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São Luiz Gonzaga – Padroeiro da Diocese

O Marquês de Castiglione, Dom Ferrante Gonzaga, Príncipe do Sacro Império, pretendia que seu filho primogênito, Luiz, fosse grande na política, na nobreza e na vida militar. Pelo contrário, sua esposa, Dona Marta de Tâni, alimentava sentimentos bem opostos. Queria fazer de Luiz grande na glória dos santos e não na glória do mundo. Quando se aproximava a altura de ser mãe, as coisas complicaram-se. Prometeu então peregrinar até ao Santuário de Loreto com a criança que nascesse e consagrá-la a Nossa Senhora.

A 09 de Março de 1568 nasceu o primeiro dos seus oito filhos, a quem puseram o nome de Luiz. A piedosa senhora cumpriu o seu voto, entregou-se a Nossa Senhora em Loreto e pediu-lhe que o fizesse santo. A Virgem Santíssima atendeu os seus rogos, para além do que imaginava. Luiz, naturalmente permeável aos bons conselhos, voltou-se todo para Deus, a partir dos sete anos.

São Roberto Belarmino, Doutor da Igreja, que mais tarde foi seu Confessor e Diretor Espiritual, no testemunho que nos deixou, escreve acerca do seu pupilo: «Na idade dos sete anos é que Luiz começou a conhecer mais a Deus, desprezar o mundo e empreender uma vida de perfeição. Ele mesmo com freqüência me repetia que o 7° ano da sua idade marcava a data da sua conversão». Antes tivera uns pecados ou pecadinhos de que mais tarde muito se arrependeu: tirar pólvora para fazer explodir uma bombarda e pronunciar algumas palavras inconvenientes, cujo sentido desconhecia, ouvidas aos soldados de seu pai.

Dom Ferrante não via com bons olhos a evolução espiritual do seu primogênito, que parecia só pensar no sacrifício, na oração e no amor a Nossa Senhora. Para desviá-lo desses propósitos, mandou-o para a corte requintada do Grão Duque de Médicis. Mas em Florença, em vez de se mundanizar, mais se divinizou o nosso jovem. Ainda que pareça estranho, é historicamente certo que pelos 10 anos fez voto de castidade perpétua, diante do maravilhoso altar de Nossa Senhora da Anunciação, no templo do mesmo nome. Foi nesta cidade que começou a confessar-se com o Reitor do Colégio da Companhia de Jesus e a seguir a sua orientação espiritual.

O Arcebispo de Milão, São Carlos Borromeu, estacionando uns dias no Castelo de Castiglione, contatou intimamente com Luiz, vindo a declarar «que jamais encontrara jovem que em tal idade atingisse tão elevada perfeição». Foi ele mesmo que lhe quis administrar a Primeira Comunhão, despedindo-se com dois conselhos: comunhão freqüente e leitura assídua do Catecismo Romano. Aos 12 anos, declara Luiz aos pais que decidira fazer-se religioso quando atingisse a idade adequada. O pai, exasperado, para lhe fazer perder essas idéias, fê-lo jornadear pelas cortes mais ricas da Europa e participar nas festas requintadas da sociedade.

Os anos de 1582 a 1584 passa-os a família Gonzaga na Corte de Madrid, onde reinava Filipe 11, que acabara de absorver Portugal. É nessa altura que Luís visita o nosso país, demorando alguns dias em Lisboa. Está certo da sua vocação, mas duvida da Ordem em que há de ingressar. Estando um dia, como de costume, a rezar diante da imagem de Nossa Senhora do Bom Conselho, na igreja dos Jesuítas, em Madrid, por inspiração celeste, compreende que Deus o chama para a Companhia de Jesus. Depois do regresso à Itália, consente finalmente o pai na vocação do filho. A 01 de Novembro de 1585, perante os parentes mais próximos e o representante do Imperador, assinou Luís a renúncia a todos os seus direitos de Primogênito, aos títulos nobiliárquicos e aos bens da fortuna, em favor do seu segundo irmão, Rodolfo.

No dia seguinte, ajoelha-se diante de seu pai e de sua santa mãe a pedir-lhes a bênção. Ambos lha concedem com enternecimento e lágrimas, e após alguns instantes lá partiu, a caminho da Cidade Eterna. Chegado a Roma, hospeda-se em casa do Patriarca Cipião Gonzaga, seu tio, para visitar nos dias seguintes outros cardeais e Bispos de sua Família e ser admitido à presença do Papa Sisto V. Todos se maravilham com a prudência, o aprumo, delicadeza e santidade do jovem Príncipe. A 25 de Novembro de 1585, festa de Santa Catarina, virgem e mártir, contando 17 anos e oito meses, é admitido na Companhia de Jesus.

Os seus cinco anos de vida religiosa distinguiram-se pela exata observância de todas as regras, pela piedade e pelo exercício das virtudes cristãs. Freqüentou o Colégio Romano, atual Universidade Gregoriana, com brio e distinção. Compôs um tratado sobre os anjos que um censor assim qualificou: «São páginas cheias de unção, de graça de estilo, de inspirações felizes e evocações inflamadas». Seu pai, ao cabo de uma vida demasiado mundana, faleceu com os sentimentos de sincera contrição e de ardente fé, exclamando no leito da agonia: “É o fruto do sacrifício do meu Luiz. Foi ele, e só ele, que me alcançou tão grande graça do Senhor”. Seu tio, dom Vincente Gonzaga, Duque de Mântua, e seu irmão Rodolfo viviam em tal discórdia que estavam prestes a fazer a guerra um ao outro.

Luiz, a pedido da família, veio a Castiglione e o que nem as solicitações dos grandes do mundo e da Igreja tinham conseguido, alcançou-o ele. Ambos os contendores fizeram as pazes e acabaram com o litígio. Outro grave escândalo, que causava a maior preocupação da mãe, acabou: Rodolfo regularizou, por meio do matrimônio, a situação pecaminosa em que vivia. Na missa de despedida, Dona Marta, sua mãe, Rodolfo e sua esposa, os principais fidalgos e 700 vassalos participaram na missa e na Sagrada Comunhão. No ano de 1591, espalhou-se a peste em Roma, vitimando centenas de pessoas.

Luiz ofereceu-se para tratar dos empestados, que ia visitar às suas casas e tratava com extremos de carinho; chegou mesmo a acarretar um pobre doente, conduzindo-o aos ombros para o hospital. Contraiu a mesma peste, da qual veio a falecer aos 23 anos de idade, em Roma, depois de ter recebido todos os sacramentos, a 21 de Junho de 1591, na sexta-feira a seguir à oitava do Corpo de Deus, dia que mais tarde seria consagrado ao Coração de Jesus, de cuja devoção foi Luiz um precursor.

O Cardeal são Roberto Belarmino, que, como ficou dito, foi seu Confessor e Diretor Espiritual em Roma, escreveu sobre ele o mais elogioso depoimento e pediu para ser sepultado junto da sua campa, o que realmente lhe concederam. Treze anos após o falecimento de Luiz, pôde sua mãe venerá-lo nos altares com o titulo de Beato. A canonização ocorreu em 1726. A instâncias de D. João Veda Rainha D. Maria Ana de Áustria, sua esposa, concedeu em 1737 o Papa Clemente XII que em todo o Portugal e seus domínios se celebrasse com particular devoção a festa de São Luís Gonzaga. A Santa Sé proclamou-o Protetor da juventude, título que Pio XI veio a confirmar.

Na Epistola Apostólica “Singulare illud”  de 1926, sobre o 3° Centenário da Canonização, o Papa Pio XI escreve: “Contemplar e imitar são Luis Gonzaga é o melhor meio que pode empregar a juventude para atingir a santidade. Desde que a Igreja o proclamou Padroeiro da Juventude, São Luiz tem exercido uma influência maravilhosa sobre os jovens. Basta recordar que ele é o modelo e protetor de são Domingos Sávio e de são João Bosco, que tanto pregou a sua devoção e a deixou em herança aos Salesianos. Em virtude da nossa autoridade apostólica, proclamamos mais uma vez São Luiz Gonzaga celeste patrono da Juventude universal”.

Na audiência concedida por Pio XI a 5.000 jovens de todo o mundo, foram apresentados ao papa 30 volumes com dois milhões de assinaturas de jovens que prometeram imitar valorosamente o exemplo de São Luiz, segundo as palavras que transcrevemos:
“Nós, jovens católicos, rendidos em espírito, junto ao sepulcro de São Luiz, em Roma, associamo-nos a toda a mocidade do mundo que venera o nosso Santo Patrono e, para fazer-nos aptos e dignos cooperadores na empresa de renovar a vida e sociedade humanas, conforme os ideais cristãos, propomos, resoluta e solenemente, cumprir o seguinte programa inspirado nos exemplos de são Luiz:
1. Permaneceremos sempre firmes na Fé católica, ainda que muitos outros a abandonem e dela se apartem;
2. Amaremos fielmente a Igreja, esposa de Jesus Cristo, e defendê-la-emos sempre como nossa Mãe, contra todos os embates dos que a perseguirem;
3. Impor-nos-emos o honroso dever de alcançar uma grande Cultura Católica e um profundo conhecimento da nossa religião;
4. Como a verdadeira fortaleza consiste na vitória sobre as paixões, conservaremos valorosamente, a exemplo de são Luís, a pureza de alma e corpo, principalmente por meio da comunhão: freqüente e de uma singular devoção à Santíssima Virgem”.

 

À SÃO LUIZ GONZAGA

Ó Luiz Santo, adornado de angélicos costumes, eu, vosso indigníssimo devoto, vos recomendo singularmente a castidade da minha alma e do meu corpo. Rogo-vos por vossa angélica pureza, que intercedais por mim ante ao Cordeiro Imaculado, Cristo Jesus e sua santíssima Mãe, a Virgens das virgens, e me preserveis de todo o pecado. Não permitais que eu seja manchado com a mínima nódoa de impureza; mas quando me virdes em tentação ou perigo de pecar, afastai do meu coração todos os pensamentos e afetos impuros e, despertando em mim a lembrança da eternidade e de Jesus crucificado, imprime profundamente no meu coração o sentimento do santo temor de Deus e inflamai-me no amor divino, para que, imitando-vos cá na terra, mereça gozar a Deus convosco lá no céu. Amém.

v: Ora pro nobis, Sancte Aloísi.
r: Ut digni efficiamur promissiónibus Christi.

Oremus
Cæléstium donórum distributor, Deus, qui in angélico júvene Aloísio miram vitæ innocéntiam pari cum pæniténtia sociásti: ejus méritis et précibus concéde; ut innocéntem nom secúti, pæniténtem imitemur. Per Christum Dóminum nostrum.
r:Amém.

v: Rogai por nós São Luiz.
r: Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

Ó Deus, distribuidor dos dons celestes que no angélico jovem Luiz reunistes admirável inocência de vida com igual penitência, pelos seus merecimentos e orações concedei-nos, que, pois na inocência o não seguimos, o imitemos na penitência. Por Cristo, Senhor nosso.
r: Amém.

Consagração  
Ó glorioso São Luiz, adornado pela Igreja com o belo título de Jovem angélico, pela vida puríssima, que no mundo vivestes, a vós recorro neste dia com o mais ardente afeto da alma e coração.
Ó modelo perfeito, ó benigno e poderoso Protetor, quanto preciso do vosso auxílio! Preparam-me insídias o mundo e o demônio, sinto a veemência das paixões, conheço a fraqueza e a inconstância da minha idade. Quem poderá defender-me, si não vós, ó angélico Santo, glória, honra e amparo dos jovens? A vós, pois, recorro com toda a minha alma, a vós com todo o meu coração me entrego.
Intento assim, prometo e quero ser vosso especial devoto e glorificar-vos por vossas sublimes virtudes e especialmente pela vossa angélica pureza; imitar os vossos exemplos, e promover a vossa devoção entre os meus companheiros.
Ó meu amável S. Luiz, guardai-me, defendei-me sempre sob a vossa proteção e seguindo os vossos exemplos, possa um dia ver e louvar a Deus convosco no paraíso por séculos sem fim. Amém.

O amor que escandaliza

Este homem acolhe os pecadores

“Os fariseus, porém, e os mestres da Lei criticavam Jesus: ‘Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles.’” (Lc 15, 2).

Os fariseus e os mestres da Lei criticavam Jesus, porque Ele não desprezava os pecadores públicos, como faziam os judeus com os publicanos, que eram cobradores de impostos na época do Império Romano. O Mestre estava no meio daqueles homens para falar-lhes ao coração e levá-los à conversão, mas, para isso, Ele precisava se aproximar deles. Como Jesus era judeu, Ele colocava em jogo a sua reputação, o seu nome, pois comer com os pecadores era contra as leis judaicas. Depois de ser criticado pelos fariseus e mestres da lei, Jesus conta a eles duas parábolas.

