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O que a Ascensão de Jesus diz ao cristão de hoje?

Corações voltados para o alto!

O futuro é fruto do que semeamos nos campos da vida. Não há colheita sem o devido cuidado com a plantação. No campo da vida, o amor é essencial, para que possamos produzir os mais belos frutos de um tempo novo, nascido da esperança que cultivamos com a fé. O céu que esperamos começa a ser construído no hoje de nossa história. Na esperança da glória futura estão impressas as marcas do amor.

Na solenidade da Ascensão do Senhor voltamos nosso olhar para Aquele que nos aponta a esperança de nossa vida futura juntos do Seu amor. O hoje de nossa história é tempo teológico para sacramentalizarmos o amor em gestos concretos de vida em plenitude. O Cristo que olhamos é o mesmo que esteve e continua entre nós. O cotidiano da vida é uma preparação para um tempo novo que sonhamos. Um futuro onde cada um de nós terá uma participação plena na vida de Deus.

Juntos de Deus viveremos uma nova relação entre Criador e criatura. Na total transparência dos sentimentos, seremos livres dos limites e dificuldades da condição terrena. No amor trinitário saborearemos a plenitude da comunhão eterna. Em Deus conheceremos o amor que hoje de modo limitado sentimos. A esperança da glória futura nos abre diante da vida as mais belas possibilidades de vivermos hoje o futuro glorioso que esperamos.

A Eucaristia antecipa em nossa alma a comunhão celeste. No pão e no vinho consagrados, corpo e sangue de Cristo, está presente toda a criação, fruto da terra e do trabalho do homem. Na comunhão eucarística já pertencemos aos céus novos e à terra nova. Todos nós que comungamos da Eucaristia estamos, em esperança, na realidade do céu. O céu que nosso coração contempla é antecipado no amor de Cristo doado e partilhado por toda a humanidade.

Esta solenidade que celebramos ensina-nos também a vivermos na terra com as realidades do céu. A comunhão eterna é antecipada em cada gesto de amor e fraternidade entre nós. A paz divina é vivida, ainda que de modo limitado, em cada gesto que devolve vida à humanidade. O amor trinitário é antecipado em cada ato que se faz solidariedade e compaixão entre nós.

Com o coração voltado para o alto, caminhos na terra construindo junto de cada irmão e irmã os céus novos e a terra nova que esperamos um dia viver de maneira plena e infinita. O mundo novo que sonhamos começa a ser vivido em cada gesto de fraternidade.

Corações voltados para o alto com os pés enraizados no amor de Cristo. Eis a nossa missão diante da ascensão de Cristo: fazermos de nossa vida terrena uma antecipação da glória da futura.

Padre Flávio Sobreiro

Catequese: Jesus nos oferece a “terapia da esperança”

Quarta-feira, 24 de maio de 2017, Da redação, com Rádio Vaticano

Cerca de 20 mil pessoas estiveram com o Papa na Catequese desta quarta-feira

A terapia da esperança: foi o que propôs o Papa Francisco aos cerca de 20 mil fiéis reunidos na Praça S. Pedro na Audiência Geral desta quarta-feira, 24.

Em sua catequese, o Pontífice comentou a experiência dos dois discípulos de Emaús, de que fala o Evangelho de Lucas. Dois homens caminhavam desiludidos após a morte de Jesus. Caminhavam tristes, porque viram morrer as esperanças que tinham depositado em Jesus, sendo a cruz erguida no Calvário o sinal mais eloquente da derrota que não tinham previsto.

O encontro de Jesus com os dois discípulos parece casual. Caminham pensativos e um desconhecido se aproxima: é Cristo, que então começa a sua “terapia da esperança”. “Quem a faz? Jesus. Antes de tudo, pergunta e escuta, pois o nosso Deus não é um Deus intrometido”, disse o Papa.

Mesmo conhecendo o motivo da desilusão, deixa que falem de sua amargura. O resultado é uma confissão que mais se parece com um refrão da existência humana: «Nós esperávamos, mas…»

“Quantas tristezas, quantas derrotas, quantas falências existem na vida de cada pessoa! No fundo, somos todos um pouco como esses dois discípulos. Quantas vezes nos encontramos a um passo da felicidade e ficamos desiludidos. Mas Jesus caminha com todas as pessoas cabisbaixas. E caminhando com elas, de forma discreta, lhes restitui a esperança.”

A verdadeira esperança passa através de derrotas. Nos Livros Sagrados, não se encontram histórias de heroísmo fácil, nem campanhas fulminantes de conquista. Deus não gosta de ser amado como um General que leva o seu povo à vitória, aniquilando os adversários. A presença do Senhor lembra uma chama frágil que arde num dia de frio e vento; e, para aparecer ainda mais frágil esta sua presença neste mundo, foi esconder-Se num lugar que todos desdenham.

Com os dois discípulos, Jesus repete o gesto fulcral da Eucaristia: tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, o entregou. Neste gesto está também o significado de como deve ser a Igreja: o destino de cada um de nós. Jesus nos toma, pronuncia a bênção, e espedaça a nossa vida – porque não há amor sem sacrifício – e a oferece aos outros, a todos.

O encontro de Jesus com os dois discípulos é rápido. Mas nele está todo o destino da Igreja. Nos fala que a comunidade cristã não está fechada numa cidadela fortificada, mas caminha no seu ambiente mais vital, isto é, na rua. E ali encontra as pessoas, com suas esperanças e suas desilusões. A Igreja oferece escuta a todos, para depois oferecer a Palavra de vida. E então o coração das pessoas volta a arder de esperança.

“Todos na nossa vida tivemos momentos difíceis, momentos em que caminhávamos tristes, desiludidos, sem horizonte, somente com um muro diante de nós. Jesus sempre está do nosso lado, para nos dar esperança,. Para nos aquecer o coração. Ele nos diz: vai avante, estou com você, prossiga.”

O segredo do caminho que conduz a Emaús está aqui: apesar das aparências contrárias, nós continuamos a ser amados por Deus; Ele jamais deixará de nos querer bem.

“Deus caminhará conosco sempre, sempre, mesmo nos momentos mais dolorosos, nos momentos mais duros, de derrota. Ali está o Senhor. E esta é a nossa esperança, prossigamos com esta esperança, porque Ele está do nosso lado caminhando conosco, sempre!”

 

CATEQUESE

A Esperança cristã – 23. Emaús, o caminho da Esperança

Caros irmãos e irmãs, bom dia !

Hoje gostaria de me deter sobre a experiência dos dois discípulos de Emaús, dos quais fala o Evangelho de Lucas (cfr. 24,13-35). Imaginemos a cena: dois homens caminham decepcionados, tristes, convencidos a deixar pra traz a amargura de uma situação que não acabou bem.

Antes daquela Páscoa eram cheios de entusiasmo: convencidos de que aqueles dias seriam decisivos para aquilo que aguardavam e para a esperança de todo o povo. Jesus, a quem tinham confiado a sua vida, parecia ter chegado a batalha decisiva: agora teria mostrado a sua potência, após um longo período de preparação e escondimento. Era isso o que eles esperavam. E não foi assim.

Os dois peregrinos cultivavam uma esperança somente humana, que agora estava em pedaços. Aquela cruz erguida no Calvário era o sinal mais eloquente de um fracasso que não poderiam prever. Se verdadeiramente aquele Jesus era segundo o coração de Deus, deveriam concluir que Deus era inerme, indefeso nas mãos dos violentos, incapaz de opor resistência ao mal.

