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A corrupção é pior que o pecado

O corrupto se cansa de pedir perdão e por isso precisa ser curado
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A corrupção é o mato da nossa época, que se alimenta de aparência e aceitação social, cresce como medida da ação moral e pode consumir a partir de dentro, em uma atitude de “mundanidade espiritual”, quando não “esclerose do coração”, até mesmo na própria Igreja. E se para o pecado existe perdão, para a corrupção, não. Por isso, a corrupção precisa ser curada.

Esta é a crítica mordaz e impiedosa que emerge de algumas páginas escritas em 2005 por Jorge Mario Bergoglio, quando era arcebispo de Buenos Aires, cujo texto foi agora publicado em um livro, “A cura da corrupção”, publicado pela primeira vez em italiano (Editora Missionária Italiana).

Pecado e corrupção

Em seu afresco de cores fortes, Bergoglio explica desde o início que a corrupção está intimamente ligada ao pecado, mas é diferente dele. Na verdade, a corrupção é “não um ato, mas um estado, um estado pessoal e social no qual a pessoa se acostuma a viver”, por meio de hábitos que vão deteriorando e limitando a capacidade de amar.

Bergoglio resume as principais características desta praga:

1) Imanência. A corrupção tende a gerar uma “verdadeira cultura, com capacidade doutrinal, linguagem própria, jeito próprio de agir”, tornando-se uma “cultura de subtração”. O caminho que levou do pecado à corrupção é um processo de substituição de Deus pelas próprias forças. A gênese pode ser atribuída a um “cansaço da transcendência: frente a um Deus que não se cansa de perdoar, o corrupto se levanta como autossuficiente na expressão de sua salvação: está cansado de pedir perdão”.

2) Boas maneiras. Esta autossuficiência humana, que reflete a atitude do coração com relação a um tesouro que o seduz, tranquiliza e engana, é uma transcendência frívola. Na corrupção, de fato, prevalece uma espécie de imprudência modesta; cria-se um culto às boas maneiras para encobrir os maus hábitos. O corrupto é um acrobata da delicadeza, campeão das boas maneiras. Enquanto “o pecador, reconhecido como tal, de alguma forma, admite a falsidade do tesouro ao qual aderiu ou adere, o corrupto, no entanto, submeteu seu vício a um curso intensivo de boas maneiras”.

3) Medida moral. “O corrupto – escreve Bergoglio – sempre tem necessidade de se comparar com aqueles que parecem ser coerentes em suas vidas (mesmo quando se trata da coerência do publicado que se confessa pecador).” Uma de suas características é a forma como se justifica, apresentando as suas boas maneiras como opostas a situações de pecado extremo ou fruto de caricatura, e assim se levanta para julgar os outros, tornando-se medida de comportamento moral.

4) Triunfalismo. “O triunfalismo é o terreno ideal para o comportamento corrupto.” A este respeito, o teólogo Henri de Lubac fala da ambição e da frivolidade que podem esconder-se na “mundanidade espiritual”, a tentação mais perversa, que concebe como ideal moral o homem e seu aperfeiçoamento, e não a glória de Deus. Segundo Bergoglio, a mundanidade espiritual “nada mais é do que a vitória daqueles que confiam no triunfalismo da capacidade humana; o humanismo pagão adaptado ao bom senso cristão”.

5) Cumplicidade. “O corrupto não conhece a fraternidade ou a amizade, mas só a cumplicidade”; tende a arrastar todos à sua própria medida moral. Os outros são cúmplices ou inimigos. “A corrupção é o proselitista. Ela se disfarça de comportamento socialmente aceitável”, como Pilatos, “que faz de conta que o problema não lhe diz respeito, e por isso lava as mãos, mesmo que no fundo seja para defender a sua zona corrupta de adesão ao poder a qualquer preço”.

A corrupção do religioso

Bergoglio faz, então, uma análise muito lúcida do estado de corrupção cotidiana que lentamente faz a vida religiosa encalhar. É uma espécie de paralisia que ocorre quando uma alma se adapta a viver tranquilamente em paz.

No início, existe “o medo de que Deus nos conduza a caminhos que não podemos controlar”. Mas ao fazer isso, explica Bergoglio, “os horizontes se encolhem à medida da própria desolação ou quietismo. A pessoa teme a ilusão e prefere o realismo do menos à promessa do mais”. Aqui se esconde o perigo, porque, “na preferência pelo menos, que parece mais realista, já existe um processo sutil de corrupção: começa a mediocridade e a tibieza (duas formas de corrupção espiritual)”, um caminho inclinado que leva ao desânimo da alma e a uma lenta, mas definitiva esclerose do coração.

É por isso que a alma se apega a todos os produtos que o supermercado do consumismo religioso lhe oferece, tendendo talvez a interpretar a vida consagrada como uma realização imanente de sua personalidade, buscando a realização profissional ao se deliciar com a estima alheia, ou se dedicando a uma intensa vida social. Daí o convite do então arcebispo de Buenos Aires: “A nossa indigência deve se esforçar um pouco para abrir espaço à transcendência”, porque “o Senhor nunca se cansa de chamar: não tenha medo. Não ter medo de quê? Não ter medo da esperança, porque a esperança não decepciona”.

Ser mãe, vocação do amor

Tarefa exigente, árdua, mas recompensadora

A palavra ‘mãe’ traz significados intensos ao nosso imaginário: as lembranças boas, as dificuldades, as brigas em família, o apoio, o abraço ou o desejo pelo carinho que nunca aconteceu. Todos esses pensamentos nos levam a perceber a vocação de uma mãe: amor incondicional e presente.

A vocação de ser mãe é muito mais do que gerar biologicamente uma pessoa, é cuidar amorosamente de alguém que tomou para si como filho. Mais do que o fruto do seu ventre, ser mãe é tomar para si a responsabilidade pela vida, pela educação, pela criação de alguém.

A mãe dos nossos tempos enfrenta todas as adversidades e desafios que a sociedade lhe impõe, mas seu amor é fiel e ela é zelosa na missão que escolheu e com a qual foi presenteada. É por isso que, hoje, a lembrança vai para a mulher que é mãe nas mais diversas situações: aquela que gerou o filho em seu ventre e aquela que é mãe do coração – a qual optou pela adoção como gesto doação e entrega -; a mãe espiritual, que dobra seus joelhos e intercede por seus filhos; aquela que, mesmo não tendo filhos, cuida das pessoas como se fossem, de fato, seus filhos.

Os desafios de uma sociedade que passa por mudanças é uma das maiores preocupações trazidas pelas mulheres ao buscarem a maternidade. Inseguranças, desejos, expectativas sobre os filhos, futuro. Uma imensidão de pensamentos invade o imaginário das futuras mamães ou daquelas que fazem planos para a maternidade. Mas vamos pensar juntos: será que existe um “modelo ideal de mãe”?.

Lembro-me sempre de Gianna Beretta Molla, santa, médica, mãe de família, esposa, fiel a Deus, orante e tendo Virgem Maria como exemplo para sua vida. Uma mulher que, como tantas outras dos nossos dias, teve uma rotina que exigiu dela um desdobramento em muitos papéis. Um mulher, uma santa contemporânea; mulher do nosso tempo, que, mesmo tendo filhos e uma profissão, teve o desprendimento, a dedicação e uma opção: ter Deus como o centro da sua família. Gianna não deixou de lado seus valores e, no momento mais difícil de sua vida, optou, dentre sua vida e a do seu filho, que ele nascesse, mesmo que o risco fosse a morte da mãe. Nem mesmo a possibilidade de deixar seus outros filhos a fez abandonar seu projeto de vida.

Ser mãe é uma tarefa exigente, árdua, recompensadora, mas gera medo, ansiedade, expectativa por cumprir este papel de forma favorável. É muito importante ter em mente que ser mãe é algo que se aprende, e não existe a mãe ideal. Há a mãe que erra, mas tem, em seu desejo mais íntimo, a vontade de acertar. Ser mãe é aprender, a cada dia, a renovar, reciclar, crescer, retomar, cair e levantar, apoiar, ser o ombro, o colo e o calor.

Santa Gianna escreveu, numa oportunidade, uma linda descrição do papel da mãe: “Toda vocação é vocação à maternidade: material, espiritual, moral, porque Deus nos deu o instinto da vida. O sacerdote é pai; e as irmãs são mães de almas.

Os limites de uma mãe são testados a todo momento, passando por situações que jamais imaginaria. Por isto, é tão importante não se fechar em suas dificuldades, mas buscar apoio, conversar, ler e conviver com este contínuo aprendizado. Os limites de uma mãe sempre serão testados, colocados à prova, mas o dom, o amor e a missão farão sempre com que esta supere tudo aquilo que lhe seja dado como prova, bem como a fará experimentar todas as alegrias que esta missão lhe concede!

Que as palavras de Santa Gianna Beretta Molla possam também estar presentes em sua vida, mãe, sempre que as dificuldades de sua missão baterem à sua porta: “Senhor, faz que a luz que se acendeu em minha alma não se apague jamais” .

Parabéns, mãe, por sua vocação!

Elaine Ribeiro
psicologia01@cancaonova.com

Mãe testemunha alegria da adoção

Parabéns! Você está grávida!

Para as futuras mamães do coração

“Todo homem que vem a este mundo, seja qual for a sua condição, traz o sinal do amor de Deus. Cristo nasceu para qualquer menino do mundo e por ele deu a vida. Não há, portanto, nenhum menino ou menina que não lhe pertença” (São João Paulo II).

Você já ouviu essa expressão – “meu irmão de criação” –, em algum lugar, sugerindo que foram criados juntos? Na verdade, não existe “irmão de criação”; ou é irmão ou não o é, ou é filho ou não o é. Nós criamos cachorro, gato, boi, mas nunca gente.

Essa ideia preconceituosa vem dos tempos dos coronéis, quando os fazendeiros “pegavam para criar”, sem registrar como filhos, crianças pobres ou negras, unicamente com a intenção de ter, na casa, criados: trabalhadores sem salário, eternamente obrigados a pagar a caridade de terem sido tirados da miséria. Se alguém me diz: “Vou fazer uma caridade, vou adotar uma criança”, eu lhe digo: “Se quer fazer uma caridade, adote a família inteira da criança e não a tire de quem ela possa chamar de mãe”.

