semana Santa é entrar sempre mais na lógica de Deus, na lógica da Cruz, que não é antes de tudo aquela da dor e da morte, mas aquela do amor e da doação de si que traz vida. É entrar na lógica do Evangelho. Seguir, acompanhar Cristo, permanecer com Ele exige um “sair”, sair. Sair de si mesmo, de um modo cansado e rotineiro de viver a fé, da tentação de fechar-se nos próprios padrões que terminam por fechar o horizonte da ação criativa de Deus. Deus saiu de si mesmo para vir em meio a nós, colocou a sua tenda entre nós para trazer-nos a sua misericórdia que salva e doa esperança. Também nós, se desejamos segui-Lo e permanecer com Ele, não devemos nos contentar em permanecer no recinto das 99 ovelhas, devemos “sair”, procurar com Ele a ovelha perdida, aquela mais distante. Lembrem-se bem: sair de nós mesmo, como Jesus, como Deus saiu de si mesmo em Jesus e Jesus saiu de si mesmo por todos nós.

Alguém poderia dizer-me: “Mas, padre, não tenho tempo”, “tenho tantas coisas a fazer”, “é difícil”, “o que posso fazer com as minhas poucas forças, também com o meu pecado, com tantas coisas?”. Sempre nos contentamos com alguma oração, com uma Missa dominical distraída e não constante, com qualquer gesto de caridade, mas não temos esta coragem de “sair” para levar Cristo. Somos um pouco como São Pedro. Assim que Jesus fala de paixão, morte e ressurreição, de doação de si, de amor para todos, o Apóstolo o leva para o lado e o repreende. Aquilo que diz Jesus perturba os seus planos, parece inaceitável, coloca em dificuldade as seguranças que se havia construído, a sua ideia de Messias. E Jesus olha para os discípulos e dirige a Pedro talvez uma das palavras mais duras dos Evangelhos: “Afasta-te de mim, Satanás, porque teus sentimentos não são os de Deus, mas os dos homens” (Mc 8, 33). Deus pensa sempre com misericórdia: não se esqueçam disso. Deus pensa sempre com misericórdia: é o Pai misericordioso! Deus pensa como o pai que espera o retorno do filho e vai ao seu encontro, vê-lo vir quando ainda é distante…O que isto significa? Que todos os dias ia ver se o filho retornava a casa: este é o nosso Pai misericordioso. É o sinal que o esperava de coração no terraço de sua casa. Deus pensa como o samaritano que não passa próximo à vítima olhando por outro lado, mas socorrendo-a sem pedir nada em troca; sem perguntar se era judeu, se era pagão, se era samaritano, se era rico, se era pobre: não pergunta nada. Não pergunta essas coisas, não pergunta nada. Vai em seu auxílio: assim é Deus. Deus pensa como o pastor que doa a sua vida para defender e salvar as ovelhas.

A Semana Santa é um tempo de graça que o Senhor nos doa para abrir as portas do nosso coração, da nossa vida, das nossas paróquias – que pena tantas paróquias fechadas! – dos movimentos, das associações, e “sair” de encontro aos outros, fazer-nos próximos para levar a luz e a alegria da nossa fé. Sair sempre! E isto com amor e com a ternura de Deus, no respeito e na paciência, sabendo que nós colocamos as nossas mãos, os nossos pés, o nosso coração, mas em seguida é Deus que os orienta e torna fecunda cada ação nossa.

Desejo a todos viver bem estes dias seguindo o Senhor com coragem, levando em nós mesmos um raio do seu amor a quantos encontrarmos.

Paixão do Senhor: “Apenas misericórdia pode salvar o mundo”

Sexta-feira, 25 de março de 2016, Agência Ecclesia

Pregador da Casa Pontifícia afirma que a misericórdia pode salvar matrimônio e família

O pregador da Casa Pontifícia destacou a “prova suprema” da morte de Jesus e explicou o apelo à reconciliação com Deus dirigido nesta Sexta-feira Santa, 25, a todos no Ano favorável da Misericórdia, na celebração da Paixão do Senhor, no Vaticano.

“A morte de Cristo devia ser para todos a prova suprema da misericórdia de Deus para com os pecadores. É por isso que ela não tem sequer a majestade de certa solidão, mas é enquadrada, entre dois ladrões”, assinalou frei Raniero Cantalamessa, esta tarde, na cerimônia presidida pelo Papa Francisco.

Na celebração da Paixão do Senhor, o franciscano capuchinho explicou que se deve perceber que “o oposto da misericórdia não é a justiça mas a vingança”.

O sacerdote indicou que Jesus “não opôs misericórdia à justiça, mas à lei de talião” e exemplificou que na cruz “não pediu ao Pai que vingasse a sua causa” mas que perdoasse os seus carrascos.

“Temos que desmitificar a vingança! Ela tornou-se um mito penetrante, que contamina tudo e todos, começando pelas crianças”, alertou o pregador da Casa Pontifícia dando como exemplo que “grande parte das histórias” no cinema e nos jogos eletrônicos são “histórias de vingança”.

Misericórdia pode salvar matrimônio e família

“Metade, se não mais, do sofrimento que há no mundo, quando não se trata de males naturais, vêm do desejo de vingança, seja nas relações entre as pessoas, seja nas relações entre países e povos”, acrescentou, sublinhando que apenas a misericórdia “pode salvar o mundo”.

“A misericórdia de Deus pelos homens e dos homens entre si. Ela pode salvar, em particular, a coisa mais preciosa e mais frágil que há no mundo neste momento: o matrimônio e a família”, alertou.

Neste contexto, observou que no matrimônio acontece algo semelhante ao que aconteceu “na relação entre Deus e a humanidade”, no início existe “amor” e não a misericórdia.

“A misericórdia só intervém depois do pecado do homem, também no casamento, no início não há misericórdia mas amor. Depois de anos, ou meses, de vida em comum revelam-se os limites pessoais, os problemas de saúde, dinheiro, filhos; a rotina, que apaga a alegria”, desenvolveu.

O religioso refletiu também sobre a reconciliação com Deus e disse que uma das razões, “talvez a principal”, da alienação do homem moderno com a religião e a fé “é a imagem distorcida de Deus”.

Justiça de Deus

Na Basílica de São Pedro, explicou que para descobrir qual a imagem “predefinida” de Deus no inconsciente humano coletivo “basta fazer” a pergunta: “Que associação de ideias, que sentimentos e reações surgem em mim, antes de qualquer reflexão, quando, na oração do Pai-nosso, chego às palavras ‘seja feita a vossa vontade’.”

“Quem as diz é como se inclinasse interiormente a cabeça em resignação, preparando-se para o pior. É um pouco como se Deus fosse o inimigo de toda festa, alegria, prazer. Um Deus ranzinza e inquisidor”, comentou.

Para o pregador da Casa Pontifícia é um resquício da ideia pagã de Deus, “nunca erradicada de todo, e talvez erradicável, do coração humano”.

Contudo, na homilia da Celebração da Paixão do Senhor, o religioso observa que no cristianismo “nunca foi ignorada” a misericórdia de Deus mas foi-lhe confiada “apenas” a missão de “moderar os rigores irrenunciáveis da justiça”.

Na cerimônia, com 38 cardeais e 33 arcebispos e bispos, o sacerdote considerou que existe “o perigo” de se ouvir falar em justiça de Deus e “ignorando o seu significado, ficar-se com medo em vez de encorajado”.

“A justiça de Deus é o ato pelo qual Deus faz justos, agradáveis a Si, aqueles que creem no Seu Filho. Não é um fazer-se justiça, mas um fazer justos”, acrescentou o pregador da Casa Pontifícia.

Papa pede perseverança e consolação para semear esperança

Quarta-feira, 22 de março de 2017, Da Redação, com Rádio Vaticano

Perseverança e consolação são transmitidas de modo particular pelas Escrituras, disse o Papa

Na audiência geral desta quarta-feira, 22, o Papa Francisco deu continuidade ao seu ciclo de catequeses sobre a esperança cristã, destacando a perseverança e a consolação, tratadas pelo Apóstolo Paulo na Carta aos Romanos.

