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Panteísmo

Por Quadrante
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“Deus está em todas as coisas”. Pode um católico concordar com tal afirmação. De que maneira está Deus presente na sua obra? Embora muitos não o percebam, o panteísmo é um pressuposto de muitas das religiões que estão de moda: o espiritismo, o budismo, o hinduísmo, etc.

A palavra “panteísmo” foi cunhada pelo filósofo inglês John Toland (1660-1722) em 1705. Significa a doutrina segundo a qual Deus é o Hen kai Pan, o “Um e o Todo” da filosofia grega. Deus seria a única realidade existente, da qual o mundo, espiritual e material, se teria originado por emanação.

A “substância divina” seria impessoal, neutra, sempre em via de evolução no decorrer da história, concebida geralmente como uma “energia”, “força” ou “destino” cegos; em cada indivíduo humano ela estaria paulatinamente tomando consciência de si mesma, até chegar à plenitude ou à perfeição. O homem seria, assim, uma manifestação da divindade, manifestação identificada com a divindade. O panteísmo se tem apresentado sob as mais diversas modalidades ao longo da História.

O hinduísmo e o budismo são panteístas, como o era o antigo paganismo grego e, no fundo, a maior parte das religiões politeístas. Também diversos filósofos antigos e modernos se têm comprazido em formulá-lo de diversas maneiras: “tudo é Deus e Deus é tudo”, ou “Deus é a alma do mundo” ou “o princípio imanente que dá subsistência ao mundo”. Qualquer dessas fórmulas implica que Deus é identificado, totalmente ou em parte, com a natureza posta em evolução.

O panteísmo tem estado em voga nas correntes filosóficas e religiosas mais recentes; vem a ser uma forma de religiosidade que não “incomoda” o homem. Com efeito, o panteísmo ou monismo, fazendo coincidir Deus com a natureza, emancipa o homem de qualquer força superior, pois o próprio homem vem a ser uma centelha ou uma parcela da divindade.

Em conseqüência, o homem pode conceber a sua religião segundo o seu bel-prazer imaginativo e subjetivo, como se vê na corrente da Nova Era. O Manual informativo do membro da Sociedade Teosofista do Brasil afirma, por exemplo, que o homem é “o seu próprio legislador absoluto, o seu próprio dispensador de glória e obscuridade, o que por si mesmo decreta a sua vida, recompensa ou castigo” (São Paulo, 1951, pág. 22).

Notemos que falar de um “Deus pessoal”, como o faz o cristianismo, não significa que Deus esteja dotado de um semblante humano, longa cabeleireira e barbas, mas é um puro Espírito, com inteligência e vontade perfeitíssimas. Ora, é ilógico identificar o homem – contingente e volúvel como é – com a própria divindade, que por definição é o contrário do contingente e volúvel.

Deus é essencialmente distinto do homem, do mundo e das realidades visíveis, pois Ele é absoluto e eterno, ao passo que as criaturas sensíveis são relativas, transitórias e temporárias. O infinito não resulta das realidades finitas postas em evolução, nem devemos imaginar que o eterno seja a soma de numerosíssimas parcelas de tempo. Não é difícil perceber que o panteísmo contraria não somente a fé católica, mas também o bom senso e a sã razão.

Com efeito, Deus não pode (nem parcialmente) identificar-se com o mundo, pois, por definição, é o Absoluto, Necessário, Ilimitado, ao passo que o mundo é relativo, contingente e limitado em suas perfeições. Ora, o mesmo sujeito jamais será, simultaneamente e sob o mesmo ponto de vista, Absoluto e relativo, pois esses predicados se excluem mutuamente. Ademais, não pode haver evolução ou progresso em Deus, pois toda evolução diz ou aquisição ou perda de perfeição; em qualquer caso, implica imperfeição, o que é absurdo em Deus.

A hipótese de um Deus ou de uma substância divina em evolução tenta explicar o mundo não por um ser absoluto, mas por um “tornar-se” absoluto; ora, o “tornar-se” absoluto é contraditório em si, pois “tornar-se” significa uma ausência que se encontra à busca da plenitude, ao passo que o Absoluto diz perfeição plena.

Mas não se pode entender o panteísmo como a afirmação de que Deus está presente em todas as coisas como a alma o está no corpo? Deus está efetivamente presente em todas as coisas pelo fato de tê-las criado e de conservá-las na existência; por um ato contínuo, sustenta cada criatura no ser, impedindo que recaia no nada do qual foi tirada pelo ato criador. Esta é uma verdade que a fé católica professa. Mas essa presença não é identificação nem imanência, tal como num quadro o pintor está presente em cada parte, sem se identificar nem com qualquer dessas partes, nem com o conjunto.

Fontes principais
Estêvão Bettencourt, Religiões, Igrejas e seitas, Lumen Christi, Rio de Janeiro, 1997

Manuel Guerra Gomez, Los nuevos movimientos religiosos, EUNSA, Pamplona, 1993

A morte e a vida eterna

1- O mundo passa. A vida é breve. A morte é certa. Quem faz o bem e cumpre o dever não precisa ter medo da morte, pelo contrário, espera a vida. O bem já é o céu antecipado. Nosso corpo na eternidade será glorioso, incorruptível, espiritual, imortal. O que parece ser um fim, um fracasso é na verdade um começo, um início. Quem tem fé já vive o início da festa eterna.

2- O cemitério é uma cidade viva. Sim, ali está viva a saudade e a recordação da vida dos nossos entes queridos. É cidade da saudade, da esperança na ressurreição, cidade que leva a pensar e até a mudar de vida. É a cidade da igualdade social, da paz, da transformação da morte em vida.

3- Os túmulos são também berços. Deus promete abrir os túmulos e então nascemos para a nova vida junto Dele. Eis o início da nova vida. A morte é fim da vida terrena e início da vida nova, da plenitude da vida. Descemos para o seio da terra e entramos no seio de Abraão, isto é, de Deus. Descemos ao túmulo, para subir aos céus. Voltamos para a terra para voltar ao Criador e com Ele conviver.

4- Levamos flores, neste dia. A flor vem de uma semente e de um botão que morreu. Eis o que é a páscoa pessoal. A flor é o símbolo de nossa realidade pascal. Ela é também sinônimo de gratidão, respeito, carinho, homenagem para quem esteve entre nós e está vivo em Deus, no jardim celeste e suas mansões. Transformemos o deserto em jardim.

5- No dia de finados costumamos acender velas. De fato, a luz das boas obras que nossos mortos praticaram ainda ilumina. O esplendor do bem, a luminosidade do amor não passa. O bem não morre. A vela acesa é símbolo da fé que transforma as trevas em luz e projeta o futuro. Somos como velas que quanto mais se consomem, tanto mais iluminam. Brilhe vossas boas obras, pediu Jesus.

6- Finados é dia de reflexão, de retiro, de interiorização. A morte nos faz todos iguais. Acabam as classes sociais. A morte faz pensar. Ela é escola de filosofia. Impele a vencer ilusões, enganos porque ajuda a parar, a rezar, a rever a vida. A morte faz parte da vida, é nossa irmã. Ela é parto e porta para a plenitude, a glória, a eterna felicidade. Morte é passagem para outra margem, é ponte que leva ao rumo certo.

7- As coroas sobre os túmulos querem lembrar a coroação da vida, do bem, do amor que os nossos mortos realizaram. No céu seremos coroados pela Santíssima Trindade, tomaremos posse do reino. A vida termina com o coroamento da pessoa humana, chamada a reinar com Cristo. Quem combateu o bom combate, receberá a coroa da glória.

8- A morte é benção porque através dela entramos na vida. Ela é condição para a glorificação dos pecadores perdoados. A face do Senhor é vossa verdadeira pátria. A morte não é inimiga, porque ela ajuda a viver com retidão e a praticar a justiça, o bem, o amor. Pensar na morte não é patologia, é sabedoria. “Pensa na morte e não pecarás”. Diante dos túmulos nós rezamos: “tu foste o que eu sou, eu serei o que tu és”.

9- A pior morte é o pecado, ou seja, a morte espiritual. A boa morte que devemos desejar e pedir, é a morte do egoísmo, do mal, do pecado, portanto a morte mística que nos torna altruístas, servidores, solidários. A morte biológica foi vencida pela ressurreição do Senhor. Jesus matou a morte. Somos seres de esperança.

10- Levaremos o amor com que fizemos todas as coisas. O amor não passa, o bem é eterno, a alma é imortal. Nossas boas obras são passaporte para o céu. Nossa vida não é tirada, mas transformada. A promessa de Jesus a quem se converte é esta: “hoje estarás comigo no paraíso”. Não há reencarnação na fé cristã. O sangue de Jesus é que salva e a fé nos torna justos, puros, santos, agradáveis a Deus. Um gesto de amor vale mais que toda beleza das coisas e a massa do universo. Somos uma cloaca, diz Pascal, que o sangue de Jesus lavou e perfumou. Nossa grandeza está em reconhecer nossa miséria e confiar na misericórdia.

 

A MORTE NA VIDA CRISTÃ

No ano 2006, Bento XVI dirigiu um discurso aos fiéis, começando com estas palavras: “Nestes dias, que se seguem à comemoração dos fiéis defuntos, celebra-se em muitas paróquias o oitavário dos defuntos. Uma ocasião propícia para recordar na oração os nossos familiares e meditar sobre a realidade da morte, que a chamada “civilização do bem-estar” muitas vezes procura remover da consciência do povo, completamente absorvida pelas preocupações da vida quotidiana. Morrer, na realidade, faz parte do viver, e isto não só no fim, mas, considerando bem, em cada momento” (Ângelus, 5-XI-2006). Paradoxalmente a reflexão sobre a morte ajuda a viver em plenitude a vida presente, pois só quem tem clara a meta – o destino eterno – é que sabe para onde está dirigindo os seus passos.

