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III Domingo do Advento (Gaudete) – Ano B

Por Mons. Inácio José Schuster

A partir de hoje, terceiro domingo do Advento, até o próximo dia 16 de Dezembro, as leituras todas, direta ou indiretamente, mostram-nos a figura do precursor João Batista por um motivo simples: é que nós também, como ele, nos encontramos em um entremeio, entre duas vindas de Jesus. A primeira na carne, que ele anunciou antecipadamente, e a segunda, a vinda em glória, no final da história, para a qual nós todos tendemos, e nos encaminhamos. A João Batista, que veio para dar testemunho da luz sem ser a luz ele próprio, uma pergunta decisiva foi feita pelas autoridades religiosas: “és tu o Messias, és tu o Cristo?” E ele respondeu não por três vezes. Por ocasião de três perguntas distintas, sua resposta, sempre mais curta, foi um não absoluto e decisivo. Ao contrário de João Batista, que responde três vezes não: “não sou”, nós conhecemos a figura de Jesus que diz: “Eu Sou. Eu Sou O Bom Pastor, Eu Sou A Ressurreição e A Vida, Eu Sou A Porta das ovelhas”. Eu Sou é o nome revelado a Moisés, por Deus, na Sarça Ardente, como se escreve no Livro do Êxodo. Este nome é assumido por Jesus no Novo Testamento. Em antítese a João Batista que não é, Jesus afirma ser; Ele é Deus conosco, Ele é O Emanuel. Nós também, caríssimos irmãos, podemos perguntar-nos quem somos. Normalmente carregamos uma cédula de identidade que nos diz quem somos: nosso nome, nossa data de nascimento e os nomes de nossos pais. Mas nós podemos perguntar a nós mesmos quem somos. Normalmente, do ponto de vista religioso, três respostas são possíveis de serem dadas: A primeira: “eu sou um crente, eu sou um católico praticante, eu creio em Deus”. A segunda resposta: “eu não creio em Deus, eu sou ateu”. A terceira resposta: “eu sou um agnóstico, ou seja, eu não sei se Deus existe ou não”. E esta terceira pode ter duas subdivisões, ou seja, eu não sei, mas eu procuro saber, eu não sei, mas eu indago, eu não sei, mas busco, eu não sei, mas vivo de acordo com os ditames de minha consciência e procuro a verdade. Ou então, eu não sei e não me interessa saber, eu não sei, e não estou interessado em saber, se Deus existe ou não. Esta é a mais perigosa de todas as respostas que podem ser dadas, porque esta pessoa pode correr sério risco: “e se Deus existir, que fará ele, que a vida inteira fez pouco caso e sequer procurou, com afinco e seriedade, saber se existe ou não? João Batista sabia perfeitamente que ele era apenas uma palavra, ou melhor, uma voz portadora da Palavra. E Santo Agostinho faz uma bela reflexão sobre isto: “João era a voz; Jesus, A Palavra desde o início. A voz tem apenas a incumbência de transmitir A Palavra. Uma vez que A Palavra sai, através da voz, de meu interior, e atinge a inteligência do outro, a voz pode cessar, e o trabalho e a missão de João Batista estão cumpridas; e o nosso também. E A Palavra permanece no coração e na inteligência de todos nós. Esta Palavra é Cristo que, neste Advento e Natal, quer nascer em cada um de nós.

 

ABRAMOS A PORTA DO NOSSO CORAÇÃO À LUZ DO REDENTOR
Padre Bantu Mendonça

João Batista é o profeta do Advento e, à semelhança de Isaías, faz ressoar o anúncio de um tempo decisivo que se aproxima. A presença dele é destacada com características semelhantes ao profeta Elias, razão pela qual foi interrogado se era Elias. Depois de um longo silêncio profético em Israel, desponta o Batista anunciando por primeiro a irrupção do Reino de Deus e preparando uma nova aliança: “Eu sou aquele que grita assim no deserto: preparem o caminho para o Senhor passar”. Nesta sequência, João apareceu no deserto e pregava um batismo de conversão para a remissão dos pecados. Acreditava-se que o Messias só se manifestaria quando Israel fosse, de fato, a comunidade santa de Deus. Para tornar-se o povo santo, Israel deveria percorrer o caminho da conversão. João faz ecoar o apelo à conversão, à mudança radical de vida, comportamento e mentalidade. Quem se dispunha a acolher o Messias era convidado para iniciar-se na comunidade messiânica, na vida nova, própria dos que aguardavam a chegada do Messias. A pregação de João Batista, como um último apelo de Deus ao Seu povo, encontrou ampla adesão: “Iam ter com ele toda Judeia, toda Jerusalém, e eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados”. A preparação para a vinda do Messias passa pela mudança radical que se concretiza numa nova atitude de vida e na opção de uma nova escala de valores. Esse grande santo ressalta a força do Messias e define Sua missão como batizar no Espírito: “Depois de mim vem outro mais poderoso do que eu, diante do qual não sou digno de me prostrar”. O Messias terá a força de Deus e Sua missão será comunicar o Espírito do próprio Deus, que transforma, renova e recria os corações. O batismo com o Espírito (cf. Mc 1,8) revela que o Messias concederá a capacidade de discernimento no que diz respeito às exigências dos caminhos que conduzem a Deus. Alegremente hoje contemplamos a figura de João Batista. É o domingo da alegria: “Alegrai-vos sempre no Senhor. O Senhor está perto!” Este homem, como dissemos, dá o maior testemunho sobre Jesus diante dos emissários das autoridades judaicas. Os israelitas viviam dias difíceis sob o jugo dos romanos, explorados pela classe de dirigentes e escravizados pelo sistema religioso, que era ritual e legalista. Para a felicidade dos israelitas e a inquietude das autoridades, do deserto “apareceu um homem enviado por Deus, que se chamava João”. Na pessoa de João, Deus intervém em favor do povo. O ambiente messiânico vivido pelo povo inquietava a hierarquia religiosa. Uma comissão de sacerdotes e levitas desloca-se de Jerusalém para investigar a ortodoxia de João Batista. Interrogado, o homem enviado por Deus descarta a hipótese de ser o Messias: “Eu não sou o Messias”. Também nega ser Elias ou um profeta. O Batista não se deixa seduzir pelas falsas opiniões que circulavam sobre ele e que deixavam preocupadas as autoridades. Na realidade, ele rejeita tudo o que o coloque no centro das atenções. Sua missão é ser testemunha da luz, para a qual deviam se voltar os olhares. Não satisfeitos, diante das negativas de João, os representantes das autoridades religiosas perguntam: “Quem você é?” Ao que o precursor responde: “Sou uma voz gritando no deserto”. Novamente, ele se esquiva de ocupar o centro das atenções. “Sou uma voz”. Uma voz que pede aos ouvintes que acolham esta mensagem: “Aplainem os caminhos do Senhor”. Desconcertados e inquietos, os membros da comissão tornaram a perguntar: “Por que você batiza?” João evitou responder à objeção dos enviados dos fariseus. Mais que isso, minimizou seu rito batismal e ressaltou que ele não se considerava digno nem mesmo de desatar as correias das sandálias d’Aquele que estava por vir. Apesar de desconhecido, este será a luz que iluminará e libertará o povo da cegueira, da escravidão, da mentira e instaurará um novo tempo. João tinha consciência de que o batismo com água era apenas sinal de conversão e acolhida diante d’Aquele que já estava no meio do povo. Infelizmente, a Boa Nova trazida por Cristo e os novos céus e a nova terra podem passar despercebidos aos olhos dos acomodados e instalados numa vida de privilégios à custa do sofrimento do povo. Mas ontem como hoje, a missão de João Batista é minha e sua. Somos nós que devemos abrir as portas de par em par ao Redentor, Luz das nações e glória de Israel, Seu povo, para que todos possam ver a manifestação da glória de Deus.

 

3º DOMINGO DO ADVENTO – B
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha (MG)

“Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: Alegrai-vos! O Senhor está perto!” (Fl 4,4-5).  
Irmãos e Irmãs, Deus vem para a alegria dos pobres. Estamos na metade do tempo do Advento, este bonito tempo de espera, de vigilância e de mudança de vida em que a Santa Igreja Católica nos convida a abrir os nossos corações para a vinda iminente do Filho de Deus. O Senhor está no meio de nós, por isso a Liturgia de hoje exulta: “Alegrai-vos, o Senhor está próximo”. Refletimos hodiernamente sobre a figura do precursor, ou seja, de São João Batista. Hoje, a Liturgia nos faz sair da reflexão da penitência e da conversão e exulta em nossos corações a alegria do testemunho. Antigamente, o domingo de hoje era denominado Domingo Gaudete, por causa da antífona de entrada que começa com esse imperativo “Alegrai-vos”. O celebrante reveste-se de vestes róseas, anunciando a alegria e a luz que deve permear toda a nossa vida cristã. A alegria desta Liturgia nos anima a recordar a alegria do povo de Israel que, retornando do exílio no Egito, anseiam por dias melhores, ou seja, esperam pela Boa Nova do Senhor que vem. Caros irmãos, A primeira leitura da celebração(cf. Is 61,1-2a.10-11) nos apresenta palavras animadoras, de uma dessas pessoas que surgiram na vida do povo de Deus. Ela preferiu ficar no anonimato e sua mensagem acabou sendo incorporada ao livro do profeta Isaías. Num momento de desolação, um profeta anônimo vem cantando e falando de coisas novas que Deus fará: onde reinava a tristeza, brilhará a alegria; onde campeava a desolação, virá a paz do Senhor; onde grassava o desânimo, vem o ânimo do próprio Senhor, anunciando a virtude básica da vida cristã: que DEUS PLANTARÁ JUSTIÇA ENTRE OS HOMENS E MULHERES DE BOA VONTADE. Assim, vale a pena recordar Isaías: “Exulto de alegria no Senhor e minh’alma regozija-se em meu Deus; ele me vestiu com as vestes da salvação, envolveu-me com o manto da justiça e adornou-me como um noivo com sua coroa ou uma noiva com suas jóias”. Amados Irmãos, Problemas todos nós temos. A alegria anunciada é aquela que foi proclamada pelo precursor João Batista, que veio aplainar os caminhos do Senhor: “Eu batizo com água; mas no meio de vós está aquele que vós não conheceis, e que vem depois de mim. Eu não mereço desamarrar a correia de suas sandálias”. A primeira frase do Evangelho(cf. Jo 1,6-8.19-28) resume a pessoa e a missão de João Batista: é um homem, diferentemente de Jesus que, desde o início, é chamado de Filho de Deus. É um enviado de Deus, isto é, um profeta, que falará em nome de Deus aos homens. Jesus também se dirá enviado (Jo 3,34), mas falará com autoridade própria e se identificará com o Pai (Jo 10,30). Chama-se João, que quer dizer “Deus usa de misericórdia”. A missão de João é proclamar que a misericórdia divina se encarnou na pessoa de Jesus de Nazaré, que veio “tirar o pecado do mundo” (Jo 1,29). João Batista veio dar uma sacudida no povo de Deus, por isso ele é profeta que anuncia a palavra de Deus e dá a sua vida por este projeto de salvação. João se preocupou com o testemunho do Senhor que virá, abrindo como precursor os seus caminhos. João certamente deu testemunho de uma verdade: “Que Ele cresça e eu diminua”. Aí está, pois, a novidade de ser cristão e de ser católico: que o clero e as lideranças do povo reconheçam a sua miséria e deixem que Cristo encaminhe e guie as comunidades para a vivência da alegria e do gozo do Senhor que vem. João Batista nos deixou um testemunho brilhante de humildade e também de fé absoluta em Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele não se intitulou Messias, mas sim precursor, o que abre os caminhos. João Batista não disse uma palavra a seu respeito, mas somente a respeito do que Vem. O seu papel era apontar o caminho da salvação, proclamando a grandeza daquele que estava por vir, ao mesmo tempo em que se punha no seu lugar, sabendo que sua missão era só de abrir as veredas. João Batista aponta as luzes para o mundo, mas parece que o mundo não quer conhecer a luz que é Jesus, como ele próprio lamentou depois: “A luz veio a este mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que luz” (Jo 3, 19). Caros irmãos, A Segunda Leitura(cf. 1Ts 5,16-24) nos apresenta a alegria e a ação de graças sempre. São Paulo envia uma exortação aos Tessalonisses para que a alegria e a contínua ação de graças sejam a nota determinante desta comunidade eclesial, pois é para ver-nos assim felizes que Deus nos fez participar do Evento de Jesus Cristo. Daí, as orientações práticas para a querida comunidade eclesial: não apagar os dons do Espírito Santo, avaliar tudo e guardar o que serve, eliminar todo o mal. Termina a carta com um voto ou ósculo da paz, o que significa a perfeição escatológica, pois Deus é fiel. Irmãos, Alegrai-vos! Alegrai-vos sempre no Senhor, incessantemente. Todos nós somos convidados a examinar nosso relacionamento com Deus, afastando-nos do espírito do mal e nos aproximando do espírito de Deus, o espírito do bem e da paz, conservando a santidade de vida e de estado, A razão desta alegria está enfeixada na segunda leitura: o que Deus quis, afinal, com Jesus Cristo e sua obra é que sempre possamos estar alegres e agradecidos a Ele. Ser felizes e animados pelo projeto do Evangelho é a nossa missão. Na Igreja, muitos são os carismas, mas todos convergem para Jesus Cristo. O importante de hoje não é somente a conversão, mas é iluminar a sociedade com a fé que vem de JESUS CRISTO LUZ DO MUNDO, DANDO TESTEMUNHO DESTE JESUS, ÚNICO CAMINHO DE SALVAÇÃO, DESEJOSO DE VER AQUELE QUE ESTÁ NO MEIO DE NÓS, COMO SALVADOR E VIVIFICADOR. Que a Festa do Natal que se aproxima nos faça cada vez mais abertos, especialmente ao apelo de nossos Bispos que hoje pedem a nossa generosa participação na campanha da evangelização. Ajudando, desta forma, as necessidades da Igreja no Brasil, estaremos fazendo com que o Natal se realize cada vez mais digno nas Igrejas irmãs, pobres e necessitadas, carregando as sementes da Esperança que se renovam a cada NATAL DO DIVINO INFANTE.