Em primeiro lugar, Jesus conta a parábola da ovelha perdida, fazendo uma pergunta àqueles judeus: “Se um de vós tem cem ovelhas e perde uma, não deixa as noventa e nove no deserto, e vai atrás daquela que se perdeu, até encontrá-la?” (Lc 15, 4). Ele tenta convencer seus compatriotas de que os pecadores precisavam de acolhimento e de uma nova chance. Jesus se coloca no lugar do pastor, o qual se alegra por encontrar a ovelha perdida (cf. Lc 15,6), por estar com aqueles homens, pecadores públicos, que, no encontro com Ele, tiveram a chance da conversão. Por isso, o Bom Pastor diz: “Assim haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão” (Lc 15, 7).

Depois, Jesus conta a parábola da moeda perdida, começando por mais uma pergunta: “E se uma mulher tem dez moedas de prata e perde uma, não acende uma lâmpada, varre a casa e a procura cuidadosamente até encontrá-la?” (Lc 15, 8). Para nós, esta parábola não é muito significativa, mas para os judeus tem um significado importante. Com aquela moeda perdida, faltava a plenitude, significada pelo número dez. Ao contar essa parábola, o Mestre nos mostra que Ele não quer perder ninguém, por isso Ele comia com os pecadores para tentar resgatar quem estava perdido.

Jesus está sempre conosco, mesmo quando estamos em pecado, pois Ele quer a nossa santificação e a nossa salvação. Parece uma loucura, uma insanidade deixar as noventa e nove ovelhas no deserto para procurar a ovelha perdida (cf. Lc 15, 4). Fazendo isso, havia o risco de alguma delas também se perder. Este foi o risco que o Senhor correu ao voltar-se para aqueles homens, considerados pecadores públicos, pois, Cristo era judeu e, por isso, estava escandalizando seus iguais. Da mesma forma, hoje, Ele também esteja arriscando perder outras ovelhas visitando a mim e a você, mesmo quanto estamos em pecado.

O amor de Deus é assim, escandaliza e nos deixa sem palavras, pois não somos capazes de compreendê-lo. Porém, com tantas provas de amor, não podemos negar que somos amados pelo Senhor. Ele nos amou quando ainda éramos pecadores (cf. Rm 5, 8), como amou aqueles publicanos. Como Mateus, que se chamava Levi e era cobrador de impostos, respondamos ao chamado de Jesus que nos diz: “Segue-me!” (Mc 2, 14). Sigamos os passos de Mateus, o qual, depois da Ascensão de Jesus, permaneceu em Jerusalém unido em oração com os outros apóstolos, os discípulos e a Virgem Maria (cf. At 1, 13-14). Peçamos que a Mãe do Senhor nos confirme na fé e nos prepare para receber o Espírito Santo. Que Nossa Senhora também nos acompanhe em nosso ministério e, cheios do Espírito Santo, possamos ser fiéis a Jesus Cristo até o fim e alcançar o Reino dos Céus.

Natalino Ueda – Comunidade Canção Nova
http://blog.cancaonova.com/tododemaria

Caminho da santidade é simples

Terça-feira, 24 de maio de 2016, Da Redação, com Rádio Vaticano

O Papa disse que a santidade do dia a dia precisa de quatro elementos: coragem, esperança, graça e conversão

Na missa celebrada na Casa Santa Marta nesta terça-feira, 24, o Papa Francisco refletiu sobre o caminho de santidade do cristão. O Papa disse que caminhar na presença de Deus de modo irrepreensível quer dizer caminhar rumo à santidade, compromisso que necessita de um coração que saiba esperar com coragem, se coloque em discussão e se abra com simplicidade à graça de Deus.

O Papa explicou que santidade não se compra e que nem as melhores forças humanas a podem ganhar. Segundo ele, a santidade simples, do dia a dia, de todos os cristãos, é um caminho que pode ser percorrido somente se sustentado por quatro elementos imprescindíveis: coragem, esperança, graça, conversão.

Coragem

Francisco seguiu explicando que o trecho litúrgico extraído da Primeira Carta de Pedro, definindo-a como um pequeno tratado sobre a santidade.

“Este ‘caminhar’, a santidade é um caminho, a santidade não se compra e nem se vende. Nem se pode presentear. A santidade é um caminho na presença de Deus, que eu devo fazer: ninguém o faz em meu nome. Posso rezar para que o outro seja santo, mas é ele que deve fazer o caminho, não eu. Caminhar na presença de Deus, de modo irrepreensível. Usarei hoje algumas palavras que nos ensinam como é a santidade de todo dia, a santidade – digamos – anônima. Primeira: coragem. O caminho rumo à santidade requer coragem”.

Esperança e graça

O Reino dos Céus de Jesus, disse o Papa, é para aqueles que têm a coragem de ir avante e a coragem, observou, é movida pela esperança, a segunda palavra da viagem que leva à santidade. A coragem que espera num encontro com Jesus. Depois, há o terceiro elemento, quando Pedro escreve: colocai toda a vossa esperança na graça.

“A santidade não podemos fazê-la sozinhos. Não, é uma graça. Ser bom, ser santo, avançar a cada dia um passo na vida cristã é uma graça de Deus e devemos pedi-la. Coragem, um caminho. Um caminho que se deve fazer com coragem, com a esperança e com a disponibilidade de receber esta graça. E a esperança: a esperança do caminho. É tão bonito o XI capítulo da Carta aos Hebreus, leiam. Fala do caminho dos nossos pais, dos primeiros que foram chamados por Deus. E como eles foram avante. E do nosso pai Abraão diz: ‘Ele saiu sem saber para onde ia’. Mas com esperança”.

Converter-se todos os dias

Francisco prosseguiu explicando que em sua carta, Pedro destaca a importância de um quarto elemento. Quando convida os seus interlocutores a não se conformarem “aos desejos de uma época”, os impulsiona essencialmente a mudar a partir de dentro do próprio coração, num contínuo e cotidiano trabalho interior.

“A conversão, todos os dias: ‘Ah, Padre, para me converter devo fazer penitência, me dar umas pauladas…’. Não, não, não: conversões pequenas. Mas se você for capaz de não falar mal do outro, está no bom caminho para se tornar santo. É tão simples! Eu sei que vocês nunca falam mal dos outros, não? Pequenas coisas… Tenho vontade de criticar o vizinho, meu colega de trabalho: morder um pouco a língua. Vai ficar um pouco inchada, mas o espírito de vocês será mais santo nesta estrada. Nada de grandes mortificações: não, é simples. O caminho da santidade é simples. Não voltar para trás, mas ir sempre avante, não? E com força”.

Cuidado com as penitências absurdas na Quaresma

Compreensão

É preciso ter bastante cuidado com as penitências absurdas na Quaresma

Quaresma é tempo de lutar contra nossos pecados, pois ele é a pior realidade para nós. O Catecismo diz: “Aos olhos da fé, nenhum mal é mais grave que o pecado, e nada tem consequências piores para os próprios pecadores, para a Igreja e para o mundo inteiro” (n. 1489).

Olhando para Jesus, desfigurado e destruído na cruz, entendemos o horror que é o pecado. Foi preciso a morte de Cristo para que nos livrássemos do pecado e da morte eterna, a separação da alma de Deus. Então, a Igreja nos propõe 40 dias de penitência, de resistência contra o pecado na Quaresma.

Essa prática é baseada na vida do povo de Deus. Durante 40 dias e 40 noites, caiu o dilúvio que inundou a terra e extinguiu a humanidade pecadora (cf. Gn. 7,12). Durante 40 anos, o povo escolhido vagou pelo deserto, em punição por sua ingratidão, antes de entrar na terra prometida (cf. Dt 8,2). Durante 40 dias, Ezequiel ficou deitado sobre o próprio lado direito, em representação do castigo de Deus iminente sobre a cidade de Jerusalém (cf. Ez 4,6). Moisés jejuou durante 40 dias no Monte Sinai antes de receber a revelação de Deus (cf. Ex 24, 12-17). Elias viajou durante 40 dias pelo deserto, para escapar da vingança da rainha idólatra Jezabel e ser consolado e instruído pelo Senhor (cf. 1 Reis 19,1-8). O próprio Jesus, após ter recebido o batismo no Jordão, e antes de começar a vida pública, passou 40 dias e 40 noites no deserto, rezando e jejuando (cf. Mt 4,2). É um tempo de luta contra o mal.

São Paulo nos oferece uma indicação precisa: “Nós vos exortamos a que não recebais em vão a sua graça”. Porque Ele diz: “No tempo favorável, eu te ouvi; no dia da salvação, vim em teu auxílio’’. Este é o “tempo favorável”, este é “o dia da salvação” (2 Cor 6,1-2). A liturgia da Igreja aplica essas palavras de modo particular ao tempo da Quaresma. “Convertei-vos e crede no Evangelho” e “Lembra-te de que és pó e ao pó hás de voltar”.

Convite à conversão

O primeiro convite é à conversão, é um alerta contra a superficialidade de nossa maneira de viver. Converter-se significa mudar de direção no caminho da vida: uma verdadeira e total inversão de rumo. Conversão é ir contra a corrente, contra a vida superficial, incoerente e ilusória, que frequentemente nos arrasta, domina e torna-nos escravos do mal ou pelo menos prisioneiros dele. Jesus Cristo é a meta final e o sentido profundo da conversão; Ele é o caminho ao qual somos chamados a percorrer, deixando-nos iluminar pela sua luz e sustentar pela sua força. A conversão é uma decisão de fé, que nos envolve inteiramente na comunhão íntima com a pessoa viva e concreta de Jesus. A conversão é o ‘sim’ total de quem entrega sua vida a Jesus pela vivência do Evangelho. “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15).

Penitência não é para fazer mal

Para vencermos a nós mesmos, nossas fraquezas e paixões desordenadas, a Igreja recomenda, sobretudo na Quaresma, o jejum, a esmola e a oração como “remédios contra o pecado”, a fim de dominar as fraquezas da carne e aproximar-se de Deus. Portanto, não se deve fazer uma penitência exagerada, uma mortificação que leve a pessoa a ficar doente ou a se sentir mal. O jejum exige, sim, passar um pouco de fome durante o dia, mas sem causar mal à pessoa, sem tirar a sua condição de trabalhar, rezar etc.

Saber calar pode ser uma boa penitência

Há formas boas de mortificação, como cortarmos aquilo que nos agrada, seja para o corpo ou para o espírito, mas há pessoas que fazem excessos: peregrinações longas demais, penitências até com feridas, prejudicando a saúde. Deus não quer isso, Ele não nos pede o impossível.

Qual mortificação eu preciso fazer? É aquela que abate o meu pecado. Se eu sou soberbo, então minha penitência deve ser o exercício de humildade: vencer todo orgulho, ostentação, vaidade, exibicionismo, desejo de aparecer, de impor-se aos outros e saber calar.

Se seu pecado é o apego aos bens materiais e ao dinheiro, então eu preciso exercitar muito a boa e farta esmola, o desprendimento do mundo e das criaturas. Se meu mal é a luxúria e a impureza, então vou exercitar a castidade nos olhos, ouvidos, leituras, pensamentos e atos. Se sou irado, vou conquistar a mansidão; se sou invejoso, vou buscar a bondade; se sou preguiçoso, vou trabalhar melhor e ser diligente em servir aos outros sem interesses.

Perdoar pode ser mais importante

São Francisco de Sales, doutor da Igreja, dizia que a melhor penitência é aceitar, com resignação, os males que Deus permite que nos atinjam, porque Ele sabe do que precisamos, e assim nossos pecados são vencidos. A penitência que Deus nos manda é melhor do que aquela imposta por nós mesmos. Então, aceite, especialmente na Quaresma, sem reclamar, sem culpar ninguém, todos os males, dores, aborrecimentos e injurias que sofrer, e ofereça tudo a Deus pela sua conversão. Pode ser que dar o perdão a quem lhe ofendeu seja mais importante do que ficar 40 dias sem fazer isso ou aquilo. Uma visita a um doente, a um preso, o consolo de alguém aflito pode ser mais importante que uma peregrinação demorada. Tudo é importante, mas é preciso observar o mais importante para a realidade espiritual.

Professor Felipe Aquino é viuvo, pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova. Página do professor: www.cleofas.com.br Twitter: @pfelipeaquino

Onze coisas que todo católico deve saber sobre a Quarta-feira de Cinzas

Por Diego López Marina

REDAÇÃO CENTRAL, 04 Fev. 16 / 07:30 pm (ACI).- A menos de uma semana para o início da Quaresma, tempo de preparação para a Páscoa, que começa na próxima quarta-feira, 10, recordamos algumas coisas essenciais que todo católico precisa saber para poder viver intensamente este tempo.