Uma realidade da qual não é possível fugir

Um antigo conto narra que um funcionário real ao abrir a porta de casa deu de cara com a morte. Ele ficou apavorado, mas viu que também a morte parecia surpresa de encontrá-lo. Rapidamente se dirigiu ao seu senhor para expor a situação e pedir o melhor cavalo para fugir bem longe. Foi-lhe concedido o seu desejo e começou uma fuga a toda velocidade. Ao cair da noite o cavalo não conseguia dar mais um passo. Ele próprio estava bem cansado, mas ainda conseguiu caminhar um bom trecho até que esgotado deitou ao pé de uma grande árvore. Pouco depois viu a morte se aproximar dele calmamente, e antes de que pudesse pegá-lo pediu licença para fazer uma pergunta. “Por que hoje ao abrir a porta e ver-me você se surpreendeu?”. E a morte respondeu: “Eu sabia que devia te pegar hoje a noite ao pé desta árvore, mas como estávamos tão longe pensei: Como será que ele vai fazer para chegar até aqui?”. O conto ilustra bem a nossa relação com a morte, e dá para tirar uma primeira conclusão: Já que não é possível fugir dela, é melhor encará-la.

O padre Antônio Vieira escreve num sermão que “três coisas fazem duvidosa, perigosa e terrível a morte. Ser uma, ser certa, e ser momentânea (…) E de todas estas dificuldades e perigos se livra seguramente só: quem? Quem não guarda a morte para a morte, quem acaba a vida antes de morrer, quem se resolve a ser pó antes de ser pó: pulvis es”  (Sermão2 da IV de Cinzas, n II). Vale pois a pena dedicar um tempo da vida a meditar na morte… e treinar para esse momento, não seja que nos pegue de surpresa e não saibamos como fazer quando ela se apresentar.

Uma pintura e uma reflexão (de um santo)

Juan de Valdés Leal (1622-1690) foi um artista famoso pelas pinturas que realizou para o Hospital da Caridade de Sevilha sobre a brevidade da vida e a caducidade dos bens temporais. Uma das mais famosas leva por título Finis gloriae mundi (O fim da glória do mundo). Certamente não é uma pintura alegre… mas ajuda a pensar.

Ao contemplar a imagem é fácil observar os detalhes. No lado esquerdo, há uma coruja e, voando por cima dela, um morcego, símbolos das trevas. No primeiro plano, o caixão aberto de um bispo paramentado (com mitra e báculo) e, junto dele, o cadáver de um cavaleiro com a capa da Ordem de Calatrava, referências diretas à morte.

No centro da composição, aparece uma referência ao juízo particular da alma após o falecimento: a mão chagada de Jesus – envolta por uma luz dourada – segura uma balança de dois pratos. No lado esquerdo, decorado com as palavras “Ni más” (nem mais) aparecem os símbolos dos pecados capitais, caminho da condenação eterna. No direito, que tem a inscrição “Ni menos” (nem menos),  mostram-se símbolos da virtude, da oração e da penitência. Segundo a opinião de Jonathan Brown  “o significado fica totalmente claro por causa das palavras pintadas em cada prato: não é preciso fazer mais (do que está representado) para cair no pecado, nem é preciso fazer menos (das virtudes que se mostram nesse prato) para sair do pecado” (Imágenes e ideas en la pintura española del siglo XVII).

Não apenas os críticos de arte fazem referência a esta obra, também os santos. Um deles escreveu: “Aqueles quadros de Valdez Leal, com tantos “restos” ilustres – bispos, cavaleiros – em viva podridão, parece-me impossível que não te impressionem [“muevan”, lemos no original espanhol]. Mas… e o gemido do duque de Gandia: Não mais servir a senhor que me possa morrer?” (São Josemaria Escrivá, Caminho, n.742). Em verdade o pensamento da morte é sobre o futuro para aprender a viver o presente.

O padre Vieira perguntava-se: “Como se aprende a escrever?”. E respondia: “Escrevendo”. E continuava: “Assim também se há de aprender a morrer não só meditando, mas morrendo”. E concluía: “Se quereis morrer bem (como é certo que quereis) não deixeis o morrer para a morte, morrei em vida; não deixeis o morrer para a enfermidade e para a cama, morrei na saúde e em pé” (Pe. Vieira, Sermão2 da IV de Cinzas, n III). Como só morremos uma vez, vale a pena saber como fazê-lo e, pelo menos, pensar nisso. É triste ficar sabendo de alguns que são expressão viva do que escreveu Blaise Pascal: “Não tendo os homens podido curar a morte, a miséria, a ignorância, acharam de bom aviso, para se tornarem felizes, não pensar nisso” (Pensamentos, art. XXI, XIV)… É a miséria humana!

Para fechar esta primeira parte resta só falar brevemente da personagem que São Josemaria Escrivá citava: O duque de Gandia. Quem ele era?

Com o apelido de “Duque de Gandia” se faz referência a São Francisco de Borja, por ser esse o titulo nobiliárquico que herdou da família. Ao falecer a imperatriz Isabel de Portugal, esposa de Carlos V, Francisco de Borja foi um dos nobres que acompanhou a procissão funerária desde Toledo até Granada. A data escolhida para o sepultamento foi o dia 17 de Maio de 1539. Mas antes disso os nobres que tinham acompanhado a procissão deviam reconhecer o cadáver jurando que era o da imperatriz. Ao chegar a vez de Francisco, perante esse corpo, que já foi belo mas que agora estava se descompondo, ele fez este propósito: “Não mais servir a Senhor que possa morrer”. Foi o primeiro passo de uma mudança de vida. Seria realmente arriscado deixar a reflexão sobre a morte para o último momento da vida!

Uma visão nova

Na verdade o pensamento sobre a morte não é apenas uma consideração sobre a brevidade da vida, ou sobre o sentido passageiro das coisas materiais. Para os cristãos, porém, tem um sentido mais profundo, que nasce da consciência de que Jesus Cristo venceu a morte, morrendo. Ele revolucionou o sentido da morte com o seu ensinamento, mas sobretudo enfrentando-a Ele próprio. “Com um Espírito que não podia morrer Cristo matou a morte que matava o homem” (Melitão de Sardes, Sobre a Páscoa, 66).

“O Filho de Deus quis desta forma (morrendo Ele próprio), partilhar até ao fim a nossa condição humana, para reabri-la à esperança. Em última análise, Ele nasceu para poder morrer, e assim, nos libertar da escravidão da morte. Diz a Carta aos Hebreus: experimentou ‘a morte em favor de todos’ (Hb 2, 9). Desde então, a morte já não é a mesma: foi privada, por assim dizer, do seu veneno” (Bento XVI, Ângelus, 5-XI-2006). A grande novidade é que Cristo, com a sua morte, abriu-nos as portas do céu: Agora, para quem quiser, é possível entrar nele. Que mistério profundo coloca diante de nossos olhos! Que grande mudança na compreensão da morte!

São João afirma que, em Cristo, a vida humana é “passagem deste mundo para o Pai” (Jo 13, 1). Por isso para o cristão a hora da morte é o momento no qual o trânsito para a eternidade realiza-se de maneira concreta e definitiva. O cristianismo deu um sentido novo a morte tão forte que até o local dos sepultamentos mudou de nome: de necrópole (cidade dos mortos) passou para cemitério (lugar para dormir). Em outras palavras, as sepulturas deixaram de ser lugares perenes para virar estações de passagem. Esta é a grande mudança que vale a pena não esquecer nunca: A morte é uma porta para a vida: “A vida é transformada, não tirada” (Prefácio I de Defuntos).

Os cristãos dos primeiros séculos tinham bem presente o sentido da morte como de passagem para uma vida plena. Num epitáfio do século III lê-se: “Uma mulher de vinte e oito anos morreu de parto; seu nome, Aurélia Licinia Flórida. Foi embora deste mundo no nome de Cristo, fiel (=cristã) em Cristo, feliz por isto”. Nela se exprime claramente que migrou deste mundo para o outro (Cf. M.T. Muñoz García de Iturrospe, Una destacada inscripción cristiana en la ‘Casa del Anfiteatro’ de Mérida). Quantos haverá – tal vez que não tenham fé – que morrem de medo ao pensar na morte! E aqui se nos apresenta uma mãe, jovem ainda, e fecunda, que está feliz por encontrar Jesus.

Alguns deixam o mundo angustiados, ou vêem a vida vazia, sem sentido. Bento XVI na sua segunda encíclica fez referência a um epitáfio de uma sepultura dos primeiros séculos. Desta vez corresponde a uma pessoa sem fé. Nela está escrito: “In nihil ab nihilo quam cito recidimus” (No nada, do nada, quão cedo recaímos) (Cf. Spe Salvi, n. 2). É o resumo de uma vida sem sentido. Não será que também há pessoas que dizem acreditar em Deus, mas, na verdade, não deixam espaço para Ele na própria vida? Homens e mulheres que pensam no presente (ficar ricos, ser famosos, cuidar do físico…) mas estão vazios por dentro? Não será que há quem viva no temor por não considerar que Jesus déu um sentido novo à morte… e à vida?

A fé da igreja primitiva, como aliás a de hoje, é a que nos transmite São Paulo. “Irmãos, não queremos que ignoreis coisa alguma a respeito dos mortos, para que não vos entristeçais, como os outros homens que não têm esperança. Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, cremos também que Deus levará com Jesus os que nele morreram” (1 Tes. 4, 13-14).

É bonito ver que esta imagem da existência – e do seu fim – não é apenas coisa do passado. Também hoje há quem, quando surpreendido pela morte, demonstra ter experiência acumulada, e também possuir o sentido cristão da passagem. Seria possível pensar em muitos exemplos. Um deles, bem recente é o de Chiara Badano, uma jovem italiana que faleceu aos 18 anos, vítima de um osteossarcoma. Foi escrito numa sua biografia: “Não teve medo de morrer. Disse à sua mãe: «Não peço mais a Jesus para vir me pegar e me levar para o Paraíso, porque quero ainda lhe oferecer o meu sofrimento, para dividir com ele, ainda por um pouco, a cruz». Um pensamento especial aos jovens: «…Os jovens são o futuro. Eu não posso mais correr. Porém, gostaria de lhes passar a tocha, como nas Olimpíadas. Os jovens têm uma vida só e vale a pena empregá-la bem!»”. Chiara faleceu no amanhecer do dia 7 de outubro de 1990, depois de uma noite muito dolorosa. “As suas últimas palavras foram: «Mãezinha, seja feliz, porque eu o sou. Adeus»” (Biografia do folheto da Celebração Eucarística para a beatificação da serva de Deus Chiara Badano, Roma 25-IX-2010).

