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Semana Santa não é ‘feriadão’

Cabe aos católicos manter vivo o significado genuíno da Semana Santa e da Páscoa. Não esperemos isso dos que não são cristãos ou católicos…

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo de São Paulo

Há várias semanas, os anúncios comerciais chamam para as compras no mercado da Páscoa. Mas os ovos de chocolate, neste ano, andam muito caros… A inflação e a crise econômica incidiram pesadamente no doce comércio de Páscoa!

E o bacalhau, nem se fala! Os preços estão proibitivos. Sem bacalhau, será uma Sexta-feira da Paixão sem graça? Como se pode passar a Sexta-feira Santa sem comer uma pratada abundante de bacalhau? Ainda não entendi por qual razão precisa ser justamente nesse dia, quando a Igreja convida todos os que podem a fazerem um dia de penitência, de jejum e abstinência de carnes… Alguém dirá que bacalhau não é carne… Como assim? Se carne de frango é carne, a de peixe, o que é?

Parece que a preocupação maior desta Semana Santa é preservar alguns costumes culinários ou gastronômicos… Certo, Páscoa é festa grande e é justo que se faça uma refeição festiva; mesmo com poucos recursos e boa dose de criatividade, na Páscoa é possível fazer festa com a família e os amigos!

Não seria bom ir um pouco além da cozinha e da mesa? O que torna esta Semana especial é o fato de ela ser “santa”, ou seja, reservada especialmente para Deus e as coisas da fé. Nela, deveríamos dedicar um tempo maior à oração, à busca de Deus, mesmo através de uma boa revisão da vida, tentando perceber a quantas andam as coisas com a vida da gente.

Nem todos têm a nossa visão das coisas; quero dizer, a visão dos católicos. É compreensível e não queremos impor nada a ninguém. Falamos aos católicos, para o “povo de casa”… Tomemos consciência de que os dias feriados e a festa da Páscoa, com suas manifestações culturais, são de origem cristã. Cabe a nós, preencher de sentido estas festas e comemorações, que se estenderam para dentro da cultura.

Poderá acontecer, se já não está acontecendo, que as tradições cristãs e católicas, pouco valorizadas e cultivadas até por católicos, vão perdendo o seu significado originário, que é alterado e até substituído por práticas que nada têm a ver com essas festas e tradições culturais cristãs. Cabe aos católicos manter vivo o significado genuíno da Semana Santa e da Páscoa. Não esperemos isso dos que não são cristãos ou católicos.

No mundo plural de hoje, quem não tem convicções firmes e conceitos claros acaba sendo absorvido pelo ambiente… E já vamos percebendo sempre mais que, em lugar das procissões da Sexta Feira Santa, vão aparecendo ruidosas manifestações de massa, por vezes, bem pertinho de nossas igrejas e procissões… Esta é a hora das convicções firmes e da consciência clara das nossas próprias manifestações de fé!

A Semana Santa, que deveria ser um tempo mais voltado para a oração e para a participação nas celebrações da Igreja, vai se tornando sempre mais uma ocasião para um feriadão estendido, viagens e todo tipo de programas, sem mais nenhuma marca cristã… Fica estranho ver as igrejas meio vazias no Domingo da Páscoa da Ressurreição, justamente quando elas deveriam estar mais cheias que nunca!

Na Semana Santa somos confrontados com o infinito amor de Deus, que amou tanto o mundo, ao ponto de lhe enviar seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça para sempre, mas tenha a vida eterna. E somos colocados diante do amor de Cristo por nós, um amor sem reservas, “até o fim”: Ele desceu ao fundo do poço da miséria humana para estender a mão do perdão e da misericórdia de Deus a todos…

Na Semana Santa, deixemo-nos envolver de graça e de perdão; e, com São Paulo, deixemo-nos mover por este pensamento: “Ele me amou e por mim se entregou na cruz!” E renovemos nossa adesão de fé e nossa disposição de segui-lo nos caminhos da vida. Vida que se renova na sua paixão, morte e ressurreição. E nada impede que também se faça festa na Páscoa! Apesar de ser com menos chocolate e bacalhau…

Papa pede a fiéis que se deixem purificar pelo amor de Deus

Sexta-feira, 9 de março de 2018, Da redação

Pedido foi feito durante a celebração penitencial desta sexta-feira, 9, que iniciou “24 horas para o Senhor” no Vaticano

“Deixemo-nos purificar pelo amor, para reconhecer o verdadeiro amor”. Este foi o pedido do Papa Francisco durante celebração penitencial realizada na tarde desta sexta-feira, 9, que marca a abertura da iniciativa “24 para o Senhor” no Vaticano. Com o tema “Contigo está o perdão” (Sl 130, 4), a ação é voltada para o sacramento da Reconciliação por meio da confissão.

Durante sua homilia, o Santo Padre reafirmou a grandiosidade do amor de Deus como algo muito além do imaginário e do entendimento humano. “Deus é sempre maior do quanto possamos imaginar, estendendo-se para além de qualquer pecado que a nossa consciência nos acuse. Não conhece limites, é um amor desprovido de confins; não apresenta aqueles obstáculos que nós, ao contrário, costumamos interpor a uma pessoa, pelo receio que venha privar-nos da liberdade”, expôs o Pontífice.

De acordo com Francisco, ainda que o pecado seja capaz de afastar o homem de Deus, ele é incapaz de afastar Deus do homem. “A condição de fraqueza e confusão, em que o pecado nos coloca, é mais um motivo para Deus ficar junto de nós; esta certeza deve acompanhar-nos sempre na vida”, ressaltou. O Papa prosseguiu afirmando que a humanidade só descobrirá a grandeza do amor de Deus quando puder vê-Lo face a face.

O Santo Padre relembrou a frase do apóstolo João ao reafirmar que a graça de Deus torna o homem sempre acompanhado do amor divino: “Na sua presença, sentir-se-á tranquilo o nosso coração, mesmo quando o coração nos acuse; pois Deus é maior que o nosso coração e conhece tudo”. Segundo o Pontífice, a esperança provoca no homem a tomada de consciência da desorientação em que muitas vezes cai a existência humana, situação exemplificada na experiência de Pedro com a vida e a morte de Jesus Cristo.

“Pedro queria ensinar o seu Mestre, queria precedê-Lo; ao contrário, é Jesus que vai morrer por Pedro; e isto, Pedro não o compreendera, não o quisera compreender. Pedro confronta-se agora com o amor do Senhor e, finalmente, compreende que Ele o ama e lhe pede para se deixar amar. Pedro dá-se conta de que sempre se recusara a deixar-se amar, sempre se recusara a deixar-se salvar plenamente por Jesus; afinal, não queria, de todo, que Jesus o amasse”, dissertou Francisco.

O Papa reascendeu a necessidade dos fiéis deixarem-se amar verdadeiramente por Deus, reconhecendo a verdadeira condição de devedores de tudo a Deus. “Sempre quereríamos que algo de nós não estivesse obrigado à gratidão, quando, na realidade, somos devedores de tudo, porque Deus é o primeiro a amar e, por amor, nos salva totalmente. Peçamos agora ao Senhor a graça de nos dar a conhecer a grandeza do seu amor, que apaga todos os nossos pecados”, finalizou.

A Igreja também nos quer quando estamos sujos, pois ela nos limpa

Homilia do papa na Casa Santa Marta
Francisco nos convida a pedir três graças de Deus: morrer na Igreja, morrer na esperança e morrer deixando o legado de um testemunho cristão
Por Redacao

