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Santa Teresa de Ávila (de Jesus)

Por Pe. Fernando José Cardoso

Com grande alegria lembramos, hoje, da vida de santidade daquela que mereceu ser proclamada, em 1970, pelo Papa Paulo VI, Doutora da Igreja, como Mestra de espiritualidade: “Santa Teresa D’Ávila”. Como chegou até lá? Teresa nasceu em Ávila, Espanha em 1515 e foi educada de modo sólido e cristão, tanto assim, que quando criança se encantou tanto com a leitura da vida dos santos mártires, que combinou fugir com o irmão para uma região onde muitos cristãos eram martirizados, mas nada disso aconteceu, graças à vigilância dos pais. Aos vinte anos, ingressou no Carmelo de Ávila, onde viveu no relaxamento, pois muito se apegou às criaturas, parentes e conversas destrutivas, assim como conta em seu livro da vida. Certo dia, foi tocada pelo olhar da imagem de um Cristo sofredor, assumiu a partir desta experiência a sua conversão e voltou ao fervor da espiritualidade carmelita, a ponto de criar uma espiritualidade modelo. Em 1562, Teresa deu início à reforma dos Carmelos tão numerosos na Espanha. Obra gigantesca que exigiu de sua vocação para a contemplação e doação total à ação e suas lutas e experiências místicas, produziram obras imortais, como o caminho da perfeição, as moradas, a autobiografia que são ainda hoje, fontes de perene vida e seta que aponta a finalidade da via carmelita: União absoluta com Deus até se formar uma espécie de matrimônio espiritual entre a alma e Deus. O seu segredo é o amor. Santa Teresa conseguiu fundar mais de trinta e dois mosteiros, além de recuperar o fervor primitivo de muitas carmelitas, juntamente com São João da Cruz. Teve sofrimentos físicos e morais antes de morrer, até que em 1582 disse uma das últimas palavras: “Senhor, sou filha de vossa Igreja. Como filha da Igreja Católica quero morrer”. Santa Teresa D’Ávila rogai por nós! Realizou uma grande reforma no Carmelo e fundou outros, inclusive dois de frades. Escreveu obras famosas e de grande valor espiritual como “Caminho de perfeição”, “Moradas ou Castelo Interior” e “Livro da vida”. Além de ser a autora do poema “Nada te perturbe”.

Confira um pouco de seu pensamento expresso em frases:
“Quem ama, faz sempre comunidade; não fica nunca sozinho”.
“A amizade é a mais verdadeira realização da pessoa”.
“Falais muito bem com outras pessoas, por que vos faltariam palavras para falar com Deus?”
“A amizade com Deus e a amizade com os outros é uma mesma coisa, não podemos separar uma da outra”.
“Em tempos de tristeza e de inquietação, não abandones nem as boas obras de oração, nem a penitência a que estás habituada. Antes, intensifica-as. E verás com que prontidão o Senhor te sustentará”.
“Quem não deixa de caminhar, mesmo que tarde, afinal chega. Para mim, perder o caminho é abandonar a Oração”.
“O Senhor não olha tanto a grandeza das nossas obras. Olha mais o amor com que são feitas”.
“O verdadeiro humilde sempre duvida das próprias virtudes e considera mais seguras as que vê no próximo”.
“Humildade é a verdade”.
“Espera um pouco, filha, e verás grandes coisas”.
“Vocês pensam que Deus não fala porque não se ouve a Sua voz? Quando é o coração que reza Ele responde”.
“O Senhor sempre dá oportunidade para oração quando a queremos ter”.
“Falte-me tudo, Senhor meu, mas se vós não me desamparardes, não faltarei eu a vós”.
“Quem vos ama de verdade, Bem meu, vai seguro por um amplo caminho real, longe do despenhadeiro, estrada na qual, ao primeiro tropeço, Vós, Senhor, dais a mão; não se perde, por alguma queda, nem mesmo por muitas, quem tiver amor a Vós, e não às coisas do mundo”.
“Se tiver humildade, não tenha receio, o Senhor não permitirá que se engane nem engane os outros”.
“Uma prova de que Deus esteja conosco não é o fato de que não venhamos a cair, mas que nos levantemos depois de cada queda”.
“Se não dermos ouvidos ao Senhor quando Ele nos chama, pode acontecer que não consigamos encontrá-lo quando o quisermos”.
“São felizes as vidas que se consumirem no serviço da Igreja”.
“Basta uma graça dessas para transformar uma alma por inteiro”.
“Não me parecia que eu conhecesse a minha alma, tão transformada eu a via”.
“O olhar de Deus é amar e conceder graças”.
“Eu quero ver a Deus e para isso é necessário morrer. Não morro, mas entro na vida”.

“QUE NADA TE PERTURBE, NADA TE AMEDRONTE, TUDO PASSA. SÓ DEUS NUNCA MUDA. A PACIÊNCIA TUDO ALCANÇA. A QUEM TEM DEUS, NADA FALTA. SÓ DEUS BASTA”.

Ó Santa Teresa de Jesus, vós sois a mestra da genuína oração e nos ensinais a rezar conversando com Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Ó Santa Teresa, ajudai-nos a rezar com fé e confiança, sem nunca duvidar da bondade divina. Ajudai-nos a rezar com inteira conformidade de nossa vontade com a vontade de Deus, com insistente perseverança até alcançarmos aquilo que necessitamos. Ó Santa Teresa de Jesus, fazei-nos fiéis a nossa oração da manhã e da noite e a transformar em oração o cumprimento de nossas tarefas de cada dia. Que a oração seja para nós a porta de nossa conversão e santificação e a chave de ouro que nos abrirá a porta do Céu. Amém.
Santa Teresa de Jesus, rogai por nós!

Santa Teresa, virgem esposa, especialmente amada do Crucificado, doutora da Igreja, permiti que, imitando-vos perfeitamente, eu possa cumprir a vontade e ganhar a amizade do Sumo Bem, antes de buscar as alegrias do mundo. Apesar de todas as minhas contradições e defeitos, dai-me força para seguir vosso exemplo e seguir plenamente a Cristo com aquela perfeição que Ele pede. Com o vosso auxílio eu possa superar as dificuldades desta vida e merecer o repouso sem fim no céu. Amém.

 

Medo do Diabo? Responde Santa Teresa de Ávila
Fonte: Extraído do Livro “Um Exorcista Conta-nos” – Pe. Gabriele Amorth – Ed. Paulinas.

Contra os medos injustificados do demônio, apresentamos um extrato da vida de Santa Teresa de Ávila (capítulo 25, 19-22). É uma passagem encorajadora, exceto se formos nós próprios a abrir voluntariamente a porta ao demônio…

Se o Senhor é tão poderoso como eu sei e como eu vejo; se os demônios não passam de escravos, e isso a minha fé não me permite duvidar, que mal me podem eles fazer se eu sou a servidora desse Senhor e Rei? Então porque é que não me hei – de sentir suficientemente forte para enfrentar o inferno inteiro?

Agarrei uma cruz entre as mãos e parecia que Deus me dava a coragem necessária. Em pouco tempo, vi-me de tal modo transformada que já não tinha medo de descer à arena para lutar contra todos eles, e gritei-lhes: ”Venham cá agora que, sendo eu a servidora do Senhor, quero ver o que vocês me podem fazer!”.

E parece que tiveram mesmo medo de mim porque me deixaram tranquila. Daí para a frente aquela angústia não me voltou a preocupar e já não tive mais medo dos demônios, a ponto de, quando eles me apareciam, como explicarei mais à frente não só já não tinha medo deles mas tinha verdadeiramente a impressão de que eles é que tinham medo de mim.

O Mestre soberano de todas as coisas deu-me sobre eles uma tal soberania que hoje, já não me metem mais medo do que as moscas. São de tal forma covardes que, quando se vêem desprezados, perdem a coragem.

Só atacam frontalmente os que vêem que se lhes rendem facilmente, ou então quando o Senhor permite a fim de que, com as lutas perseguições, os seus servidores ganhem méritos.

Agrada a Sua Majestade, que só tenhamos medo daquilo que convém ter medo, tendo presente que um só pecado venial nos prejudica mais do que o inferno inteiro; essa é que é a verdadeira realidade.

Vocês sabem quando é que os demônios se manifestam e nos devem causar pavor? Quando nos preocupamos com as honras, os prazeres e as riquezas deste mundo.

Ora nós, amando e procurando aquilo que devíamos aborrecer, pomos nas suas mãos as armas com as quais nós poderíamos defender, e incentivamo-lo a combater contra nós próprios, para nossa maior perdição. Dá-me pena pensar nisto porque, bastaria agarrarmo-nos firmemente à cruz e desprezar todas as coisas por amor a Deus, para que Satanás fugisse destas práticas, mais do que nós fugimos da peste.

Amigo da mentira e sendo ele próprio a Mentira, o Maligno nunca se dá bem com aquele que segue o caminho da verdade. Mas se vê que o espírito está obscurecido, faz tudo o que pode para o cegar completamente; quando ele se apercebe que uma pessoa está tão cega a ponto de se contentar com as coisas do mundo, que são tão fúteis e vãs como brincadeiras infantis, convence-se que está a lidar com uma criança, trata-a como tal e diverte-se a atacar e a voltar a atacar.

Queira Deus que eu não seja assim, mas que, apoiada pela graça, repouse quando é ocasião para repousar, honre o que é digno de honra, me alegre com o que é a verdadeira alegria e não ao contrário.

Assim, poderei ser eu a mostrar os cornos a todos os demônios, que fugirão espavoridos. Não compreendo o medo dos que gritam: “demônio! demônio!“ deviam era gritar: “Deus! Deus!” e assim encher o inferno de pavor.

Não sabemos que os demônios não podem nem mover-se sem a permissão de Deus? Então para que é que são os vãos temores? Quanto a mim os indivíduos apavorados pelo diabo fazem-me mais medo que o próprio diabo, pois este não me pode fazer nada enquanto os outros principalmente se trata de maus confessores enchem a alma de inquietação.

Por causa deles passei muitos anos de tormentos e ainda me admiro de ter conseguido suportar. Bendito seja o Senhor que me trouxe a Sua ajuda preciosa.

 

Papa propõe Santa Teresa de Jesus como “mestra espiritual”
Começa uma breve série sobre os Doutores da Igreja

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) – O Papa Bento XVI quis propor hoje a santa espanhola Teresa de Ávila como exemplo de vida “fascinante” e como “mestra espiritual” para os cristãos de hoje. Começou assim um percurso – como ele mesmo anunciou aos peregrinos reunidos na Sala Paulo VI para a audiência das quartas-feiras – pela vida dos Doutores da Igreja, sobre alguns dos quais já falou durante seu ciclo de teólogos medievais. Teresa de Ávila, afirmou o Papa, “representa um dos cumes da espiritualidade cristã de todos os tempos”. Citando a autobiografia da santa espanhola – “O livro da vida” -, Bento XVI percorreu sua vida desde os desejos de martírio em sua infância, sua adolescência e juventude cheias de distrações, seu conflito interior em meio às doenças e, finalmente, sua conversão e suas experiências místicas. “Paralelamente ao amadurecimento da sua própria interioridade, a santa começa a desenvolver, de forma concreta, o ideal de reforma da Ordem Carmelita”, explicou o Papa, aludindo à importante reforma do Carmelo, levada a cabo por Teresa. A existência de Teresa de Ávila, ainda que tenha transcorrido na Espanha, sublinhou, esteve “empenhada por toda a Igreja”, fato pelo qual foi proclamada Doutora da Igreja por Paulo VI, em 1970. “Teresa de Jesus não tinha formação acadêmica, mas sempre entesourou ensinamentos de teólogos, literatos e mestres espirituais. Como escritora, sempre se ateve ao que tinha experimentado pessoalmente ou visto na experiência de outros”, explicou o Papa. Da mesma forma, aludiu à sua “amizade espiritual com muitos santos, especialmente com São João da Cruz”, assim como sua estima pelos “Padres da Igreja, São Jerônimo, São Gregório Magno, Santo Agostinho”. Além da autobiografia, o Santo Padre destacou o “Caminho de perfeição”, no qual a santa “propõe um intenso programa de vida contemplativa ao serviço da Igreja, em cuja base estão as virtudes evangélicas e a oração”, e sua obra mística mais conhecida, “Castelo interior”. Nesta última, Teresa “refere-se à estrutura de um castelo com sete ‘moradas’, como imagens da interioridade do homem”, inspirando-se “na Sagrada Escritura, especialmente no ‘Cântico dos Cânticos'”. Entre os ensinamentos da santa, o Papa destaca “o desapego dos bens ou a pobreza evangélica (e isso diz respeito a todos nós); o amor de uns aos outros como elemento essencial da vida comunitária e social; a humildade e o amor à verdade; a determinação como resultado da audácia cristã; a esperança teologal, que descreve como sede de água viva”. Nos ensinamentos de Teresa estão também “as virtudes humanas: afabilidade, veracidade, modéstia, cortesia, alegria, cultura”. “Em segundo lugar, Santa Teresa propõe uma profunda sintonia com os grandes personagens bíblicos e a escuta viva da Palavra de Deus”, assim como a oração como algo “essencial”: para a santa, rezar significa “tratar de amizade com Deus, estando muitas vezes tratando a sós com quem sabemos que nos ama”. “Outro tema caro à santa é a centralidade da humanidade de Cristo. Para Teresa, na verdade, a vida cristã é uma relação pessoal com Jesus que culmina na união com Ele pela graça, por amor e por imitação”, assim como “a perfeição, como aspiração de toda vida cristã e sua meta final”. Por isso, afirmou o Papa aos presentes, “Santa Teresa de Jesus é uma verdadeira mestra de vida cristã para os fiéis de todos os tempos. Em nossa sociedade, muitas vezes desprovida de valores espirituais, Santa Teresa nos ensina a ser incansáveis testemunhas de Deus, da sua presença e da sua ação”.

 