Tomara que cada homem pudesse viver com um sentido transcendente da vida; e pedir, com uma oração tradicional da Igreja: “Que eu morra como o glorioso São José, acompanhado por Jesus e Maria, pronunciando estes nomes dulcíssimos, que espero bendizer por toda a eternidade”.

O facebook e a Fé?

Há alguns vários anos atrás num programa humorístico de TV havia um personagem chamado Burraldo que normalmente tinha que ler suas redações em aula. Eram divertidas na maioria das vezes e eram bem descritivas e simplistas.  Por exemplo… o cachorro é um bicho. O cachorro tem quatro patas. O cachorro tem pelos. … e sempre com frases curtíssimas.

Se tivéssemos que falar sobre o Facebook teríamos que relatar nesse sentido Burraldo de descrever e ainda escrevendo feicibuque.

Mas o que se pretende está um passo a frente, ou melhor, um passo dentro do que anda acontecendo ou pode acontecer no Facebook.

Sem falar nos exageros, exibicionismos e outros comportamentos indesejáveis mais para quem se expõe até do que para quem tem que assistir, o Facebook anda mexendo com um lado mais emocional e/ou espiritual das pessoas.

Também sem entrar no mérito de que muitas postagens são atribuídas a pessoas que jamais falaram de determinados assuntos – quantas Clarice Lispector, Arnaldo Jabor entre outros famosos aparecem citando frases, verdades e conselhos.

No quesito religioso têm aparecido muitas publicações que têm sido de ajuda para outros tantos que se conhecem e que, melhor, nem se conhecem.

É um caso de assumir sua fé e propagar. Mais do que o simplismo de dizer onde jantou, como passeou, como se divertiu, como se exibiu, está acontecendo a oportunidade de assumir a sua fé. No que se acredita, no que se quer compartilhar, no que se quer comentar ou até simplesmente curtir – seja lá o que isso signifique. Curtir no Facebook é como se fosse uma rubrica, mais do que curtir porque gostou, aprovou ou desaprovou.

Sabe-se que a luta contra a ditadura do Egito foi atingida pelas comunicações de internet então se pode atingir muito mais.

Maria passa na frente, palavras de Madre Teresa, jovens se preparando para um grande encontro, defesa da vida, manifestações contra o aborto e tantos outros valores estão se propagando muito mais do que em meios até então usuais e conhecidos. E nessa onda toda, as pessoas se pegam unidas por uma fé que vêm cutucada, curtida, comentada, compartilhada. Sozinho não se perceberia tantas situações, movimentos, reforços de atitudes para a Fé.

A religião fala muito mais que isso, sim! Mas essas trocas, esse pensar em Deus, esse bem estar de se sentir bem e querer que o outro possa sentir o mesmo dentro de sua crença.

Melhor ainda que entre tantos e tantos amigos de Facebook sabe-se que há inúmeras religiões e não religiões, mas poder assumir o que se compartilha. Tem-se coragem de dizer quero que MARIA passe na minha frente, sou católico sim, e outras afirmações em que se pode dizer que o Facebook é um meio em que se pode assumir a sua FÉ para quem quiser ver e para quem desejar mais… que compartilhe e siga.

Fé exige responsabilidade. Temos fé e temos de respeitar o que ela significa para nós mesmos e o que representará para nosso irmão de fé, agora, por incrível que pareça… no Facebook!

A FÉ não dança conforme a música para quem ouve, a fé é firme e segura e quando se conta com um meio de divulgação tão maciço ela é, sobretudo, responsável.

A ESPERANÇA para compartilhar essa FÉ cutucada, curtida e compartilhada no Facebook fica para outra reflexão.

Autora: Maria Lúcia Pedroso Yoshida

Santa Teresa de Ávila (de Jesus)

Por Mons. Inácio José Schuster

Com grande alegria lembramos, hoje, da vida de santidade daquela que mereceu ser proclamada, em 1970, pelo Papa Paulo VI, Doutora da Igreja, como Mestra de espiritualidade: “Santa Teresa D’Ávila”. Como chegou até lá? Teresa nasceu em Ávila, Espanha em 1515 e foi educada de modo sólido e cristão, tanto assim, que quando criança se encantou tanto com a leitura da vida dos santos mártires, que combinou fugir com o irmão para uma região onde muitos cristãos eram martirizados, mas nada disso aconteceu, graças à vigilância dos pais. Aos vinte anos, ingressou no Carmelo de Ávila, onde viveu no relaxamento, pois muito se apegou às criaturas, parentes e conversas destrutivas, assim como conta em seu livro da vida. Certo dia, foi tocada pelo olhar da imagem de um Cristo sofredor, assumiu a partir desta experiência a sua conversão e voltou ao fervor da espiritualidade carmelita, a ponto de criar uma espiritualidade modelo. Em 1562, Teresa deu início à reforma dos Carmelos tão numerosos na Espanha. Obra gigantesca que exigiu de sua vocação para a contemplação e doação total à ação e suas lutas e experiências místicas, produziram obras imortais, como o caminho da perfeição, as moradas, a autobiografia que são ainda hoje, fontes de perene vida e seta que aponta a finalidade da via carmelita: União absoluta com Deus até se formar uma espécie de matrimônio espiritual entre a alma e Deus. O seu segredo é o amor. Santa Teresa conseguiu fundar mais de trinta e dois mosteiros, além de recuperar o fervor primitivo de muitas carmelitas, juntamente com São João da Cruz. Teve sofrimentos físicos e morais antes de morrer, até que em 1582 disse uma das últimas palavras: “Senhor, sou filha de vossa Igreja. Como filha da Igreja Católica quero morrer”. Santa Teresa D’Ávila rogai por nós! Realizou uma grande reforma no Carmelo e fundou outros, inclusive dois de frades. Escreveu obras famosas e de grande valor espiritual como “Caminho de perfeição”, “Moradas ou Castelo Interior” e “Livro da vida”. Além de ser a autora do poema “Nada te perturbe”.

Confira um pouco de seu pensamento expresso em frases:
“Quem ama, faz sempre comunidade; não fica nunca sozinho”.
“A amizade é a mais verdadeira realização da pessoa”.
“Falais muito bem com outras pessoas, por que vos faltariam palavras para falar com Deus?”
“A amizade com Deus e a amizade com os outros é uma mesma coisa, não podemos separar uma da outra”.
“Em tempos de tristeza e de inquietação, não abandones nem as boas obras de oração, nem a penitência a que estás habituada. Antes, intensifica-as. E verás com que prontidão o Senhor te sustentará”.
“Quem não deixa de caminhar, mesmo que tarde, afinal chega. Para mim, perder o caminho é abandonar a Oração”.
“O Senhor não olha tanto a grandeza das nossas obras. Olha mais o amor com que são feitas”.
“O verdadeiro humilde sempre duvida das próprias virtudes e considera mais seguras as que vê no próximo”.
“Humildade é a verdade”.
“Espera um pouco, filha, e verás grandes coisas”.
“Vocês pensam que Deus não fala porque não se ouve a Sua voz? Quando é o coração que reza Ele responde”.
“O Senhor sempre dá oportunidade para oração quando a queremos ter”.
“Falte-me tudo, Senhor meu, mas se vós não me desamparardes, não faltarei eu a vós”.
“Quem vos ama de verdade, Bem meu, vai seguro por um amplo caminho real, longe do despenhadeiro, estrada na qual, ao primeiro tropeço, Vós, Senhor, dais a mão; não se perde, por alguma queda, nem mesmo por muitas, quem tiver amor a Vós, e não às coisas do mundo”.
“Se tiver humildade, não tenha receio, o Senhor não permitirá que se engane nem engane os outros”.
“Uma prova de que Deus esteja conosco não é o fato de que não venhamos a cair, mas que nos levantemos depois de cada queda”.
“Se não dermos ouvidos ao Senhor quando Ele nos chama, pode acontecer que não consigamos encontrá-lo quando o quisermos”.
“São felizes as vidas que se consumirem no serviço da Igreja”.
“Basta uma graça dessas para transformar uma alma por inteiro”.
“Não me parecia que eu conhecesse a minha alma, tão transformada eu a via”.
“O olhar de Deus é amar e conceder graças”.
“Eu quero ver a Deus e para isso é necessário morrer. Não morro, mas entro na vida”.

“QUE NADA TE PERTURBE, NADA TE AMEDRONTE, TUDO PASSA. SÓ DEUS NUNCA MUDA. A PACIÊNCIA TUDO ALCANÇA. A QUEM TEM DEUS, NADA FALTA. SÓ DEUS BASTA”.

Ó Santa Teresa de Jesus, vós sois a mestra da genuína oração e nos ensinais a rezar conversando com Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Ó Santa Teresa, ajudai-nos a rezar com fé e confiança, sem nunca duvidar da bondade divina. Ajudai-nos a rezar com inteira conformidade de nossa vontade com a vontade de Deus, com insistente perseverança até alcançarmos aquilo que necessitamos. Ó Santa Teresa de Jesus, fazei-nos fiéis a nossa oração da manhã e da noite e a transformar em oração o cumprimento de nossas tarefas de cada dia. Que a oração seja para nós a porta de nossa conversão e santificação e a chave de ouro que nos abrirá a porta do Céu. Amém.
Santa Teresa de Jesus, rogai por nós!

Santa Teresa, virgem esposa, especialmente amada do Crucificado, doutora da Igreja, permiti que, imitando-vos perfeitamente, eu possa cumprir a vontade e ganhar a amizade do Sumo Bem, antes de buscar as alegrias do mundo. Apesar de todas as minhas contradições e defeitos, dai-me força para seguir vosso exemplo e seguir plenamente a Cristo com aquela perfeição que Ele pede. Com o vosso auxílio eu possa superar as dificuldades desta vida e merecer o repouso sem fim no céu. Amém.

 

Medo do Diabo? Responde Santa Teresa de Ávila
Fonte: Extraído do Livro “Um Exorcista Conta-nos” – Pe. Gabriele Amorth – Ed. Paulinas.

