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Santuário de Fátima celebra festa dos santos Francisco e Jacinta Marto

Pela primeira vez
Terça-feira, 20 de fevereiro de 2018, Da Redação, com Santuário de Fátima

Festa é celebrada pela Igreja pela primeira vez após a canonização dos dois pastorinhos em maio passado

O Santuário de Fátima celebra nesta terça-feira, 20, a festa litúrgica dos santos Francisco e Jacinta Marto, os mais jovens santos não mártires da Igreja Católica canonizados pelo Papa Francisco em 13 de maio do ano passado.

O programa litúrgico começou ontem à noite com a recitação do Rosário na Capelinha das Aparições, com a presença dos ícones dos Santos Francisco e Jacinta Marto, seguindo-se uma Vigília de Oração na Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima.

Na manhã de hoje, o Dia dos Pastorinhos começou com o Rosário na Capelinha das Aparições, seguido da procissão para a Basílica da Santíssima Trindade, onde foi celebrada a Missa Votiva dos dois santos.

“Hoje é dia de júbilo e de festa”, disse o reitor do Santuário de Fátima, padre Carlos Cabecinhas, que presidiu a celebração. O sacerdote lembrou aos peregrinos presentes que estas duas crianças “mostram como a Mensagem de Fátima é caminho de santidade”.

Padre Carlos recordou ainda as palavras do Santo Padre no dia 13 de maio de 2017, em Fátima, destacando que Francisco e Jacinta Marto ajudam a descobrir a beleza e o encanto da santidade cristã, como vocação de todos os cristãos, uma vez que eles apresentam a santidade como uma realidade próxima e possível.

No período da tarde, a Basílica da Santíssima Trindade acolheu 400 crianças dos vários colégios e escolas de Fátima para um encontro. O Rosário foi presidido pelo reitor do Santuário de Fátima e meditou sobre a vida dos mais jovens santos não mártires da Igreja Católica.

Em seguida, foi realizada uma visita aos túmulos dos Pastorinhos, na Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima. O programa litúrgico culmina com as vésperas, marcadas para as 17h30 (hora local).

Pastorzinhos de Fátima, Francisco e Jacinta, são Santos
Crianças Jacinta e Francisco são canonizados em Fátima – REUTERS
 
13/05/2017

Fátima (RV) – No dia em que a Igreja celebra Nossa Senhora de Fátima, o Papa Francisco canonizou os pequenos pastores Jacinta e Francisco Marto, que cem anos atrás, tiveram as visões e receberam a mensagem de Nossa Senhora. São as primeiras crianças não-mártires santificadas pela Igreja.

Foi também a primeira vez que uma canonização foi celebrada em Portugal e cerca de meio milhão de fiéis de todas as partes do mundo tomaram conta da esplanada diante do Santuário. Muitos já estavam lá desde a noite de sexta-feira para garantir seu lugar na missa.

Ao chegar à Basílica de Nossa Senhora do Rosário, o Papa cumprimentou o sacerdote mais idoso de Portugal, de 104 anos, que viveu toda a história do Santuário, e rezou diante do túmulo dos pequenos irmãos, que morreram aos 9 e 10 anos.

No exterior, Francisco incensou a imagem de Nossa Senhora, em cuja coroa está encastrada a bala que atingiu o Papa João Paulo II no atentado sofrido na Praça São Pedro, em 13 de maio de 1981.

A missa, da qual participou também o menino brasileiro Lucas Batista, 9 anos, curado graças à intercessão dos pastorzinhos, teve início com o rito da canonização. O bispo de Leiria-Fátima, Dom Antonio Marto, pediu ao Papa que procedesse à canonização dos meninos e leu as suas biografias.

Em sua homilia, proferida em português, o Papa começou relatando a primeira visão dos dois irmãos e da prima, Lúcia, naquela manhã de cem anos atrás e “a Luz de Deus que irradiava de Nossa Senhora e envolvia-os no manto de Luz que Deus Lhe dera”.

“Fátima é sobretudo este manto de Luz que nos cobre, aqui como em qualquer outro lugar da Terra quando nos refugiamos sob a proteção da Virgem Mãe para Lhe pedir, como ensina a Salve Rainha, «mostrai-nos Jesus». Queridos peregrinos, temos Mãe”.

Hoje, prosseguiu Francisco, “nos reunimos aqui para agradecer as bênçãos sem conta que o Céu concedeu nestes cem anos, passados sob o manto de Luz que Nossa Senhora, a partir deste esperançoso Portugal, estendeu sobre os quatro cantos da Terra”.

“Dos braços da Virgem”, disse o Papa, “virá a esperança e a paz que necessitam e que suplico para todos os meus irmãos no Batismo e em humanidade, de modo especial para os doentes e pessoas com deficiência, os presos e desempregados, os pobres e abandonados. Queridos irmãos, rezamos a Deus com a esperança de que nos escutem os homens; e dirigimo-nos aos homens com a certeza de que nos vale Deus”.

Concluindo, Francisco exortou os fiéis: “Sob a proteção de Maria, sejamos, no mundo, sentinelas da madrugada que sabem contemplar o verdadeiro rosto de Jesus Salvador, aquele que brilha na Páscoa, e descobrir novamente o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor”.

