Tag: encontro

Quais são os efeitos e os benefícios da adoração?

Eucaristia

Estar em adoração, diante do Santíssimo Sacramento, é uma oportunidade espiritual que modifica nossa vida e nosso coração

Em uma entrevista concedida ao padre Antônio Spadaro, SJ, o Papa Francisco assim se expressou sobre seus momentos de adoração ao Santíssimo Sacramento: “O que verdadeiramente prefiro é a adoração vespertina, mesmo quando me distraio e penso em outra coisa ou mesmo quando adormeço rezando. Assim, à tarde, entre as sete e as oito horas, estou diante do Santíssimo durante uma hora”. Estar diante do Santíssimo para o Papa Francisco é importante dentro dos seus momentos diários de oração. E para nós? Como vivemos os momentos de adoração em nossa vida? Quais efeitos e benefícios ela tem para nossa vida?

Estar diante do Jesus, presente no Santíssimo Sacramento do Altar, é uma graça, um momento profundo de encontro e intimidade com o próprio Deus. Em seu infinito amor por todos nós, Cristo continua presente na Eucaristia, atualizando em nossa vida Seu mistério de amor, doação e entrega.

Estar em adoração diante do Santíssimo Sacramento é uma oportunidade espiritual para modificarmos nossa vida e o nosso coração. Esses momentos devem ser vividos com intensidade e profundidade. O silêncio ajuda. Calarmos as vozes internas para ouvirmos a voz divina. No silêncio, Cristo nos fala ao coração. É preciso silenciarmos para ouvi-Lo. No barulho e na agitação, torna-se fundamental o exercício do calar-se para poder ouvir a voz do Senhor. Aprender a cultivar momentos de silêncio é um desafio para o nosso tempo, no qual vivemos interligados 24 horas por dia.

O primeiro efeito e benefício da adoração é o silêncio que começamos a cultivar em nossa vida. Na simplicidade da Eucaristia, o próprio Cristo nos ensina a silenciar para que a Sua presença seja completa em nós. Silenciar diante do Mistério Eucarístico para silenciarmos também diante dos mistérios da vida. Silenciar as palavras para nos silenciarmos diante dos julgamentos alheios que fazemos ao longo do dia. Silenciar o coração para silenciarmos nossa própria agitação. Silenciar para ouvir com mais profundidade a voz d’Aquele que nos fala ao coração.

Na adoração, entramos em profundo contato com o amor de Cristo por cada um de nós. Esse mesmo amor que contemplamos somos convidados a levar aos nossos irmãos e irmãs. Nossos momentos de adoração estão profundamente enraizados com o cotidiano de nossa vida. Diante do Senhor, levamos aquilo que somos: nossas fragilidades e potências, nossas dores e alegrias, nossos pecados e nossa santidade. Não nos despedimos do que somos para estar diante do Senhor, mas nos apresentamos na condição que nos encontramos para sairmos transformados desse encontro de amor e paz.

Transformados para transformar! Amados para amar! Eis o maior efeito e benefício da adoração em nossa vida! Uma vez iluminados por Cristo, somos chamados a ser, no mundo, um sinal dessa mesma luz. Iluminarmos tantas situações de trevas presentes na vida, na família, na sociedade, no trabalho, na comunidade… Nossa adoração não deve ser individualista e egoísta, mas feita de momentos de profunda comunhão com todos os nossos irmãos e irmãs em Cristo Jesus.

Na Escola de Adoração, aprendemos a cultivar uma vida interior que germina do mistério de amor de um Deus que vem ao nosso encontro para nos fazer pessoas novas para um mundo novo.

Padre Flávio Sobreiro

O Espírito Santo nos torna cristãos reais e não virtuais

Segunda-feira, 9 de maio de 2016, Da redação, com Rádio Vaticano

Na homilia o Papa Francisco refletiu sobre a presença do Espírito Santo e afirmou que Ele liberta todos da condição de órfão

“O Espírito Santo nos torna cristãos reais e não virtuais”, disse o Papa na missa celebrada na manhã desta segunda-feira, 9. Francisco dirigiu ainda um pensamento especial às religiosas vicentinas que trabalham na Casa Santa Marta, no dia da festa litúrgica da fundadora da Companhia, Santa Luísa de Marillac.

O Pontífice exortou os fiéis a se deixarem guiar pelo Espírito Santo, que ensina o caminho da verdade. ‘Nem sequer ouvimos dizer que existe o Espírito Santo’, disse o Papa comentando o diálogo entre Paulo e alguns discípulos, em Éfeso, para se deter na presença do Espírito Santo na vida dos cristãos.

“Também hoje acontece como aconteceu aos discípulos que, mesmo crendo em Jesus, não sabiam quem era o Espírito Santo”, frisou Francisco, acrescentando que muitas pessoas dizem que aprenderam no catecismo que o Espírito Santo está na Trindade e não sabem mais nada além disso.

Não mais órfãos

“O Espírito Santo é aquele que move a Igreja. É aquele que trabalha na Igreja, em nossos corações. Ele faz de cada cristão uma pessoa diferente da outra, e de todos juntos faz a unidade. O Espírito Santo é aquele que leva adiante, escancara as portas e convida a testemunhar Jesus.”

Francisco observa que no inicio da missa, os fiéis ouviram: receberão o Espírito Santo e serão minhas testemunhas no mundo. “O Espírito Santo é aquele que nos impulsiona a louvar a Deus, nos induz a rezar. Ele reza, em nós. O Espírito Santo é aquele que está em nós e nos ensina a olhar para o Pai e dizer-lhe: Pai. Ele nos liberta da condição de órfão para a qual o espírito do mundo quer nos conduzir.”

“O Espírito Santo é o protagonista da Igreja viva. É aquele que trabalha na Igreja”, frisou ainda Francisco. “Porém, quando não vivemos isso, quando não estamos à altura dessa missão do Espírito Santo, a fé corre o risco de se reduzir a uma moral ou uma ética”.

“Não devemos nos deter em cumprir os mandamentos e nada mais. Isso pode ser feito, isso não; até aqui sim, até lá não! Dali se chega à casuística e a uma moral fria”.

Não tornar o Espírito Santo “prisioneiro de luxo”

O Santo Padre reiterou dizendo que a vida cristã não é uma ética: é um encontro com Jesus Cristo e é o próprio Espírito Santo que leva a este encontro com Jesus Cristo.

“Mas nós, em nossas vidas, temos em nossos corações o Espírito Santo como um ‘prisioneiro de luxo’: não deixamos que ele nos impulsione, não deixamos que nos movimente. Ele faz tudo, sabe tudo, sabe nos lembrar o que Jesus disse, sabe nos explicar as coisas de Jesus. Somente uma coisa o Espírito Santo não sabe fazer: ‘cristãos de salão’. Ele não sabe fazer ‘cristãos virtuais’. Ele faz cristãos reais, Ele assume a vida real como ela é, com a profecia de ler os sinais dos tempos e assim nos levar avante. É o maior prisioneiro do nosso coração. Nós dizemos: é a terceira Pessoa da Trindade e acabamos ali.”

Refletir sobre o que o Espírito Santo faz em nossas vidas

Esta semana, acrescentou o Papa, será de reflexão sobre o que o Espírito Santo faz em “nossa” vida e perguntar-se se ele “nos” ensinou o caminho da liberdade.

“O Espírito Santo, que habita em mim, pede-me para sair: tenho medo? Como é a minha coragem, que o Espírito Santo me dá para sair de mim mesmo, para dar testemunho de Jesus?”continuou Francisco, e disse ainda: “Como está a minha paciência nas provações? Porque o Espírito Santo também dá a paciência.”

O Papa convida todos a pensar nesta semana de preparação para a Festa de Pentecostes se realmente acredita no Espírito Santo ou é apenas uma palavra.

“Procuremos falar com ele e dizer: “Eu sei que estás no meu coração, que estás no coração da Igreja, que levas adiante a Igreja, que fazes a unidade entre nós, mas diferentes entre nós, na diversidade de todos nós”, disse Francisco.

Ao concluir, o Pontífice orienta para “falarmos todas essas coisas e pedir a graça de aprender, mas praticamente na minha vida, o que Ele faz. É a graça da docilidade para com Ele: ser dócil ao Espírito Santo. Esta semana vamos fazer isso: pensemos no Espírito Santo, e falemos com ele”.

Confissão é encontro com Deus que perdoa sempre

Misericórdia Divina

Sexta-feira, 23 de janeiro de 2015, Da Redação, com Rádio Vaticano

Papa explicou aos fiéis que confessar não é um juízo nem é ir à lavanderia tirar uma mancha, mas ir ao encontro do Pai misericordioso

A misericórdia divina foi o tema da homilia do Papa Francisco, na Missa celebrada nesta sexta-feira, 23, na Casa Santa Marta. O Pontífice reiterou que a confissão não é um “juízo”, mas um encontro com Deus, que perdoa e esquece todo pecado da pessoa que não se cansa de pedir a Sua misericórdia.

O “trabalho” de Deus é reconciliar, disse Francisco, comentando o trecho da Carta de São Paulo aos Hebreus, no qual o apóstolo fala da “nova aliança” estabelecida pelo Senhor com o Seu povo eleito.