Assim, naquela manhã de domingo, estes dois foram à Jerusalém. Nos olhos têm ainda os acontecimentos da paixão, a morte de Jesus; e no ânimo o penoso angustiar-se sobre aqueles acontecimentos, durante o forçado repouso de sábado. Aquela festa de Páscoa, que deveria entoar o canto da libertação, ao invés de disso transformou-se no dia mais doloroso da vida deles.

Deixam Jerusalém para ir para outro lugar, um vilarejo tranquilo. Têm o aspecto de pessoas que querem remover uma recordação que queima. Estão, portanto, na estrada, e caminham tristes. Este cenário – a estrada – já era importante na narração evangélica; agora se tornará sempre mais importante, do momento em que se começa a contar a história da Igreja.

O encontro de Jesus com os dois discípulos parece simplesmente coincidência: se assemelha a tantos encontros que acontecem na vida. Os dois discípulos caminham pensativos e um desconhecido os alcança. É Jesus; mas os olhos deles não são capazes de reconhecê-Lo. Então Jesus começa a sua “terapia da esperança”. O que acontece nessa estrada é uma terapia da esperança. Quem a faz? Jesus.

Antes de tudo, pergunta e escuta: o nosso Deus não é um Deus invasivo. Mesmo se já conhece o motivo da desilusão daqueles dois, deixa a eles o tempo para poder medir a profundidade da própria amargura. Então surge uma confissão que é um “refrão” da existência humana: “Nós esperávamos, mas… Nós esperávamos, mas…” (v. 21). Quanta tristeza, quanta derrota, quantos fracassos existem na vida de cada pessoa ! No fundo somos todos um pouco como aqueles dois discípulos.

Quantas vezes na vida esperamos, quantas vezes nos sentimos a um passo da felicidade, e depois nos vemos desiludidos. Mas Jesus caminha com todas as pessoas que perderam a confiança que caminham com a cabeça baixa. E caminhando com eles, de modo discreto, consegue fazer retornar a esperança.

Jesus fala a eles, antes de tudo, através das Escrituras. Quem toma nas mãos o livro de Deus não encontrará histórias de heroísmo fácil, grandes campanhas de conquista. A verdadeira esperança não é nunca a pouco preço: passa sempre através das derrotas. A esperança de quem não sofre, talvez não seja nem mesmo esperança. A Deus não agrada ser amado como se amaria um condutor que leva a vitória o seu povo destruindo no sangue os seus adversários. O nosso Deus é uma luz discreta que arde no dia de frio e de vento, e mesmo que pareça frágil a sua presença neste mundo, Ele escolheu o lugar que todos desdenhamos.

Depois Jesus repete aos dois discípulos o gesto central de cada Eucaristia: toma o pão, o abençoa, o parte e o dá. Nesta série de gestos, não está contida toda a história de Jesus? E não há, em cada Eucaristia, também um sinal de que coisa deve ser a Igreja? Jesus nos toma, nos abençoa, “parte” a nossa vida – porque não há amor sem sacrifício – e oferece aos outros, a oferece a todos.

É um encontro rápido o de Jesus com os dois discípulos de Emaús. Mas nisso está todo o destino da Igreja. Nos diz que a comunidade cristã não está fechada em uma cidadela fortificada, mas caminha em seu ambiente mais vital, vale dizer, a estrada. E ali encontra as pessoas, com as suas esperanças e suas desilusões, as vezes muito pesadas. A Igreja escuta a história de todos, como emergem do baú da consciência pessoal; para depois oferecer a Palavra de Vida, o testemunho do amor, amor fiel até o fim. E então, o coração das pessoas volta a arder de esperança.

Todos nós, na nossa vida, tivemos momentos difíceis, escuros; momentos nos quais caminhávamos tristes, pensativos, sem horizontes, somente com uma parede diante. E Jesus está sempre ao nosso lado para nos dar a esperança, para aquecer o coração e dizer: Vá em frente, eu estou contigo. Vá em frente”.

O segredo da estrada que conduz a Emaús está todo aqui: mesmo diante das aparências contrárias, nós continuamos a ser amados, e Deus nunca deixará de nos amar. Deus caminhará sempre conosco, sempre, mesmo nos momentos mais dolorosos, também nos momentos mais feios, também nos momentos de derrota: ali está o Senhor. E esta é a nossa esperança. Caminhamos adiante com esta esperança ! Porque Ele está conosco e caminha conosco, sempre!

É possível medir o amor de mãe?

As alegrias e os desafios da maternidade

O amor materno é algo imensurável, ou seja, que não pode ser medido.

Olhe para uma mãe e você verá alguém tão cheia de amor que não coube dentro de si mesma: transbordou para além do cônjuge, nos filhos. Quem é mãe, nasceu para a maternidade. Maternidade assumida gera sempre mais vida, mais amor.

Descobri cedo que Deus me fez para a maternidade, quando, ainda na infância, ouvindo tantas vezes na escola a música “Maria de Nazaré”, imaginava Nossa Senhora amamentando Jesus, trocando Sua fralda e, depois, dando comida em Sua boca, ensinando-O a falar, caminhar, escovar os dentinhos… E sonhava com os filhos que eu teria um dia.

Cresci com esse sentimento da maternidade em meu coração.

Na época do namoro, eu e meu esposo sonhávamos com a família que constituiríamos, com os muitos filhos que teríamos. Sonhávamos em ter seis filhos.

Já casados, com três crianças, planejávamos o quarto filho. Foi quando alguém me questionou se eu queria mesmo ter mais filhos, que isso era loucura, que a vida era muito corrida, e como eu poderia educá-los. Respondi simplesmente que, se fosse a vontade de Deus, eu queria sim.

Fui para capela rezar e dizia: “Se o Senhor me fez para o matrimônio, o Senhor me fez para maternidade. Então, vou ter todos os filhos que o Senhor quiser me dar!”. E Deus me presenteou com esta Palavra: “Colocarei Nele a minha confiança. Eis-me aqui, eu e os filhos que Deus me deu” (Hb 2,13).

Os meus filhos são bem-vindos, são queridos, em primeiro lugar, por Deus! Só preciso confiar n’Ele! Meu coração encheu-se de uma profunda paz!

De lá para cá, estou grávida do quinto filho ou filha; na verdade, sexto, pois, temos um intercedendo pela família, no céu. E vejo a promessa de Deus se cumprindo em nossa família e em minha vida.

A cada luta, a cada desafio, a cada lágrima derramada na criação, formação e educação dos filhos, brota a esperança, pois sei onde coloquei a minha confiança! E a Divina Providência nos acompanha em todos os momentos.

Nas enfermidades dos pequenos, na hora da correção, na hora de formar o caráter, na hora de pôr no colo e dar carinho, essa confiança no Senhor me orienta.

Errando sim, muitas vezes, mas aprendendo também com os erros, vou vivendo com muito amor e alegria a minha missão como mãe.

Na hora da dúvida, recorro à Virgem Maria. E ela me coloca na via segura, ensinando-me como devo agir.

A cada filho que nascia e chegava em casa e parecia que ainda estava faltando gente. Por fim, passei a perguntar a Deus: “Senhor, ainda está faltando alguém? Pois não quero que fique faltando ninguém!”. E Ele respondeu-me: “Tem lugar para mais um. No carro, na mesa, na casa, na vida e no coração de vocês”.

Deus estava dizendo: “No seu coração, sempre vai haver lugar para mais um”. Assim é o amor de mãe!

Não é preciso ter medo do desafio. Você, mãe, conta com a graça de Deus para cumprir tão sublime missão. Coloque no Senhor a sua confiança e tenha certeza: Deus estará com você, em todos os momentos, pois os seus filhos são queridos e amados por Ele. E as alegrias são bem maiores que as dificuldades!

