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Assunção de Maria: “ela nunca nos deixa só”

Missa em Castel Gandolfo
Francisco destacou que Maria entrou na glória do céu, mas continua próxima ao homem, apoiando os cristãos na luta contra o mal
Jéssica Marçal / Da Redação

Nesta quinta-feira, 15, solenidade da Assunção de Maria, Papa Francisco dirigiu-se a Castel Gandolfo para celebrar a Santa Missa e rezar o Angelus com os fiéis da pequena cidade italiana. O Santo Padre concentrou sua homilia em três palavras-chave: luta, ressurreição e esperança, lembrando que Maria nunca deixa o homem sozinho.

Mencionando um trecho do Apocalipse, Francisco falou da luta entre a mulher e o dragão, destacando que a mulher, que representa a Igreja, é por um lado gloriosa e triunfante. Ele lembrou que se vive continuamente os desafios da luta entre Deus e o maligno e, nessa luta, Maria nunca deixa o ser humano sozinho.

“Ela, naturalmente, entrou de uma vez por todas na glória do Céu. Mas isto não significa que esteja distante, que esteja separada de nós; antes, Maria nos acompanha, luta conosco, apoia os cristãos no combate contra as forças do mal”.

O Papa também falou da ressurreição de Cristo, uma crença inerente ao fato de ser cristão. “E também o mistério da Assunção de Maria em corpo e alma está todo inscrito na Ressurreição de Cristo. A humanidade da Mãe foi ‘atraída’ pelo Filho na sua passagem através da morte”.

E sobre a esperança, a terceira palavra-chave da homilia, Francisco destacou que esta é a virtude de quem, experimentando o conflito, a luta cotidiana entre a vida e a morte, entre o bem e o mal, crê na Ressurreição de Cristo.

“Escutamos o Canto de Maria, o Magnificat: é o cântico da esperança, é o cântico do Povo de Deus em caminho na história. (…) Onde tem a Cruz, para nós cristãos, tem a esperança, sempre. (…) E Maria está sempre ali, próxima a esta comunidade, a estes nossos irmãos, caminha com eles, sofre com eles, e canta com eles o Magnificat da esperança”.

 

HOMILIA
Missa na Solenidade da Assunção de Maria

Praça da Liberdade – Castel Gandolfo

Queridos irmãos e irmãs!

Ao término da Constituição sobre a Igreja, o Concílio Vaticano II deixou uma meditação belíssima sobre Maria Santíssima. Recordo somente as expressões que se referem ao mistério que celebramos hoje: a primeira é esta: “A imaculada Virgem, preservada imune da mancha de pecado original, ao fim do curso de sua vida terrena, foi assunta à glória celeste com seu corpo e a sua alma, e pelo Senhor exaltada como a rainha do universo” (n. 59). E então, no fim, há esta outra: “A Mãe de Jesus, como no céu, glorificada em corpo e alma, é a imagem e a primícia da Igreja que deverá ter o seu cumprimento na idade futura, assim na terra brilha como sinal de segura esperança e de consolação pelo Povo de Deus em caminho, enquanto não chega o dia do Senhor” (n. 68). À luz deste belíssimo ícone de nossa Mãe, podemos considerar a mensagem contida nas Leituras bíblicas que escutamos há pouco. Podemos concentrar-nos sobre três palavras-chave: luta, ressurreição e esperança.

O trecho do Apocalipse apresenta a visão da luta entre a mulher e o dragão. A figura da mulher, que representa a Igreja, é por um lado gloriosa, triunfante, e por outro está ainda em caminho. Assim de fato é a Igreja: se no Céu está já associada à glória de seu Senhor, na história vive continuamente as provas e os desafios que comporta o conflito entre Deus e o maligno, o inimigo de sempre. E nesta luta que os discípulos de Jesus devem enfrentar – nós todos, todos os discípulos de Jesus devem enfrentar esta luta – Maria não nos deixa sozinhos; a Mãe de Cristo e da Igreja está sempre conosco. Sempre, caminha conosco, está conosco. Também Maria, em certo sentido, partilha esta dupla condição. Ela, naturalmente, entrou de uma vez por todas na glória do Céu. Mas isto não significa que esteja distante, que esteja separada de nós; antes, Maria nos acompanha, luta conosco, apoia os cristãos no combate contra as forças do mal. A oração com Maria, em particular o Rosário – mas ouçam bem: o Rosário. Vocês rezam o Rosário todos os dias? Mas não sei… (os presentes gritam: Sim!). É mesmo? Então, a oração com Maria, em particular o Rosário tem também esta dimensão “agonística”, isso é, de luta, uma oração que apoia na batalha contra o maligno e os seus cúmplices. Também o Rosário nos apoia na batalha.

A segunda Leitura nos fala da ressurreição. O apóstolo Paulo, escrevendo aos Coríntios, insiste no fato de que ser cristão significa crer que Cristo verdadeiramente ressuscitou dos mortos. Toda a nossa fé se baseia nesta verdade fundamental que não é uma ideia, mas um acontecimento. E também o mistério da Assunção de Maria em corpo e alma está todo inscrito na Ressurreição de Cristo. A humanidade da Mãe foi “atraída” pelo Filho na sua passagem através da morte. Jesus entrou para sempre na vida eterna com toda a sua humanidade, aquela que havia tomado junto à Maria; assim ela, a Mãe, que O seguiu fielmente por toda a vida, seguiu-O com o coração, entrou com Ele na vida eterna, que chamamos também de Céu, Paraíso, Casa do Pai.

Também Maria conheceu o martírio da cruz: o martírio do seu coração, o martírio da alma. Ela sofreu tanto, no seu coração, enquanto Jesus sofria na cruz. A Paixão do Filho a viveu até o fim na alma. Esteve plenamente unida a Ele na morte, e por isto lhe foi dado o dom da ressurreição. Cristo é a primícia dos ressuscitados, e Maria é a primícia dos redimidos, a primeira “daqueles que são de Cristo”. É nossa Mãe, mas também podemos dizer que é a nossa representante, é a nossa irmã, a nossa primeira irmã, é a primeira dos redimidos que chegou ao Céu.

O Evangelho nos sugere a terceira palavra: esperança. Esperança é a virtude de quem, experimentando o conflito, a luta cotidiana entre a vida e a morte, entre o bem e o mal, crê na Ressurreição de Cristo, na vitória do Amor. Escutamos o Canto de Maria, Magnificat: é o cântico da esperança, é o cântico do Povo de Deus em caminho na história. É o cântico de tantos santos e santas, alguns notáveis, outros muitíssimo, desconhecidos, mas bem conhecidos por Deus: mães, pais, catequistas, missionários, padres, irmãs, jovens, também as crianças, avôs, avós: estes enfrentaram a luta da vida levando no coração a esperança dos pequenos e dos humildes. Maria diz: “A minha alma engrandece o Senhor” – também hoje canta a Igreja e o canta em toda parte do mundo. Este cântico é particularmente intenso lá onde o Corpo de Cristo sofre hoje a Paixão. Onde tem a Cruz, para nós cristãos, tem a esperança, sempre. Se não tem a esperança, nós não somos cristãos. Por isto eu gosto de dizer: não deixem roubar a esperança. Que não roubem a esperança, porque esta força é uma graça, um dom de Deus que nos leva adiante olhando o Céu. E Maria está sempre ali, próxima a esta comunidade, a estes nossos irmãos, caminha com eles, sofre com eles, e canta com eles o Magnificat da esperança.

Queridos irmãos e irmãs, unamo-nos, com todo o coração, a este cântico de paciência e de vitória, de luta e de alegria, que une a Igreja triunfante com aquela peregrina, nós; que une a terra com o Céu, que une a nossa história com a eternidade, rumo à qual caminhamos. Assim seja.

 

No Angelus, Papa reza pela paz no Egito
Francisco também recordou os 25 anos da Carta Apostólica de João Paulo II sobre a dignidade e vocação da mulher

Após celebrar a Santa Missa em Castel Gandolfo na Solenidade da Assunção de Maria, Papa Francisco rezou o Angelus com os fiéis nesta quinta-feira, 15. Ele recordou as notícias dolorosas do Egito, devido às situações de conflito, pedindo a paz para a região.

“Rezemos juntos pela paz, pelo diálogo, pela reconciliação nesta querida Terra e no mundo inteiro”, disse.

E recordando a Solenidade da Assunção de Maria, Francisco lembrou que o caminho dela rumo ao Céu começou com o seu “sim” a Deus. Da mesma forma acontece com o ser humano.