Catequese do Papa: perfeição cristã segundo Santa Teresa de Ávila
Intervenção na audiência geral de hoje CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos, a seguir, a catequese dirigida pelo Papa aos grupos de peregrinos do mundo inteiro, reunidos na Sala Paulo VI para a audiência geral.
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Queridos irmãos e irmãs: Ao longo das catequeses que eu quis dedicar aos Padres da Igreja e a grandes figuras de teólogos e mulheres da Idade Média, pude falar sobre alguns santos e santas que foram proclamados Doutores da Igreja por sua eminente doutrina. Hoje, eu gostaria de começar com uma breve série de encontros para completar a apresentação dos Doutores da Igreja. E iniciamos com uma santa que representa um dos cumes da espiritualidade cristã de todos os tempos: Santa Teresa de Jesus. Ela nasceu em Ávila, Espanha, em 1515, com o nome de Teresa de Ahumada. Em sua autobiografia, ela menciona alguns detalhes da sua infância: o nascimento “de pais virtuosos e tementes a Deus”, em uma grande família, com nove irmãos e três irmãs. Ainda jovem, com pelo menos 9 anos, leu a vida dos mártires, que inspiram nela o desejo de martírio, tanto que chegou a improvisar uma breve fuga de casa para morrer como mártir e ir para o céu (cf. Vida 1, 4): “Eu quero ver Deus”, disse a pequena aos seus pais. Alguns anos mais tarde, Teresa falou de suas leituras da infância e afirmou ter descoberto a verdade, que se resume em dois princípios fundamentais: por um lado, que “tudo o que pertence a este mundo passa”; por outro, que só Deus é para “sempre, sempre, sempre”, tema que recupera em seu famoso poema: “Nada te perturbe, nada te espante; tudo passa, só Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem tem a Deus, nada lhe falta. Só Deus basta!”. Ficando órfã aos 12 anos, pediu à Virgem Santíssima que fosse sua mãe (cf. Vida 1,7). Se, na adolescência, a leitura de livros profanos a levou às distrações da vida mundana, a experiência como aluna das freiras agostinianas de Santa Maria das Graças, de Ávila, e a leitura de livros espirituais, em sua maioria clássicos da espiritualidade franciscana, ensinaram-lhe o recolhimento e a oração. Aos 20 anos de idade, entrou para o convento carmelita da Encarnação, sempre em Ávila. Três anos depois, ela ficou gravemente doente, tanto que permaneceu por quatro dias em coma, aparentemente morta (cf. Vida 5, 9). Também na luta contra suas próprias doenças, a santa vê o combate contra as fraquezas e resistências ao chamado de Deus. Escreve: “Eu desejava viver porque compreendia bem que não estava vivendo, mas estava lutando com uma sombra de morte, e não tinha ninguém para me dar vida, e nem eu poderia tomá-la, e Aquele que podia dá-la a mim, estava certo em não me socorrer, dado que tantas vezes me voltei contra Ele, e eu o havia abandonado” (Vida 8, 2). Em 1543, ela perdeu a proximidade da sua família: o pai morre e todos os seus irmãos, um após o outro, migram para a América. Na Quaresma de 1554, aos 39 anos, Teresa chega o topo de sua luta contra suas próprias fraquezas. A descoberta fortuita de “um Cristo muito ferido” marcou profundamente a sua vida (cf. Vida 9). A santa, que naquele momento sente profunda consonância com o Santo Agostinho das “Confissões”, descreve assim a jornada decisiva da sua experiência mística: “Aconteceu que…de repente, experimentei um sentimento da presença de Deus, que não havia como duvidar de que estivesse dentro de mim ou de que eu estivesse toda absorvida n’Ele” (Vida 10, 1). Paralelamente ao amadurecimento da sua própria interioridade, a santa começa a desenvolver, de forma concreta, o ideal de reforma da Ordem Carmelita: em 1562, funda, em Ávila, com o apoio do bispo da cidade, Dom Álvaro de Mendoza, o primeiro Carmelo reformado, e logo depois recebe também a aprovação do superior geral da Ordem, Giovanni Battista Rossi. Nos anos seguintes, continuou a fundação de novos Carmelos, um total de dezessete. Foi fundamental seu encontro com São João da Cruz, com quem, em 1568, constituiu, em Duruelo, perto de Ávila, o primeiro convento das Carmelitas Descalças. Em 1580, recebe de Roma a ereção a Província Autônoma para seus Carmelos reformados, ponto de partida da Ordem Religiosa dos Carmelitas Descalços. Teresa termina sua vida terrena justamente enquanto está se ocupando com a fundação. Em 1582, de fato, tendo criado o Carmelo de Burgos e enquanto fazia a viagem de volta a Ávila, ela morreu, na noite de 15 de outubro, em Alba de Tormes, repetindo humildemente duas frases: “No final, morro como filha da Igreja” e “Chegou a hora, Esposo meu, de nos encontrarmos”. Uma existência consumada dentro da Espanha, mas empenhada por toda a Igreja. Beatificada pelo Papa Paulo V, em 1614, e canonizada por Gregório XV, em 1622, foi proclamada “Doutora da Igreja” pelo Servo de Deus Paulo VI, em 1970. Teresa de Jesus não tinha formação acadêmica, mas sempre entesourou ensinamentos de teólogos, literatos e mestres espirituais. Como escritora, sempre se ateve ao que tinha experimentado pessoalmente ou visto na experiência de outros (cf. Prefácio do “Caminho de Perfeição”), ou seja, a partir da experiência. Teresa consegue tecer relações de amizade espiritual com muitos santos, especialmente com São João da Cruz. Ao mesmo tempo, é alimentada com a leitura dos Padres da Igreja, São Jerônimo, São Gregório Magno, Santo Agostinho. Entre suas principais obras, deve ser lembrada, acima de tudo, sua autobiografia, intitulada “Livro da Vida”, que ela chama de “Livro das Misericórdias do Senhor”. Escrito no Carmelo de Ávila, em 1565, conta o percurso biográfico e espiritual, por escrito, como diz a própria Teresa, para submeter a sua alma ao discernimento do “Mestre dos espirituais”, São João de Ávila. O objetivo é manifestar a presença e a ação de um Deus misericordioso em sua vida: Para isso, a obra muitas vezes inclui o diálogo de oração com o Senhor. É uma leitura fascinante, porque a santa não apenas narra, mas mostra reviver a profunda experiência do seu amor com Deus. Em 1566, Teresa escreveu o “Caminho da perfeição”, chamado por ela de “Admoestações e conselhos” que dava às suas religiosas. As destinatárias são as doze noviças do Carmelo de São José, em Ávila. Teresa lhes propõe um intenso programa de vida contemplativa ao serviço da Igreja, em cuja base estão as virtudes evangélicas e a oração. Entre os trechos mais importantes, destaca-se o comentário sobre o Pai Nosso, modelo de oração. A obra mística mais famosa de Santa Teresa é o “Castelo Interior”, escrito em 1577, em plena maturidade. É uma releitura do seu próprio caminho de vida espiritual e, ao mesmo tempo, uma codificação do possível desenvolvimento da vida cristã rumo à sua plenitude, a santidade, sob a ação do Espírito Santo. Teresa refere-se à estrutura de um castelo com sete “moradas”, como imagens da interioridade do homem, introduzindo, ao mesmo tempo, o símbolo do bicho da seda que renasce em uma borboleta, para expressar a passagem do natural ao sobrenatural. A santa se inspira na Sagrada Escritura, especialmente no “Cântico dos Cânticos”, para o símbolo final dos “dois esposos”, que permite descrever, na sétima “morada”, o ápice da vida cristã em seus quatro aspectos: trinitário, cristológico, antropológico e eclesial. À sua atividade fundadora dos Carmelos reformados, Teresa dedica o “Livro das fundações”, escrito entre 1573 e 1582, no qual fala da vida do nascente grupo religioso. Como na autobiografia, a história é dedicada principalmente a evidenciar a ação de Deus na fundação dos novos mosteiros. Não é fácil resumir em poucas palavras a profunda e complexa espiritualidade teresiana. Podemos citar alguns pontos-chave. Em primeiro lugar, Santa Teresa propõe as virtudes evangélicas como base da vida cristã e humana: em particular, o desapego dos bens ou a pobreza evangélica (e isso diz respeito a todos nós); o amor de uns aos outros como elemento essencial da vida comunitária e social; a humildade e o amor à verdade; a determinação como resultado da audácia cristã; a esperança teologal, que descreve como sede de água viva. Sem esquecer das virtudes humanas: afabilidade, veracidade, modéstia, cortesia, alegria, cultura. Em segundo lugar, Santa Teresa propõe uma profunda sintonia com os grandes personagens bíblicos e a escuta viva da Palavra de Deus. Ela se sente em consonância sobretudo com a esposa do “Cântico dos Cânticos”, com o apóstolo Paulo, além de com o Cristo da Paixão e com Jesus Eucarístico. A santa enfatiza, depois, quão essencial é a oração: rezar significa “tratar de amizade com Deus, estando muitas vezes tratando a sós com quem sabemos que nos ama” (Vida 8, 5). A ideia de Santa Teresa coincide com a definição que São Tomás Aquino dá da caridade teologal, como amicitia quaedam hominis ad Deum, uma espécie de amizade entre o homem e Deus, quem primeiro ofereceu sua amizade ao homem (Summa Theologiae II-ΙI, 23, 1). A iniciativa vem de Deus. A oração é vida e se desenvolve gradualmente, em sintonia com o crescimento da vida cristã: começa com a oração vocal, passa pela interiorização, através da meditação e do recolhimento, até chegar à união de amor com Cristo e com a Santíssima Trindade. Obviamente, este não é um desenvolvimento no qual subir degraus significa abandonar o tipo de oração anterior, mas um gradual aprofundamento da relação com Deus, que envolve toda a vida. Mais que uma pedagogia da oração, a de Teresa é uma verdadeira “mistagogia”: ela ensina o leitor de suas obras a rezar, rezando ela mesma com ele; frequentemente, de fato, interrompe o relato ou a exposição para fazer uma oração. Outro tema caro à santa é a centralidade da humanidade de Cristo. Para Teresa, na verdade, a vida cristã é uma relação pessoal com Jesus que culmina na união com Ele pela graça, por amor e por imitação. Daí a importância que ela atribui à meditação da Paixão e à Eucaristia, como presença de Cristo na Igreja, para a vida de cada crente e como coração da liturgia. Santa Teresa vive um amor incondicional à Igreja: ela manifesta um vivo sensus Ecclesiae frente a episódios de divisão e conflito na Igreja do seu tempo. Reforma a Ordem Carmelita com a intenção de servir e defender melhor a “Santa Igreja Católica Romana” e está disposta a dar sua vida por ela (cf. Vida 33, 5). Um último aspecto fundamental da doutrina de Teresa que eu gostaria de sublinhar é a perfeição, como aspiração de toda vida cristã e sua meta final. A Santa tem uma ideia muito clara da “plenitude” de Cristo, revivida pelo cristão. No final do percurso do “Castelo Interior”, na última “morada”, Teresa descreve a plenitude, realizada na inabitação da Trindade, na união com Cristo mediante o mistério da sua humanidade. Queridos irmãos e irmãs, Santa Teresa de Jesus é uma verdadeira mestra de vida cristã para os fiéis de todos os tempos. Em nossa sociedade, muitas vezes desprovida de valores espirituais, Santa Teresa nos ensina a ser incansáveis testemunhas de Deus, da sua presença e da sua ação; ensina-nos a sentir realmente essa sede de Deus que existe em nosso coração, esse desejo de ver Deus, de buscá-lo, de ter uma conversa com Ele e de ser seus amigos. Esta é a amizade necessária para todos e que devemos buscar, dia após dia, novamente. Que o exemplo desta santa, profundamente contemplativa e eficazmente laboriosa, também nos encoraje a dedicar a cada dia o tempo adequado à oração, a esta abertura a Deus, a este caminho de busca de Deus, para vê-lo, para encontrar a sua amizade e, por conseguinte, a vida verdadeira; porque muitos de nós deveríamos dizer: “Eu não vivo, não vivo realmente, porque não vivo a essência da minha vida”. Porque este tempo de oração não é um tempo perdido, é um tempo no qual se abre o caminho da vida; abre-se o caminho para aprender de Deus um amor ardente a Ele e à sua Igreja; e uma caridade concreta com nossos irmãos. Obrigado. [No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:] Queridos irmãos e irmãs, Santa Teresa de Jesus, nascida no século XVI, é um dos vértices da espiritualidade cristã de todos os tempos, e deu início, junto com São João da Cruz, à Ordem dos Carmelitas descalços. Apesar de não possuir uma formação acadêmica, sempre soube se alimentar dos ensinamentos de teólogos, literatos e mestres espirituais. Suas principais obras são: “O livro da Vida”; “Caminho da perfeição”; “Castelo Interior” e “O Livro das Fundações”. Entre os elementos essenciais da sua espiritualidade, podemos destacar, em primeiro lugar, as virtudes evangélicas, base de toda a vida cristã e humana. Depois, Santa Teresa insiste na importância da oração, entendida como relação de amizade com Aquele que se ama. A centralidade da humanidade de Cristo, outro tema que lhe era muito caro, ensina que a vida cristã é uma relação pessoal com Jesus, a qual culmina na união com Ele pela graça, pelo amor e pela imitação. Por fim, está a perfeição, aspiração e meta de toda vida cristã, realizada na inabitação da Santíssima Trindade, na união com Cristo através do mistério da Sua humanidade. Dou as boas-vindas a todos os peregrinos de língua portuguesa, presentes nesta audiência! Que o exemplo e a intercessão de Santa Teresa de Jesus vos ajudem a ser, através da oração e da caridade aos irmãos, testemunhas incansáveis de Deus em uma sociedade carente de valores espirituais. Com estes votos, de bom grado, a todos abençoo.

[Tradução: Aline Banchieri.© Libreria Editrice Vaticana]

Anjos, uma verdade de Fé

O que a Igreja ensina sobre os Anjos

A Igreja celebra em 29 de setembro a festa litúrgica dos Santos Arcanjos: Miguel (Quem como Deus!), Gabriel (Força de Deus) e Rafael (Cura de Deus). O Catecismo da Igreja afirma sem hesitação a existência dos anjos: “A existência dos seres espirituais, não corporais, que a Sagrada Escritura chama habitualmente de anjos, é uma verdade de fé. O testemunho da Escritura a respeito é tão claro quanto a unanimidade da Tradição” (§ 328).

O Catecismo lembra que: “Cristo é o centro do mundo angélico” (§ 331). Eles pertencem a Cristo, porque são criados por Ele e para Ele, como disse São Paulo: “Pois foi Nele que foram criadas todas as coisas, nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis: Tronos, Dominações, Principados, Potestades, tudo foi criado por Ele e para Ele” (Cl 1, 16). Os anjos também são de Cristo porque Ele os fez mensageiros do seu projeto de salvação da humanidade. “Ainda aqui na terra, a vida cristã participa, na fé da sociedade bem-aventurada dos anjos e dos homens, unidos em Deus” (§ 336).

Portanto, não há como negar a existência dos anjos, sem bater de frente com o ensinamento da Igreja, em toda a sua existência. São Paulo ensinava em sua primeira Carta aos fiéis de Colossos: “Nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as criaturas visíveis e invisíveis, Tronos, Dominações (ou Sobera­nias), Principados, Potestades (ou Autoridades): tudo foi criado por Ele e para Ele” (Cl 1, 16).

O primeiro Concílio Ecumênico que confirmou a existência dos seres espirituais foi o de Niceia, em 325, quando fala no Decreto (DS 54), em “coisas invisíveis”: “Creio em um só Deus, Pai Todo Poderoso, Criador do Céu e da Terra, e de todas as coisas visíveis e invisíveis”.

Essa verdade foi reafirmada no Concílio de Constantinopla I, em 381. Também o Concílio regional de Toledo, em 400, reafirmou a mesma verdade, dizendo: “Deus é o Criador de todos os seres visíveis; fora d’Ele não existe natureza divina de Anjo, de potência que possa ser considerada como Deus”. O Magistério da Igreja confirmou a realidade dos anjos sobretudo no Concílio de Latrão IV (1215), ao declarar contra o dualismo dos hereges cátaros: “Deus é o Criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis, espirituais e corporais; por sua onipotência no início do tempo criou igualmente do nada as criaturas espirituais e corporais, isto é, o mundo dos anjos e o mundo terrestre; em seguida criou o homem, que de certo modo compreende umas e outras, pois consta de espírito e corpo. O diabo e os outros demônios foram por Deus criados bons, mas por livre iniciativa tornaram-se maus. O homem pecou por sugestão do diabo” (DS 800 [428]).

A existência dos Anjos foi reafirmada, no II Concílio de Lião, sob Gregório X, em 1274, nos seguintes termos: “Cremos em um Deus Onipotente…, criador de todas as criaturas, de quem, em quem e por quem existem todas as coi­sas no céu e na terra, visíveis, corporais e espirituais” (D.S., 461).

O Concílio de Florença, sob Eugênio IV (1441-2) pelo Decreto pro-lacobitis, e pela Bula Contate Domine, de 4 de janeiro de 1441 assim se expressou: “A sacrossanta Igreja romana crê firmemen­te, professa e prega que um só é o verdadeiro Deus…, que é o criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, o qual quando quis, por sua vontade criou todas as criaturas, tanto espirituais como corporais” (D.S, 706). O Concílio de Trento (1545-1563) repetiu o ensinamento tradicional  definido no IV Concílio de Latrão. Lê-se no Catecismo Romano e na profissão de Fé expressa na Bula lniunctum nobis, do Papa Paulo IV de 13 de novembro de 1564: “Deus criou também, do nada, a natureza espiritual e inumeráveis Anjos para que o servissem e assistissem” (1ª parte, Cap. 2, a.1 do Símbolo., n. 17).

O Concílio Vaticano I (1869-1870) pelos decretos 3002 e 3025 da Constitutio de fide catholica (DS, 1873) – e Dei Filius, ao condenar certos erros, afirma: “Este Deus único verdadeiro…, com um ato libérrimo no início dos tempos, fez do nada ambas as criaturas, a espiritual e a corporal, isto é, a angélica e o mundo; depois a criatura humana, como que participando de ambas, constituída de alma e de corpo”. O  mesmo Concílio condenou os que: “Afirmam que fora da matéria, nada mais existe” (Dec.  3022). “Afirmam que as criaturas materiais e espirituais não foram criadas do nada e livremente” (Dec. 3025 – “Contra o materialis­mo”, D.S., 1802).

“Se alguém disser que as coisas finitas, quer sejam corpóreas, quer espirituais são emanações da substância divina… seja anátema” (Contra o Panteísmo, Cânon 4). Na Encíclica Summi Pontificatus, de 20 de outubro de 1939, Pio XII lamenta que “alguns ainda perguntem se os Anjos são seres pessoais e se a matéria difere essencialmente do espírito” (D.S. 2318).

O Concílio Vaticano II (1962-1965), na Constituição Dogmátca Lumen Gentium, fala claramente dos anjos: “Portanto, até que o Senhor venha com toda sua Majes­tade, e todos os Anjos com Ele (cf. Mt 25, 31)”…(LG, 49). “A Igreja sempre acreditou estarem mais unidos conosco em Cristo, venerou-os juntamente com a Bem-aventurada Virgem Maria e os Santos Anjos com especial afeto…” (LG, 50). No Cap. VIII sobre “A Bem-aventurada Virgem Maria no Misté­rio da Igreja”, lê-se: “Maria foi exaltada pela graça de Deus acima de todos os Anjos e todos os homens, logo abaixo de seu Filho, por ser a Mãe Santíssima de Deus” (LG, 66). “Todos os fiéis cristãos supliquem insistentemen­te à Mãe de Deus e Mãe dos homens, para que Ela, que com suas preces assistiu às primícias da Igreja, também agora exaltada no céu sobre todos os Anjos e bem aventurados…” (LG, 69).

No Credo do Povo de Deus, do Papa Paulo VI, de 30 de junho de 1968, o santo Padre afirma: “Cremos em um só Deus, Pai, Filho e Espirito Santo, Criador das coisas visíveis, como este mundo, onde se desenrola a nossa vida passageira; Criador dos seres invisíveis como os puros espí­ritos, que também são denominados Anjos, e Criador em cada ho­mem, da alma espiritual e imortal”.

Diante de uma certa tendência de negar que os anjos são seres pessoais, mas apenas “instintos” ou “forças neutras”, como se fossem apenas  uma tendência para o bem ou para o mal, o Papa Pio XII na sua encíclica Humani Generis (1959), reafirmou que os anjos são “criaturas pessoais”, dotadas de inteligência sagaz e vontade livre (DS 3891 [2317]).

São Gregório Magno dizia que cada página da Revelação escrita atesta a existência dos Anjos. A presença e a ação dos anjos bons e maus estão a tal ponto inseridas na história da salvação, na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja, que não podemos negar a sua existência e ação, sem destruir a Revelação de Deus. O fato de muitas vezes os anjos terem sido apresentados de maneira fantasiosa ou infantil, não nos autoriza a negar a sua existência. Por serem seres espirituais, os anjos bons e maus não podem ter a sua existência provada experimental e racionalmente; no entanto, a Revelação atesta a sua realidade. Eles são mencionados mais de 300 vezes na Bíblia.

Prof. Felipe Aquino

Aprendendo a ser missionário com Santa Teresinha

Padroeira das missões

Seu exemplo é caminho para que todos nós sejamos missionários onde nos encontramos

Iniciamos o mês de outubro celebrando a memória litúrgica de Santa Teresinha do Menino Jesus, virgem e doutora da Igreja. Outubro é conhecido também como o mês missionário. Santa Teresinha é a padroeira das missões.

O Decreto Conciliar Ad Gentes sobre a atividade missionária da Igreja afirma: “A Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária, visto que tem a sua origem, segundo o desígnio de Deus Pai, na ‘missão’ do Filho e do Espírito Santo” (AG,6). Em nosso “DNA” espiritual de batizados está impresso o nosso desígnio missionário, e Santa Teresinha do Menino Jesus, mesmo vivendo no Carmelo, viveu sua identidade missionária rezando pelas vocações.

