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III Domingo do Advento – Ano A

Por Mons. Inácio José Schuster

Evangelho segundo São Mateus 11, 2-11
Ora João, que estava no cárcere, tendo ouvido falar das obras de Cristo, enviou-lhe os seus discípulos com esta pergunta: «És Tu aquele que há-de vir, ou devemos esperar outro?» Jesus respondeu-lhes: «Ide contar a João o que vedes e ouvis: Os cegos vêem e os coxos andam, os leprosos ficam limpos e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa-Nova é anunciada aos pobres. E bem aventurado aquele que não encontra em mim ocasião de escândalo.» Depois de eles terem partido, Jesus começou a falar às multidões a respeito de João: «Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento? Então que fostes ver? Um homem vestido de roupas luxuosas? Mas aqueles que usam roupas luxuosas encontram-se nos palácios dos reis. Que fostes, então, ver? Um profeta? Sim, Eu vo-lo digo, e mais que um profeta. É aquele de quem está escrito: Eis que envio o meu mensageiro diante de ti, para te preparar o caminho. Em verdade vos digo: Entre os nascidos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Batista; e, no entanto, o mais pequeno no Reino do Céu é maior do que ele.

Neste terceiro domingo do Advento, João, da prisão e envolto em dúvidas, envia mensageiros a Jesus. És tu aquele que deveria vir ou devemos esperar outro? Neste mesmo evangelho, no capítulo terceiro, ele, em sua pregação, havia aludido a um mais forte que ele que viria depois. És tu aquele que deve vir ou devemos esperar outro? Dada a tendência do evangelista Mateus em cristianizar fortemente João Batista, é de se supor que esta dúvida fosse real e mortificasse os últimos dias da vida de João. Jesus não responde diretamente aos mensageiros. Nem mesmo, como o diz Lucas, realiza curas naquele exato momento. Manda que os discípulos façam a releitura do que ele já havia operado. E os leitores deste evangelho conhecem as obras de Jesus antecedentes a este capítulo que nos envolve hoje, o capítulo décimo primeiro. São o sermão da montanha e, sobretudo, os milagres narrados nos capítulos oitavo e nono. Ide dizer a João o que vistes e ouvistes e, no final, bem aventurado aquele que não se escandalizar de mim. Este texto hoje é lido no terceiro domingo do Advento e traz uma lição importante para nós. Há muitos cristãos que jamais se interessaram em saber quem é Jesus. Há muitos cristãos que jamais gastaram o seu tempo para ler uma página sequer de um sadio catecismo da Igreja Católica. Ide dizer a esta gente o que vistes e ouvistes. Ou então, modificando um pouquinho os termos, dizei a esta gente superficial,  e vítima eles próprios de sua própria superficialidade, que se informem um pouco melhor a respeito de Jesus; que leiam alguma coisa de profundo, de sério e de consistente a respeito de Jesus. Então, não mais na ignorância e não mais na superficialidade, poderão eles também, ou melhor, poderemos nós também, formar a nossa opinião a respeito de Jesus. Quando os discípulos vão-se, Jesus faz um elogio rasgado do Batista: Dentre os nascidos de mulher, não houve maior que João. No entanto, o menor no Reino dos céus é-lhe superior. Não se trata, evidentemente, de uma graduação moral. Mas, tudo somado, João ainda se situava no limiar do Antigo Testamento. E nós recebemos muito mais que o precursor. A nossa responsabilidade é, portanto bem maior.

 

«Entre os nascidos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista; e, no entanto, o mais pequeno no Reino do Céu é maior do que ele.»
Homilia atribuída a Santo Hipólito de Roma (?-c. 235), presbítero e mártir
Sermão sobre a santa Teofania; PG 10, 852 (a partir da trad. Année en fêtes, Migne 2000, p.136 rev.)

Veneremos a compaixão de um Deus que veio salvar e não julgar o mundo. João, o percursor do Mestre, que até então desconhecia este mistério, logo que percebeu que Jesus era verdadeiramente o Senhor, clamou àqueles que tinham vindo pedir o batismo: «Raça de víboras» (Mt 3, 6), porque me olhais com tanta insistência? Eu não sou o Cristo. Sou um servo e não o Mestre. Sou um simples súbdito, não sou o rei. Sou uma ovelha, não o pastor. Sou um homem, não um Deus. Curei a esterilidade da minha mãe vindo ao mundo, mas não tornei fecunda a sua virgindade; fui tirado de baixo, não desci das alturas. Emudeci a língua do meu pai (Lc 1, 20), não manifestei a graça divina. […] Sou miserável e pequeno, mas depois de mim virá Aquele que é antes de mim (Jo 1, 30). Ele vem depois, no tempo; mas anteriormente estava na luz inacessível e inefável da divindade. «Aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu e não sou digno de Lhe descalçar as sandálias. Ele há-de baptizar-vos no Espírito Santo e no fogo» (Mt 3, 11). Eu estou subordinado; Ele é livre. Eu estou sujeito ao pecado, Ele destrói o pecado. Eu ensino a Lei, Ele traz-nos a luz da graça. Eu prego como escravo, Ele legisla como mestre. Eu tenho por leito o chão, Ele os Céus. Eu dou-vos o baptismo do arrependimento, Ele dá a graça da adopção. «Ele há-de baptizar-vos no Espírito Santo e no fogo». Porque me venerais? Eu não sou o Cristo.

 

Alegrai-vos no Senhor!
Padre Donizete Heleno, Comunidade Canção Nova

Alegremo-nos todos no Senhor, pois Ele está próximo! O Advento nos pede uma preparação digna, plena de motivações, para esse acontecimento tão significativo. A Palavra de Deus exorta-nos neste domingo a expressar nossa alegria, pois o Senhor está para chegar! “Alegra-te, cheia de graça, porque o Senhor está contigo” (Lc 1, 28), diz o Anjo a Maria. A causa da alegria na Virgem é a proximidade de Deus. João Batista, ainda no ventre de Isabel, saltará de alegria, ante a proximidade do Messias. A alegria é ter Jesus no coração, a tristeza é perdê-lo. Esta é a marca deste terceiro domingo do Advento. Na liturgia deste domingo ainda contemplamos a figura de João Batista. No início do evangelho diz-se que este está preso. Podemos nos recordar qual o motivo desta prisão. “O rei Herodes, por ele repreendido por viver com a mulher de se irmão, lanço João na prisão” (Lc 3,18). O amor pela verdade levou João ao cárcere. A atitude de João nos inquieta. Como alguém que desde o ventre de sua mãe encontra-se com o Messias; que proclama em alta voz “preparai o caminho do Senhor”; que batiza o próprio Jesus; que ouve a voz do Pai confirmando “este é meu Filho amado, escutai-O”, pode duvidar que Jesus seja mesmo aquele que devia vir? A resposta é que João é um homem que tem expectativas messiânicas próprias do seu povo. Basta ver em seus discursos a ênfase que dá à necessidade da conversão, a radicalidade com que fala que “a pá já está pronta, a árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo”, que “a palha seca queimará no fogo que não tem fim”. O messianismo que João conhece não corresponde ao de Jesus. Este apresenta o reino do amor, do perdão aos inimigos, do lugar dos pobres em espírito, dos que promovem a paz. E que alegria poder contemplar esta verdade neste domingo. Alegria de poder confiar no Deus da misericórdia que quer salvar a todos. A resposta que Jesus dá aos discípulos de João está na profecia de Isaías 61. Com certeza João reconhecerá nela os sinais que antecederiam a chegada do Messias. No elenco dos sinais vemos em último lugar “os pobres são evangelizados”. Com toda certeza o maior sinal do reino é um coração que acolhe Deus, um coração vazio das coisas deste mundo, mas, todo aberto à chegada do Messias. E este sinal ainda continua acontecendo na Igreja de Cristo. De modo particular no mistério da Eucaristia que hoje celebramos Cristo nos visita e nos alegra com sua presença. A nossa atitude hoje deve estar apoiada na primeira leitura desta liturgia. Com Isaías somos chamados a anunciar a todos que “fortaleçam suas mãos enfraquecidas, firmem seus joelhos debilitados, criem ânimo, não tenham medo, pois é Deus que vem para nos salvar”. Voltemos para nossas casas entoando louvores, pois o Salvador veio nos visitar. E esta alegria deve estar estampada em nossos rostos para contagiar a todos os que estão à nossa volta.

 

Não temais, eis o vosso Deus Depois de 700 anos a profecia se cumpre na pessoa de Jesus, ela se torna fato. “Jesus respondeu: Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, os pobres são evangelizados. Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim”. Você que está sofrendo eu te digo: espera mais um pouco. Talvez o seu coração esteja ansioso para que a profecia se cumpra hoje, ou você pode voltar com ela cumprida hoje, quem sabe. Mas nesta tarde, eu quero dizer aquilo que Isaias disse a seu povo: “dizei aos que estão deprimidos: criai animo, não temais. Vede, é o nosso Deus” Não se deprima, não entre em pânico, espere o cumprimento da profecia. Nós precisamos cultivar a virtude da esperança. Quantos aqui no meio de nós gostaria de que as coisas fossem resolvidas hoje, mas a palavra esta dizendo: “não tenhais medo!”. A salvação está mais próxima de você hoje do que ontem, por isso não se deprima, não entre em pânico.

 

Este domingo é conhecido pelo nome de “Gaudete”, palavra latina que inicia a antífona de entrada deste dia: Alegrai-vos. Muitas vezes, estas antífonas dão o mote à celebração comunitária: hoje, é um convite à alegria que nos aparece também na primeira leitura. Hoje, inicia-se a segunda fase deste percurso pedagógico do Advento: o mistério da encarnação aparece mais explícito. Isaías e o evangelho, através do simbolismo usado, ajudam-nos a descobrir o Messias desejado. Para esta descoberta, é-nos pedida a paciência na segunda leitura. No domingo passado, refletimos no estilo de vida, na linguagem e no tema central da pregação de João Baptista. A sua pregação parecia ser ameaçadora, porque dizia para os fariseus e saduceus que não se podia escapar à justiça que estava iminente: “O machado já está posto à raiz das árvores”. A sua pregação tinha como finalidade preparar a humanidade para a justiça de Deus que seria posta em prática por Jesus Cristo. João Baptista foi preso por causa das suas convicções. Enviou a Jesus os seus discípulos com a pergunta: “És Tu Aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?”. Jesus responde, convidando a observar o que está a acontecer: aqueles que são desprezados pela sociedade são atendidos, ou seja, recuperam a vista, a saúde, a audição, ressuscitam e recuperam a sua dignidade. Esta é a Justiça do Reino. É esta a justiça que os cristãos terão de praticar. Porém, não podemos esquecer que os milagres são sinais de uma realidade espiritual. É preciso, então, contemplar a ação libertadora do Messias numa dupla dimensão: a espiritual e a material. Esta é a nova forma de expressão da presença de Deus no meio dos homens e das mulheres. A missão de João foi preparar a vinda da justiça de Deus. Jesus afirma que João Baptista é o maior dos profetas, mas viver segundo os critérios do Reino é muito mais importante: “Mas o menor do Reino dos Céus é maior do que ele”. Esta é a missão para todos os que desejam viver no Reino: viver a justiça da misericórdia. Para esta missão, é muito importante a paciência. Como é necessário falar dela, quando à nossa volta há tanta falta desta virtude. Na segunda leitura, São Tiago, para nos falar da paciência, apresenta-nos o exemplo do lavrador que “espera pacientemente o precioso fruto da terra, aguardando a chuva temporã e tardia” e ano após ano conforma-se com a colheita, dependendo sempre do clima estável ou instável. A vida espiritual é muito parecida com esta imagem, especialmente no ambiente de comunidade paroquial. A falta de paciência e o desinteresse pelo o outro dificultam viver a esperança. Passa-se de um desejo para a ansiedade (querer o imediato das coisas). A paciência pelo encontro com Deus deve ser serena, tranquila, mesmo com momentos de sofrimento e de insegurança, mas nunca pode ser uma paciência passiva, porque supõe luta, trabalho, firmeza, sem perder a serenidade. As primeiras palavras da leitura de Isaías introduzem os aspectos importantes que o profeta quer salientar: “Alegrem-se o deserto e o descampado, rejubile e floresça a terra árida”. Estas palavras convidam-nos a encarar a realidade de outra maneira. O deserto, o lugar onde reina o mal, pode florescer. O combate contra o mal faz surgir uma nova realidade, aquela com a qual Jesus se identificava quando os discípulos de João lhe perguntavam pela sua identidade. Então, será com esta realidade que todos nos devemos identificar. Teriam que ser os nossos sinais de identidade, concretizados por Deus. A travessia do deserto é um trabalho pessoal, mas também é comunitário, ou seja, de toda a comunidade que caminha. E é muito importante ter a capacidade de, enquanto caminhamos, olhar o bem que surge e que floresce. Nem tudo é um jardim, mas pouco a pouco tudo se pode ir transformando. A alegria surge graças à fé. Não é algo banal, é um desejo de esperar o Amor, porque é com amor que Deus salva. Temos de aprender a maneira de amar de Deus e só assim viveremos com alegria. Há que fazer um exercício pessoal… que rosto temos? Não se trata de olhar os outros, mas de nos olharmos interiormente e ver se a alegria do amor de Deus habita em nós. A alegria existe, quando nos sentimos amados por Deus: “Aí está o vosso Deus”, vem para fazer justiça e dar a recompensa. Ele próprio vem salvar-nos”.

