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O paraíso é o abraço com Deus, Amor infinito, diz Papa na catequese

Quarta-feira, 25 de outubro de 2017, Da Redação, com Rádio Vaticano

Papa concluiu hoje ciclo de catequeses sobre esperança cristã com uma reflexão sobre o paraíso, meta da esperança

Com o tema “O paraíso, meta de nossa esperança”, o Papa Francisco concluiu nesta quarta-feira, 25, o ciclo de catequeses sobre a esperança cristã.

Dirigindo-se aos 25 mil fiéis presentes na Praça São Pedro, o Papa começou recordando que “Paraíso é uma das últimas palavras pronunciadas por Jesus na cruz, dirigidas ao bom ladrão”. Diante de sua morte iminente, ele fez um pedido humilde a Jesus: “Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu reino”. Jesus, então, se compadece e promete que, naquele mesmo dia, o ladrão arrependido estaria com Ele no Paraíso.

“É lá, no Calvário, que Jesus tem o último encontro com um pecador, para escancarar também a ele as portas de seu Reino. É a única vez que a palavra “paraíso” aparece nos Evangelhos. Jesus o promete a um “pobre diabo” que no lenho da cruz teve a coragem de dirigir a ele o mais humilde dos pedidos: ‘Lembra-te de mim quando entrares no teu reino’”.

Segundo o Papa, o bom ladrão faz lembrar a verdadeira condição diante de Deus: os homens são seus filhos e Ele tem compaixão. “Nos quartos de tantos hospitais e nas celas das prisões, este milagre se repete inúmeras vezes: não existe pessoa, por pior que tenha sido em sua vida, a quem reste somente desespero e seja proibida a graça. Diante de Deus, nos apresentamos todos de mãos vazias”.

Mesmo quando, diante de um exame de consciência se percebe que as faltas superaram as obras de bem, o Papa destacou que a pessoa não deve se desencorajar, mas confiar-se à misericórdia de Deus. “Deus é Pai, e até o fim espera o nosso retorno. E ao filho pródigo que retornou, que começa a confessar as suas culpas, o Pai fecha a boca com um abraço”.

O Paraíso – disse Francisco – “não é um lugar de fábula, e tampouco um jardim encantado. O paraíso é o abraço com Deus, Amor infinito”.

Por isso, concluiu o Papa, não se deve temer a morte, mas sim desejar o encontro final com Deus.
“Se acreditamos nisto, a morte deixa de nos amedrontar, e podemos também esperar partir deste mundo em maneira serena, com tanta confiança. Quem conheceu Jesus, não tema mais nada”.

Ao final, ao saudar os peregrinos de língua portuguesa, Francisco dirigiu-se em particular aos fiéis de Roraima, acompanhados pelo seu Pastor e os diversos grupos do Brasil. “Queridos amigos, a fé na vida eterna nos leva a não ter medo dos desafios desta vida presente, fortalecidos pela esperança na vitória de Cristo sobre a morte. Que Deus vos abençoe”, disse.

Papa: remorsos da consciência são sintomas de salvação

Quinta-feira, 28 de setembro de 2017, Da Redação, com Rádio Vaticano

Na Missa de hoje, Papa falou da necessidade de ter consciência do pecado cometido para alcançar o perdão de Deus

Não ter medo de dizer a verdade sobre a vida, de tomar consciência dos pecados e confessá-los a Deus para que Ele perdoe. Essa foi, em síntese, a reflexão do Papa Francisco na Missa desta quinta-feira, 28, na Casa Santa Marta.

Citando o Evangelho do dia sobre o comportamento de Herodes em relação à pregação de Jesus, o Papa lembrou que alguns associavam Jesus a João Batista e a Elias, e outros o identificavam como um profeta. Herodes não sabia o que pensar, mas sentia dentro de si alguma coisa, que não era uma curiosidade, era um remorso na alma, no coração, procurava ver Jesus para tranquilizar-se. “Queria ver milagres realizados por Cristo, mas Jesus – disse o Papa – não fez um circo diante dele e foi entregue a Pilatos. E Jesus pagou com a morte”.

Herodes cobriu um crime com outro, o remorso da consciência com outro crime, como quem mata por temor. O remorso da consciência não é uma simples recordação, mas uma chaga, disse o Papa.

“Uma chaga que quando na vida fizemos alguns males, dói. É uma chaga escondida, não se vê; nem eu a vejo, porque me acostumo a carregá-la e depois se anestesia. Está ali, alguns a tocam, mas a ferida está dentro. Quando esta chaga faz mal, sentimos remorso. Não somente estou consciente de ter feito o mal, mas o sinto: o sinto no coração, no corpo, na alma e na vida. Disto nasce a tentação de cobri-lo, para não mais senti-lo”.

O Santo Padre destacou que é uma graça sentir que a consciência acusa, diz alguma coisa. Por outro lado, lembrou que ninguém é santo e todos são inclinados a olhar para os pecados dos outros e não para os próprios, compadecendo-se por quem sofre na guerra ou por causa de “ditadores que matam pessoas”.

“Nós devemos – permitam–me a palavra – ‘batizar’ a chaga, isto é, dar-lhe um nome. Onde você tem a chaga? ‘Padre como eu faço para tirá-la fora?’ – ‘Mas antes de tudo reze: Senhor, tenha piedade de mim que sou pecador’. O Senhor escuta a sua oração. Depois examine a sua vida. ‘Se eu não vejo como e onde está aquela dor, de onde vem, que é um sintoma, como posso fazer?’ – ‘Peça a alguém para ajudá-lo a tirar a chaga; que a chaga saia e depois dar-lhe um nome’. Eu tenho esse remorso de consciência porque eu fiz isso, concreto; concretude. E esta é a verdadeira humildade diante de Deus e Deus se comove diante da concretude”.

A concretude, explicou o Pontífice, expressa pelas crianças na confissão. Uma concretude de dizer o que fez para que a verdade “venha para fora”. “Assim nos curamos”.

“Aprender a ciência, a sabedoria de acusar a si mesmo. Eu me acuso, sinto a dor da chaga, faço de tudo para saber de onde vem esse sintoma e depois eu me acuso. Não tenha medo dos remorsos da consciência: eles são um sintoma de salvação. Tenha medo de cobri-los, de maquiá-los, dissimulá-los, escondê-los … isto sim, mas ser claro. E assim o Senhor nos cura”.

A oração final do Papa foi pedindo que Deus dê a graça da coragem de cada um se acusar para caminhar no caminho do perdão.

Em homilia, Papa diz que cristãos devem rezar pelos governantes

Segunda-feira, 18 de setembro de 2017, Da Redação, com Rádio Vaticano

Na homilia de hoje, Papa destacou que é preciso acompanhar os governantes com a oração

O Papa Francisco presidiu a Missa na Capela da Casa Santa Marta nesta segunda-feira, 18, e em sua homilia pediu aos cristãos para rezarem pelos seus governantes, apesar de seus erros. O Pontífice pediu também aos governantes para rezar, caso contrário, correm o risco de fecharem-se no próprio grupo. O governante que tem a consciência de ser subalterno ao povo e a Deus, reza.