O Deus que reconcilia, afirmou o Papa, escolhe enviar Jesus para restabelecer um novo pacto com a humanidade, e o fundamento desse pacto é o perdão. Um perdão que tem muitas características.

“Antes de tudo, Deus perdoa sempre! Não se cansa de perdoar. Somos nós que nos cansamos de pedir perdão, mas Ele não se cansa de perdoar. Quando Pedro perguntou a Jesus: ‘Quantas vezes eu devo perdoar? Sete vezes?’. ‘Não sete vezes: setenta vezes sete’. Isso sempre. Deus perdoa assim: sempre. Se você viveu uma vida de muitos pecados e, no final, um pouco arrependido, pede perdão, Deus perdoa imediatamente! Ele perdoa sempre”.

Mesmo assim, o Papa disse que há uma dúvida que poderia surgir no coração humano, sobre o “quanto” Deus está disposto a perdoar. Francisco esclareceu que basta se arrepender e pedir perdão. Não se deve pagar nada, porque Cristo já pagou pelo homem. O exemplo é o filho pródigo da parábola que, arrependido, encontra o abraço do pai.

“Não existe pecado que Ele não possa perdoar. Ele perdoa tudo. ‘Mas, padre, eu não me confesso, porque aprontei muito, mas tanto, que não receberei o perdão…’ Não, não é verdade. Deus perdoa tudo. Se você estiver arrependido, Ele perdoará tudo. Muitas vezes, Ele nem deixa você falar! Você começa a pedir perdão e Ele lhe faz sentir aquela alegria do perdão antes que você termine de contar tudo”.

Outro aspecto comentado pelo Papa foi o fato de que Deus faz festa quando perdoa o homem e esquece o pecado, pois o que importa para o Senhor é se encontrar com o homem.

Nesse ponto, Francisco sugeriu um exame de consciência aos sacerdotes dentro do confessionário. “Estão dispostos a perdoar tudo, a esquecer os pecados daquela pessoa?”. A confissão, mais do que um juízo, é um encontro, declarou.

“Muitas vezes, as confissões parecem um procedimento, uma formalidade: ‘Po, po, po, po, po… Po, po, po… Tudo mecânico! Não! Onde está o encontro? O encontro com o Senhor que reconcilia, que abraça e faz festa? E este é o nosso Deus tão bom! Devemos também ensinar: que as nossas crianças, os nossos jovens aprendam a se confessar bem, porque se confessar não é ir a uma lavanderia para retirar uma mancha. Não! É ir ao encontro do Pai, que reconcilia, que perdoa e faz festa”.

Por que ir à Missa aos domingos?

Quarta-feira, 13 de dezembro de 2017, Da Redação, com Rádio Vaticano

Santo Padre destacou que celebração dominical da Eucaristia está no centro da vida da Igreja

Cerca de sete mil pessoas participaram da catequese do Papa Francisco nesta quarta-feira, 13, sobre o tema: “Por que ir à Missa aos domingos?”. O Santo Padre segue no ciclo de reflexões sobre a Missa.

Francisco explicou que desde os primeiros tempos os discípulos de Jesus celebravam o encontro eucarístico com o Senhor no dia que os judeus chamavam ‘o primeiro da semana’ e os romanos ‘o dia do sol’. Depois da Páscoa, os discípulos de Jesus acostumaram-se a esperar a visita do seu divino Mestre no primeiro dia da semana; foi nesse dia que Ele ressuscitou e foi encontrar-Se com eles no Cenáculo. E assim, aos poucos, o primeiro dia da semana passou a ser chamado pelos cristãos ‘o dia do Senhor’, ou seja, o domingo.

“A celebração dominical da Eucaristia está no centro da vida da Igreja: nós vamos à missa para encontrarmos o Senhor ressuscitado, ou melhor, para nos deixarmos encontrar por ele”, disse o Papa, acrescentando que é a Missa que torna cristão o domingo.

“Ouvir a sua palavra, alimentar-nos à sua mesa e assim, nos tornarmos Igreja, o seu corpo místico vivo hoje no mundo. Por isso, o domingo é para nós um dia santo: santificado pela celebração eucarística, presença viva do Senhor para nós e entre nós. É a Missa que faz cristão o domingo”.

O Papa recordou, porém, que infelizmente há comunidades cristãs que não podem ter a Missa todos os domingos, mas também elas são chamadas a se recolher em oração nesse dia, ouvindo a Palavra de Deus e mantendo vivo o desejo da Eucaristia. “Sem Cristo, estamos condenados a ser dominados pelo cansaço do dia-a-dia com as suas preocupações e pelo medo do futuro. O encontro dominical com Jesus dá-nos a força de que necessitamos para viver com coragem e esperança os nossos dias”.

Na conclusão da catequese, Francisco explicou que não é suficiente responder que ir à Missa aos domingos é um preceito da Igreja. “Nós cristãos precisamos participar da missa dominical porque somente com a graça de Jesus, com a sua presença viva em nós e entre nós, podemos colocar em prática o seu mandamento e sermos testemunhas críveis”.

O que fazer diante das tentações?

cancaonova.com: Qual a diferença entre provação e tentação?

Ironi Spuldaro:  As provações acontecem quando passamos por situações que nos purificam e são capazes de nos levar a um estado maior de fé, capaz de nos encorajar a enfrentar tudo sem temer. Nem tudo o que acontece em nossa vida é vontade de Deus, mas tudo tem a permissão d’Ele. Quando o Senhor permite alguma provação, é para que a nossa fé seja alicerçada e, assim, alcancemos o céu.

Já a tentação é aquilo que eu crio em minha fragilidade, em meu medo ou até mesmo na carência. A tentação não chega a ser pecado, mas é um caminho que precisa ser vencido, pois, se nos deixarmos vencer por ela, caímos no pecado e nos afastamos de Deus. Precisamos diferenciar isso: a provação é algo definido, que nos leva a um encontro com Deus; a tentação precisa ser vencida por nós para continuarmos em Deus.

O inimigo quer, por meio da tentação, acusar-nos, pois quer que nos sintamos fracos. Se estamos em Deus, a provação não se torna castigo, mas bênção.

cancaonova.com: O que fazer diante das tentações?

Ironi Spuldaro:  Devemos rezar, adorar o Santíssimo Sacramento, jejuar, confessar, alimentarmo-nos da Palavra de Deus e da Santa Eucaristia. Não se pode vencer as tentações pela própria força humana, pois chegará um ponto em que acharemos que a mentira é verdade; isso se chama espírito de confusão.

Vencer a tentação é ter intimidade com Deus e uma vida de entrega ao Espírito Santo. Precisamos declarar, todos os dias, que somos dependentes do Senhor, pois para vencer a tentação devemos estar conectados com o Pai.

cancaonova.com: Como acontece o combate espiritual? Quem combate ao nosso lado?

Ironi Spuldaro:  A Palavra de Deus nos ensina que o combate acontece a partir do jejum, da abstinência, da lectio divina, de uma boa vivência dos sacramentos; além disso, a Palavra diz que há demônios que apenas São Miguel pode vencer. A comunhão com os santos e anjos, a unidade entre a misticidade e o divino vivendo neste mundo, mas com o olhar para o céu. Aprendamos a invocar a intercessão dos santos, dos anjos e da Virgem Maria.

Estamos num tempo propício de vivermos a Quaresma de São Miguel de maneira particular. Logo que comecei a rezar essa quaresma, o Senhor me disse que eu iria ser lapidado; de fato, é isso que estou vivendo: travo um problema de saúde e ainda meu pai está hospitalizado, correndo risco de vida. Se eu não tivesse um olhar espiritual sobre todas essas situações, certamente pensaria que estaria vivendo um castigo de Deus; mas tendo comunhão com o céu, percebo que, por meio disso, o Senhor está agindo.

cancaonova.com: Como saber se as tentações são criadas por mim ou pelo demônio? Existe diferença?

Ironi Spuldaro:  Existe. Certa vez, Padre Pio disse que temos dois tipos de cruz: uma cruz redentora e uma destruidora. A redentora é a cruz de Cristo, que nos liberta e faz com que tenhamos mais coragem de vencer e de ser de Deus. A cruz destruidora é quando nos autoflagelamos. Precisamos assumir a cruz de Cristo, porque dela vem o sustento e a salvação.

cancaonova.com: Como um cristão deve se portar diante de pessoas que querem lhe fazer mal?

Ironi Spuldaro:  O cristão, acima de tudo, precisa ser verdadeiro. Nós não podemos fazer acepção da verdade. O cristão que quer chegar ao céu deve optar pela vida com coerência, pois a ‘verdade nos libertará’. Ele não pode largar a sua fé. Se existem pessoas negativas ao seu lado, você sempre precisará se utilizar da verdade e ser um denunciador da mentira. Jamais se condene diante das acusações do mundo.

Falando de fé

Deus age na nossa história, mas precisamos responde a essa ação

Fala-se muito de fé e sobre a fé em nosso meio, mas, afinal, o que é mesmo fé? O que precisamos conhecer de verdade sobre ela? Quando falamos sobre isso, é necessário considerar dois aspectos diferentes que estão interligados e não podem ser separados entre si.