(CM)

 

HOMILIA pronunciada pelo Papa na canonização dos pequenos Francisco e Jacinta Marto

«Apareceu no Céu (…) uma mulher revestida de sol»: atesta o vidente de Patmos no Apocalipse (12, 1), anotando ainda que ela «estava para ser mãe». Depois ouvimos, no Evangelho, Jesus dizer ao discípulo: «Eis a tua Mãe» (Jo 19, 26-27). Temos Mãe! Uma «Senhora tão bonita»: comentavam entre si os videntes de Fátima a caminho de casa, naquele abençoado dia treze de maio de há cem anos atrás. E, à noite, a Jacinta não se conteve e desvendou o segredo à mãe: «Hoje vi Nossa Senhora». Tinham visto a Mãe do Céu. Pela esteira que seguiam os seus olhos, se alongou o olhar de muitos, mas… estes não A viram. A Virgem Mãe não veio aqui, para que A víssemos; para isso teremos a eternidade inteira, naturalmente se formos para o Céu.

Mas Ela, antevendo e advertindo-nos para o risco do Inferno onde leva a vida – tantas vezes proposta e imposta – sem-Deus e profanando Deus nas suas criaturas, veio lembrar-nos a Luz de Deus que nos habita e cobre, pois, como ouvíamos na Primeira Leitura, «o filho foi levado para junto de Deus» (Ap 12, 5). E, no dizer de Lúcia, os três privilegiados ficavam dentro da Luz de Deus que irradiava de Nossa Senhora. Envolvia-os no manto de Luz que Deus Lhe dera. No crer e sentir de muitos peregrinos, se não mesmo de todos, Fátima é sobretudo este manto de Luz que nos cobre, aqui como em qualquer outro lugar da Terra quando nos refugiamos sob a proteção da Virgem Mãe para Lhe pedir, como ensina a Salve Rainha, «mostrai-nos Jesus».

Queridos peregrinos, temos Mãe. Agarrados a Ela como filhos, vivamos da esperança que assenta em Jesus, pois, como ouvíamos na Segunda Leitura, «aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo» (Rm 5, 17). Quando Jesus subiu ao Céu, levou para junto do Pai celeste a humanidade – a nossa humanidade – que tinha assumido no seio da Virgem Mãe, e nunca mais a largará. Como uma âncora, fundeemos a nossa esperança nessa humanidade colocada nos Céus à direita do Pai (cf. Ef 2, 6). Seja esta esperança a alavanca da vida de todos nós! Uma esperança que nos sustente sempre, até ao último respiro.

Com esta esperança, nos congregamos aqui para agradecer as bênçãos sem conta que o Céu concedeu nestes cem anos, passados sob o referido manto de Luz que Nossa Senhora, a partir deste esperançoso Portugal, estendeu sobre os quatro cantos da Terra. Como exemplo, temos diante dos olhos São Francisco Marto e Santa Jacinta, a quem a Virgem Maria introduziu no mar imenso da Luz de Deus e aí os levou a adorá-Lo. Daqui lhes vinha a força para superar contrariedades e sofrimentos. A presença divina tornou-se constante nas suas vidas, como se manifesta claramente na súplica instante pelos pecadores e no desejo permanente de estar junto a «Jesus Escondido» no Sacrário.

Nas suas Memórias (III, n. 6), a Irmã Lúcia dá a palavra à Jacinta que beneficiara duma visão: «Não vês tanta estrada, tantos caminhos e campos cheios de gente, a chorar com fome, e não tem nada para comer? E o Santo Padre numa Igreja, diante do Imaculado Coração de Maria, a rezar? E tanta gente a rezar com ele?» Irmãos e irmãs, obrigado por me acompanhardes! Não podia deixar de vir aqui venerar a Virgem Mãe e confiar-lhe os seus filhos e filhas. Sob o seu manto, não se perdem; dos seus braços, virá a esperança e a paz que necessitam e que suplico para todos os meus irmãos no Batismo e em humanidade, de modo especial para os doentes e pessoas com deficiência, os presos e desempregados, os pobres e abandonados. Queridos irmãos, rezamos a Deus com a esperança de que nos escutem os homens; e dirigimo-nos aos homens com a certeza de que nos vale Deus.

Pois Ele criou-nos como uma esperança para os outros, uma esperança real e realizável segundo o estado de vida de cada um. Ao «pedir» e «exigir» o cumprimento dos nossos deveres de estado (carta da Irmã Lúcia, 28/II/1943), o Céu desencadeia aqui uma verdadeira mobilização geral contra esta indiferença que nos gela o coração e agrava a miopia do olhar. Não queiramos ser uma esperança abortada! A vida só pode sobreviver graças à generosidade de outra vida. «Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto» (Jo 12, 24): disse e fez o Senhor, que sempre nos precede. Quando passamos através dalguma cruz, Ele já passou antes. Assim, não subimos à cruz para encontrar Jesus; mas foi Ele que Se humilhou e desceu até à cruz para nos encontrar a nós e, em nós, vencer as trevas do mal e trazer-nos para a Luz.

Sob a proteção de Maria, sejamos, no mundo, sentinelas da madrugada que sabem contemplar o verdadeiro rosto de Jesus Salvador, aquele que brilha na Páscoa, e descobrir novamente o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor.

Quaresma é caminho de esperança

Início da Quaresma

Quarta-feira, 1 de março de 2017, Da Redação, com Rádio Vaticano

No ciclo sobre esperança cristã, reflexão de hoje foi dedicada à Quaresma, que começa nesta Quarta-Feira de Cinzas em preparação para a Páscoa

Dando continuidade ao ciclo de catequeses sobre a esperança, o Papa Francisco refletiu nesta Quarta-feira de Cinzas, 1º, sobre a “Quaresma, caminho de esperança”. Cerca de 10 mil pessoas acompanharam a reflexão sobre esse tempo que os católicos vivem em preparação para a Páscoa.

