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O testamento deixado por João Paulo II

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Anotações informais, terça-feira, 1 de abril de 2014, Liliane Borges / Da Redação  

Documento foi escrito em trechos ao longo de 22 anos e está disponível no site oficial do Vaticano

Anotações informais começaram em março de 1979 / Foto: Arquivo

Escrito em trechos, durante 22 anos, com anotações informais, o Testamento de João Paulo II revela a simplicidade e coerência do polonês que marcou a história não só da Igreja, mas do mundo. Poucas linhas para um Papa com quase 27 anos de pontificado e uma história de vida surpreendente.

O Testamento começou a ser escrito em 6 de março de 1979, durante o tradicional retiro da Quaresma. “Durante os exercícios espirituais, voltei a ler o testamento do Santo Padre Paulo VI. Esta leitura estimulou-me a escrever este testamento”, revela João Paulo II.As últimas anotações são de 17 de março de 2000, em pleno ano jubilar.

A frase característica do Pontífice, que revela sua devoção Mariana, “Totus Tuus” (Todo teu) é escrita 6 vezes no Documento, sempre pedindo à Virgem Maria o auxílio para realizar a vontade de Deus.

A devoção à Nossa Senhora, que permeou o seu pontificado, aparece principalmente no trecho, escrito em 1982, em que fala do atentado sofrido na Praça São Pedro em maio de 1981. “Quanto mais profundamente sinto que estou totalmente nas Mãos de Deus e permaneço continuamente à disposição do meu Senhor, confiando-me a Ele na Sua Imaculada Mãe”.

O atentando é comentado uma segundo vez, agora no ano 2000. João Paulo II parece ter comprrendido melhor o desígnio de Deus. “Ele mesmo me prolongou esta vida, de certo modo concedeu-ma de novo. A partir desse momento ela pertence-lhe ainda mais. Espero que Ele me ajudará a reconhecer até quando devo continuar este serviço, para o qual me chamou no dia 16 de Outubro de 1978”.

Karol Wojtyla fala da perseguição à Igreja e dos tempos difíceis pelos quais estava passando. Com data de 1980 o Papa escreve: “Nalguns Países (como por exemplo naquele sobre o qual li durante os exercícios espirituais), a Igreja encontra-se num período de tal perseguição, que não é inferior à dos primeiros séculos, até os supera pelo grau de crueldade e de ódio. Sanguis martyrum semen christianorum. E além disso tantas pessoas desaparecem inocentemente, também neste País em que vivemos…”

A publicação da obra

O texto é claramente montado em “fragmentos”, nem sempre os pensamentos seguem ordem do assunto tratado no anterior. A impressão é que o Beato não esperava que a obra fosse publicada, mas apenas lido por seu secretário particular, atualmente arcebispo de Cracóvia, Cardeal Stanislaw Dziwisz.

O então secretário é citado nos primeiros escritos, em 1979. “Não deixo propriedade alguma da qual seja necessário dispor. Quanto aos objectos de uso quotidiano que me serviam, peço que sejam distribuídos como for oportuno. Os apontamentos pessoais sejam queimados. Peço que disto se ocupe o Pe. Stanislaw, ao qual agradeço a colaboração, a ajuda tão prolongada nos anos e a compreensão(…).

Parte dos pedidos de João Paulo II foi atendido por Stanislaw, porém o religioso polonês não queimou os apontamentos pessoais como lhe foi pedido. Sobre isso, ele mesmo contou o motivo no dia 22 janeiro deste ano , durante a apresentação do livro “Estou nas mãos de Deus. Anotações pessoais 1962 – 2003”, que reúne os escritos espirituais de Karol Wojtyla.

“(…) não fui o suficientemente corajoso para queimar estas folhas de papel e cadernos com as suas notas pessoais, que tinha deixado, porque têm informação importante sobre a sua vida. As vi na mesa do Santo Padre, mas nunca as tinha lido. Quando vi o testamento, fui tocado pelo fato de que João Paulo II, – a quem tinha acompanhado durante quase 40 anos – me confiara também seus assuntos pessoais”, revela o Cardeal.

Por duas vezes, o Beato diz como quer ser enterrado, porém, submete-se ao Colégio Cardinalício e aos “Concidadãos”, que ele mesmo explica, serem o metropolita de Cracóvia ou o Conselho Geral do Episcopado da Polônia. João Paulo II pede que seu “sepulcro seja na terra, não num sarcófago”.

O desejo foi atendido pelo colégio Cardinalício, sendo o local da sepultura a Cripta Vaticana, em um simples túmulo. Atualmente, os restos mortais do Papa encontram-se na Basílica Vaticana em lugar de destaque, devido ao grande número de visitas de peregrinos.

Igreja no Terceiro Milênio

Por fim, Wojtyla fala sobre a missão de introduzir a Igreja no Terceiro Milênio,e narra que as celebrações ficaram impressas em sua memória. No ano 2000, ainda durante as festividades, ele se questiona sobre quanto tempo ainda viverá.

“À medida que o Ano Jubilar avança, de dia para dia se fecha atrás de nós o século XX e se abre o século XXI. Segundo os desígnios da Providencia foi-me concedido viver no difícil século que começa a fazer parte do passado, e agora no ano em que a minha vida chega aos anos oitenta (“octogesima adveniens”), é preciso perguntar-se se não tenha chegado o tempo de repetir com o bíblico Simeão Nunc dimittis” (Agora tu, Senhor, despedes em paz o teu servo).

O testamento, com data de 17 de março de 2000, termina com diversos agradecimentos, entre eles, aos familiares, à Paróquia de Wadowice, onde foi batizado e às pessoas que, segundo o Papa, lhe foram confiadas pelo Senhor. “A todos desejo dizer uma só coisa: Deus vos recompense”.

 

O TESTAMENTO DE JOÃO PAULO II 

Apresentamos o texto do Testamento do Papa João Paulo II, com data de 6.3.1979 (e os acréscimos sucessivos), lido na Quarta Congregação Geral do Colégio dos Cardeais, em 6 de Abril de 2005.

Totus Tuus ego sum

Em nome da Santíssima Trindade. Amém.

“Vigiai, porque não sabeis em que dia o Senhor virá” (cf. Mt 24, 42) estas palavras recordam-me a última chamada, que acontecerá no momento em que o Senhor vier. Desejo segui-lo e desejo que tudo o que faz parte da minha vida terrena me prepare para este momento. Não sei quando ele virá, mas como tudo, também deponho esse momento nas mãos da Mãe do meu Mestre: Totus Tuus. Nas mesmas mãos maternas deixo tudo e Todos aqueles com os quais a minha vida e a minha vocação me pôs em contacto. Nestas Mãos deixo sobretudo a Igreja, e também a minha Nação e toda a humanidade. A todos agradeço. A todos peço perdão. Peço também a oração, para que a Misericórdia de Deus se mostre maior que a minha debilidade e indignidade.  Durante os exercícios espirituais voltei a ler o testamento do Santo Padre Paulo VI. Esta leitura estimulou-me a escrever este testamento.

Não deixo propriedade alguma da qual seja necessário dispor. Quanto aos objectos de uso quotidiano que me serviam, peço que sejam distribuídos como for oportuno. Os apontamentos pessoais sejam queimados. Peço que disto se ocupe o Pe. Stanislau, ao qual agradeço a colaboração, a ajuda tão prolongada nos anos e a compreensão. Todos os outros agradecimentos deixo-os no coração diante de Deus, porque é difícil expressá-los.

No que diz respeito ao funeral, repito as mesmas disposições, que deu o Santo Padre Paulo VI (anotação à margem:  o sepulcro na terra, não num sarcófago, 13.III.92). Sobre o lugar decida o Colégio Cardinalício e os Concidadãos.

“Apud Dominum misericordia  et copiosa apud Eum redemptio”

João Paulo pp. II

Roma, 6.III.1979

Depois da morte peço Santas Missas e orações.

5.II.1990

***

Expresso a mais profunda confiança de que, apesar de toda a minha debilidade, o Senhor conceder-me-á todas as graças necessárias para enfrentar segundo a Sua vontade qualquer tarefa, provação e sofrimento que quiser pedir ao Seu servo, ao longo da vida. Tenho também esperança de que jamais permitirá que, através de qualquer minha atitude: palavras, obras ou omissões, possa trair as minhas obrigações nesta Santa Sé Petrina.

***

24.II – 1.III.1980

Também durante estes exercícios espirituais reflecti sobre a verdade do Sacerdócio de Cristo na perspectiva daquele Trânsito que para cada um de nós é o momento da própria morte. Da despedida deste mundo para nascer para o outro, para o mundo futuro, sinal eloquente (acréscimo acima: decisivo) é para nós a Ressurreição de Cristo.

Por conseguinte, li a redacção do meu testamento do último ano, feita também durante os exercícios espirituais comparei-a com o testamento do meu grande Predecessor e Pai Paulo VI, com aquele sublime testemunho sobre a morte de um cristão e de um papa e renovei em mim a consciência das questões, às quais se refere a redacção de 6.III.1979 preparada por mim (de maneira bastante provisória).

Hoje desejo acrescentar-lhe só isto, que todos devem ter presente a perspectiva da morte. E deve estar preparado e apresentar-se diante do Senhor e do Juiz e contemporaneamente Redentor e Pai. Então também eu tomo em consideração isto continuamente, entregando aquele momento decisivo à Mãe de Cristo e da Igreja à Mãe da minha esperança.

Os tempos em que vivemos são indizivelmente difíceis e preocupantes. Tornou-se também difícil e tensa a vida da Igreja, prova característica daqueles tempos tanto para os Fiéis como para os Pastores. Nalguns Países (como p. ex. naquele sobre o qual li durante os exercícios espirituais), a Igreja encontra-se num período de tal perseguição, que não é inferior à dos primeiros séculos, até os supera pelo grau de crueldade e de ódio. Sanguis martyrum semen christianorum. E além disso tantas pessoas desaparecem inocentemente, também neste País em que vivemos…

Desejo confiar-me mais uma vez totalmente à graça do Senhor. Ele mesmo decidirá quando e como devo terminar a minha vida terrena e o ministério pastoral. Na vida e na morte Totus Tuus mediante a Imaculada.

Aceitando já agora esta morte, espero que Cristo me conceda a graça para a última passagem, isto é a [minha] Páscoa. Espero também que a torne útil para esta mais importante causa à qual procuro servir: a salvação dos homens, a salvaguarda da família humana, e nela de todas as nações e dos povos (entre eles o coração dirige-se de maneira particular para a minha Pátria terrena), útil para as pessoas que de modo particular me confiou, para a questão da Igreja, para a glória do próprio Deus.

Nada desejo acrescentar ao que escrevi há um ano desejo apenas expressar esta prontidão e contemporaneamente esta confiança, à qual os presentes exercícios espirituais de novo me dispuseram.

João Paulo II

***

Totus Tuus ego sum

5.III.1982

Durante os exercícios espirituais deste ano li (várias vezes) o texto do testamento de 6.III.1979. Mesmo se ainda o considero provisório (não definitivo), deixo-o na forma original. Não altero (por enquanto) nem acrescento nada, no que se refere às disposições nele contidas.

O atentado à minha vida a 13.V.1981 confirmou de certa forma a exactidão das palavras escritas no período dos exercícios espirituais de 1980 (24.II-1.III).