ROMA, 06 de Fevereiro de 2014 (Zenit.org) – Como acontece toda manhã, o Santo Padre celebrou hoje a eucaristia na capela da Casa Santa Marta. Durante a homilia desta quinta-feira, ele refletiu sobre o mistério da morte e nos convidou a pedir três graças de Deus: morrer na Igreja, morrer na esperança e morrer deixando o legado de um testemunho cristão. Ao comentar a primeira leitura do dia, sobre a morte de Davi, que passou a vida a serviço do seu povo, o papa destacou três aspectos. Em primeiro lugar, Davi morre “no seio do seu povo”. Ele vive até o final “a sua pertença ao Povo de Deus. Ele tinha pecado: ele mesmo se chama de pecador, mas nunca saiu do seio do Povo de Deus! Pecador sim, traidor não! E esta é uma graça: permanecer até o fim dentro do Povo de Deus. Ter a graça de morrer no seio da Igreja, no seio do Povo de Deus. E este é o primeiro ponto que eu gostaria de enfatizar: pedir para nós também a graça de morrer em casa. Morrer em casa, na Igreja. E é uma graça! Isso não se compra! É um presente de Deus e temos que pedi-lo: Senhor, me dá o presente de morrer em casa, na Igreja! Pecador sim, todos, todos somos pecadores! Mas traidores não! Corruptos não! Sempre dentro! E a Igreja é tão mãe que também nos quer assim: muitas vezes sujos; mas a Igreja nos limpa, ela é mãe!”. Em segundo lugar, o papa destacou que Davi morre “tranquilo, em paz, sereno”, na certeza de ir “para o outro lado para junto dos seus pais”. Por isso, Francisco afirmou que “esta é outra graça: a graça de morrer na esperança, com a consciência de que estão nos esperando do lado de lá, de que no outro lado também continuaremos em casa, continuaremos em família”, não estaremos sozinhos. “Esta é uma graça que queremos pedir, para que, nos últimos momentos da vida, saibamos que a vida é uma luta e que o espírito do mal quer vencer”. O papa continuou: “Santa Teresinha do Menino Jesus dizia que, nos seus últimos tempos, havia uma luta dentro da sua alma, e, quando ela pensava no futuro, naquilo que a esperava depois da morte, no céu, ela sentia uma voz que dizia: ‘Mas não, não sejas boba, só a escuridão te espera. Só a escuridão do nada te espera!’. É ela quem nos conta isso. E aquela voz é a voz do diabo, do demônio, que não queria que ela se fiasse de Deus. Morrer na esperança e morrer confiando-se a Deus! E pedir esta graça. Mas confiar em Deus começa agora, nas pequenas coisas da vida, e também nos grandes problemas: confiar sempre no Senhor, criar o costume de confiar-se ao Senhor e crescer na esperança. Morrer em casa, morrer na esperança”. O terceiro aspecto que o pontífice abordou foi a herança deixada por Davi. O papa recordou que há “muitos escândalos em torno da herança”, “escândalos nas famílias, que as dividem”. Davi, porém, “deixa a herança de 40 anos de governo” e “um povo consolidado, forte”. O papa recordou ainda “um ditado popular que diz que cada homem, na vida, deve ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro: esta é a melhor herança!”. E Francisco nos convidou a perguntar: “Qual é a herança que eu deixo para os que vêm depois de mim? Uma herança de vida? Fiz tanto bem a ponto de as pessoas me quererem como pai, como mãe? Davi deixa essa herança para o filho dizendo a ele: ‘Sê forte e mostra-te homem. Observa a lei do Senhor, teu Deus, seguindo-a”. Ao encerrar a homilia, o Santo Padre declarou: “Esta é a herança: o nosso testemunho, como cristãos, legado aos outros. E alguns de nós deixam uma grande herança: pensemos nos santos que viveram o Evangelho com tanta força, que nos deixam um caminho de vida e um modo de viver como herança. Estas são as três cosas que me vêm ao coração na leitura deste fragmento sobre a morte de Davi: pedir a graça de morrer em casa, morrer na Igreja: pedir a graça de morrer em esperança, com esperança; e pedir a graça de deixar uma bela herança, uma herança humana, uma herança feita com o testemunho da nossa vida cristã. Que São Davi conceda a todos nós essas três graças!”.

 

Papa fala do mistério da morte: “deixar testemunho cristão” 
Homilia, quinta-feira, 6 de fevereiro  de 2014, Da Redação, com Rádio Vaticano

A partir do exemplo de Davi, Francisco ressaltou a importância de morrer deixando como legado o testemunho de uma vida cristã

Na Missa, desta quinta-feira, 6, na Casa Santa Marta, Papa Francisco comentou o mistério da morte. Ele convidou os fiéis a pedirem a Deus três graças: morrer na Igreja, morrer na esperança e morrer deixando como herança um testemunho cristão. Na homilia, Francisco comentou a primeira leitura do dia, que conta a morte de Davi depois de uma vida vivida a serviço de seu povo. Ele destacou que o rei viveu, até o fim, a sua pertença ao povo de Deus, embora tenha cometido pecados. “Pecador sim, traidor não! Essa é a graça: permanecer, até o fim, com o povo de Deus, ter a graça de morrer na Igreja, propriamente com povo do Senhor. Isso não se compra; é um presente de Deus e devemos pedi-lo ao Senhor”. O segundo aspecto destacado por Francisco foi o “morrer na esperança”, tendo a consciência de que, do outro lado, alguém espera pelo homem, de forma que ele não estará sozinho. “Morrer na esperança e confiar em Deus! No entanto, a confiança n’Ele começa agora, nas pequenas coisas da vida e também nos grandes problemas.” Francisco também falou da herança deixada por Davi, fato a partir do qual enfatizou a necessidade de morrer deixando como herança um testemunho cristão. O que Davi deixou de herança foram 40 anos de governo e um povo consolidado e forte. Ao seu filho, ele disse que fosse forte, observasse as leis de Deus e seguisse os Seus caminhos. “Este é o legado: o nosso testemunho de cristãos deixado aos outros. Alguns de nós deixam uma grande herança! Pensemos nos santos, os quais viveram o Evangelho com tanta força, que nos deixaram um caminho de vida e um modo de viver (…) Que São Davi conceda a todos nós essas três graças!”

2º Domingo da Quaresma – Ano B

Por Mons. Inácio José Schuster

Gênesis 22, 1-2. 9a. 10-13. 15-18; Romanos 8, 31b-34; Marcos 9, 2-10
ESCUTAI-O!

«Este é meu Filho amado, escutai-o». Com estas palavras, Deus Pai dava Jesus Cristo à humanidade como seu único e definitivo Mestre, superior às Leis e aos profetas. Onde fala Jesus hoje, para que possamos escutá-lo? Fala-nos antes de tudo por meio de nossa consciência. Ela é uma espécie de «repetidor», instalado dentro de nós, da própria voz de Deus. Mas por si só ela não basta. É fácil fazê-lo dizer o que nós gostamos de escutar. Por isso, necessita ser iluminada e sustentada pelo Evangelho e pelo ensinamento da Igreja. O Evangelho é o lugar por excelência no qual Jesus fala-nos hoje. Mas sabemos por experiência que também as palavras do Evangelho podem ser interpretadas de maneiras distintas. Quem nos assegura uma interpretação autêntica é a Igreja, instituída por Cristo precisamente com tal fim: «Quem a vós escuta, a mim escuta» [Lc 10, 16. Ndt]. Por isso, é importante que busquemos conhecer a doutrina da Igreja, conhecê-la em primeira mão, como ela mesmo a entende e a propõe, não na interpretação –freqüentemente distorcida e redutiva– dos meios de comunicação. Quase igualmente importante como saber onde fala Jesus hoje é saber onde não fala. Ele não fala certamente através de magos, adivinhos, astrólogos, pretensas mensagens extraterrestres; não fala nas sessões de espiritismo, no ocultismo. Na Escritura, lemos esta advertência a respeito: «Não haja entre ti ninguém que faça passar seu filho ou sua filha pelo fogo, que pratique adivinhação, astrologia, feitiçaria ou magia, nenhum encantador nem consultor de fantasmas ou adivinhos, nem invocador de mortos. Porque todo aquele que faz estas coisas é uma abominação para Yahweh teu Deus» (Dt 18, 10-12). Estes eram os modos típicos dos pagãos de referir-se ao divino, que buscavam a sorte consultando os astros, ou vísceras de animais, ou no vôo dos pássaros. Com essa palavra de Deus: «Escutai-o!», tudo aquilo acabou. Há um só mediador entre Deus e os homens; não estamos obrigados a ir «às cegas», para conhecer a vontade divina, a consultar isto ou aquilo. Em Cristo temos toda resposta. Lamentavelmente, hoje aqueles ritos pagãos voltam a estar na moda. Como sempre, quando diminui a verdadeira fé, aumenta a superstição. Tomemos a coisa mais inócua de todas, o horóscopo. Pode-se dizer que não existe jornal ou emissora de rádio que não ofereça diariamente a seus leitores ou ouvintes o horóscopo. Para as pessoas maduras, dotadas de um mínimo de capacidade critica ou de ironia, isso não é mais que uma inócua brincadeira recíproca, uma espécie de jogo e de passa-tempo. Mas, enquanto isso, olhemos os efeitos ao largo. Que mentalidade se forma, especialmente nos jovens e nos adolescentes? Aquela segundo a qual o êxito na vida não depende do esforço, da aplicação no estudo e constância no trabalho, mas de fatores externos, imponderáveis; de conseguir dirigir em proveito próprio certos poderes, próprios ou alheios. Pior ainda: tudo isso induz a pensar que, no bem ou no mal, a responsabilidade não é nossa, mas das «estrelas», como pensava Ferrante, de lembrança manzoniana [em referência ao romance «Os noivos» de Alessandro Manzoni (1785-1873) Ndt] Devo aludir a outro âmbito no qual Jesus não fala e onde, contudo, se lhe faz falar todo o tempo. É o das revelações privadas, mensagens celestiais, aparições e vozes de natureza variada. Não digo que Cristo ou a Virgem não possam falar também através destes meios. Fizeram-no no passado e podem fazer, evidentemente, também hoje. Só que antes de dar por certo que se trata de Jesus ou da Virgem, e não da fantasia enferma de alguém, ou pior, de farsantes que especulam com a boa fé das pessoas, é necessário ter garantias. Necessita-se neste campo esperar o juízo da Igreja, não precedê-lo. São ainda atuais as palavras de Dante: «Sede, cristãos, mais firmes ao mover-vos; / não sejais como pena a qualquer sopro» (Par. V, 73s.) São João da Cruz dizia que desde que, no Tabor, disse-se de Jesus: «Escutai-o!», Deus se fez, em certo sentido, mudo. Disse tudo; não tem coisas novas para revelar. Quem lhe pede novas revelações, ou respostas, ofende-o, como se não se houvesse explicado claramente ainda. Deus segue dizendo a todos a mesma palavra: «Escutai-o!», lede o Evangelho: aí encontrareis nem mais nem menos do que buscais».