 

Este domingo é conhecido pelo nome de “Gaudete”, palavra latina que inicia a antífona de entrada deste dia: Alegrai-vos. Muitas vezes, estas antífonas dão o mote à celebração comunitária: hoje, é um convite à alegria que nos aparece também na primeira leitura. Hoje, inicia-se a segunda fase deste percurso pedagógico do Advento: o mistério da encarnação aparece mais explícito. Isaías e o evangelho, através do simbolismo usado, ajudam-nos a descobrir o Messias desejado. Para esta descoberta, é-nos pedida a paciência na segunda leitura. No domingo passado, refletimos no estilo de vida, na linguagem e no tema central da pregação de João Baptista. A sua pregação parecia ser ameaçadora, porque dizia para os fariseus e saduceus que não se podia escapar à justiça que estava iminente: “O machado já está posto à raiz das árvores”. A sua pregação tinha como finalidade preparar a humanidade para a justiça de Deus que seria posta em prática por Jesus Cristo. João Baptista foi preso por causa das suas convicções. Enviou a Jesus os seus discípulos com a pergunta: “És Tu Aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?”. Jesus responde, convidando a observar o que está a acontecer: aqueles que são desprezados pela sociedade são atendidos, ou seja, recuperam a vista, a saúde, a audição, ressuscitam e recuperam a sua dignidade. Esta é a Justiça do Reino. É esta a justiça que os cristãos terão de praticar. Porém, não podemos esquecer que os milagres são sinais de uma realidade espiritual. É preciso, então, contemplar a ação libertadora do Messias numa dupla dimensão: a espiritual e a material. Esta é a nova forma de expressão da presença de Deus no meio dos homens e das mulheres. A missão de João foi preparar a vinda da justiça de Deus. Jesus afirma que João Baptista é o maior dos profetas, mas viver segundo os critérios do Reino é muito mais importante: “Mas o menor do Reino dos Céus é maior do que ele”. Esta é a missão para todos os que desejam viver no Reino: viver a justiça da misericórdia. Para esta missão, é muito importante a paciência. Como é necessário falar dela, quando à nossa volta há tanta falta desta virtude. Na segunda leitura, São Tiago, para nos falar da paciência, apresenta-nos o exemplo do lavrador que “espera pacientemente o precioso fruto da terra, aguardando a chuva temporã e tardia” e ano após ano conforma-se com a colheita, dependendo sempre do clima estável ou instável. A vida espiritual é muito parecida com esta imagem, especialmente no ambiente de comunidade paroquial. A falta de paciência e o desinteresse pelo o outro dificultam viver a esperança. Passa-se de um desejo para a ansiedade (querer o imediato das coisas). A paciência pelo encontro com Deus deve ser serena, tranquila, mesmo com momentos de sofrimento e de insegurança, mas nunca pode ser uma paciência passiva, porque supõe luta, trabalho, firmeza, sem perder a serenidade. As primeiras palavras da leitura de Isaías introduzem os aspectos importantes que o profeta quer salientar: “Alegrem-se o deserto e o descampado, rejubile e floresça a terra árida”. Estas palavras convidam-nos a encarar a realidade de outra maneira. O deserto, o lugar onde reina o mal, pode florescer. O combate contra o mal faz surgir uma nova realidade, aquela com a qual Jesus se identificava quando os discípulos de João lhe perguntavam pela sua identidade. Então, será com esta realidade que todos nos devemos identificar. Teriam que ser os nossos sinais de identidade, concretizados por Deus. A travessia do deserto é um trabalho pessoal, mas também é comunitário, ou seja, de toda a comunidade que caminha. E é muito importante ter a capacidade de, enquanto caminhamos, olhar o bem que surge e que floresce. Nem tudo é um jardim, mas pouco a pouco tudo se pode ir transformando. A alegria surge graças à fé. Não é algo banal, é um desejo de esperar o Amor, porque é com amor que Deus salva. Temos de aprender a maneira de amar de Deus e só assim viveremos com alegria. Há que fazer um exercício pessoal… que rosto temos? Não se trata de olhar os outros, mas de nos olharmos interiormente e ver se a alegria do amor de Deus habita em nós. A alegria existe, quando nos sentimos amados por Deus: “Aí está o vosso Deus”, vem para fazer justiça e dar a recompensa. Ele próprio vem salvar-nos.

 

3º DOMINGO DO ADVENTO
Jo 1,6-8.19-28: “Eu sou a voz que clama no deserto: endireitai o caminho do Senhor”

6Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João. 7Este veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele. 8Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz. 19Este foi o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para perguntar-lhe: Quem és tu? 20Ele fez esta declaração que confirmou sem hesitar: Eu não sou o Cristo. 21Pois, então, quem és?, perguntaram-lhe eles. És tu Elias? Disse ele: Não o sou. És tu o profeta? Ele respondeu: Não. 22Perguntaram-lhe de novo: Dize-nos, afinal, quem és, para que possamos dar uma resposta aos que nos enviaram. Que dizes de ti mesmo? 23Ele respondeu: Eu sou a voz que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como o disse o profeta Isaías (40,3). 24Alguns dos emissários eram fariseus. 25Continuaram a perguntar-lhe: Como, pois, batizas, se tu não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta? 26João respondeu: Eu batizo com água, mas no meio de vós está quem vós não conheceis. 27Esse é quem vem depois de mim; e eu não sou digno de lhe desatar a correia do calçado. 28Este diálogo se passou em Betânia[1], além do Jordão, onde João estava batizando.

Todo o Antigo Testamento é uma preparação para a vinda de Cristo. Assim os Patriarcas e os Profetas anunciaram de diversas maneiras a salvação que viria pelo Messias. Mas, João Batista, o maior dos nascidos de mulher (cf. Mt 11,11)[2], pôde indicar com o dedo o próprio Messias (cf. Jo 1,29)[3], sendo o testemunho do Batista o fechamento de todas as profecias anteriores. A missão de João Batista como testemunha de Jesus Cristo é tão importante que os Evangelhos Sinóticos começam a narração do ministério público de Jesus por esse testemunho. Os discursos de São Pedro e de São Paulo, recolhidos nos Atos dos Apóstolos, também aludem ao testemunho de João (At 1,22[4]; 10,37[5]). O quarto Evangelho menciona-o sete vezes (1,6[6].15[7].19[8].29[9].35[10]; 3,27[11]; 5,33[12]). Sabemos, além disso, que o apóstolo/evangelista São João tinha sido discípulo do Batista antes de ser discípulo do Senhor, e que precisamente o Batista foi quem o encaminhou para Cristo (Cf. 1,37ss[13]). O novo Testamento nos ensina a transcendência da missão do Batista, mas, ao mesmo tempo nos mostra que o Batista é o Precursor imediato do Messias, ao qual não é digno de desatar as correias das Suas sandálias (cf. Mc 1,7)[14]; por isso o Batista insiste no seu papel de testemunha de Cristo e na sua missão de preparar o caminho do Senhor (cf. Lc 1,15-17[15]). O testemunho de João Batista permanece através dos tempos, e chega até o hoje da história, convidando cada um de nós, a abraçar a fé em Jesus, a Luz verdadeira. Algo que podemos destacar, neste terceiro domingo do Advento, será o testemunho do Batista. Assim se sublinha a missão que Deus lhe confiou de testemunhar, com a sua vida e com a sua palavra, que Jesus Cristo é o Messias e Filho de Deus. O precursor exorta à penitência vivendo ele próprio esse espírito de austeridade que pregava; indica Jesus como Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, e proclama-O com coragem diante dos judeus. A figura grave do Batista é modelo de fortaleza com que devemos confessar Cristo: “Com efeito, todos os fiéis cristãos, onde quer que vivam, têm obrigação de manifestar, pelo exemplo de vida e pelo testemunho da palavra, o homem novo de que se revestiram pelo Batismo” (Ad Gentes, 11). Num ambiente de intensa expectativa messiânica, o Batista aparece como uma figura rodeada de um prestígio extraordinário; prova disso é que as autoridades judaicas enviam personagens qualificadas (sacerdotes e levitas de Jerusalém) a perguntar-lhe se é o Messias. Chama a atenção à grande humildade de João: adianta-se aos seus interlocutores afirmando: “Não sou o Cristo”. Considera-se tão pequeno diante do Senhor que dirá: “Não sou digno de desatar a correia das Suas sandálias” (v.27). Toda a fama de que desfrutava põe-na ao serviço da sua missão de Precursor do Messias e, com esquecimento total de si mesmo, afirma que “é necessário que Ele cresça e que eu diminua” (Jo 3,30). “Batizar”: Significava originariamente submergir na água, banhar. O rito da imersão exprimia entre os Judeus a purificação legal daqueles que tivessem contraído alguma impureza prevista pela Lei. Existia também o batismo dos prosélitos, que era um dos ritos de incorporação dos gentios ao povo judeu. Nos manuscritos do Mar Morto fala-se de um batismo como rito de iniciação e purificação dos adeptos à seita judaica de Qumran, que existia em tempos de Nosso Senhor. O batismo de João tinha um marcado caráter de conversão interior. As palavras de exortação que pronunciava o Batista e o reconhecimento humilde dos pecados por parte dos que acorriam a ele dispunham para receber a graça de Cristo. O batismo de João constituía, pois, um rito de penitência muito apto para preparar o povo para a vinda do Messias, cumprindo-se com isso as profecias que falavam precisamente de uma purificação pela água perante o advento do Reino de Deus nos tempos messiânicos (Cf. Zc 13,1[16]; Ez 36,25[17];37,23[18]; Jr 4,14[19]). O batismo de João, todavia, não tinha poder de limpar a alma dos pecados, como faz o Batismo cristão (cf. Mt 3,11[20]; Mc 1,4[21]). “Quem vós não conhecei”: Com efeito, Jesus ainda não Se tinha manifestado publicamente como o Messias e Filho de Deus; ainda que alguns O conhecessem enquanto homem, São João Batista pode afirmar que realmente não O conheciam. O Batista declara a primazia de Cristo sobre ele por meio da comparação do escravo que desata a correia das sandálias do seu senhor. Para nos aproximarmos de Cristo, que João anuncia, é preciso imitar o Batista. Como diz Santo Agostinho: “Entenderá estas palavras quem imite a humildade do Precursor… O mérito maior de João é, meus irmãos, este ato de humildade”.