 

“Alegrai-vos sempre no Senhor… O Senhor está perto”
Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração

III Domingo do Advento – A
Leituras: Is 35, 1- 6a.10; Tg 5, 7 – 10; Mt 11, 2-11
“Gaudete” (Alegrai-vos) é o nome que a antiga liturgia romana dá ao terceiro domingo do Advento, derivando-o da primeira palavra da Antífona da Entrada. Este domingo nos introduz numa nova etapa do caminho do Advento e numa nova dimensão da espiritualidade deste tempo litúrgico e da vida cristã: a alegria e a paz. Ambas, quando autênticas, são dons messiânicos específicos que acompanham a salvação de Deus e que brotam do Espírito do Senhor e da conformação de si mesmos a Ele, graças a uma relação de intimidade progressiva com ele mesmo. Gostaria de tomar esta antífona da entrada como ponto de referência para iluminar a mensagem da liturgia da Palavra deste domingo no seu conjunto. A cor rosa dos paramentos litúrgicos, vestidos pelos ministros segundo uma antiga tradição, contribuem para destacar o caráter festivo da celebração. “Gaudete – Alegrai-vos sempre no Senhor… O Senhor está perto!”, canta a santa mãe Igreja com as palavras apaixonadas do apóstolo Paulo aos filipenses (Fl 4,4-5). São palavras dirigidas a uma comunidade cujos membros experimentam a incapacidade de se relacionar uns com os outros e com os acontecimentos da vida através do autêntico espírito dos discípulos de Jesus. São palavras repetidas hoje com ousadia e confiança para nós, que conhecemos as mesmas dificuldades e estamos sob o pesadelo dos muitos desafios que provêm da vida complicada de todos os dias. Para sair desta estrada sem rumo, Paulo indica aos filipenses o exemplo desafiador do próprio Cristo: estando na forma de Deus, Ele despojou a si mesmo tomando a condição de escravo, abaixou-se, tornando-se obediente até a morte sobre uma cruz, e por isso Deus o exaltou e o fez fonte e critério de vida nova para aqueles que o seguem (cf Fl 2,6-11). A proximidade do Senhor indicada por Paulo como razão de alegria e esperança é, antes de tudo, a abertura à sua amizade, a disponibilidade a partilhar seu estilo de vida e sua sorte. É abertura ao futuro e à vida segundo o projeto de Deus para nós. É espera ativa da sua vinda gloriosa, a qual faz assumir na vida cotidiana os sentimentos de confiança em Deus e de entrega ao seu amor e ao dos irmãos, sentimentos estes que caracterizaram Jesus até o dom de si mesmo. Quando a pessoa e a comunidade se abrem ao Senhor, completamente e com total confiança, e permitem que ele se torne o único guia da existência, tudo se transfigura: encontra-se a verdadeira paz e alegria. Numa certa maneira se antecipa a sua vinda gloriosa. Eis a surpresa e o paradoxo da experiência cristã! Eis o paradoxo do novo povo de Deus chamado e capacitado pelo Espírito a viver segundo o estatuto da nova aliança proclamado nas bem-aventuranças, vivenciado pelo próprio Jesus e entregue aos discípulos como fermento de nova humanidade (cf Mt 5, 1-12). Paz e alegria são dom de Deus e tarefa a ser cumprida pelos discípulos e discípulas de todo tempo. A alegria do discípulo não é algo de superficial e emocional, algo de individual e “intimístico”. Algo que nasce da autorrealização ou da ausência de dificuldades. Pelo contrário, é força do Espírito que alimenta a esperança e se traduz em testemunho e empenho em prol da comunidade. Faz o cristão enxugar as lágrimas do irmão que chora e transforma seu coração e seus braços nos do bom samaritano atento aos feridos e abandonados às margens das estradas da vida (cf Lc 10, 29-37). Entram em jogo as melhores energias da pessoa: “Ocupai-vos – acrescenta o apóstolo – com tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso, tudo o que é virtude ou de qualquer modo mereça louvor” (Fl 4,7). A espera é dimensão que atravessa toda nossa existência pessoal, familiar, social, cultural. política. Mas surge uma pergunta radical: O que cada um de nós deve esperar de verdade como horizonte do seu caminho, para fundamentar sua luta de cada dia, suas expectativas, para não desanimar e perseverar frente aos atrasos e mesmo diante dos insucessos? A relação de intimidade na fé com o próprio Jesus é a fonte daquela alegria e paz de origem divina, que “ultrapassa todo entendimento humano” (Fl 4,7), e acompanha surpreendentemente os discípulos no caminho pessoal e ao longo da história. “Não fiqueis perturbados. Crede em Deus e crede em mim” (Jo 14,1). “Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz;  não vo-la dou como a dá o mundo. Não vos perturbeis nem vos acovardeis” (Jo 14,26). Partindo deste horizonte divino se assiste ao paradoxo evangélico da alegria de sofrer por e com Jesus. Desde os primeiros discípulos diante do tribunal de Jerusalém (At 5,41-42), até os intrépidos cristãos e cristãs, que ainda hoje em dia enfrentam com coragem e perseverança a perseguição e a morte por amor de Jesus. A sociedade secularizada, sem perspectivas espirituais e transcendentais, tenta responder ao inextinguível desejo de felicidade do coração humano oferecendo paraísos artificiais de breve duração: é o bem estar baseado na procura e no consumo incessante de bens materiais; é o poder e o dinheiro; é a corrida pelo sucesso social; é o culto pela própria imagem; são as drogas, etc. Mesmo um certo ativismo pastoral pode tornar-se busca inconsciente de um arremedo da alegria evangélica. Ninguém está imune contra os possíveis desvios do ânimo humano. O Advento nos indica o caminho certo para construir sobre a rocha a casa da felicidade e, ao mesmo tempo, a encontrar uma resposta para os desafios das armadilhas e dos sofrimentos que acompanham nossa peregrinação na fé. O Advento constitui uma verdadeira proposta alternativa de cultura e de civilização, fundada sobre a energia transformadora do Espírito que abre e dilata os corações à procura e à promoção do que é autenticamente humano, na medida em que se deixa construir sobre a relação profunda com Senhor. A carta de Tiago destaca como o dinamismo da espera e da esperança faz os cristãos ficarem firmes e criativos diante das vicissitudes da existência. Exemplos inspiradores desta atitude são o agricultor e os profetas. O agricultor tem a coragem de entregar a semente à terra e esperar com ânimo forte, com alegria antecipada, o tempo da colheita; embora exposta aos imprevistos das estacões. Os profetas do antigo testamento, por sua vez, experimentaram a profunda tensão determinada pela espera do cumprimento das promessas de Deus. Eles conseguiram somente vislumbrar de longe o que anunciavam e confiaram na fidelidade de Deus. Os cristãos são os sucessores dos profetas nesta vocação de reconhecer e testemunhar a novidade de Deus e a esperança, ainda escondidas nas frágeis contradições do presente. A dimensão profética inscrita no batismo felizmente voltou a ser colocada em destaque pelo Concílio Vaticano II, como parte integrante da identidade e da vocação de todo cristão e cristã. Recuperar esta consciência e esta atitude profética por parte dos cristãos hoje em dia se faz particularmente urgente, devido ao vazio espiritual e à falta de perspectivas capazes de darem sentido à existência e que afligem tantos homens e mulheres. Tarefa exaltante e desafiadora ao mesmo tempo. “O fato de sermos cristãos exige que tenhamos fé e esperança, mas a paciência é necessária para que elas possam dar seus frutos” (São Cipriano). “És tu, aquele que há de vir, ou devemos esperar um outro?”(Mt 11,3). João Batista é o exemplo de como deixar-se renovar na espera e na confiança em Deus. Ele é aquele que fez ressoar no deserto sua voz potente, convidando o povo à conversão para acolher o Messias de Deus. Ele é aquele que por fidelidade à sua missão desafia o potente Herodes arriscando a vida. Diante do “estilo inusitado” com que Jesus atua e prega a Boa Nova do Reino de Deus, fazendo-se próximo sobretudo aos pecadores e marginalizados de todo tipo e proclamando a misericórdia de Deus, João fica perplexo, pois Jesus parece caminhar num estilo messiânico bem diferente daquele que ele havia destacado (Mt 3,10-12). “És tu, aquele que há de vir, ou devemos esperar um outro?”. Jesus responde simplesmente mostrando que a potência transformadora do Reino está já operando, segundo a promessa de Deus (Is 35,5-10). É preciso somente se adequar ao estilo de Deus em Jesus: “Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim” (Mt 11,6). João vive dedicado totalmente à própria missão ao serviço de Jesus, apontando-o a seus discípulos como o Cordeiro de Deus destinado a tirar o pecado do mundo (Jo 21,29) e afirmando com lealdade de amigo: “É preciso que ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30). Por isso Jesus o exalta como “mais do que profeta” e como o maior entre os homens (Mt 11,9-11). Mas surpreendentemente acrescenta que todo aquele que consegue entrar na lógica nova que Deus manifesta em Jesus “é maior do que João Batista”, pois vive afinado com o próprio Deus. Somos convidados a escutar com toda atenção o convite de João à conversão, mas também a segui-lo no caminho da sua própria conversão ao estilo de Deus e à esperança que o acompanha. É o caminho indicado por Jesus. Se seguirmos, todo deserto voltará a florescer e mesmo as histórias mais complicadas se abrirão a um novo futuro: “Alegre-se a terra que era deserta e intransitável, exulte a solidão e floresça como um lírio… Criai ânimo, não tenhais medo!” (Is 35,1;4).

 

TERCEIRO DOMINGO DO ADVENTO
Mt 11, 2-11 “És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?”

O tempo de Jesus era uma época de expectativas – dentro do sofrimento do povo, duramente reprimido pela ocupação romana e pela elite de Jerusalém, cresceu muito a esperança na vinda iminente de um Messias libertador, esperado há séculos. O primeiro século da nossa era foi marcado pelo aparecimento de muitos líderes populares, se propondo como Messias. Cada grupo da Palestina tinha as suas expectativas sobre como seria a pessoa e a atuação desse Messias prometido. João, o Batista, era figura importante no cenário religioso palestinense da época. Mt 3, 11-12 (o evangelho do Domingo passado) nos apresenta a imagem do Messias apresentado pelo Precursor. Mas, a atuação concreta de Jesus, conforme relatada em Mt 8-9 parecia destoar tanto dessa expectativa, que causava dúvidas na mente de muita gente. Jesus era realmente o Esperado, ou seria ele mais uma decepção para o povo? Jesus não se defende, explicando quem Ele é – pelo contrário, mostra que era o Messias, pelo que ele fazia! Usando textos do profeta Isaías, Ele mostra que o Reino de Deus chegou n’Ele, pois acontecem as obras de libertação que são características do Reino: com os mortos (Is 26, 19), os surdos (Is 29,18-19), os cegos, surdos, coxos e pobres (Is 35, 5-6), e o anúncio da Boa-Nova aos pobres (Is 61, 1). O messianismo de Jesus não se enquadrava dentro das expectativas de muitas pessoas que esperavam a derrota dos opressores, mas não vislumbravam um mundo novo baseado em solidariedade e justiça. Jesus veio estabelecer no meio de nós o Reino de Deus, fundamentado no conceito de “justiça” – o restabelecimento de relações corretas de cada pessoa com Deus, consigo mesmo, com o outro e com a natureza. Veio realmente criar novas relações – não somente velhas relações com os papéis invertidos, onde o oprimido vira opressor. Jesus sempre é questionador, pois Ele e o seu projeto desafiam as nossas expectativas. Para muitos, a proposta de Jesus era difícil demais, pois mexia com o seu comodismo. Ele era uma novidade total que não se enquadrava nos velhos esquemas – por isso diz “E feliz de quem não se escandalizar (cair) por cause de mim” (v 11). Hoje também a pessoa e o projeto de Jesus desafiam a todos – especialmente nós cristãos. Pois facilmente temos a nossa ideia de como deve ser a figura do Messias – triunfal, poderoso, milagreiro, que não mexe com as estruturas sociais, políticas e econômicas da sociedade, que não nos desafia para que criemos novas relações, na contramão da sociedade materialista, individualista e consumista. Muitos hoje preferem um Jesus “light” – que funciona como analgésico, que nos apazigua a consciência, que nos dá emoções fortes, mas que não nos joga na luta dura da criação de uma nova sociedade baseada nos princípios do Reino! E onde existe esse Reino? Existe onde se faz o que Jesus fazia – onde os mais excluídos estão integrados, os rejeitados estão acolhidos, a Boa-Nova de libertação total é pregada e vivenciada, e se faz a vontade de Jesus que veio “para que todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). É este Jesus que aguardamos no Natal. Portanto, que Advento seja também tempo de purificação das falsas imagens d’Ele que talvez permeiem as nossas mentes. Pois só renasce Jesus onde as pessoas, sejam elas cristãs ou não, se comprometem com as mesmas metas dele, conforme o texto nos demonstra. Felizes de nós se essas exigências não sejam escândalo para nós. A novidade perene do Evangelho e de Jesus nos desafia a rompermos com os nossos velhos esquemas para que concretizemos nas nossas vidas a vinda do Reino.

