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São José de Anchieta – Apóstolo do Brasil – 09 de Junho

José de Anchieta é o terceiro Santo do Brasil

“Anchieta é considerado um ícone da evangelização. Canonizar Anchieta significa declarar que a ação dos primeiros missionários estava correta, mesmo com alguns enganos”, afirma o padre jesuíta Cesar Augusto dos Santos, vice-postulador (espécie de advogado da causa) da canonização de José de Anchieta e responsável pelo Programa Brasileiro na Rádio Vaticano, emissora radiofônica da Santa Sé, na Cidade do Vaticano. O padre José de Anchieta (1534/1597), um dos fundadores da cidade de São Paulo e conhecido como “apóstolo do Brasil”, será canonizado em Roma, conforme anunciado por alguns setores da Igreja no Brasil, após pedido da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB. O papa Francisco dispensou a comprovação de um milagre para a canonização do padre Anchieta. “Na história da Igreja, houve muitos casos semelhantes. Mesmo porque a exigência de comprovação de milagres é relativamente recente”, explica o padre Cesar Augusto. Segundo ele, “a questão é provar os milagres por causa da falta de documentação. No caso de Anchieta, as principais dificuldades para conhecer a fundo sua vida e distinguir fatos reais de fantasiosos, foram a perda de documentação e o contato pessoal com os grandes conhecedores, pois já haviam morrido. Para levantar informações que comprovassem a santidade de Anchieta, o vice-postulador Cesar Augusto foi buscar apoio científico fazendo mestrado em História do Brasil Colonial, além de viajar algumas vezes às Ilhas Canárias, Coimbra, Roma e cidade de Anchieta (ES), além de uma série de visitas à biblioteca do Pateo do Collegio (centro de SP). “Pesquisei em muitos livros e até músicas ajudaram, como ‘Sinfonia 10 – Ameríndia, de Villa Lobos.” O resultado desse trabalho de padre Cesar Augusto e demais postuladores jesuítas, entregue ao Vaticano, é uma ampla documentação sobre a vida de Anchieta, com 488 páginas, onde há o registro de 5350 pessoas que alcançaram graças rezando ao beato. “Podemos assegurar, com nomes e endereços, que Anchieta tem mais de 50 devotos e multiplicadores de sua causa em cada Estado”, diz o padre. Segundo Cesar Augusto, há registros de 35 paróquias dedicadas à Anchieta, e 1154 divulgadores (que rezam e propagam a sua fé em Anchieta, por meio de grupos de oração). No entanto, conforme explica o vice-postulador, milagres atribuídos a Anchieta são muitos: “Temos as curas de doenças e as ações sobre a natureza”. À Anchieta também foram atribuídos os poderes de levitação, a bilocação (estar em dois lugares ao mesmo tempo) e de falar com animais. “Um dos mais sensacionais relatos do poder sobrenatural do padre é o ocorrido em uma de suas viagens de catequese (1575). Para proteger seus irmãos do sol, o jesuíta teria pedido ajuda aos pássaros guarás-vermelho, que se juntaram em uma nuvem sobre a canoa dos missionários”. Para o vice-postulador da Causa, o que fez José de Anchieta ser merecedor da canonização foi a sua humildade, seu testemunho de fé inabalável em Deus, a esperança e a caridade. “Para a Companhia de Jesus, tornar Anchieta santo significa que os primeiros passos da Ordem Religiosa foram acertados e produziram testemunhas fortíssimas do amor de Deus, conforme queria Inácio de Loyola, fundador da Ordem”. Ao longo da história da Igreja Católica, 150 jesuítas já foram beatificados e cerca de 50 canonizados. Anchieta é o terceiro santo considerado brasileiro, depois de Madre Paulina (em 2002) e Frei Galvão (em 2007). “Na verdade, ele é reconhecido como o santo de três pátrias, Espanha, onde nasceu; Portugal, onde viveu e entrou para a Companhia de Jesus, e Brasil, onde viveu, evangelizou e fez o seu apostolado”, afirma Cesar Augusto. Anchieta é ainda o primeiro a ser canonizado em 2014 e o segundo jesuíta a ser canonizado pelo Papa Francisco (antes dele, foi o francês Pedro Fabro). O Papa Francisco assinou o decreto de canonização de Anchieta em seu escritório no Palácio Apostólico e no dia 24 de Abril celebrará missa em ação de graças na Igreja de Santo Inácio, em Roma. Na mesma data, o papa também declarou santos dois missionários franceses que viveram no Canadá, o bispo François Monseigneur de Laval (1623-1708) e a freira Marie de L’Incarnation (1599-1672). “O papa canonizou, em uma só ação, os evangelizadores da América. Laval e L’Incarnation são os da América do Norte e Anchieta, da América do Sul”, explica o padre Cesar Augusto. Após a celebração em Roma, houve comemorações na Espanha, Portugal e no Brasil, nas cidades de Vitória/ES (onde Anchieta foi sepultado) e Anchieta/ES (Reritiba, nome na época, onde faleceu), Aparecida/SP, Rio de Janeiro/RJ, Salvador/BA e outras cidades. Em São Paulo, capital, badalaram os sinos das 300 igrejas da arquidiocese, no momento de sua canonização em Roma. Os templos que levam o nome de Anchieta, como Igreja José de Anchieta (SP/SP) e o Santuário de José de Anchieta (Anchieta/ES), deverão mudaram para São José de Anchieta ou Santo Anchieta.

Vida e obra de Anchieta

Apesar de ter nascido na Ilha de Tenerife, no arquipélago das Canárias, na Espanha, padre José de Anchieta ficou conhecido como o “apóstolo do Brasil” por sua atuação no País. Chegou ao Brasil em julho de 1553, com outros seis jesuítas e, em menos de um ano, dominava o tupi com perfeição. Ao longo dos 43 anos em que viveu no Brasil, participou da fundação de escolas, cidades e igrejas. Foi um dos fundadores do Colégio de São Paulo de Piratininga (hoje Pateo do Collegio), que deu origem à cidade de São Paulo. Historiador, gramático, poeta e teatrólogo, redigia seus textos, tanto em prosa quanto em verso, em quatro línguas, português, castelhano, latim e tupi. Foi autor da primeira gramática brasileira, “A Arte da Gramática da Lingua Mais Usada na Costa do Brasil”, que sistematizou a língua tupi. O movimento de catequese influenciou seu teatro e sua poesia, deixando contribuições em poesias em verso alexandrino, como “Poema à Virgem” (com 4172 versos) e em outras obras   Sua vasta obra foi integralmente publicada no Brasil na segunda metade do século XX. A pé ou de barco, Anchieta viajou pelo País inaugurando missões, com aulas de catequese, gramática e conhecimentos gerais. Os alunos eram os índios, os colonos e, por vezes, até os padres. Essas viagens foram essenciais para a consolidação do cristianismo e do sistema do ensino no País. Além de São Paulo, o padre também esteve no Rio de Janeiro, Espirito Santo e em cidades do Nordeste. Ensinar preceitos cristãos utilizando características locais, como celebrações musicadas ao ritmo de tambores, em aulas ao ar livre, era uma das peculariedades de Anchieta. Outra dádiva de sua personalidade: além de educar e catequizar, o jesuíta também defendia os indígenas dos abusos dos colonizadores portugueses, que queriam escravizá-los e tomar suas mulheres e filhos. Mais tarde, com a chegada dos chamados negros da Guiné, Anchieta também tomou sobre si o cuidado deles se preocupando com o modo deles viverem e com sua cura pastoral. Os inacianos, a começar pelo padre Manuel da Nobrega, chefe da primeira missão jesuíta no Brasil (fundada em março de 1549), se opunham ferrenhamente à escravização dos índios pelos portugueses. Em maio de 1563, com o apoio dos franceses, a tribo dos Tamoios se rebelou contra a colonização portuguesa. Anchieta se ofereceu como refém na aldeia de Iperoig (onde moravam os chefes da aldeia dos índios Tamoios), enquanto Nobrega partiu para São Vicente, negociar a paz. Durante o cativeiro na praia, Anchieta sofreu a tentação da quebra da castidade. Era comum aos índios oferecerem mulheres aos prisioneiros, antes de sua morte. Nesse momento, o jesuíta fez uma promessa a Nossa Senhora: escreveria o mais belo poema já feito em sua homenagem, se conseguisse sair casto do cativeiro. Como prova da fé, começou a escrever os versos na areia da praia e assim surgiu o “Poema à Virgem”. Após cinco meses de confinamento, Anchieta foi libertado. Sem ter cedido à tentação. Anchieta nasceu em 19 de março de 1534. Era parente de Santo Inácio de Loyola (fundador da Companhia de Jesus). Ingressou para a Companhia em 1551. Sua vida agitada e a entrega total aos compromissos religiosos comprometeram a sua saúde. Reclamava constantemente de dores na coluna e nas articulações. Padre Anchieta veio ao Brasil, obedecendo ao conselho dos médicos da época. Em 1566, aos 32 anos de idade, foi ordenado sacerdote. Em 1569, fundou a povoação de Reritiba (atual Anchieta), no Espirito Santo. De 1570 a 1573, dirigiu o Colégio dos Jesuítas do Rio de Janeiro. Em 1577, foi nomeado Provincial da Companhia de Jesus no Brasil, função que exerceu por dez anos, sendo substituído em 1587, a seu pedido. Antes, porém, teve de dirigir o Colégio dos Jesuítas em Vitória, no Espírito Santo. Em 1595, obteve dispensa dessa função e retirou-se para Reritiba, onde faleceu em 9 de junho 1597. Logo depois de sua morte, foi cercado por uma multidão de índios, que levou o corpo em procissão silenciosa até a cidade de Vitoria, onde foi sepultado. Entre as imagens existentes de Anchieta, está uma imponente estátua de bronze, que retrata o padre caminhando para Portugal, do artista brasileiro Bruno Giorgi, na cidade de San Cristóbal de Laguna (Espanha) ─ um presente do Governo do Brasil para a cidade natal do Santo. Há ainda uma pintura de Anchieta fundando a cidade de São Paulo, na Basílica de Nossa Senhora da Candelária, santuário da padroeira das Ilhas Canárias, na Espanha.

Processo de canonização de padre Anchieta

1597 – José de Anchieta morre, aos 63 anos, em Reritiba, Espírito Santo.
1617 – Os jesuítas brasileiros oficializam junto à Companhia de Jesus, em Roma, o pedido de canonização do padre.
1634 – As regras de canonização são mudadas pelo papa Urbano VIII (1623-1644). Passa a ser necessário esperar 50 anos da morte do candidato a santo para o Vaticano começar a examinar os processos.
1649 – O episcopado brasileiro retoma os pedidos de canonização – 52 anos após a morte de Anchieta.
1652 – Anchieta é declarado servo de Deus pelo papa Inocêncio X (1644-1655).
1668 – A causa é interrompida pela Companhia de Jesus, por falta de recursos.
1736 – Anchieta teve declaradas as Virtudes Heroicas pelo papa Clemente XII (1730-1740).
1773 – Processo de canonização é interrompido, após o papa Clemente XIV (1769-1774) decretar a supressão da Companhia de Jesus. 1980 – Anchieta é beatificado pelo papa João Paulo II (1978-2005) – a última etapa que antecede a canonização.
2013 – A CNBB pede ao papa Francisco a canonização de Anchieta.
2014 – O Vaticano confirma que Anchieta será declarado santo, mesmo sem a comprovação de um milagre.

Fonte: Assessoria de Imprensa/Companhia de Jesus

 

COMPAIXÃO E PRANTO DA VIRGEM NA MORTE DO FILHO
Poema a Virgem – Padre José de Anchieta  
Escrito pelo Padre nas areias da Praia de Iperoig em Ubatuba

Minha alma, por que tu te abandonas ao profundo sono?  Por que no pesado sono, tão fundo ressonas?  Não te move à aflição dessa Mãe toda em pranto,  Que a morte tão cruel do FILHO chora tanto?

E cujas entranhas sofre e se consome de dor,  Ao ver, ali presente, as chagas que ELE padece?  Em qualquer parte que olha, vê JESUS,  Apresentando aos teus olhos cheios de sangue.

Olha como está prostrado diante da Face do PAI,  Todo o suor de sangue do seu corpo se esvai.  Olha a multidão se comporta como ELE se ladrão fosse,  Pisam-NO e amarram as mãos presas ao pescoço.

Olha, diante de Anás, como um cruel soldado  O esbofeteia forte, com punho bem cerrado.  Vê como diante Caifás, em humildes meneios,  Aguenta mil opróbrios, socos e escarros feios.

Não afasta o rosto ao que bate, e do perverso  Que arranca Tua barba com golpes violento.  Olha com que chicote o carrasco sombrio  Dilacera do SENHOR a meiga carne a frio.

Olha como lhe rasgou a sagrada cabeça os espinhos,  E o sangue corre pela Face pura e bela.  Pois não vês que seu corpo, grosseiramente ferido  Mal susterá ao ombro o desumano peso?

Vê como os carrascos pregaram no lenho  As inocentes mãos atravessadas por cravos.  Olha como na Cruz o algoz cruel prega  Os inocentes pés o cravo atravessa.

Eis o SENHOR, grosseiramente dilacerado pendurado no tronco,  Pagando com Teu Divino Sangue o antigo crime! (Pecado Original cometido pelos primeiros pais)  Vê: quão grande e funesta ferida transpassa o peito, aberto  Donde corre mistura de sangue e água.

Se o não sabes, a Mãe dolorosa reclama  Para si, as chagas que vê suportar o FILHO que ama.  Pois quanto sofreu aquele corpo inocente em reparação,  Tanto suporta o Coração compassivo da Mãe, em expiação.

Ergue-te, pois e, embora irritado com os injustos judeus  Procura o Coração da MÃE DE DEUS.  Um e outro deixaram sinais bem marcados  Do caminho claro e certo feito para todos nós.

ELE aos rastros tingiu com seu sangue tais sendas,  Ela o solo regou com lágrimas tremendas.  A boa Mãe procura, talvez chorando se consolar,  Se as vezes triste e piedosa as lágrimas se entregar.

Mas se tanta dor não admite consolação  É porque a cruel morte levou a vida de sua vida,  Ao menos chorarás lastimando a injúria,  Injúria, que causou a morte violenta.

Mas onde te levou Mãe, o tormento dessa dor?  Que região te guardou a prantear tal morte?  Acaso as montanhas ouvirão Teus lamentos?  Onde está a terra podre dos ossos humanos?

Acaso está nas trevas a árvore da Cruz,  Onde o Teu JESUS foi pregado por Amor?

Esta tristeza é a primeira punição da Mãe,  No lugar da alegria, segura uma dor cruel,  Enquanto a turba gozava de insensata ousadia,  Impedindo Aquele que foi destruído na Cruz.

Mãe, mas este precioso fruto de Teu ventre  Deu vida eterna a todos os fieis que O amam,  E prefere a magia do nascer à força da morte,  Ressurgindo, deixou a ti como penhor e herança.

Mas finda Tua vida, Teu Coração perseverou no amor,  Foi para o Teu repouso com um amor muito forte!  O inimigo Te arrastou a esta cruz amarga,  Que pesou incomodo em Teu doce seio.

Morreu JESUS traspassado com terríveis chagas  ELE, formoso espírito, glória e luz do mundo;  Quanta chaga sofreu e tantas LHE causaram dores;  Efetivamente, uma vida em vós era duas!  (Natureza Humana e Divina do SENHOR)

Todavia conserva o Amor em Teu Coração, e jamais  Evidentemente deixou de o hospedar no Coração,  Feito em pedaços pela morte cruel que suportou  Pois à lança rasgou o Teu Coração enrijecido.

O Teu Espírito piedoso e comovido quebrou na flagelação,  A coroa de espinhos ensanguentou o Teu Coração fiel.  Contra Ti conspirou os terríveis cravos sangrentos,  Tudo que é amargo e cruel o Teu FILHO suportou na Cruz.

Morto DEUS, então porque vives Tu a Tua vida?  Porque não foste arrastada em morte parecida?  E como é que, ao morrer, não levou o Teu espírito,  Se o Teu Coração sempre uniu os dois espíritos?

Admito, não pode tantas dores em Tua vida  Suportar, aguentando se não com um amor imenso;  Se não Te alentar a força do nascimento Divino  Deixará o Teu Coração sofrendo muito mais.

Vives ainda, Mãe, sofrendo muitos trabalhos,  Já te assalta no mar onda maior e cruel.  Mas cobre Tua Face Mãe, ocultando o piedoso olhar:  Eis que a lança em fúria ataca pelo espaço leve,  Rasga o sagrado peito ao teu FILHO já morto,  Tremendo a lança indiferente no Teu Coração.

Sem dúvida tão grande sofrimento foi à síntese,  Faltava acrescentá-lo a Tuas chagas!  Esta ferida cruel permaneceu com o suplício!  Tão penoso sofrimento este castigo guardava!

Com O querido FILHO pregado a Cruz Tu querias  Que também pregassem Teus pés e mãos virginais.  ELE tomou para SI a dura Cruz e os cravos,  E deu-Te a lança para guardar no Coração.

Agora podes, ó Mãe, descansar, que possui o desejado,  A dor mudou para o fundo do Teu Coração.  Este golpe deixou o Teu corpo frio e desligado,  Só Tu compassiva guarda a cruel chaga no peito.

Ó chaga sagrada feita pelo ferro da lança,  Que imensamente nos faz amar o Amor!  Ó rio, fonte que transborda do Paraíso,  Que intumesce com água fartamente a terra!

Ó caminho real com pedras preciosas, porta do Céu,  Torre de abrigo, lugar de refúgio da alma pura!  Ó rosa que exala o perfume da virtude Divina!  Jóia lapidada que no Céu o pobre um trono tem!

Doce ninho onde as puras pombas põem ovinhos,  E as castas rolas têm garantia de suster os filhotinhos!  Ó chaga, que és um adorno vermelho e esplendor,  Feres os piedosos peitos com divinal amor!

Ó doce chaga, que repara os corações feridos,  Abrindo larga estrada para o Coração de CRISTO.  Prova do novo amor que nos conduz a união!  (Amai uns aos outros como EU vos amo) Porto do mar que protege o barco de afundar!

Em TI todos se refugiam dos inimigos que ameaçam:  TU, SENHOR, és medicina presente a todo mal!  Quem se acabrunha em tristeza, em consolo se alegra:  A dor da tristeza coloca um fardo no coração!

Por Ti Mãe, o pecador está firme na esperança,  Caminhar para o Céu, lar da bem-aventurança!  Ó Morada de Paz! Canal de água sempre vivo,  Jorrando água para a vida eterna!

Esta ferida do peito, ó Mãe, é só Tua,  Somente Tu sofres com ela, só Tu a podes dar.  Dá-me acalentar neste peito aberto pela lança,  Para que possa viver no Coração do meu SENHOR!

Entrando no âmago amoroso da piedade Divina,  Este será meu repouso, a minha casa preferida.  No sangue jorrado redimi meus delitos,  E purifiquei com água a sujeira espiritual!

Embaixo deste teto  (Céu)  que é morada de todos,  Viver e morrer com prazer, este é o meu grande desejo.

 

Anchieta e Nossa Senhora

O Pe. José de Anchieta grande devoto da Virgem Maria escreveu várias poesias sobre a Mãe de Deus e nossa. Além do famoso Poema da Virgem Maria Mãe de Deus, uma infinidade de versos saíram de seu coração e de sua pena em louvor à Nossa Senhora. Pe. Anchieta escreveu em várias línguas: tupi, português, espanhol e latim. Hoje, nesta festa de Nossa Senhora, vamos recordar a poesia “EVA JANDÉ SY YPÝ” que como perceberam foi escrita na língua Tupi e em português recebeu o título: “DA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA”.

No “Auto de Guaraparim”, escrito em 1564 para a inauguração da Aldeia de Guaraparim, o mais expressivo auto escrito em tupi, o Beato Anchieta, no 4º Ato, ou seja, na despedida, faz comparação entre Eva, a mulher que iniciou o pecado no mundo com sua desobediência e Maria que foi isenta dele pelos méritos de seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, o nosso Salvador.

Eva, nossa mãe primeira, apaixonou-se, sem conto, por essa fruta fagueira, à voz da cobra matreira, colhendo, comendo, e pronto! Ao marido ela em seguida a fruta induz a engolir. Por sua esposa querida, ele em comer não duvida, antes de a morte nos vir. A todos, quais suas preias, nos apanhou o diabo. Com suas ações alheias, de toda a gente deu cabo, sempre, em folganças feias. Não chega a Santa Maria o pecado original. Em sua virtuosa via, calcando o demo, fazia desaparecer o mal. Do mau a fronte ela pisa, muito sem força o deixando. Nossa alma assim se harmoniza, e a lei de Deus autoriza, o amor de demo afastando. Pois fez bem Nosso Senhor em guardar Santa Maria, para ao demo medo impor. À mãe de Deus nosso amor, por ela nossa folia! Corretos hábitos tendo, nossa alma se alegrará. Porque sem brigas vivendo, Jesus nos visitará, nos vendo e sempre revendo. Tendo seu filho consigo, Tupansy, Santa Maria, assusta nosso inimigo, sempre nos traz seu abrigo, e do demo nos desvia. Atenção! se em nosso peito Santa Maria levamos, na ânsia do viver perfeito, amando-a em fundo respeito, ao gozo de Deus nós vamos.

Fonte: Rádio Vaticano, 09/12/2010

Por que Jesus se “esconde” na Eucaristia?

O Sacrário é a nossa escola

Muitos ficam angustiados, porque Jesus esconde a Sua glória na Eucaristia, mas Ele precisa fazer isso para que o brilho de Sua majestade, como o rosto brilhante de Moisés, não ofusque a nossa vista, impedindo-nos de chegar a Ele.

Ele esconde também as Suas virtudes, porque, se a víssemos, ficaríamos humilhados e, quem sabe, desesperados por jamais poder atingir tal perfeição. Tudo para podermos nos achegar a Ele sem medo.

Jesus desce até o nada, na hóstia consagrada, para que desçamos com Ele e sintamos profundamente o que Ele disse: “Vinde a mim. Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração”.

Por isso, podemos chegar a Jesus com toda confiança, porque Ele já retirou todos os obstáculos para chegarmos a Ele; e espera que não sejamos nós a colocar esses empecilhos com os nossos medos e escrúpulos.