Dirigindo-se aos cerca de 15 mil fieis presentes na Praça São Pedro, o Papa explicou que a perseverança ou paciência, é a capacidade de suportar, permanecer fiel, mesmo quando o peso é demasiado grande e há a tentação de abandonar tudo.

A consolação, por sua vez, é a graça de saber perceber e manifestar a presença e a ação compassiva de Deus, em todas as circunstâncias, mesmo quando marcadas pela decepção e sofrimentos. Deste modo a pessoa fica mais forte, a fim de poder permanecer próxima aos irmãos mais fracos, ajudando-os em suas fragilidades.

Francisco recordou que a perseverança e a consolação são transmitidas de modo particular pelas Escrituras. “A Palavra de Deus, em primeiro lugar, nos leva a dirigir o olhar a Jesus, a conhecê-lo melhor, a conformar-nos a Ele, a nos assemelhar a Ele. Em segundo lugar, a Palavra nos revela que o Senhor é realmente “o Deus da perseverança e da consolação”, que permanece sempre fiel ao seu amor por nós e que cuida de nós, cobrindo as nossas feridas com o carinho da sua bondade e da sua misericórdia”.

A expressão de São Paulo “nós que somos fortes, devemos suportar a fraqueza dos fracos e não procurar o que nos agrada” – explica o Papa – poderia parecer presunçosa, “mas na lógica do Evangelho sabemos que não é assim, é justamente o contrário, pois sabemos que a nossa força não vem de nós, mas do Senhor”:

“Quem experimenta na própria vida o amor fiel de Deus e a sua consolação é capaz, ou melhor, tem a obrigação de estar próximo aos fiéis mais frágeis, assumindo as suas fragilidades. E pode fazer isto sem autosatisfação, mas sentindo-se simplesmente como um “canal” que transmite os dons do Senhor; e assim se torna concretamente um “semeador” de esperança”.

E o fruto deste estilo de vida – alerta o Santo Padre – não é uma comunidade em que alguns são de “série A”, isto é os fortes, e outros de “série B”, isto é, os fracos. O fruto, ao contrário, como diz São Paulo, é ter os mesmos sentimentos uns com os outros. A Palavra de Deus alimenta uma esperança que se traduz concretamente na partilha e no serviço recíproco.

“Porque também quem é ‘forte’ experimenta cedo ou tarde a fragilidade e tem necessidade do conforto dos outros; e vice-versa na fraqueza se pode sempre oferecer um sorriso ou uma mão ao irmão em dificuldade. E é uma comunidade assim ‘que a uma só voz dá glória a Deus’. Mas tudo isto é possível somente se coloca no centro Jesus e a sua Palavra. Somente Ele é o “irmão forte” que cuida de cada um de nós. De fato, todos temos necessidade de ser carregados pelo Bom Pastor e de sermos envolvidos pelo seu olhar terno e cuidadoso”.

Você ainda se confessa?

Reconhecer o pecado já é meio caminho andado

No dia 30 de junho, um site de Campo Grande publicou um artigo sobre a confissão, um assunto que parece fora de moda, quase um tabu. Nele, o autor escrevia: «Drogas, questões sexuais e brigas familiares mantêm o sacramento da confissão em alta mesmo em tempos de “é proibido proibir”. Com novos conceitos, como a troca da nomenclatura “pecado” por “dilema”, fim das penitências folclóricas e até a abolição do confessionário, o ato de reconciliação com Deus ganha ares de terapia em Campo Grande. A procura é tão grande que, no Santuário Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, às quartas-feiras, dez padres atendem até 700 pessoas entre 6 e 22 horas».

Ao longo do texto, o articulista deu a palavra a dois sacerdotes que atuam em Campo Grande: o Pe. Wilson Cardoso de Sá, diretor do Instituto de Teologia João Paulo II, e o Pe. Dírson Gonçalves, reitor do Santuário Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

Em seu sentido mais profundo, explica o Pe. Wilson, o pecado é adultério e idolatria: quebra ou, pelo menos, enfraquece a comunhão que liga o homem a Deus, ao próximo e à criação. Mesmo quando oculto, ele não prejudica apenas a quem o comete, mas a toda a humanidade.

Seu conceito sofreu uma grande transformação na sociedade. Enquanto alguns cristãos pensam que nada mais seja pecado, outros o resumem ao campo da sexualidade. Esquecem que também a fofoca, a corrupção, a droga, a violência e as infrações no trânsito integram a lista das faltas a serem confessadas e corrigidas.

E o que dizer da “penitência” que o padre impõe a quem busca o confessionário? Responde o Pe. Wilson: «Se você fez aborto, nada vai trazer a pessoa de volta; mas você pode dar sua ajuda a uma criança, a uma família. Se roubou, deve devolver o dinheiro. Se caluniou, você precisa pedir perdão não só a quem ofendeu, mas também às pessoas que foram contaminadas…».

Por sua vez, o Pe. Dírson orienta os fiéis a se confessarem pelo menos duas vezes ao ano, nas solenidades do Natal e da Páscoa. Mas é bom fazê-lo também ao longo do ano: «Muita gente vem em busca de orientação e de conselhos. Há pessoas que sofrem relacionamentos complicados no namoro, no casamento, na família. Crescem a cada dia os problemas derivados do consumo da droga, da bebida, da falta ou do excesso de bens materiais».

Como os demais sacramentos da Igreja, a confissão é um grande presente de Deus. Reconhecer o pecado já é meio caminho andado, uma atitude que leva à felicidade e à santidade. É o que reconhecem todas as pessoas que experimentam a misericórdia de Deus: «Feliz o homem que foi perdoado, a quem o Senhor não olha mais como culpado! Enquanto eu escondia o meu pecado, os meus ossos definhavam, as minhas forças fugiam e eu passava o dia chorando e gemendo. Mas quando confessei o meu pecado, tu logo perdoaste a minha culpa» (Sl 32,1-5).

Para a Igreja Católica, a confissão é vista como o sacramento da penitência e da reconciliação, instituído por Jesus no domingo da Páscoa: «Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados; mas, se não os perdoarem, eles ficarão retidos» (Jo 20, 23). Tal doutrina é assim apresentada pelo Concílio Vaticano II: «Os fiéis que se aproximam do sacramento da penitência obtêm da misericórdia divina o perdão da ofensa feita a Deus e, ao mesmo tempo, são reconciliados com a Igreja que feriram pecando, mas que agora colabora para a sua conversão com caridade, exemplo e orações».

Contudo, a confissão não foi dada “apenas” para perdoar pecados. Deus não precisa dela para demonstrar sua misericórdia a quem se arrepende. O grande milagre operado por ela é permitir que Deus penetre em nossa vida através das fraquezas que lhe entregamos. Ao recebermos a absolvição, o pecado perde a sua força e se transforma em graça. Foi esta a descoberta que levou São Paulo a ter uma nova visão da perfeição cristã: «Se a força de Deus se realiza na fraqueza, prefiro gloriar-me dela, pois, quando sou fraco, então é que sou forte» (2Cor 12, 9-10). Descobrir a arte de aproveitar das próprias faltas para dar a Deus a alegria de ser amor e misericórdia: eis o paraíso já aqui na terra!

Dom Redovino Rizzardo, cs
Bispo de Dourados (MS)
E-mail para contato: redovinorizzardo@gmail.com

Em Deus, justiça é misericórdia, diz Papa em homilia

Sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017, Da Redação, com Rádio Vaticano
 
Francisco advertiu sobre a hipocrisia da casuística e destacou que em Deus justiça é misericórdia e misericórdia é justiça

Na Missa desta sexta-feira, 24, o Papa Francisco advertiu para a hipocrisia e para o engano provocado por uma fé reduzida a uma “lógica casuística”.

“É lícito para um marido repudiar a própria mulher?”. Esta é a pergunta contida no Evangelho de Marcos que os doutores da Lei fazem a Jesus durante sua pregação na Judeia. “E o fazem para colocar Cristo à prova mais uma vez”, observou o Papa, que se inspirou na resposta de Jesus para explicar o que mais conta na fé.