 

SEGUNDO DOMINGO DE QUARESMA
Mc 9, 2-10: “Este é o meu Filho bem-amado. Ouvi-O!

O texto de hoje vem logo após o diálogo com Pedro e os discípulos, na estrada de Cesaréia de Filipe, sobre quem era Jesus e como deveria ser o seu seguimento:“Se alguém quer me seguir, renuncie a si  mesmo, tome cada dia a sua cruz, e me siga” (8,34). Começando esta passagem com as palavras “Seis dias depois”, Marcos quer ligar estreitamente o texto com a mensagem anterior sobre a cruz. O texto destaca um aspecto de Jesus que é muito importante – o fato que ele era um homem de oração.  Durante a oração aparecem Moisés e Elias, símbolos da Lei e dos Profetas. Assim Marcos mostra que Jesus está em continuidade com as Escrituras, isso é, o caminho que Jesus segue está de acordo com a vontade de Deus. Os dois personagens, tanto Moisés como Elias, eram profetas rejeitados e perseguidos no seu tempo – Marcos aqui vislumbra mais uma vez o destino de Jesus, de ser rejeitado, mas também de ser vindicado por Deus. Pedro, ao despertar do sono, faz uma sugestão descabida: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias”( v.5) Claro, seria bom ficar ali, num momento místico, longe do dia-a-dia, da caminhada, das dúvidas, dos desentendimentos, da luta.  Quem não iria querer?  Mas não é uma sugestão que Jesus possa aceitar.  Terminado o momento de revelação, “Jesus estava sozinho” e em seguida “desceram da montanha” (v. 9).  Por tão gostoso que possa ser ficar no Monte, é precisa descer para enfrentar o caminho até o Monte Calvário!! A experiência da Transfiguração está intimamente ligada com a experiência da cruz!!  Talvez foi a força da experiência do Monte Tabor que deu a Jesus a coragem necessário para aguentar a experiência bem dolorosa do Calvário! Todos nós – seja qual for a nossa vocação – precisamos de momentos de oração profunda, de união especial com Deus.  Mas estas experiências não são “intimistas”- nos aprofundam a nossa fé e o nosso seguimento, para que possamos seguir o exemplo dele que lavou os pés dos discípulos: “Eu, que sou o Mestre e o Senhor, lavei os seus pés;  por isso vocês devem lavar os pés uns dos outros” (Jo 13, 14). Também este trecho pode nos ensinar a valorizar os momentos de “Tabor”, os momentos de paz, de reflexão, de oração.  Pois, se formos coerentes com a nossa fé, teremos muitas vezes de fazer a experiência de “Calvário”!  Somos fracos demais para aguentar esta experiência – por isso busquemos forças na oração, na Palavra de Deus, na meditação – mas sempre para que possamos retomar o caminho, como fizerem Jesus e os três discípulos!  Para os momentos de dúvida e dificuldade, o texto nos traz o conselho melhor possível, através da voz que saiu da nuvem: “Este é o meu Filho bem-amado. Ouvi-o!” (v. 7). Façamos isso, e venceremos os nossos Calvários!

 

UM DIFÍCIL AMIGO                 
Dom Geraldo M. Agnelo, Cardeal Arcebispo emérito de Salvador

Este segundo domingo da quaresma nos traz, nos relatos bíblicos, uma marca, um selo de Deus que pode parecer chocante em nosso relacionamento com Ele: Deus é um difícil amigo! Depois de ter manifestado, na transfiguração de Jesus: “Este é o meu Filho predileto”, “não poupou o próprio Filho”, entregando-o à morte na cruz. E ao primeiro personagem do povo eleito da Aliança pediu o sacrifício de seu filho Isaac. O tema do amor de Deus é o centro da mensagem cristã, argumento fundamental da revelação. Deus não revela o seu amor com ensinamentos teóricos; não dá a definição do amor, mas oferece o testemunho de um Deus que ama, que está à procura do homem, quer chamá-lo relacionar-se pessoalmente com ele, estreitar uma relação de amizade e de aliança. Deus não somente ama, mas também quer ser amado. O amor de Deus parece exprimir-se exatamente na força com que exige do homem resposta incondicional. Deus tomou a iniciativa de oferecer o perdão do seu amor, quer, porém que o homem o escolha, dê-lhe sua preferência em tudo, e lhe permaneça fiel. Ele conhece nossas dificuldades, mas parece multiplicar as mesmas em nosso caminho. Assim o significado do sacrifício de Isaac, na vida de Abraão. Ao chamamento de Deus, Abraão responde com fé: “Aqui estou!” Nessa simples palavra está toda a vida do patriarca. Ele é servo de Deus, sempre pronto a obedecê-lo; é amigo de Deus. Depositário feliz da promessa maravilhosa, em Isaac, será pai de uma multidão incalculável. Nele, está todo seu futuro e de sua descendência. Nele se encarna a bênção divina que se estenderá pelos séculos. Sua história tem esse ritmo: Deus disse, Abraão responde. A fé de Abraão foi cultivada e amadurecida mediante a prova. É manifestação da confiança em Deus, que fascina, mas é paradoxal, escapa a todo cálculo e previsão humana. Abraão apóia-se somente sobre a palavra de Deus, sobre suas promessas. É o modelo de nossa fé e da nossa resposta ao amor de Deus. Do sacrifício iniciado, Abraão retorna cheio de alegria com Isaac, mantido vivo. O sacrifício de Isaac é prenúncio do sacrifício de Cristo Jesus. Jesus tinha já anunciado aos discípulos seu sofrimento na cruz, em Jerusalém. Os discípulos ficaram desconcertados, sem compreender o desfecho trágico da missão de Jesus. Não tinham aprofundado o desígnio do Pai que entrega seu Filho a morrer na cruz para salvar a humanidade; numa palavra, não compreendiam como se pode salvar no desastre do calvário. Ainda não tinham captado o modo de ser do amor de Deus, manifestado na morte de Cristo, escândalo para os Judeus, loucura para os gregos. O evangelho de hoje nos apresenta Pedro, João e Tiago como testemunhas da revelação em que presenciam Jesus transfigurado, envolvido na glória de Deus, chamado pelo Pai: “Este é meu Filho amado: escutai-o.” Esta revelação é destinada a fazer os discípulos compreenderem o modo de agir do amor de Deus por nós e fortalecer sua fé. O reinado de Deus, já presente com Jesus vindo com poder, é submetido à paixão, vinculado à ressurreição. A transfiguração é antecipação da ressurreição. Sua narração insere-se entre duas predições da paixão. O próprio Jesus mostra sua glória no esplendor das vestes. Moisés e Elias, na aliança e na profecia, tinham recebido revelações extraordinárias de Deus. Agora se apresentam como testemunhas da glória de Jesus. O que para a antiga aliança era futuro esperado, agora está presente e centraliza a história. A tradição situou a cena no monte Tabor, o novo Horeb ou Sinai de Moisés e Elias. Transfigurar significa transformar. Deus que em Jesus Cristo assumira a forma de escravo, assumindo a figura humana, humilhou-se. Pedro queria perpetuar a experiência do Tabor. O testemunho do Pai mostra a pessoa de Jesus em quem se deve crer, e seu ensinamento a ser posto em prática na vida. A nós que temos ouvido o que Jesus ensinou e realizou, chegado até nós pela vivência cristã de dois milênios, podemos tentar interpretar também nossa experiência pessoal. Cremos que, com o batismo, Deus nos chamou à vida nova, diferente do modo de viver dos que se identificam com o mundo de egoísmo, de falta de amor. Deus nos destina à glória, prometendo a vitória sobre o mal e plenitude da felicidade. Somos provados pelos sofrimentos e pela incerteza do futuro. É a condição de quem vive na fé, que se apóia na palavra de Deus. Não devemos temer. Deus não poupou o próprio Filho. O amor de Deus não se limita a palavras: faz o caminho dos fatos, dando-nos o seu único Filho que passou pela morte na cruz, mas ressuscitou para sempre.