“Na realidade, é justamente assim: cada ‘sim’ a Deus é um passo para o Céu, para a vida eterna. Porque o Senhor quer isto: que todos os seus filhos tenham a vida em abundância! Deus nos quer todos consigo, na sua casa!”, disse.

O Papa recordou ainda o 25º aniversário da Carta Apostólica Mulieris dignitatem, do Papa São João Paulo II, sobre a dignidade e a vocação da mulher.

“Façamos nossa a oração presente no fim desta Carta Apostólica (cfr n.31): a fim de que, meditando o mistério bíblico da mulher, condensado em Maria, todas as mulheres encontrem a si mesmas e a plenitude da sua vocação e em toda a Igreja se aprofunde e se entenda mais o tão grande e importante papel da mulher!”.

 

ANGELUS

Queridos irmãos e irmãs,

Ao término desta Celebração nos dirigimos à Virgem Maria com a oração do Angelus. O caminho de Maria rumo ao Céu começou com aquele “sim” pronunciado em Nazaré, em resposta ao Mensageiro celeste que lhe anunciava a vontade de Deus para ela. E na realidade é justamente assim: cada “sim” a Deus é um passo rumo ao Céu, rumo à vida eterna. Porque o Senhor quer isto: que todos os seus filhos tenham a vida em abundância! Deus nos quer todos consigo, na sua casa!

Aparecem infelizmente notícias dolorosas do Egito. Desejo assegurar a minha oração por todas as vítimas e s seus familiares, pelos feridos e por todos os que sofrem. Rezemos juntos pela paz, pelo diálogo, pela reconciliação naquela querida Terra e no mundo inteiro. Maria, Rainha da Paz, rogai por nós: todos digamos: Maria, Rainha da paz, rogai por nós.

Desejo recordar o 25º aniversário da Carta Apostólica Mulieris dignitatem, do Papa São João Paulo II, sobre a dignidade e a vocação da mulher. Este documento é rico de ideias que merecem ser retomadas e desenvolvidas; e na base de tudo está a figura de Maria. Façamos nossa a oração presente no fim desta Carta Apostólica (cfr n.31): a fim de que, meditando o mistério bíblico da mulher, condensado em Maria, todas as mulheres encontrem a si mesmas e a plenitude da sua vocação e em toda a Igreja se aprofunde e se entenda mais o tão grande e importante papel da mulher!

Agradeço a todos os presentes, moradores de Castel Gandolfo e peregrinos! Agradeço vocês, moradores de Castel Gandolfo: muito obrigado! E todos os peregrinos, em particular aqueles de Guiné com o seu Bispo.

Saúdo com afeto as alunas do Colégio Pasionista “Michael Ham” de Vicente López, Argentina; bem como os jovens da banda de música do Colégio José de Jesus Rebolledo de Coatepec, México.

E agora, todos juntos, rezemos à Maria:  Angelus Domini…

Desejo a vocês boa festa hoje, dia de Maria: boa festa e bom almoço!

Quando viu o coração do seu filho bater no ventre…

… desistiu do aborto e agora conta sua história

WASHINGTON DC, 06 Nov. 15 / 04:26 pm (ACI/EWTN Noticias).- “Quando fiquei grávida, não tinha ninguém”, recorda Claire Crawford, uma jovem mãe que mora em Misisipi (Estados Unidos) e que, apesar de todas as contrariedades, rejeitou o aborto quando tinha 18 anos de idade. Seu testemunho foi divulgado no blog da plataforma pró-vida americana ‘Estudantes pela Vida’ (Students for Life).

“Venho de uma família numerosa”, relata a jovem. “Meus pais cometeram erros, como todos, mas sempre me deram tudo o que necessitava. Inclusive, meu pai juntava um dinheiro para pagar a minha universidade, desde quando era um bebê. Cresci em uma boa vizinhança. Dirigia um automóvel bonito e frequentei uma boa escola”.

Apesar de tudo isto, lamenta, “quando fiquei grávida, não tinha ninguém. Fiz algumas escolhas antes de engravidar e estas me levaram a tal situação. Nem podia acreditar que de verdade estava grávida”.

Claire assinala: “O pai de meu filho e eu tivemos uma relação difícil e se tornou cada vez mais difícil. Mas ele era tudo o que tinha. Infelizmente nos separamos quando eu tinha aproximadamente 7 meses de gestação”.

Mas sua complicada situação não foi uma desculpa para acabar com a vida de seu bebê.

“Inclusive sem trabalho, automóvel e dinheiro, sabia que queria ter o meu bebê e ia trabalhar o quanto fosse possível para que isso pudesse acontecer. ‘Onde há força de vontade, há uma solução’ era minha frase favorita para dizer àqueles que me questionavam”, recorda.

Em sua gravidez, escreve Claire, “chorei amargamente durante muitos dias”, e inclusive houve ocasiões “nas quais pensava que deveria ter ou sofrer um aborto. Implorava a Deus que me ajudasse”.

Anja, uma estudante pró-vida com quem tinha uma grande amizade, levou Claire a um Center for Pregnancy Choices (CPC, centro pró-vida), onde fez uma ecografia gratuita. Nessa ocasião estava com 11 semanas e 6 dias de gestação.

“Vi o meu pequeno bebê. Escutei o seu coração bater. Fiquei alegre e nervosa, tentando controlar as minhas lágrimas, enquanto via meu pequeno bebê pular e dançar. Nesse momento foi quando decidi que ia fazer isto, custe o que custar”.

Mas as dificuldades não acabaram e em diversas ocasiões puseram à prova sua confiança em si mesma.

“Abandonei a universidade e perdi meus dois trabalhos quando tinha cinco meses de gravidez, ainda sem saber o que ia fazer ou como ia sustentar o meu bebê com apenas um dinheiro que economizava. Rezei a Deus a fim de que me iluminasse para fazer o que seria melhor para meu filho”.

Em seguida, Claire confessou: “Estou envergonhada de admiti-lo agora, mas vou ser franca. Havia momentos nos quais desejava ter abortado o meu bebê”. Entretanto, recorda, sua amiga Anja estava aí para ajudá-la no que precisasse.

Com 16 semanas de gestação, Claire contou para sua mãe que estava esperando um bebê. A notícia revitalizou a relação e ela pôde voltar para sua casa para comemorar seus 18 anos, quando estava com 8 meses de gravidez

“Minha mamãe comprou para Taylan suas primeiras mantas, babadores, pijamas, etc. Depois de algum tempo, ela finalmente aceitou minha gravidez e estava muito emocionada, pois seria avó pela primeira vez”.

O pequeno Taylan nasceu no dia 30 de julho deste ano. Apesar de “ainda existir vários desafios e momentos difíceis”, Claire assegura: “Minha vida sem ele não seria nada”.

Segundo Claire, compartilhar sua história poderia ajudar alguém a “ter a esperança que necessitam para seguir em frente”.

“Durante a minha gestação, passei por um dos momentos mais difíceis de minha vida, mas teve o melhor resultado. Faço aproximadamente 98 por cento do que devo fazer como mãe, com pouca ajuda. Nunca amei tanto alguém na minha vida”, conclui Claire.

Glória e cruz, em Cristo, caminham juntas, diz Papa

Solenidade dos Santos Pedro e Paulo
Sexta-feira, 29 de junho de 2018, Da Redação, com Boletim da Santa Sé

Santo Padre presidiu Missa por ocasião da Solenidade dos Santos Pedro e Paulo

Papa presidiu Missa na Solenidade dos Santos Pedro e Paulo hoje no Vaticano / Foto: REUTERS/Alessandro Bianchi

Sexta-feira, 29 de junho, dia em que a Igreja celebra a Solenidade dos Santos Pedro e Paulo. No Vaticano, o Papa Francisco presidiu a Santa Missa com a benção do pálio destinado aos arcebispos metropolitanos nomeados no último ano. A Igreja no Brasil celebrará esta solenidade no domingo, 1º.

Participaram da Missa de hoje os cardeais criados ontem em Consistório e a delegação do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, que tradicionalmente visita Roma nesta ocasião. Após o rito da benção do pálio, Francisco deu sequência com a celebração eucarística. Na homilia, traçou uma reflexão a partir da pergunta presente no Evangelho refletido na Solenidade – “E vós, quem dizeis que eu sou?” – e da resposta dada por São Pedro: “Tu és o Messias”.