 

Sociedade da Alegria
”Para nós, a santidade está em sermos muito alegres. Procuramos evitar o pecado que nos rouba a alegria do coração…”

“Nas minhas primeiras quatro classes – escreve Dom Bosco – tive de aprender, às minhas custas, a lidar com os colegas”. Apesar da severa vida cristã imposta pela escola – os meninos deviam até provar que tinham confessado -, havia alunos maus. ”Um deles foi tão descarado que me aconselhou a roubar a minha patroa para comprar balas”. João logo se afastou desses garotos, para não acabar como o rato nas garras do gato. Muito cedo, porém, seu sucesso possibilitou-lhe manter com eles um relacionamento diferente, de prestígio. Por que não aproveitar para fazer-lhes um pouco de bem? “Os companheiros que me queriam levar às confusões eram os mais desleixados no estudo – recorda -, e assim começaram a me pedir que os ajudasse nos deveres escolares”. Ajudou-os. Exagerou até, passando-lhes traduções completas por baixo da carteira. Foi pego num exame quando passava cola, e só conseguiu se salvar graças à amizade de um professor, que o obrigou a repetir a tradução de latim. “Conquistei os meus colegas, que começaram a me procurar durante os recreios. Antes por causa dos deveres escolares, depois para ouvir as minhas histórias e, por fim, sem motivo nenhum”. Juntos sentiam-se bem. Formaram uma espécie de clube. João batizou-o com o nome de “Sociedade da Alegria”. Deu-lhe um regulamento muito simples: 1- Nenhuma ação, nenhuma conversa indigna de cristão. 2- Cumprir os próprios deveres escolares e religiosos. 3- Alegria. A alegria será uma idéia fixa em Dom Bosco. Domingos Sávio, seu aluno predileto, chegará a dizer: – Para nós, a santidade está em sermos muito alegres. Procuramos evitar o pecado que nos rouba a alegria do coração. Para Dom Bosco, a alegria é a profunda satisfação que nasce de saber que estamos nas mãos de Deus e, portanto, em boas mãos. É a palavra que indica um grande valor: a esperança. “Em 1832 eu era o capitão de um pequeno exército”. Nos recreios, jogavam malha, andavam de pernas-de-pau, corriam. Eram partidas animadas e muito alegres. Quando se cansavam, João fazia mágicas. “Do copinho dos dados tirava uma centena de bolinhas coloridas; de um pote vazio, uma dúzia de ovos. Tirava bolas de vidro do nariz dos espectadores, adivinhava quanto dinheiro tinham no bolso e, com um simples toque de dedos, transformava em pó moedas de qualquer metal”. Como antes, em Becchi, toda aquela alegria terminava em oração. “Nos dias santos íamos à igreja de Santo Antônio, onde os jesuítas faziam uma catequese animada, cheia de histórias que ainda relembro”…
Trecho do livro ”Um sonho Uma vida” Terésio Bosco – Editora Salesiana

Espírito Santo é o protagonista do caminhar da Igreja

Quinta-feira, 6 de outubro de 2016, Da Redação, com Rádio Vaticano

Na Missa de hoje, Francisco falou de três comportamentos com relação ao Espírito Santo, Aquele que de fato leva a Igreja adiante

Papa diz que diabo existe e deve ser combatido com a armadura da verdade / Foto: L’Osservatore Romano

O Espírito Santo foi o destaque da homilia do Papa Francisco nesta quinta-feira, 6, na capela da Casa Santa Marta.

As leituras do dia falam do Espírito Santo. “É o grande dom do Pai. É a força que faz a Igreja sair com coragem para chegar aos confins da terra. O Espírito é o protagonista deste caminhar da Igreja. Sem Ele, há fechamento, medo”, disse o Pontífice.

O Papa indicou três comportamentos que se pode ter com o Espírito. O primeiro é a reprovação que São Paulo faz aos Gálatas: o crer de serem justificados pela Lei e não por Jesus “que dá sentido à Lei”. E assim, eram muito rígidos. São os mesmos que atacavam Jesus e que o Senhor chamava de hipócritas.

“Este apego à Lei faz ignorar o Espírito Santo. Não deixa que a força da redenção de Cristo se sobressaia com o Espírito Santo. Ignora. Existe somente a Lei. É verdade que existem os Mandamentos e nós devemos seguir os Mandamentos, mas sempre pela graça deste grande dom que o Pai nos deu, seu Filho, dom do Espírito Santo. Assim, se entende a Lei, e não reduzir o Espírito e o Filho à Lei. Este era o problema daquela gente: ignoravam o Espírito Santo e não sabiam ir adiante. Eram fechados, fechados nas prescrições: se deve fazer isso, se deve fazer aquilo. Às vezes, pode nos acontecer de cair na mesma tentação”.

Os Doutores da Lei, afirma o Papa, encantam com as ideias. “Porque as ideologias encantam e Paulo diz, aqui: Ó gálatas insensatos, quem é que vos fascinou? Aqueles que pregam com ideologias: é tudo justo! Encantam: tudo claro! Mas, a revelação de Deus não é clara? A revelação de Deus se encontra todos os dias, mais e mais. A caminho sempre. É clara? Sim! Claríssima! É Ele, mas nós devemos encontrá-la a caminho. Aqueles que creem que possuem toda a verdade nas mãos não são ignorantes, Paulo diz: Insensatos! Pois se deixaram encantar.”

A segunda atitude, segundo o Papa, é entristecer o Espírito Santo, o que acontece quando as pessoas não deixam que Ele as inspire, as leve avante na vida cristã, quando não deixam que Ele as diga, não com a teologia da Lei, mas com a liberdade do Espírito, o que devem fazer. Assim – explica o Papa – “nos tornamos mornos, caímos na mediocridade cristã, porque o Espírito Santo não pode fazer a grande obra em nós”.

Ao invés disso, a terceira atitude é abrir-se ao Espírito Santo e deixar que seja Ele a levar adiante. É o que fizeram os Apóstolos: a coragem do dia de Pentecostes. Perderam o medo e se abriram ao Espírito Santo. Para entender, para acolher as palavras de Jesus – afirmou o Papa – é necessário abrir-se à força do Espírito Santo. E quando um homem, uma mulher se abre ao Espírito Santo é como um barco à vela que se deixa levar pelo vento e vai avante e não para mais. Mas é preciso rezar para abrir-se ao Espírito Santo.

“Nós podemos nos perguntar hoje, num momento do dia, eu ignoro o Espírito Santo? E sei que se vou à Missa aos domingos, se faço isso, se faço aquilo é suficiente? Segundo: a minha vida é uma vida pela metade, morna, que entristece o Espírito Santo e não deixa em mim a força de ir avante, de abrir-me, ou a minha vida é uma oração contínua para abrir-se ao Espírito Santo, para que Ele me leve avante com a alegria do Evangelho e me faça entender a doutrina de Jesus, a verdadeira doutrina, aquela que não encanta, aquela que não nos faz tolos, mas a verdadeira? E nos faça entender onde está a nossa fraqueza, aquela que O entristece; e nos leve avante, levando avante também o nome de Jesus aos outros e ensinando o caminho da salvação. Que o Senhor nos dê esta graça: abrir-nos ao Espírito Santo para não nos tornar tolos, encantados, nem homens e mulheres que entristecem o Espírito”.

 

Navegar é preciso, mas para onde?

A missão dos leigos como contrutores da sociedade nova  

Não parece, mas o Concílio Vaticano II chegou ao seu jubileu áureo. Nunca a Igreja pôde acompanhar, com tantos detalhes, a evolução interna dos padres conciliares nem a recepção, às vezes tumultuada, de seus ensinamentos no meio do povo. Muitas de suas riquezas estão como e-mails ainda não acessados. Sem menosprezar os demais pontos altos do magno conclave, eu diria que há duas verdades, pouco ou nada abordadas, em Concílios anteriores: o verdadeiro rosto da diocese, ou Igreja local, e o papel dos leigos nos tempos atuais. Hoje, pretendo entrar um pouco neste segundo ponto, sobre o qual deliberaram os bispos da Santa Igreja, juntamente com seus assessores teológicos.

Antes de comentar o grande plano do Reino de Deus, permitam-me contar uma curtíssima “parábola”. Para haver uma boa construção deve existir um arquiteto, pelo menos um bom pedreiro e um servente de pedreiro. Na grande construção do Reino, o arquiteto é o Espírito Divino obviamente. O pedreiro é o leigo, para surpresa nossa, um novo sujeito eclesial. E o servente de pedreiro é aquele que distribui os sacramentos, o pão da Palavra e os serve à comunidade. Este é o sacerdote. Por que o Leigo é o construtor da sociedade nova? Porque ele está dentro do mundo econômico, nas vivências da saúde e da educação, na distribuição da justiça. Esse lugar é dele e não do clero primeiramente. Este entra em questão, mas de modo supletivo e na fase da motivação espiritual. Hoje, felizmente, redescobre-se a importância de sair do nosso cercado paroquial para levar a mensagem às pessoas que não estão no nosso aprisco. “Fazei discípulos meus todos os povos” (Mt 28, 19).

Hoje se diz: “A Igreja é missionária, ou não é a Igreja de Cristo”. Nestes novos tempos, “é preciso evangelizar a todos”. Os freges, por invasão recíproca de atribuições, não são poucos, mas com paciência, vamos aprendendo sempre de modo melhor. O que ainda falta é a objetividade. Todos são desafiados a serem missionários e grandes evangelizadores; só não se fala o que deve ser feito. Somos como um grande navio que é desafiado a levantar âncoras, mas parece que todos ignoram para onde navegar.

Dom Aloísio Roque Oppermann, scj

O cristão e a vida no Espírito

São diversos os dons e os ministérios

“Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos” (1Cor 12,4-6). O Espírito Santo não Se revela apenas em uma só pessoa nem de uma só maneira.

A Igreja, Corpo de Cristo, é como um corpo humano normal. Assim como Deus diferenciou os membros de nosso corpo, assim também o Espírito Santo faz ao formar o Corpo de Jesus Cristo. Ele coloca cada membro no lugar que designou, dando, a cada um, o dom que lhe é necessário para aquele lugar específico. Essa diversidade marca e forma o Corpo.

Na variedade de dons, a voz do Espírito pode ser ouvida e as várias necessidades do Corpo satisfeitas. Podemos não ter a menor ideia da extensão das necessidades dos crentes, mas Deus concedeu dons para corresponder a cada uma delas. Contudo, Ele não as concede para uma única pessoa nem para um grupo pequeno. Quanto a isso, o apóstolo Paulo é uma exceção, pois tinha todos os dons.

O Espírito não está sujeito a qualquer limitação no tocante à distribuição de Suas dádivas. Ele faz como bem entender. O Espírito de Deus usa quem Ele escolhe, sem estar sujeito a qualquer restrição da parte do homem. Se não houver oportunidades para os dons funcionarem adequadamente, pode haver muito prejuízo.

É o que acontece quando a liberdade do Espírito, de usar quem deseja, é eliminada, ficando restrita a uma só pessoa, em geral aos pastores, líderes e sacerdotes. Muitas necessidades nunca são satisfeitas, porque somente poucos dons se manifestam; e o mais grave, a autoridade do Espírito Santo e do Senhor Jesus é ignorada. Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. Há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos (1Cor 12,5-6).

Aqui, vemos como as várias formas de ministério devem ser exercidas. O Espírito Santo distribui os dons conforme deseja, mas quem os recebe está sujeito à autoridade do Senhor. Quando o Espírito nos concede um dom, nos tornamos servos e mordomos, e temos de agir sob Sua direção. Não temos o direito de fazer nada em independência ou por nossa própria vontade. Não importa quão grande seja o poder do Espírito em nós, ainda assim não passamos de servos e mordomos de Cristo, e temos de nos comportar como tais. Quando Deus está agindo na Igreja, a vontade humana não tem lugar.

O Senhor sempre trabalha conforme a Sua vontade. Isso é uma severa condenação a tudo o que os homens têm estabelecido no tocante à obra divina. Com isso, ela contradiz a prática de numerosas comunidades cristãs, nas quais o ministério está limitado a uma ou a poucas pessoas. Além disso, o conceito de que qualquer pessoa tem o direito de servir igualmente nega o ensino bíblico.

Na Igreja de Deus, tudo é realizado com unção e ordem (1Cor 14,39.40). A obediência e a dependência são requisitos fundamentais para os servidores da obra de Deus. Será que esse princípio está enraizado em nosso coração? Se os cristãos puserem essa verdade em prática, Deus será glorificado e Suas bênçãos transbordarão. Testemunho santo e pregação ungida mudam o mundo.

Padre Inácio José do Vale
Professor de Teologia

Gnosticismo: que é?

