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Papa: Ascensão do Senhor, continuação da missão por parte da Igreja

Cidade do Vaticano (RV) – O Papa Francisco rezou a oração do Regina Coeli, neste domingo (28/5/2017), com os fiéis e peregrinos na Praça São Pedro.

Na alocução que precedeu a oração, o Pontífice recordou a Ascensão do Senhor, celebrada neste domingo, quarenta dias depois da Páscoa.

“Os versículos que concluem o Evangelho de Mateus nos apresentam o momento da despedida definitiva do Ressuscitado aos seus discípulos. O cenário é o da Galileia, lugar onde Jesus os chamou para segui-lo e para formar o primeiro núcleo de sua comunidade nova. Agora, aqueles discípulos passaram através do fogo da paixão e da ressurreição. Ao verem Jesus ressuscitado eles se prostram diante dele, alguns porém ainda duvidam. A esta comunidade amedrontada, Jesus deixa a grande tarefa de evangelizar o mundo; e concretiza esta tarefa com o mandato de ensinar e batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.”

Segundo o Papa, “a Ascensão de Jesus ao céu constitui o fim da missão que o Filho recebeu do Pai e o início da continuação desta missão por parte da Igreja. A partir deste momento, do momento da Ascensão, a presença de Cristo no mundo é mediada através de seus discípulos, daqueles que acreditam Nele e o anunciam. Esta missão durará até o fim da história e contará todos os dias com a assistência do Senhor ressuscitado, que garante: “Eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo”.

“A sua presença traz fortaleza nas perseguições, conforto nas tribulações, sustento nas situações difíceis que a missão e o anúncio do Evangelho encontram. A Ascensão nos recorda esta assistência de Jesus e de seu Espírito que dá confiança e segurança ao nosso testemunho cristão no mundo. Revela-nos porque existe a Igreja: a Igreja existe  para anunciar o Evangelho! Somente para isso! A alegria da Igreja é anunciar o Evangelho.”

Francisco disse ainda que “todos nós batizados somos a Igreja. Hoje, somos convidados a entender melhor que Deus nos deu a grande dignidade e responsabilidade de anunciá-lo ao mundo, de torná-lo acessível à humanidade. Esta é a nossa dignidade, esta é a maior honra de cada um de nós, batizados na Igreja!”

“Nesta festa da Ascensão, enquanto voltamos o nosso olhar para o céu, onde Cristo subiu e está sentado à direita do Pai, fortalecemos os nossos passos na terra para prosseguir com entusiasmo e coragem o nosso caminho, a nossa missão de testemunhar e viver o Evangelho em qualquer ambiente. Estamos bem conscientes de que isso não depende em primeiro lugar de nossas forças, da capacidade organizacional e recursos humanos. Somente com a luz e a força do Espírito Santo podemos efetivamente cumprir a nossa missão de fazer conhecer e experimentar cada vez aos outros o amor e a ternura de Jesus.”

O Papa pediu “à Virgem Maria para nos ajudar a contemplar os bens celestes, que o Senhor nos promete, e a nos tornar testemunhas cada vez mais críveis de sua Ressurreição, da vida verdadeira.”

(MJ)

Igreja e sociedade

Uma Igreja da verdade, da bondade e da beleza

Dentro dos conceitos apresentados pela tradição bimilenar da Igreja, sua fundamentação está baseada na figura da Santíssima Trindade, na profunda unidade entre as três pessoas, formando uma verdadeira comunidade. O que faz esta unidade é a intensidade vivenciada no amor entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

O papa Francisco, que vem encantando o mundo com seus gestos e expressões de simplicidade, em sua primeira coletiva com os jornalistas, fez uma declaração fundamental sobre a Igreja: Precisamos de “uma Igreja pobre para os pobres”, uma Igreja “da verdade, da bondade e da beleza”. Ele valoriza o papel do jornalista na divulgação da mensagem cristã.

Sentimos a presença da sabedoria de Deus neste momento histórico da Igreja. Significa que ela ainda pode dar uma contribuição positiva para a sociedade. Isto aconteceu no passado e em todas as áreas da cultura, sendo impossível negar uma realidade tão marcante na ciência, na história, na literatura, na área científica, nas questões sociais etc. Houve muita coisa negativa por ser formada de humanos.

O mundo faz o caminho do bem e do mal. Não é por acaso que muitos optam pelo bem e não se deixam levar pela maldade, que não condiz com a vontade do Criador. O mal causa destruição e infelicidade para as pessoas envolvidas. Além disto, ele contamina os desprevenidos e desestruturados em sua vida de fé e de cidadania.

O Papa Francisco fala de uma Igreja “da verdade”. Os apóstolos tiveram dificuldade para entender que o projeto de Deus é da verdade e passa pela derrota, pelo dom gratuito, como o fez Jesus até a morte. Hoje, não é diferente numa cultura que proclama a felicidade como “gozo” descomprometido e individualista.

A sociedade é formada por cidadãos que proclamam fé em Deus e outros que seguem diferentes princípios. A Igreja tem por meta, dentro dos ensinamentos de Jesus Cristo, fazer com que todos os cidadãos tenham vida e dignidade. Se não é isto, seu caminho está fora do querer e da vontade de Deus.

Dom Paulo Mendes Peixoto

Acolher a vitória de Cristo sobre o mal na própria vida

Segunda-feira do Anjo

VATICANO, 01 Abr. 13 / 01:47 pm (ACI/EWTN Noticias).- Ao presidir a oração do Regina Caeli nesta segunda-feira da Oitava de Páscoa, conhecida como Segunda-feira do Anjo, o Papa Francisco alentou todos a acolher a vitória de Cristo sobre o mal em nossa vida, para que o ódio deixe lugar ao amor e a tristeza à alegria.

Ante milhares de fiéis reunidos na Praça de São Pedro, o Papa pronunciou estas palavras:

“Queridos irmãos e irmãs,

Bom dia e boa Páscoa a todos vocês! Agradeço-vos por terem vindo também hoje em grande número, para compartilhar a alegria da Páscoa, mistério central da nossa fé. Que a força da Ressurreição de Cristo possa atingir cada pessoa – especialmente quem sofre – e todas as situações mais necessitadas de confiança e esperança.