Um filho adotivo não é uma caridade. Eu não sou boa, porque adotei uma criança. Deus é que foi bom para mim, que me deu a possibilidade de completar a minha família, dando-me uma linda filha.

Nosso filho Estêvão pedia muito por irmãos, e nós lhe falávamos dos que ele já tinha no Céu. Ele tinha 6 anos quando decidimos pela adoção; então, eu disse a ele: “Ore, peça ao Papai do Céu”. Ele respondeu: “Vou pedir logo dois, que esses que estão no Céu nem sei deles, se são mesmo meus irmãos”. E passou a orar, todos os dias, com muita fé. Acolheu a irmã com amor e alegria desde o primeiro dia. Os dois brincam, riem e brigam como qualquer irmão. O interessante é que, por ter já um filho biológico, eu posso dizer, com propriedade, que não há diferença nenhuma entre um filho biológico e um adotivo, nem no amor, nem em nada. Eu digo a eles: todo filho é da barriga, antes de nascer; e do coração depois que nasce; logo os dois são meus filhos e pronto.

De fato, quando eu, meu esposo e meu filho mais velho, o Estêvão, nos abrimos para mais uma criança na nossa família, por meio adoção, com surpresa nos deparamos com muitos preconceitos entre pessoas das quais nunca esperaríamos isso. Um preconceito é criado pelo medo do desconhecido, por experiências desastrosas espalhadas nos ares. Foi preciso amor para desarmar esses preconceitos.

Esperei minha filha dois anos, foi uma “gravidez de elefante”. Mas foi muito positivo para mim, porque, nesse tempo, li muito, orei muito, gerei minha filha no coração e desvencilhei-me dos preconceitos. Uma psicóloga me deu um livro de um psiquiatra de casos de filhos adotivos que apresentavam distúrbios emocionais. Fiquei muito chateada com ela, mas, depois, agradeci a Deus, pois acabei lendo o livro e descobrindo que a maior causa de filhos adotivos desajustados está em seus pais de criação desajustados. Porque estes mimam demais, e isso estraga qualquer caráter; demoram muito para adotar e, quando resolvem, já estão mais para avós que para pais da criança; especialmente na adolescência, não tem mais pique e paciência. Esses pais fazem planos e expectativas mirabolantes, e acabam se frustrando, esquecendo que a criança não tem de corresponder aos sonhos deles, pois ela tem sua própria personalidade e dons; cabe aos pais descobrirem quais são e investir neles.

Outros fazem do passado da criança um fantasma, trazendo-o à tona cada vez que a criança faz algo errado, como se tudo fosse culpa da genética, tirando, assim, dos ombros, a própria culpa de não saber educar. E para completar o desastre, há aqueles pais que, na verdade, lá no íntimo, não assumem aquela criança como filho e acham, o tempo todo, que ela tem a obrigação de pagar o bem que estão fazendo por ela.

Se, logo depois de ler tudo isso, você, que está dando passos para adotar uma criança, analisar-se e chegar à conclusão de que sua motivação para adotar é o profundo desejo de ser mãe, pois quer completar sua família, e que a adoção é apenas um meio para isso, parabéns! Você está grávida!

Agora, é preciso que você saiba algo sobre a gravidez de uma mãe adotiva: a partir do dia em que você dá entrada no fórum [para o processo de adoção, já está de nove meses de gestação. Mas essa gravidez pode durar um dia ou dois anos. Então, não se angustie com as demores de Deus, pois Ele não demora, Ele capricha!

Adelita Maria Rozetti Frulane
Missionária da Comunidade Canção Nova

“Deus é capaz de transformar os corações de pedra”, afirma Papa

Terça-feira, 2 de maio de 2017, Da redação, com Rádio Vaticano

Francisco fala sobre o drama do “fechamento do coração”, que não deixa o Espírito Santo entrar e é autossuficiente

“Peçamos a graça que o Senhor abrande os corações endurecidos, fechados na Lei, corações que condenam tudo”, pediu o Papa Francisco na Missa desta terça-feira, 2.

A liturgia da celebração, realizada na Casa Santa Marta, lembra o exemplo de Santo Estevão, “testemunha de obediência” como Jesus, que obedeceu até o fim.

Na homilia, o Papa refletiu sobre a Primeira Leitura do dia, que narra o martírio de Santo Estêvão. Aqueles que o lapidaram não entendiam a Palavra de Deus; Jesus os chama “teimosos”, “pagãos no coração e nos ouvidos”.

O Santo Padre pediu para refletir sobre os vários modos de não entender a Palavra de Deus. Por exemplo, Jesus chama os discípulos de Emaús de “tolos”, porque não entendiam, tinham medo porque não queriam problemas, mas “eram bons”, “abertos à verdade”. E quando Jesus os repreende, deixam entrar suas palavras e seu coração se aquece, enquanto aqueles que lapidaram Estêvão “estavam furiosos”, não queriam ouvir. Este é o drama do “fechamento do coração”.

Coração que não deixa entrar o Espírito Santo

Dando continuidade à sua reflexão, Francisco recorda que no Salmo 94 o Senhor adverte o seu povo, exortando a não endurecer o coração e depois, faz uma promessa belíssima ao Profeta Ezequiel: “trocar o coração de pedra por um de carne”, ou seja, por um coração “que sabe escutar” e “receber o testemunho da obediência”:

O Pontífice destacou que a Igreja sofre muito isso: “corações fechados, corações de pedra, corações que não querem se abrir, que não querem ouvir; corações que conhecem apenas a linguagem da condenação: sabem condenar, mas não sabem dizer: ‘Explique-me, por que diz isto? Por que isto? Explique-me…’. Não: são fechados, sabem tudo, não precisam de explicações”.

A repreensão que Jesus faz é “mataram os profetas porque diziam coisas que vocês não gostavam”, recordou Francisco.

E destacou que um coração fechado não deixa o Espírito Santo entrar.
“Em seus corações não havia lugar para o Espírito Santo. A Leitura de hoje nos diz que Estêvão, cheio do Espírito Santo, havia entendido tudo: era testemunha da obediência do Verbo feito carne, como feito pelo Espírito Santo. Estava cheio. Um coração fechado, um coração teimoso, um coração pagão que não deixa o Espírito Santo entrar e se sente autossuficiente”.

Olhar para dentro de si

Os dois discípulos de Emaús “somos nós”, disse o Papa, “com tantas dúvidas, tantos pecados, que tantas vezes queremos nos afastar da Cruz, das provações, mas abrimos espaço para ouvir Jesus que nos aquece o coração”. Jesus disse muito, coisas piores daquelas ditas por Estevão ao outro grupo, aos que são “fechados na rigidez da lei e não querem ouvir”.

Francisco concluiu se referindo ao episódio da adúltera, que era pecadora. “Cada um de nós – afirma – entra em um diálogo entre Jesus e a vítima dos corações de pedra: a adúltera”. Àqueles que queriam lapidá-la, Jesus responde apenas: “Olhem dentro de si”:

“Hoje, olhemos para a ternura de Jesus: testemunha da obediência, Grande Testemunha, Jesus, que deu a vida, nos mostra o carinho de Deus por nós, por nossos pecados e sofrimentos. Entremos neste diálogo e peçamos a graça que o Senhor abrande um pouco o coração destes rígidos, daquelas pessoas que estão sempre fechadas na Lei e condenam tudo o que é fora daquela Lei. Não sabem que o Verbo veio em carne, que o Verbo é testemunho de obediência, não sabem que a ternura de Deus é capaz de transformar um coração de pedra, colocando em seu lugar um coração de carne”.

A importância da oração do rosário em família

Oração

É fundamental que a família cristã reze o rosário todos os dias

Segundo uma tradição, São Domingos de Gusmão, espanhol, recebeu de Nossa Senhora a devoção do santo rosário, que ele rezava continuamente em suas caminhadas pela conversão dos hereges cátaros que agitavam a vida da Igreja na França.

Em suas aparições, em Fátima e Lourdes, Nossa Senhora pediu insistentemente aos videntes para que rezassem o terço sempre. Ela disse aos pastorinhos, em Fátima, que “não há problema de ordem pessoal, familiar, nacional e internacional, que o santo terço não possa ajudar a resolver”. Por isso, o terço e o rosário tornaram-se orações amadas pelo povo de Deus. O Papa João Paulo II disse que essa era “a sua oração predileta”; sempre o víamos rezando-a.

Bento XVI o recomendou fortemente. Disse: “O rosário é oração bíblica, toda tecida da Escritura Sagrada. É a oração do coração, em que a repetição da Ave-Maria orienta o pensamento e o afeto para com Cristo, tornando-se súplica confiante na nossa Mãe”.

“O terço, quando rezado de modo autêntico, não mecânico ou superficial, mas profundo, traz paz e reconciliação. Contém em si a potência curadora do nome santíssimo de Jesus, invocado com fé e com amor no centro de cada Ave-Maria” (05 de maio de 2008 -ZENIT.org).

Na sua Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae, de 2005, São João Paulo II disse: “Uma oração tão fácil e, ao mesmo tempo, tão rica merece verdadeiramente ser descoberta de novo pela comunidade cristã”.

Muitos Papas recomendaram o rosário: Leão XIII, em 1883, na Encíclica Supremi apostolatus officio, apresentou-o como “um instrumento espiritual eficaz contra os males da sociedade”. São Pio V, em 1571, estabeleceu a invocação a Nossa Senhora do Rosário, como agradecimento à Virgem pela vitória da cristandade, na batalha de Lepanto, contra os turcos otomanos muçulmanos que pretendiam destruir o Cristianismo na Europa.

Além dos inúmeros Papas, também muitos santos se destacaram pelo amor ao rosário: São Luís Maria Grignion de Montfort, Santo Afonso de Ligório, São Pio de Pietrelcina e muitos outros. Essa devoção tem como base o fato de que, do alto da cruz, Jesus Cristo, num ato de amor, nos deu Maria como Mãe (cf. Jo 19,26). Se Jesus no-la deu como Mãe, é porque precisamos dela para nossa vida e salvação. Então, cada cristão e cada família cristã precisa da proteção materna de Nossa Senhora para enfrentar a luta da vida, as tentações, provações etc. A Igreja sempre ensinou que “família que reza unida permanece unida”, sobretudo quando reza o terço.