Fonte: Bíblia Sagrada, Santos Evangelhos, Edições Thologica, Braga-Pt, 1994
[1] Refere-se à cidade de Betânia que estava situada na margem oriental do Jordão, em frente de Jericó, diferente da Betânia onde vivia a família de Lázaro, próximo de Jerusalém (cf. Jo 11,18).
[2] Mt 11,11: Em verdade vos digo: entre os filhos das mulheres, não surgiu outro maior que João Batista. No entanto, o menor no Reino dos céus é maior do que ele.
[3] Jo 1,29: No dia seguinte, João viu Jesus que vinha a ele e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.
[4] At 1,22: A começar do batismo de João até o dia em que do nosso meio foi arrebatado, um deles se torne conosco testemunha de sua Ressurreição.
[5] At 10,37: Vós sabeis como tudo isso aconteceu na Judéia, depois de ter começado na Galiléia, após o batismo que João pregou.
[6] Jo 1,6: Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João.
[7] Jo 1,15: João dá testemunho dele, e exclama: Eis aquele de quem eu disse: O que vem depois de mim é maior do que eu, porque existia antes de mim.
[8] Jo 1,19: Este foi o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para perguntar-lhe: Quem és tu?
[9] Jo 1,29: No dia seguinte, João viu Jesus que vinha a ele e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. [10] Jo 1,35: No dia seguinte, estava lá João outra vez com dois dos seus discípulos.
[11] Jo 3,27: João replicou: Ninguém pode atribuir-se a si mesmo senão o que lhe foi dado do céu.
[12] Jo 5,33: Vós enviastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da verdade.
[13] Jo 1,37ss: 37Os dois discípulos ouviram-no falar e seguiram Jesus. 38Voltando-se Jesus e vendo que o seguiam, perguntou-lhes: Que procurais? Disseram-lhe: Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras? 39Vinde e vede, respondeu-lhes ele. Foram aonde ele morava e ficaram com ele aquele dia. Era cerca da hora décima. 40André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido João e que o tinham seguido.
[14] Mc 1,7: Ele pôs-se a proclamar: “Depois de mim vem outro mais poderoso do que eu, ante o qual não sou digno de me prostrar para desatar-lhe a correia do calçado.
[15] Lc 1,15-17: 15porque será grande diante do Senhor e não beberá vinho nem cerveja, e desde o ventre de sua mãe será cheio do Espírito Santo; 16ele converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus, 17e irá adiante de Deus com o espírito e poder de Elias para reconduzir os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, para preparar ao Senhor um povo bem disposto.
[16] Zc 13,1: Naquele dia jorrará uma fonte para a casa de Deus e para os habitantes de Jerusalém, que apagará os seus pecados e suas impurezas.
[17] Ez 36,25: Derramarei sobre vós águas puras, que vos purificarão de todas as vossas imundícies e de todas as vossas abominações. [18] Ez 37,23: Não mais se mancharão com seus ídolos nem cometerão infames abominações: libertá-los-ei de todas as transgressões de que se tornaram culpados e purificá-los-ei. Eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus.
[19] Jr 4,14: Jerusalém, limpa o coração da maldade, a fim de que consigas a salvação. Até quando abrigarás no coração pensamentos que te são funestos?
[20] Mt 3,11: Eu vos batizo com água, em sinal de penitência, mas aquele que virá depois de mim é mais poderoso do que eu e nem sou digno de carregar seus calçados. Ele vos batizará no Espírito Santo e em fogo.
[21] Mc 1,4: João Batista apareceu no deserto e pregava um batismo de conversão para a remissão dos pecados.

O respeito à criação e ao ser humano

Iniciando visita a Assis, Papa encontra crianças e doentes
Visita a Assis, sexta-feira, 4 de outubro  de 2013, Jéssica Marçal / Da Redação

Papa destacou necessidade de se ouvir as chagas de Jesus

Papa Francisco iniciou na manhã desta sexta-feira, 4, a visita à cidade de Assis na Itália. É a primeira vez que o Santo Padre vai à cidade do santo que inspirou seu nome de pontificado. A visita acontece no dia em que a Igreja celebra São Francisco de Assis.

A primeira atividade do Papa foi com as crianças portadoras de deficiência e doentes do Instituto Seráfico de Assis. Após ser recebido pelas autoridades, Francisco fez um discurso espontâneo para as crianças, dando por lido o que havia preparado.

Citando o que uma mulher lhe havia falado, que ali eles estavam entre as chagas de Jesus e que estas precisavam ser escutadas, o Papa recordou o episódio em que Jesus caminhava entre os discípulos tristes, e fez com que eles vissem suas chagas e então os discípulos O reconheceram.

“Aqui Jesus está escondido nestes rapazes, nestas crianças, nestas pessoas. No altar adoramos a Carne de Jesus; neles encontramos as chagas de Jesus. Jesus escondido na Eucaristia e Jesus escondido nestas chagas”.

Francisco destacou então a necessidade dessas chagas serem escutadas, talvez não tanto pelos jornais, o que dura um ou dois dias, mas pelos que se dizem cristãos.

“O cristão adora Jesus, o cristão procura Jesus, o cristão sabe reconhecer as chagas de Jesus. E hoje, todos nós, temos a necessidade de dizer: ‘estas chagas precisam ser ouvidas’”.

O Papa destacou então a esperança que é a presença de Jesus na Eucaristia. Ele lembrou que, ao ressuscitar, Cristo não tinha feridas em seu corpo, mas estava belo. “As chagas de Jesus estão aqui e estão no Céu diante do Pai. Nós cuidamos das chagas de Jesus aqui e Ele, do Céu, nos mostra as suas chagas e diz a todos nós: ‘estou te esperando’. Assim seja”.

Após o encontro com as crianças, Francisco fez uma visita privada ao Santuário de São Damião.

 

DISCURSO
Visita pastoral a Assis
Encontro com crianças portadoras de deficiência e doentes do Instituto Seráfico de Assis
Sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Boletim da Santa Sé / Tradução: Jéssica Marçal

Nós estamos entre as chagas de Jesus, disse a senhora. Disse também que estas chagas precisam ser ouvidas, ser reconhecidas. E me vem em mente quando o Senhor caminhava com aqueles dois discípulos tristes. O Senhor Jesus, no fim, fez ver as suas chagas e eles O reconheceram. Depois o pão, onde Ele estava ali. O meu irmão Domenico me dizia que aqui se faz a Adoração. Também aquele pão tem necessidade de ser ouvido, porque Jesus está presente e escondido dentro da simplicidade e da suavidade de um pão. E aqui Jesus está escondido estes rapazes, nestas crianças, nestas pessoas. No altar adoramos a Carne de Jesus; neles encontramos as chagas de Jesus. Jesus escondido na Eucaristia e Jesus escondido nestas chagas. Precisam ser escutados! Talvez não tanto nos jornais, como notícias; isso é uma escuta que dura um, dois, três dias, depois vem um outro, um outro… Devem ser ouvidos por aqueles que se dizem cristãos. O cristão adora Jesus, o cristão procura Jesus, o cristão sabe reconhecer as chagas de Jesus. E hoje, todos nós, aqui, temos a necessidade de dizer: “estas chagas precisam ser ouvidas!”. Mas há uma outra coisa que nos dá esperança. Jesus está presente na Eucaristia, aqui é a Carne de Jesus; Jesus está presente entre vocês, é a Carne de Jesus: são as chagas de Jesus nestas pessoas.

Mas é interessante: Jesus, quando ressuscitou estava belíssimo. Não tinha em seu corpo as contusões, as feridas…nada! Era mais belo! Somente quis conservar as chagas e as levou ao Céu. As chagas de Jesus estão aqui e estão no Céu diante do Pai. Nós cuidamos das chagas de Jesus aqui e Ele, do Céu, nos mostra as suas chagas e diz a todos nós: ‘estou te esperando’. Assim seja.

O Senhor abençõe todos vocês. Que o seu amor desça sobre nós, caminhe conosco; que Jesus nos diga que estas chagas são Dele e nos ajude a dar voz a elas, para que nós cristãos as escutemos.

 

Em Missa, Papa convida ao respeito à criação e ao ser humano
Visita a Assis, sexta-feira, 4 de outubro  de 2013, Kelen Galvan / Da Redação

Papa Francisco destaca três aspectos que a vida de São Francisco ensina:  a relação vital com Cristo, que quem O segue recebe a verdadeira paz e o respeito pela criação

Cerca de 50 mil pessoas participaram, nesta sexta-feira, 4, da Santa Missa, presidida pelo Papa Francisco na Praça de São Francisco, em Assis, na Itália. O Pontífice visita a cidade do santo, cujo nome escolheu para seu Pontificado, neste dia em que a Igreja Católica celebra sua memória.

O Santo Padre agradeceu a todos os que foram a Assis para rezar com ele, e afirmou que, como tantos peregrinos, foi à cidade para “bendizer ao Pai por tudo o que quis revelar a esses pequeninos”.

O Papa recordou que Francisco, filho de um conhecido rico da cidade, após ter um encontro com o Senhor, despejou-se de uma “vida cômoda”, e escolheu viver como verdadeiro filho do Pai que está no Céu. “Essa história vivida por São Francisco, constitui uma maneira radical de seguir a Cristo”, ressaltou.

O Pontífice destacou três aspectos que a vida de São Francisco nos ensina: a relação vital com Cristo, que quem O segue recebe a verdadeira paz e o respeito pela criação.

O primeiro aspecto diz da realidade fundamental de que “ser cristão é uma relação vital com Cristo, é assimilar-se com Ele”. E esse caminho de Francisco começa “do olhar a Cristo”, explica o Santo Padre.

“Quem se deixa olhar por Jesus crucificado torna-se uma nova criatura… e é aqui que tudo começa, a experiência da graça que transforma: de sermos amados sem mérito algum”, afirmou.

O Evangelho de hoje (cf. Mt 11, 25-30) nos fala: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei”, e esta é a segunda coisa que Francisco dá testemunho, afirmou o Papa. “Quem segue a Cristo recebe a verdadeira paz, a paz que só Ele nos pode dar”.

O Pontífice explicou que a paz que Francisco acolhe e transmite não é uma paz “piegas”, nem uma espécie de energia panteísta com as energias do cosmos. “Isso não é franciscano”, afirmou.

Pelo contrário, “a paz de São Francisco é a paz de Cristo, que encontra quem toma sobre si o Seu jugo, isto é, o seu mandamento: ‘amai-vos uns aos outros como eu vos amei’. E este jugo não se pode levar com presunção e orgulho, mas com mansidão e humildade de coração”, explicou o Santo Padre.

Por fim, o terceiro aspecto que nos ensina São Francisco é o amor por toda a criação, por sua harmonia. “O Santo de Assis dá testemunho de respeito por tudo aquilo que Deus criou… onde o homem deve estar ao centro da criação”.

Nesse momento, o Papa pediu novamente para que cessem os conflitos armados e que sejam ouvidos “os gritos dos que sofrem”, na Terra Santa, no Oriente Médio e em todo o mundo.

“Respeitemos a criação.. não sejamos instrumentos de destruição, respeitemos todo o ser humano… cessem os conflitos armados… e que o ódio dê lugar ao amor, a ofensa à união”, afirmou.

No término da Celebração, o Pontífice fez a tradicional oferta do óleo para a lâmpada votiva a São Francisco.

Em seguida, dirigiu-se a Praça Donegiani em Santa Maria dos Anjos, onde irá almoçar com os pobres assistidos pela Caritas. Um pouco mais tarde, o Santo Padre fará uma visita privada à Ermida do Cárcere e uma oração na Cela de São Francisco.

 

HOMILIA
Visita Pastoral a Assis
Missa na Praça São Francisco de Assis
Sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Boletim da Santa Sé / Tradução: Jéssica Marçal

“Eu te bendigo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondestes estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequenos” (Mt 11, 25).

Paz e bem a todos! Com esta saudação franciscana agradeço-vos por terem vindo aqui, nesta praça, cheia de história e de fé, para rezarem juntos.

Hoje também eu, como tantos peregrinos, vim aqui para bendizer o Pai por tudo aquilo que quis revelar a cada um destes “pequenos” de que fala o Evangelho: Francisco, filho de um rico comerciante de Assis. O encontro com Jesus o levou a despojar-se de uma vida confortável e despreocupada para casar-se com a “Mãe Pobreza” e viver como verdadeiro filho do Pai que está nos céus. Esta escolha, por parte de São Francisco, representava um modo radical de imitar Cristo, de revestir-se Daquele que, rico que era, fez-se pobre para enriquecer-nos por meio da sua pobreza (cfr Cor 8, 9). Em toda a vida de Francisco, o amor pelos pobres e a imitação de Cristo pobre são dois elementos unidos de modo indissociável, as duas faces de uma mesma moeda.