Cristo venceu o mal de modo pleno e definitivo, mas corresponde também a nós, os homens de cada tempo, acolher esta vitória na nossa vida e nas realidades concretas da história e da sociedade. Por isto parece-me importante destacar aquilo que hoje pedimos a Deus na liturgia: “Ó Pai, que fazes crescer a tua Igreja doando-lhe sempre novos filhos, concede a teus fiéis expressar na vida o sacramento que receberam na fé” (Oração Coleta da Segunda-Feira da Oitava de Páscoa).

É verdade, o Batismo que nos faz filhos de Deus, a Eucaristia que nos une a Cristo, devem transformar-se em vida, traduzir-se, isso é, em atitudes, comportamentos, gestos, escolhas. A graça contida nos Sacramentos pascais é um potencial de renovação enorme para a existência pessoal, para a vida das famílias, para as relações sociais. Mas tudo passa pelo coração humano: se eu me permito alcançar a graça de Cristo ressuscitado, se me permito mudar naquele meu aspecto que não é bom, que pode fazer mal a mim e aos outros, eu permito à vitória de Cristo ter sucesso na minha vida, ampliar a sua ação benéfica.

Este é o poder da graça! Sem a graça não posso fazer nada. Sem a graça não podemos nada! E com a graça do Batismo e da Comunhão eucarística posso me tornar instrumento da misericórdia de Deus, daquela bela misericórdia de Deus!

Expressar na vida o sacramento que recebemos: eis, queridos irmãos e irmãs, o nosso compromisso cotidiano, mas direi também a nossa alegria cotidiana! A alegria de sentir-se instrumentos da graça de Deus, como ramos da videira que é Ele próprio, animados pela seiva do seu Espírito!   Rezemos juntos, em nome do Senhor morto e ressuscitado, e pela intercessão de Maria Santíssima, para que o Mistério pascal possa operar profundamente em nós e neste nosso tempo, para que o ódio deixe lugar ao amor, a mentira à verdade, a vingança ao perdão, a tristeza à alegria”.

Depois de concluir a oração do Regina Caeli, o Santo Padre saudou os peregrinos dos distintos continentes e desejou a todos que vivam serenamente esta Segunda-feira do Anjo, na qual ressoa com força o anúncio contente da Páscoa: “Cristo ressuscitou!” e concluiu desejando “Boa Páscoa a todos! Boa Páscoa a todos e bom almoço!”.

A ressurreição da carne

Certeza de ressuscitar em Cristo

Quarta-feira, 4 de dezembro  de 2013, Jéssica Marçal / Da Redação

Francisco deu continuidade à reflexão sobre ressurreição da carne, iniciada na semana passada

Na catequese desta quarta-feira, 4, o Papa Francisco deu continuidade à reflexão sobre a ressurreição da carne. Ele se concentrou sobre a certeza da ressurreição em Cristo, uma espera que é a fonte da esperança cristã.

Francisco disse que, de fato, não é fácil compreender a ressurreição da carne estando imerso neste mundo, mas o Evangelho ilumina os fiéis neste caminho. Ele elencou alguns aspectos que dizem respeito à relação entre a ressurreição de Cristo e a ressurreição do homem.

“Porque Ele ressuscitou, também nós ressuscitaremos”, afirmou o Papa, enfatizando que Jesus leva o homem consigo em seu caminho de retorno ao Pai, doando aos seus discípulos o Espírito Santo. Esta espera constitui uma esperança que, se cultivada e protegida, torna-se luz para a história pessoal e comunitária.

“Lembremos sempre: somos discípulos Daquele que veio, vem todos os dias e virá no final. Se conseguirmos ter mais presente essa realidade, estaremos menos cansados do cotidiano, menos prisioneiros do efêmero e mais dispostos a caminhar com coração misericordioso na via da salvação”.

Sobre o significado da ressurreição, o Santo Padre explicou que, com a morte, a alma separa-se do corpo. Mas, no último dia, Deus restituirá a vida ao corpo e vai juntá-lo à alma. Essa transfiguração do corpo é preparada já nesta vida, no relacionamento com Jesus, nos sacramentos, especialmente na Eucaristia.

“Se Jesus está vivo, vocês pensam que Ele nos deixará morrer e não nos ressuscitará? Não! Ele nos espera. Porque Ele ressuscitou, a força da sua ressurreição ressuscitará todos nós. Já nesta vida temos uma participação na Ressurreição de Cristo. A vida eterna começa já neste momento”.

Pelo Batismo, conforme lembrou o Pontífice, o ser humano foi inserido na morte e ressurreição de Cristo, participando de uma vida nova. Assim, o corpo de cada um é ressonância de eternidade, de forma que deve ser respeitado.

“Esta é a nossa alegria, um dia encontrar Jesus e todos juntos, não aqui na Praça, mas em outro lugar, mas alegres com Jesus. Este é o nosso destino”.

O Mistério da Páscoa

Muito já foi escrito sobre o Mistério Pascal, inclusive ele e a sua celebração foi já objeto de três Encontros Nacionais de Liturgia em Fátima, Portugal nos anos de 1982, 1983 e 1984 e os trabalhos aí realizados foram publicados em três fascículos do Boletim de Pastoral Litúrgica daquele país. No entanto, a celebração anual da Páscoa obriga a olhar sempre, como se fosse a primeira vez, para o seu mistério, para a realidade divina que se encerra e se nos oferece no acontecimento pascal.

Páscoa começa por ser o nome de uma festa judaica, que, em cada ano, celebra o acontecimento fundamental da história do povo de Deus do Antigo Testamento: a sua libertação do Egito, onde os hebreus viviam como emigrantes reduzidos à escravidão, e a sua passagem para a Terra prometida por Deus, desde longa data, a Abraão e à sua descendência.

Páscoa chamou-se também ao cordeiro pascal, como no texto de S. Paulo: “Cristo, nossa Páscoa, foi imolado”; na verdade, o Sangue de Cristo é o penhor da libertação para todos os homens, como o sangue do cordeiro o tinha sido para os hebreus quando da saída do Egito. De fato, a oblação, até ao sangue, de Cristo na cruz realiza a passagem libertadora do pecado e da morte para a vida em Deus, como se lê no Evangelho de S. João, logo no início dos capítulos que consagrou à Paixão do Senhor: “Sabendo Jesus que era a chegada a hora de passar deste mundo para o Pai…”. Daí que Páscoa tenha vindo a significar, em última análise, no sentido real, passagem, qualquer que tenha sido na origem o seu sentido etimológico, aliás, difícil de precisar.