Jesus nos ama tão radicalmente, na Eucaristia, que se submete a nós em tudo. Ele desce do Céu tão logo o sacerdote pronuncia as palavras da consagração. Ele obedeceu silencioso aos Seus carrascos e está pronto novamente para receber o beijo dos novos Judas por amor a nós.

Na Eucaristia, perpetua-se a Paixão do Senhor. Ali, Ele a vê renovada diariamente. Muitas vezes, Ele é traído pela apostasia, crucificado pelo vício, flagelado pelas ingratidões e pecados; e, muitas vezes, Jesus renova o Seu Calvário nos corações que O recebem em pecado mortal ou com indiferença.

Escondido no sacrário, Ele continua a dar combate ao velho orgulho com as armas da humildade. O sacrário é a nossa escola. Dali, Jesus nos diz: “Aprendei a esconder as suas boas obras, as suas virtudes e sofrimentos como eu”. O Rei da Glória se rebaixa ao mais baixo grau da humildade para deixar-nos o Seu exemplo.

Este estado humilde e escondido de Jesus anima a nossa fraqueza, dá-nos coragem de falar-Lhe sem receio e contemplá-Lo. Se nem mesmo conseguimos olhar para o sol do meio-dia, quanto mais poderíamos contemplar a Glória do Rei do Universo! “Deus é um fogo consumidor”, disse Moisés. Não é possível contemplar Sua glória e continuar vivo. A nossa natureza humana não está preparada para vê-la. Os apóstolos não puderam suportar o brilho de apenas um raio de Sua glória na transfiguração do Monte Tabor. E tem mais, não foi o Tabor que converteu o mundo, foi o Calvário. O amor se manifesta e opera não pela glória, mas na bondade e humildade.

O véu eucarístico foi colocado também para fortalecer a nossa fé. Crer no Senhor, ali presente, é um ato do espírito desprendido dos sentidos.

O escondimento de Jesus sob o véu eucarístico é um bom incentivo para penetrarmos na Verdade escondida e descobrir os tesouros ali escondidos. Assim, neste exercício espiritual, dilatam-se os desejos de nossa alma, os quais vão descobrindo, sem se cansar, uma beleza sempre antiga e sempre nova. E Jesus vai se manifestando gradualmente à nossa alma, na medida da nossa fé e do amor para com Ele.

A Eucaristia é um verdadeiro Céu escondido, um Céu Eucarístico.

Ao subir ao Céu na Ascensão, Jesus tomou posse de Sua glória e foi preparar-nos um lugar. Mas para nos ajudar a esperar com paciência e perseverança o Céu da glória, Ele deixou entre nós esse Céu antecipado. Ora, o Céu é onde está Deus, e Ele está na Eucaristia; com Ele todos os anjos e santos. Assim, Ele baixou o Céu à Terra. Ao comungar, recebemos não só Jesus na alma, mas também o Reino de Deus. Somos os súditos que têm a honra de hospedar Sua Majestade e toda a Sua corte.

O amor se manifesta em bondade e humilhação, escondendo-se, aniquilando-se; rejeita a glória e os aplausos, oculta-se e desce. Assim fez Jesus ao encarnar-se; assim Ele fez na gruta de Belém, no silêncio de Nazaré, na tentação do deserto, no Calvário; e, por fim, na Eucaristia.

Na verdade, o Sacrário é um novo Tabor, no qual Jesus se transfigura, não diante dos olhos do corpo, mas aos olhos da fé. Nesta montanha, não devemos procurar a felicidade sensível, mas as lições de santidade que Ele nos dá pelo seu aniquilamento.

(Extraído do livro “O segredo da Sagrada Eucaristia”)
Prof. Felipe Aquino
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A Comunhão Espiritual

Prof. Felipe Aquino

As pessoas que não podem Comungar sacramentalmente o Corpo de Cristo, seja por qual motivo for, podem, no entanto recebê-Lo na alma, espiritualmente, basta ter esse desejo. Os santos comungavam espiritualmente muitas vezes durante o dia. Para isso basta parar um instante, e desejar profundamente receber Jesus em sua alma; e ali ficar conversando com Ele um instante. Assim, se aprende a cultivar Jesus na alma. Podemos também nos encontrar com Nosso Senhor fazendo uma comunhão espiritual, que poderá ter tanto ou até maior fruto que a mesma comunhão eucarística, dependendo do fervor com que a pessoa se empenhe nesse encontro com Jesus. Visitar ao Santíssimo no Sacrário, ou participar de uma adoração ao Santíssimo no Ostensório, são ótimas oportunidades para se Comungar espiritualmente. Podemos receber a comunhão sacramental mais de uma vez ao dia, se a segunda vez a pessoa participa novamente da Missa como determina o Código de Direito Canônico (cânon 917). A comunhão espiritual, entretanto, pode ser feita em qualquer momento, em qualquer lugar, quantas vezes a pessoa desejar. É algo que poucos católicos sabem e fazem. Santo Afonso Maria de Ligório, o bispo e doutor da Igreja que fundou a Congregação dos Padres Redentoristas, explica bem o que é a comunhão espiritual: “Consiste no desejo de receber a Jesus Sacramentado e em dar-lhe um amoroso abraço, como se já o tivéssemos recebido”. Esta devoção é muito mais proveitosa do que se pensa e muito fácil de realizar. Há orações que nos ajudam a fazê-la como, por exemplo, esta de Santo Afonso: “Oh Jesus meu, creio que estais presente no Santíssimo Sacramento, Te amo sobre todas as coisas e desejo receber-Te em minha alma. Já que agora não posso fazê-lo sacramentalmente, venha ao menos espiritualmente a meu coração. Como se já tivesse recebido, Te abraço e me uno todo a Ti, não permitais, Senhor, que volte jamais a abandonar-Te. Amém”. Cada um pode meditar e realizar a comunhão espiritual do seu jeito, com suas próprias orações e necessidades, sem se limitar a uma oração específica. Para que seja bem feita, recomenda-se que se faça um ato de Fé na Eucaristia (Creio Jesus, que estais presente na Eucaristia); um ato de amor (Te amo sobre todas as coisas); um ato de desejo (desejo receber-Te em minha alma); e o pedido de que Jesus venha espiritualmente a seu coração, permanece em ti e faça que nunca te abandone. Durante o dia muitas vezes temos desejo de muitas coisas que queremos ou que gostamos. Da mesma forma vamos ter o desejo de Jesus em nossa alma durante o dia. Sem dúvida que não há melhor companhia a nos proteger, guiar e iluminar a nossa caminhada a cada instante. Na verdade, a comunhão espiritual é uma medida de nossa fé e de nosso amor a Eucaristia. Disse Jesus no Evangelho que é preciso “orar em todo tempo e não desfalecer” (Lc 18, 1). A comunhão espiritual é uma forma excelente de oração que está sempre ao nosso alcance. Um pagão como o centurião romano (Mt 8, 5-17) viveu a experiência da comunhão espiritual quando disse: “Senhor, eu não sou digno de que entrei em minha casa mas dizei uma só palavra e meu servo será curado”. Este servo é hoje a nossa alma.

Meu Deus, creio firmemente em Vossa Presença na Eucaristia. Gostaria de receber-Vos agora realmente, mas como não posso, vinde, ao menos espiritualmente ao meu coração. Inflamai-me de Vosso ardor e fazei com que eu lute seriamente pela expansão de Vosso Reino. Amém.  

 

NOSSA MÃE MARIA NOS DÁ A COMUNHÃO ESPIRITUAL

A Presença de Jesus Cristo em nosso mundo se dá de muitas formas, Ele está naqueles que seguem seus ensinamentos, nos que fazem a Vontade do Pai, naqueles que estão sendo nutridos em Nossa Mãe Maria, na Presença Real na Eucaristia… Para receber Jesus Eucarístico há obrigações e condições exigidas pela Igreja Católica, mas para estar em Jesus por meio de Nossa Mãe Maria não há exigências dogmáticas, o que se pede simplesmente é a verdadeira intenção da Alma para esta união. Maria gera o Cristo em cada um de seus filhos, e se gera Cristo estamos em comunhão espiritual. “Quem come minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6, 56-57). Se Cristo está sendo gerado em nós por meio de Maria nós “comemos a carne e bebemos o sangue” de Cristo. Portanto, aqueles que foram excluídos da Comunhão Eucarística pelas exigências da Igreja Católica não devem sentir-se excluídos, pois, com Maria, estão em Comunhão com seu Filho, Jesus. A comunhão espiritual é muito fácil de se fazer muitas vezes ao dia. Como não exige o jejum, nem o ministério do sacerdote, nem muito tempo, pode-se repetir, cada dia, quantas vezes se queira. É o que fazia dizer a venerável Joana da Cruz: “Ó meu Deus, que bela maneira de comungar! Sem ser vista, nem notada, sem falar ao meu padre espiritual, e sem depender de nenhum outro senão de vós, que, na solidão, me nutris a alma e lhe falais ao coração!”. Eis aqui um dos conselhos que o Pe. Pio de Pietrelcina dava a uma sua filha espiritual: “Durante o dia, quando não podes fazer alguma outra coisa, chama por Jesus, mesmo até no meio de todas as outras ocupações, com um gemido resignado da alma, e Ele virá e ficará sempre unido com tua alma por meio de sua Graça e do Seu Santo Amor. Voa com o teu espírito para diante do Sacrário, quando lá não podes ir com teu corpo, e lá desafoga os teus ardentes desejos e abraça o Amado das Almas, melhor ainda do que se tivesses podido recebê-Lo sacramentalmente!”

Ó Santíssima Mãe de Deus, no momento em que me preparo para a Comunhão Espiritual, imploro Vosso auxílio. Tenho em mente, de modo especial, o período santo e glorioso em que Nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em Vosso claustro virginal, estava convosco, noite e dia. E Vos peço que, pelos méritos de tal fase de Vossa vida, me obtenhais um desejo ardente de receber, em meu pobre coração, o Santíssimo Sacramento. Também tenho em mente, ó Mãe Santíssima, a Vossa Primeira Comunhão, quando da instituição da Santíssima Eucaristia no Cenáculo. Com que atos inefáveis de Adoração, de Ação de Graças, de Reparação e de Petição recebestes então em Vosso peito o Santíssimo Sacramento! E pondero com enlevo que, segundo é licito crer, daí por diante a Presença Eucarística se conservou em Vós ininterruptamente até o último instante de Vossa vida terrena! Quantos atos de piedade perfeitíssimos fizestes então a Vosso Divino Filho, ó Mãe! Creio com toda a alma na presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Santíssima Eucaristia. E me recordo, neste momento, das numerosas Comunhões que tive a honra e o gáudio espiritual de receber ao longo de minha vida. Recordo-as com amor, gratidão e saudade, pois, para atender aos meus deveres de estado, estou privado dessa graça inefável, nas circunstâncias em que ora me encontro. A idéia de que, neste instante, eu poderia estar recebendo Nosso Senhor Jesus Cristo realmente presente na Sagrada Eucaristia, me transporta de amor. Não podendo comungar sacramentalmente neste momento, apresento-me, entretanto a Ele, na qualidade de escravo de amor. Faço-o por Vosso intermédio, ó Santíssima Mãe de Deus e minha; e peço que me obtenhais um ardente desejo de receber a Comunhão Sacramental agora mesmo, se tal fosse possível. E assim espero que esta Comunhão Espiritual seja bem acolhida pelo meu Divino Salvador. Pelos rogos de Maria, os quais jamais deixais de atender, eu Vos peço, ó Senhor, que me obtenhais todas as graças necessárias para a minha pronta santificação. Amém. Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento, rogai por nós.

 

O VALOR DA COMUNHÃO ESPIRITUAL SEGUNDO OS EXEMPLOS DOS SANTOS

A Comunhão Espiritual é a reserva de vida e de Amor Eucarístico sempre ao alcance da mão para os enamorados de Jesus Hóstia. Por meio da Comunhão Espiritual, de fato, ficam satisfeitos os desejos de amor da alma que quer unir-se a Jesus seu Amado Esposo. A Comunhão Espiritual é união de amor entre a alma e Jesus Hóstia. União toda Espiritual, mas real, até mais real do que a própria união em nós da alma com o corpo, “porque a alma vive mais onde ama, do que onde vive”, diz São João da Cruz.

Fé, amor, desejo

A Comunhão Espiritual supõe, é evidente, a fé na Presença Real de Jesus nos Sacrários. Ela compreende o desejo da Comunhão Sacramental e exige a Ação de Graças pelo Dom recebido de Jesus. Tudo isso está expresso com simplicidade na fórmula de Santo Afonso de Ligório: “Meu Jesus, eu creio que Vós estais no Santíssimo Sacramento. Eu Vos amo sobre todas as coisas. Eu Vos desejo em minha alma. E, já que agora não posso receber-Vos Sacramentalmente, vinde pelo menos espiritualmente ao meu coração. (pausa) Como já tendo vindo, eu Vos abraço e me uno a Vós. Não permitais que eu me separe mais de Vós”. A Comunhão Espiritual produz os mesmos efeitos que a Comunhão Sacramental, conforme as disposições de quem a faz, conforme maior ou menor carga de afeto com que se deseja receber a Jesus e o amor mais ou menos intenso com que se recebe Jesus e com que nos entretemos com Ele. Privilégio exclusivo da Comunhão Espiritual é o de poder ser feita quantas vezes quisermos (e até mesmo centenas de vezes por dia), quando quisermos (mesmo em plena noite), onde quisermos (até num deserto… ou num avião em pleno vôo). É conveniente fazer a Comunhão espiritualmente quando se assiste a Santa Missa e não se pode fazer a Comunhão Sacramental no momento em que o sacerdote comunga. A alma comunga também, chamando a Jesus em seu coração. Desse modo, toda Missa que se tiver ouvido estará completa: Oferta, Imolação e Comunhão. Seria deveras uma Graça Suprema, a ser invocada com todas as forças, se na Igreja se chegasse a realizar logo aquele voto do Concílio de Trento, “que todos os cristãos comunguem em todas as Missas que ouvem”: desse modo, quem puder participar de mais Missas cada dia, poderá também fazer comunhões Sacramentais cada dia.

Os dois Cálices

Quão preciosa seja a Comunhão Espiritual, Jesus o disse a Santa Catarina de Sena em uma visão. A Santa temia que a Comunhão Espiritual não tivesse nenhum valor, se comparada com a Comunhão Sacramental. Jesus lhe apareceu em visão, com dois Cálices na mão, e lhe disse: “Neste Cálice de ouro ponho as tuas Comunhões Sacramentais e neste Cálice de prata ponho as tuas Comunhões Espirituais. Estes dois Cálices Me são muito agradáveis”. E à Santa Margarida Maria Alacoque, que com muita diligência costumava enviar os seus inflamados desejos, clamando por Jesus no Sacrário, uma vez Jesus disse: “Para Mim é de tal modo querido o desejo que uma alma tem de Me receber, que Eu Me precipito nela, cada vez que ela Me chama com os seus desejos”. Quanto tenha sido amada pelos Santos a Comunhão Espiritual, não nos é difícil entrever. A Comunhão Espiritual satisfaz, pelo menos em parte, àquela ânsia ardente de ser sempre: “um” com quem ama. O próprio Jesus disse: “Permanecei em Mim, e Eu permanecerei em vós” (Jo 15, 4). E a Comunhão Espiritual ajuda-nos a ficarmos unidos a Jesus, ainda que estejamos longe de Sua Morada. Outro meio não há para aplacar os anelos de amor que consomem os corações dos Santos. “Como a corça anela pelos cursos das águas, assim minha alma anela por ti, ó Deus” (Sl 41, 2). E assim é o gemido dos Santos: “Ó meu esposo querido – exclama a Santa Catarina de Gênova – eu desejo de tal modo a alegria de estar contigo, que me parece, que se eu estivesse morta, ressuscitaria para receber-Te na Comunhão”. E a Beata Ágata da Cruz sentia tão agudo o desejo de viver sempre unida a Jesus Eucarístico, que chegou a dizer: “Se o Confessor não me tivesse ensinado a fazer a Comunhão Espiritual, eu não teria podido viver”. Para Santa Maria Francisca das Cinco Chagas era, igualmente, a Comunhão Espiritual o único alívio para a dor aguda que sentia, quando ficava fechada em casa, longe do seu Amor, especialmente quando não lhe era permitido fazer a Comunhão Sacramental. Então, ela subia ao terraço da casa e, olhando para a Igreja, suspirava entre lágrimas: “Felizes aqueles que hoje Te puderam receber no Sacramento, ó Jesus! Felizes os Sacerdotes que estão sempre perto do Amabilíssimo Jesus!” E assim só a Comunhão Espiritual podia tranquilizá-la um pouco.

Durante o dia

Eis aqui um dos conselhos que o beato Pe. Pio de Pietrelcina dava a uma sua filha espiritual: “Durante o dia, quando não podes fazer alguma outra coisa, chama por Jesus, mesmo até no meio de todas as outras ocupações, com um gemido resignado da alma, e Ele virá e ficará sempre unido com tua alma por meio de sua Graça e do Seu Santo Amor. Voa com o teu espírito para diante do Sacrário, quando lá não podes ir com teu corpo, e lá desafoga os teus ardentes desejos e abraça o Amado das Almas, melhor ainda do que se tivesses podido recebê-Lo sacramentalmente!” Aproveitemos, nós também, deste grande Dom. Especialmente nos momentos de provação ou de abandono, que pode haver de mais precioso do que a união com Jesus Hóstia, por meio da Comunhão Espiritual? Este Santo exercício pode encher os nossos dias de amor e de encanto, pode fazer-nos viver com Jesus em um amplexo de amor, e só depende de nós que o renovemos frequentemente e que não interrompamos quase nunca. Santa Ângela Merici tinha uma especial predileção pela Comunhão Espiritual. Não somente a fazia muitas vezes e exortava os outros a fazê-la, mas chegou a deixá-la como “herança” às suas filhas, a fim de que a praticassem sempre. A vida de São Francisco de Sales não deve ter sido talvez toda ela uma corrente de Comunhões Espirituais? Era propósito de o Santo fazer uma Comunhão Espiritual pelo menos cada quarto de hora. Este mesmo propósito foi o que tinha tomado São Maximiliano Maria Kolbe, desde jovem. E o servo de Deus André Beltrami deixou-nos uma breve página de seu diário íntimo que é um pequeno programa de uma vida vivida em uma Comunhão Espiritual contínua com Jesus Eucarístico. Estas são as suas palavras: “Onde quer que eu me ache, pensarei amiúde em Jesus Sacramento. Fixarei meu pensamento no Santo Sacrário, até mesmo quando eu acordar de noite, adorando-O de onde eu estiver, chamando por Jesus no Sacramento, oferecendo-Lhe o trabalho que eu estiver fazendo. Vou instalar um fio telegráfico da sala de estudo até a Igreja, um outro a partir do meu quarto e um terceiro do refeitório. Depois, vou enviar despachos, no maior número possível, a Jesus no Sacramento”. Que contínua corrente de amor Divino não deve ter passado por aqueles queridos… fios telegráficos!

Até durante a noite

Destas e de outras semelhantes santas indústrias os Santos têm sido muito prontos a servir-se para desabafarem seus corações que nunca se saciavam de amar. “Quanto mais eu Te amo, parece-me que menos Te amo – exclama Santa Francisca Xavier Cabrini – porque eu quereria mais. Mas não posso mais… dilata, dilata o meu coração…”. Nos períodos em que não acordava de noite, Santa Bernadette chegou a pedir a uma sua coirmã que a despertasse. E para quê? “Porque eu gostaria de fazer a Comunhão Espiritual!” Quando São Roque de Montpellier passou cinco anos encarcerado, por ter sido considerado um vagabundo perigoso, no cárcere ficava sempre com os olhos fitos na janelinha, rezando. O carcereiro lhe perguntou: Que é que ficas daí olhando? “Fico olhando para a torre dos sinos da Paróquia”. Era a necessidade que o Santo sentia de uma Igreja, de um Sacrário, de Jesus Eucarístico, seu grande amor. Também o Santo Cura d’Ars dizia aos fiéis: “À vista de um campanário, podeis dizer: Lá está Jesus, porque lá um Sacerdote celebrou a Missa”. E o Beato Luiz Guanella, quando ia de trem acompanhar os peregrinos até os Santuários, recomendava sempre a eles que volvessem seus pensamentos e corações para Jesus cada vez que, das janelas do trem, vissem algum campanário. “Cada campanário – dizia ele – nos faz pensar numa Igreja, na qual existe um Sacrário, na qual se celebra a Missa e onde está Jesus”. Aprendamos com os Santos, nós também. Que eles queiram comunicar-nos um pouco do incêndio de amor que consumia os seus corações. E, então, também em nós bem cedo se levantará um incêndio de amor, pois é muito consolador o que nos assegura São Leonardo de Porto Maurício: “Se praticardes muitas vezes por dia o Santo Exercício da Comunhão Espiritual, eu vos dou um mês de tempo para terdes o vosso coração completamente mudado”. Só um mês: Vocês entenderam?