Francisco lembrou que, nestes quarenta dias, Deus chama os homens a sair das trevas e caminhar para Ele, que é a Luz. Quaresma é período de penitência com a finalidade de se renovar em Cristo, renascer ‘do alto’, do amor de Deus. E é por isso que a Quaresma é, por natureza, tempo de esperança.

Neste sentido, disse o Papa, é preciso olhar para a experiência do Êxodo do povo de Israel, que Deus libertou da escravidão do Egito por meio de Moisés, e guiou durante quarenta anos no deserto até entrar na Terra da liberdade. Foi um período longo e conturbado, cheio de obstáculos.

“Simbolicamente dura 40 anos, ou seja, o tempo de vida de uma geração. Muitas vezes, o povo, diante das provações do caminho, sente a tentação de voltar ao Egito. Mas o Senhor permanece fiel e guiado por Moisés, chega à Terra prometida: venceu a esperança. É precisamente um ‘êxodo’, uma saída da escravidão para a liberdade. Cada passo, cada fadiga, cada provação, cada queda e cada reinício… tudo tem sentido no âmbito do desígnio de salvação de Deus, que quer para seu povo a vida e não a morte; a alegria e não a dor”.

A Páscoa de Jesus é também um êxodo, sublinhou Francisco, explicando que Deus abriu o caminho e para fazê-lo, teve que se humilhar, despojar-se de sua glória, fazendo-se obediente até a morte na Cruz, libertando o homem, assim, da escravidão do pecado. “Mas isto não quer dizer que Ele fez tudo e nós não precisamos fazer nada; que Ele passou através da cruz e nós vamos ‘ao paraíso de carroça’… não”.

Jesus indica o caminho da peregrinação pelo deserto da vida, um caminho exigente, mas cheio de esperança. “O êxodo quaresmal é o caminho no qual a própria esperança se forma. É um caminho dificultoso, como é justo que seja, mas um caminho pleno de esperança. Como o percorrido por Maria, que em meio às trevas da Paixão e Morte de seu Filho, continuou a crer em sua ressurreição, na vitória do amor de Deus”.

Como já é tradição, Francisco escreveu uma mensagem para a Quaresma deste ano, com o tema “A Palavra é um dom. O outro é um dom”. O texto foi publicado em fevereiro passado.

Solenidade da Santa Mãe de Deus

Por Mons. Inácio José Schuster

1º de janeiro, ano novo, oitava do Natal. Primeira Leitura tirada do Livro dos Números:

“O Senhor disse a Moisés, ‘Fala a Aarão e a seus filhos e dize-lhes: assim bendireis os israelitas e lhes direis: o Senhor te abençoe e te proteja, o Senhor faça brilhar sua face sobre ti e te seja favorável, o Senhor volte para ti o seu olhar e te conceda a paz”.

Com esse augúrio, retirado da Palavra de Deus, nós iniciamos um novo ano, 2017. Que o Senhor te abençoe e te proteja! Poderíamos transmitir augúrio mais adequado? Que o Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja propício durante todos os 365 dias deste ano. Que o Senhor te conceda a paz!

Hoje trocamos augúrios e nos cumprimentamos. Cada um de nós deseja a seu irmão, parente, amigo ou conhecido, a paz, a felicidade, a tranqüilidade. Mas é Deus quem pode verdadeiramente conceder-nos estes dons.

Este ano que se inicia é um livro; ele está apenas começando. Quantas coisas acontecerão? Acontecerão por certo, assim esperamos e desejamos, coisas boas. Pode ser que aconteçam coisas não boas também. O livro está em branco. Nós, juntamente com Deus, iremos escrever este livro, cada dia uma página e, quando completar 365 páginas nós o terminaremos.

Será uma tragédia? Será um romance? Será uma maravilha? Será algo surpreendente para nós e para outros? Que é que sabemos de tudo isto neste dia 1º de janeiro, quando desejamos a outros e a nós mesmo feliz ano novo? De qualquer maneira, nós colocamos este ano de 2017 aos pés de Jesus Cristo, o Senhor da História, o Senhor de todos os tempos, o Senhor da nossa vida também!
Nós colocamos este ano sob a proteção da Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe.  É exatamente sob este título que nós a saudamos neste dia, a ela consagrado: Mãe de Deus. Nós lhe pedimos humildemente que nos acompanhe nos nossos mistérios gozosos, luminosos, gloriosos, mas, sobretudo, se algum mistério doloroso tiver que ser trilhado por nós este ano. Cheios de confiança colocamos 2017 em Suas mãos e disso não nos esqueceremos em nenhum destes dias.

De qualquer maneira sabemos que Deus não abandona aquele que nele coloca a sua esperança. Deus não retirará as nossas dificuldades e os nossos sofrimentos, mas promete-nos, neste dia 1º de janeiro, entrar conosco em tudo, até mesmo nos piores momentos que poderiam sobrevir. Ele fará com que até o mal se transforme em bem para nós.

Com esta segurança e, sobretudo com esta confiança: Feliz Ano Novo! Feliz Ano Novo a você e a todos os seus.

Em Belém, pátria de Davi, pastor depois rei, nasceu Jesus, Bom Pastor e Rei Messias: há uma harmonia e correspondência da mesma forma que na vocação dos primeiros apóstolos, pescadores, se tornam “pescadores de homens”. Eles passam a noite, significando, por assim dizer, a antítese em relação à Luz que brilha nas trevas, característica do Natal. Passam a noite velando pelo rebanho, o que nos faz lembrar a recomendação de Jesus aos seus discípulos, para que permaneçam na atitude espiritual de quem vigia, na expectativa do seu retorno. As parábolas do administrador e das dez virgens prudentes nos exortam a esta atitude.