Sincretismo
PERGUNTE E RESPONDEREMOS 530 – agosto 2006
Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

Em síntese: A gnose (conhecimento) ou o gnosticismo é uma corrente de pensamento e vida sincretista, que tem base dualista: a matéria seria má por si mesma, e o espírito seria bom. Disseminou suas ideias através de escritos semelhantes aos da Bíblia. Daí serem chamados “apócrifos gnósticos”. Embora professassem que a matéria é má e deve ser tida como fator de punição, os gnósticos eram frequentemente libertinos, porque julgavam que os que possuem a gnose têm a salvação garantida, independentemente do seu modo de vida.

A gnose é uma corrente sincretista que funde entre si elementos das religiões orientais, da mística grega e da revelação judeu-cristã. Tentou envolver o Cristianismo no processo de fusão, pondo em xeque a pureza da mensagem evangélica nos séculos ll / lll. Por isto já em 1Tm 6, 20 há uma advertência a Timóteo para que evite as contradições de uma falsa gnose (pseudónymos gnósis).

Os gnósticos atraíam os homens prometendo-lhes um conhecimento superior ao da simples fé cristã, reservado aos iniciados. Esse conhecimento (gnósis) forneceria a solução cabal dos problemas fundamentais da filosofia (origem do mal, gênese do mundo, redenção e felicidade definitiva do homem).

Os gnósticos eram, antes do mais, dualistas, isto é, admitiam um princípio bom que seria a Divindade (simbolizada pela Luz) e, em oposição, a matéria (simbolizada pelas trevas), má por si mesma. Da Divindade emanariam os seres (eones) num sistema de (365?) ondas concêntricas, cada vez mais distanciadas do bem e próximas do mal. O homem seria um elemento divino que, em consequência de um acontecimento trágico, terá sido condenado a se revestir de matéria (corpo) e viver na Terra. O Criador do mundo material seria um eon inferior, que era identificado com o Deus justiceiro do Antigo Testamento.

Para libertar as centelhas de luz ou do bem aprisionadas na matéria e levá-las ao reino da luz, terá sido enviado ao mundo um eon superior, o Lógos (Cristo). Este revelou aos homens o Deus Sumo e Verdadeiro, que eles ignoravam, anunciou-lhes que o mundo da luz os espera e lhes transmitiu as maneiras eficazes de vencer e eliminar a matéria.
O Salvador assim entendido tinha, conforme algumas escolas gnósticas, apenas um corpo aparente (docetismo) ou, segundo outras, tinha um corpo real, no qual o Lógos desceu e permaneceu desde o Batismo até a Paixão de Jesus.
A salvação só pode ser obtida pelos homens pneumáticos (espirituais) ou gnósticos, nos quais prevalece a luz. A maioria dos homens ou a massa é material (hílica) e será aniquilada como a matéria. Entre os espirituais e os materiais haveria os psíquicos ou os simples crentes católicos, que poderiam chegar a gozar de uma bem-aventurança de segunda ordem.

Os gnósticos admitiam o retorno de todas as coisas às condições correspondentes à sua natureza originária.
Pelo fato de desprezarem a matéria, os gnósticos deveriam praticar severa ascese ou abstinência de prazeres carnais. Facilmente, porém, passavam ao extremo oposto: recusando o Deus do Antigo Testamento, que era também o autor da Lei, rejeitavam normas de conduta moral e caíam em libertinismo desenfreado. Julgavam supérflua a confissão de fé perante as autoridades hostis, porque a verdadeira profissão de fé, o martírio (testemunho, em grego) consistia na gnose; quem possui a esta, não está obrigado a sacrifício algum.

O gnosticismo se ramificou em escolas diversas: a oriental, mais rígida, a helênica, mais branda, a de Marcião, mais chegada ao Cristianismo, a dos Ofitas (cultores de serpente) a dos Cainitas, a dos Setianos… Floresceu principalmente entre 130 e 180, contando com chefes de capacidade notável (Basilides, Valentim, Carpócrates, Pródico…). Produziam rica bibliografia (tratados de filosofia, comentários de textos bíblicos, hinos…), de que nos restam poucos fragmentos.
O confronto entre a gnose aparatosa e o Cristianismo nascente foi de enorme perigo para este; a Igreja teve que desenvolver eloquente e densa apologética representada principalmente por São Justino, Santo Ireneu, Tertuliano, Hipólito de Roma… Os bispos se uniram entre si como autênticos guardas do patrimônio da fé; Roma, onde os principais mestres da gnose queriam implantar-se, soube desenvolver ação particularmente benemérita.

Na confusão que entre os cristãos podia estabelecer-se no debate doutrinário, o critério para julgar a veracidade de determinada sentença era a conformidade ou não desta com os ensinamentos da Igreja de Roma; estes eram decisivos, pois a comunidade de Roma estava fundada sobre a pregação e o martírio dos dois principais Apóstolos (Pedro e Paulo): “É com esta igreja (de Roma), em razão de sua mais poderosa autoridade de fundação, que deve necessariamente concordar toda Igreja, isto é, devem concordar os fiéis procedentes de qualquer parte; nela sempre se conservou a Tradição que vem dos Apóstolos” (S. Ireneu, Contra as Heresias II, 3-1-3).

A consagração a Deus e à liberdade

Nossa vida está escondida no Cristo Senhor

No capítulo quinto do “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, São Luís Maria Grignion de Montfort nos ensina alguns motivos para nos consagrar a Nossa Senhora. O sexto motivo apresentado pelo Santo para escolher a consagração total a Jesus Cristo pelas mãos da Virgem Maria é que “esta prática de devoção dá uma grande liberdade interior àqueles que a observam fielmente” (TVD 169). Tal liberdade interior é própria dos filhos de Deus: “O Senhor é o Espírito, e onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade” (2 Cor 3, 17).

Pela consagração, segundo o método de São Luís, “nos tornamos escravos de Jesus Cristo” (cf. TVD 169), porém, isto não nos tira a liberdade. Ao contrário, ao fazer-nos escravos de amor da Virgem Maria, Jesus nos recompensa com graças. O Senhor “tira da alma todo escrúpulo e temor servil, que só servem para a estreitá-la, escravizá-la e confundi-la” (TVD 169). Ele tira de nós toda a dúvida ou inquietação espiritual que nos impede do crescimento na graça e na liberdade de espírito.

Cristo também tira de nós o temor servil, o medo de servir alguém, dando nos a liberdade e a clareza de espírito para as coisas de Deus. Montfort diz que a consagração total “dilata o coração para uma santa confiança em Deus, fazendo-o ver n’Ele seu Pai” (TVD 169), ou seja, consagrando-nos inteiramente a Jesus, somos tomados por uma fé inabalável em Deus, nosso Pai. Além disso, São Luís Maria ensina que, por esta devoção, Jesus nos concede um amor terno e filial para com Deus.

Para exemplificar sua doutrina sobre a liberdade de espírito, São Luís cita como exemplo a história da vida de Madre Inês de Jesus, religiosa jacobina do convento de Langeac, em Auvergne, que faleceu nesse mesmo local em odor de santidade em 1634. Ela não tinha mais de sete anos quando já sofria de grandes penas do espírito. “Foi então que ouviu uma voz dizer-lhe que, se desejava ser livre de todas as suas penas e protegida contra todos os seus inimigos, deveria tornar-se o mais depressa possível escrava de Jesus e de sua Santa Mãe” (TVD 170). Rapidamente, consagrou-se inteiramente como escrava a Jesus e à Sua Santa Mãe, embora não conhecesse esta devoção. Como sinal de sua consagração, cingiu-se com cadeia de ferro sobre os rins e usou-a até a morte.

Depois da consagração, cessaram todas as suas penas e escrúpulos. Madre Inês ficou em tanta paz e liberdade de coração que ensinou esta prática a várias pessoas, que fizeram grandes progressos espirituais. Entre estas pessoas, estava o padre Olier, fundador do Seminário de São Sulpício e a outros sacerdotes e membros do clero. Certo dia, “apareceu-lhe a Santíssima Virgem e pôs-lhe ao pescoço uma cadeia de ouro, testemunhando-lhe assim a alegria que sentia por ela se ter feito escrava sua e de seu Filho. Santa Cecília, que acompanhava a Santíssima Virgem, disse-lhe: Felizes os fiéis escravos da Rainha do Céu, porque gozarão a verdadeira liberdade: Ó Mãe, servir-Vos é a liberdade!” (TVD 170).

Assim, São Luís Maria prova que a devoção que ensina não é apenas uma teoria, mas é uma prática comprovada pela história. Além deste testemunho, hoje temos conhecimento de muitas outras pessoas que se consagraram a Virgem Maria e experimentaram a mesma liberdade de espírito para lançar-se nos mais altos desafios da vida espiritual e temporal. Um dos mais célebres e conhecidos é o saudoso Papa São João Paulo II, o qual teve sua vida marcada pela consagração total a Nossa Senhora. Sigamos os passos do “João de Deus” e nos consagremos inteiramente a Jesus Cristo pelas mãos de Sua Mãe Santíssima e experimentemos a verdadeira liberdade dos filhos de Deus.

Santo Evangelho (João 6,60-69)

21º Domingo do Tempo Comum – 23/08/2015

Primeira Leitura (Js 24,1-2a.17-17.18b)
Leitura do Livro de Josué:

Naqueles dias, 1Josué reuniu em Siquém todas as tribos de Israel e convocou os anciãos, os chefes, os juízes e os magistrados, que se apresentaram diante de Deus. 2aEntão Josué falou a todo o povo: 15“Se vos parece mal servir ao Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir: se aos deuses, a quem vossos pais serviram na Mesopotâmia, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais. Quanto a mim e à minha família, nós serviremos ao Senhor”. 16E o povo respondeu, dizendo: “Longe de nós abandonarmos o Senhor para servir a deuses estranhos. 17Porque o Senhor, nosso Deus, ele mesmo é quem nos tirou, a nós e a nossos pais, da terra do Egito, da casa da escravidão. Foi ele quem realizou esses grandes prodígios diante de nossos olhos, e nos guardou por todos os caminhos, por onde peregrinamos, e no meio de todos os povos pelos quais passamos. 18bPortanto, nós também serviremos ao Senhor, porque ele é o nosso Deus”.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Responsório (Sl 33)

— Provai e vede quão suave é o Senhor!
— Provai e vede quão suave é o Senhor!

— Bendirei o Senhor Deus em todo o tempo,/ seu louvor estará sempre em minha boca./ Minha alma se gloria no Senhor,/ que ouçam os humildes e se alegrem!

— O Senhor pousa seus olhos sobre os justos,/ e seu ouvido está atento ao seu chamado;/ mas ele volta a sua face contra os maus,/ para da terra apagar sua lembrança.

— Clamam os justos, e o Senhor bondoso escuta/ e de todas as angústias os liberta./ Do coração atribulado ele está perto/ e conforta os de espírito abatido.

— Muitos males se abatem sobre os justos,/ mas o Senhor de todos eles os liberta./ Mesmo os seus ossos ele os guarda e os protege,/ e nenhum deles haverá de se quebrar.

— A malícia do iníquo leva à morte,/ e quem odeia o justo é castigado./ Mas o Senhor liberta a vida dos seus servos,/ e castigado não será quem nele espera.

 

Segunda Leitura (Ef 5,21-32)
Leitura da Carta de São Paulo aos Efésios:

Irmãos: 21Vós, que temeis a Cristo, sede solícitos uns para com os outros. 22As mulheres sejam submissas aos seus maridos como ao Senhor. 23Pois o marido é a cabeça da mulher, do mesmo modo que Cristo é a cabeça da Igreja, ele, o Salvador do seu Corpo. 24Mas, como a Igreja é solícita por Cristo, sejam as mulheres solícitas em tudo pelos seus maridos. 25Maridos, amai as vossas mulheres, como o Cristo amou a Igreja e se entregou por ela. 26Ele quis assim torná-la santa, purificando-a com o banho da água unida à Palavra. 27Ele quis apresentá-la a si mesmo esplêndida, sem mancha nem ruga, nem defeito algum, mas santa e irrepreensível. 28Assim é que o marido deve amar a sua mulher, como ao seu próprio corpo. Aquele que ama a sua mulher ama-se a si mesmo. 29Ninguém jamais odiou a sua própria carne. Ao contrário, alimenta-a e cerca-a de cuidados, como o Cristo faz com a sua Igreja; 30e nós somos membros do seu corpo! 31Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne. 32Este mistério é grande, e eu o interpreto em relação a Cristo e à Igreja.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Anúncio do Evangelho (Jo 6,60-69)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo, + segundo João.
— Glória a vós, Senhor!

Naquele tempo, 60muitos dos discípulos de Jesus, que o escutaram, disseram: “Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?” 61Sabendo que seus discípulos estavam murmurando por causa disso mesmo, Jesus perguntou: “Isto vos escandaliza? 62E quando virdes o Filho do Homem subindo para onde estava antes? 63O Espírito é que dá vida, a carne não adianta nada. As palavras que vos falei são espírito e vida. 64Mas entre vós há alguns que não crêem”. Jesus sabia, desde o início, quem eram os que não tinham fé e quem havia de entregá-lo. 65E acrescentou: “É por isso que vos disse: ninguém pode vir a mim, a não ser que lhe seja concedido pelo Pai”. 66A partir daquele momento, muitos discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele. 67Então, Jesus disse aos doze: “Vós também vos quereis ir embora?” 68Simão Pedro respondeu: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. 69Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus”.