Em seus escritos autobiográficos, intitulados “História de uma alma”, Santa Teresinha afirma: “Ó Jesus, meu amor, minha vocação, encontrei-a afinal: Minha vocação, é o amor! […]”. Seu exemplo é caminho para que todos nós sejamos missionários onde nos encontramos: Família, trabalho, escola…

Nos domingos e dias de festa Santa Teresinha colocava o seu pouco tempo disponível para prestar pequenos favores às suas irmãs do Carmelo. Também nós podemos seguir este exemplo. Quanto tempo dedicamos àqueles que nos são importantes? Conseguimos nos desconectar dos nossos computadores e celulares para valorizar aqueles a quem realmente amamos? Ser missionário é também amar com gestos concretos e atenção a todos, começando em primeiro lugar pelos de nossa própria casa.

Por saber que uma das madres, que já tinha idade avançada, tinha alergia a perfume de flores, Santa Teresinha deixou de colocá-las diante da imagem do Menino Jesus, que ficava no claustro. Este pequeno gesto demostra o carinho e atenção para com a religiosa. E nós? Quais são os pequenos sacrifícios que podemos fazer para nossos irmãos de comunidade? Muitas vezes, sabemos de algo que alguns não gostam e insistimos em continuar fazendo. A missão exige um abrir mão de nossas vontades para acolher o outro com doçura e delicadeza.

Quando percebia que alguma irmã estava nervosa ou de mau humor ela sempre a tratava com mais delicadeza, sendo amável e meiga: “Precisamos agir, pois, como o Senhor, desdobrarmo-nos em delicadezas e previdências para com as almas imperfeitas […]”. Todos os dias também somos confrontados com inúmeras situações em que muitos se encontram nervosos ou estressados no trabalho. Como reagimos diante destes desafios? Temos a delicadeza do Senhor, que se manifesta a nós de um modo amável? Ou nos deixamos envolver pela atmosfera de mau humor e aumentamos ainda mais o mal-estar em nosso trabalho? Ser missionário é aprender a vivenciar as mais delicadas situações com prudência e carinho.

Santa Teresinha também nos ensina que ser missionário é nos empenharmos em uma contínua vida de oração por todos: familiares, amigos, colegas de trabalho, enfermos, pessoas necessitadas, religiosos, seminaristas, diáconos, padres, bispos, Papa…

Que a exemplo de Santa Teresinha do Menino Jesus nossa missão seja sempre o amor!

Padre Flávio Sobreiro
Bacharel em Filosofia pela PUCCAMP. Teólogo pela Faculdade Católica de Pouso Alegre – MG. Vigário Paroquial da Paróquia Nossa Senhora do Carmo (Cambuí-MG). Padre da Arquidiocese de Pouso Alegre – MG. Página pessoal: http://www.padreflaviosobreiro.com Facebook: http://www.facebook.com/flaviosobreiro

“Quem não vive para servir, não serve para viver”

Francisco durante a Audiência Geral abençoa criança – OSS_ROM
30/06/2016

Cidade do Vaticano (RV) – Esta quinta-feira (30/06) foi dia de audiência jubilar no Vaticano. Na Praça S. Pedro, cerca de 15 mil fiéis ouviram o Papa Francisco falar das obras de misericórdia.

“É importante jamais esquecer que a misericórdia não é uma palavra abstrata, mas um estilo de vida. Eu posso ou não ser misericordioso. Uma coisa é falar de misericórdia, outra coisa é vive-la”, disse.

O Pontífice citou o Apóstolo Tiago, que diz que a misericórdia sem as obras está morta em seu isolamento. “É exatamente assim”, frisou Francisco: “O que torna viva a misericórdia é o seu dinamismo constante de ir ao encontro de quem precisa e das necessidades de quem se encontra em dificuldade espiritual e material.  A misericórdia tem olhos para ver, ouvidos para escutar e mãos para ajudar”.

Servir para viver

De modo especial, o Pontífice falou da importância do perceber o estado de sofrimento dos outros. Às vezes, afirmou, passamos diante de situações dramáticas de pobreza e parece que estas não nos tocam; tudo continua como se nada fosse, numa indiferença que, ao final, nos torna hipócritas e, sem perceber, acaba numa forma de letargia espiritual em que o ânimo se torna insensível e a vida, estéril. “Tem gente que passa toda a vida sem nunca perceber as necessidades dos outros”, lamentou. Pessoas que passam sem viver, que não servem os outros. Lembrem-se bem: quem não vive para servir, não serve para viver”.

“Quem experimentou na própria vida a misericórdia do Pai não pode permanecer insensível diante das necessidades dos irmãos”, completou Francisco, que citou as obras que estão contidas no Evangelho de Mateus: assistir que tem fome, sede, quem está nu, refugiado, doente e na prisão. “As obras não são temas teóricos, mas testemunhos concretos. Obrigam a arregaçar as mangas para aliviar o sofrimento”.

Essencial

Com o multiplicar-se da pobreza material e espiritual, o Papa Francisco pede uma caridade criativa para identificar novas formas de ajudar quem precisa. “Portanto, pede-se a nós que permaneçamos vigilantes como sentinelas para que, diante das pobrezas produzidas pela cultura do bem-estar, o olhar do cristão não se enfraqueça e se torne incapaz de ver o essencial.”

Ver o essencial, explicou, significa “olhar Jesus no faminto, na prisioneiro, no doente, no nu, em quem não tem trabalho e deve levar avante uma família. Olhar Jesus em quem está triste, só, em quem erra, em quem precisa de conselho, caminhar em silêncio com quem precisa de companhia – estas são as obras que Jesus pede a nós. Olhar Jesus nestas pessoas. Por quê? Porque Jesus nos olha assim”.

Tratou-se da última audiência jubilar deste período de verão europeu. Ao saudar os peregrinos alemães, o Pontífice recordou que neste período de férias e repouso seria importante também cuidar das relações humanas e viver a misericórdia. Já aos poloneses, pede orações para si e para os jovens que em todo o mundo estão se preparando para o iminente encontro em Cracóvia para a Jornada Mundial da Juventude, no final de julho.

As audiências jubilares serão retomadas em 10 de setembro. (bf)

É bíblica a Missa?

Há muito tempo eu quis escrever sobre este tema. Resolvi escrever este texto devido o fato de alguns Protestantes Neopentecostais e Pentecostais afirmarem peremptoriamente que Jesus nunca mandara rezar Missa! Pasmem! Embasados no dogma do Sola Scriptura criado por Martinho Lutero no seu escrito “A Liberdade de um Cristão” de 1520, negam qualquer interpretação ou aplicação da Sagrada Escritura que não esteja nela mesma prevista. Aqui já há um problema de frente: A premissa Protestante Neopentecostal e Pentecostal para se negar a missa, parte do pressuposto dogma luterano que não está na Bíblia mas, em um escrito de Martinho Lutero. Mas, vamos fazer de conta que aceitamos o erro formal da premisssa protestante e vamos nos perguntar: a Missa é bíblica?

Levando adiante o pressuposto Protestante Neopentecostal e Pentecostal, nem o dito “culto” ali realizado o poderia ser, pois, Jesus ensinou apenas três formas de orar segundo a Sagrada Escritura: A primeira, pública, utilizando o Pai-Nosso (cf. Mt 6,9-13; Lc 11,2-4). O segundo modo que Jesus ensina orar é em particular, entrando para o quarto (metáfora para coração) e orando ao Pai como está em Mt 6,5-6. Há um terceiro modo que Jesus utiliza para orar: Ele toma o pão, abençoa, dá graças, reparte o pão e o entrega aos seus. A este modo particular a Igreja chamou Eucaristia “porque as palavras Eucharistein e Eulogein (Lc 22,19; 1Cor 11,24 e Mt 26,26; Mc 14,22 respectivamente) lembram as bênçãos judaicas que proclamam […] a criação, a redenção e a santificação” (Catecismo da Igreja Católica, doravante CIC, n. 1328). Os textos bíblicos nos evangelhos sinóticos que demonstram Jesus realizando Eucaristia são: Lc 24,30 (os discípulos de Emaús); Mc 6,41 que acrescenta: “elevou os olhos ao céu” (primeira multiplicação dos pães); Mc 8,6 (segunda multiplicação dos pães); Mc 14,22 (instituição da Eucaristia); Mt 14,19 (primeira multiplicação dos pães); Mt 26,26-29 (instituição da Eucaristia); Lc 22,14-20 (instituição da Eucaristia).

Este modo de orar foi ainda chamado de Ceia do Senhor “por se tratar da ceia que o Senhor fez com seus discípulos às vésperas de sua paixão” (CIC, n. 1329). Chama-se ainda “Assembléia Eucarística (gr. Synaxis) porque a Eucaristia é celebrada na Assembléia dos fiéis, expressão visível da Igreja” (CIC, n. 1329).

A Igreja ainda deu a este modo particular de orar, ensinado por Jesus, o nome de “Santo Sacrifício, Santo Sacrifício da Missa, Sacrifício de Louvor, Sacrifício espiritual, Sacrifício Puro e Santo, pois realiza e supera todos os sacrifícios da Antiga Aliança” (CIC, n. 1330).

Tem ainda, este modo próprio da Igreja orar o nome de Missa, pois, termina com o envio dos fiéis para a vida e a missão de anunciar o Cristo: “Ide…”, como Jesus no enviou a todos, somos por ele enviados ao término daquela ação litúrgica.

Sem me deter mormente no Sacramento Augustíssimo da Eucaristia que por si mesmo já pede outro texto, irei expor ainda que suscintamente a estrutura da Missa, Eucaristia, Ceia do Senhor… Antes, porém, devo responder a uma objeção que se impõe: Se não há na Bíblia mandato explícito para se celebrar a Missa, porque a Igreja o faz? Ela desobedece a Sagrada Escritura?

1. Há o mandato explícito de Jesus para os Apóstolos: “Fazei isto em minha memória”. (Lc 22,19; 1Cor 11,24). Tal mandato de Jesus não é para que se lembre, somente. Se assim o fosse, não teria São Paulo escrito: “Todas as vezes, pois, que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais a morte do Senhor até que ele venha” (1Cor 11,26). E ainda, se tal celebração fosse apenas para lembrar o que Jesus fez um dia, sem nenhum sentido sacramental, salvífico, São Paulo também não teria escrito: “Eis porque todo aquele que comer do pão ou beber do cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor. Que cada um examine a si mesmo antes de comer desse pão e beber desse cálice, pois aquele que come e bebe sem discernir o Corpo, come e bebe a própria condenação.” (1Cor 11,27-28). Ora, se o cálice que tomamos e o pão que partimos fossem meros vinho e pão não teríamos com o que nos preocupar, pois, um pão pode nos condenar? Uma alface pode nos tornar réus do Corpo do Senhor? O arroz que você come precisa ser comido somente depois de ter sido discernido? O suco de uva que você bebe só o poderá ser bebido se você estiver digno para tal? Um condenado à morte não come e bebe como o mais santo dos homens e, no entanto, a comida nada lhe acrescenta ou lhe tira. Se a Eucaristia fosse uma simples lembrança e o pão e o vinho, corpo e sangue do Senhor, meros enfeites e símbolos, então esta página da Sagrada Escritura seria inútil e São Paulo um desentendido das coisas do Senhor e, portanto, indigno de qualquer crédito (cf. 1Cor 11,23).

2. A Igreja obedece o que a Tradição e a Sagrada Escritura afirmam, pois, uma complementa a outra.
(ops, já vejo um Pentecostal ou Neopentecostal gritar: Mas a Tradição é coisa de homens e não se pode aceitar doutrinas humanas… blá… blá… blá… Cale-se, irmão. É humana a doutrina de Lutero da Sola Scriptura e você a segue sem questionar! Use outro argumento.) Do Catecismo da Igreja Católica, n. 1345

Desde o século II temos o testemunho de S. Justino Mártir sobre as grandes linhas do desenrolar da Celebração Eucarística, que permaneceram as mesmas até os nossos dias para todas as grandes famílias litúrgicas. Assim escreve, pelo ano de 155, para explicar ao imperador pagão Antonino Pio (138-161) o que os cristãos fazem:

“No dia ‘do Sol’, como é chamado, reúnem-se num mesmo lugar os habitantes, quer das cidades, quer dos campos. Lêem-se, na medida em que o tempo o permite, ora os comentários dos Apóstolos, ora os escritos dos Profetas. Depois, quando o leitor terminou, o que preside toma a palavra para aconselhar e exortar à imitação de tão sublimes ensinamentos. A seguir, pomo-nos todos de pé e elevamos nossas preces  por nós mesmos (…) e por todos os outros, onde quer que estejam, a fim de sermos de fato justos por nossa vida e por nossas ações, e fiéis aos mandamentos, para assim obtermos a salvação eterna. Quando as orações terminaram, saudamo-nos uns aos outros com um ósculo. Em seguida, leva-se àquele que preside aos irmãos pão e um cálice de água e de vinho misturados. Ele os toma e faz subir louvor e glória ao Pai do universo, no nome do Filho e do Espírito Santo e rende graças (em grego: eucharístia, que significa ‘ação de graças’) longamente pelo fato de termos sido julgados dignos destes dons. Terminadas as orações e as ações de graças, todo o povo presente prorrompe numa aclamação dizendo: Amém. Depois de o presidente ter feito a ação de graças e o povo ter respondido, os que entre nós se chamam diáconos distribuem a todos os que estão presentes pão, vinho e água ‘eucaristizados’ e levam (também) aos ausentes”

A seguir, reproduzo quase que textualmente o Cap. I do Livro “O Banquete do Cordeiro. A missa segundo um convertido” de Scott Hahn, professor de teologia e de Escritura na Universidade Franciscana em Steubenville. Neste capítulo, o ex-pastor comenta como foi se convertendo paulatinamente à fé católica justamente indo à missa:

Ao estudar os escritos dos primeiros cristãos, Scott, encontra inúmeras referencias à “liturgia”, à “Eucaristia”, ao “sacrifício”. Foi então a santa missa (logicamente incognito, visto que era um ministro protestante, calvinista), como um execício academico. Como calvinista, foi instruído para acreditar que a missa era o maior sacrilégio que alguém poderia cometer. Pois para eles a missa era um ritual com o propósito de “sacrificar Jesus Cristo outra vez”. Entretando a medida que a missa prosseguia, alguma coisa o tocava. A Bíblia estava diante dele! Nas palavras da missa! Isaías, Salmos, Paulo… Não obstante, manteve sua posição de espectador, à parte, até que ouve o sacerdote pronunciar as palavras da consagração: “Isto é o meu corpo… Este é o cálice do meu sangue”.

Então sentiu todas as suas dúvidas se esvairem. Quando viu o sacerdote elevar a hóstia, percebeu que uma prece subia do seu coração em um sussurro: “Meu Senhor e meu Deus. Sois realmente vós!” Como não foi maior sua emoção ao ouvir toda a igreja orar: “Cordeiro de Deus… Cordeiro de Deus… Cordeiro de Deus” e o sacerdote dizer: “Eis o Cordeiro de Deus…”, enquanto elevava a hóstia. Em menos de 1 minuto a frase “Cordeiro de Deus” ressoou 4 vezes. Graças a longos anos de estudo bíblicos, percebeu imediatamente onde estava. Estava no livro do Apocalípse, no qual Jesus é chamado de Cordeiro nada menos que 28 vezes em 22 capítulos. Estava na festa de núpcias que João descreve no final do último livro da Bíblia. Estava diante do trono do céu, onde Jesus é saudado para sempre como o Cordeiro. Entretanto, não estava preparado para isso – Ele estava na MISSA!

Scott volta à missa por 2 semanas, e a cada dia “descobria” mais passagens das Escrituras consumadas diante de seus olhos. Contudo, naquela capela , nenhum livro lhe era tão visível quanto o da revelação de Jesus Cristo, o Apocalípse, que descreve a adoração dos anjos e santos de céu. Como no livro, ele vê naquela capela, sacerdotes paramentados, um altar, uma assembléia que entoava: “Santo, Santo, Santo”. Viu a fumaça do incenso, ouviu a invocação de anjos e santos… ele mesmo entoava os aleluias, porque se sentia cada vez mais atraído a essa adoração.

A cada dia se desconcertava mais, e não sabia se voltava para o livro ou para a ação no altar, que pareciam cada vez mais ser exatamente a mesma! Mergulhou nos estudos do cristianismo antigo e descobriu que os primeiros bispos, os Padres da Igreja, tinham feito a mesma descoberta que ele fazia a cada manhã. Eles consideravam o livro de Apocalípse a chave da liturgia e a liturgia a chave do livro do Apocalípse. Scott começava descobrir que o livro que ele mais achava desconcertante, agora elucidava as idéias mais fundamentais de sua fé: A idéia da aliança como elo sagrado da família de Deus.

Além disso, a ação que ele considerava a maior das blasfêmias – a missa – agora se revelava como a celebração litúrgica do acontecimento que ratificou a aliança de Deus: “Este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna alinça”. Scott estava aturdido, pois durante anos tentou compreender esse livro como uma espécie de mensagem codificada a respeito do fim do mundo, a respeito do culto no céu distante, algo que os cristãos não poderiam experimentar aqui na terra! Agora , queria gritar a todos dentro daquela capela durante a liturgia: “Ei, pessoal.Quero lhes mostrar onde vocês estão no livro do Apcalípse! Consultem o cap.4, vers. 8… Isso mesmo! Agora mesmo vocês estão no céu!!!