Contra os medos injustificados do demônio, apresentamos um extrato da vida de Santa Teresa de Ávila (capítulo 25, 19-22). É uma passagem encorajadora, exceto se formos nós próprios a abrir voluntariamente a porta ao demônio…

Se o Senhor é tão poderoso como eu sei e como eu vejo; se os demônios não passam de escravos, e isso a minha fé não me permite duvidar, que mal me podem eles fazer se eu sou a servidora desse Senhor e Rei? Então porque é que não me hei – de sentir suficientemente forte para enfrentar o inferno inteiro?

Agarrei uma cruz entre as mãos e parecia que Deus me dava a coragem necessária. Em pouco tempo, vi-me de tal modo transformada que já não tinha medo de descer à arena para lutar contra todos eles, e gritei-lhes: ”Venham cá agora que, sendo eu a servidora do Senhor, quero ver o que vocês me podem fazer!”.

E parece que tiveram mesmo medo de mim porque me deixaram tranquila. Daí para a frente aquela angústia não me voltou a preocupar e já não tive mais medo dos demônios, a ponto de, quando eles me apareciam, como explicarei mais à frente não só já não tinha medo deles mas tinha verdadeiramente a impressão de que eles é que tinham medo de mim.

O Mestre soberano de todas as coisas deu-me sobre eles uma tal soberania que hoje, já não me metem mais medo do que as moscas. São de tal forma covardes que, quando se vêem desprezados, perdem a coragem.

Só atacam frontalmente os que vêem que se lhes rendem facilmente, ou então quando o Senhor permite a fim de que, com as lutas perseguições, os seus servidores ganhem méritos.

Agrada a Sua Majestade, que só tenhamos medo daquilo que convém ter medo, tendo presente que um só pecado venial nos prejudica mais do que o inferno inteiro; essa é que é a verdadeira realidade.

Vocês sabem quando é que os demônios se manifestam e nos devem causar pavor? Quando nos preocupamos com as honras, os prazeres e as riquezas deste mundo.

Ora nós, amando e procurando aquilo que devíamos aborrecer, pomos nas suas mãos as armas com as quais nós poderíamos defender, e incentivamo-lo a combater contra nós próprios, para nossa maior perdição. Dá-me pena pensar nisto porque, bastaria agarrarmo-nos firmemente à cruz e desprezar todas as coisas por amor a Deus, para que Satanás fugisse destas práticas, mais do que nós fugimos da peste.

Amigo da mentira e sendo ele próprio a Mentira, o Maligno nunca se dá bem com aquele que segue o caminho da verdade. Mas se vê que o espírito está obscurecido, faz tudo o que pode para o cegar completamente; quando ele se apercebe que uma pessoa está tão cega a ponto de se contentar com as coisas do mundo, que são tão fúteis e vãs como brincadeiras infantis, convence-se que está a lidar com uma criança, trata-a como tal e diverte-se a atacar e a voltar a atacar.

Queira Deus que eu não seja assim, mas que, apoiada pela graça, repouse quando é ocasião para repousar, honre o que é digno de honra, me alegre com o que é a verdadeira alegria e não ao contrário.

Assim, poderei ser eu a mostrar os cornos a todos os demônios, que fugirão espavoridos. Não compreendo o medo dos que gritam: “demônio! demônio!“ deviam era gritar: “Deus! Deus!” e assim encher o inferno de pavor.

Não sabemos que os demônios não podem nem mover-se sem a permissão de Deus? Então para que é que são os vãos temores? Quanto a mim os indivíduos apavorados pelo diabo fazem-me mais medo que o próprio diabo, pois este não me pode fazer nada enquanto os outros principalmente se trata de maus confessores enchem a alma de inquietação.

Por causa deles passei muitos anos de tormentos e ainda me admiro de ter conseguido suportar. Bendito seja o Senhor que me trouxe a Sua ajuda preciosa.

 

Papa propõe Santa Teresa de Jesus como “mestra espiritual”
Começa uma breve série sobre os Doutores da Igreja

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) – O Papa Bento XVI quis propor hoje a santa espanhola Teresa de Ávila como exemplo de vida “fascinante” e como “mestra espiritual” para os cristãos de hoje. Começou assim um percurso – como ele mesmo anunciou aos peregrinos reunidos na Sala Paulo VI para a audiência das quartas-feiras – pela vida dos Doutores da Igreja, sobre alguns dos quais já falou durante seu ciclo de teólogos medievais. Teresa de Ávila, afirmou o Papa, “representa um dos cumes da espiritualidade cristã de todos os tempos”. Citando a autobiografia da santa espanhola – “O livro da vida” -, Bento XVI percorreu sua vida desde os desejos de martírio em sua infância, sua adolescência e juventude cheias de distrações, seu conflito interior em meio às doenças e, finalmente, sua conversão e suas experiências místicas. “Paralelamente ao amadurecimento da sua própria interioridade, a santa começa a desenvolver, de forma concreta, o ideal de reforma da Ordem Carmelita”, explicou o Papa, aludindo à importante reforma do Carmelo, levada a cabo por Teresa. A existência de Teresa de Ávila, ainda que tenha transcorrido na Espanha, sublinhou, esteve “empenhada por toda a Igreja”, fato pelo qual foi proclamada Doutora da Igreja por Paulo VI, em 1970. “Teresa de Jesus não tinha formação acadêmica, mas sempre entesourou ensinamentos de teólogos, literatos e mestres espirituais. Como escritora, sempre se ateve ao que tinha experimentado pessoalmente ou visto na experiência de outros”, explicou o Papa. Da mesma forma, aludiu à sua “amizade espiritual com muitos santos, especialmente com São João da Cruz”, assim como sua estima pelos “Padres da Igreja, São Jerônimo, São Gregório Magno, Santo Agostinho”. Além da autobiografia, o Santo Padre destacou o “Caminho de perfeição”, no qual a santa “propõe um intenso programa de vida contemplativa ao serviço da Igreja, em cuja base estão as virtudes evangélicas e a oração”, e sua obra mística mais conhecida, “Castelo interior”. Nesta última, Teresa “refere-se à estrutura de um castelo com sete ‘moradas’, como imagens da interioridade do homem”, inspirando-se “na Sagrada Escritura, especialmente no ‘Cântico dos Cânticos'”. Entre os ensinamentos da santa, o Papa destaca “o desapego dos bens ou a pobreza evangélica (e isso diz respeito a todos nós); o amor de uns aos outros como elemento essencial da vida comunitária e social; a humildade e o amor à verdade; a determinação como resultado da audácia cristã; a esperança teologal, que descreve como sede de água viva”. Nos ensinamentos de Teresa estão também “as virtudes humanas: afabilidade, veracidade, modéstia, cortesia, alegria, cultura”. “Em segundo lugar, Santa Teresa propõe uma profunda sintonia com os grandes personagens bíblicos e a escuta viva da Palavra de Deus”, assim como a oração como algo “essencial”: para a santa, rezar significa “tratar de amizade com Deus, estando muitas vezes tratando a sós com quem sabemos que nos ama”. “Outro tema caro à santa é a centralidade da humanidade de Cristo. Para Teresa, na verdade, a vida cristã é uma relação pessoal com Jesus que culmina na união com Ele pela graça, por amor e por imitação”, assim como “a perfeição, como aspiração de toda vida cristã e sua meta final”. Por isso, afirmou o Papa aos presentes, “Santa Teresa de Jesus é uma verdadeira mestra de vida cristã para os fiéis de todos os tempos. Em nossa sociedade, muitas vezes desprovida de valores espirituais, Santa Teresa nos ensina a ser incansáveis testemunhas de Deus, da sua presença e da sua ação”.

 