Na oração do santo rosário, a Virgem Maria nos ensina e nos anima na vida de Cristo, partilhando conosco aquelas coisas que “ela guardava no seu coração” (cf. Lc 2,52). “É uma oração contemplativa, não pode ser apenas uma repetição mecânica de fórmulas”, disse o Papa Paulo VI na Exortação Apostólica Marialis cultus.

Lembro-me, com saudade, de que minha mãe, todos os dias, reunia seus nove filhos, às 18h em ponto, para rezar o terço. Era algo que não falhava. Hoje, vejo todos os meus irmãos na Igreja, todos casados, nenhum separado. Não me lembro de um dia de desespero em nosso lar, embora tivéssemos todos os problemas que toda família tem. O santo terço diário foi sempre a nossa força, o nosso consolo. Nunca o deixei de rezar, mesmo nos meus tempos de cadete do Exército, durante três anos na Academia Militar.

Sobretudo hoje, em que se multiplicam os problemas e os pecados, a ofensa a Deus, e os filhos estão muito mais sujeitos aos maus exemplos, é fundamental que a família cristã reze, todos os dias, o santo terço para se colocar debaixo da poderosa intercessão de Nossa Senhora. Então, terão paz, mesmo neste mundo tão conturbado.

Prof. Felipe Aquino, é viúvo, pai de 5 filhos, doutor em Física pela UNESP. É membro do Conselho Diretor da Fundação João Paulo II. Participa de aprofundamentos no país e no exterior, escreveu mais de 60 livros e apresenta dois programas semanais na TV Canção Nova: “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”. Site do Professor: http://www.cleofas.com.br Twitter: @pfelipeaquino

Ser cristão de verdade é ser chique também

Felipe Neri
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Neste fim de semana assisti a um filme excelente: “Preferisco il paradiso”, sobre a vida de são Felipe Neri. Na verdade trata-se de uma minissérie produzida pela rede de TV RAI em 2010. Resolvi assistir por causa da rec0mendaçã0 do padre Paulo Ricardo numa de suas aulas no Youtube. Em geral, o filme é excelente, assim como “Padre Pio” e “Moscati: o doutor que virou santo”. Filmes sobre a vida dos santos é o tipo de filme que os italianos capricham. Engraçado que muita gente perde a oportunidade de assisti-los por pensar que são como aqueles filmes bíblicos bregas e mal feitos que passam na Rede Record. Não é nada disso. Muito pelo contrário, as produções são maravilhosas e acima de tudo são sempre capazes de emocionarem crentes e não crentes. Preferisco il paradiso me trouxe uma imagem totalmente de São Felipe Neri. Ao olhar a igreja barroca maravilhosa que tive a oportunidade de ver em Roma, nunca ia imaginar que ele tivesse um carisma tão ligado ao cuidado dos pobres como mostrou o filme. Para mim ele era um grande pregador ou um santo que enfrentou as heresias de frente como Inácio de Loyola. No entanto, Felipe Neri teve o seu papel na Contrarreforma tal qual o de São Francisco de Assis: enquanto os doutores, os sábios, os preparados estavam preocupados com a reafirmação da doutrina diante das heresias, Felipe Neri pregou com a vida. Logo no começo do filme eu pude me identificar profundamente com o santo. Ele estava numa dúvida vocacional dolorosíssima. Sua vontade era entrar para a Companhia de Jesus e ser enviado como missionário na Índia. Porém, Deus mostrou por meio das necessidades dos outros que o seu lugar não era na Índia, mas em Roma. É difícil ser dócil quando Deus mostra um caminho diferente daquele que já decidimos seguir. Nasce uma revolta, um desânimo que nem sempre se pode controlar, mas Felipe Neri soube negligenciar seus interesses porque havia algo muito mais urgente diante de si: a necessidade do outro. Felipe Neri dedicou-se em primeiro lugar àqueles a quem ninguém dá muita importância: crianças de rua. O filme mostra o centro de Roma cheio dessas crianças que se reuniam sob a liderança de um menino mais velho. Felipe vem preencher as lacunas educativas, afetivas e espirituais delas. É impressionante a paciência que aquele homem tinha com crianças tão difíceis de lidar. Basta colocar-se na situação de alguém tendo de conviver com um menino levado. Quem mais tem paciência com ele além dos pais próprios pais (por serem obrigados)? Agora pense em dez meninos levados juntos lutando para sobreviver sem qualquer base que lhes dê suporte… pois é, a tarefa de Felipe foi no mínimo hercúlea. Há de se lembrar que Felipe Neri como muitos santos foi perseguido pela própria Igreja. Numa época em que cada pessoa dizia-se inspirada por Deus e arrogava-se melhor que a Igreja, era totalmente plausível que as lideranças eclesiais ficassem desconfiadas de tudo o que não tinha o aval formal do papa. Mas Felipe não pensou em desistir em momento algum. Por que? Porque ele era uma pessoa extremamente positiva, alto astral, como se diz por aí. Nada de humano abalava o seu objetivo, pois os seus olhos estavam numa recompensa acima de todas as outras: o paraíso. As crianças que se tornaram como que filhos dele cresceram e passaram a fazer parte do Oratório – a estrutura eclesiástica aprovada pela Igreja. Um deles inclusive chegou a publicar uma tese teológica admirada em muitas universidades da Europa. Felipe acreditava no homem como Cristo continua acreditando em cada um de nós ainda que O ofendamos. Essa é uma bela lição para aqueles que vivem imersos na cultura do ter em vez da cultura do ser. O filme termina como uma bela aula sobre o sentido da morte para o cristão: é apenas uma passagem. Após a notícia da morte de Felipe, os sinos começam tocar e todos choram pelo triste acontecimento. Uma menina entra no quarto de Felipe. Poucos minutos depois sai de lá gritando: “Felipe está vivo!”, “Felipe está no paraíso!”. O clima no oratório muda repentinamente. Os sinos agora repicam e todos compreendem que a morte não foi um limite para Felipe, mas uma ponte. Felipe Neri tatuou a palavra paraíso na alma e tomou-o como principal objetivo a ser alcançado. Para quem quiser assistir ao filme, há no Youtube com legendas em espanhol. A qualidade também não está muito boa, mas pelo menos o filme está completo. Ainda que você não fale nem italiano nem espanhol, vale tentar. O que posso testemunhar é que pessoalmente o filme teve um grande efeito na minha conduta. Diante das situações de pecado, diante das tentações, como Neri eu repito “Eu prefiro o paraíso”. O desdém pelos falsos benefícios do pecado nos transforma em pessoas seletivas e refinadas. É um jeito chique de ser cristão.

 

SÃO FELIPE NÉRI
“Ser misericordioso com os que caíram é melhor meio para não cairmos nós mesmos!”
Biografia de São Felipe Néri, Apóstolo de Roma, por Plinio Maria Solimeo

Este santo compreendeu bem sua época e procurou remediar seus males. A extraordinária bondade de seu coração e constante sorriso foram sua maior arma de apostolado. A vida de São Felipe Néri abarca quase todo o século XVI, um dos mais turbulentos da Idade Moderna, época do Renascimento e da pseudo-reforma protestante. Nasceu em Florença no dia 21 de julho de 1515, numa família profundamente cristã. Seus membros haviam exercido cargos na magistratura da “cidade das flores”, por muitas gerações, o que lhes permitiu ocupar um lugar na nobreza toscana. Mas isso não dispensava o pai, Francisco Néri, de trabalhar arduamente como tabelião para sustentar a família. Felipe perdeu a mãe muito cedo, mas encontrou na madrasta uma digna sucessora que o amou como filho. O menino era tão amável, jovial e terno, que logo tornou-se conhecido como Pippo Buono, “o bom Felipinho”. Essa bondade de coração e amabilidade contagiantes, permeadas pela graça divina, seriam o grande segredo de suas conquistas no apostolado. De sua infância resta-nos apenas um episódio: quando Pippo tinha por volta de oito anos, viu perto de sua casa uma mula carregada de frutas, que o proprietário trouxera para vender. Saltou para cima da montaria que, assustada, desequilibrou-se. Mula, carga e menino rolaram para o chão, indo para dentro de um paiol. Quando os pais e vizinhos acorreram, temendo o pior, encontraram Pippo ileso e sorrindo com a aventura. Tendo estudado humanidades com os melhores professores da cidade, por volta dos 16 anos seu pai o enviou para São Germano, aos pés de Monte Cassino, para aprender a arte do comércio com seu tio Rômulo. Apesar de Felipe se dedicar com empenho ao negócio, suas cogitações estavam muito acima das mercadorias com que tratava. Logo se viu que ele não tinha senso comercial, mas divino. Apenas terminado o trabalho do dia, retirava-se para alguma igreja ou um dos oratórios abundantes na Itália. Servia-se também do emprego para fazer apostolado, perguntando aos fregueses se sabiam o Pai-Nosso ou se haviam feito a Páscoa. O tio comentava: “Felipe nunca será um bom comerciante. Eu deixaria a ele toda minha herança, se não fosse essa mania de rezar”. Para Felipe isso não era uma “mania”, mas necessidade. “Nada ajuda mais o homem do que a oração”, dirá mais tarde. Por isso, quando fez 20 anos, deixou a casa do tio e, levado por um instinto sobrenatural, foi para Roma.   Santa alegria dos filhos de Deus Na cidade eterna, estudou filosofia na universidade La Sapienza, e teologia na de Santo Agostinho, mantendo-se com aulas particulares. Os que tratavam com ele ficavam admirados de sua sabedoria, profundidade de pensamento e vida santa. Nessa época ele já vivia a pão e água uma vez só por dia, dormia apenas algumas horas no chão duro, e passava parte da noite em oração. À noite costumava visitar as sete principais igrejas de Roma, retirando-se depois para a catacumba de São Sebastião. Seu exemplo atraiu muitos companheiros, que se juntaram a ele nesses santos exercícios. A virtude resplandecia nele. Alguns diziam ver sua cabeça envolta em luz sobrenatural, quando rezava. Apesar de sempre sorridente e amável, sua modéstia e virginal pudor faziam-no ser respeitado até pelos mais dissolutos. Via-se sempre a alegria transparecer em seu rosto, e a doçura estava de tal modo em seus lábios, que era uma grande satisfação estar com ele. O que é mais curioso é que São Felipe, nessa época, não pensava em fazer-se sacerdote. Julgava acertadamente que se pode servir a Deus e ao próximo muito bem, permanecendo leigo. Entrou para a Companhia do Divino Amor, irmandade cujo objetivo era atender espiritual e materialmente os pobres, os doentes, os órfãos e os encarcerados. No Hospital dos Incuráveis, cuidou dos enfermos até o fim de sua vida, e para lá enviaria os seus seguidores. Entre estes se encontrava um que é considerado o maior compositor do século XVI, Giovanni Pierluigi da Palestrina, cujas músicas passaram a fazer parte do repertório dos seguidores de São Felipe. Pois a música desempenhava papel importante em seu apostolado. Não contente com a visita a hospitais, São Felipe punha-se também a percorrer ruas e praças, falando às pessoas sobre a Religião e as coisas de Deus, da maneira mais comovedora e cativante. A um perguntava: “Então, meu irmão, quando é que começaremos a amar a Deus?”. A outro: “É hoje que nos decidimos a comportar-nos bem?”. Ele era, sobretudo um apóstolo e um semeador da santa alegria dos filhos de Deus.