O que testemunha São Francisco a nós, hoje? O que nos diz, não com as palavras – isto é fácil – mas com a vida?

1. A primeira coisa que nos diz, a realidade fundamental que nos testemunha é esta: ser cristãos é uma relação vital com a Pessoa de Jesus, é revestir-se Dele, é assimilação a Ele.

De onde parte o caminho de Francisco rumo a Cristo? Parte do olhar de Jesus na cruz. Deixar-se olhar por Ele no momento em que doa a vida por nós e nos atrai para Ele. Francisco fez esta experiência de modo particular na pequena Igreja de São Damião, rezando diante do crucifixo, que também eu pude venerar hoje. Naquele crucifixo, Jesus não aparece morto, mas vivo! O sangue escorre das feridas das mãos, dos pés e dos lados, mas aquele sangue exprime vida. Jesus não tem os olhos fechados, mas abertos, grandes: um olhar que fala ao coração. E o crucifixo não nos fala de derrota, de fracasso; paradoxalmente nos fala de uma morte que é vida, que gera vida, porque fala de amor, porque é Amor de Deus encarnado, e o Amor não morre, antes, vence o mal e a morte. Quem se deixa olhar por Jesus crucificado é re-criado, transforma-se uma “nova criatura”. Daqui parte tudo: é a experiência da Graça que transforma, o ser amado sem mérito, mesmo sendo pecadores. Por isto Francisco pode dizer, como São Paulo: “Quanto a mim, não pretendo, jamais, gloriar-me, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Gal 6,14).

Nós nos dirigimos a ti, Francisco, e te pedimos: ensina-nos a permanecer diante do Crucifixo, a deixar-nos guiar por Ele, a deixar-nos perdoar, recriar pelo seu amor.

2. No Evangelho, escutamos estas palavras: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 28-29).

Esta é a segunda coisa que Francisco nos testemunha: quem segue Jesus, recebe a verdadeira paz, aquela que só Ele, e não o mundo, pode nos dar. São Francisco é associado por muitos à paz, e é justo, mas poucos seguem em profundidade. Qual é a paz que Francisco acolheu e viveu e nos transmite? Aquela de Cristo, passada através do amor maior, aquela da Cruz. É a paz que Jesus Ressuscitado deu aos discípulos quando apareceu em meio a eles (cfr Jo 20, 19.20).

A paz franciscana não é um sentimento “piegas”. Por favor: este São Francisco não existe! E nem é uma espécie de harmonia panteísta com as energias do cosmo… Também isto não é franciscano! Também isto não é franciscano, mas é uma ideia que alguns construíram! A paz de São Francisco é aquela de Cristo, e a encontra quem “toma sobre si o seu jugo”, isso é, o seu mandamento: Amai-vos uns aos outros como eu vos amei (cfr Gv 13,34; 15,12).  E este jugo não se pode levar com arrogância, com presunção, com soberba, mas somente se pode levar com mansidão e humildade de coração.

Dirigimo-nos a ti, Francisco, e te pedimos: ensina-nos a sermos “instrumentos da paz”, da paz que tem a sua origem em Deus, a paz que nos trouxe o Senhor Jesus.

3. Francisco inicia o Cântico assim: “Altíssimo, onipotente, bom Senhor… Louvado sejas, com todas as criaturas” (FF, 1820). O amor por toda a criação, pela sua harmonia! O Santo de Assis testemunha o respeito por tudo aquilo que Deus criou e como Ele o criou, sem experimentar sobre a criação para destruí-la; ajudá-la a crescer, a ser mais bela e mais similar àquilo que Deus criou. E, sobretudo, São Francisco testemunha o respeito por tudo, testemunha que o homem é chamado a proteger o homem, que o homem esteja no centro da criação, no lugar onde Deus – o Criador – o quis. Não instrumento dos ídolos que nós criamos! A harmonia e a paz! Francisco foi homem de harmonia, homem de paz. Desta Cidade da Paz, repito com a força e a mansidão do amor: respeitemos a criação, não sejamos instrumentos de destruição! Respeitemos cada ser humano: cessem os conflitos armados que ensanguentam a terra, silenciem-se as armas e então o ódio dê lugar ao amor, a ofensa ao perdão e a discórdia à união. Ouçamos o grito daqueles que choram, sofrem e morrem por causa da violência, do terrorismo ou da guerra, na Terra Santa, tão amada por São Francisco, na Síria, no Oriente Médio, em todo o mundo.

Dirigimo-nos a ti, Francisco, e te pedimos: alcançai-nos de Deus o dom que neste nosso mundo nos seja harmonia, paz e respeito pela Criação!

Não posso esquecer, enfim, que hoje a Itália celebra São Francisco como seu Patrono. Eu dou as felicitações a todos os italianos, na pessoa do Chefe do governo, aqui presente. Exprime-o também o tradicional gesto da oferta do óleo para a lâmpada votiva, que este ano é da Região da Umbria. Rezemos pela nação italiana, para que cada um trabalhe sempre pelo bem comum, olhando para aquilo que une mais do que para aquilo que divide.

Faço minha a oração de São Francisco por Assis, pela Itália, pelo mundo: “Peço-te então, ó Senhor Jesus Cristo, pai das misericórdias, de não querer olhar à nossa ingratidão, mas de recordar-te sempre da superabundante piedade que [nesta cidade] mostraste, a fim de que seja sempre o lugar e a casa daqueles que verdadeiramente te conhecem e glorificam o teu nome bendito e gloriosíssimo nos séculos dos séculos. Amém” (Espelho de perfeição, 124: FF, 1824).

 

Em encontro com pobres, Papa pede despojamento do espírito mundano
Visita a Assis, sexta-feira, 4 de outubro  de 2013, Jéssica Marçal / Da Redação

Francisco falou do perigo de ceder à mundanidade, que mata a alma e a própria Igreja

Dando continuidade à sua visita a Assis, na Itália, nesta sexta-feira, 4, Papa Francisco encontrou-se com os pobres assistidos pela Cáritas. Ele falou com os presentes espontaneamente, dando como lido o discurso previamente preparado.

Francisco destacou que todos formam a Igreja, que todos devem andar pelos caminhos de Jesus, que percorreu uma estrada de despojamento, de si mesmo. Ele ressaltou que Jesus tornou-se servo, foi humilhado até a cruz, e este é o único caminho para quem deseja ser um verdadeiro cristão.

“Mas não podemos fazer um cristianismo mais humano – dizem – sem cruz, sem Jesus, sem despojamento? Deste modo, nos tornaremos cristãos de doceria, como belas tortas, como belos doces! Belíssimos, mas não cristãos de verdade!”.

O Santo Padre explicou que a Igreja deve despojar-se de um perigo grave que é o da mundanidade. Ele disse que o cristão não pode conviver com o espírito do mundo, que leva à maldade, à prepotência, ao orgulho. “Isto é um ídolo, não é Deus. É um ídolo! E a idolatria é o pecado mais forte!”.

O naufrágio ocorrido ontem em Lampedusa foi lembrado pelo Papa quando ele citou que tantos dos presentes ali no encontro estavam despojados neste “mundo selvagem”, que não dá trabalho, que não ajuda, que não se importa se crianças morrem de fome.

“O espírito do mundo faz estas coisas. É ridículo que um cristão – um cristão verdadeiro – que um padre, que uma irmã, que um bispo, que um cardeal, que um Papa, queira andar no caminho da mundanidade, que é um comportamento homicida. A mundanidade espiritual mata! Mata a alma! Mata as pessoas! Mata a Igreja!”.

Ele recordou, enfim, o despojamento de São Francisco, que o fez quando ainda era jovem, ainda não tinha forças suficientes. Foi Deus quem deu a São Francisco essa força, para recordar os ensinamentos de Jesus sobre esse espírito do mundo.

“Que o Senhor nos dê a coragem de nos despojarmos, mas não de 20 euros, despojar-nos do espírito do mundo, que é a lepra, o câncer da sociedade! E o câncer da Revelação de Deus!

Ao final do encontro, o Papa agradeceu a todos pelo acolhimento e pediu que rezassem por ele. Depois, ele seguiu para uma visita privada à Igreja de Santa Maria Maior e depois à Basílica de São Francisco, onde visitou o túmulo do santo. Mais tarde, ele celebrou a Santa Missa na Praça São Francisco de Assis.

 

DISCURSO
Visita Pastoral a Assis
Encontro com pobres assistidos pela Cáritas
Sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Boletim da Santa Se
Tradução: Thaysi Santos

Disse-me meu irmão bispo que é a primeira vez em 800 anos que um Papa entra aqui. Nestes dias, nos jornais, na mídia, se fazia muita fantasia. “O Papa vai despojar a Igreja, lá”. “De que despojará a Igreja?”. ” Se despojará das vestes dos bispos, cardeais, se despojará de si mesmo.” Esta é uma boa oportunidade para fazer um convite à Igreja a se despojar. Mas a Igreja somos todos nós! Todos! Desde o primeiro batizado, todos nós somos Igreja e todos nós temos que andar pela estrada de Jesus, que percorreu um caminho de despojamento, Ele mesmo. E se tornou servo, servidor, quis ser humilhado até a cruz . E se queremos ser cristãos , não há um outro caminho. Mas será que não podemos fazer um cristianismo um pouco mais humano – dizem – sem a cruz, sem Jesus, sem despojamento? Desta forma, nos tornamos cristãos de pastelaria, como as belas tortas , como os belos doces! Belíssimo, mas não realmente cristãos! Alguém vai dizer : “Mas de que deve se despojar a Igreja? “. Deve se despojar hoje de um perigo gravíssimo que ameaça a todos na Igreja, todos: o perigo do mundanismo. O cristão não pode conviver com o espírito do mundo. O mundanismo que leva à vaidade, arrogância, ao orgulho. E este é um ídolo, não é Deus, é um ídolo! E a idolatria é o pecado mais forte!

Quando nos meios de comunicação se fala da Igreja, acredita-se que a Igreja seja os padres, freiras, bispos, cardeais e o Papa, mas a Igreja somos todos nós, como eu disse. E todos nós devemos nos despojar deste mundanismo: o espírito contrário ao espírito das Bem-aventuranças, o espírito contrário ao Espírito de Jesus. O mundanismo nos faz mal. É tão triste ver um cristão mundano, seguro – segundo ele – da segurança que dá a fé e da segurança que dá o mundo. Não se pode trabalhar nas duas partes. A Igreja – todos nós – deve se despojar do mundanismo que leva à vaidade, ao orgulho, que é idolatria.

O próprio Jesus nos dizia: “Não se pode servir a dois senhores, ou se serve a Deus ou ao dinheiro” (cf. Mt 6, 24) . No dinheiro estava todo este espírito mundano, vaidade, orgulho, este caminho… não podemos… é triste apagar com uma mão aquilo que escrevemos com a outra. O Evangelho é o Evangelho! Deus é um só! E Jesus se tornou um servo para nós e o espírito do mundo não cabe aqui. Hoje eu estou aqui com você. Quantos de vocês foram retirados deste mundo selvagem, que não oferece trabalho, que não ajuda, que não se importa se há crianças morrendo de fome no mundo, se muitas famílias não têm o que comer, não tem a dignidade de trazer o pão para casa, não se importa se tantas pessoas hoje precisam fugir da escravidão, da fome e fugir para buscar a liberdade. Com muita dor, tantas vezes, vemos que elas encontram a morte, como aconteceu ontem em Lampedusa: hoje é um dia de lágrimas! Quantas coisas hoje são provocadas por esse espírito do mundo. É ridículo que um cristão – um verdadeiro cristão – um padre, uma freira, um bispo, um cardeal, um papa, queira ir pela via deste mundanismo, que é uma atitude assassina. Mundanismo espiritual mata! Ele mata a alma! Mata a pessoa! Mata a Igreja !

Quando Francisco, aqui, fez aquele gesto de se despir, era um jovem menino, não tinha forças para isso. Foi o poder de Deus que o levou a fazer isso, o poder de Deus que quis nos lembrar do que Jesus disse sobre o espírito do mundo, aquilo que Jesus orou ao Pai, para que o Pai nos salvasse do espírito do mundo.