A reflexão de Francisco partiu da Primeira Leitura de hoje e do Evangelho. Na primeira leitura, São Paulo aconselha a Timóteo a rezar pelos governantes. No Evangelho, há um governante que reza: é o oficial romano que tinha um empregado que estava doente. Amava o povo, não obstante fosse estrangeiro, e amava o empregado, pois, de fato, se preocupava.

“Este homem sentiu a necessidade de rezar”, disse o Papa. Ele explicou que o homem rezava não somente porque amava, mas também porque tinha a consciência de não ser o patrão de tudo, de não ser a última instância. Sabia que, acima dele, há outro que comanda. Havia subalternos, soldados, mas ele também estava na condição de subordinado. E isso o levou a rezar. O governante que tem essa consciência, reza.

“Se não reza, fecha-se na própria ‘autorreferencialidade’ ou na de seu partido, naquele círculo do qual não se sai. É um homem fechado em si mesmo. Porém, quando vê os problemas verdadeiros, tem a consciência de ser subalterno, que existe outro que tem mais poder que ele. Quem tem mais poder do que o governante? O povo, que lhe deu o poder, e Deus, do qual vem o poder através do povo. Quando um governante tem a consciência de ser subordinado, reza”.

A oração do governante

O Papa Francisco ressaltou a importância da oração do governante, porque é a oração para o bem comum do povo que lhe foi confiado. Ele recordou, a esse propósito, a conversa com um governante que todos os dias passava duas horas em silêncio diante de Deus, apesar de ter muitos afazeres. É preciso pedir a Deus a graça de governar bem como Salomão, que não pediu a Deus ouro ou riquezas, mas sabedoria para governar.

Os governantes, diz Francisco, devem pedir ao Senhor essa sabedoria. “É tão importante que os governantes rezem”, reiterou o Papa. Nessa oração, pedir ao Senhor que não cancele a “consciência de ser subalterno” a Deus e do povo.

E a quem poderia se opor dizendo ser agnóstico ou ateu, o Papa diz: “Se você não pode rezar, confronte-se”, “com a sua consciência”, com “os sábios do seu povo”, mas “não fique sozinho com o pequeno grupo do seu partido”, ressalta. “Isto é ser auto-referencial”.

Rezar pelos governantes

Na primeira leitura, Paulo convida a rezar pelos reis, “para que – afirma – possamos levar uma vida calma, pacífica, digna e dedicada a Deus”. Francisco observa que, no entanto, quando um governante faz algo que não agrada, ele é criticado ou, de outra forma, louvado. É deixado sozinho com o seu partido, com o Parlamento.

“’Não, eu o votei – eu o votei’ – ‘Eu não o votei, problema seu’. Não, não podemos deixar os governantes sozinhos: devemos acompanhá-los com a oração. Os cristãos devem rezar pelos governantes. “Mas, Padre, como vou rezar por ele que faz tantas coisas ruins?”. Ele precisa mais do que nunca da oração. Reze, faça penitência pelo governante. A oração de intercessão – isso é tão bonito que Paulo diz – é para todos os reis, para todos aqueles que estão no poder. Por quê? Porque podemos levar uma vida calma e tranquila. Quando o governante é livre e pode governar em paz, todo o povo irá se beneficiar disso”.

E o Papa conclui pedindo que se faça um exame de consciência sobre a oração pelos governantes. “Peço-lhes um favor: cada um de vocês pegue hoje cinco minutos, não mais. Se você é um governante, se pergunte: ‘Eu rezo por aquele que me deu o poder através do povo?’ Se não é um governante, ‘rezo pelos governantes? Sim, por esse e por aquele sim, porque gosto deles; por aqueles outros, não’. Esses têm mais necessidade do que os outros! ‘Rezo por todos os governantes?’ E se você perceber, quando faz exame de consciência para se confessar, que não reza pelos governantes, leve isso à confissão. Porque não rezar pelos governantes é um pecado”.

A Eucaristia é remédio para quem está em pecado mortal?

https://padrepauloricardo.org/blog/a-eucaristia-e-remedio-para-quem-esta-em-pecado-mortal

O ato de aproximarmo-nos da Eucaristia com uma consciência manchada pelo pecado mortal nunca poderá chamar-se “Comunhão”, ainda que toquemos mil vezes o corpo do Senhor.

O Doutor Angélico, ao falar do sacramento da Eucaristia, ensina que este é o maior de todos os sacramentos, porque, “ao passo que nos outros sacramentos está contida uma certa virtude instrumental participada de Cristo”, “nele está contido o próprio Cristo substancialmente” [1]. Por esse motivo, a Igreja sempre prestou a este sacramento o culto de adoração, reconhecendo que, debaixo do véu das espécies eucarísticas, estava escondido, realmente, ninguém menos que o próprio Deus.

Ao falar de “comunhão”, então, é preciso reconhecer, com coragem, o primado de Deus. Na celebração da Santa Missa, quando os fiéis se aproximam da mesa eucarística, devem ter em mente que aquele ato de “comunhão” é apenas um sinal visível de algo que já acontece invisivelmente em sua alma, em estado de amizade com o Senhor. São João Paulo II ensina que “a integridade dos vínculos invisíveis é um dever moral concreto do cristão que queira participar plenamente na Eucaristia, comungando o corpo e o sangue de Cristo”. E acrescenta: “Não basta a fé; mas é preciso perseverar na graça santificante e na caridade” [2].

Por isso o Apóstolo já advertia à comunidade de Corinto que se examinasse antes de aproximar-se da Eucaristia, pois “quem comer o pão ou beber do cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor” [3]. Na mesma linha, São João Crisóstomo levantava a sua voz, pedindo aos fiéis que não se abeirassem “desta Mesa sagrada com uma consciência manchada e corrompida”: “De fato, uma tal aproximação nunca poderá chamar-se comunhão, ainda que toquemos mil vezes o corpo do Senhor, mas condenação, tormento e redobrados castigos” [4]. O Concílio de Trento corroborou este costume da Igreja, afirmando que “é preciso um exame para que ninguém, por mais contrito que ele considere, se aproxime da sagrada Eucaristia sem antes confessar sacramentalmente, caso esteja consciente de algum pecado mortal” [5].

Hoje, no entanto, algumas pessoas têm, senão negado esse ensinamento, pelo menos obscurecido sua importância. Tratam a Eucaristia com irreverência e desrespeito, distribuem a comunhão como quem distribui qualquer coisa no meio da rua e querem porque querem que todas as pessoas comunguem, mesmo que nem todas estejam verdadeiramente em comunhão com Cristo, isto é, em estado de graça.