Alguém já disse: “A melhor herança que se pode deixar para um filho é um irmão!”. Pense sobre isso e deixe a vida florir em seu coração e no seio do seu lar!

Quando você diz para um filho pequenino: “Você mora no meu coração”, e ele, surpreendentemente lhe responde, sorrindo e batendo no peito: “Você também!”. Isso não tem preço. É a recompensa do Céu!

Gilmara Lira – Comunidade Canção Nova

Pastorzinhos de Fátima, Francisco e Jacinta, são Santos

Crianças Jacinta e Francisco são canonizados em Fátima – REUTERS
 
13/05/2017

Fátima (RV) – No dia em que a Igreja celebra Nossa Senhora de Fátima, o Papa Francisco canonizou os pequenos pastores Jacinta e Francisco Marto, que cem anos atrás, tiveram as visões e receberam a mensagem de Nossa Senhora. São as primeiras crianças não-mártires santificadas pela Igreja.

Foi também a primeira vez que uma canonização foi celebrada em Portugal e cerca de meio milhão de fiéis de todas as partes do mundo tomaram conta da esplanada diante do Santuário. Muitos já estavam lá desde a noite de sexta-feira para garantir seu lugar na missa.

Ao chegar à Basílica de Nossa Senhora do Rosário, o Papa cumprimentou o sacerdote mais idoso de Portugal, de 104 anos, que viveu toda a história do Santuário, e rezou diante do túmulo dos pequenos irmãos, que morreram aos 9 e 10 anos.

No exterior, Francisco incensou a imagem de Nossa Senhora, em cuja coroa está encastrada a bala que atingiu o Papa João Paulo II no atentado sofrido na Praça São Pedro, em 13 de maio de 1981.

A missa, da qual participou também o menino brasileiro Lucas Batista, 9 anos, curado graças à intercessão dos pastorzinhos, teve início com o rito da canonização. O bispo de Leiria-Fátima, Dom Antonio Marto, pediu ao Papa que procedesse à canonização dos meninos e leu as suas biografias.

Em sua homilia, proferida em português, o Papa começou relatando a primeira visão dos dois irmãos e da prima, Lúcia, naquela manhã de cem anos atrás e “a Luz de Deus que irradiava de Nossa Senhora e envolvia-os no manto de Luz que Deus Lhe dera”.

“Fátima é sobretudo este manto de Luz que nos cobre, aqui como em qualquer outro lugar da Terra quando nos refugiamos sob a proteção da Virgem Mãe para Lhe pedir, como ensina a Salve Rainha, «mostrai-nos Jesus». Queridos peregrinos, temos Mãe”.

Hoje, prosseguiu Francisco, “nos reunimos aqui para agradecer as bênçãos sem conta que o Céu concedeu nestes cem anos, passados sob o manto de Luz que Nossa Senhora, a partir deste esperançoso Portugal, estendeu sobre os quatro cantos da Terra”.

“Dos braços da Virgem”, disse o Papa, “virá a esperança e a paz que necessitam e que suplico para todos os meus irmãos no Batismo e em humanidade, de modo especial para os doentes e pessoas com deficiência, os presos e desempregados, os pobres e abandonados. Queridos irmãos, rezamos a Deus com a esperança de que nos escutem os homens; e dirigimo-nos aos homens com a certeza de que nos vale Deus”.

Concluindo, Francisco exortou os fiéis: “Sob a proteção de Maria, sejamos, no mundo, sentinelas da madrugada que sabem contemplar o verdadeiro rosto de Jesus Salvador, aquele que brilha na Páscoa, e descobrir novamente o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor”.

(CM)

 

HOMILIA pronunciada pelo Papa na canonização dos pequenos Francisco e Jacinta Marto

«Apareceu no Céu (…) uma mulher revestida de sol»: atesta o vidente de Patmos no Apocalipse (12, 1), anotando ainda que ela «estava para ser mãe». Depois ouvimos, no Evangelho, Jesus dizer ao discípulo: «Eis a tua Mãe» (Jo 19, 26-27). Temos Mãe! Uma «Senhora tão bonita»: comentavam entre si os videntes de Fátima a caminho de casa, naquele abençoado dia treze de maio de há cem anos atrás. E, à noite, a Jacinta não se conteve e desvendou o segredo à mãe: «Hoje vi Nossa Senhora». Tinham visto a Mãe do Céu. Pela esteira que seguiam os seus olhos, se alongou o olhar de muitos, mas… estes não A viram. A Virgem Mãe não veio aqui, para que A víssemos; para isso teremos a eternidade inteira, naturalmente se formos para o Céu.

Mas Ela, antevendo e advertindo-nos para o risco do Inferno onde leva a vida – tantas vezes proposta e imposta – sem-Deus e profanando Deus nas suas criaturas, veio lembrar-nos a Luz de Deus que nos habita e cobre, pois, como ouvíamos na Primeira Leitura, «o filho foi levado para junto de Deus» (Ap 12, 5). E, no dizer de Lúcia, os três privilegiados ficavam dentro da Luz de Deus que irradiava de Nossa Senhora. Envolvia-os no manto de Luz que Deus Lhe dera. No crer e sentir de muitos peregrinos, se não mesmo de todos, Fátima é sobretudo este manto de Luz que nos cobre, aqui como em qualquer outro lugar da Terra quando nos refugiamos sob a proteção da Virgem Mãe para Lhe pedir, como ensina a Salve Rainha, «mostrai-nos Jesus».

Queridos peregrinos, temos Mãe. Agarrados a Ela como filhos, vivamos da esperança que assenta em Jesus, pois, como ouvíamos na Segunda Leitura, «aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo» (Rm 5, 17). Quando Jesus subiu ao Céu, levou para junto do Pai celeste a humanidade – a nossa humanidade – que tinha assumido no seio da Virgem Mãe, e nunca mais a largará. Como uma âncora, fundeemos a nossa esperança nessa humanidade colocada nos Céus à direita do Pai (cf. Ef 2, 6). Seja esta esperança a alavanca da vida de todos nós! Uma esperança que nos sustente sempre, até ao último respiro.

Com esta esperança, nos congregamos aqui para agradecer as bênçãos sem conta que o Céu concedeu nestes cem anos, passados sob o referido manto de Luz que Nossa Senhora, a partir deste esperançoso Portugal, estendeu sobre os quatro cantos da Terra. Como exemplo, temos diante dos olhos São Francisco Marto e Santa Jacinta, a quem a Virgem Maria introduziu no mar imenso da Luz de Deus e aí os levou a adorá-Lo. Daqui lhes vinha a força para superar contrariedades e sofrimentos. A presença divina tornou-se constante nas suas vidas, como se manifesta claramente na súplica instante pelos pecadores e no desejo permanente de estar junto a «Jesus Escondido» no Sacrário.

Nas suas Memórias (III, n. 6), a Irmã Lúcia dá a palavra à Jacinta que beneficiara duma visão: «Não vês tanta estrada, tantos caminhos e campos cheios de gente, a chorar com fome, e não tem nada para comer? E o Santo Padre numa Igreja, diante do Imaculado Coração de Maria, a rezar? E tanta gente a rezar com ele?» Irmãos e irmãs, obrigado por me acompanhardes! Não podia deixar de vir aqui venerar a Virgem Mãe e confiar-lhe os seus filhos e filhas. Sob o seu manto, não se perdem; dos seus braços, virá a esperança e a paz que necessitam e que suplico para todos os meus irmãos no Batismo e em humanidade, de modo especial para os doentes e pessoas com deficiência, os presos e desempregados, os pobres e abandonados. Queridos irmãos, rezamos a Deus com a esperança de que nos escutem os homens; e dirigimo-nos aos homens com a certeza de que nos vale Deus.