Quanto mais profundamente sinto que estou totalmente nas Mãos de Deus e permaneço continuamente à disposição do meu Senhor, confiando-me a Ele na Sua Imaculada Mãe (Totus Tuus).

João Paulo pp. II

***

Totus Tuus ego sum

5.III.1982

P.S. Em relação à última frase do meu testamento de 6.III.1979 (: “Sobre o lugar isto é, o lugar do funeral decida o Colégio Cardinalício e os Concidadãos”) esclareço o que tenho em mente: o metropolita de Cracóvia ou o Conselho Geral do Episcopado da Polónia ao Colégio Cardinalício peço contudo que satisfaça na medida do possível os eventuais pedidos dos acima mencionados.

***

1.III.1985 (durante os exercícios espirituais)

Ainda no que se refere à expressão “Colégio Cardinalício e os Concidadãos”: o “Colégio Cardinalício” não tem obrigação alguma de interpelar sobre este assunto “os Concidadãos”; contudo pode fazê-lo, se por qualquer motivo o considerar justo.

JPII

Os exercícios espirituais do ano jubilar de 2000

(12-18.III) [Para o testamento]

1. Quando no dia 16 de Outubro de 1978 o conclave dos cardeais escolheu João Paulo II, o Primaz da Polónia, Card. Stefan Wysznski disse-me: “A tarefa do novo papa será introduzir a Igreja no Terceiro Milénio”. Não sei se repito exactamente a frase, mas pelo menos era este o sentido do que então ouvi. Disse isto o Homem que passou à história como Primaz do Milénio. Um grande Primaz. Fui testemunha da sua missão, da Sua entrega total. Das Suas lutas: da Sua vitória. “A vitória, quando se verificar, será uma vitória através de Maria” o Primaz do Milénio costumava repetir estas palavras do seu Predecessor, o card. August Hlond.

Assim fui de certa forma preparado para a tarefa que no dia 16 de Outubro de 1978 se apresentou diante de mim. No momento em que escrevo estas palavras, o Ano jubilar de 2000 já é uma realidade em acto. Na noite de 24 de Dezembro de 1999 foi aberta a simbólica Porta do Grande Jubileu na Basílica de São Pedro, depois na de São João de Latrão, de Santa Maria Maior no fim do ano, e no dia 19 de Janeiro a Porta da Basílica de São Paulo fora dos Muros. Este último acontecimento, devido ao seu carácter ecuménico, ficou impresso na memória de modo particular.

2. À medida que o Ano Jubilar avança, de dia para dia se fecha atrás de nós o século XX e se abre o século XXI. Segundo os desígnios da Providencia foi-me concedido viver no difícil século que começa a fazer parte do passado, e agora no ano em que a minha vida chega aos anos oitenta (“octogesima adveniens”), é preciso perguntar-se se não tenha chegado o tempo de repetir com o bíblico Simeão “Nunc dimittis”.

No dia 13 de Maio de 1981, o dia do atentado ao Papa durante a audiência geral na Praça de São Pedro, a Divina Providência salvou-me de modo milagroso da morte. Aquele que é o único Senhor da vida e da morte, Ele mesmo me prolongou esta vida, de certo modo concedeu-ma de novo. A partir desse momento ela pertence-lhe ainda mais. Espero que Ele me ajudará a reconhecer até quando devo continuar este serviço, para o qual me chamou no dia 16 de Outubro de 1978. Peço-lhe que me chame quando Ele mesmo quiser. “Na vida e na morte pertencemos ao Senhor… somos do Senhor” (cf. Rm 14, 8). Também espero que enquanto me for concedido cumprir o serviço Petrino na Igreja, a Misericórdia de Deus me queira conceder as forças necessárias para este serviço.

3. Como todos os anos durante os exercícios espirituais li o meu testamento de 6.III.1979. Continuo a manter as disposições nele contidas. Aquilo que então, e também durante os seguintes exercícios espirituais foi acrescentado constitui um reflexo da difícil e tensa situação geral, que marcou os anos oitenta. Do Outono de 1989 esta situação mudou. O último decénio do século passado esteve livre das precedentes tensões; isto não significa que não tenha levado consigo novos problemas e dificuldades. De modo particular seja louvada a Providencia Divina por isto, que o período da chamada “guerra fria” terminou sem o violento conflito nuclear, do qual pesava sobre o mundo o perigo no período precedente.

4. Estando no limiar do terceiro milénio “in medio Ecclesiae”, desejo mais uma vez expressar gratidão ao Espírito Santo pelo grande dom do Concílio Vaticano II, ao qual juntamente com toda a Igreja e sobretudo com todo o episcopado me sinto devedor. Estou convencido de que ainda será concedido às novas gerações haurir das riquezas que este Concílio do século XX nos concedeu. Como Bispo participante no acontecimento conciliar do primeiro ao último dia, desejo confiar este grande património a todos os que são e serão no futuro chamados a realizá-lo. Da minha parte agradeço o eterno Pastor que me consentiu servir esta grandíssima causa durante todos os anos do meu pontificado.

“In medio Ecclesia”… desde os primeiros anos de serviço episcopal precisamente graças ao Concílio foi-me concedido experimentar a comunhão fraterna do Episcopado. Como sacerdote da Arquidiocese de Cracóvia experimentei o que era a comunhão fraterna do presbitério o Concílio abriu uma nova dimensão desta experiência.

5. Quantas pessoas deveria mencionar aqui! Provavelmente o Senhor Deus chamou a Si a maior parte quanto aos que ainda estão deste lado, as palavras deste testamento os recordem, a todos e em toda a parte, onde quer que se encontrem.  Durante os mais de vinte anos em que desempenho o serviço Petrino “in medio Ecclesiae” experimentei a benévola e muito fecunda colaboração de tantos Cardeais, Arcebispos e Bispos, tantos sacerdotes, tantas pessoas consagradas Irmãos e Irmãs por fim, de tantíssimas pessoas leigas, no ambiente da Cúria, no Vicariato da Diocese de Roma, e também fora destes ambientes.  Como não abraçar com a memória agradecida todos os Episcopados no mundo, com os quais me encontrei no suceder-se das visitas “ad limina Apostolorum”!

Como não recordar também tantos Irmãos cristãos não católicos! E o rabino de Roma e tantos representantes das religiões não cristas! E quantos representantes do mundo da cultura, da ciência, da política, dos meios de comunicação social!

6. À medida que se aproxima o limite da minha vida terrena volto com a memória ao início, aos meus Pais, ao Irmão e à Irmã (que não conheci, porque morreu antes do meu nascimento), à paróquia de Wadowice, onde fui baptizado, àquela cidade da minha juventude, aos coetâneos, companheiras e companheiros da escola elementar, do ginásio, da universidade, até aos tempos da ocupação, quando trabalhei como operário, e depois na paróquia de Niegowic, na paróquia de São Floriano em Cracóvia, à pastoral dos académicos, ao ambiente… a todos os ambientes… a Cracóvia e a Roma… às pessoas que de modo especial me foram confiadas pelo Senhor.  A todos desejo dizer uma só coisa: “Deus vos recompense”.

“In manus Tuas, Domine, commendo spiritum meum”.

A.D.  17.III.2000

Copyright © Libreria Editrice Vaticana

O nosso caminho de fé é ligado ao de Maria, “Mãe de Deus” e nossa Mãe

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Papa Francisco na Missa, em São Pedro

A iniciar o novo ano, a Igreja latina celebra desde tempos imemorais a grande solenidade de Santa Maria Mãe de Deus. Seguindo a tradição, o Papa Francisco preside, na basílica de São Pedro, à celebração eucarística, a partir das 10 horas, que pode ser seguida em directo, neste site, também com comentários em português. A missa é com celebrada por grande número de padres e um certo número de bispos e cardeais presentes em Roma. Este primeiro de Janeiro é também o quadragésimo sétimo Dia Mundial da Paz, instituído pelo Papa Paulo VI. Tema proposto desta vez: Fraternidade, fundamento e caminho para a paz.

A homilia da Missa foi toda ela centrada na figura de Maria, Mãe de Deus, partindo das leituras proclamadas, a começar pela primeira, do Livro dos Números, com a bênção que Deus sugerira a Moisés, para que fosse invocada sobre todo o povo. “É significativo ouvir estas palavras de bênção no início de um novo ano – observou o Papa:

“São palavras que dão força, coragem e esperança; não uma esperança ilusória, assente em frágeis promessas humanas, nem uma esperança ingénua que imagina melhor o futuro, simplesmente porque é futuro.”

É uma esperança que tem a sua razão de ser precisamente na bênção de Deus; uma bênção que contém… os votos da Igreja para cada um de nós, repletos da protecção amorosa do Senhor, da sua ajuda providente. Ora – prosseguiu Papa Francisco – os votos contidos nesta bênção realizaram-se plenamente numa mulher, Maria, enquanto destinada a tornar-Se a Mãe de Deus, e realizaram-se n’Ela antes de qualquer outra criatura.

“Mãe de Deus! Este é o título principal e essencial de Nossa Senhora. Trata-se duma qualidade, duma função que a fé do povo cristão, na sua terna e genuína devoção à Mãe celeste, desde sempre Lhe reconheceu.”

Papa Francisco evocou, a este propósito, aquele momento importante da história da Igreja Antiga que foi o Concílio de Éfeso, no qual se definiu com autoridade a maternidade divina da Virgem. Esta verdade da maternidade divina de Maria – recordou – ecoou em Roma, onde, pouco depois, se construiu a Basílica de Santa Maria Maior, o primeiro santuário mariano de Roma e de todo o Ocidente, no qual se venera a imagem da Mãe de Deus – a Theotokos – sob o título de Salus populi romani. Diz-se que os habitantes de Éfeso, durante o Concílio, se teriam congregado aos lados da porta da basílica onde estavam reunidos os Bispos e gritavam: «Mãe de Deus!» Os fiéis, pedindo que se definisse oficialmente este título de Nossa Senhora, demonstravam reconhecer a sua maternidade divina. “É a atitude espontânea e sincera dos filhos, que conhecem bem a sua Mãe, porque A amam com imensa ternura.”

Mas é também o exercício do “sensus fidei” unânime do santo e fiel povo de Deus, que , na unidade, nunca se engana – acrescentou o Papa, logo prosseguindo:

“Desde sempre Maria está presente no coração, na devoção e sobretudo no caminho de fé do povo cristão.”

O nosso itinerário de fé é igual ao de Maria; por isso, A sentimos particularmente próxima de nós! – sublinhou o Papa. O nosso caminho de fé está indissoluvelmente ligado a Maria, desde o momento em que Jesus, quando estava para morrer na cruz, no-La deu como Mãe, dizendo: «Eis a tua mãe!»

“Estas palavras têm o valor dum testamento, e dão ao mundo uma Mãe. Desde então, a Mãe de Deus tornou-Se também nossa Mãe! Na hora em que a fé dos discípulos se ia quebrantando com tantas dificuldades e incertezas, Jesus confiava-lhes Aquela que fora a primeira a acreditar e cuja fé não desfaleceria jamais. E a «mulher» torna-Se nossa Mãe, no momento em que perde o Filho divino. O seu coração ferido dilata-se para dar espaço a todos os homens, bons e maus; e ama-os como os amava Jesus.”