Hoje, aqui, peçamos essa graça a todos os cristãos. Que o Senhor conceda a nós a coragem de se despojar, mas não de 20 liras, mas do espírito do mundo, que é a lepra, o câncer da sociedade! É o câncer da revelação de Deus! O espírito do mundo é o inimigo de Jesus! Peço ao Senhor que a todos nós, nos dê a graça do despojamento. Obrigado !

Após a reunião, o Papa pronunciou as seguintes palavras :

Muito obrigado pelo acolhimento. Orem por mim, que eu preciso! Todos! Obrigado !

O discurso acima foi feito espontaneamente pelo Papa Francisco. Abaixo, segue o discurso que estava previamente preparado:

Queridos irmãos e irmãs,

Obrigado pela acolhida! Este lugar é um lugar especial e por isso eu quis fazer uma parada aqui, ainda que o dia fosse muito cheio. Aqui Francisco se despojou de tudo na frente de seu pai, o bispo, e o povo de Assis. Foi um gesto profético e também um ato de oração, um ato de amor e confiança no Pai, que está nos céus.

Com esse gesto Francisco fez sua escolha: a escolha de ser pobre. Não é uma escolha sociológica, ideológica, é a escolha de ser como Jesus, imitá-lo, segui-lo até o fim. Jesus é Deus, que se despoja de sua glória. Lemos em São Paulo: Cristo Jesus, que era Deus, despojou-se de si mesmo, esvaziou-se e se tornou como nós e esse “rebaixar” chegou até a morte de cruz (cf. Fl 2,6-8 ). Jesus é Deus, mas Ele nasceu nu, foi colocado em uma manjedoura e morreu nu e crucificado.

Francisco se despojou de tudo em sua vida mundana, de si mesmo, para seguir o seu Senhor, Jesus, para ser como Ele. O Bispo Guido, vendo seu gesto, imediatamente se levantou, abraçou Francisco e o cobriu com seu manto, e foi sua ajuda e auxílio (cf. Vita prima, FF, 344).

O despojamento de São Francisco nos diz exatamente o que o Evangelho nos ensina: seguir Jesus significa colocá-lo em primeiro lugar, se despojar das muitas coisas que temos e que sufocam o nosso coração, renunciar a nós mesmos, tomar a cruz e carregá-la com Jesus. Despir do nosso orgulho e refutar o desejo de ter, do dinheiro, que é um ídolo que aprisiona.

Todos nós somos chamados a ser pobres, despojarmos de nós mesmos, e para isso devemos aprender a estar com os pobres, compartilhar com aqueles que não tem o necessário, tocar a carne de Cristo! O cristão não é aquele que enche a boca com os pobres, não! É aquele que o encontra, que o olha nos olhos, que o toca. Estou aqui não para “fazer notícia”, mas para indicar que este é o caminho cristão, o caminho que percorreu São Francisco. São Boaventura , falando do despojamento de São Francisco, escreve: “Assim, pois, o servo do sumo Rei ficou nu, para que seguisse o Senhor nu e crucificado, objeto do seu amor.” E acrescenta que, assim, Francisco se salvou do “naufrágio do mundo” (FF 1043 ).

Mas gostaria, como pastor, de me perguntar: de que deve despir-se a Igreja ?

Despir-se de todo mundanismo espiritual, que é uma tentação para todos; livrar-se de toda ação que não seja para Deus, de Deus, o medo de abrir a porta e ir ao encontro de todos, especialmente dos mais pobres, dos necessitados, distantes, sem esperar, certamente, se perderem no naufrágio do mundo, mas levar com coragem a luz de Cristo, a luz do Evangelho, mesmo no escuro, onde não se vê e isso pode levar ao tropeço, despojar da aparente tranquilidade que dão as estruturas, certamente necessárias e importantes, mas que não devem nunca ofuscar a única força real que carrega em si: a de Deus, Ele é a nossa força! Despir-se daquilo que não é essencial, porque a referência é Cristo, a Igreja é de Cristo! Muitos passos, especialmente nessa década, têm sido dados. Continuamos nesta estrada que é a de Cristo, a dos Santos.

Para todos, mesmo para a nossa sociedade que dá sinais de cansaço, se queremos nos salvar do naufrágio, é necessário seguir o caminho da pobreza, que não é a miséria – esta deve-se combater – mas é saber partilhar, ser mais solidário com os necessitados, confiar mais em Deus e menos na nossa força humana. Monsenhor Sorrentino lembrou o trabalho de solidariedade do Bispo Nicolini, que ajudou centenas de judeus, escondendo-os em conventos, e o centro de seleção secreta era aqui, no bispado. Também isso é se despojar, algo que começa sempre do amor, da misericórdia de Deus !

Neste lugar que nos questiona, quero rezar para que todos os cristãos, a Igreja, cada homem e mulher de boa vontade, saibam se despojar do que não é essencial para ir ao encontro daquele que é pobre e pede para ser amado. Obrigado a todos!

Festa de Santo Inácio de Loyola

Igreja Romana de Jesus
Quarta-feira, 31 de julho de 2013

Boletim da Santa Sé Tradução: Jéssica Marçal

Nesta Eucaristia na qual celebramos o nosso Pai Inácio de Loyola, à luz das leituras que escutamos, gostaria de propor três simples pensamentos guiados por três expressões: colocar no centro Cristo e a Igreja; deixar-se conquistar por Ele para servir; sentir a vergonha dos nossos limites e pecados, para ser humilde diante Dele e dos irmãos.

1. O brasão de nós Jesuítas é um monograma, significa “Iesus Hominum Salvator” (IHS). Cada um de vós poderá dizer-me: sabemos disso muito bem! Mas este brasão nos recorda continuamente uma realidade que não devemos nunca esquecer: a centralidade de Cristo para cada um de nós e para toda a Companhia, que Santo Inácio quis propriamente chamar de “de Jesus” para indicar o ponto de referência. Além disso, também no início dos Exercícios Espirituais, coloca-nos diante do nosso Senhor Jesus Cristo, do nosso Criador e Salvador (cfr EE, 6). E isto leva todos nós Jesuítas e toda a Companhia a sermos “descentralizados”, a ter adiante o “Cristo sempre maior”, o “Deus sempre maior”, o “intimior intimo meo“, que nos leva continuamente para fora de nós mesmos, leva-nos a uma certa kenosis, a “sair do próprio amor, querer e interesse” (EE, 189). Não é descontada a pergunta para nós, para todos nós: Cristo é o centro da minha vida? Coloco verdadeiramente Cristo no centro da minha vida? Porque há sempre a tentação de pensar estarmos nós no centro. E quando um Jesuíta coloca a si mesmo no centro e não Cristo, erra. Na primeira Leitura, Moisés repete com insistência ao povo para amar o Senhor, para caminhar pelos seus caminhos, “porque é Ele a tua vida” (cfr Dt 30, 16.20). Cristo é a nossa vida! À centralidade de Cristo corresponde também a centralidade da Igreja: são dois focos que não se pode separar: eu não posso seguir Cristo se não na Igreja e com a Igreja. E também neste caso nós Jesuítas e toda a Companhia não estamos no centro, estamos, por assim dizer, “movidos”, estamos a serviço de Cristo e da Igreja, a Esposa de Cristo nosso Senhor, que é a nossa Santa Mãe Igreja Hierárquica (cfr EE, 353). Ser homens enraizados e fundados na Igreja: assim nos quer Jesus. Não pode haver para nós caminhos paralelos ou isolados. Sim, caminhos de busca, caminhos criativos, sim, isto é importante: ir rumo às periferias, às tantas periferias. Por isto requer criatividade, mas sempre em comunidade, na Igreja, com esta pertença que nos dá coragem para seguir adiante. Servir Cristo é amar esta Igreja concreta, e servi-la com generosidade e espírito de obediência.

2. Qual é o caminho para viver esta dupla centralidade? Olhemos para a experiência de São Paulo, que é também a experiência de Santo Inácio. O Apóstolo, na Segunda Leitura que escutamos, escreve: esforço-me para correr rumo à perfeição de Cristo “porque também eu fui conquistado por Jesus Cristo” (Fil 3,12). Para Paulo, aconteceu no caminho de Damasco, para Inácio na sua casa de Loyola, mas o ponto fundamental é comum: deixar-se conquistar por Cristo. Eu procuro Jesus, eu sirvo Jesus porque Ele me procurou primeiro, porque fui conquistado por Ele: e este é o coração da nossa experiência. Mas Ele é o primeiro. Em espanhol, há uma palavra que é muito gráfica, que o explica bem: Ele nos “primeireia”, “Ele nos primeireia”. É o primeiro sempre. Quando nós chegamos, Ele já chegou e nos espera. E aqui gostaria de chamar a meditação para o Reino da Segunda Semana. Cristo, Nosso Senhor, Rei eterno, chama cada um de nós dizendo-nos: “quem quer vir comigo deve trabalhar comigo, para que seguindo-me no sofrimento, siga-me também na alegria” (EE, 95): Ser conquistado por Cristo para oferecer a este Rei toda a nossa pessoa e todo o nosso cansaço (cfr EE, 96); dizer ao Senhor querer fazer tudo pelo seu maior serviço e louvor, imitá-lo no suportar também as injúrias, desprezo, pobreza (cfr EE, 98). Mas penso no nosso irmão na Síria neste momento. Deixar-se conquistar por Cristo significa estar sempre voltado para o que está na frente, em direção à meta de Cristo (cfrFil 3,14) e perguntar-se com verdade e sinceridade: O que tenho feito por Cristo? O que faço por Cristo? O que devo fazer por Cristo? (cfr EE, 53).

3. E chego ao último ponto. No Evangelho Jesus nos diz: “Quem quer salvar a própria vida, a perderá, mas quem perder a própria vida por causa de mim, a salvará… Quem se envergonhar de mim…” (Lc 9, 23). E assim vai. A vergonha do Jesuíta. O convite que faz Jesus é de não envergonhar-se nunca Dele, mas de segui-lo sempre com dedicação total, confiando Nele. Mas olhando para Jesus, como nos ensina Santo Inácio na Primeira Semana, sobretudo olhando o Cristo crucificado, nós sentimos aquele sentimento tão humano e tão nobre que é a vergonha de não estar no alto; olhamos para a sabedoria de Cristo e à nossa ignorância, à sua onipotência e à nossa fraqueza, à sua justiça e à nossa iniquidade, à sua bondade e à nossa maldade (cfr EE, 59). Pedir a graça da vergonha; vergonha que vem do contínuo diálogo de misericórdia com Ele; vergonha que nos faz corar diante de Jesus Cristo; vergonha que nos coloca em sintonia com o coração de Cristo que se fez pecado por mim; vergonha que coloca em harmonia o nosso coração nas lágrimas e nos acompanha no seguimento cotidiano do “meu Senhor”. E isto nos leva sempre, como indivíduos e como Companhia, à humildade, a viver esta grande virtude. Humildade que nos torna conscientes a cada dia de que não somos nós a construir o Reino de Deus, mas é sempre a graça do Senhor que age em nós; humildade que nos impele a colocarmos todo o nosso ser não a serviço próprio ou das nossas ideias, mas a serviço de Cristo e da Igreja, como vasos de argila, frágeis, inadequados, insuficientes, mas nos quais há um tesouro imenso que levamos e que comunicamos (2 Cor 4, 7). A mim sempre agradou pensar no pôr-do-sol do jesuíta, quando um jesuíta termina a sua vida, quando ele se vai. E a mim vêm sempre dois ícones deste pôr-do-sol do jesuíta: um clássico, aquele de São Francisco Xavier, olhando a China. A arte o pintou tantas vezes este pôr-do-sol, este final de Xavier. Também a literatura, naquele belo pedaço de Pemán. No final, sem nada, mas diante do Senhor; isto a mim faz bem, pensar nisto. Outro pôr-do-sol, outro ícone que me vem como exemplo é aquele de Padre Arrupe no último diálogo no campo dos refugiados, quando nos tinha dito – uma coisa que ele mesmo dizia – “isto o digo como se fosse o meu canto de cisne: rezem”. A oração, a união com Jesus. E depois de ter dito isto, pegou o avião, chegou a Roma com l’ictus, que deu início àquele pôr-do-sol tão longo e tão exemplar. Dois pôr-do-sol, dois ícones que a todos nos fará bem olhar, e tornar a estes dois. E pedir a graça de que o nosso pôr-do-sol seja como o deles.