Não se quer, com isso, negar o grande dom que é participar da comunhão frequente, nem criar uma “casta” dentro da Igreja, transformando-a numa “alfândega”. Como escreveu o Papa Francisco, “a Eucaristia (…) não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos” [6]. E ainda Santo Ambrósio: “Devo recebê-lo sempre, para que sempre perdoe os meus pecados. Se peco continuamente, devo ter sempre um remédio” [7]. A cada pessoa, porém, deve ser dado o remédio adequado à sua enfermidade, como indica o Aquinate:

“Não é qualquer remédio que convém a qualquer doente. Assim, o remédio para fortificar os que já não têm febre, faria mal dos febricitantes. Assim também o batismo e a penitência são remédios purificativos, para tirar a febre do pecado. Ao passo que este sacramento [a Eucaristia] é um remédio fortificante, que não deve ser dado senão aos que se livraram do pecado.” [8]

Por isso, São João Paulo II sublinha a íntima união entre o sacramento da Eucaristia e o sacramento da Penitência: “Se a Eucaristia torna presente o sacrifício redentor da cruz, perpetuando-o sacramentalmente, isso significa que deriva dela uma contínua exigência de conversão” [9].

Aqueles que se encontram em estado de graça, mas feridos pelos pecados veniais e pelos defeitos pessoais, no caminho da purificação, não devem deixar de recorrer ao sacramento da Eucaristia, tomando-o como “remédio fortificante”, para que os ajudem na luta contra o mal e na própria santificação.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Suma Teológica, III, q. 65, a. 3
  2. Ecclesia de Eucharistia, 36
  3. 1Cor 11, 27
  4. Homilias sobre Isaías, 6, 3: PG 56, 139
  5. Concílio de Trento, Sessão XIII, Decretum de ss. Eucharistia, cap. 7: DS 1647
  6. Evangelii Gaudium, 47
  7. De Sacramentis, IV, 6, 28: PL 16, 446
  8. Suma Teológica, III, q. 80, a. 4, ad 2
  9. Ecclesia de Eucharistia, 37
  10. Caminho de Perfeição, 35, 1

 

Afinal, está liberada a Comunhão aos divorciados? Entenda
https://oanunciador.com/2015/10/27/afinal-esta-liberada-a-comunhao-aos-divorciados-entenda/

Os trabalhos do Sínodo dos Bispos sobre a Família terminaram no último sábado e, entre os diversos pontos que aparecem no documento final, estão os divorciados recasados; e também o caso daqueles que, estando separados ou divorciados, decidiram permanecer fiéis ao vínculo do matrimônio e não contraíram uma nova união.

 Afinal, o que foi determinado como orientação para os divorciados?

Separados, mas sozinhos

Para todos que se separam, mas resolveram viver sozinhos e se quer namoram, o numeral 83 do Sínodo diz:

“O testemunho dos que inclusive em condições difíceis não ingressam em uma nova união, permanecendo fiéis ao vínculo sacramental, merece a avaliação e o sustento por parte da Igreja. Ela quer lhes mostrar o rosto de um Deus fiel ao seu amor e sempre capaz de dar-lhes novamente força e esperança. As pessoas separadas ou divorciadas, mas não recasadas, as quais normalmente são testemunho da fidelidade matrimonial, são encorajadas a encontrar na Eucaristia o alimento que as sustente em seu estado”.

Segunda União

O tema dos divorciados em nova união aparece no documento final sob o subtítulo “Discernimento e integração” e está nos numerais 84, 85 e 86.

O portal ACI Digital traduziu (Não oficial) o que diz nesses números com relação às pessoas divorciadas que possuem um novo relacionamento.

Integração comunitária:

84.– Os batizados que estão divorciados e se casaram novamente no civil devem estar mais integrados nas comunidades cristãs de diversas maneira que forem possíveis, evitando toda ocasião de escândalo. A lógica da integração é a chave do seu acompanhamento pastoral, para que não saibam apenas que pertencem ao Corpo de Cristo que é a Igreja, mas a fim de que possam ter uma feliz e fecunda experiência dela. São batizados, são irmãos e irmãs, o Espírito Santo derrama neles dons e carismas para o bem de todos.

Sua participação pode expressar-se em diversos serviços eclesiásticos: por isso, é necessário discernir quais das diversas formas de exclusão atualmente praticadas no âmbito litúrgico, pastoral, educativo e institucional podem ser superadas. Eles não estão e não devem sentir-se excomungados e podem viver e crescer como membros vivos da Igreja, sentindo-a como uma mãe que os acolhe sempre, os cuida com afeto e os exorta no caminho da vida e do Evangelho.

Esta integração também é necessária para o cuidado e a educação cristã dos seus filhos, os quais devem ser considerados como os mais importantes. Para a comunidade cristã, cuidar destas pessoas não se trata de debilitar a própria fé e o testemunho a respeito da indissolubilidade matrimonial, mas desta forma, através deste cuidado, a Igreja expressa a sua caridade.

Discernimento ao avaliar os casos

85.– São João Paulo II ofereceu um critério integral que permanece como a base para a valorização destas situações: “Os pastores, por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações. Em efeito, existe diferença entre aqueles que se esforçaram sinceramente por salvar o primeiro matrimônio e foram abandonados de tudo injustamente, e os que por culpa grave destruíram um matrimônio canonicamente válido. Finalmente, estão os que contraíram uma segunda união em vista a educação dos filhos e, às vezes, estão subjetivamente seguros em consciência de que o precedente matrimônio, irreparavelmente destruído, não tinha sido nunca válido” (Familiaris Consortio, 84).

Então, a tarefa dos presbíteros se trata de acompanhar às pessoas interessadas no caminho do discernimento segundo o ensinamento da Igreja e as orientações do Bispo. Neste processo será útil fazer um exame de consciência, através de momentos de reflexão e arrependimento.

Os divorciados recasados deveriam se perguntar como se comportaram com seus filhos quando a união conjugal entrou em crise, se houve tentativas de reconciliação, como está a situação do companheiro abandonado, que consequência tem a nova relação sobre o resto da família e da comunidade de fiéis, que exemplo oferece aos jovens que devem se preparar para o matrimônio. Uma sincera reflexão a respeito pode reforçar a confiança na misericórdia de Deus que não nega a ninguém.

Além disso, não podemos negar que em algumas circunstâncias “a imputabilidade e a responsabilidade de uma ação podem ficar diminuídas e inclusive suprimidas” (CCC, 1735) por causa de diversos condicionamentos. Como consequência, o julgamento a respeito de uma situação objetiva não deve levar a um julgamento sobre a “imputabilidade subjetiva” (Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, Declaração de 24 de junho de 2000, 2a).

Em certas circunstâncias as pessoas encontram grandes dificuldades para agir de forma distinta. Por isso, enquanto se sustenta uma norma geral, é necessário reconhecer que a responsabilidade em relação a determinadas ações ou decisões não é a mesma em todos os casos.

O discernimento pastoral, tendo presente a consciência retamente formada pelas pessoas, deve encarregar-se destas situações. As consequências dos atos realizados também não são necessariamente as mesmas em todos os casos.