Catequese do Papa: perfeição cristã segundo Santa Teresa de Ávila
Intervenção na audiência geral de hoje CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos, a seguir, a catequese dirigida pelo Papa aos grupos de peregrinos do mundo inteiro, reunidos na Sala Paulo VI para a audiência geral.
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Queridos irmãos e irmãs: Ao longo das catequeses que eu quis dedicar aos Padres da Igreja e a grandes figuras de teólogos e mulheres da Idade Média, pude falar sobre alguns santos e santas que foram proclamados Doutores da Igreja por sua eminente doutrina. Hoje, eu gostaria de começar com uma breve série de encontros para completar a apresentação dos Doutores da Igreja. E iniciamos com uma santa que representa um dos cumes da espiritualidade cristã de todos os tempos: Santa Teresa de Jesus. Ela nasceu em Ávila, Espanha, em 1515, com o nome de Teresa de Ahumada. Em sua autobiografia, ela menciona alguns detalhes da sua infância: o nascimento “de pais virtuosos e tementes a Deus”, em uma grande família, com nove irmãos e três irmãs. Ainda jovem, com pelo menos 9 anos, leu a vida dos mártires, que inspiram nela o desejo de martírio, tanto que chegou a improvisar uma breve fuga de casa para morrer como mártir e ir para o céu (cf. Vida 1, 4): “Eu quero ver Deus”, disse a pequena aos seus pais. Alguns anos mais tarde, Teresa falou de suas leituras da infância e afirmou ter descoberto a verdade, que se resume em dois princípios fundamentais: por um lado, que “tudo o que pertence a este mundo passa”; por outro, que só Deus é para “sempre, sempre, sempre”, tema que recupera em seu famoso poema: “Nada te perturbe, nada te espante; tudo passa, só Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem tem a Deus, nada lhe falta. Só Deus basta!”. Ficando órfã aos 12 anos, pediu à Virgem Santíssima que fosse sua mãe (cf. Vida 1,7). Se, na adolescência, a leitura de livros profanos a levou às distrações da vida mundana, a experiência como aluna das freiras agostinianas de Santa Maria das Graças, de Ávila, e a leitura de livros espirituais, em sua maioria clássicos da espiritualidade franciscana, ensinaram-lhe o recolhimento e a oração. Aos 20 anos de idade, entrou para o convento carmelita da Encarnação, sempre em Ávila. Três anos depois, ela ficou gravemente doente, tanto que permaneceu por quatro dias em coma, aparentemente morta (cf. Vida 5, 9). Também na luta contra suas próprias doenças, a santa vê o combate contra as fraquezas e resistências ao chamado de Deus. Escreve: “Eu desejava viver porque compreendia bem que não estava vivendo, mas estava lutando com uma sombra de morte, e não tinha ninguém para me dar vida, e nem eu poderia tomá-la, e Aquele que podia dá-la a mim, estava certo em não me socorrer, dado que tantas vezes me voltei contra Ele, e eu o havia abandonado” (Vida 8, 2). Em 1543, ela perdeu a proximidade da sua família: o pai morre e todos os seus irmãos, um após o outro, migram para a América. Na Quaresma de 1554, aos 39 anos, Teresa chega o topo de sua luta contra suas próprias fraquezas. A descoberta fortuita de “um Cristo muito ferido” marcou profundamente a sua vida (cf. Vida 9). A santa, que naquele momento sente profunda consonância com o Santo Agostinho das “Confissões”, descreve assim a jornada decisiva da sua experiência mística: “Aconteceu que…de repente, experimentei um sentimento da presença de Deus, que não havia como duvidar de que estivesse dentro de mim ou de que eu estivesse toda absorvida n’Ele” (Vida 10, 1). Paralelamente ao amadurecimento da sua própria interioridade, a santa começa a desenvolver, de forma concreta, o ideal de reforma da Ordem Carmelita: em 1562, funda, em Ávila, com o apoio do bispo da cidade, Dom Álvaro de Mendoza, o primeiro Carmelo reformado, e logo depois recebe também a aprovação do superior geral da Ordem, Giovanni Battista Rossi. Nos anos seguintes, continuou a fundação de novos Carmelos, um total de dezessete. Foi fundamental seu encontro com São João da Cruz, com quem, em 1568, constituiu, em Duruelo, perto de Ávila, o primeiro convento das Carmelitas Descalças. Em 1580, recebe de Roma a ereção a Província Autônoma para seus Carmelos reformados, ponto de partida da Ordem Religiosa dos Carmelitas Descalços. Teresa termina sua vida terrena justamente enquanto está se ocupando com a fundação. Em 1582, de fato, tendo criado o Carmelo de Burgos e enquanto fazia a viagem de volta a Ávila, ela morreu, na noite de 15 de outubro, em Alba de Tormes, repetindo humildemente duas frases: “No final, morro como filha da Igreja” e “Chegou a hora, Esposo meu, de nos encontrarmos”. Uma existência consumada dentro da Espanha, mas empenhada por toda a Igreja. Beatificada pelo Papa Paulo V, em 1614, e canonizada por Gregório XV, em 1622, foi proclamada “Doutora da Igreja” pelo Servo de Deus Paulo VI, em 1970. Teresa de Jesus não tinha formação acadêmica, mas sempre entesourou ensinamentos de teólogos, literatos e mestres espirituais. Como escritora, sempre se ateve ao que tinha experimentado pessoalmente ou visto na experiência de outros (cf. Prefácio do “Caminho de Perfeição”), ou seja, a partir da experiência. Teresa consegue tecer relações de amizade espiritual com muitos santos, especialmente com São João da Cruz. Ao mesmo tempo, é alimentada com a leitura dos Padres da Igreja, São Jerônimo, São Gregório Magno, Santo Agostinho. Entre suas principais obras, deve ser lembrada, acima de tudo, sua autobiografia, intitulada “Livro da Vida”, que ela chama de “Livro das Misericórdias do Senhor”. Escrito no Carmelo de Ávila, em 1565, conta o percurso biográfico e espiritual, por escrito, como diz a própria Teresa, para submeter a sua alma ao discernimento do “Mestre dos espirituais”, São João de Ávila. O objetivo é manifestar a presença e a ação de um Deus misericordioso em sua vida: Para isso, a obra muitas vezes inclui o diálogo de oração com o Senhor. É uma leitura fascinante, porque a santa não apenas narra, mas mostra reviver a profunda experiência do seu amor com Deus. Em 1566, Teresa escreveu o “Caminho da perfeição”, chamado por ela de “Admoestações e conselhos” que dava às suas religiosas. As destinatárias são as doze noviças do Carmelo de São José, em Ávila. Teresa lhes propõe um intenso programa de vida contemplativa ao serviço da Igreja, em cuja base estão as virtudes evangélicas e a oração. Entre os trechos mais importantes, destaca-se o comentário sobre o Pai Nosso, modelo de oração. A obra mística mais famosa de Santa Teresa é o “Castelo Interior”, escrito em 1577, em plena maturidade. É uma releitura do seu próprio caminho de vida espiritual e, ao mesmo tempo, uma codificação do possível desenvolvimento da vida cristã rumo à sua plenitude, a santidade, sob a ação do Espírito Santo. Teresa refere-se à estrutura de um castelo com sete “moradas”, como imagens da interioridade do homem, introduzindo, ao mesmo tempo, o símbolo do bicho da seda que renasce em uma borboleta, para expressar a passagem do natural ao sobrenatural. A santa se inspira na Sagrada Escritura, especialmente no “Cântico dos Cânticos”, para o símbolo final dos “dois esposos”, que permite descrever, na sétima “morada”, o ápice da vida cristã em seus quatro aspectos: trinitário, cristológico, antropológico e eclesial. À sua atividade fundadora dos Carmelos reformados, Teresa dedica o “Livro das fundações”, escrito entre 1573 e 1582, no qual fala da vida do nascente grupo religioso. Como na autobiografia, a história é dedicada principalmente a evidenciar a ação de Deus na fundação dos novos mosteiros. Não é fácil resumir em poucas palavras a profunda e complexa espiritualidade teresiana. Podemos citar alguns pontos-chave. Em primeiro lugar, Santa Teresa propõe as virtudes evangélicas como base da vida cristã e humana: em particular, o desapego dos bens ou a pobreza evangélica (e isso diz respeito a todos nós); o amor de uns aos outros como elemento essencial da vida comunitária e social; a humildade e o amor à verdade; a determinação como resultado da audácia cristã; a esperança teologal, que descreve como sede de água viva. Sem esquecer das virtudes humanas: afabilidade, veracidade, modéstia, cortesia, alegria, cultura. Em segundo lugar, Santa Teresa propõe uma profunda sintonia com os grandes personagens bíblicos e a escuta viva da Palavra de Deus. Ela se sente em consonância sobretudo com a esposa do “Cântico dos Cânticos”, com o apóstolo Paulo, além de com o Cristo da Paixão e com Jesus Eucarístico. A santa enfatiza, depois, quão essencial é a oração: rezar significa “tratar de amizade com Deus, estando muitas vezes tratando a sós com quem sabemos que nos ama” (Vida 8, 5). A ideia de Santa Teresa coincide com a definição que São Tomás Aquino dá da caridade teologal, como amicitia quaedam hominis ad Deum, uma espécie de amizade entre o homem e Deus, quem primeiro ofereceu sua amizade ao homem (Summa Theologiae II-ΙI, 23, 1). A iniciativa vem de Deus. A oração é vida e se desenvolve gradualmente, em sintonia com o crescimento da vida cristã: começa com a oração vocal, passa pela interiorização, através da meditação e do recolhimento, até chegar à união de amor com Cristo e com a Santíssima Trindade. Obviamente, este não é um desenvolvimento no qual subir degraus significa abandonar o tipo de oração anterior, mas um gradual aprofundamento da relação com Deus, que envolve toda a vida. Mais que uma pedagogia da oração, a de Teresa é uma verdadeira “mistagogia”: ela ensina o leitor de suas obras a rezar, rezando ela mesma com ele; frequentemente, de fato, interrompe o relato ou a exposição para fazer uma oração. Outro tema caro à santa é a centralidade da humanidade de Cristo. Para Teresa, na verdade, a vida cristã é uma relação pessoal com Jesus que culmina na união com Ele pela graça, por amor e por imitação. Daí a importância que ela atribui à meditação da Paixão e à Eucaristia, como presença de Cristo na Igreja, para a vida de cada crente e como coração da liturgia. Santa Teresa vive um amor incondicional à Igreja: ela manifesta um vivo sensus Ecclesiae frente a episódios de divisão e conflito na Igreja do seu tempo. Reforma a Ordem Carmelita com a intenção de servir e defender melhor a “Santa Igreja Católica Romana” e está disposta a dar sua vida por ela (cf. Vida 33, 5). Um último aspecto fundamental da doutrina de Teresa que eu gostaria de sublinhar é a perfeição, como aspiração de toda vida cristã e sua meta final. A Santa tem uma ideia muito clara da “plenitude” de Cristo, revivida pelo cristão. No final do percurso do “Castelo Interior”, na última “morada”, Teresa descreve a plenitude, realizada na inabitação da Trindade, na união com Cristo mediante o mistério da sua humanidade. Queridos irmãos e irmãs, Santa Teresa de Jesus é uma verdadeira mestra de vida cristã para os fiéis de todos os tempos. Em nossa sociedade, muitas vezes desprovida de valores espirituais, Santa Teresa nos ensina a ser incansáveis testemunhas de Deus, da sua presença e da sua ação; ensina-nos a sentir realmente essa sede de Deus que existe em nosso coração, esse desejo de ver Deus, de buscá-lo, de ter uma conversa com Ele e de ser seus amigos. Esta é a amizade necessária para todos e que devemos buscar, dia após dia, novamente. Que o exemplo desta santa, profundamente contemplativa e eficazmente laboriosa, também nos encoraje a dedicar a cada dia o tempo adequado à oração, a esta abertura a Deus, a este caminho de busca de Deus, para vê-lo, para encontrar a sua amizade e, por conseguinte, a vida verdadeira; porque muitos de nós deveríamos dizer: “Eu não vivo, não vivo realmente, porque não vivo a essência da minha vida”. Porque este tempo de oração não é um tempo perdido, é um tempo no qual se abre o caminho da vida; abre-se o caminho para aprender de Deus um amor ardente a Ele e à sua Igreja; e uma caridade concreta com nossos irmãos. Obrigado. [No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:] Queridos irmãos e irmãs, Santa Teresa de Jesus, nascida no século XVI, é um dos vértices da espiritualidade cristã de todos os tempos, e deu início, junto com São João da Cruz, à Ordem dos Carmelitas descalços. Apesar de não possuir uma formação acadêmica, sempre soube se alimentar dos ensinamentos de teólogos, literatos e mestres espirituais. Suas principais obras são: “O livro da Vida”; “Caminho da perfeição”; “Castelo Interior” e “O Livro das Fundações”. Entre os elementos essenciais da sua espiritualidade, podemos destacar, em primeiro lugar, as virtudes evangélicas, base de toda a vida cristã e humana. Depois, Santa Teresa insiste na importância da oração, entendida como relação de amizade com Aquele que se ama. A centralidade da humanidade de Cristo, outro tema que lhe era muito caro, ensina que a vida cristã é uma relação pessoal com Jesus, a qual culmina na união com Ele pela graça, pelo amor e pela imitação. Por fim, está a perfeição, aspiração e meta de toda vida cristã, realizada na inabitação da Santíssima Trindade, na união com Cristo através do mistério da Sua humanidade. Dou as boas-vindas a todos os peregrinos de língua portuguesa, presentes nesta audiência! Que o exemplo e a intercessão de Santa Teresa de Jesus vos ajudem a ser, através da oração e da caridade aos irmãos, testemunhas incansáveis de Deus em uma sociedade carente de valores espirituais. Com estes votos, de bom grado, a todos abençoo.