“Como Pedro, também nós podemos confessar com os nossos lábios e o nosso coração não só aquilo que ouvimos, mas também a experiência concreta da nossa vida: fomos ressuscitados, acudidos, renovados, cumulados de esperança pela unção do Santo”.

Francisco observou que, ainda nesse trecho do Evangelho, mais à frente, Jesus anuncia aos discípulos o sofrimento pelo qual haveria de passar, chegando à morte e à ressurreição. Nesse ponto, atentou para a reação de Pedro: pensando em defender os direitos de Deus ao dizer “Deus Te livre, Senhor! Isso nunca Te há de acontecer”, Pedro transformou-se em pedra de tropeço no caminho do Messias. Nesse sentido, olhar para a vida de Pedro significa para os fiéis de hoje ficar em alerta para as tentações que podem aparecer ao longo da vida.

“Contemplar a vida de Pedro e a sua confissão significa também aprender a conhecer as tentações que hão de acompanhar a vida do discípulo. À semelhança de Pedro, como Igreja, seremos sempre tentados por aqueles ‘sussurros’ do maligno que serão pedra de tropeço para a missão. Digo ‘sussurros’ porque o demônio seduz veladamente, fazendo com que não se reconheça a sua intenção”, explicou.

O Papa frisou por fim que, ao contrário disso, participar na unção de Cristo é participar na sua glória, que é a própria Cruz. “Glória e cruz, em Jesus Cristo, caminham juntas e não se podem separar; porque, quando se abandona a cruz, ainda que entremos no deslumbrante esplendor da glória, enganar-nos-emos porque aquela não será a glória de Deus, mas a pantomina do adversário”.

“Várias vezes sentimos a tentação de ser cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor. Jesus toca a miséria humana, convidando-nos a estar com Ele e a tocar a carne sofredora dos outros. (…) Jesus, não separando da cruz a glória, quer resgatar os seus discípulos, a sua Igreja, de triunfalismos vazios: vazios de amor, vazios de serviço, vazios de compaixão, vazios de povo”, acrescentou o Santo Padre.

Sobre o pálio

O pálio que foi abençoado hoje para os arcebispos metropolitanos é símbolo do serviço e da promoção da comunhão na própria Província Eclesiástica e na sua comunhão com a Sé Apostólica. Trata-se de uma espécie de colarinho de lã branca, com dois apêndices – um na frente e outro nas costas. Possui seis cruzes bordadas em lã preta: quatro no colarinho e uma em cada um dos apêndices.

Em 2015, o Papa Francisco modificou o rito de imposição do pálio. Antes, o pálio era colocado pelo Santo Padre na Solenidade dos Santos Pedro e Paulo, agora não mais. O Papa abençoa o pálio e a imposição é feita posteriormente, nas respectivas dioceses de origem pela mão dos Núncios Apostólicos locais.

Entre os arcebispos que receberam o pálio hoje, está um brasileiro: Dom Airton José dos Santos, arcebispo de Mariana (MG).

HOMILIA
Solenidade dos Santos Pedro e Paulo
Praça São Pedro – Vaticano
Sexta-feira, 29 de junho de 2018
Boletim da Santa Sé

As leituras proclamadas permitem-nos entrar em contacto com a Tradição Apostólica, que «não é transmissão de coisas ou de palavras, uma coleção de coisas mortas. A Tradição é o rio vivo que nos liga às origens, o rio vivo no qual as origens sempre estão presentes» (Bento XVI, Catequese, 26 de abril de 2006) e oferecem-nos as chaves do Reino dos Céus (cf. Mt 16, 19). Tradição perene e sempre nova, que acende e revigora a alegria do Evangelho, consentindo-nos assim de confessar com os nossos lábios e o nosso coração: «“Jesus Cristo é o Senhor”, para glória de Deus Pai» (Flp 2, 11).

O Evangelho inteiro quer responder à pergunta que se abrigava no coração do Povo de Israel e que, mesmo hoje, não cessa de habitar em tantos rostos sedentos de vida: «És Tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?» (Mt 11, 3). Pergunta que Jesus retoma e coloca aos seus discípulos: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» (Mt 16, 15).

Pedro, tomando a palavra, atribui a Jesus o título maior com que O podia designar: «Tu és o Messias» (Mt 16, 16), isto é, o Ungido, o Consagrado de Deus. Apraz-me saber que foi o Pai a inspirar esta resposta a Pedro, que via como Jesus «ungia» o seu povo. Jesus, o Ungido que caminha, de aldeia em aldeia, com o único desejo de salvar e levantar quem era tido por perdido: «unge» o morto (cf. Mc 5, 41-42; Lc 7, 14-15), unge o doente (cf. Mc 6, 13; Tg 5, 14), unge as feridas (cf. Lc 10, 34), unge o penitente (cf. Mt 6, 17). Unge a esperança (cf. Lc 7, 38.46; Jo 11, 2; 12, 3). Numa tal unção, cada pecador, cada vencido, doente, pagão – no ponto onde se encontrava – pôde sentir-se membro amado da família de Deus. Com os seus gestos, Jesus dizia-lhe de maneira pessoal: tu pertences-Me. Como Pedro, também nós podemos confessar com os nossos lábios e o nosso coração não só aquilo que ouvimos, mas também a experiência concreta da nossa vida: fomos ressuscitados, acudidos, renovados, cumulados de esperança pela unção do Santo. Todo o jugo de escravidão é destruído graças à sua unção (cf. Is 10, 27). A nós não é lícito perder a alegria e a memória de nos sabermos resgatados, aquela alegria que nos leva a confessar: «Tu és (…) o Filho de Deus vivo» (Mt 16, 16).

Entretanto é interessante notar o seguimento desta passagem do Evangelho onde Pedro confessa a fé: «A partir desse momento, Jesus Cristo começou a fazer ver aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito, da parte dos anciãos, dos sumos-sacerdotes e dos doutores da Lei, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar» (Mt 16, 21). O Ungido de Deus leva o amor e a misericórdia do Pai até às extremas consequências. Este amor misericordioso exige ir a todos os cantos da vida para alcançar a todos, ainda que isso custe o «bom nome», as comodidades, a posição… o martírio.

Perante anúncio tão inesperado, Pedro reage: «Deus Te livre, Senhor! Isso nunca Te há de acontecer» (Mt 16, 22) e transforma-se imediatamente em pedra de tropeço no caminho do Messias; e, pensando defender os direitos de Deus, sem se dar conta transforma-se em seu inimigo (Jesus chama-o «Satanás»). Contemplar a vida de Pedro e a sua confissão significa também aprender a conhecer as tentações que hão de acompanhar a vida do discípulo. À semelhança de Pedro, como Igreja, seremos sempre tentados por aqueles «sussurros» do maligno que serão pedra de tropeço para a missão. Digo «sussurros» porque o demónio seduz veladamente, fazendo com que não se reconheça a sua intenção, «comporta-se como um ser falso, que quer ficar escondido e não ser descoberto» (Santo Inácio de Loyola, Exercícios Espirituais, n. 326).

Pelo contrário, participar na unção de Cristo é participar na sua glória, que é a própria Cruz: Pai, glorifica o teu Filho… «Pai, manifesta a tua glória!» (Jo 12, 28). Glória e cruz, em Jesus Cristo, caminham juntas e não se podem separar; porque, quando se abandona a cruz, ainda que entremos no deslumbrante esplendor da glória, enganar-nos-emos porque aquela não será a glória de Deus, mas a pantomina do adversário.

Várias vezes sentimos a tentação de ser cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor. Jesus toca a miséria humana, convidando-nos a estar com Ele e a tocar a carne sofredora dos outros. Confessar a fé com os nossos lábios e o nosso coração exige – como o exigiu a Pedro – identificar os «sussurros» do maligno; aprender a discernir e descobrir as «coberturas» pessoais e comunitárias que nos mantêm à distância do drama humano real, impedindo-nos de entrar em contacto com a existência concreta dos outros e, em última análise, de conhecer a força revolucionária da ternura de Deus (cf. Evangelii gaudium, 270).

Jesus, não separando da cruz a glória, quer resgatar os seus discípulos, a sua Igreja, de triunfalismos vazios: vazios de amor, vazios de serviço, vazios de compaixão, vazios de povo. Quer resgatá-la duma imaginação sem limites que não sabe criar raízes na vida do Povo fiel ou, pior ainda, crê que o serviço ao Senhor lhe pede para se livrar das estradas poeirentas da história. Contemplar e seguir a Cristo exige deixar que o coração se abra ao Pai e a todos aqueles com quem Ele próprio Se quis identificar (cf. João Paulo II, Novo millennio ineunte, 49), e isto na certeza de saber que não abandona o seu povo.