 

SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA
Mc 9,2-10: “Este é o meu Filho amado: ouvi-o”
2Seis dias depois, Jesus tomou consigo a Pedro, Tiago e João, e conduziu-os a sós a um alto monte. E 3transfigurou-se diante deles. Suas vestes tornaram-se resplandecentes e de uma brancura tal, que nenhum lavadeiro sobre a terra as pode fazer assim tão brancas. 4Apareceram-lhes Elias e Moisés, e falavam com Jesus. 5Pedro tomou a palavra: Mestre, é bom para nós estarmos aqui; faremos três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias. 6Com efeito, não sabia o que falava, porque estavam sobremaneira atemorizados. 7Formou-se então uma nuvem que os encobriu com a sua sombra; e da nuvem veio uma voz: Este é o meu Filho muito amado; ouvi-o. 8E olhando eles logo em derredor, já não viram ninguém, senão só a Jesus com eles. 9Ao descerem do monte, proibiu-lhes Jesus que contassem a quem quer que fosse o que tinham visto, até que o Filho do homem houvesse ressurgido dos mortos. 10E guardaram esta recomendação consigo, perguntando entre si o que significaria: Ser ressuscitado dentre os mortos.

No Evangelho de hoje, contemplamos a manifestação da glória de Jesus Cristo a Pedro, Tiago e João, um sinal dado aos Apóstolos, da Sua divindade e dos poderes divinos que daria à Sua igreja. Desde a Encarnação, a Divindade de Jesus, estava escondida por detrás da Humanidade. Mas, no alto do Monte Tabor, Jesus se manifesta a estes prediletos discípulos, que iam ser colunas da Igreja. Deste modo, o esplendor da glória de Jesus, deixa os três entusiasmados com as alegrias que teriam no fim, assim, ficam animados a seguir o Mestre. Jesus, mostra que terão sérias adversidades no caminho escolhido, mas a vitória será recompensadora. Santo Tomás de Aquino (†1274), nos diz na Suma Teológica, II,q.45,a.1: “…foi conveniente que Cristo tenha manifestado a clareza da sua glória”. Em que consistiu a Transfiguração do Senhor? – O Magistério da Igreja, nos diz, que para melhor compreender este fato miraculoso, deve-se ter em conta que o Senhor, para nos redimir com a Sua paixão e Morte, renunciou voluntariamente à glória divina e se encarnou, fazendo-se semelhante a nós humanos em tudo, exceto no pecado (cf. Hb 4,15). No momento da Transfiguração, Jesus Cristo, deixa que sua alma, apareça miraculosamente no Seu corpo. Jesus, quer nos mover ao desejo da glória divina que nos será dada. Mais tarde, São Paulo nos dirá: “que os padecimentos do tempo presente não são comparáveis com a glória futura que se há de manifestar em nós” (Rm 8,18). A Quaresma nos convida à Conversão. Ela nos lembra que é preciso voltar o coração para Jesus Cristo. Mas, infelizmente quando o pecado toma conta, corremos um grande risco. O risco de não enxergar mais o pecado. E tudo é normal. Afinal, todos fazem assim. Coragem! Deixemo-nos Transfigurar em Cristo. São Tomás de Aquino, na Suma Teológica,III,q.45,a.4 ad 2, ainda nos diz: “Assim como no Batismo de Jesus, onde foi declarado o mistério da primeira regeneração, se mostrou a ação de toda a Trindade, já que ali esteve o Filho Encarnado, o Espírito Santo em forma de pomba e se houve a voz do Pai; assim também na Transfiguração, que é como o sacramento da segunda regeneração (a ressurreição), apareceu toda a Trindade: o Pai na voz, o Filho no homem, e o Espírito Santo na claridade da nuvem; porque assim como Deus Uno e Trino dá a inocência no Batismo, da mesma forma dará aos Seus eleitos o fulgor da glória e o alívio de todo o mal na Ressurreição…”. Na verdade, a Transfiguração foi um certo sinal, não só da glorificação de Cristo, mas também da nossa.

 

Os domingos da Quaresma são dias de “escrutínio”, não só para os catecúmenos que se preparam para o Batismo, mas também para cada cristão e para cada comunidade paroquial com ações pastorais que se podem fazer com aqueles que terão um especial contacto com os sacramentos da iniciação cristã: pais que querem batizar um filho ou que têm um filho a preparar-se para a 1ª Comunhão; jovens que se preparam para o Sacramento da Confirmação. As leituras deste domingo são um convite à reflexão profunda da nossa fé. Iremos ler na 1ª leitura, durante o ciclo quaresmal, diversos momentos da História da Salvação. Hoje, é-nos apresentado o sacrifício de Abraão, nosso pai na fé. Abraão é um peregrino que confia em Deus e que por Ele tudo arrisca, inclusivamente o seu filho. Deus fez uma aliança com Abraão e agora lhe exige uma resposta de fé. É a fé que levará Abraão a peregrinar, confiando em Deus, até à terra prometida. Da sua descendência, surgirá um novo povo. Aceitar sacrificar o seu próprio filho a Deus, é uma prova de que Abraão tem uma fé forte, “adulta”. Ele não duvida em doar, por amor, tudo a Deus. É o anúncio do sacrifício real de Cristo na Cruz. Não deve ter sido fácil para Abraão aceitar o pedido de Deus (sacrificar o seu próprio filho); estava diante do mistério incompreensível de Deus. Esta situação também aconteceu a Pedro, Tiago e João, no Monte Tabor, que, perante o mistério de Deus, não compreendiam o anúncio da cruz e da ressurreição. Porém, confiaram (a fé é sempre protagonista) que um dia iriam compreender a fonte de vida nova que Deus lhes concedia. Para compreenderem a transfiguração de Jesus e participar dela, estes apóstolos tinham Moisés e Elias (a Lei e os Profetas). Na vida do cristão, a Palavra de Deus recebida da Igreja e na Igreja deve orientar para a Eucaristia pelo caminho da fé. Assim, abrir-se-ão horizontes de contemplação e de vida nova. A subida ao Monte Tabor teve início na vida humana que é sujeita a tentações, como vimos no passado domingo. No contexto quaresmal em que nos encontramos, é importante ligar e relacionar a mensagem de cada domingo. A vida de fé que se recebe no Batismo e que nos preparamos para celebrar no seu núcleo central da Páscoa, é uma vida a ser vivida “descendo o monte”, na normalidade do quotidiano, onde a tentação poderá aparecer. Desejar viver sempre na “transfiguração”, seria querer “viver nas nuvens” (“é bom estarmos aqui”), recusando a vida com os seus sacrifícios e com as suas dificuldades; seria uma outra tentação, ou seja, querer fugir da nossa condição humana. Todavia, é muito importante “subir o monte com Jesus” para novamente ouvirmos a voz que diz: “Este é o meu Filho muito amado: escutai-O”. Esta frase dá-nos a certeza de que Deus está sempre conosco e que não há nada neste mundo que nos possa tirar esta segurança (cfr. com a 2ª leitura). Esta “experiência de fé” transforma o nosso modo de encarar a vida, faz-nos ver a vida de uma maneira diferente, faz-nos ser testemunhas da nossa esperança. Todos os sacramentos são momentos de transfiguração. O Batismo é a primeira experiência de Deus em nós. Mas, a Eucaristia é sempre uma experiência de transfiguração que nos leva para a vida mais “transfigurados”, ou seja, cada um de nós é um ícone da vida de Deus em nós. A Eucaristia transfigura o nosso olhar, leva-nos a olhar os outros com o olhar de Deus e a descobrir neles o próprio Jesus que caminha conosco.
Com informações do Missal Romano, da CNBB e do SDPL

 

SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA – Ano B
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha, MG