 

COMUNHÃO ESPIRITUAL: PARA QUANDO NÃO FOR POSSÍVEL PARTICIPAR DA COMUNHÃO EUCARÍSTICA SACRAMENTAL

Não há na terra o que mais vivamente acenda o Fogo do Amor Divino nos corações de uma pessoa do que o Santíssimo Sacramento do Altar. É o que o Senhor fez conhecer a Santa Catarina de Sena, quando se deixou ver no Santíssimo Sacramento sob a forma de uma Fornalha de Amor, da qual saiam torrentes de Chamas Divinas, que se espalhavam por toda a Terra. Em vista disso, a santa, maravilhada, não sabia explicar como poderiam os homens viver sem se consumirem nas chamas do Amor Divino. Além da Comunhão da Sagrada Eucaristia, porém, há uma outra maneira de receber o Senhor Jesus Cristo, por aquelas pessoas que, por algum motivo, não podem receber o Pão Consagrado: trata-se da Comunhão Espiritual. É uma prática de piedade pouco divulgada e pouco conhecida, mas valorizada por inúmeros santos. A doutrina do santo Concílio de Trento ensina que se pode receber o Santíssimo Sacramento de três modos: sacramentalmente, espiritualmente, ou sacramentalmente e espiritualmente ao mesmo tempo. Não se fala aqui do primeiro modo, que se verifica também nos que comungam em estado de pecado mortal, como fez Judas. Nem do terceiro, como fazem os que comungam em estado de graça. Mas trata-se aqui é do segundo modo (espiritualmente), adequado àqueles que impossibilitados de receber sacramentalmente o Corpo de Nosso Senhor, “o recebem em espírito, fazendo, atos de fé viva e ardente caridade, e com um grande desejo de se unirem ao soberano bem, e, por este meio, se põem em estado de obter os frutos do Divino Sacramento”. Qualquer pessoa pode fazer a Comunhão Espiritual, portanto. O que requer é o profundo desejo da pessoa em usufruir da Misericórdia de Deus, infinitamente maior do que todos os nossos pecados e do que todos os empecilhos. Deus vê o nosso coração, o nosso interior, e nos julga pelo amor que temos por Ele. Como realizar a Comunhão Espiritual? Santo Afonso de Ligório nos ensina: “Creio, meu Jesus, que estais Presente no Santíssimo Sacramento do Altar. Amo-vos sobre todas as coisas e minha alma suspira por vós. Mas como agora não posso receber-vos sacramentalmente, vinde espiritualmente ao meu coração. E, como se vos tivesse recebido, uno-me inteiramente a Vós; não consintais, Senhor, que de Vós jamais me separe. Ó Jesus, Sumo Bem, tocai-me o coração e inflama-me no vosso divino amor, e que nele permaneça abrasado para sempre. Amém”. Faça esta oração com toda a devoção e entrega alma ao Senhor Jesus Cristo, e estará comungando espiritualmente. Não vos admireis desta condescendência tão terna, pois a comunhão espiritual abrasa a alma no amor a DEUS, une-a Ele, e dispõe-na a receber as graças mais insignes. A Comunhão Espiritual é o caminho para as pessoas que por algum motivo não podem recebê-Lo sacramentalmente na Missa, ou quando estiverem em casa, no trabalho ou nas situações de dificuldade por que se passa na vida.

A Vossos pés me prostro, oh meu Jesus!, e Vos ofereço o arrependimento do meu coração contrito que mergulha no nada diante da Vossa Santa Presença. Adoro-vos no Sacramento do Vosso amor, a inefável Eucaristia, e desejo receber-Vos na pobre morada que Vos oferece minha alma. Esperando a felicidade da Comunhão Sacramental, quero possuir-vos em espírito. Vinde a mim, já que eu venho a Vós, oh meu Jesus!, e que Vosso amor inflame todo o meu ser na vida e na morte. Creio em Vós e espero em Vós. Assim seja.
Cardeal Merry del Val

 

COMUNHÃO FREQUENTE-COMUNHÃO ESPIRITUAL

Como Comunhão frequente entende-se a Comunhão que se faz todas as vezes que é possível e de harmonia com os desejos e possibilidades de cada um. Primitivamente a Comunhão recebia-se muito raramente, muito poucas vezes ao ano e, quando se pensou que seria possível e bom recebê-la mais vezes, vieram os Jansenistas com as suas heresias, a dizerem que ninguém era digno de comungar, e poucas pessoas o poderiam fazer mais que uma ou duas vezes por ano. Esta heresia afetou profundamente os católicos de toda a Europa e até das Américas. A Igreja então pregou aos católicos de todo o mundo que a Comunhão nos dá um alimento que fortalece a nossa vida nesta peregrinação até à vida eterna. A Comunhão não é apenas um prêmio para uma vida de santidade, mas uma força contra o pecado e uma garantia de vida de santidade. Nos nossos tempos, a par de uma maior possibilidade de Comunhão frequente, graças às facilidades da Igreja e à fé e amor do Povo de Deus, estamos a cair no risco de uma heresia oposta à dos Jansenistas, segundo a qual toda a gente se julga digna e capaz de comungar sem um mínimo de conhecimento, de preparação e de fé, talvez por uma grande falta de pregação da Igreja acompanhada de estímulo Eucarístico. Há cerca de meio século, havia frequentes Congressos Eucarísticos, a nível mundial e outros a nível nacional e diocesano, com ótimas oportunidades de pregação insistente e prática de vida íntima Eucarística. Talvez fosse bom retomar estas práticas, a nível diocesano ou nacional, pela sua necessidade e utilidade e, sobretudo, como contra força para a corrente de leviandade e de corrupção dos costumes dos nossos jovens, a quem falta, sobretudo o bom exemplo e as boas ocasiões para uma mentalização espiritual e Eucarística. Mas, numa linha de Comunhão frequente vem a propósito lembrar que, ordinariamente, a Comunhão frequente só é permitida uma vez por dia, segundo a tradicional lei da Igreja. Todavia, pode haver circunstâncias em que se pode comungar uma segunda vez no mesmo dia. Sem contar o caso dos sacerdotes que têm que celebrar mais que uma missa e, portanto, comungar mais que uma vez, também os fiéis podem comungar uma segunda vez nas seguintes circunstâncias: – Em Missas com um rito especial, como é a Missa de casamento, de batizado ou dos doentes com especial cerimônia de unções, e Missa Vespertina. Assim, quem tomar parte numa destas missas num sábado de manhã, poderá voltar a comungar nesse mesmo dia na Missa Vespertina. E quem comungou de manhã pode voltar a comungar de novo numa missa de casamento à tarde. – Se alguém for desempenhar qualquer papel ministerial, como por exemplo, o de Leitor, ou Ministro da Eucaristia numa segunda Missa, também pode comungar uma segunda vez. E o Direito Canônico diz apenas que aquele que recebeu a Comunhão, só pode recebê-la outra vez no mesmo dia, dentro da celebração eucarística (Cân. 917). Em 1984 a Comissão do Vaticano para a interpretação do Direito Canônico, estabeleceu que mesmo a Comunhão na Missa, não pode ser recebida mais de duas vezes por dia. Portanto, os Católicos devem entender que a Comunhão faz parte integral da Celebração Eucarística. Se isto é verdade para toda a gente, torna-se mais importante para todos aqueles que têm algum papel na liturgia ministerial. A Igreja, todavia, está muito alerta para que este privilégio da Comunhão frequente não se converta numa superstição de colecionar Comunhões. Comungar frequentemente deve gerar naqueles que o fazem, um maior amor e maior intimidade com Deus e, consequentemente, uma reforma na sua vida e um grande amor ao próximo. Os confessores e diretores espirituais têm a seu cargo, a formação das pessoas, especialmente nesta linha de Comunhão Frequente.

 

COMUNHÃO ESPIRITUAL

A Comunhão Espiritual é um ato interior, consciencioso e sério, de desejar receber a Sagrada Comunhão, ou, mais especificamente, de se unir ao Senhor, e que normalmente deve acompanhar a própria Comunhão Sacramental. Todavia a Comunhão Espiritual pode ser feita sem a Comunhão sacramental, apenas por palavras, ou pensamentos interiores de uma íntima união com Cristo, em qualquer momento, que não deixará de conceder as Suas bênçãos. A Comunhão Espiritual, não é tão divulgada hoje, em virtude da facilidade e frequência da Comunhão Sacramental. Mas, em tempos passados, há 800 ou 900 anos atrás, era mais comum. E ainda não vai muito longe o tempo em que a Comunhão Sacramental, para algumas pessoas, era recebida algumas vezes na vida, para outras, apenas no tempo da Páscoa. Nesses tempos, uma Comunhão Espiritual tinha muito mais sentido. Todavia, nos nossos tempos de hoje ainda se pode fazer com frequência a Comunhão Espiritual como desejo de maior união e intimidade com Deus, ao longo dos dias da nossa vida. Noutras circunstâncias, até a Comunhão Espiritual é o único meio de união e intimidade com Deus, por exemplo, para quem não guardou uma hora de jejum eucarístico, para quem vive numa situação de irregularidade perante a Igreja, que o mesmo é dizer para com alguns dos Sacramentos, ou até para quem pratica outra religião. Mas uma coisa não substitui a outra, isto é, a Comunhão Espiritual não substitui ou dispensa a Comunhão sacramental, sempre que esta é possível. Uma visita ao Santíssimo Sacramento é uma boa oportunidade para se fazer uma Comunhão Espiritual.

Eu quisera Senhor, receber-Vos com aquela pureza, humildade e devoção com que Vos recebeu Vossa Santíssima Mãe com o espírito e o fervor de todos os santos. Amém.
São Josemaría Escrivá

 

COMUNHÕES ESPIRITUAIS
– O nosso encontro com Cristo na Eucaristia.
– As comunhões espirituais. Desejo de receber a Cristo.
– A Comunhão sacramental. Preparação e ação de graças.

I. SENHOR, OUVI A MINHA ORAÇÃO e chegue até Vós o meu clamor. Não oculteis de mim a vossa face no dia da minha angústia. Inclinai para mim o vosso ouvido e, quando Vos invocar, socorrei-me prontamente1. O Evangelho da Missa2 relata os milagres que Jesus realizou certa vez, depois de ter voltado à outra margem do lago, provavelmente a Cafarnaum. São Lucas diz-nos que todos estavam à sua espera3; agora mostram-se contentes por tê-lo de novo com eles. E o Senhor toma imediatamente o caminho para a cidade, seguido dos seus discípulos e da multidão que o rodeia por todos os lados. No meio de tantos que caminham num círculo apertado à sua volta, uma mulher vacilante ora consegue aproximar-se Dele, ora se vê atirada para longe, enquanto não cessa de repetir para si mesma: Se eu tocar nem que seja a orla do seu manto, ficarei curada. Estava doente havia doze anos e já tinha recorrido sem nenhum sucesso a todos os remédios humanos ao seu alcance: Sofrera muito nas mãos de vários médicos, gastando tudo o que possuía, sem achar nenhum alívio. Mas naquele dia compreendeu que Jesus era o seu único remédio: não só para uma doença que a tornava impura perante a lei, mas para toda a sua vida. A certa altura, conseguiu esticar a mão e tocar a orla do manto do Senhor. E nesse exato momento Jesus deteve-se e ela sentiu-se curada. Quem tocou as minhas vestes?, perguntou Jesus, dirigindo-se aos que o cercavam. Eu sei que uma força saiu de mim4. Naquele instante, a mulher viu fixarem-se nela aqueles olhos que chegavam até o fundo do coração. Atemorizada, trêmula e cheia de alegria, tudo ao mesmo tempo, lançou-se aos seus pés. Nós também necessitamos do contacto com Cristo, porque são muitas as nossas doenças e grande a nossa fraqueza. E chegamos a ter esse encontro com Ele sempre que o recebemos na Comunhão, oculto nas espécies sacramentais. E são tantos os bens que então recebemos que o Senhor nos fita e nos pode dizer: Eu sei que uma força saiu de mim. É uma torrente de graças que nos inunda de alegria, que nos dá a firmeza necessária para continuarmos a caminhar e que causa assombro aos anjos. Quando a nossa amizade com Cristo cresce sempre mais, passamos a desejar que chegue o momento de cada Comunhão. Procuramos o Senhor com a mesma persistência daquela mulher doente, servindo-nos para isso de todos os meios ao nosso alcance, tanto humanos como sobrenaturais. Se, em alguma ocasião, devido a uma viagem, a um contratempo na família, a uma época de exames ou de trabalho mais intenso, etc., se torna mais difícil comungar, fazemos um esforço maior, somos mais engenhosos em vencer os obstáculos, pomos mais amor. Procuramos então o Senhor com o mesmo empenho com que Maria Madalena foi ao sepulcro ao raiar do terceiro dia, sem se importar com os soldados que estavam de guarda, nem com a pedra que lhe impedia a passagem… Santa Catarina de Sena explica com um exemplo a importância de se desejar vivamente a Comunhão. Suponhamos – diz-nos – que várias pessoas têm uma vela de peso e tamanho diferentes. A primeira tem uma vela de cem gramas, a segunda de duzentos, a terceira de trezentos, e outra de um quilo. Cada uma acende a sua vela. A que tem a vela de cem gramas tem menos capacidade de iluminar do que a que possui a vela de um quilo. Assim acontece com os que vão comungar. Cada um leva um círio, que são os santos desejos com que recebe este sacramento5. Esses “santos desejos” são a condição de uma Comunhão fervorosa.

II. PARA QUEM ESTÁ EM GRAÇA, todas as condições para receber sempre com fruto a Comunhão sacramental podem resumir-se numa: ter fome da Sagrada Eucaristia6. Esta fome e esta sede de Cristo não podem ser substituídas por nada. O vivo desejo de comungar, sinal de fé e de amor, há de levar-nos a muitas comunhões espirituais antes de recebermos o Senhor sacramentalmente, e isso durante o dia, no meio da rua ou do trabalho. “A comunhão espiritual consiste num desejo ardente de receber Jesus Sacramentado e num abraço amoroso como se já o tivéssemos recebido”7. Prolonga de certa maneira os frutos da Comunhão anterior, prepara para a seguinte e ajuda-nos a desagravar o Senhor pelas vezes em que talvez não nos tenhamos preparado para recebê-lo com a delicadeza e o amor que Ele esperava, e também por todos aqueles que comungam com pecados graves na consciência ou que, de um modo ou de outro, se esqueceram de que Cristo ficou neste sacramento. “A comunhão espiritual pode ser feita sem que ninguém nos veja, sem que se esteja em jejum, e a qualquer hora, porque consiste num ato de amor; basta dizer de todo o coração: […] Creio, ó meu Jesus, que estais no Santíssimo Sacramento; eu Vos amo e desejo muito receber-Vos, vinde ao meu coração; eu Vos abraço; não Vos ausenteis de mim”8. Ou, como muitos outros cristãos, que o aprenderam talvez por ocasião da sua Primeira Comunhão: Eu quisera, Senhor, receber-Vos com aquela pureza, humildade e devoção com que Vos recebeu a vossa Santíssima Mãe, com o espírito e o fervor dos santos9. Devemos praticar especialmente as comunhões espirituais nas horas que antecedem a Missa e a Comunhão: à noite, quando chega a hora do descanso; de manhã, a partir do momento em que nos levantamos. Se pusermos um pouco de esforço e pedirmos ajuda ao nosso Anjo da Guarda, a Eucaristia presidirá à nossa vida e será “o centro e o cume”10 para o qual se dirigem todos os nossos atos do dia que começa. Recorramos hoje ao nosso Anjo da Guarda para que nos recorde frequentemente a proximidade de Cristo nos sacrários da cidade onde vivemos ou onde nos encontramos, e nos consiga abundantes graças para que cada dia seja maior o nosso desejo de receber Jesus, e maior o nosso amor, particularmente nesses minutos em que o temos sacramentalmente em nosso coração.

III. DEVEMOS PÔR O MAIOR empenho em abeirar-nos de Cristo com a fé daquela mulher, com a sua humildade, com o seu grande desejo de ficar curada. “Quem somos nós, para estarmos tão perto Dele? Tal como àquela pobre mulher no meio da multidão, o Senhor ofereceu-nos uma oportunidade. E não só para tocar uma ponta da sua túnica, ou, num breve momento, o extremo do seu manto, a orla. Temo-lo inteiro. Entrega-se totalmente a cada um de nós, com o seu Corpo, com o seu Sangue, com a sua Alma e com a sua Divindade. Comemo-lo todos os dias, falamos intimamente com Ele, como se fala com o pai, como se fala com o Amor”11. É uma realidade, tanto quanto o é a nossa existência ou o mundo e as pessoas que encontramos todos os dias. A Comunhão não é um prêmio à virtude, mas alimento para os fracos e necessitados: para nós. E a nossa Mãe a Igreja exorta-nos a comungar com frequência, se possível diariamente, e ao mesmo tempo insiste em que nos esforcemos a fundo por afastar a rotina, a tibieza, a falta de amor, em que purifiquemos a alma dos pecados veniais através de atos de contrição e da confissão frequente e, antes de mais nada, em que nunca comunguemos com a menor sombra de pecado grave, isto é, sem termos recebido previamente o sacramento do perdão12. Quanto às faltas leves, o Senhor pede-nos o que está ao nosso alcance: arrependimento e desejo de evitar que se repitam. O amor a Jesus presente na Sagrada Eucaristia manifesta-se também no modo de lhe mostrarmos o nosso agradecimento depois da Comunhão; o amor é inventivo e sabe encontrar modos próprios para expressar a sua gratidão, mesmo que a alma se ache mergulhada na aridez mais completa. A aridez não é tibieza, mas amor com ausência de sentimento, que impele, no entanto, a pôr mais esforço e a pedir ajuda aos intercessores do Céu, como o nosso Anjo da Guarda, que nos prestará grandes serviços numa ocasião como esta, tal como o faz em tantas outras. As próprias distrações devem ajudar-nos a alcançar um maior fervor à hora de darmos graças a Deus pelo bem incomparável de nos ter visitado. Tudo nos deve servir para que, nesses minutos em que temos o próprio Deus conosco, nos encontremos nas melhores disposições possíveis dentro das nossas limitações. “Quando o receberes, diz-lhe: – Senhor, espero em Ti; adoro-te, amo-te, aumenta-me a fé. Sê o apoio da minha debilidade, Tu, que ficaste na Eucaristia, inerme, para remediar a fraqueza das criaturas”13. A Virgem Nossa Senhora ajudar-nos-á a preparar a nossa alma com aquela pureza, humildade e devoção com que Ela o recebeu depois da mensagem do Anjo.

(1) Sl 101; (2) Mc 5, 21-43; (3) cfr. Lc 8, 41-56; (4) cfr. Lc 8, 46; (5) Santa Catarina de Sena, O Diálogo, pág. 385; (6) cfr. R. Garrigou-Lagrange, Las tres edades de la vida interior, vol. I, pág. 484; (7) Santo Afonso Maria de Ligório, Visitas ao Santíssimo Sacramento, Rialp, Madrid, 1965, pág. 40; (8) ib., pág. 41; (9) Orações do cristão, Quadrante, São Paulo, pág. 16; (10) cfr. Conc. Vat. II, Decr. Ad gentes, 9; (11) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 199; (12) cfr. 1 Cor 11, 27-28; Paulo VI, Instr.Eucharisticum Mysterium, 37; (13) Josemaría Escrivá, Forja, n. 832.

Fonte: livro “Falar com Deus”, de Francisco Fernández Carvajal.

O Papa Bom: traços da personalidade de João XXIII

Simplicidade, caridade e bondade estão entre as características marcantes de João XXIII, que ficou conhecido como o “Papa Bom”

“Agora, mais do que nunca, reconheço-me indigno e humilde: servo de Deus e servo dos servos de Deus. A minha família é todo o mundo.”

Essas afirmações de João XXIII, no livro ‘Diário da alma’, indicam os caminhos de sua personalidade que guiariam seu pontificado.

A bondade foi um aspecto importante de sua personalidade. O bispo auxiliar do Rio de Janeiro, Dom Antônio Augusto Dias Duarte, recorda essa característica marcante do Papa Roncalli, inclusive como fator da compreensão da sacralidade da vida.

“O Papa Bom nos mostrou como é bom se relacionar de forma cordial e bondosa com as pessoas partindo dessa visão da fé. (…)  A bondade que imanava da figura tão paternal, acolhedora e simpática de João XXIII é que dá à vida humana o reconhecimento de que ela é uma vida sagrada”.

Suas marcas mais evidentes foram a humildade, a simplicidade, a piedade, a obediência, a diligência, o bom humor, a vida de oração e a confiança em Deus. Roncalli era o Papa de todos, com um coração universal que abraçava todos os povos, fossem eles católicos, ortodoxos ou muçulmanos.

Antes mesmo de ser Papa, durante a Primeira Guerra Mundial, alistou-se no exército como sargento nos serviços de saúde, e era encarregado de cuidar dos feridos que voltavam da guerra. Esta foi uma oportunidade de demonstrar caridade e piedade para com o próximo.

O servo de Deus procurava viver com humildade seu ministério e não se exaltar em sua vida eclesiástica como afirma em seu livro ‘Diário da alma’: “Nunca direi uma palavra nem darei um passo, afastando como tentação qualquer pensamento que, de algum modo, se oriente para que os meus superiores me confiem cargos ou postos de maior distinção”. Humildade essa que abriu caminhos por onde passava e que, aliada à sua simplicidade, ajudou-o a resolver situações delicadas.

“Minha missão na Grécia é muito difícil, por isso a amo mais ainda. Confiaram-na a mim, portanto, é uma questão de obediência”. Toda vida do futuro santo pautava-se na santa obediência, independente da situação em que se encontrava.

Ângelo era um homem dinâmico, que se empenhava na salvação das almas. Referindo-se à missão de salvar almas na Grécia e na Turquia, chegou a afirmar: “Confesso que não sofreria se a confiassem a outro, mas, enquanto for minha, quero honrá-la custe o que custar.”

Os reflexos da personalidade acolhedora e universal do Papa Bom marcariam para sempre a história da Igreja. Ele mesmo aprovou, durante o Concílio Vaticano II, as celebrações da Santa Missa na língua própria de cada país, abrindo-se, assim, as portas para maior participação do povo de Deus.

Na época em que foi anunciada a canonização de João XXIII, o presidente da CNBB, Cardeal Raymundo Damasceno, falou da simplicidade e bondade de João XXIII e sua inspiração para a convocação do Concílio.

“O Papa conhecido como ‘Papa bondoso’, era simples, um pastor que realmente teve essa grande inspiração de realizar o Concílio, que deu os rumos para a Igreja”.