É, de fato, esta passagem, em primeiro lugar de Jesus e depois de todos os homens, deste mundo para o Pai o sentido último da Páscoa cristã. Aqui encontra a sua razão de ser toda a história da salvação; para aqui se encaminha, desde o princípio, a sucessão dos tempos e das gerações; aqui atinge a plenitude e revela a sua significação total a própria Encarnação do Filho de Deus; aqui finalmente encontra a Igreja de Cristo o alicerce da sua fé e a meta da sua esperança.

A Páscoa, o Mistério Pascal, ou ainda por outras palavras, os acontecimentos pascais com a sua significação divina, centra-se na morte de Jesus sobre a Cruz, pela qual Ele passou para o Pai, onde vive na vida nova da Ressurreição. “Jesus de Nazaré, o Crucificado” de Sexta-feira Santa, “não está aqui, ressuscitou”, disse o Anjo às mulheres que procuravam o seu corpo no túmulo. Tomando a condição humana na Encarnação, o Filho de Deus tomou sobre Si o pecado da humanidade; mas oferecendo-se ao Pai sobre a Cruz por todos os homens, Ele tira o pecado do mundo e, “destruindo assim a morte, manifestou a vitória da ressurreição”, para dela tornar participantes todos os homens. Para isto Ele veio ao mundo, para levar em Si e consigo os homens ao Pai. “Saí do Pai e vim ao mundo; de novo deixo o mundo e volto para o Pai”, disse Jesus, mas volta levando agora em Si o homem cuja condição assumiu.

Mistério inaudito, este da passagem pascal do homem para o Pai pela oblação do Cordeiro Pascal. É este mistério que, desde o princípio, foi o centro da liturgia cristã; aí a Igreja o recorda, aí o celebra, aí ela se torna participante, já desde a terra, da vida do Ressuscitado, antegozo da comunhão com o Pai na glória celeste.

A celebração da Páscoa

A Páscoa não é celebrada apenas no Domingo da Ressurreição, mas no Tríduo Pascal, que se inaugura com a celebração da Missa da Ceia do Senhor, ao entardecer de Quinta-feira Santa, e se conclui com a Hora de Vésperas do Domingo da Ressurreição. Não se trata propriamente de um conjunto de celebrações. O Tríduo Pascal tem um ritmo e uma unidade interna indestrutível. A sua celebração principal, e na origem a única, é a Vigília na Noite Santa. Aí se celebra todo o Mistério Pascal, o mistério da passagem da morte à vida, da terra ao céu, deste mundo para o Pai. A liturgia da Palavra desta Vigília faz memória da história da salvação desde “o princípio em que Deus criou o céu e a terra” até à Ressurreição do Crucificado: do paraíso primeiro onde o primeiro homem pecou e foi condenado a morrer até ao jardim de José de Arimatéia, onde o túmulo vazio é sinal da morte vencida, e onde o Ressuscitado Se manifesta, vivo, na glória do Pai.

Na celebração da Vigília, o mistério que a Palavra anuncia, os sacramentos logo o realizam. O Batismo, imitando na passagem pela água à morte e a sepultura com Cristo, torna os batizados realmente participantes na passagem pascal do Senhor; a Confirmação, que, em princípio, se segue ao Batismo dos adultos, comunica o Espírito Santo, dom pascal por excelência, fruto da Páscoa de Jesus; a Eucaristia, memorial máximo da Páscoa do Senhor Jesus, ao mesmo tempo em que é memória do acontecimento passado, é presença sacramental do mesmo na assembléia da Igreja e anúncio da comunhão eterna na glória futura. A Páscoa, já afirmava Santo Agostinho, celebra-se de modo sacramental, in mysterio.

A Sexta-feira e o Sábado Santo, os dois primeiros dias do Tríduo Pascal, são dias alitúrgicos, como lhes chamavam os Antigos, isto é, dias sem celebração eucarística. São os dias do jejum pascal referido na Constituição conciliar sobre a Liturgia, os dias em que o Esposo foi tirado, como Jesus tinha anunciado, “dias de amargura”, no dizer de S. Ambrósio, nos quais todo o Corpo da Igreja comunga diretamente, e como que fisicamente, na dor e na morte da sua Cabeça, Cristo crucificado, morto e sepultado. As celebrações destes dois dias são apenas Liturgias da Palavra, na celebração, aliás, magnífica, da Paixão do Senhor na tarde de Sexta-feira Santa e na Liturgia das Horas, nesse dia e no Sábado Santo. Não são dias vazios, pelo fato de neles não se celebrar a Eucaristia; são antes dois dias do grande silêncio, da grande paz, da profunda comunhão do espírito e do coração com o Homem-Deus, em que se manifesta a situação trágica do pecado dos homens, ao mesmo tempo em que o poder e a força do amor, que leva o Pai a entregar o Filho à morte por nós, e o Filho a oferecer a sua vida ao Pai pelos seus irmãos.

Cristo é o grão de trigo semeado na terra; se este não morrer, ficará infrutífero, mas se morrer, dará muito fruto. O Sábado Santo em particular faz sentir toda a pujança desta sementeira divina.

Como no fim da primeira criação Deus descansou de toda a obra que realizara assim agora também Jesus descansa sob a terra da obra desta nova criação. E “a Igreja, no Sábado Santo, permanece junto do sepulcro do Senhor, meditando na sua paixão e morte, até ao momento em que, depois da solene Vigília ou expectação noturna da ressurreição, se der lugar à alegria pascal, cuja riqueza se prolongará por cinqüenta dias”. É tudo o que o Missal Romano diz no Sábado Santo.

A Missa da Ceia do Senhor na Quinta-feira anterior é o momento de celebrar a instituição dos “sagrados mistérios”, a Eucaristia, que o Senhor, antes de sofrer a paixão, entregou aos seus discípulos para que eles os celebrassem como memorial, sempre repetível, da sua Páscoa. Esta celebração é como que a abertura de todo o Tríduo Pascal.

Já no princípio da semana, no Domingo da Paixão ou de Ramos, a procissão que acompanhou o Senhor até Jerusalém, onde vai sofrer a paixão, proclamava a vitória e o triunfo da Páscoa do Senhor, que da morte fez surgir à vida, para salvação dos homens, para glória de Deus Pai.

Fonte: Ferreira, José. O Mistério da Páscoa e a sua celebração. in O Tempo Pascal, Secretariado Nacional de Liturgia. Fátima, 1996, pp. 9-18.