Chamado ao apostolado com a juventude
São Felipe Néri se sentia chamado especialmente para cuidar da juventude. Para colocar os jovens em guarda contra as seduções da idade e conservar todo frescor da virtude, ele lhes dizia para se lembrarem sempre das palavras do profeta: “Bem-aventurado o homem que leva o jugo do Senhor desde sua adolescência”. Havia em sua voz e em suas maneiras tanto atrativo, que muitos, cedendo ao ascendente que Felipe tinha sobre eles, renunciavam às frivolidades do mundo e se entregavam inteiramente a Deus. Assim ele enviou a Santo Inácio, para sua recém-fundada Companhia de Jesus, muitos novos recrutas. Os santos se atraem. São Felipe teve relações com todos os santos que viviam então na Cidade Eterna: São Carlos Borromeu, São Camilo de Lelis, Santo Inácio de Loyola e São Félix de Cantalício. “São Carlos Borromeu tinha tanta estima e veneração por ele que, todas as vezes que o encontrava, prosternava-se diante dele e suplicava que o deixasse beijar suas mãos. Santo Inácio de Loyola não fazia menos caso de sua santidade, e via-se frequentemente esses dois ilustres fundadores olharem-se sem nada dizer, na admiração mútua que tinham pela virtude que reconheciam um no outro”.(1)

A grande graça de Pentecostes
No dia de Pentecostes de 1545, quando suplicava ardentemente ao Divino Espírito Santo que lhe enviasse seus dons, viu de repente uma bola de fogo que lhe entrou boca adentro, descendo até o coração. Tal foi a veemência de amor de Deus que sentiu, que julgou que iria morrer. Caiu no chão, gritando: “Basta, Senhor, basta! Não resisto mais!” O mais notável é que seu peito dilatou-se, mesmo fisicamente, na altura do coração. Isto foi constatado depois da morte pelo médico Andréa Cesalpino, que fez a autópsia: “Percebi que as costelas estavam rompidas naquele ponto, isto é, estavam separadas da cartilagem. Só dessa maneira era possível que o coração tivesse espaço suficiente para levantar-se e abaixar-se. Cheguei à conclusão de que se tratava de algo sobrenatural, de uma providência de Deus para que o coração, batendo tão fortemente como batia, não se machucasse contra as duras costelas”(2).

“Durante seus últimos dias como leigo, o apostolado de Felipe cresceu rapidamente. Em 1548, junto com seu confessor Persiano Rosa, fundou a Confraternidade da Santíssima Trindade para cuidar de peregrinos e convalescentes. Seus membros se reuniam para a Comunhão, oração e outros exercícios espirituais na igreja de São Salvador, e o próprio santo introduziu a exposição do Santíssimo Sacramento uma vez por mês. Embora ele ainda fosse leigo, fazia a pregação, e sabemos que numa só ocasião ele converteu trinta jovens dissolutos”(3).

Sacerdote do Altíssimo, dedicado ao confessionário
Quando Felipe tinha 36 anos, seu confessor Pe. Persiano ordenou-lhe, em nome de Deus, que se fizesse sacerdote. Depois de mais alguns estudos, ordenou-se, celebrando sua primeira missa no dia 23 de maio de 1551. Felipe entrou então para a comunidade de Presbíteros de São Jerônimo, que gozava merecida fama pelas virtudes de seus componentes. Estes, embora vivessem em comunidade e tivessem mesa em comum, não se obrigavam a nenhum voto. Este será o berço do Oratório de São Felipe Néri. Ouvindo contar as maravilhas operadas por São Francisco Xavier na Índia, São Felipe pensou muito em ir também para o Oriente. Dirigiu-se então ao santo religioso Agostinho Ghattino, muito favorecido por Deus, pedindo-lhe que consultasse o Senhor sobre esse seu projeto. A resposta divina foi: “Felipe não deve buscar as Índias, mas Roma, onde o destina Deus, assim como a seus filhos, para salvar almas”(4).

Como sacerdote, São Felipe dedicou-se especialmente ao confessionário, onde passava grande parte do dia. Muitos de seus penitentes, levados pelo desejo de recolher a doutrina desse pai espiritual, passaram a ir diariamente visitá-lo. “Pouco a pouco os discípulos se tornaram tão numerosos, que foi preciso ter a reunião numa igreja; e por fim a concorrência cresceu tanto, que foi necessário distribuí-la em grupos, à frente dos quais o mestre punha um de seus discípulos mais capazes. Assim nasceu o instituto do Oratório, sem mais regras que os cânones, sem mais votos que os compromissos do batismo e da ordenação, sem mais vínculos que a caridade”(5).

Outra nota marcante na vida de São Felipe Néri foi seu amor pela Eucaristia. Era tão grande o fervor de sua caridade que, em vez de se recolher para celebrar a Missa, tinha que procurar deliberadamente uma distração, para ser capaz de prestar atenção depois no rito externo do Santo Sacrifício. Como todos os santos, teve que enfrentar muitas calúnias. O próprio cardeal vigário de Roma, levado por um certo parti-pris e pelos rumores de que o santo mantinha assembléias perigosas e semeava novidades entre o povo, chegou a repreendê-lo severamente, retirando-lhe a licença para atender confissões durante quinze dias. Mas, tendo o purpurado falecido repentinamente, o papa Paulo IV, chamado a julgar o caso, não só absolveu São Felipe como recomendou-se às suas orações. Um dos principais discípulos de São Felipe foi o Venerável Cesare Barônio, depois cardeal, autor dos Annales Ecclesiastici, trabalho que marcou época na historiografia e mereceu para seu autor o título de “Pai da História Eclesiástica”. São Felipe Néri entregou sua alma a Deus no dia 26 de maio de 1595, sendo canonizado apenas 27 anos depois, juntamente com Santo Isidro Lavrador, Santo Inácio de Loyola, São Francisco Xavier e Santa Teresa D’Ávila.

E-mail do autor: pmsolimeo@catolicismo.com.br

1. Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, tomo VI, p. 217. 2. Apud Guilherme Sanches Ximenes, Felipe Néri – O sorriso de Deus, Editora Quadrante, São Paulo, 1998, p. 17. 3. C. Sebastian Richie, Philip Néri, The Catholic Encyclopedia, online edition. 4. Edelvives, El Santo de Cada Dia, Editorial Luis vives, S.A., Saragoça, 1947, vol. III, p. 266. 5. Fr. Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madri, 1945, vol. II, p. 457.

 

DISCURSO DO SANTO PADRE AOS PARTICIPANTES NO CONGRESSO GERAL DA CONFEDERAÇÃO DO ORATÓRIO DE SÃO FILIPE NÉRI – ORATORIANOS – 5 de outubro de 2000  

Caríssimos Sacerdotes e Leigos Oratorianos

1. É-me grato apresentar as minhas cordiais boas-vindas a cada um de vós, participantes no Congresso Geral da Confederação do Oratório de São Filipe Néri, que com esta visita quisestes confirmar a sincera devoção ao Vigário de Cristo e a plena adesão ao Seu Magistério, no espírito do vosso Fundador, que amou a Igreja com todo o seu ser e vos deixou como herança a sua incondicional fidelidade à Sé de Pedro. Ao saudar com afeto o Padre António Rios Chávez, Delegado da Sé Apostólica, dirijo um cordial pensamento a cada uma das Congregações representadas no vosso Congresso Geral, exprimo-lhes viva gratidão pelo bem que realizam e alegro-me com o crescimento que o Oratório está a conhecer em diversas partes do mundo.

2. A vossa Confederação, instituída pela Sé Apostólica para unir no vínculo da caridade e da ajuda recíproca cada uma das Congregações do Oratório, nos recentes Congressos Gerais empenhou-se em rever os textos constitucionais na linha indicada pela Igreja por ocasião do Concílio Ecumênico Vaticano II. No alvorecer do terceiro milênio cristão, a vossa Assembleia propõe-se ir de novo, sob o aspecto predominantemente pastoral, às fontes do movimento espiritual que tem origem na missão de conduzir sempre o homem ao encontro com Jesus Cristo, “Caminho, Verdade e Vida”, realmente presente na Igreja e “contemporâneo” de cada homem. Esse encontro, vivido e proposto por São Filipe Néri de modo original e envolvente, leva a tornar-se homem novo no mistério da Graça, suscitando na alma aquela “alegria cristã” que constitui o “cêntuplo”, dado por Cristo a quem O acolhe na própria existência. Favorecer um encontro pessoal com Cristo representa também o fundamental “método missionário” do Oratório. Ele consiste em “falar ao coração” dos homens para os levar a fazer uma experiência do Mestre divino, capaz de transformar a vida. Obtém-se isto sobretudo testemunhando a beleza de um semelhante encontro, do qual o viver recebe sentido pleno. É necessário propor aos “que estão afastados” não um anúncio teórico, mas a possibilidade de uma existência realmente renovada e por isso repleta de alegria. Eis a grande herança recebida do vosso Padre Filipe! Eis uma via pastoral sempre válida, porque está inscrita na perene experiência cristã! Faço votos por que o retorno às fontes da espiritualidade e da obra de São Filipe, efetuado pelo vosso Congresso, suscite em cada Congregação uma renovada consciência da validade e da atualidade do “método missionário” do vosso Fundador e proporcione uma significativa contribuição para o compromisso na “nova evangelização”.