– Palavra da Salvação.
– Glória a vós, Senhor.

 

A IGREJA CATÓLICA CELEBRA E VENERA HOJE
Santa Rosa de Lima, primeira santa da América do Sul 

Na oração, penitência, caridade para com todos, principalmente índios e negros, Santa Rosa de Lima cresceu na união com Cristo

Para todos nós, hoje é dia de grande alegria, pois podemos celebrar a memória da primeira santa da América do Sul, Padroeira do Peru, das Ilhas Filipinas e de toda a América Latina. Santa Rosa nasceu em Lima (Peru) em 1586; filha de pais espanhóis, chamava-se Isabel Flores, até ser apelidada de Rosa por uma empregada índia que a admirava, dizendo-lhe: “Você é bonita como uma rosa!”.

Rosa bem sabia dos elogios que a envaideciam, por isso buscava ser cada vez mais penitente e obedecer em tudo aos pais, desta forma, crescia na humildade e na intimidade com o amado Jesus. Quando o pai perdeu toda a fortuna, Rosa não se perturbou ao ter que trabalhar de doméstica, pois tinha esta certeza: “Se os homens soubessem o que é viver em graça, não se assustariam com nenhum sofrimento e padeceriam de bom grado qualquer pena, porque a graça é fruto da paciência”.

A mudança oficial do nome de Isabel para Rosa ocorreu quando ela tomou o hábito da Ordem Terceira Dominicana, da mesma família de sua santa e modelo de devoção: Santa Catarina de Sena e, a partir desta consagração, passou a chamar-se Rosa de Santa Maria. Devido à ausência de convento no local em que vivia, Santa Rosa de Lima renunciou às inúmeras propostas de casamento e de vida fácil: “O prazer e a felicidade de que o mundo pode me oferecer são simplesmente uma sombra em comparação ao que sinto”.

Começou a viver a vida religiosa no fundo do quintal dos pais e, assim, na oração, penitência, caridade para com todos, principalmente índios e negros, Santa Rosa de Lima cresceu na união com Cristo, tanto quanto no sofrimento, por isso, tempos antes de morrer, aos 31 anos (1617), exclamou: “Senhor, fazei-me sofrer, contanto que aumenteis meu amor para convosco”.

Foi canonizada a 12 de abril de 1671 pelo Papa Clemente X.

Santa Rosa de Lima, rogai por nós!

 

Papa: cristãos devem buscar a unidade, não guerra e divisão

Pela unidade cristã

Quinta-feira, 21 de maio de 2015, Da Redação, com Rádio Vaticano

Na homilia de hoje, Papa lembrou que cristãos são chamados a pedir a unidade e não deixar que se insinue entre eles o espírito da guerra

Na Semana em que, no hemisfério sul, se reza pela unidade cristã, o Papa Francisco dedicou sua homilia a essa causa na quinta-feira, 21. Ele reiterou que os cristãos são chamados a pedir a graça da unidade e a lutar para que não haja, entre eles, o espírito de divisão, de guerra e ciúmes. A Missa foi celebrada, como de costume, na capela da Casa Santa Marta.

Francisco fez a homilia a partir da liturgia do dia, que mostra a atmosfera do Cenáculo e a densidade das palavras que Cristo pronunciou e confiou aos apóstolos antes de se entregar à Paixão.

Nesses trechos, Jesus faz uma oração para que a Igreja seja unida, que os cristãos “sejam uma só coisa”, como Jesus o é com o seu Pai. Cristo também fala da “grande tentação”, rezando para que os fiéis não cedam ao “pai da mentira e da divisão”.

É consolador, observou Francisco, ouvir Jesus dizer ao Pai que não quer rezar somente pelos seus discípulos, mas também por aqueles que acreditarão n’Ele mediante a sua palavra. Uma frase ouvida tantas vezes, para a qual o Papa pediu uma atenção especial.

“Talvez nós não sejamos suficientemente atentos a essas palavras: Jesus rezou por mim! Isso é propriamente fonte de confiança: Ele reza por mim, rezou por mim… Eu imagino – mas é uma figura – como está Jesus diante do Pai, no Céu. É assim: reza por nós, reza por mim. E o que vê o Pai? As chagas, o preço que pagou por nós. Jesus rezou por mim com as suas chagas, com o seu coração ferido e continuará a fazê-lo”.

As faces da divisão

Francisco explicou ainda que Jesus reza pela unidade do seu povo, pela Igreja, mas sabe que o espírito do mundo é um espírito de divisão, de guerra, de invejas, ciúmes, também nas famílias, nas famílias religiosas, nas dioceses, bem como em toda a Igreja: é a “grande tentação”. E isso leva, disse o Papa, a fofocas, a etiquetar e rotular as pessoas. São atitudes que a oração de Jesus pede que sejam banidas.

“Devemos ser um, uma só coisa, como Jesus e o Pai são uma só coisa. Este é precisamente o desafio de todos nós cristãos: não dar lugar à divisão entre nós, não deixar que o espírito da divisão, o pai da mentira, entre em nós. Procurar sempre a unidade. Cada um é como é, mas procura viver em unidade. Jesus perdoou você? Perdoa todos. Jesus reza para que nós sejamos um, uma só coisa. E a Igreja tem grande necessidade desta oração de unidade”.

Unidade é graça não “cola”

Não existe, brincou o Papa, uma igreja mantida unida pela “cola”, porque a unidade que Jesus pede  é uma graça de Deus e uma luta sobre a terra. É preciso, então, dar espaço ao Espírito para que cada um possa ser transformado.

“E outro conselho que Jesus deu nestes dias de despedida é permanecer n’Ele: ‘Permanecei em mim’ ‘. Ele pede esta graça, que todos nós permaneçamos n’Ele. E aqui nos indica por que, e diz claramente: ‘Pai, eu quero que aqueles que me destes, também eles estejam comigo onde eu estou’. Isto é, que eles permaneçam lá, comigo. O permanecer em Jesus, neste mundo, termina no permanecer com Ele ‘para que contemplem a minha glória’”.

Solenidade de Pentecostes – Aniversário da Igreja Católica – Ano B

Por Mons. Inácio José Schuster

PENTECOSTES OU BABEL?
Atos 2, 1-11; 1 Coríntios 12, 3b-7.12-13; João 20, 19, 23

O sentido de Pentecostes se contém na frase dos Atos dos Apóstolos: «Ficaram todos cheios do Espírito Santo». O que quer dizer que «ficaram cheios do Espírito Santo», e o que experimentaram naquele momento os apóstolos? Tiveram uma experiência envolvente do amor de Deus, sentiram-se inundados de amor, como por um oceano. Assegura-o São Paulo, quando diz que «o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5,5). Todos os que tiveram uma experiência forte do Espírito Santo estão de acordo em confirmar isso. O primeiro efeito que o Espírito Santo produz quando chega a uma pessoa é fazer que se sinta amada por Deus por um amor muito terno, infinito. O fenômeno das línguas é o sinal de que algo novo ocorreu no mundo. O surpreendente é que este falar em «línguas novas e diversas», em vez de gerar confusão, cria ao contrário um admirável entendimento e unidade. Com isso, a Escritura quis mostrar o contraste entre Babel e Pentecostes. Em Babel todos falam a mesma língua e em certo momento ninguém entende já o outro, nasce a confusão das línguas; em Pentecostes cada um fala uma língua diferente e todos se entendem. Como é isto? Para descobrir basta observar do que falam os construtores de Babel e de que falam os apóstolos em Pentecostes. Os primeiros se dizem entre si: «Vamos edificar uma cidade e uma torre com o ápice no céu, e façamo-nos famosos, para não dispersarmo-nos por toda a face da terra» (Gen 11, 4). Estes homens estão animados por uma vontade de poder, querem se «fazer famosos», buscam sua glória. Em Pentecostes os apóstolos proclamam, ao contrário, «as grandes obras de Deus». Não pensam em fazer um nome, mas em fazer-se a Deus; não buscam sua afirmação pessoal, mas a de Deus. Por isso todos os compreendem. Deus voltou a estar no centro; a vontade de poder substituiu-se pela vontade de serviço, a lei do egoísmo pela do amor. Nisso há uma mensagem de vital importância para o mundo de hoje. Vivemos na era das comunicações de massa. Os chamados «meios de comunicação» são os grandes protagonistas do mundo. Tudo isto marca um progresso grandioso, mas implica também um risco. De que comunicação se trata de fato? Uma comunicação exclusivamente horizontal, superficial, freqüentemente manipulada e venal, ou seja, usada para fazer dinheiro. O oposto, em resumo, a uma informação criativa, de manancial, que introduz no ciclo contidos qualitativamente novos e ajuda a cavar em profundidade em nós mesmos e nos acontecimentos. A comunicação converte em um intercâmbio de pobreza, de ânsias, de inseguranças e de gritos de ajuda desatendidos. É falar entre surdos. Quanto mais cresce a comunicação, mais se experimenta a incomunicação. Redescobrir o sentido do Pentecostes cristão é a única coisa que pode salvar nossa sociedade moderna de precipitar-se cada vez mais em um Babel de línguas. Com efeito, o Espírito Santo introduz na comunicação humana a forma e a lei da comunicação divina, que é a pedra e o amor. Por que Deus se comunica com os homens, entretém-se e fala com eles, ao longo de toda a história da salvação? Só por amor, porque o bem é por sua natureza «comunicativo». Na medida em que é acolhido, o Espírito Santo cura as águas contaminadas da comunicação humana, faz dela um instrumento de enriquecimento, de possibilidade de compartilhar e de solidariedade. Cada iniciativa nossa civil ou religiosa, privada ou pública encontra-se ante uma eleição: pode ser Babel ou Pentecostes: é Babel se está ditada por egoísmo e vontade de atropelo; é Pentecostes se está ditada por amor e respeito da liberdade dos demais.

 

Evangelho segundo São João 15, 26-27.16, 12-15
«Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, e que Eu vos hei-de enviar da parte do Pai, Ele dará testemunho a meu favor. E vós também haveis de dar testemunho, porque estais comigo desde o princípio.» «Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender por agora. Quando Ele vier, o Espírito da Verdade, há-de guiar-vos para a Verdade completa. Ele não falará por si próprio, mas há-de dar-vos a conhecer quanto ouvir e anunciar-vos o que há-de vir. Ele há-de manifestar a minha glória, porque receberá do que é meu e vo-lo dará a conhecer. Tudo o que o Pai tem é meu; por isso é que Eu disse: ‘Receberá do que é meu e vo-lo dará a conhecer’.»

Eis-nos na solenidade de Pentecostes. Esta solenidade provavelmente nos tempos de Lucas, era celebração judaica do Dom da Lei, mas nós não celebramos hoje o Dom da Lei e sim o Dom do Espírito Santo, que é o amor personificado do Pai para com o Filho e do Filho para com o Pai. Hoje nós celebramos de certa maneira, o aniversário da nossa Igreja, que é bela. Embora tenha dois mil anos de idade, a nossa Igreja é bela, e tenha passado por tantas vicissitudes, porque ainda hoje, como no passado, ela contagia tantos corações jovens e adultos. Nossa Igreja é bela porque ela alimenta tantos espíritos com a Palavra de Cristo. A nossa Igreja é bela, sobretudo porque nela age o Espírito de Deus. Por vezes nós temos a tentação de imaginá-la ultrapassada, anacrônica, fora de época, mas o Espírito Santo, de quando em quando a sacode, é capaz de fazê-la ressuscitar como um Ícaro de suas próprias cinzas. O Espírito Santo agiu fortemente na Igreja por ocasião do Concílio Vaticano II, que infelizmente não é bem conhecido dos fiéis católicos até os dias de hoje, quarenta anos depois que ele foi convocado pelo então Papa João XXIII. Mas o Espírito Santo age fora das fronteiras da Igreja católica, Ele é capaz de derrubar os muros de Berlim e de Jerusalém. Ele é capaz de derrubar os racismos onde quer que eles existam, Ele é capaz de derrubar as escravidões que ainda subsistam. O Espírito de Deus trabalha não apenas dentro das fronteiras da Igreja católica. Alarguemos as nossas vistas, olhemos para a nossa história onde quer que haja uma ação boa realizada por uma pessoa de boa vontade, qualquer que seja a religião de sua pertença, ali está o Espírito Santo. Ele não é católico, Ele não é propriedade exclusiva da Igreja católica, Ele age no mundo todo inteiro, Ele fermenta positivamente a massa de bilhões e bilhões de seres humanos, porque graças a Deus, embora a maioria não seja católica, nós temos uma grande porção na humanidade de seres de boa vontade. Todos estes de uma maneira misteriosa, são conduzidos pelo Espírito de Deus, encerrando, pois o tempo Pascal com a presença do Espírito na Igreja e fora da Igreja. Nós louvamos e bendizemos a Deus apesar dos percalços, das perseguições, das incompreensões, de certos anacronismos acusados, Ela caminha em direção ao seu final, conduzida pelo Espírito do Senhor ressuscitado. Feliz e alegre festa de Pentecostes. Que o Espírito Santo traga alegria também ao seu coração.