Queridos irmãos, dirijamo-nos à Nossa Senhora, Ela que levou Cristo em seu ventre e acompanhou os primeiros passos da Igreja, nos ajude a colocar sempre no centro da nossa vida e do nosso ministério Cristo e a sua Igreja; Ela que foi a primeira e mais perfeita discípula de seu Filho, nos ajude a deixar-nos conquistar por Cristo para segui-Lo e servi-Lo em cada situação; Ela que respondeu com a mais profunda humildade ao anúncio do Anjo: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38), nos faça provar a vergonha pela nossa insuficiência diante do tesouro que nos foi confiado, para viver a humildade diante de Deus. Acompanhe o nosso caminho a paterna intercessão de Santo Inácio e de todos os Santos Jesuítas, que continuam a ensinar-nos a fazer tudo com humildade, ad maiorem Dei gloriam.

A obra da Igreja e de Cristo progride sempre

Domingo, 15 de julho de 2012 / Da Redação, com Rádio Vaticano

Papa saúde fiéis presentes em Castel Gandolfo para o Angelus  

Após celebrar a Santa Missa na cidade de Frascati, neste domingo, 15, o Papa Bento XVI retornou a Castel Gandolfo para a oração do Angelus junto aos fiéis que o aguardavam no pátio da residência apostólica.

“A obra de Cristo e da Igreja jamais regride, mas sempre progride”, foi a sua mensagem antes da recitação da oração mariana, inspirada pela liturgia deste domingo e pela memória que a Igreja faz, nesta data, de São Boaventura, o sucessor de São Francisco na condução da Ordem dos Frades Menores.

Jamais para trás, sempre para frente. A obra da salvação trazida por Cristo dois mil anos atrás aos homens pode ser lida retrospectivamente como história, mas jamais registrará uma regressão, porque aquilo que é de Cristo é progressão contínua.

Bento XVI adquire essa certeza em São Paulo, que na Carta aos Efésios, proclamada na liturgia deste domingo em todas as Missas, oferece uma síntese extraordinária “em quatro passagens” daquele “desígnio de bênção” que Deus – explicou – derramou sobre a humanidade com a vinda de Cristo.

“Nele” – escreve o Apóstolo dos Gentios – “ele nos escolheu antes da fundação do mundo”, “Nele” fomos redimidos, “Nele” nos tornamos herdeiros, “Nele” quem crê no Evangelho recebe o “sigilo do Espírito Santo”:

“Este hino paulino contém a visão da história que São Boaventura contribuiu para difundir na Igreja: toda a história tem como centro Cristo, o qual assegura também novidade e renovação em todo tempo. Em Jesus, Deus disse e deu tudo, mas como Ele é um tesouro inexorável, o Espírito Santo jamais deixa de revelar e de atualizar o seu mistério. Por isso a obra de Cristo e da Igreja jamais regride, mas sempre progride.”

Essa visão de Cristo como “centro inspirador” da história foi um ponto nodal também da teologia de São Boaventura, cuja memória a Igreja celebra em seu calendário litúrgico em 15 de julho.

Na alocução que precedeu a oração dominical, o Papa recordou que com a morte de São Francisco foi São Boaventura o sucessor dele na condução dos Frades.

Foi também ele quem escreveu a primeira biografia de São Francisco, e foi também São Boaventura, nos últimos anos de sua vida, a transferir-se como bispo para a Diocese de Albano, da qual faz parte Castel Gandolfo:

“Numa carta, Boaventura escreve: ‘confesso diante de Deus que a razão que mais me fez amar a vida do beato Francisco é que ela se assemelha ao início e ao crescimento da Igreja’ (…) Francisco de Assis, após a sua conversão, praticou ao pé da letra esse Evangelho, tornando-se uma fidelíssima testemunha de Jesus; e associado de modo singular ao mistério da Cruz, foi transformado num ‘outro Cristo’, como o próprio São Boaventura o apresenta.”

Nossa Senhora do Carmo

No momento das saudações conclusivas, feitas em seis línguas aos diferentes grupos de fiéis e peregrinos reunidos no pátio interno da residência pontifícia de Castel Gandolfo, Bento XVI, que pouco antes recordara outra memória litúrgica, a desta segunda-feira dedicada a Nossa Senhora do Carmo, ressaltou em polonês outro apelativo de “Mãe de Deus do Escapulário”, com a qual é recordada a Virgem do Carmelo, e acrescentou:

“João Paulo II carregava consigo o sinal de sua consagração pessoal a Nossa Senhora do Carmo, o escapulário, que tanto estimava. A todos os seus compatriotas – na Polônia, no mundo, a todos vocês aqui presentes hoje em Castel Gandolfo – que Maria, a melhor das mães, os envolva com o seu manto na luta contra o mal, interceda no pedido de graças, e lhes mostre os caminhos que levam a Deus.”

Aos brasileiros

Entre os peregrinos presentes, encontrava-se também um grupo de brasileiros, aos quais o Santo Padre fez a seguinte saudação:

“Dirijo agora uma saudação especial para os peregrinos de língua portuguesa, nomeadamente para os fiéis da Paróquia São José, de Bragança Paulista e para o grupo de Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus, acompanhadas de professores de escolas brasileiras. Agradecido pela amizade e orações, sobre todos invoco os dons do Espírito Santo para serem verdadeiras testemunhas de Cristo no meio das respectivas famílias e comunidades, que de coração abençoo”.

As Festas Juninas

Por Mons. Inácio José Schuster

São João, uma festa religiosa e popular

Os festejos de solstício de verão em diversas partes da Europa e Oriente Médio, foram incorporados às comemorações do dia de São João, que teria nascido em 24 de junho, dia do solstício.

Existem duas explicações para a origem das Festas Juninas. A primeira explica que surgiu em função das festividades que ocorrem durante o mês de junho. Outra versão diz que está festa tem origem em países católicos da Europa e, portanto, seriam em homenagem a São João. No princípio, a festa era chamada de Joanina, daí, com a evolução da linguagem vem o termo Junino. A Igreja costuma evocar a memória dos santos no dia do aniversário de morte.

Apenas nos casos de São João Batista e da Virgem Maria se celebra também o aniversário de nascimento. A razão é óbvia: tanto os natais de Nossa Senhora e de São João Batista se subordinam e, de algum modo, se incluem já no mistério de Cristo, do qual são prelúdio e preparação próxima. Por isso, celebrando o nascimento de São João Batista, a Igreja não deixa de celebrar o mistério de Cristo.

Sem defender todas as “folias” que se enraízam mais na religiosidade natural do que na revelação, não podemos, contudo, esquecer que São João Batista é uma figura da alegria: ainda no ventre de sua mãe exultou de contentamento perante a aproximação do Salvador e, não obstante a austeridade da sua vida e a severidade da sua pregação, auto-definiu-se como o “amigo do Esposo”, que se alegra ao ouvir a Palavra do Esposo: Cristo.

De acordo com historiadores, esta festividade foi trazida para o Brasil pelos portugueses ainda durante o período colonial (época em que o Brasil foi colonizado e governado por Portugal). Todos estes elementos culturais foram, com o passar do tempo, misturando-se aos aspectos culturais dos brasileiros (indígenas, negros e imigrantes europeus) nas diversas regiões do país, tomando características particulares em cada uma delas.

Embora seja comemorada nos quatro cantos do Brasil, no nordeste brasileiro a perspectiva das festas juninas transforma as cidades e o espírito das pessoas, que parecem sentir uma irresistível atração e afinidade pela festa. Ela ganha uma grande expressão.

O mês de junho é o momento de se fazer homenagens aos três santos católicos: São João, São Pedro e Santo Antônio. O “São João” (modo pelo qual se referem os nordestinos ao ciclo de festas do mês de junho), principalmente, adquire tal importância na vida social nordestina que não apenas é fonte de preocupação durante todo o ano (quando se poupa dinheiro a ser investido na participação na festa ou se organizam eventos a serem apresentados nela), como ainda move interesses políticos e econômicos que poucas vezes se imagina.

Como o mês de junho é a época da colheita do milho, grande parte dos doces, bolos e salgados, relacionados às festividades, são feitos deste alimento. Pamonha, cural, milho cozido, canjica, cuzcuz, pipoca, bolo de milho são apenas alguns exemplos. Além das receitas com milho, também fazem parte do cardápio desta época: arroz doce, bolo de amendoim, bolo de pinhão, bom-bocado, broa de fubá, cocada, pé-de-moleque, quentão, vinho quente, batata doce e entre outros.

As tradições fazem parte das comemorações. O mês de junho é marcado pelas fogueiras, que é o centro da festa, iluminando e aquecendo os arraiais, e pelas famosas quadrilhas. Os balões também compõem este cenário, embora cada vez mais raros em função das leis que proíbem esta prática, em função dos riscos de incêndio que representam. No Nordeste, ainda é muito comum à formação dos grupos festeiros. Estes grupos ficam andando e cantando pelas ruas das cidades. Vão passando pelas casas, onde os moradores deixam nas janelas e portas uma grande quantidade de comidas e bebidas para serem degustadas pelos festeiros. Já na região Sudeste é tradicional a realização de quermesses. Estas festas populares são realizadas por igrejas, colégios, sindicatos e empresas. Possuem barraquinhas com comidas típicas e jogos para animar os visitantes. A dança da quadrilha, geralmente, ocorre durante toda a quermesse.

A Presença de Jesus na Palavra é tão completa como na Eucaristia

“A PRESENÇA DE JESUS NA PALAVRA É TÃO COMPLETA COMO NA EUCARISTIA”
MITOS LITÚRGICOS
Autor: Francisco Dockhorn
Revisão teológica: Dom Antonio Carlos Rossi Keller, Bispo da Diocese de Frederico Westphalen-RS
Publicação original: 11 de Fevereiro de 2009, 151º aniversário das aparições da Santíssima Virgem em Lourdes

Não é.
Ensina-nos o Sagrado Magistério da Santa Igreja Católica Apostólica Romana que Nosso Senhor Jesus Cristo está presente verdadeiramente e substancialmente no Santíssimo Sacramento do Altar, em Corpo, Sangue, Alma e Divindade, nas aparências do pão e do vinho, como afirma o Catecismo da Igreja Católica (Cat.), nos números 1374-1377. E por na Hóstia Consagrada Nosso Senhor está presente de maneira substancial, o Papa Paulo VI afirma (Encíclica Mysterium Fidei, n. 40-41, de 1965) a supremacia da Presença Eucarística de Nosso Senhor sobre as demais formas de presença: “Estas várias maneiras de presença enchem o espírito de assombro e levam-nos a contemplar o Mistério da Igreja. Outra é, contudo, e verdadeiramente sublime, a presença de Cristo na sua Igreja pelo Sacramento da Eucaristia. Por causa dela, é este Sacramento, comparado com os outros, “mais suave para a devoção, mais belo para a inteligência, mais santo pelo que encerra”; contém, de fato, o próprio Cristo e é “como que a perfeição da vida espiritual e o fim de todos os Sacramentos”. Esta presença chama-se “real”, não por exclusão como se as outras não fossem “reais”, mas por antonomásia porque é substancial, quer dizer, por ela está presente, de fato, Cristo completo, Deus e homem”.
Também o próprio Concílio Vaticano II, na Constituição Sacrosanctum Concilium (n. 7), afirma esta supremacia da Presença Eucarística: “Para realizar tão grande obra, Cristo está sempre presente na sua igreja, especialmente nas ações litúrgicas. Está presente no sacrifício da Missa, quer na pessoa do ministro – «O que se oferece agora pelo ministério sacerdotal é o mesmo que se ofereceu na Cruz» – quer e SOBRETUDO sob as espécies eucarísticas.” Afirmar que a presença de Nosso Senhor na Palavra é tão completa como na Hóstia consagrada significa uma dessas duas coisas: afirmar que Nosso Senhor se transubstancia na Palavra (aí fazemos o que, comemos a Bíblia e o Lecionário?), ou negar a Presença Substancial de Nosso Senhor na Hóstia Consagrada, o que atenta conta o Mistério central da fé católica, pois a Eucaristia é “fonte e ápice da vida cristã” (Lumen Gentium, n. 11)

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Comentário sobre este mito: Para propagar o mito de que “a presença de Jesus na Palavra é tão completa como na Eucaristia”, alguns utilizam uma interpretação distorcida a respeito uma frase da Constituição Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, que afirma: “A Igreja venerou sempre as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor” (Dei Verbum, 21). Como entender tal frase? O Santo Bento XVI tem dito que o Concílio Vaticano II NÃO pode ser interpretado como uma ruptura com os pronunciamentos anteriores do Sagrado Magistério (pois ele é infalível em definições de fé e moral, como afirma o Cat. n. 2035, e, portanto, a doutrina católica NÃO muda); e sim, o Concílio precisa ser interpretado como uma continuidade em relação ao Magistério anterior. Portanto, é um equívoco afirmar que essa frase do Concilio nega a superioridade da Hóstia Consagrada em relação a Palavra, e que portanto falar da Presença Substancial de Nosso Senhor na Eucaristia seria algo “ultrapassado”, “antiquado” e “medieval”. Mas como entender tal frase, afinal?