Pois Ele criou-nos como uma esperança para os outros, uma esperança real e realizável segundo o estado de vida de cada um. Ao «pedir» e «exigir» o cumprimento dos nossos deveres de estado (carta da Irmã Lúcia, 28/II/1943), o Céu desencadeia aqui uma verdadeira mobilização geral contra esta indiferença que nos gela o coração e agrava a miopia do olhar. Não queiramos ser uma esperança abortada! A vida só pode sobreviver graças à generosidade de outra vida. «Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto» (Jo 12, 24): disse e fez o Senhor, que sempre nos precede. Quando passamos através dalguma cruz, Ele já passou antes. Assim, não subimos à cruz para encontrar Jesus; mas foi Ele que Se humilhou e desceu até à cruz para nos encontrar a nós e, em nós, vencer as trevas do mal e trazer-nos para a Luz.

Sob a proteção de Maria, sejamos, no mundo, sentinelas da madrugada que sabem contemplar o verdadeiro rosto de Jesus Salvador, aquele que brilha na Páscoa, e descobrir novamente o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor.

Papa: a nossa é uma alma migrante e a certeza da presença de Deus nos dá esperança

A nossa é uma alma migrante e nossa existência é uma peregrinação, disse o Papa na Audiência Geral – AP – 26/04/2017

Cidade do Vaticano (RV) – A nossa é uma alma migrante e nossa existência é uma peregrinação, um caminho, no qual nunca estamos sozinhos.  E a promessa de Jesus de que estará conosco até o fim, nos faz estar em pé com esperança, na certeza de que Deus pode realizar aquilo que humanamente parece impossível.

O Papa Francisco inspirou sua catequese da Audiência Geral desta quarta-feira na passagem de Mateus, em que Jesus promete que estará conosco todos os dias, até o fim do mundo.

Uma verdade reforçada também pelo anúncio profético do nome que lhe será dado, “Emanuel”, que quer dizer, “Deus conosco”. Este mistério de um Deus, portanto, cuja identidade é “estar com”, em particular “conosco”.

“O nosso – frisou o Pontífice – não é um Deus ausente, levado por um céu muito distante; é, pelo contrário, um Deus “apaixonado” pelo homem, tão ternamente amante, a ponto de ser incapaz de separar-se dele”:

“Nós humanos somos hábeis em cortar ligações e pontes. Ele, pelo contrário, não. Se o nosso coração se esfria, o seu permanece incandescente. O nosso Deus nos acompanha sempre, mesmo se por desventura nós nos esqueçamos d’Ele. Na linha que divide a incredulidade da fé, decisiva é a descoberta de ser amados e acompanhados pelo nosso Pai, de não sermos nunca deixados sozinhos por Ele”.

“A nossa existência – disse o Papa – é uma peregrinação, um caminho”, e nossa alma, “é uma alma peregrina”. A Bíblia, neste sentido, é repleta de histórias de peregrinos e viajantes, como Abraão, por exemplo que recebeu de Deus a ordem “Saia da tua terra!”.

“E o Patriarca deixa aquele pedaço de mundo que conhecia bem e que era o berço da civilização de seu tempo”. Mesmo que tudo conspirasse contra a sensatez daquela viagem, “Abraão parte”:

“Não se torna homens e mulheres maduros se não se percebe a atração do horizonte: aquele limite entre o céu e a terra que pede para ser alcançado por um povo de caminhantes”.

E em seu caminho no mundo, “o homem nunca está sozinho”, recorda Francisco. “Sobretudo o cristão não se sente nunca abandonado, pois Jesus nos assegura não somente de nos esperar aos final de nossa longa viagem, mas de nos acompanhar em cada um de nossos dias”, até o fim do mundo:

“Não existirá um dia de nossa vida em que deixaremos de ser uma preocupação para o coração de Deus. E Deus, certamente proverá a todas as nossas necessidades, não nos abandonará no tempo da provação e da escuridão. Esta certeza pede para aninhar-se em nossa alma, para não apagar nunca. Alguém a chama com o nome de “Providência””.

Não por acaso – observa o Papa – entre os símbolos cristãos da esperança está a âncora, “que exprime que a nossa esperança não é vaga, não é um sentimento momentâneo de quem quer melhorar as coisas deste mundo de maneira irrealista, partindo somente da própria força de vontade”. “A esperança cristã encontra sua raiz na segurança daquilo que Deus prometeu e realizou em Jesus Cristo”.

“Por que temer?” –  pergunta o Santo Padre – se Ele garantiu nunca nos abandonar e se no início de cada vocação existe um “segue-me”, “em que Ele no assegura de estar sempre a nossa frente?”:

“Com esta promessa, os cristãos podem caminhar em toda parte. Mesmo atravessando porções do mundo ferido, onde as coisas não estão bem, nós estamos entre aqueles que também lá continuam a esperar”.

Se nós confiarmos unicamente em nossas forças – considera Francisco – “teríamos razões em nos sentirmos desiludidos e derrotados, porque o mundo muitas vezes se mostra refratário às ligações de amor. Mas se em nós sobrevive a certeza de que Deus não nos abandona, que Deus ama a nós e este mundo com ternura, então muda imediatamente a perspectiva”.

“A promessa de Jesus “Eu estou convosco” nos faz estar em pé com esperança, confiando de que o bom Deus já está trabalhando para realizar aquilo que humanamente parece impossível”.

“O santo povo fiel de Deus – disse o Santo Padre na conclusão de sua catequese – é gente que sabe estar em pé e caminha na esperança. E onde quer que vá, sabe que o amor de Deus o precedeu: não existe lugar do mundo que fuja da vitória de Cristo ressuscitado, a vitória do amor”. (JE)

Van Thuan: um homem de esperança que amava os seus perseguidores

OS CINCO DEFEITOS DE JESUS
O Cardeal vietnamita Francisco Xavier Nguyen Van Thuan declara-se apaixonado pelos defeitos de Jesus e os descreve no livro “Testemunhas da Esperança”:

PRIMEIRO DEFEITO: JESUS NÃO TEM MEMÓRIA
No calvário, no auge da indescritível agonia, Jesus ouve a voz do ladrão à sua direita: “Jesus, lembra-te de mim quando estiveres em teu reino” (Lc 23, 43). Se fosse eu, teria respondido: “Não vou esquecê-lo, mas seus crimes devem ser pagos por longos anos no purgatório”. No entanto, Jesus respondeu-lhe: “… hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43). Jesus esqueceu todos os crimes desse homem.
Semelhante atitude Jesus teve com a pecadora que banhou os seus pés com perfume… Não faz nenhuma pergunta sobre seu escandaloso passado. Simplesmente diz: “Seus inúmeros pecados estão perdoados, porque muito amor demonstrou” (Lc 7, 47)…
A memória de Jesus não é igual à minha…

SEGUNDO DEFEITO: JESUS NÃO “SABE” MATEMÁTICA
Se Jesus tivesse se submetido a um exame de matemática, por certo teria sido reprovado… “Um pastor tinha 100 ovelhas. Uma se extravia. Ele, imediatamente, deixa as 99 no redil e vai em busca da desgarrada. Reencontra-a, coloca-a no ombro e volta feliz” (cf. Lc 15, 4-7).
Para Jesus, uma pessoa tem o mesmo valor de noventa e nove e, talvez, até mais. Quem aceita tal procedimento? Sua misericórdia se estende de geração em geração…

TERCEIRO DEFEITO: JESUS DESCONHECE A LÓGICA
Uma mulher possuía 10 dracmas. Perdeu uma. Acende a lâmpada; varre a casa… procura até encontrá-la. Quando a encontra convida suas amigas para partilhar sua alegria pelo reencontro da dracma… (Lc 15, 8-10)… de fato, não tem lógica fazer festa por uma dracma… O coração tem motivações que a razão desconhece… Jesus deu uma pista: “Eu vos digo que haverá mais alegria diante dos anjos de Deus por um só pecador que se converte…” (Lc 15, 10).