De fato, se formos levar em conta a teologia na Idade Média, essa reflexão é confirmada. Tal teologia dizia que a fé indica as verdades em que se creem; e que, por sua vez, se professam pela fé; ao mesmo tempo, para indicar a atitude pessoal em que ela consiste, isto é, o abandono total e a confiança da pessoa no encontro e na comunhão com Deus. Esse último aspecto é o verdadeiro fundamento e a substância daquilo que chamamos de fé.

O primeiro aspecto é, em certo sentido, a consequência disso. Agora, como entender melhor tudo isso? Imagino o povo continuamente distraído pelas sequências de vida da sociedade. Como esse povo pode fazer uma experiência de vida diferente, concentrada em um abandono total a Deus? Como fazer o encontro e a relação com Ele no dia a dia do nosso cotidiano? Como entender melhor tudo isso?

A comunicação nos ensina que a melhor recepção das mensagens tem de partir da realidade e do contexto dos envolvidos. Nesse caso, dos fiéis. O Mestre Jesus nos ensinou muito bem, por meio dos Evangelhos, a opção do gênero literário mediado pelos exemplos, isto é, as parábolas. Eu também quero desfrutar essa linguagem da realidade para poder penetrar no grande mistério da fé na nossa vida.

Um jovem casal, com dois filhinhos, profissionalmente afirmado e com futuro mais promissor ainda, conduzia a vida normalmente, conforme os parâmetros de sucesso da nossa sociedade. Ah, sim, para melhor definir esse perfil, o casal, às vezes, tinha ainda um tempinho para ir à igreja, sobretudo por certas ocasiões sociais. Uma vida normal, conforme os dias de hoje. De repente, aconteceu aquilo que nunca se espera. Eles, acidentalmente, sem culpa nenhuma, perderam a filha menor. Uma desgraça que foi além da própria família. Parentes, amigos, conhecidos e colegas de profissão se sentiram todos abalados. Todos, por sua vez, tentavam mostrar a sua solidariedade, dando até conselhos mais impensáveis. Alguns, inclusive, chegaram a pensar coisas mais tristes, porque perder uma filhinha assim pode gerar somente desespero. Um túnel sem saída.

No entanto, o jovem casal enfrentou a dura realidade e se deixou questionar pelo dramático evento da vida que aconteceu com ele, isto é, não soube somente chorar, mas soube se interpelar. A linda filhinha, sim, morreu, mas ela se tornou mais viva nos dois, conduzindo-os para profundas reflexões; uma delas foi constatar como ele, casal, por exemplo, nunca tinha tempo para ir à igreja nem para rezar um pouquinho mais ou aprofundar mais sobre a própria conduta religiosa e familiar.

A partir do trágico episódio, o jovem casal começou a se colocar em questão. Daí em diante, com grande e resoluta firmeza, eles se engajaram mais na vida da igreja para promover a pessoa da fé. De fato, o casal não perde mais uma missa aos domingos, participa toda semana do estudo bíblico e é solidário com aqueles que mais necessitam.

O trágico evento provocou o casal a fazer uma experiência diferente, de confiança total na busca de Deus, porque viu que esta vida foge do nosso controle. Por isso, pude ver, nesse caso, como a fé se tornou operante, como esse casal soube reconhecer que não somos nós que garantimos a vida, embora possamos ter todo o poder e riqueza desse mundo.

Assim, começou no casal uma relação de confiança em Deus, mediado pelo encontro com Jesus. Tudo isso mudou o olhar deles sobre a realidade, a concepção dos valores, o mundo dos desejos e nada ficou como antes; a vida interior desse casal e mesmo o comportamento são submetidos a um processo de conversão. Portanto, esse processo de fé começou com o evento da vida (a história) e lhe permitiu favorecer o encontro com Deus por meio de Jesus, e de fazê-lo amadurecer numa relação mais profunda e continuada na vida do jovem casal. Essa experiência de fé, com certeza, abriu-lhe novos horizontes de vida, os quais, dificilmente, se podem entender sem essa ótica de conversão.

Enfim, Deus age na nossa história, nas nossas realidades, mas, ao mesmo tempo, também nós precisamos agir respondendo a essa ação. Sem essa colaboração, é difícil fazer uma experiência de fé, porque Deus pode agir, mas se nós não respondermos, tudo se torna em vão.

Padre Cláudio Pighin
Doutor em teologia, mestrado em missiologia e comunicação

O Advento e a necessidade de vigilância

“Que o Senhor não nos encontre dormindo, mas vigilantes”, diz padre Mário destacando o Advento como tempo de vigilância e obras de caridade

Padre Mário Marcelo Coelho, scj
Doutor em Teologia Moral

“Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: alegrai-vos!  O Senhor está perto”

O termo Advento vem do latim adventum que significa vinda ou chegada e refere-se às quatro semanas antes do Natal. Pelo Advento, nos preparamos para celebrar a primeira vinda do Senhor, ou seja, o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo e a expectativa da segunda vinda do Senhor. Por isso a característica deste tempo, com o qual começa o ano da Igreja, é a penitência como preparação para receber Aquele que está para vir. O caráter penitencial do advento é acentuado pela cor litúrgica, que é o roxo.

O tempo de Advento recorda-nos a realidade de um Senhor que vem ao encontro dos homens e que, no final da nossa caminhada por esta terra, nos oferecerá a vida definitiva, a felicidade sem fim. O tempo do Advento é, também, o tempo da espera do Senhor. A palavra fundamental é “vigilância”: o verdadeiro discípulo deve estar sempre “vigilante”, cumprindo com coragem e determinação a missão que Deus lhe confiou. Estar “vigilante” não significa, contudo, preocupar-se em ter sempre a “alma” limpa para que a morte não o apanhe com pecados; mas significa viver sempre ativo, empenhado, comprometido na construção de um mundo de vida, de amor e de paz.

Pedagogicamente dizendo, advento é um tempo que a Liturgia dispõe à Igreja com a finalidade de preparar os cristãos para a celebração do Natal. Como é natural, trata-se de uma preparação espiritual, incentivando os católicos a preparar o coração e a alma para o encontro com o Senhor. Mas, não é somente preparação do Natal. No caso do Advento, estamos diante de dois aspectos desta preparação: aquela da 2ª vinda e que Paulo escreve aos Tessalonicenses sobre o “Dia do Senhor”, o dia do juízo final, quando nos encontraremos face a face com Deus (1Ts 5,1-6) e, a preparação da 1ª vinda, que celebramos no Natal.

Quanto ao primeiro aspecto do Advento, de preparar-se para a 2ª vinda do Senhor, a vigilância espiritual pode ser considerada a partir do cuidado em vista do encontro final com o Senhor, no Final dos Tempos. Para isso, é preciso ficar atentos aos sinais dos tempos, como o próprio Jesus adverte, e o melhor meio para não se descuidar e nem se distrair dos sinais dos tempos é pela vigilância espiritual. Por vigilância espiritual entende-se o cuidado, para que o nosso espírito não se afaste das coisas de Deus, mas se mantenha fiel ao projeto divino. São muitas as ocasiões para distrair-se das coisas de Deus, podendo nos anestesiar daquilo que é divino e descuidar-nos de alimentar nosso espírito com as coisas do alto.

O Advento é tempo para incentivar com mais intensidade a oração, a leitura da Palavra, a penitência e as obras de caridade. A vigilância é feita preferencialmente com a oração e, a oração nos mantém acordados para o encontro do Senhor, em sua 2ª vinda.

Quanto ao segundo aspecto do Advento, da preparação para o Natal de Jesus, é a alegria da nossa salvação pela encarnação do Verbo de Deus. Neste tempo que a publicidade natalina vem alimentar nosso espírito com “belas” e “boas” mensagens de tempos novos, repletos de paz e de harmonia fraterna, é preciso ficar atentos para não nos alimentar com fantasias e imagens enganosas. O alimento espiritual deste tempo que nos aproxima do Natal não pode se limitar a poesias ou mensagens vazias. Precisa de algo mais sólido como a oração diária, a meditação da Palavra de Deus e as obras de caridade.

A coroa do Advento

Um dos muitos símbolos do Natal é a coroa do Advento que, por meio de seu formato circular e de suas cores, expressa a esperança e convida à alegre vigilância. Na confecção da coroa são usados ramos de pinheiro e cipreste, únicas árvores cujos ramos não perdem suas folhas no outono e estão sempre verdes, mesmo no inverno, ou seja, mesmo em tempos difíceis. Os ramos verdes são sinais da vida que resiste; são sinais da esperança. A coroa é envolvida com uma fita vermelha que lembra o amor de Deus que nos envolve e nos foi manifestado pelo nascimento de Jesus. Na coroa, são colocadas quatro velas referentes a cada domingo que antecede o Natal. A luz vai aumentando à medida em que se aproxima o Natal, festa da luz que é Cristo, quando a luz da salvação brilha para toda humanidade.

Quanto às cores das quatro velas, a mais usada é a cor vermelha. Em alguns lugares costumava-se usar velas nas cores roxa e uma vela cor rósea referente ao terceiro domingo do Advento, quando celebra-se o  “Domingo Gaudete” (Domingo da Alegria), a alegria de quem se sente perdoado. O terceiro domingo se inicia com a seguinte proclamação: “Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: alegrai-vos! O Senhor está perto”. Estando já próxima a chegada do Homem-Deus, a Igreja pede que “a bondade do Senhor seja conhecida de todos os homens”. Atualmente em muitos lugares tem-se usado cada uma de uma cor.