1.- O que é a Quarta-feira de Cinzas?

É o primeiro dia da Quaresma, ou seja, dos 40 dias nos quais a Igreja chama os fiéis a converter-se e a preparar-se verdadeiramente para viver os mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo durante a Semana Santa.

A Quarta-feira de Cinza é uma celebração que está no Missal Romano, o qual explica que no final da Missa, abençoam e impõem as cinzas obtidas da queima dos ramos usadas no Domingo de Ramos do ano anterior.

2.- Como nasceu a tradição de impor as cinzas?

A tradição de impor a cinza é da Igreja primitiva. Naquela época, as pessoas colocavam as cinzas na cabeça e se apresentavam ante a comunidade com um “hábito penitencial” para receber o Sacramento da Reconciliação na Quinta-feira Santa.

A Quaresma adquiriu um sentido penitencial para todos os cristãos quase 400 anos d.C. e, a partir do século XI, a Igreja de Roma impõe as cinzas no início deste tempo.

3.- Por que impõem as cinzas?

A cinza é um símbolo. Sua função está descrita em um importante documento da Igreja, mais precisamente no artigo 125 do Diretório sobre a piedade popular e a liturgia:

“O começo dos quarenta dias de penitência, no Rito romano, caracteriza-se pelo austero símbolo das Cinzas, que caracteriza a Liturgia da Quarta-feira de Cinzas. Próprio dos antigos ritos nos quais os pecadores convertidos se submetiam à penitência canônica, o gesto de cobrir-se com cinza tem o sentido de reconhecer a própria fragilidade e mortalidade, que precisa ser redimida pela misericórdia de Deus. Este não era um gesto puramente exterior, a Igreja o conservou como sinal da atitude do coração penitente que cada batizado é chamado a assumir no itinerário quaresmal. Devem ajudar aos fiéis, que vão receber as Cinzas, para que aprendam o significado interior que este gesto tem, que abre a cada pessoa a conversão e ao esforço da renovação pascal”.

4. O que simbolizam e o que recordam as cinzas?

A palavra cinza, que provém do latim “cinis”, representa o produto da combustão de algo pelo fogo. Esta adotou desde muito cedo um sentido simbólico de morte, expiração, mas também de humildade e penitência.

A cinza, como sinal de humildade, recorda ao cristão a sua origem e o seu fim: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra” (Gn 2,7); “até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” (Gn 3,19).

5.- Onde podemos conseguir as cinzas?

Para a cerimônia devem ser queimados os restos dos ramos abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior. Estes recebem água benta e logo são aromatizados com incenso.

6.- Como se impõe as cinzas?

Este ato acontece durante a Missa, depois da homilia e está permitido que os leigos ajudem o sacerdote. As cinzas são impostas na fronte, em forma de cruz, enquanto o ministro pronuncia as palavras Bíblicas: “és pó e em pó te tornarás” ou “convertam-se e cream no Evangelho”.

7.- O que devem fazer quando não há sacerdote?

Quando não há sacerdote, a imposição das cinzas pode ser realizada sem Missa, de forma extraordinária. Entretanto, é recomendável que antes do ato participem da liturgia da palavra.

É importante recordar que a bênção das cinzas, como todo sacramental, somente pode ser feita por um sacerdote ou um diácono.

8.- Quem pode receber as cinzas?

Qualquer pessoa pode receber este sacramental, inclusive as não católicas. Como explica o Catecismo (1670 ss.) “sacramentais não conferem a graça do Espírito Santo à maneira dos sacramentos; mas, pela oração da Igreja, preparam para receber a graça e dispõem para cooperar com ela”.

9.- A imposição das cinzas é obrigatória?

A Quarta-feira de Cinzas não é dia de preceito e, portanto, não é obrigatória. Não obstante, nesse dia muitas pessoas costumam participar da Santa Missa, algo que sempre é recomendável.

10.- Quanto tempo é necessário permanecer com a cinza na fronte?

Quanto tempo a pessoa quiser. Não existe um tempo determinado.

11.- O jejum e a abstinência são necessários?

O jejum e abstinência são obrigatórios durante a Quarta-feira de Cinzas, como também na Sexta-feira Santa, para as pessoas maiores de 18 e menores de 60 anos. Fora desses limites, é opcional. Nesse dia, os fiéis podem ter uma refeição “principal” uma vez durante o dia.

A abstinência de comer carne é obrigatória a partir dos 14 anos. Todas as sextas-feiras da Quaresma também são de abstinência obrigatória. Outras sextas-feiras do ano também, embora segundo o país pode ser substituído por outro tipo de mortificação ou oferecimento como a oração do terço.

As 29 perguntas frequentes sobre a Quaresma

Fonte: Encuentra

O QUE É A QUARESMA? Chamamos Quaresma o período de quarenta dias reservado a preparação da Páscoa, e indicado pela última preparação dos catecúmenos que deveriam receber nela o batismo.

DESDE QUANDO SE VIVE A QUARESMA? Desde o século IV se manifesta a tendência para constituí-la no tempo de penitência e de renovação para toda a Igreja, com a prática do jejum e da abstinência. Conservada com bastante vigor, menos em um princípio, nas igrejas do oriente, a prática penitencial da Quaresma vem sido cada vez maior no ocidente, mas deve se observar um espírito penitencial e de conversão.

POR QUE A QUARESMA NA IGREJA CATÓLICA? “A Igreja se une todos os anos, durante os quarenta dias da Grande Quaresma, ao Mistério de Jesus no deserto” (n. 540).

QUAL É, PORTANTO, O ESPÍRITO DA QUARESMA? Deve ser como um retiro coletivo de quarenta dias, durante os quais a Igreja, propondo a seus fiéis o exemplo de Cristo em seu retiro no deserto, se prepara para a celebração das solenidades pascoais, com a purificação do coração, uma prática perfeita da vida cristã e uma atitude penitencial.

O QUE É A PENITÊNCIA? A penitência, tradução latina da palavra grega que na Bíblia significa a conversão (literalmente a mudança do espírito) do pecador, designa todo um conjunto de atos interiores e exteriores dirigidos a reparação do pecado cometido, e o estado de coisas que resulta dele para o pecador. Literalmente mudança de vida, se diz do ato do pecador que volta para Deus depois de haver estado longe Dele, ou do incrédulo que alcança a fé.

QUE MANIFESTAÇÕES TEM A PENITÊNCIA? “A penitência interior do cristão pode ter expressões muito variadas. A Escritura e os Padres insistem sobre tudo em três formas: o JEJUM, a oração, a missa, que expressam a conversão com relação a si mesmo, com relação a Deus e com relação aos demais. Junto a purificação radical operada pelo Batismo ou pelo martírio, citam, como meio de obter o perdão dos pecados, os esforços realizados para reconciliar-se com o próximo, as lágrimas de penitência, a preocupação pela salvação do próximo, a intercessão dos santos e a prática da caridade “porque a caridade cobre a multidão dos pecados” (1 Pedro, 4, 8)” / (Catecismo Igreja Católica, n. 1434).

SOMOS OBRIGADOS A FAZER PENITÊNCIA? “Todos os fiéis, cada um a seu modo, estão obrigados pela lei divina a fazer penitência; não obstante, para que todos se unam em alguma prática comum de penitência, se fixaram uns dias de penitência para os fiéis que se dedicam de maneira especial a oração, realizam obras de piedade e de caridade e se negam a si mesmos, cumprindo com maior fidelidade suas próprias obrigações e, sobre tudo, observando o jejum e a abstinência” (Código de Direito Canônico, c. 1249).

QUAIS SÃO OS DIAS E TEMPOS PENITENCIAIS? “Na Igreja universal, são dias e tempos penitenciais todas as Sextas-feiras do ano e o tempo de quaresma” (Código de Direito Canônico, c. 1250).

QUE DEVE SE FAZER TODAS AS SEXTAS-FEIRAS DO ANO? Em lembrança do dia em que Jesus morreu na Santa Cruz, “todas as sextas-feiras, a não ser que coincidam com uma solenidade, deve se fazer a abstinência de carne, ou de outro alimento que seja determinado pela Conferência Episcopal; jejum e abstinência se guardarão na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa” (Código de Direito Canônico, c. 1251).

QUANDO É A QUARESMA? A Quaresma começa na Quarta-feira de Cinzas e termina imediatamente antes da Missa Vespertina no Domingo de Páscoa. Todo este período forma uma unidade, podendo-se distinguir os seguintes elementos: 1. A Quarta-feira de Cinzas. 2. Os domingos, definidos como, I,II,III,IV e V; e o Domingo de Ramos da Paixão do Senhor. 3. A Missa Crismal. 4. As férias.

O QUE É QUARTA-FEIRA DE CINZAS? É um princípio da Quaresma; um dia especialmente penitencial, em que manifestamos nosso desejo pessoal de CONVERSÃO a Deus. Quando vamos aos templos em que nos impõem as cinzas, expressamos com humildade e sinceridade de coração, que desejamos nos converter e crer de verdade no Evangelho.

QUANDO TEVE ORIGEM A PRÁTICA DAS CINZAS? A origem da imposição da cinza pertence a estrutura da penitência canônica. Começou a ser obrigatória para toda a comunidade cristã a partir do século X. A liturgia atual conserva os elementos tradicionais: imposição da cinza e jejum rigoroso.

QUANDO SE ABENÇOA E SE IMPÕEM A CINZA? A bênção e a imposição da cinza têm lugar dentro da Missa, após a homilia; embora em circunstâncias especiais, se pode fazer dentro de uma celebração da Palavra. As formas de imposição da cinza se inspiram na Escritura: Gn, 3, 19 e Mc 1, 15.

DE ONDE PROVEM A CINZA? A cinza procede dos ramos abençoados no Domingo da Paixão do Senhor, do ano anterior, seguindo um costume que se remonta ao século XII. A forma de benção faz relação a condição pecadora de quem a recebeu.

QUAL É O SIMBOLISMO DA CINZA? O simbolismo da cinza é o seguinte: 1. Condição fraca do homem, que caminha para a morte; 2. Situação pecadora do homem; 3. Oração e súplica ardente para que o Senhor os ajude; Ressurreição, já que o homem está destinado a participar no triunfo de Cristo;

A QUE NOS CONVIDA A IGREJA NA QUARESMA? A Igreja persiste nos convidando a fazer deste tempo como um retiro espiritual em que o esforço de meditação e de oração deve ser sustentado por um esforço de mortificação pessoal cuja medida, a partir deste mínimo, permanece a liberdade e generosidade de cada um.

O QUE DEVE SE CONTINUAR VIVENDO NA QUARESMA? Se vive bem a Quaresma, deverá se alcançar uma autêntica e profunda CONVERSÃO pessoal, preparando-nos, deste modo, para a maior festa do ano: o Domingo da Ressurreição do Senhor.

O QUE É A CONVERSÃO? Converter-se é reconciliar-se com Deus, apartar-se do mal, para estabelecer a amizade com o Criador. Supõe e inclui deixar o arrependimento e a Confissão (ver o Guia da Confissão) de todos e cada um de nossos pecados. Uma vez em graça (sem consciência de pecado mortal), temos de mudar desde dentro (em atitudes) tudo aquilo que não agrada a Deus.

POR QUE SE DIZ QUE A QUARESMA É UM “TEMPO FORTE” E UM “TEMPO PENITENCIAL? “Os tempos e os dias de penitência ao largo do ano litúrgico (o tempo de QUARESMA, cada Sexta-feira em memória da morte do Senhor) são momentos fortes da prática penitencial da Igreja. Estes tempos são particularmente apropriados para os exercícios espirituais, as liturgias penitenciais, as peregrinações como sinal de penitência, o jejum, a comunhão cristã de bens (obras caritativas e missionárias).” (Catecismo Igreja Católica, n. 1438)

COMO CONCRETIZAR MEU DESEJO DE CONVERSÃO? De diversas maneiras, mas sempre realizando obras de conversão, como, por exemplo: 1. Ir ao Sacramento da Reconciliação (Sacramento da Penitência ou Confissão) e fazer uma boa confissão: clara, concisa, concreta e completa. 2. Superar as divisões, perdoando e crescer em espírito fraterno. 3. Praticando as Obras de Misericórdia.

QUAIS SÃO AS OBRAS DE MISERICÓRDIA? As Obras de Misericórdia espirituais são: 1. Ensinar ao que não sabe. 2. Dar bons conselhos ao que necessita. 3. Corrigir ao que erra. 4. Perdoar as injúrias. 5. Consolar ao triste. 6. Sofrer com paciência as adversidades e fraquezas do próximo. 7. Rogar a Deus pelos vivos e pelos mortos As Obras de Misericórdia corporais são: 1. Visitar ao enfermo. 2. Dar de comer ao faminto. 3. Dar de beber ao sedento. 4. Socorrer ao cativo. 5. Vestir ao desnudo. 6. Dar abrigo ao peregrino. 7. Enterrar a os mortos.