Cristianismo vive sua Semana Maior

Domingo de Ramos inicia percurso mais importante do chamado ano litúrgico

São fatos repletos de realismo, os que se celebram na Semana Santa. Vividos num mistério de fé, são também dramatizados em diferentes expressões e para reviver os quadros da paixão e morte de Cristo na cruz. Assim acontece ao longo da história, gerando um conjunto de tradições que caracterizam a Semana Maior para os Cristãos. Assim acontece também nos dias de hoje, com novas formas de “representar” um Mistério. A celebração dos mistérios da Redenção, realizados por Jesus nos últimos dias da sua vida, começa pela sua entrada messiânica em Jerusalém.

O Domingo de Ramos abriu solenemente a Semana Santa, com a lembrança das Palmas e da Paixão do Senhor.

Duas celebrações marcam a Quinta-Feira Santa: a Missa Crismal e a Missa da Ceia do Senhor.

Antigamente, na manhã deste dia celebrava-se o rito da reconciliação dos penitentes, a quem tinha sido imposto o cilício em quarta-feira de cinzas. A manhã foi preenchida pela Missa Crismal, que reúne em torno do Bispo o clero da Diocese e são abençoados os óleos dos catecúmenos e dos enfermos e consagrado o Santo Óleo do Crisma. A origem da bênção dos óleos santos e do sagrado crisma é romana, embora o rito tenha marcas galicanas.

Em conformidade com a tradição latina, a bênção do óleo dos doentes faz-se antes da conclusão da oração eucarística; a bênção do óleo dos catecúmenos e do crisma é dada depois da comunhão. Permite-se, todavia, por razões pastorais, cumprir todo o rito de bênção depois da liturgia da Palavra, conservando, porém, a ordem indicada no próprio rito.

Com a Missa vespertina da Ceia do Senhor tem início o Tríduo Pascal da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor. É comemorada a instituição dos Sacramentos da Eucaristia e da Ordem e o mandamento do Amor (o gesto do lava-pés). A simbologia do sacrifício é expressa pela separação dos dois elementos “o pão” e “o vinho”. Esse evento do mistério de Jesus também se tornou manifesto no gesto do lava-pés. Depois do longo silêncio quaresmal, a liturgia canta o Glória.

No final da Missa, o Santíssimo Sacramento é trasladado para um outro local, desnudando-se então os altares.

Na Sexta-feira Santa não se celebra a missa, tendo lugar a celebração da morte do Senhor, com a adoração da cruz. O silêncio, o jejum e a oração marcam este dia.

A celebração da tarde é uma espécie de drama em três atos: proclamação da Palavra de Deus, apresentação e adoração da cruz, comunhão.

O Sábado Santo é dia alitúrgico: a Igreja debruça-se, no silêncio e na meditação, sobre o sepulcro do Senhor. A única celebração primitiva parece ter sido o jejum.

A Vigília Pascal é a “mãe de todas as celebrações” da Igreja. Celebra-se a Ressurreição de Cristo, a Luz que ilumina o mundo, e para transmitir esse simbolismo deve ser celebrada não antes do anoitecer e terminada antes da aurora.

Cinco elementos compõem a liturgia da Vigília Pascal: a bênção do fogo novo e do círio pascal; a proclamação da Páscoa, que é um canto de júbilo anunciando a Ressurreição do Senhor; a série de leituras sobre a História da Salvação; a renovação das promessas do Batismo e, por fim, a liturgia Eucarística. Ainda hoje continua a ser a noite por excelência do Batismo.

História

O ano litúrgico como hoje o conhecemos pretende levar os católicos a celebrar sacramentalmente a pessoa de Jesus Cristo como “memória”, “presença”, “profecia”. Na Igreja primitiva, o mistério, a celebração, a pregação, a vida cristã tiveram um único centro: a Páscoa – o culto da Igreja primitiva nasceu da Páscoa e para celebrar a Páscoa.

No início da vida cristã encontra-se o Domingo como única festa, com a única denominação de “Dia do Senhor”. Por influência das comunidades cristãs provenientes do judaísmo, surgiu depois um “grande Domingo”, como celebração anual da Páscoa.

A partir do séc. IV, com os decretos que garantiam a liberdade de culto aos cristãos, começaram-se a celebrar na Terra Santa os acontecimentos da Paixão e morte de Jesus Cristo, nos locais e às horas em que eram relatados nos Evangelhos. Nasceu assim a Semana Santa e os peregrinos estenderam este uso a todas as igrejas.

A celebração do batismo na noite de Páscoa, já em uso no século III, e a disciplina penitencial com a reconciliação dos penitentes na manhã de Quinta-feira Santa, já no século V, fizeram nascer também o período preparatório da Páscoa, ou seja, a Quaresma, inspirada nos “quarenta dias bíblicos”.

A Semana Santa apresenta-se, neste contexto, como a Semana Maior do ano litúrgico. Graças à peregrina Egéria, que viveu no final do século IV, conhecemos os rituais que envolviam estas celebrações no princípio do Cristianismo. Ela descreve em seu livro “Itinerarium” a liturgia que se desenvolveu em Jerusalém, teatro das últimas horas de vida de Jesus, e compreende o intervalo de tempo que vai do Domingo de Ramos à Páscoa.

Na Idade Média, esta semana era chamada a “semana dolorosa”, porque a Paixão de Cristo era dramatizada pelo povo, pondo em destaque os aspectos do sofrimento e da compaixão.

Atualmente, muitas igrejas locais dão ainda vida a essa tradição dramática, que se desenrola em procissões e representações da Paixão de Jesus.

Fonte: Agência Ecclesia

Deus é sempre fiel à sua aliança, recorda Papa em Missa

Quinta-feira, 6 de abril de 2017, Da Redação, com Rádio Vaticano

Na homilia de hoje, Santo Padre convidou fiéis a fazer memória da história do povo de Deus, a partir da promessa a Abraão

“Deus é sempre fiel à sua aliança: foi fiel à promessa com Abraão e à salvação prometida em seu Filho, Jesus”. Este foi o centro da homilia do Papa Francisco na manhã desta quinta-feira, 6, na Casa Santa Marta.

A primeira leitura do dia narra a aliança que Deus fez com Abraão, que Jesus e os fariseus chamam ‘pai’, porque foi ele que gerou este povo, que hoje é a Igreja. Abraão confia, obedece quando é enviado para outra terra, recebida em herança. Homem de fé e de esperança, acredita quando lhe é dito que teria um filho, aos 100 anos, “com a esposa estéril”. “Quem quisesse descrever a vida de Abraão, poderia dizer: ‘É um sonhador’”, disse o Papa. Era um sonhador da esperança, mas não era um louco, explicou.