QUARTO DEFEITO: JESUS É AVENTUREIRO
Executivos, pessoas encarregadas do “marketing das empresas”, levam em suas pastas projetos, planos cuidadosamente elaborados… Em todas as instituições, organizações civis ou religiosas não faltam programas prioritários; objetivos, estratégias…
Nada semelhante acontece com Jesus. Humanamente analisando, seu projeto está destinado ao fracasso.
Aos apóstolos, que deixaram tudo para segui-lo, não garante sustento material, casa para morar, somente partilhar do seu estilo de vida. A um desejoso de unir-se aos seus, responde: “As raposas têm tocas e as aves do céu ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8, 20)…
Os doze confiaram neste aventureiro. Milhões e milhões de outros igualmente. Já vão lá mais de dois mil anos e a incalculável multidão de seguidores continua a peregrinar. Galerias enormes de santos e santas, bem-aventurados, heróis e heroínas da aventura. No Universo inteiro esta abençoada romaria continua… Vai que este aventureiro tem razão…? Neste caso, a mais fantástica viagem na “contramão” da história será a verdadeira…! “A quem iremos?”…

QUINTO DEFEITO: JESUS NÃO ENTENDE DE FINANÇAS NEM ECONOMIA
Se Jesus fosse o administrador da empresa, da comunidade, a falência seria uma questão de dias. Como entender um administrador que paga o mesmo salário a quem inicia o trabalho cedo e a outro que só trabalha uma hora? Um descuido? Jesus errou a conta?…
Por que Jesus tem esses defeitos? Porque é o Deus da Misericórdia e Amor Encarnado. Deus Amor (cf. 1Jo 4, 16). Portanto, não um amor racional, calculista, que condiciona, recorda ofensas recebidas. Mas um amor doação, serviço, misericórdia, perdão, compreensão, acolhida… Em que medida? Infinita.
Os defeitos de Jesus são o caminho da felicidade. Por isso, damos graças a Deus. Para alegria e esperança da humanidade, esses defeitos são incorrigíveis.

 

Entrevista com o postulador da causa de beatificação do cardeal vietnamita José Antonio Varela Vidal

ROMA, quarta-feira, 25 de julho de 2012 (ZENIT.org) – Falar do Servo de Deus François-Xavier Nguyen Van Thuan significa tratar de uma vida provada pelo sofrimento, pela injustiça e pelas três virtudes teologais: fé, esperança e caridade. Ele passou fome e frio e sofreu o desprezo da prisão. Foi vítima de um sistema totalitário e cego, que o prendeu sem acusação alguma, só porque era “perigoso”. Mas ele estava convencido de que tudo fazia parte do plano de Deus, esperava contra toda esperança e amava os seus perseguidores a ponto de alguns deles terem se convertido durante a época em que o cardeal ficou na prisão. ZENIT conversou com Waldery Hilgeman, postuladora do processo de beatificação.

De tudo o que aconteceu na vida do cardeal Van Thuan, o que a impacta mais?
Waldery Hilgeman: Ele é um personagem muito complexo, no sentido de que toda a vida dele foi como gotas contínuas de evangelho, uma chuva incessante de santidade, desde o início. Uma coisa que me impressiona em sua espiritualidade é a constância do amor ao próximo. Ele foi até preso, e, na cadeia, nunca deixou de amar aqueles que o perseguiam, desde os funcionários de mais alto grau do sistema até os carcereiros. Esse amor total de Cristo pelo inimigo, sem interesses pessoais, nos atinge com muita força ainda hoje, neste contexto social de tanto egoísmo.

De que exatamente ele foi acusado?
Waldery Hilgeman: O cardeal Van Thuan foi um prisioneiro sem culpa. Nunca houve uma acusação contra ele de verdade, assim como também nunca houve um julgamento, muito menos uma sentença. Então, dizer de que ele foi acusado é uma grande dificuldade até para nós. Há muitos fatores no ambiente social daquele período que indicam que esse bispo era “perigoso” para um sistema vazio, um sistema baseado em nada, como é o sistema comunista, mas ele nunca foi formalmente acusado de nada concreto.

A partir dos escritos do cardeal na prisão, qual era o seu espírito, a sua reflexão como prisioneiro?
Waldery Hilgeman: O pensamento mais frequente do cardeal desde o primeiro momento do cativeiro, que durou treze anos, era que Deus estava pedindo que ele desse tudo, que ele abandonasse tudo e vivesse para Deus. Ele sentiu, especialmente no primeiro período de prisão, algo muito forte: a obra de Deus é Deus. Já desde antes, como arcebispo coadjutor, Van Thuan vivia para a obra de Deus. E ele sentiu que, naquele cativeiro, Deus pedia que ele deixasse o trabalho e vivesse só para Ele.

Você deve ter lido muitas histórias e relatos de testemunhas oculares do período na prisão…
Waldery Hilgeman: A história mais bonita é a da conversão de um dos guardas. Vários daqueles guardas, responsáveis pelo acompanhamento dos presos, no final se converteram. O cardeal Van Thuan, com amor total por essas pessoas, mostrou o que é o amor de Cristo. Sem poder pregar, sem poder falar diretamente de Cristo com aquelas pessoas, ele conseguiu convertê-los ao longo do tempo com o seu exemplo de Cristo encarnado. Isto continua sendo muito peculiar.

Para o processo de beatificação, a Igreja conseguiu contatar esses guardas?
Waldery Hilgeman: O ambiente político torna muito difícil ter contato com essas pessoas. Eles não foram questionados durante o julgamento, mas, talvez de maneira muito excepcional, vamos colocar o depoimento deles nos documentos processuais, que reconstroem a vida e as virtudes heroicas do cardeal Van Thuan.

Depois da transferência para Roma, qual foi a principal contribuição do cardeal Van Thuan à Igreja, como chefe de dicastério do Vaticano?
Waldery Hilgeman: Na verdade, parece que Deus queria desde o início preparar o cardeal Van Thuan para o ministério na Cúria Romana e no serviço do papa e da Igreja. Porque, já como jovem bispo, ele tinha se concentrado muito no papel dos leigos na diocese dele e no maior envolvimento dos leigos na vida social vietnamita. Basta pensar que em poucos anos ele conseguiu dobrar o número de vocações: ele queria bons leigos a serviço da Igreja, que poderiam ser chamado por Cristo.

Ele também trabalhou no Pontifício Conselho para os Leigos…
Waldery Hilgeman: O cardeal Van Thuan sempre lutou pelo papel dos leigos no Vietnã, porque justificava a presença deles como testemunhas diretas de Cristo na vida política, social, no trabalho. Não foi à toa que ele foi um dos primeiros a serem chamados para o Pontifício Conselho para os Leigos, que ainda estava sendo criado. Apesar de viver a meio mundo de distância, a Santa Sé estava de olho desde o início no potencial desse homem.