QUE OBRIGAÇÕES TÊM UM CATÓLICO EM QUARESMA? Tem que cumprir com o preceito do JEJUM e a ABSTINÊNCIA, assim como a CONFISSÃO e COMUNHÃO anual.

EM QUE CONSISTE O JEJUM? O JEJUM consiste em fazer uma única refeição ao dia, sendo que se pode comer algo menos que o de costume pela manhã e a noite. Não se deve comer nada entre os alimentos principais, salvo em caso de doença.

A QUEM SE OBRIGA O JEJUM? Se obriga a viver a lei do jejum, todos os maiores de idade. (cfr. CIC, c. 1252).

O QUE É A ABSTINÊNCIA? Se chama abstinência a proibição de comer carne (vermelha ou branca e seus derivados).

A QUEM SE OBRIGA A ABSTINÊNCIA? A lei da abstinência se obriga aos que já tem catorze anos (cfr. CIC, c. 1252).

PODE SER MUDADA A PRÁTICA DA ABSTINÊNCIA? “A Conferência Episcopal pode determinar com mais detalhes o modo de observar o jejum e a abstinência, assim como substituirmos em parte por outras formas de penitência, sobre tudo por obras de caridade e práticas de piedade” (Código de Direito Canônico, c. 1253).

O QUE IMPORTA DE VERDADE NO JEJUM E NA ABSTINÊNCIA? Deve se cuidar no viver o jejum ou a abstinência com alguns mínimos, mas como uma maneira concreta como a que nossa Santa Mãe Igreja nos ajuda a crescer no verdadeiro espírito de penitência.

QUE ASPECTOS PASTORAIS CONVÊM RESSALTAR NA QUARESMA? O tempo de Quaresma é um tempo litúrgico forte, em que toda a Igreja se prepara para a celebração das festas pascais. A Páscoa do Senhor, o Batismo e o convite a reconciliação, mediante o Sacramento da Penitência, são suas grandes coordenadas. Se sugere utilizar como meios de ação pastoral:
1. A catequese do Mistério Pascal e dos sacramentos;
2. A exposição e celebração abundante da Palavra de Deus, como aconselha vivamente o cânon 767 § 3, 3.
3. A participação, se possível diária, na liturgia quaresmal, nas celebrações penitenciais e, sobre tudo, na recepção do sacramento da penitência: “são momentos fortes na prática penitencial da Igreja” (CEC, n. 1438), fazendo notar que “junto as conseqüências sociais do pecado, detesta mesmo o pecado enquanto é ofensa a Deus”;
4. O desenvolvimento dos exercícios espirituais, as peregrinações, como penitência assinam, as privações voluntárias como o jejum, a caridade, as obras beneficentes e missionários.

III Domingo do Tempo Comum – Ano B

Por Mons. Inácio José Schuster

Jonas 3, 1-5; 1 Coríntios 7, 29-31; Marcos 1, 14-20

Convertei-vos e crede no Evangelho!

Depois que João foi preso, Jesus aproximou-se da Galiléia pregando o Evangelho de Deus e dizia: «O tempo cumpriu-se e o Reino de Deus está próximo; convertei-vos e crede na Boa Nova». Devemos eliminar imediatamente os preconceitos. Primeiro: a conversão não se refere somente aos não-crentes, ou àqueles que se declaram «leigos»; todos indistintamente temos necessidade de converter-nos; segundo: a conversão, entendida em sentido genuinamente evangélico, não é sinônimo de renúncia, esforço e tristeza, mas de liberdade e de alegria; não é um estado regressivo, mas progressivo. Antes de Jesus, converter-se significava um «voltar atrás» (o termo hebreu, shub, significa inverter o rumo, regressar sobre os próprios passos). Indicava o ato de quem, em certo ponto da vida, percebia estar «fora do caminho»; então se detém, faz um novo planejamento; decide mudar de atitude e regressar à observância da lei e voltar a entrar na aliança com Deus. Há uma verdadeira mudança de sentido. A conversão, neste caso, tem um significado moral; consiste em mudar os costumes, em reformar a própria vida. Nos lábios de Jesus este significado muda. Converter-se já não quer dizer voltar atrás, à antiga aliança e à observância da lei, mas significa mais dar um salto adiante e entrar no Reino, acolher a salvação que veio aos homens gratuitamente, por livre e soberana iniciativa de Deus. Conversão e salvação trocaram de lugar. Já não está, como o primeiro, a conversão por parte do homem e portanto a salvação como recompensa da parte de Deus; mas está primeiro a salvação, como oferecimento generoso e gratuito de Deus, e depois a conversão como resposta do homem. Nisto consiste o «alegre anúncio», o caráter gozoso da conversão evangélica. Deus não espera que o homem dê o primeiro passo, que mude de vida, que faça obras boas, como se a salvação fosse a recompensa a seus esforços. Não; antes está a graça, a iniciativa de Deus. Nisto, o cristianismo se distingue de qualquer outra religião: não começa pregando o dever, mas o dom; não começa com a lei, mas com a graça. «Convertei-vos e crede»: esta frase não significa portanto duas coisas distintas e sucessivas, mas a mesma ação fundamental: Convertei-vos, isto é, crede! Convertei-vos crendo! A fé é a porta pela qual se entra no Reino. Se tivesse dito: a porta é a inocência, a porta é a observância exata de todos os mandamentos, a porta é a paciência, a pureza, poder-se-ia dizer: não é para mim, eu não sou inocente, careço de tal ou qual virtude. Mas se diz: a porta é a fé. A ninguém é impossível crer, porque Deus nos criou livres e inteligentes precisamente para fazer-nos possível o ato de fé nele. A fé tem diferentes caras: está a fé-assentimento do intelecto, a fé-confiança. Em nosso caso trata-se de uma fé-apropriação. Ou seja, de um ato pelo qual apropria-se, quase por prepotência, de algo. São Bernardo até utiliza o verbo usurpar: «Eu, o que não posso obter por mim mesmo, usurpo de Cristo!». «Converter-se e crer» significa fazer propriamente um tipo de ação repentina e engenhosa. Com ela, antes ainda de ter-nos fatigado e adquirido méritos, conseguimos a salvação, apropriamo-nos inclusive de um «reino». É Deus mesmo quem nos convida a fazê-lo; encanta-lhe ver este engenho, e é o primeiro em surpreender-se de que «tão poucos o realizem». «Convertei-vos!» não é, como se vê, uma ameaça, uma coisa que ponha triste e obrigue a caminhar com a cabeça baixa e por isso a tardar o mais possível. Ao contrário, é uma oferta incrível, um convite à liberdade e à alegria. É a «boa notícia» de Jesus aos homens de todos os tempos.

 

3º DOMINGO DO TEMPO COMUM – B
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha, MG

“Cantai ao Senhor um canto novo, cantai ao Senhor, ó terra inteira; esplendor, majestade e beleza brilham no seu templo santo” (cf. Sl. 95,1.6).

Novamente estamos diante da figura do Batista. João Batista é realçado no Evangelho de Marcos(Mc 1,14-20) como aquele que fala da conversão. Marcos apresenta o Batista como o profeta escatológico, dando ênfase para a chegada do Reino de Deus. A liturgia deste domingo nos permite fazer uma ligação entre as três leituras que acabamos de ouvir. Jonas(primeira leitura Jn 3,1-5.10) nos exorta sobre a conversão de Nínive, uma cidade que vivia no pecado e na luxúria, tendo o contexto presente das coisas que passam rapidamente, como as coisas do mundo, o prazer, o sexo, o dinheiro, a pornografia, o ter, o poder, tudo aquilo que vai na contra-mão da história do Reino de Deus. Jesus assimilou este mundo maravilhoso anunciando o primordial: a comunhão com a Trindade Santíssima, que ao contrário das coisas do mundo, tem uma beleza perene e eterna. O livro de Jonas tem como tônica mostrar que Deus quer a conversão de todos, e não só do povo de Israel. Por isso, Jonas deve pregar a conversão em Nínive, capital do Império dos gentios. Deus oferece como graça o chamado à conversão; quem o aceita, é salvo.
Meus irmãos, O Evangelho de hoje(Mc 1,14-20) nos apresenta o Reino de Deus: aqui está o mistério central da Encarnação do Senhor. O Reino de Deus não é somente aquele que viveremos depois da morte. O Reino de Deus começa aqui e agora. A plenitude do Reino de Deus fica para a vida eterna. “Kairós” é o tempo que temos neste momento e na situação peculiar em que nos encontramos, que é rico de graça, porque impregnado da presença de Deus. A nossa vida pessoal para tornar-se “kairós”  e abrir-nos a porta do Reino de Deus exige de cada um duas condições básicas: conversão e crença nos santos Evangelhos. Todos nós somos convidados, com insistência pela Santa Igreja, a nos convertermos e a crer em Cristo. Crendo em Cristo, aderindo ao seu projeto de Salvação, todos nós poderemos ter acesso a maior beleza da vida deste e do outro mundo: a vida em Deus – sentir-se na palma da mão de Deus, sentir-se amado e querido por Deus, sentir-se na presença de Deus. O eixo de toda a vida de Jesus é a instauração do Reino de Deus, que é o eixo de todo o Evangelho. Os próprios discípulos são escolhidos em função do Reino de Deus. Por isso Jesus começou a sua pregação na Galiléia, a marginal de todas as cidades de então, para demonstrar que o seu Reino é para os pequenos, para os pobres, para os excluídos da sociedade. Jesus usa do pequeno para que a grandeza do seu Reino infunde a vida dos homens e das mulheres com grande entusiasmo e revigorada vida de fé e esperança. Marcos anuncia a missão universal de Jesus à beira de um lago, o lago da Galiléia, à parte norte da Palestina, onde, aliás, em torno do lago de Genesaré, Jesus passou a maior parte de sua vida pública. Contemplaram-se os tempos, tanto para Jesus, como para a criatura humana. Jesus é a plenitude dos tempos. Deus se fez igual a nós tem tudo, menos no pecado, elevando a criatura humana à dignidade de filho e o transformando em parceiro da história. Simão e André, Tiago e João, chamados por Jesus, somos todos nós. Todos somos chamados. No Evangelho Jesus escolheu quatro pescadores, profissão malvista naquele tempo e considerada imprópria para pessoas boas e tementes a Deus.  Nenhum pecador, nenhum pobre, nenhuma criatura é excluída. As condições continuam as mesmas duas: converter-se e crer no Evangelho, na pessoa de Jesus, nos seus ensinamentos e na sua missão. Uma fé comunitária e dialogal, desapegando-se de tudo, tanto dos bens materiais, quanto dos bens pessoais e dos bens sentimentais. O desapego provavelmente é a condição mais difícil do discipulado no Novo testamento, mesmo porque, a piedade do Antigo Testamento estava muito ligada a posse de bens materiais e sociais. No desapego Jesus é o grande mestre: nada teve de próprio, nem onde reclinar a cabeça.
Meus irmãos, A segunda leitura(1Cor 7,29-31) nos relata o matrimônio e o celibato. Paulo esboça uma visão global referente à questão do estado de vida. O estado de vida não é o mais importante, acha ele, pois é uma realidade provisória, perdendo sua importância diante do definitivo, que se aproxima depressa. Casamento, prazer, posse, como também o contrário de tudo isso, são o revestimento próprio da vida, o esquema como diz o texto grego. Este esquema desaparecerá. Já temos em nós o germe de uma realidade completamente nova, e esta é que importa. Assim Paulo evoca a dialética entre o provisório e o definitivo, o necessário e o significativo, o urgente e o importante. Mas esta dialética deve ser formulada novamente por cada geração e cada pessoa.
A Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios é uma explicação de São Paulo respondendo a perguntas dos coríntios com relação ao matrimônio. As respostas, cheias de bom senso e sem desprezo algum da sexualidade, revelam um tom de “relativismo escatológico”, ou seja: tudo isso não é o mais importante, para quem vive na expectativa da Parusia. Porque o “tempo é breve”(1 Cor 7,29), matrimônio ou celibato, dor ou alegria, posse ou pobreza são, num certo sentido, indiferentes: são um esquema que passa. Paulo continua, pois, mostrando o valor de seu celibato, com plena disponibilidade para as coisas de Cristo: uma espécie de antecipação da Parusia. Irmãos, Como os primeiros apóstolos somos convidados a pescar gente dentro do projeto do Reino de Deus. Não se trata só de pescar gente para vir à Igreja, mas sim de formar parceria com muita gente para construir um mundo melhor. O pescador de peixe pesca para seu próprio benefício. A Igreja não é uma organização voltada só para si mesma, preocupada apenas com seu próprio sucesso. A pesca da Igreja, que é povo de Deus em marcha, tem que ser diferente: não é estratégia para aumentar a clientela. O pescador de gente, à moda de Jesus, pesca para dar às pessoas pescadas uma tarefa empolgante, uma oportunidade maior de fazer diferença neste mundo atribulado. Nossa pesca é concreta, com problemas, angústias, conquistas e alegrias próprios da nossa região e do nosso tempo. Aqui onde estamos, o projeto do Reino está também entre o já e o ainda-não. Temos já e ainda-não no trabalho, nas escolas, nas famílias, na política, nas Igrejas, na ciência…e tendo esperança e fé que Deus está em nós, tempo de paz e de prosperidade. Diante de tantas propostas efêmeras e falas de felicidade, o Reino de Deus é a opção mais acertada de felicidade e de compromisso de amor e de paz!