 

Do Pentecostes judaico ao Pentecostes cristão
São Bruno de Segni (c. 1045-1123), bispo
Comentário ao Êxodo, cap. 15 (trad. Sr Isabelle de la Source, Lire la Bible, vol. 2, p. 78)

O Monte Sinai é o símbolo do Monte Sião. […] Reparai até que ponto as duas alianças se ecoam uma à outra, com que harmonia a festa de Pentecostes é celebrada em cada uma delas. […] O Senhor desceu ao Monte Sião no mesmo dia e de maneira muito semelhante a como tinha descido ao Monte Sinai. […] Escreve Lucas: «Subitamente ressoou, vindo do céu, um som comparável ao de forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde se encontravam. Viram então aparecer umas línguas à maneira de fogo, que se iam dividindo, e pousou uma sobre cada um deles» (At 2, 2-3). […] Sim, tanto num como noutro monte se ouve um ruído violento e se vê um fogo. No Sinai, foi uma nuvem espessa, no Sião o esplendor de uma luz muito forte. No primeiro caso, tratava-se de «imagem e sombra» (Hb 8, 5), no segundo caso da realidade verdadeira. No passado, ouviu-se o trovão, hoje discernem-se as vozes dos apóstolos. De um lado, o brilho dos relâmpagos; do outro, prodígios por todo o lado. […] «Moisés mandou sair o povo do acampamento, para ir ao encontro de Deus, e pararam junto do monte» (Ex 19, 17). E, nos Atos dos Apóstolos, lemos que «ao ouvir aquele som poderoso, a multidão reuniu-se e ficou estupefata» (v. 6). […] O povo de toda a Jerusalém reuniu-se aos pés da montanha de Sião, ou seja, no lugar onde Sião, a imagem da Santa Igreja, começou a ser edificado, a colocar os seus fundamentos. […] «Todo o Monte Sinai fumegava, porque o Senhor havia descido sobre ele no meio de chamas», diz o Êxodo (v. 18). […] Como poderiam deixar de arder aqueles que tinham sido abrasados pelo fogo do Espírito Santo? Assim como o fumo assinala a presença do fogo, assim também, pela segurança dos seus discursos e pela diversidade das línguas que falavam, o fogo do Espírito Santo manifestou a Sua presença no coração dos apóstolos. Felizes os corações que estão cheios deste fogo! Felizes os homens que ardem com este calor! «Todo o monte estremecia violentamente. Os sons da trombeta repercutiam-se cada vez mais» (vv. 18-19). […] Assim também a voz dos apóstolos e a sua pregação se tornaram cada vez mais fortes, fazendo-se ouvir cada vez mais longe, até que «por toda a terra caminha o seu eco, até aos confins do universo a sua palavra» (Sl 18, 5).

 

SOMOS CHAMADOS A PROCLAMAR AS MARAVILHAS DE DEUS
Padre José Augusto

A missa se inicia com a seguinte Oração: Ó Deus, que pelo mistério da festa de hoje, santificais a vossa Igreja inteira, em todos os povos e nações, derramai por toda a extensão do mundo os dons do Espírito Santo, e realizai agora no coração dos fiéis as maravilhas que operastes no início da pregação do Evangelho. Por Nosso Senhor Jesus Cristo. Que você seja santificado no dia de hoje, que o Espírito Santo derrame sobre você e a toda extensão do mundo os Seus dons. Nós não podemos ser cristãos frios, não podemos continuar evangelizando na frieza, nós precisamos fazer com que hoje essa oração se realize em nossas vidas, pois tem muita gente que precisa conhecer Jesus Cristo, tem muitas pessoas não evangelizadas. Pesa sobre nós um cargo que nos impede de sermos frios, precisamos evangelizar para que as pessoas rezem como você reza, nós precisamos anunciar o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. Por causa de muitas palavras de pessoas que não acreditam em Jesus, fomos tomados de uma frieza, e por causa dessa frieza veio o medo. Nós só vamos atrás de pessoas que rezam e que podem rezar por nós. Não! Somos nós que precisamos rezar pelos outros, nós que somos testemunhas do evangelho, somos testemunhas vivas do evangelho de hoje; precisamos tomar consciência disso, o demônio está querendo nos calar, nossos grupos precisam ter aquele fervor de antes, dos inícios, onde aquele fogo caia, agora parece que cai água gelada, nós não podemos esfriar. Hoje em qualquer lugar do mundo, a Igreja está proclamando para que aconteça o que aconteceu no início da Igreja. Mas o que aconteceu no início da Igreja? Atos 1, Jesus está se despedindo dos apóstolos e a partir do versículo 6, Jesus vai subir para o céu e este é o último diálogo com os discípulos. Eu quero que você atualize essa palavra para você, nós somos os discípulos dos tempos de hoje. “mas descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força; e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria e até os confins do mundo.” (Atos 1, 8). Força aqui na palavra quer dizer poder. Diga comigo: “o Espírito Santo descerá sobre mim e Ele me dará poder”. O Espírito descerá sobre você para que seja testemunha viva de Jesus a partir de sua cidade, para cidade mais próxima até os confins do mundo. Diga: “eu quero e preciso”. Depois deste momento Jesus sobe para o céu e promete voltar novamente, então os discípulos vão para o cenáculo, aguardando a realização da promessa, e de repente, dentro do cenáculo, onde eles estavam, o Espírito vem como um vento, como um fogo, e vem como línguas. Línguas de fogo desceu e eles começaram a proclamar, ele começaram a anunciar as maravilhas de Deus. ‘Você é chamado a anunciar as maravilhas de Deus’, diz: Padre José Augusto Você é chamado a anunciar as maravilhas de Deus, está é a grande alegria de Deus nos tempos de hoje. Que alegria você ser chamado a proclamar as maravilhas de Deus. Tem muita gente dizendo que Deus não faz maravilhas, não fiquem frio, mas proclamem as maravilhas de Deus. Hoje nós estamos pedindo o Espírito de Deus para voltarmos para casa e proclamarmos as maravilhas de Deus, para contarmos para todo mundo as maravilhas do Senhor e tem uma coisa, nós somos aqueles que tem visto as maravilhas do Senhor, nós temos visto o poder de Deus. Todos estamos aqui para proclamarmos as maravilhas do Senhor, nós não podemos ficar frios, precisamos proclamar o que Deus fez em nossa vida, e na vida daqueles que estão ao nosso redor. Não importa se você fez faculdade ou não, não importa se você sabe falar direito ou não, se nasceu na roça ou em Nova York, todos precisamos proclamar as maravilhas do Senhor. Não precisa fazer faculdade para proclamar as maravilhas do Senhor, pois não fala com a boca, mas fala com a vida. Da Dona Maria a Mary, do João ao John, todos precisam proclamar as maravilhas de Deus, para aqueles que não creem. Os discípulos saíram de lá tomados do Espírito; saíram e proclamaram com prodígios e milagres, e a cada dia ajuntavam mais. Tem muitos que tem vergonha de falarem de Jesus. Cristãos camuflados não tenham vergonha, “saiam para fora”! Se tem vergonha, precisam ser sem-vergonhas, mas cheios do Espírito Santo, proclamando as maravilhas de Deus. “Enquanto isso, realizavam-se entre o povo pelas mãos dos apóstolos muitos milagres e prodígios. Reuniam-se eles todos unânimes no pórtico de Salomão.” (Atos 5,12) diga: “muitos milagres e muitos prodígios”, nossas igrejas precisam aumentarem, nossos grupos de orações precisam se encher novamente, porque estão vendo o poder de Deus realizando em suas vidas. Eu quero pedir que Deus comece a fazer essas coisas a partir de você. É muito simples, não precisam imaginar que terão que ficar em cima de um palco, proclamando as curas, não. Quando você chegar em casa, se tiver alguém doente, imponha as mãos e ore, quando tiver no ônibus, a boca fala do que o coração está cheio, fale de Jesus para pessoas que sentar do seu lado. Na faculdade, no trabalho fale de Jesus, o mundo precisa conhecê-Lo.

 

O ESPÍRITO DO SENHOR REPOUSA SOBRE NÓS!
Dom Eurico dos Santos Veloso, Arcebispo Emérito de Juiz de Fora (MG)

Na festa de PENTECOSTES somos convidados a recordar o grande Dom do Espírito Santo e o encerramento do festivo e glorioso tempo Pascal. Os judeus já comemoravam a festa de Pentecostes. Era uma festa eminentemente agrícola celebrada cinqüenta dias após a Páscoa. Nos primórdios era em ação de graças pelas colheitas. Posteriormente os judeus começaram a celebrar em Pentecostes a Aliança, como dom da Lei no Sinai e a constituição do Povo Santo de Deus. Para nós cristãos Pentecostes quer significar o Espírito de Deus, que vem habitar em nosso meio, como Nova e Eterna Aliança, na constituição do novo Povo de Deus. Assim, os apóstolos estão reunidos, trancados numa casa quando o fogo do Espírito se reparte em forma de línguas sobre cada um deles. E eles saem do cenáculo e, em praça pública começam a falar do Cristo ressuscitado, com grande entusiasmo e sabedoria. É a primeira e grande manifestação missionária da Igreja. E seus missionários são os doze apóstolos. E o povo espantado se questiona: “Como os escutamos na nossa língua?” Por obra do Espírito Santo, todos falam uma língua que todos compreendem e que une a todos: a linguagem do amor. Por isso São Lucas apresenta a Igreja como Comunidade que nasce de Jesus, que é animada pelo Espírito e que é chamada a testemunhar aos homens o projeto libertador do Pai. O Evangelho que será lido nesta Solenidade é o de São João que colocou o Dom do Espírito Santo no dia da Páscoa. (Jo 20, 19-23) Os Sinais externos: “anoitecer”, “portas fechadas”, “medo” – revelam a situação de uma Comunidade desamparada, desorientada e insegura. Jesus aparece “no meio deles” e lhes deseja a “PAZ”. Confia a Missão: “Como o Pai me enviou, eu VOS ENVIO”. “Soprou” sobre eles e falou: “Recebei o ESPÍRITO SANTO”.  Nessa perspectiva, Páscoa e Pentecostes são partes do mesmo acontecimento. A preocupação dos evangelistas não foi escrever uma crônica histórica, mas uma catequese sobre o Mistério Pascal e a Igreja. Afirmam a mesma coisa, expressando-se numa linguagem diferente. O Papa Bento XVI disse que “O Espírito Santo, ao contrário, torna os corações capazes de compreender as línguas de todos, porque restabelece a ponte da comunicação autêntica entre a Terra e o Céu. O Espírito Santo é Amor. Mas como entrar no mistério do Espírito Santo, como compreender o segredo do Amor? A página evangélica conduz-nos hoje ao Cenáculo onde, tendo terminado a última Ceia, um sentido de desorientação entristece os Apóstolos. A razão é que as palavras de Jesus suscitam interrogativos preocupantes: Ele fala do ódio do mundo para com Ele e para com os seus, fala de uma sua misteriosa partida e há muitas outras coisas ainda para dizer, mas no momento os Apóstolos não são capazes de carregar o seu peso (cf. Jo 16, 12). Para os confortar explica o significado do seu afastamento: irá mas voltará; entretanto não os abandonará, não os deixará órfãos. Enviará o Consolador, o Espírito do Pai, e será o Espírito que dará a conhecer que a obra de Cristo é obra de amor: amor d’Ele que se ofereceu, amor do Pai que o concedeu. É este o mistério do Pentecostes: o Espírito Santo ilumina o espírito humano e, revelando Cristo crucificado e ressuscitado, indica o caminho para se tornar mais semelhantes a Ele, isto é, ser “expressão e instrumento do amor que d’Ele promana” (Deus caritas est 33). Reunida com Maria, como na sua origem, a Igreja hoje reza: “Veni Sancte Spiritus! Vem, Espírito Santo, enche os corações dos teus fiéis e acende neles o fogo do teu amor!” O grande Pentecostes continua a acontecer na Igreja. Não só na recepção do Sacramento da Crisma, quando recebemos a plenitude do Espírito Santo para cumprir a nossa missão de discípulos-missionários. O cristão é um enviado: “Como o Pai me enviou, eu também vos envio”. Para viver e contagiar a PAZ. É um dom precioso e ausente muitas vezes no mundo. Cristo e seu Espírito são fontes de paz para que o mundo creia. Para experimentar o PERDÃO e a MISERICÓRDIA. O perdão e a misericórdia são as atitudes da Igreja diante do mundo. Para ser construtores da COMUNIDADE. O Espírito de Deus foi derramado em cada um para conseguir a unidade de todos no amor. O Pentecostes, para nós, é a plenitude da Páscoa. É o nascimento da Igreja com a missão de dar continuidade à obra de Cristo através dos tempos, em meio à diversidade dos povos. Por isso nesta grande festa somos chamados a nos enamorar pelo Amor verdadeiro, aquele que o Espírito sopra sobre nós. Vinde Espírito Santo! Que o Espírito do Senhor Repouse sobre nós e nos ajude a sermos discípulos-missionários! Amém!