“Meu coração disse: Senhor, buscarei a vossa face. É vossa face, Senhor, que eu procuro, não desvieis de mim o vosso rosto” (Sl 26, 8s)
Meus irmãos e minhas irmãs, Vamos caminhando no nosso grande retiro espiritual na Santa Quaresma, tempo de penitência e tempo de conversão. Tempo da escuta da Palavra de Deus e dos seus desígnios para a nossa caminhada diária para que possamos voltar para a amizade com Deus. Deus não quer a morte do pecador, mas sim que esse pecador se converta e viva uma vida em abundância, dando testemunho do kerigma cristão. Na primeira Leitura – Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18) apresenta Abraão obediente até o sacrifício de seu filho único. Pedindo que Abraão sacrificasse seu Filho, Deus não apenas testou a sua obediência, mas colocou em questão todo o futuro de sua descendência. Será que Deus precisa de tais provas para saber se o homem lhe é fiel? Ou será que a fidelidade e a confiança só crescem quando são provadas? Prestes a sacrificar toda a segurança, o homem se torna realmente livre; e é assim que Deus o quer, para que seja seu aliado. Abraão foi sempre obediente a Deus. Abraão, observando seus contemporâneos, percebe que tal é o amor que têm por seus deuses que chegam a sacrificar-lhes seus primogênitos. Parece-lhe, então que o amor de Deus exige dele o sacrifício de Isaac. Mas Deus o impede, não quer a morte do homem, mas a vida. Abraão passa, então, a considerar Isaac como duplo dom de Deus: nascido de Sara estéril e salvo da morte. De qualquer modo, a disponibilidade da fé de Abraão é agradável a Deus, que renova as promessas a ele feitas. Prezados irmãos, Na Carta de São Paulo aos Romanos(Rm 8,31b-34) Deus não poupou seu único Filho. Quem, de fato, sacrifica seu filho não é Abraão, mas é Deus mesmo: prova de seu amor por nós, que não conseguimos imaginar, mas no qual acreditamos firmemente. A fidelidade de Deus anunciada na primeira leitura é aqui plenamente proclamada: Deus está com todos os que têm fé e que por ela foram justificados. Assim, também, Cristo que, em sua fidelidade ao Pai, deu a vida por nós, não pretende condenar-nos. Esse argumento pode resumir-se numa pergunta: “Quem nos separará do amor de Cristo e do Pai?”. Nesse contexto, há uma única resposta: só nós podemos separar-nos do amor de Deus em Cristo Jesus. Deus jamais tomará a iniciativa da ruptura. Ele é um Deus fiel. Caros irmãos, A liturgia deste domingo é repleta do mistério de Deus: a sua transfiguração. Esta passagem bíblica tem um significado muito profundo, tendo em vista que o saudoso Pontífice João Paulo II, na sua Carta Apostólica do Rosário da Santa Virgem Maria, incluiu como quarto mistério luminoso exatamente da perícope que hoje refletimos a Transfiguração do Senhor Jesus. Mas, irmãos, o que vem a ser a Transfiguração? A Transfiguração é o momento em que Jesus revela sua glória diante de seus discípulos. Esse é o resumo do Evangelho deste segundo domingo da Santa Quaresma. Devemos situar esta visão no contexto em que Marcos criou ao conceber a estrutura fundamental dos evangelhos escritos. Na primeira parte de sua atividade, Nosso Senhor Jesus Cristo se dirige às multidões, mediante sinais e ensinamentos, que deixam transparecer o “seu poder e a sua autoridade”, mas não dizem nada sobre o Seu Mistério Interior. Na segunda metade de seu Evangelho, ele fala que Jesus revela às suas testemunhas  – e depois discípulos – o seu Mistério interior: sua missão do Servo Padecente e sua união com o Pai. O que foi confiado a Jesus pessoalmente, pelo Pai, na hora do Batismo, quando a voz da nuvem lhe revelou: “Tu és o meu filho muito amado, em quem eu pus minha afeição” (Mc 1,11). Agora é revelado aos discípulos: “Este é o meu filho amado, escutai-o”. Isso para demonstrar que os mistérios de Deus não podem ser reservados para poucos, mas devem ser comunicados e partilhados com muitos para a edificação do Reino de Deus que se inicia na nossa peregrinação por este mundo. O Evangelho de hoje(Mc 9,2-10) nos mostra quem é Aquele que nos veio salvar e em que nos haveremos de transformar, se superarmos as tentações da vida presente pela contínua conversão aos seus ensinamentos e sua pessoa: seremos transfigurados. Meus irmãos, O Antigo Testamento é um compêndio de recados para o povo de Israel. Ali está presente a aliança entre Deus e a Nação Israelita. O povo prometeu: “Faremos tudo o que o Senhor nos disse!” (Ex 24,3). Mas Jesus veio inaugurar um novo tempo. Deus nos apresenta o seu Filho Jesus, a nova Arca da Aliança, o novo templo de Deus, e recomenda com insistência: “Escutai-o!” Este era o dever dos apóstolos e o nosso hoje: escutar Jesus com mais atenção do que o povo de Israel escutou Moisés, que lhes transmitira a vontade de Deus. Apesar da morte, ele tem palavras de vida eterna. Os caminhos de Deus ultrapassam as razões da inteligência humana; quanto mais, quando se trata da morte de quem, por definição, é imortal. Jesus não se transfigura para deslumbrar seus discípulos e seguidores e demonstrar-se superior a eles. Jesus tratou de um gesto para inspirar, criar e fundamentar a confiança de quem tinha razão para ter medo. Morte e vida não se contradizem, mas fazem parte de um processo natural e de um mistério de fé e esperança cristã. Jesus, Filho de Deus Altíssimo e destinado para ser rei eterno e universal, devia passar pelos escarros, pelas dores e pela morte. Por isso, o Monte Tabor e o Monte Calvário, postos hoje um perto do outro, nos ajudem a compreender que no mistério da dor há ricas e encantadoras sementes divinas. O monte da Transfiguração é colocado hoje à luz do Monte Calvário. Não pelo formato geográfico, porque o Calvário não passa de uma pequena elevação, mas pelo seu significado simbólico dentro da história da salvação. O Calvário é marcado pelo sangue e pela dor, mas de seu chão brotam as raízes da vida eterna. O Tabor vem hoje envolto de luz e divindade, entretanto, profetizando um caminho de aniquilamento: cumprir a vontade do Pai até o extremo da renúncia e da morte. No Tabor ecoa a voz amorosa do Pai: “Este é meu filho muito amado, escutai-o”. No Calvário ouvimos a célebre frase da condição humana do Senhor: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” Aos olhos da fé, os dois montes se fundem, porque a crueza do Calvário revela a extrema misericórdia e o infinito amor de Deus. A morte que Jesus anuncia como a sua, morte violenta, convida-nos a morrer diariamente para o pecado, a cada minuto, a cada instante, procurando sempre passar do Calvário para o Tabor, da desgraça para a luz, do pecado para a graça salvadora. Morrendo para o pecado estamos transfigurando para a vida eterna. Meus irmãos, Aparecem Moisés e Elias. Moisés o maior legislador e  Elias o mais santo dos profetas. Jesus Cristo superou todos os profetas, porque nele se completou o tempo da salvação, porque “Ele é o Meu Filho muito amado”. Por isso, as atitudes que devemos cultivar nesta segunda semana da Quaresma são as seguintes: a humildade, o despojamento, o serviço, a doação em prol de muitos. Só podemos aceitar este ensinamento na confiança de que ele teve razão. A razão de Jesus é a razão do Batismo, em que somos lavados do pecado e inscritos como cidadãos do céu. Valorizamos nosso Batismo, passando do Calvário – sofrimento e pecado – para o Tabor – alegria e graça santificante de Deus. Portanto, somos convidados a subir com Jesus a montanha e, na companhia de três de seus discípulos, viver a doce e cândida alegria da comunhão com ele. Somos embalados pelo testemunho da fé de Abraão e de Sara, que, obedientes à palavra de Deus e portadores da palavra da Salvação, desafiaram as deficiências da velhice e da esterilidade para gerar numerosa descendência. As dificuldades e sofrimentos da caminhada não podem nos abater ou desanimar. No meio dos conflitos da vida, o Pai nos permite vislumbrar, desde já, sinais de ressurreição e nos dá o mandamento de escutar a palavra de Jesus, o Filho amado. Renunciando aos vícios, libertando de tudo que vai contra os valores do Evangelho vamos assumir a nossa vocação de servir a Cristo, que é servir aos irmãos na busca de maior solidariedade e fraternidade. Amém!

Os católicos podem ‘curtir’ o carnaval? Como fazê-lo?

Sábado, 09 de fevereiro de 2013, CNBB  

O carnaval pode ser vivido de diversas maneiras. Não teve sua origem no Brasil, como muitos pensam, mas na Grécia. Era uma festa de alegria pagã. No Brasil, o carnaval é coisa séria. Há quem fale que o ritmo normal da vida no país só começa após o carnaval. É tempo do vale tudo. Vale mergulhar fundo no prazer sem freios, na bebida, nas drogas. E isso tudo equivocadamente é em nome da alegria. Que alegria é essa, que, no final da folia, se acaba?