Os padres da igreja mostraram que essa descoberta nao era de Scott! Pregaram a respeito há mais de mil anos. Scott, no entanto, estava convencido de que merecia o crédito pela redescoberta da relação entre missa e o livro do Apocalípse! Então, para sua surpresa, descobre que o Concílio Vaticano II o tinha passado para trás! Reflitam nestas palavras da Constituição sobre a Sagrada Liturgia: “Na liturgia terrena, antegozando, participamos da liturgia celeste, que se celebra na cidade santa de Jerusalém, para a qual, peregrinos, nos encaminhamos. Lá, Cristo está sentado à direita de Deus, ministro do santuário e do tabernáculo verdadeiro; com toda milícia do exército celestial entoamos um hino de Glória ao Senhor e, venerando a memória dos santos, esperamos fazer parte da sociedade deles; suspiramos pelo Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo até que ele, nossa vida, se manifeste e nós apareçamos com Ele na glória”

Espere um pouco.Isso é céu. Não, isso é missa. Não, é o livro do Apocalípse. Espere um pouco: Isso é tudo o que está acima! Scott, se acalma, para não ir rápido demais, para evitar os perigos aos quais os convertidos são susceptíveis! Pois, ele estava rapidamente se convertendo à fé católica! Contudo, essa descoberta não era produto de uma imaginação superexcitada; era o ensinamento solene de uma “Concílio da Igreja Católica”.

Com o tempo, Scott descobre que essa era também a conclusão inevitável dos estudiosos protestantes mais rigorosos e honestos. Um deles, Leonard Thompson, escreveu que “até mesmo uma leitura superficial do livro de Apocalípse mostra a presença da linguagem litúrgica disposta em forma de culto…”. Basta as imagens da liturgia para tornar esse extraordinário livro compreensível. As figuras litúrgicas são essenciais para sua mensagem, escreve Thompson, e revelam “algo mais que visões de ‘coisas que estão por vir'”.

O livro do Apocalipse tratava de Alguém que estava por vir. Tratava de Jesus Cristo e sua “segunda vinda”, a forma como, em geral, os cristãos traduziram a palavra grega parousia. Depois de passar horas e horas naquela capela, Scott aprende que aquele Alguém era o mesmo Jesus Cristo que o sacerdote católico erguia na hóstia. Se os cristãos primitivos estavam certos, ele sabia que, naquele exato momento, o céu tocava a terra: “Meu Senhor e meu Deus. Sois realmente vós!”

Ainda assim, restavam muitas perguntas sérias na mente e no coração de Scott: Quanto à natureza do sacrifício. Quanto aos fundamentos bíblicos da missa. Quanto a continuidade da tradição católica. Quanto a muitos dos pequenos detalhes do culto litúrgico. Essas perguntas definiram suas investigações nos meses que levaram a sua admissão na Igreja Católica. Em certo sentido, elas continuam a definir seu trabalho de hoje.

“Porém, agora ele não faz mais perguntas como acusador ou curioso, mas como filho que se aproxima do pai, pedindo o impossível, pedindo para segurar na palma da mão uma estrela luminosa e distante.” Scott não crê que Nosso Pai nos recuse a sabedoria que buscamos a respeito de sua missa. Ela é afinal de contas, o acontecimento no qual ele confirma sua aliança conosco e nos faz seus filhos. Este livro é mais ou menos o que Scott descobriu enquanto investigava as riquezas de “nossa tradição católica”.

Nossa herança inclui toda a Bíblia, o testemunho ininterrupto da Tradição, os constantes ensinamentos dos santos e do Sagrado Magistério, a pesquisa dos teólogos e estudiosos. Na missa , você e eu temos o céu na terra. As provas são prodigiosas. A experiencia é uma revelação!

 

AS PARTES DA MISSA 

Continuando a exposição para responder à pergunta: “É bíblica a missa?” vamos ao rito da Missa parte por parte para ver se há algo de bíblico nele. Isto aqui já é por si mesmo desnecessário por tudo quanto se disse anteriormente na I Parte, mas, para alimentar a espiritualidade católica e a curiosidade dos nossos leitores, vamos ao rito da missa. Farei uma terceira parte sobre o rito e a ritualidade litúrgica na Igreja.

1. Procissão e cântico de entrada. Lembra o caminhar do povo no deserto rumo à terra prometida. Enquanto estamos nesta terra, peregrinamos todos rumo àquela terra prometida por Jesus, o céu: “Vou preparar-vos um lugar e quando eu meu for e vos tiver preparado um lugar, virei novamente e vos levarei comigo, a fim de que, onde eu estiver, estejais também vós” (Jo 14,2-3). Ademais, sempre foi costume do povo de Deus caminhar, peregrinar aos Santuários e ao Templo de Jerusalém conforme encontramos nos salmos das subidas (Sl 120 a 134). Quando se inicia a Santa Missa e têm-se início a procissão de entrada, está nos lábios dos fiéis: “Que alegria quando ouvi que me disseram: vamos à casa do Senhor. E agora nossos pés já se detém, Jerusalém, em tuas portas” (Sl 122,1-2). A missa, portanto, é um peregrinar ao coração do mistério. Não é um caminhar sem sentido, às escuras ou perdido por 40 anos em um deserto escaldante. É um caminhar à luz da fé e para a luz da Vida: “Vimos a verdadeira Luz, recebemos o Espírito celeste, encontramos a verdadeira fé: adoramos a Trindade indivisível, pois foi ela quem nos salvou” (cf. CIC, n. 732).

2. O sinal da Cruz e a saudação inicial. A ação litúrgica começa em nome da Santíssima Trindade. A liturgia é obra da Santíssima Trindade! Nada se faz na Igreja sem a ação de Deus. A Assembléia é reunida no amor de Cristo pela ação do Espírito Santo para prestar o eterno culto de louvor ao Pai: “O cântico de louvor, que ressoa eternamente nas moradas celestes, e que Jesus Cristo, Sumo Sacerdote, introduziu nesta terra de exílio, foi sempre repetido pela Igreja, durante tantos séculos, constante e fielmente, na maravilhosa variedade das suas formas” (Laudis Canticum, Paulo VI, PP.). Tal cântico de Louvor é a Liturgia da Igreja em sua “maravilhosa variedade de formas”. Quem presta o culto a Deus é uma comunidade cultual e não apenas um indivíduo. Desde o Antigo Testamento, as Assembléias de culto ali descritas, sobretudo no Deuteronômio e Crônicas, evocam a proximidade de Deus com seu povo e a sua convocação para o culto em sua presença: QHL-IHWH (Qahal-Iahweh) (cf. Dt 4,10; 9,10; 18,16). Reunida pela primeira vez no Sinai por Deus, a comunidade cultual hebréia se tornou, em Cristo, a nova Jerusalém (cf. Ap 21, 1-8). A tradução dos LXX em Alexandria faz passar QHL-IHWH (Qahal-Iahweh) no hebraico à EKKLESIA, Igreja, no grego, com o mesmo sentido. Por isso a Assembléia reunida para a Eucaristia responde: “Bendito seja Deus que nos reuniu no amor de Cristo”. A saudação inicial é sempre tirada de uma das cartas de São Paulo, como esta, por exemplo: “O Deus da esperança vos cumula de todo gozo e paz em vossa fé, até transbordar de esperança pela força do Espírito Santo” (cf. Rm 15, 13).

3. O Ato Penitencial ou exame de consciência. É o momento no qual toda a Assembléia convocada pede ao Senhor a purificação do coração para celebrar dignamente aqueles santos mistérios. Reconhecendo a própria indignidade e a absoluta transcendência de Deus, todo o povo ali reunido invoca o Senhor em sua Misericórdia e perdão. É o cumprimento do preceito de São Paulo em 1Cor 11,28.

4. O Glória. Neste Hino composto pela Igreja exalta-se a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. É entoado nas festas e solenidades. É entoado por todo o povo. Não é, como muitos pensam, uma expressão de alegria pelo perdão recebido no exame de consciência. Mas, é a exaltação de Cristo por aquilo mesmo que Ele é: Senhor (cf. Fl 2,11), Cordeiro (cf. Jo 1,36), Filho de Deus Pai (cf. Mc 1,11). Aqui vale uma nota importante: O Glória não pode ser substituído por um hino de louvor qualquer que não corresponda à natureza mesma deste Hino Católico.

5. A Palavra. Depois todos ouvimos as leituras do Antigo Testamento, dos Apóstolos, o Evangelho e a homilia de quem preside. De fato, desde Justino Mártir (supra citado) e a Traditio Apostólica de Hipólito de Roma (séc. III) que esta ordem não muda. Aliás, muito antes deles. Nas Assembléias litúrgicas dos Atos dos Apóstolos já era comum o ouvir juntos a Palavra, a comunhão fraterna dos alimentos (partilha), a eucaristia (fração do pão) e as orações (cf. At 2,42).

6. A profissão de fé. Aqui caberia um texto somente sobre o Credo. Tendo sido composto a partir da Sagrada Escritura todo ele é uma afirmação, uma proclamação da nossa fé. É dividido em 3 partes: Afirma-se a fé na Trindade Santa: Pai, Filho e Espírito Santo; afirma-se crer a Igreja como obra da Santíssima Trindade e, por fim, afirma-se a fé escatológica da Igreja: a ressurreição e a vida eterna. Sobre o Credo, uma exposição mais detalhada se encontra aqui: Link.

7. As preces. São orações compostas pela Igreja, pelas necessidades da Igreja e do mundo que são elevadas a Deus. De fato, são importantes porque expressam a confiança filio-paternal na Divina Providência como ensina At 2,42.

8. As oferendas: pão e vinho e a Oração Eucarística. Usamos pão e vinho porque Jesus mandou que se o fizesse em sua Memória (como explicado anteriormente). A respeito da Oração Eucarística, vou transportar um breve texto sobre a Oração Eucarística II que possui a seguinte estrutura:

[ROCCHETTA, Carlo. Os sacramentos da fé. Ensaio de teologia bíblica sobre os sacramentos como “maravilhas da salvação” no tempo da Igreja. São Paulo: Paulinas, 1991. pg. 317-320]

A segunda prece eucarística

Esta prece se distingue por sua brevidade e simplicidade. Ela foi composta levando em conta antigo formulário constante da “Traditio Apostólica”, de santo Hipólito romano, que remonta aproximadamente ao ano de 215. Quanto ao conteúdo, destaca-se pelo relevo que dá ao mistério de Cristo. Tem prefácio próprio, que pertence ao corpo geral, mas que pode ser substituído por outros em consonância com o ano litúrgico.

a) Ação de graças

Introduzido pelo diálogo celebrante-comunidade, o prefácio é verdadeira ação de graças pelas “maravilhas da salvação” realizadas pelo Pai com o envio do Filho, “feito homem por obra do Espírito Santo”, de cujo sangue brotou o novo povo de Deus, que, a uma só voz, pode agora proclamar a infinita santidade de Deus. Depois de afirmar o dever de “dar graças sempre e em toda parte” ao Pai por Jesus Cristo, Filho do seu amor, recorda em uma só visão tanto a “maravilha” da criação como a “maravilha” da redenção: “Por meio dele, tua Palavra viva, criaste todas as coisas e o enviaste a nós, Salvador e Redentor, feito homem por obra do Espírito Santo e nascido da Virgem Maria”.

Cristo é o centro do culto cristão, pois é, ao mesmo tempo, o centro da criação e da redenção, já que tudo foi feito por meio dele, nele e em função dele e tudo foi reconciliado no seu sangue (cf. CI 1,13-20). O prefácio continua, destacando que a encarnação do verbo alcança seu cumprimento no mistério de sua páscoa, da qual, como de uma fonte, deriva todo o mistério da Igreja: “Para cumprir a tua vontade e adquirir para ti um povo santo, ele estendeu os braços na cruz e, morrendo, destruiu a morte e proclamou a ressurreição”. Desse modo, “a aquisição de um povo consagrado, e a paixão, na qual o crucificado estende os braços na cruz como para abençoar e abraçar o universo: assim ele anuncia a morte e manifesta a ressurreição. A concisão dessa descrição une a morte e  a ressurreição de Cristo em um só ato, libertador e vitorioso”. Essa evocação conclui com o louvor à santidade e à grandeza de Deus, de cuja glória o céu e a terra estão cheios.

b) Passagem e epiclese sobre as oferendas

A fórmula de passagem, “Pai verdadeiramente Santo, fonte de toda santidade”, retorna a idéia da santidade de Deus, mas a desenvolve, destacando que toda santidade e santificação deriva do Pai. Assim, estamos em cheio no âmbito das “maravilhas de Deus”, pois a santidade é uma delas. Dessa convicção de fé nasce a epiclese (ou invocação )do Espírito. Com efeito, se Deus Pai é a fonte de toda santidade, é perfeitamente lógico que ele seja invocado para a santificação e a consagração dos dons (pão e vinho). E o agente dessa obra é o Espírito Santo: “Santifica estes dons com a efusão do teu Espírito, para que se tornem para nós o corpo e o sangue de Jesus Cristo, nosso Senhor”.

Assim, a santidade de Deus se transmite aos dons, por meio do envio da Pessoa do Espírito, que tem o poder de transformar o pão e o vinho no corpo e no sangue do Senhor. Com efeito, o Espírito de Deus é Espírito criador: assim como no princípio pairou sobre o cosmos para operar a primeira criação e assim como na plenitude dos tempos “pousou” sobre Maria para nela operar a criação da humanidade de Jesus, início da nova criação, agora ele é invocado sobre os dons do pão e do vinho para operar essa “maravilha” da nova criação e da graça que é a transubstanciação”: Aqui se mostra com grande evidência que a consagração, cerne da celebração eucarística, é obra das três pessoas divinas, da Santíssima Trindade, assim como a encarnação do Verbo, enviado pelo Pai e feito homem por intervenção do Espírito Santo.”

“A expressão ‘para nós’ não deve levar ao engano: ela não tem caráter subjetivo, como se significasse que o corpo e o sangue têm para nós valor simbólico; ela conserva todo o seu valor objetivo, como, aliás, sugere o verbo ‘tornar-se’, no sentido que atua concretamente a presença do corpo e do sangue de Cristo. A frase pretende sublinhar que o corpo e o sangue de Cristo tornam-se presentes em função de nossa participação sacramental. Não nos encontramos diante de espetáculo, mas de uma ação que nos empenha profundamente’’

c) Relato da instituição

‘’Entregando-se livremente à sua paixão, ele tomou o pão, deu graças, partiu-o, deu-o aos seus discípulos e disse: Tomai e comei, todos: este é o meu corpo, oferecido em sacrifício por vós”.

“Depois da ceia, do mesmo modo, tomou o cálice, deu graças, deu-o aos discípulos e disse: Tomai e bebei, todos: este é o cálice do meu sangue, para a nova e eterna aliança, derramado por vós e por todos pela remissão dos pecados. Fazei isto em memória de mim’’.

Quase de imprevisto, chega-se ao relato da instituição, mas a invocação do Espírito e a menção do corpo e do sangue de Cristo o haviam preparado. Trata-se da anamnese propriamente dita, que atualiza nos sinais o mistério da páscoa, e nos empenha a revivê-lo em toda a sua intensidade e em todas as suas conseqüências. A aliança é renovada na oblação de Cristo. A eucaristia é a nova shekinah, a morada de Deus entre os homens. Pode-se agora aceitar o convite de Cristo (‘’Tomai… comei… bebei…’’) e participar do seu banquete de salvação, pois a “maravilha”’da páscoa já foi atualizada sobre o altar. Naturalmente, trata-se de “maravilha sacramental” e, como tal, só é alcançada pelo altar da fé. Por isso, logo depois das palavras da consagração, o sacerdote acrescenta: ‘’Mistério da fé!’’, ao que o povo responde afirmando o conteúdo da eucaristia em consonância com o anúncio paulino de 1Cor 11,26: morte, ressurreição, espera da parusia: “Anunciamos a tua morte, Senhor, e proclamamos a tua ressurreição, à espera da tua vinda”.

d) Memória e oferenda

“Celebrando o memorial da morte e ressurreição do teu filho, te oferecemos, ó Pai, o Pão da vida e o cálice da salvação e te damos graças por nos teres admitido em tua presença para o cumprimento do serviço sacerdotal”.

Depois de ter afirmado que tudo o que se realizou é a “memória” do mistério pascal de Cristo, o celebrante, juntamente com toda a comunidade, oferece ao Pai o “pão da vida” e o cálice da salvação” como “ação de graças” pelo que Jesus realizou por nós com sua páscoa. E, assim, retorna o tema da berakah, a “ação de graças”, que perpassa toda a celebração eucarística e agora acompanha o gesto da oferenda.

e) Epiclese sobre os comungantes

“Suplicamos-te humildemente: que o Espírito Santo nos reúna em um só corpo para a comunhão no corpo e no sangue de Cristo”.

Agora, com estilo simples e conciso, invoca-se segunda vez o Espírito Santo para que os que participam da comunhão com o corpo e o sangue de Cristo sejam reunidos, com a graça do Espírito, ”em um só corpo”. Como participação no próprio corpo e sangue de Cristo, a eucaristia é sinal e fonte de unidade eclesial, a qual, porém, não pode ser obtido sem a obra do Espírito Santo, que é vínculo e selo de unidade, porque é Espírito de Cristo e princípio de vida e caridade. A imagem do corpo aplicada à igreja – note-se o duplo sentido correlato da palavra “corpo” – deriva da epístola aos Romanos: ”Nós somos muitos e formamos um só corpo em Cristo, sendo membros uns dos outros” (Rm12, 5).

f) As intercessões

Depois da epiclese, as intercessões, para que os frutos do sacrifício de Cristo, morto pela salvação de todos, derramem-se sobre a Igreja, sobre o mundo inteiro e sobre os falecidos. pede-se igualmente por “todoss nós”, para que possamos ser partícipes da Igreja dos santos, que já canta, na bem–aventurança, a glória do Pai, por meio do Filho, no Espírito. E é precisamente com essa doxologia que se conclui a prece eucarística: “Por Cristo,com Cristo e em Cristo, a ti, Deus Pai onipotente, na unidade do Espírito Santo, toda honra e glória pelos séculos dos séculos”.

Ao que se segue o amém dos fiéis, expressando sua adesão de fé ao mistério da salvação, atualizado sobre o altar e repercutindo agora em toda a Igreja e pela eternidade.