1º Domingo da Quaresma – Ano B

Por Mons. Inácio José Schuster

Gênesis 9, 8-15; 1 Pedro 3, 18-22; Marcos 1, 12-15

COM JESUS NO DESERTO

Concentremo-nos na frase inicial do Evangelho: «O Espírito impulsionou Jesus ao deserto». Contém um chamado importante no início da Quaresma.

Jesus acabava de receber, no Jordão, a investidura messiânica para levar a boa nova aos pobres, curar os corações afligidos, pregar o reino. Mas não se apressa a fazer nenhuma destas coisas. Ao contrário, obedecendo a um impulso do Espírito Santo, retira-se ao deserto, onde permanece quarenta dias, jejuando, orando, meditando, lutando. Tudo isto em profunda solidão e silêncio.

Há na história legiões de homens e mulheres que elegeram imitar este Jesus que se retira ao deserto. No Oriente, começando por Santo Antonio Abade, retiravam-se aos desertos do Egito ou da Palestina, no Ocidente, onde não havia deserto de areia, retiravam-se a lugares solitários, montes e vales remotos. Mas o convite a seguir Jesus no deserto dirige-se a todos. Os monges e os ermitãos elegeram um espaço de deserto; nós devemos eleger ao menos um tempo de deserto.

Passar um tempo de deserto significa fazer um pouco de vazio e de silêncio em torno a nós, reencontrar o caminho de nosso coração, subtrair-se do alvoroço e dos chamados exteriores para entrar em contato com as fontes mais profundas de nosso ser.

Bem vivida, a Quaresma é uma espécie de cura de desintoxicação da alma. De fato, não existe somente a contaminação de óxido de carbono, existe também a contaminação acústica e luminosa. Todos estamos um pouco ébrios de compaixão e de exterioridade. O homem envia suas sondas até a periferia do sistema solar, mas ignora, na maioria das vezes, o que existe em seu próprio coração. Evadir-se, distrair-se, divertir-se: são palavras que indicam sair de si mesmo, subtrair-se da realidade.

Há espetáculos «de evasão» (a TV os propina em avalanche), literatura «de evasão». São chamados, significativamente, “fiction”, ficção. Preferimos viver na ficção que na realidade. Hoje se fala muito de «alienígenas», mas alienígenas, ou alienados, estamos já por nossa conta em nosso próprio planeta, sem necessidade de que venham outros de fora.

Os jovens são os mais expostos a esta embriaguez de estrondo. «Que aumente o trabalho destes homens –dizia dos hebreus o faraó a seus ministros– para que estejam ocupados nele, de forma que não prestem ouvido às palavras de Moisés e não pensem em subtrair-se da escravidão» (Ex 5, 9). Os «faraós» de hoje dizem, de modo implícito, mas não menos imperativo: «Que aumente o alvoroço sobre estes jovens, que os aturda, para que não pensem, não decidam por sua conta, mas que sigam a moda, comprem o que nós queremos, consumam os produtos que nós mandarmos».

O que fazer? Ao não podermos ir ao deserto, há que fazer um pouco de deserto dentro de nós. São Francisco de Assis nos dá, a esse respeito, uma sugestão prática. «Temos –dizia– um eremitério sempre conosco; ali aonde vamos, e cada vez que quisermos, podemos encerrar-nos nele como ermitãos. O eremitério é nosso corpo e a alma é o ermitão que habita dentro!». Neste eremitério «portátil» podemos entrar, sem saltar à vista de ninguém, até enquanto viajamos de ônibus. Tudo consiste em saber «voltar a entrar em si mesmo» a cada tanto.

Que o Espírito que «impulsionou Jesus ao deserto» conduza-nos também, auxilie-nos na luta contra o mal e nos prepare para celebrar a Páscoa renovados no espírito!

 

COM CRISTO, NADA E NEM NINGUÉM PODE NOS ATINGIR… se nós não desejarmos.
Jesus, o único Senhor, liberta-nos de Satanás, pois o venceu.

Mateus (4, 1-11): Então Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo diabo. E depois de fazer um jejum de quarenta dias e quarenta noites, ao final sentiu fome. E, aproximando-se o tentador, disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diga a estas pedras que se transformem em pães». Mas ele respondeu: «Está escrito: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”». (…) Por fim, o diabo o deixou, e os anjos aproximaram-se para servi-lo.

Hoje o demônio, o satanismo e outros fenômenos relacionados são de grande atualidade, e inquietam muito. Nosso mundo tecnológico e industrializado pulula de magos, bruxos, ocultismo, espiritismo, horóscopos, vendedores de feitiços, de amuletos e também de autênticas seitas satânicas.

Expulsado pela porta, o diabo voltou a entrar pela janela. Ou seja, expulso da fé, regressou com a superstição.

O episódio das tentações de Jesus no deserto ajuda-nos a pôr um pouco de clareza. Antes de tudo, existe o demônio?

A palavra demônio indica verdadeiramente uma realidade pessoal, dotada de inteligência e vontade, ou é um símbolo, um modo de falar para indicar a soma do mal moral do mundo, o inconsciente coletivo, a alienação coletiva, etc?

Muitos, entre os intelectuais, não crêem no demônio entendido no primeiro sentido. Mas se deve observar que grandes escritores e pensadores, como Goethe e Dostoiévski, tomaram muito a sério a existência de Satanás.

Charles Baudelaire, que não era certamente de uma raça de santos, disse que «a maior astúcia do demônio é fazer crer que não existe». A prova principal da existência do demônio nos Evangelhos não está nos numerosos episódios de libertação de obsessos, porque ao interpretar estes fatos podem ter influído as crenças sobre a origem das enfermidades.

A prova verdadeira está nos santos! E Jesus, que é tentado no deserto pelo demônio, é a confirmação evidente disso. A prova são também os muitos santos que lutaram na vida com o príncipe das trevas. Não são uns «dons Quixote», que lutaram contra moinhos de vento. Ao contrário, são homens muito concretos e de psicologia sã.

Se muitos pensam ser absurdo crer no demônio é porque se baseiam em livros, passam a vida nas bibliotecas ou no escritório, enquanto que ao demônio não interessa os livros, mas as pessoas, especialmente os santos. Que pode saber de Satanás quem nunca teve de ver com a realidade de Satanás, mas só com sua idéia, isto é, com as tradições culturais, religiosas, etnológicas sobre Satanás?

Esses tratam habitualmente o tema com grande segurança e superioridade, liquidando tudo como «obscurantismo medieval». Mas é uma falsa segurança. Como quem se gaba de não ter medo algum do leão, aduzindo como prova o fato de que o viu muitas vezes pintado ou fotografado e nunca se atemorizou.

Por outro lado, é normal e coerente que quem não crê no diabo não creia em Deus. Seria até trágico se alguém que não crê em Deus acreditasse no diabo! O mais importante que a fé cristã tem a dizer-nos não é, contudo que o demônio existe, mas que Cristo venceu o demônio. Cristo e o demônio não são para os cristãos dois príncipes iguais e contrários.

Jesus é o único Senhor; Satanás não é senão uma criatura «deixada a perder». Se lhe é concedido poder sobre os homens é para que os homens tenham a possibilidade de fazer livremente uma eleição e também para que não «se ensoberbeçam», crendo-se auto-suficientes e sem necessidade de nenhum redentor.

«O velho Satanás está louco», diz um canto espiritual negro. «Disparou um tiro para destruir minha alma, mas errou a pontaria e destruiu ao contrário meu pecado». Com Cristo, não temos nada a temer. Nada nem ninguém pode nos fazer mal, se nós mesmos não o desejarmos.

Satanás, dizia um antigo Padre da Igreja, após a vinda de Cristo, é como um cão amarrado: pode ladrar o quanto quiser; mas se não formos nós a aproximar dele, não poderá morder.

Jesus no deserto se libertou de Satanás para livrar-nos de Satanás! É a alegre notícia com a qual iniciamos nosso caminho quaresmal.

Original italiano publicado por «Famiglia Cristiana».

 

QUARESMA: O TEMPO DO CORAÇÃO
Evangelho do primeiro domingo da quaresma

Gen 9,8-15
Deus disse a Noé e aos seus filhos: Eis que estabeleço a minha aliança covosco e com os vossos descendentes depois de vós, com todo ser vivente que está convosco, aves, gado e animais selvagens, com todos os animais que saíram da arca, com todos os animais da terra. Estabeleço a minha aliança convosco: nenhuma outra carne será destruída pelas águas do dilúvio, nem o dilúvio devastará mais a terra.

I Pd 3,18-22
Amados, Cristo morreu pelos pecados de uma vez por todas, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; morto no corpo, mas vivificado pelo Espírito.

Mc 1,12-15
Naquele tempo, o Espírito conduziu Jesus ao deserto e ele ali permaneceu durante quarenta dias, tentado por satanás. Vivia em meio às feras e os anjos o serviam. Depois que João foi preso, Jesus foi para a Galileia, pregando o evangelho de Deus e dizendo: O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo: convertei-vos e crede no Evangelho.

Movido internamente pelo mesmo Espírito que conduziu Jesus, o crente batizado permanece quarenta dias no deserto com o Senhor, para se preparar para o dom da alegria pascal. Profundamente necessitado de silêncio e de serenidade, ele anseia por uma Palavra verdadeira, que o reencaminhe rumo à harmonia consigo mesmo e com os outros e o faça amar a vida juntamente com eles, na certeza consoladora de que, para além da morte, contemplará o esplendor da face do Cristo Ressuscitado durante toda a eternidade: Ele é “o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim” (Ap 22, 13). Ele é a realização pessoal da aliança que Deus fez com o homem, graças à qual toda pessoa é criada “à imagem e semelhança de Deus” (Gen 1, 27).

A quaresma não é apenas um tempo do calendário, mas o tempo do coração, “o tempo completo” (Mc 1, 15), como Jesus proclama hoje. É o “kairós”, o tempo pessoal e definitivo da abundância da vida (Jo 10, 10), o tempo da alegria inalienável e própria de Jesus, que vem da auto-realização no amor e na obediência à vontade do Pai . “O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo: convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15).

É o anúncio de um caminho em direção à meta mais desejável que existe: a felicidade duradoura nesta vida, que se tornará bem-aventurança eterna na outra. Que o tempo esteja completo é coisa cujo significado se assemelha ao anúncio do nascimento: nasce algo que já se trazia por dentro, e, se o acolhemos como um dom de amor a ser cuidado o tempo todo, a nossa vida não conhecerá mais a tristeza da solidão.

“A alegria é o sinal infalível da presença de Deus”, afirmava Leon Bloy, querendo dizer que a sua fonte, que jorra sem parar no profundo do coração, é o encontro diário com o Senhor Jesus. Temos aqui um testemunho importante sobre isto: um doente terminal de aids, na Casa Dom da Paz, das Missionárias da Caridade, pediu o batismo. Quando o padre pediu dele uma expressão de fé, o doente murmurou: “O que eu sei é que eu sou infeliz, e que as irmãs são muito felizes, mesmo quando eu as insulto e cuspo nelas. Ontem eu finalmente perguntei o motivo dessa felicidade. Elas me responderam: Jesus. Eu quero esse Jesus, para ser feliz também” (Cardeal Timothy Dolan, Homilia na Jornada de Oração pelo colégio cardinalício, 17 de fevereiro de 2012).

O ser humano é concebido como um ser-para-a-alegria, e isso fica provado quando vemos que todas as crianças são espontaneamente felizes diante da face da mãe. Eu poderia dizer que isso acontece por causa do fato ontológico de que elas já conhecem a face da mãe há nove meses, porque Deus Pai-Mãe, que em Cristo “os escolheu antes da criação do mundo” (Ef 1, 4), olha para elas desde a concepção com o seu rosto inefável de amor radiante, e nunca voltará o olhar para nenhum outro lugar até que o vejamos diretamente “como ele é” (1 João 3, 2): “alegria completa na tua presença, doçura sem fim à tua direita” (Salmo 16, 11).

Pe. Angelo del Favero

 

PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA – B
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha, MG

“Quando meu servo chamar, hei de atendê-lo, estarei com ele na tribulação. Hei de livrá-lo e glorificá-lo e lhe darei longos dias” (Sl 90,15s)

Meus queridos irmãos,
Vivemos o primeiro Domingo da Quaresma. Santa Quaresma! Tempo de perdoar e de amar. Amar como Jesus nos amou, entregando-se à tirania de seus algozes, submetendo-se a humilhações e ao Lenho da Cruz para a salvação da humanidade. Refletimos hoje sobre a conversão, linha mestra deste tempo admirável que é a Santa Quaresma. A Restauração da humanidade é feita em Cristo pelo batismo. O mal tem muitas faces, mas uma coerência inferior faz pensar num ser pessoal, embora não identificável no mundo material. Chama-se Satanás, ou seja, adversário, ou ainda diabo, o destruidor. O diabo está presente desde o início da humanidade. Parece, às vezes, que Deus “solta as forças do mal”, por exemplo, quando ele permitiu que Satanás provasse o justo Jô. As águas do dilúvio representavam, para os nossos antepassados, um desencadeamento das forças do mal sobre a criação, o mundo dos homens. Deus soltou Leviatã, o demônio das águas. Mas quem tem a última palavra, a palavra final, na criação é o amor misericordioso de Nosso Senhor Jesus Cristo. Deus não quer destruir o homem, por isso, imporá limites a Leviatã. Não mais voltará a destruir a terra, conforme nos ensina a primeira Leitura. Ao final do dilúvio, Deus repete o dia da criação, em que Ele venceu o caos original, separou as águas de cima e as águas de baixo e deu um lugar especial para o homem habitar. É uma nova criação que se realiza a partir do dilúvio, seguida por um pacto de proteção. O belo arco-íris que alegra generosamente todos os viventes, especialmente os homens, no fim do temporal, é o sinal natural da aliança entre Deus e os homens. Oito pessoas foram preservadas, na arca de Noé. Elas serão, graças à aliança entre Deus e os homens, o início de uma nova humanidade.