Quem decide é o sacerdote:

86.- O percurso de acompanhamento e discernimento orienta estes fiéis a serem conscientes da sua situação ante Deus. O diálogo com o sacerdote, no foro interno, concorre com a formação de um julgamento correto acerca do que obstaculiza a possibilidade de uma participação mais plena na vida da Igreja e sobre os passos que podem favorecê-la e fazê-la crescer.

Dado que na mesma lei não é gradual (FC, 34), este discernimento nunca poderá prescindir das exigências da verdade e da caridade do Evangelho proposta pela Igreja. Para que isto aconteça, devem ser garantidas as necessárias condições de humildade, reserva, amor à Igreja e aos seus ensinamentos, na busca sincera da vontade de Deus e no desejo de alcançar uma resposta mais perfeita a esta.

Pode ou não pode?

Como lido acima, nada é falado de forma clara. Ficam a nossa interpretação e que devido a falta de retidão no texto pode nos levar a qualquer interpretação equivocada.  Ainda é preciso ler e entender melhor o documento final, além é claro, de esperar a decisão final do Papa Francisco.

Por enquanto, é importante lembrar que nada muda. O porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, lembrou que se trata de propostas dirigidas ao papa, que decidirá se será necessário elaborar um documento papal sobre a família. Ou seja, aguardemos uma decisão final. Apenas uma diretriz foi dada e pode ser colocada em prática para ontem, acolher os casais e deixar de tratá-los como excomungados.

Por Marquione Ban

 

Afinal, o Papa liberou a Comunhão para os recasados?
Entenda em 5 passos…
O objetivo de Francisco é justamente fugir dos termos jurídicos e focar na vivência mais autêntica da fé como caminho de conversão a Deus.
http://www.semprefamilia.com.br/afinal-o-papa-liberou-a-comunhao-para-os-recasados-entenda-em-5-passos/

Com a publicação da exortação apostólica pós-sinodal Amoris Laetitia, “A alegria do amor”, muitos meios de comunicação destacaram que o papa abriu as portas para que pessoas que estão em segunda união possam comungar. Outros disseram que não mudou nada. Afinal, o que aconteceu? Entenda a questão em cinco passos:

1) Disciplina é diferente de doutrina

Há quem diga que nada mudou porque a doutrina da Igreja não pode mudar. É verdade, não pode. Mas a disciplina pode. A doutrina é aquilo que faz parte do anúncio da fé cristã sobre Deus e sobre o homem. A disciplina são regimentos internos que podem ser alterados. Por exemplo, a obrigatoriedade do celibato para os que desejam o sacerdócio e os tempos e os modos de fazer jejum são disciplinas: há padres casados na Igreja (no Oriente e entre os ex-anglicanos convertidos) e as leis sobre o jejum são só um mínimo que a Igreja estabelece para orientar a prática. Mas o valor do celibato e do jejum são doutrina: nunca a Igreja vai dizer que esses elementos não são importantes.

Mas e a comunhão aos recasados, é doutrina ou disciplina? Há dois elementos doutrinais na questão: 1) o adultério é um pecado objetivamente grave; 2) quem está em pecado grave não pode receber a comunhão eucarística (deve se confessar e sair da situação de pecado em que vive). Por isso, alguns dizem que a proibição da comunhão aos recasados seria algo doutrinal, já que quem casa sacramentalmente e depois se divorcia e se une a outra pessoa está em uma situação de adultério – como diz o próprio Jesus, no Evangelho de Mateus. E então?

2) Situação objetiva de pecado

A questão está no fato de que um pecado pode ser objetivamente grave, mas devido a diversos elementos, pode ser que a pessoa não esteja pecando ao realizá-lo. Como assim? Explica o Catecismo da Igreja Católica (de 1992): “A imputabilidade e responsabilidade de um ato podem ser diminuídas, e até anuladas, pela ignorância, a inadvertência, a violência, o medo, os hábitos, as afeições desordenadas e outros fatores psíquicos ou sociais” (n. 1735). Alguém forçado a cometer um ato de violência, por exemplo, não pode responder por esse ato com a mesma responsabilidade que alguém que o comete livremente, porque lhe falta liberdade.

É o que pode acontecer com um casal que vive em segunda união. Diversos fatores – da pressão social à instabilidade afetiva, da lentidão dos processos canônicos de declaração de nulidade matrimonial ao dever de criar os filhos em uma família unida – podem fazer com que eles não possam ser culpabilizados pelo ato objetivamente pecaminoso de coabitar com uma nova pessoa, sendo já casado de forma indissolúvel. Ou seja, há casos em que um casal de segunda união não está vivendo em pecado grave. Logo, a proibição da comunhão aos recasados é assunto de disciplina, não de doutrina.

3) A graça

Buscar a Deus e viver em sua amizade, evitando o pecado, é o que chamamos de viver na graça. Um casal de segunda união, dependendo da sua situação, pode viver na graça. Bento XVI já dava a entender isso, no Encontro Mundial das Famílias de 2012, em Milão. Ele falava, sobre os divorciados recasados: “É muito importante também que sintam que a Eucaristia é verdadeira e participam nela se realmente entram em comunhão com o Corpo de Cristo. Mesmo sem a recepção ‘corporal’ do Sacramento, podemos estar, espiritualmente, unidos a Cristo no seu Corpo.” Ora, se alguém está unido a Cristo, vive na graça, porque a graça é a união com Deus em Jesus Cristo.

É o que afirma o papa Francisco na exortação: “Por causa dos condicionalismos ou dos fatores atenuantes, é possível que uma pessoa, no meio duma situação objetiva de pecado – mas subjetivamente não seja culpável ou não o seja plenamente –, possa viver em graça de Deus, possa amar e possa também crescer na vida de graça e de caridade, recebendo para isso a ajuda da Igreja” (n. 305). Embora a situação de segunda união não seja a ideal – e o papa o reafirma algumas vezes – isso não significa que ela represente, em todos os casos, uma situação objetiva de afastamento de Deus.

4) A possibilidade de comungar

É aqui que entrou a questão da Eucaristia: mesmo que muita gente tenha achado que a possibilidade da comunhão aos recasados tenha sido uma das principais questões dos sínodos sobre a família, para o papa tratou-se de uma questão secundária, à qual ele respondeu com uma simples nota de rodapé, referente ao trecho que citamos acima: “Em certos casos, poderia haver também a ajuda dos sacramentos. Por isso, aos sacerdotes, lembro que o confessionário não deve ser uma câmara de tortura, mas o lugar da misericórdia do Senhor. E de igual modo assinalo que a Eucaristia não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos”.

A lógica é simples: se a pessoa está vivendo na graça de Deus, por que não poderia receber a Eucaristia? A questão mais difícil é saber se de fato aquela situação de um casal específico representa um caso em que houve atenuantes de culpa. Por isso, Francisco deixa claro que não quer emitir nenhuma normativa canônica a esse respeito, porque a variedade das situações é muito ampla (n. 300). O papa dá algumas orientações para um discernimento adequado, mas esse é um processo que deve ser feito no foro íntimo entre um casal e um padre que os acompanhe. Havendo a percepção de que não se pode imputar culpabilidade naquele caso e que o casal busca viver em união com Cristo, receber a Eucaristia seria, sim, uma possibilidade válida.