“Jesus não responde se é lícito ou não; não entra na lógica casuística deles. Porque eles pensavam na fé somente em termos de ‘pode’ ou ‘não pode’, até onde se pode, até onde não se pode. É a lógica da casuística: Jesus não entra nisso. E faz uma pergunta: ‘Mas o que Moisés vos ordenou? O que está na vossa lei?’. E eles explicam a permissão que Moisés deu de repudiar a mulher, e são eles a cair na própria armadilha. Porque Jesus os qualifica como ‘duros de coração’: ‘Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos escreveu este mandamento’, e diz a verdade. Sem casuística. Sem permissões. A verdade.”

Francisco destacou que Jesus sempre diz a verdade, explica as coisas como foram criadas, a verdade das Escrituras, da Lei de Moisés. E o faz também quando seus discípulos o interrogam sobre o adultério, aos quais repete: “Quem se divorciar de sua mulher e casar com outra, cometerá adultério contra a primeira. E se a mulher se divorciar de seu marido e casar com outro, cometerá adultério”.

Mas se a verdade é esta e o adultério é “grave”, como explicar então que Jesus falou “tantas vezes com uma adúltera, com uma pagã”?, pergunta o Papa. “Bebeu de seu copo, que não era puro?”. E no final lhe disse: “Eu não te condeno. Não peques mais”? Como explicar isso?

“O caminho de Jesus – vê-se claramente – é o caminho da casuística à verdade e à misericórdia. Jesus deixa a casuística de fora. Aos que queriam colocá-lo à prova, aos que pensavam com esta lógica do ‘pode’, os qualifica – não aqui, mas em outro trecho do Evangelho – como hipócritas. Também com o quarto mandamento eles negavam de assistir os pais com a desculpa de que tinham dado uma bela oferta à Igreja. Hipócritas. A casuística é hipócrita. É um pensamento hipócrita. ‘Pode – não pode… que depois se torna mais sutil, mais diabólico: mas até que ponto posso? Mas daqui até aqui não posso. É a enganação da casuística”.

O caminho do cristão, portanto, não cede à lógica da casuística, mas responde com a verdade que o acompanha, a exemplo de Jesus, “porque Ele é a encarnação da Misericórdia do Pai, e não pode negar a si mesmo. Não pode negar a si mesmo porque é a Verdade do Pai, e não pode negar a si mesmo porque é a Misericórdia do Pai”. “Este é o caminho que Jesus nos ensina”, notou o Papa, difícil de ser aplicado diante das tentações da vida.

“Quando a tentação toca o coração, este caminho de sair da casuística à verdade e à misericórdia não é fácil: é necessária a graça de Deus para que nos ajude a ir assim avante. E devemos pedi-la sempre. ‘Senhor, que eu seja justo, mas justo com misericórdia’. Não justo, coberto com a casuística. Justo na misericórdia. Como és Tu. Justo na misericórdia. Depois, uma pessoa de mentalidade casuística pode se perguntar: ‘Mas o que é mais importante em Deus? Justiça ou misericórdia?’. Este também é um pensamento doente… o que é mais importante? Não são duas: é somente uma, uma só coisa. Em Deus, justiça é misericórdia e misericórdia é justiça. Que o Senhor nos ajude a entender esta estrada, que não é fácil, mas nos fará felizes, a nós, e fará felizes muitas pessoas”.

Sem obras a fé é morta

Papa Francisco durante o Angelus – REUTERS

10/07/2016

Cidade do Vaticano (RV) – “No final, seremos julgados pelas obras de misericórdia”. O Papa Francisco quis recordar aos fiéis presentes na Praça de São Pedro neste domingo, antes da oração do Angelus, comentando a parábola “simples e estimulante do Bom Samaritano”. E fez isso citando inclusive uma canção italiana  “Parole, parole, parole, – “Palavras, palavras, palavras.” “Apenas palavras que o vento leva embora”, disse para distinguir as obras de misericórdia de uma solidariedade só em palavras.

“Também nós – sublinhou – podemos nos fazer esta pergunta: quem é o meu próximo? Quem devo amar como a mim mesmo? Os meus parentes? Os meus amigos? Os meus compatriotas? Os da minha mesma religião?”. Francisco explicou que Jesus muda essa perspectiva: “Eu não devo catalogar os outros para decidir quem é o meu próximo e quem não é. Depende de mim, ser ou não ser o próximo da pessoa que encontro, e que precisa de ajuda, mesmo se estranha ou até

“Vai e faça você também o mesmo”’

E Jesus recomenda: “Vai e faça você também o mesmo”’. E ele repete a cada um de nós: “Vai e faça você também o mesmo, faça-se próximo ao irmão e à irmã que você vê em dificuldades. O Evangelho, recordou Francisco, “indica um modo de vida, cujo centro de gravidade não somos nós mesmos, mas os outros, com as suas dificuldades, que encontramos em nosso caminho e nos interpelam. E quando os outros não nos interpelam algo neste coração não funciona, algo neste coração não é cristão”.

A atitude do Bom Samaritano

Devemos, disse o Papa, “realizar boas obras, não basta somente dizer palavras que vão ao vento”. “ Vem-me em mente aquela canção “palavras, palavras, palavras”. E, no Dia do Julgamento, o Senhor vai nos dizer’: “Mas você, você se recorda daquela vez na estrada de Jerusalém a Jericó? Aquele homem quase morto era eu. Você se lembra? Aquela criança com fome era eu. Você se lembra? Aquele migrante que muitos querem expulsar era eu. Aquele avó sozinho, abandonado em casas para idosos, era eu. Aquele doente sozinho no hospital, ninguém vai ver, era eu”.

“A atitude do Bom Samaritano – explicou Francisco – é necessária para dar prova da nossa fé, a qual “se não é acompanhada por obras, em si mesma é morta”, como recorda o Apóstolo Tiago”.

Fé fecunda

“Através das boas obras, que realizamos com amor e com alegria aos outros, a nossa fé – acrescentou – germina e dá frutos”. Bergoglio, em seguida exortou: “Perguntemo-nos: a nossa fé é fecunda? Ela produz boas obras? Ou é um pouco estéril e, portanto, mais morta do que viva? Faço-me próximo ou simplesmente o passo ao lado?”. “Estas perguntas – concluiu – devemos fazê-las frequentemente, porque no fim seremos julgados pelas obras de misericórdia”. (SP)

O 2016 do Papa Francisco: a reforma real é o amor dos santos

30/12/2016

Cidade do Vaticano (RV) – O ano de 2016 está chegando ao fim. É tempo de balanço. O ano que termina foi muito intenso para o Papa com as suas seis viagens internacionais e as três realizadas na Itália, a publicação da Exortação Apostólica Amoris Laetitia sobre a família, o Jubileu da Misericórdia, com seus muitos eventos e, ainda os encontros, as audiências gerais, as Missas na Casa Santa Marta e as novas etapas da reforma da Cúria. Mas o traço comum também deste ano é a profunda renovação espiritual que o Papa Francisco está promovendo na Igreja para que os cristãos levem em todo o mundo a alegria do Evangelho.

O amor de Deus é o centro do Evangelho, não a lei

“No centro não está a lei”, mas “o amor de Deus, que sabe ler o coração de cada pessoa, para compreender o desejo mais escondido, e que deve ter a primazia sobre tudo”. São, talvez, essas as palavras mais significativas deste ano do Papa Francisco: estão contidas na Carta Apostólica “Misericordia et Misera” publicada na conclusão do Jubileu. “Este é o tempo da misericórdia”, reafirma. É o poder do Evangelho que nós sempre tentamos engaiolar nos padrões tranquilizadores, assim como fazem os escribas e fariseus que fazem perguntas capciosas a Jesus citando Moisés e a Lei, porque “sempre foi feito assim”: mas o amor do Senhor é mais forte. “O cristão – escreve o Papa – é chamado a viver a novidade do Evangelho” e “também nos casos mais complexos, onde se procura fazer prevalecer uma justiça que vem apenas das regras, se deve acreditar na força que brota da graça divina”:

“O que isso significa? Que muda a lei? Não! Que a lei está a serviço do homem que está a serviço de Deus, e por isso o homem deve ter um coração aberto. O “sempre foi feito assim” é coração fechado e Jesus nos disse: “Vou enviar o Espírito Santo e Ele os conduzirá à plena verdade”. Se você tem o coração fechado à novidade do Espírito, nunca vai chegar à plena verdade”.