A Mãe do Redentor caminha diante de nós e sempre nos confirma na fé, na vocação e na missão. Com o seu exemplo de humildade e disponibilidade à vontade de Deus, ajuda-nos a traduzir a nossa fé num anúncio, jubiloso e sem fronteiras, do Evangelho – observou ainda o Papa Francisco, quase a concluir.

“A Ela confiamos o nosso itinerário de fé, os desejos do nosso coração, as nossas necessidades, as carências do mundo inteiro, especialmente a sua fome e sede de justiça e de paz; e invocamo-La todos juntos: Santa Mãe de Deus! Santa Mãe de Deus! Santa Mãe de Deus!”

Como habitualmente nestas celebrações papais, usaram-se diferentes línguas nas leituras e na oração dos fiéis: – um jovem chinês rezou pela paz entre os povos e nações, invocando Jesus, Príncipe da paz, para que se vençam todas as divisões, ódios e rancores; – uma mãe de família rezou, em espanhol, pelas mulheres e por todas as mães, chamadas a gerar, defender e promover a vida; – em árabe, recordou-se o ano novo, para que Jesus eduque todos a viver activamente na história, sempre orientados para a Vida eterna; – finalmente, em português, rezou-se por toda a assembleia presente…

Eis o texto integral da homilia:

Amados Irmãos e Irmãs, A primeira leitura propôs-nos a antiga súplica de bênção que Deus sugerira a Moisés, para que a ensinasse a Aarão e seus filhos: «O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável. O Senhor dirija para ti o seu olhar e te conceda a paz» (Nm 6, 24-26). É muito significativo ouvir estas palavras de bênção no início dum novo ano: acompanharão o nosso caminho neste tempo que se abre diante de nós. São palavras que dão força, coragem e esperança; não uma esperança ilusória, assente em frágeis promessas humanas, nem uma esperança ingénua que imagina melhor o futuro, simplesmente porque é futuro. Esta esperança tem a sua razão de ser precisamente na bênção de Deus; uma bênção que contém os votos maiores, os votos da Igreja para cada um de nós, repletos da protecção amorosa do Senhor, da sua ajuda providente.

Os votos contidos nesta bênção realizaram-se plenamente numa mulher, Maria, enquanto destinada a tornar-Se a Mãe de Deus, e realizaram-se n’Ela antes de qualquer outra criatura.

Mãe de Deus! Este é o título principal e essencial de Nossa Senhora. Trata-se duma qualidade, duma função que a fé do povo cristão, na sua terna e genuína devoção à Mãe celeste, desde sempre Lhe reconheceu. Lembremos aquele momento importante da história da Igreja Antiga que foi o Concílio de Éfeso, no qual se definiu com autoridade a maternidade divina da Virgem. Esta verdade da maternidade divina de Maria ecoou em Roma, onde, pouco depois, se construiu a Basílica de Santa Maria Maior, o primeiro santuário mariano de Roma e de todo o Ocidente, no qual se venera a imagem da Mãe de Deus – a Theotokos – sob o título de Salus populi romani. Diz-se que os habitantes de Éfeso, durante o Concílio, se teriam congregado aos lados da porta da basílica onde estavam reunidos os Bispos e gritavam: «Mãe de Deus!» Os fiéis, pedindo que se definisse oficialmente este título de Nossa Senhora, demonstravam reconhecer a sua maternidade divina. É a atitude espontânea e sincera dos filhos, que conhecem bem a sua Mãe, porque A amam com imensa ternura. Mais ainda: é o sensus fidei do santo fiel Povo de Deus, que nunca – na sua unidade – nunca se engana.

Desde sempre Maria está presente no coração, na devoção e sobretudo no caminho de fé do povo cristão. «A Igreja caminha no tempo (…). Mas, nesta caminhada, a Igreja procede seguindo as pegadas do itinerário percorrido pela Virgem Maria» (JOÃO PAULO II, Enc. Redemptoris Mater, 2). O nosso itinerário de fé é igual ao de Maria; por isso, A sentimos particularmente próxima de nós! No que diz respeito à fé, que é o fulcro da vida cristã, a Mãe de Deus partilhou a nossa condição, teve de caminhar pelas mesmas estradas, às vezes difíceis e obscuras, trilhadas por nós, teve de avançar pelo «caminho da fé» (CONC. ECUM. VAT. II, Const. Lumen gentium, 58).

O nosso caminho de fé está indissoluvelmente ligado a Maria, desde o momento em que Jesus, quando estava para morrer na cruz, no-La deu como Mãe, dizendo: «Eis a tua mãe!» (Jo 19, 27). Estas palavras têm o valor dum testamento, e dão ao mundo uma Mãe. Desde então, a Mãe de Deus tornou-Se também nossa Mãe! Na hora em que a fé dos discípulos se ia quebrantando com tantas dificuldades e incertezas, Jesus confiava-lhes Aquela que fora a primeira a acreditar e cuja fé não desfaleceria jamais. E a «mulher» torna-Se nossa Mãe, no momento em que perde o Filho divino. O seu coração ferido dilata-se para dar espaço a todos os homens, bons e maus; e ama-os como os amava Jesus. A mulher que, nas bodas de Caná da Galileia, dera a sua colaboração de fé para a manifestação das maravilhas de Deus na mundo, no Calvário mantém acesa a chama da fé na ressurreição do Filho, e comunica-a aos outros com carinho maternal. Assim Maria torna-Se fonte de esperança e de alegria verdadeira.

A Mãe do Redentor caminha diante de nós e sempre nos confirma na fé, na vocação e na missão. Com o seu exemplo de humildade e disponibilidade à vontade de Deus, ajuda-nos a traduzir a nossa fé num anúncio, jubiloso e sem fronteiras, do Evangelho. Deste modo, a nossa missão será fecunda, porque está modelada pela maternidade de Maria. A Ela confiamos o nosso itinerário de fé, os desejos do nosso coração, as nossas necessidades, as carências do mundo inteiro, especialmente a sua fome e sede de justiça e de paz; e invocamo-La todos juntos: Santa Mãe de Deus!

Papa pede paz e liberdade religiosa no Oriente Médio

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Missa na Casa Santa Marta, segunda-feira, 9 de dezembro  de 2013, Jéssica Marçal / Da Redação

Concelebrando com o patriarca de Alexandria dos Coptas, Francisco renovou seu apelo pela paz no Oriente Médio

Papa Francisco concelebrou a Missa na Casa Santa Marta nesta segunda-feira, 9, com o patriarca de Alexandria dos Coptas, Ibrahim Isaac Sidrak, em ocasião da manifestação pública da “comunhão eclesiástica” com o Sucessor de Pedro. Francisco renovou seu apelo pela paz e liberdade religiosa na Terra Santa e em todo o Oriente Médio.

Na homilia, o Santo Padre dirigiu seu pensamento aos fiéis coptos, retomando as palavras do profeta Isaías, na Primeira Leitura, que falam de um despertar dos corações na espera pelo Senhor.

“Coragem: não temam’: eis as consoladoras palavras que encontram confirmação na solidariedade fraterna. Sou grato a Deus por este encontro que me dá oportunidade de reforçar a vossa e a nossa esperança, porque é a mesma”.

Concentrando-se sobre o Evangelho do dia, o Papa recordou que Cristo venceu as paralisias humanas, o que descreve o poder da misericórdia divina que perdoa e dissolve todo pecado quando encontra uma fé autêntica. Ele rezou, então, para que a paz possa sempre prevalecer na Terra Santa e em todo o Oriente Médio.

“Que cessem, para sempre, a inimizade e as divisões. Que se retomem rapidamente os acordos de paz muitas vezes paralisados por interesses obscuros e contrapostos. Sejam dadas finalmente reais garantias de liberdade religiosa a todos, junto ao direito para os cristãos de viver serenamente lá onde nasceram, na pátria que amam como cidadãos há dois mil anos, para contribuir como sempre ao bem de todos”.

 

HOMILIA

Beatitude, Eminência,  Venerados irmãos no episcopado e no sacerdócio,  Queridos irmãos e irmãs,

Pela primeira vez tenho a alegria de acolher como Bispo de Roma um novo Patriarca vindo para cumprir um significativo gesto de comunhão com o Sucessor de Pedro. Aceitando a eleição canônica, Vossa Beatitude logo pediu a “ecclesiastica communio” com a “Igreja que preside à caridade universal”. O meu venerado predecessor a concedeu de bom grado, memória da ligação com o Sucessor de Pedro que a Igreja de Alexandria dos Coptas Católicos sempre manteve ao longo da história. Sois uma expressão da pregação de São Marcos Evangelista: e é propriamente este legado que ele vos deixou como bom intérprete do Apóstolo Pedro.

Na Primeira Leitura, o profeta Isaías (cfr 35, 1-10) despertou nos nossos corações a espera pelo retorno glorioso do Senhor. O encorajamento “aos desanimados de coração” sentimos dirigido a quantos em vossa amada terra egípcia experimentam insegurança e violência, às vezes por causa da fé cristã. “Coragem: não temam”: eis as consoladoras palavras que encontram confirmação na solidariedade fraterna. Sou grato a Deus por este encontro que me dá oportunidade de reforçar a vossa e a nossa esperança, porque é a mesma: “…a terra queimada…e o solo seco – de fato – transformam-se em fonte de água” e se abrirá finalmente à “vida santa”, o caminho da alegria e da felicidade, “e fugirão tristeza e pranto”. Esta é a nossa esperança, a esperança comum das nossas duas Igrejas.

O Evangelho (cfr Lc 5, 17-26) nos apresenta Cristo que vence as paralisias da humanidade. Descreve o poder da misericórdia divina que perdoa e dissipa todo pecado quando encontra uma fé autêntica. As paralisias das consciências são contagiosas. Com a cumplicidade da pobreza da história, e do nosso pecado, podem expandir-se e entrar nas estruturas sociais e nas comunidades até bloquear povos inteiros. Mas o comando de Cristo pode reverter a situação: “Levanta-te e caminha!”. Rezemos com confiança para que na Terra Santa e em todo o Oriente Médio a paz possa sempre levantar-se das paradas muitas vezes recorrentes e dramáticas. Parem, em vez disso, para sempre as inimizade e divisões. Retomem rapidamente os acordos de paz frequentemente paralisados por interesses contrapostos e obscuros. Sejam dadas finalmente reais garantias de liberdade religiosa para todos, junto com o direito aos cristãos de viverem serenamente lá onde nasceram, na pátria que amam como cidadãos há dois mil anos, para contribuir como sempre para o bem de todos. O Senhor Jesus, que experimentou com a Sagrada Família a fuga e foi hospedado na vossa terra generosa, cuide dos egípcios que pelas estradas do mundo buscam dignidade e segurança. E vamos sempre adiante, procurando o Senhor, procurando novos caminhos, novas vias para nos aproximarmos do Senhor. E se for necessário abrir um buraco no teto para aproximar-nos todos do Senhor, que a nossa imaginação criativa da caridade nos leve a isto: a encontrar e a fazer caminhos de encontro, caminhos de fraternidade, caminhos de paz.