Vamos ao texto original em latim: “Divinas Scripturas ***sicut et*** ipsum Corpus dominicum semper venerata est Ecclesia”. O termo “sicut et”, traduzido por “como” (“como venera o próprio Corpo do Senhor”), é no sentido de “como também”, ou seja, um termo inclusivo, mas que NÃO diz respeito necessariamente a intensidade. Aliás, é o mesmo termo utilizado pela oração do Pai-Nosso, quando rezamos: “Et dimitte nobis debita nostra sicut et nos dimittimus debitoribus nostris” (“Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.”) E isso NÃO significa, evidentemente, que nós perdoamos com a mesma intensidade que Deus nos perdoa (pelo simples fato de que nós NÃO somos Deus!), mas simplesmente que nós também nos propomos a perdoar, ou seja, “como também” Ele nos perdoa. Além disso, o próprio Concílio Vaticano II também reconhece a superioridade da Presença de Nosso Senhor na Hóstia Consagrada, quando afirma que Ele está presente “SOBRETUDO sob as espécies eucarísticas” (Lumen Gentium, n. 11). E também as citações que utilizamos acima, do Papa Paulo VI e do Catecismo da Igreja Católica, vão na mesma linha. Alguns liturgistas, adeptos da teologia litúrgica modernista e incompatível com a doutrina católica, conhecem bem o poder das palavras e dos símbolos, e os utilizam para propagar suas idéias, inclusive o mito de que “A Presença de Jesus na Palavra é tão completa como na Eucaristia”, o que leva, naturalmente, a negação da Presença Real e Substancial de Nosso Senhor na Hóstia Consagrada. Por exemplo, alguns liturgistas modernistas podem usar-se dos seguintes artifícios:

1. Instrumentalizar o termo “altar da Palavra” para referir-se ao ambão, com o objetivo de “nivelar” a Palavra e a Eucaristia (embora, evidentemente, nem todos os que utilizem este termo necessariamente sejam modernistas). Ora, altar é onde é oferecido o Sacrifício, e o Santo Sacrifício de Nosso Senhor é oferecido no altar onde é celebrada a Santa Missa…

2. Propagar o costume da construção de altares pequenos, quadrados; para que o altar (nem em tamanho) não tenha mais destaque que o ambão. Aliás, os altares católicos tradicionais são retangulares, não quadrados… É preciso esclarecer, porém, que NÃO consideramos os altares menores (quadrados) maus em si mesmo, pois há também a questão do tamanho do local e da estética.

3. Utilizar, na construção das igrejas, uma disposição em que o ambão fica em frente do altar, também para “nivelar” ambos (ao invés de o ambão ser colocada ao lado do altar). É preciso esclarecer, porém, que NÃO nos opomos, em si mesmo, a disposição litúrgica em que o ambão fica em frente do altar, já que ela foi bastante tradicional na Igreja no primeiro milênio (e ela guarda um bonito significado de a leitura ser feita voltada para a parede absidal, direção onde também fica a cadeira do celebrante, que é quem primeiro precisa escutar a Palavra de Deus); é preciso frisar, também, que na Igreja Primitiva, durante a oração Eucarística, todos (sacerdotes e fiéis) se voltavam para a mesma direção (o Oriente), como fala o Cardeal Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, no seu livro “Introdução ao Espírito da Liturgia”. O que nos opomos é a instrumentalização desta disposição (ambão de frente para o altar) para propagar a teologia litúrgica modernista, “nivelando” altar e ambão; aliás, esta disposição dificulta a celebração da Missa em Versus Deum (“voltados para Deus”, com o sacerdote e fieis voltados para a mesma direção, como recomenda o Papa no seu livro “Introdução ao Espírito da Liturgia”). Na realidade, é possível celebrar em Versus Deum com o altar próximo do centro e o ambão em frente a ele, se o sacerdote celebra voltado para a parede absidal em direção ao crucifixo (e ao Sacrário, se houver); porém, esta disposição dificulta que todos os fiéis se voltem para a mesma direção, pois nela, os bancos geralmente ficam dos lados, e os fiéis de frente uns para os outros (e hoje, infelizmente, NÃO há a cultura de todos se voltarem para a mesma direção, como havia na Igreja Primitiva).

4. Abominar que hajam castiçais sobre o altar, e colocá-los distantes demais do altar (como se os castiçais estivessem iluminando meramente “o ambiente”, e não carregando de esplendor o altar, especificamente), e por vezes deixar um único castiçal próximo ao…ambão! Isso, evidentemente, descaracteriza o altar. Em tempo: os castiçais não precisam estar necessariamente sobre o altar, mas podem estar próximo a ele, como afirma a Instrução Geral do Missal Romano (n. 117). Há uma vantagem em que os castiçais não estejam sobre o altar, que é o fato de deixar o altar somente para o oferecimento do Santo Sacrifício, já que altar não é mesa; aliás, tradicionalmente na Missa Tridentina (a forma tradicional do Rito Romano), os castiçais normalmente NÃO ficam sobre o altar propriamente dito, mas juntamente com os arranjos de flores sobre o retábulo, que fica entre o altar e a parede. Porém, é preciso levar em contas também a questão estética e do esplendor do próprio altar (e isso depende do tamanho do presbitério, do altar e outras questões estéticas), e não nos parece que seja o caso rechaçar totalmente que os castiçais estejam sobre o altar, aliás, nas próprias Missas celebradas pelo Santo Padre Bento XVI em Roma, os castiçais ficam sobre o altar.

5. Rechaçar o costume tradicional de decorar o altar com belos arranjos de flores, que são um dos elementos que o enchem de esplendor. Nas aparições da Santíssima Virgem em Fátima (Portugal, 1917), oficialmente reconhecidas pela Santa Igreja, quando o Anjo apareceu para as crianças, antes da Virgem aparecer, ele trazia consigo uma Hóstia Consagrada. Prostrando-se por terra, ensinou a elas a seguinte oração: “Meu Deus: eu creio, adoro, espero-vos e amo-vos. Peço-vos perdão por aqueles que não crêem, não adoram, não esperam e não vos amam.”

Que pela intercessão da Santíssima Virgem e dos santos anjos, nós façamos parte daqueles que reconhecem a Presença Real e Substancial do Deus-Amor Sacramentado, na Hóstia Consagrada!

Entenda o significado do tapete de Corpus Christi

A tradição de confeccionar tapetes nesta data festiva da Igreja também se mantém em muitas de nossas paróquias. Todos os anos fiéis e amigos realizam esse trabalho artesanal para a procissão da festa de Corpus Cristi, que neste ano acontece no dia 15 de junho.

Essas verdadeiras obras de arte são confeccionadas de serragem, borra de café, farinha, casca de ovos, areia, folhas, flores, entre outros materiais. Essa iniciativa é uma expressão de carinho com a Santíssima Eucaristia.

Não tem caráter de penitência ou pagamento de promessas. É uma manifestação popular de adoração a Cristo.

A passagem pelo tapete tem um significado especial. O ostensório, que armazena o Corpo de Cristo na hóstia, é carregado pelo sacerdote, e os fiéis só podem pisar no tapete após a passagem do sacerdote. É uma representação de que Jesus anda por ali e é recebido com um belo tapete pelas ruas da cidade.

É também uma evocação bíblica, que narra Jesus entrando em Jerusalém e o povo colocando ramos de oliveira para que Ele passasse por cima. Mas, apesar de fazer memória à entrada de Cristo em Jerusalém, esta procissão não tem ligação com a procissão de ramos, que antecede a Paixão de Cristo. No dia da festa de Corpus Christi a Igreja celebra a instituição do Sacramento da Eucaristia, sendo este o único dia em que o Santíssimo Sacramento sai pelas ruas.

Papa a novos sacerdotes: não sejam clérigos de Estado, mas pastores

Missa de ordenação sacerdotal presidida pelo Papa Francisco na Basílica Vaticana – EPA
 
07/05/2017
 
Cidade do Vaticano (RV) – “Tragam sempre diante de vocês o exemplo do Bom Pastor que veio não para ser servido mas para servir e para buscar e salvar o que estava perdido”: foi a exortação do Papa Francisco aos dez novos sacerdotes por ele ordenados na Basílica de São Pedro na missa deste IV Domingo da Páscoa, também conhecido como do “Bom Pastor”, ocasião em que a Igreja celebra o Dia Mundial de Oração pelas Vocações.

Já no início de sua homilia, na qual apresentou aos novos presbíteros o significado, importância e implicações do novo ministério ao qual foram chamados, Francisco os advertiu que foram eleitos pelo Senhor Jesus não para fazer carreira, mas para desempenhar na Igreja, em nome de Jesus Cristo, o ministério sacerdotal em favor dos homens.

Distribuam a todos a Palavra de Deus que vocês mesmos receberam com alegria. Meditando na lei do Senhor, procurem crer o que ler, ensinar o que crer e viver o que ensinam, frisou o Pontífice, fazendo uma premente exortação:

“O ensino de vocês seja alimento para o povo de Deus, ensino simples, como falava o Senhor, que chega ao coração. Não façam homilias por demais intelectuais e elaboradas: falem simples, falem aos corações. E essa pregação será verdadeiro alimento. E também o perfume de suas vidas seja alegria e sustento aos fiéis, porque a palavra sem o exemplo de vida não serve: é melhor voltar atrás. A vida dupla é uma doença feia na Igreja.”

Tomem, pois, consciência do que fazem, imitem o que realizam. Celebrando o mistério da morte e da ressurreição do Senhor, esforcem-se por fazer morrer em vocês todo o mal e por caminhar na vida nova, continuou o Santo Padre acrescentando ao texto da homilia mais uma admoestação os novos sacerdotes:

“Um presbítero que talvez tenha estudado tanta teologia e fez um, dois, três doutorados mas não aprendeu a carregar a Cruz de Cristo, não serve. Será um bom acadêmico, um bom professor, mas não um sacerdote.”

Com o Batismo vocês acrescentarão novos fiéis ao Povo de Deus. Com o Sacramento da Penitência perdoarão os pecados em nome de Cristo e da Igreja. “Por favor – disse o Pontífice –, peço-lhes em nome de Cristo e da Igreja que sejam misericordiosos. Sempre. Não coloquem nas costas dos fiéis fardos que não podem carregar nem mesmo vocês. Jesus repreendeu a estes, a estes doutores e os chamou de hipócritas.”

Atendo-se ainda aos vários ofícios do sacerdote no exercício de seu ministério, Francisco ressaltou que uma das tarefas – talvez enfadonha, também dolorosa – é ir encontrar os enfermos. Façam-no, vocês. Sim, tudo bem que façam os leigos, os diáconos, mas não deixem de tocar a carne de Cristo sofredor nos doentes: isso santifica vocês, os aproxima de Cristo.

Realizem, pois, com verdadeira caridade e alegria constante, o ministério de Cristo Sacerdote, não procurando os interesses de vocês, mas sim os de Jesus Cristo, foi a exortação do Pontífice antes de fazer sua última recomendação:

“Sejam alegres, jamais tristes, Alegres. Com a alegria do serviço de Cristo, mesmo em meio aos sofrimentos, às incompreensões, aos pecados. Tenham sempre diante dos olhos o exemplo do Bom Pastor, que não veio para ser servido, mas para servir. Por favor, não sejam senhores, não sejam clérigos de Estado, mas pastores: pastores do povo de Deus.”