Rigidez e soberba

Não é fácil caminhar na Lei do Senhor “sem cair na rigidez”, disse o Papa. “A Lei não é feita para nos tornar escravos, mas para nos tornar livres, para nos tornar filhos”. O risco dos rígidos é cair na soberba, e considerarem-se mais justos do que os outros:

“Vamos rezar por nossos irmãos e irmãs que acreditam que caminhar na Lei do Senhor é tornar-se rígido. Que o Senhor faça com quem eles sintam que Ele é Pai e que Ele ama a misericórdia, a ternura, a bondade, a mansidão, a humildade. E a todos nos ensine a caminhar na Lei do Senhor com estas atitudes”.

Abertos às surpresas do Espírito

Desde o início, o Espírito Santo impele a Igreja para a frente, em direção de novas estradas, das novidades de Deus. Cresce, de fato, a compreensão da fé, as verdades de sempre são cada vez mais entendidas na sua plenitude. A partir do primeiro Concílio da história, o de Jerusalém, onde os apóstolos decidiram juntos de não impor a Lei Mosaica aos gentios convertidos:

“Este é o caminho da Igreja até hoje. E quando o Espírito nos surpreende com algo que parece novo ou que “nunca se fez assim”, “se deve fazer assim”, pensem no Vaticano II, às resistências que teve o Concílio Vaticano II, e digo isto porque é mais perto de nós. Quantas resistências: “Oh, não … ‘. Também hoje resistências que continuam, de uma forma ou de outra, e o Espírito que vai avante. E o caminho da Igreja é este: reunir-se, unir-se, ouvir, discutir, rezar e decidir. E isso é a chamada sinodalidade da Igreja, na qual se expressa a comunhão da Igreja. E quem faz a comunhão? E o Espírito! Outra vez o protagonista. O que o Senhor pede de nós? Docilidade ao Espírito. O que o Senhor pede de nós? Não ter medo, quando vemos que é o Espírito que nos chama”.

O diabo quer destruir a Igreja com as divisões

O Papa Francisco convida a trabalhar pela unidade da Igreja, a não dilacerar o Corpo de Cristo. É o diabo – disse – que procura destruir a Igreja através de divisões teológicas e ideológicas. A sua “é uma guerra suja” e “nós ingênuos nos submetemos”:

“As divisões na Igreja não deixam que o Reino de Deus cresça; não deixam que o Senhor se mostre bem, como Ele é. As divisões fazem com que se veja esta parte, esta outra, contra esta, contra contra … Sempre contra! Não há o óleo da unidade, o bálsamo da unidade (…) eu lhe peço para fazer todo o possível para não destruir a Igreja com as divisões, sejam ideológicas, sejam de ganância e de ambição, sejam de ciúmes” .

A Igreja – disse o Papa Francisco – tem necessidade constante de renovar-se, porque é um corpo vivo. Mas os verdadeiros reformadores são os santos. (SP)

Santo Evangelho (Lc 1, 46-56)

22 de Dezembro – Quinta-feira 22/12/2016

Primeira Leitura (1Sm 1,24-28)
Leitura do Primeiro Livro de Samuel.

Naqueles dias, 24Ana, logo que o desmamou, levou consigo Samuel à casa do Senhor em Silo, e mais um novilho de três anos, três arrobas de farinha e um odre de vinho. O menino, porém, era ainda uma criança. 25Depois de sacrificarem o novilho, apresentaram o menino a Eli. 26E Ana disse-lhe: “Ouve, meu Senhor, por tua vida, eu sou a mulher que esteve aqui orando ao Senhor, na tua presença. 27Eis o menino por quem eu pedi, e o Senhor ouviu a minha súplica. 28Portanto, eu também o ofereço ao Senhor, a fim de que só a ele sirva em todos os dias de sua vida”. E adoraram o Senhor.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Responsório (1Sm 2,1-8)

— Meu coração exultou no meu Senhor, Salvador.
— Meu coração exultou no meu Senhor, Salvador.

— Exulta no Senhor meu coração, e se eleva a minha fronte no meu Deus; Minha boca desafia os meus rivais porque me alegro com a vossa salvação!

— O arco dos fortes foi dobrado, foi quebrado, mas os fracos se vestiram de vigor. Os saciados se empregaram por um pão, mas os pobres e os famintos se fartaram. Muitas vezes deu à luz a que era estéril, mas a mãe de muitos filhos definhou.

— É o Senhor quem dá a morte e dá a vida, faz descer à sepultura e faz voltar; é o Senhor quem faz o pobre e faz o rico, é o Senhor quem nos humilha e nos exalta.

— O Senhor ergue do pó o homem fraco, e do lixo ele retira o indigente, para fazê-los assentar-se com os nobres num lugar de muita honra e distinção.

 

Evangelho (Lc 1,46-56)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, 46Maria disse: “A minha alma engrandece o Senhor, 47e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, 48porque olhou para a humildade de sua serva. Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada, 49porque o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor. O seu nome é santo, 50e sua misericórdia se estende, de geração em geração, a todos os que o temem. 51Ele mostrou a força de seu braço: dispersou os soberbos de coração. 52Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes. 53Encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias. 54Socorreu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia, 55conforme prometera aos nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre”. 56Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

 

A IGREJA CATÓLICA CELEBRA E VENERA HOJE
Santa Francisca Xavier Cabríni, a heroína dos tempos modernos

Chamada por Pio XII de “heroína dos tempos modernos”, Santa Francisca nasceu em Sant’Angelo de Lódi, na Lomabardia, Itália, em 1850. Última dos 13 filhos de Agostinho Cabríni e Estela Oldini, recebeu no batismo o nome de Maria Francisca, ao qual mais tarde ajuntou o de Xavier, pelo seu amor e veneração ao apóstolo das Índias.

Aos 11 anos fez voto de castidade. Seguiu a carreira do magistério com as religiosas Filhas do Sagrado Coração de Jesus, em Arluno, terminando-a aos 18 anos. Sentindo vocação divina, pretendeu entrar para essa Congregação religiosa, mas foi recusada por falta de saúde.

Exerceu durante dois anos o cargo de professora primária em Vidardo e durante três anos dedicou-se na sua terra à instrução religiosa da juventude e ao tratamento dos enfermos e daqueles que eram atingidos pela peste. Aos 23 anos tentou mais uma vez ser religiosa nas Filhas do Sagrado Coração, mas de novo obteve uma negativa.

Após isso, Santa Francisca transladou-se à “Casa da Providência” em Codogno, a fim de a reformar, pois estava em franca decadência. Fez a profissão em 1877 e a partir disso, em meio a grandes tribulações e sofrimentos, ela encontrou as sete primeiras companheiras de sua futura Obra.

Três anos mais tarde, fundou uma nova Congregação religiosa. A 10 de novembro de 1880 alojou-se, com sete companheiras, num desmantelado Convento franciscano, onde, a 14 do mesmo mês, deu princípio ao novo Instituto, com a inauguração de uma capela em honra ao Sagrado Coração de Jesus. Um mês mais tarde, a sua Obra recebia a aprovação episcopal. Francisca contava então 30 anos.

Enquanto se dedicava com as companheiras à educação das meninas e à catequização dos rapazes, foi compondo as regras do seu Instituto, obra de prudência sobre-humana, que recebeu aprovação episcopal em 1881 e a definitiva da Santa Sé em 1907. Em 1884, com 7 anos de vida, a Obra já contava com cinco casas.