9. O Pai-Nosso. Depois de termos sido inebriados do Espírito de Cristo pela epiclese (invocação) do sacerdote, agora como filhos adotivos rezamos ao Pai como Jesus ensinou aos seus discípulos. Por fim, O sacerdote pede que sejamos livres dos males, pela paz na Igreja e no mundo e conclui-se o embolismo com a proclamação cristológica: “Porque vosso é o reino, o poder e a glória…”

10. Cordeiro de Deus. Antes de nos aproximarmos da comunhão, rezamos ou cantamos “Cordeiro de Deus… tende piedade de nós” como João Batista, como o cego Bartimeu… não nos podemos aproximar do Deus justo e santo sem que ele mesmo nos convide por sua misericórdia e sem que nos purifique de nossa cegueira. Ele, o Filho de Davi, há de ter piedade de seu povo para aceitá-lo à sua mesa. Neste momento o pão eucarístico é partido e assim, significa o Sacrifício Pascal de Cristo nos foi entregue.

11. O ato de comungar. Recebemos pão e vinho, corpo e sangue de Cristo. Sobre a Eucaristia farei um texto a parte para não delongar muito. Aqui basta dizer que o pão abençoado, eucaristizado, transubstanciado, sobre o qual foi dado graças e partido é agora distribuído como fora a ordem de Jesus: “tomai todos e comei…”, “tomai todos e bebei…”.

12. “Ide em paz e o Senhor vos acompanhe”. Aqui começa a segunda missa. Aquela que devemos viver no nosso cotidiano. Aquele evangelho ouvido, aquele Corpo e Sangue comungados, devem ser agora, vida na nossa vida.

 

A RITUALIDADE E A LITURGIA

Concluindo neste excerto o tema “É bíblica a missa?” trato do tema da ritualidade litúrgica. Posto aqui um pequeno texto de um artigo que escrevi e que já postei neste mesmo blog. A despeito da acusação Protestante Pentecostal e Neopentecostal de que o rito é tão-somente a caracterização das vãs repetições condenadas por Jesus (cf. Mt 6,7), reitero: se assim o fosse Jesus não teria usado ele mesmo o rito pascal para a ceia que celebrou com os Apóstolos (uma vez que ele celebrara com os apóstolos a ceia pascal conforme o rito judaico!); os evangelhos sinóticos e São Paulo não reportariam a eucaristia como um rito tal qual ali se encontra (como exaustivamente explorado na Parte I) e, por fim, Jesus não teria ensinado uma oração, o Pai-Nosso, para ser repetida pelos seus.

O que é o rito?

Muitos há que acham a Santa Missa, por exemplo, tediosa. Um poema de Adélia Prado intitulado “Missa das 10” nos dá uma idéia:

Frei Jácomo prega e ninguém entende. Mas fala com piedade, para ele mesmo e tem mania de orar pelos paroquianos. As mulheres que depois vão aos clubes, os moços ricos de costumes piedosos, os homens que prevaricam um pouco em seus negócios gostam todos de assistir a missa de frei Jácomo, povoada de exemplos, de vida de santos, da certeza marota de que ao final de tudo urna confissão “in extremis” garantirá o paraíso. Ninguém vê o Cordeiro degolado na mesa, o sangue sobre as toalhas, seu lancinante grito, ninguém. Nem frei Jácomo.

Ao nos depararmos com a beleza dos ritos na Liturgia, seu fulcro exatamente transcendente e ao mesmo tempo imanente vai aos pouquinhos nos separar de uma participação morna na missa do Frei Jácomo. Nossas liturgias deveriam resplandecer de nobre simplicidade, como nos recomenda a Sacrossanctum Concilium n. 34. De tal modo deveríamos viver a ritualidade litúrgica que ela tudo impregnaria de eternidade e de beleza. O Padre Valeriano Santos Costa assim afirma:

Quem participa de um rito litúrgico entra numa outra categoria de tempo e espaço. O tempo cronológico significa dissolução e cansaço no encadeamento das horas, dias, meses e anos: o envelhecimento. […] No rito, a ordem do espaço […] se altera, transformando a idéia de limite, barreira, divisão, prisão em aconchego, proteção, libertação, plenitude. [COSTA, V. S. Viver a ritualidade litúrgica como momento histórico da salvação. Participação litúrgica segundo a Sacrossanctum Concilium.São Paulo: Paulinas, 2005. pg. 46-47 (Col Viver a fé)]

Vivenciar os ritos é, portanto, de importância capital para perceber a beleza da Liturgia que faz do cronos o Kairós, ou seja, do tempo cronológico o tempo/estado da Graça. O dado antropológico da liturgia nos diz que o homem serve-se de sinais sensíveis para exprimir o indizível. De fato, ao olharmos o aspecto aparente da liturgia podemos nos deparar com coisas muito simples como uma vela, uma toalha branca ou um crucifixo. Todavia, estes são pontes do efêmero para o eterno. A beleza do rito litúrgico deve começar de dentro, do coração humano e nos levar ao coração do Mistério. De fato, afirma Corbon: “reza-se como se vive e vive-se como se ama; tudo depende do lugar onde habitualmente nos centramos e em torno do qual tudo toma o seu sentido (…) o coração é o lugar da decisão, do sim ou não”. Sabendo que a Liturgia começa no coração, chamo nossa atenção para o outro lugar da manifestação da beleza, ou seja, para o “fazer” na Liturgia.

Aqui eu gostaria de tocar um pouco na nossa prática litúrgica. Nossas equipes de Liturgia nas Paróquias muitas vezes se transformam em ‘tarefeiros’ junto com o padre. Fazem muitas coisas, mas não as fazem bem. Nossos Ministros Extraodinários da Eucaristia permanecem numa odinária distração toda a missa. Os músicos esquecem-se do rito para procurar a folha de cântico. O calor faz a assembléia suar. O volume estridente do som faz todos sentirem o ouvido doer. As flores de plástico no presbitério, sujas de poeira, dão o tom da desordem, do desleixo e da despreocupação com aquilo que é expressão do Eterno! Os vasos sagrados sujos de zinabre demonstram quão desleixados são os que cuidam da sacristia. O andar apressado e sem a devida reverência e gravidade dos acólitos e do Padre, as toalhas puídas, a multiplicação de folhas, cadernos, lembretes, cartazes para todos os cantos… enfim, nossas Paróquias precisam romper este ciclo vicioso de feiúra que tem tomado conta do nosso “fazer” litúrgico.

A Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão de Jesus é o acontecer do Mistério. O “véu” se rasgou e pela Ascensão o Filho nos leva ao coração aberto do Pai, donde jorra o rio de vida (cf. Ap 22,1), a Liturgia celeste, perene e eterna,  a beleza celeste que se fez nossa. A Liturgia é Cristo histórico, corpo místico e Filho de Deus. É justamente por causa dessas duas energias (divina e humana) que a Liturgia se torna ato salvífico de Deus na história dos homens. E se torna ato salvífico porque é memorial, porque O Vivente passou para além da morte e tornou o tempo impregnado de Eternidade. Neste aspecto, percebemos o quanto precisamos crescer na dimensão antropológica da manifestação da nossa fé. Valendo-me do axioma Lex Orandi Lex Credendi, trago um elemento de avaliação de nossas liturgias: O modo como estamos celebrando a fé expressa a fé que professamos? Avalie se o Memorial do Mistério Pascal de Cristo que se celebra na sua comunidade resplandece aquela nobre simplicidade da qual é dotado o Mistério da Paixão, Morte, Ressurreição e Glorificação do Filho de Deus?

“Nada deve ser afetado nem pela pressa nem pelo exagero. […] Se numa celebração de uma hora introduzimos tantos adendos, […] esgotamos o tempo e somos tentados a atropelar o rito […] numa corrida olímpica” [Cf. COSTA, 2005. Pg.59]. A grave expressão de quem sobe o Calvário para o Sacrifício do Cordeiro deve acompanhar todo aquele que toma parte na Liturgia. A solenidade dos gestos, a tranqüilidade na execução dos ritos, ao Padre a clareza e solenidade na proclamação das orações e demais ofícios que lhe cabem na Liturgia, o canto liturgicamente ordenado e ensaiado, tudo isto contribui para uma participação eficaz, ativa e frutuosa na Divina Liturgia. O contrário disto também é igualmente verdade: quando não cuidada, a Liturgia passa de “a festa da alegria do Pai” como Corbon a classificou, à festa da tristeza e irritação dos que nela tomam parte.

Ao explanar sobre a participação ativa dentro do rito, o Padre Valeriano S. Costa joga luz sobre o modo de estar na Liturgia. Retomando o conceito grego “Leitourgia”, ele diz que Liturgia é essencialmente ação (ourgia) e não necessariamente discurso  (logia). A ação é sempre realizada por um sujeito. Como vimos o sujeito da Liturgia é o Pai, ao mesmo tempo ele é objeto da ação Sagrada realizada por nós, objeto da nossa fé. Como sujeito da Liturgia, a Assembléia não é só uma assistente, uma expectadora passiva, mas um sujeito ativo. Está envolvida na “leitourgia” na ação sagrada em favor do povo. Desse modo é preciso formar nossas Assembléias litúrgicas para este modo de participar, beber e contemplar o Acontecer do Mistério que ali é celebrado. As distrações, conversas paralelas, celulares ligados, crianças correndo e chorando, a pressa em começar e terminar a ação litúrgica, as homilias porcamente preparadas, tudo isso contribui para o empobrecimento da participação ativa da Assembléia. De fato, Pe Valeriano destaca  que todo o corpo deve entrar nesta ação ritual, ou seja, a pessoa toda: pensamento, emoção, postura, voz, razão, gestos, para que a participação seja de fato ativa e frutuosa para o fiel.

Após esta breve explicação do rito, concluo o meu contributo para a questão: “É bíblica a missa?”. Espero que lhe ajude.

Fernando, Padre Luís. <http://www.apologistascatolicos.com/index.php/doutrina-e-teologia/sacramentos/

Mistério de amor da Cruz não é “masoquismo” espiritual

Quinta-feira, 14 de setembro de 2017, Da redação, com Rádio Vaticano

Na homilia, Francisco advertiu para duas tentações espirituais diante da cruz de Cristo

Depois de dois meses e meio de pausa, o Papa Francisco retomou na manhã desta quinta-feira, 14, Festa da Exaltação da Santa Cruz, a celebração da Missa na capela da Casa Santa Marta, no Vaticano.

Na homilia o Pontífice advertiu para duas tentações espirituais diante da cruz de Cristo: a de pensar um Cristo sem cruz, isto é, fazer Dele um “mestre espiritual”, e, de outro lado, pensar uma cruz sem Cristo, ou seja, não ter esperança, numa espécie de “masoquismo” espiritual.

O centro da reflexão do Papa foi o mistério de amor constituído pela cruz. Francisco evidenciou que nem sempre é fácil entender a cruz. “Somente com a contemplação se vai avante neste mistério de amor”, afirmou.

E Jesus, quando quer explicá-lo a Nicodemos, como recorda o Evangelho do dia, usa dois verbos: subir e descer. “Jesus desceu do Céu para levar todos nós a subir ao Céu”. “Este é o mistério da cruz”, destacou o Papa. Na Primeira Leitura, justamente para explicar isto, São Paulo diz que Jesus “humilhou a si mesmo”, fazendo-se obediente até a morte de cruz:

“Esta é a descida de Jesus: até embaixo, à humilhação, esvaziou a si mesmo por amor. E por isso, Deus o exaltou e o fez subir. Somente se nós conseguirmos entender esta descida até o fim, podemos entender a salvação que nos oferece este mistério do amor.”

Porém, notou o Papa, “não é fácil, porque sempre existem tentações para considerar uma metade e não a outra. São Paulo disse uma palavra forte aos Gálatas “quando cederam à tentação de não entrar no mistério do amor, mas de explicá-lo”.

Assim como a serpente encantou Eva e envenenou os israelitas no deserto, do mesmo modo foram encantados “por uma ilusão de um Cristo sem cruz ou de uma cruz sem Cristo”.

“Um Cristo sem cruz que não é o Senhor: é um mestre, nada mais que isso. É aquele que, sem saber, talvez Nicodemos buscava. É uma das tentações. Sim, Jesus que bom o mestre, mas….sem cruz, Jesus. Quem os encantou com esta imagem? A raiva de Paulo. Jesus Cristo apresentado, mas não crucificado. Outra tentação é a cruz sem Cristo, a angústia de permanecer lá embaixo, com o peso do pecado, sem esperança. É uma espécie de “masoquismo” espiritual. Somente a cruz, mas sem esperança, sem Cristo”.

Mas a cruz sem Cristo seria “um mistério trágico”, disse o Papa, como as tragédias pagãs:

“Mas a cruz é um mistério de amor, a cruz é fiel, a cruz é nobre. Hoje podemos tirar alguns minutos e cada um fazer uma pergunta: para mim, o Cristo crucificado é mistério de amor? Eu sigo Jesus sem cruz, um mestre espiritual que nos enche de consolação, de bons conselhos? Sigo a cruz sem Jesus sempre me lamentando, com este “masoquismo” do espírito? Deixo-me levar por este mistério do abaixamento, esvaziamento total e exaltação do Senhor?”.

O Papa conclui fazendo votos de que o Senhor dê a graça “não digo de entender, mas de entrar” neste mistério de amor: “depois, com o coração, com a mente, com o corpo, com tudo, entenderemos alguma coisa”.

Festa de Nossa Senhora da Piedade – 15 de Setembro

Nossa Senhora da Piedade é aquela que recebendo o Divino Filho em seus braços, depois de sua morte trágica na Cruz, levou-o com os fiéis discípulos e piedosas mulheres até o sepulcro. Foi sempre um tema muito procurado pela arte cristã que encontra nos episódios da vida de Jesus e de sua Santíssima os motivos para edificação, mais ainda, porque nos sofrimentos, encontram os cristãos, um grande consolo, verificando que eles são próprios ao caminho da perfeição, e se Deus os teve, com sua Mãe, não é demais que os mortais os suportem.

 

NOSSA SENHORA DA PIEDADE, ROGAI POR NÓS!
Por Mons. Inácio José Schuster

Com alegria celebramos a Festa da Padroeira de Hamburgo Velho, Nossa Senhora da Piedade. A Festa da Padroeira, seja liturgicamente, seja recreativamente, é um momento importante para todos nós proclamarmos nossa fé em Cristo Jesus e louvarmos Sua e nossa Mãe, a Senhora da Piedade.  Continuamos a tradição de nossos antepassados, que há mais de 167 anos celebram a Padroeira destas terras, e rezamos com Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja: “Se é certo que todas as graças que Deus nos concede, como eu tenho por certo, passará pelas mãos de Maria, também tenho por certo que só por meio de Maria poderemos esperar e conseguir a sublime graça da perseverança final. E certamente a conseguimos, se confiadamente a pedimos sempre a Maria suplicando-lhe por intermédio de suas benditas dores”.

Não convém e nem será próprio do devoto de Maria Santíssima, meditar nos lances da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, abstraindo da figura co-redentora de sua Mãe. E ao invocarmos as chagas do Salvador como a cura de nossos pecados, é preciso lembrar que tal impetração passa pelos rogos da Medianeira de todas as graças. Dispensadora, por vontade divina, de todos os dons celestiais, os méritos dessas chagas como que foram todos entregues a Ela, para deles dispor em benefício dos homens. Em certo sentido, Maria Santíssima é, pois, a dona dessas chagas. Aliás, as imagens de Nossa Senhora da Piedade — inclusive a famosa Pietà de Michelangelo —, que representam Jesus morto no colo de Maria, exprimem muito bem a idéia desse augusto senhorio: a Mãe é a dona daquele cadáver e, portanto, de todos os méritos infinitos que aquele Homem inanimado em seus braços conquistou para nós. Tudo nos vem através d’Ela, e por mais extraordinário que seja o valor dessas chagas, sem a intercessão de Maria nada obteremos. Peçamos, então, o patrocínio de Nossa Senhora da Piedade, a invocação propícia para essas súplicas. É a figura da Santíssima Virgem que traz seu próprio coração chagado e ferido pela consideração dos padecimentos do Filho. Nunca a alma de uma mãe carregou chaga semelhante à que feriu o coração de Maria, tomado por imensurável tristeza durante a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esse Imaculado Coração transpassado pela espada da dor é a porta por onde atingimos as chagas de Jesus. Rezemos a Nossa Senhora da Piedade, do fundo de nossa alma, confiantes e humildes, na certeza de que Ela alcançará em nosso favor a aplicação dos méritos infinitos dos sofrimentos redentores de seu Divino Filho.

Com São Pio de Pietrelcina, digamos, de coração para Coração, no colo da Mãe de Jesus e nossa: “Nossa Senhora, infunde em mim o mesmo amor que arde em teu coração por Jesus”.