[Tradução: Aline Banchieri.© Libreria Editrice Vaticana]

O fim do Ano Mariano e os 300 anos de Aparecida

https://blog.cancaonova.com/tododemaria/o-fim-do-ano-mariano-e-os-300-anos-de-aparecida/

Meditemos sobre o final do Ano Nacional Mariano e a comemoração dos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida.
Neste dia 11 de outubro de 17, chegamos ao fim do Ano Nacional Mariano, instituído pela Congregação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e no dia 12 comemoramos o jubileu de 300 anos do encontro milagroso da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida nas águas do Rio Paraíba Rio Sul, na atual cidade de Aparecida-SP. O povo católico brasileiro está em festa pelos 300 anos de Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil!

No fim deste Ano Mariano, ao celebrarmos o jubileu dos 300 anos de Aparecida, nosso coração deve encher-se de alegria pelas graças e bênçãos concedidas por Deus através das mãos maternais da Virgem Maria. Devemos agradecer a nossa Mãe e Rainha por tantos favores recebidos nestes três últimos séculos. Além disso, apesar das “nuvens negras” que pairam sobre a sociedade do Brasil e do mundo, apesar da violência, das guerras, da separação das famílias, das ideologias que se espalham rapidamente, somos chamados por Nossa Senhora a uma atitude de fé e de esperança. Como outrora, supliquemos a nossa Mãe e Padroeira nos ajude a ser valorosos e a dizer nosso sim ao chamado de nosso Senhor Jesus Cristo ao amor, à santidade.

Aparecida e a presença materna da Virgem Maria
Certamente que, ao celebrarmos o jubileu de 300 anos de Aparecida, nosso coração se enche de alegria pelas graças e bênçãos concedidas a nós por Deus, através das mãos maternais da Virgem Maria. Mas, há ainda algo mais profundo e importante para nossa vida espiritual que devemos considerar nesses dias. O encontro da imagem de Nossa Senhora da Conceição recordou o povo daquele tempo e lembra a cada um de nós que temos uma Mãe, solícita, preocupada, com o bem espiritual e material de seus filhos.
Há 300 anos, alguns pescadores estavam com medo, angustiados porque seus patrões queriam peixes e, à semelhança dos discípulos de Jesus, nada apanharam (cf. Lc 5, 5). Então, no rio Paraíba, da mesma forma que no lago de Genesaré, aconteceu uma pesca milagrosa, depois que os pescadores encontraram a imagem da Nossa Senhora da Conceição, que chamaram carinhosamente de “Aparecida”. A partir disso, aquele povo simples e humilde conscientizou-se que tem uma Mãe, que está atenta à necessidade de cada um de seus filhos.
Assim, mais do que pelas graças e bênçãos que recebemos por suas mãos, devemos nos alegrar porque temos uma Mãe. Os grandes e milagres e prodígios que aconteceram e ainda acontecem pelas mãos de Nossa Senhora Aparecida nos lembram que não estamos sozinhos, mas temos esta Mãe amorosa, que cuida de cada um de nós, como cuidou de seu Filho Jesus na humilde casa de Nazaré.
Como é importante a figura da mãe em uma casa, em uma família. Da mesma forma, na vida espiritual é importantíssima a presença materna da Virgem Maria. Por isso, façamos como o apóstolo São João e acolhamos a Mãe, que nos foi dada por Jesus, em nossa casa, em nosso coração (cf. Jo 19, 27).

Aparecida e o crescimento na virtude da fé
Aqueles pescadores estavam impotentes, sem saber o que fazer para salvar a jornada de trabalho e provavelmente os seus empregos. Pois, lançaram tantas vezes as redes no rio Paraíba e nada apanharam. Mas, ainda que a situação seja difícil, devemos sempre confiar, ter fé. Pois, temos uma Mãe solícita, que está junto ao seu Filho Jesus a interceder por cada um de nós!
Em Aparecida, a Virgem da Conceição manifestou o seu cuidado materno principalmente para fortalecer a fé daqueles pobres pecadores. Na “Aparecida” do nosso coração, ela também quer manifestar o seu cuidado materno e fortalecer a nossa fé. No entanto, mais do que realizar milagres e prodígios, Nossa Senhora quer aumentar a nossa fé!
Diante de tantos fatos tristes, revoltantes, incompreensíveis, que todos os dias vemos nos meios de comunicação, não podemos perder a fé. Recentemente, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida foi ultrajada. Além disso, em uma exposição de “arte” contemporânea, Jesus e Maria foram profundamente desrespeitados; a dignidade humana foi rebaixada a um nível que, há pouco tempo, jamais imaginaríamos.
Confrontados com estes e tantos outros fatos que nos deixam perplexos, talvez nos sintamos como aqueles pescadores, angustiados, com medo, sem saber o que fazer. Mas, como aconteceu outrora, a Virgem Aparecida que fortalecer a nossa fé. Por isso, façamos a nossa parte, “lancemos as redes” da verdadeira caridade nos corações dos homens e deixemos que a “pesca milagrosa” aconteça, que a nossa fé cresça a ponto de mover montanhas! (cf. Mt 17, 20). Neste fim do Ano Mariano, na comemoração dos 300 anos de Aparecida, invoquemos com confiança a Virgem Maria e peçamos a ela aquilo que pediram os discípulos a Jesus: “Aumenta-nos a fé!” (Lc 17, 5). Pois, como está escrito na Carta aos Hebreus, “sem fé é impossível agradar a Deus” (Hb 11, 6).

Oração do Papa São João Paulo II a Nossa Senhora Aparecida
Mãe de Deus e nossa,
protegei a Igreja, o Papa, os Bispos, os Sacerdotes
e todo o Povo fiel; acolhei sob o vosso manto protetor
os religiosos, religiosas, as famílias,
as crianças, os jovens e seus educadores!
Saúde dos Enfermos e Consoladora dos Aflitos,
sede conforto dos que sofrem no corpo ou na alma;
sede luz dos que procuram Cristo,
Redentor do Homem; a todos os homens
mostrai que sois a Mãe de nossa confiança.
Rainha da Paz e Espelho da Justiça,
alcançai para o mundo a paz,
fazei que o Brasil tenha paz duradoura,
que os homens convivam sempre como irmãos,
como filhos de Deus!
Nossa Senhora Aparecida, […]
abençoai todos os vossos filhos,
abençoai o Brasil. Amém[1].
Nossa Senhora Aparecida, rogai por nós!

Links relacionados:
TODO DE MARIA. Santuário de Aparecida, nova Igreja-Catedral.
TODO DE MARIA. Nossa Senhora Aparecida e o nosso casamento.
TODO DE MARIA. O Jubileu dos 300 anos de Aparecida.
Referência: [1] PAPA SÃO JOÃO PAULO II. Oração do Papa João Paulo II a Nossa Senhora Aparecida.

Natalino Ueda é brasileiro, católico, formado em Filosofia e Teologia. Na consagração a Virgem Maria, segundo o método de São Luís Maria Grignion de Montfort, explicado no seu livro “Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem”, descobriu o caminho fácil, rápido, perfeito e seguro para chegar a Jesus Cristo. Desde então, ensina e escreve sobre esta devoção, o caminho “a Jesus por Maria”, que é hoje o seu maior apostolado.

Anjos, uma verdade de Fé

O que a Igreja ensina sobre os Anjos

A Igreja celebra em 29 de setembro a festa litúrgica dos Santos Arcanjos: Miguel (Quem como Deus!), Gabriel (Força de Deus) e Rafael (Cura de Deus). O Catecismo da Igreja afirma sem hesitação a existência dos anjos: “A existência dos seres espirituais, não corporais, que a Sagrada Escritura chama habitualmente de anjos, é uma verdade de fé. O testemunho da Escritura a respeito é tão claro quanto a unanimidade da Tradição” (§ 328).

O Catecismo lembra que: “Cristo é o centro do mundo angélico” (§ 331). Eles pertencem a Cristo, porque são criados por Ele e para Ele, como disse São Paulo: “Pois foi Nele que foram criadas todas as coisas, nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis: Tronos, Dominações, Principados, Potestades, tudo foi criado por Ele e para Ele” (Cl 1, 16). Os anjos também são de Cristo porque Ele os fez mensageiros do seu projeto de salvação da humanidade. “Ainda aqui na terra, a vida cristã participa, na fé da sociedade bem-aventurada dos anjos e dos homens, unidos em Deus” (§ 336).

Portanto, não há como negar a existência dos anjos, sem bater de frente com o ensinamento da Igreja, em toda a sua existência. São Paulo ensinava em sua primeira Carta aos fiéis de Colossos: “Nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as criaturas visíveis e invisíveis, Tronos, Dominações (ou Sobera­nias), Principados, Potestades (ou Autoridades): tudo foi criado por Ele e para Ele” (Cl 1, 16).

O primeiro Concílio Ecumênico que confirmou a existência dos seres espirituais foi o de Niceia, em 325, quando fala no Decreto (DS 54), em “coisas invisíveis”: “Creio em um só Deus, Pai Todo Poderoso, Criador do Céu e da Terra, e de todas as coisas visíveis e invisíveis”.