“Colocado à prova depois de ter o filho, lhe é pedido que o ofereça em sacrifício: obedeceu e foi adiante, contra qualquer esperança: este é o nosso pai Abraão, que vai avante, avante, e quando viu Jesus, ficou cheio de alegria. Sim: a alegria de ver que Deus não o havia enganado, que Deus – como rezamos no cântico – é sempre fiel à sua aliança”.

O pacto de Abraão consiste em obedecer sempre, prosseguiu Francisco. Por parte de Deus, a promessa foi de fazê-lo ‘pai de uma multidão de nações’. ‘Não te chamarás Abrão, mas o teu nome será Abraão’, lhe diz o Senhor. E Abraão acreditou. Depois, em outro diálogo, ainda no Gênesis, Deus lhe diz que sua descendência será numerosa como as estrelas do céu e a areia do mar. E hoje, cada fiel pode dizer que é uma daquelas estrelas, um daqueles grãos de areia. A grande mensagem da Igreja hoje convida justamente a olhar para essas raízes, para a história.

“Olhar para a História: eu não estou sozinho, eu sou um povo. Vamos juntos. A Igreja é um povo. Mas um povo sonhado por Deus, um povo que deu um pai sobre a Terra que obedeceu, e temos um irmão que deu sua vida por nós, para nos tornar um povo. E assim podemos olhar para o Pai, agradecer; olhar para Jesus, agradecer; e olhar para Abraão e para nós, que somos parte do caminho”.

Francisco convida, então, a fazer de hoje “um dia de memória”, evidenciando que nesta grande História, na moldura de Deus e Jesus, há a pequena história de cada um. “Eu convido vocês a tirarem, hoje, cinco minutos, dez minutos, sentados, sem rádio, sem televisão; sentados, e pensar sobre a própria história: as bênçãos e dificuldades, tudo. As graças e os pecados: tudo. E olhar ali a fidelidade daquele Deus que permaneceu fiel à sua aliança, e se manteve fiel à promessa que fizera a Abraão, permaneceu fiel à salvação que prometera em Seu Filho Jesus. Estou certo de que entre as coisas talvez ruins – porque todos nós temos, tantas coisas ruins, na vida – se hoje fizermos isso, vamos descobrir a beleza do amor de Deus, a beleza de Sua misericórdia, a beleza da esperança. E tenho certeza que todos nós estaremos cheios de alegria”.

As imagens na Tradição da Igreja

A beleza e a cor das imagens estimula minha oração, disse São João Damasceno  

Na Encarnação do Verbo, Deus mostrou aos homens uma face visível de Deus. Os cristãos foram, então, compreendendo que segundo a pedagogia divina, deveriam passar da contemplação do visível ao invisível. As imagens, principalmente os que reproduziam personagens e cenas da história sagrada, tornaram-se “a Bíblia dos iletrados” ou analfabetos.

Os Reformadores protestantes rejeitaram as imagens por causa dos abusos do fim da Idade Média; Lutero, porém, se mostrou bastante liberal com as imagens; não as proibia.

Ultimamente entre os luteranos a atitude inococlasta (heresia que rejeitava as imagens) tem sido submetida a revisão. Lutero rejeitou os iconoclastas (quebradores de imagens) escreveu essas palavras em 1528: “Tenho como algo deixado à livre escolha as imagens, os sinos, as vestes litúrgicas e coisas semelhantes. Quem não os quer, deixe-os de lado, embora as imagens inspiradas pela Escritura e por histórias edificantes me pareçam muito úteis… Nada tenho em comum com os Iconoclastas” (Da Ceia de Cristo).

Nos primeiros séculos do Cristianismo, ainda encontramos alguns escritores cristãos que mostram mal-entendidos ou abusos por parte dos fiéis no uso das imagens. Mas os cristãos foram percebendo que a proibição de fazer imagens no Antigo Testamento era apenas uma questão pedagógica de Deus com o povo de Israel, para que esse não se voltasse para os ídolos. Deus proibia fazer imagens de ídolos e não de outros seres. As gerações cristãs começaram a representar e meditar as fases da vida de Jesus e a representação artística das mesmas começaram a surgir como um meio valioso para que o povo fiel se aproximasse do Filho de Deus.

Já nas antigas catacumbas de Roma (S. Calisto, Priscila, etc.), os antigos cemitérios cristãos, encontram-se diversos afrescos geralmente inspirados pelo texto bíblico: Noé salvo das águas do dilúvio, os três jovens cantando na fornalha, Daniel na cova dos leões, os pães e os peixes restantes da multiplicação efetuada por Jesus, o Peixe (Ichthys), que simbolizava o Cristo.

Note que esses cristãos dos primeiros séculos estão debaixo da perseguição dos romanos. E eles faziam imagens e pintavam figuras. Será que eram idólatras por isso? É lógico que não, eles morriam às vezes mártires exatamente para não praticarem a idolatria, reconhecendo César como Deus e lhe queimando incenso. Ora, se os nossos mártires usavam figuras pintadas, é claro que elas são legítimas.

Nas Igrejas as imagens tornaram-se a “Bíblia dos iletrados”, dos simples e das crianças, exercendo grande função catequética. Alguns escritores cristãos nos contam isso. São Gregório de Nissa (†394) escreveu: “O desenho mudo sabe falar sobre as paredes das igrejas e ajuda grandemente” (Panegírico de S. Teodoro, PG 94, 1248c).

São João Damasceno, doutor da Igreja, grande defensor das imagens no Concilio de Nicéia II, disse: “O que a Bíblia é para os que sabem ler, a imagem o é para os iletrados” (De imaginibus I 17 PG, 1248c). “Antigamente Deus, que não tem corpo nem face, não poderia ser absolutamente representado através duma imagem. Mas agora que Ele se fez ver na carne e que Ele viveu com os homens, eu posso fazer uma imagem do que vi de Deus.” “A beleza e a cor das imagens estimula minha oração. É uma festa para os meus olhos, tanto quanto o espetáculo dos campos estimula o meu coração para dar glória a Deus” (CIC, 1162). “Como fazer a imagem do invisível? Na medida em que Deus é invisível, não o represento por imagens; mas, desde que viste o incorpóreo feito homem, fazes a imagem da forma humana: já que o inviável se tornou visível na carne, pinta a semelhança do invisível” (I 8 PG 94, 1237-1240). “Outrora Deus, o Incorpóreo e invisível, nunca era representado. Mas agora que Deus se manifestou na carne e habitou entre os homens, eu represento o “visível” de Deus. Não adoro a matéria, mas o Criador da matéria” (Ibid. I 16 PG 94, 1245s).