3. O Oratório nasceu da fé e do gênio de São Filipe Néri, que soube compor em síntese harmoniosa a dimensão carismática e a plena comunhão com os Pastores da Igreja e, na Roma do seu tempo, com grande sabedoria foi ao encontro das necessidades espirituais e materiais da juventude, testemunhando a tal ponto a dimensão jubilosa da fé, que foi considerado “o profeta da alegria cristã”. O Oratório caracteriza desde o início a vossa Congregação que dele toma o nome, como recorda a Bula “Copiosus in misericordia”, com a qual Gregório XIII a instituiu no Ano Santo de 1575. Nascida com a participação de sacerdotes seculares, provenientes da primeira experiência do Oratório, e posta ao seu serviço, a vossa Congregação deve continuar a conservar no centro dos próprios interesses essa benemérita instituição, com os seus propósitos originários, o seu método e estilo, sempre adaptável às necessidades dos tempos. Como recorda o “Itinerário Espiritual”, aprovado no Congresso Geral de 1994: “O fim específico e a missão da Congregação do Oratório é o nascimento e o crescimento de autênticas comunidades cristãs, luz e sal da terra”. Nas vossas Constituições elas são apresentadas, desde os primeiros artigos, como uma união fraterna de fiéis que, seguindo as pegadas de São Filipe Néri, estabelecem para si aquilo que ele ensinou e fez, tornando-se assim “um só coração e uma só alma” (At 4, 3). O modelo no qual se inspiram são os encontros de oração simples e familiares e os colóquios espirituais do vosso Padre Filipe com penitentes e amigos. Nessa perspectiva, o Oratório reconhece a sua identidade em “praticar em comum a maneira de abordar a Palavra de Deus com familiaridade, além da oração mental e oral, a fim de promover nos fiéis, como numa escola, o espírito contemplativo e o amor pelas coisas divinas”. Formulo votos para que o Oratório, ao pôr-se ao serviço dos homens com simplicidade de espírito e alegria, saiba manifestar e difundir esse método espiritual, de maneira sempre mais atraente e eficaz. Assim poderá oferecer um testemunho coerente e incisivo, vivendo em plenitude o fervor das origens e propondo aos homens de hoje uma experiência de vida fraterna, fundada principalmente sobre a realidade, acolhida e vivida, da comunhão sobrenatural em Cristo. “Quem quiser outra coisa que não seja Cristo, não sabe aquilo que quer; quem pede outra coisa que não seja Cristo, não sabe aquilo que faz”. Estas palavras do vosso santo Fundador indicam o critério sempre válido de toda a renovação da comunidade cristã, que consiste em retornar a Jesus Cristo: à sua palavra, à sua presença, à ação salvífica que Ele atua nos Sacramentos da Igreja. Esse empenho levará os Sacerdotes a privilegiar, como é próprio da vossa tradição, o ministério das Confissões e o acompanhamento espiritual dos fiéis, para responder plenamente ao vosso carisma e às expectativas da Igreja. Deste modo, eles ajudarão os leigos pertencentes aos Oratórios seculares a compreenderem o valor essencial de ser “christifideles”, à luz da experiência de São Filipe que, a respeito do laicado, antecipou ideias e métodos que se revelariam fecundos na vida da Igreja.

4. As vossas Congregações, fiéis à autonomia querida pelo santo Fundador, vivem particularmente ligadas à realidade das Igrejas particulares e às situações locais. Mas não se pode esquecer a importância que também reveste, na vida das Comunidades e dos seus membros, o vínculo fraterno com as outras Congregações que constituem a Confederação. É mediante esse vínculo que a característica autonomia de cada Casa se abre ao dom da caridade efetiva e as Comunidades confederadas encontram uma ajuda válida para crescerem na fidelidade ao carisma oratoriano. Cada Congregação dedique um cuidado particular à formação inicial e permanente dos indivíduos e das Comunidades, para assimilar o ideal transmitido por São Filipe e reproposto pelos textos constitucionais, em vista de uma crescente vitalidade espiritual e de uma eficaz presença apostólica. Em particular, exorto-vos a deixar-vos guiar por estes valores, sobretudo ao aproximardes-vos do mundo juvenil, que é repleto de promessas, não obstante as dificuldades, sentindo-vos enviados de maneira especial a quantos estão “afastados”, mas tão próximos do Coração do Salvador. Nesse contexto, ser-vos-á de grande apoio a tradicional sensibilidade dos Oratorianos pela arte e a cultura, vias particularmente idôneas para uma significativa presença evangelizadora. A Virgem Maria, “Mãe e fundadora do Oratório”, seja para cada um de vós o modelo em que vos inspirar constantemente, ao acolher com plena disponibilidade o dom do Espírito e anunciar a alegria de Cristo aos irmãos. Com estes bons votos, enquanto vos confio à celeste intercessão de São Filipe Néri, concedo uma especial Bênção Apostólica a cada um e a toda a Congregação do Oratório.

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/2000/oct-dec/documents/hf_jp-ii_spe_20001005_san-filippo-neri_po.html Fonte: http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm?idmat=52FC7D9D-3048-313C-2E935C8F254A0EC4&mes=Maio1992 http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm?idmat=F96BD5AF-3048-313C-2E2EA8CE1BCFDB20&mes=Maio2009

 

Poucos são os santos da Igreja privilegiados como São Filipe Néri. Filho de pai nobres e piedosos, Filipe nasceu em 1515, na cidade de Florença. De boa índole, de modos afáveis e inclinação à oração mereceram ao menino de 5 anos o apelido de “o bom Filipe”. Um incêndio destruiu grande parte da fortuna dos pais, e Filipe passou a morar com um primo que era negociante riquíssimo em São Germano. Este primo prometeu-lhe estabelecê-lo como herdeiro de todos os seus bens, se quisesse tomar-lhe a gerência dos negócios. O bom Filipe, porém, pouca inclinação sentia para ser negociante; o que queria, era ser santo, e apesar das repetidas insistências do primo, resolveu dedicar-se ao serviço de Deus. Fez os estudos de Filosofia e Teologia em Roma, e começou desde logo a observar a regra de vida austeríssima, que o acompanhou até o fim da vida. Alimentava-se de pão, água e legumes; para o sono reservava poucas horas, para a adoração, porém, muitas. No grande desejo de dedicar-se à vida contemplativa, vendeu a biblioteca, deu os bens aos pobres e aprofundou o espírito na meditação da Sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo. Todo o tempo disponível passava-o nas igrejas ou de preferência catacumbas. A graça de Deus tocou-lhe o coração com tanta violência que, prostrado por terra, exclamou muitas vezes: “Basta, Senhor, basta! Suspendei a torrente de vossas consolações, porque não tenho forças para receber tantas delícias. Ó meu Deus tão amável, por que não me destes um coração capaz de amar-Vos condignamente?” Foi nas catacumbas de São Sebastião, no ano de 1545, que recebeu o Espírito Santo, em forma de bola de fogo. Naquela ocasião sentia em si um ardor tão forte do amor de Deus que, devido às palpitações fortíssimas do coração, foram deslocadas a segunda e a quarta costelas. Com o amor de Deus, grande era-lhe também o amor do próximo. Filipe, possuía o dom de atrair todos a si, circunstância para a qual concorriam muito sua afabilidade, cortesia e modéstia. Recorria a mil estratagemas, para ganhar os jovens das ruas e nas oficinas de Roma. Era amigo de todos e, uma vez adquirida a confiança preparava-os para a recepção dos Sacramentos e encaminhava-os para o bem. As noites passava-as nos hospitais, tratando os doentes como uma mãe. O monumento mais belo de sua caridade é a Irmandade da Santíssima Trindade, cujo fim principal era receber os romeiros e tratar dos doentes. No início de cada mês convidava o povo para adoração ao SS. Sacramento e, nestas ocasiões, embora leigo, fazia admiráveis alocuções aos fiéis. A piedosa idéia achou eco entre o povo que, abundantes esmolas deitavam para a nova instituição. Cardeais, bispos, reis, ministros, generais e princesas, viam grande honra em poderem pertencer a esta irmandade. Seguindo o conselho do seu confessor, Filipe recebeu o santo Sacramento da Ordem, tendo a idade de 36 anos. Tinha a vontade de trabalhar nas índias e de morrer mártir pela religião de Cristo. Pela vontade de Deus, porém, sua Índia havia de ser Roma, e lá ficou. Deixando-se guiar pela Providência Divina, tornou-se Apóstolo da capital da cristandade, sendo sua obra principal a fundação da Congregação da Oração para a qual chamou homens igualmente distintos pelo saber e piedade. As conferências espirituais tinham grande concorrência entre cardeais, bispos, sacerdotes e leigos, os quais confiavam-se à direção de São Filipe, a quem veneravam como um pai. Grande Parte do dia passava no confessionário, e só Deus sabe o número das almas que a seus pés acharam a paz, o perdão e a salvação. Todos nele depositavam uma confiança ilimitada. Ilimitada também era a inveja e o ódio de satanás e seus sequazes. Os confrades tiveram que saborear muitas vezes o escárnio, a calúnia e perseguição. O ódio dos inimigos chegou a tal ponto, que levaram uma acusação falsa à autoridade eclesiástica, de que resultou para Filipe a suspensão de ordens. Privado da celebração da Santa Missa, da pregação e da administração do SS. Sacramento, o Santo não perdeu a calma e só dizia: “Como Deus é bom, que me humilha!” A suspensão foi retirada, e o inimigo principal do Santo, caindo em si, fez reparação pública e tornou-se-lhe discípulo. Pelo fim da vida já não lhe era possível dizer a santa Missa em público, tanta era a comoção que lhe sobrevinha, na celebração dos santos mistérios. Estando no púlpito, as lágrimas lhe embargavam a voz quando falava do amor de Deus e da Paixão de Cristo. Quando celebrava a Missa, chegando à santa Comunhão, pelo espaço de duas a três horas ficava arrebatado em êxtase enquanto o corpo se lhe elevava à altura de dois palmos. Não é para admirar que o Papa o consultasse nos negócios mais importantes e quisesse beijar-lhe as mãos e a batina. À sua prudência e clarividência deve a França a felicidade de ter permanecido país católico. Henrique IV, calvinista, tinha abjurado a heresia e entrado na Religião Católica. No ardor das guerras civis, tornou a voltar ao calvinismo, para depois outra vez se agregar à Igreja. O Papa Clemente VIII com o apoio dos cardeais, negou ao rei a absolvição e opôs-se-lhe à reconciliação. Filipe, prevendo a apostasia da França, no caso de o Papa persistir nesta resolução, fez jejuns e orações extraordinárias e pediu a Barônio, que era confessor do Papa, que o acompanhasse nestes exercícios, para alcançar a luz do Divino Espírito Santo. Posteriormente, Henrique IV obteve a absolvição do Papa e foi solenemente recebido no seio da Igreja. Fatigado e exausto de trabalhos e alquebrado pela idade, Filipe foi acometido de grave doença, tendo os médicos o examinado e, saindo do quarto desanimados, ouviram o doente exclamar: “Ó minha Senhora, ó dulcíssima e bendita Virgem!”. Voltaram para ver o que tinha acontecido e encontraram o Santo elevado sobre o leito e, em êxtase, exclamou: “Não sou digno, não sou digno de vós, ó dulcíssima Senhora, que venhais visitar-me!”. Os médicos, respeitosos, indagaram ao doente o que sentia. Este, voltando a si e tomando a posição costumeira no leito, perguntou: “Não a vistes, a Santíssima Virgem, que me livrou das dores? “ De fato se levantou completamente curado, e viveu mais um ano. Tendo predito a hora da morte, Filipe fechou os olhos para este mundo no dia 02 de maio de 1595. O túmulo tornou-se glorioso e poucos anos depois da morte, Filipe foi beatificado pelo Papa Paulo V, em 1622, e canonizado por Gregório XV.