A aparição dos anjos, que os tranqüiliza: “Não temais, eis que vos anuncio uma boa nova”, faz com que eles entrevejam a glória de Deus, vindo do mais alto do céu sobre a terra pela Encarnação do Seu Filho unigênito. E esta glória do Senhor os envolveu, glória que significa o esplendor interior e o esplendor que brilha e ilumina todos eles. Como a Primeira Aliança se concretizou pela entrada de Moisés na Glória de Deus se manifestando sobre o Sinai, a nova Aliança, que é o próprio Jesus, faz também entrar nesta mesma Glória os pastores, primeiros fiéis e anunciadores do Evangelho.

Eles encontraram Maria e José e o Menino “posto numa manjedoura”. E eles saem a proclamar o que tinham visto e ouvido. Eles fazem conhecer o que o Senhor lhes tinha feito conhecer: identidade entre a Revelação recebida e o que eles transmitem, como testemunhas oculares. Eles se atem ao essencial, o Menino, que o anjo tinha saudado com o tríplice nome divino de Salvador, Messias e Senhor. Maria, a mãe de Jesus, “conservava todas estas palavras, meditando-as em seu coração”. De fato, diz Orígenes, “sem Deus a casa não é construída, mas também não sem a cooperação dos homens”. Maria é toda acolhida do dom de Deus, envolta em sua Glória, é a testemunha fiel. Pela sua vida melhor que qualquer outra pessoa ela comunica o que o Senhor lhe fez conhecer. É ela a Mãe do filho de Deus, Jesus.

“Mãe Santíssima, rogai por nós para que sejamos fiéis testemunhas do Evangelho e de Jesus em todos os momentos de nossa vida. Protegei-nos e guardai-nos do pecado e de todo mal”.

Natal bipolar

O Natal é repleto de contradições. Período que tanto se fala de alegria, esperança e paz, enquanto um sentimento estranho de tristeza, desespero e inquietação invade a alma. Famílias reunidas em ceia decorada e separadas em teia de intrigas. Muita comida na barriga e pouco alimento no coração. Gente correndo atrás dos presentes e o mimo do presépio esquecido na manjedoura.

Ruas congestionadas da loucura no trânsito e caminhos vazios do bom senso nos relacionamentos. Luzes coloridas nas casas e praças e sombras cinzentas na vida das pessoas. Gente saindo e gente chegando sem saber aonde ir, sem saber aonde chegar.

Natal é ponto de exclamação e ponto de interrogação. É resposta, é dúvida. Natal é fé no Menino Deus e descrença no Deus Menino. É a criança divina nos braços de Simeão “escolhida por Deus tanto para a destruição como para a salvação de muita gente” (Lucas 2.34). É o amor que conecta o mundo num Salvador, é o ódio que divide a humanidade em fanatismo e perseguições. É a vida no céu, é a morte no inferno. É o indulto pela fé na justiça divina, é a condenação pela dúvida na clemência celestial. Natal é o Deus Eterno gerado na barriga finita da mulher, é o Filho do Homem morto no ventre da cruz “para que todos os que crerem nele tenham a vida eterna” (João 3.15). Natal é vida, Natal é morte.

Natal é a Criança que foge para o Egito, são os infantes que não conseguem escapar da espada do Herodes. São crianças protegidas, são inocentes massacrados por extremistas religiosos no reino de violência. Natal é deixar que os pequeninos venham a Jesus, é impedir que tenham vida.

Quem pode entender o Natal? Até Maria ficou confusa ao saber que seria mãe do Filho de Deus. “Para Deus nada é impossível”, disse-lhe o anjo. Num mundo tão estranho, do bem e do mal, do amor e do ódio, da alegria e da tristeza, o Natal traz o Céu para a Terra onde “o seu povo não o recebeu. Porém, alguns creram Nele e o receberam” (João 1.12).

 

O Natal derruba os poderosos

Muitos vão cair do seu trono a qualquer momento. A profecia não é minha, é de Maria. Com o Filho de Deus na barriga, ela expressa na canção Magnificat que Deus levanta a sua mão poderosa, derrota os orgulhosos com todos os planos deles, derruba dos seus tronos reis influentes (Lucas 1.51, 52). Deus não acaba com os tronos, com as instituições, com aquilo que mantém a ordem neste mundo suscetível à desordem. Deus acaba com os reizinhos petulantes. “Pois nenhuma autoridade existe sem a permissão de Deus, e as que existem foram colocadas nos seus lugares por ele” (Romanos 13.1).
O Natal de 2016 vem manifestar outra vez esta profecia. E, desta vez, para todos perceberem que, quanto mais alto, maior o tombo. Nunca antes na história deste País se viu tanta gente em pouco tempo cair dos seus reinados. E estrago na política, nas empresas, nos esportes – no mundo do poder. Uma tempestade que vem do Natal. Não do Natal enfeitado, sofisticado, ostentoso – igual aos tronos. Mas o Natal de Jesus – desnudo, simples, despretensioso.
Por isto, o desprezo dos reis Herodes escandalizados com a miserável estrebaria, desprovida de riqueza e conforto. Mas é a mãe Ignorância com a filha Soberba. Não entendem que o Rei Jesus “abriu mão de tudo o que era seu e tomou a natureza de servo” (Filipenses 2.7) para nos livrar do trono do orgulho, da maldade, da corrupção, E nos entronar com o cetro da humildade, do amor, da bondade. “Não façam nada por interesse pessoal ou por desejos tolos de receber elogios”, lembra a Bíblia, “mas sejam humildes e considerem os outros superiores a vocês mesmos” (Filipenses 2.3).
Ah, se neste mundo tivesse mais Natal de Jesus. Haveria menos sofrimento. Quantos poderosos ainda cairão dos seus tronos para Jesus reinar?