Pela nossa parte, desejamos “glorificar Deus”, substituindo o temor do espanto: ainda hoje podemos ver “coisas prodigiosas”. O prodígio da Encarnação do Verbo e, por isso, da absoluta proximidade de Deus à humanidade na qual sempre nos coloca o mistério do Advento. O vosso grande pai Atanasio, colocado assim próximo à Cátedra de Pedro na Basílica Vaticana, interceda por nós, com São Marcos e São Pedro e, sobretudo, com a Imaculada e Toda Santa Mãe de Deus. Obtenhamos do Senhor a alegria do Evangelho, doada em abundância aos discípulos e às testemunhas. Assim seja.

Natal é encontro com Jesus de coração aberto, diz Papa em homilia

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Missa na Casa Santa Marta, segunda-feira, 2 de dezembro  de 2013, Da Redação, com Rádio Vaticano

Santo Padre indicou a oração, a caridade e o louvor como caminhos para uma boa preparação para o Natal

Papa lembrou que Natal não é só recordação de algo belo, mas o encontro com Cristo / Foto: L’Osservatore Romano

Preparar-se para o Natal com a oração, a caridade e o louvor, mantendo o coração aberto para deixar-se encontrar pelo Senhor que tudo renova. Este foi o convite feito pelo Papa Francisco na Missa celebrada nesta segunda-feira, 2, na Casa Santa Marta. A homilia insere-se no tempo litúrgico do Advento, iniciado neste domingo, 1º.

Francisco recordou que nestes dias se inicia um novo caminho, um caminho de Igreja rumo ao Natal. Trata-se de ir ao encontro do Senhor, pois o Natal, como enfatizou o Papa, não é somente uma recorrência temporal ou uma recordação de algo belo.

“O Natal é mais: nós vamos por este caminho para encontrar o Senhor. O Natal é um encontro! E caminhamos para encontrá-Lo, com o coração, com a vida, encontrá-Lo vivo, como Ele é, encontrá-Lo com fé”.

Francisco concentrou-se ainda sobre o exemplo do oficial romano descrito no Evangelho do dia, destacando a sua fé, o que maravilhou Jesus. A partir da fé, não só o oficial romano encontrou Deus, mas foi encontrado por Deus.

“Quando nós somente encontramos o Senhor, somos nós – entre aspas, digamos – os patrões deste encontro, mas quando nós nos deixamos encontrar por Ele, é Ele que entra em nós, é Ele que nos refaz tudo, porque esta é a vinda, aquilo que significa quando vem o Cristo: refazer tudo, refazer o coração, a alma, a vida, a esperança, o caminho”.

E ao longo de todo esse processo, o Papa ressaltou a importância de manter o coração aberto, para que Deus encontre o homem e lhe diga o que for preciso. Dessa forma, Francisco falou, por fim, de alguns comportamentos que ajudam neste caminho rumo ao Natal.

“A perseverança na oração, rezar mais; o trabalho na caridade fraterna, aproximar-se um pouco mais daqueles que precisam; e a alegria no louvor do Senhor. Então, a oração, a caridade e o louvor, com o coração aberto, para que o Senhor nos encontre”.

Tempo do Advento restitui a esperança, diz Papa no Angelus

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Início do Advento, domingo, 1 de dezembro  de 2013, Jéssica Marçal / Da Redação

Santo Padre refletiu sobre o tempo do Advento, que a Igreja inicia hoje em preparação para o Natal

No Angelus deste domingo, 1º, Papa Francisco refletiu sobre o tempo litúrgico do Advento, que a Igreja inicia hoje. Trata-se de um tempo que restitui a esperança, uma esperança, segundo o Santo Padre, que não desilude porque é fundada na Palavra de Deus.

Com o novo ano litúrgico, Francisco disse que há também um novo caminho do Povo de Deus, com Jesus Cristo. Ele explicou que esse caminhar é uma peregrinação universal rumo a uma meta comum, que no Antigo Testamento é Jerusalém, de onde veio a revelação da face de Deus e da sua lei. “A revelação encontrou em Jesus Cristo o seu cumprimento, e o ‘templo do Senhor’ tornou-se Ele mesmo, o Verbo feito carne”.

O Santo Padre lembrou que este caminho de peregrinação não está nunca concluído, tendo em vista que na vida de cada um é preciso começar de novo, levantar-se e reencontrar o sentido da própria existência. E há um horizonte comum para a família humana que é o horizonte da esperança.

Como modelo de atitude espiritual e de conduzir este caminho na vida, o Pontífice indicou a Virgem Maria, que leva em seu coração toda a esperança de Deus. “Deixemo-nos guiar por ela, que é mãe e sabe nos guiar, neste tempo de espera e de vigilância ativa”.

 

ANGELUS

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Iniciamos hoje, Primeiro Domingo do Advento, um novo ano litúrgico, isso é, um novo caminho do Povo de Deus com Jesus Cristo, o nosso Pastor, que nos guia na história para o cumprimento do Reino de Deus. Por isto, este dia tem um encanto especial, nos faz experimentar um sentimento profundo do sentido da história. Redescobrimos a beleza de estar todos em caminho: a Igreja, com a sua vocação e missão, e toda a humanidade, os povos, as culturas, todos em caminho pelos caminhos do tempo.

Mas em caminho para onde? Há uma meta comum? E qual é esta meta? O Senhor nos responde através do profeta Isaías, e diz assim: “No fim dos tempos acontecerá/ que o monte da casa do Senhor/ estará colocado à frente das montanhas/ e dominará as colinas./ Para aí correrão todas as gentes,/ e os povos virão em multidão:/ “Vinde, dirão eles, subamos à montanha do Senhor,/ à casa do Deus de Jacó:/ ele nos ensinará seus caminhos,/ e nós trilharemos as suas veredas”” (2, 2-3). Isto é aquilo que nos diz Isaías sobre a meta para onde vamos. É uma peregrinação universal para uma meta comum, que no Antigo Testamento é Jerusalém, onde surge o templo do Senhor, porque dali, de Jerusalém, veio a revelação da face de Deus e da sua lei. A revelação encontrou em Jesus Cristo o seu cumprimento, e o “templo do Senhor” tornou-se Ele mesmo, o Verbo feito carne: é Ele o guia e junto à meta da nossa peregrinação, da peregrinação de todo o Povo de Deus; e à sua luz também outros povos possam caminhar rumo ao Reino da justiça, rumo ao Reino da paz. Diz ainda o profeta: “De suas espadas forjarão relhas de arados,/ e de suas lanças, foices./ Uma nação não levantará a espada contra a outra,/ e não se arrastarão mais para a guerra” (2, 4). Permito-me repetir isto que nos diz o Profeta, escutem bem: “De suas espadas forjarão relhas de arados,/ e de suas lanças, foices./ Uma nação não levantará a espada contra a outra,/ e não se arrastarão mais para a guerra”. Mas quando acontecerá isto? Que belo dia será, no qual as armas serão desmontadas, para se transformar em instrumentos de trabalho! Que belo dia será aquele! Que belo dia será aquele! E isto é possível! Apostemos na esperança, na esperança da paz, e será possível!

Este caminho não está nunca concluído. Como na vida de cada um de nós, há sempre necessidade de começar de novo, de levantar-se, de reencontrar o sentido da meta da própria existência, assim, para a grande família humana é necessário renovar sempre o horizonte comum rumo ao qual somos encaminhados. O horizonte da esperança! Este é o horizonte para fazer um bom caminho. O tempo do Advento, que hoje começamos de novo, nos restitui o horizonte da esperança, uma esperança que não desilude porque é fundada na Palavra de Deus. Uma esperança que não desilude, simplesmente porque o Senhor não desilude nunca! Ele é fiel! Ele não desilude! Pensemos e sintamos esta beleza.

O modelo desta atitude espiritual, deste modo de ser e de caminhar na vida é a Virgem Maria. Uma simples moça do campo, que leva no coração toda a esperança de Deus! Em seu ventre, a esperança de Deus tomou carne, fez-se homem, fez-se história: Jesus Cristo. O seu Magnificat é o cântico do Povo de Deus em caminho, e de todos os homens e mulheres que esperam em Deus, no poder da sua misericórdia. Deixemo-nos guiar por ela, que é mãe, é mãe e sabe como guiar-nos. Deixemo-nos guiar por ela neste tempo de espera e de vigilância ativa.

A todos desejo um bom início de Advento. Bom almoço e até mais!

Papa explica a perspectiva cristã da morte

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Catequese, quarta-feira, 27 de novembro  de 2013, Jéssica Marçal / Da Redação

Francisco destacou que uma vida unida a Cristo prepara o homem para enfrentar a morte com serenidade e esperança

Papa falou aos fiéis sobre ressurreição da carne, explicando a perspectiva cristã da morte / Foto: reprodução CTV

A ressurreição da carne foi o tema da catequese do Papa Francisco nesta quarta-feira, 27. O Santo Padre desmistificou a visão que se tem da morte, que muitas vezes causa medo, para falar da perspectiva cristã dessa passagem e da preparação para morrer em Cristo.

Sobre a temática, o Papa elencou dois aspectos: morrer e ressurgir em Cristo. Concentrando-se no primeiro, ele explicou que há um modo enganado de ver a morte, especialmente quando ela atinge as pessoas próximas ao homem. Trata-se, neste caso, de encarar a morte como o fim de tudo, de forma que ela se torna uma ameaça.

Esta concepção de morte, segundo explicou, é típica do pensamento ateu, que interpreta a existência como um encontrar-se casualmente no mundo, caminhando para o nada. O Papa lembrou que há também o ateísmo prático, que vive somente para os próprios interesses e para as coisas terrenas. “Se nos deixamos levar por essa visão enganada da morte, não temos outra escolha que não ocultar a morte, negá-la ou banalizá-la para que não nos cause medo”.

Falando da visão cristã da morte, Francisco destacou que, mesmo nos momentos de dor pela perda de alguém, sai do coração a convicção de que não pode estar tudo terminado. “Há um instinto dentro de nós que nos diz que a nossa vida não termina com a morte”.

O Santo Padre explicou que esta sede de vida encontra a sua resposta real na ressurreição de Cristo. Dessa forma, uma vida unida a Cristo torna o homem capaz de enfrentar a morte com serenidade e esperança.

Outro ponto ressaltado pelo Pontífice foi que a vida neste mundo foi dada também como preparação para a outra vida, com o Pai Celeste. O caminho, então, é estar próximo a Jesus, o que é feito com a oração, com os sacramentos e também na prática da caridade.

“Quem pratica a misericórdia não teme a morte. (…) Se abrirmos a porta da nossa vida e do nosso coração aos irmãos mais pequeninos, então também a nossa morte se tornará uma porta que nos introduzirá no céu”.

Com o tema desta catequese e da próxima, o Santo Padre encerra o ciclo de catequeses sobre o Credo, realizadas ao longo do Ano da Fé, encerrado no último domingo, 24.

 

CATEQUESE

Queridos irmãos e irmãs,

Bom dia e parabéns porque vocês são corajosos com este frio na praça. Muitos parabéns!

Quero concluir as catequeses sobre “Credo”, desenvolvidas durante o Ano da Fé, que se concluiu domingo passado. Nesta catequese e na próxima, gostaria de considerar o tema da ressurreição da carne, capturando dois aspectos como os apresenta o Catecismo da Igreja Católica, isso é, o nosso morrer e o nosso ressurgir em Jesus Cristo. Hoje, concentro-me no primeiro aspecto, “morrer em Cristo”.