Há, porém, o Carnaval verdadeiro, marcado por uma alegria verdadeira. Nesse Carnaval é dispensado o prazer irresponsável, a bebida, as drogas, para se celebrar a vida.  O católico pode comemorar o carnaval, desde que respeite os princípios cristãos, sem se entregar aos excessos permissivos tão difundidos em nossos dias. Quem não participa das festividades públicas, procure se alegrar junto a sua família e amigos. Isso precisa ser resgatado.

As Dioceses, as Paróquias e as Comunidades deste país promovem um carnaval diferente, repleto de alegria, a qual Deus quer para todos os seus filhos. Em todo caso, é carnaval. Quem vai fazer festa que faça com respeito ao próximo e aos valores. Muitos decidem passar o Carnaval na tranquilidade do campo, da praia. Outros em retiro espiritual, numa experiência de Deus, profunda e transformadora. Outros ainda vão ficar em casa e assistir ao espetáculo de criatividade, de luz e de cores, promovido pelas escolas de samba.

Passados os dias de Carnaval tem início o tempo da Quaresma com a imposição das cinzas sobre nossas cabeças e ouvindo este apelo de Jesus: “convertei-vos e crede no Evangelho!” Estas palavras, indicam um inteiro programa de vida, preparando-nos para celebrar a Páscoa. Assim, na oração, no jejum, no exercício da caridade fraterna, na penitência, caminhamos ao encontro do Cristo pascal.

Na Quaresma nos exercitamos na revisão de vida e na conversão nas nossas práticas religiosas, para que elas não sejam apenas manifestações formais e exteriores de religiosidade – “para serem vistos pelos homens” – mas sejam a expressão de uma vida que se volta sinceramente para Deus. E, durante a Quaresma, realizamos a Campanha da Fraternidade. Esta indica uma reflexão específica para nos exercitarmos na caridade; neste ano, é a juventude. Queremos juntos encontrar caminhos para acolher e integrar nossa juventude. Nossa resposta generosa ao chamado deve ser: “Eis-me aqui, envia-me” (Is 6,8). Convertamo-nos, e nos desafios deste mundo, tornemo-nos missionários a serviço da juventude.

Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena, Bispo de Guarabira (PB)

 

O cristão pode participar do Carnaval?

A alegria é uma necessidade básica do ser humano. Povos, raças e culturas das mais remotas origens encontraram formas para exteriorizar esse desejo. Cada país, de acordo com sua cultura e costume, possui suas datas festivas. Porém, o grande problema dessas festividades, assim como o Carnaval, é que, após os dias de festa, muitos voltam à vida real amargando desilusões e arrependimentos, pois já não podem mais usar a máscara. É hora, então, de fazer um balanço.

Fé e consciência limpa são inseparáveis na vida do cristão, inclusive durante essas festividades. “Tudo o que não procede da fé é pecado”, ensina São Paulo (cf. Rm 14,23). A fé é a luz que ilumina a consciência e a confirma nas convicções morais. Por isso a pergunta não deve ser: “é pecado pular Carnaval?”.

Quem se guia pela consciência do que é bom, digno e justo, possui um “faro moral”. Sabe posicionar-se, escolher e decidir onde, como e com quem se divertir ou não.

Não passa, pois, de preconceito — às vezes de má fé —, achar que a religião é contrária à alegria, levando os fiéis à tristeza. O Evangelho é uma mensagem alegre e feliz! Dele nos vêm as festas religiosas, as celebrações e solenidades festivas, as comemorações de datas e fatos históricos.

A alegria cristã é autêntica, simples e espontânea. Mobiliza os serviços de caridade e fortalece o ser humano em suas angústias e sofrimentos. Inspira todas as artes e os costumes sadios e nobres.

Nada disso se encontra nas diversões barulhentas, superficiais, cheias de dissipações e desregramentos morais. A alegria carnavalesca é, em geral, uma cortina de fumaça que esconde o vazio do espírito, o desencanto consigo mesmo, as frustrações da vida!

Apesar da folia contagiante nas ruas, quadras e salões, o fim do Carnaval é triste. Não porque é o fim, mas pelas inúmeras perdas que sofremos por nossas próprias escolhas. Por isso, escolher viver bem um Carnaval com Cristo é a melhor opção para se divertir e não ter preocupações posteriores.

5 obstáculos que impedem de sentir a real presença de Deus

Rádio Vaticano (RV) – “É a misericórdia que salva”. Inspirado nesta afirmação do Evangelho de Mateus, o Papa Francisco conduziu a Audiência Geral de quarta-feira (07/9/2016) e citou a dúvida da “noite escura no coração” de João Batista, que não entendia o “estilo muito diferente” de agir de Cristo – “o instrumento concreto da misericórdia do Pai”.

“A justiça que João Batista colocava ao centro da sua pregação, em Jesus se manifesta em primeiro lugar como misericórdia. Esta passa a ser a síntese do agir de Jesus, que desta maneira torna visível e tangível o agir do próprio Deus”.

Uma mensagem muito clara também para a Igreja, afirmou o Papa:

“Deus não mandou seu Filho ao mundo para punir os pecadores tampouco para destruir os maus. A eles é feito o convite à conversão para que, vendo os sinais da bondade divina, possam reencontrar a estrada do retorno”.

Ao recordar novamente o Evangelho de Mateus, no trecho em que Jesus diz “bem-aventurado aquele que não vê em mim motivo de escândalo”, o Papa explicou que “escândalo significa obstáculo”.

“A advertência de Jesus é sempre atual: também hoje o homem constrói imagens de Deus que lhe impede de sentir a sua real presença”.

A partir desse aviso, Francisco elencou 5 destes obstáculos atuais:

1.“Alguns tecem uma fé ‘faça você mesmo’ que reduz Deus ao espaço limitado dos próprios desejos e das próprias convicções. Mas esta fé não é conversão ao Senhor que se revela, ao contrário, impede-O de provocar a nossa vida e a nossa consciência”.

2. “Outros reduzem Deus a um falso ídolo; usam seu santo nome para justificar os próprios interesses ou até mesmo o ódio e a violência”.

3. “Para outros Deus é somente um refúgio psicológico no qual estar seguro nos momentos difíceis: trata-se de uma fé dobrada em si mesma, impermeável à força do amor misericordioso de Jesus que conduz em direção aos irmãos”.

4. “Outros ainda consideram Cristo somente um bom mestre de ensinamentos éticos, um entre tantos na história”.

5. “Finalmente, há quem sufoca a fé em uma relação puramente intimista com Jesus, anulando o seu impulso missionário capaz de transformar o mundo e a história.

“Nós cristãos acreditamos no Deus de Jesus Cristo, e o seu desejo é aquele de crescer na experiência viva do seu mistério de amor”, afirmou o Papa – e concluiu:

“Tenhamos o compromisso de não colocar nenhum obstáculo ao agir misericordioso do Pai, e peçamos o dom de uma fé grande para que também nós sejamos sinais e instrumentos de misericórdia”. (rb)

Satanás é um mal pagador e sempre nos engana

VATICANO, 14 Mai. 13 / 03:36 pm (ACI/EWTN Noticias).- O Papa Francisco disse hoje, em sua habitual homilia da Missa que preside na Casa Santa Marta no Vaticano, que Satanás é um mal pagador e sempre nos engana; e ante essa realidade temos que rezar pedindo ao Espírito Santo um coração capaz de amar como Jesus, porque o que ama nunca está sozinho e não “perde” sua vida mas sim a encontra.

Na Eucaristia concelebrada pelo Arcebispo de Medellín (Colômbia), Dom Ricardo Antonio Tobón Restrepo, e na qual participaram alguns empregados dos Museus Vaticanos, assim como alguns alunos do Pontifício Colégio Português, o Santo Padre disse que se de verdade queremos seguir Jesus, devemos “viver a vida como um dom” para doá-la aos outros, “não como um tesouro que devemos conservar”.

O Santo Padre refletiu sobre a oposição entre o caminho do amor e o do egoísmo. Evocando a palavra forte que Jesus nos diz: “Ninguém tem amor maior que este: dar sua vida.”, o Pontífice destacou que a liturgia de hoje mostra também a Judas, que tinha precisamente a atitude contrária: “e isso porque Judas nunca compreendeu o que é um dom”.

“Pensemos naquele momento, quando Madalena lava os pés de Jesus com o nardo, tão caro: é um momento religioso, um momento de gratidão, um momento de amor. E ele (Judas) se afasta e critica amargamente: ‘Mas … isso poderia ser usado para os pobres!’. Esta é a primeira referência que eu encontrei no Evangelho da pobreza como ideologia. O ideólogo não sabe o que é o amor, porque não sabe doar-se”.