O Papa São Gregório Magno († 604), doutor da Igreja, escreveu a Sereno, bispo de Marselha, que ordenou quebrar as imagens: “Tu não devias quebrar o que foi colocado nas Igrejas não para ser adorado, mas simplesmente para ser venerado. Uma coisa é adorar uma imagem, outra coisa é aprender, mediante essa imagem, a quem se dirigem as tuas preces. O que a Escritura é para aqueles que sabem ler, a imagem o é para os ignorantes; mediante essas imagens aprendem o caminho a seguir. A imagem é o livro daqueles que não sabem ler” (epist. XI 13 PL 77, 1128c).   Nos séculos VIII e IX surgiu na Igreja a disputa em torno do uso das imagens, a questão iconoclasta. Por influência do judaísmo, do islamismo, de seitas e de antigas heresias cristológicas, muitos cristãos do Oriente começaram a negar a legitimidade do culto das imagens. Os imperadores bizantinos, de Constantinopla, tomaram parte na disputa, por motivos políticos mais do que por razões religiosas. Desencadeada sob o Imperador bizantino Leão Isáurico (717-741), a controvérsia das imagens foi levada ao Concílio de Nicéia II (787).

Com base nos sólidos argumentos de grandes teólogos como São João Damasceno, doutor da Igreja, este Concilio reafirmou a validade do culto de veneração (não adoração) das imagens. O Concílio distinguiu entre Iatréia (em grego adoração), devida somente a Deus, e proskynesis (veneração), tributável aos santos e também às imagens sagradas na medida em que estas representam os santos ou o próprio Senhor; o culto às imagens é, portanto, relativo, só se explica na medida em que é tributado indiretamente àqueles que as imagens representam.

Assim se pronunciaram os padres conciliares: “Definimos que, como as representações da Cruz, assim também as veneráveis e santas imagens, em pintura, em mosaico ou de qualquer outra matéria adequada, devem ser expostas nas santas igrejas de Deus (sobre os santos utensílios e os paramentos, sobre as paredes e de quadros), nas casas e nas entradas. O mesmo se faça com a imagem de Deus Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, com as da santa Mãe de Deus, com as dos santos Anjos e as de todos os santos e justos. Quanto mais os fiéis contemplarem essas representações, mais serão levados a recordar-se dos modelos originais, a se voltar para eles, e lhes testemunhar … uma veneração respeitosa, sem que isto seja adoração, pois esta só convém, segundo a nossa fé, a Deus” (sessão 7, 13 de outubro de 787; Denzinger-Schönmetzer, Enchridion Symbolorum nº 600s).

Note, então, que muito antes da Reforma Protestante, a Igreja já tinha estudado o uso das imagens; isto foi cerca de 750 anos antes da Reforma. A sagrada Tradição da Igreja, sempre assistida pelo Espírito Santo (cf. Jo14,15.25; 16,12-13) sempre reconheceu o valor pedagógico e psicológico das imagens como um auxílio para a vida de oração. Todos os santos da Igreja, em todas as épocas, valorizaram as imagens. Santa Teresa de Ávila († 1582), ao ensinar as vias da oração às suas Religiosas, dizia: “Eis um meio que vos poderá ajudar… Cuidai de ter uma imagem ou uma pintura de Nosso Senhor que esteja de acordo com o vosso gosto. Não vos contenteis com trazê-las sobre o vosso coração sem jamais a olhar, mas servi-vos da mesma para vos entreterdes muitas vezes com Ele” (Caminho de Perfeição, cap. 43,1).

Prof. Felipe Aquino

A verdadeira devoção a Nossa Senhora dos Navegantes

Entenda

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Nossa Senhora dos Navegantes é a Estrela que nos conduz no mar, por vezes tempestuoso e sombrio, da história da salvação

A devoção a Nossa Senhora dos Navegantes remonta a Idade Média, na época das Cruzadas, e está intimamente ligada ao título “Estrela do Mar”. Naquele tempo, os cruzados atravessavam o Mar Mediterrâneo rumo à Palestina para proteger os peregrinos e os lugares santos dos infiéis. Tendo em vista os perigos que enfrentariam, esses bravos homens invocavam a Santíssima Virgem Maria pelo nome de “Estrela do Mar”, pois, sob esse título, ela era conhecida como aquela que protegia os navegantes, mostrando-lhes sempre o melhor caminho e um porto seguro para a sua chegada.

Antes das travessias, os navegantes participavam da Santa Missa, na qual pediam proteção de Nossa Senhora dos Navegantes para enfrentar, com coragem, os perigos do mar, as tempestades e os ataques dos piratas.

Com o início das grandes navegações, por parte dos portugueses e espanhóis, e a descoberta de novas rotas comerciais e terras pelo mundo, a devoção a Nossa Senhora dos Navegantes cresceu ainda mais e chegou a terras cada vez mais longínquas. Sob esse título, a Santa Virgem é a padroeira dos navegantes e dos viajantes, e é também chamada de Nossa Senhora da Boa Viagem.

A origem da devoção a Nossa Senhora dos Navegantes

Essa devoção tem sua origem mais remota no título mariano “Estrela do Mar”. Até nossos dias, não foi possível datar com precisão e saber a origem desse título. No entanto, o hino litúrgico em latim “Ave maris stella”, que pode ser traduzido por “Ave, do mar estrela”, composto por volta do século VII, atesta a antiguidade da devoção a Santíssima Virgem sob este título. Todavia, não há uma unanimidade quanto à autoria e a data da composição do hino litúrgico.

Santo Tomás de Aquino, o Doutor Angélico, no seu comentário “A Saudação Angélica”, ensina-nos que a Virgem Maria foi isenta de toda maldição e é bendita entre as mulheres. Nossa Senhora é a única que suprime a maldição, traz a bênção e abre as portas do paraíso. Por isso, convém-Lhe o nome de Maria, que significa “Estrela do mar”1. Da mesma forma que os navegadores são conduzidos pela estrela do mar ao porto, os cristãos são conduzidos à glória do Reino dos Céus por Maria.