O tempo do Advento quer sensibilizar-nos para a celebração do Natal do Senhor e para a segunda vinda de Jesus. O apelo que Cristo nos lança à vigilância é para ser tomado bem a sério. Que o Senhor não nos encontre dormindo, mas vigilantes. Este é o convite que Jesus nos faz: “Vigiai!” Como os Profetas, Maria, José, os pastores, os Reis Magos… Se vigiamos, o nosso presente e o nosso futuro encontrar-se-ão. É isso a Esperança.

Santo Evangelho (Mt 25, 1-13)

32º Domingo do Tempo Comum – 12/11/2017

Primeira Leitura (Sb 6,12-16)
Leitura do Livro da Sabedoria:

12A Sabedoria é resplandecente e sempre viçosa. Ela é facilmente contemplada por aqueles que a amam, e é encontrada por aqueles que a procuram. 13Ela até se antecipa, dando-se a conhecer aos que a desejam. 14Quem por ela madruga não se cansará, pois a encontrará sentada à sua porta. 15Meditar sobre ela é a perfeição da prudência; e quem ficar acordado por causa dela, em breve há de viver despreocupado. 16Pois ela mesma sai à procura dos que a merecem, cheia de bondade, aparece-lhes nas estradas e vai ao seu encontro em todos os seus projetos.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Responsório (Sl 62)

— A minh’alma tem sede de vós e vos deseja, ó Senhor!
— A minh’alma tem sede de vós e vos deseja, ó Senhor!

— Sois vós, ó Senhor, o meu Deus! Desde a aurora ansioso vos busco! A minh’alma tem sede de vós, minha carne também vos deseja, como terra sedenta e sem água!

— Venho, assim, contemplar-vos no templo, para ver vossa glória e poder. Vosso amor vale mais do que a vida: e por isso meus lábios vos louvam.

— Quero, pois, vos louvar pela vida, e elevar para vós minhas mãos! A minh’alma será saciada, como em grande banquete de festa; cantará a alegria em meus lábios.

— Penso em vós no meu leito, de noite, nas vigílias suspiro por vós! Para mim fostes sempre um socorro; de vossas asas à sombra eu exulto!

 

Segunda Leitura (1Ts 4,13-18)

14Se Jesus morreu e ressuscitou — e esta é nossa fé — de modo semelhante Deus trará de volta, com Cristo, os que através dele entraram no sono da morte. 15Isto vos declaramos, segundo a palavra do Senhor: nós, que formos deixados com vida para a vinda do Senhor, não levaremos vantagem em relação aos que morreram. 16Pois o Senhor mesmo, quando for dada a ordem, à voz do arcanjo e ao som da trombeta, descerá do céu, e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. 17Em seguida, nós, que formos deixados com vida, seremos arrebatados com eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor, nos ares. E assim estaremos sempre com o Senhor. 18Exortai-vos, pois, uns aos outros, com essas palavras.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Anúncio do Evangelho (Mt 25,1-13)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós!
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor!

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos esta parábola: 1“O Reino dos Céus é como a história das dez jovens que pegaram suas lâmpadas de óleo e saíram ao encontro do noivo. 2Cinco delas eram imprevidentes, e as outras cinco eram previdentes. 3As imprevidentes pegaram as suas lâmpadas, mas não levaram óleo consigo. 4As previdentes, porém, levaram vasilhas com óleo junto com as lâmpadas. 5O noivo estava demorando, e todas elas acabaram cochilando e dormindo. 6No meio da noite, ouviu-se um grito: ‘O noivo está chegando. Ide ao seu encontro!’ 7Então as dez jovens se levantaram e prepararam as lâmpadas. 8As imprevidentes disseram às previdentes: ‘Dai-nos um pouco de óleo, porque nossas lâmpadas estão se apagando’. 9As previdentes responderam: ‘De modo nenhum, porque o óleo pode ser insuficiente para nós e para vós. É melhor irdes comprar dos vendedores’. 10Enquanto elas foram comprar óleo, o noivo chegou, e as que estavam preparadas entraram com ele para a festa de casamento. E a porta se fechou. 11Por fim, chegaram também as outras jovens e disseram: ‘Senhor! Senhor! Abre-nos a porta!’ 12Ele, porém, respondeu: ‘Em verdade eu vos digo: Não vos conheço!’ 13Portanto, ficai vigiando, pois não sabeis qual será o dia nem a hora”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

 

A IGREJA CATÓLICA CELEBRA E VENERA HOJE
São Josafá, precursor do ecumenismo

São Josafá, derramou seu sangue por amor do Supremo e Único Pastor das ovelhas, tornando-se precursor do ecumenismo

João Kuncevicz nasceu em Wladimir (Ucrânia), no ano de 1580, numa família de ortodoxos, ou seja, ligados à Igreja Bizantina e não à Igreja Romana.

Com a mudança de vida mudou também o nome para Josafá, pois era comerciante até que, tocado pelo Espírito do Senhor, abraçou a fé católica e entrou para a Ordem de São Basílio, na qual, como monge desde os 24 anos, tornou-se apóstolo da unidade e sacerdote do Senhor. Dotado de muitas virtudes e dons, foi superior de vários conventos, até tornar-se Arcebispo de Polotsk em 1618 e lutar pela formação do Clero, pela catequese do povo e pela evangelização de todos.

São Josafá, além de promover com o seu testemunho a caridade para com os pobres, desgastou-se por inteiro na promoção da unidade da Igreja Bizantina com a Romana; por isso conseguiu levar muitos a viverem unidos na Igreja de Cristo. Os que entravam em comunhão com a Igreja Romana, como Josafá, passaram a ser chamados de “uniatas”, ou seja, excluídos e acusados de maus patriotas e apóstolos, segundo os ortodoxos.

Aconteceu que numa viagem pastoral, Josafá, com 43 anos na época, foi atacado, maltratado e martirizado. Após ser assassinado, São Josafá foi preso a um cão morto e lançado num rio. Dessa forma, entrou no Céu, donde continua intercedendo pela unidade dos cristãos, tanto assim que os próprios assassinos mais tarde converteram-se à unidade desejada por Nosso Senhor Jesus Cristo.

São Josafá, rogai por nós!

XXXII Domingo do Tempo Comum – Ano A

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 25, 1-13)
https://padrepauloricardo.org/episodios/a-parabola-das-virgens-e-o-oleo-da-oracao

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos esta parábola: “O Reino dos Céus é como a história das dez jovens que pegaram suas lâmpadas de óleo e saíram ao encontro do noivo. Cinco delas eram imprevidentes, e as outras cinco eram previdentes. As imprevidentes pegaram as suas lâmpadas, mas não levaram óleo consigo. As previdentes, porém, levaram vasilhas com óleo junto com as lâmpadas. O noivo estava demorando e todas elas acabaram cochilando e dormindo. No meio da noite, ouviu-se um grito: ‘O noivo está chegando. Ide ao seu encontro!’ Então as dez jovens se levantaram e prepararam as lâmpadas. As imprevidentes disseram às previdentes: ‘Dai-nos um pouco de óleo, porque nossas lâmpadas estão se apagando’. As previdentes responderam: ‘De modo nenhum, porque o óleo pode ser insuficiente para nós e para vós. É melhor irdes comprar aos vendedores’. Enquanto elas foram comprar óleo, o noivo chegou, e as que estavam preparadas entraram com ele para a festa de casamento. E a porta se fechou. Por fim, chegaram também as outras jovens e disseram: ‘Senhor! Senhor! Abre-nos a porta!’ Ele, porém, respondeu: ‘Em verdade eu vos digo: Não vos conheço!’ Portanto, ficai vigiando, pois não sabeis qual será o dia, nem a hora”.

Com a parábola das dez virgens, Nosso Senhor narra bem concretamente a diferença de destino entre aqueles que se entregam à vida contemplativa e aqueles que, imprudentemente, não rezam. Porque o óleo com que as cinco virgens previdentes mantêm acesas as suas velas não é outra coisa senão a oração: só através de um trato íntimo e perseverante com o Senhor poderemos manter ardendo a chama da caridade em nossos corações.

No dizer de Santo Agostinho, “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti”. Se por um lado Nosso Senhor deseja distribuir a todos os homens as suas graças atuais, a fim de que “se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2, 4), por outro lado, não chegaremos a receber essas efusões do Espírito Santo se não lhas pedirmos expressamente. Isso acontece porque Deus age nas almas de maneira sutil, como o sopro de uma “brisa suave”, sem violências.

Para quem deseja caminhar a passos largos no caminho da perfeição, fica o conselho de crescer também na vida sacramental, pois é principalmente na Comunhão que se torna perceptível esse toque delicado do Senhor, derramando óleo em nossas lâmpadas.

Munidos perseverantemente, então, desses dois instrumentos — oração e sacramentos —, entraremos um dia na “festa de casamento” eterna com o divino Noivo de nossas almas, Jesus Cristo. Oxalá não mereçamos ouvir, ao fim de nossas vidas, a mesma palavra de condenação dirigida às virgens imprudentes do Evangelho: “Não vos conheço!”