1. Entre nós, comumente, há um modo errado de olhar para a morte. A morte diz respeito a todos, e nos interroga de modo profundo, especialmente quando nos toca de modo próximo, ou quando atinge os pequenos, os indefesos de maneira que nos resulta “escandalosa”.  A mim sempre veio a pergunta: por que sofrem as crianças? Por que morrem as crianças? Se entendida como o fim de tudo, a morte assusta, aterroriza, transforma-se em ameaça que infringe todo sonho, toda perspectiva, que rompe toda relação e interrompe todo caminho. Isso acontece quando consideramos a nossa vida como um tempo fechado entre dois pólos: o nascimento e a morte; quando não acreditamos em um horizonte que vai além daquele da vida presente; quando se vive como se Deus não existisse. Esta concepção da morte é típica do pensamento ateu, que interpreta a existência como um encontrar-se casualmente no mundo e um caminhar para o nada. Mas existe também um ateísmo prático, que é um viver somente para os próprios interesses e viver somente para as coisas terrenas. Se nos deixamos levar por esta visão errada da morte, não temos outra escolha se não ocultar a morte, negá-la ou banalizá-la, para que não nos cause medo.

2. Mas a essa falsa solução se rebela o “coração” do homem, o desejo que todos nós temos de infinito, a nostalgia que todos temos do eterno. E então qual é o sentido cristão da morte? Se olhamos para os momentos mais dolorosos da nossa vida, quando perdemos uma pessoa querida – os pais, um irmão, uma irmã, um cônjuge, um filho, um amigo – nos damos conta de que, mesmo no drama da perda, mesmo dilacerados pela separação, sai do coração a convicção de que não pode estar tudo acabado, que o bem dado e recebido não foi inútil. Há um instinto poderoso dentro de nós que nos diz que a nossa vida não termina com a morte.

Esta sede de vida encontrou a sua resposta real e confiável na ressurreição de Jesus Cristo. A ressurreição de Jesus não dá somente a certeza da vida além da morte, mas ilumina também o próprio mistério da morte de cada um de nós. Se vivemos unidos a Jesus, fiéis a Ele, seremos capazes de enfrentar com sabedoria e serenidade mesmo a passagem da morte. A Igreja, de fato, prega: “Se nos entristece a certeza de dever morrer, consola-nos a promessa da imortalidade futura”. Uma bela oração esta da Igreja! Uma pessoa tende a morrer como viveu. Se a minha vida foi um caminho com o Senhor, um caminho de confiança na sua imensa misericórdia, estarei preparado para aceitar o último momento da minha existência terrena como o definitivo abandono confiante em suas mãos acolhedoras, à espera de contemplar face-a-face o seu rosto. Essa é a coisa mais bela que pode nos acontecer: contemplar face-a-face aquele rosto maravilhoso do Senhor, vê-Lo como Ele é, belo, cheio de luz, cheio de amor, cheio de ternura. Nós caminhamos para este ponto: ver o Senhor.

3. Neste horizonte se compreende o convite de Jesus a estar sempre prontos, vigilantes, sabendo que a vida neste mundo nos foi dada também para preparar a outra vida, aquela com o Pai Celeste. E para isto há um caminho seguro: preparar-se bem para a morte, estando próximo a Jesus. Esta é a segurança: o meu preparo para a morte estando próximo a Jesus. E como se fica próximo a Jesus? Com a oração, nos Sacramentos e também na prática da caridade. Recordemos que Ele está presente nos mais frágeis e necessitados. Ele mesmo identificou-se com eles, na famosa parábola do juízo final, quando disse: “Tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, era peregrino e me acolhestes, nu e me vestistes, enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim…Tudo aquilo que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes” (Mt 25, 35-36. 40). Portanto, um caminho seguro é recuperar o sentido da caridade cristã e da partilha fraterna, cuidar das feridas corporais e espirituais do nosso próximo. A solidariedade no partilhar a dor e infundir esperança é premissa e condição para receber por herança aquele Reino preparado para nós. Quem pratica a misericórdia não teme a morte. Pensem bem nisto: quem pratica a misericórdia não teme a morte! Vocês estão de acordo? Digamos juntos para não esquecê-lo? Quem pratica a misericórdia não teme a morte. E por que não teme a morte? Porque a olha em face das feridas dos irmãos e a supera com o amor de Jesus Cristo.

Se abrirmos a porta da nossa vida e do nosso coração aos irmãos mais pequeninos, então também a nossa morte se tornará uma porta que nos introduzirá no céu, na pátria bem aventurada, para a qual estamos caminhando, desejando habitar para sempre com o nosso Pai, Deus, com Jesus, com Nossa Senhora e com os santos.

A ressurreição

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Aprenda a cultivar o jardim da sua existência

A palavra “ressurreição” significa levantar, erguer. Ela é muito usada nos textos da Sagrada Escritura, quando fala da ressurreição dos mortos. É o ato de uma pessoa considerada morta viver novamente. Um termo que passa por profunda reflexão no mês de novembro, principalmente quando celebramos o Dia de Todos os Santos e de Finados.

Nos fundamentos e no entendimento dos cristãos, a ressurreição tem uma base de fé. Para os descrentes ela não passa de uma aberração. Os cristãos a entendem como plenitude da vida, tendo seu desfecho em Deus. É o que motiva e dá ânimo para o enfrentamento dos sofrimentos na história de vida das pessoas.

O que dá base para a fé na ressurreição é a fidelidade aos ensinamentos divinos. A vida temporal na terra deve apoiar-se na fé, na esperança e na caridade. Pela ressurreição, ela terá continuidade na eternidade, não necessitando mais dessas virtudes humanas, apenas na totalidade do amor de Deus.

No tempo presente, a pessoa precisa cultivar o jardim de sua existência, mesmo diante das dificuldades dos atos de perseguição, de sofrimentos e de desânimo. Mas deve levar consigo a certeza de que a morte não é o término da vida, mas o caminho que leva para a realização daquilo que é a finalidade do ser humano, a vida em Deus.

Pensar na ressurreição como obra divina significa ter convicção de que Deus é sempre misericordioso, mas que também leva em conta a prática da justiça. O Senhor não abandonará na morte os que preferirem morrer a negar a fé. Portanto, a ressurreição é fruto também da escolha de fé feita de forma livre e determinada.

Não é fácil ter fé firme no meio de um mundo marcado pela descrença. Muitas pessoas, além de não ter fé na ressurreição, tentam também impedir a propagação do Evangelho. Existe até uma hostilidade de adversários, mas o cristão não pode se intimidar e desanimar só porque encontra dificuldades. É fundamental trabalhar a possibilidade de vida nova, vida feliz e plenamente realizada em Deus.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba (MG)
06/11/2013

Homilia do Papa na celebração no cemitério do Verano

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O Santo Padre improvisou e recordou a esperança que significa o céu

ROMA, 01 de Novembro de 2013 (Zenit.org) – “Queridos irmãos e irmãs. Neste cemitério, nos recolhemos e pensamos no nosso futuro, pensemos em todos aqueles que já foram, que nos precederam na vida e estão no Senhor. É tão bonita essa visão do céu que escutamos na primeira leitura. O Senhor Deus, a beleza, a bondade, a verdade, a ternura, o amor pleno, isso é o que nos espera. E aqueles que nos precederam e morreram no Senhor estão lá, proclamam que foram salvos não pelas suas obras. Fizeram-nas, mas foram salvos pelo Senhor. A salvação pertence ao nosso Deus, é ele quem nos salva e nos leva de mãos dadas como um pai e no final da nossa vida, a esse céu onde estão os nossos antepassados. Um dos anciãos faz uma pergunta: Quem são estes vestidos de branco, estes justos e estes santos que estão no Céu? São aqueles que vêm da grande tribulação e lavaram os seus vestidos tornando-os cândidos no sangue do Cordeiro. Só podemos entrar no céu por meio do sangue do cordeiro, por meio do sangue de Cristo. É o sangue de Cristo que nos justificou e nos abriu as portas do céu. E se hoje lembramos estes irmãos e irmãs que nos precederam no céu é porque foram lavados pelo sangue de Cristo. E esta é a nossa esperança, a esperança no sangue de Cristo e esta esperança não nos decepciona. Se vamos na vida com o Senhor, ele não nos decepciona jamais. João dizia aos seus discípulos. Vejam quão grande amor teve o Pai para chamar-nos filhos de Deus, o somos. Por isso o mundo não nos conhece: somos filhos de Deus. Mas o que seremos ainda não foi revelado. E muito mais. E quando se tiver manifestado seremos semelhantes a ele porque o veremos como ele é. Ver a Deus, ser semelhantes a Deus, esta é nossa esperança. E hoje, exatamente no dia dos santos, antes do dia dos mortos é preciso pensar na esperança, esta esperança que nos acompanha na vida. Os primeiros cristãos pintavam a esperança como uma âncora. Como se a vida fosse a âncora naquela margem e todos nós vamos segurando a corda. É uma bonita imagem esta esperança. Ter o coração ancorado lá onde estão os nossos, onde estão nossos antepassados, os santos, onde está Jesus e onde está Deus. E esta é a esperança, a esperança que não decepciona. E hoje e amanhã são dias de esperança. A esperança é um pouco como o fermento que amplia a alma, mas existem momentos difíceis na vida, porém a alma segue adiante e olha para o que nos espera. Hoje é um dia de esperança. Nossos irmãos e irmãs estão na presença de Deus e também nós estaremos ali por pura graça do Senhor se caminhamos pela estrada de Jesus. E conclui o apóstolo: ‘quem tem esta esperança nele se purifica a si mesmo. A esperança também nos purifica, nos alivia, nos faz ir mais rápidos. Esta purificação na esperança em Jesus Cristo’. Neste pré entardecer de hoje cada um de nós pode pensar no fim de sua vida. Pensemos, no meu, no teu, no teu, etc. Todos nós temos um entardecer, todos. Olho-o com esperança, com essa alegria de ser recebido pelo Senhor como é a alegria do cristão? E isso nos dá a paz. Este é um dia de glória, mas de uma glória serena, tranquila, da paz. Pensemos no entardecer de tantos irmãos e irmãs que nos antecederam, pensemos no nosso entardecer quando chegar, e pensemos no nosso coração e nos perguntemos: onde está ancorado o meu coração? E se não está ancorado bem, ancoremo-lo lá naquela margem, sabendo que a esperança não decepciona, porque o Senhor Jesus não decepciona.
Traduzido por Thácio Siqueira

 

Os santos não são “super-homens” e ser santo não é “privilégio de poucos”
Durante o Angelus por causa da celebração de Todos os Santos, o Papa Francisco lembra que o objetivo da nossa vida não é morte mas o Paraíso