Em 1887, partiu para Roma onde, a princípio, só encontrou dificuldades e portas fechadas até que, com fé, simplicidade e perseverança, Santa Francisca obteve a autorização do Cardeal Vigário para construir uma escola gratuita para pobres fora da Porta Pia e um asilo infantil na Sabina, em Aspra.

O problema da emigração italiana para a América do Norte preocupava o então Bispo de Placença, Mons. Scalabrini, que pediu à serva de Deus algumas das suas religiosas para irem socorrer aqueles desamparados. Mas a virtuosa fundadora não se decidia a responder, pois pensava nas Missões do Oriente. Foi então consultar o Papa Leão XIII que, após ouvir Francisca, concluiu: “Não ao Oriente mas ao Ocidente”. E desde esse momento ficou decidida a sua partida para Nova Iorque, a qual veio realizar pela primeira vez em 1889.

Quase aos 40 anos de idade, começa uma série ininterrupta de viagens, percorrendo a América inteira, transpondo a cavalo a Cordilheira dos Andes, sendo por toda parte conhecida como a “Mãe dos emigrados”. Ia de casa em casa, a procura da ovelha perdida, do enfermo e da criança ignorante. Lutou denotadamente contra a fome, as enfermidades e a própria morte.

Em 1912 fez a sua última viagem de Roma a Nova Iorque. A santa fundadora das Missionárias do Sagrado Coração morreu em Illinois, perto de Chicago, a 22 de dezembro de 1917, com 67 anos de idade. Igual era o número das casas que então deixara fundadas e que em 1938 subiam a mais de 100, com cerca de 4.000 religiosas.

A fama das suas virtudes e os prodígios por ela operados fizeram que logo após a morte se começasse o processo da sua beatificação, que veio a se realizar em 1938. Foi canonizada pelo Papa Pio XII a 7 de julho de 1946.

Santa Francisca Xavier Cabríni, rogai por nós!

A morte e a vida eterna

1- O mundo passa. A vida é breve. A morte é certa. Quem faz o bem e cumpre o dever não precisa ter medo da morte, pelo contrário, espera a vida. O bem já é o céu antecipado. Nosso corpo na eternidade será glorioso, incorruptível, espiritual, imortal. O que parece ser um fim, um fracasso é na verdade um começo, um início. Quem tem fé já vive o início da festa eterna.

2- O cemitério é uma cidade viva. Sim, ali está viva a saudade e a recordação da vida dos nossos entes queridos. É cidade da saudade, da esperança na ressurreição, cidade que leva a pensar e até a mudar de vida. É a cidade da igualdade social, da paz, da transformação da morte em vida.

3- Os túmulos são também berços. Deus promete abrir os túmulos e então nascemos para a nova vida junto Dele. Eis o início da nova vida. A morte é fim da vida terrena e início da vida nova, da plenitude da vida. Descemos para o seio da terra e entramos no seio de Abraão, isto é, de Deus. Descemos ao túmulo, para subir aos céus. Voltamos para a terra para voltar ao Criador e com Ele conviver.

4- Levamos flores, neste dia. A flor vem de uma semente e de um botão que morreu. Eis o que é a páscoa pessoal. A flor é o símbolo de nossa realidade pascal. Ela é também sinônimo de gratidão, respeito, carinho, homenagem para quem esteve entre nós e está vivo em Deus, no jardim celeste e suas mansões. Transformemos o deserto em jardim.

5- No dia de finados costumamos acender velas. De fato, a luz das boas obras que nossos mortos praticaram ainda ilumina. O esplendor do bem, a luminosidade do amor não passa. O bem não morre. A vela acesa é símbolo da fé que transforma as trevas em luz e projeta o futuro. Somos como velas que quanto mais se consomem, tanto mais iluminam. Brilhe vossas boas obras, pediu Jesus.

6- Finados é dia de reflexão, de retiro, de interiorização. A morte nos faz todos iguais. Acabam as classes sociais. A morte faz pensar. Ela é escola de filosofia. Impele a vencer ilusões, enganos porque ajuda a parar, a rezar, a rever a vida. A morte faz parte da vida, é nossa irmã. Ela é parto e porta para a plenitude, a glória, a eterna felicidade. Morte é passagem para outra margem, é ponte que leva ao rumo certo.

7- As coroas sobre os túmulos querem lembrar a coroação da vida, do bem, do amor que os nossos mortos realizaram. No céu seremos coroados pela Santíssima Trindade, tomaremos posse do reino. A vida termina com o coroamento da pessoa humana, chamada a reinar com Cristo. Quem combateu o bom combate, receberá a coroa da glória.

8- A morte é benção porque através dela entramos na vida. Ela é condição para a glorificação dos pecadores perdoados. A face do Senhor é vossa verdadeira pátria. A morte não é inimiga, porque ela ajuda a viver com retidão e a praticar a justiça, o bem, o amor. Pensar na morte não é patologia, é sabedoria. “Pensa na morte e não pecarás”. Diante dos túmulos nós rezamos: “tu foste o que eu sou, eu serei o que tu és”.

9- A pior morte é o pecado, ou seja, a morte espiritual. A boa morte que devemos desejar e pedir, é a morte do egoísmo, do mal, do pecado, portanto a morte mística que nos torna altruístas, servidores, solidários. A morte biológica foi vencida pela ressurreição do Senhor. Jesus matou a morte. Somos seres de esperança.

10- Levaremos o amor com que fizemos todas as coisas. O amor não passa, o bem é eterno, a alma é imortal. Nossas boas obras são passaporte para o céu. Nossa vida não é tirada, mas transformada. A promessa de Jesus a quem se converte é esta: “hoje estarás comigo no paraíso”. Não há reencarnação na fé cristã. O sangue de Jesus é que salva e a fé nos torna justos, puros, santos, agradáveis a Deus. Um gesto de amor vale mais que toda beleza das coisas e a massa do universo. Somos uma cloaca, diz Pascal, que o sangue de Jesus lavou e perfumou. Nossa grandeza está em reconhecer nossa miséria e confiar na misericórdia.

 

A MORTE NA VIDA CRISTÃ

No ano 2006, Bento XVI dirigiu um discurso aos fiéis, começando com estas palavras: “Nestes dias, que se seguem à comemoração dos fiéis defuntos, celebra-se em muitas paróquias o oitavário dos defuntos. Uma ocasião propícia para recordar na oração os nossos familiares e meditar sobre a realidade da morte, que a chamada “civilização do bem-estar” muitas vezes procura remover da consciência do povo, completamente absorvida pelas preocupações da vida quotidiana. Morrer, na realidade, faz parte do viver, e isto não só no fim, mas, considerando bem, em cada momento” (Ângelus, 5-XI-2006). Paradoxalmente a reflexão sobre a morte ajuda a viver em plenitude a vida presente, pois só quem tem clara a meta – o destino eterno – é que sabe para onde está dirigindo os seus passos.

Uma realidade da qual não é possível fugir

Um antigo conto narra que um funcionário real ao abrir a porta de casa deu de cara com a morte. Ele ficou apavorado, mas viu que também a morte parecia surpresa de encontrá-lo. Rapidamente se dirigiu ao seu senhor para expor a situação e pedir o melhor cavalo para fugir bem longe. Foi-lhe concedido o seu desejo e começou uma fuga a toda velocidade. Ao cair da noite o cavalo não conseguia dar mais um passo. Ele próprio estava bem cansado, mas ainda conseguiu caminhar um bom trecho até que esgotado deitou ao pé de uma grande árvore. Pouco depois viu a morte se aproximar dele calmamente, e antes de que pudesse pegá-lo pediu licença para fazer uma pergunta. “Por que hoje ao abrir a porta e ver-me você se surpreendeu?”. E a morte respondeu: “Eu sabia que devia te pegar hoje a noite ao pé desta árvore, mas como estávamos tão longe pensei: Como será que ele vai fazer para chegar até aqui?”. O conto ilustra bem a nossa relação com a morte, e dá para tirar uma primeira conclusão: Já que não é possível fugir dela, é melhor encará-la.