 

A vigilância previdente
Por Mons. Inácio José Schuster

Mais uma vez Jesus nos convida à vigilância e nos dá como exemplo a parábola das virgens previdentes e imprevidentes. Adaptando a história à nossa existência nós podemos refletir acerca da nossa trajetória aqui na terra enquanto estamos nos preparando para um dia ir ao encontro do “noivo”. Todos nós sabemos que a nossa vida é breve e que um dia nós faremos a viagem em busca do reino que nos foi prometido por Deus.

O noivo é Jesus e a noiva é a nossa alma que tem sede de encontrá-Lo. O tempo em que vivemos aqui na terra é a oportunidade que nós temos para, também como as jovens previdentes, providenciarmos o “óleo” que mantém a lâmpada da nossa alma acesa. E o óleo que conserva acesa a chama do amor de Deus no nosso coração, nós o encontramos quando buscamos viver a fé que provêm da oração, o consolo que nos dá o Espírito Santo, é a alegria de uma vida voltada para Deus.

Quando nós vivemos somente entregues às coisas que o mundo nos acena e temos o coração ligado às coisas passageiras nós esquecemos de alimentar a nossa alma e, com certeza, nos faltará luz para atravessar o vale escuro no caminho que nos levará para outro estágio da nossa vida.

As jovens imprudentes, talvez vivessem uma vida despreocupada de Deus, achando que buscando somente as coisas do mundo, na hora da necessidade, Deus traria o óleo para suas lâmpadas. Muitas vezes nós também ficamos como que meio adormecido(a)s, anestesiado(a)s pelas preocupações com trabalho, com sobrevivência, amealhando dinheiro, confiantes de que ainda temos muito tempo de vida para só depois pensarmos nas coisas de Deus.

Jesus, porém nos diz: “ficai vigiando, pois não sabeis qual será o dia nem a hora”. O caminho que nós precisamos atravessar é escuro e haverá um momento em que a porta se fechará. Por isso, precisamos nos preparar! Enquanto é tempo toda hora é hora para adquirirmos o que manterá a nossa lâmpada acesa. É na intimidade com a Palavra de Deus que nós vigiamos à espera do noivo que virá um dia nos levar para a morada que Ele mesmo nos preparou.

 

Alegria ou temor, ante o Esposo que chega!
http://portugal.blog.arautos.org/liturgia/liturgia-dominical/

A lâmpada de nossa alma brilha pelo azeite da virtude? Ou está ela apagada pela tibieza? Se assim for, no dia do Juízo o Divino Esposo dirá que não nos conhece!

I – A mais solene festa social do povo eleito

A Liturgia do 32º Domingo do Tempo Comum nos apresenta a famosa parábola das dez virgens que saem ao encontro do noivo, composta por Nosso Senhor no contexto de seu discurso escatológico. Era uma história perfeitamente acessível aos que O escutavam — neste caso, os discípulos —, pois se desenrolava em torno de um conhecido costume da época: a cerimónia nupcial. Em nossos dias os usos são diferentes, o que nos dificulta captar o significado profundo desta narração do Divino Mestre.

Como os Evangelhos são a Palavra de Deus, seu sentido abrange todas as eras históricas. Assim, cabe-nos recordar es­sas remotas tradições, para melhor entendermos a linguagem de Nosso Senhor e dela extrair a aplicação que nos convém.

Um contrato familiar selado com alegre esplendor

A principal comemoração social existente na vida do po­vo eleito, no Antigo Testamento, era a festa de casamento. Para torná-lo efetivo, as famílias de ambas as partes acordavam pre­viamente as condições da união, em especial o preço do mohar, uma soma em dinheiro que a do jovem devia entregar ao pai da moça. Em seguida celebravam-se os desponsórios, pelos quais os noivos ficavam prometidos entre si; e, por fim, como culminação das mencionadas tratativas entre os parentes, marcava-se a data das bodas, em geral com conside­rável antecedência. Só então se formalizava a aliança definitiva em um contrato escrito.1

A instituição da família era muito prezada e tinha uma estru­tura mais sólida que na atualida­de, conservando ainda caracte­rísticas do período patriarcal, em que o pai fazia o papel de um di­minuto chefe de estado, com po­der sobre todos os que estavam sob sua proteção e autoridade. Compreende-se que a fundação de um novo lar fosse um aconte­cimento cercado de alegria e dos mais esplendorosos festejos, os quais duravam sete dias, podendo estender-se até por duas se­manas.

O cortejo nupcial formado pelos amigos dos noivos

Um aspecto sui generis desta solenidade era o de começar à hora do crepúsculo, quando o Sol emitia seus últimos fulgores. O noivo dirigia-se à casa da noiva, acompanhado de seus amigos e ataviado como um rei, tendo a fronte cingida por uma coroa, com todo o luxo que suas posses permitissem. Para dar corpo e magni­ficência ao cerimonial, as amigas da noiva, também virgens, com ela aguardavam a chegada do noivo, que iria conduzi-la em jubiloso cortejo rumo à sua casa,2 onde se iniciaria o banquete com as bênçãos proferidas pelo pai de um dos nubentes ou por alguma pessoa de destaque. É possível que nas Bodas de Caná Jesus te­nha sido o convidado de honra que abençoou os cônjuges. Logi­camente essas jovens amigas da futura esposa entravam também no festim como convivas de especial estima e consideração.

Para se deslocar à noite pelas ruas seguindo a procissão nup­cial, as virgens, bem como os demais participantes do ato, usavam instrumentos de iluminação próprios à época: tochas ou lâmpa­das. Não havia iluminação artificial por energia elétrica. Quando anoitecia, tornava-se impossível locomover-se com segurança na intensa escuridão, e usavam-se lâmpadas para facilitar a visuali­zação dos caminhos — como as referidas por Nosso Senhor —, normalmente feitas de barro e alimentadas com azeite ou resina. Como não eram grandes, o combustível durava pouco. Se o traje­to fosse longo seria preciso levar reserva de azeite.

Também não é demais lembrar que os fósforos não haviam sido inventados, nem o isqueiro a gás. Para obter fogo se reque­ria certa arte e paciência: batiam-se duas pedras apropriadas, uma contra a outra, até se acender com uma faísca a mecha ou algo facilmente inflamável. Era tarefa tão complexa, que havia o costume de se ter uma dessas lamparinas sempre ardendo, ou se conservavam algumas brasas na lareira, a fim de conseguir fogo com presteza para qualquer finalidade. Deixar que a chama se apagasse era um verdadeiro desastre, porque acendê-la de novo não seria nada simples. Era imperioso ser vigilante e tomar cui­dado para que a lâmpada contivesse azeite suficiente…

Esta é a realidade da vida social israelita que Jesus tomará e, com sua insuperável didática, aplicará numa parábola, combi­nando os aspectos verídicos, como os descritos acima, com da­dos fictícios. Contudo, ao acrescentar estes últimos — por exem­plo, o fato de as virgens ficarem à espera do noivo até o meio da noite, atraso que nunca ocorria — o Divino Mestre estimulava o interesse e a imaginação dos ouvintes, fazendo com que com­preendessem melhor a lição moral que Ele queria transmitir.

II – Dez virgens: os sentidos do corpo e do espírito

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos esta parábola: 1 “O Reino dos Céus é como a história das dez jovens que pegaram suas lâmpadas de óleo e saíram ao encontro do noivo. 2 Cinco delas eram imprevidentes, e as outras cinco eram previdentes. 3 As imprevidentes pegaram as suas lâmpadas, mas não levaram óleo consigo. 4 As previdentes, porém, levaram vasilhas com óleo junto com as lâmpadas”.

O número de amigas que podiam acompanhar a noiva durante as núpcias não estava definido, e eram tantas quantas quisessem os nubentes. Qual seria na parábo­la, então, o sentido mais profundo dado por Nosso Senhor ao fato de serem cinco virgens prudentes e cinco virgens loucas?3

Os Padres da Igreja sugerem-nos uma explicação muito útil para nossa vida espiritual: “As cinco virgens sábias e as cinco néscias” — afirma São Jerônimo — “podem ser interpretadas como os cinco sentidos, dos quais uns caminham com presteza rumo às moradas celestes e desejam as coisas elevadas, e outros, por terem ávido apetite da imundície terrena, carecem do in­centivo da verdade para iluminar o coração. Da vista, do ouvido e do tato, em sentido espiritual, foi dito: ‘O que vimos, o que ouvimos, o que com nossos olhos contemplamos e nossas mãos apalparam’ (I Jo 1, 1); sobre o paladar: ‘provai e vede como o Senhor é suave’ (Sl 33, 9); e sobre o olfato: ‘Atrás da fragrância de teus perfumes corremos’ (Ct 1, 3); e também: ‘somos o bom odor de Cristo’ (II Cor 2, 15)”.4

Possuímos cinco sentidos corporais: tato, paladar, olfato, audição e visão. Entretanto, todos eles têm seu correspondente na alma, como nos dá eloquente prova a própria Escritura. As­sim, podemos viver em função dos cinco sentidos carnais ou dos cinco espirituais. Quem age de acordo com os primeiros, utili­zando-os para o mal, preocupa-se em comprazer à sua vaidade, a seu egoísmo, à curiosidade, ao delírio de atrair as atenções so­bre si e de se comparar com os demais; em suma, de satisfazer suas paixões. Aquele, porém, que procede conforme os sentidos espirituais está constantemente orientado para seu ideal e sua vocação, tendo presente, sobretudo, quem o chamou: Deus!