ROMA, 01 de Novembro de 2013 (Zenit.org) – Às 12 horas de hoje, Solenidade de Todos os Santos, o Papa Francisco apareceu na janela do seu escritório no Palácio Apostólico Vaticano para recitar o Angelus com os fieis e os peregrinos reunidos na Praça de São Pedro. Publicamos abaixo as palavras do Papa antes e depois da oração mariana:
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Queridos irmãos e irmãs, bom dia! a festa de Todos os Santos, que hoje celebramos, nos lembra que o objetivo da nossa existência não é a morte, é o Paraíso! Isto foi escrito pelo apóstolo João: “O que seremos ainda não se manifestou. Sabemos que por ocasião desta manifestação seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é” (1 Jo 3, 2). Os santos, os amigos de Deus, nos garantem que esta promessa não decepciona. Em sua existência terrena, de fato, viveram em profunda comunhão com Deus. No rosto dos irmãos menores e desprezados viram o rosto de Deus, e agora o contemplam face a face na sua beleza gloriosa. Os santos não são super-homens, nem nasceram perfeitos. São como nós, como cada um de nós, são pessoas que antes de chegar à glória viveram uma vida normal, com alegrias e tristezas, lutas e esperanças. Mas o que foi que mudou as suas vidas? Quando conheceram o amor de Deus, seguiram-no com todo o coração, sem condições e hipocrisias; consumiram as suas vidas no serviço dos outros, suportaram sofrimentos e adversidades sem odiar e respondendo o mal com o bem, difundindo alegria e paz. Esta é a vida dos Santos: pessoas que por amor a Deus  não lhe colocaram restrições nas próprias vidas; não foram hipócritas; gastaram as suas vidas no serviço dos outros para servir o próximo; sofreram muitas dificuldades, mas sem odiar. Os Santos nunca odiaram. Compreendam bem isso: o amor é de Deus, mas o ódio vem de quem? O ódio não vem de Deus, mas do diabo! E os santos se afastaram do diabo; Os Santos são homens e mulheres que têm a alegria no coração e a transmitem aos outros. Nunca odiar, mas servir os outros, os mais necessitados; orar e viver na alegria; esse é o caminho da santidade! Ser santos não é um privilégio de poucos, como se alguém tivesse recebido uma grande herança; todos nós no Batismo temos a herança de poder tornar-nos santos. A santidade é uma vocação de todos. Todos, portanto, somos chamados a percorrer o caminho da santidade, e este caminho tem um nome, um rosto: o rosto de Jesus Cristo. Ele nos ensina a sermos santos. Ele nos mostra o caminho do Evangelho: o das Bem-aventuranças (cf. Mt 5, 1-12). O Reino dos Céus, na verdade, é para aqueles que não depositam sua confiança nas coisas, mas no amor de Deus; para aqueles que têm um coração simples, humilde, não presumem que são justos e não julgam os outros, aqueles que sabem sofrer com quem sofre e alegrar-se com quem se alegra, não são violentos, mas misericordiosos e buscam ser artífices de reconciliação e de paz. O Santo, a Santa é artífice de reconciliação e de paz; sempre ajuda as pessoas a se reconciliarem e sempre contribui para que haja a paz. E assim, a santidade é bela; é um belo caminho! Hoje, nesta festa, os santos nos dão uma mensagem. Nos dizem: confiem no Senhor, porque o Senhor não decepciona! Nunca decepciona, é sempre um bom amigo ao nosso lado. Com o seu testemunho os Santos nos encorajam a não termos medo de nadar contra a corrente ou de sermos mal interpretados e ridicularizados quando falamos Dele e do Evangelho; nos mostram com as suas vidas que aqueles que permanecem fieis a Deus e à sua Palavra experimenta já nessa terra o conforto do seu amor e depois “cem vezes mais” na eternidade. Isso é o que esperamos e pedimos ao Senhor pelos nossos irmãos e irmãs defuntas. Com sabedoria a Igreja colocou muito próximas a festa de Todos os Santos e a Comemoração de todos os fieis defuntos. À nossa oração de louvor a Deus e de veneração aos espíritos bem aventurados une-se à oração de sufrágio por todos aqueles que nos precederam na passagem desse mundo à vida eterna. Confiemos a nossa oração à intercessão de Maria, Rainha de todos os Santos.
[Depois do Angelus]
Queridos irmãos e irmãs, Saúdo todos vós com afeto, especialmente as famílias, os grupos paroquiais e as associações. Uma calorosa saudação vai para todos os que participaram esta manhã na Corrida dos Santos, organizada pela Fundação “Dom Bosco no mundo”. São Paulo diria que toda a vida do cristão é uma “corrida” para conquistar o prêmio da santidade: vocês nos dão um bom exemplo! Obrigado por esta corrida! Esta tarde irei ao cemitério do Verano e celebrarei a Santa Missa lá. Estarei unido espiritualmente a todos aqueles que visitam nesses dias os cemitérios, onde dormem aqueles que nos precederam no sinal da fé e esperam o dia da ressurreição. Especialmente, rezarei pelas vítimas da violência, especialmente pelos cristãos que perderam a vida por causa das perseguições. Rezarei também de modo especial por todos, irmãos e irmãs nossos, homens, mulheres e crianças que foram mortos por causa da sede, da fome e do cansaço na luta para chegar a uma condição de vida melhor. Nestes dias temos visto nos jornais aquelas imagens cruéis do deserto: façamos todos, em silêncio, uma oração por estes irmãos e irmãs nossos. Desejo a todos uma boa festa de Todos os Santos. Até mais e bom almoço!
Traduzido do original italiano por Thácio Siqueira

 

Santos não são super-homens, mas pessoas que conheceram o amor de Deus, diz o Papa
A HAIA, 01 Nov. 13 (ACI/EWTN Noticias) .- Diante de uma multidão de fiéis congregada na Praça de São Pedro, por ocasião da Festa de Todos os Santos, o Papa Francisco assinalou que estes não são super-homens, nem nasceram perfeitos, mas são seres humanos como nós que conheceram o amor de Deus.

O Santo Padre indicou que “Os Santos (…) são como nós, como cada um de nós, são pessoas que antes de alcançar a glória do céu viveram uma vida normal, com alegrias e dores, fadigas e esperanças”.

“Mas o que mudou sua vida? Quando conheceram o amor de Deus, seguiram-no com todo o coração, sem condições ou hipocrisias; gastaram sua vida ao serviço de outros, suportaram sofrimentos e adversidades sem odiar e respondendo ao mal com o bem, difundindo alegria e paz”.

Francisco disse que “esta é a vida dos Santos, pessoas que pelo amor de Deus não têm feito sua vida com condições a Deus, não foram hipócritas, gastaram sua vida ao serviço de outros, servir ao próximo, sofreram tantas adversidades, mas sem odiar”.

“Os Santos jamais odiaram. Porque, compreendam bem isto, o amor é de Deus, mas o ódio, de quem vem, vem de Deus o ódio? Não, vem do diabo! E os Santos se afastaram do diabo. Os Santos são homens e mulheres que têm a alegria no coração e a transmitem a outros”.

O Papa indicou que os Santos, “em sua existência terrena, viveram em comunhão profunda com Deus. No rosto dos irmãos mais humildes e desprezados viram o rosto de Deus, e agora o contemplam cara a cara em sua beleza gloriosa”.

O caminho da santidade, assinalou o Santo Padre, é “jamais odiar, servir os demais, os mais necessitados, rezar, e alegrar-se”.   “Ser Santos não é um privilégio de poucos, como se um deles tivesse recebido uma grande herança. Todos nós temos a herança de poder chegar a ser santos no Batismo”.

A santidade, sublinhou, “é uma vocação para todos. Portanto, todos estamos chamados a caminhar pela via da santidade, e esta via tem um nome, a via que leva a santidade tem um nome, tem um rosto: o rosto de Jesus. Ele nos ensina a chegar a ser Santos. Jesus Cristo, Ele no Evangelho nos mostra o caminho: o das Bem-aventuranças”.

“Com efeito, o Reino dos céus é para os que não põem sua segurança nas coisas, e sim no amor de Deus; para quantos têm um coração singelo, humilde, não presumem ser justos e não julgam os demais, quantos sabem sofrer com quem sofre e alegrar-se com quem se alegra, não são violentos mas misericordiosos e buscam ser artífices de reconciliação e de paz”.

O Papa remarcou que “o santo, a santa, é um artífice de reconciliação e de paz. Sempre ajuda a reconciliar as pessoas, sempre ajuda a que exista paz. E assim é bela a santidade. É um belo caminho”.

“Hoje os Santos nos dão uma mensagem nesta festa. Dizem-nos: confiem no Senhor, porque Ele não decepciona! O Senhor não decepciona jamais! É um bom amigo. Sempre a nosso lado. Não decepciona jamais! Com seu testemunho os Santos animam a não ter medo de ir contracorrente ou de serem incomprendidos e ludibriados quando falamos Dele e do Evangelho; demonstram-nos com sua vida que quem permanece fiel a Deus e à sua Palavra experimenta já nesta terra o consolo de seu amor, e depois o cêntuplo” na eternidade”.

Francisco disse que “com sabedoria a Igreja pôs em estreita sequência a festa de Todos os Santos e a Comemoração de todos os fiéis defuntos. A nossa oração de louvor a Deus e de veneração dos espíritos bem-aventurados se une a oração de sufrágio por quantos nos precederam na passagem deste mundo à vida eterna”.

“Encomendamos nossa oração à intercessão da Maria, Rainha de todos os Santos”, concluiu.

 

HOMILIA
Santa Missa celebrada pelo Papa Francisco no Cemitério Verano de Roma
Sexta-feira, 01 de novembro de 2013
Boletim da Santa Sé

Neste momento, antes do pôr do sol, neste Cemitério, nos reunimos e pensamos no nosso futuro, pensamos em todos aqueles que já partiram, todos aqueles que nos precederam na vida e estão com o Senhor. É tão bonita esta visão do céu que nós ouvimos na primeira leitura (cf. Ap 7,2-4.9-14).  Senhor Deus a beleza, a bondade, a verdade, a ternura, o amor total, aquilo que nos espera e aqueles que nos precederam, que morreram no Senhor e estão lá. Proclamam que foram santos, não pelas suas obras, fizeram obras boas, mas foram salvos pelos Senhor, a salvação pertence ao nosso Deus, é Ele que nos salva, é Ele que nos leva, como um Pai, pela mão, no final da nossa vida. Precisamente naquele Céu onde estão nossos antepassados.

Um dos anciãos faz uma pergunta: quem são esses vestidos de branco, esses justos, esses santos, que estão no céu? São aqueles que vêm de uma grande tribulação e lavaram suas vestes, tornando-as cândidas no sangue do Cordeiro. Somente entraram no céu, graças ao sangue do Cordeiro, graças ao sangue de Cristo. É o sangue de Cristo que nos justificou, que abriu as portas do Céu, e se hoje recordamos esses nossos irmãos que nos precederam na vida, que estão no Céu, é porque eles foram lavados pelo sangue de Cristo. Essa é nossa esperança. A esperança do sangue de Cristo. Essa esperança não dá desilusão. Esperamos na vida, como o Senhor. Ele não cria nenhuma desilusão, não nos dá desilusão, jamais.

João dizia aos seus apóstolos e seus discípulos: veja que grande amor Ele deu, o Pai, para sermos chamados filhos de Deus (cf. 1 Jo 3, 1-3). Por isso, o mundo não nos conhece, somos filhos de Deus, mas o que seremos ainda não nos foi revelado, é muito mais. Quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque o veremos como Ele é. Ver Deus, ser semelhante a Deus, essa é a nossa esperança. E hoje, no dia de todos os santos, antes do dia dos mortos, é necessário pensar um pouco na esperança. Essa esperança que nos acompanha na vida.