Queridos irmãos, continua a habitar em milhões de rostos a pergunta: «És Tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?» (Mt 11, 3). Confessemos com os nossos lábios e com o nosso coração: Jesus Cristo é o Senhor (cf. Flp 2, 11). Este é o nosso cantus firmus que somos convidados a entoar todos os dias. Com a simplicidade, a certeza e a alegria de saber que «a Igreja não brilha de luz própria, mas da de Cristo; extrai de tal modo o seu esplendor do Sol de justiça, que pode dizer: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gal 2, 20)» (Santo Ambrósio, Hexaemeron, IV, 8, 32).

O testamento deixado por João Paulo II

Documento foi escrito em trechos ao longo de 22 anos e está disponível no site oficial do Vaticano

Anotações informais começaram em março de 1979

Escrito em trechos, durante 22 anos, com anotações informais, o Testamento de João Paulo II revela a simplicidade e coerência do polonês que marcou a história não só da Igreja, mas do mundo. Poucas linhas para um Papa com quase 27 anos de pontificado e uma história de vida surpreendente.

O Testamento começou a ser escrito em 6 de março de 1979, durante o tradicional retiro da Quaresma. “Durante os exercícios espirituais, voltei a ler o testamento do Santo Padre Paulo VI. Esta leitura estimulou-me a escrever este testamento”, revela João Paulo II.As últimas anotações são de 17 de março de 2000, em pleno ano jubilar.

A frase característica do Pontífice, que revela sua devoção Mariana, “Totus Tuus” (Todo teu) é escrita 6 vezes no Documento, sempre pedindo à Virgem Maria o auxílio para realizar a vontade de Deus.

A devoção à Nossa Senhora, que permeou o seu pontificado, aparece principalmente no trecho, escrito em 1982, em que fala do atentado sofrido na Praça São Pedro em maio de 1981. “Quanto mais profundamente sinto que estou totalmente nas Mãos de Deus e permaneço continuamente à disposição do meu Senhor, confiando-me a Ele na Sua Imaculada Mãe”.

O atentando é comentado uma segundo vez, agora no ano 2000. João Paulo II parece ter comprrendido melhor o desígnio de Deus. “Ele mesmo me prolongou esta vida, de certo modo concedeu-ma de novo. A partir desse momento ela pertence-lhe ainda mais. Espero que Ele me ajudará a reconhecer até quando devo continuar este serviço, para o qual me chamou no dia 16 de Outubro de 1978”.

Karol Wojtyla fala da perseguição à Igreja e dos tempos difíceis pelos quais estava passando. Com data de 1980 o Papa escreve: “Nalguns Países (como por exemplo naquele sobre o qual li durante os exercícios espirituais), a Igreja encontra-se num período de tal perseguição, que não é inferior à dos primeiros séculos, até os supera pelo grau de crueldade e de ódio. Sanguis martyrum semen christianorum. E além disso tantas pessoas desaparecem inocentemente, também neste País em que vivemos…”

A publicação da obra

O texto é claramente montado em “fragmentos”, nem sempre os pensamentos seguem ordem do assunto tratado no anterior. A impressão é que o Beato não esperava que a obra fosse publicada, mas apenas lido por seu secretário particular, atualmente arcebispo de Cracóvia, Cardeal Stanislaw Dziwisz.

O então secretário é citado nos primeiros escritos, em 1979. “Não deixo propriedade alguma da qual seja necessário dispor. Quanto aos objectos de uso quotidiano que me serviam, peço que sejam distribuídos como for oportuno. Os apontamentos pessoais sejam queimados. Peço que disto se ocupe o Pe. Stanislaw, ao qual agradeço a colaboração, a ajuda tão prolongada nos anos e a compreensão(…).

Parte dos pedidos de João Paulo II foi atendido por Stanislaw, porém o religioso polonês não queimou os apontamentos pessoais como lhe foi pedido. Sobre isso, ele mesmo contou o motivo no dia 22 janeiro deste ano , durante a apresentação do livro “Estou nas mãos de Deus. Anotações pessoais 1962 – 2003”, que reúne os escritos espirituais de Karol Wojtyla.

“(…) não fui o suficientemente corajoso para queimar estas folhas de papel e cadernos com as suas notas pessoais, que tinha deixado, porque têm informação importante sobre a sua vida. As vi na mesa do Santo Padre, mas nunca as tinha lido. Quando vi o testamento, fui tocado pelo fato de que João Paulo II, – a quem tinha acompanhado durante quase 40 anos – me confiara também seus assuntos pessoais”, revela o Cardeal.

Por duas vezes, o Beato diz como quer ser enterrado, porém, submete-se ao Colégio Cardinalício e aos “Concidadãos”, que ele mesmo explica, serem o metropolita de Cracóvia ou o Conselho Geral do Episcopado da Polônia. João Paulo II pede que seu “sepulcro seja na terra, não num sarcófago”.

O desejo foi atendido pelo colégio Cardinalício, sendo o local da sepultura a Cripta Vaticana, em um simples túmulo. Atualmente, os restos mortais do Papa encontram-se na Basílica Vaticana em lugar de destaque, devido ao grande número de visitas de peregrinos.

Igreja no Terceiro Milênio

Por fim, Wojtyla fala sobre a missão de introduzir a Igreja no Terceiro Milênio,e narra que as celebrações ficaram impressas em sua memória. No ano 2000, ainda durante as festividades, ele se questiona sobre quanto tempo ainda viverá.

“À medida que o Ano Jubilar avança, de dia para dia se fecha atrás de nós o século XX e se abre o século XXI. Segundo os desígnios da Providencia foi-me concedido viver no difícil século que começa a fazer parte do passado, e agora no ano em que a minha vida chega aos anos oitenta (“octogesima adveniens”), é preciso perguntar-se se não tenha chegado o tempo de repetir com o bíblico Simeão Nunc dimittis” (Agora tu, Senhor, despedes em paz o teu servo).

O testamento, com data de 17 de março de 2000, termina com diversos agradecimentos, entre eles, aos familiares, à Paróquia de Wadowice, onde foi batizado e às pessoas que, segundo o Papa, lhe foram confiadas pelo Senhor. “A todos desejo dizer uma só coisa: Deus vos recompense”.

 

O TESTAMENTO DE JOÃO PAULO II 

Apresentamos o texto do Testamento do Papa João Paulo II, com data de 6.3.1979 (e os acréscimos sucessivos), lido na Quarta Congregação Geral do Colégio dos Cardeais, em 6 de Abril de 2005.

Totus Tuus ego sum

Em nome da Santíssima Trindade. Amém.

“Vigiai, porque não sabeis em que dia o Senhor virá” (cf. Mt 24, 42) estas palavras recordam-me a última chamada, que acontecerá no momento em que o Senhor vier. Desejo segui-lo e desejo que tudo o que faz parte da minha vida terrena me prepare para este momento. Não sei quando ele virá, mas como tudo, também deponho esse momento nas mãos da Mãe do meu Mestre: Totus Tuus. Nas mesmas mãos maternas deixo tudo e Todos aqueles com os quais a minha vida e a minha vocação me pôs em contacto. Nestas Mãos deixo sobretudo a Igreja, e também a minha Nação e toda a humanidade. A todos agradeço. A todos peço perdão. Peço também a oração, para que a Misericórdia de Deus se mostre maior que a minha debilidade e indignidade.  Durante os exercícios espirituais voltei a ler o testamento do Santo Padre Paulo VI. Esta leitura estimulou-me a escrever este testamento.

Não deixo propriedade alguma da qual seja necessário dispor. Quanto aos objectos de uso quotidiano que me serviam, peço que sejam distribuídos como for oportuno. Os apontamentos pessoais sejam queimados. Peço que disto se ocupe o Pe. Stanislau, ao qual agradeço a colaboração, a ajuda tão prolongada nos anos e a compreensão. Todos os outros agradecimentos deixo-os no coração diante de Deus, porque é difícil expressá-los.

No que diz respeito ao funeral, repito as mesmas disposições, que deu o Santo Padre Paulo VI (anotação à margem:  o sepulcro na terra, não num sarcófago, 13.III.92). Sobre o lugar decida o Colégio Cardinalício e os Concidadãos.