Não obstante, para guiar esses sentidos com a retidão devi­da é preciso que haja azeite, mas em abundância, em demasia… Com efeito, o azeite significa saber aparelhar-se para manter a vista, a audição, o olfato, o paladar e o tato voltados para o sobrenatural, com a atenção posta no Noivo que vai chegar, o qual, evidentemente, é Nosso Senhor Jesus Cristo.

Tal é a conduta das cinco virgens prudentes que levaram azeite de sobra, isto é, reforçaram a vigilância contra qualquer eventual deslize, evitando, a todo custo, as ocasiões próximas de pecado.

As virgens loucas, imagem das almas tíbias

No extremo oposto está a atitude das virgens loucas. No­te-se que elas não foram à festa desprovidas de azeite, apenas trouxeram pouca quantidade, por não quererem carregar uma vasilha. Julgavam que esse pouco lhes seria suficiente, pois o noivo decerto não tardaria… E se lhes viesse a faltar, bastaria tomá-lo de uma das companheiras.

Esta é bem a imagem dos que têm a alma tíbia, dos me­díocres, cuja intenção se prende às coisas materiais, concretas, humanas. Gostam do meio-termo, andam contentes consigo mesmos, consideram qualquer avanço na virtude um exagero. Justificam suas faltas com o fato de serem concebidos no peca­do original, e se esquecem de que o Divino Redentor obteve a graça superabundante para nossa santificação. Criam, com isso, a ilusão de que o seu escasso esforço já é bastante para entrar no Céu. Ora, com meias medidas não se alcança a bem-aventu­rança! “Não és nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quen­te! Mas, como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te” (Ap 3, 15-16).

A dinâmica da vida espiritual bem pode ser comparada a uma escada rolante, porém com uma característica sui generis: usamo-la para subir, quando a escada desce. Esta figura repre­senta nossas más inclinações, pois a natureza humana decaída sempre arrasta para baixo. Se quisermos galgar a escada rolante à mesma velocidade com que ela desce, não saímos do lugar. A da vida espiritual, todavia, possui uma curiosa particularidade: se subirmos com a mesma rapidez sua velocidade aumenta, de tal forma que é indispensável imprimir à ascensão maior pres­teza do que a da escada, senão logo estaremos no ponto de par­tida. Se formos mais depressa lograremos progredir, e atingire­mos com facilidade seu cimo!

A natureza humana exige os cochilos, mas sem perder a vigilância

5 “O noivo estava demorando e todas elas acabaram cochilando e dormindo”.

Podia acontecer, em alguma ocasião, que o noivo demo­rasse um pouco mais do previsto. Ora, Nosso Senhor se refere a um atraso exorbitante, pormenor que indica um exagero inten­cional. A tal ponto o noivo tardou que as virgens sucumbiram ao cansaço, até adormecerem.

A parábola, delicada e sábia como é, não recrimina o fato de todas terem dormido, e sim, como veremos, a imprevidência das cinco néscias. De fato, há oportunidades em que pensáva­mos estar prontos para acolher o Noivo, mas Ele não Se apres­sa em vir ter conosco. Então, nos é exigido um longo período de espera até a sua vinda.

Esta situação de si não é má; ao contrário, é até formativa. Todos passa­mos por períodos de aridez, tanto os fervorosos como os que se estagnaram na me­diocridade. Os sentidos se apagam, e a noite escura nos subtrai a clareza do panorama para o qual somos chamados pela nossa vocação de cristãos. Não é ra­ro isto ocorrer perto da morte e, por incrível que pareça, até aos Santos. Santa Teresinha do Menino Jesus e tantos outros, em seus últimos dias, suportaram uma terrível aridez.

Há, ainda, na sonolência das dez virgens outro simbolis­mo. Dado o nosso estado de contingência, é impossível, a não ser por uma ação extraordinária da graça, que não sejamos atraídos pelas mais diversas realidades da vida. São momentos em que não conseguimos cogitar nos altos horizontes do sobre­natural e temos de cochilar um pouco, ou seja, prestar atenção nos aspectos materiais da existência, como a saúde, o alimento ou as necessidades pecuniárias. Ao fazê-lo, no entanto, sempre devemos guardar uma vasilha de azeite, símbolo de uma vida interior sólida, com muita vigilância, de modo que passada a ne­cessidade de cuidar do concreto, voltemos a elevar a vista para as coisas celestes.

Mas quantas vezes cochilamos, a ponto de cair num sono profundo e esquecer a importância primordial da provisão do azeite… Abandonamos os exercícios de piedade, deixamos de rezar, não fugimos das ocasiões de pecado… De relaxamento em relaxamento na vida espiritual, quando menos se espera apare­ce o Noivo! Não há energia humana capaz de nos manter na prática da virtude. É preciso ter um bom reservatório de azeite: muita vigilância e oração, pois sem a força do Espírito Santo nenhuma criatura se conserva estavelmente em estado de graça.

6 “No meio da noite, ouviu-se um grito: ‘O noivo está chegando. Ide ao seu encontro!’ 7 Então as dez jovens se levantaram e prepararam as lâmpadas”.

Se o casamento de­via realizar-se ao pôr do Sol e o noivo só se apre­sentou no meio da noite, as dez jovens aguarda­ram durante várias ho­ras, pelo que o azeite se gastou. As cinco pruden­tes logo prepararam suas lâmpadas, despejando o azeite que ti­nham na vasilha, de maneira a receber o noivo e ainda fazer com ele todo o percurso restante.

A ilusão de mudar de vida quando chega o Esposo

8 “As imprevidentes disseram às previdentes: ‘Dai-nos um pouco de óleo, porque nossas lâmpadas estão se apagando’. 9 As previdentes responderam: ‘De modo nenhum, porque o óleo pode ser insuficiente para nós e para vós. É melhor irdes comprar aos vendedores’”.

As virgens néscias perceberam que seu azei­te estava para acabar e pediram uma parte às prudentes. Estas não lhes cederam nada, sem mani­festar egoísmo com tal ati­tude, pois, por terem sido previdentes, estavam no direito de dispor em benefício próprio daquilo que traziam. Por isso mandaram as loucas comprar óleo. Ora, como iam encontrar um vendedor a essa altura da noite? Era algo inusitado: bater à porta do comerciante em hora tão tardia — ainda mais naquele tempo — seria em vão; na melhor das hipóteses este lhes recomendaria voltar na manhã seguinte.

As virgens imprevidentes foram malsucedidas e as previ­dentes foram bem-sucedidas, inclusive por não terem dado um pouquinho do seu azeite às que o solicitavam. Analisemos, pois, o porquê desta recusa das previdentes: não se podem transferir os méritos de uns para os outros, pois cada alma é obrigada a ad­quirir os seus e a velar por sua própria vida espiritual. Quando chega o instante de comparecer diante de Deus não é possível que alguém mais previdente nos empreste méritos, e não podem “as virtudes de um remediar os vícios de outros”.5 Ou se tem o que deveria ser apresentado naquela hora ou não se tem! É o que nos recorda São João Crisóstomo, de forma bastante incisi­va: “Que lição tirar disto? No outro mundo, quem não tiver boas obras não poderá ser socorrido por ninguém, não porque não queiram fazê-lo, mas por ser impossível. As virgens insensatas, na realidade, procuraram refúgio no impossível”.6

No dia derradeiro já não haverá tempo de mudar, a não ser que nos seja concedida uma graça fulminante e eficaz, pois não somos capazes de modificar nosso comportamento no es­paço de um instante e recuperar tudo aquilo que era preciso ter sido realizado durante uma vida inteira. Portanto, perante a iminência da morte, reagiremos como estamos acostumados a fazer. Se não armazenarmos azeite, quando formos acordados, ainda que queiramos nos esforçar não o conseguiremos, por­que se morre tal como se viveu. É noite, não há lojas abertas… Quão ilusório se patenteia, então, o cálculo de muitos: “Deus é bom! Ele certamente dar-me-á um aviso antes de me chamar, e, no fim, me arrependerei, rezarei um tanto, e com uma ab­solvição tudo se resolverá!”. Quem conhece as circunstâncias em que a morte vai surpreender cada um de nós? Quem nos garante a presença de um sacerdote disponível para ministrar os últimos Sacramentos?

A alma tíbia procura o consolo no pecado

10 “Enquanto elas foram comprar óleo, o noivo chegou, e as que estavam preparadas entraram com ele para a festa de casamento. E a porta se fechou”.