Dos dez novos sacerdotes ordenados pelo Papa Francisco na missa da manhã deste domingo, sete são italianos, um mexicano, um peruano e um azerbaidjano. Este domingo do “Bom Pastor” é também o 54º Dia Mundial de Oração pelas Vocações. (RL)

 

Papa: seguir Jesus Bom Pastor, único guia seguro que dá sentido à vida

Cidade do Vaticano (RV) – Hoje somos convidados a não deixar-nos levar pelas falsas sabedorias deste mundo, mas a seguir Jesus, Ressuscitado, como único guia seguro que dá sentido a nossa vida: foi a exortação do Papa no Regina Caeli ao meio-dia deste domingo (07/5/2017), falando aos milhares de fiéis, peregrinos e turistas presentes na Praça São Pedro para a oração mariana com o Santo Padre.

Na alocução que precedeu o Regina Caeli o Papa Francisco ateve-se à página do Evangelho deste domingo – chamado “domingo do bom pastor”, – na qual Jesus nos apresenta duas imagens que se completam mutuamente. A imagem do pastor e a imagem da porta do aprisco.

Muitas pessoas aproximam-se do rebanho: há quem entra no aprisco passando pela porta e quem “entra passando por outro lugar”, frisou o Pontífice explicando: o primeiro é o pastor, o segundo um estranho, que não ama as ovelhas, quer entrar por outros interesses.

“Jesus identifica-se com o primeiro e manifesta uma relação de familiaridade com as ovelhas, expressa mediante a voz, com a qual as chama e que elas reconhecem e o seguem. Ele as chama para levá-las para fora, às pastagens verdejantes onde encontram bom alimento”.

A segunda imagem com a qual Jesus se apresenta é a da “porta das ovelhas”. Cristo, Bom Pastor, tornou-se a porta da salvação da humanidade porque ofereceu a vida por suas ovelhas.

“Jesus, pastor bom e porta das ovelhas, é um cabeça cuja autoridade se expressa no serviço, um cabeça que para comandar dá a vida e não pede a outros que a sacrifiquem. De um cabeça assim se pode confiar, como as ovelhas que ouvem a voz de seu pastor porque sabem que com ele se vai a pastagens boas e abundantes”, frisou Francisco.

“Basta um sinal, um chamado e elas o seguem, obedecem, encaminham-se guiadas pela voz daquele que sentem como presença amiga, forte e doce ao mesmo tempo, que encaminha, protege, consola e medica. Assim é Cristo para nós”, ressaltou o Papa fazendo uma pertinente observação:

Há uma dimensão da experiência cristã que talvez deixamos de certo modo à sombra: a dimensão espiritual e afetiva. O sentir-nos unidos por um vínculo especial ao Senhor como as ovelhas a seu pastor. Por vezes racionalizamos por demais a fé e corremos o risco de perder a percepção do timbre daquela voz, da voz de Jesus bom pastor, que estimula e fascina.”

É a maravilhosa experiência de sentir-nos amados por Jesus. Perguntem-se: “Eu me sinto amado por Jesus? Eu me sinto amada por Jesus?” Para Ele jamais somos estranhos, mas amigos e irmãos. No entanto, nem sempre é fácil distinguir a voz do pastor bom. “Há sempre o perigo do ladrão, do brigante e do falso pastor. Há sempre o risco de ser distraído pelo ribombar de tantas vozes”, afirmou ainda o Santo Padre.

Em seguida, o Papa lembrou o dia de oração pelas vocações sacerdotais e religiosas e os presbíteros por ele ordenados neste domingo do Bom Pastor:

“Neste Dia Mundial de Oração pelas Vocações – em particular pelas vocações sacerdotais, para que o Senhor nos mande bons pastores – invoquemos a Virgem Maria: ela acompanhe os dez novos sacerdotes que ordenei pouco antes. Pedi a quatro deles da Diocese de Roma que viessem para dar a bênção juntos comigo. Nossa Senhora sustente com seu auxílio aqueles que foram chamados por Jesus Cristo, a fim de que estejam prontos e generosos a seguir a sua voz.”

Antes de despedir-se dos presentes, na saudação após a oração mariana o Papa lembrou sua peregrinação a Fátima, Portugal, sexta-feira e sábado próximos (dias 12 e 13 de maio), por ocasião dos cem anos da primeira aparição de Nossa Senhora aos três pastorinhos na Cova da Iria:

Neste mês de maio rezemos o Terço em particular pela paz, como pediu a Virgem em Fátima, aonde irei em peregrinação daqui a poucos dias, por ocasião do centenário da primeira aparição.” (RL)

Viver como filhos da luz e caminhar na luz

Papa nos convida a ser, “a partir da nossa pobreza, portadores de um raio da luz de Cristo”
 
Cidade do Vaticano (RV) – A cura do cego de nascença, narrada pelo Evangelho de João, proposto pela Liturgia do dia (26/3/2017), inspirou a alocução do Papa – que precede a oração do Angelus – neste IV Domingo da Quaresma.

“Com este milagre Jesus se manifesta e se manifesta a nós como luz do mundo” e que acolhendo novamente nesta Quaresma a luz da fé, “também nós, a partir da nossa pobreza”, sejamos “portadores de um raio da luz de Cristo”, disse Francisco, dirigindo-se aos milhares de fieis e peregrinos reunidos na Praça São Pedro.

“O cego de nascença – explicou o Santo Padre –  representa cada um de nós que fomos criados para conhecer Deus, mas por causa do pecado somos como cegos, temos necessidade de uma nova luz, a da fé, que Jesus nos deu”.

Aquele cego do Evangelho, ao readquirir a visão, “abre-se ao mistério de Cristo”, disse o Pontífice, que explicou:

“Este episódio nos induz a refletir sobre nossa fé em Cristo, o Filho de Deus, e ao mesmo tempo refere-se também ao Batismo, que é o primeiro Sacramento da fé: o Sacramento que nos faz “vir à luz”, mediante o renascimento da água e do Espírito Santo; assim como acontece ao cego de nascença, ao qual se abrem os olhos após ter sido lavado na água da piscina de Siloé”.

“O cego de nascença curado – completou Francisco – nos representa quando não nos damos conta que Jesus é a luz, “a luz do mundo”, quando olhamos para outros lugares, quando preferimos confiar nas pequenas luzes, quando tateamos no escuro”:

“O fato de que aquele cego não tenha um nome, nos ajuda a nos refletir com o nosso rosto e o nosso nome na sua história. Também nós fomos “iluminados” por Cristo no Batismo, e portanto somos chamados a comporta-nos como filhos da luz. E comportar-se como filhos da luz exige uma mudança radical de mentalidade, uma capacidade de julgar homens e coisas segundo uma outra escala de valores, que vem de Deus. O Sacramento do Batismo, de fato, exige a escolha firme e decidida de viver como filhos da luz e caminhar na luz”.

Mas, o que significa “ter a verdadeira luz, caminhar na luz?”:

“Significa, antes de tudo, abandonar as falsas luzes: a luz fria e fátua do preconceito contra os outros, porque o preconceito distorce a realidade e nos enche de aversão contra aqueles que julgamos sem misericórdia e condenamos sem apelo. Isto é pão de todo dia! Quando se fala mal dos outros, não se caminha na luz, se caminha na sombra”.

E Francisco completa:

“Outra luz falsa, porque sedutora e ambígua, é aquela do interesse pessoal: se valorizamos homens e coisas baseados em critérios de nossa utilidade, do nosso prazer, do nosso prestígio, não realizamos a verdade nos relacionamentos e nas situações. Se vamos por este caminho do buscar somente o interesse pessoal, caminhamos nas sombras”.

O Papa concluiu, pedindo que a Virgem Santa obtenha para nós “a graça de acolher novamente nesta Quaresma a luz da fé, redescobrindo o dom inestimável do Batismo, que todos nós recebemos. E esta nova iluminação nos transforme nas atitudes e nas ações, para sermos também nós, a partir da nossa pobreza, portadores de um raio da luz de Cristo”.

Após rezar o Angelus, o Papa saudou os presentes e agradeceu ao Cardeal Scola e aos milanese pela calorosa acolhida que teve durante sua visita a Milão no sábado: “Uma acolhida extraordinária, para um dia inesquecível. Realmente me senti em casa. E isto com todos, crentes e não-crentes. Vos agradeço muito queridos milaneses e digo uma coisa para vocês: constatei que é verdade aquilo que se diz: ‘Em MIlão se recebe com o coração na mão”. Obrigado!”. (JE)

 

Quem é Jesus?

Você sabe

Como foi possível que esse Homem pobre, que vivia em uma cidadezinha de Israel, se tornasse o mais conhecido e amado da história?

Foi um judeu, carpinteiro humilde que só fez o bem, mas foi condenado à morte. Contudo, marcou profundamente a história da humanidade. Alguns O classificam de sábio; outros, de mestre e profeta. Como foi possível que esse homem pobre, que vivia em uma cidade desprezada em Israel, que jamais escreveu um livro, não fez parte da elite, não foi militar, escriba, doutor nem artista, não procurou impor pela força Seus ensinamentos, se tornasse o Homem mais conhecido, mais amado e admirado da história? Por que, ainda hoje, tantas pessoas estão dispostas a segui-Lo, às vezes com o sacrifício da própria vida?

Simplesmente, porque Ele é, de fato, o que afirmava ser. Pelos séculos, milhões de homens e mulheres têm descoberto, por meio de um relacionamento pessoal com Jesus Cristo, alguém infinitamente maior que um mestre ou profeta. Ao escutar e receber Sua mensagem, O reconheceram pelo que Ele é: inteiramente Deus e inteiramente Homem, plenamente Amor e plenamente Verdade. Eles O reconheceram como Salvador, Sua Morte, Sua Ressurreição, Sua mensagem e Sua pessoa lhes deram um novo sentido para viver. Quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui com sublimidade de palavras ou de sabedoria. Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificando (cf. 1 Cor 2,1-2).

Jesus é Deus

“Cristo é sobre todos, Deus bendito eternamente” (Rm 9,5). Criador de todas as coisas e Aquele por quem elas subsistem (Cl 1,16.17). Em Seu imenso amor, foi manifesto na carne, revelando-se como Homem: é um grande mistério e uma realidade revelada para nossa salvação e bênção agora e eternamente.

As Sagradas Escrituras declaram que Jesus é Deus:

“No princípio, era Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. Ele “estava no principio com Deus” (cf. Jo 1,1-2).

O Deus Pai disse a respeito do filho: “Ó Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos” (Hb 1,8). Seus atributos são os mesmos de Deus: É onipresente: “Eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28,20). É onipotente: “Esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas” (Fl 3,20-21). É imutável: “Jesus Cristo é o mesmo ontem, e hoje, e eternamente” (Hb 13,8). “Nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2,9). “É um com o Pai: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30)”.

Observar as obras de Cristo é ver Deus trabalhando, escutar as palavras de Cristo é ouvir a voz do próprio Deus. Isso parece simples. Mas não o é. Considerar o Senhor Jesus como algo menos que Deus, por exemplo, um “mestre da moral”, “um espírito evoluído” ou “o maior benfeitor da humanidade” é afronta do pior grau possível! É não conhecer a Bíblia Sagrada e não ter experiência abissal com Jesus Cristo. “Que homem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?” (Mt 8,27). “Que dizem os homens ser o filho do homem?” (Mt 16,13). E Simão Pedro, respondendo, disse: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo” (Mt. 16,16).

E a multidão dizia: “Este é Jesus, o profeta de Nazaré da Galileia” (Mt 21,11). “Jesus é a Palavra de Deus” (Jo 1,1). “Jesus é o Rei dos reis e Senhor dos senhores” (Ap. 19,16).  Diz Santo Agostinho de Hipona: “Se quereis viver piedosa e cristãmente, abraçai-vos a Cristo-Homem e chegareis a Cristo-Deus”. “Cristo-Deus é a pátria para onde vamos e Cristo-Homem é o caminho por onde vamos” (1).

O erudito escritor Giovanni Papini, autor do clássico História de Cristo, escreve: “Milhares de santos por ti sofreram e por ti se extasiaram, mas ao mesmo tempo milhares e milhares de renegadores e de dementes continuaram a esbofetear a tua face sanguinolenta. Justamente por não Te Amarmos suficientemente, temos necessidade de todo o Teu Amor” (2).

A nossa vida só pode ser feliz se vivermos, em Jesus Cristo, uma dimensão eterna de salvação e no amor a Deus e ao próximo! Sua graça e Seu Evangelho é tudo para Seus discípulos.

Padre Inácio José do Vale
Professor de História da Igreja no Instituto de Teologia Bento XVI (Cachoeira Paulista). Também é sociólogo em Ciência da Religião.

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