“Apud Dominum misericordia  et copiosa apud Eum redemptio”

João Paulo pp. II

Roma, 6.III.1979

Depois da morte peço Santas Missas e orações.

5.II.1990

***

Expresso a mais profunda confiança de que, apesar de toda a minha debilidade, o Senhor conceder-me-á todas as graças necessárias para enfrentar segundo a Sua vontade qualquer tarefa, provação e sofrimento que quiser pedir ao Seu servo, ao longo da vida. Tenho também esperança de que jamais permitirá que, através de qualquer minha atitude: palavras, obras ou omissões, possa trair as minhas obrigações nesta Santa Sé Petrina.

***

24.II – 1.III.1980

Também durante estes exercícios espirituais reflecti sobre a verdade do Sacerdócio de Cristo na perspectiva daquele Trânsito que para cada um de nós é o momento da própria morte. Da despedida deste mundo para nascer para o outro, para o mundo futuro, sinal eloquente (acréscimo acima: decisivo) é para nós a Ressurreição de Cristo.

Por conseguinte, li a redacção do meu testamento do último ano, feita também durante os exercícios espirituais comparei-a com o testamento do meu grande Predecessor e Pai Paulo VI, com aquele sublime testemunho sobre a morte de um cristão e de um papa e renovei em mim a consciência das questões, às quais se refere a redacção de 6.III.1979 preparada por mim (de maneira bastante provisória).

Hoje desejo acrescentar-lhe só isto, que todos devem ter presente a perspectiva da morte. E deve estar preparado e apresentar-se diante do Senhor e do Juiz e contemporaneamente Redentor e Pai. Então também eu tomo em consideração isto continuamente, entregando aquele momento decisivo à Mãe de Cristo e da Igreja à Mãe da minha esperança.

Os tempos em que vivemos são indizivelmente difíceis e preocupantes. Tornou-se também difícil e tensa a vida da Igreja, prova característica daqueles tempos tanto para os Fiéis como para os Pastores. Nalguns Países (como p. ex. naquele sobre o qual li durante os exercícios espirituais), a Igreja encontra-se num período de tal perseguição, que não é inferior à dos primeiros séculos, até os supera pelo grau de crueldade e de ódio. Sanguis martyrum semen christianorum. E além disso tantas pessoas desaparecem inocentemente, também neste País em que vivemos…

Desejo confiar-me mais uma vez totalmente à graça do Senhor. Ele mesmo decidirá quando e como devo terminar a minha vida terrena e o ministério pastoral. Na vida e na morte Totus Tuus mediante a Imaculada.

Aceitando já agora esta morte, espero que Cristo me conceda a graça para a última passagem, isto é a [minha] Páscoa. Espero também que a torne útil para esta mais importante causa à qual procuro servir: a salvação dos homens, a salvaguarda da família humana, e nela de todas as nações e dos povos (entre eles o coração dirige-se de maneira particular para a minha Pátria terrena), útil para as pessoas que de modo particular me confiou, para a questão da Igreja, para a glória do próprio Deus.

Nada desejo acrescentar ao que escrevi há um ano desejo apenas expressar esta prontidão e contemporaneamente esta confiança, à qual os presentes exercícios espirituais de novo me dispuseram.

João Paulo II

***

Totus Tuus ego sum

5.III.1982

Durante os exercícios espirituais deste ano li (várias vezes) o texto do testamento de 6.III.1979. Mesmo se ainda o considero provisório (não definitivo), deixo-o na forma original. Não altero (por enquanto) nem acrescento nada, no que se refere às disposições nele contidas.

O atentado à minha vida a 13.V.1981 confirmou de certa forma a exactidão das palavras escritas no período dos exercícios espirituais de 1980 (24.II-1.III).

Quanto mais profundamente sinto que estou totalmente nas Mãos de Deus e permaneço continuamente à disposição do meu Senhor, confiando-me a Ele na Sua Imaculada Mãe (Totus Tuus).

João Paulo pp. II

***

Totus Tuus ego sum

5.III.1982

P.S. Em relação à última frase do meu testamento de 6.III.1979 (: “Sobre o lugar isto é, o lugar do funeral decida o Colégio Cardinalício e os Concidadãos”) esclareço o que tenho em mente: o metropolita de Cracóvia ou o Conselho Geral do Episcopado da Polónia ao Colégio Cardinalício peço contudo que satisfaça na medida do possível os eventuais pedidos dos acima mencionados.

***

1.III.1985 (durante os exercícios espirituais)

Ainda no que se refere à expressão “Colégio Cardinalício e os Concidadãos”: o “Colégio Cardinalício” não tem obrigação alguma de interpelar sobre este assunto “os Concidadãos”; contudo pode fazê-lo, se por qualquer motivo o considerar justo.

JPII

Os exercícios espirituais do ano jubilar de 2000

(12-18.III) [Para o testamento]

1. Quando no dia 16 de Outubro de 1978 o conclave dos cardeais escolheu João Paulo II, o Primaz da Polónia, Card. Stefan Wysznski disse-me: “A tarefa do novo papa será introduzir a Igreja no Terceiro Milénio”. Não sei se repito exactamente a frase, mas pelo menos era este o sentido do que então ouvi. Disse isto o Homem que passou à história como Primaz do Milénio. Um grande Primaz. Fui testemunha da sua missão, da Sua entrega total. Das Suas lutas: da Sua vitória. “A vitória, quando se verificar, será uma vitória através de Maria” o Primaz do Milénio costumava repetir estas palavras do seu Predecessor, o card. August Hlond.

Assim fui de certa forma preparado para a tarefa que no dia 16 de Outubro de 1978 se apresentou diante de mim. No momento em que escrevo estas palavras, o Ano jubilar de 2000 já é uma realidade em acto. Na noite de 24 de Dezembro de 1999 foi aberta a simbólica Porta do Grande Jubileu na Basílica de São Pedro, depois na de São João de Latrão, de Santa Maria Maior no fim do ano, e no dia 19 de Janeiro a Porta da Basílica de São Paulo fora dos Muros. Este último acontecimento, devido ao seu carácter ecuménico, ficou impresso na memória de modo particular.

2. À medida que o Ano Jubilar avança, de dia para dia se fecha atrás de nós o século XX e se abre o século XXI. Segundo os desígnios da Providencia foi-me concedido viver no difícil século que começa a fazer parte do passado, e agora no ano em que a minha vida chega aos anos oitenta (“octogesima adveniens”), é preciso perguntar-se se não tenha chegado o tempo de repetir com o bíblico Simeão “Nunc dimittis”.

No dia 13 de Maio de 1981, o dia do atentado ao Papa durante a audiência geral na Praça de São Pedro, a Divina Providência salvou-me de modo milagroso da morte. Aquele que é o único Senhor da vida e da morte, Ele mesmo me prolongou esta vida, de certo modo concedeu-ma de novo. A partir desse momento ela pertence-lhe ainda mais. Espero que Ele me ajudará a reconhecer até quando devo continuar este serviço, para o qual me chamou no dia 16 de Outubro de 1978. Peço-lhe que me chame quando Ele mesmo quiser. “Na vida e na morte pertencemos ao Senhor… somos do Senhor” (cf. Rm 14, 8). Também espero que enquanto me for concedido cumprir o serviço Petrino na Igreja, a Misericórdia de Deus me queira conceder as forças necessárias para este serviço.

3. Como todos os anos durante os exercícios espirituais li o meu testamento de 6.III.1979. Continuo a manter as disposições nele contidas. Aquilo que então, e também durante os seguintes exercícios espirituais foi acrescentado constitui um reflexo da difícil e tensa situação geral, que marcou os anos oitenta. Do Outono de 1989 esta situação mudou. O último decénio do século passado esteve livre das precedentes tensões; isto não significa que não tenha levado consigo novos problemas e dificuldades. De modo particular seja louvada a Providencia Divina por isto, que o período da chamada “guerra fria” terminou sem o violento conflito nuclear, do qual pesava sobre o mundo o perigo no período precedente.

4. Estando no limiar do terceiro milénio “in medio Ecclesiae”, desejo mais uma vez expressar gratidão ao Espírito Santo pelo grande dom do Concílio Vaticano II, ao qual juntamente com toda a Igreja e sobretudo com todo o episcopado me sinto devedor. Estou convencido de que ainda será concedido às novas gerações haurir das riquezas que este Concílio do século XX nos concedeu. Como Bispo participante no acontecimento conciliar do primeiro ao último dia, desejo confiar este grande património a todos os que são e serão no futuro chamados a realizá-lo. Da minha parte agradeço o eterno Pastor que me consentiu servir esta grandíssima causa durante todos os anos do meu pontificado.