Apresentação de Nosso Senhor e Purificação de Nossa Senhora – 02 de Fevereiro

Por Mons. Inácio José Schuster

A Igreja Católica reservava outrora uma bênção especial às parturientes que, logo que o seu estado permitia, se apresentavam a Deus com seus. É provável que este uso se tenha introduzido na Igreja em memória e veneração da Mãe de Deus, que, obediente à lei do seu povo, fez a sua apresentação no templo. A festa que a Igreja hoje celebra tem o nome de Apresentação do Senhor no templo. E é também a Purificação de Nossa Senhora ou Senhora das candeias. É hoje o dia da bênção das velas (candeias) e em muitas igrejas, antes da celebração da Missa, organiza-se solene procissão, em que são levadas velas acesas, símbolos de Jesus Cristo – que, apresentado a Deus no templo de Jerusalém pelo santo velho Simeão, foi saudado como a luz que veio para iluminar os povos. Comemora-se o dia em que Maria Santíssima, em obediência à lei mosaica, se apresentou no templo do Senhor, quarenta dias depois do nascimento de Jesus. Para melhor compreensão deste ato de Maria, sejam lembradas neste lugar duas leis que Deus impôs, no Antigo Testamento. A mulher que desse à luz uma criança do sexo masculino ficava privada de entrar no templo durante quarenta dias a seguir ao parto; e se a criança era menina, o tempo da purificação era de oitenta dias. Passado este tempo, devia apresentar-se no templo e oferecer um cordeirinho, duas rolas ou dois pombinhos, e entregar a oferta ao sacerdote, para que este rezasse sobre ela. Com esta cerimônia, a mulher era aceita outra vez na comunhão dos fiéis, da qual a lei a excluía por algum tempo, depois de ter dado à luz. A segunda lei impunha aos pais da tribo de Levi a obrigação de dedicar o filho primogênito ao serviço de Deus. Crianças que pertenciam a outra tribo, que não a de Levi, pagavam resgate. É admirável a retidão e humildade de Maria Santíssima em sujeitar-se a uma lei humilhante, como foi a da purificação. A maternidade da Virgem, em tudo diferente da das outras mulheres, isentava-a desta obrigação. Davi enche-se de vergonha, quando se lembra da sua origem: “em pecados me concebeu minha mãe”. A Maria, o Anjo tinha dito: “O Espírito Santo virá sobre ti, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra”, São José recebeu do céu a comunicação consoladora: “O que dela (de Maria) nascerá, é do Espírito Santo”. Virgem antes, durante e depois do parto, o seu lugar não era entre as outras filhas hebréias, que no templo se apresentavam para fazer penitência e procurar perdão do pecado. Maria prefere, todavia, obedecer à lei e parecer atingida pela pecha comum a todas. Além disso, sendo de origem nobre, descendente direta de David, oferece o sacrifício dos pobres, isto é, dois pombinhos! Na humildade é acompanhada pelo Filho. Ele, que é “Filho do Altíssimo”, autor e Senhor das leis, não admite para Si motivos que O isentem das mesmas. Querendo ser nosso semelhante em tudo, exceto no pecado, sujeita-Se à lei da circuncisão. Por altura de ser apresentada Maria Santíssima no templo, deu-se um fato que merece toda a nossa atenção. Vivia em Jerusalém um santo chamado Simeão, muito velho, que com muito fervor aguardava pela vinda do Messias. De Deus tinha recebido a promessa de não sair desta vida sem ter visto, com os próprios olhos, o Salvador do mundo. Guiado por inspiração divina, viera ao templo quando os pais de Jesus nele entraram, em cumprimento das prescrições legais. Como os Magos conheceram o Salvador, este fez-Se conhecido por Simeão, o qual o tomou nos braços e bendisse a Deus, dizendo: “Agora, Senhor, deixai partir o vosso servo em paz, conforme a vossa palavra, pois os meus olhos viram a vossa salvação, que preparastes diante dos olhos das nações; Luz para aclarar os gentios e glória de Israel, vosso povo!” José e Maria ficaram admirados do que se dizia do Menino. Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua Mãe: “Este Menino veio ao mundo para ruína e ressurreição de muitos em Israel e para ser sinal de contradição. Vós mesma tereis a alma varada por uma aguda espada e assim serão patenteados os pensamentos ocultos no coração de muitos”. – Havia também uma profetisa, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Já estava muito velha. Vivera 7 anos casada, enviuvara e estava com 84 anos. Não deixava o templo, e servia a Deus dia e noite, jejuando e rezando. Tendo vindo ao templo na mesma ocasião, desfez-se em louvores ao Senhor e falava do Menino a todos os que esperavam a redenção de Israel. Cumpridas todas as prescrições da lei, José e Maria voltaram para casa. A Deus deve-Se louvor e gratidão, depois dum parto bem sucedido. De Deus vem todo o bem para a mãe e para o filhinho. É justo, pois, que a mãe peça a bênção divina. A mãe cristã sabe que sem a assistência e auxílio de Deus, não pode educar os filhos na virtude e no temor de Deus. Reconhecendo esta insuficiência, faz a Deus oferecimento do filho, prometendo ao Senhor ver nele uma propriedade divina, garantia do seu amor, e fazer tudo que lhe estiver ao alcance para educá-lo para o céu. Oxalá todas as mães cristãs eduquem os filhos para Deus, e não para o serviço do mundo, de Satanás e da carne!

 

No dia dois de fevereiro, a Igreja celebra a festa da apresentação do Senhor. Estamos a exatos, 40 dias após a celebração do Natal. De acordo com o evangelista Lucas, capítulo 2 versículos de 2 a 40, foi este o momento em que os pais de Jesus o apresentaram no templo de Jerusalém.

Alguns padres da Igreja viram nesta cena o encontro dramático entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento. O Antigo Testamento representado por Simeão e o Novo Testamento representado por aquela criancinha que José e Maria traziam e ofertavam ao Senhor no templo.

O Antigo Testamento pode proferir solenemente a sua despedida e da boca de Simeão nós ouvimos: “Agora Senhor, deixa ir em paz o teu servidor conforme a tua palavra, porque meus olhos viram a tua salvação que preparastes a todos os povos. Luz para iluminar as nações e glória de Israel, teu povo.”

E assim, caríssimos irmãos, com estas palavras, Simeão e todo o Antigo Testamento saem de cena e deixam lugar ao Novo Testamento representado na criança que ainda não fala, que ainda é em tudo dependente de seus pais, o menino Jesus.

Neste dia, caríssimos irmãos, nós celebramos a luz. As palavras de Simeão são claras: luz para iluminar as nações. E a Santa Igreja, na liturgia convida os fiéis a tomarem em suas mãos a luz de uma vela para marcarem bem a distância entre a luz que ilumina este mundo e de que nos servimos para este mundo e que não serve para simbolizar a fé e uma outra luz que normalmente não serve para este mundo, mas que pode bem simbolizar a nossa fé, a chama de uma vela.

Naquele instante, ao receber Jesus no templo, a luz que iluminaria Israel e todas as nações, estavam o velho Simeão e a velha Ana. Estes eram não apenas os representantes de Israel, mas, caríssimos irmãos, para o evangelista, os representantes dos pobres, daqueles que tem o coração disponível, daqueles que são despojados, daqueles que não se apegaram e não se apegam às riquezas e aos bens deste mundo. Para esse evangelista, bem sensível a esta categoria de gente, são estes pobres, humildes e simples, provavelmente representantes da comunidade cristã primeira de Jerusalém.

São estas, repito, as pessoas mais aptas, mais qualificadas a receberem o Cristo luz.   Na medida em que você for simples, na medida em que você for pobre, na medida em que você não se apegar aos bens deste mundo, na medida em que você não se sentir satisfeito, mas buscar o definitivo de Deus, nesta mesma medida você receberá Jesus Cristo, que inundará de luz o seu coração e sua alma também.   Neste dia, você celebrará a sua festa da verdadeira luz.

 

O evangelista insiste sobre a proposição circunstancial: “Concluídos os dias da sua purificação”, mostrando a conformidade legal da Sagrada Família. Por outro lado, já anuncia Aquele que “veio para cumprir a Lei e os profetas”, mas que não se limita a uma observância material, dobrando-se às disposições da “letra” da Lei. Ele vai além, cumprindo-a em seu sentido profundo, “segundo o Espírito”, seu Espírito, o Espírito que tinha inspirado profeticamente Moisés. “Levaram-no a Jerusalém para o apresentar ao Senhor”, e apresentaram este pequeno menino que necessitava ser “levado”, que Simeão vai “tomar em seus braços”, e cuja grandeza é em verdade mais brilhante que o raio: pois Ele é o sumo sacerdote, ao mesmo tempo,  que é a futura vítima da Nova Aliança, da qual a “apresentação” é o preâmbulo. Esta criança é o “Primogênito” por excelência, tanto de Deus como de sua mãe. Consagrado, Ele é  oferecido a Deus, como resgate, como Redenção de todos os homens de todos os tempos, capaz de lhes conceder uma purificação perfeita. “Esta purificação, escreve Orígenes, é de fato, não só fruto de Jesus, mas também de Maria: ela está associada ao seu Filho, fisicamente, pois ela “O traz” e “O leva” e Simeão vai lhe anunciar que ela comungará dos sofrimentos da Redenção. Esta purificação é de ambos, mesmo se Jesus seja o único Salvador, o Santo e o Redentor”. Este momento, portanto, manifesta o verdadeiro “Santo dos Santos”, perfeitamente “o Ungido” como significa o seu título de Cristo e de Messias. E as palavras de Simeão precisam o alcance universal desta “apresentação”: “Causa de soerguimento para muitos homens”; é Ele a “luz para iluminar as nações, e para a glória de vosso povo de Israel”. E Santo Agostinho comenta que este idoso Simeão “se torna um destes pequenos a quem é prometido o Reino”. E eis seu último suspiro: “Agora, Senhor, deixai o vosso servo ir em paz”.

Deus não faz show, mas age com humildade

Simplicidade

Segunda-feira, 9 de março de 2015, Da Redação, com Rádio Vaticano

Na missa desta segunda-feira, 9, Francisco refletiu sobre o estilo simples que Deus age na vida de seus filhos

Na missa celebrada na manhã desta segunda-feira, 9, na Casa Santa Marta, o Papa Francisco comentou o Evangelho do dia (Lc 4, 24-30) e ressaltou o trecho em que Jesus repreende os habitantes de Nazaré pela falta de fé.

“Naquele momento, entre as pessoas que ouviam com prazer o que Jesus dizia, um, dois ou três não gostaram do que Ele disse, e um falador se levantou e afirmou: ‘Mas o que esta pessoa está falando? Onde estudou para nos dizer essas coisas? Que nos mostre o diploma! Em qual Universidade estudou? Ele é o filho do carpinteiro e o conhecemos bem’. E começou a fúria, e também a violência. E o expulsaram da cidade e o conduziram até o cume da colina. E queriam jogá-lo lá de cima”.

Já a primeira leitura fala de Naamã que era comandante do exército sírio e tinha lepra. O Profeta Eliseu disse a ele para se banhar sete vezes no rio Jordão, ele também fica indignado porque pensava num gesto maior. Depois ouve o conselho dos servos, faz o que disse o Profeta e a lepra desaparece.

O Papa explicou que tanto os habitantes de Nazaré, como os de Naamã, “queriam um show”, mas que “o estilo do bom Deus não é dar show: Deus atua na humildade, no silêncio, nas coisas pequenas”. Ele disse que é possível observar isso em toda a história da salvação, a partir da Criação, em que o Senhor não pegou “a varinha mágica”, mas criou o homem com o barro.

“Quando Ele quis libertar o seu povo, libertou-o pela fé e a confiança de um homem, Moisés. Quando Ele quis fazer cair a poderosa cidade de Jericó, o fez através de uma prostituta. Também para a conversão dos samaritanos, pediu o trabalho de outra pecadora. Quando Ele enviou Davi para lutar contra Golias, parecia loucura: o pequeno Davi diante do gigante, que tinha uma espada, tinha muitas coisas, e Davi apenas uma funda e pedras. Quando disse aos magos, que tinha nascido o Rei, o Grande Rei, o que eles encontram? Uma criança, uma manjedoura. As coisas simples, a humildade de Deus, este é o estilo divino, jamais um show”.

O Papa recordou também que uma das três tentações de Jesus no deserto foi o “show”. Satanás o convida a lançar-se do ponto mais alto do Templo porque vendo o milagre as pessoas acreditariam n’Ele.

“O Senhor, ao invés disso, se revela na simplicidade, na humildade”, explica Francisco. Ao concluir, o Papa disse que fará bem nesta Quaresma que cada um pense em sua vida, em como o Senhor ajudou e fez cada um seguir em frente, e então será possível descobrir que Ele fez isso por meio de coisas simples.

“Assim age o Senhor: faz as coisas de forma simples. Fala-nos silenciosamente ao coração. Recordamos na nossa vida as muitas vezes que ouvimos essas coisas: a humildade de Deus é o seu estilo; a simplicidade de Deus é o seu estilo. E também na liturgia, nos sacramentos, que bonito é que se manifeste a humildade de Deus e não o show mundano. Irá nos fazer bem percorrer a nossa vida e pensar nas muitas vezes em que o Senhor nos visitou com sua graça, e sempre com esse estilo humilde, o estilo que também Ele nos pede para ter: a humildade”.

Festa do Batismo do Senhor

Entenda

A Festa do Batismo do Senhor, celebrada no domingo depois da Epifania, encerra o ciclo natalino e completa as Festas das Manifestações do Senhor.

Comemoramos o Batismo de Jesus por São João Batista nas águas do rio Jordão. Sem ter mancha alguma que purificar, Jesus quis submeter-se a esse rito tal como se submetera às demais observâncias legais, que também não O obrigavam.

O Senhor desejou ser batizado, diz Santo Agostinho, “para proclamar com a sua humildade o que para nós era uma necessidade”. Com o batismo de Jesus, ficou preparado o Batismo cristão, diretamente instituído por Jesus Cristo e imposto por Ele como lei universal no dia da sua Ascensão: Todo poder me foi dado no céu e na terra, dirá o Senhor; ide, pois, ensinai a todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo (Mt 28, 18-19).

No Batismo do seu Filho, o Pai apresenta, manifesta a Israel o Salvador que ele nos deu, o Menino que nasceu para nós: “Tu és o meu Filho amado; em ti ponho o meu bem-querer”, ou, segundo a versão de Mateus: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”! (3,17)

Estas palavras contêm um significado muito profundo: o Pai apresenta Jesus usando as palavras do profeta Isaías, que ouvimos na primeira leitura da missa. Mas, note-se: Jesus não é somente o Servo; ele é o Filho, o Filho amado! O Servo que o Antigo Testamento anunciava é também o Filho amado eternamente! No entanto, é Filho que sofrerá como o Servo, que deverá exercer sua missão de modo humilde e doloroso!

Às margens do Jordão, Jesus foi ungido com o Espírito Santo como o Messias, o Cristo, aquele que as Escrituras prometiam e Israel esperava. Agora, ele começa publicamente a missão de anunciar e inaugurar o Reino de Deus. Esta missão, ele começou desde que se fez homem por nós; agora, no entanto, vai manifestar-se publicamente, primeiro a Israel e depois a toda a humanidade. É na força do Espírito Santo que ele pregará, fará seus milagres, expulsará Satanás e inaugurará o Reino; é na força do Espírito que ele viverá uma vida de total e amorosa obediência ao Pai e doação aos irmãos até a morte e morte de cruz.

Jesus já começa cumprindo sua missão na humildade: ele entra na fila dos pecadores para ser batizado por João. Ele, que não tinha pecado, assume os nossos pecados, faz-se solidário conosco; ele, o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo! “João tentava dissuadi-lo, dizendo: ‘Eu é que tenho necessidade de ser batizado por ti e tu vens a mim’? Jesus, porém, respondeu-lhe: ‘Deixa estar, pois assim nos convém cumprir toda a justiça’” (Mt 3,14s). Assim convinha, no plano do Pai, que Jesus se humilhasse, se fizesse Servo e assumisse os nossos pecados! Ele veio não na glória, mas na humildade, não na força, mas na fraqueza, não para impor, mas para propor, não para ser servido, mas para servir. Eis o caminho que o Pai indica a Jesus, eis o caminho que Jesus escolhe livremente em obediência ao Pai, eis o caminho dos cristãos.

João diz: “Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu. Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo”. O batismo de João não é o sacramento do Batismo: era somente um sinal exterior de que alguém se reconhecia pecador e queria preparar-se para receber o Messias. Ao ser batizado no Jordão, Jesus é anunciado como o Filho amado, ungido pelo Espírito Santo para iniciar publicamente sua missão. Esta unção será plena na ressurreição, quando o Pai derramará sobre ele o Espírito como vida da sua vida. Então, pleno do Espírito Santo que o ressuscitou, derramará este Espírito, que será também seu Espírito, sobre nós, dando-nos uma nova vida! Para os cristãos, o batismo é no Espírito, simbolizado pela água (Jo 3,5; 7,37-39). Ao sermos batizados, recebemos o Espírito Santo e, por isso, somos participantes da missão de Jesus para viver, testemunhar e anunciar o Reino de Deus, a Vida eterna, a Vida no amor a Deus e aos irmãos, que Jesus veio anunciar ao se fazer homem igual a nós!

Assim, o dia em que fomos batizados foi o mais importante da nossa vida, pois nele recebemos a fé e a graça. Desde cedo a Igreja pediu aos pais que batizassem os seus filhos quanto antes. É uma demonstração prática de fé. Não é um atentado contra a liberdade da criança, da mesma forma que não foi uma ofensa dar-lhe a vida natural, nem alimentá-la, limpá-la, curá-la, quando ela própria não podia pedir esses bens. Pelo contrário, a criança tem direito a receber essa graça. Desde os inícios, a Igreja, quando a família se convertia, batizada toda a família, incluindo as crianças. No Batismo está em jogo um bem infinitamente maior do que qualquer outro: a graça e a fé; talvez a salvação eterna. Só por ignorância e por uma fé adormecida se pode explicar que muitas crianças sejam privadas pelos seus próprios pais, já cristãos, do maior dom da sua vida.

Em virtude do Batismo somos chamados a ser discípulos e missionários de Jesus Cristo. Como diz o Doc. de Aparecida nº 209: “Os fiéis leigos são os cristãos que estão incorporados a Cristo pelo batismo, que formam o povo de Deus e participam das funções de Cristo: sacerdote, profeta e rei. Realizam, segundo a sua condição, a missão de todo o povo cristão na Igreja e no mundo. São homens da Igreja no coração do mundo e homens do mundo no coração da Igreja”.

Cardeal Dom Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
Fonte: CNBB

É Natal

Deus se humilha para que possamos aproximar-nos dEle

Quando chega o Natal, gosto de contemplar as imagens do Menino Jesus. Essas figuras, que nos mostram o Senhor tão humilhado, recordam-me que Deus nos chama, que o Onipotente quis apresentar-se desvalido, quis necessitar dos homens. Da gruta de Belém, Cristo diz a mim e a você que precisa de nós; reclama de nós uma vida cristã sem hesitações, uma vida de doação, de trabalho, de alegria.

Não conseguiremos jamais o verdadeiro bom humor se não imitarmos deveras Jesus, se não formos humildes como Ele. Insistirei de novo: vemos onde se oculta a grandeza de Deus? Num presépio, nuns paninhos, numa gruta. A eficácia redentora de nossas vidas só se produzirá se houver humildade, se deixarmos de pensar em nós mesmos e sentirmos a responsabilidade de ajudar os outros.

É normal, às vezes até entre almas boas, criarem-se conflitos íntimos, que chegam a produzir sérias preocupações, mas que carecem de qualquer base objetiva. Sua origem está na falta de conhecimento próprio, o qual conduz à soberba, ao desejo de se tornarem o centro da atenção e estima de todos, à preocupação de não ficarem mal, de não se resignarem a fazer o bem e desaparecer à ânsia de segurança pessoal. E, assim, muitas almas que poderiam gozar de uma paz extraordinária, saborear um imenso júbilo, transformam-se, por orgulho e presunção, em infelizes e infecundas!

Cristo foi humilde de coração (cf. Mt 11,29). Ao longo da sua vida, não quis para si nenhuma coisa especial, nenhum privilégio. Começa por permanecer nove meses no seio de Sua mãe, como qualquer outro homem, com extrema naturalidade. O Senhor sabia de sobra que a humanidade necessitava d’Ele com urgência. Tinha, portanto, fome de vir à Terra para salvar todas as almas, mas não precipita o tempo. Ele vem na Sua hora, como chegam ao mundo os outros homens. Desde a concepção até o nascimento, ninguém – a não ser São José e Santa Isabel – percebe esta maravilha: Deus veio habitar entre os homens!

O Natal também está rodeado de uma simplicidade admirável: o Senhor vem sem estrondo, desconhecido de todos. Na Terra, só Maria e José participam da divina aventura. Depois, os pastores, avisados pelos anjos. Mais tarde, os sábios do Oriente. Assim se realiza o fato transcendente que une o céu à terra, Deus ao homem!

Como é possível tanta dureza de coração, que cheguemos a nos acostumar a estes episódios? Deus humilha-se para que possamos nos aproximar d’Ele, para que possamos corresponder ao Seu amor com o nosso amor, para que a nossa liberdade se renda não só ante o espetáculo do Seu poder, como também ante a maravilha da Sua humildade.