Os primeiros cristãos falam da esperança e a pintavam como uma âncora, como se a vida fosse a âncora naquela margem, onde todos nós, andando, indo, segurando a corda. É uma belíssima imagem, essa esperança. O coração ancorado lá, onde estão os nossos antepassados, os santos, onde se encontra Jesus, onde está Deus. Esta é a esperança, esta é a esperança que não cria desilusão.

Hoje e amanhã são dias de esperança. A esperança é como o fermento que faz ampliar a alma, mas também existem momentos difíceis na vida, mas com a esperança a alma vai avante, avante. Olha, olha aquilo que te espera! Hoje é um dia de esperança, os nossos irmãos e irmãs estão na presença de Deus, também nós, estaremos ali por graça do Senhor, se nós caminharmos na estrada de Jesus.

E conclui o apóstolo: cada um que tem essa esperança n’Ele purifica a sim mesmo. Também a esperança nos purifica, nos faz ir mais depressa. Nesse pré pôr do sol, cada um de nós pode pensar no pôr do sol de cada um, no meu, no seu, no nosso. Todos nós termos esse pôr do sol, mas eu olho para ele com esperança? Olho com aquela alegria de ser recebido pelo Senhor? Esse é o olhar cristão, isso nos dá paz. Hoje é dia de alegria, mas de uma alegria serena, tranquila, alegria da paz.

Vamos pensar no pôr do sol de tantos irmãos que nos precederam, o nosso pôr do sol que virá, vamos pensar no nosso coração, e vamos nos perguntar: onde está ancorado o meu coração? Se ele não está ancorado bem, vamos ancorá-lo lá, lá em cima sabendo que a esperança não nos dá desilusão, porque o Senhor Jesus jamais irá nos desiludir.

XXVII Domingo do Tempo Comum – Ano C

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Por Mons. Inácio José Schuster

Neste vigésimo sétimo Domingo do Tempo Comum, Lucas nos faz ouvir uma oração e petição dos Apóstolos de Jesus: “Senhor aumenta-nos a fé”. Verdadeiramente a fé é dom de Deus; a teologia clássica distingue as três virtudes teologais, fé, esperança e amor das outras virtudes, que se conseguem também com esforço humano. Assim como exemplo, com nosso esforço, é claro com a Graça de Deus, podemos conquistar pouco a pouco uma temperança, a castidade, a justiça, a honestidade, a transparência, mas nas virtudes teologais opera Deus diretamente. O homem não pode fazer nada para crer e a prova disto está em muitos contemporâneos nossos gostariam de crer, tem inveja dos que creem, mas não conseguem crer, ao menos até o momento presente. Deus tem os seus desígnios imperscrutáveis, Deus acende dentro de nós a luz da fé, se cremos verdadeiramente, se não brincamos com a nossa fé. É uma luz maravilhosa que ilumina o nosso túnel existencial em toda a sua extensão e recobram o sentido e tem resposta àquelas perguntas que são primeiríssimas e as ultimíssimas de todo ser humano: de onde eu vim, para onde eu vou, porque sou assim, qual o sentido da minha vida, qual o sentido da minha morte, para que direção eu me estou dirigindo? Com a fé e através da luz da fé se tem uma resposta a tudo isto. Nós louvamos e bendizemos a Deus pelo dom merecido da fé, mas tomemos cuidado! O dom se transforma em tarefa, aqueles que têm o dom da fé têm o poder de apagá-la e muitos apagaram esta luz dentro de si. Não vem dito que recobrarão novamente a luz que culpavelmente apagaram dentro de si. O texto de Lucas se continua com uma parábola que choca a nós modernos: a parábola do servidor que não faz outra coisa a não ser cumprir o seu dever. Assim somos nós diante de Deus. Ajudaria, quem sabe, alguns de nós sabermos o seguinte: Primeiro, eu necessito Deus para tudo, mas segundo, desculpe-me, Deus, não necessita de nenhum de nós para nada e tudo aquilo que recebemos é dom Seu, não é merecimento nosso, não nos é devido por coisa alguma a começar pela própria vida. Que fez você para existir? No íntimo da sua vida não esta você, foi um outro que o deu a si mesmo, nós somos apenas administradores de algo grandioso que recebemos sem nenhum pagamento, sem nenhum custo na nossa existência e assim somos nós diante de Deus, quanto mais nos humilharmos, quanto mais tocarmos a nossa verdade, mais Deus nos encherá de Seus dons, porque Seus dons são absolutamente gratuitos, porque o que Ele não deseja é que alguém se manifeste, ou se manifeste credor diante Dele. Não o é! Deus não é credor de pessoa alguma.

 

A fé já está: no coração
Padre Pacheco

O que levou os apóstolos a pedirem o aumento da fé em seus corações? Impressionante este apelo feito por eles a Jesus, aparentemente, de uma hora para outra. Que preocupação é esta? Entendamos. Nessa ocasião em que os apóstolos pedem o aumento da fé em suas vidas, anteriormente, estes tinham ouvido e visto muitas coisas que os preocuparam muitíssimo. Os Doze deixaram tudo para seguir Cristo, como é narrado no momento do encontro de cada um deles com o Senhor; todavia, conforme foi se dando a caminhada, Jesus foi formando-os de forma muito direta, sincera e franca. E disse-lhes que o caminho que leva à vida é apertado; se alguém quisesse segui-Lo era preciso deixar tudo, inclusive seus familiares; que era preciso amar os inimigos e perdoar sempre e incondicionalmente; e tantas outras coisas mais. Essas exigências foram fazendo com que muitos discípulos abandonassem o seguimento, a caminhada; Jesus, vendo tantos desistirem, ainda pergunta aos apóstolos: “E vós: não quereis ir com eles?” Os Doze ficam num embate tremendo e sabem que, para conseguir dar conta do recado, ou seja, perseverarem na caminhada, terão de ter a fé aumentada. Então clamam: “Aumenta a nossa fé!” Mas como entender essa história de aumento da fé? Existe fé aumentada? Temos ou não temos fé? A fé, ou se tem ou se não tem; como diz o ditado: “Ou temos fé de mais ou temos fé de menos”. Como entender isso? O que os apóstolos queriam dizer com esse pedido? Vamos lá. Em nós existe um “lugar” – este não é físico – chamado: sacrário inviolável; neste “lugar” ninguém pode entrar; somente quem pode entrar lá é Deus e nós; nem o demônio pode lá entrar. O  maligno, sabendo que lá não possui acesso, investe de forma muito sorrateira e oportunista para fazer com que nos percamos. No dia do nosso batismo, a semente da fé, da esperança e da caridade foram depositadas dentro desse sacrário inviolável – no coração do ser humano, biblicamente falando. Nunca perderemos essas virtudes, pois são virtudes teologais e os dons de Deus são irrevogáveis. Então, o que o demônio faz? Faz com que o pecado envolva esse sacrário e crie uma petrificação em torno dele, fazendo com que o ser humano perca a sensibilidade da fé, da esperança e da vivência da caridade. Quando os apóstolos pedem que a fé seja aumentada, o que eles estão pedindo, na verdade? Estão pedindo não que a fé – propriamente dita – seja aumentada, mas que de seus corações saiam essas realidades de pecado que estão tomando conta e que já se enraizaram em seus corações, como um pé de amoreira, conforme diz Jesus. Daí entendemos quando Deus fala pelo profeta Ezequiel: “Derramarei sobre vós uma água pura e sereis purificados; derramarei o meu espírito sobre vós; tirarei do vosso peito este coração de pedra e colocarei um coração de carne”. É preciso que venhamos a arrancar toda a realidade de pecado que se enraíza e petrifica o nosso coração, fazendo com que percamos a sensibilidade quanto a tudo aquilo que é de Deus e que nos coloca no Seu seguimento. A fé alimenta a esperança e faz com que, com alegria, venhamos a ter alegria em servir; então, como está na Palavra, sou eu quem faço o outro sentar, pois quem precisa servir sou eu. Depois de servir, digo com alegria: não fiz mais que minha obrigação, pois se sirvo, sirvo pelo fato de ter a graça de Deus em poder amar; se amo e sirvo, sou amado por Deus não por causa disso, mas sou amado por ser filho. O Todo-Poderoso me ama por aquilo que sou e não por aquilo que faço. Meu Deus é um Deus de amor e não um Deus das recompensas.

 

Ao preparar a celebração deste domingo, deveremos ter em conta alguns aspectos importantes. O primeiro aspecto a ter em conta é o momento presente. Neste domingo, é o dia da Eleição no Brasil para praticamente todos os níveis do governo. No momento da Oração dos Fiéis como também na homilia, deveria haver uma referência ao início de “um novo tempo” que se inicia, não interessando os nomes dos eleitos, pedindo ao Senhor a sua ajuda, para que tenhamos “uma boa colheita”. O segundo aspecto a ter em conta é mais psicológico e tem a ver com o momento das nossas comunidades paroquiais. Aqui, podemos encontrar de tudo: pessoas cheias de entusiasmo e pessoas abatidas e desanimadas. Não podemos esquecer que as nossas celebrações devem acompanhar os ritmos das pessoas. Há necessidade, então de elaborar objetivos para com elas serem concretizados. Também não podemos esquecer que devemos ser “catequéticos”, ou seja, devemos animar os abatidos, os deprimidos e todos aqueles que estejam passando por momentos difíceis na vida. É esta a ocasião de motivar a comunidade a iniciar um novo tempo com entusiasmo e com esperança. Um terceiro aspecto a ter em conta é situar os textos bíblicos na atualidade, sobretudo aqueles que têm mais continuidade, domingo a domingo, ou seja, a 2ª leitura e o evangelho. É muito importante salientar a unidade temática entre a 1ª leitura e o evangelho. Com o tempo, deveríamos fazer com as pessoas que regularmente celebram a Eucaristia Dominical como que uma espécie de curso bíblico, sem menosprezar os que são menos assíduos. Neste domingo, na segunda leitura, iniciamos a proclamação da segunda carta de S. Paulo a Timóteo (no domingo passado, terminamos a leitura da primeira carta que foi feita em três domingos). Esta carta será lida em quatro domingos. Trata-se não só de uma carta pessoal, escrita na prisão e no fim da vida de São Paulo, mas também de uma carta especificamente “pastoral”, com a preocupação de animar Timóteo, que era como que um “filho espiritual” de Paulo, para que ele oriente com fidelidade a comunidade de Éfeso. Os conselhos que Paulo dá a Timóteo são também para nós e para as nossas comunidades paroquiais. Para Paulo, a fidelidade é a “energia” da fé para “dar testemunho” em todos os momentos, especialmente nas dificuldades e nas provações. Esta ideia tem de ser bem assimilada por todos. Porventura, não será importante ter consciência de que o “Espírito Santo habita em nós”? Não trabalhamos com receio de Deus, mas com a energia do Espírito Santo. Esta é uma ideia chave na teologia Paulina. Sobre a fidelidade e a confiança nos momentos difíceis, fala-nos a primeira leitura do profeta Habacuc. É um belo diálogo entre o profeta e Deus em momentos críticos, nos quais o povo sentia-se abandonado. Deus recorda-nos que a vitória há-de vir pela fidelidade e pela paciência. Este texto do Antigo Testamento é uma boa introdução para o evangelho. Os discípulos pedem a Jesus que lhes aumente a sua fé, mas Ele recorda que a fé não é algo que esteja relacionado com a quantidade, mas com a qualidade. O humilde, o mais pequeno (o grão de mostarda), pode ser mais importante que aquele que tem mais protagonismo (a amoreira plantada no mar). O evangelho faz-nos ver as coisas da vida de outra maneira, como o criado que faz o seu trabalho, não porque lhe pagam ou é mandado, mas porque é sua obrigação e seu dever. Esta é a gratuidade da fé. Assim, Jesus diz-nos que a fé só pode ser aumentada com o serviço gratuito aos outros. Confiando e não esperando uma gratificação (por muito merecida que seja). É fundamental deixar bem claro à paróquia que não se trata de fazer um amontoado de atividades, mas de valorizar ainda mais o que fazemos. Aumentar em qualidade e não em quantidade.