Marcos Schmidt é pastor luterano
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Natal é encontro com Jesus de coração aberto

Missa na Casa Santa Marta, segunda-feira, 2 de dezembro  de 2013, Da Redação, com Rádio Vaticano

Santo Padre indicou a oração, a caridade e o louvor como caminhos para uma boa preparação para o Natal

Papa lembrou que Natal não é só recordação de algo belo, mas o encontro com Cristo / Foto: L’Osservatore Romano

Preparar-se para o Natal com a oração, a caridade e o louvor, mantendo o coração aberto para deixar-se encontrar pelo Senhor que tudo renova. Este foi o convite feito pelo Papa Francisco na Missa celebrada nesta segunda-feira, 2, na Casa Santa Marta. A homilia insere-se no tempo litúrgico do Advento, iniciado neste domingo, 1º.

Francisco recordou que nestes dias se inicia um novo caminho, um caminho de Igreja rumo ao Natal. Trata-se de ir ao encontro do Senhor, pois o Natal, como enfatizou o Papa, não é somente uma recorrência temporal ou uma recordação de algo belo.

“O Natal é mais: nós vamos por este caminho para encontrar o Senhor. O Natal é um encontro! E caminhamos para encontrá-Lo, com o coração, com a vida, encontrá-Lo vivo, como Ele é, encontrá-Lo com fé”.

Francisco concentrou-se ainda sobre o exemplo do oficial romano descrito no Evangelho do dia, destacando a sua fé, o que maravilhou Jesus. A partir da fé, não só o oficial romano encontrou Deus, mas foi encontrado por Deus.

“Quando nós somente encontramos o Senhor, somos nós – entre aspas, digamos – os patrões deste encontro, mas quando nós nos deixamos encontrar por Ele, é Ele que entra em nós, é Ele que nos refaz tudo, porque esta é a vinda, aquilo que significa quando vem o Cristo: refazer tudo, refazer o coração, a alma, a vida, a esperança, o caminho”.

E ao longo de todo esse processo, o Papa ressaltou a importância de manter o coração aberto, para que Deus encontre o homem e lhe diga o que for preciso. Dessa forma, Francisco falou, por fim, de alguns comportamentos que ajudam neste caminho rumo ao Natal.

“A perseverança na oração, rezar mais; o trabalho na caridade fraterna, aproximar-se um pouco mais daqueles que precisam; e a alegria no louvor do Senhor. Então, a oração, a caridade e o louvor, com o coração aberto, para que o Senhor nos encontre”.

Advento

A vida passa por transformações e se renova. Por isto, iniciamos mais um Ano Litúrgico, começando com o Ciclo do Natal, na certeza de vida renovada. O Natal é celebrado com muitas festas, contemplando o nascimento de um Rei, o Filho de Deus, cumprindo uma promessa feita pelo Senhor ao Rei Davi.

São quatro domingos chamados de “Advento”, que nos despertam, dentro de um itinerário, para a vinda de Jesus Cristo, Àquele que vem de Deus e assume as condições e realidades humanas. Seu objetivo foi de realizar a reta ordem do universo no cumprimento das Leis divinas marcadas no coração das pessoas.

No mundo dos conflitos, da violência e do caos na ordem social, caímos numa situação de temor e angústia. Nossa esperança fica fragilizada e somos incapazes para uma paz de sustentabilidade. Somente em Jesus Cristo podemos encontrar força e coragem para superar as limitações contidas em nossas fraquezas.

O Advento é tempo de preparação para o Natal. É colocar-se de prontidão para acolher Aquele que nasce transformando a história. Hoje isto acontece no coração das pessoas vigilantes e sensíveis às realidades do bem. Este deve ser o caminho do cristão, reconhecendo a presença de Deus em sua vida.

Todo clima natalino, que começa com o Advento, deve fazer aumentar o amor entre as pessoas. É uma realidade que deve acontecer no relacionamento, na convivência familiar, no trabalho, na escola, enfim, na vida real. É importante a consciência de que a fonte de tudo isto está em Deus. É por isto que Ele vem a nós e fica conosco. “O amor de Deus foi derramado em nossos corações” (I Ts 4,9).

Sabemos que a fonte do amor é Deus, mas isto não dispensa o esforço pessoal. Temos que viver o amor no meio dos conflitos e tensões a todo instante. Os afazeres da vida não podem obscurecer a ação de Deus em nossa prática de vida. É Ele quem nos dá sustentação para uma realidade de fraternidade e vida mais feliz.

Dom Paulo Mendes Peixoto

A ressurreição

Aprenda a cultivar o jardim da sua existência

A palavra “ressurreição” significa levantar, erguer. Ela é muito usada nos textos da Sagrada Escritura, quando fala da ressurreição dos mortos. É o ato de uma pessoa considerada morta viver novamente. Um termo que passa por profunda reflexão no mês de novembro, principalmente quando celebramos o Dia de Todos os Santos e de Finados.

Nos fundamentos e no entendimento dos cristãos, a ressurreição tem uma base de fé. Para os descrentes ela não passa de uma aberração. Os cristãos a entendem como plenitude da vida, tendo seu desfecho em Deus. É o que motiva e dá ânimo para o enfrentamento dos sofrimentos na história de vida das pessoas.

O que dá base para a fé na ressurreição é a fidelidade aos ensinamentos divinos. A vida temporal na terra deve apoiar-se na fé, na esperança e na caridade. Pela ressurreição, ela terá continuidade na eternidade, não necessitando mais dessas virtudes humanas, apenas na totalidade do amor de Deus.