As virgens loucas saíram para comprar o azeite. O que sig­nifica isto? Quando nos afastamos do Noivo, vamos procurar os consolos do mundo. Quem está viciado em deleites terrenos não busca ânimo em Jesus, e sim naquilo a que se está afeito. E como se apresentar depois diante de Deus, com a consciência tranquila? Neste sentido pondera Santo Agostinho: “Não se deve pensar que elas [as prudentes] lhes dão um conselho, mas que lhes recordam a falta, in­diretamente. Porque os vendedores de azeite são os aduladores que, elo­giando o que é falso ou desconhecido, induzem as almas a erro […]. Quando elas se inclinavam para as coisas de fora e procura­vam recrear-se nos praze­res habituais, porque não tinham gosto nos gozos interiores, chegou Aquele que julga”.7

As virgens prudentes, pelo contrário, possuíam suficiente azeite da virtude praticada com entusiasmo, com fortaleza, com generosidade, com desprendimento, tendo os sentidos da alma postos no sobrenatural, e puderam ingressar com o Noivo na sa­la das bodas.

Se não reservarmos o azeite, sofreremos o repúdio do Esposo

11 “Por fim, chegaram também as outras jovens e disseram: ‘Senhor! Senhor! Abre-nos a porta!’ 12 Ele, porém, respondeu: ‘Em verdade eu vos digo: Não vos conheço!’”

Para melhor compreender a gravidade do ensinamento de Nosso Senhor com esta parábola, é preciso saber que “não conhecer” na linguagem daqueles tempos tinha uma acepção um tanto diferente da que lhe atribuímos hoje. Modernamente significa ignorar quem é a pessoa. Mas naquela época em que a população era ínfima, comparada com a atual, numa cidade, e ainda mais numa aldeia, todos se relacionavam. A expressão “não te conheço” equivalia a chamar o outro de estrangeiro e mandá-lo embora. Era, portanto, um repúdio, uma ofensa. “Que significado tem: não vos conheço?” — pergunta Santo Agostinho — “Tendes minha desaprovação, minha reprovação. Não vos conheço porque não sois compatíveis com o meu modo de proceder; meu proceder desconhece o vício. Que coisa admi­rável: desconhece os vícios e, entretanto, os julga”.8 Assim, nas palavras do noivo revela-se a sentença do Divino Juiz que os ré­probos ouvirão no grande dia: “Retirai-vos de Mim, malditos! Ide para o fogo eterno” (Mt 25, 41).

Àquelas infelizes jovens de nada adiantou sua condição virginal para terem direito a entrar na festa, pois a virgindade do corpo perde seu valor quando falta a da alma, como se vê pela afirmação de São Jerônimo: “O Senhor não conhece os que praticam a iniquidade e, ainda que sejam virgens, […] estejam orgulhosos de sua pureza corporal e de sua confissão da verda­deira fé, sem embargo, porque não têm o azeite da sabedoria, basta-lhes como castigo que o Esposo os ignore”.9

Também nós devemos ter azeite na lâmpada no dia a dia, quer dizer, cultivar bem a vida espiritual, rezar sempre, comun­gar com frequência e confessar-se com regularidade. Mesmo sem ter matéria grave a declarar é imprevidência não se apro­ximar do tribunal da Penitência, porque este Sacramento infun­de na alma abundantes graças que só ali se obtêm, ainda que não haja necessidade de recuperar o estado de graça. Para isso o penitente deve enunciar ao menos genericamente as culpas do passado, a fim de receber a absolvição. Era o que motivava vá­rios Santos, como São Vicente Ferrer, Santo Inácio de Loyola ou São Carlos Borromeu a fazerem a confissão diária. Alguns, como São Francisco de Borja ou São Leonardo de Porto Maurí­cio, faziam-na duas vezes por dia.10

Nossas obras serão conhecidas por todos

Há quem se iluda, alegando ter cometido suas faltas às ocul­tas, longe da vista dos homens. Na realidade, todavia, diante da perspectiva do Juízo Final, o estar sozinho não existe. E se somos propensos a julgar que este dia grandioso e terrível será dentro de tantos séculos que ninguém se lembrará de nós, devemos, ao in­vés disso, persuadir-nos da seriedade dessa ocasião em que, pelo divino poder, não só cada um guardará na memória a totalidade de seus atos, mas todos conhecerão as obras dos demais.11 Deus, ante o qual tudo é presente — porque para Ele não há passado nem futuro —, por assim dizer, transferirá ao nosso entendimen­to, incapaz por si de abarcar tal imensidade, o conhecimento dos méritos e deméritos de cada um. Esta noção não se apagará, de modo que tanto os Bem-aventurados e os Anjos do Céu quanto os precitos do inferno a conservarão eternamente.

O valor da vigilância

13 “Portanto, ficai vigiando, pois não sabeis qual será o dia, nem a hora”.

Por fim, Nosso Senhor conclui a parábola deixando claro que a elaborou com o objetivo de nos incentivar a sermos vigilantes. A seus discípulos, depois de lhes anunciar os últimos acontecimentos e sua vinda gloriosa, Ele advertiu: “Vigiai, pois, em todo o tempo e orai, a fim de que vos torneis dignos de escapar a todos estes males que hão de acontecer, e de vos apresentar de pé diante do Filho do Homem” (Lc 21, 36). E pouco antes de começar a Paixão, duran­te a agonia no Horto das Oliveiras, recomendou-lhes novamente: “Vigiai e orai para que não entreis em tentação” (Mt 26, 41).

Quantas vezes rezamos, e até muito, para não cair em tentação! Só isso, contudo, não basta, porque é preciso vigiar. Vigiar é tão importante quanto orar, pois, ao nos precavermos, fugimos das ocasiões próximas de pecado e, com isso, obstamos a possibilidade de uma queda. Vigiar, pois, significa ter os olhos bem abertos para que os sentidos inferiores não nos arrastem para baixo, mas, isto sim, nos ajudem a subir até Deus, admi­rando seus reflexos na criação. A beleza de uma rosa, um suave tecido, um agradável perfume, uma harmoniosa música ou até uma ótima comida, são elementos que podem nos elevar a alma.

Eis a inspiração evangélica para um bom exame de cons­ciência: como me comporto nessa matéria? Meus cinco sentidos carnais dominam os sentidos espirituais? Quais circunstâncias me levam ao mal? Tal companhia que não é boa? É preciso cortar. Tal programa de televisão inconveniente? Não devo vê-lo. Tal acesso à internet? Evitarei a todo custo. Se a vigilância exige que eu arran­que um olho ou corte uma das mãos, conforme diz figurativamen­te Nosso Senhor (cf. Mt 5, 29-30), é imprescindível fazê-lo, porque é melhor entrar no Céu coxo, manco ou cego, do que conservar todos os membros e ser lançado ao fogo eterno (cf. Mt 18, 8-9).

Uma profecia certa: nossa morte

Não deixemos para amanhã o que podemos fazer hoje, porque talvez nesta mesma noite sejamos julgados! Profecia cer­ta e segura é esta: todos morreremos. Dia e hora, porém, nin­guém o sabe, pois até mesmo um doente à beira da morte ignora o instante exato em que esta lhe sobrevirá. Quem ousará prome­ter que vai acordar amanhã? Quem se atreverá a garantir que terminará de ler este artigo? Nosso destino é a morte, mas sua perspectiva nos auxilia a abandonar os apegos e nos arranca do caminho errado que abraçamos. Entrar pelas vias do vício é uma loucura, porque nada há na face da Terra de mais adverso a Deus do que o pecado, que nos expõe a sermos apanhados pelo justo Juiz no momento em que menos esperamos (cf. Mt 24, 44.50; Lc 12, 46), com as mãos vazias e as lâmpadas apagadas. E Ele dirá que não nos conhece!

Peçamos a Nosso Senhor Jesus Cristo, por intercessão de Maria Santíssima, a graça de sermos realmente vigilantes em nos­sos pensamentos, desejos e ações, visando a santidade em tudo. Assim estaremos sempre com a lâmpada abastecida de azeite… ²

1) Cf. TUYA, OP, Manuel de; SALGUERO, OP, José. Introducción a la Biblia. Ma­drid: BAC, 1967, v.II, p.310-312.

2) Cf. Idem, p.312-313.

3) Embora o texto litúrgico apresente a tradução “jovens imprevidentes” e “previden­tes”, a fim de aprofundar o sentido místico da parábola usaremos também “virgens loucas ou néscias” e “virgens prudentes”, conforme o texto grego deste Evangelho, que utiliza os termos παρθένος (parthénos) – virgem; μωρός (morós) – louco, néscio; φρόνιμος (phrónimos) – prudente.

4) SÃO JERÔNIMO. Comentario a Mateo. L.IV (22,41-28,20), c.25, n.58. In: Obras completas. Comentario a Mateo y otros escritos. Madrid: BAC, 2002, v.II, p.353; 355.

5) Idem, p.357.

6) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía LXXVIII, n.1. In: Obras. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo (46-90). 2.ed. Madrid: BAC, 2007, v.II, p.553.

7) SANTO AGOSTINHO. De diversis quæstionibus octoginta tribus. Q.59, n.3. In: Obras. Madrid: BAC, 1995, v.XL, p.165-166.

8) SANTO AGOSTINHO. Sermo XCIII, n.16. In: Obras. Madrid: BAC, 1983, v.X, p.620.

9) SÃO JERÔNIMO, op. cit., p.357.