Grandeza de um Menino que é Deus. Seu Pai é o Deus que fez os céus e a terra, e Ele ali está, num presépio, quia non erat eis locus in diversorio (Lc 2,7) – porque não havia outro lugar na terra – para o dono de toda a Criação. (‘É Cristo que passa’, 18)

Nosso Senhor dirige-se a todos os homens para que caminhem ao Seu encontro, para que sejam santos. Não chama só os Reis Magos, que eram sábios e poderosos; antes disso, tinha enviado aos pastores de Belém, não já uma estrela, mas um de seus anjos (Lc 2,9). No entanto, quer uns quer outros – sejam pobres ou ricos, sábios ou menos sábios – devem fomentar na sua alma uma disposição humilde que permita escutar a voz de Deus. (‘É Cristo que passa’, 33)

“Hoje, brilhará sobre nós a luz, porque nasceu para nós o Senhor!” Eis a grande novidade que comove os cristãos e, por meio deles, dirige-se à humanidade inteira. Deus está aqui! Esta verdade deve tomar posse de nossas vidas. Cada Natal deve ser para nós um novo encontro especial com Deus, que deixe a Sua luz e a Sua graça penetrarem até o fundo da nossa alma. (‘É Cristo que passa’, 12)

São Josemaria Escrivá
Fundador do Opus Dei

Pregações de Advento

São Francisco de Assis “nunca pensou ser chamado para reformar a Igreja”, disse o pregador da casa Pontifícia
Na primeira pregação do Advento, Pe. Raniero Cantalamessa explicou de que forma o patrono da Itália contribuiu para a reforma da Igreja
Por Thácio Lincon Soares de Siqueira

“O propósito destas três meditações do Advento é preparar-nos para o Natal na companhia de Francisco de Assis”, disse Pe. Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia, na sua primeira pregação de Advento dirigida ao Santo Padre e aos prelados da Cúria na manhã desta sexta-feira. Seguindo o Poverello de Assis Pe. Raniero se aventurou em compreender qual o caminho de santidade de São Francisco, caminho este que foi causa de reforma para a Igreja, e, portanto, saber como nós, hoje, poderíamos fazer o mesmo. Em primeiro lugar o pregador da casa pontifícia destacou que a conversão de Giovanni de Pietro de Bernardone não foi propriamente uma obra pessoal, uma obra fruto do esforço pessoal, mas de Deus. “Francisco não escolheu a pobreza e muito menos o pauperismo; escolheu os pobres!” Porém, a escolha verdadeira não se tratou de “escolher entre riqueza e pobreza, nem entre ricos e pobres”, mas “de escolher entre si mesmo e Deus”. Em definitiva, Francisco não “apaixona-se por uma virtude, nem mesmo pela pobreza; apaixona-se por uma pessoa”, Cristo. E no fundo no fundo, não foi ele que o procurou, mas foi o próprio Cristo que “tinha preparado o seu coração para que a sua liberdade, no momento certo, respondesse à graça”. Na época do santo de Assis – destaca Pe. Raniero – “Todos brandiam contra a Igreja o ideal da pobreza e simplicidade evangélica fazendo disso uma arma polêmica, mais do que um ideal espiritual a ser vivido com humildade, chegando a questionar também o ministério da Igreja, o sacerdócio e o papado”. Francisco, porém, nunca teve a intenção de reformar a Igreja, disse Pe. Raniero. “Ele nunca pensou ser chamado para reformar a Igreja”. E relembrando as famosas palavras do crucifixo da Igreja de São Damião “vai, Francisco, e repara a minha Igreja”, o pregador da casa pontifícia exortou a não tirar conclusões erradas e precipitadas de tais palavras. Porque Francisco mesmo “compreendeu aquelas palavras no sentido bastante modesto de ter que reparar materialmente a igrejinha de São Damião”. Portanto, perguntou-se Pe. Raniero, “Se não quis ser um reformador, o que foi que quis ser e fazer Francisco?”. E respondeu dizendo: “Ele realizou em si a reforma e assim indicou tacitamente à Igreja o único caminho para sair da crise: reaproximar-se do evangelho, reaproximar-se dos homens e especialmente dos humildes e dos pobres.” “Francisco não exortava a fazer “penitências”, mas fazer “penitência” (no singular”!) que, veremos, é totalmente outra coisa.” Portanto, reaproximar a Igreja do povo, sem necessariamente distanciar-se da cultura. “Francisco fez no seu tempo aquilo que no tempo do Concílio Vaticano II tentou-se fazer com o lema: “quebrar as muralhas”: quebrar o isolamento da Igreja, trazê-la de novo para o contato com o povo.” Também “Escolhe ser um iletrado mas não condena a ciência.” A verdadeira reforma da Igreja, destacou o Pe. Raniero citando Yves Congar, é a “que permanece tal e não se transforma em cisma: isto é, a capacidade de não absolutizar a própria intuição, mas permanecer solidário com o todo que é a Igreja”. Imitar Francisco hoje, trazer a sua experiência para nossa época, implica começar como o próprio santo começou, convertendo-se, negando-se, porém não esquecendo-se que “a coisa mais importante é aquela positiva: Se queres seguir-me;” Ou seja, “É o seguir Cristo, possuir Cristo. Dizer não a si mesmo é o meio; dizer sim a Cristo é o fim”. O pregador da casa pontifícia terminou a sua primeira meditação de advento reconhecendo que tudo isso é “Uma meta difícil (eu não falo certamente como quem já a alcançou!), mas a história de Francisco, nos mostra o que pode nascer de uma negação de si feita em resposta à graça.”

 

Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap.
Primeira pregação de Advento
FRANCISCO DE ASSIS E A REFORMA DA IGREJA POR MEIO DA SANTIDADE

O propósito destas três meditações do Advento é preparar-nos para o Natal na companhia de Francisco de Assis. Dele, nesta primeira meditação, gostaria de destacar a natureza do seu retorno ao Evangelho. O teólogo Yves Congar, em seu estudo sobre “Verdadeira e falsa reforma na Igreja” vê em Francisco o exemplo mais claro de reforma da Igreja pelo caminho da santidade[1]. Gostaríamos de procurar compreender em que consistiu a sua reforma pelo caminho da santidade e o que o seu exemplo implica para cada época da Igreja, inclusive a nossa.

1. A conversão de Francisco
Para entender um pouco da aventura de Francisco é preciso partir da sua conversão. Desse evento existem, nas fontes, diferentes descrições com notáveis diferenças entre si. Felizmente temos uma fonte absolutamente confiável que nos dispensa de escolher entre as várias versões. Temos o mesmo testemunho de Francisco no seu Testamento, a sua ipsissima vox, como se diz das palavras certamente ditas por Cristo no Evangelho. Diz: «O Senhor concedeu a mim, irmão Francisco, que começasse a fazer penitência assim: quando eu estava nos pecados parecia-me muito amargo ver os leprosos: e o próprio Senhor conduziu-me entre eles e fui misericordioso para com eles. E ao afastar-me deles, o que me parecia amargo foi-me trocado por doçura de alma e corpo. E, depois, demorei só um pouco e saí do mundo” » (FF 110). É sobre esse texto que justamente se baseiam os historiadores, mas com um limite intransponível para eles. Os historiadores, mesmo os mais bem intencionados e mais respeitosos com as peculiaridades da vida de Francisco, como era, entre os italianos Raoul Manselli, não conseguem entender o porquê último da sua mudança radical. Detêm-se – e com razão, por causa do seu método – na porta, falando de um “segredo de Francisco”, destinado a permanecer assim para sempre. O que se consegue constatar historicamente é a decisão de Francisco de mudar o seu status social. De pertença à classe superior, que contava na cidade por nobreza e riqueza, ele escolheu colocar-se no extremo oposto, compartilhando a vida dos últimos, daqueles que não eram nada, os assim chamados “menores”, atingidos por todos os tipos de pobreza. Os historiadores justamente insistem no fato de que Francisco não escolheu a pobreza e muito menos o pauperismo; escolheu os pobres! A mudança é motivada mais pelo mandamento; “Ama o teu próximo como a ti mesmo”, que pelo conselho: “Se queres ser perfeito, vai’, vende tudo o que tens e dá aos pobres, depois vem e segue-me”. Era a compaixão pela pobre gente, mais do que a busca da própria perfeição que o movia, a caridade mais do que a pobreza. Tudo isso é verdade , mas ainda assim não toca o fundo do problema. É o efeito da mudança, não a sua causa. A escolha verdadeira é muito mais radical: não se tratou de escolher entre riqueza e pobreza, nem entre ricos e pobres, entre a pertença a uma classe mais do que a outra, mas de escolher entre si mesmo e Deus, entre salvar a própria vida ou perdê-la pelo Evangelho. Houve alguns (por exemplo, em tempos mais recentes, Simone Weil ), que chegaram a Cristo por meio do amor aos pobres e houve outros que chegaram aos pobres partindo do amor por Cristo. Francisco pertence a este segundo grupo. A razão profunda da sua conversão não é de natureza social, mas evangélica. Jesus tinha formulado a lei uma vez por todas com uma das frases mais solenes e mais certamente autênticas do Evangelho: “Se alguém quer vir após mim , negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá , mas quem perder a sua vida por minha causa a encontrará ” (Mt 16 , 24-25) . Francisco, beijando o leproso, negou-se a si mesmo naquilo que era mais “amargo” e repugnante à sua natureza. Fez violência a si mesmo. O detalhe não escapou ao seu primeiro biógrafo que descreve assim o episódio: “Um dia um leproso parou diante dele: fez violência a si mesmo, aproximou-se dele e o beijou. A partir daquele momento decidiu desprezar-se sempre mais, até que pela misericórdia do Redentor obteve plena vitória”[2]. Francisco não foi voluntariamente aos leprosos, motivado por humana e religiosa compaixão. “O Senhor, escreve, levou-me no meio deles”. É nesse pequeno detalhe que os historiadores não sabem – nem poderiam – dar um juízo, e de fato é a origem de tudo. Jesus tinha preparado o seu coração para que a sua liberdade, no momento certo, respondesse à graça. O sonho de Spoleto tinha servido para isso e a pergunta de se preferia servir o servo ou o patrão, a doença, a prisão em Perugia e aquele mal-estar estranho que não lhe permitia mais encontrar alegria nas diversões e lhe fazia procurar lugares solitários. Embora sem pensar que se tratasse de Jesus em pessoa sob as aparências de um leproso (como mais tarde tentou-se fazer, pensando no caso análogo da vida de São Martinho de Tours[3]), naquele momento o leproso para Francisco representava em todos os aspectos Jesus. Não tinha ele dito: “O fizestes comigo”? Naquele momento escolheu entre si mesmo e Jesus. A conversão de Francisco é da mesma natureza daquela de Paulo. Para Paulo, em um certo momento, aquilo que antes tinha sido “lucro” mudou e tornou-se “perda”, “por amor de Cristo” (Fil 3, 5ss); para Francisco aquilo que tinha sido amargo converteu-se em doçura, também aqui “por Cristo”. Depois deste momento, ambos podem dizer: “Já não sou eu que vivo, mas Cristo vive em mim”. Tudo isso nos obriga a corrigir uma certa imagem de Francisco popularizada pela literatura posterior e aceita por Dante na Divina Comedia. A famosa metáfora das núpcias de Francisco com a Senhora Pobreza que deixou marcas profundas na arte e na poesia franciscanas pode ser enganosa. Não apaixona-se por uma virtude, nem mesmo pela pobreza; apaixona-se por uma pessoa. As núpcias de Francisco foram, como aquelas de outros místicos, um casamento com Cristo. Aos companheiros que lhe perguntavam se ele pretendia ter uma mulher, vendo-o uma noite estranhamente ausente e brilhante, o jovem Francisco respondeu : “Terei a esposa mais nobre e bela que vocês jamais viram”. Esta resposta é muitas vezes mal interpretada. Do contexto aparece claro que a esposa não é a pobreza, mas o tesouro escondido e a pérola preciosa, ou seja, Cristo. “Esposa, comenta Celano que narra o episódio, é a verdadeira religião que ele abraçou; e o reino dos céus é o tesouro escondido que ele procurou”[4]. Francisco não se casou com a pobreza, nem sequer com os pobres; casou-se com Cristo e foi por amor a ele que se casou, por assim dizer “em segundas núpcias” com a Senhora pobreza. Assim será sempre na santidade cristã. Na base do amor pela pobreza e pelos pobres, ou está o amor por Cristo, ou os pobres serão, de um modo ou de outro, instrumentalizados e a pobreza se tornará facilmente um fato polêmico contra a Igreja, ou uma ostentação de maior perfeição com relação a outros na Igreja, como aconteceu, infelizmente, também em alguns dos seguidores do Poverello. Em ambos os casos, faz-se da pobreza a pior forma de riqueza, aquela da própria justiça.

2. Francisco e a reforma da Igreja
Como foi que aconteceu que a partir de um evento tão íntimo e pessoal, como foi a conversão do jovem Francisco, tenha começado um movimento que mudou ao mesmo tempo o rosto da Igreja e teve tanta influência na história, até os nossos dias? É preciso dar uma olhada na situação da época. Na época de Francisco a reforma da Igreja era uma necessidade sentida mais ou menos conscientemente por todos. O corpo da Igreja vivia tensões e lacerações profundas. De um lado estava a Igreja institucional – papa, bispos, alto clero – desgastados pelos seus perenes conflitos e pelas suas alianças muito próximas com o império. Uma Igreja sentida muito distante, envolvida em assuntos muito acima dos interesses do povo. Em seguida, estavam as grandes ordens religiosas, muitas vezes prósperas pela cultura e espiritualidade após as várias reformas do século XI, entre as quais aquela Cisterciense, mas fatalmente identificadas com os grandes proprietários de terras, senhores feudais da época, vizinhos e ao mesmo tempo remotos também eles, por problemas e padrões de vida, do povo comum. No lado oposto havia uma sociedade que começava a emigrar dos campos para as cidades em busca de maior liberdade das várias servidões. Esta parte da sociedade identificava a Igreja com as classes dominantes das quais se sentia a necessidade de libertar-se. Assim, se alinhavam de boa vontade com aqueles que a contradiziam e a combatiam: hereges, grupos radicais e pauperísticos, enquanto simpatizava com o baixo clero, muitas vezes não com a altura espiritual dos prelados, porém mais perto das pessoas. Havia, portanto, fortes tensões que cada um procurava explorar em proveito próprio. A Hierarquia procurava responder a estas tensões melhorando a própria organização e reprimindo os abusos, tanto internamente (luta contra a simonia e concubinato dos padres) quanto externamente na sociedade. Os grupos hostis procuravam, pelo contrário, explodir as tensões, radicalizando o contraste com a Hierarquia dando origem a movimentos mais ou menos cismáticos. Todos brandiam contra a Igreja o ideal da pobreza e simplicidade evangélica fazendo disso uma arma polêmica, mais do que um ideal espiritual a ser vivido com humildade, chegando a questionar também o ministério da Igreja, o sacerdócio e o papado. Estamos acostumados a ver Francisco como o homem providencial que capta essas demandas populares de renovação, as purifica de toda carga polêmica e as traz de volta ou as atua na Igreja em profunda comunhão e submissão a essa. Francisco, portanto, como uma espécie de mediador entre os hereges rebeldes e a Igreja institucional. Em um conhecido manual de história da Igreja é apresentada dessa forma a sua missão: “Já que a riqueza e o poder da Igreja apareciam muitas vezes como uma fonte de graves males e os hereges do tempo a utilizavam como argumento para as principais acusações contra ela, em algumas almas piedosas surgiu o nobre desejo de restaurar a vida pobre de Jesus e da Igreja primitiva, para poder assim mais eficazmente, influenciar no povo com a palavra e o exemplo”[5]. Entre estas almas coloca-se naturalmente em primeiro lugar, juntamente com São Domingos, Francisco de Assis. O historiador protestante Paul Sabatier, embora tão benemérito dos estudos franciscanos, tornou quase canônica entre os historiadores, e não só entre aqueles leigos e protestantes, a tese segundo a qual o cardeal Ugolino (o futuro Papa Gregório IX) teria tido a intenção de captar Francisco para a Cúria, domesticando a carga crítica e revolucionária do seu movimento. Na prática é a tentativa de fazer de Francisco, um precursor de Lutero, ou seja, um reformador pela via de críticas, mais do que da santidade. Não sei se esta intenção possa ser atribuída a algum dos grandes protetores e amigos de Francisco. Parece difícil atribuí-la ao card. Ugolino e menos ainda a Inocêncio III, conhecido pela ação reformadora e o apoio dado às várias formas novas de vida espiritual surgidas em seu tempo, incluído os Frades Menores, os dominicanos, os Humilhados Milaneses. Uma coisa, porém, é absolutamente certa: aquela intenção nunca passou pela mente de Francisco. Ele nunca pensou ser chamado para reformar a Igreja. É preciso ter cuidado para não tirar conclusões erradas das famosas palavras do Crucifixo de São Damião “Vai’, Francisco e repara a minha Igreja que, como vês, está em ruínas”. As fontes mesmas nos asseguram que ele compreendeu aquelas palavras no sentido bastante modesto de ter que reparar materialmente a igrejinha de São Damião. Foram os discípulos e os biógrafos que interpretaram – e, é preciso dizer, não sem razão – aquelas palavras como se referindo à Igreja instituição e não só à Igreja edifício. Ele permaneceu sempre na sua interpretação literal e de fato continuou a reparar outras igrejinhas nos arredores de Assis que estavam em ruínas. Também o sonho em que Inocêncio III teria visto o Poverello sustentar com as suas costas a Igreja de Latrão desmoronando não diz nada de mais. Supondo que o fato seja histórico (um fato análogo também é narrado sobre São Domingos), o sonho foi do papa, não de Francisco! Ele nunca foi visto como o vemos hoje no afresco de Giotto. Isto significa ser reformador pelo caminho da santidade: sê-lo, sem sabê-lo!

3. Francisco e o retorno ao Evangelho
Se não quis ser um reformador, o que foi que quis ser e fazer Francisco? Também aqui temos a sorte de ter o testemunho direto do Santo no seu Testamento: “E depois que o Senhor me deu irmãos , ninguém me mostrou o que eu deveria fazer; mas o mesmo Altíssimo me revelou que eu deveria viver segundo a forma do santo Evangelho. E eu com poucas palavras e simplesmente o fiz escrever, e o senhor Papa mo confirmou”. Fala do momento no qual, durante uma Missa, escutou a passagem do evangelho onde Jesus envia os seus discípulos dizendo: “Enviou-os a pregar o reino de Deus e a curar os enfermos. E disse-lhes: «Nada leveis para o caminho, nem bastão, nem alforje, nem pão, nem dinheiro; tampouco tenhais duas túnicas” (Lc 9, 2-3)[6]. Foi uma revelação impressionante daquelas que orientam toda uma vida. Daquele dia em diante foi clara a sua missão: um retorno simples e radical ao evangelho real, aquele vivido e pregado por Jesus. Restaurar no mundo a forma e o estilo de vida de Jesus e dos apóstolos descrito nos evangelhos. Escrevendo a Regra para os seus frades começará assim: “A regra e a vida dos Frades Menores é esta: observar o santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo”. Francisco não teorizou esta sua descoberta, tornando-a o programa para a reforma da Igreja. Ele realizou em si a reforma e assim indicou tacitamente à Igreja o único caminho para sair da crise: reaproximar-se do evangelho, reaproximar-se dos homens e especialmente dos humildes e dos pobres. Este retorno ao Evangelho reflete-se em primeiro lugar na pregação de Francisco. É surpreendente, mas todos notaram: o Poverello fala quase sempre de “fazer penitência”. A partir de então, diz o Celano, com grande fervor e exultação, ele começou a pregar a penitência, edificando todos com a simplicidade de suas palavras e a generosidade de seu coração. Onde quer que fosse, Francisco dizia, recomendava, suplicava que fizessem penitência[7]. O que é que Francisco compreendia com esta palavra que ele trazia tanto no coração? Neste sentido caímos (pelo menos eu caí por muito tempo) em erro. Reduzimos a mensagem de Francisco a uma simples exortação moral, a um bater-se no peito, angustiar-se e mortificar-se para expiar os pecados, enquanto que tem toda a vastidão e o ar do evangelho de Cristo. Francisco não exortava a fazer “penitências”, mas fazer “penitência” (no singular”!) que, veremos, é totalmente outra coisa. O Poverello, exceto nos poucos casos que conhecemos, escrevia em latim. E o que encontramos no texto latino, do Testamento, quando escreve: “O Senhor deu a mim, frade Francisco, começar a fazer penitência assim”? Encontramos a expressão “poenitentiam agere”. Sabe-se que ele amava expressar-se com as mesmas palavras de Jesus. E esta palavra – fazer penitência – é a palavra com a qual Jesus começou a pregar e que repetia em cada cidade e aldeia onde ia: “Depois que João foi preso, veio Jesus para a Galiléia proclamando o Evangelho de Deus: cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15). A palavra que hoje se traduz com “convertei-vos” ou “arrependei-vos”, no texto da Vulgata usado pelo Poverello, soava “poenitemini” e em Atos 2, 37 ainda mais literalmente “poenitentiam agite”, fazei penitência. Francisco nada fez além de relançar o grande apelo à conversão com o qual se abre a pregação de Jesus no Evangelho e aquela dos apóstolos no dia de Pentecostes. O que ele quis dizer com a palavra “conversão” não precisa explicá-lo: sua vida, ele mostrou. Francisco fez no seu tempo aquilo que no tempo do Concílio Vaticano II tentou-se fazer com o lema: “quebrar as muralhas”: quebrar o isolamento da Igreja, trazê-la de novo para o contato com o povo. Um dos fatores de escuridão do evangelho era a transformação da autoridade compreendida como serviço, em autoridade compreendida como poder que tinha produzido infinitos conflitos dentro e fora da Igreja. Francisco, por sua vez, resolve o problema em senso evangélico. Na sua Ordem, novidade absoluta, os superiores se chamarão ministros, ou seja, servos, e todos os outros frades, ou seja, irmãos. Outro muro de separação entre a Igreja e o povo era a ciência e a cultura da qual o clero e os monges tinham o monopólio na prática. Francisco sabe disso e, portanto, assume a posição drástica que sabemos sobre este ponto. Ele não é contrário à ciência-conhecimento, mas à ciência-poder; aquela que favorece aqueles que sabem ler sobre aqueles que não sabem ler e lhes permite comandar com altivez ao irmão: “Traga-me o breviário”. Durante o famoso Capítulo das Esteiras a alguns dos seus irmãos que queriam empurrá-lo a adequar-se à atitude das “ordens” cultas do tempo, respondeu com palavras de fogo que deixaram, lê-se, os frades tomados de temor: “Irmãos, meus irmãos, Deus me chamou para trilhar o caminho da simplicidade e o mostrou para mim. Não quero, portanto que me citem outrsa Regras, nem aquela de Santo Agostinho, nem aquela de São Bernardo ou de São Bento. O Senhor revelou -me ser sua vontade que eu fosse um idiota no mundo: esta é a ciência à qual Deus quer que nos dediquemos! Ele vos confundirá por meio da vossa mesma ciência e sabedoria”[8]. Sempre a mesma atitude coerente. Ele quer para si e para os seus irmãos a mais rígida pobreza, mas na Regra, exorta-os a “não desprezar e a não julgar os homens que vêm vestidos com hábitos finos e coloridos e usar comida e bebida delicadas, mas sim cada um julgue e despreze a si mesmo”[9]. Escolhe ser um iletrado mas não condena a ciência. Uma vez assegurado que a ciência não extinga “o espírito da santa oração e devoção”, será ele mesmo a permitir a frade Antonio de dedicar-se ao ensino da teologia e São Boaventura não pensa que está traindo o espírito do fundador, abrindo a ordem aos estudos nas grandes universidades. Yves Congar vê nisso uma das condições essenciais da “verdadeira reforma” na Igreja, a reforma, ou seja, que permanece tal e não se transforma em cisma: isto é, a capacidade de não absolutizar a própria intuição, mas permanecer solidário com o todo que é a Igreja[10]. A convicção, diz o Papa Francisco, na sua recente Exortação apostólica Fidei gaudium, que “o todo é superior à parte”.