Em uma de suas memoráveis homilias, São Bernardo de Claraval, Abade e Doutor da Igreja, afirma que a Virgem Maria é comparada muito apropriadamente a uma estrela, pois esta dá a sua luz sem se alterar, tal como Nossa Senhora deu à luz o seu Filho sem danificar o seu corpo virgem. “Ela é efetivamente essa nobre ‘estrela surgida de Jacob’2, cujo esplendor ilumina o mundo inteiro, que brilha nos céus e penetra até aos infernos. […] Ela é verdadeiramente essa linda e admirável estrela que havia de elevar-se acima do mar imenso, cintilante de méritos, iluminando pelo exemplo”3.

Nossa Senhora, a padroeira dos navegantes e dos viajantes

A primeira razão da devoção a Nossa Senhora dos Navegantes, ou Nossa Senhora da Boa Viagem, é obviamente por sua proteção contras os perigos do mar, o seu socorro nas tempestades. Foi por esse motivo que essa devoção chegou aqui, juntamente com os navegantes portugueses, desde a época do descobrimento do Brasil em 22 de abril de 1500. Naquele tempo, as embarcações eram menores e não tão seguras quanto as atuais. Por isso, as pessoas que viajavam de barco não sabiam se retornariam com vida. Além disso, os recursos de navegação eram quase inexistentes. Então, era muito comum que os marinheiros se orientassem pelo sol, durante o dia; e pelas estrelas durante a noite. Dessa forma, a “Estrela do Mar”, que é a Virgem Maria, tornou-se a Senhora dos navegantes, que por ela se orientavam nas “noites escuras” das suas viagens.

Muitas são as comunidades paroquiais, e até cidades, que tem Nossa Senhora dos Navegantes como padroeira, por todo o Brasil. A sua festa é celebrada no dia 2 de fevereiro. Especialmente nas cidades litorâneas, que têm muitos pescadores e se usa muito o transporte marítimo, a devoção a Virgem Maria sob este título é muito popular, atraindo milhares de peregrinos em suas festas. Na tradicional Festa de Nossa Senhora dos Navegantes de Porto Alegre (RS), que chega este ano à sua 140ª edição, a previsão é de que cerca de 300 mil peregrinos participem4. Na cidade de Navegantes (SC), comemora-se a 120ª Festa de Nossa Senhora dos Navegantes, que é a Padroeira da cidade5. No entanto, a Festa de Nossa Senhora da Boa Viagem, que tem sua raiz na devoção a Nossa Senhora dos Navegantes, não se limitou às cidades litorâneas, mas chegou a lugares bem distantes do mar, como Belo Horizonte (MG), de onde ela é padroeira.

A devoção a Nossa Senhora dos Navegantes é associada popularmente a Iemanjá. Entretanto, a primeira, que é uma devoção católica, não tem nenhuma relação com a segunda, a não ser que as suas festas são comemoradas no mesmo dia, 2 de fevereiro. Iemanjá é um orixá feminino do Candomblé, da Umbanda e de outras crenças afro-brasileiras, que é comemorada também nos dias 15 de agosto e 8 de dezembro, datas marianas, talvez para associá-la a Nossa Senhora. A raiz dessa associação entre ambas está historicamente ligada à religiosidade do tempo da escravatura, na qual os portugueses não permitiam aos escravos o culto aos seus “deuses”. Em vista disso, muitos escravos continuaram a cultuar essas entidades nas imagens católicas, para evitar problemas com seus senhores. Infelizmente, isso ainda está enraizado na cultura e na religiosidade de muitas pessoas, que continuam a associar a Senhora dos Navegantes com Iemanjá.

Nossa Senhora dos Navegantes, a Estrela do Mar

A segunda e mais importante razão da devoção a Nossa Senhora dos Navegantes está associada com o título que lhe deu origem: “Estrela do Mar”. A Virgem Maria é essa estrela luminosa, que nos guia, que nos mostra a direção certa no mar por vezes tempestuoso da nossa história, para chegarmos ao porto seguro, que é Jesus Cristo. Dessa forma, compreendemos que a Senhora dos Navegantes não é somente a protetora e a intercessora dos navegantes, mas de todos nós, que navegamos nessa grande embarcação que é a Igreja, no mar tantas vezes agitado e perigoso deste mundo.

Seja nas calmarias ou em meio às tempestades, sigamos a Estrela do Mar pelo caminho espiritual indicado por São Bernardo: “Vós todos, quem quer que sejais, seja o que for que sentirdes hoje, em pleno mar, sacudidos pela tormenta e pela tempestade, longe da terra firme, mantende os olhos na luz dessa estrela para evitar o naufrágio. Se se levantarem os ventos da tentação, se vires aproximar-se o escolho das provações, olha para a estrela, invoca Maria! Se te sentires sacudido pelas vagas do orgulho, da ambição, da maledicência ou do ciúme, eleva os olhos para a estrela, invoca Maria. […] Se te sentires perturbado pela enormidade dos teus pecados, humilhado pela vergonha da tua consciência, assustado pelo temor do julgamento, se estiveres a ponto de naufragar nas profundezas da tristeza e do desespero, pensa em Maria. No perigo, na angústia, na dúvida, pensa em Maria, invoca Maria!
Que o seu nome nunca saia dos teus lábios nem do teu coração. […] Seguindo-a, não te perderás; rezando-lhe, não desesperarás; pensando nela, evitarás enganar-te no caminho. Se Ela te agarrar pela mão, não te afundarás; se Ela te proteger, nada temerás; conduzido por Ela, ignorarás a fadiga; sob a sua proteção, chegarás ao objetivo. E compreenderás, pela tua própria experiência, como são verdadeiras essas palavras: ‘O nome da virgem era Maria’6”7.

Nossa Senhora dos Navegantes, a Estrela da Esperança

Nossa Senhora dos Navegantes, portanto, é a “Estrela do Mar”, que guia e protege os pescadores, marinheiros e viajantes em suas jornadas pelos mares e os leva a um porto seguro. Em sentido ainda mais profundo e espiritual, a Virgem Maria é a Estrela que nos conduz ao porto seguro da salvação, que é Jesus Cristo. Da mesma forma que os magos do oriente foram guiados pela estrela para Belém, para lá encontrar o Menino Deus e o adorar8, também nós somos guiados pela Estrela do Mar até nos encontrar definitivamente com seu divino Filho, no porto seguro, que é o Reino dos Céus. Por isso, Nossa Senhora é modelo de Igreja, intercessora e auxílio nas tribulações, e Mãe de todos nós, seus filhos e escravos de amor. Diante dessa bela e luminosa Estrela do Mar, que é Maria Santíssima, não temos que temer as tempestades, os mares revoltos, as grandes ondas que por vezes ameaçam nos levar ao naufrágio.