Ele colaborou também no Conselho Justiça e Paz…
Waldery Hilgeman: Sim. Com a chegada dele a Roma, as coisas mudaram, porque o papel do Pontifício Conselho Justiça e Paz é de extrema sensibilidade no nosso contexto, porque ele monitora a economia, a justiça, a fome no mundo, a solidariedade, a paz, e assim por diante; ele abrange toda a doutrina social da Igreja. Um bispo que veio de um tecido social de extrema pobreza, como era o Vietnã, e que, além disso, tinha sido preso, viveu na própria pele o que é a injustiça no mundo pelo simples fato de ser cristão. Não há dúvidas de que Cristo o preparou muito bem para o ministério aqui em Roma.

Pode nos contar algo sobre o processo de beatificação?
Waldery Hilgeman: O processo é muito especial. E nós temos a sorte de que este processo está no Tribunal do Vicariato de Roma, que é um tribunal com grande experiência. É uma causa muito grande, de um personagem que viajou muito, que envolve fiéis e imigrantes que moram em todos os continentes. O trabalho é imenso. Desde que o processo começou, em outubro de 2010, na paróquia, até agora, nós já demos grandes passos, ouvimos cerca de 130 testemunhas, incluindo cardeais, bispos, sacerdotes, religiosos e leigos, toda a realidade da Igreja. Até o processo “viajou”, por assim dizer, já que nós fomos para a Austrália, onde ouvimos inúmeras testemunhas; nos Estados Unidos, onde uma proporção significativa da população é de imigrantes vietnamitas, também ouvimos muita gente. Fomos à Alemanha, onde encontramos muitos fiéis de países vizinhos, Holanda e Bélgica, e fomos também à França. Eu diria que estamos em um estágio bem avançado.

Há relatos de algum suposto milagre?
Waldery Hilgeman: Vários! Eu, como postuladora, juntamente com o Conselho Pontifício Justiça e Paz, que promove a causa, estou estudando com a ajuda de especialistas médicos qual seria a forma mais adequada de iniciar um processo sobre o milagre que poderia levar o cardeal à canonização.

Que mensagem você pode mandar para os muitos “devotos” do cardeal Van Thuan, que esperam vê-lo logo nos altares?
Waldery Hilgeman: Nos escritos e nos livros dele, existe um tema recorrente, que também aparece nos depoimentos que chegam ao tribunal: a esperança, não perder a esperançaem Deus. François-Xavier Nguyen Van Thuan vai ser o “santo da esperança”.
(Tradução:ZENIT)

A ressurreição

Aprenda a cultivar o jardim da sua existência

A palavra “ressurreição” significa levantar, erguer. Ela é muito usada nos textos da Sagrada Escritura, quando fala da ressurreição dos mortos. É o ato de uma pessoa considerada morta viver novamente. Um termo que passa por profunda reflexão no mês de novembro, principalmente quando celebramos o Dia de Todos os Santos e de Finados.

Nos fundamentos e no entendimento dos cristãos, a ressurreição tem uma base de fé. Para os descrentes ela não passa de uma aberração. Os cristãos a entendem como plenitude da vida, tendo seu desfecho em Deus. É o que motiva e dá ânimo para o enfrentamento dos sofrimentos na história de vida das pessoas.

O que dá base para a fé na ressurreição é a fidelidade aos ensinamentos divinos. A vida temporal na terra deve apoiar-se na fé, na esperança e na caridade. Pela ressurreição, ela terá continuidade na eternidade, não necessitando mais dessas virtudes humanas, apenas na totalidade do amor de Deus.

No tempo presente, a pessoa precisa cultivar o jardim de sua existência, mesmo diante das dificuldades dos atos de perseguição, de sofrimentos e de desânimo. Mas deve levar consigo a certeza de que a morte não é o término da vida, mas o caminho que leva para a realização daquilo que é a finalidade do ser humano, a vida em Deus.

Pensar na ressurreição como obra divina significa ter convicção de que Deus é sempre misericordioso, mas que também leva em conta a prática da justiça. O Senhor não abandonará na morte os que preferirem morrer a negar a fé. Portanto, a ressurreição é fruto também da escolha de fé feita de forma livre e determinada.

Não é fácil ter fé firme no meio de um mundo marcado pela descrença. Muitas pessoas, além de não ter fé na ressurreição, tentam também impedir a propagação do Evangelho. Existe até uma hostilidade de adversários, mas o cristão não pode se intimidar e desanimar só porque encontra dificuldades. É fundamental trabalhar a possibilidade de vida nova, vida feliz e plenamente realizada em Deus.

Dom Paulo Mendes Peixoto

A vida que vence a morte

A noite é vencida pela luz que resplandece

A luz do Cristo ressuscitado resplandece e ilumina todos os recantos da existência humana, portadora de esperança e vida. É Páscoa da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo! A Igreja de Cristo celebra sua festa maior, oferecendo a todos os homens e mulheres o grande anúncio: “Eis agora a festa da Páscoa, em que o real Cordeiro se imolou: marcando nossas portas, nossas alma, com seu divino sangue nos salvou. Esta noite de Páscoa lava todo crime, liberta o pecador dos seus grilhões; dissipa o ódio e dobra os poderosos, enche de luz e paz os corações” (Proclamação da Páscoa na grande Vigília).

Celebramos a festa da Páscoa. Na Quinta-feira Santa, ao cair da tarde, entramos no Cenáculo, “num andar de cima” (cf. Mc 14,15). Interrompe-se o ritmo do cotidiano para pensar nas coisas do alto (cf. Cl 3,2). Começou a Páscoa com a Páscoa da Ceia! Ali tudo ganha um novo sentido. A Páscoa é preparada! Quem sabe os discípulos que foram à casa, para que tudo estivesse pronto, sejam figura do povo de Deus que conclui sua Quaresma. Prepara-se esta mesa com a sobriedade do jejum e da abstinência, para se chegar à abundância do banquete da vida eterna. Para entrar no Cenáculo, o bilhete de entrada é a caridade vivida, um amor misterioso que inquieta, pois é mais do que uma simples amizade.

É a noite de Seu novo mandamento, tornado visível no gesto d’Aquele que veio para servir e não ser servido, para que a Igreja continue a lavar os pés de todos, começando dos mais pobres e necessitados! O Cenáculo é novo templo! A comunhão com Deus acontece em torno de uma mesa fraterna, a oração é feita de intimidade. No Cenáculo Jesus antecipa o dom de Sua vida. Antes de Sua cruz, antecipa a nova Páscoa, para que os cristãos façam tudo o que Ele disse e fez, para assegurar a presença perene d’Ele entre nós. Dali para frente, Pão da Vida e Cálice da Salvação, do nascer ao pôr do sol, enquanto esperamos Sua vinda!

Começamos a Páscoa com Jesus e não podemos voltar atrás. O medo dos discípulos de outrora, superado com a unção do Espírito Santo, faz com que os de hoje caminhem valorosos para chegar ao Calvário. Sexta-feira Santa é a Páscoa da cruz. Olhar para a cruz, árvore da vida! Quais pássaros migratórios que percorrem os ares do mundo, pousemos sobre seus braços. Mais ainda, com suprema ousadia, entremos lá dentro do Coração de Cristo, para olhar o mundo pela fenda da chaga aberta pela lança! Tudo ficará diferente! Conversão radical, renúncia ao olhar egoísta dos fatos e sofrimentos. Na cruz de Cristo, indo com Ele até a experiência do abandono! Ele foi até o fundo do poço para resgatar o escravo. Não há mais qualquer escuridão e tristeza, desespero e até ateísmo que não sejam preenchidos pelo amor eterno de Deus.