O padre Antônio Vieira escreve num sermão que “três coisas fazem duvidosa, perigosa e terrível a morte. Ser uma, ser certa, e ser momentânea (…) E de todas estas dificuldades e perigos se livra seguramente só: quem? Quem não guarda a morte para a morte, quem acaba a vida antes de morrer, quem se resolve a ser pó antes de ser pó: pulvis es”  (Sermão2 da IV de Cinzas, n II). Vale pois a pena dedicar um tempo da vida a meditar na morte… e treinar para esse momento, não seja que nos pegue de surpresa e não saibamos como fazer quando ela se apresentar.

Uma pintura e uma reflexão (de um santo)

Juan de Valdés Leal (1622-1690) foi um artista famoso pelas pinturas que realizou para o Hospital da Caridade de Sevilha sobre a brevidade da vida e a caducidade dos bens temporais. Uma das mais famosas leva por título Finis gloriae mundi (O fim da glória do mundo). Certamente não é uma pintura alegre… mas ajuda a pensar.

Ao contemplar a imagem é fácil observar os detalhes. No lado esquerdo, há uma coruja e, voando por cima dela, um morcego, símbolos das trevas. No primeiro plano, o caixão aberto de um bispo paramentado (com mitra e báculo) e, junto dele, o cadáver de um cavaleiro com a capa da Ordem de Calatrava, referências diretas à morte.

No centro da composição, aparece uma referência ao juízo particular da alma após o falecimento: a mão chagada de Jesus – envolta por uma luz dourada – segura uma balança de dois pratos. No lado esquerdo, decorado com as palavras “Ni más” (nem mais) aparecem os símbolos dos pecados capitais, caminho da condenação eterna. No direito, que tem a inscrição “Ni menos” (nem menos),  mostram-se símbolos da virtude, da oração e da penitência. Segundo a opinião de Jonathan Brown  “o significado fica totalmente claro por causa das palavras pintadas em cada prato: não é preciso fazer mais (do que está representado) para cair no pecado, nem é preciso fazer menos (das virtudes que se mostram nesse prato) para sair do pecado” (Imágenes e ideas en la pintura española del siglo XVII).

Não apenas os críticos de arte fazem referência a esta obra, também os santos. Um deles escreveu: “Aqueles quadros de Valdez Leal, com tantos “restos” ilustres – bispos, cavaleiros – em viva podridão, parece-me impossível que não te impressionem [“muevan”, lemos no original espanhol]. Mas… e o gemido do duque de Gandia: Não mais servir a senhor que me possa morrer?” (São Josemaria Escrivá, Caminho, n.742). Em verdade o pensamento da morte é sobre o futuro para aprender a viver o presente.

O padre Vieira perguntava-se: “Como se aprende a escrever?”. E respondia: “Escrevendo”. E continuava: “Assim também se há de aprender a morrer não só meditando, mas morrendo”. E concluía: “Se quereis morrer bem (como é certo que quereis) não deixeis o morrer para a morte, morrei em vida; não deixeis o morrer para a enfermidade e para a cama, morrei na saúde e em pé” (Pe. Vieira, Sermão2 da IV de Cinzas, n III). Como só morremos uma vez, vale a pena saber como fazê-lo e, pelo menos, pensar nisso. É triste ficar sabendo de alguns que são expressão viva do que escreveu Blaise Pascal: “Não tendo os homens podido curar a morte, a miséria, a ignorância, acharam de bom aviso, para se tornarem felizes, não pensar nisso” (Pensamentos, art. XXI, XIV)… É a miséria humana!

Para fechar esta primeira parte resta só falar brevemente da personagem que São Josemaria Escrivá citava: O duque de Gandia. Quem ele era?

Com o apelido de “Duque de Gandia” se faz referência a São Francisco de Borja, por ser esse o titulo nobiliárquico que herdou da família. Ao falecer a imperatriz Isabel de Portugal, esposa de Carlos V, Francisco de Borja foi um dos nobres que acompanhou a procissão funerária desde Toledo até Granada. A data escolhida para o sepultamento foi o dia 17 de Maio de 1539. Mas antes disso os nobres que tinham acompanhado a procissão deviam reconhecer o cadáver jurando que era o da imperatriz. Ao chegar a vez de Francisco, perante esse corpo, que já foi belo mas que agora estava se descompondo, ele fez este propósito: “Não mais servir a Senhor que possa morrer”. Foi o primeiro passo de uma mudança de vida. Seria realmente arriscado deixar a reflexão sobre a morte para o último momento da vida!

Uma visão nova

Na verdade o pensamento sobre a morte não é apenas uma consideração sobre a brevidade da vida, ou sobre o sentido passageiro das coisas materiais. Para os cristãos, porém, tem um sentido mais profundo, que nasce da consciência de que Jesus Cristo venceu a morte, morrendo. Ele revolucionou o sentido da morte com o seu ensinamento, mas sobretudo enfrentando-a Ele próprio. “Com um Espírito que não podia morrer Cristo matou a morte que matava o homem” (Melitão de Sardes, Sobre a Páscoa, 66).

“O Filho de Deus quis desta forma (morrendo Ele próprio), partilhar até ao fim a nossa condição humana, para reabri-la à esperança. Em última análise, Ele nasceu para poder morrer, e assim, nos libertar da escravidão da morte. Diz a Carta aos Hebreus: experimentou ‘a morte em favor de todos’ (Hb 2, 9). Desde então, a morte já não é a mesma: foi privada, por assim dizer, do seu veneno” (Bento XVI, Ângelus, 5-XI-2006). A grande novidade é que Cristo, com a sua morte, abriu-nos as portas do céu: Agora, para quem quiser, é possível entrar nele. Que mistério profundo coloca diante de nossos olhos! Que grande mudança na compreensão da morte!

São João afirma que, em Cristo, a vida humana é “passagem deste mundo para o Pai” (Jo 13, 1). Por isso para o cristão a hora da morte é o momento no qual o trânsito para a eternidade realiza-se de maneira concreta e definitiva. O cristianismo deu um sentido novo a morte tão forte que até o local dos sepultamentos mudou de nome: de necrópole (cidade dos mortos) passou para cemitério (lugar para dormir). Em outras palavras, as sepulturas deixaram de ser lugares perenes para virar estações de passagem. Esta é a grande mudança que vale a pena não esquecer nunca: A morte é uma porta para a vida: “A vida é transformada, não tirada” (Prefácio I de Defuntos).

Os cristãos dos primeiros séculos tinham bem presente o sentido da morte como de passagem para uma vida plena. Num epitáfio do século III lê-se: “Uma mulher de vinte e oito anos morreu de parto; seu nome, Aurélia Licinia Flórida. Foi embora deste mundo no nome de Cristo, fiel (=cristã) em Cristo, feliz por isto”. Nela se exprime claramente que migrou deste mundo para o outro (Cf. M.T. Muñoz García de Iturrospe, Una destacada inscripción cristiana en la ‘Casa del Anfiteatro’ de Mérida). Quantos haverá – tal vez que não tenham fé – que morrem de medo ao pensar na morte! E aqui se nos apresenta uma mãe, jovem ainda, e fecunda, que está feliz por encontrar Jesus.

Alguns deixam o mundo angustiados, ou vêem a vida vazia, sem sentido. Bento XVI na sua segunda encíclica fez referência a um epitáfio de uma sepultura dos primeiros séculos. Desta vez corresponde a uma pessoa sem fé. Nela está escrito: “In nihil ab nihilo quam cito recidimus” (No nada, do nada, quão cedo recaímos) (Cf. Spe Salvi, n. 2). É o resumo de uma vida sem sentido. Não será que também há pessoas que dizem acreditar em Deus, mas, na verdade, não deixam espaço para Ele na própria vida? Homens e mulheres que pensam no presente (ficar ricos, ser famosos, cuidar do físico…) mas estão vazios por dentro? Não será que há quem viva no temor por não considerar que Jesus déu um sentido novo à morte… e à vida?

A fé da igreja primitiva, como aliás a de hoje, é a que nos transmite São Paulo. “Irmãos, não queremos que ignoreis coisa alguma a respeito dos mortos, para que não vos entristeçais, como os outros homens que não têm esperança. Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, cremos também que Deus levará com Jesus os que nele morreram” (1 Tes. 4, 13-14).