 

Jesus: o “como se” desta vida
Evangelho do terceiro domingo do Tempo Comum
Pe. Angelo del Favero *

ROMA, sexta-feira, 20 de janeiro de 2012 (ZENIT.org) – 1 Cor 7,29-31: “Isto vos digo, irmãos: o tempo é breve. A partir de agora, aqueles que têm esposas vivam como se não as tivessem; aqueles que choram, como se não chorassem; aqueles que se alegram, como se não se alegrassem; aqueles que compram, como se não possuíssem; aqueles que usam os bens do mundo, como se não os usassem plenamente. Porque a figura deste mundo passa”.

Mc 1,14-20: “Depois que João foi preso, Jesus foi para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus e dizendo: ‘O tempo foi cumprido e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no evangelho’. Passando à beira do Mar da Galileia, viu Simão e André, irmão de Simão, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores. Jesus lhes disse: ‘Vinde e segui-me. Eu vos farei pescadores de homens’. E eles deixaram imediatamente as redes e o seguiram. Um pouco adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que também estavam no barco a consertar as redes. E logo chamou-os. Também eles deixaram seu pai, Zebedeu, no barco com os ajudantes e foram atrás dele”.

A resposta imediata dos primeiros discípulos chamados pelo Senhor mostra claramente o significado da exortação de Paulo a viver “como se” o que acontece ao nosso redor fosse, em si mesmo, completamente insignificante: “Isto vos digo, irmãos: o tempo é breve. E a figura deste mundo passa” (1 Cor 7,29-31). É claro que Simão, André, Tiago e João nunca teriam deixado o trabalho e a família se não fosse Jesus quem os chamasse. Isso quer dizer que o desapego emocional do próprio mundo não pode ser compreendido sem um encontro com aquele por meio de quem “todas as coisas foram feitas”, e sem o qual “nada foi feito de tudo o que existe” (1 Jo , 3). Quando um homem parte de casa para um lugar distante, de férias, ou para participar de uma convenção, ele se hospeda durante algum tempo num hotel. Ali ele come, dorme, usa o necessário para o dia-a-dia, conhece novas pessoas, e, no caso da convenção, participa ativamente nos trabalhos. Tudo isso é real e importante para ele, mas é temporário, de breve duração. Ele está ciente de que terá que retornar à sua cidade, à sua casa e ao seu trabalho, porque aquelas coisas é que são o seu mundo real. Este “outro” mundo do hotel é alheio a ele. Ele usa todas as coisas dali “como se não as usasse plenamente” (1 Cor 7,31), porque elas não são suas e ele as terá que abandonar. Essa convenção, ou as férias, são apenas um parêntese na sua vida e em breve serão apenas passado. A santa carmelita Teresa de Ávila comparava a existência terrena com o curto espaço de uma noite passada numa hospedaria ruim. Teresa certamente não desprezava este mundo, mas o conhecimento que lhe tinha sido concedido da sublimidade do Outro a fazia desejar a morte, como um parto necessário para começar a viver em plenitude a felicidade inefável do Reino dos Céus. Por isso ela não considerava a morte como uma destruição da vida, mas como a sua meta cobiçada, como implicitamente anuncia o Evangelho: “O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo” (Mc 1.14). Tal como para Teresa, também para os primeiros discípulos tudo isso tem apenas um nome: Jesus Cristo. “Segui-me, e eu vos farei pescadores de homens. E eles deixaram imediatamente as redes e o seguiram”(Mc 4.17). O reino de Deus é seguir Jesus. E é apenas pelo nome de Jesus que São Paulo nos exorta a viver o cenário passageiro deste mundo com um feliz e responsável desprendimento, animados e sustentados pelo pensamento da “definitividade” beata do Outro: “A partir de agora, aqueles que têm esposas vivam como se não as tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que se alegram, como se não se alegrassem…” (1 Cor 7,29-31). O apóstolo dá um testemunho significativo na carta aos Filipenses: “Eu certamente não alcancei a meta, não cheguei à perfeição, mas estou correndo para conquistá-la, porque fui conquistado por Cristo Jesus. Irmãos, eu não considero ainda que cheguei à conquista. Tudo o que sei é isto: esquecendo o que está por trás de mim e voltado em direção ao que está na minha frente, eu corro para a meta, para o prêmio que Deus me chama a receber no céu, em Cristo Jesus” (Fil. 3,12-14). Estas palavras vêm de um homem que está cheio da alegria de viver. Como os primeiros discípulos e todos os santos, Paulo foi capturado por Cristo não para abandonar a imagem deste mundo, mas para ser fermento misturado com ele. Também para nós, na medida em que conseguimos viver “santos e irrepreensíveis diante dele no amor” (Ef 1.4), a comunhão em Cristo pode se tornar uma energia incontrolável para espalharmos a alegria do Evangelho pelo mundo inteiro. O “ainda não” do Paraíso se torna um “já” na figura deste mundo, porque, de algum modo e sempre, “o viver é Cristo” (Fil. 1,21-23). Isso nos ajuda a entender aquele “como se”, que foi repetido cinco vezes e que nos soa completamente impossível do ponto de vista psicológico. O que significa, para o marido, viver como se não tivesse mulher, e vice-versa? O que quer dizer, para aqueles que trabalham, viver como se não trabalhassem; para quem estuda, como se não estudasse; para aqueles que têm, como se não tivessem; para aqueles que vivem na imagem deste mundo, como se não vivessem? Significa viver e fazer todas essas coisas sem absolutizá-las como fins em si mesmas, mas usá-las como meios para fazer a vontade de Deus, realizando o Bem e anunciando com a própria vida o Evangelho do seu amor. A alegria de viver está na Verdade e no Amor. E a Verdade e Amor é Cristo. Converter-se e crer no evangelho é exatamente isso.
——–
* Cardiologista, o Pe. Angelo del Favero co-fundou em 1978 um dos primeiros Centros de Apoio à Vida perto da Catedral de Trento. Tornou-se carmelita em 1987 e sacerdote em 1991. Foi conselheiro espiritual no santuário de Tombetta, perto de Verona. Atualmente se dedica à espiritualidade da vida no convento carmelita de Bolzano, na paróquia de Nossa Senhora do Monte Carmelo.

 

 

3º Domingo do Tempo Comum  

14Depois que João foi preso, Jesus dirigiu-se para a Galiléia. Pregava o Evangelho de Deus, e dizia: 15“Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; fazei penitência e crede no Evangelho.” 16Passando ao longo do mar da Galiléia, viu Simão e André, seu irmão, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. 17Jesus disse-lhes: “Vinde após mim; eu vos farei pescadores de homens.” 18Eles, no mesmo instante, deixaram as redes e seguiram-no. 19Uns poucos passos mais adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam numa barca, consertando as redes. E chamou-os logo. 20Eles deixaram na barca seu pai Zebedeu com os empregados e o seguiram.

João Batista é preso e Jesus começa sua pregação do “Evangelho de Deus”, ou seja, a Boa Nova. Aqui, já se destaca a divindade de Jesus Cristo, que inicia a pregação pela chegada iminente do Reino, onde exige conversão autêntica do homem a Deus, conforme, outrora, fizeram os Profetas (Jr 3,22; Is 30,15; Os 14,2 etc…). Tanto João Batista como Cristo e os Seus Apóstolos insistem que é preciso converter-se, mudar de atitude e de vida como condição prévia para receber o Reino de Deus. Alguns anos atrás, o Beato João Paulo II (†2005) realça a importância da conversão, expressão clara da misericórdia de Deus: “Portanto, a Igreja professa e proclama a conversão. A conversão a Deus consiste sempre em descobrir a Sua misericórdia, isto é, esse amor que é paciente e benigno” (cf. 1Cor 13,4); amor, que é fiel até às últimas conseqüências na história da aliança com o homem: até à cruz, até a morte e à ressurreição de Seu Filho. A conversão a Deus é sempre fruto do ‘reencontro’ com este Pai, rico em misericórdia.   O autêntico conhecimento de Deus, Deus da misericórdia e do amor benigno, é uma fonte constante e inesgotável de conversão, não somente como momentâneo ato interior, mas também como disposição permanente, como estado de espírito. Aqueles que assim chegam ao conhecimento de Deus, aqueles que assim O ‘vêem’, não podem viver de outro modo que não seja convertendo-se a Ele continuamente. Passam a viver in statu conversionis, em estado de conversão; e é este estado que constitui a característica mais profunda da peregrinação de todo homem sobre a terra in statu viatoris, em estado de peregrino” (Encíclica Dives in Misericórdia nº 13, João Paulo II, 1980).   O Evangelista narra nestes versículos o chamamento de Jesus a alguns dos que formariam parte do Colégio Apostólico. O Messias desde o começo do Seu ministério público na Galiléia, busca colaboradores para levar a cabo a Sua missão de Salvador e Redentor. E busca aqueles habituados ao trabalho, acostumados ao esforço e à luta constantes, simples de costumes, enfim os ocupados. A desproporção humana é patente, mas isso não constitui um obstáculo para que a entrega seja generosa e livre. A luz acesa nos seus corações foi suficiente para abandonar tudo. O simples convite ao seguimento bastou para se porem incondicionalmente à disposição do Mestre.   É Jesus quem escolhe; meteu-Se na vida dos Apóstolos, como Se mete na nossa, sem pedir autorização: Ele é o nosso Senhor.

Concluímos com trecho da canção “Caminhada” (Pe. Jonas Abib)
Alguém chama, Ele me ama e me conduz e me quer feliz.  Ele fala, só escuto, paro mudo, e o que Ele me diz…  Vem me seguir, que Eu caminho junto com você ao fim  Depois da caminhada você é feliz,  se deixa todas coisas só por mim…  Por mim!… vem me seguir…  Que o Meu caminho é o da porta estreita sim,  Porém ao acabar junto de mim,  Você vai entender porque é bom, é bom seguir…

 

Santo Evangelho (Mc 1, 1-8)

2º Domingo do Advento – Domingo 10/12/2017 

Primeira Leitura (Is 40,1-5.9-11)
Leitura do Livro do Profeta Isaías:

1“Consolai o meu povo, consolai-o! — diz o vosso Deus. 2Falai ao coração de Jerusalém e dizei em alta voz que sua servidão acabou e a expiação de suas culpas foi cumprida; ela recebeu das mãos do Senhor o dobro por todos os seus pecados”. 3Grita uma voz: “Preparai no deserto o caminho do Senhor, aplainai na solidão a estrada de nosso Deus. 4Nivelem-se todos os vales, rebaixem-se todos os montes e colinas; endireite-se o que é torto e alisem-se as asperezas: 5a glória do Senhor então se manifestará, e todos os homens verão juntamente o que a boca do Senhor falou. 9Sobe a um alto monte, tu, que trazes a boa-nova a Sião; levanta com força a tua voz, tu, que trazes a boa-nova a Jerusalém, ergue a voz, não temas; dize às cidades de Judá: ‘Eis o vosso Deus, 10eis que o Senhor Deus vem com poder, seu braço tudo domina: eis, com ele, sua conquista, eis à sua frente a vitória. 11Como um pastor, ele apascenta o rebanho, reúne, com a força dos braços, os cordeiros e carrega-os ao colo; ele mesmo tange as ovelhas-mães’”.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Responsório (Sl 84)

— Mostrai-nos, ó Senhor, vossa bondade, / e a vossa salvação nos concedei!
— Mostrai-nos, ó Senhor, vossa bondade, / e a vossa salvação nos concedei!

— Quero ouvir o que o Senhor irá falar:/ é a paz que ele vai anunciar;/ a paz para o seu povo e seus amigos, / para os que voltam ao Senhor seu coração. / Está perto a salvação dos que o temem, / e a glória habitará em nossa terra.