Como disse o Papa Emérito Bento XVI: “A vida é como uma viagem no mar da história, com frequência enevoada e tempestuosa, uma viagem na qual perscrutamos os astros que nos indicam a rota. As verdadeiras estrelas da nossa vida são as pessoas que souberam viver com retidão. Elas são luzes de esperança. Certamente, Jesus Cristo é a luz por antonomásia, o sol erguido sobre todas as trevas da história. Mas para chegar até Ele precisamos também de luzes vizinhas, de pessoas que dão luz recebida da luz d’Ele e oferecem, assim, orientação para a nossa travessia. E quem mais do que Maria poderia ser para nós estrela de esperança?”9

No mar tempestuoso da história da salvação, a Virgem Maria é esta Estrela da Esperança, que nos guia principalmente quando a escuridão, ou densas névoas, não nos permite enxergar para onde vamos. Por isso, não tenhamos medo, mas nos confiemos inteiramente a Nossa Senhora: “Vós permaneceis no meio dos discípulos como a sua Mãe, como Mãe da esperança. Santa Maria, Mãe de Deus, Mãe nossa, ensinai-nos a crer, esperar e amar convosco. Indicai-nos o caminho para o Seu Reino! Estrela do mar, brilhai sobre nós e guiai-nos no nosso caminho!”10 Nossa Senhora dos Navegantes, rogai por nós!

1 – SÃO TOMÁS DE AQUINO. O Pai-Nosso e a Ave-Maria.

2 – Cf. Nm 24, 17.

3 – SÃO BERNARDO. Homílias sobre estas palavras do Evangelho: “O anjo foi enviado”.

4 – A12. Festa de Navegantes: 140 anos de devoção em Porto Alegre.

5 – NAVEGANTES. Santuário divulga programação da 120ª Festa de Nossa Senhora dos Navegantes.

6 – Lc 1, 27.

7 – SÃO BERNARDO. Op. cit.

8 – Cf. Mt 2, 1-12.

9 – PAPA BENTO XVI. Carta Encíclica Spe Salvi, 49.

10 –  Idem 50.

Tesouros Litúrgicos

Pe. Paulo H. Gozzi, SSS

Temos afirmado sempre que Liturgia se faz a partir do povo, sua cultura, sua poesia, seus gestos e costumes e que é preciso respeitar a variedade dos povos que aceitaram a fé e querem exprimi-la a seu modo. Mas existem coisas que atravessam séculos e milênios, certas jóias poéticas, verdadeiros tesouros de arte e rara beleza, que não podem se perder. Refiro-me a alguns hinos compostos no começo da Igreja que foram inseridos na Liturgia Eucarística e permanecem até hoje. Em tempos de reforma litúrgica, surge uma legião de compositores animados e inspirados que dão sua valiosa contribuição em letra e música, enriquecendo e embelezando os rituais. Por serem artistas, deveriam conhecer melhor a história e as origens litúrgicas de certos hinos e respeitá-los mais.
Vejamos o Hino do GLÓRIA. No dizer de um liturgista “é o mais belo, o mais popular e o mais antigo canto cristão chegado até nós” (P. Maranget). Ele foi composto entre os anos 160 e 180, isto é, no século II, à maneira de um salmo bíblico e era cantado somente na noite de Natal por causa de suas primeiras palavras: Gloria in excelsis Deo (Lucas 2, 14) O Papa Símaco (498-514) pediu que fosse cantado em todos os domingos e festas. Ele não é uma simples aclamação à Santíssima Trindade. É uma glorificação a Deus Pai e ao Cordeiro. Muitos compositores fizeram uns Glorinhas resumidos louvando a Trindade.  Eles precisam aprender a compor somente a música colocando-a em cima dessa letra tão antiga e venerável. As comunidades devem voltar a cantar o Hino tradicional que nunca foi abandonado em dois mil anos. Não será agora no século XXI que ele vai desaparecer…
Outro hino igualmente venerável é o Sanctus. As novas composições musicais desviaram totalmente o sentido de aclamação e alteraram por completo a letra. É um hino ligado à liturgia judaica, pois é composto a partir de Isaias 6, 3: Santo, Santo, Santo é Javé dos exércitos, a sua glória enche toda a terra. Em Mateus 21, 9 encontramos: Hosana ao Filho de Davi! Bendito aquele que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto do céu! É bom lembrar que os judeus jamais pronunciam o nome JAVÉ em suas celebrações. Então, por respeito a eles, que são os depositários do Primeiro Testamento (que chamamos de Antigo), nós também não devemos usar esse nome na Liturgia e, sim, fazer como eles, trocando por SENHOR: Santo, Santo, Santo é o SENHOR, Deus do Universo. O céu e a terra proclamam a sua glória, hosana nas alturas! Bendito o que vem em nome do Senhor, hosana nas alturas! Essas palavras são bíblicas e nenhum compositor deveria ter o atrevimento de alterá-las. Assim, comunidade alguma deveria cantar o Santo com letra diferente, por mais linda que seja a melodia.
E o Pai-nosso, então? O próprio Jesus compôs a letra (Mateus 6, 7-13) e alguns têm a ousadia de mudá-la ao seu sabor e conveniência. O Documento 43 da CNBB diz: Por ser a Oração que o Senhor nos ensinou, não deve ser nunca substituída por outros cantos, parafraseando o Pai-nosso. Um desconhecido compositor fez uma paráfrase que ainda é cantada em muitos lugares, cheia de erros de português, usando Tu, Vós, Você, com melodia sentimentaloide, monótona, arrastada, barroca e excessivamente longa (quase quatro minutos), contra a simplicidade e sobriedade que se requer. E o que é pior: é herética, ensinando o contrário do que Jesus ensinou. Diz assim: Perdoai as nossas ofensas de um modo maior do que nós perdoamos…! É muita pretensão e arrogância! O Senhor afirma a igualdade do perdão de Deus com o nosso perdão. Perdoai as nossas ofensas, ASSIM COMO nós perdoamos a quem nos tem ofendido. Nosso perdão é condição no mesmo grau para que haja o perdão de Deus. Perdoando pouco, Deus nos perdoará pouco, da mesma maneira, do mesmo modo!
Na Liturgia, além da criatividade, é preciso ter muito amor e respeito à Tradição, preservando certos tesouros, a fim de que as gerações futuras possam também usufruir deles no louvor perfeito.

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