 5) A letra e o espírito: o trunfo de Francisco

“É mesquinho deter-se a considerar apenas se o agir duma pessoa corresponde ou não a uma lei ou norma geral, porque isto não basta para discernir e assegurar uma plena fidelidade a Deus na existência concreta de um ser humano” (n. 304), escreve Francisco. A grande sacada do papa foi dar primazia à busca de comunhão com Deus. Ele poderia – como foi sugerido – ter criado canonicamente um percurso penitencial para permitir que os casais de segunda união comunguem. Porém, se o fizesse, estaria burocratizando mais ainda o acesso aos sacramentos: muitos poderiam fazer o dito percurso sem experimentá-lo e vivenciá-lo desde dentro como um caminho de conversão e busca da santidade – assim como boa parte dos que hoje participam de um curso de preparação para o matrimônio ou para o batismo de um afilhado, por exemplo.

A “letra”, a lei, nesse caso, só criaria mais problemas. Francisco optou pelo espírito: a busca sincera de realizar a vontade de Deus. E o papa deixa tudo muito claro: a primazia da busca da vontade de Deus é fundamental, diz ele, “para evitar o grave risco de mensagens equivocadas, como a ideia de que algum sacerdote pode conceder rapidamente ‘exceções’ ou de que há pessoas que podem obter privilégios sacramentais em troca de favores. Quando uma pessoa responsável e discreta, que não pretende colocar os seus desejos acima do bem comum da Igreja, se encontra com um pastor que sabe reconhecer a seriedade da questão que tem entre mãos, evita-se o risco de que um certo discernimento leve a pensar que a Igreja sustente uma moral dupla” (n. 300). Não é possível compreender a resposta de Francisco em termos de “permissão”, “proibição”, “irregularidade” e “liberação” porque a preocupação dele é justamente a de não entender as coisas de modo legalista, mas viver um processo de conversão verdadeiro, total, em busca da comunhão com Deus em Jesus Cristo.

As portas do perdão estão sempre abertas

Se na Igreja não existisse a remissão, não existiria esperança

O Catecismo da Igreja diz algo muito importante: “Não há  pecado algum, por mais grave que seja, que a Santa Igreja não possa perdoar. “Não existe ninguém, por mau e culpado que seja, que não deva esperar, com segurança, o seu perdão, desde que seu arrependimento seja sincero.” Cristo, que morreu por todos os homens, quer que, em Sua Igreja, as portas do perdão estejam sempre abertas a todo aquele que recua do pecado” (§982).

Então, nenhum pecador pode se desesperar ou desanimar da salvação; seria falta de fé. Basta uma gota do preciosíssimo Sangue de Cristo para perdoar todos os nossos pecados. No entanto, Ele derramou todo o Seu Sangue por nós. Só não pode ser perdoado o pecador de que tiver o coração endurecido e não corresponder à graça de Deus, fechando-se para o arrependimento; é o pecado contra o Espírito Santo. Neste caso, a falta do perdão não acontece por falta de misericórdia divina, mas por ação do pecador que rejeita o perdão de Deus.

Na remissão dos pecados, os presbíteros e os sacramentos são instrumentos que nosso Senhor Jesus Cristo, único autor e dispensador de nossa salvação, faz uso para apagar nossas iniquidades e dar-nos a graça da justificação. Por isso, não podemos fugir deste sacramento como alguns o fazem; ao contrário, frequentemente temos de buscar nele o perdão de nossas faltas para ter a consciência em paz conosco e com Deus. A Igreja chama a penitência de “sacramento de cura”.

Santo Ambrósio (340-397), o grande doutor que batizou Santo Agostinho, disse que Jesus quis dar a Seus discípulos um poder imenso: que seus pobres servidores realizem em Seu nome tudo que havia feito quando estava na terra. É melhor confessar-se com um sacerdote, humano e também pecador, que entende a nossa fraqueza, do que se confessar com um anjo que nunca pecou. No sacramento da confissão há uma pedagogia divina que nos leva ao ministro sagrado para não só ser perdoado, mas também ser orientado para livrar-se do pecado, o pior de todos os males. (De Paenitentia 1,8,34)

Vemos, então, que os presbíteros receberam um poder que Deus não deu nem aos anjos nem aos arcanjos. O Senhor sanciona, lá no alto, tudo o que os sacerdotes fazem aqui embaixo, disse outro doutor da Igreja, São João Crisóstomo (349-407) (Sac. 3,5). Santo Agostinho disse que: “Se na Igreja não existisse a remissão dos pecados, não existiria nenhuma esperança, nenhuma perspectiva de uma vida e de uma libertação eternas. Demos graças a Deus, que deu à Igreja tal dom” (Salmo 88,2,5).

Felipe Aquino
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XXIII Domingo do Tempo Comum – Ano A

Por Mons. Inácio José Schuster

Celebramos hoje o 23° Domingo do Tempo Comum. Mateus, no texto que ouvimos na Liturgia, diz-nos: “Se teu irmão cometer uma falta, vai e repreende-o a sós. Se te escutar, ganhaste teu irmão”. O capítulo 18° de Mateus trata da disciplina eclesiástica interna, ou seja, como devem proceder, internamente, os discípulos de Jesus; como deve viver a Comunidade. A correção, como vem descrita aqui pelo Evangelista Mateus, é uma correção ampla. Mateus não coloca limites para essa correção fraterna. Que dizer então? Em linha de princípio, é preciso corrigir. Mas atenção: em primeiro lugar, se se trata de uma culpa contra mim, não devo corrigir. Aqui, neste caso, é melhor perdoar. Se se trata de culpa contra outros ou, sobretudo, quando está em jogo o bem comum, a seriedade, a compostura, a dignidade ou a santidade da Comunidade, então é dever de consciência corrigir. Mas, também neste particular, uma atenção redobrada: em primeiro lugar a correção deve ser feita tu a tu, isto é, a sós. E para que? Para não humilhar desnecessariamente a pessoa do outro. Em segundo lugar, para ser uma correção evangélica. Nós devemos elevar a pessoa, e elevamos a pessoa não quando a massacramos, vomitando-lhe no rosto uma série de defeitos que detestamos, e contemplamos nela. Isto não é evangélico. Isto é rudeza, isto é falta de educação e com isto não se ganha, não se conquista o irmão. Neste caso, então, a correção deve começar pela parte positiva. É bom  dizer ao irmão errado, qual o bem que ele já fez, o que se espera dele e onde ele pode melhorar. Ainda devemos acrescentar algo neste discurso de Mateus que é essencial para a vida de uma igreja e de uma comunidade descente, digna e santa. Muitas vezes sentimo-nos apenas credores de perdão. Mas, se fizermos um exame de consciência atento, deveremos confessar que, as mais das vezes, devemos nós pedir perdão também. Somos devedores de perdão, e não apenas seus credores. E, sobretudo, devemos perdoar sempre, corrigir e perdoar, porque Deus nos perdoa sempre, e nós devemos agir com o irmão, como Deus age constantemente e pacientemente com cada um de nós.