É bonito ver que esta imagem da existência – e do seu fim – não é apenas coisa do passado. Também hoje há quem, quando surpreendido pela morte, demonstra ter experiência acumulada, e também possuir o sentido cristão da passagem. Seria possível pensar em muitos exemplos. Um deles, bem recente é o de Chiara Badano, uma jovem italiana que faleceu aos 18 anos, vítima de um osteossarcoma. Foi escrito numa sua biografia: “Não teve medo de morrer. Disse à sua mãe: «Não peço mais a Jesus para vir me pegar e me levar para o Paraíso, porque quero ainda lhe oferecer o meu sofrimento, para dividir com ele, ainda por um pouco, a cruz». Um pensamento especial aos jovens: «…Os jovens são o futuro. Eu não posso mais correr. Porém, gostaria de lhes passar a tocha, como nas Olimpíadas. Os jovens têm uma vida só e vale a pena empregá-la bem!»”. Chiara faleceu no amanhecer do dia 7 de outubro de 1990, depois de uma noite muito dolorosa. “As suas últimas palavras foram: «Mãezinha, seja feliz, porque eu o sou. Adeus»” (Biografia do folheto da Celebração Eucarística para a beatificação da serva de Deus Chiara Badano, Roma 25-IX-2010).

Tomara que cada homem pudesse viver com um sentido transcendente da vida; e pedir, com uma oração tradicional da Igreja: “Que eu morra como o glorioso São José, acompanhado por Jesus e Maria, pronunciando estes nomes dulcíssimos, que espero bendizer por toda a eternidade”.

As 4 formas de comungar na Igreja Católica e…

… as 2 Mesas à nossa disposição

Nem todos podem tudo…

Por Mons. Inácio José Schuster

1) COMUNHÃO ESPIRITUAL (desejar)

Α╬Ω A Comunhão espiritual é uma devoção que consiste em unir-se a Jesus presente na Eucaristia recebendo-O não sacramentalmente, mas com um vivo desejo que procede da fé, animada pela caridade. Esta prática é muito louvada e desde o Concílio de Trento a Igreja exorta os fiéis a praticá-la. Os efeitos dessa prática são semelhantes ao da Comunhão Eucarística, menos a sua intensidade, que é menor, enquanto que o modo perfeito de comungar é o de receber o Sacramento. Às vezes, porém, estes efeitos podem ser superiores aos que são produzidos na Comunhão sacramental se as disposições são puríssimas, se bem que na igualdade das disposições, como já tínhamos dito, são evidentemente menos abundantes que na Comunhão Eucarística; de fato eles não se produzem ex opere operato (em virtude da instituição divina), mas só ex opere operantis (em virtude das disposições do indivíduo e são proporcionais a estas). A comunhão espiritual pode ser feita todas as vezes que a alma o desejar. Como prova disto, lembra claramente a Imitação de Cristo (1, IV, c. 10): “Toda pessoa pode, de resto, todos os dias e todas as horas, entregar-se livre e salutarmente às comunhões espirituais”.

Α╬Ω Sem a Comunhão Espiritual não pode existir a Comunhão Eucarística – A Exortação Apostólica do Beato João Paulo II, Familiaris Consortio, explica que existe uma diferença entre a comunhão espiritual e a comunhão eucarística, que afirma que sem a primeira, não pode existir a segunda. A comunhão espiritual é a forma em que a pessoa se une pessoalmente a Cristo no momento da redenção do Santo Sacrifício, para assim, depois, receber a comunhão eucarística. Isto não é uma disciplina inventada pela Igreja e, portanto, no matrimônio, os cônjuges fazem um pacto com Deus, e Deus faz um pacto com eles, que cria um sacramento indissolúvel. Para a comunhão é necessário preparar o coração para receber ao Senhor, e deste modo, quando os divorciados que voltaram a casar deixam de comungar, dão muito mais honra ao Senhor com seu sacrifício e oferecendo-se eles mesmos, através da dor que têm nos seus corações, no sacramento da Eucaristia. Eles sofrem por isso, mas, há mais honra dada pelo corpo de Cristo nesta situação, que quando os batizados vão de maneira superficial e às vezes, de maneira pouco digna, a receber a Comunhão, seja qual seja o estado de suas almas. A respeito, o Beato João Paulo II assinala que “a Igreja deseja que estes casais participem da vida da Igreja até onde lhes seja possível (e esta participação na Missa, adoração Eucarística, devoções e outros serão de grande ajuda espiritual para eles) enquanto trabalham para obter a completa participação sacramental”.

 

2) ADORAÇÃO EUCARÍSTICA (considerar, meditar, contemplar)

Α╬Ω «ADORAÇÃO é reconhecer que Jesus é meu Senhor, que Jesus me mostra o caminho a seguir, me faz entender que só vivo bem se conheço a estrada indicada por Ele, somente se sigo a via que Ele me mostra. Portanto, Adorar é dizer: “Jesus, eu sou Teu e Te sigo na minha vida, nunca gostaria de perder esta amizade, esta comunhão Contigo”. Poderia também dizer que a adoração na sua essência é um abraço com Jesus, no qual eu digo: “Eu sou Teu e Te peço que estejas também Tu sempre comigo”» (Papa emérito Bento XVI). A adoração é o primeiro ato da virtude da religião. Adorar a Deus é reconhecê-lo como Deus, como o Criador e o Salvador, o Senhor e o Mestre de Tudo o que existe, o Amor infinito e misericordioso. “Adorarás o Senhor teu Deus, e só a Ele prestarás culto” (Lc 4, 8), diz Jesus, citando o Deuteronômio (6, 13). “Adorar a Deus é, no respeito e na submissão absoluta, reconhecer o nada da criatura, que não existe a não ser por Deus. Adorar a Deus é, como Maria no Magnificat, louvá-lo, exaltá-lo e humilhar-se a si mesmo, confessando com gratidão que Ele fez grandes coisas e que Seu Nome é Santo. A Adoração do Deus único liberta o homem de se fechar em si mesmo, da escravidão do pecado e da idolatria do mundo” (Catecismo da Igreja Católica n. 2096 e 2097). Toda vez que estivermos perante o Santíssimo, esteja Ele exposto ou no sacrário, devemos nos colocar numa atitude de despojamento e professarmos a fé na Sua presença no pão e no vinho que para nós são Corpo e Sangue de Cristo. E podemos fazê-lo com estas palavras ou de forma espontânea: “Meu Deus! Eu creio, adoro, espero e amo-Vos; peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam”.

Α╬Ω Adorar o Senhor no Santíssimo Sacramento – Em sua Carta Apostólica “Mane Nobiscum Domine”, o Beato Papa João Paulo II nos apresenta o dom da Eucaristia como um grande mistério. Mistério a ser celebrado de maneira digna; que deve ser adorado e contemplado. Queremos assim nos animar mutuamente a estarmos unidos à Santíssima Eucaristia também em seu culto fora da Missa. De um lado, sabemos que antes de tudo a Eucaristia é o sacrifício pascal de Nosso Senhor; que é na Missa onde se atualiza o Mistério da vida, morte e ressurreição de Jesus. Daí a necessidade de celebrarmos com toda dignidade, não somente em decoro, mas em comunhão profunda com o Mistério celebrado e com o corpo comunitário. Participar ativa e conscientemente do inesgotável dom de Cristo. Por outro lado, a Igreja nos anima a estarmos diante do tabernáculo do Senhor ‘perdendo o nosso tempo’: “A presença de Jesus no tabernáculo deve constituir como que um pólo de atração para um número sempre maior” de almas apaixonadas por ele, capazes de ficar longo tempo escutando a voz e quase que sentindo o palpitar do coração” (MND, 18).

 

3) PRÁTICA DAS 14 OBRAS DE MISERICÓRDIA CORPORAIS E ESPIRITUAIS (caridade e justiça, pureza e misericórdia – praticar concretamente no dia a dia)

Α╬Ω Partindo da Palavra de Deus e da Tradição da Igreja (CIC § 2447), podemos falar em 14 obras de misericórdia. Das quais, 7 são obras de misericórdia espirituais e 7 corporais.