Reflexões: São Filipe deu o seguinte conselho a uma pessoa que se queixava da sua cruz: “Meu filho, a grandeza do amor que se tem a Deus, é medida pela grandeza do desejo de sofrer muito por amor de Deus; quem se impacienta com a cruz, achará uma outra mais pesada”; convém fazer da necessidade uma virtude. Os sofrimentos deste mundo são a melhor escola do desprezo do mundo; quem não se matricular nesta escola, merece dó, porque é um infeliz.

Referência bibliográfica: Na luz Perpétua, 5ª. ed., Pe. João Batista Lehmann, Editora Lar Católico – Juiz de Fora – Minas Gerais, 1959.
Fonte: http://www.paginaoriente.com/santos/felipeneri2605.htm

 

BIOGRAFIA de São Felipe Néri por Guilherme Sanches Ximenes
– Livro: Felipe Néri – O sorriso de Deus. Editora Quadrante.  

Início
Era madrugada do dia 21 de julho de 1515 – ano em que também nascia Teresa de Ávila – quando se ouviu o primeiro choro daquele que viria a ser chamado “o sorriso de Deus entre os homens”. Filipe Rômulo Néri… Junto com as suas duas irmãs mais velhas – Caterina e Elisabetta – foi educado num ambiente familiar de classe média modesta, com poucos meios, mas impregnado de sincera piedade cristã… cursou o equivalente ao nosso primeiro e segundo graus com os dominicanos do convento de São Marcos, e lá recebeu também a primeira formação cristã (p.3-p.5).

Aprendizado
Certa vez, um rapaz veio procurá-lo para conversar. Contou-lhe que estava estudando e pretendia concluir os estudos o mais rápido possível. – “E depois?”, perguntou-lhe Filipe. Depois certamente me tornarei um advogado. – E depois? “Depois ganharei muito dinheiro e farei meu nome”. E depois? Depois casar-me-ei e terei uma família. – E depois? Bem depois…” As respostas saíam cada vez mais lentamente e de maneira mais difícil, porque “depois”…se chega ao fim. Filipe então abraçou-o fortemente e perguntou-lhe de modo quase inaudível: “E depois?” (p.8).

Vida difícil
Chegando a Roma, Filipe foi morar na casa de um conterrâneo seu, chamado Galeotto del Caccia. Como meio de sustento e sobrevivência, assumiu a tarefa de preceptor dos dois filhos pequenos do seu hospedeiro. Podia assim usufruir de um modesto quarto e recebia uma certa porção de trigo, que levava ao padeiro para que o moesse e transformasse em pão. Durante muito tempo, a sua alimentação cotidiana não passaria desse pedaço de pão e de algumas azeitonas (p.11).

Testemunho
Além das obras de misericórdia, Filipe sentia ainda a necessidade de “falar sempre de Cristo, e em voz alta (p.14).

Calor no coração
Numa das ocasiões em que fazia oração nas catacumbas de São Sebastião, no ano de 1544, ocorreu um episódio que ficou conhecido como o “Pentecostes de Filipe”. Como contraria a Pietro Consolini, seu confidente no final da vida, viu naquela noite já longínqua uma bola de fogo que lhe entrava pela boca e lhe dilatava o peito com tanta intensidade que lhe pareceu que iria morrer. Caindo ao chão – tamanha era a sensação de dor, de fogo interior e estranheza diante daquele acontecimento sobrenatural –, gritou: “Basta, Senhor, basta! Não resisto mais! Desse acontecimento dedicaram-lhe algumas consequências externas que os médicos nunca conseguiram explicar. Uma delas, por exemplo, era uma palpitação e um tremor praticamente incontroláveis por todo o corpo sempre que entrava em contato íntimo com Deus: ao rezar, ao celebrar uma missa, ao pregar… Era um tremor tão forte – como contam os que conviveram com ele – que se transmitia à cadeira ou ao banco em que estava ajoelhado. Outra consequência foi que passou a sentir um calor interior tão intenso que, mesmo nos dias mais rigorosos do inverno romano, dormia sempre com a janela aberta e saía em plena noite para rezar ao ar livre. Além disso, ficou também com uma dilatação peitoral mais ou menos do tamanho de um punho à altura do coração. O médico Andrea Cesalpino, que fez a autópsia do seu corpo, relata: “Uma vez aberto o tórax, percebi que as costelas estavam rompidas naquele ponto, isto é, estavam separadas da cartilagem. Só dessa maneira era possível que o coração tivesse espaço suficiente para levantar-se e abaixar-se. Cheguei à conclusão de que se tratava de algo sobrenatural (…), de uma providência de Deus para que o coração, batendo tão fortemente como batia, não se machucasse contra as duras costelas” (p.16-17).

Vocação
“Gostaria de servir a Deus como leigo e não queria ser sacerdote nem confessor. No entanto, obrigou-se a seguir a opinião daquele que conhecia sua alma e obedeceu… Celebrava sua primeira missa no dia 23 de maio de 1551 (p.18).

Confessor
Filipe via os pecados das pessoas antes mesmo de se acusarem deles. E usava esse dom não para recriminá-las, mas para facilitar-lhes a acusação das suas faltas (p.22).

Direção espiritual
Dirigia as almas com profundo sentido sobrenatural e extremo bom senso – além de senso de humor, muitas vezes. A um homem rico que, depois da confissão, se propunha fazer grandes penitências, indicou-lhe que, em vez disso, desse muitas esmolas; a uma moça que se mostrava deprimida, mandou-a procurar um bom marido; a uma senhora de saltos altos que lhe pedia conselho, só recomendou que tomasse cuidado pra não cair… e a outra ainda, que se acusou repetidas vezes de maledicência, deu-lhe como penitência que fosse depenando uma galinha pela estrada e que depois voltasse recolhendo as penas, para que lhe entrasse pelos olhos que é isso o que acontece quando se calunia alguém: a falsidade espalha-se e é difícil devolver a boa fama (p.23).

Cura da depressão
Em certa ocasião, uma freira comentou-lhe que se sentia deprimida e pensava que não haveria salvação para ela. – Não respondeu-lhe Filipe –, digo-lhe que você está destinada ao Paraíso, e lhe demonstro. Diga-me, por quem foi que Cristo morreu? – Pelos pecadores. Exatamente. E você, o que é? – Uma pecadora. E Filipe tirou a conclusão: “Portanto, o Paraíso é para você, desde que se arrependa dos seus pecados.” E assim a freira libertou-se definitivamente da sua depressão (p.24). “Ser misericordioso com os que caíram é melhor meio para não cairmos nós mesmos!” (p.24) “Esse santo sacerdote tinha uma graça particular de Deus, pela qual conseguia atrair para si o coração das pessoas (p.24). “Na guerra pela pureza só vencem os covardes, isto é, aqueles que fogem! (p.26).

 

Frases de São Filipe Néri – (O Santo da Alegria)
Presbítero e Fundador da Congregação do Oratório – 26 de Maio

1 – “Ser misericordioso com os que caíram é melhor meio para não cairmos nós mesmos!”

2 – “Na guerra pela pureza só vencem os covardes, isto é, aqueles que fogem!”

3 – “Quem quiser outra coisa que não seja Cristo, não sabe aquilo que quer; quem pede outra coisa que não seja Cristo, não sabe aquilo que faz”.

4 – “A grandeza do amor que se tem a Deus, é medida pela grandeza do desejo de sofrer muito por amor de Deus; quem se impacienta com a cruz, achará uma outra mais pesada”.

5 – “Os sofrimentos deste mundo são a melhor escola do desprezo do mundo; quem não se matricular nesta escola, merece dó, porque é um infeliz”.

6 – “Basta, Senhor, basta! Suspendei a torrente de vossas consolações, porque não tenho forças para receber tantas delícias”.

7 – “Ó meu Deus tão amável, por que não me destes um coração capaz de amar-Vos condignamente?”

8 – “Quem não puder dedicar longo tempo a oração deve, pelo menos, elevar muitas vezes o seu coração a Deus”.