— A verdade e o amor se encontrarão, / a justiça e a paz se abraçarão;/ da terra brotará a fidelidade, e a justiça olhará dos altos céus.

— O Senhor nos dará tudo o que é bom, / e a nossa terra nos dará suas colheitas;/ a justiça andará na sua frente/ e a salvação há de seguir os passos seus.

 

Segunda Leitura (2Pd 3,8-14)
Leitura da Segunda Carta de São Pedro:

8Uma coisa vós não podeis desconhecer, caríssimos: para o Senhor, um dia é como mil anos e mil anos como um dia. 9O Senhor não tarda a cumprir sua promessa, como pensam alguns, achando que demora. Ele está usando de paciência para convosco. Pois não deseja que alguém se perca. Ao contrário, quer que todos venham a converter-se. 10O dia do Senhor chegará como um ladrão, e então os céus acabarão com barulho espantoso; os elementos, devorados pelas chamas, se dissolverão, e a terra será consumida com tudo o que nela se fez. 11Se desse modo tudo se vai desintegrar, qual não deve ser o vosso empenho numa vida santa e piedosa, 12enquanto esperais com anseio a vinda do Dia de Deus, quando os céus em chama se vão derreter, e os elementos, consumidos pelo fogo, se fundirão? 13O que nós esperamos, de acordo com a sua promessa, são novos céus e uma nova terra, onde habitará a justiça. 14Caríssimos, vivendo nessa esperança, esforçai-vos para que ele vos encontre numa vida pura e sem mancha e em paz.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Anúncio do Evangelho (Mc 1,1-8)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Marcos.
— Glória a vós, Senhor.

1Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. 2Está escrito no Livro do profeta Isaías: “Eis que envio meu mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho. 3Esta é a voz daquele que grita no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas! ’” 4Foi assim que João Batista apareceu no deserto, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados. 5Toda a região da Judeia e todos os moradores de Jerusalém iam ao seu encontro. Confessavam seus pecados e João os batizava no rio Jordão. 6João se vestia com uma pele de camelo e comia gafanhotos e mel do campo. 7E pregava, dizendo: “Depois de mim virá alguém mais forte do que eu. Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar suas sandálias. 8Eu vos batizei com água, mas ele vos batizará com o Espírito Santo”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

 

A IGREJA CATÓLICA CELEBRA E VENERA HOJE
São Melquíades, grande defensor da fé

São Melquíades aproveitou a liberdade religiosa para organizar as sedes paroquiais em Roma e recuperar os bens da Igrejas perdidos durante a perseguição

Hoje nos deixamos atingir pela santidade de vida de um Papa que buscou no Pastor Eterno e Universal toda a graça que necessitava para ser fiel num tempo de transição da Igreja. São Melquíades, de origem africana, fez parte do Clero Romano, até que em 310 faleceu o Papa Eusébio e foi eleito sucessor de São Pedro.

No período de seu governo, Melquíades sofreu com a perseguição aos cristãos pelo Imperador Máximo. Esta perseguição só teve um descanso quando Constantino venceu Máximo na histórica batalha em Roma (312) a qual atribuiu ao Deus dos cristãos. Com isto, surgiu o Edito de Milão em 313, concedendo a liberdade religiosa; assim, São Melquíades passou do Papa da perseguição para o Papa da liberdade dos cristãos.

Durante os quatro anos de seu Pontificado, as piores ameaças nasceram no interior da Igreja com os hereges. São Melquíades foi grande defensor da Fé, por isso combateu principalmente o Donatismo, que contestava a legitimação da eleição dos ministros de Deus e fanaticamente se substituía a qualquer autoridade.

Aproveitou Melquíades, a liberdade religiosa para organizar as sedes paroquiais em Roma e recuperar os bens da Igrejas perdidos durante a perseguição. São Melquíades através da Eucaristia semeou a unidade da Igreja de Roma com as demais igrejas. Entrou no céu em 314 e foi enterrado na Via Ápia, no cemitério de Calisto. Do Doutor Santo Agostinho, São Melquíades recebeu o seguinte reconhecimento: “Verdadeiro filho da paz, verdadeiro pai dos cristãos”.

São Melquíades, rogai por nós!

II Domingo do Advento – Ano B

Por Mons. Inácio José Schuster

Neste segundo domingo do Advento, eu me aterei à segunda leitura tirada da Segunda Carta atribuída a Pedro. Trata-se do último texto do Novo Testamento a ser escrito: foi redigida, provavelmente, nos primeiros anos do segundo século de nossa era. “Caríssimos – diz-nos ele – deveis saber que mil anos diante do Senhor são como um dia, e um dia como mil anos.” O autor deveria, naquela época, combater o erro daqueles cristãos que, cansados de esperar, imaginavam que a Parusia não viria mais, que O Senhor Jesus não mais se manifestaria e que o Cristianismo, conseqüentemente, dissolver-se-ia na História. Bem, devemos dizer, desde já, que nenhum desses autores imaginou que a História pudesse ainda caminhar dois mil anos; e nenhum de nós espera o fim do mundo para seus próprios dias, ou para muito em breve, antes mesmo de consumar a vida neste mundo. É possível, embora não tenhamos nenhuma certeza, que este fim do mundo ainda demore centenas ou milhares de anos. Mas isto não importa. Importa o seguinte: nós só vivemos uma vida; não existe reencarnação para quem tem fé cristã. Jamais repetiremos esta vida. Existe uma única encarnação, e esta se deu quando fomos concebidos no seio materno. A nossa existência limita-se a setenta, oitenta ou noventa anos, mas, cedo ou tarde, ela termina. Se o final do mundo se prolonga – e nenhum de nós saberá dizer como e quando, se com o fogo ou com o frio – nós podemos dizer que, no dia em que deixarmos de viver para este mundo aqui, encontraremos o nosso fim. Aquele será o meu fim do mundo, aquele será o seu fim do mundo. Nós não nos encaminhamos, no entanto, para o nada ou para o vazio. Nós nos encaminhamos para uma grande plenitude. Deus manifesta-Se e revela-Se a nós, como Aquele que será o nosso futuro, para sempre, e este mundo, embora possa passar por uma grande metamorfose e transformação, pelo fogo ou pelo calor – como diz o texto – ou pelo frio gélido, como falam os cientistas, não interessa muito, isto não modificaria substancialmente a situação; Deus não nos criou para aniquilação. Novos céus e novas terras existirão, qualitativamente diversas deste que nós conhecemos agora e onde reinará a Justiça. E por isso mesmo, acalentados com essa esperança, nós caminhamos apressados em direção a esse fim, iluminados, porém, pela Palavra de Deus.

 

NASCEMOS PORQUE DEUS NÃO PERDEU A ESPERANÇA NA HUMANIDADE
Padre Bantu Mendonça

São Marcos nos apresenta uma novidade como ponto central na história da humanidade e na vida individual de todos os homens: a proclamação de Jesus de Nazaré como o Ungido e Messias por ser Ele o Filho do Deus único e verdadeiro. Essa proclamação é necessária nos dias de hoje até para muitos batizados que vivem de costas a essa realidade. O Antigo Testamento está ligado ao Novo Testamento porque o primeiro é a palavra da esperança e o segundo é o cumprimento dela. Ambos escritos – sob a inspiração divina – se complementam como uma história única em que Deus Todo-Poderoso intervém de modo pessoal. Deus não é somente o providente e diretor, mas Ele também intervém com Sua presença para impedir que tudo acabe em tragédia pelo triunfo do mal. João, no deserto, é uma figura que representa a atualização dos desejos da humanidade: a proximidade de Deus na vida de todos os que não conseguem sair da miséria vivida, quer seja na ordem material, quer na ordem espiritual. O Deus de João Batista é um Deus próximo, amigo e protetor. É o Deus que os profetas anunciaram e que João Batista recorda como eterno aliado para quem optou pelo bem. São Marcos inicia seu Evangelho com as narrativas sobre João Batista e o batismo de Jesus, e o encerra com a narrativa do encontro do túmulo vazio pelas mulheres (o que vem a seguir, em Mc 16,9-20 é consensualmente um acréscimo posterior ao texto original). Marcos segue a trajetória delineada por Pedro, registrada por Lucas em Atos dos Apóstolos, segunda a qual o testemunho de Jesus abrange o período que vai “desde o batismo de Jesus até o dia em que foi arrancado dentre nós” (cf. At 1,22). Posteriormente, Mateus e Lucas elaborarão as narrativas da infância de Cristo, que serão inseridas antes das narrativas sobre João Batista e sobre o batismo do Senhor. Por último, João escreverá seu Evangelho iniciando-o com o Prólogo do Verbo encarnado para, em seguida, narrar os fatos relativos a João Batista. João Batista e Jesus têm íntima relação em seus ministérios. Lucas, de modo especial, destaca essa relação no seu Evangelho, fazendo um expressivo paralelismo nas suas narrativas de infância de João Batista e de Jesus. João Batista era filho de sacerdote, porém, rompe com a tradição sacerdotal e com o Templo de Jerusalém, indo para a periferia (“deserto”) às margens do rio Jordão, pregando a conversão à prática da justiça, por meio da qual os pecados são perdoados. Para o sistema religioso-sacerdotal da época, os pecados só poderiam ser perdoados diante dos sacerdotes no Templo de Jerusalém e diante de ofertas e sacrifícios. João descarta essa doutrina, anunciando que é pela prática da justiça que se supera o pecado. Com a sua pregação ele é visto como o cumprimento da profecia de Isaías, por preparar o caminho de Jesus Cristo. A Igreja toma como modelo de sua pregação neste Advento a mudança de mentalidade, como a que se dá naquele que se arrepende de um desígnio ou plano anterior como também de uma determinação errada ou ainda de uma atuação desastrosa. E as palavras dos antigos profetas indicam o novo caminho a empreender: “Deixai de praticar o mal e aprendei a fazer o bem”. Somente com este propósito poderemos entender no seu verdadeiro significado a visita de Jesus e Seu modelo como homem. Convido-lhe a ser como um menino que, diante do presépio, teve um colóquio com Jesus: – Que gostaria Jesus que eu te desse como presente de aniversário? – Três coisas – disse-lhe Jesus: Dá-me o desenho que fizeste hoje de manhã. – Mas ninguém gostou dele… – Por isso mesmo! Quero que sempre me dês aquilo que os outros não gostam de ti ou que tu mesmo olhas como frustração. Como segundo presente dá-me teu prato. – Mas eu quebrei o prato… – Por isso mesmo! Eu quero tudo que na tua vida está roto e fragmentado. Eu te ajudarei a recompô-lo. E a terceira coisa? Quero, pois, a resposta que deste aos teus pais quando te perguntaram pela quebra do prato. – Mas foi uma mentira! – Por isso mesmo! Eu te mostrarei como a verdade é mais proveitosa do que qualquer mentira, mesmo que nesta última encontres a desculpa que te parece necessária, para evitar que o fizeste por raiva, por pirraça. Gostaria de lembrá-lo de que para Deus nada é impossível. O que o Todo-Poderoso não é capaz de fazer é deixar de amá-lo. A sua vida para Ele tem conserto. Cada criatura, ao nascer, traz a mensagem de que Deus Pai ainda não perdeu a esperança no homem.