 

Depois de celebrarmos a cruz de Jesus e seu mistério de amor para com cada um de nós, hoje nos recordamos dos sofrimentos de Maria. O Evangelho não é concreto ao descrever psicologicamente as dores de Maria. E, no entanto essa devoção agitou muito a Idade Média. No século XIX, ela entrou para a liturgia, aos 15 de setembro. Há uns anos atrás, todos nós presenciamos uma terrível tragédia acontecida na cidade de São Paulo. A tragédia aérea de Airbus da TAM. Eu me recordo de ter visto nas telas da TV, mulheres desesperadas, chorando por seus filhos que haviam tragicamente perdidos suas vidas. Naquele momento eu me recordei de Nossa Senhora das Dores. Essas mulheres nas telas dos nossos canais de televisão imitavam, inconscientemente, as dores da Virgem Maria, porque Maria também passou por essa tribulação. A Virgem Maria teve que contemplar, angustiada e sofredora o seu Filho moribundo, pendente de uma cruz. Depois da morte, recebeu a Seu Corpo sem vida nos próprios braços, como nós recordamos nos exercícios da Via Sacra que realizamos e cujo momento dramático foi imortalizado na Pietá de Michellangelo. Naquela ocasião fiz uma prece a Nossa Senhora da Piedade, por todas aquelas mães e por todos os parentes das vítimas daquele desastre que nos encheu a todos de grande tristeza e luto. Hoje eu dedico esta celebração de Nossa Senhora da Piedade a todas essas mulheres intrépidas que carregam no coração a dor lancinante pela perda de um ente querido. Quero dizer apenas que Deus não é insensível aos nossos sofrimentos, Deus não foi insensível ao sofrimento de seu filho Jesus, Deus não foi insensível de Maria santíssima. Deus não é insensível aos sofrimentos de todos aqueles e aquelas que estão hoje acabrunhados sob o peso de tantas tragédias no corpo ou no espírito. É um mistério o sofrimento e não adianta muitas elucubrações ou filosofia. Não podemos e não devemos tripudiar sobre as dores dos outros. Mas nós queremos afirmar a todos que existe uma maneira de sofrer. Uma maneira de sofrer que é cristã isto é uma maneira de sofrer sem o desespero, uma maneira de sofrer com a esperança de que tudo isso neste mundo é provisório e que um dia reencontraremos a paz na Pátria Celeste, quando Deus tiver enxugado as lágrimas de cada um de nós.

 

Durante a Ceia da Quinta-feira Santa, Jesus demonstrava uma serenidade transcendente, manifestando seu amor por toda a humanidade. O ponto culminante é a instituição da Eucaristia, sacramento de sua real e verdadeira presença no meio de nós, pelo qual Ele atualiza seu sacrifício na Cruz na oblação ao Pai. No Horto das Oliveiras revela-se sua angústia humana diante do que o aguarda. Jesus clama: “Pai se possível afaste de mim este cálice”. É a luta interior presente em seu coração, porém a vitória, ao contrário de Adão, é sua identificação com a vontade do Pai: “Não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres”. E nesta Sexta-feira Santa nós contemplamos em sua prisão, paixão e crucifixão. Fixemos nossos olhos em Jesus e deixemo-nos invadir pela sua misericórdia: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”. Ao bom ladrão, Ele diz: “Ainda hoje estarás comigo no paraíso”. E que gesto profundo de amor para conosco, ao nos dar como Mãe, sua própria Mãe: Apontando para o discípulo amado diz “Eis tua Mãe”, e para sua Mãe: “Eis teu filho”. João representa todo verdadeiro discípulo de Jesus, de modo que todo discípulo seu reconhece Maria como sua Mãe e ela intercede por todos, tendo seu olhar maternal sobre cada um de nós. No madeiro da cruz, o Senhor e Mestre revela sua profunda comunhão conosco. Ele assumiu nossa humanidade, tornando-se um de nós. É a humanidade de Jesus, que experimentamos quando clama: “Tenho sede”, ou ainda, no último momento, “Pai. Por que me abandonastes?”. Todos os nossos sofrimentos, nossas dores são assumidos por Jesus e nós Nele participamos do mistério da Redenção. De nossa própria, como também de todos os homens. Jesus é o nosso Salvador, pois Nele experimentamos a salvação. São Gregório de Nazianzo dirá que “uma só gota de seu sangue renova o mundo inteiro”.  Só Deus salva e na Cruz transparece a sua divindade. Abandonado por todos e no vazio de sua humanidade, Ele exclama na gratuidade absoluta, doando-se totalmente ao Pai: “Em tuas mãos entrego o meu espírito”. É a doação que nos salva, que nos redime e se torna o sentido último e mais profundo de nossa vida. Por isto  dá seu último suspiro: “Tudo está consumado”.   Sim, na medida em que vivermos tal doação e nossa vida se colocar toda voltada para Deus e Nele orientada para um serviço despretensioso aos irmãos e irmãs, participamos, como dom gratuito de Deus, da salvação que Jesus nos trouxe.

 

NOS BRAÇOS DE MARIA

Na verdade, esta é a posição que Maria assume nos dias de hoje: ela nos toma em seus braços, como tomou naquele dia o Corpo de Jesus, descido da cruz. Quando Cristo morreu, era preciso tirar, rapidamente, o Corpo d’Ele da cruz, porque o dia terminava às seis horas da tarde. Os corpos não podiam ficar ali depois desse horário porque começava o dia do sábado. Ao ser tirado da cruz, o Corpo do Senhor foi deixado nos braços da Virgem Maria. Michelangelo esculpiu uma linda estátua traduzindo isso. É a chamada Pietà, a Nossa Senhora da Piedade. Todos nós precisamos estar, assim, nos braços de Nossa Senhora. O Corpo de Jesus ficou estraçalhado: depois da flagelação, da coroação de espinhos, da subida para o Calvário, o Corpo d’Ele foi sendo dilacerado. Por fim, na cruz, chegou o auge disso. Os romanos amarravam os prisioneiros uns aos outros para percorrerem o caminho até a cruz. Os condenados andavam em fila carregando cada um o pedaço transversal da cruz. As mãos eram amarradas naquele pedaço de madeira. A corda que amarrava as mãos do que estava à frente amarrava também os pés do prisioneiro de trás e assim por diante, um amarrado no outro. O condenado mais perigoso, naquela época, era sempre crucificado no meio de outros. E Jesus foi considerado o prisioneiro mais perigoso: temiam toda aquela gente que queria chaciná-lo ou mesmo que Seus amigos interviessem. Ele, por ser o condenado mais perigoso, foi colocado no meio dos outros dois. Imagine, então: a qualquer queda ou solavanco daquele prisioneiro que estava à frente, Cristo iria ao chão… Pior ainda! Quando o de trás tropeçava, Jesus, sem defesa, por estar com as mãos presas no madeiro, ia de rosto ao chão. O Santo Sudário mostra que a face do Senhor ficou transfigurada. É o que está descrito em Isaías 53 e no Salmo 22: “Aquele diante do qual a gente esconde o rosto”. Quando você vê um acidente feio demais, automaticamente fecha os olhos ou leva a mão ao rosto para não ver. Realmente, o rosto de Nosso Senhor Jesus Cristo ficou deformado, por tantas vezes que Ele caiu de rosto no chão. O Santo Sudário mostra – e os especialistas examinaram – o hematoma de um dos olhos d’Ele, que ficou como que destruído com aquelas quedas. Você sabe tudo o que Jesus passou ao ser crucificado e nas três horas em que ficou na cruz. Foi esse Corpo que a Santíssima Virgem Maria recebeu ao pé do madeiro. Foi esse Corpo que ela recebeu ao pé da cruz nos seus braços. O que aconteceu com o Corpo de Cristo é apenas um sinal, porque Ele carregou sobre Si todos os nossos pecados e enfermidades. Ele tomou sobre Si todas as nossas enfermidades. Todos os nossos sofrimentos. As nossas chagas do corpo, da alma e do espírito. Os nossos pecados. As deformações que os vícios fizeram em cada um de nós. Todo estrago que o pecado fez em nós o Senhor carregou sobre o Seu Corpo. Foi por isso que o Corpo de Jesus Cristo ficou naquele estado. Maria está nos tomando na mesma situação em que tomou o Corpo de Jesus. Tomou-nos em seus braços para curar nossas chagas, nossas enfermidades e todos os estragos que a vida, o pecado e o mundo fizeram em nós. Mesmo que exteriormente não pareça, infelizmente, em nosso interior, em nossa alma, em nosso espírito, ficaram todas essas deformações. Nossa Senhora, ao pé da cruz, quer tomar a cada um de nós em seus braços para nos banhar no Sangue de Jesus. Para nos curar e nos libertar. Tocar uma por uma em nossas chagas. E fazer-nos, realmente, novos. Imagine quantas machucaduras a vida vez em você! Coisas das quais você teve ou não teve culpa. Porém, a vida fez em você. Quanta gente foi mal amada e rejeitada até pelas pessoas mais importantes, como o pai, a mãe. Quantos de nós fomos “socados” quando éramos crianças. Passamos necessidades. Até fome. Mas, muito mais que fome de alimento, tínhamos fome de amor, necessidade de carinho e de presença, mas não os tivemos. Não temos culpa dessas marcas todas. Mas carregamos essas feridas. Quantos de nós, pequeninos ainda, já fomos vítimas de paixões humanas. Abusaram de nós. Ensinaram-nos coisas terríveis. Não estou dizendo que haja culpa. Não! Nós acabamos sendo vítimas. Mas é impressionante como isso fica na lembrança! Até as brincadeiras sexuais que fizeram conosco, porque éramos novos, como uma chapa fotográfica muito sensível, tudo ficou gravado. De quando em quando isso volta à nossa lembrança, com pesar, sentimento de culpa e de acusação. Como fomos estragados pelo álcool, pelas drogas, por amigos e amigas!… Estragados por uma sexualidade malvivida em nossa adolescência e juventude! Estragados em nossos afetos, porque usaram e abusaram de nossa necessidade de amar e ser amados. Quantos de nós carregamos, hoje, uma ferida terrível por causa de maus-tratos de pai e mãe. Por causa de brigas e até separação dos pais… Por causa de adultério, infidelidade… Nós somos uma chaga viva! Assim como o rosto de Jesus ficou irreconhecível de tanto ir ao chão, o nosso rosto – a nossa identidade, aquilo que somos –, o nosso rosto de filhos de Deus é que foi jogado, violentamente, ao chão. O nosso rosto ficou tão desfigurado, uma chaga viva, a ponto de não se ver em nós a face de filhos de Deus. Nossa Senhora quer curar tudo isso! Peça que ela venha curá-lo.

(Trecho retirado do livro “Maria – A Mulher do Gênesis ao Apocalipse” de monsenhor Jonas Abib).

 

Nossa Senhora da Piedade
A mais remota representação da Senhora da Piedade em Portugal, foi pintada em madeira, que se encontrava numa das capelas do claustro da Sé em Lisboa. Pertencia a uma antiqüíssima Irmandade, que tinha por função principal enterrar os mortos, visitar e confortar os encarcerados e acompanhar os criminosos que iam padecer a pena ultima. Essa pintura representando Nossa Senhora assentada ao pé da Cruz, tendo nos braços Jesus Morto, foi o emblema das Casas de Misericórdia, que por iniciativa de frei Miguel de Contreiras, se fundaram em Portugal, começando pela de Lisboa. Tinha essa Nossa Senhora da Sé de Lisboa, uma Irmandade que se supõe já existia desde antes do ano de 1230, pois foi nesse ano que ela figura no acompanhamento do pai de Santo Antônio, que acusado falsamente de um crime, ia ser levado à forca, quando seu filho, o grande taumaturgo português chegou a tempo de salvá-lo, por uma milagrosa demonstração de sua inocência. Muito venerada em Portugal era Nossa Senhora da Piedade de Merceana, que segundo a tradição aparecera no tronco de uma árvore, no início do século XII. Contam que, certo dia, um lavrador começou a notar que um dos bois de sua manada, lhe desaparecia todo dia à mesma hora, voltando pouco depois. Seguiram o boi e verificaram dirigir-se o animal a uma carvalheira, debaixo da qual se ajoelhava, olhando para um dos galhos. Interior da igreja da Serra da Piedade, em Caeté, Minas Gerais Encontraram então uma pequena efígie gótica da Senhora da Piedade, que mais tarde foi colocada numa capela construída naquele sítio. Este culto deve ter entrado no estado de Minas Gerais através dos bandeirantes, pois Nossa Senhora da Piedade era a padroeira de Guaratinguetá, passagem obrigatória nos tempos em que os viajantes que transitavam entre Rio de Janeiro e São Paulo, e cujo porto era muito freqüentado pelos aventureiros que subiam a serra da Mantiqueira à procura dos veios auríferos nos Campos dos Cataguás. Talvez o primeiro santuário de Nossa Senhora da Piedade naquela província tenha sido o de Barbacena, antiga Borda de Campolide, onde era venerada uma imagem da Virgem trazida de Portugal por algum imigrante ou por um padre jesuíta, e cuja matriz foi benta em 1748. Daí a devoção se espalhou pela terra mineira, indo localizar-se principalmente na Serra da Piedade. Segundo a tradição, esse santuário plantado no alto da montanha, próxima a Caeté, se prende as perseguições que o Marques de Pombal moveu contra Os jesuítas e varias famílias nobres da Lusitânia. Entre os fugitivos da vingança do ministro de D. José I encontrava-se o arquiteto Antônio da Silva Bracarena, que prometera à Virgem Santíssima construir-lhe uma igreja, se ficasse livre. Tendo se refugiado na Vila Nova da Rainha (hoje Caeté), resolveu erigir um templo no alto da serra que ele avistara rodeada de nuvens. Sua decisão tornou-se mais forte quando soube de um estranho fato acontecido naquele local, alguns anos antes. Uma menina, muda de nascença, avistou por várias vezes no alto da montanha, aureolada de luz, a Virgem Maria trazendo nos braços o seu Divino Filho morto, e após estas visões principiou a falar corretamente. Bracarena iniciou então a edificação da igreja e mandou vir da cidade do Porto uma imagem de Nossa Senhora da Piedade, de tamanho natural, reprodução em madeira da célebre Pietá de Miguel Ângelo. Esta efígie se encontra ainda hoje no altar-mor da igreja serrana e a ela são atribuídos vários milagres, que atraem todos os anos milhares de peregrinos. A construção desta capela foi muito demorada, tendo terminado somente em 1770, com o auxílio do povo, e desde então a serra passou a ser denominada Serra da Piedade. Após a morte de Bracarena, que foi sepultado no adro do templo, debaixo do altar da Virgem, vários ermitões o sucederam, continuando a zelar pela Senhora. Apesar disto, a igreja chegou a ameaçar ruir, mas, devido à intercessão do cardeal D. Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, o Patrimônio Histórico e Artístico Nacional resolveu restaurar a tradicional capela, que foi entregue aos cuidados dos frades dominicanos. Por iniciativa desses religiosos foi iniciada a construção da Casa dos Romeiros a fim de abrigar melhor o grande número de fiéis que anualmente sobem a montanha para renderem homenagem à Virgem Santíssima. Nossa Senhora da Piedade já era considerada um pouco protetora geral de todos os mineiros, quando em 1958 assim foi proclamada por bula do Papa São João XXIII. Contudo, a sua consagração oficial como Padroeira do Estado de Minas Gerais deu-se a 31 de julho de 1960, na Praça da Liberdade em Belo Horizonte, com a presença do Governador de Minas e autoridades civis, militares e religiosas. A capela de Nossa Senhora da Piedade, situada a quase 1800 metros de altitude, apresenta ao devoto que sobe a sua escarpada montanha um panorama amplo e maravilhoso e uma alegria semelhante, com certeza, aquela que ele sentirá ao atingir o Paraíso Celeste após a rude caminhada neste mundo, guiado e auxiliado pelas mãos suaves de Maria. Esta devoção é muito divulgada no Brasil, pois, além das 73 igrejas que a tomaram por Padroeira, encontramos imagens da Virgem Dolorosa em quase todos os antigos templos, espalhados pelo nosso País.

Fontes: Augusto de Lima Júnior, em “História de Nossa Senhora em Minas Gerais”, Imprensa Oficial, Belo Horizonte, 1956, pp. 131-139.  Nilza Botelho Megale, em “Invocações da Virgem Maria no Brasil”, Ed. Vozes, 4a. edição, pp. 383-387.

 

Ladainha de Nossa Senhora da Piedade  

Senhor, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Deus Pai de Misericórdia, tende piedade de nós.
Jesus, Filho de Maria, tende piedade de nós.
Espírito Santo Santificador, tende piedade de nós.
Nossa Senhora da Piedade, rogai por nós.
Santa Mãe das Dores,
Mãe do Sofrimento,
Mãe da Angústia,
Mãe das Lágrimas,
Mãe da Solidão,
Mãe do Silêncio,
Mãe Crucificada,
Mãe dos Desesperados,
Mãe dos Humilhados,
Mãe dos Excluídos,
Casa dos Desterrados,
Auxílio dos Desempregados,
Socorro dos Famintos,
Refúgio dos Perseguidos,
Consolo das Viúvas,
Amparo dos Órfãos,
Companheira dos Solitários,
Arca da Aliança Eterna,
Cálice do Sofrimento de Jesus,
Patena do corpo Sofredor de Cristo,
Porta do Coração de Jesus,
Espelho da Justiça Divina,
Nova Eva,
Rosa Mística,
Reparadora da Nova Aliança,
Consoladora dos Aflitos,
Ovelha Transpassada de Dor,
Vaso de sofrimento Infindável,
Túmulo de Nossos Pecados,
Refúgio dos Pecadores,
Saúde dos Enfermos,
Coração Transpassado,
Coração Atormentado,
Coração Coroado de Espinhos,
Coração Chagado,
Coração Fonte de Amor,
Coração Compassivo,
Coração Forte até o Fim,
Esperança dos Cristãos,
Esperança dos Humildes,
Esperança dos que Sofrem,
Esperança dos que Morrem,
Esperança de Dias Melhores,
Esperança de Santidade,
Esperança dos Peregrinos,
Esperança da Humanidade,
Esperança Nossa,
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, ouvi-nos Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós, Senhor.
– Rogai por nós, ó Mãe da Piedade.
– Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.
OREMOS: Ó Deus, quando o Vosso Filho foi exaltado, quisestes que Sua Mãe estivesse junto à Cruz, sofrendo com Ele. Dai à Vossa Igreja, unida a Maria na Paixão de Cristo, participar da Ressurreição do Senhor, que Convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo. Amém.

 

ORAÇÃO A NOSSA SENHORA DA PIEDADE

Ó Maria, Ó Mãe fecundíssima de toda a piedade, pelas lágrimas que derramastes junto à Cruz do vosso Filho, pela dor que trespassou o Vosso coração amante junto à Cruz, donde por nós pendia morto o Vosso querido Jesus, dai-nos a verdadeira piedade na terra, a fim de que, unidos e sempre unidos a essa Cruz, atravessemos sãos e salvos esta pobre mansão de exílio, com os olhos fitos e sempre fitos no Céu.