 

A soberania de Deus e nossa fé
Dom Eurico dos Santos Veloso

No Evangelho de Lucas 17, 5-10, Jesus narra a parábola dos “servos inúteis”, que não deveriam esperar recompensas ou honras por terem cumprido o que simplesmente era seu dever. A imitação de Cristo é uma luta dura e complexa. Crescemos gradualmente no conhecimento de Deus – mas não de maneira intelectual, racional ou acadêmica – quando cumprimos seus mandamentos. A fé é a característica decisiva do cristianismo, que lhe dá força e originalidade. O cristão vive da fé que consiste na adesão livre e comprometida com Deus, na crença em seu amor. O que distingue a fé da religião e dos diversos credos é a adesão incondicional à pessoa de Jesus Cristo. Fé, definitivamente, significa aderir a Jesus Cristo, não uma adesão primeira e necessariamente intelectual, mas adesão de obediência, de comunhão de vida, de aceitação concreta do ideal proposto. Portanto, a fé se torna um desafio, pois imprime no cristão categorias de pensamento, de comportamento, de sentimento, provocando no homem a escolha de Deus e a libertação de toda a idolatria, sob qualquer nome, aparência e condição. Essa parábola aplica-se particularmente, aos evangelizadores e, de modo geral, a todos aqueles que estão a serviço da Igreja. Às vezes, queremos fazer uma “carreira” na vida apostólica, mediante promoções, privilégios e outras “recompensas” humanas. Tudo isso está longe dos ensinamentos de Jesus, que deseja que façamos de nosso seguimento a Ele e de nosso serviço aos outros a recompensa e o significado de nossas vidas. Pensamento interesseiro é, por si, ridículo. A pessoa pensa: “Sou bonzinho, cumpro meus deveres, já ganhei o céu” e se esquece que o céu se conquista a cada dia, amando a Deus e aos irmãos, em cada circunstância, com humildade, disponibilidade e amor, e, acima, com perdão e acolhida do diferente.

 

VIGÉSIMO SÉTIMO DOMINGO COMUM
Lucas 17, 5-10 “Aumenta a nossa fé!”

Lucas reúne nos primeiros dez versículos deste capítulo diversos dizeres de Jesus sobre algumas atitudes fundamentais para a vida de quem quer segui-Lo pelo caminho do discipulado. Podemos dividir o trecho de hoje em duas partes: vv. 5-7 e vv. 8-10. A primeira parte trata da questão da fé inabalável, que deve ser característica do discípulo. Inicia-se o diálogo com os apóstolos expressando diante de Jesus a sua insegurança quanto à sua fé: “Os apóstolos disseram ao Senhor: “Aumenta a nossa fé!” (v. 5). Tal pedido tem outros ecos nos evangelhos. Faz-nos lembrar do pai do moço epiléptico em Marcos: “Eu tenho fé, mas ajude a minha falta de fé!” (Mc 9, 24) É a experiência de todo(a) discípulo(a) – acreditamos em Jesus, queremos seguir a sua pessoa e o seu projeto, mas a vida se encarrega de nos demonstrar como é fraca a nossa fé – quantas caídas, traições, incoerências, recaídas! O único recurso é pedir este dom gratuito de Deus que ninguém pode merecer, que é a fé inabalável. Do fundo no nosso ser gritamos com os Doze: “Aumenta a nossa fé!” Com a hipérbole (exagero) típica do oriental, Jesus enfatiza tanto a necessidade da fé quanto a sua força, através das imagens do grão de mostarda (semente bem pequena), e da amoreira – árvore mais ou menos grande que tem um sistema extensivo de raízes: “Se vocês tivessem fé do tamanho de uma semente de mostarda, poderiam dizer a esta amoreira: “Arranque-se daí, e plante-se no mar. E ela obedeceria a vocês.” (v. 6) A segunda parte do trecho fala sobre a atitude correta de quem tem um ofício ou ministério dentro da comunidade cristã. Em outros trechos – como 12, 35-37 – Lucas enfatiza a gratuidade de Deus diante da escolha dos seus discípulos. Aqui temos o outro lado – a responsabilidade de quem foi chamado sem mérito algum da sua parte. Mas, o ensinamento não é que os discípulos não valem nada, nem que o seu trabalho não tem valor. O ponto central é que o fato de terem desenvolvido bem as suas tarefas e missão não lhes dá o direito de exigir a graça de Deus, por causa dos seus méritos. Tal graça é, e sempre será, um dom gratuitamente oferecido. Hoje nós estamos na mesma situação dos apóstolos – fomos chamados à fé sem mérito algum da nossa parte. Agradecendo a Deus por este dom, assumamos a nossa parte – a de cumprir bem a missão recebida, sem nos vangloriarmos disso, pois se nós conseguimos fazer bem as coisas, também é porque podíamos contar com a graça de Deus. Sem falsa humildade, mas também sem vaidade, devemos rezar: “Somos empregados inúteis; fizemos o que devíamos fazer” (v. 19)

Papa destaca que a esperança do cristão é o próprio Jesus

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Missa na Casa Santa Marta, segunda-feira, 9 de setembro  de 2013, Da Redação, com Rádio Vaticano em italiano

Francisco explicou que esperança é uma “virtude humilde”, que não se confunde com otimismo, pois é algo maior

Em Missa celebrada na manhã desta segunda-feira, 9, na Casa Santa Marta, Papa Francisco refletiu sobre a esperança do cristão. Segundo ele, não é algo que se confunde com otimismo, pois este é um comportamento de humor, mas trata-se do Jesus em pessoa, sua força de libertar e fazer nova toda a vida.

Essa abordagem sobre a  esperança partiu da Carta de São Paulo aos Colosseus “Cristo em vós, esperança da glória”. Francisco explicou que a esperança é uma virtude de ‘segunda classe’ se comparada às mais citadas, fé e caridade. Por isto, pode acabar sendo confundida com um sereno bom humor.

“Mas a esperança é outra coisa, não é otimismo. A esperança é um dom, é um presente do Espírito Santo (…) Se você não diz ‘Tenho esperança em Jesus, em Jesus Cristo, Pessoa viva, que agora vem na Eucaristia, que está presente na Palavra’, isso não é esperança. É um bom humor, otimismo…”.

Do Evangelho, o Santo Padre retirou a segunda reflexão do dia.  O episódio é aquele em que Jesus cura em dia de sábado a mão paralisada de um homem, suscitando a reprovação dos escribas e fariseus. Com seu milagre, observou o Papa, Jesus liberta a mão da doença e demonstra “aos rigorosos” que o caminho deles não é o da liberdade.

“Liberdade e esperança andam juntas: onde não há esperança, não pode haver liberdade (…) Jesus, a esperança, refaz tudo (…) O milagre de refazer tudo: aquilo que faz na minha vida, na tua, na nossa vida. Refazer. E isto que Ele refaz é justamente o motivo da nossa esperança”, disse.

Nesse ponto, o Papa dirigiu um olhar particular aos padres, dizendo ser triste quando se encontra um padre sem esperança, enquanto é belo encontrar um que chega ao fim da vida não com otimismo, mas com a esperança. “Este padre está ligado a Jesus Cristo e o povo de Deus precisa que nós padres demos este sinal de esperança, vivamos esta esperança em Jesus que tudo refaz”.

 

Papa Francisco: “O cristão deve ter paixão pela esperança”
2013-09-09 Rádio Vaticana  
Cidade do Vaticano (RV) – Não devemos confundir a virtude da esperança com o otimismo. Foi o que disse o Papa na missa celebrada esta manhã na Casa Santa Marta. Para um cristão, a esperança é Jesus em pessoa, é a sua força de libertar e refazer uma nova vida. Inspirando-se na Carta de Paulo aos Colossenses, Francisco explicou que o otimismo é uma atitude humana que depende de tantas coisas. Todavia, a esperança é uma virtude de “segunda classe”, a “virtude humilde” se comparada com as virtudes da fé e da caridade. Por isso, pode ser confundida com o bom humor: Mas a esperança é outra coisa, não é otimismo. A esperança é um dom, é um presente do Espírito Santo. Paulo dirá que é um dom que “jamais decepciona”. Por quê? Porque é um dom que o Espírito Santo nos deu. E Paulo nos diz que a esperança tem o nome: Jesus. Não podemos dizer “Tenho esperança na vida, em Deus”. Se não dizemos “Tenho esperança em Jesus Cristo, pessoa viva, que agora vive na Eucaristia, que está presente na sua Palavra”, não é esperança; é bom humor e otimismo …

A seguir, Francisco comentou o Evangelho, o episódio em que Jesus cura a mão paralisada de um homem, suscitando a reprovação de escribas e fariseus. Com o seu milagre, observou o Papa, Jesus liberta a mão da doença e demonstra a quem o critica que o caminho deles não é o da liberdade. “Liberdade e esperança caminham juntas: onde não há esperança, não há liberdade”, afirmou o Pontífice. Que acrescentou: “Jesus liberta da doença, do rigor e refaz aquele homem e quem não acreditou nele: Jesus, a esperança. Refaz tudo. É um milagre constante. Não somente fez milagres de curas, tantas coisas…eram somente sinais, sinais daquilo que está fazendo agora, na Igreja. O milagre de refazer tudo: o que faz na minha, na tua e na nossa vida. Refazer. E o que ele refaz é justamente o motivo da nossa esperança. E esta esperança não decepciona porque Ele é fiel.

O Papa então citou de modo especial os sacerdotes. “É um pouco triste” – admitiu ele, quando encontra um sacerdote que perdeu a esperança, enquanto é belo encontrar quem chega no final da vida não com otimismo, mas com esperança”. “Este sacerdote está em união com Jesus Cristo, e o povo de Deus precisa de que nós padres ofereçamos este sinal de esperança, vivamos esta esperança em Jesus que refaz todas as coisas”: O Senhor que é a esperança da glória, que é o centro, que é a totalidade, nos ajude nesta direção: dar esperança, ter paixão pela esperança. E, como disse, nem sempre é otimismo, mas foi o que Nossa Senhora teve no momento das trevas: na noite de Sexta-feira até a manhã do domingo. Aquela esperança; e ela a tinha. E aquela esperança refez tudo. Que o Senhor nos dê esta graça. (BF)

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