Essa verdade foi reafirmada no Concílio de Constantinopla I, em 381. Também o Concílio regional de Toledo, em 400, reafirmou a mesma verdade, dizendo: “Deus é o Criador de todos os seres visíveis; fora d’Ele não existe natureza divina de Anjo, de potência que possa ser considerada como Deus”. O Magistério da Igreja confirmou a realidade dos anjos sobretudo no Concílio de Latrão IV (1215), ao declarar contra o dualismo dos hereges cátaros: “Deus é o Criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis, espirituais e corporais; por sua onipotência no início do tempo criou igualmente do nada as criaturas espirituais e corporais, isto é, o mundo dos anjos e o mundo terrestre; em seguida criou o homem, que de certo modo compreende umas e outras, pois consta de espírito e corpo. O diabo e os outros demônios foram por Deus criados bons, mas por livre iniciativa tornaram-se maus. O homem pecou por sugestão do diabo” (DS 800 [428]).

A existência dos Anjos foi reafirmada, no II Concílio de Lião, sob Gregório X, em 1274, nos seguintes termos: “Cremos em um Deus Onipotente…, criador de todas as criaturas, de quem, em quem e por quem existem todas as coi­sas no céu e na terra, visíveis, corporais e espirituais” (D.S., 461).

O Concílio de Florença, sob Eugênio IV (1441-2) pelo Decreto pro-lacobitis, e pela Bula Contate Domine, de 4 de janeiro de 1441 assim se expressou: “A sacrossanta Igreja romana crê firmemen­te, professa e prega que um só é o verdadeiro Deus…, que é o criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, o qual quando quis, por sua vontade criou todas as criaturas, tanto espirituais como corporais” (D.S, 706). O Concílio de Trento (1545-1563) repetiu o ensinamento tradicional  definido no IV Concílio de Latrão. Lê-se no Catecismo Romano e na profissão de Fé expressa na Bula lniunctum nobis, do Papa Paulo IV de 13 de novembro de 1564: “Deus criou também, do nada, a natureza espiritual e inumeráveis Anjos para que o servissem e assistissem” (1ª parte, Cap. 2, a.1 do Símbolo., n. 17).

O Concílio Vaticano I (1869-1870) pelos decretos 3002 e 3025 da Constitutio de fide catholica (DS, 1873) – e Dei Filius, ao condenar certos erros, afirma: “Este Deus único verdadeiro…, com um ato libérrimo no início dos tempos, fez do nada ambas as criaturas, a espiritual e a corporal, isto é, a angélica e o mundo; depois a criatura humana, como que participando de ambas, constituída de alma e de corpo”. O  mesmo Concílio condenou os que: “Afirmam que fora da matéria, nada mais existe” (Dec.  3022). “Afirmam que as criaturas materiais e espirituais não foram criadas do nada e livremente” (Dec. 3025 – “Contra o materialis­mo”, D.S., 1802).

“Se alguém disser que as coisas finitas, quer sejam corpóreas, quer espirituais são emanações da substância divina… seja anátema” (Contra o Panteísmo, Cânon 4). Na Encíclica Summi Pontificatus, de 20 de outubro de 1939, Pio XII lamenta que “alguns ainda perguntem se os Anjos são seres pessoais e se a matéria difere essencialmente do espírito” (D.S. 2318).

O Concílio Vaticano II (1962-1965), na Constituição Dogmátca Lumen Gentium, fala claramente dos anjos: “Portanto, até que o Senhor venha com toda sua Majes­tade, e todos os Anjos com Ele (cf. Mt 25, 31)”…(LG, 49). “A Igreja sempre acreditou estarem mais unidos conosco em Cristo, venerou-os juntamente com a Bem-aventurada Virgem Maria e os Santos Anjos com especial afeto…” (LG, 50). No Cap. VIII sobre “A Bem-aventurada Virgem Maria no Misté­rio da Igreja”, lê-se: “Maria foi exaltada pela graça de Deus acima de todos os Anjos e todos os homens, logo abaixo de seu Filho, por ser a Mãe Santíssima de Deus” (LG, 66). “Todos os fiéis cristãos supliquem insistentemen­te à Mãe de Deus e Mãe dos homens, para que Ela, que com suas preces assistiu às primícias da Igreja, também agora exaltada no céu sobre todos os Anjos e bem aventurados…” (LG, 69).

No Credo do Povo de Deus, do Papa Paulo VI, de 30 de junho de 1968, o santo Padre afirma: “Cremos em um só Deus, Pai, Filho e Espirito Santo, Criador das coisas visíveis, como este mundo, onde se desenrola a nossa vida passageira; Criador dos seres invisíveis como os puros espí­ritos, que também são denominados Anjos, e Criador em cada ho­mem, da alma espiritual e imortal”.

Diante de uma certa tendência de negar que os anjos são seres pessoais, mas apenas “instintos” ou “forças neutras”, como se fossem apenas  uma tendência para o bem ou para o mal, o Papa Pio XII na sua encíclica Humani Generis (1959), reafirmou que os anjos são “criaturas pessoais”, dotadas de inteligência sagaz e vontade livre (DS 3891 [2317]).

São Gregório Magno dizia que cada página da Revelação escrita atesta a existência dos Anjos. A presença e a ação dos anjos bons e maus estão a tal ponto inseridas na história da salvação, na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja, que não podemos negar a sua existência e ação, sem destruir a Revelação de Deus. O fato de muitas vezes os anjos terem sido apresentados de maneira fantasiosa ou infantil, não nos autoriza a negar a sua existência. Por serem seres espirituais, os anjos bons e maus não podem ter a sua existência provada experimental e racionalmente; no entanto, a Revelação atesta a sua realidade. Eles são mencionados mais de 300 vezes na Bíblia.

Prof. Felipe Aquino

Aprendendo a ser missionário com Santa Teresinha

Padroeira das missões

Seu exemplo é caminho para que todos nós sejamos missionários onde nos encontramos

Iniciamos o mês de outubro celebrando a memória litúrgica de Santa Teresinha do Menino Jesus, virgem e doutora da Igreja. Outubro é conhecido também como o mês missionário. Santa Teresinha é a padroeira das missões.

O Decreto Conciliar Ad Gentes sobre a atividade missionária da Igreja afirma: “A Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária, visto que tem a sua origem, segundo o desígnio de Deus Pai, na ‘missão’ do Filho e do Espírito Santo” (AG,6). Em nosso “DNA” espiritual de batizados está impresso o nosso desígnio missionário, e Santa Teresinha do Menino Jesus, mesmo vivendo no Carmelo, viveu sua identidade missionária rezando pelas vocações.

Em seus escritos autobiográficos, intitulados “História de uma alma”, Santa Teresinha afirma: “Ó Jesus, meu amor, minha vocação, encontrei-a afinal: Minha vocação, é o amor! […]”. Seu exemplo é caminho para que todos nós sejamos missionários onde nos encontramos: Família, trabalho, escola…

Nos domingos e dias de festa Santa Teresinha colocava o seu pouco tempo disponível para prestar pequenos favores às suas irmãs do Carmelo. Também nós podemos seguir este exemplo. Quanto tempo dedicamos àqueles que nos são importantes? Conseguimos nos desconectar dos nossos computadores e celulares para valorizar aqueles a quem realmente amamos? Ser missionário é também amar com gestos concretos e atenção a todos, começando em primeiro lugar pelos de nossa própria casa.

Por saber que uma das madres, que já tinha idade avançada, tinha alergia a perfume de flores, Santa Teresinha deixou de colocá-las diante da imagem do Menino Jesus, que ficava no claustro. Este pequeno gesto demostra o carinho e atenção para com a religiosa. E nós? Quais são os pequenos sacrifícios que podemos fazer para nossos irmãos de comunidade? Muitas vezes, sabemos de algo que alguns não gostam e insistimos em continuar fazendo. A missão exige um abrir mão de nossas vontades para acolher o outro com doçura e delicadeza.

Quando percebia que alguma irmã estava nervosa ou de mau humor ela sempre a tratava com mais delicadeza, sendo amável e meiga: “Precisamos agir, pois, como o Senhor, desdobrarmo-nos em delicadezas e previdências para com as almas imperfeitas […]”. Todos os dias também somos confrontados com inúmeras situações em que muitos se encontram nervosos ou estressados no trabalho. Como reagimos diante destes desafios? Temos a delicadeza do Senhor, que se manifesta a nós de um modo amável? Ou nos deixamos envolver pela atmosfera de mau humor e aumentamos ainda mais o mal-estar em nosso trabalho? Ser missionário é aprender a vivenciar as mais delicadas situações com prudência e carinho.

Santa Teresinha também nos ensina que ser missionário é nos empenharmos em uma contínua vida de oração por todos: familiares, amigos, colegas de trabalho, enfermos, pessoas necessitadas, religiosos, seminaristas, diáconos, padres, bispos, Papa…

Que a exemplo de Santa Teresinha do Menino Jesus nossa missão seja sempre o amor!

Padre Flávio Sobreiro
Bacharel em Filosofia pela PUCCAMP. Teólogo pela Faculdade Católica de Pouso Alegre – MG. Vigário Paroquial da Paróquia Nossa Senhora do Carmo (Cambuí-MG). Padre da Arquidiocese de Pouso Alegre – MG. Página pessoal: http://www.padreflaviosobreiro.com Facebook: http://www.facebook.com/flaviosobreiro

É preciso reconhecer e conservar o consolo de Deus, diz Papa

Segunda-feira, 25 de setembro de 2017, Da Redação, com Rádio Vaticano

Na Missa de hoje, Papa destacou que o consolo de Deus enche de alegria e traz traços que devem ser conservados na memória

O Papa Francisco presidiu a Missa nesta segunda-feira, 25, na Casa Santa Marta. O Santo Padre falou da alegria e da consolação provenientes da visita de Deus e reforçou a necessidade dos fiéis sempre esperarem essa visita; há momentos fracos e fortes, mas Deus sempre faz sentir sua presença.

A reflexão partiu da Primeira Leitura do dia, que narra o momento no qual o povo de Israel é libertado do exílio. “O Senhor visitou o seu povo e o conduziu de volta a Jerusalém”, destacou o Pontífice. A palavra “visita”, explicou, é importante na história da salvação, porque toda libertação, toda ação de redenção de Deus é uma visita.

“Quando o Senhor nos visita nos dá a alegria, isto é, nos leva a um estado de consolação. Este dar alegria… Sim, semearam nas lágrimas, mas agora o Senhor nos consola e nos dá esta consolação espiritual. E a consolação acontece não só naquele tempo, é um estado na vida espiritual de todo cristão. Toda a Bíblia nos ensina isso”.