“In medio Ecclesia”… desde os primeiros anos de serviço episcopal precisamente graças ao Concílio foi-me concedido experimentar a comunhão fraterna do Episcopado. Como sacerdote da Arquidiocese de Cracóvia experimentei o que era a comunhão fraterna do presbitério o Concílio abriu uma nova dimensão desta experiência.

5. Quantas pessoas deveria mencionar aqui! Provavelmente o Senhor Deus chamou a Si a maior parte quanto aos que ainda estão deste lado, as palavras deste testamento os recordem, a todos e em toda a parte, onde quer que se encontrem.  Durante os mais de vinte anos em que desempenho o serviço Petrino “in medio Ecclesiae” experimentei a benévola e muito fecunda colaboração de tantos Cardeais, Arcebispos e Bispos, tantos sacerdotes, tantas pessoas consagradas Irmãos e Irmãs por fim, de tantíssimas pessoas leigas, no ambiente da Cúria, no Vicariato da Diocese de Roma, e também fora destes ambientes.  Como não abraçar com a memória agradecida todos os Episcopados no mundo, com os quais me encontrei no suceder-se das visitas “ad limina Apostolorum”!

Como não recordar também tantos Irmãos cristãos não católicos! E o rabino de Roma e tantos representantes das religiões não cristas! E quantos representantes do mundo da cultura, da ciência, da política, dos meios de comunicação social!

6. À medida que se aproxima o limite da minha vida terrena volto com a memória ao início, aos meus Pais, ao Irmão e à Irmã (que não conheci, porque morreu antes do meu nascimento), à paróquia de Wadowice, onde fui baptizado, àquela cidade da minha juventude, aos coetâneos, companheiras e companheiros da escola elementar, do ginásio, da universidade, até aos tempos da ocupação, quando trabalhei como operário, e depois na paróquia de Niegowic, na paróquia de São Floriano em Cracóvia, à pastoral dos académicos, ao ambiente… a todos os ambientes… a Cracóvia e a Roma… às pessoas que de modo especial me foram confiadas pelo Senhor.  A todos desejo dizer uma só coisa: “Deus vos recompense”.

“In manus Tuas, Domine, commendo spiritum meum”.

A.D.  17.III.2000

Copyright © Libreria Editrice Vaticana

O que a Ascensão de Jesus diz ao cristão de hoje?

Corações voltados para o alto!

O futuro é fruto do que semeamos nos campos da vida. Não há colheita sem o devido cuidado com a plantação. No campo da vida, o amor é essencial, para que possamos produzir os mais belos frutos de um tempo novo, nascido da esperança que cultivamos com a fé. O céu que esperamos começa a ser construído no hoje de nossa história. Na esperança da glória futura estão impressas as marcas do amor.

Na solenidade da Ascensão do Senhor voltamos nosso olhar para Aquele que nos aponta a esperança de nossa vida futura juntos do Seu amor. O hoje de nossa história é tempo teológico para sacramentalizarmos o amor em gestos concretos de vida em plenitude. O Cristo que olhamos é o mesmo que esteve e continua entre nós. O cotidiano da vida é uma preparação para um tempo novo que sonhamos. Um futuro onde cada um de nós terá uma participação plena na vida de Deus.

Juntos de Deus viveremos uma nova relação entre Criador e criatura. Na total transparência dos sentimentos, seremos livres dos limites e dificuldades da condição terrena. No amor trinitário saborearemos a plenitude da comunhão eterna. Em Deus conheceremos o amor que hoje de modo limitado sentimos. A esperança da glória futura nos abre diante da vida as mais belas possibilidades de vivermos hoje o futuro glorioso que esperamos.

A Eucaristia antecipa em nossa alma a comunhão celeste. No pão e no vinho consagrados, corpo e sangue de Cristo, está presente toda a criação, fruto da terra e do trabalho do homem. Na comunhão eucarística já pertencemos aos céus novos e à terra nova. Todos nós que comungamos da Eucaristia estamos, em esperança, na realidade do céu. O céu que nosso coração contempla é antecipado no amor de Cristo doado e partilhado por toda a humanidade.

Esta solenidade que celebramos ensina-nos também a vivermos na terra com as realidades do céu. A comunhão eterna é antecipada em cada gesto de amor e fraternidade entre nós. A paz divina é vivida, ainda que de modo limitado, em cada gesto que devolve vida à humanidade. O amor trinitário é antecipado em cada ato que se faz solidariedade e compaixão entre nós.

Com o coração voltado para o alto, caminhos na terra construindo junto de cada irmão e irmã os céus novos e a terra nova que esperamos um dia viver de maneira plena e infinita. O mundo novo que sonhamos começa a ser vivido em cada gesto de fraternidade.

Corações voltados para o alto com os pés enraizados no amor de Cristo. Eis a nossa missão diante da ascensão de Cristo: fazermos de nossa vida terrena uma antecipação da glória da futura.

Padre Flávio Sobreiro

É possível medir o amor de mãe?

As alegrias e os desafios da maternidade

O amor materno é algo imensurável, ou seja, que não pode ser medido.

Olhe para uma mãe e você verá alguém tão cheia de amor que não coube dentro de si mesma: transbordou para além do cônjuge, nos filhos. Quem é mãe, nasceu para a maternidade. Maternidade assumida gera sempre mais vida, mais amor.

Descobri cedo que Deus me fez para a maternidade, quando, ainda na infância, ouvindo tantas vezes na escola a música “Maria de Nazaré”, imaginava Nossa Senhora amamentando Jesus, trocando Sua fralda e, depois, dando comida em Sua boca, ensinando-O a falar, caminhar, escovar os dentinhos… E sonhava com os filhos que eu teria um dia.

Cresci com esse sentimento da maternidade em meu coração.

Na época do namoro, eu e meu esposo sonhávamos com a família que constituiríamos, com os muitos filhos que teríamos. Sonhávamos em ter seis filhos.

Já casados, com três crianças, planejávamos o quarto filho. Foi quando alguém me questionou se eu queria mesmo ter mais filhos, que isso era loucura, que a vida era muito corrida, e como eu poderia educá-los. Respondi simplesmente que, se fosse a vontade de Deus, eu queria sim.

Fui para capela rezar e dizia: “Se o Senhor me fez para o matrimônio, o Senhor me fez para maternidade. Então, vou ter todos os filhos que o Senhor quiser me dar!”. E Deus me presenteou com esta Palavra: “Colocarei Nele a minha confiança. Eis-me aqui, eu e os filhos que Deus me deu” (Hb 2,13).

Os meus filhos são bem-vindos, são queridos, em primeiro lugar, por Deus! Só preciso confiar n’Ele! Meu coração encheu-se de uma profunda paz!

De lá para cá, estou grávida do quinto filho ou filha; na verdade, sexto, pois, temos um intercedendo pela família, no céu. E vejo a promessa de Deus se cumprindo em nossa família e em minha vida.

A cada luta, a cada desafio, a cada lágrima derramada na criação, formação e educação dos filhos, brota a esperança, pois sei onde coloquei a minha confiança! E a Divina Providência nos acompanha em todos os momentos.

Nas enfermidades dos pequenos, na hora da correção, na hora de formar o caráter, na hora de pôr no colo e dar carinho, essa confiança no Senhor me orienta.

Errando sim, muitas vezes, mas aprendendo também com os erros, vou vivendo com muito amor e alegria a minha missão como mãe.

Na hora da dúvida, recorro à Virgem Maria. E ela me coloca na via segura, ensinando-me como devo agir.

A cada filho que nascia e chegava em casa e parecia que ainda estava faltando gente. Por fim, passei a perguntar a Deus: “Senhor, ainda está faltando alguém? Pois não quero que fique faltando ninguém!”. E Ele respondeu-me: “Tem lugar para mais um. No carro, na mesa, na casa, na vida e no coração de vocês”.

Deus estava dizendo: “No seu coração, sempre vai haver lugar para mais um”. Assim é o amor de mãe!

Não é preciso ter medo do desafio. Você, mãe, conta com a graça de Deus para cumprir tão sublime missão. Coloque no Senhor a sua confiança e tenha certeza: Deus estará com você, em todos os momentos, pois os seus filhos são queridos e amados por Ele. E as alegrias são bem maiores que as dificuldades!