9 – “É possível restaurar as instituições com a santidade, e não restaurar a santidade com as instituições”.

10 – “Esta só razão devia bastar para manter alegre um fiel — saber que tem Maria Virgem junto de Deus, que pede por ele”.

11 – “Somente a Comunhão pode conservar puro um coração aos vinte anos! Não pode haver castidade sem Eucaristia”.

12 – “Quem quiser que lhe obedeçam muito, mande pouco”.

13 – “Longe de mim, o pecado e a tristeza!”

14 – “Não pode acontecer coisa mais gloriosa a um cristão do que padecer por amor de Cristo”.

 

FILIPE NERI
O sorriso de Deus
Guilherme Sanches Ximenes
Editora Quadrante – São Paulo – 1998

O FUNDADOR
Um grupinho alegre É difícil separar a história das instituições da Igreja da história pessoal dos seus fundadores. Esses homens e mulheres dedicaram-se de corpo e alma às suas obras e acabaram por fundir-se numa única e mesma coisa com elas. Foi o que aconteceu também com Filipe. O confessionário permitiu-lhe conhecer muita gente, além dos seus antigos amigos, e ele sentia a necessidade de formá-los mais amplamente do que nos breves momentos de que dispunha para aconselhar cada um. Por sua vez, os seus penitentes experimentavam igualmente fortes desejos de encontrar-se com ele por mais tempo e de uma maneira mais informal, para poderem absorver melhor o espírito que sentiam palpitar nas suas curtas indicações. Passaram, pois, a reunir-se no começo da tarde no próprio quarto de Filipe, em San Girolamo, para conversar sobre temas espirituais. Filipe sentava-se na cama, porque não havia cadeiras suficientes para todos. Uns perguntavam-lhe como deviam agir em determinadas circunstâncias, outros referiam episódios apostólicos – um amigo que se convertera, um conhecido que pedira para vir confessar-se –, outros ainda pediam-lhe que esclarecesse algum episódio do Evangelho. O santo falava-lhes com total simplicidade, servindo-se sempre de casos e temas concretos, sem nada que lembrasse a afetação e os recursos retóricos tão em voga na pregação desse tempo. Mas punha nas suas palavras um ardor que “acendia neles de modo maravilhoso o amor de Cristo” – conta Gallonio –, e sobretudo esforçava-se por infundir neles o desejo de fazer oração, de aproximar-se com mais frequência dos sacramentos e de pôr em prática o amor ao próximo”. Antes mesmo de que se desse alguma estrutura a essas reuniões, o ponto central era sempre a leitura e o comentário de algum livro espiritual. Era o que se chamava “ragionamento sopra il libro”. O livro era, em primeiro lugar, é claro, a Sagrada Escritura – particularmente o Evangelho de São João –, e depois os dois clássicos tão caros ao coração de Filipe: o beato Colombini e o Jacopone da Todi. Além desse debate sobre um livro, havia outras práticas ao longo da reunião, todas elas incentivadas por Filipe e realizadas sob sua orientação e o seu olhar paternal: algum dos participantes contava um episódio da história da Igreja ou da vida dos santos, outro falava sobre uma virtude ou uma questão de doutrina e, mais tarde, começaram também a cantar algumas músicas. Com efeito, uma das tradições que se criou aos poucos foi a da música. Filipe apreciava-a muito, e a própria época se prestava de maneira especial ao desenvolvimento dessa arte. Muitos dos que frequentavam as reuniões eram compositores, músicos ou cantores, e era comum que elas se encerrassem com belas melodias polifônicas cantadas a plenos pulmões. Giovanni Animuccia (1500-1571) e Giovanni Pierluigi da Palestrina (1526-1594) foram alguns dos grandes talentos musicais que se confessavam com o padre Filipe, e as suas músicas passaram a fazer parte do repertório habitual daqueles encontros. Depois da reunião, todo o grupo saía para atender os doentes num dos hospitais que Filipe conhecia tão bem; ou então ia simplesmente passear pelo Gianicolo, de onde ainda hoje se tem uma bela vista da Urbe; ou fazer uma visita ao Senhor sacramentado em alguma das inúmeras igrejas de Roma. Na volta, sempre restava em torno do sacerdote um grupo de fiéis especialmente íntimos, que se reunia ainda por algum tempo em oração. “O padre orava – conta Grazzini –, e podíamos ver como isso o absorvia. […] Mesmo que a oração durasse uma boa hora, o tempo voava, e ali teríamos ficado com gosto a noite inteira, tão grande era a alegria que experimentávamos ao seu lado”. Com o tempo, o quarto de Filipe tornou-se pequeno demais, e foi necessário transferir os encontros para uma capela lateral da igreja de San Girolamo, especialmente adaptada para esse fim. Era o “Oratório”, como lhe chamou Filipe, e dessa designação viria o nome da futura Congregação. Isso foi em 1557, ou seja, apenas seis anos depois da ordenação do santo. […] É interessante observar que todos os participantes, exceto o próprio Filipe, eram leigos, e que somente alguns viriam a ordenar-se anos mais tarde. “Mesmo no meio da multidão podemos estar na estrada que leva à perfeição”, insistia Filipe, fiel à inspiração que o orientara na juventude. […] Por outro lado, impressiona comprovar quanto significaram para a renovação da Igreja essas reuniões aparentemente tão simples e tão informais! Em breve, participavam delas algumas das personalidades do tempo, intelectuais, bispos e cardeais, entre eles os futuros papas Gregório XIII e Clemente VIII.

A nossa fé nasce na manhã de Páscoa, diz Papa na catequese

Ressurreição de Cristo

Quarta-feira, 19 de abril de 2017, Da Redação, com Rádio Vaticano

Reflexão semanal do Papa para os fiéis concentrou-se na Páscoa, acontecimento que está no centro da fé católica

Em manhã fria no Vaticano, Papa se reúne com fiéis para a catequese / Foto: Reprodução CTV

A Praça São Pedro ficou lotada na manhã desta quarta-feira, 19, para a tradicional catequese com o Papa Francisco. Ainda no clima da Páscoa que a Liturgia continua a celebrar, o Santo Padre refletiu com os fiéis sobre Cristo Ressuscitado, a esperança, como apresentado por São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios.

A Ressurreição provocava discussões na comunidade de Corinto e Paulo queria esclarecê-la aos cristãos. “Jesus morreu por nossos pecados, foi sepultado e no terceiro dia ressuscitou e apareceu a Pedro e aos Doze Apóstolos”, dizia. “O cristianismo nasce aqui. Não é uma ideologia, não é uma corrente filosófica, mas um caminho de fé que nasce com um evento testemunhado pelos primeiros discípulos de Jesus”, explicou o Papa.

Francisco destacou que a Ressurreição é o núcleo central da fé. “Aceitar que Cristo morreu e que morreu crucificado não é um ato de fé, é um fato histórico. Mas acreditar que ressuscitou, sim! A nossa fé nasce na manhã de Páscoa”.

Explicando este mistério aos cristãos, Paulo conta que de todos os discípulos que viram o Ressuscitado aparecer, ele foi o último, ‘o menos digno’. Paulo tem uma história pessoal dramática: era um perseguidor da Igreja, orgulhoso das próprias convicções, até o dia em que encontrou Jesus no caminho para Damasco. Aquele evento deu uma guinada em sua vida. De perseguidor se tornou Apóstolo, porque viu Jesus vivo e ressuscitado. Este é o fundamento da fé de todos os Apóstolos e também dos fiéis de hoje.

“É belo pensar que o cristianismo, essencialmente é isso!”, comentou o Papa. “Não somos nós a procurar Deus, mas é Deus que nos procura, nos conquista e não nos abandona jamais. O cristianismo é graça; é surpresa, mas deve encontrar nosso coração aberto, capaz de receber maravilhas. Um coração fechado não pode entender o que é o cristianismo. Mesmo sendo pecadores, mesmo olhando para trás e vendo uma vida cheia de insucessos, na manhã de Páscoa podemos ir ao sepulcro de Jesus e ao ver a pedra descartada saberemos que Deus está realizando um futuro para nós. Encontraremos felicidade, alegria e vida onde todos pensavam que havia tristeza, derrotas e trevas. Deus faz crescer suas flores mais belas em meio às pedras mais áridas”.

Terminando sua catequese, o Papa concluiu que “ser cristãos significa não começar pela morte, mas pelo amor de Deus por nós, que derrotou o nosso maior inimigo. É suficiente uma vela acesa para vencer a mais sombria das noites. E se alguém nos perguntar o porquê do nosso sorriso e da nossa paciência e solidariedade, podemos responder que ‘Jesus ainda está aqui, continua vivendo no meio de nós. Ele está aqui na Praça, vivo e ressuscitado’”.

Cantalamessa: a cruz dá sentido a todo sofrimento, a vitória é dos que sofrem

Papa adorando a cruz de Cristo na celebração da Paixão do Senhor – AFP
14/04/2017

Cidade do Vaticano (RV) – O Papa Francisco presidiu na tarde desta Sexta-feira Santa, na Basílica de São Pedro, a celebração da Paixão do Senhor. A homilia da cerimônia, intitulada “A cruz, única esperança do mundo”, esteve a cargo do Pregador da casa Pontifícia Frei Raniero Cantalamessa ofmcap.

“Escutamos a narrativa da Paixão de Cristo. Trata-se, essencialmente, do relato de uma morte violenta. Notícias de mortes, e mortes violentas, quase nunca faltam nos noticiários vespertinos. Também nestes últimos dias, temos escutado tais notícias, como a dos 38 cristãos coptas assassinados no Egito no Domingo de Ramos. Estas notícias se sucedem com tal rapidez, que nos fazem esquecer, a cada noite, as do dia anterior. Por que, então, após 2000 anos, o mundo ainda recorda, como se tivesse acontecido ontem, a morte de Cristo? É que esta morte mudou para sempre o rosto da morte; ela deu um novo sentido à morte de cada ser humano”, disse Frei Cantalamessa.

“Chegando, porém, a Jesus, como o vissem já morto, não lhe quebraram as pernas, mas um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança e, imediatamente, saiu sangue e água” (Jo 19, 33-34).