 

COMUNIDADE CRISTÃ, LUGAR DA ACOLHIDA E MISERICÓRDIA
Padre Bantu Mendonça

Para entendermos melhor o trecho de hoje temos de ter em mente a figura do pastor que vai procurar a ovelha que se perdeu, deixando as noventa e nove nas montanhas. Só assim chegamos ao caso concreto: alguém da comunidade cometeu falta grave contra seu irmão. Como reagir? Fazendo-se de vítima? “Pondo a boca no mundo” e denunciando o erro? A primeira atitude – talvez a mais difícil – é perdoar e ir à procura de quem errou na qualidade de quem já perdoou, a fim de mostrar ao outro o erro e convidá-lo novamente a se reintegrar na comunidade: “Se o seu irmão pecar, vá e mostre o seu erro, mas em particular, só entre vocês dois. Se ele lhe der ouvidos, você ganhou o seu irmão”. Quero, porém, recordar a você que não se trata de “ganhar o irmão para si”, mas sim para a comunidade e, sobretudo, para Deus. Porque quem ofendeu um membro da comunidade rompeu, de certa forma, com a comunidade como um todo. Como o pastor que procura a ovelha perdida, a justiça do Reino não se cansa e tenta outra forma de aproximar quem errou: “Se ele não lhe der ouvidos, tome consigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas”. À primeira vista, tem-se a impressão de que estaríamos fazendo um cerco em torno de quem errou. Mas essa atitude pode ser vista sob a ótica da justiça do Reino, que tem como princípio fazer de tudo para que o irmão não se perca. E se isso não der certo, toda a comunidade é chamada a se pronunciar: “Caso não dê ouvidos, comunique à Igreja”. E se, depois de esgotados todos os recursos, depois de ter dado a quem errou a oportunidade de ouvir o parecer de toda a comunidade é que a pessoa, por decisão de todos, é excluída: “Se nem mesmo à Igreja ele der ouvidos, seja tratado como se fosse um pagão ou um cobrador de impostos”. Mesmo nesse caso a comunidade deve manter-se em atitude prudente, dando uma chance a longo prazo para que a pessoa se arrependa e volte à comunidade. Antes de condenar ou excluir alguém, é preciso aprender a justiça do Reino. E ter consciência de que os passos aconselhados por Jesus não são normas rígidas, e sim um modo de agir que tempera com justiça, misericórdia e caridade as relações entre pessoas. Em outras palavras, é preciso ser criativo no esforço de recuperar quem erra e se afasta da comunidade. E o espírito que anima essa tarefa não é o da exclusão, mas o da busca para reintegrá-lo. Se no capítulo 16 de Mateus, Jesus confia a Pedro a tarefa de ligar e desligar, no texto de hoje, essa missão é confiada à comunidade como um todo. Pois Pedro é sinal, é figura representativa de toda a comunidade dos seguidores de Jesus. Ligar e desligar são termos jurídicos e atribuições da comunidade inteira: “Tudo o que vocês ligarem na terra será ligado no céu, e tudo o que vocês desligarem na terra será desligado no céu”. Mateus nos mostra que o mais importante para a comunidade não é excluir alguém, mas sim a capacidade de integrar a essa pessoa. Tomar a decisão de incluir ou excluir pessoas da comunidade não é tarefa fácil, como pretendiam e faziam os chefes da sinagoga daquele tempo. É necessário que tenhamos sempre em conta a advertência de Jesus: “Se a justiça de vocês não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, vocês não entrarão no Reino dos Céus”. Para tanto, Cristo dá algumas indicações, que passam pela necessidade das pessoas se reunirem em nome d’Ele, a fim de – mediante a oração – chegarem a um consenso: “Se dois de vocês estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa (isto é, sobre qualquer tipo de litígio) que queiram pedir, isto lhes será concedido por meu Pai que está no céu. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali, no meio deles”. É urgente que a comunidade esteja sempre ligada a Cristo pelo fato de que, nela, existem tensões entre os diversos grupos e problemas de convivência: há irmãos que se julgam superiores aos outros e que querem ocupar os primeiros lugares. Há irmãos que tomam atitudes prepotentes e que escandalizam os pobres e os débeis. Há irmãos que magoam e ofendem outros membros da comunidade. Há irmãos que têm dificuldade em perdoar as falhas e os erros dos outros. Somente estando em permanente sintonia com Jesus, que nos convida à simplicidade e humildade, ao acolhimento dos pequenos, pobres e excluídos, ao perdão e ao amor que conseguiremos vencer. Aliás, com Jesus e pela força da oração tudo pode ser mudado. Só assim seremos uma comunidade verdadeiramente família de irmãos, que vive em harmonia, que dá atenção aos pequenos e aos débeis, que escuta os apelos e conselhos do Pai e que vive no amor do Filho, animada pelo Espírito Santo.

 

23º Domingo do Tempo Comum, A.
“Vós sois justo, Senhor, e justa é a vossa sentença; tratai o vosso segundo a vossa misericórdia”(cf. Sl. 118,137.124).
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha (MG)