Alguém já disse: “A melhor herança que se pode deixar para um filho é um irmão!”. Pense sobre isso e deixe a vida florir em seu coração e no seio do seu lar!

Quando você diz para um filho pequenino: “Você mora no meu coração”, e ele, surpreendentemente lhe responde, sorrindo e batendo no peito: “Você também!”. Isso não tem preço. É a recompensa do Céu!

Gilmara Lira – Comunidade Canção Nova

Caminho da santidade é simples

Terça-feira, 24 de maio de 2016, Da Redação, com Rádio Vaticano

O Papa disse que a santidade do dia a dia precisa de quatro elementos: coragem, esperança, graça e conversão

Na missa celebrada na Casa Santa Marta nesta terça-feira, 24, o Papa Francisco refletiu sobre o caminho de santidade do cristão. O Papa disse que caminhar na presença de Deus de modo irrepreensível quer dizer caminhar rumo à santidade, compromisso que necessita de um coração que saiba esperar com coragem, se coloque em discussão e se abra com simplicidade à graça de Deus.

O Papa explicou que santidade não se compra e que nem as melhores forças humanas a podem ganhar. Segundo ele, a santidade simples, do dia a dia, de todos os cristãos, é um caminho que pode ser percorrido somente se sustentado por quatro elementos imprescindíveis: coragem, esperança, graça, conversão.

Coragem

Francisco seguiu explicando que o trecho litúrgico extraído da Primeira Carta de Pedro, definindo-a como um pequeno tratado sobre a santidade.

“Este ‘caminhar’, a santidade é um caminho, a santidade não se compra e nem se vende. Nem se pode presentear. A santidade é um caminho na presença de Deus, que eu devo fazer: ninguém o faz em meu nome. Posso rezar para que o outro seja santo, mas é ele que deve fazer o caminho, não eu. Caminhar na presença de Deus, de modo irrepreensível. Usarei hoje algumas palavras que nos ensinam como é a santidade de todo dia, a santidade – digamos – anônima. Primeira: coragem. O caminho rumo à santidade requer coragem”.

Esperança e graça

O Reino dos Céus de Jesus, disse o Papa, é para aqueles que têm a coragem de ir avante e a coragem, observou, é movida pela esperança, a segunda palavra da viagem que leva à santidade. A coragem que espera num encontro com Jesus. Depois, há o terceiro elemento, quando Pedro escreve: colocai toda a vossa esperança na graça.

“A santidade não podemos fazê-la sozinhos. Não, é uma graça. Ser bom, ser santo, avançar a cada dia um passo na vida cristã é uma graça de Deus e devemos pedi-la. Coragem, um caminho. Um caminho que se deve fazer com coragem, com a esperança e com a disponibilidade de receber esta graça. E a esperança: a esperança do caminho. É tão bonito o XI capítulo da Carta aos Hebreus, leiam. Fala do caminho dos nossos pais, dos primeiros que foram chamados por Deus. E como eles foram avante. E do nosso pai Abraão diz: ‘Ele saiu sem saber para onde ia’. Mas com esperança”.

Converter-se todos os dias

Francisco prosseguiu explicando que em sua carta, Pedro destaca a importância de um quarto elemento. Quando convida os seus interlocutores a não se conformarem “aos desejos de uma época”, os impulsiona essencialmente a mudar a partir de dentro do próprio coração, num contínuo e cotidiano trabalho interior.

“A conversão, todos os dias: ‘Ah, Padre, para me converter devo fazer penitência, me dar umas pauladas…’. Não, não, não: conversões pequenas. Mas se você for capaz de não falar mal do outro, está no bom caminho para se tornar santo. É tão simples! Eu sei que vocês nunca falam mal dos outros, não? Pequenas coisas… Tenho vontade de criticar o vizinho, meu colega de trabalho: morder um pouco a língua. Vai ficar um pouco inchada, mas o espírito de vocês será mais santo nesta estrada. Nada de grandes mortificações: não, é simples. O caminho da santidade é simples. Não voltar para trás, mas ir sempre avante, não? E com força”.

A ressurreição

Aprenda a cultivar o jardim da sua existência

A palavra “ressurreição” significa levantar, erguer. Ela é muito usada nos textos da Sagrada Escritura, quando fala da ressurreição dos mortos. É o ato de uma pessoa considerada morta viver novamente. Um termo que passa por profunda reflexão no mês de novembro, principalmente quando celebramos o Dia de Todos os Santos e de Finados.

Nos fundamentos e no entendimento dos cristãos, a ressurreição tem uma base de fé. Para os descrentes ela não passa de uma aberração. Os cristãos a entendem como plenitude da vida, tendo seu desfecho em Deus. É o que motiva e dá ânimo para o enfrentamento dos sofrimentos na história de vida das pessoas.

O que dá base para a fé na ressurreição é a fidelidade aos ensinamentos divinos. A vida temporal na terra deve apoiar-se na fé, na esperança e na caridade. Pela ressurreição, ela terá continuidade na eternidade, não necessitando mais dessas virtudes humanas, apenas na totalidade do amor de Deus.

No tempo presente, a pessoa precisa cultivar o jardim de sua existência, mesmo diante das dificuldades dos atos de perseguição, de sofrimentos e de desânimo. Mas deve levar consigo a certeza de que a morte não é o término da vida, mas o caminho que leva para a realização daquilo que é a finalidade do ser humano, a vida em Deus.

Pensar na ressurreição como obra divina significa ter convicção de que Deus é sempre misericordioso, mas que também leva em conta a prática da justiça. O Senhor não abandonará na morte os que preferirem morrer a negar a fé. Portanto, a ressurreição é fruto também da escolha de fé feita de forma livre e determinada.

Não é fácil ter fé firme no meio de um mundo marcado pela descrença. Muitas pessoas, além de não ter fé na ressurreição, tentam também impedir a propagação do Evangelho. Existe até uma hostilidade de adversários, mas o cristão não pode se intimidar e desanimar só porque encontra dificuldades. É fundamental trabalhar a possibilidade de vida nova, vida feliz e plenamente realizada em Deus.

Dom Paulo Mendes Peixoto

Vigília Pascal – homilia do Papa Francisco

http://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2018-03/papa-francisco-homilia–vigilia-pascal-sabado-santo-vaticano.html

“A pedra do sepulcro desempenhou o seu papel, as mulheres fizeram a sua parte, agora o convite é dirigido mais uma vez a ti e a mim: convite a quebrar os hábitos rotineiros, renovar a nossa vida, as nossas escolhas e a nossa existência; convite que nos é dirigido na situação em que nos encontramos, naquilo que fazemos e somos”
Cidade do Vaticano