4. Como imitar Francisco
O que diz a nós hoje a experiência de Francisco? O que podemos imitar dele, todos e rápido? Sejam aqueles que Deus chama a reformar a Igreja pelo caminho da santidade, sejam aqueles que se sentem chamados a renová-la pelo caminho da crítica, sejam aqueles que ele mesmo chama a reformá-la pelo caminho do cargo que ocupam?  A mesma coisa com a qual se começou a aventura espiritual de Francisco: a sua conversão do eu a Deus, a sua negação de si. É assim que nascem os verdadeiros reformadores, aqueles que mudam realmente algo na Igreja. Os mortos a si mesmos. Melhor, aqueles que decidem seriamente morrer a si mesmos, porque se trata de uma empresa que dura toda a vida e também além, se, como dizia brincando santa Teresa de Ávila, o nosso amor próprio morre vinte minutos depois de nós. Dizia um santo monge ortodoxo, Silvano do Monte Athos: “Para ser verdadeiramente livres, é necessário começar a ligar a si mesmo”. Homens como estes são livres com a liberdade do Espírito; nada os para e nada os espanta mais. Tornam-se reformadores pelo caminho da santidade, e não somente pelo caminho do ofício. Mas o que significa a proposta de Jesus de negar-se a si mesmo? É ainda possível propô-la a um mundo que fala somente de auto-realização, auto-afirmação? A negação nunca é fim em si mesmo, nem um ideal em si. A coisa mais importante é aquela positiva: Se queres seguir-me; É o seguir Cristo, possuir Cristo. Dizer não a si mesmo é o meio; dizer sim a Cristo é o fim. Paulo a apresenta como uma espécie de lei do espírito: “Se com a ajuda do Espírito fazes morrer as obras da carne, vivereis” (Rom 8, 13). Isso, como se pode ver, é um morrer para viver; é o oposto da visão filosófica que diz que a vida humana é “um viver para morrer” (Heidegger). Trata-se de saber qual fundamento queremos dar à nossa existência: se o nosso “eu” ou “Cristo”; na linguagem de Paulo, se queremos viver “para nós mesmos”, ou “para o Senhor” (cf. 2 Coríntios 5, 15, Rom 14 , 7-8). Viver “para si mesmos” significa viver para a própria comodidade, a própria glória, o próprio progresso; viver “para o Senhor” significa recolocar sempre em primeiro lugar, nas nossas intenções, a glória de Cristo, os interesses do Reino e da Igreja. Cada “não”, pequeno ou grande, falado a si mesmo por amor, é um sim dito a Cristo. Somente deve-se evitar a ilusão. Não se trata de saber tudo sobre a negação cristã, sua beleza e necessidade; trata-se de passar ao ato, de praticá-la. Um grande mestre de espírito da antiguidade dizia: “É possível despedaçar dez vezes a própria vontade em um brevíssimo tempo; e vos digo como. A pessoa está passeando e vê algo; o seu pensamento lhe diz: “Olha lá”, mas ele responde ao seu pensamento: “Não, não olho”, e despedaça assim a própria vontade. Depois encontra outros que estão falando (leia falando mal de alguém) e o seu pensamento lhe diz: “Fale’ também você aquilo que sabe”, e despedaça a sua vontade calando”[11].  Este antigo Padre traz, como se vê, exemplos tirados todos da vida monástica. Mas eles podem ser atualizados e adaptados facilmente para a vida de cada um, clérigos e leigos. Encontros, se não com um leproso como Francisco, com um pobre que você sabe que vai lhe pedir algo; o seu homem velho te empurra a passar do lado oposto do caminho, e você pelo contrário, se faz violência e lhe vai ao encontro, talvez presenteando-lhe somente com uma saudação e um sorriso, se não pode fazer outra coisa. Oferecem a você a ocasião para um lucro ilícito: e você diz não e negou a si mesmo. Foi contestado em uma ideia; toca o ponto sensível, gostaria de responder com força, cala e espera: despedaçou o seu eu. Acredita ter sido passado pra trás, um tratamento, ou um destino não adequado aos seus merecimentos: gostaria de contar para todos, fechando-se em um silêncio cheio de tácita reprovação. Diz não, quebra o silêncio, sorri e reabre o diálogo. Negou a si mesmo e salvou a caridade. E assim por diante. Um sinal que prova uma boa luta contra o próprio eu, é a capacidade ou ao menos o esforço de alegrar-se pelo bem feito ou a promoção recebida de outro, como se acontecesse consigo mesmo:  “Bem aventurado aquele servo – escreve Francisco em uma das suas Admoestações – que não se orgulha pelo bem que o Senhor diz e obra por meio dele, mas sim pelo bem que diz e obra por meio de outro”. Uma meta difícil (eu não falo certamente como quem já a alcançou!), mas a história de Francisco, nos mostra o que pode nascer de uma negação de si feita em resposta à graça. A meta final é poder dizer com Paulo e com Ele: “Não mais eu que vivo, Cristo vive em mim”. E haverá alegria e paz plenas, já sobre esta terra. Francisco, em sua “perfeita alegria”, é um exemplo vivo da “alegria que vem do Evangelho,” do Evangelii gaudium!

Traduzido do original italiano por Thácio Siqueira
[1] Y.Congar, Vera e falsa riforma nella Chiesa,Milano Jaka Book, 1972, p. 194.
[2] Celano, Vita Prima, VII, 17 (FF 348).
[3] Cf. Celano, Vita Seconda, V, 9 (FF 592)
[4] Cf. Celano, Vita prima, III, 7 (FF, 331).
[5] Bihhmeyer – Tuckle, II, p. 239.
[6] Legenda dei tre compagni VIII (FF 1431 s.).
[7] FF, 358; 1436 s.; 1508.
[8] Legenda perugina 114 (FF 1673).
[9] Regola Bollata, cap. II.
[10] Sobre as condições da verdadeira reforma veja Congar, ob. cit. pp. 177 ss.
[11] Doroteo di Gaza, Opere spirituali, I,20 (SCH 92,p.177).

 

Humildade é “fazer-se pequenos, mas por amor, para ‘elevar’ os outros”, disse Pe. Raniero Cantalamessa, O.F.M. Cap
Na sua segunda pregação de advento o Pregador da Casa Pontifícia discorre sobre a virtude da humildade à exemplo de São Francisco de Assis
Por Thácio Lincon Soares de Siqueira

Na manhã desta sexta-feira, na sua segunda pregação de Advento dirigida ao Santo Padre e aos membros da Cúria Romana, Pe. Raniero dirigiu a sua atenção a uma virtude especial que caracterizou toda a vida de São Francisco de Assis, a humildade. “A virtude da humildade tem um estatuto todo especial – disse o pregador da casa pontifícia – tem-na quem pensa que não a tem, não a tem quem pensa tê-la”. Mostra disso acontece em Maria Santíssima, que tinha a humildade em mais alto grau, mas só Deus sabia disso, ela não, disse Cantalamessa. E isso porque o próprio da humildade é que “o seu odor só é percebido por Deus, não por quem o emana.” Humildade, então, não é olhar para si mesmos ou para as próprias misérias; humildade “é olhar para Deus antes que a si mesmo e medir o abismo que separa o finito do infinito”, disse. “Paradoxalmente, porém, o que mais enchia de assombro a alma de Francisco não era a grandeza de Deus, mas a sua humildade”. Francisco, que dava a Deus o título: “Tu es humildade”, “captou uma verdade profundíssima sobre Deus”, que “Deus é humildade porque é amor” e se encarnou. “Diante das criaturas humanas, Deus se encontra desprovido de qualquer capacidade não só coercitiva, mas também defensiva”, disse, afirmando também que “É possível rejeitá-lo, excluí-lo: ele não se defenderá, deixará fazer”. Cristo é, portanto o segundo motor da humildade de Francisco. O homem-Deus que disse: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração!” (Mt 11, 29). Porém, em que devemos imitar a humildade de Cristo?, perguntou-se o Pregador da Casa Pontifícia. Cristo nunca se reconheceu pecador, muito pelo contrário, se chamou de Mestre e Senhor, disse ser mais do que os maiores profetas. E eis que aqui, diz Pe. Raniero, aprendemos algo novo: “A humildade não consiste principalmente em ser pequenos, porque pode-se ser pequenos, sem ser humildes; não consiste principalmente no sentir-se pequenos” (…) mas no “fazer-se pequenos, e não por alguma necessidade ou utilidade pessoal, mas por amor, para “elevar” os outros”. E “Jesus se fez “pequeno”, como “se fez carne”, ou seja de forma permanente, até o fim. Escolheu pertencer à categoria dos pequenos e dos humildes” para sempre. Então, disse Pe. Cantalamessa, “Esta nova face da humildade é resumida em uma palavra: serviço.”. Algumas considerações práticas sobre a virtude da humildade Pe. Raniero disse que o considerar-se o mais vil e desprezível deve passar primeiro pelo ser considerado pelos demais dessa forma, assim como Francisco, que primeiro foi ridicularizado por amigos e familiares e considerado como “um ingrato, um fanático, alguém que nunca teria feito nada de bom na vida”. O motivo disso é que pretender lutar sozinho contra o orgulho “é como usar o próprio braço para punir a si mesmo: realmente nunca se fará mal.” Pe. Raniero assegurou que a luta contra o orgulho é algo de toda a vida. “O orgulho é capaz de alimentar-se tanto do mal quanto do bem; porém, ao contrário do que acontece com todos os outros vícios, o bem, não o mal, é o terreno de cultivo preferido deste terrível “vírus”.” Finalizando as suas reflexões, disse o Pregador da Casa Pontifícia, que a humildade não é só uma virtude privada, mas também da Igreja como instituição e povo de Deus. E “é com essa, melhor do que com qualquer apologética, que se acalmam as hostilidades e os prejuízos contra ela e se abre o caminho para a aceitação do Evangelho”.

 

Texto completo da segunda pregação de Advento do Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap.
O Frei Capuchinho, Raniero Cantalamessa fala sobre a humildade como verdade e como serviço em Francisco de Assis.

1. Humildade objetiva e humildade subjetiva
Francisco de Assis, vimos na última pregação, é a prova viva de que a reforma mais útil para a Igreja é aquela pelo caminho da santidade, que consiste cada vez em um corajoso retorno ao Evangelho e que deve começar a partir de si mesmos. Nesta segunda meditação gostaria de aprofundar um aspecto do retorno ao Evangelho, uma virtude de Francisco. De acordo com Dante Alighieri, toda a glória de Francisco depende do “seu ter-se feito humilde[1]”, ou seja, da sua humildade. Mas, em que consistiu a proverbial humildade de São Francisco? Em todas as línguas pelas quais a Bíblia passou para chegar até nós, ou seja, em hebraico, grego, latim e italiano, a palavra “humildade” tem dois significados básicos: um objetivo que indica mesquinhez, pequenez ou miséria de fato e um subjetivo que indica o sentimento e o reconhecimento que se tem da própria pequenez. Este último é o que entendemos por virtude da humildade. Quando Maria diz no Magnificat: “Olhou para a humildade (tapeinosis) da sua serva”, entende a humildade no sentido objetivo, não subjetivo! Por isso muito apropriadamente em diferentes idiomas, por exemplo, em alemão, a palavra é traduzida como “pequenez” (Niedrigkeit). Como se pode imaginar, além do mais, que Maria exalte a sua humildade e atribua a essa a escolha de Deus, sem, com isso mesmo, destruir a humildade de Maria? No entanto, às vezes, se escreveu imprudentemente que em Maria não se reconhece nenhuma outra virtude a não ser aquela da humildade, como se, de tal forma, se fizesse uma grande honra, e não pelo contrário um grande erro, com tal virtude. A virtude da humildade tem um estatuto todo especial: a tem quem pensa que não a tem, não a tem quem pensa tê-la. Só Jesus pode declarar-se “humilde de coração” e sê-lo realmente; esta, veremos, é a característica única e irrepetível da humildade do homem-Deus. Maria não tinha, portanto, a virtude da humildade? Claro que tinha e no mais alto grau, mas só Deus sabia isso, ela não. Só este fato, de fato, constitui mérito incomparável da verdadeira humildade: que o seu odor só é percebido por Deus, não por quem o emana. São Bernardo escreve: “O verdadeiro humilde quer ser considerado desprezível, não proclamado humilde”.[2] A humildade de Francisco se coloca nesta linha. O Florilégio nos mostra um episódio significativo a este respeito e, no fundo, certamente histórico. Um dia, voltando S. Francisco de orar no bosque, e ao sair do bosque, o dito Frei Masseo quis experimentar-lhe a humildade; foi-lhe ao encontro e, a modo de gracejo, disse: “Por que a ti? Por que a ti? Por que a ti?” S. Francisco respondeu: “Que queres dizer?” Disse Frei Masseo: “Por que todo o mundo anda atrás de ti e toda a gente parece que deseja ver-te e ouvir-te e obedecer-te? Não és homem belo de corpo, não és de grande ciência, não és nobre: donde vem, pois, que todo o mundo anda atrás de ti?” Ouvindo isto, S. Francisco, todo jubiloso em espírito, levantando a face para o céu por grande espaço de tempo, esteve com a mente enlevada em Deus; e depois, voltando a si, ajoelhou-se e louvou e deu graças a Deus; e depois, com grande fervor de espírito, voltou-se para Frei Masseo e disse: “Queres saber por que a mim? Queres saber por que a mim? Queres saber por que todo o mundo anda atrás de mim? Isto recebi dos olhos de Deus altíssimo, os quais em cada lugar contemplam os bons e os maus: porque aqueles olhos santíssimos não encontraram entre os pecadores nenhum mais vil nem mais insuficiente nem maior pecador do que eu;[3]”

2. A humildade como verdade
A humildade de Francisco tem duas fontes de iluminação, uma de natureza teológica e uma de natureza cristológica. Reflitamos na primeira. Na Bíblia encontramos atos de humildade que não partem do homem, da consideração da própria miséria ou do próprio pecado, mas têm como única razão Deus e a sua santidade. Tal é exclamação de Isaías: “sou um homem de lábios impuros”, de frente à súbita manifestação da glória e da santidade de Deus no templo (Is 6, 5 s); tal é também o grito de Pedro depois da pesca milagrosa: “Afasta-te de mim, que sou um pecador!” (Lc 5, 8). Temos diante de nós a humildade essencial, aquela da criatura que toma consciência de si na presença de Deus. Enquanto a pessoa se comparar consigo mesma, com os outros ou com a sociedade, nunca terá a ideia exata do que ela é; falta-lhe a medida. “Que acento infinito, escreveu Kierkegaard, coloca-se no eu quando tem como medida Deus![4]” Francisco teve de modo eminente esta humildade. Uma máxima que repetia muito era: “O que um homem é diante de Deus, assim é, e nada mais[5]”.  O Florilégio narra que em uma noite, o irmão Leão quis espiar de longe o que fazia Francisco durante a sua oração noturna no bosque da Verna e de longe o ouvia murmurar por muito tempo algumas palavras. No dia seguinte o santo o chamou e, depois de tê-lo amavelmente repreendido por ter desobedecido sua ordem, revelou-lhe o conteúdo de sua oração : “Sabe, frei ovelhinha de Jesus Cristo, que quando eu dizia as palavras que ouviste estavam sendo mostrados a minha alma dois lumes: um da notícia e conhecimento de mim mesmo, o outro da notícia e conhecimento do Criador. Quando eu dizia: Quem és tu, ó dulcíssimo Deus meu? eu estava em lume de contemplação, em que via o abismo da infinita bondade, sabedoria e poder de Deus. E quando eu dizia: Quem sou eu? estava em um lume de contemplação em que via a profundeza lamentável de minha vileza e miséria[6]” Era aquilo que Santo Agostinho pedia a Deus e que considerava a totalidade de toda a sabedoria: “Noverim me, noverim te. Que eu conheça a mim e que eu conheça a ti; que eu me conheça para humilhar-me e que eu conheça a ti para amar-te[7]”. O episódio de Frei Leão foi certamente embelezado, como sempre no Florilégio, mas o conteúdo corresponde perfeitamente à ideia que Francisco tinha de si e de Deus. Prova disso é o começo do Cântico das criaturas com a distância infinita que coloca entre Deus “altíssimo, onipotente, bom Senhor”, a quem deve-se o louvor, a glória, a honra e a benção”, e o mísero mortal que não é digno nem sequer de “mencionar”, isto é, pronunciar, o seu nome. Altíssimo, onipotente, bom Senhor , Teus são o louvor, a glória, a honra e toda a bênção. Só a ti, altíssimo, são devidos; E homem algum é digno de te mencionar. Com esta luz, que eu chamei teológica, a humildade nos aparece essencialmente como verdade. “Me perguntava um dia, escreve Santa Teresa d’Avila, por qual motivo o Senhor ama tanto a humildade e veio-me à mente, de repente, sem nenhuma reflexão minha, que deve ser assim porque ele é a mais alta Verdade e a humildade é verdade[8]”. É uma luz que não humilha, mas pelo contrário dá alegria imensa e exalta. Ser humildes de fato não significa ser infelizes consigo e nem sequer reconhecer a própria miséria, nem, de alguma forma, a própria pequenez. É olhar para Deus antes que a si mesmo e medir o abismo que separa o finito do infinito. Quanto mais se percebe isso, mais se torna humilde. Então começa-se até mesmo a alegrar-se do próprio nada, porque é graças a ele que é possível oferecer a Deus um rosto cuja pequenez e cuja miséria cativou o coração da Santíssima Trindade desde toda a eternidade . Um grande discípula do Poverello, que o Papa Francisco proclamou santa há pouco tempo, Angela da Foligno, perto da morte, exclamou: “Oh, nada desconhecido, oh nada desconhecido! A alma não pode ter melhor visão neste mundo do que contemplar o próprio nada e morar nele como na cela de uma prisão[9]”. “Há um segredo neste conselho, uma verdade que se experimenta provando. Descobre-se então que existe realmente esta cela e que é possível entrar realmente cada vez que se queira. Ela consiste no calmo e tranquilo sentimento de ser um nada diante de Deus, mas um nada amado por ele! Quando se está dentro da cela, desta prisão luminosa, não se vêm mais os defeitos do próximo, ou se vêm em um outra luz. Compreende-se que é possível, com a graça e com o exercício, realizar o que disse o Apóstolo e que parece, à primeira vista, excessivo, isto é, “considerar todos os outros superiores a si” (cf. Fl 2, 3), ou pelo menos se entende como isso possa ter sido possível aos santos. Fechar-se naquela prisão é muito diferente de fechar-se em si mesmos; é, pelo contrário, abrir-se aos outros, ao ser, à objetividade das coisas. O contrário daquilo que sempre pensaram os inimigos da humildade cristã. É fechar-se ao egoísmo, não no egoísmo. É a vitória sobre um dos males que também a moderna psicologia julga funesta para a pessoa humana: o narcisismo. Naquela cela, além do mais, não penetra o inimigo. Um dia, Antônio, o Grande teve uma visão; viu, em um instante, todos os infinitos laços do inimigo estendidos pela terra e disse gemendo: “Quem poderá portanto evitar todos estes laços?” e respondeu-lhe uma voz: “Antônio, a humildade![10]” “Nada, escreve o autor da Imitação de Cristo, conseguirá fazer ensoberbecer aquele que está firmemente fixado em Deus[11]”