Judas estava “isolado em sua solidão”, e esta sua atitude de egoísmo foi crescendo “até trair Jesus.”, acrescentou o Papa Francisco, ressaltando logo que o que ama “dá sua vida como dom”; enquanto que o egoísta “cuida da sua vida, cresce neste egoísmo e se torna um traidor, mas sempre sozinho”.

Entretanto, quem “dá a sua vida por amor, nunca está sozinho: está sempre em comunidade, em família.” Além disso, quem “isola a sua consciência no egoísmo,” acaba “perdendo-a”, reiterou o Papa, ressaltando que foi isso o que aconteceu com Judas, que “era um idólatra, apegado ao dinheiro”:

“E João o diz: ‘era um ladrão’. E esta idolatria o levou a isolar-se da comunidade: este é o drama da consciência isolada. Quando um cristão começa a isolar-se, também isola a sua consciência do sentido comunitário, do sentido da Igreja, daquele amor que Jesus nos dá. Ao invés disso, o cristão que doa a sua vida, que a perde, como diz Jesus, a encontra, em sua plenitude. E o que, como Judas, quer conservá-la para si mesmo, ao final a perde. João nos diz que ‘nesse momento, Satanás entrou no coração de Judas’. E, devemos dizê-lo: Satanás é um mal pagador. Sempre nos engana, sempre!”

“Mas Jesus ama sempre e sempre se doa. E este seu dom de amor nos leva a amar para dar fruto. E o fruto permanece”, disse o Papa Francisco.

Para concluir o Santo Padre alentou que nestes dias à espera da Festa do Espírito Santo, Pentecostes “peçamos: Vem, Espírito Santo, vem e dê-me um coração aberto, um coração que seja capaz de amar com humildade e com mansidão, mas sempre um coração aberto que seja capaz de amar. Peçamos esta graça ao Espírito Santo. E que nos libere sempre do outro caminho, do caminho do egoísmo, que termina sempre mal. Peçamos esta graça!”.

A moralidade é ouro

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

A sociedade está povoada de notícias que comprovam o quanto a corrupção e a desonestidade estão corroendo relações, provocando prejuízos irreversíveis na vida de cidadãos e de famílias, com sérios comprometimentos sociopolíticos. A confiança que se deposita em pessoas, no exercício de suas responsabilidades funcionais e ofícios, está e certamente continuará sendo abalada. O mesmo ocorre também na relação com as instituições, que têm tarefas de proteção aos direitos e à integridade de todos, constituídas para proteger o bem público, garantir a ordem e a justiça. Quando menos se espera, estouram aqui e ali acontecimentos que provocam decepção e generalizam a insegurança. Não se esperam conivências interesseiras dos que têm tarefa de garantir a justiça. Conveniências que comprometem a vida de jovens e de outros que têm seus sonhos inviabilizados de maneira irreversível.
As providências que governos, instituições e outras instâncias da sociedade precisam e devem tomar diante de fatos graves no tecido social e cultural, não podem retardar mais a consideração da moralidade como ouro na história de todos. Esse cenário, com suas violências, desmandos, corrupções, tráficos e outras condutas imorais, é origem de tudo o que esgarça o tecido moral da cidadania. Valor que é a base para vencer seduções e ter força para permanecer do lado do bem, com gosto pela justiça e fecundo espírito de solidariedade. É imprescindível redobrar a atenção quanto à moralidade que baliza a vida de cada indivíduo e regula suas relações. É urgente e necessário avaliar o quanto o relativismo tem emoldurado critérios na emissão de juízos, na formatação de discernimentos, trazendo direções equivocadas e prejudiciais nas escolhas, tanto no âmbito privado quanto no exercício da profissão, da política e de outras ocupações na sociedade.
É preciso diagnosticar esses pontos críticos na moralidade sustentadora da conduta cidadã e honesta. Não se pode desconsiderar a gravidade da situação vivida neste tempo de avanços e conquistas – marcado pela “démarche” (disposição para resolver assuntos ou tomar decisões) – imposta pela falta de moralidade pública, profissional e individual. Jesus, em Seus preciosos ensinamentos para bem formar os discípulos, não deixava de advertir e indicar critérios para comprovar os comprometimentos da moralidade. Ele dizia que “o irmão entregará o irmão à morte, o pai entregará o filho; os filhos ficarão contra os pais e os matarão”, convidando-os para não se escandalizarem e a permanecerem firmes diante do caos provocado pela imoralidade. A decomposição das relações familiares configura o paradigma da perda da moralidade, considerando a família com seu insubstituível papel de formadora de consciência.
Com a família, o conjunto das instituições educativas, religiosas e outras prestadoras de serviços à sociedade, é preciso fortalecer o coro de vozes, como o fez a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), quanto à necessidade de incluir na pauta da sociedade a compreensão da moralidade como um tesouro do qual não se pode abrir mão. Sua ausência significa a produção de perdas irreparáveis, de vidas, de credibilidade e de conquistas e avanços de todo tipo, pelos inevitáveis comprometimentos advindos de uma cultura permissiva e cega a valores balizadores da vida cidadã. Nesse âmbito, é preciso retomar a tematização da responsabilidade dos meios de comunicação – também sublinha a CNBB. A apurada qualidade técnica e os admiráveis recursos da mídia, em particular da televisão, lamentavelmente, estão a serviço de programas que atentam contra a dignidade humana. Não se pode simplesmente ajuizar que os cidadãos são livres para escolher o que é de baixo nível moral. É melhor não produzi-los. Então, é preciso combatê-los, investindo na formação da consciência moral, com uma consistência tal que se rejeite, com lealdade, os fascínios da celebridade fugaz, o gosto mórbido pelo dinheiro e pelo poder, e substituí-los pelo apreço ao bem, à verdade; criar o gosto pela transparência e pelo que é honesto.
As culturas e as sociedades não podem prescindir de investimentos, abordagens e compreensões da consciência na sua insubstituível e específica função de discernimento e juízo moral. É urgente superar considerações de que tratar e investir na moralidade é um viés antigo, e até superado. A liberdade e a autonomia que caracterizam a sociedade contemporânea não podem prescindir do exercício dos valores morais sob pena de continuarmos a fabricar o precioso tempo do Terceiro Milênio como um tempo de abominação da desolação.

No fim do ano, agradecer e pedir perdão a Deus

Te Deum

Quarta-feira, 31 de dezembro de 2014, André Cunha / Da redação

O Papa Francisco presidiu a última celebração pública de 2014, as vésperas de Nossa Senhora, no Vaticano

Seguindo a tradição, neste último dia do ano, 31 de dezembro, o Papa Francisco presidiu, às 17 horas (horário italiano), na Basílica de São Pedro, à celebração das primeiras Vésperas da Solenidade de Maria Santíssima, concluindo com o canto do Te Deum, em ação de graças pelo ano de 2014.

O Papa iniciou sua última reflexão do ano, após a leitura do trecho da carta aos Gálatas, que diz: “Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sujeito à Lei, a fim de resgatar os que eram sujeitos à Lei e para que todos recebêssemos a filiação adotiva (cf. Gl 4. 4-5)”.

Neste sentido, Francisco afirmou que o significado do “tempo” é ser mensageiro de Deus, tocado por Cristo, o Filho de Maria. Então, o “tempo tornou-se salvífico, definitivo da salvação e da graça”.

Depois, o Papa disse que a Igreja propõe à conclusão de cada ano e de todos os dias um exame de consciência para agradecer ao Senhor pelo que se recebeu e repensar as faltas. “Agradecer e pedir perdão: é o que fazemos hoje ao final de um ano. Louvamos e pedimos perdão”.

Segundo o Papa, o motivo fundamental de dar graças a Deus é este: “Ele nos fez seus filhos”. “Mas nós já não somos todos filhos de Deus? Certamente, porque Deus é Pai. Mas, sem esquecer que fomos afastados de sua filiação pelo pecado. Nossa relação filial é profundamente ferida. Mas em Jesus fomos livres. Ele morreu na cruz para nos dar a remissão do pecado e resgatar a condição de filhos”.

Agradecer, disse o Papa, é também o motivo do exame de consciência. “De nos perguntar: como é nosso modo de viver? Vivemos como filhos ou como escravos? Ou vivemos como a lógica mundana, corrupta, fazendo o que o diabo nos faz acreditar?”, questionou.

Francisco afirmou que o homem é inclinado a resistir a essa libertação que Jesus trouxe. “Temos medo da liberdade”, destacou. A liberdade, segundo disse, assusta o homem, ao contrário da escravidão o impede de viver plenamente o presente porque esvazia o passado e o faz acreditar que não se pode sonhar, voar e esperar.