O Papa Francisco presidiu na noite do Sábado Santo na Basílica de São Pedro à Vigília Pascal, pronunciando a seguinte homilia:
“Começamos esta celebração no átrio externo, imersos na escuridão da noite e no frio que a acompanha. Sentimos o peso do silêncio diante da morte do Senhor, um silêncio em que cada um de nós se pode reconhecer e que penetra profundamente nas fendas do coração do discípulo, que, à vista da cruz, fica sem palavras.
São as horas do discípulo emudecido face à amargura gerada pela morte de Jesus: Que dizer diante desta realidade? O discípulo que fica sem palavras, tomando consciência das suas reações durante as horas cruciais da vida do Senhor: diante da injustiça que condenou o Mestre, os discípulos guardaram silêncio; diante das calúnias e falsos testemunhos sofridos pelo Mestre, os discípulos ficaram calados. Durante as horas difíceis e dolorosas da Paixão, os discípulos experimentaram, de forma dramática, a sua incapacidade de arriscar e falar a favor do Mestre; mais ainda, renegaram-No, esconderam-se, fugiram, ficaram calados (cf. Jo 18, 25-27).
É a noite do silêncio do discípulo que se sente enrijecido e paralisado, sem saber para onde ir diante de tantas situações dolorosas que o oprimem e envolvem. É o discípulo de hoje, emudecido diante duma realidade que se lhe impõe fazendo-lhe sentir e – pior ainda – crer que nada se pode fazer para vencer tantas injustiças que vivem na sua carne muitos dos nossos irmãos.
É o discípulo perplexo porque imerso numa rotina avassaladora que o priva da memória, faz calar a esperança e habitua-o ao «fez-se sempre assim». É o discípulo emudecido e ofuscado que acaba por se habituar e considerar normal a frase de Caifás: «Não vos dais conta de que vos convém que morra um só homem pelo povo, e não pereça a nação inteira» (Jo 11, 50).
E no meio dos nossos silêncios, quando calamos de modo tão oprimente, então começam a gritar as pedras (cf. Lc 19, 40: «Digo-vos que, se eles se calarem, gritarão as pedras») dando lugar ao maior anúncio que alguma vez a história tenha podido conter dentro de si: «Não está aqui, pois ressuscitou» (Mt 28, 6). A pedra do sepulcro gritou e, com o seu grito, anunciou a todos um novo caminho. Foi a criação a primeira a fazer ecoar o triunfo da Vida sobre todas as realidades que procuraram silenciar e amordaçar a alegria do evangelho. Foi a pedra do sepulcro a primeira a saltar e, à sua maneira, a entoar um cântico de louvor e entusiasmo, de júbilo e esperança no qual todos somos convidados a participar.
E se ontem, com as mulheres, contemplamos «Aquele que trespassaram» (Jo 19, 37, cf. Zc 12, 10), hoje, com elas, somos chamados a contemplar o túmulo vazio e ouvir as palavras do anjo: «Não tenhais medo! (…) Ressuscitou» (Mt 28, 5-6). Palavras que querem alcançar as nossas convicções e certezas mais profundas, as nossas maneiras de julgar e enfrentar os acontecimentos diários; especialmente o nosso modo de nos relacionarmos com os outros.
O túmulo vazio quer desafiar, mover, interpelar, mas sobretudo quer encorajar-nos a crer e confiar que Deus «Se faz presente» em qualquer situação, em qualquer pessoa, e que a sua luz pode chegar até aos ângulos mais imprevisíveis e fechados da existência. Ressuscitou da morte, ressuscitou do lugar donde ninguém esperava nada e espera-nos – como esperava as mulheres – para nos tornar participantes da sua obra de salvação.
Esta é a base e a força que temos, como cristãos, para gastar a nossa vida e o nosso ardor, inteligência, afetos e vontade na busca e, especialmente, na criação de caminhos de dignidade. «Não está aqui… Ressuscitou!» (28, 6). É o anúncio que sustenta a nossa esperança e a transforma em gestos concretos de caridade. Como precisamos de deixar que a nossa fragilidade seja ungida por esta experiência!
Como precisamos que a nossa fé seja renovada, que os nossos horizontes míopes sejam questionados e renovados por este anúncio! Jesus ressuscitou e, com Ele, ressurge a nossa esperança criativa para enfrentar os problemas atuais, porque sabemos que não estamos sozinhos.
Celebrar a Páscoa significa voltar a crer que Deus irrompe sem cessar nas nossas vicissitudes, desafiando os nossos determinismos uniformizadores e paralisantes. Celebrar a Páscoa significa deixar que Jesus vença aquela atitude pusilânime que tantas vezes nos cerca procurando sepultar qualquer tipo de esperança.
A pedra do sepulcro desempenhou o seu papel, as mulheres fizeram a sua parte, agora o convite é dirigido mais uma vez a ti e a mim: convite a quebrar os hábitos rotineiros, renovar a nossa vida, as nossas escolhas e a nossa existência; convite que nos é dirigido na situação em que nos encontramos, naquilo que fazemos e somos; com a «quota de poder» que temos. Queremos participar neste anúncio de vida ou ficaremos mudos perante os acontecimentos?
Não está aqui, ressuscitou! E espera por ti na Galileia, convida-te a voltar ao tempo e lugar do primeiro amor, para te dizer: «Não tenhas medo, segue-Me»”.

Vigília Pascal: Esperança cristã, dom de Deus

Francisco durante a procissão na celebração – REUTERS

Cidade do Vaticano (RV) – O Papa Francisco presidiu, na noite deste Sábado Santo (26/3/2016), na Basílica Vaticana, à celebração Eucarística da solene Vigília pascal – mãe de todas as vigílias –, com o batismo de 12 catecúmenos da Itália, Albânia, Camarões, Coreia do Sul, Índia e China.

Após a bênção e a preparação do Círio pascal, o Papa proclamou solenemente a “Páscoa do Senhor”, com o canto do Exultet. A seguir, pronunciou sua homilia, diante dos milhares de fiéis presentes, partindo da “corrida de Pedro ao sepulcro de Jesus”. E perguntou:

“Quais os pensamentos que poderiam passar pela mente e o coração de Pedro durante esta corrida? O Evangelho nos diz que os Onze, inclusive Pedro, não acreditaram no testemunho das mulheres, no seu anúncio pascal. Aliás, ‘aquelas palavras pareciam um delírio’. Por isso, no coração de Pedro, reinava certa dúvida, acompanhada de muitos pensamentos negativos: a tristeza pela morte do Mestre amado e a decepção por tê-lo renegado três vezes durante a Paixão.”

Em caminho

Mas, um detalhe assinala a sua transformação, disse o Pontífice: depois que ouviu as mulheres, sem acreditar nelas, Pedro “pôs-se a caminho”. Não ficou parado pensando e nem fechado em casa como os outros; não se deixou levar pela atmosfera fúnebre daqueles dias e nem pelas dúvidas; não se deixou arrastar pelos remorsos, pelo medo e pelas maledicências. Pelo contrário, foi procurar Jesus, preferindo seguir a ideia do “encontro e da confiança”. Assim, pôs-se a caminho, correu ao sepulcro:

“Este foi o início da ‘ressurreição’ de Pedro, a ressurreição do seu coração. Sem ceder à tristeza nem à escuridão, deu espaço à voz da esperança: deixou que a luz de Deus entrasse no seu coração, sem a sufocar”.

Falta de esperança

Por sua vez, as mulheres, que saíram de manhã cedo para fazer uma obra de misericórdia, ou seja, levar os perfumes ao sepulcro, viveram a mesma experiência, apesar do seu temor, mas ficaram aliviadas pelas palavras do anjo: «Porque buscais entre os mortos Aquele que está vivo?» E o Papa advertiu:

“Também nós, como Pedro e as mulheres, não podemos encontrar a vida, permanecendo tristes e sem esperança, fechados em nós mesmos. Abramos ao Senhor os nossos sepulcros sigilados, para que Jesus possa entrar e dar-nos a vida; Ele quer dar-nos a sua mão e nos tirar da angústia. Nesta noite, devemos rolar a pedra do nosso sepulcro que é a ‘falta de esperança’. Que o Senhor nos livre desta terrível armadilha: a de ser cristãos sem esperança, que vivem como se o Senhor não tivesse ressuscitado”.

Nossos problemas pessoais, afirmou Francisco, sempre existirão. Nesta noite, devemos iluminá-los com a luz do Ressuscitado, ou melhor, “evangelizá-los”. Não devemos deixar que a escuridão e os nossos temores se apoderem do coração, mas escutemos a palavra do Anjo: o “Senhor não está aqui; ele ressuscitou!”; ele é a nossa maior alegria e está sempre ao nosso lado, sem nunca nos decepcionar. E o Santo Padre acrescentou:

Esperança cristã

“Eis o fundamento da esperança, que não é mero otimismo, nem uma atitude psicológica ou um bom convite a ter coragem. A esperança cristã é um dom de Deus; ela não decepciona porque o Espírito Santo foi infundido nos nossos corações. O Consolador infunde em nós a verdadeira força da vida e a certeza que somos amados e perdoados por Cristo. Hoje é a festa da nossa esperança!”

O Senhor está vivo e deve ser procurado entre os vivos, sublinhou o Papa. Depois de o encontrar, somos enviados por Ele a levar o anúncio da Páscoa, suscitando esperança nos corações tristes; a anunciar o Ressuscitado com a vida, por meio do amor. Caso contrário, seremos uma estrutura internacional, com um grande número de adeptos e boas regras, mas incapazes de transmitir a esperança, da qual o mundo tem tanta sede. O Pontífice então perguntou: “Como podemos alimentar a nossa esperança?”. E respondeu com uma exortação:

“A Liturgia desta Noite nos dá um bom conselho: ela nos ensina a recordar as obras de Deus. A Palavra viva de Deus é capaz de nos envolver na sua história de amor, alimentando a esperança e reavivando a alegria. Não nos esqueçamos da sua Palavra e das suas obras para não perdermos a esperança”.

O Santo Padre concluiu sua homilia convidando os fiéis a fazerem memória do Senhor, da sua bondade e das suas palavras de vida, a fim de serem sentinelas da manhã, que sabem ler os sinais da Ressurreição e abrir-se à esperança e ao caminho da luz com confiança! (MT)

 

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