 

ESTEJA PREPARADO PARA A VINDA DO SENHOR
Homilia do Cardeal Dom Odilo Scherer no Hosana Brasil 2011

Estamos celebrando o Advento do Senhor, tempo que, na liturgia, é muito breve, mas muito intenso. Ele tem duas dimensões, uma que recordamos com facilidade, pois o Advento nos prepara para o Natal. De fato, neste tempo, nos preparamos para celebrar a solenidade do Natal do Senhor, recordando as promessas de salvação e do envio do Salvador ao mundo. Recordamos a fidelidade de Deus às suas promessas. O Senhor promete e cumpre; Ele já cumpriu a promessa de nos enviar o Salvador e, em cada momento da história a humanidade, somos chamados a acolher novamente o Salvador que veio e vem. Jesus veio para toda a humanidade e nós somos chamados a acolhê-Lo, a “abrir as portas ao Redentor” para que Ele entre em nossa vida. Que Seu Evangelho possa ser a luz que direciona toda a humanidade a viver bem. Assim como ouvimos o convite de Isaías: “Casa de Jacó, vinde todos caminhemos à luz do nosso Deus ”. Casa de Jacó significa o povo de Deus, toda a Igreja. Deixemo-nos guiar por Ele se quisermos que a salvação se realize. A outra dimensão do Advento é a próxima vinda do Salvador. Nós professamos no ‘Creio em Deus Pai’ a vinda gloriosa de Jesus crucificado que vem para julgar os vivos e mortos.  O tempo do Advento nos faz olhar para frente, para que o vai acontecer e nos lembra que vivemos em contínuo advento, ou seja, um tempo constante à espera do Deus que vem. De fato, Deus vem sempre, todos os dias, ao nosso encontro, mas nós precisamos também ir ao encontro d’Ele até o dia de Sua volta. Que nossa vida toda seja uma preparação de caminho ao encontro com o Senhor. Não percamos tempo com comilanças nem bebedeira, que são as ocupações do dia a dia, como se isso fosse o nosso tudo. Neste segundo domingo do Advento, a Palavra de Deus é muito bonita. Na segunda leitura da Carta de São Pedro, o autor responde ao questionamento: “Mas quando Ele virá?”. Já os apóstolos tinham essa preocupação, pois quando sabemos quando será, tudo se arranja. E Jesus respondeu a eles: “Só o Pai do Céu sabe quando vai ser”. Jesus diz que o importante é estarmos sempre preparados. E se alguém pergunta por que Deus não vem logo, Ele nos diz que “não vem logo porque quer que todos se salvem”. Deus tem paciência com todos os pecadores, dando tempo ao tempo. O Senhor dá tempo para que todos nós tenhamos a oportunidade de nos convertermos. É preciso estarmos sempre preparados, sempre no caminho certo. Nós vivemos no tempo do provisório. Tudo passa, porém do Senhor esperamos céus novos e nova terra onde reinará a justiça. No novo céu e na nova terra, onde realmente reina a justiça, é para lá que nós vamos. O Evangelho mostra a pregação de João Batista, que batiza o povo no Rio Jordão.  Uma voz que clama no deserto “Preparai o caminho do Senhor”. O deserto é lugar de prova, de acolher ou não a voz de Deus. João Batista fala ao deserto, onde muitos não querem ouvir. A Igreja, muitas vezes, fala ao deserto, mas fala com fé, sabendo que a Palavra de Deus tem sua força. A palavra do Senhor é consolo tão importante para nós! O Evangelho é uma palavra da misericórdia de Deus. “Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a Vida Eterna” (João 3,16). Como é importante dizer, repetir isso para que ninguém se desespere, mesmo quando estão no fundo do poço, caídos e prostrados, a fim de que tenham coragem de estender sua mão, pois a mão de Deus já está estendida! O Advento é um tempo de reavivar a esperança em Deus, mas também momento de conversão, de voltar-se para o Pai; tempo de nos convertermos, de confirmarmos nossa fé no Senhor. A segunda leitura nos adverte: “ninguém se distraia, que estejamos sempre prontos”. Que este tempo nos faça olhar para a vida toda com muita esperança e confiança em Deus. Nunca percamos de vista a meta de irmos ao encontro do Senhor quando Ele vier. Nossa vida é estarmos sempre prontos, com nossa fé acesa para irmos ao encontro do Senhor quando Ele vier.

 

Neste domingo aparece em grande destaque à figura de São João Batista, apelando à conversão e anunciando a vinda do Senhor: “Arrependei-vos, porque está perto o reino dos Céus”. Quem é João Batista? É um homem de Deus, ou seja, é um homem escolhido por Deus e consagrado a Deus e, como todos os profetas, não fala de si próprio, mas anuncia a mensagem divina: na sua vida, o seu trabalho pessoal dá credibilidade à sua missão. São Mateus diz-nos que João pregava no deserto. As primeiras comunidades cristãs consideravam que o deserto era o local onde vivia o diabo. Viver no deserto era sinal de desejar enfrentar o mal e vencê-lo. Jesus Cristo foi tentado no deserto. A descrição do vestuário de João deixa bem claro que é alguém que vive na miséria e que se alimenta somente daquilo que vai encontrando (gafanhotos e mel silvestre). João é um homem despojado de tudo aquilo que possa dar à vida certo conforto. A sua pregação dirige-se a todos. “Acorria a ele gente de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a região do Jordão”. Duas classes sociais são destacadas no evangelho: os fariseus e os saduceus. Os fariseus representam aquelas pessoas espiritualmente rígidas e conservadoras que impedem qualquer mudança; os saduceus representam aquelas pessoas que vivem preocupadas em preservar a sua condição social, os seus interesses e o seu prestígio. Também os fariseus e os saduceus “vinham ao seu (João) batismo”, mas João sabe bem que tudo é hipocrisia: “Raças de víboras… o machado já está posto à raiz das árvores. Por isso toda a árvore que não dá fruto será cortada e lançada ao fogo”. Neste domingo, o termo e o tema que aparecem nas leituras bíblicas é a conversão. Muitas vezes, considera-se conversão uma mudança de conduta moral individual com a finalidade de serenar a consciência pessoal, minimizando a transcendência social dos comportamentos. A conversão que João Batista prega é uma insistência na proximidade do Reino de Deus: trata-se de abrir um caminho para o Senhor. Converter-se é tornar possível que Deus seja o centro da minha vida. Mais ainda: João Batista fala da conversão da comunidade: é a comunidade que deve “abrir-se” à vontade de Deus, a encontrar-se em Deus: aqui, a responsabilidade é de todos. Trata-se de recuperar os sentimentos que tinha o povo de Israel: “a fé é uma religião histórica que privilegia o acontecimento da aliança como o lugar de encontro entre Deus e os homens”. Para o povo de Israel, conversão é deixar-se conduzir por Deus. Para ele e para nós, conversão é também saber viver comunitariamente, conscientes de que é Deus quem dá o verdadeiro sentido à nossa vida. João Batista anuncia o encontro definitivo de Deus com os homens. Hoje, a grande questão sobre a conversão é esta: como é que sentimos, aumentamos e vivemos o desejo de nos encontrar com Deus? Mas, que devemos esperar do encontro com Deus? O texto de Isaías ajuda-nos a purificar o significado do encontro com Deus. O profeta diz que o Espírito do Senhor é sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, conhecimento e temor de Deus, ou seja, tudo aquilo que nos faz compreender a realidade a partir da verdade de Deus. Cada um destes carismas ajuda o homem a ver a verdade como o Espírito de Deus a vê. É importante deixar claro que somente a experiência espiritual do homem (adorar, rezar, contemplar o mistério de Deus), lhe dá alegria e uma capacidade mística. O Espírito do Senhor dá uma nova dimensão ao conceito de justiça, porque esta se converte em instrumento de defesa do mais fraco e de extermínio dos ímpios. O Espírito do Senhor torna possível o impossível: a harmonia entre o lobo e o cordeiro, a pantera e o cabrito, o bezerro e o leãozinho. Cada conjunto de animais apresentados na primeira leitura representa comportamentos e interesses que aparentemente são incompatíveis: o mais forte e o poderoso renuncia ao seu domínio sobre o mais fraco e coloca-se num plano de igualdade.

 

2º Domingo do Advento Mc 1, 1-8: “Apareceu João no deserto, batizando e pregando um batismo de conversão”
1Princípio da boa nova de Jesus Cristo, Filho de Deus. Conforme está escrito no profeta Isaías: 2Eis que envio o meu anjo diante de ti: ele preparará o teu caminho. 3Uma voz clama no deserto: Traçai o caminho do Senhor, aplanai as suas veredas (Mal 3,1; Is 40,3). 4João Batista apareceu no deserto e pregava um batismo de conversão para a remissão dos pecados. 5E saíam para ir ter com ele toda a Judéia, toda Jerusalém, e eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados. 6João andava vestido de pêlo de camelo e trazia um cinto de couro em volta dos rins, e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. 7Ele pôs-se a proclamar: “Depois de mim vem outro mais poderoso do que eu, ante o qual não sou digno de me prostrar para desatar-lhe a correia do calçado. 8Eu vos batizei com água; ele, porém, vos batizará no Espírito Santo.”

O Evangelista Marcos põe em relevo que Jesus é o Messias anunciado pelos Profetas e o Filho único do Pai por natureza. Em resumo, podemos dizer que o conteúdo do Evangelho de Marcos será anunciar que Jesus Cristo, é Deus e Homem verdadeiro. A palavra “Evangelho” significa boa nova, que Deus comunica aos homens por meio do Seu Filho. O conteúdo dessa boa nova é em primeiro lugar o próprio Jesus Cristo, as Suas palavras e as Suas obras. Os Apóstolos, escolhidos pelo Senhor para serem fundamento da Sua Igreja, cumpriram o mandato de apresentar a judeus e gentios, por meio da pregação oral, o testemunho do que tinham visto e ouvido: o cumprimento em Jesus Cristo das profecias do Antigo Testamento, a remissão dos pecados, a filiação adotiva e a herança do Céu oferecidas a todos os homens. Por isto, também a pregação apostólica pode chamar-se “evangelho”. Finalmente os evangelistas, movidos pelo Espírito Santo, puseram por escrito parte desta pregação oral. Deste modo, pela Sagrada Escritura e pela Tradição Apostólica, a voz de Cristo perpetua-se por todos os séculos e faz-se ouvir em todas as gerações e em todos os povos. A Igreja, continuadora da missão apostólica, tem a tarefa de dar a conhecer o “evangelho”, e faz muito bem através da Catequese: “O objeto essencial e primordial da catequese é, ‘o Mistério de Cristo’ (…). Trata-se, portanto de descobrir na Pessoa de Cristo o desígnio eterno de Deus que se realiza n’Ele. Trata-se de procurar compreender o significado dos gestos e das palavras de Cristo, os sinais realizados por Ele próprio, pois eles encerram e manifestam ao mesmo tempo o Seu Mistério. Neste sentido, o fim último da catequese é por cada um não só em contato mas em comunhão, em intimidade com Jesus Cristo: só Ele pode conduzir-nos ao amor do Pai no Espírito e tornar-nos participantes da vida da Santíssima Trindade” (Catechesi Tradendae, 5). O Evangelho de São Marcos destaca Isaías, por ser o profeta mais importante no anúncio dos tempos messiânicos. Por esta causa São Jerônimo (†420) chamou a Isaías o Evangelista do Antigo Testamento. Após falarmos da propagação da boa nova, chegamos a figura de São João Batista, que se apresenta diante do povo depois de vários anos passados no deserto. Convida os israelitas a prepararem-se com a penitência para a vinda do Messias. A figura de João assinala a continuidade entre o Antigo e o Novo Testamento: é o último dos Profetas e a primeira das testemunhas de Jesus. A sua dignidade particular consiste em que, enquanto os outros profetas tinham anunciado Cristo desde longe, João Batista indica-O já com o dedo (cf. Jo 1, 29: “No dia seguinte, João viu Jesus que vinha a ele e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”). O batismo do Precursor não era ainda o Batismo cristão, mas um rito de penitência; prefigurava, porém, as disposições para receber o Batismo cristão: fé em Cristo, o Messias, fonte de toda a graça, e afastamento voluntário do pecado. E, todos iam ao encontro de João e “Confessavam os seus pecados”: As pessoas daquela época ao aproximarem-se de João, para serem batizadas, supunham reconhecer a própria condição de pecador, visto que tal rito significava o que o Batista anunciava: o perdão dos pecados pela conversão do coração, e facilitava a remoção dos obstáculos de cada um diante do advento do Reino (Lc 3, 10-14). Esta confissão dos pecados que faziam a João Batista, é diferente do sacramento cristão da Penitência. Não obstante, era agradável a Deus como sinal do arrependimento interior, acompanhado de frutos dignos de penitência (Mt 3,7-10; Lc 3,7-9). No sacramento da penitência, a confissão oral dos pecados será um requisito essencial para receber o perdão de Deus. E concluía o Batista: “Eu vos batizei com água; ele, porém, vos batizará no Espírito Santo”. Refere-se ao Batismo que Cristo vai instituir, e marca a sua diferença com o de João. No Batismo de João só era significada a graça, como nos outros ritos do Antigo Testamento. “Pelo Batismo da Nova Lei os homens são batizados interiormente pelo Espírito Santo, coisa que só Deus faz. Pelo contrário, pelo Batismo de João só era lavado com água o corpo” (Suma Teológica,III, q.38,a.2 ad 1). No Batismo cristão, instituído por Nosso Senhor, o rito batismal não só significa a graça, mas causa-a eficazmente, isto é, confere-a. “O Sacramento do Batismo confere a primeira graça santificante, pela qual é perdoado o pecado original, e também os atuais, se os há; apaga toda a pena por eles devida; imprime o caráter de cristãos; faz-nos filhos de Deus, membros da Igreja e herdeiros da glória, e habilita-nos para receber os outros sacramentos” (Catecismo da Igreja Católica, 1263). Como todas as realidades pertencentes à santificação das almas, os efeitos do Batismo cristão são atribuídos ao Espírito Santo, o “Santificador”. Mas, a Santíssima Trindade dá ao batizado a graça santificante, a graça da justificação, a qual: a) Torna-o capaz de crer em Deus, de esperar nele e de amá-lo através das virtudes teologais; b) Concede-lhe o poder de viver e agir sob a moção do Espírito Santo pelos seus dons; c) Permite-lhe crescer no bem pelas virtudes morais. Assim, todo o organismo da vida sobrenatural do cristão tem a sua raiz no santo batismo (Catecismo da Igreja Católica, 1266).