Prostremo-nos por terra em adoração! Beijemos devotos a cruz de Cristo! Que ela seja içada, qual estandarte, sobre todos os montes do orgulho humano, marcada nas frontes para que todos os homens e mulheres olhem para o Alto, onde Cristo está sentado à direita do Pai, e olhem uns para os outros, estabelecendo os laços da fraternidade. No Coração de Cristo, onde se encontram os dois caminhos da cruz, está a vitória definitiva, celebrada e comunicada a todos os passantes!

No Sábado Santo, inquietos pelo silêncio misterioso, Ele “desceu aos infernos. Significa que Cristo ultrapassou a porta da solidão, desceu ao mais profundo e inalcançável de nossa condição de solidão. Mas mesmo na noite mais escura e extrema, na qual não penetra qualquer palavra, em que nos sentimos como crianças abandonadas que choram, aparece uma voz que chama, uma mão que nos toma e nos conduz, e a noite humana mais escura é superada porque Ele entrou na noite! O inferno foi vencido quando Ele entrou na região da morte e a ‘terra de ninguém’ da solidão foi habitada por Ele” (Cardeal Joseph Ratzinger, “O sábado da história”, 1998).

Com as mulheres da esperança, vamos à porta do sepulcro. Parece que a terra pulsa ofegante! Certamente o coração da Mãe desolada que teve o Corpo exangue de Jesus nos braços continua batendo ao ritmo da fé. Os discípulos escondidos experimentam um misto de santa vergonha e inquietação. Dá para imaginá-los algum tempo depois, comentando o que sentiram! De repente, o primeiro dia da semana ultrapassou o sábado judaico! Ele está vivo! A morte foi vencida! O testemunho é maior dos que as notícias falsas espalhadas pelos que tramaram Sua Morte. Quando tudo parecia terminado, agora começou! “Eu vi o Senhor”, diz a apóstola dos apóstolos, Maria Madalena!

E a Igreja chega à Páscoa da Ressurreição! A noite é vencida pela luz que resplandece: “Eis a luz de Cristo!”. À luz desse lume que se espalha, a Igreja se recolhe, ouve as maravilhas da História da Salvação. Ressoa de novo o Aleluia – Louvai a Deus! Os sinos repicam e os corações exultam. De pé – posição de ressuscitado! – ouvimos o Evangelho da Ressurreição, o querigma que converte gerações! O Batismo celebrado na noite de Páscoa recebe os que renascem em Cristo e todo o povo num comum “aniversário de Batismo”, renova a fé e assume de novo seus compromissos cristãos. Enfim, recolhidos em torno do Altar, celebramos o verdadeiro Cordeiro Pascal. Alimentados na Eucaristia Pascal, são enviados os cristãos, portadores de vida, quais procissões que cantam o Aleluia, revestidos da novidade que brota da Ressurreição. Homens novos para um mundo novo. Santa e feliz Páscoa!

Dom Alberto Taveira Corrêa Arcebispo de Belém – PA

Via-Sacra Meditada

Em sua 7ª edição, na última terça-feira, às 19h30min, na Praça Monsenhor Edmundo Backes, juntamente com os jovens do ONDA, CLJ e a PJESC do Colégio Santa Catarina, a comunidade católica de Hamburgo Velho, reuniu-se para acompanhar a encenação das 14 estações da Via Sacra.

Foi uma forma de meditar o caminho doloroso que Jesus percorreu até a crucifixão e morte na cruz e a Igreja nos propõe esta meditação para nos ajudar a rezar e a mergulhar na misericórdia de Jesus que se doou por nós.

A celebração contou com a participação das famílias e do Coral Nossa Senhora da Piedade.

A reflexão foi concluída no interior do templo, onde o pároco, Monsenhor Schuster, aprofundou o sentido e o significado da Semana Santa, a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo.

A cruz, erguida sobre o mundo, segue de pé como sinal de salvação e esperança.

“Vitória, Tu reinarás. Ó Cruz, Tu nos salvarás!”

A Semana Santa

Quarta-feira, 27 de março de 2013, Da Redação, com Rádio Vaticano / Clarissa Oliveira / CN Roma

Papa Francisco faz primeira Catequese de seu Pontificado  

O Papa Francisco realizou sua primeira Audiência Geral nesta quarta-feira, 27, na Praça São Pedro, no Vaticano, que estava repleta de fiéis. O Santo Padre dedicou sua Catequese à Semana Santa e explicou que, após a Páscoa, irá retomar as Catequeses sobre o Ano da Fé, como vinha fazendo seu predecessor.

“Mas que significa viver a Semana Santa para nós?”, questionou o Papa. “É acompanhar Jesus no seu caminho rumo à Cruz e à Ressurreição. Em sua missão terrena, ele falou a todos, sem distinção, aos grandes e aos humildes, trouxe o perdão de Deus e sua misericórdia, ofereceu esperança; consolou e curou. Foi presença de amor”.

O Pontífice explicou que na Semana Santa, “vivemos o vértice dessa caminhada de Jesus, que se entregou voluntariamente à morte para corresponder ao amor de Deus Pai, em perfeita união com sua vontade, para demonstrar o seu amor por nós”.

Em seguida, o Santo Padre indagou: “O que tudo isso tem a ver conosco?”, e explicou que esta caminhada é também “a minha, a tua, a nossa caminhada”.

“Viver a Semana Santa seguindo Jesus quer dizer aprender a sair de nós mesmos, ir ao encontro dos outros, ir às periferias da existência, encontrar sobretudo os mais distantes, os que mais necessitam de compreensão, de consolação, de ajuda. Viver a Semana Santa é entrar sempre mais na lógica de Deus, do Evangelho. Mas acompanhar Cristo exige sair de nós mesmos, deixar de lado um modo cansado e rotineiro de viver a fé. Deus saiu de Si mesmo para vir ao nosso encontro e também nós devemos fazer o mesmo”.

A falta de tempo não é desculpa, disse o Papa. “Não podemos nos contentar com uma oração, uma Missa dominical distraída e não constante, de algum gesto de caridade, e não ter a coragem de ‘sair’ para levar Cristo”.

Após a Catequese, como de costume, o Pontífice saudou os grupos presentes. Francisco não falou nas várias línguas, mas sim em italiano. A síntese da catequese e da saudação foi lida por um tradutor. Em português, foi feita pelo padre Bruno Lins:

“Queridos irmãos e irmãs, na Semana Santa, centro de todo o Ano Litúrgico, somos chamados a seguir Jesus pelo caminho do Calvário em direção à Cruz e Ressurreição. Este é também o nosso caminho. Ele entregou-se voluntariamente ao amor de Deus Pai, unido perfeitamente à sua vontade, para demonstrar o seu amor por nós: assim o vemos na Última Ceia, dando-nos o seu Corpo e o seu Sangue, para permanecer sempre conosco. Portanto, a lógica da Semana Santa é a lógica do amor e do dom de si mesmo, que exige deixar de lado as comodidades de uma fé cansada e rotineira para levar Cristo aos demais, abrindo as portas do nosso coração, da nossa vida, das nossas paróquias, movimentos, associações, levando a luz e a alegria da nossa fé. Viver a Semana Santa seguindo Jesus significa aprender a sair de nós mesmos para ir ao encontro dos demais, até as periferias da existência. Há uma necessidade imensa de levar a presença viva de Jesus misericordioso e rico de amor. Queridos peregrinos de língua portuguesa, particularmente os grupos de jovens vindos de Portugal e do Brasil: sede bem-vindos! Desejo-vos uma Semana Santa abençoada, seguindo o Senhor com coragem e levando a quantos encontrardes o testemunho luminoso do seu amor. A todos dou a Bênção Apostólica!”

 

CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano Quarta-feira, 27 de março de 2013
Boletim da Santa Sé Tradução: Jéssica Marçal

Irmãos e irmãs, bom dia!