OBRAS DE MISERICÓRDIA CORPORAIS:
1ª) Dar de comer a quem tem fome;
2ª) Dar abrigo aos peregrinos;
3ª) Assistir os enfermos;
4ª) Dar de beber ao sedento;
5ª) Vestir os nus;
6ª) Socorrer os prisioneiros;
7ª) Enterrar os mortos.

OBRAS DE MISERICÓRDIA ESPIRITUAIS:
1ª) Instruir (ensinar os que não sabem);
2ª) Aconselhar (dar bons conselhos aos que necessitam);
3ª) Consolar (Aliviar o sofrimento dos aflitos);
4ª) Confortar (Fortalecer os angustiados e abatidos);
5ª) Perdoar (as injustiças de boa vontade);
6ª) Suportar com paciência (as adversidades e fraquezas do próximo);
7ª) Rogar a Deus pelos vivos e pelos mortos.

Α╬Ω 3.1. Envolvimento com as pastorais sociais da Igreja (comungar na vida dos irmãos)

╬Caritas Brasileira (atua tanto em calamidades, como através de programas no serviço especialmente dos mais pobres, no sentido de sua organização e busca de autonomia); ╬Pastoral da Criança (atende mães gestantes e crianças até 6 anos de idade, cuja atuação reduziu significativamente a mortalidade infantil no Brasil); ╬Pastoral da Saúde (junto aos que se dedicam a servir os doentes, na medicina preventiva e popular).
╬Pastorais por setores sociais: a Pastoral da Terra (mediando em conflitos pela terra e na promoção da Reforma Agrária), a Pastoral dos Pescadores, a Pastoral Operária.
╬Pastoral de pessoas em situação de especial vulnerabilidade: a Pastoral do Menor (menores infratores), da Mulher Marginalizada, dos Nômades, Carcerária, Migrantes, da Sobriedade, da Pessoa Idosa.
╬Pastoral de minorias étnicas: a Pastoral afro-brasileira, e com Indígenas (CIMI-Conselho Indigenista Missionário).
A CARIDADE “apaga uma multidão de pecados” (cf. 1Pd 4, 8); ela é sinal da autenticidade da nossa fé em Deus e a expressão mais coerente do seguimento de Jesus.

 

4) COMUNHÃO EUCARÍSTICA – CORPO E SANGUE DE CRISTO

Α╬Ω São Paulo já constatava entre os primeiros cristãos de Corinto: “O que fazeis não é comer a ceia do Senhor” (1Cor 11, 20) e advertia: Essa vossa maneira de agir “longe de vos levar ao melhor, vos prejudica” (11, 17). E finalmente, ele clama: “Que cada um examine a si mesmo, antes de comer deste pão e beber deste cálice, pois aquele que come sem discernir o Corpo do Senhor, come e bebe a própria condenação” (11, 28ss). Esse é o ensinamento da Igreja. Quem comunga em pecado grave “come e bebe a própria condenação” e quem vive numa união “de fato”, sem o Sacramento do Matrimônio, mesmo impossibilitado de regularizá-lo, deve praticar sua Fé, mas somente no que não implique o prévio estado de graça. Não tem valor à apreciação subjetiva ou autorização indébita de algum eclesiástico que ensine à margem da doutrina da Igreja. A consciência é farol seguro, quando formada objetivamente, segundo as orientações emanadas do Magistério legítimo. Faz-se necessário estar em condições exigidas, para que produza vida e não morte. O homem é condicionado ou, pelo menos, influenciado em seus comportamentos por costumes, imposição da opinião pública, controle social. Na atualidade, também em nome do subjetivismo e individualismo exacerbados. Segue um modo de pensar pessoal, impelido por seus interesses e conveniências e não pelos princípios que se radicam em Deus. Vivendo em desordem ética e moral, o homem tende a tornar-se norma de seus atos. E assim não só se expõe ao erro, mas se degrada em seu íntimo, pois, como ensina o Concílio Vaticano II, “no fundo da própria consciência o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo”. Ela lhe é dada como dom e expressão de ser imagem de Deus. Duas conclusões imediatas são claras: a) nenhuma maioria de votos, nem o volume dos aplausos da opinião pública podem ser última instância moral; b) em quem não cultiva sua consciência, reorientando-a sempre de novo para a verdade, “a consciência vai-se progressivamente cegando com o hábito do pecado” (Gaudium et Spes, 16). Em se tratando dos males decorrentes de uma consciência mal formada, tornam-se mais graves quando atingem os valores sagrados. Esse desvio pode ser motivado por ignorância culposa da Lei do Senhor ou por influência de um subjetivismo prepotente. O mesmo se pode dizer quando essa consciência se relaciona com a dignidade de outrem, como na amizade, no matrimônio ou ainda na educação dos filhos, pois isso leva a prejuízos que já não são de nosso alcance sanar.

Α╬Ω Da Comunhão Eucarística, quem pode participar e em que condições?
Qualquer tomada de posição subjetiva e individualista – “eu sou cristão adulto”, ou “eu mesmo sei decidir” – torna-se não só uma irreverência leve, mas algo grave diante da verdade intrínseca desse Sacramento. Não é um exercício qualquer de piedade. O Concílio Vaticano II chama-o de “fonte e ápice de toda a vida cristã” (Lumen Gentium, 11). Nele, Deus se entrega a nós e o faz sob o signo da kénosis, isto é, do total aniquilamento do seu Filho amado. Ele se entrega, na hora da morte, às mãos do Pai para nos arrancar do pecado, do ódio, de toda perdição e poder do inferno. A Santa Comunhão supõe sempre esse profundo ato de Fé, esse desejo de se assemelhar a Jesus em seu abandono confiante ao Pai, em sua vitória sobre o pecado. Praticamente, isso significa converter-se, aceitar a verdade proposta pelo Magistério eclesiástico, os mandamentos e, com o radicalismo da entrega de Jesus, procurar viver a vontade de Deus. E ainda dar sua vida para edificar a Igreja como comunidade santa, em um mundo marcado pela desobediência a Deus. Contra todas as tentações, Jesus implora o derradeiro dom: “Eles não são do mundo, como eu não sou do mundo. Santifica-os na verdade. A tua palavra é a verdade” (cf. Jo 17, 16s). Não são critérios subjetivos que permitem a participação em tão santa Ceia, mas a obediência com amor a este Deus que se nos revela sob os sinais da morte redentora, neste Sacramento. Em nossos dias, faz-se necessário bradar fortemente para evitar o sacrilégio. Isto ocorre em particular nas celebrações matrimoniais, exéquias, em reuniões, quando se celebra o Santo Sacrifício da Missa. Nesta oportunidade e em outras, não é raro pessoas sem as condições requeridas se aproximarem do altar para comungar: “A Comunhão eucarística está desvirtuada do seu significado: Assiste-se a um fenômeno de ”dinâmica de grupo“ (todos participam nela), separada do discernimento do Corpo de Deus, de que São Paulo fala”.

Tomar e comer, conforme o pedido de Jesus na Última Ceia, e em cada Santa Missa, significa também considerar, significa meditar, significa contemplar. Toma e come, toma e bebe todo aquele e aquela que se põe diante do Santíssimo Sacramento do altar, contemplando a realidade de Jesus Cristo que, a todos, entrega-Se nestes sinais. Come e bebe aquele que adora o Santíssimo Sacramento no altar. E como são bonitas nossas igrejas quando, dentro delas, existe um tabernáculo; quando dentro delas existe uma lampadazinha vermelha convidando-nos à adoração e à contemplação. As nossas igrejas não são salões vazios, não são salões sem nenhuma festa e certamente não são salões despidos. Como existia em Israel a Arca da Aliança, existe aqui o tabernáculo onde Jesus é Emanuel, isto é, Deus conosco. Quando estamos ali em silêncio, estamos também, segundo Sua vontade, comendo e bebendo.

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