10) Cf. SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. La veritable épouse de Jé­sus-Christ. C.XVIII, n.1. In: OEuvres Ascétiques. 6.ed. Tournai: Casterman, 1882, t.XI, p.17; CHIAVARINO, Luis. Confessai-vos bem. 4.ed. São Paulo: Paulinas, 1957, p.105-106.

11) Cf. SANTO AGOSTINHO. De Civitate Dei. L.XX, c.14. In: Obras. Madrid: BAC, 1958, v.XVI-XVII, p.1480; SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. Suppl., q.87, a.1; a.2.

 

32º Domingo Comum
http://paroquiacristoreice.com.br/index.php/component/content/article/43-destaques/1527-homilia.pdf

No Evangelho que ouvimos, Jesus nos fala do fim dos tempos. Como era seu costume, ele usava parábolas; isso é: figuras para realçar as lições que seus ouvintes precisavam aprender sobre os tempos finais. Como em outras parábolas que Jesus contou, não podemos buscar o significado em cada mínimo detalhe. Por exemplo: O fato de haver cinco virgens prudentes e cinco insensatas não quer dizer que a metade da humanidade será salva e a outra metade não. O significado é este: haverá apenas dois grupos de pessoas: Os que estão preparados e os que não estão. Percebamos que estão em grupo, em comunidade, se não fosse tal ênfase Jesus colocaria apenas duas pessoas, uma de um lado e outra do outro, cada uma de forma solitária.

A intenção de Jesus nesta parábola é chamar a atenção para a responsabilidade pessoal de cada um. As virgens insensatas poderiam ter tomado a iniciativa de trazer mais óleo, ou ter buscado enquanto havia tempo. Mas não o fizeram. Da mesma forma, muitas pessoas hoje poderiam buscar mais a Palavra de Deus, compreendê-la e crer na mensagem salvadora em Jesus Cristo (O noivo) e aplica-la às suas vidas. Entretanto, muitos se contentam com o pouco que aprenderam no passado, quem sabe de parentes ou de outra maneira (como em comunidades mal conduzidas), ou ainda com algumas tradições religiosas, sem de fato terem a fé verdadeira bem solidificada e alicerçada na Palavra de Deus.

Muitos não alimentam suficiente e continuamente a chama da fé que receberam gratuitamente de Deus no Batismo ou através da santa Palavra. Falo da fé que lhes garante a vida eterna por graça de Jesus Cristo.

E um dia a chama pode apagar por simples falta de cuidado e atenção. E, quando o Senhor vier repentinamente, não haverá mais tempo para buscar a Palavra, o óleo tão necessário para manter a chama acesa e trazer a luz.

É necessário que todos tomemos a iniciativa de vigilância enquanto estamos a caminho. Não desperdicemos as oportunidades que Deus nos dá para estarmos sempre em comunhão com ELE. É para isto que Deus nos dá o tempo de vida.

É bom lembrar que as cinco que entraram com o Noivo na festa de casamento, tiveram acesso não por méritos próprios, mas pela graça de Deus. Deus preparou a festa para os que Nele creem e se apegam aos méritos do Salvador Jesus. Elas entraram “com o Noivo”. Jesus disse: “Eu sou o Caminho, e a Verdade, e a Vida; ninguém vem ao Pai SENÃO por mim” (Jo 14,6).

 

A caridade é simbolizada no óleo
Mt 25, 1-13:. Homilia de Santo Agostinho (S. 93, 2,2.3,4.4,5)
http://www.agustinosrecoletos.com/blog/pt-pt/2014/11/03/caridade-e-simbolizada-oleo/

«Entendamos, pois, caríssimos, que essa parábola concerne a todos nós, isto é, a toda a Igreja: não só aos que estão a cargo dela, sobre os quais vos falamos ontem, nem só ao povo, mas a todos. Por que se fala de cinco virgens e depois de outras cinco? Estas cinco virgens, mais as outras cinco, todas elas são almas de cristãos…

Não se costuma falar de virgindade quando se trata de pessoas casadas; porém, também nos casados se dá a virgindade da fé, que ressalta a castidade conjugal. Pois, para que o saiba a vossa santidade: não é inadequado considerar como virgem a toda e qualquer alma, no que diz respeito à integridade da fé, pela qual ela se abstém do ilícito e pratica as boas obras. Até a Igreja inteira, que consta de virgens e crianças, de mulheres e de varões casados, é designada com o mesmo nome de virgem. Donde o provamos? Ouve o Apóstolo que diz, referindo-se não apenas às virgens, mas à Igreja toda: Fui eu que vos desposei a um único esposo, apresentando-vos a Cristo como virgem pura (2Cor 11, 2)…

Poucas conservam a virgindade no corpo, no coração, porém, todos devem conservá-la. Assim sendo, se é boa a abstinência das coisas ilícitas, da qual a virgindade recebe seu nome, e dignas de loa são as obras boas, significadas nas lâmpadas, por que são admitidas cinco e as outras cinco, rejeitadas?… Entre as mesmas virgens que levavam lâmpadas, umas são ditas previdentes e outras, imprevidentes. Donde é que o podemos ver e em que as distinguimos? Pelo óleo. Algo grande significa o óleo, muito grande. Que te parece? Não seria a caridade? Dizemo-lo perguntando, sem adiantar a resposta. Eu vos direi por que me parece que a caridade é simbolizada no óleo. O óleo é o mais excelente de todos os fluidos. Põe água num recipiente e infunde-lhe óleo: o óleo ficará por cima. Põe óleo e infunde-lhe água: o óleo ficará por cima. Se seguires a ordem, o óleo vence; se a mudares, vence também. A caridade não acabará nunca (cf. 1Cor 13, 8)».

Vencer a indiferença e construir a cultura do encontro

Terça-feira, 13 de setembro de 2016, Da Redação, com Rádio Vaticano

Na homilia de hoje, Papa criticou a indiferença que deixa inerte em relação ao sofrimento alheio e pediu encontro verdadeiro com o próximo

É preciso olhar e ver, ouvir e escutar o próximo que sofre, refletiu o Papa nesta manhã / Foto: L’Osservatore Romano

Trabalhar para construir uma verdadeira cultura do encontro, que vence a cultura da indiferença. Esse foi o pedido do Papa Francisco na Missa desta terça-feira, 13, na Casa Santa Marta.

Francisco falou do encontro de Deus com o seu povo e advertiu para os maus hábitos que, em família, afastam da escuta do outro. A Palavra de Deus hoje faz refletir sobre um encontro. Com frequência, observou o Papa, as pessoas se cruzam, mas não se encontram. Cada um pensa em si mesmo; olha, mas não vê; ouve, mas não escuta.

“O encontro é outra coisa, é aquilo que o Evangelho hoje nos anuncia: um encontro; um encontro entre um homem e uma mulher, entre um filho único vivo e um filho único morto; entre uma multidão feliz, porque encontrou Jesus e o segue, e um grupo de pessoas, chorando, que acompanha aquela mulher, que saía de uma porta da cidade; encontro entre aquela porta de saída e a porta de entrada. O ovil. Um encontro que nos faz refletir sobre o modo de nos encontrar entre nós”.

O Evangelho fala da grande compaixão que Deus teve nessas situações. Esta compaixão, advertiu Francisco, não é o mesmo que as pessoas sentem quando andam na rua e veem uma coisa triste e pensa “que pena”. Jesus não passa além, é tomado pela compaixão. Aproxima-se da mulher, a encontra realmente e depois faz o milagre.

Neste episódio, o Papa destacou que não se vê apenas a ternura, mas também a fecundidade de um encontro. “Todo encontro é fecundo. Todo encontro restitui as pessoas e as coisas no seu lugar. Estamos acostumados com a cultura da indiferença e temos que trabalhar e pedir a graça de fazer a cultura do encontro, do encontro fecundo que restitui a todas as pessoas a própria dignidade de filhos de Deus. Nós estamos acostumados com esta indiferença, quando vemos as calamidades deste mundo ou as pequenas coisas: ‘Mas que pena, pobres pessoas, como sofrem’, e ir adiante. Se eu não ver – não é suficiente ver, mas olhar – se eu não paro, não olho, não toco, se não falo, não posso fazer um encontro e nem ajudar a fazer a cultura do encontro”.

O Papa explicou ainda que todos ficaram com muito medo e glorificavam a Deus por visitar o seu povo.  Da mesma forma, ele disse que gosta de ver também o encontro de todos os dias entre Jesus e sua esposa, a Igreja, que aguarda o Seu retorno.

E a mensagem de hoje é que todos são carentes da Palavra de Deus e precisam desse encontro com Ele. “À mesa, em família, quantas vezes se come, se vê TV ou se escreve mensagens no celular. Todos são indiferentes a este encontro. Até no fulcro da sociedade, que é a família, não existe encontro. Que isto nos ajude a trabalhar por esta cultura do encontro, tão simplesmente como o fez Jesus. Não olhar apenas, mas ver; não ouvir apenas, mas escutar; não só cruzar com os outros, mas parar. Não dizer apenas ‘que pena, pobres pessoas’, mas deixar-se levar pela compaixão. E depois, aproximar-se, tocar e dizer do modo mais espontâneo no momento, na linguagem do coração: ‘Não chore’. E dar pelo menos uma gota de vida”.

Desenvolvido por Origy Networks – Criação de sites e propaganda