(Retirado do livro HORAS DE PIEDADE, 29ª edição, 1958)

 

Minha Mãe dolorosíssima, não vos deixo sozinha a chorar, mas quero vos acompanhar também com as minhas lágrimas. Esta graça vos peço hoje: alcançai-me uma compreensão sempre maior da paixão de Jesus e vossa, para que em todos os dias de minha vida eu possa ser solidário com as pessoas que sofrem, vendo nelas vossas dores e as do meu Redentor. Elas me alcançarão o perdão, a perseverança, o Céu, onde espero cantar a misericórdia infinita do Pai por toda a eternidade. Amém.

 

Santíssima e Imaculada Virgem Maria, Mãe da Piedade, Padroeira e Senhora nossa, recorro à vossa proteção, e a vós consagro minha vida, de discípulo(a) missionário(a). Em vosso coração, Mãe Compassiva, deposito, agora, confiante, minhas súplicas e necessidades. (silêncio para fazer pedido de graça) Alcançai-me o que vos peço; guardai-me na paz, livre de perigos e ciladas, comprometido com a justiça, exemplar na solidariedade, para que o mundo creia e se abra ao amor de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. Amém.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte

 

“PARAI E VEDE SE HÁ DOR SEMELHANTE À MINHA DOR”
Lucía Pérez Wheefock

Rememorando com piedade os sofrimentos que por nossa salvação padeceu a Virgem Maria, recebemos de Deus grandes graças e benefícios. E cumprimos um preceito do Espírito Santo: “Não te esqueças dos gemidos de tua mãe” (Eclo 7, 29).

É impossível não sentir profunda emoção ao contemplar alguma expressiva imagem da Mater Dolorosa e meditar estas palavras do Profeta Jeremias, que a piedade católica aplica à Mãe de Deus: “Ó vós todos que passais pelo caminho, parai e vede se há dor semelhante à minha dor” (Lm 1, 12).

A esta meditação nos convida a Liturgia do dia 15 deste mês, dedicado a Nossa Senhora das Dores.

Quatro grandes privilégios “Não te esqueças dos gemidos de tua mãe” (Eclo 7, 29). É grato imaginar que este preceito do Espírito Santo tenha inspirado aos cristãos dos primeiros séculos uma veneração especial pelos sofrimentos da Mãe de Deus e nossa. A este respeito, Santa Isabel de Hungria (+1231) relata ter sido beneficiada por uma aparição na qual São João Evangelista lhe revelou que, justamente no dia da partida da Virgem Maria para o Céu, ele teve uma visão de como foi o encontro d’Ela com seu Divino Filho. Nesse primeiro encontro – narrou São João – o Redentor e sua Mãe conversaram sobre os sofrimentos que ambos suportaram no Calvário. No final, a Virgem Maria pediu a Jesus graças e privilégios especiais para todos aqueles que, na terra, se lembrassem e se compadecessem dos gemidos, das lágrimas e das dores que Ela padeceu, em união com Ele, para nossa Redenção.
E seu Divino Filho atendeu prontamente esse pedido, concedendo-Lhe quatro grandes favores:
Primeiro: quem invocar a Virgem Maria por suas dores e prantos terá a ventura de fazer verdadeira penitência de seus pecados antes de morrer.
Segundo: terá a proteção e o amparo de Nossa Senhora das Dores em todas as adversidades e trabalhos, especialmente na hora da morte.
Terceiro: quem, por memória das dores e prantos de Nossa Senhora, incluir em seu entendimento também as da Paixão, receberá no Céu um prêmio especial.
Quarto: e obterá dessa Soberana Senhora tudo quanto pedir para sua salvação e sua utilidade espiritual.

Como progrediu essa devoção Já no séc. IV alguns insignes doutores da Igreja – Santo Efrém, Santo Ambrósio e Santo Agostinho – teceram comoventes considerações sobre as dores de Maria. No fim do séc. XI, outro doutor da Igreja, Santo Anselmo, propagava a devoção a Nossa Senhora das Dores. Muitos monges beneditinos e cistercienses faziam coro com ele nessa propagação. No século seguinte, o grande São Bernardo de Claraval, também doutor da Igreja, levou mais longe a prática dessa devoção. A todos esses se juntaram os ardorosos frades servitas, já no séc. XIII. Em decorrência desse aumento de devoção, logo floresceram esplêndidos monumentos artísticos e literários em louvor à Mãe das Dores. Um deles – o hino Stabat Mater, composto por Iacopone de Todi por volta de 1300 – foi adotado na Liturgia e desperta nos ouvintes os melhores sentimentos de ternura e compaixão para com a Virgem sofredora: “Estava a Mãe dolorosa aos pés da Cruz, lacrimosa, da qual o Filho pendia…” No campo das imagens sagradas, destacam-se as da “Piedade”: a Mãe dolorosa e lacrimosa contemplando o corpo sacratíssimo do Filho que jaz inerte em seus braços virginais. E as da “Soledade”: o Filho já foi sepultado, a Mãe não tem mais nem sequer o cadáver para contemplar, em suas mãos resta apenas um sudário! Em 1423, para reparar os ultrajes dos hereges hussitas que, com sacrílego furor, desfiguravam as imagens de Nosso Senhor e da Virgem Santíssima, o Concílio Provincial de Colônia instituiu a comemoração litúrgica das Dores de Maria. Três séculos depois, em 1727, o Papa Bento XIII inscreveu- a no Calendário Romano, estendendo a celebração para a Igreja no mundo inteiro. Atualmente, a Liturgia cultua Nossa Senhora das Dores no dia 15 de setembro, data estabelecida pelo Papa São Pio X em 1913.

As Sete Dores de Maria As sete dores, as sete tristezas ou as sete espadas… O relato dos Santos Evangelhos forneceu à piedade popular os elementos para formar a coleção dos sete grandes padecimentos da Virgem Mãe.

“Uma espada transpassará tua alma” (Lc 2, 35), profetizou Simeão a Maria, no Templo. Esta foi sua primeira grande dor. Seguem-se depois as demais, na ordem cronológica do Evangelho: a fuga para o Egito, a perda do Menino Jesus no Templo, a ida para o Calvário, a Crucifixão de Nosso Senhor, a descida da Cruz, e o sepultamento. Durante certo tempo, a memória de Nossa Senhora das Dores se comemorava sob o título de celebração das Sete Dores de Maria, introduzida na Liturgia em 1668, por iniciativa da Ordem dos Frades dos Servos de Maria (Servitas). Essa Ordem goza do privilégio de um Prefácio próprio para a comemoração litúrgica de 15 de setembro, no qual se faz esta comovedora oração a Deus Pai, uma verdadeira obra-prima de piedade e teologia: “Vós, para restaurar o gênero humano, em sábio desígnio, associaste benignamente a Virgem a vosso Filho Unigênito; e Ela que, pela ação fecundante do Espírito, tinha-se tornado a Mãe d’Ele, por novo dom de vossa bondade tornou-se sua auxiliar na Redenção; e as dores que Ela não sofreu ao dar ao mundo seu Filho, sofreu, gravíssimas, para fazer-nos renascer em Vós.”

(Revista Arautos do Evangelho, Set/2005, n. 45, p. 18-19)

A Missa assistida pela TV tem valor Sacramental?

A Missa assistida pela TV não tem valor sacramental, apenas espiritual; o sacramento só é válido ao vivo, com a participação presente do fiel.

Missas em Rádio e Televisão
No Brasil, há muitos anos, temos missas transmitidas pela rádio e pela televisão. Em encontros nacionais, promovidos pela CNBB, têm-se dado orientações pastorais sobre o modo de realizá-las e sobre o significado delas na vida dos cristãos.
Muitos católicos por motivos diversos assistem a essas transmissões. No Concílio Vaticano II, encontramos uma declaração significativa: “As transmissões por rádio e televisão das funções sagradas, particularmente em se tratando da Santa Missa, façam-se com discrição e dignidade, sob a direção e responsabilidade de pessoa competente, escolhida para tal pelo ofício dos bispos”.
Esta recomendação encontra uma orientação prática na palavra da Comissão Pontifícia para as Comunicações Sociais na Instrução Pastoral Communio et Progressio, publicada em 27 de maio de 1971: “A Missa e outros ofícios litúrgicos devem ser incluídos no número das transmissões religiosas. É necessário, porém, que tais programas sejam devidamente preparados, do ponto de vista técnico e litúrgico. Tenha-se em conta a grande diversidade de público e, se os programas se destinam também a outros países, deve-se respeitar a sua religião e costumes”.
O Magistério da Igreja vê na transmissão de celebrações eucarísticas, como também de outras celebrações, um meio de informar as pessoas sobre a liturgia e sua celebração.
A Instrução da Sagrada Congregação dos Ritos e Concílio, Eucharisticum Mysterium, vai além e diz que as transmissões televisivas de Liturgias, especialmente da Missa, devem ajudar o telespectador a associar-se à Páscoa de Cristo e que a missa transmitida pela rádio e pela televisão deve ser um modelo da celebração do sagrado mistério, conforme as leis da reforma litúrgica.
No encontro com produtores de missas transmitidas pela televisão, em setembro de 1998, a CNBB expressou que as transmissões devem ajudar os telespectadores a se associarem à Páscoa de Cristo: “Seria de máxima conveniência que, em relação a estas questões, fosse recordado que na liturgia celebramos o Mistério Pascal. Que haja, por parte de todos, respeito e fidelidade naquilo que estabelece o Magistério da Igreja com relação à celebração da Santa Missa e do Culto Eucarístico para que se evitem desvios e abusos, sobretudo nas transmissões televisivas. Aqueles que assistem à Missa pela TV sejam estimulados a participar da celebração na assembleia litúrgica. Cada celebração tenha sempre um tom orante para que transpareça a dimensão de sacralidade do mistério celebrado. Seja dado o devido valor aos símbolos litúrgicos, cuide-se das expressões artísticas do espaço celebrativo, dos objetos, das vestes litúrgicas. O canto e a música estejam de acordo com a índole própria da celebração, do tempo litúrgico e dos momentos celebrativos”.
A assistência à missa pela rádio e pela televisão não justifica a ausência na celebração para quem tem condições de participar dela fisicamente.
As declarações do Magistério da Igreja não deixam dúvida que as celebrações litúrgicas transmitidas pelos meios de comunicação social, especialmente pela televisão, se assistidas com fé, têm valor salvífico para os que não podem participar da missa em sua comunidade, por exemplo, por doença ou velhice. Toda a nossa vida em conformidade com Jesus Cristo é um levar a efeito a obra da salvação, isso vale mais ainda para quem se une espiritual e realmente à Páscoa de Cristo, assistindo a uma missa transmitida por rádio ou pela televisão.
Podemos entrar em comunhão com o Senhor Ressuscitado não só pela comunhão eucarística, mas também de outras maneiras. Por isso, quem não tem possibilidade de participar fisicamente da assembleia eucarística, tem através do rádio e mais ainda da televisão uma ótima possibilidade de entrar em comunhão com o Senhor.
Assistir a uma celebração pelos meios de comunicação é uma maneira de responder ao Senhor que bate à nossa porta pedindo entrada. Aberta a porta, o Senhor entra para realizar o encontro através da Palavra proclamada para todos e realiza-se um encontro pessoal, particular e salvífico.
Certamente as equipes, que preparam e animam as celebrações transmitidas pelo rádio e pela televisão, devem ter muita consciência do significado e do alcance dessas celebrações para as pessoas impedidas de se reunirem com a comunidade, como: doentes, idosos, presos, viajantes, os que moram longe do local das celebrações comunitárias e para os fieis em geral e até mesmo para as equipes de celebração das comunidades. Nunca se devem transmitir missas gravadas. Os telespectadores e radiouvintes devem estar informados quando se transmite alguma celebração em forma de documentário.
Toda celebração deve se realizar com unção e ter um tom orante. As celebrações litúrgicas são celebrações da Igreja e fundadas na longa tradição litúrgica; por isso, não cabe nelas inventar coisas, nem cultivar subjetividades. Muito menos devem ser palco de ‘shows’ e esnobismos de grupos ou pessoas.
As missas transmitidas pelos meios de comunicação social se justificam também como espaço de iniciação dos fieis e de formação litúrgica do povo.
Sem dúvida “a Santa Missa transmitida na televisão ganha inevitavelmente um certo caráter de exemplaridade; daí o dever de prestar particular atenção a que a celebração, além de se realizar em lugares dignos e bem preparados, respeite as normas litúrgicas”.

Acompanhar a missa pela televisão vale como missa dominical?
Os especialistas respondem à pergunta de um leitor
https://pt.aleteia.org/2017/02/13/acompanhar-a-missa-pela-televisao-vale-como-missa-dominical/

Pergunta:
O caso é de um idoso que, apesar de ser autossuficiente e capaz de sair de casa, tem medo de arriscar sua saúde no inverno e, por isso, acompanha a santa missa dominical pela televisão. Ele cumpre o preceito dominical?

Resposta de Gilberto Aranci, professor de Teologia Pastoral:
A resposta precisa pelo menos de duas premissas gerais: uma litúrgica e outra moral.
Segundo a liturgia cristã, o culto prestado a Deus é principalmente comunitário (liturgia = culto do povo) e enriquece a participação pessoal. Sempre é assim a celebração da Eucaristia: toda a assembleia participa (não apenas assiste) da celebração eucarística presidida pelo sacerdote e, junto dele, exerce o sacerdócio comum unindo a oferenda de si à de Cristo, feita de uma vez para sempre.
Como consequência – eis aqui o aspecto moral – o preceito festivo da missa não pode ser cumprido sem a participação pessoal da Eucaristia dominical. Além disso, leva-se em consideração o outro princípio moral segundo o qual ninguém é obrigado a cumprir atos “impossíveis”.
Por isso, quem, por sérios ou graves motivos, está impedido ou impossibilitado não está sujeito ao preceito: por exemplo, quem está doente ou é idoso, ou quem está particularmente longe do lugar da celebração dominical, ou onde, por falta de padres, a missa não é celebrada etc.
Tendo estas premissas, torna-se clara a resposta à pergunta sobre o caso particular: não se cumpre o preceito nunca escutando ou assistindo à transmissão radiofônica ou televisiva da missa; mas se pode afirmar simplesmente que, neste determinado caso, a pessoa, por motivos de saúde ou idade, não está sujeita ao preceito.
Resta, no entanto, considerar a ajuda e o significado espiritual que a transmissão televisiva da missa pode dar às pessoas impossibilitadas de participar pessoalmente da celebração dominical. São esclarecedoras as palavras que, em vários momentos, os bispos italianos expressaram com relação a isso. Um dos trechos diz:
“A missa pela televisão é frequentemente vivida com participação e devoção por parte do doente, do idoso ou de quem se encontra na impossibilidade de assistir pessoalmente na Igreja. E, precisamente a estes últimos, ela pode oferecer um serviço espiritual bastante útil. Mais ainda: é sobretudo nesta categoria de pessoas que será preciso pensar na participação dessas missas, na homilia, nas intenções da oração universal.
Quem está impedido, por motivos sérios, não está sujeito ao preceito. Por outro lado, a participação da missa pelo rádio ou pela televisão nunca satisfaz o preceito. No entanto, é evidente que uma missa pela televisão ou no rádio, que de forma alguma substitui a participação direta e pessoal da assembleia eucarística, tem seus aspectos positivos: a palavra de Deus é proclamada e comentada “ao vivo” e pode incentivar a oração; o doente e o idoso podem se unir espiritualmente à comunidade que, nesse momento celebra o rito eucarístico; a oração universal pode ser compartilhada e participada.
Falta certamente a presença física, mas a impossibilidade de levar uma oferenda ao altar não exclui a de fazer da própria vida (doença, fraqueza, lembranças, esperanças, temores) uma oferenda para unir à de Cristo. E a impossibilidade de se aproximar do baquete eucarístico pode ser hoje superada, em muitos casos, pelo pontual serviço dos ministros extraordinários da comunhão” (Il giorno del Signore, 1984).
Mais ainda, a vinte anos de distância: “Pela natureza e pelas exigências do ato sacramental, não é possível equiparar a participação direta e real (da missa) com a midiática e virtual, por meio de instrumentos da comunicação social.
Ainda que represente uma forma bastante válida de ajuda na oração, sobretudo para quem está doente ou impossibilitado de estar presente, dado que oferece a possibilidade de se unir a uma celebração eucarística no momento em que esta é levada a cabo em um lugar sagrado, é preciso evitar qualquer equiparação” (Comunicaziones e Missione. Direttorio sulle comunicazione social nella missione dela Chiesa, 2004, n. 64).
(Artigo publicado originalmente por Toscana Oggi)

Sete dicas do Papa Francisco sobre doenças espirituais

Saúde da Alma

1 – Esquizofrenia existencial: vida dupla de quem abandona o serviço pastoral e preenche o vazio com diplomas e títulos acadêmicos.

2 – Alzheimer espiritual: presente em quem constrói ao seu redor muros e hábitos, tornando-se escravo de ídolos esculpidos com as próprias mãos, visto naqueles que dependem completamente do presente, dos caprichos, paixões e manias.

3 – Planejamento excessivo: tira a liberdade do Espírito Santo e, portanto, também dos outros.

4 – Endurecimento mental e espiritual: a consequência perigosa é que as pessoas se tornam “máquinas de práticas” e não “homens de Deus”.

5 – Ação excessiva: ação de quem se descuida de “sentar-se aos pés de Jesus”.

6 – Complexo dos eleitos: narcisismo que olha apaixonadamente a própria imagem e não vê a imagem de Deus nos mais fracos e necessitados.

7 – Fofoca e tagarelice: doença grave. Começa com duas fofocas e toma a pessoa, fazendo com que ela se torne “semeadora de joio” (como satanás). Mata, a sangue frio, a fama de colegas e irmãos de comunidade.