Tenho o prazer de acolher-vos nesta minha primeira Audiência Geral. Com grande reconhecimento e veneração acolho o “testemunho” das mãos do meu amado predecessor Bento XVI. Depois da Páscoa retomaremos as catequeses do Ano da Fé. Hoje gostaria de concentrar-me um pouco sobre a Semana Santa. Com o Domingo de Ramos iniciamos esta Semana – centro de todo o Ano Litúrgico – na qual acompanhamos Jesus em sua Paixão, Morte e Ressurreição.

Mas o que pode querer dizer viver a Semana Santa para nós? O que significa seguir Jesus em seu caminho no Calvário para a Cruz e a ressurreição? Em sua missão terrena, Jesus percorreu os caminhos da Terra Santa; chamou 12 pessoas simples para que permanecessem com Ele, compartilhando o seu caminho e para que continuassem a sua missão; escolheu-as entre o povo cheio de fé nas promessas de Deus. Falou a todos, sem distinção, aos grandes e aos humildes, ao jovem rico e à pobre viúva, aos poderosos e aos indefesos; levou a misericórdia e o perdão de Deus; curou, consolou, compreendeu; doou esperança; levou a todos a presença de Deus que se interessa por cada homem e cada mulher, como faz um bom pai e uma boa mãe para cada um de seus filhos. Deus não esperou que fôssemos a Ele, mas foi Ele que se moveu para nós, sem cálculos, sem medidas. Deus é assim: Ele dá sempre o primeiro passo, Ele se move para nós. Jesus viveu a realidade cotidiana do povo mais comum: comoveu-se diante da multidão que parecia um rebanho sem pastor; chorou diante do sofrimento de Marta e Maria pela morte do irmão Lázaro; chamou um cobrador de impostos como seu discípulo; sofreu também a traição de um amigo. Nele Deus nos doou a certeza de que está conosco, em meio a nós. “As raposas – disse Ele, Jesus – as raposas têm suas tocas e as aves do céu os seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça” (Mt 8, 20). Jesus não tem casa porque a sua casa é o povo, somos nós, a sua missão é abrir a todos as portas de Deus, ser a presença do amor de Deus.

Na Semana Santa nós vivemos o ápice deste momento, deste plano de amor que percorre toda a história da relação entre Deus e a humanidade. Jesus entra em Jerusalém para cumprir o último passo, no qual reassume toda a sua existência: doa-se totalmente, não tem nada para si, nem mesmo a vida. Na Última Ceia, com os seus amigos, compartilha o pão e distribui o cálice “por nós”. O Filho de Deus se oferece a nós, entrega em nossas mãos o seu Corpo e o seu Sangue para estar sempre conosco, para morar em meio a nós. E no Monte das Oliveiras, como no processo diante de Pilatos, não oferece resistência, doa-se; é o Servo sofredor profetizado por Isaías que se despojou até a morte (cfr Is 53,12).

Jesus não vive este amor que conduz ao sacrifício de modo passivo ou como um destino fatal; certamente não esconde a sua profunda inquietação humana diante da morte violenta, mas se confia com plena confiança ao Pai. Jesus entregou-se voluntariamente à morte para corresponder ao amor de Deus Pai, em perfeita união com a sua vontade, para demonstrar o seu amor por nós. Na cruz Jesus “me amou e entregou a si mesmo” (Gal 2,20). Cada um de nós pode dizer: amou-me e entregou a si mesmo por mim. Cada um pode dizer este “por mim”.

O que significa tudo isto para nós? Significa que este é também o meu, o teu, o nosso caminho. Viver a Semana Santa seguindo Jesus não somente com a emoção do coração; viver a Semana Santa seguindo Jesus quer dizer aprender a sair de nós mesmos – como disse domingo passado – para ir ao encontro dos outros, para ir para as periferias da existência, mover-nos primeiro para os nossos irmãos e as nossas irmãs, sobretudo aqueles mais distantes, aqueles que são esquecidos, aqueles que tema mais necessidade de compreensão, de consolação, de ajuda. Há tanta necessidade de levar a presença viva de Jesus misericordioso e rico de amor!

Viver a Semana Santa é entrar sempre mais na lógica de Deus, na lógica da Cruz, que não é antes de tudo aquela da dor e da morte, mas aquela do amor e da doação de si que traz vida. É entrar na lógica do Evangelho. Seguir, acompanhar Cristo, permanecer com Ele exige um “sair”, sair. Sair de si mesmo, de um modo cansado e rotineiro de viver a fé, da tentação de fechar-se nos próprios padrões que terminam por fechar o horizonte da ação criativa de Deus. Deus saiu de si mesmo para vir em meio a nós, colocou a sua tenda entre nós para trazer-nos a sua misericórdia que salva e doa esperança. Também nós, se desejamos segui-Lo e permanecer com Ele, não devemos nos contentar em permanecer no recinto das 99 ovelhas, devemos “sair”, procurar com Ele a ovelha perdida, aquela mais distante. Lembrem-se bem: sair de nós mesmo, como Jesus, como Deus saiu de si mesmo em Jesus e Jesus saiu de si mesmo por todos nós.

Alguém poderia dizer-me: “Mas, padre, não tenho tempo”, “tenho tantas coisas a fazer”, “é difícil”, “o que posso fazer com as minhas poucas forças, também com o meu pecado, com tantas coisas?”. Sempre nos contentamos com alguma oração, com uma Missa dominical distraída e não constante, com qualquer gesto de caridade, mas não temos esta coragem de “sair” para levar Cristo. Somos um pouco como São Pedro. Assim que Jesus fala de paixão, morte e ressurreição, de doação de si, de amor para todos, o Apóstolo o leva para o lado e o repreende. Aquilo que diz Jesus perturba os seus planos, parece inaceitável, coloca em dificuldade as seguranças que se havia construído, a sua ideia de Messias. E Jesus olha para os discípulos e dirige a Pedro talvez uma das palavras mais duras dos Evangelhos: “Afasta-te de mim, Satanás, porque teus sentimentos não são os de Deus, mas os dos homens” (Mc 8, 33). Deus pensa sempre com misericórdia: não se esqueçam disso. Deus pensa sempre com misericórdia: é o Pai misericordioso! Deus pensa como o pai que espera o retorno do filho e vai ao seu encontro, vê-lo vir quando ainda é distante…O que isto significa? Que todos os dias ia ver se o filho retornava a casa: este é o nosso Pai misericordioso. É o sinal que o esperava de coração no terraço de sua casa. Deus pensa como o samaritano que não passa próximo à vítima olhando por outro lado, mas socorrendo-a sem pedir nada em troca; sem perguntar se era judeu, se era pagão, se era samaritano, se era rico, se era pobre: não pergunta nada. Não pergunta essas coisas, não pergunta nada. Vai em seu auxílio: assim é Deus. Deus pensa como o pastor que doa a sua vida para defender e salvar as ovelhas.

A Semana Santa é um tempo de graça que o Senhor nos doa para abrir as portas do nosso coração, da nossa vida, das nossas paróquias – que pena tantas paróquias fechadas! – dos movimentos, das associações, e “sair” de encontro aos outros, fazer-nos próximos para levar a luz e a alegria da nossa fé. Sair sempre! E isto com amor e com a ternura de Deus, no respeito e na paciência, sabendo que nós colocamos as nossas mãos, os nossos pés, o nosso coração, mas em seguida é Deus que os orienta e torna fecunda cada ação nossa.

Desejo a todos viver bem estes dias seguindo o Senhor com coragem, levando em nós mesmos um raio do seu amor a quantos encontrarmos.

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