Caros irmãos,
A Primeira Leitura(Gn 9,8-15) nos apresenta o Dilúvio e a aliança com a humanidade. O dilúvio é o símbolo do juízo de Deus sobre este mundo. Mas repousa sobre este, também, a sua misericórdia, simbolizada pelo arco-íris. Deus faz uma aliança com Noé e a sua descendência, isto é, a humanidade inteira. Apesar do mal, Deus não voltará a destruir a humanidade. É significativo que esta mensagem foi codificada no tempo do declínio do Reino de Judá. A fidelidade de Deus dura para sempre.

Irmãos e irmãs,
O primeiro domingo da Santa Quaresma tem um Evangelho(cf. Mc 1,12-15) muito especial: aquela passagem que relata o episódio das tentações de Jesus, antes de começar a sua vida pública para pregar o Evangelho. Pode ser uma contradição para a compreensão humana pensar que o Filho de Deus passe por tentações. Tentação é sempre ligada a pecado e como Jesus na tem pecado, achamos impossível ele ser tentado. Entretanto, até para os santos a tentação é colocada para que sejam aprimoradas a nossa confiança e a nossa perseverança em seguir Jesus Cristo. O centro do Evangelho de hoje são os homens e as mulheres redimidos por Jesus que restaura a humanidade pela sua morte e ressurreição. Todos os homens permanecem em constante tentação: este é o retrato dos humanos. No deserto, onde se passo o relato do Evangelho deste dia, há o símbolo da natureza violentada, calcinada, amaldiçoada. Até a natureza deve receber o Messias que vem reconduzir as criaturas ao sentido que tinham na criação: obras boas saídas das mãos poderosas de Deus. Para elas, Jesus traz a boa nova. O extremo mais longe é o diabo. O mais perto são os anjos, querubins e serafins. Entre os dois acontece a nossa vida. Entre os dois se põe Nosso Senhor Jesus Cristo, participando da sorte humana, dos animais e das plantas. O mais beneficiado é o homem e a mulher.

Meus irmãos,
Jesus exclama que “o tempo já se cumpriu”. Isso significa não o fim do mundo, mas a inauguração de um novo tempo de graça e de paz: o TEMPO DA SALVAÇÃO, momento da graça redentora. Terminamos o momento de espera; começa-se o tempo de certeza, que não dispensa o esforço, a conversão, a emenda de vida. Esse “hoje da salvação” não é o tempo histórico de Jesus, mas sim o dia de hoje, o tempo de cada um de nós, o hoje de cada um dos viventes. Contudo, é necessário refletir ainda sobre o DESERTO. Todos os profetas se preparavam no deserto. O deserto passou a ser o lugar onde se pode encontrar Deus e tomar grandes decisões. E em Marcos, especialmente, é o lugar onde a gente se encontra com Deus. Compreende-se, então, que Marcos faça Jesus – mais santo que o profeta Elias, legislador maior do que Moisés, o Messias esperado – como que nascer do deserto e vir do deserto para começar a pregação do Evangelho. O DESERTO, entretanto, é um lugar inóspito, símbolo de maldição, lugar de feras e demônios. E é nesse local que o demônio vai tentar Jesus. Nós, homens e mulheres, à imagem e semelhança de Deus, estamos sempre ameaçados pelo demônio que quer que nós vivamos no mundo do pecado e da maldição. E geralmente, quando atravessamos os desertos de nossa existência, ele investe contra nós, tirando-nos a paz de espírito, a tranqüilidade de consciência, a comunhão com Jesus Cristo. Por isso, a grande mensagem de hoje é a volta do cristão para Deus, a volta do vivente – homem e mulher – para Deus. Isso, porém, só acontecerá com a nossa conversão e mudança de vida. A Santa Igreja nos apresenta a Quaresma santa, tempo de conversão, de mudança de vida e de amor em abundância. Santa Quaresma é retorno para Deus, equilíbrio interior, vitória sobre as tentações do maligno. Confirma-o a Sagrada Liturgia, ao entoar o cântico que dá o colorido deste tempo: “Este é o tempo propício” (2Cor 6,2). Jesus veio da terra dos pagãos. Israel esperava um messias triunfalista, chefe militar, mas veio um filho de carpinteiro, nascido na mais pérfida cidade de seu tempo. Isso nos leva a concluir que não importa qual a nossa origem ou a nossa condição social ou econômica. O importante é o nosso batismo. Pelo batismo, tornamo-nos cristãos e aí não tem diferença: todos somos cidadãos do céu. Neste sentido, anima a celebração de hoje o espírito de confiança, acreditando que poderemos vencer o pecado e a tentação pela graça de Deus: “Ele guia ao bom caminho os pecadores; aos humildes conduz até o fim em seu amor”. Por esta razão, todos os batizados devem renovar, na celebração da Páscoa, o compromisso de seu batismo: um compromisso de coerência de vida, de anúncio do Evangelho e de engajamento na nova Evangelização, superando todas as exclusões, como dos idosos, lutando ainda para que todos tenham “o pão de trigo e o pão da palavra”, palavra que liberta e salva!

Caros irmãos,
A Segunda Leitura(cf. 1Pd 3,18-22) nos apresenta o Dilúvio e o batismo. A Primeira Carta de Pedro caracteriza-se por seu teor de catequese batismal. O batismo inclui a transmissão do credo. Cristo morreu e desceu aos ínferos, ressuscitou, foi exaltado ao lado de Deus, julgará vivos e mortos. Jesus tendo trilhado o nosso caminho até a morte, nós podemos seguir seu caminho à vida. O batismo, antítipo do dilúvio, purifica a consciência e nos orienta para onde Cristo nos precedeu.

Meus irmãos,
Conversão e batismo constituem as duas linhas mestras da Quaresma. Pelo batismo, o ser humano mergulha, por sua vez, na morte e ressurreição do Senhor Jesus. Este mergulho nas águas da vida do batismo em Cristo exige, no entanto, a conversão, o compromisso solene de uma boa consciência para com Deus. Conversão, fé na boa-nova do Cristo e compromisso de vida nova constituem as linhas-força desta Quaresma que se inicia. Que todos nós possamos viver intensamente este tempo de penitência, de jejum, de conversão e de oração. Que a palavra divina seja sempre a santa referência fundamental a orientar a vida cristã nas horas de provações e de dúvidas. Amém!

 

JESUS NOS ENSINA A VENCER AS TENTAÇÕES!

Antigamente, a Quaresma era o período durante o qual, através da penitencia e da provação, os catecúmenos se preparavam para receber o batismo na noite de Páscoa ou àqueles que tinham cometidos pecados graves e públicos se preparavam para retornar ao seio da sua comunidade cristã, chamavam-se de “penitentes”.

A Liturgia sempre coloca Jesus no Evangelho do Primeiro Domingo da Quaresma vencendo as tentações do Demônio (cf. Mc 1, 12-15; mais detalhista é o Evangelho de Mt 4, 1-11). O Nosso Senhor e Mestre não só vence, mas nos dá as dicas para vencer também o nosso inimigo e as tentações pequenas e grandes que enfrentamos todos os dias. O objetivo desta reflexão de hoje será avaliar a nossa defesa e aumentar as nossas resistências frente às tentações e celebrar a vitória com o Senhor Jesus. JESUS NOS ENSINA A VENCER AS TENTAÇÕES!

O Senhor derrotou o inimigo através da Docilidade ao Espírito Santo, pois “no deserto, ele era guiado pelo Espírito”, da Palavra: “A Escritura diz: ‘Não só de pão vive o homem”; da Oração: “Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus”; do Jejum: “Não comeu nada naqueles dias e, depois disso, sentiu fome”, e pela Adoração: “Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás”. Exercendo Sua autoridade que vinha de uma vida coerente e santa. Isso fica bem claro na leitura deste Evangelho.

De maneira semelhante como o antigo povo de Israel partiu durante quarenta anos pelo deserto para ingressar na terra prometida, a Igreja, o novo povo de Deus, prepara-se durante quarenta dias para celebrar a Páscoa do Senhor. Embora seja um tempo penitencial, não é um tempo triste e depressivo. Trata-se de um tempo especial de purificação e de renovação da vida cristã para poder participar com maior plenitude e gozo do mistério pascal do Senhor.

Jesus Cristo dando inicio a caminhada do Novo povo de Deus se dirige ao deserto como lugar de encontro com Deus, lugar de recolhimento, onde Ele se revela, onde se escuta Sua Palavra. E diferente do antigo povo da Aliança que sucumbe a tentação, se revolta, tem saudade das cebolas do Egito, onde eles tinham o que comer, mas eram escravos. Jesus vence a tentação, vence o demônio pela oração, pelo jejum através da Palavra e da Obediência ao Pai.

A Quaresma é um tempo privilegiado para intensificar o caminho da própria conversão. Este caminho supõe cooperar com a graça, para dar morte ao homem velho que atua em nós. Trata-se de romper com o pecado que habita em nossos corações, nos afastar de todo aquilo que nos separa do Plano de Deus, e, por conseguinte, de nossa felicidade e realização pessoal.

No pórtico da Quaresma recém-começada, encontramos Jesus tentado pelo diabo. A Bíblia tem vários nomes para este personagem, mas em todos subjaz a mesma incumbência da sua missão: o que separa o que arranca; diabo, dia-bolus: o que divide. O demônio – no meio do mundo que o ignora e o torna frívolo – está mais presente que nunca: nos medos, nos dramas, nas mentiras e nos vazios do homem pós-moderno, aparentemente descontraído, brincalhão e divertido.

Com Jesus, como com todos, o diabo procurará fazer uma única tentação, ainda que com diversos matizes: romper a comunhão com Deus Pai. Para este fim, todos os meios serão aptos, desde citar a própria Bíblia até fantasiar-se de anjo da luz. As três tentações de Jesus são um exemplo muito atual: da tua fome, converte as pedras em pão; das tuas aspirações, torna-te dono de tudo; da tua condição de filho de Deus, coloca a tua proteção à prova. Em outras palavras: o dia-bolus buscará conduzir Jesus por um caminho no qual Deus ou é banal e supérfluo, ou é inútil e nocivo.

Prescindir de Deus porque eu reduzo minhas necessidades a um pão que eu mesmo posso fabricar, como se fosse minha própria mágica (1ª tentação). Prescindir de Deus modificando seu plano sobre mim, incluindo aspirações de domínio que não têm a ver com a missão que Ele me confiou (2ª tentação). Prescindir de Deus banalizando sua providência, fazendo dela um capricho ou uma diversão (3ª tentação).

Isso se torna atual se formos traduzindo, com nomes e cores, quais são as tentações reais (!) que separam – cada um e todos juntos – de Deus e, portanto, dos outros também. A tentação do deus-ter (em todas as suas manifestações de preocupação pelo dinheiro, pela acumulação, pelas “devoções” a loterias e jogos, pelo consumismo). A tentação do deus-poder (com todo o leque de pretensões de ascensão, que confundem o serviço aos demais com o servir-se dos demais, para os próprios interesses e controles). A tentação do deus-prazer (com tantas, tão infelizes e, sobretudo tão desumanizadoras formas de praticar o hedonismo, tentando censurar inutilmente nossa limitação e finitude).

Quem duvida de que existem mil diabos, que nos encantam e seduzem a partir da chantagem das suas condições e, apresentando tudo como fácil e atrativo, nos separam de Deus, dos demais e de nós mesmos?

Jesus venceu o diabo. A Quaresma é um tempo para voltarmos ao Senhor, unindo novamente tudo que o tentador separou. “Jejuando quarenta dias no deserto, Jesus consagrou a abstinência quaresmal. Desarmando as ciladas do antigo inimigo, ensinou-nos a vencer o fermento da maldade. Celebrando agora o mistério pascal, nós nos preparamos para a Páscoa definitiva” (Prefácio do 1° Domingo da Quaresma).

Oremos: Ó Deus, que nos alimentastes com este pão que nutre a fé, incentiva a esperança e fortalece a caridade, dai-nos desejar o Cristo, pão vivo e verdadeiro, e viver de toda Palavra que sai de vossa boca para vencer ao pecado, a nós mesmos e ao diabo. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

Padre Luizinho, Com. Canção Nova.  Diretor Espiritual e Formador do Pré-discípulado.   http://www.faceboock.com/padreluizinho

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