O Papa exortou, portanto, a esperar a visita de Deus a cada um. Ele reconheceu que existem na vida os momentos “mais fracos” e aqueles “mais fortes”, mas Deus sempre faz sentir a sua presença, com a consolação espiritual que enche de alegria. É preciso, nesse sentido, esperar essa visita com esperança.

Francisco atentou ainda sobre a necessidade de saber “reconhecer” esse consolo de Deus, uma vez que existem falsos profetas que parecem consolar, mas que na verdade enganam.

“A consolação do Senhor toca dentro e te move e te dá um aumento de caridade, de fé, de esperança e também te leva a chorar pelos [teus] próprios pecados. E também quando olhamos para Jesus e para a Paixão de Jesus, chorar com Jesus. Também, te eleva a alma para as coisas do Céu, às coisas de Deus e também, acalma a alma na paz do Senhor. Esta é a verdadeira consolação. Não é um divertimento – o divertimento não é uma coisa ruim quando é bom, somos humanos, devemos tê-lo -, mas a consolação se apossa de ti e justamente a presença de Deus se sente e se reconhece: este é o Senhor”.

Por fim, o Papa falou da necessidade de conservar essa consolação; apesar de ser um momento, ela deixa seus traços que devem ser conservados com a memória. “Retornamos a Jerusalém porque Ele nos libertou dali. Esperar a consolação, reconhecer a consolação e conservar a consolação. E quando esse momento forte passa o que permanece? A paz. E a paz é o último nível da consolação”.

Mistério de amor da Cruz não é “masoquismo” espiritual, explica Papa

Quinta-feira, 14 de setembro de 2017, Da redação, com Rádio Vaticano

Na homilia, Francisco advertiu para duas tentações espirituais diante da cruz de Cristo

Depois de dois meses e meio de pausa, o Papa Francisco retomou na manhã desta quinta-feira, 14, Festa da Exaltação da Santa Cruz, a celebração da Missa na capela da Casa Santa Marta, no Vaticano.

Na homilia o Pontífice advertiu para duas tentações espirituais diante da cruz de Cristo: a de pensar um Cristo sem cruz, isto é, fazer Dele um “mestre espiritual”, e, de outro lado, pensar uma cruz sem Cristo, ou seja, não ter esperança, numa espécie de “masoquismo” espiritual.

O centro da reflexão do Papa foi o mistério de amor constituído pela cruz. Francisco evidenciou que nem sempre é fácil entender a cruz. “Somente com a contemplação se vai avante neste mistério de amor”, afirmou.

E Jesus, quando quer explicá-lo a Nicodemos, como recorda o Evangelho do dia, usa dois verbos: subir e descer. “Jesus desceu do Céu para levar todos nós a subir ao Céu”. “Este é o mistério da cruz”, destacou o Papa. Na Primeira Leitura, justamente para explicar isto, São Paulo diz que Jesus “humilhou a si mesmo”, fazendo-se obediente até a morte de cruz:

“Esta é a descida de Jesus: até embaixo, à humilhação, esvaziou a si mesmo por amor. E por isso, Deus o exaltou e o fez subir. Somente se nós conseguirmos entender esta descida até o fim, podemos entender a salvação que nos oferece este mistério do amor.”

Porém, notou o Papa, “não é fácil, porque sempre existem tentações para considerar uma metade e não a outra. São Paulo disse uma palavra forte aos Gálatas “quando cederam à tentação de não entrar no mistério do amor, mas de explicá-lo”.

Assim como a serpente encantou Eva e envenenou os israelitas no deserto, do mesmo modo foram encantados “por uma ilusão de um Cristo sem cruz ou de uma cruz sem Cristo”.

“Um Cristo sem cruz que não é o Senhor: é um mestre, nada mais que isso. É aquele que, sem saber, talvez Nicodemos buscava. É uma das tentações. Sim, Jesus que bom o mestre, mas….sem cruz, Jesus. Quem os encantou com esta imagem? A raiva de Paulo. Jesus Cristo apresentado, mas não crucificado. Outra tentação é a cruz sem Cristo, a angústia de permanecer lá embaixo, com o peso do pecado, sem esperança. É uma espécie de “masoquismo” espiritual. Somente a cruz, mas sem esperança, sem Cristo”.

Mas a cruz sem Cristo seria “um mistério trágico”, disse o Papa, como as tragédias pagãs:

“Mas a cruz é um mistério de amor, a cruz é fiel, a cruz é nobre. Hoje podemos tirar alguns minutos e cada um fazer uma pergunta: para mim, o Cristo crucificado é mistério de amor? Eu sigo Jesus sem cruz, um mestre espiritual que nos enche de consolação, de bons conselhos? Sigo a cruz sem Jesus sempre me lamentando, com este “masoquismo” do espírito? Deixo-me levar por este mistério do abaixamento, esvaziamento total e exaltação do Senhor?”.

O Papa conclui fazendo votos de que o Senhor dê a graça “não digo de entender, mas de entrar” neste mistério de amor: “depois, com o coração, com a mente, com o corpo, com tudo, entenderemos alguma coisa”.

Como enfrentar as provações?

Sofrer, com paciência, é sabedoria, pois assim se vive com paz  

As provações nos fortalecem para o combate espiritual; por isso, os Apóstolos sempre estimularam os fiéis a enfrentá-las com coragem. São Pedro diz: “Caríssimos, não vos perturbeis no fogo da provação, como se vos acontecesse alguma coisa extraordinária. Pelo contrário, alegrai-vos em ser participantes dos sofrimentos de Cristo…” (1 Pe 4,12). Ensinando-nos que essas dificuldades nos levarão à perfeição: “O Deus de toda graça, que vos chamou em Cristo à sua eterna glória, depois que tiverdes padecido um pouco, vos aperfeiçoará, vos tornará inabaláveis, vós fortificará” (1 Pe 5,10).

O mesmo Apóstolo ensina-nos que a provação nos “aperfeiçoará” e nos tornará “inabaláveis”. É importante não se deixar perturbar no fogo da provação. Não se exasperar, não perder a paz e a calma, pois é exatamente isso que o tentador deseja.

Uma alma agitada fica a seu bel-prazer. Não consegue rezar, fica irritada, mal-humorada, triste, indelicada com os outros e acaba deprimida.

O antídoto contra tudo isso é a humilde aceitação da vontade de Deus no exato momento em que algo desagradável nos ocorre, dando, de imediato, glória a Deus, como São Paulo ensina:   “Em todas as circunstâncias dai graças, pois esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus” (1Tes 5, 16).

É preciso fazer esse grande e difícil exercício de dar glória a Deus na adversidade. Nesses momentos gosto de glorificar a Deus, rezar muitas vezes o “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo…” até que minha alma se acalme e se abandone aos cuidados do Senhor.

Essa atitude muito agrada ao Senhor, pois é a expressão da fé pura de quem se abandona aos Seus cuidados. É como a fé de Maria e de Abraão que “esperaram contra toda a esperança” (cf. Hb11,17-19), e assim, agradaram a Deus sobremaneira.

Da mesma forma, Jó agradou muito ao Todo-poderoso porque no meio de todas as provações, tendo perdido todos os seus bens e todos os seus filhos, ainda assim soube dizer com fé:

“Nu saí do ventre da minha mãe, nu voltarei. O Senhor deu, o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor!” (Jo 1,21).

Afirmam os santos que vale mais um “Bendito seja Deus!”, pronunciado com o coração, no meio do fogo da provação, do que mil atos de ação de graças quando tudo vai bem.

O Jardineiro Divino da nossa alma sabe os métodos que deve empregar para limpar cada alma. Não se assuste com as podas que Ele fizer no jardim de sua alma.

Santa Teresa diz que ouviu Jesus dizer-lhe: “Fica sabendo que as pessoas mais queridas de meu Pai são as que são mais afligidas com os maiores sofrimentos”. E por isso afirmava que não trocaria os seus sofrimentos por todos os tesouros do mundo. Tinha a certeza de que Deus a santificava pelas provações. A grande santa da Igreja chegou a dizer que “quando alguém faz algum bem a Deus, o Senhor lhe paga com alguma cruz”.

Para nós, essas palavras parecem um absurdo, mas não para os santos, que conheceram todo o poder salvífico e santificador do sofrimento.

“As nossas tribulações de momento são leves e nos preparam um peso de glória eterna” (2Cor 4, 17).

Quando São Francisco de Assis passava um dia sem nada sofrer por Deus, temia que o Senhor tivesse se esquecido dele. São João Crisóstomo, doutor da Igreja, diz que “é melhor sofrer do que fazer milagres, já que aquele que faz milagres se torna devedor de Deus, mas no sofrimento Deus se torna devedor do homem”.

As ofensas, as injúrias, os desprezos, os cinismos irritantes, as doenças, as dores, as lágrimas, as tentações, a humilhação do pecado próprio, etc., nos são necessários, pois nos dão a oportunidade de lutar contra as nossas misérias.

Isso tudo, repito mais uma vez, não quer dizer que Deus seja o autor do mal ou que Ele se alegre com o nosso sofrimento, não. O que o Senhor faz, de maneira até amável, é transformar o sofrimento, que é o salário do próprio pecado do homem, em matéria-prima de nossa própria salvação, dando assim, um sentido à nossa dor.

A partir daí, sob a luz da fé, podemos sofrer com esperança. É o enorme abismo que nos separa dos ateus, para quem a dor e a morte continuam a ser o mais terrível dos absurdos da vida humana.

A provação produz a perseverança, e por ela, passo a passo, chegaremos à perfeição, como nos ensina São Tiago.

“Nós nos gloriamos também nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a perseverança…” (Rom 5,3-5).

Sofrer com paciência é sabedoria, pois assim se vive com paz. Quem sofre sem paciência e sem fé, revolta-se, desespera-se, sofre em dobro, além de fazer os outros sofrerem também.

Santo Afonso disse que “neste vale de lágrimas não pode ter a paz interior senão quem recebe e abraça com amor os sofrimentos, tendo em vista agradar a Deus”. Segundo ele “essa é a condição a que estamos reduzidos em consequência da corrupção do pecado”.

Prof. Felipe Aquino

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