“Em nossos corações se aninha a saudade da escravidão porque traz seguranças, ao contrário da liberdade que é mais arriscada. Esse é o reino e o fascínio do momento”, considerou. “Concluir o ano é voltar a afirmar que existe uma honra, que existe a plenitude do tempo. Ao concluir esse ano, nos fará bem pedir a graça de caminhar em liberdade, para reparar os erros e defender-nos da saudade da escravidão”, disse.

Francisco concluiu sua reflexão pedindo que a Virgem Santa ajude a todos a acolher Jesus com o coração aberto, a fim de se viver realmente com liberdade, como “filhos de Deus”.

A oração do Te Deum, diante do Santíssimo Sacramento, concluiu a celebração. Em seguida, o Papa Francisco visitou o presépio localizado na praça São Pedro.

Te Deum

Te Deum é um hino litúrgico tradicional, e seu texto foi musicado por vários compositores, entre eles Wolfgang Amadeus Mozart, Franz Joseph Haydn, Hector Berlioz, Anton Bruckner, Antonín Dvorák, e até o imperador Pedro I do Brasil.

É um hino de louvor a Deus, de agradecimento. Este nome vem por causa das palavras iniciais, Te Deum laudamos, “a vós, ó Deus, louvamos”.

“Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua família” (At 16, 31)

“Quem se descuida dos seus, e principalmente dos de sua própria família, é um renegado, pior que um infiel” (1Tm 5, 8).

A realidade que mais nos aproxima da ideia do paraíso é nosso lar, disse alguém. Aos homens, como aos pássaros, o mundo oferece mil lugares para pousar, mas somente o seu lar é o seu verdadeiro ninho.

Podemos percorrer o mundo à procura do que desejamos ver e conhecer, mas nada é como o nosso lar; os filhos e netos nos mantém agarrados à vida. Há um provérbio persa que diz que “quem não tem irmão, tem as pernas fracas”. A criança é o amor visível. Cada criança, ao nascer, nos traz a mensagem de que Deus não perdeu ainda a esperança nos homens, disse Tagore.

Uma infância feliz é o maior presente que os pais podem dar aos filhos.

A maior alegria é colhida na família, a cada dia. Eu não trocaria por nada toda a vida que vivi em família.

A alegria de gerar e educar os filhos, de conviver com eles, faz a nossa maior felicidade. Infelizmente muitos estão enganados pensando que podem buscar a felicidade fora do lar, ou sem construir um lar. O egoísmo e o medo estão fazendo muita gente rejeitar o casamento e a família. Não faça isso. Faça a sua vida girar em torno da família. Nada nos faz tão felizes como aquilo que construímos com a nossa vida, com a nossa luta e com a nossa dedicação.

Até quando nos deixaremos enganar, querendo ir buscar a felicidade tão longe, se ela está bem junto de nós?

A família é o complemento de nós mesmos. Ela é a base da sociedade. Nela somos um indivíduo reconhecido e amado, e não apenas um número, um RG, um CPF.

É no seio da família que cada pessoa faz a experiência própria do que seja amar e ser amado, sem o que jamais será feliz. Quando a família se destrói a sociedade toda corre sério risco; e é por isso que temos hoje tantos jovens delinquentes, envolvidos nas drogas, na bebida e na violência. Muitos estão no mundo do crime porque não tiveram um lar.

Sem dúvida a maior tragédia do mundo moderno é a destruição da família. O divórcio arrasa com os casamentos e, consequentemente com as famílias. Os filhos pagam o preço da separação dos pais; e eles mesmos sofrem com isto. Quando as famílias eram bem constituídas, não havia tantos jovens envolvidos com drogas e com a violência, com o homossexualismo e com a depressão.

Mais do que nunca o mundo precisa de homens e mulheres dispostos a constituir famílias sólidas, edificadas pelo matrimônio, onde os esposos vivam a fidelidade conjugal e se dediquem de corpo e alma ao bem dos filhos. E é isto que dá felicidade ao homem e à mulher.

Infelizmente uma mentalidade consumista, egoísta e comodista toma conta do mundo e das pessoas cada vez mais, impedindo-as de terem filhos.

Não há na face da terra algo mais nobre e belo que um homem e uma mulher possam fazer do que gerar e educar um filho. Nada pode ser nem de longe, comparado à vida humana. Nem toda riqueza que há debaixo da terra vale uma só vida humana, porque esta é criada a imagem de semelhança de Deus, dotada de inteligência, liberdade, vontade, consciência, capacidade de amar, cantar, sorrir e chorar. O que pode ser comparado a isto?

Nada pode nos dar tanta satisfação do que ver o filho nascer, ensiná-lo a andar, falar, escrever, e seguir o seu caminho neste mundo.

A felicidade do lar está também no relacionamento saudável, fiel e amoroso dos esposos. Sem fidelidade conjugal a família não se sustenta. E esta fidelidade tem um alto preço de renuncia às tentações do mundo, mas produz a verdadeira felicidade. Marido e mulher precisam se amar de verdade, e viver um para o outro, absolutamente, sem se darem ao direito da menor aventura fora do lar. Isto seria traição ao outro, aos filhos e a Deus.

Não permita que o seu lar se dissolva por causa de uma infidelidade de sua parte. A felicidade tem um preço; temos de pagar o preço da renúncia ao que é proibido. Não se permita a menor intimidade com outra pessoa que não seja o seu esposo ou sua esposa.

Não brinque com fogo, para não queimar a sua felicidade e a dos seus caros.

A grande ameaça à família hoje é a infidelidade conjugal; muitos maridos, e também esposas, traem os seus cônjuges e trazem para dentro do lar a infelicidade própria e dos filhos. Saiba que isto não compensa jamais; não destrua em pouco tempo aquilo que foi construído em anos de luta.

Marido e mulher precisam viver um para o outro e ambos para os filhos. O casal precisa conversar se perdoar; se um não perdoa o outro em suas pequenas falhas, jamais desfrutará de suas grandes virtudes. A felicidade do casal pode ser muito grande, mas isto depende de que ambos vivam a promessa do amor conjugal. Amar é construir o outro; é ajudá-lo a crescer; é ajudá-lo a vencer os seus problemas. Amar é construir alguém querido, com o preço da própria renúncia. Quem não está disposto a este sacrifício nunca saberá o que é a felicidade de um lar. O homem não precisa trocar de mulher para ser feliz. É tão absurdo dizer que um homem não pode amar a mesma mulher toda a sua vida quanto dizer que um violonista precisa de diversos violinos para tocar a mesma música. Se alguém não sabe tocar violino não adianta ficar trocando de violino.

Na sagrada missão de educar bem os filhos, o casal encontra a felicidade. Viva para os filhos e você será feliz.

Os pais precisam antes de tudo ter tempo para eles, e saber conquistá-los; sem isto, os filhos não os ouvirão e não seguirão os seus conselhos. Mas o filho deve ser conquistado por aquilo que você é para ele, e não por aquilo que você dá para ele.

Cada filho é como um diamante que Deus nos entrega para ser lapidado com carinho. Não há alegria maior para um homem do que encontrar alegria em seu filho bem formado e educado. Cada filho é a nossa imagem; “filho de peixe é peixinho”. O filho é educado muito mais pelo exemplo dos pais do que por suas palavras.

São Tomás de Aquino dizia que a família constitui para os filhos “um útero espiritual”. Os pais devem ser amigos e confidentes e não os tiranos dos filhos.

Na medida em que os casamentos vão se desfazendo, as famílias vão se destruindo, por falta de Deus, a felicidade dos homens vai aumentando. Fuja desta rota se quiser ser feliz e ter paz na alma.

A família é a “igreja doméstica”; é nela que os filhos devem aprender com os pais a maravilha da fé; é ali, no colo da mãe que a criança deve aprender a rezar e viver os mandamentos da lei de Deus para ser feliz.

O casal cristão se deseja ser feliz precisa cultivar uma vida de oração em casa e na igreja, de frequência aos sacramentos, de meditação da Palavra de Deus, etc.

Mas, mesmo que sua casa já esteja desmoronada, você a pode reconstruir com Deus, porque para Ele nada é impossível. Não olhe para o passado, não fique pisando e culpando a sua alma; olhe para Jesus, crê no Senhor, e Ele abrirá um caminho novo em sua vida; creia nisso.

Mesmo que seu marido a tenha abandonado; mesmo que sua esposa o tenha traído, mesmo que seus filhos o tenham decepcionado… olhe para Jesus, creia Nele, e Ele lhe dará uma nova alternativa de vida. Jesus disse: “Se creres verás a glória de Deus”. (Jo 11,40) Não há uma vida na terra que esteja a tal ponto destruída que Deus não possa restaurá-la.

“Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua família”(At 16,31)

Prof. Felipe Aquino

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