No tempo presente, a pessoa precisa cultivar o jardim de sua existência, mesmo diante das dificuldades dos atos de perseguição, de sofrimentos e de desânimo. Mas deve levar consigo a certeza de que a morte não é o término da vida, mas o caminho que leva para a realização daquilo que é a finalidade do ser humano, a vida em Deus.

Pensar na ressurreição como obra divina significa ter convicção de que Deus é sempre misericordioso, mas que também leva em conta a prática da justiça. O Senhor não abandonará na morte os que preferirem morrer a negar a fé. Portanto, a ressurreição é fruto também da escolha de fé feita de forma livre e determinada.

Não é fácil ter fé firme no meio de um mundo marcado pela descrença. Muitas pessoas, além de não ter fé na ressurreição, tentam também impedir a propagação do Evangelho. Existe até uma hostilidade de adversários, mas o cristão não pode se intimidar e desanimar só porque encontra dificuldades. É fundamental trabalhar a possibilidade de vida nova, vida feliz e plenamente realizada em Deus.

Dom Paulo Mendes Peixoto

Finados: Esperança nasce de momentos de dor e sofrimento, diz Papa

Quinta-feira, 2 de novembro de 2017, Denise Claro, Da redação

Papa Francisco celebrou a Santa Missa de Finados no Cemitério de Nettuno, em Roma, onde estão sepultados vítimas de guerras

Nesta quinta-feira, 2, Dia de Finados, o Papa Francisco celebrou a Missa em recordação dos fiéis falecidos no cemitério estadunidense de Nettuno, situado na diocese de Albano, em Roma. Com o gesto, o Pontífice rezou pelas vítimas da Segunda Guerra Mundial sepultadas no local, mas também por todos os mortos em guerras.

Assim que chegou, o Pontífice caminhou por entre os túmulos, oferecendo flores e rezando pelas almas dos sepultados.

Durante a Santa Missa, o Santo Padre recordou que a guerra produz morte e sofrimento, mas que a esperança não decepciona.

“Todos nós hoje estamos aqui reunidos na esperança. Cada um de nós, no próprio coração pode repetir as palavras de Jó que ouvimos na primeira leitura: Eu sei que meu Redentor está vivo (…)

Mas a esperança muitas vezes nasce e finca raízes em muitas chagas humanas. Em muitas situações em momentos de dor e sofrimento se olha para o céu e diz “Eu creio que meu Redentor está vivo mas pára, Senhor…”

Papa Francisco reforçou que nesses momentos de dor o que se pede a Deus é justamente para que Ele pare, cesse a guerra:

“Nunca mais esta tragédia inútil, como disse Bento XV. Melhor esperar sem essa destruição: jovens, milhares e milhares … esperanças ceifadas. Nunca mais, Senhor, isso devemos dizer hoje. Por todos os defuntos mas de forma especial por esses jovens. O mundo hoje está em guerra e se prepara para ir mais fortemente para a guerra. Nunca mais, Senhor! Não mais… pois com a guerra se perde tudo.”

O Papa citou a anciã que, olhando as ruínas de Hiroshima, com resignação e muita sabedoria, disse ‘Os homens fazem de tudo para declarar e fazer uma guerra, e no final destroem a si mesmos.’

E completou, falando sobre os dias atuais: “Esta é a guerra: a destruição de nós mesmos. Certamente aquela mulher, aquela anciã que tinha perdido filhos e netos, somente tinha chagas no coração e lágrimas nos olhos. Hoje é também um dia de lágrimas. Lágrimas como aquelas que tinham as mulheres quando o correio chegava e dizia: A senhora tem a honra pois seu marido foi um herói da pátria, que seus filhos são heróis da pátria, são lágrimas que hoje a humanidade não deve esquecer. Este orgulho desta humanidade que não aprendeu a lição e parece que não quer aprendê-la.”

Francisco terminou a homilia dizendo que, na história, os homens pensam em fazer uma guerra com a convicção que estão fazendo algo novo, uma primavera, mas a realidade é que terminam num “inverno bruto, cruel, no reino de terror e da morte”.

E se recordou dos mortos atualmente: “Hoje rezamos por todos os defuntos, todos, mas de modo especial por estes jovens. E num momento em que tantos morrem nas batalhas de todos os dias, nesta guerra em pedaços, rezemos pelos mortos de hoje, mortos de guerra, até crianças inocentes. Este é o fruto da guerra: a morte. Que o Senhor nos dê a graça de chorar.”

A perspectiva cristã da morte

Catequese, quarta-feira, 27 de novembro  de 2013, Jéssica Marçal / Da Redação

Francisco destacou que uma vida unida a Cristo prepara o homem para enfrentar a morte com serenidade e esperança

Papa falou aos fiéis sobre ressurreição da carne, explicando a perspectiva cristã da morte / Foto: reprodução CTV

A ressurreição da carne foi o tema da catequese do Papa Francisco nesta quarta-feira, 27. O Santo Padre desmistificou a visão que se tem da morte, que muitas vezes causa medo, para falar da perspectiva cristã dessa passagem e da preparação para morrer em Cristo.

Sobre a temática, o Papa elencou dois aspectos: morrer e ressurgir em Cristo. Concentrando-se no primeiro, ele explicou que há um modo enganado de ver a morte, especialmente quando ela atinge as pessoas próximas ao homem. Trata-se, neste caso, de encarar a morte como o fim de tudo, de forma que ela se torna uma ameaça.