Diante desses males, só o Espírito Santo é o sustento para cada esforço de purificação e conversão; só Maria pode curar as feridas do pecado e, como Mãe, sustentar cada pessoa para que esta seja saudável, santa e santificadora, e possa levar a cura a quem precisa dela.

Por Rodrigo Luis dos Santos
Baseado na reflexão do Papa Francisco à Cúria Romana.
Discurso do dia 22 de dezembro de 2014.

São Bernardo de Claraval (1090-1153)

Bernardo de Claraval nasceu em Fontaine-lès-Dijon, Dijon, França, em 1090. Era filho de um vassalo do duque de Borgonha, ingressou em 1112 no mosteiro de Citeaux (Cister), onde se tornou monge. Encarregado pelo abade S. Harding de encontrar um lugar para fundar um novo mosteiro, indicou Clairvaux (Claraval), que em pouco tempo, sob sua direção, tornou-se o mais importante centro monástico cisterciense, com numerosas ramificações em toda a França. Defensor de uma rigorosa reforma da Igreja baseada na volta à pobreza evangélica, ao trabalho manual e à oração, Bernardo de Claraval participou também dos conflituosos fatos históricos de sua época, dividido até o fim de sua vida entre contemplação e ação, dialética que percorre ainda a múltipla variedade dos seus escritos. Durante o cisma (1130) entre o antipapa Anacleto II e o papa Inocêncio II, tomou a decidida defesa deste último, acompanhando-o em suas viagens à França, Alemanha e Itália, granjeando-lhe a confiança e a adesão do rei da França, Luís VI, do rei da Inglaterra, Henrique I, e de outros governantes europeus. Lutou contra Arnaldo de Brescia, recusando-se a compartilhar o modo como este denunciava os males da Igreja, especialmente a riqueza do clero. Quando um discípulo, Eugênio III, foi eleito papa, dirigiu a ele o tratado “De consideratione” (Da consideração), em cinco livros, sobre os métodos para governar a Igreja. Foi justamente Eugênio III quem confiou a Bernardo de Claraval a pregação da segunda cruzada, anunciada em 1146 e malograda dois anos depois. No plano doutrinal, Bernardo combateu Abelardo e Gilberto de la Porée, desenvolvendo com eles uma polêmica apaixonada, não desprovida de tons bruscos e violentos. Bernardo faleceu em Claraval, 1153, foi canonizado pelo papa Alexandre III (1174), foi proclamado doutor da Igreja pelo papa Pio VIII, em 1830. A teologia de Bernardo de Claraval, ligada à tradição e às fontes patrísticas, revela-se profundamente embebida de sentido bíblico. A Escritura é para ele a palavra de Deus vivo na Igreja, a história da revelação do amor de Deus em Cristo e, como tal, é mais objeto de oração do que de estudo. Derivam daí não apenas uma espécie de experiência religiosa da Bíblia, que o leva a uma compreensão vivida de tudo o que ela contém, mas sobretudo o pathos e a poesia presentes em seus numerosos comentários da Bíblia. Seu programa de vida espiritual pode ser caracterizado como um itinerário que leva do pecado à glória, do conhecimento de si ao retorno a Deus: um “retorno a Deus” que se realiza a partir da humildade, ou antes do reconhecimento da própria miséria e pobreza. Espírito contemplativo dos mais originais, Bernardo de Claraval é considerado o doutor do monaquismo cisterciense (Doutor Melífluo), do qual estabeleceu em fórmulas definitivas o ideal de vida que viria a progredir tanto nos séculos seguintes. Dentre suas obras, devem ser lembradas sobretudo os “Sermones” (Sermões) e os tratados “De diligendo Deo” (Do amor divino) e “De gradibus humilitatis et superbiae” (Graus da humildade e da soberba), além de um copioso epistolário com cerca de 500 cartas. A invocação da Salve Rainha, é fruto de sua profunda e apaixonada devoção a Nossa Senhora: “Ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria”.

 

PENSAMENTOS DE SÃO BERNARDO DE CLARAVAL

“Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria. Que ela não se afaste dos teus lábios, não se afaste de teu coração”.

“Tudo o que temos de benefícios de Deus, nós o recebemos pela intercessão de Maria. E por que é assim? Porque Deus assim o quer”.

“Quem somos nós, e qual a nossa força para resistirmos a tantas tentações? Certamente era isso que Deus queria: que nós, vendo a nossa insuficiência e a falta de auxílio, recorressemos com toda humildade à sua misericórdia”.

“Maria recebeu de Deus uma dupla plenitude de graça. A primeira foi o Verbo eterno feito homem em suas puríssimas entranhas. A segunda é a plenitude das graças que, por intermédio desta divina Mãe, recebemos de Deus”.

“O avarento está sempre faminto como um mendigo, nunca chega a ficar satisfeito com os bens que deseja. O pobre, como senhor de tudo, os despreza, pois não deseja nada”.

“A oração controla nossos afetos e dirige nossas ações para Deus”

“Não consideres tanto o que sofres, mas o que Jesus sofreu por ti”.

“O que é Deus? Ele é ao mesmo tempo comprimento, largura, altura e profundidade… Esse comprimento, o que é ele? A eternidade, pois ela é tão longa que não tem limites seja quanto ao lugar, seja quanto ao tempo. É Deus também largura? E essa largura, que é ela senão a caridade que se estende até o infinito? Deus é altura e profundidade; e por essa altura deveis entender seu poder; e por profundeza, sua sabedoria. Ó sabedoria cheia de poder que chega a todos os recantos com força. Ó poder cheio de sabedoria que tudo dispõe com doçura”

“Os clérigos que estudam por puro amor da ciência: é uma curiosidade ignominiosa; outros o fazem para alardear um renome de sábios: é uma vaidade vergonhosa… outros ainda estudam e vendem seu saber em troca de dinheiro e honras: é um tráfico vergonhoso. Mas há também os que estudam para edificar seu próximo: é uma obra de caridade; outros, finalmente, para edificar a simesmos: é uma atitude de prudência…”

“Se a pobreza não fosse um grande bem, Jesus Cristo não teria escolhido para si, nem a teria deixado em herança para os seus preferidos”.

“Fica sabendo, ó cristão, que mais se merece em participar devotamente de uma só Missa do que com distribuir todas as riquezas aos pobres e peregrinar toda a terra”

“Amo porque amo, amo para amar. Grande coisa é o amor, contanto que vá a seu princípio, volte à sua origem, mergulhe em sua fonte, sempre beba donde corre sem cessar”.

“Deus é sabedoria e quer ser amado não só suave mas também sapientemente… Aliás com muita facilidade o espírito do erro zombará do teu zelo, se desprezares a ciência; nem o astuto inimigo tem instrumento mais eficaz para arrancar do coração o amor, do que conseguir que no mesmo amor se ande incautamente, e não com a razão”

“O servo de Maria não pode perecer”.

“Maria é a onipotência suplicante”.

“Quem não medita não julga com severidade a si mesmo, porque não se conhece”

“Há o espírito de sabedoria e de inteligência que, à maneira da abelha que produz cera e mel, tem com que acender a luz da ciência e infundir o sabor da graça. Não espere, portanto, receber o beijo, nem o que compreende a verdade, mas não a ama; nem o que a ama, mas não a compreende”

“Quando Deus ama não quer outra coisa senão ser amado, já que ama para ser amado; porque bem sabe que serão felizes pelo amor aqueles que O amarem”.

“Ó Virgem cheia de bondade, o pobre Adão, expulso do paraíso com a sua mísera descendência, implora a tua resposta; Abraão a implora, Davi a implora. Os outros patriarcas, teus antepassados, que também habitam a região da sombra da morte, suplicam esta resposta. O mundo inteiro a espera, prostrado a teus pés”.

“A Eucaristia é o amor que supera todos os outros amores no céu e na terra”

“Deus depositou em Maria a plenitude de todo bem”.

“Onde há amor, não há canseira, mas gosto”.

“São fortes as potências do inferno, entretanto, a oração é mais forte do que todos os demônios”. “Possuireis todas as coisas sobre as quais se estender a vossa confiança. Se esperais muito de Deus, Ele fará muito por vós. Se esperais pouco, Ele fará pouco”.

“O amor do Esposo, ou melhor, o Esposo-Amor, somente procura a resposta do amor e a fidelidade. Seja permitido à amada corresponder ao amor! Por que a esposa e esposa do Amor não deveria amar? Por que não seria amado o Amor?”

“A causa para amar a Deus é o próprio Deus; a medida, é amá-lo sem medida”.

“Oh! amor santo e casto! Oh! doce e suave afeto!… Tanto mais doce e suave, porque é todo divino o sentimento que se prova. Experimentá-lo é divinizar-se”.

“É melhor para mim, Senhor, abraçar-te na tribulação e estar contigo na fornalha, do que estar sem ti até mesmo no Céu”.

“Que faria a ciência sem o amor? Envaideceria. Que faria o amor sem a ciência? Erraria”.

“Por vós, Maria, temos acesso ao Filho, por vós que achaste a graça, Mãe da Salvação, para que por vós nos receba Aquele que por vós nos foi dado”.

“Da cruz e das chagas do nosso Redentor sai um grito para nos fazer entender o amor que Ele nos tem”.

“Busquemos a graça, mas busquemos por intermédio de Maria! Por ela acha-se o que se busca e não se pode ser desatendido”.

“Todo o nosso mérito consiste em confiarmos plenamente em Deus”.

“Nossa esperança não pode ser incerta, pois que ela se apóia nas promessas divinas”.

“Com a oração a alma consegue o auxílio divino, diante do qual desaparece todo o poder das criaturas”.

“Existe indubitavelmente uma espantosa analogia entre o azeite e o nome do Amado, pelo que a comparação apresentada pelo Espirito Santo não é arbitrária. A não ser que possais sugerir algo de melhor, afirmarei que o nome de Jesus possui semelhança com o azeite na tripla utilidade deste último, nomeadamente, para iluminar, na alimentação e como lenitivo. Mantém a chama, alimenta o corpo, alivia a dor. É luz, alimento e medicina. Observai como as mesmas propriedades podem ser encontradas no nome do noivo divino. Quando pronunciado fornece luz; quando meditado, alimenta; quando invocado, serena e abranda”.

“Deus quis que não recebêssemos nada que não passe pelas mãos de Maria”

“A vista ofuscada pela raiva não enxerga direito”.

“Quando estou dividido em mim mesmo é porque não estou unido com Deus”.

“Quando se vê uma pessoa perturbada, a causa da perturbação não é outra coisa senão a incapacidade de satisfazer a própria vontade”.

“Não é a pobreza que é considerada virtude, mas o amor à pobreza”.

“Ninguém tenha em pouca conta a oração, porquanto Deus não a tem em pouca conta; pois Ele ou dá o que pedimos, ou dá o que deve ser-nos mais útil”.

“Tal é a vontade de Deus, que quis que tenhamos tudo por Maria”.

“Toda alma que ama a Deus, torna-se sua esposa”.

“A humilhação nos leva à humildade, assim como a paciência à paz e o estudo à ciência. Quereis experimentar se vossa humildade é verdadeira, até onde vai, se adianta ou recua? As humilhações vos fornecerão o meio”.

“Quando a caridade vem e é perfeita, realiza a união espiritual, e serão dois (Deus e alma) não em uma só carne mas em um só espírito, tal como diz o apóstolo: ‘Quem se achega a Deus torna-se um só espírito com Ele’ (I Cor 6,17). Se ama perfeitamente, a alma está desposada com Deus. Amor mútuo, íntimo, válido, que não vive em uma só carne, mas que une em um só espírito, e de dois faz um só”.

“Poderíamos definir a humildade assim: ‘É uma virtude que estimula o homem a menosprezar-se ante a clara verdade de seu próprio conhecimento'”.

“Tu encontrarás mais coisas nas florestas do que nos livros; as árvores e as pedras te ensinarão mais do que qualquer mestre te poderá dizer”.

“Amemos e seremos amados. Naqueles que amamos encontraremos repouso, e o mesmo repouso ofereceremos a todos os que amamos. Amar em Deus é ter caridade; procurar ser amado por Deus é servir à caridade”.

“Só nos casos de confiança o Senhor deita o azeite de sua misericórdia”.

“Quereis um advogado junto a Jesus? Recorrei a Maria, pois nela não há senão pura compaixão pelos males alheios. Pura não só porque ela é imaculada, mas porque nela só existe compaixão pura e simples. Digo-o sem hesitar: Maria será ouvida devido à consideração que lhe é devida. O Filho ouvirá a Mãe, e o Pai, seu Filho. Eis, pois, a escada dos pecadores, minha absoluta confiança; eis todo o fundamento de minha esperança”.

“‘Senhor, que queres que eu faça?’ (pergunta Paulo). É esta certamente a forma de uma perfeita conversão. Quão poucos se ajustam a esta forma de perfeita obediência que, de tal modo tenham abdicado à vontade-própria que nem sequer mais tenham seu próprio coração e a toda hora se perguntem, não o que eles querem, mas o que o Senhor quer”.

“Que união feliz! Que união feliz, se já a experimentaste! Bem a conhecia, por experiência, o Salmista ao exclamar: ‘ Minha felicidade, ó Deus, é estar junto de Ti’ (Sl 72,28). Sim, é muito bom se te unes a Deus com todo o teu ser. E quem então adere tão perfeitamente a Deus? Aquele que, habitando em Deus, sendo amado por Deus, atrai Deus a si com um amor recíproco”.

“O amor não busca outro motivo e nenhum fruto fora de si; ele é seu próprio fruto, seu próprio deleite”.

“Ser deificado é tornar-se caridade porque Deus é caridade; por isso todos os esforços da alma devem ter como alvo a caridade. A caridade dá a visão de Deus e a semelhança a Deus”.

“Recorre a Maria! Sem a menor dúvida eu digo, certamente o Filho atenderá sua Mãe”.

“Para chegarmos à perfeição temos necessidade da meditação e da petição; pela meditação vemos o que nos falta; pela súplica recebemos o que nos é necessário”.

“Quem recorreu à Vossa proteção e foi por Vós desamparado, ó Maria?”

“Desapareça a vontade própria e não haverá inferno”.

“Se os homens fizessem guerra à vontade própria, ninguém se condenaria”.

“Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria. Que ela não se afaste dos teus lábios, não se afaste de teu coração”.

“Não há música mais suave, palavra mais jubilosa, pensamento mais doce que Jesus, Filho de Deus!”.

“Não se poderiam encontrar palavras mais suaves para exprimir as doces e recíprocas relações que se dão entre Deus e a alma runida a seu corpo ressuscitado, que as de esposo e esposa. Como estes possuem tudo em comum, nada de particular, nada de dividido, ambos têm uma herança, uma casa, uma mesa, um quarto conjugal, um mesmo corpo”.

 

1-”Deus quis que nada recebêssemos que não passe pelas mãos de Maria”.

2-”Tal é a vontade daquele que quis que nós tudo tivéssemos por meio de Maria”.

3- Só Jesus é “mel para os lábios, cântico para os ouvidos, júbilo para o coração”.

4-”Todo o alimento da alma é árido se não for aspergido com este óleo; insípido, se não for temperado com este sal. Aquilo que escreves para mim não tem sabor, se nisso eu não ler Jesus”.

5-”Ó santa Mãe  deveras uma espada trespassou a tua alma!… A violência da dor trespassou de tal modo a tua alma, que justamente podemos chamar-te mais do que mártir, porque em ti a participação na paixão do Filho superou muito em intensidade os sofrimentos físicos do martírio”.

6-”Nos perigos, nas angústias, nas incertezas pensa em Maria, invoca Maria. Que ela nunca abandone os teus lábios, nem o teu coração; e para obteres a ajuda da sua oração, nunca esqueças o exemplo da sua vida”.

7-”Que faria a ciência sem o amor? Envaideceria. Que faria o amor sem a ciência? Erraria”.

8- “A causa para amar a Deus é o próprio Deus; a medida, amá-lo sem medida”.

9- “Também aos nossos irmãos, no meio dos quais vivemos, somos devedores, por direito de fraternidade e convívio humano, de conselho e de auxílio”.

10-“Louvarei ao Senhor em todos os tempos, isto é, de manhã até à noite, como aprendi a fazer, e não como os que te louvam quando tu lhes fazes o bem, nem como os que crêem durante um certo tempo, mas no momento da tentação cedem; e como os santos, direi:  Se recebemos o bem da mão de Deus, porque não devemos aceitar também o mal?… Assim estes dois momentos do dia serão um tempo de serviço a Deus, porque à noite permanecerá o pranto, e de manhã o eco da alegria. Mergulharei no sofrimento à noite a fim de poder gozar, depois, a alegria da manhã”.

11-”Eis onde te podem arrastar estas malditas ocupações, se continuas a perder-te nelas… nada deixando de ti a ti mesmo”.

12-”No oscilar das vicissitudes deste mundo, mais do que caminhar no chão tens a impressão de ser sacudido entre as vagas e as tempestades; não afastes o olhar do esplendor desta estrela, se não quiseres ser tragado pelas ondas… Olha para a estrela, invoca Maria… Se a segues não erras o caminho… Se ela te protege não sentes receio, se ela te guia não te cansas, se ela te for propícia alcanças a meta”.

13 – “Amemos e seremos amados. Naqueles que amamos encontraremos repouso, e o mesmo repouso oferecemos a todos os que amamos.”

14 – “Amar em Deus é ter caridade; procurar ser amado por Deus é servir à caridade”.

 

Oração: Da Confiança em Maria

Lembrai-vos, ó puríssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer que alguém que recorreu à vossa proteção, implorou vossa assistência ou reclamou vosso socorro tenha sido por vós desamparado.

Animado com a mesma confiança, a vós, ó Virgem, entre todas singular, recorro como à mãe e de vós me valho e sob o peso dos meus pecados me prosto a vossos pés.

Não desprezeis as minhas súplicas, ó Mãe do Filho de Deus Humanado, mas dignai-vos de as ouvir propícia e de me alcançar o que vos rogo. Amém.

São Bernardo

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