3. Humildade como serviço de amor
Falamos da humildade como verdade da criatura diante de Deus. Paradoxalmente, porém, o que mais enchia de assombro a alma de Francisco não era a grandeza de Deus, mas a sua humildade. Nos Louvores de Deus altíssimo que se conservam escritos com sua caligrafia em Assis, entre as perfeições de Deus – “Tu és Santo. Tu és Forte. Tu és Trino e Uno. Tu és Amor, Caridade. Tu és Sabedoria…” – a um certo ponto, Francisco insere um incomum: “Tu és humildade!” Não é um título colocado ali por engano! . Francisco captou uma verdade profundíssima sobre Deus que deveria também maravilhar-nos. Deus é humildade porque é amor. Diante das criaturas humanas, Deus se encontra desprovido de qualquer capacidade não só coercitiva, mas também defensiva. Se os seres humanos escolhem, como fizeram, recusar o seu amor, ele não pode intervir com autoridade para impor-se. Não pode fazer outra coisa além de respeitar a livre escolha dos homens. É possível rejeitá-lo, excluí-lo: ele não se defenderá, deixará fazer. Ou melhor, a sua maneira de defender-se e de defender os homens contra o seu próprio aniquilamento, será aquela de amar ainda e sempre, eternamente. O amor cria por sua própria natureza dependência e a dependência a humildade. Assim é também, misteriosamente, em Deus. O amor fornece, portanto, a chave para entender a humildade de Deus: é preciso pouco poder para se mostrar, é preciso muito mais, porém, para se esconder, para desaparecer. Deus é esta força ilimitada de escondimento de si e como tal se revela na encarnação. Pode ver a manifestação visível da humildade de Deus contemplando Cristo que se coloca de joelhos diante dos seus discípulos para lavar os seus pés – e eram, podemos imaginá-lo, pés sujos -, e ainda mais, quando, reduzido à mais radical impotência na cruz, continua a amar, sem nunca condenar. Francisco captou este nexo estreitíssimo entre a humildade de Deus e a encarnação. Eis algumas das suas fogosas palavras: “Eis que a cada dia ele se humilha, como quando desceu da sede real para o ventre da Virgem; cada dia ele mesmo vem a nós com aparência humilde; cada dia desce do seio do Pai para o altar nas mãos do sacerdote[12]”. “Oh, humildade sublime! Oh, sublimidade humilde, que o Senhor do universo, Deus e Filho de Deus, assim se humilhe ao ponto de esconder-se, para a nossa salvação, sob a pouca aparência de pão! Olhai, irmãos, a humildade de Deus, e abri os vossos corações diante dele[13]”. Descobrimos assim o segundo motor da humildade de Francisco: o exemplo de Cristo. É o mesmo motor que Paulo indicava aos Filipenses quando recomendava-lhes de ter os mesmos sentimentos de Cristo Jesus que  “humilhou-se a si mesmo fazendo-se obediente até a morte” (Fil 2 , 5.8). Antes de Paulo foi o próprio Jesus em pessoa que convidou os discípulos a imitar a sua humildade: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração!” (Mt 11, 29). Em que, poderíamos perguntar-nos, Jesus nos diz para Imitar a sua humildade? Em que Jesus foi humilde? Percorrendo os Evangelhos, nunca encontramos a menor admissão de culpa nos lábios de Jesus, nem quando conversa com os homens, nem quando conversa com o Pai. Esta – a propósito – é uma das provas mais escondidas, mas também das mais convincentes, da divindade de Cristo e da absoluta unicidade da sua consciência. Em nenhum santo, em nenhum grande da história e em nenhum fundador de religião, se encontra uma tal consciência de inocência. Todos reconhecem, mais ou menos, ter cometido alguns erros e ter algo para ser perdoados, pelo menos por Deus. Gandhi, por exemplo, tinha uma consciência agudíssima de ter, em certas ocasiões, tomado posições erradas; também ele teve os seus remorsos. Jesus nunca. Ele pode dizer dirigindo-se aos seus adversários: “Quem dentre vós me acusa de pecado? (Jo 8, 46). Jesus proclama ser “Mestre e Senhor” (cf. Jo 13, 13), de ser mais do que Abraão, Moisés, Jonas, Salomão. Onde, então, a humildade de Jesus, para poder dizer: “Aprendei de mim que sou humilde”? Aqui descobrimos algo importante. A humildade não consiste principalmente em ser pequenos, porque pode-se ser pequenos, sem ser humildes; não consiste principalmente no sentir-se pequenos, porque a pessoa pode sentir-se pequeno e sê-lo realmente e esta seria objetividade, não ainda humildade; sem contar que o sentir-se pequenos e insignificantes pode nascer também de um complexo de inferioridade e levar ao fechamento em si mesmo e ao desespero, em vez de à humildade. Portanto, a humildade, por si, no grau mais perfeito, não é no ser pequenos, não é no sentir-se pequenos, ou proclamar-se pequenos. É no fazer-se pequenos, e não por alguma necessidade ou utilidade pessoal, mas por amor, para “elevar” os outros. Assim foi a humildade de Jesus; ele se fez tão pequeno ao ponto de “desaparecer” mesmo para nós. A humildade de Jesus é a humildade que desce de Deus e que tem o seu modelo supremo em Deus, não no homem. Na posição em que se encontra, Deus não pode “elevar-se”; nada existe acima dele. Se Deus sai de si mesmo e faz algo fora da Trindade, isso só pode ser um abaixar-se e um fazer-se pequeno; só poderá ser, em outras palavras, humildade, ou, como dizia alguns Padres gregos, synkatabasis, ou seja, condescendência. São Francisco faz da “irmã água” o símbolo da humildade, definindo-a “útil, humilde, preciosa e casta”. A água de fato nunca se “exalta”, nunca “sobe”, mas sempre “desce”, até alcançar o ponto mais baixo. O vapor sobe e é por isso o símbolo tradicional do orgulho e da vaidade; a água desce e é por isso símbolo da humildade. Agora sabemos o que quer dizer a palavra de Jesus: “Aprendei de mim que sou humilde”. É um convite a fazer-nos pequenos por amor, a lavar, como ele, os pés dos irmãos. Em Jesus vemos, porém, também a seriedade desta escolha. Não se trata, de fato, de descer e fazer-se pequeno de tanto em tanto, como um rei que, na sua generosidade, de vez em quando, se digna descer entre o povo e talvez também servi-lo com algo. Jesus se fez “pequeno”, como “se fez carne”, ou seja de forma permanente, até o fim. Escolheu pertencer à categoria dos pequenos e dos humildes. Esta nova face da humildade é resumida em uma palavra: serviço. Um dia – lemos no Evangelho – os discípulos tinham discutido uns com os outros sobre quem era o “maior”; então Jesus, “sentando-se” – como para dar maior solenidade à lição que estava prestes a dar -, chamou os Doze e disse-lhes: “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos” (Mc 9 , 35). Quem quer ser o “primeiro” seja o ” último”, ou seja, desça, se abaixe. Mas, depois explica o que compreende por último: seja o “servo” de todos. A humildade proclamada por Jesus é portanto serviço. No Evangelho de Mateus, esta lição de Jesus é proclamada com um exemplo: “Exatamente como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mt 20 , 28).

4. Uma Igreja humilde
Algumas considerações práticas sobre a virtude da humildade, tomadas em todas as suas manifestações, ou seja, tanto na relação com Deus quanto na relação com os homens. Não devemos nos iludir pensando que alcançamos a humildade só porque a palavra de Deus nos tenha levado a descobrir o nosso nada e nos tenha mostrado que ela tem que traduzir-se em serviço fraterno. Até que ponto chegamos de fato à humildade se vê quando a iniciativa passa de nós para os outros, ou seja, quando não somos mais nós que reconhecemos os nossos defeitos e erros, mas são os outros que o fazem; quando não somos somente capazes de dizer-nos a verdade, mas também de deixar que os outros a digam, de boa vontade. Antes de reconhecer-se diante de Frei Matteo como o mais vil dos homens, Francisco tinha aceitado de bom grado e por um longo tempo, ser ridicularizado, considerado por amigos, familiares e por toda a cidade de Assis, um ingrato, um fanático, alguém que nunca teria feito nada de bom na vida. Em que ponto estamos na luta contra o orgulho, se vê, em outras palavras, do como nós reagimos, externamente ou internamente, quando somos contrariados, corrigidos, criticados ou deixados de lado. Pretender matar o próprio orgulho batendo nele sozinhos, sem a intervenção de fora de ninguém, é como usar o próprio braço para punir a si mesmo: realmente nunca se fará mal. É como se um médico quisesse tirar um tumor dele mesmo sozinho. Quando tento receber glória de um homem por qualquer coisa que eu diga ou faça, é quase certo que quem está na minha frente tenta receber glória de mim a respeito de como escuta e como responde. E acontece assim que cada um busca a sua própria glória e ninguém a recebe e, se, por acaso, a recebe não é mais do que “vaidade”, ou seja, glória vazia, destinada a dissolver-se em fumaça com a morte. Mas o efeito é igualmente terrível; Jesus atribuía à busca da própria glória até mesmo a impossibilidade de crer. Dizia aos fariseus: “Como podeis crer, vós que recebeis glória uns dos outros, e não procurais a glória que vem do Deus único?” (Jo 5, 44). Quando nos encontremos imersos em pensamentos e desejos de glória humana, joguemos na mistura de tais pensamentos, como uma tocha ardente, a palavra que Jesus mesmo usou e que nos deixou: “Eu não busco a minha glória!” (Jo 8, 50). A luta da humildade dura a vida inteira e se estende a todos os aspectos da mesma. O orgulho é capaz de alimentar-se tanto do mal quanto do bem; porém, ao contrário do que acontece com todos os outros vícios, o bem, não o mal, é o terreno de cultivo preferido deste terrível “vírus”. Escreve sabiamente o filósofo Pascal: “A vaidade tem raízes tão profundas no coração do homem que um soldado, um servo da milícia, um cozinheiro, um carregador se gaba e finge ter seus admiradores e os mesmos filósofos os querem. E aqueles que escrevem contra a vanglória aspiram à glória de terem escrito bem, e aqueles que os leem, a vangloria de tê-los lido; e eu, que escrevo isto, talvez tenha o mesmo desejo; e aqueles que me leem talvez também[14]”. Para que o homem “não se ensoberbeça”, Deus geralmente o fixa no chão com uma espécie de âncora; coloca do seu lado, como com São Paulo, um “mensageiro de Satanás que o fere”, “um espinho na carne” (2 cor 12, 7). Não sabemos exatamente o que fosse exatamente para o Apóstolo este “espinho na carne”, mas sabemos bem o que é para nós! Cada um que queira seguir o Senhor e servir a Igreja o tem. São situações humilhantes que nos lembram constantemente, às vezes de noite e de dia, a dura realidade daquilo que nós somos. Pode ser um defeito, uma doença, uma fraqueza, uma impotência, que o Senhor nos deixa, apesar de todas as súplicas; uma tentação persistente e humilhante, talvez mesmo uma tentação de soberba; uma pessoa com a qual somos obrigamos a conviver e que, apesar da retidão de ambas as partes, tem o poder de tirar fora a nossa fragilidade, de demolir a nossa presunção. A humildade não é apenas uma virtude privada. Existe uma humildade que deve brilhar na Igreja como instituição e povo de Deus. Se Deus é humildade, também a Igreja deve ser humildade; se Cristo serviu, também a Igreja deve servir, e servir por amor. Por muito tempo a Igreja, no seu conjunto, tem apresentado ao mundo a verdade de Cristo, mas talvez não muito a humildade de Cristo. No entanto, é com essa, melhor do que com qualquer apologética, que se acalmam as hostilidade e os prejuízos contra ela e se abre o caminho para a aceitação do Evangelho. Há um episódio de Os noivos de Manzoni que contém uma profunda verdade psicológica e evangélica. Frei Cristoforo, acabado o noviciado, decide pedir publicamente perdão aos parentes do homem que, antes de fazer-se frade, matou em um duelo. A família se enfileira, formando uma espécie de forcas caudinas, de modo que o gesto se torne o mais humilhante possível para o frade e de maior satisfação para o orgulho da família. Mas, quando veem o jovem frade abaixar a testa no chão, ajoelhar-se diante do irmão do morto e pedir perdão, cai a arrogância, são eles que se sentem confusos e pedem perdão, até que ao final todos se apertam para beijar-lhe a mão e encomendar-se às suas orações[15]. São os milagres da humildade. No profeta Sofonias Deus diz: “Deixarei em teu seio um povo humilde e pobre, e procurará refúgio no nome do Senhor” (Sof 3, 12). Esta palavra ainda é atual e talvez também dessa dependerá o sucesso da evangelização na qual a Igreja está comprometida. Agora sou eu que, antes de terminar, tenho que lembrar a mim mesmo uma máxima querida por São Francisco. Ele repetia muitas vezes: “Carlos imperador, Orlando, Oliviero, todos os paladinos trouxeram uma vitória gloriosa e inesquecível… Mas há muitos que, somente com a narração dos seus feitos, querem receber honra e glória dos outros homens[16]”. Usava este exemplo para dizer que os santos praticaram as virtudes e outros procuram a glória somente narrando isso aos outros[17]. Para que também eu não entre nesse número, me esforço por colocar em prática o conselho que um antigo Pai do deserto, Isaque de Nínive, dava a quem é obrigado pelo dever a falar de coisas espirituais, às quais ainda não chegou com a própria vida: “Fale delas, dizia, como alguém que pertence à classe dos discípulos e não com autoridade, depois de ter humilhado a tua alma e de ter-se feito menor do que todos os teus ouvintes”. Com este espírito, Santo Padre, Veneráveis Pais, irmãos e irmãs, ousei falar-vos de humildade.

(Traduzido do original italiano por Thácio Siqueira/ ZENIT)
[1] Paraíso XI, 111.
[2] S. Bernardo de Claraval, Sermões sobre o Cântico, XVI, 10 (PL 183,853).
[3] Fioretti, cap. X.
[4] S. Kierkegaard, La malattia mortale,II, cap.1.  in Opere, a cura di C. Fabro, Sansoni, Firenze 1972, pp.662 s.
[5] Ammonizioni, XIX (FF 169); cf. também S. Bonaventura, Legenda maggiore, VI,1 (FF 1103).
[6] Considerações dos Sagrados Estigmas, III (FF 1916).
[7] S. Agostinho, Soliloquios,I,1,3; II, 1, 1 (PL 32, 870.885).
[8] S. Teresa d’Avila, Castelo Interior, VI dim., cap. 10.
[9] Il libro della B. Angela da Foligno, Quaracchi, 1985, p. 737.
[10] Apophtegmata Patrum, Antonio 7: PG 65, 77.
[11] Imitação de Cristo, II, cap. 10.
[12] Admoestações,I (FF 144).
[13] Carta à toda a Ordem (FF 221)
[14] B. Pascal, Pensieri, n. 150 Br.
[15] A. Manzoni,  Os Noivos, cap. IV.
[16] Admoestações VI (FF 155)
[17] Celano, Vida segunda, 72 (FF 1626)

 

Como São Francisco: degustar o mistério do Natal com os olhos e com os lábios
Última pregação do advento: pe. Cantalamessa analisa a humildade da encarnação a partir do ponto de vista do Pobrezinho de Assis e nos convida a “amar, socorrer e evangelizar” os pobres
Por Salvatore Cernuzio

Terceira e última pregação do advento, feita pelo pe. Raniero Cantalamessa. Depois de abordar a figura de São Francisco e de explicar como a Igreja inteira foi reformada graças àquele humilde frade, o pregador da Casa Pontifícia agora analisa o mistério do Natal, daquele “pobre Rei recém-nascido” encarnado na pequena cidade de Belém. O capuchinho lembrou ainda a tradição do presépio, criado pelo Santo de Assis na cidade de Greccio, e salientou que ele “nos ajuda a integrar a visão ontológica da encarnação com a visão mais existencial e religiosa”. “Não importa apenas saber que Deus se fez homem”, disse Cantalamessa, mas também “saber que tipo de homem ele se fez”. Entre São João e São Paulo já se percebem perspectivas diferentes, embora complementares, do evento da encarnação. Para João, “o Verbo se fez carne”; para Paulo, “Cristo, sendo rico, se fez pobre”. São Francisco “se alinha com São Paulo”, porque, “mais do que na realidade ontológica da humanidade de Cristo, ele insiste, até a comoção, na humildade e na pobreza dela”. Segundo as fontes, “a humildade da encarnação e a caridade da paixão” tinham o poder de levar o santo de Assis até as lágrimas. Uma vez, um frade lhe recordou, durante almoço, da pobreza e da indigência da Virgem Maria e do seu Filho. São Francisco imediatamente se levantou da mesa, explodiu em soluços de dor e, com as lágrimas lhe escorrendo pelo rosto, comeu o resto do pão sobre a terra nua. “O santo padroeiro da Itália devolveu ‘carne e sangue’ aos mistérios do cristianismo, tantas vezes ‘desencarnados’ e reduzidos a conceitos e silogismos”. A sua distinção “entre o fato da encarnação e o modo da encarnação”, disse o pregador da Casa Pontifícia, “lança luz sobre o problema atual da pobreza e da postura dos cristãos perante ela”. Em sua encarnação, Cristo “assumiu, de forma muito especial, o pobre, o humilde, o sofredor, a ponto de se identificar com eles”. No pobre há uma presença “real” de Cristo, não, é claro, como na Eucaristia, mas do jeito que Jesus disse: “Aquele certo alguém necessitado de um pouco de pão, aquele idoso que morria enrijecido de frio na calçada, era eu”. Cantalamessa prosseguiu: “Não acolhe plenamente a Cristo quem não está disposto a acolher o pobre com quem Cristo se identificou”. O pobre é um “vigário passivo de Cristo”, no seguinte sentido: “aquilo que se faz ao pobre é como se fosse feito a Cristo”. É por isso que João XXIII, no concílio, cunhou a expressão “Igreja dos pobres”, indicando que “todos os pobres do mundo, batizados ou não, fazem parte da Igreja”. Segue-se que o papa é o “pai dos pobres” e é “uma alegria ver como este papel tem sido levado a sério pelos últimos papas”, em particular pelo papa atual. No entanto, constatou o pregador, “nós temos a tendência de colocar paredes de vidro duplo entre nós e os pobres. Vemos os pobres andando, se agitando, gritando por trás da tela da televisão, nas páginas dos jornais e nas revistas missionárias, mas o seu clamor nos chega como de muito longe. Não penetra o nosso coração”. As palavras “pobre”, “imigrante”, provocam, nos países ricos, “o mesmo efeito que provocava nos antigos romanos o grito de “bárbaros”: o desconcerto, o pânico”. “Nós lamentamos e protestamos pelas crianças impedidas de nascer, mas não deveríamos fazer o mesmo pelos milhões de crianças que nascem e são condenado à morte pela fome, pela doença, forçadas a ir para a guerra e a matar umas as outras em nome de interesses que não são alheios a nós, dos países ricos?”. Devemos protestar não só “pelos idosos, pelos doentes, pelos deformados que a eutanásia ajuda a matar”, mas também “pelos idosos que morrem de frio ou que são abandonados à própria sorte”. O primeiro passo, portanto, é “superar a indiferença e a insensibilidade, é perceber os pobres”. Três palavras são essenciais: “amá-los, socorrê-los, evangelizá-los”. Amá-los no sentido de “respeitar e reconhecer a sua dignidade”, a exemplo de santos como São Francisco, São Vicente de Paulo e Santa Teresa de Calcutá, “cujo amor pelos pobres foi o caminho da sua santidade”. Os pobres “não merecem só a nossa simpatia, mas também a nossa admiração”, porque “eles são os verdadeiros campeões da humanidade”. Nós distribuímos tantos troféus e medalhas de ouro para quem simplesmente pulou um centímetro a mais do que o outro, mas não levamos em nenhuma consideração “os saltos mortais, as provas de força, os slalom de que os pobres são capazes tantas vezes” para sobreviver. Ao dever de amar os pobres, segue o de socorrê-los. “De que adianta ter pena de um irmão ou de uma irmã carente de roupa e de alimento e só dizer ‘Coitado, como você sofre! Vá, se aqueça, coma!’, sem lhe dar nada para se aquecer e para comer?”, perguntou o padre Cantalamessa, ecoando as palavras de São Tiago: “a compaixão, assim como a fé, sem obras é morta”. E acrescentou que, “no dia do juízo, Jesus não dirá: ‘Eu estava nu e tivestes pena de mim’, mas ‘Eu estava nu e me vestistes’. Não devemos culpar a Deus pela miséria do mundo, mas a nós mesmos”. Hoje não basta “a simples esmola”: podem ser feitas muitas coisas “para socorrer” os pobres e “promover a sua ascensão”. Entre elas, evangelizar: “Não podemos permitir que a nossa má consciência nos leve a cometer a enorme injustiça de privar da boa notícia aqueles que são os primeiros e mais naturais destinatários dela”, afirmou Cantalamessa. “A ação social deve acompanhar a evangelização, nunca substituí-la”. Os pobres “têm o direito sacrossanto de ouvir o evangelho na sua totalidade, e não numa edição resumida ou controversa”. Para finalizar, o pe. Raniero voltou a refletir sobre Francisco de Assis e explicou que, para ele, o Natal não era “apenas uma oportunidade de chorar a pobreza de Cristo”, mas uma festa que “fazia explodir toda a capacidade de exultação que havia em seu coração. No Natal, ele fazia loucuras literalmente, se tornava uma daquelas crianças que ficam sempre com os olhos cheios de maravilhamento diante do presépio, e, toda vez que dizia ‘Jesus’ ou ‘Menino de Belém’, passava a língua pelos lábios como a saborear e reter toda a doçura daquelas palavras”. Nós também, convidou Cantalamessa, podemos saborear os sentimentos de São Francisco. O capuchinho encerrou suas palavras recitando os versos de um popular canto natalino italiano, “Tu scendi dalle stelle” [Tu desces das estrelas], musicado por Santo Afonso Maria de Ligório, e propondo: “Deixemo-nos comover pela mensagem simples, mas essencial” deste canto.

 

Terceira e última pregação de Advento que o pregador da casa pontifícia, Pe. Raniero Cantalamessa, OFM. Cap. pronunciou hoje ao Papa e à Cúria Romana.
O mistério da Encarnação contemplado com os olhos de Francisco de Assis

1. Greccio e a instituição do presépio
Todos nós conhecemos a história de Francisco que, em Greccio, três anos antes de sua morte, deu início à tradição natalícia do presépio; mas é bom recordá-la, brevemente, nesta circunstância. Celano escreve assim: “Uns quinze dias antes do Natal, São Francisco mandou chamá-lo, como costumava fazer, e disse: “Se você quiser que celebremos o Natal em Greccio, é bom começar a preparar diligentemente e desde já o que eu vou dizer. Quero lembrar o menino que nasceu em Belém, os apertos que passou, como foi posto num presépio, e contemplar com os próprios olhos como ficou em cima da palha, entre o boi e o burro”. […].E veio o dia da alegria. O santo vestiu dalmática, porque era diácono, e cantou com voz sonora o santo Evangelho. De fato, era “uma voz forte, doce, clara e sonora”, convidando a todos às alegrias eternas. Depois pregou ao povo presente, dizendo coisas doces como o mel sobre o nascimento do Rei pobre e sobre a pequena cidade de Belém.[1]” A importância do episódio não está tanto no fato em si e nem sequer na influência espetacular que teve na tradição cristã; está na novidade que isso revela a respeito da compreensão que o santo tinha do mistério da encarnação. A insistência demasiado unilateral, e às vezes até obsessiva, sobre os aspectos ontológicos da Encarnação (natureza, pessoa, união hipostática, comunicação dos idiomas) tinha feito muitas vezes perder de vista a verdadeira natureza do mistério cristão, reduzindo-o a um mistério especulativo, que deve ser formulado com categorias cada vez mais rigorosas, mas muito distantes do alcance do povo. Francisco de Assis nos ajuda a integrar a visão ontológica da Encarnação com aquela mais existencial e religiosa. Não importa, de fato, só saber que Deus se fez homem; importa também saber que tipo de homem se fez. É significativo o modo diferente e complementar com o qual João e Paulo descrevem o evento da encarnação. Para João, consiste no fato de que o Verbo, que era Deus, se fez carne (cf. Jo 1,1-14); para Paulo, consiste no fato de que “Cristo, sendo de natureza divina, assumiu a forma de servo e se humilhou a si mesmo fazendo-se obediente até a morte” (cf. Fl 2 , 5 ss.). Para João, o Verbo, sendo Deus, se fez homem; para Paulo “Cristo, sendo rico, se fez pobre” (cf. 2 Cor 8, 9). Francisco de Assis segue a lógica de São Paulo. Ao invés da realidade ontológica da humanidade de Cristo (na qual ele acredita firmemente com toda a Igreja), ele insiste, até à comoção, na humildade e na pobreza dela. Duas coisas, dizem as fontes, tinham o poder de comovê-lo até as lágrimas, cada vez que as escutava: “a humildade da encarnação e a caridade da sua paixão[2]”.  “Não consegui reprimir as lágrimas, ao pensar na extrema pobreza que padeceu nesse dia a Virgem Senhora pobrezinha. Uma vez, estando sentado à mesa a comer, e tendo um irmão recordado a pobreza da bem-aventurada Virgem e de seu Filho, imediatamente se levantou a chorar e a soluçar, e, com o rosto banhado em lágrimas, comeu o resto do pão sobre a terra nua[3]”. Francisco recolocou dessa forma “carne e sangue” nos mistérios do cristianismo, muitas vezes “desencarnados” e reduzidos a conceitos e silogismos nas escolas teológicas e nos livros. Um estudioso alemão viu em Francisco de Assis aquele que criou condições para o nascimento da arte moderna da Renascença, enquanto que dissolve pessoas e eventos sacros da rigidez estilizada do passado e lhes dá concretude e vida[4].