Esta concepção de morte, segundo explicou, é típica do pensamento ateu, que interpreta a existência como um encontrar-se casualmente no mundo, caminhando para o nada. O Papa lembrou que há também o ateísmo prático, que vive somente para os próprios interesses e para as coisas terrenas. “Se nos deixamos levar por essa visão enganada da morte, não temos outra escolha que não ocultar a morte, negá-la ou banalizá-la para que não nos cause medo”.

Falando da visão cristã da morte, Francisco destacou que, mesmo nos momentos de dor pela perda de alguém, sai do coração a convicção de que não pode estar tudo terminado. “Há um instinto dentro de nós que nos diz que a nossa vida não termina com a morte”.

O Santo Padre explicou que esta sede de vida encontra a sua resposta real na ressurreição de Cristo. Dessa forma, uma vida unida a Cristo torna o homem capaz de enfrentar a morte com serenidade e esperança.

Outro ponto ressaltado pelo Pontífice foi que a vida neste mundo foi dada também como preparação para a outra vida, com o Pai Celeste. O caminho, então, é estar próximo a Jesus, o que é feito com a oração, com os sacramentos e também na prática da caridade.

“Quem pratica a misericórdia não teme a morte. (…) Se abrirmos a porta da nossa vida e do nosso coração aos irmãos mais pequeninos, então também a nossa morte se tornará uma porta que nos introduzirá no céu”.

Com o tema desta catequese e da próxima, o Santo Padre encerra o ciclo de catequeses sobre o Credo, realizadas ao longo do Ano da Fé, encerrado no último domingo, 24.

 

CATEQUESE

Queridos irmãos e irmãs,

Bom dia e parabéns porque vocês são corajosos com este frio na praça. Muitos parabéns!

Quero concluir as catequeses sobre “Credo”, desenvolvidas durante o Ano da Fé, que se concluiu domingo passado. Nesta catequese e na próxima, gostaria de considerar o tema da ressurreição da carne, capturando dois aspectos como os apresenta o Catecismo da Igreja Católica, isso é, o nosso morrer e o nosso ressurgir em Jesus Cristo. Hoje, concentro-me no primeiro aspecto, “morrer em Cristo”.

1. Entre nós, comumente, há um modo errado de olhar para a morte. A morte diz respeito a todos, e nos interroga de modo profundo, especialmente quando nos toca de modo próximo, ou quando atinge os pequenos, os indefesos de maneira que nos resulta “escandalosa”.  A mim sempre veio a pergunta: por que sofrem as crianças? Por que morrem as crianças? Se entendida como o fim de tudo, a morte assusta, aterroriza, transforma-se em ameaça que infringe todo sonho, toda perspectiva, que rompe toda relação e interrompe todo caminho. Isso acontece quando consideramos a nossa vida como um tempo fechado entre dois pólos: o nascimento e a morte; quando não acreditamos em um horizonte que vai além daquele da vida presente; quando se vive como se Deus não existisse. Esta concepção da morte é típica do pensamento ateu, que interpreta a existência como um encontrar-se casualmente no mundo e um caminhar para o nada. Mas existe também um ateísmo prático, que é um viver somente para os próprios interesses e viver somente para as coisas terrenas. Se nos deixamos levar por esta visão errada da morte, não temos outra escolha se não ocultar a morte, negá-la ou banalizá-la, para que não nos cause medo.

2. Mas a essa falsa solução se rebela o “coração” do homem, o desejo que todos nós temos de infinito, a nostalgia que todos temos do eterno. E então qual é o sentido cristão da morte? Se olhamos para os momentos mais dolorosos da nossa vida, quando perdemos uma pessoa querida – os pais, um irmão, uma irmã, um cônjuge, um filho, um amigo – nos damos conta de que, mesmo no drama da perda, mesmo dilacerados pela separação, sai do coração a convicção de que não pode estar tudo acabado, que o bem dado e recebido não foi inútil. Há um instinto poderoso dentro de nós que nos diz que a nossa vida não termina com a morte.

Esta sede de vida encontrou a sua resposta real e confiável na ressurreição de Jesus Cristo. A ressurreição de Jesus não dá somente a certeza da vida além da morte, mas ilumina também o próprio mistério da morte de cada um de nós. Se vivemos unidos a Jesus, fiéis a Ele, seremos capazes de enfrentar com sabedoria e serenidade mesmo a passagem da morte. A Igreja, de fato, prega: “Se nos entristece a certeza de dever morrer, consola-nos a promessa da imortalidade futura”. Uma bela oração esta da Igreja! Uma pessoa tende a morrer como viveu. Se a minha vida foi um caminho com o Senhor, um caminho de confiança na sua imensa misericórdia, estarei preparado para aceitar o último momento da minha existência terrena como o definitivo abandono confiante em suas mãos acolhedoras, à espera de contemplar face-a-face o seu rosto. Essa é a coisa mais bela que pode nos acontecer: contemplar face-a-face aquele rosto maravilhoso do Senhor, vê-Lo como Ele é, belo, cheio de luz, cheio de amor, cheio de ternura. Nós caminhamos para este ponto: ver o Senhor.

3. Neste horizonte se compreende o convite de Jesus a estar sempre prontos, vigilantes, sabendo que a vida neste mundo nos foi dada também para preparar a outra vida, aquela com o Pai Celeste. E para isto há um caminho seguro: preparar-se bem para a morte, estando próximo a Jesus. Esta é a segurança: o meu preparo para a morte estando próximo a Jesus. E como se fica próximo a Jesus? Com a oração, nos Sacramentos e também na prática da caridade. Recordemos que Ele está presente nos mais frágeis e necessitados. Ele mesmo identificou-se com eles, na famosa parábola do juízo final, quando disse: “Tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, era peregrino e me acolhestes, nu e me vestistes, enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim…Tudo aquilo que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes” (Mt 25, 35-36. 40). Portanto, um caminho seguro é recuperar o sentido da caridade cristã e da partilha fraterna, cuidar das feridas corporais e espirituais do nosso próximo. A solidariedade no partilhar a dor e infundir esperança é premissa e condição para receber por herança aquele Reino preparado para nós. Quem pratica a misericórdia não teme a morte. Pensem bem nisto: quem pratica a misericórdia não teme a morte! Vocês estão de acordo? Digamos juntos para não esquecê-lo? Quem pratica a misericórdia não teme a morte. E por que não teme a morte? Porque a olha em face das feridas dos irmãos e a supera com o amor de Jesus Cristo.