Refletimos na liturgia de hoje a “Igreja, comunidade de salvação”. O profeta é o homem que enxerga por cima dos telhados, que tem uma visão de conjunto da realidade eclesial, é aquele que faz uma análise das coisas certas e das coisas erradas, anunciando a vontade de Deus, o hoje da salvação. O profeta enxerga o lado interior das coisas, principalmente as coisas surpresas e as maldades dos corações. O profeta é uma sentinela, que deve dar o alerta se enxergar algo suspeito no comportamento dos fiéis e na caminhada da comunidade. É o profeta que faz com que a comunidade volte para o caminho da verdade, da salvação e da fraternidade. A primeira leitura tirada do livro de Ezequiel(33, 7-9) nos adverte que como cristãos, temos todos responsabilidades uns para com os outros. Somos sentinelas da fidelidade para com Deus e para com o próximo.  Os profetas eram sentinelas em Israel; deviam dar alerta, e o fizeram. Mas o povo não prestou atenção. Veio a catástrofe – exílio. Sobra um pequeno resto. Ainda assim precisa de sentinela, de alguém que lhe avise para mudar seu caminho. E aí da sentinela que não cumprir seu dever: ela é responsável pela perda do irmão. Irmãos e Irmãs, Jesus hoje nos ensina como deve ser o comportamento cristão diante do pecador, de quem peca, de cada um dos irmãos, que pecamos quotidianamente, na caminhada para a santidade. Jesus nos adverte que a lei fundamental do cristianismo é a lei do amor, que tudo perdoa, tudo acolhe, tudo ama. A correlação fraterna deve ser ditada pelo amor fraterno e pressupõe a correspondente humildade e compreensão da parte de quem corrige. O orgulhoso não tem autoridade para corrigir. O Evangelho fala da correção fraterna, penitência e oração comunitária(cf. Mt 18,15-20). A Igreja é ao mesmo tempo santa e pecadora. Na santidade de filhos de Deus, somos irmãos, responsáveis uns pelos outros, mesmo e, sobretudo, quando o pecado está destruindo esta santidade. Só em última instância, quando a preocupação do cristão individual ou da comunidade nada resolvem, a comunidade pode excluir o pecador, para o conscientizar de que ele já não está participando da santa comunhão eclesial. A ovelha desgarrada é o pecador. Jesus se comporta diante do pecador de maneira diferente da dos homens: vai à sua procura com interesse e carinho e sente alegria em encontrar o pecador. Assim não foi com Zaqueu que desceu da árvore para atender ao apelo convocatório do Mestre que dizia que iria hospedar-se na sua casa, a casa de um pecador, anunciando que naquele dia a salvação havia entrado na sua casa. Jesus nos aponta o comportamento correto dos cristãos: o perdão e acolhida devem ser as maiores novidades do Novo Testamento. Mas amar, perdoar e acolher é uma tarefa árdua, às vezes inatingível, porque o orgulho e a auto-suficiência campeiam a mentalidade dos homens e das mulheres de nossos dias. Meus irmãos, O perdão é difícil de entender e mais difícil de viver. O Antigo Testamento não conheceu o perdão gratuito. Foi Jesus quem o trouxe, anunciou e viveu pela primeira vez na sua própria vida. O Antigo Testamento ensinou a vingança, depois a lei de talião, olho por olho, dente por dente. Entretanto, Jesus no sermão da Montanha lembrou a norma jurídica e a declarou insuficiente e superada. Jesus virou a mesa dando um passo significativo, muito adiante do seu tempo e do tempo em que vivemos: Jesus instituiu o perdão gratuito, nunca olhando o tamanho da ofensa, mas dimensionando o tamanho superior da acolhida e do perdão. Se Deus no céu nos perdoa de todas as nossas infidelidades, quem seremos nós os homens para não acolher esta diretiva de perdão, perdoar hoje, amanhã e sempre. Voltar ao irmão que foi vilipendiado e abaixar-se se humilhando no perdão misericordioso. Os cristãos tem o grave dever de ser “os mensageiros da reconciliação”, os “mensageiros do perdão”. A Igreja, ao defender aos excluídos, deve ser a mensageira no mundo da mensagem evangélica e do mandato apostólico do perdão e da reconciliação. Jesus foi o próprio modelo de quem sabe perdoar gratuitamente. Mesmo na Cruz, depois de tanto vilipêndio, injustiças e traições ele suplicou: “Pai, perdoar-lhes, eles não sabem o que fazem”. E olhando para o ladrão arrependido, São Dimas exclamou: “Hoje mesmos estarás comigo no paraíso” (Cf. Lc 23,43), perdoando-lhe os seus pecados: “Os teus pecados te são perdoados” (Cf. Lc 7,48). Meus amigos, A repreensão tem o sentimento e o gosto do perdão. Tudo isso por que o pecado, mesmo cometido por uma só pessoa, tem sentido e significado comunitário. Por que isso? Porque se corrigirmos um irmão individualmente, depois se ele não aceita, é pedido que se chame a Igreja. Quando o Padre perdoa os pecados ele age em nome da Igreja, agindo em nome de um poder que foi a ela confiada em nome de Jesus Cristo. Dentro do cristianismo e repreensão já tem o gosto de perdão. Está, portanto, muito longe de certo sadismo que sentem alguns que vivem julgando todo mundo e se arrogam o direito de corrigir os da direita, os da esquerda e os de trás, bem como os da frente. A repreensão significa compreensão e coração dilatado para a abertura. Nós cristãos formamos uma comunidade. “Igreja” significa comunidade de crentes. Por isso Jesus admitiu a possibilidade de duas ou mais pessoas terem de repreender, quando alguém errou e não quis ouvir em particular uma reprimenda. Jesus fala em “testemunhas” ao falar de correção. Ao falar em correção Jesus quis resguardar que a Igreja não se transformasse numa seita de pequenos, mesquinhas e puros, bem ao estilo dos judeus de então. Jesus não exclui, Jesus, ao contrário, acolhe. Amigos, amados, Jesus não falou em nenhum momento em julgar. Ele apenas conjugou o verbo perdoar. O perdão necessita de recolhimento, de intimidade com o Senhor, de enxergar o hoje de Deus. A misericórdia de Deus ultrapassa todos os limites imagináveis da justiça e se expressou no sangue do Filho bendito, derramado na cruz para o perdão de nossos pecados, assim o nosso perdão, fundamentado no amor e embebido no sangue do Senhor deve ir além da justiça humana e muito, muito além das satisfações que nosso coração possa exigir. Desenvolver o senso de justiça sem perdão não adianta. A justiça é apanágio da acolhida e do perdão. Caros Irmãos, A segunda Leitura(cf. Rm 13,8-10 nos ensina que Paulo, nas suas exortações resume a prática da vida cristã não ficar devendo nada aos outros senão a caridade, que é sempre insuficiente. O amor é o pleno cumprimento da Lei. Na sua justiça, Deus dá a todos o que precisam: fundamentalmente, seu amor de Pai. Nós, para sermos justos, devemos também dar-nos mutuamente este dom, embora sempre ficaremos devendo. Toda a justiça está incluída nisso. Pois a caridade é o resumo de tudo. Vamos nesta semana refletir e colocar em prática a caridade que é o resumo da liturgia de hoje. Se nos esforçamos pela caridade salvamos automaticamente todas as outras obrigações: “O amor é pleno cumprimento da lei” (cf. Rm 23,8-10). O verdadeiro amor não deixa as pessoas como são, com seus defeitos e as suas limitações. Amar um irmão significa ajudá-lo a crescer em todos os níveis, querer concretamente a sua libertação, daquilo que é defeituoso e mau, lutar por sua plena humanização. Corrigir é a grande obra de amor. Na correção fraterna o cristão faz largo uso do encorajamento. Corrigir o irmão para os caminhos de Deus é uma das maiores facetas da caridade.