2. O Natal e os pobres
A diferença entre o  fato  da encarnação e o modo dela, entre a sua dimensão ontológica e aquela existencial, nos interessa porque lança luz sobre o problema atual da pobreza e da atitude dos cristãos para com ela. Ajuda a dar uma base bíblica e teológica para a opção preferencial pelos pobres, proclamada no Concílio Vaticano II. Se, pelo fato da encarnação, o Verbo, de certa forma, assumiu cada homem, como diziam certos Padres da Igreja, pelo modo em que ocorreu a encarnação, ele assumiu, de uma forma muito especial, o pobre, o humilde, o sofredor, a ponto de se identificar com eles. É claro que no pobre não se tem o mesmo gênero de presença de Cristo que se tem na Eucaristia e nos outros sacramentos, mas trata-se de uma presença, também essa, verdadeira, “real”. Ele “instituiu” este sinal, como instituiu a Eucaristia. Aquele que pronunciou sobre o pão as palavras: “Este é o meu corpo”, disse essas mesmas palavras também dos pobres. Disse-as quando, falando daquilo que se fizer, ou não se fizer, pelo faminto, o sedento, o prisioneiro, o desnudo e o desterrado, declarou solenemente: “O fizestes a mim” e “Não o fizestes a mim”. De fato isso equivale a dizer: “Aquela certa pessoa esfarrapada, necessitada de um pouco de pão, aquele ancião que morria entorpecido de frio nas calçadas, era eu!”. “Os Padres conciliares – escreveu Jean Guitton, observador leigo do Vaticano II, reencontraram o sacramento da pobreza, a presença de Cristo sob as espécies daqueles que sofrem[5]”. Não aceita plenamente a Cristo quem não estiver disposto a aceitar o pobre com o qual ele se identificou. Quem, no momento da comunhão, se aproxima cheio de fervor para receber a Cristo, mas tem o seu coração fechado para os pobres, se assemelha, diria Santo Agostinho, a alguém que vê se aproximar de longe um amigo que não vê há anos. Cheio de alegria, corre para encontrá-lo, fica na ponta dos pés para beijar sua testa, mas ao fazê-lo não percebe que está esmagando os seus pés com sapatos com pregos. Os pobres são os pés descalços que Cristo ainda colocou sobre esta terra. Também o pobre é um “vigário de Cristo”, aquele que faz as vezes de Cristo. Vigário, no sentido passivo, não ativo. Ou seja, não no sentido de que aquilo que faz o pobre é como se Cristo o fizesse, mas no sentido em que aquilo que se faz ao pobre é como se o fizesse a Cristo. É verdade, como escreve São Leão Magno, que depois da ascensão, “tudo aquilo que havia de visível em Nosso Senhor Jesus Cristo passou nos sinais sacramentais da Igreja[6]”, mas é igualmente verdade que, do ponto de vista da existência, isso também passou nos pobres e em todos aqueles dos quais ele disse: “o fizestes a mim”. Tragamos a consequência que deriva de tudo isso em termos de eclesiologia. João XXIII, no Concílio, cunhou a expressão “Igreja dos pobres[7]”. É, talvez, um significado que vai além do que se entende à primeira vista. A Igreja dos pobres não é constituída apenas pelos pobres da Igreja! Em certo sentido, todos os pobres do mundo, sejam batizados ou não, fazem parte. A sua pobreza e sofrimento é o seu batismo de sangue. Se os cristãos são aqueles que foram “batizados na morte de Cristo” (Rm 6, 3), quem é, de fato, mais batizado na morte de Cristo do que eles? Como não considerá-los, de alguma forma, Igreja de Cristo, se o próprio Cristo declarou que eles são o seu corpo? Eles são “cristãos”, não porque se declaram membros de Cristo, mas porque Cristo os declarou membros de si: “O fizestes a mim!”. Se existe um caso em que o polêmico termo “cristãos anônimos” pode ter uma aplicação plausível, é precisamente este dos pobres. A Igreja de Cristo é, portanto, muito maior do que o que as estatísticas atuais dizem. Não só como modo de dizer, mas verdadeiramente, realmente. Nenhum dos fundadores de religiões se identificou com os pobres como fez Jesus. Nenhum proclamou: “Tudo aquilo que fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25, 40), onde o “irmão mais pequenino” não  indica somente o crente em Cristo, mas, como é aceito por todos, cada homem. Segue-se disso que o Papa, vigário de Cristo, é realmente o “pai dos pobres”, o pastor deste imenso rebanho, e é uma alegria e uma inspiração para todo o povo cristão ver como este papel tem sido levado a sério pelos últimos Sumos Pontífices e de uma maneira especial pelo pastor que hoje está sentado na Cátedra de Pedro. Ele é a voz mais respeitável que se eleva na defesa deles. A voz dos sem voz. Realmente não se “esqueceu dos pobres”! O que escreve o Papa, na recente exortação apostólica, sobre a necessidade de não ficar indiferente ante o drama da pobreza no mundo globalizado de hoje, me fez pensar em uma imagem. Temos a tendência de colocar entre nós e os pobres, vidros duplos. O efeito dos vidros duplos, muito utilizado hoje na construção, é que ele impede a passagem do frio, calor e do ruído, suaviza tudo, atenua, abafa tudo. E, de fato, vemos os pobres mover-se, agitar-se, gritar por trás da tela da televisão, nas páginas dos jornais e das revistas missionárias, mas o seu clamor nos chega como de longe. Não nos penetra o coração. Falo-o para a minha própria confusão e vergonha. A palavra: “os pobres” provoca, nos países ricos, aquilo que provocava nos romanos antigos o grito “os bárbaros”!: o choque, o pânico. Eles se preocupavam por construir muros e enviar exércitos às fronteiras para mantê-los afastados; nós fazemos a mesma coisa, de outras maneiras. Mas a história diz que é inútil. Choramos e reclamamos – e com razão! – pelas crianças que são impedidas de nascer, mas não devemos fazer o mesmo pelas milhões de crianças nascidas e condenadas à morte pela fome, doenças, crianças obrigadas a ir para a guerra e matar-se entre si por interesses que não são estranhos a nós dos países ricos? Não será porque a primeira pertence ao nosso continente e têm a nossa própria cor, enquanto a segunda pertence a outro continente e tem uma cor diferente? Protestamos – e mais do que com razão! – pelos idosos, os doentes, os deformados ajudados (às vezes forçados) a morrer com a eutanásia; mas não deveríamos fazer o mesmo pelos anciãos que morrem congelados de frio ou abandonados à sua sorte sozinhos? A lei do liberalismo econômico do “viver e deixar viver” nunca deveria transformar-se na lei do “viver e deixar morrer”, como está acontecendo em todo o mundo. É claro que a lei natural é santa, mas é precisamente para ter a força de aplica-la que temos necessidade de recomeçar da fé em Jesus Cristo. São Paulo escreveu: “O que era impossível à Lei, porque enfraquecida pela carne, Deus tornou possível, enviando o seu próprio Filho” (Rm 8, 3). Os primeiros cristãos, com os seus costumes, ajudaram o estado a mudar as próprias leis; nós cristãos de hoje não podemos fazer o contrário e pensar que seja o estado com as suas leis que têm o dever de mudar os costumes do povo.

3. Amar, socorrer, evangelizar os pobres
A primeira coisa a ser feita, com relação aos pobres, é, portanto quebrar os vidros duplos, superar a indiferença e a insensibilidade. Devemos, como, aliás, o Papa nos exorta: “Dar-nos conta” dos pobres, deixar-nos tomar por uma preocupação saudável pela sua presença no meio de nós, muitas vezes, a uma curta distância da nossa casa. O que precisamos fazer em concreto por eles, pode ser resumido em três palavras: amá-los, socorrê-los, evangeliza-los. Amar os pobres. O amor pelos pobres é um dos traços mais comuns da santidade católica. No próprio São Francisco, como vimos na primeira meditação, o amor pelos pobres, a partir de Cristo pobre, vem antes do que o amor pela pobreza e foi esse que o levou a casar-se com a pobreza. Para alguns santos, como São Vicente de Paulo, Madre Teresa de Calcutá e muitos outros, o amor para com os pobres foi, de fato, o seu caminho para a santidade, o seu carisma. Amar os pobres significa antes de tudo respeitá-los e reconhecer a sua dignidade. Neles, por causa da falta de outros títulos e distinções secundárias, brilha com uma luz mais brilhante a radical dignidade do ser humano. Em uma homilia de Natal realizada em Milão, o cardeal Montini dizia: “A visão completa da vida humana sob a luz de Cristo vê em um pobre algo mais do que um necessitado; vê neles um irmão misteriosamente revestido de uma dignidade, que exige pagar-lhe reverência, recebê-lo com cuidado, compadece-lo além do mérito[8]”. Mas os pobres não só merecem a nossa piedade; também merecem a nossa admiração. Eles são os verdadeiros campeões da humanidade. São distribuídos anualmente taças, medalhas de ouro, de prata, de bronze, ao mérito, à memória ou aos vencedores de competições. E talvez só porque foram capazes de correr em uma fração de segundos menos do que os outros, os cem, duzentos ou quatrocentos metros com barreiras, ou de saltar um centímetro mais alto do que os outros, ou de vencer uma maratona ou uma corrida de slalom. Contudo, se alguém observasse de quais saltos mortais, de quais forças, de quais slalom, são capazes, às vezes, os pobres, e não uma vez, mas durante toda a vida, o desempenho dos mais famosos atletas nos pareceriam joguinhos de crianças. O que é uma maratona em comparação, por exemplo, ao que faz um homem-riquixá de Calcutá, que no final de sua vida andou a pé o equivalente a várias voltas ao redor da terra, no calor mais extenuante, puxando um ou dois passageiros, por estradas ruins, entre buracos e poças d’água, deslizando-se entre um carro e outro para não ser atropelado? Francisco de Assis nos ajuda a descobrir uma razão ainda mais forte para amar os pobres: o fato de que eles não são simplesmente os nossos “semelhantes” ou o nosso “próximo”: são nossos irmãos! Jesus tinha falado: “Um só é o vosso Pai celeste e vós sois todos irmãos” (cf. Mt 23,8-9), mas esta palavra foi compreendida até agora como direcionada somente aos discípulos. Na tradição cristã, irmão no sentido estrito é somente aquele que compartilha da mesma fé e recebeu o mesmo batismo. Francisco retoma a palavra de Cristo e dá a ela um sentido universal que é aquele que certamente tinha em mente também Jesus. Francisco colocou “todo o mundo em estado de fraternidade[9]”. Chama irmãos não apenas os seus irmãos e companheiros de fé, mas também os leprosos, os ladrões, os sarracenos, ou seja, crentes e não-crentes, bons e maus, especialmente os pobres. Novidade, esta, absoluta, que estende o conceito de irmão e irmã também às criaturas inanimadas: o sol, a lua, a terra, a água e até mesmo a morte. Isso, evidentemente, é poesia, mais do que teologia. O santo sabe bem que entre essas criaturas e os seres humanos, feitos à imagem de Deus, há a mesma diferença do que entre o filho de um artista e as obras criadas por ele. Mas é que o senso de fraternidade universal do Pobrezinho não tem fronteiras. Isso da fraternidade é a contribuição específica que a fé cristã pode dar para fortalecer a paz no mundo e a luta contra a pobreza, como sugere o tema da próxima Jornada Mundial da Paz “Fraternidade, fundamento e caminho para a paz”. Pensando bem, esse é o único fundamento verdadeiro e não irrealista. Que sentido, de fato, falar de fraternidade e de solidariedade humana, se começarmos de uma certa visão científica do mundo que conhece, como únicas forças de ação no mundo, “o acaso e a necessidade”?  Se se parte, em outras palavras, de uma visão filosófica como aquela de Nietzsche, segundo a qual o mundo só é vontade de poder e toda tentativa de opor-se a isso é somente sinal de ressentimento dos fracos contra os fortes”? Está certo quem diz que “se o ser é apenas caos e força, a ação que busca a paz e a justiça permanecerá inevitavelmente sem fundamento[10]”. Falta, neste caso, uma razão suficiente para se opor ao liberalismo desenfreado e à iniquidade fortemente denunciada pelo Papa na exortação Evangelii gaudium. Ao dever de amar e respeitar os pobres, segue aquele de socorrê-los. Aqui nos ajuda São Tiago. Para que serve, diz ele, compadecer-se diante de um irmão ou uma irmã sem roupa ou comida, dizendo-lhes: “Pobrezinho, como sofre! Ide em paz, aquecei-vos e saciai-vos”, e não lhes der o necessário para a sua manutenção? A compaixão, como a fé, sem obras é morta (cf. Tg 2, 15-17). Jesus não dirá no juízo: “Estava nu e tivestes pena de mim”; mas “estava nu e me vestistes”. Não devemos culpar a Deus pela miséria do mundo, mas a nós mesmos. Um dia vendo uma criança tremendo de frio e que chorava de fome, um homem foi tomado de revolta e gritou: “Oh, Deus, onde estás? Porque não fazes nada por esta criatura inocente?”. Mas uma voz interior lhe respondeu: “Claro que fiz algo. Te fiz!”. E compreendeu imediatamente. Hoje, no entanto, já não é suficiente só a esmola. O problema da pobreza se tornou planetário. Quando os Padres da Igreja falavam dos pobres pensavam nos pobres da sua cidade, ou, no máximo, naqueles da cidade vizinha. Não conheciam nada mais, a não ser muito vagamente e, além do mais, embora conhecessem, enviar ajuda teria sido ainda mais difícil, em uma sociedade como a deles. Hoje sabemos que isso não basta, embora nada nos dispense de fazer aquilo que possamos também a nível individual. O exemplo dos muitos homens e mulheres do nosso tempo mostra-nos que há muitas coisas que podem ser feitas para socorrer, cada um de acordo com os seus meios e possibilidades, os pobres promover-lhes a elevação. Falando do “grito dos pobres”, na Evangelica testificatio, Paulo VI falava especialmente a nós religiosos: “Isso faz com que alguns de vocês cheguem aos pobres em seu estado, compartilhem com eles as suas preocupações amargas. Convida, por outro lado, não poucos dos vossos institutos a reconverter em favor dos pobres algumas das suas obras[11]”. Eliminar ou reduzir o injusto e escandaloso abismo que existe entre ricos e pobres no mundo é a tarefa mais urgente e mais ingente que o milênio que apenas terminou entregou ao novo milênio no qual entramos. Esperemos que não seja ainda o problema número um que o presente milênio deixará em herança para o próximo. Finalmente, evangelizar os pobres. Esta foi a missão que Jesus reconheceu como a sua por excelência: “O Espírito do senhor está sobre mim, me ungiu para evangelizar os pobres” (Lc 4, 18) e que indicou como sinal da presença do Reino aos enviados pelo Batista: “Aos pobres é anunciado a boa nova” (Mt 11, 15). Não devemos permitir que a nossa má consciência nos leve a cometer a enorme injustiça de privar da boa nova aqueles que são os primeiros e os mais naturais destinatários. Talvez, acrescentando à nossa desculpa, o provérbio que “barriga vazia não tem ouvidos”. Jesus multiplicava os pães e também a palavra, na verdade administrava primeiro, às vezes por três dias seguidos, a Palavra depois se preocupava também dos pães. Não só de pão vive o pobre, mas também de esperança e de cada palavra que sai da boca de Deus. Os pobres tem o direito sagrado de ouvir o Evangelho na sua totalidade, não em edições reduzidas ou polêmicas; o evangelho que fala de amor aos pobres, mas não de ódio aos ricos.

4. Alegria no céu e alegria na terra
Terminemos com outro tom. Para Francisco de Assis, Natal não era somente a ocasião para chorar a pobreza de Cristo; era também a festa que tinha o poder de fazer explodir toda a capacidade de alegria que estava no seu coração, e era muito grande. No Natal ele fazia literalmente loucuras. “Queria que neste dia os pobres e os mendigos fossem saciados pelos ricos, e que os bois e os burros recebessem uma ração de comida e de feno mais abundante que o normal. Se pudesse falar ao imperador – dizia – suplicarei a ele de emitir um decreto geral, pelo qual todos aqueles que têm possibilidades, devessem espalhar pelas ruas trigo e grãos, para que em um dia de tanta solenidade os pássaros e especialmente as irmãs cotovias tivessem em abundância[12]”. Transformava-se como que em uma dessas crianças que estavam com os olhos cheios de admiração diante do presépio. Durante a celebração do natal em Greccio, narra o biógrafo, quando pronunciava o nome ‘Belém’ enchia a boca de voz e de muito afeto, produzindo um som parecido ao balido das ovelhas. E cada vez que dizia: ‘Menino de Belém’ ou ‘Jesus’, passava a língua sobre os lábios, como para saborear e reter toda a doçura daquelas palavras”. Há uma canção de Natal que expressa perfeitamente os sentimentos de São Francisco, diante do presépio e isso não surpreende se pensarmos que foi escrita, letra e música, por um santo como ele, Santo Alfonso Maria de Ligorio. Escutando-o no tempo de natal, deixemo-nos comover pela sua mensagem simples mas essencial: Tu desces das estrelas ó Rei do céu, e vens em uma gruta no frio, e no gelo… A ti que sois do mundo o Criador, faltam os pães, o fogo, oh meu Senhor. Caro eleito bebezinho, quanta esta pobreza mais me apaixona, já que te fizeste amor pobre ainda. Santo Padre, Veneráveis Padres, irmãos e irmãs, Feliz Natal!

(Tradução Thácio Siqueira / www.zenit.org)
[1] Celano, Vida Primeira, 84-86 (Fontes Franciscanas, 468-470)
[2] Ib. 30, (FF 467).
[3] Celano, Vida Segunda, 200 (FF 788).
[4] H. Thode, Franz von Assisi und die Anfänge der Kunst des Renaissance in Italien, Berlin 1885.
[5] J. Guitton, cit. da R. Gil, Presencia de los pobres en el concilio, in “Proyección” 48, 1966, p.30.
[6] S. Leão Magno, Discurso 2 sobre a Ascensão, 2 (PL 54, 398).
[7] In AAS 54, 1962, p. 682.
[8] Cf. Il Gesú di Paolo VI, organizado por V. Levi, Milano 1985, p. 61.
[9] P. Damien Vorreux, Saint François d’Assise, Documents, Parigi 1968, p. 36.
[10] V. Mancuso, in La Repubblica, Venerdì 4 Ottobre 2013.
[11] Paulo VI, Evangelica testificatio, 18 (Ench. Vatic., 4, p.651).
[12] Celano, Vida Segunda,  151 (FF  787-788)

O amor é a força do reino de Cristo

Domingo, 22 de novembro de 2015, Da redação, com Rádio Vaticano

O Papa Francisco afirmou que a  força do reino de Cristo é o amor e por isto, a realeza de Jesus não oprime, mas liberta das fraquezas e misérias

Neste domingo, 22, milhares de fiéis rezaram com o Papa Francisco o Angelus em Roma, capital italiana.

Na Praça São Pedro, antes da oração mariana, o Papa recordou a solenidade de Cristo Rei do Universo. Francisco disse que o Evangelho nos faz contemplar Jesus enquanto se apresenta a Pilatos como rei de um reino que “não é deste mundo”.

“Isto não significa que Cristo seja rei de um outro mundo, mas que é rei de outro modo, mas é rei deste mundo”, explicou, acrescentando que se trata de uma contraposição entre duas lógicas. A lógica mundana se fundamenta na ambição e na competição, combate com as armas do medo, da chantagem e da manipulação das consciências. A lógica evangélica, ao invés, se expressa na humildade e na gratuidade, se afirma silenciosa, mas eficazmente com a força da verdade.

Mas é na Cruz que Jesus se revela rei. “Mas alguém pode dizer, ‘Padre, isto foi uma falência’. Mas é justamente na falência do pecado, das ambições humanas, que está o triunfo da Cruz, da gratuidade do amor. Na falência da cruz se vê o amor.”

O Papa disse ainda que falar de potência e de força para o cristão, significa fazer referência à potência da Cruz e à força do amor de Jesus. Se Ele tivesse descido da cruz, teria cedido à tentação do príncipe deste mundo; ao invés, Ele não salva a si mesmo para poder salvar os outros.

“Dizer que Jesus deu a vida pelo mundo é verdadeiro, mas è mais bonito dizer que Jesus deu a sua vida por mim”, afirmou Francisco, que pediu a todos na Praça que repetissem essas palavras em seus corações.

No Calvário, quem entende a atitude de Cristo é o bom ladrão, um dos malfeitores crucificados com Ele, que suplica: “Jesus, lembra-te de mim quando vieres com teu reino”.

“A força do reino de Cristo é o amor: por isto a realeza de Jesus não nos oprime, mas nos liberta das nossas fraquezas e misérias, encorajando-nos a percorrer os caminhos do bem, da reconciliação e do perdão.”

E mais uma vez o Papa pediu a participação dos peregrinos, convidando-os a repetirem as palavras do bom ladrão quando nos sentirmos fracos, pecadores e derrotados.

E concluiu: “Diante de tantas dilacerações no mundo e das demasiadas feridas na carne dos homens, peçamos a Nossa Senhora que nos ampare no nosso esforço para imitir Jesus, nosso rei, tornando presente o seu reino com gestos de ternura, de compreensão e de misericórdia.”

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