Se abrirmos a porta da nossa vida e do nosso coração aos irmãos mais pequeninos, então também a nossa morte se tornará uma porta que nos introduzirá no céu, na pátria bem aventurada, para a qual estamos caminhando, desejando habitar para sempre com o nosso Pai, Deus, com Jesus, com Nossa Senhora e com os santos.

O amor é forte como a morte

Cada ser humano é precioso para Deus

No dia 10 de dezembro de 2012, por meio da Zenit, uma agência católica de comunicação, recebi um artigo assinado por Gaia Bottino dando-me a conhecer Gianna Jessen, um exemplo que demonstra, se ainda fosse necessário, que o amor e a vida são mais fortes que o egoísmo e a morte. Transcrevo-o quase ao pé da letra, acrescentando apenas algumas informações que completam a epopeia.

Uma semana antes, no dia 4 de dezembro, na Paróquia Mãe de Deus, em Roma, haviam-se reunido mais de mil pessoas, em sua maioria jovens, para escutar Gianna, uma mulher de baixa estatura, de olhos luminosos e de uma alegria excepcional, que conseguiu transformar sua vida numa obra-prima.

Gianna é um dos símbolos mais eloquentes dos movimentos em favor da vida que surgem em toda a parte. A sua história inspirou o filme “October Baby”, que estreou nos Estados Unidos no mês de março de 2012. Nele, a protagonista Hanna, interpretada pela atriz Racher Hendrix, é uma jovem universitária que sofre de epilepsia, asma e depressão. Depois de submeter-se a várias análises clínicas para descobrir a origem de seus males, descobre que foi adotada após uma fracassada tentativa de aborto.

O filme é o retrato da vida de Gianna. Há 35 anos, ela nasceu numa clínica especializada em abortos. Sua mãe, então com 17 anos de idade e no sétimo mês de gravidez, tinha sido aconselhada a recorrer ao aborto salino, injetando no útero uma solução que corrói o feto e o leva à morte em 24 horas.

A técnica não funcionou e a criança nasceu com vida. Contudo, a falta de oxigênio dentro do útero provocou nela uma paralisia cerebral e muscular: «Eu sou a pessoa que ela abortou. Vivi ao invés de morrer. Minha mãe estava na clínica e programaram o aborto para as 9h da manhã. Felizmente, para mim, o médico não se encontrava na clínica e eu nasci às 6h da manhã do dia 6 de abril de 1977. Apressei-me. Estou certa de que, se ele estivesse ali, eu não estaria aqui hoje, já que seu trabalho era acabar com a minha vida ao invés de ampará-la. Há quem diga que sou um aborto fracassado, o resultado de um trabalho malfeito; mas o que sou é fruto do amor maravilhoso de Deus».

Apesar de tudo, aos três anos, Gianna conseguiu caminhar com o auxílio de suportes ortopédicos e, aos vinte, aposentou-os. Em 2006, participou da grande maratona de Nova York, no intento de sensibilizar a opinião pública sobre a gravidade do aborto.

Gianna perdoou a mãe por ter tentado matá-la. Transformou a sua dor em esperança e a sua raiva no desejo de realizar o que considera a missão de sua vida: obter para o nascituro a mesma igualdade de direitos que se concede à mulher que o concebeu: «Se o aborto é uma questão de direitos da mulher, onde estavam os meus?», perguntou Gianna com voz firme, diante das milhares de pessoas em Roma. E prosseguiu: «Não existe nenhuma feminista que proteste, porque os meus direitos foram violados e a vida foi sufocada em nome dos direitos das mulheres?».

O único propósito de Gianna, que se autodenomina “a criança de Deus” é dar alegria ao Criador: «Odiaram-me desde a concepção, mas tenho sido amada por muitas outras pessoas, especialmente por Deus. Sou a sua menina. Eu não posso ficar neste mundo sem dar o meu coração, a minha mente, a minha alma e a minha força a Cristo, porque Ele me deu a vida».

Falando sobre o testemunho de Gianna, a bem-aventurada Madre Teresa de Calcutá assim se expressou: «Deus está se servindo de Gianna para lembrar ao mundo que cada ser humano é precioso para Ele. É confortante ver a força do amor de Jesus derramado em seu coração. A minha oração por Gianna, e por todos aqueles que a escutam, é que a mensagem do amor de Deus supere o aborto com o poder do amor».

Os produtores do filme “October Baby” decidiram destinar 10% dos lucros à Fundação “Toda vida é bela”, que distribuirá o dinheiro a organizações que sustentam mulheres grávidas em crise, a agências de adoção de crianças rejeitadas e a orfanatos. O apoio à vida vem crescendo constantemente nos Estados Unidos. Em 1996, apenas 33% da população se declarava contra o aborto; hoje, seu número passou para 48%.

Nossos antepassados pensavam que «o amor é forte como a morte» (Ct 8,6). Estavam enganados, pois Gianna nos ensina que a última palavra é do amor!

Dom Redovino Rizzardo, cs
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