 

2º DOMINGO DO ADVENTO – ANO B
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha – MG

“Povo de Sião, o Senhor vem para salvar as nações! E, na alegria do vosso coração, soará majestosa a sua voz!” (Is 30,19.30)

Irmãos e irmãs, Caminhamos, na meditação da Sagrada Liturgia, em busca da contemplação, na esperança da salvação. A partir deste segundo domingo do Advento, a perspectiva escatológica de nossa existência é iluminada desde a sua “fonte”, ou seja, a primeira vinda de Cristo. Enquanto no primeiro domingo meditávamos acerca da segunda vinda de Cristo, após um esboço apresentado pelo escritor sagrado de uma visão escatológica do dia de hoje à luz da segunda vinda, nas demais semanas do Advento recordamos e contemplamos o acontecimento definitivo da primeira vinda. Na primeira vinda do Cristo está arraigado o sentido definitivo de nosso existir: é o momento fundador. Jesus Cristo é o início e o fim de toda a existência humana. Jesus Cristo é o alfa e o ômega (Ap 22,13). A chegada deste momento fundador é a grande notícia da História, a boa-nova por excelência. O Evangelho Marcos, cognominado o querigmático, vê como início desta boa-nova o apelo à conversão, lançado por João no Evangelho, realizando plenamente o que Isaías prefigurou quando, pelo fim do exílio babilônico (ano de 535 a.C.), conclamou o povo para preparar um caminho para Deus, que reconduziria os cativos. Era, pois, um apelo à conversão, pois deviam preparar a volta, “voltando” (= convertendo-se) para Deus, quando determinara o fim do castigo (Is 40,2), como ouvimos na primeira leitura. Deus reconduz os cativos. Ele mesmo vai com eles. Como um imperador na entrada gloriosa (parusia), ele se faz preceder pelos frutos de suas conquista: o povo resgatado (40,10). Como um pastor, reúne suas ovelhas. E, com que ternura, Leva os cordeirinhos nos braços e conduz devagarzinho as ovelhas que amamentam! (40,11) Meus irmãos, São Marcos inicia o seu Evangelho(Mc 1,1-8) com a figura da pregação de João Batista, o precursor. Marcos é o único Evangelista que começa a sua pregação já com o tema que se tornará central na pregação de Jesus e dos Apóstolos: a conversão. E uma conversão que está ligada a “Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1,1). Tudo se inicia, se desenvolve e tem um fim em Jesus Cristo, o Alfa e o Ômega, o início e o fim de toda a humanidade. São Marcos, em duas palavras, anuncia a origem do Messias: é da terra e tem um nome, Jesus; e é o enviado, o escolhido do Senhor (Cristo) e é mais do que alguém que fala em nome de Deus (=profeta): é o próprio Filho de Deus. Pouco mais à frente, ainda no primeiro capítulo (Mc 1,15), São Marcos diz o porquê devemos nos converter. Devemos nos converter porque é chegado o Reino de Deus, o novo modo de viver, que abrange a criatura humana em toda a sua plenitude e Deus na pessoa de Jesus de Nazaré. Lembramos que Marcos é o primeiro evangelista, é de sua autoria o texto mais antigo acerca da vida, da obra e do mandato de Cristo. O seu Evangelho foi escrito, provavelmente, entre os anos de 65 a 70 da era cristã. Portanto, as mais remotas aspirações do cristianismo nele podemos absorver: a conversão, a caridade, a confiança na Palavra de Deus. Queridos irmãos, A mesma palavra que abre o Evangelho de João é a mesma palavra que abre o Livro de Gênesis: o princípio, o alfa, ou seja, a criação. Nos primeiros versículos do Gênesis, o escritor inspirado relata a criação do mundo; nos primeiros versículos do Evangelho de São Marcos, Jesus Cristo, aquele que veio resgatar a humanidade decaída, desde o Gênesis, é apresentado como a fonte da criação. E ao longo do livro, o querigmático anuncia que Jesus não só está no princípio, mas é também o centro da nova Família de Deus e permanecerá para sempre com ela. Mesmo depois da Ascensão, ele se conservará no meio da comunidade, vivo e atuante. Três vezes o Apocalipse põe na boca de Jesus: “Eu sou o primeiro e o último, sou o princípio e o fim” (cf. 1, 8; 21,6; 22,13). São Marcos nos dá a finalidade da obra de Jesus: Evangelho – palavra que significa a boa-nova, a boa notícia. Jesus – nome hebraico que significa “Deus salva”. Cristo – outra palavra grega, que significa “ungido para ser rei”. Portanto, Filho de Deus é a verdade central do Evangelho, que é, assim digamos, a boa-nova que Jesus trouxe à humanidade e as boas-novas sobre a pessoa e os ensinamentos do Filho de Deus, Salvador e Rei. São Marcos nos ensina que é Deus quem toma a iniciativa da salvação. É Deus quem manda o seu filho Jesus a este mundo. Deus quem manda o mensageiro para anunciar a chegada do Messias. Isso, Deus quer nos mandar um recado especial neste advento: devemos voltar o nosso coração e a nossa mente para Ele, isto é, converter-nos, fazer coincidir os caminhos de Deus com os nossos caminhos; fazer coincidir o coração de Deus com o nosso coração. Que nós tenhamos os nossos sentimentos voltados aos sentimentos da Trindade Santíssima. Caríssimos irmãos, João Batista nos é apresentado hoje como deve ser cada um dos batizados. João Batista está atento aos acontecimentos, abrindo caminhos, endireitando estradas, falando de penitência e conversão, purificando o povo. João Batista é o Símbolo do homem vigilante, é o exemplo de pessoa pronta para receber a boa-nova do Messias. No último profeta encontramos as qualidades de quem está preparado para abraçar os novos tempos, a nova realidade dentro da história da salvação. Antes de tudo, o desprendimento, manifestado na sobriedade do comer e do vestir (Mc 1,6). Em segundo lugar, a humildade diante da pessoa e do mistério de Jesus, manifestada na afirmação de não ser digno de ser seu escravo (Mc 1,7). Desprendimento que é transformado em oferta humilde de entusiasmo pela causa de Jesus (Mt 1,4-5). Assim, o verdadeiro profeta é alguém cheio de Deus e que fala de Deus. João Batista é o último profeta do Antigo Testamento, o primeiro a anunciar a plenitude dos tempos (Gl 4,4) com a chegada do Messias. Ora, João Batista se vestia com pele de camelo, como Elias se vestira (2Rs 1,7). João Batista andava com um cinto de couro à cintura, para demonstrar a sua sobriedade, pureza, sempre aberto à voz do Senhor, pronto para aonde Deus quisesse (Lc 12,35). João comia gafanhotos e mel do campo para significar que se alimentava de alimentos fortes, obtendo saúde necessária para ser o arauto do Salvador. João anunciou: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas” (Mc 1,3).  Revestido de autoridade, ou seja, agindo em nome de Deus, o Batista anuncia a derrota do mal e do pecado. O mel, encontrável em abundância no deserto, é o símbolo reluzente da palavra de Deus (Sl 19,11). Ao alimentar-se, portanto, da palavra de Deus, com a força deste alimento, transmite-se ao povo a chegada daquele que é a Palavra de Deus encarnada, a Palavra Eterna, o Cristo. Queridos irmãos, Para aderir, para seguir, para ser discípulo, para ser arauto de Cristo é preciso, primeiro, a confissão dos pecados, a conversão do coração e da vida (Mc 1,4).  Conversão significa mudar por inteiro de direção, mudar o modo de pensar, voltar-se para Deus. A criatura humana saiu pura do sopro de Deus e somente pura pode voltar a ele. Precisamos, com grande entusiasmo, ter coragem e ardor para mudar o comportamento, mudar o modo de pensar e de agir, para dar testemunho do modo de pensar, de comportar-se e de agir de Jesus. Devemos dar uma guinada em nossa vida para que a sua meta seja Jesus Cristo. O batismo para João foi de água, mas ele anunciava que “um batizará com o Espírito Santo” (Mc 1,8). Ele acenava para Jesus, para quem o Espírito Santo, descido em forma visível e perene no dia de Pentecostes, anunciou sua divindade. É o Espírito Santo quem dá a vida sobrenatural a seus fiéis. O batismo, conforme nos ensina o Direito da Igreja, “porta dos sacramentos, em realidade ou ao menos em desejo necessário para a salvação, pelo qual os homens se libertam dos pecados, são de novo gerados como filhos de Deus e incorporados à Igreja, configurados com Cristo por caráter indelével, só se administra validamente pela ablução com água verdadeira, juntamente com a devida forma verbal” (Cânon 849 do Codex Iuris Canonici). Caros irmãos, A Primeira Leitura deste domingo(Is 40,1-5.9-11) aduz que aplainar o caminho para Deus, que reconduzirá o seu povo. Este trecho, chamado de livro da Consolação, simultaneamente com vigor e ternura, o profeta anuncia o perdão do povo – deportado por causa do pecado – e a sua volta do Exílio. A segunda leitura de hoje(2Pd 3,8-14) nos anuncia que os cristãos da primeira geração esperavam uma segunda vinda de cristo para breve. Entretanto, o atraso tornava-se sempre mais notável e o escárnio do mundo sempre mais agressivo. Diante da impaciência e, quem sabe, do desespero e da desistência, que isso gerava, Pedro responde: “Deus tem tempo – ele quer que todos se convertam, para que todos possam participar”. Mas, mesmo assim, ele não desiste de seu projeto, pois ele deseja que tudo esteja em harmonia consigo. Só que ele não quer expurgar os “elementos nocivos” da criação, antes que todos tenham a oportunidade de se converter, isto é, de se tornar participantes da vida em Deus. Mas ele realizará, sem que saibamos o dia e a hora, seu “novo céu e nova terra” (2Pd 3,13) e, então, será bom estarmos de acordo com a nova realidade, pois Deus se volta para nós. Por conseguinte, na esperança da salvação, contribuindo com o projeto de evangelização neste mundo, salvando almas para Nosso Senhor, voltemos para Ele!

“A Bíblia como o celular, sempre conosco para lermos as mensagens”

Discurso do Pontífice fez os fiéis refletirem sobre como cuidar da Bíblia – AFP

Cidade do Vaticano (RV) – “Durante os quarenta dias da Quaresma, nós cristãos somos convidados a usar a força da Palavra de Deus na batalha espiritual contra o Mal”: esta foi a recomendação feita pelo Papa aos fiéis neste I Domingo de Quaresma, 5 de março.

Antes de rezar a oração mariana do Angelus neste final de inverno chuvoso na Praça de São Pedro, Francisco comentou a passagem do Evangelho de Mateus que narra como Jesus venceu as tentações e artimanhas sugeridas pelo Diabo: com a Palavra de Deus.

Naquela ocasião, Jesus enfrentou o diabo ‘corpo a corpo’. Às três tentações de Satanás para tentar impedi-lo de cumprir a sua missão, Ele respondeu com a Palavra e, com a força do Espírito Santo, saiu vitorioso do deserto.

“Por isso – disse o Pontífice – é preciso conhecer bem, ler, meditar e assimilar a Bíblia, pois a Palavra de Deus é sempre ‘atual e eficaz’.

A Bíblia como o celular

“O que aconteceria se usássemos a Bíblia como usamos o nosso celular? Se a levássemos sempre conosco (ou pelo menos um Evangelho de bolso), o que aconteceria? Se voltássemos quando a esquecemos, se a abríssemos várias vezes por dia; se lêssemos as mensagens de Deus contidas na Bíblia como lemos as mensagens em nosso celular, o que aconteceria?. É uma comparação paradoxal, mas faz pensar…”

“Com efeito, concluiu, se tivéssemos a Palavra de Deus sempre no coração, nenhuma tentação poderia nos afastar de Deus e nenhum obstáculo poderia nos desviar no caminho do bem; saberíamos vencer as propostas do Mal que está dentro e fora de nós; e seríamos mais capazes de viver uma vida ressuscitada segundo o Espírito, acolhendo e amando nossos irmãos, especialmente os mais frágeis e carentes, inclusive nossos inimigos”.

Tempo de conversão

Depois de rezar o Angelus e abençoar os fiéis, o Papa lembrou que o caminho de conversão da Quaresma requer de nós muita oração, jejum e obras de caridade. E concluindo, pediu a todos que rezem por ele e seus colaboradores, que durante esta semana estarão em Ariccia, (localidade fora de Roma) fazendo exercícios espirituais. 

(CM)

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