“Penetremos no epicentro da fonte deste “rio de água viva” no coração trespassado de Cristo. Existe agora, dentro da Trindade e dentro do mundo, um coração humano que bate, não só metaforicamente, mas realmente. É um coração trespassado, mas vivente; eternamente trespassado, precisamente porque eternamente vivente”, frisou o frei capuchinho.

Há uma expressão que foi criada justamente para descrever a profundidade da maldade que pode aglutinar-se no seio da humanidade: “coração de trevas”. Depois do sacrifício de Cristo, mais profundo do que o coração de trevas, palpita no mundo um coração de luz. Cristo, de fato, subindo ao céu, não abandonou a terra, assim como, encarnando-se, não tinha abandonado a Trindade.

A cruz não “está”, portanto, contra o mundo, mas pelo mundo: para dar um sentido a todo o sofrimento que houve, que há e que haverá na história humana. “Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo – diz Jesus a Nicodemos –, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Jo 3, 17). A cruz é a proclamação viva de que a vitória final não é de quem triunfa sobre os outros, mas de quem triunfa sobre si mesmo; não daqueles que causam sofrimento, mas daqueles que sofrem.

“Tornaríamos vã, no entanto, esta liturgia da Paixão, se ficássemos, como os sociólogos, na análise da sociedade em que vivemos. Cristo não veio para explicar as coisas, mas para mudar as pessoas. O coração de trevas não é apenas aquele de algum malvado escondido no fundo da selva, e nem mesmo aquele da nação e da sociedade que o produziu. Em diferente medida está dentro de cada um de nós”, disse Frei Cantalamessa que acrescentou:

A Bíblia o chama de coração de pedra, “Tirarei do vosso peito o coração de pedra – diz Deus ao profeta Ezequiel – vos darei um coração de carne”. Coração de Pedra é o coração fechado à vontade de Deus e ao sofrimento dos irmãos, o coração de quem acumula quantidades ilimitadas de dinheiro e permanece indiferente ao desespero de quem não tem um copo de água para dar ao próprio filho; é também o coração de quem se deixa completamente dominar pela paixão impura, pronto para matar ou a levar uma vida dupla. Para não ficarmos com o olhar sempre dirigido para o exterior, para os demais, digamos mais concretamente: é o nosso coração de ministros de Deus e de cristãos praticantes se vivemos ainda, basicamente, “para nós mesmos” e não “para o Senhor”.

O coração de carne, prometido por Deus nos profetas, já está presente no mundo: é o Coração de Cristo trespassado na cruz, aquele que veneramos como “o Sagrado Coração”. Ao receber a Eucaristia, acreditamos firmemente que aquele coração vem bater também dentro de nós. Olhando para a cruz daqui a pouco digamos do profundo do coração, como o publicano no templo: “Meu Deus, tem piedade de mim, pecador!”, e também nós, como ele, voltaremos para casa “justificados”.

Tradução de Thácio Siqueira

A preguiça paralisa a vida, é preciso seguir adiante, diz Papa

Terça-feira, 28 de março de 2017, Da Redação, com Rádio Vaticano

A partir do episódio bíblico da cura do paralítico, Papa falou da necessidade de viver a vida como ela é, boa ou ruim, como for, é preciso seguir adiante

O Evangelho do dia, que narra o episódio do paralítico curado por Jesus, foi o centro da homilia do Papa Francisco na Missa desta terça-feira, 28, na Casa Santa Marta.

O relato conta a história de um homem doente há trinta e oito anos e que estava deitado na beira de uma piscina, onde ficavam ali deitados cegos, coxos e paralíticos, esperando que a água se movesse. Diziam que quando um anjo descia e movimentava a água da piscina, os primeiros doentes que entrassem, depois do borbulhar da água, ficavam curados de qualquer doença que tivessem.

Vendo o homem deitado e sabendo que estava doente há tanto tempo, Jesus perguntou se ele queria ser curado, uma atitude bela, destacou o Papa Francisco. “Jesus sempre nos diz ‘Quer ficar curado? Quer ser feliz? Quer melhorar a sua vida? Quer estar cheio do Espírito Santo?’… a palavra de Jesus… Todos os outros que estavam ali – doentes, cegos, paralíticos – disseram: ‘Sim, Senhor, sim!’. Mas aquele homem, estranho, respondeu a Jesus: ‘Senhor, não tenho ninguém que me leve à piscina quando a água é agitada. Quando estou chegando, outro entra na minha frente’. Sua resposta é uma lamentação: ‘Veja, Senhor, como é ruim e injusta a vida comigo. Todos os outros podem entrar e se curar e eu tento há 38 anos, mas…’”

Francisco explicou que este homem era como a árvore plantada nos braços de um rio, com as raízes secas, que não podiam tocar a água. É possível constatar isso a partir do comportamento do homem, a partir de suas lamentações. “Sempre tentando dar a culpa ao outro: ‘Mas são os outros que vão antes de mim, eu sou um coitadinho que está aqui há 38 anos…”. Este é um pecado feio, o pecado da preguiça, que é pior do que ter o coração morno, bem pior. É viver, mas ‘viver sem vontade de ir avante, de fazer alguma coisa na vida; é perder a memória da alegria’. “Este homem não conhecia nem de nome a alegria, a havia perdido. Isto é pecado, é uma doença muito ruim”. ‘Mas eu estou bem assim, me acostumei… A vida foi injusta comigo…’. “Sente-se o ressentimento, a amargura do seu coração”.

Jesus não o repreendeu, explicou o Papa, mas lhe disse para levantar, pegar a cama e andar e, então, o paralítico se curou. Isso foi feito em um dia de sábado, os Doutores da Lei disseram que não era permitido carregar a cama e lhe perguntam quem o havia curado naquele dia. O Paralítico não tinha ainda agradecido Jesus, não lhe havia nem perguntado seu nome. “Levantou-se com a preguiça de quem vive porque o oxigênio é grátis”, disse o Papa.

“A preguiça – explicou Francisco – é um pecado que paralisa, que nos deixa paralíticos, que não deixa caminhar. Hoje também o Senhor olha por todos nós; todos temos pecados, mas vendo este pecado, nos diz: ‘Levanta’”.

“Hoje o Senhor diz a cada um de nós: ‘Levanta, pega a tua vida como ela é: boa, ruim, como for, pegue-a e vá adiante. Não tenha medo, vai adiante, com a tua cama’. (…) ‘Quer ser curado?’ – é a primeira pergunta que o Senhor nos faz hoje. ‘Sim, Senhor’. ‘Levanta’. E na antífona, no início da missa, havia aquele trecho tão bonito: ‘Vós, que tendes sede, vinde às águas – são grátis, não a pagamento – vinde e bebei com alegria’. E se dissermos ao Senhor ‘Sim, quero ser curado; sim, Senhor, ajuda-me porque quero me levantar’, saberemos como é a alegria da salvação”.

Papa alerta sobre caminho que vai do pecado à corrupção

Quinta-feira, 16 de março de 2017, Da Redação, com Rádio Vaticano

Na Missa de hoje, Papa pediu fim da indiferença em relação aos pobres, uma forma de corrupção

É preciso ter cuidado para não se fechar em si mesmo, ignorando os pobres e sem-teto, disse o Papa Francisco na Missa desta quinta-feira, 16, na Casa Santa Marta. Comentando a parábola do rico e do Lázaro, no Evangelho do dia, Francisco advertiu sobre o risco de tomar o caminho que vai do pecado à corrupção.

O Pontífice destacou que quem deposita o seu amparo na carne, isto é, nas coisas que pode administrar, na vaidade, no orgulho, nas riquezas, este homem se afasta de Deus. Trata-se de um caminho perigoso confiar somente no próprio coração, acrescentou.

“Quando uma pessoa vive no seu ambiente fechado, respira aquele ar próprio dos seus bens, da sua satisfação, da vaidade, de sentir-se seguro e confia somente em si mesmo, perde a orientação, perde a bússola e não sabe onde estão os limites”. É justamente aquilo que acontece com o rico de que fala o Evangelho de Lucas, que passava a vida dando festas e não se importava com o pobre que estava à porta de sua casa.

“Ele sabia quem era o pobre: sabia. Porque depois, quando fala com o pai Abraão, diz: ‘Envia-me Lázaro’. Ah, sabia inclusive como se chamava! Mas não lhe importava. Era um homem pecador? Sim. Mas do pecado se pode voltar atrás: pede-se perdão e o Senhor perdoa. O seu coração o levou a um caminho de morte a tal ponto que não se podia voltar atrás. Há um instante, um momento, há um limite do qual dificilmente se volta atrás: é quando o pecado se transforma em corrupção. E ele não era um pecador, era um corrupto. Porque sabia de tantas misérias, mas era feliz ali, não lhe importava nada”.

“Maldito o homem que confia em si mesmo, que confia em seu coração”, sublinhou o Papa citando o Salmo 1. “Nada é mais traiçoeiro do que o coração, e dificilmente se cura. Quando você percorre aquele caminho de doença, dificilmente irá se curar”.

Francisco convidou os fiéis a pensar no que sentem quando andam pelas ruas e veem os sem-teto, as crianças sozinhas que pedem esmola. Esta é uma realidade que faz parte do panorama da cidade, como uma estátua, disse o Papa. “Os sem-teto fazem parte da cidade? É normal isso? Fiquem atentos! Fiquemos atentos! Quando essas coisas em nosso coração passam como normais, quando penso: ‘mas a vida é assim, eu no entanto, como e bebo, e para tirar-me um pouco o sentimento de culpa dou uma oferta e sigo em frente. Se penso assim, este caminho não é bom”.

O Papa reiterou a necessidade de perceber quando se está no caminho escorregadio do pecado rumo à corrupção. “Peçamos ao Senhor: Escruta, ó Senhor, o meu coração! Vê se o meu caminho está errado, se estou no caminho escorregadio do pecado rumo à corrupção, do qual não se pode voltar atrás, habitualmente: o pecador, se se arrepende, volta atrás; o corrupto dificilmente, porque está fechado em si mesmo. Escruta, Senhor, o meu coração: que seja hoje esta oração. Faça-me entender em que caminho estou, qual estrada estou percorrendo”.

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