 

CORREÇÃO FRATERNA NO SENHOR
Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração
23° DOMINGO DO TEMPO COMUM
Leituras: Ez 33, 7-9; Rm 13, 8-10; Mt 18, 15-20

“Se alguém está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas; eis que se faz realidade nova. Tudo isto vem de Deus que nos reconciliou consigo por meio de Cristo” (2 Cor 5, 17). Talvez poucas outras afirmações de Paulo nos apresentem, em síntese tão clara, a novidade radical operada por Deus na pessoa que encontrou Cristo pela fé e pelo batismo. No centro da “nova criação”, inaugurada em Cristo, está o “homem novo”, criado no Espírito para uma vida nova de justiça e santidade. Este dinamismo novo marca desde já suas relações com Deus, com os irmãos e até com a própria criação, com a qual ele partilha o mesmo anseio à plena liberdade dos filhos e filhas de Deus. Com a páscoa de Jesus, teve início uma comunidade tão rica em humanidade que, pela novidade divina que a anima, pode-se chamar comunidade do Senhor. Ela recuperou o projeto original de Deus sobre a família humana, enquanto antecipa, como profecia, a plenitude do reino de Deus na regeneração escatológica Por enquanto, porém, ela caminha na história segundo a dinâmica divina da pequena semente, guardando em si mesma a energia de uma vitalidade que não se pode conter, revestida de fragilidade e exposta a toda sorte de adversidade: como o Verbo de Deus que escolheu ficar entre nós na fragilidade da carne. O Apóstolo, com a mesma clareza, acrescenta: “Em nome de Cristo suplicamo-vos: reconciliai-vos com Deus… Eis agora o tempo favorável, por excelência. Eis agora o dia da salvação” (2 Cor 5, 20. 6,2). O dom de Deus se torna chamado a assumir uma colaboração responsável com a graça do Senhor, junto com a sua renovada oferta de perdão e reconciliação. Fragilidade e graça, ofensa e reconciliação, pecado e perdão: ações humanas e dons recebidos de Deus, que partilhados entre irmãos e irmãs constituem a “veste cotidiana” do discípulo e da comunidade, enquanto eles se empenham em realizar a vocação de despojar-se do homem velho e revestir-se plenamente do homem novo em Cristo (cf Ef 4,24). Como lidar com estas potencialidades de renovação pascal tão radical, e, por outro lado, com estas contradições, evidenciadas pela experiência cotidiana, além de toda tentativa de mascará-las? Mateus oferece à comunidade do seu tempo, assim como à nossa, um conjunto de exortações de Jesus sobre a vida da comunidade, que tem como ponto de referência os anúncios da sua paixão e ressurreição e o evento da sua transfiguração. Isso é, indica a própria pessoa de Jesus e seu mistério pascal. O batismo mergulhou o discípulo no dinamismo pascal de Jesus. Desta participação lhe derivam a energia e os critérios capazes de inspirar sua conduta. Os critérios para uma correta relação com o Pai e com os irmãos, a construir cada dia em maneira sempre nova, são os do próprio Jesus: total dedicação ao Pai e aos irmãos no amor, e no perdão sem limite. Estes critérios, no evangelho de hoje assumem a forma da correção fraterna, atenta e generosa, e no trecho que será proclamado domingo próximo (Mt 20, 21-35), se exprimirão no perdão recebido por Deus e partilhado entre os irmãos. A comunidade se torna o lugar onde se pode experimentar e testemunhar a energia criadora da páscoa, comunidade frágil, mas animada e partícipe da mesma santidade de Deus. Com humildade e renovada confiança, em cada eucaristia, celebração memorial da páscoa, a Igreja com verdade reza: “E a nós, que somos povo santo e pecador, dai força para construirmos juntos o vosso reino que também é nosso” (Oração Eucarística V). A pedagogia sugerida por Jesus para os irmãos sustentarem-se uns aos outros e corrigirem-se entre si, quando um venha a falhar contra o outro, é a mesma que ele usa com os pequenos, os marginalizados, os pecadores. Jesus vai à procura deles. Como o bom pastor que deixa nos montes as noventa e nove ovelhas para procurar aquela desgarrada (Mt 18, 12-14): assim nos lembra a pequena parábola que precede imediatamente o texto do evangelho sobre a correção fraterna. Jesus não espera que sejam aqueles que se desviaram a fazer o primeiro passo, depois de terem-se “convertido”. Ao invés os atrai a si com sua iniciativa e os transforma. No centro da pedagogia de Jesus não se encontra a legítima preocupação de restabelecer a justiça da lei violada, nem a necessária salvaguarda da mesma comunidade, que também merecem atenção (cf 1 Cor 5, 2-13; 2 Ts 3, 6). Quem escandaliza um dos pequeninos, amados pelo Pai, merece a mais dura condenação (cf Mt 18,6). Todavia no centro da atenção e da ação de Jesus está sempre a pessoa, o cuidado para ajudá-la a tomar consciência do seu desvio do caminho da vida, e a voltar para o caminho certo. Os gestos a serem assumidos por parte da pessoa ofendida, ou pela própria comunidade no seu conjunto, são gestos despojados de toda aparência de poder e de vingança, cheios, pelo contrário, de ternura persistente e apaixonada pelo irmão que falha. Os passos indicados para a correção, feitos por graus, que vão desde o dialogo a sós com o irmão, ao encontro com ele estendido à participação de algumas testemunhas, e enfim à comunidade, não descrevem somente um correto procedimento jurídico. Eles dizem respeito à progressiva aproximação a ser feita ao coração desnorteado do irmão, para carregar sobre si o peso dele, como o bom pastor põe sobre seus ombros a ovelha reencontrada e faz festa (cf Lc 15, 8-10), a fim de fazer perceber ao irmão o amor do Pai, que não desiste nem diante das resistências do filho perdido (cf Lc 15, 11-32). A correção fraterna, exercitada no estilo de Deus e de Jesus, é a maneira de atuar do próprio Deus na comunidade, e a maneira em que a comunidade vive e testemunha o reino de Deus entre os homens. Por isso, quem, consciente dos próprios limites, pretende ajudar o irmão que está errando, deve procurar a ajuda da comunidade inteira. Diante da resistência a qualquer solicitação fraterna, a ele não resta que assumir a mesma atitude de Jesus, em relação aos pecadores: redobrar a dedicação e entregar o irmão ao amor de Deus, que só conhece os mistérios do coração do homem e pode renová-lo. É verdadeiramente extraordinária a perspectiva indicada por Jesus que coloca em oração a comunidade, como seu esforço extremo e mais eficaz para ajudar o irmão! A estas condições, a sofrida tomada de distância do irmão (Mt 20, 17) assume seu verdadeiro caráter de último remédio. Assume a forma do gesto da mão estendida, que procura a solidariedade de todos os irmãos, enquanto o entregam ao Pai. A oração da comunidade se torna divinamente eficaz, enquanto nasce da caridade. O que exprime caridade realiza plenamente o projeto de Deus, em sintonia entre céu e terra (Mt 18, 18 -20). O estilo de Jesus é tremendamente desafiador! Hoje em dia, diante das fraquezas cotidianas presentes nas comunidades cristãs, não falta quem faça apelo para uma mais rigorosa e estreita aplicação da disciplina canônica, como primeiro instrumento a ser usado para corrigir os que falham, dissuadir outras faltas, e como critério para marcar mais claramente quem pertence e que não pertence à Igreja. Razões para despertar, e até revoltar, a consciência comum e de cada um de nós diante dos enfraquecimentos da fé e da falta de coerência nos comportamentos com certeza não faltam. Seria suficiente pensar aos graves abusos contra as crianças, também por parte do clero, denunciados nos últimos anos. O apelo, porém, à mais rígida aplicação da disciplina canônica para enfrentar os problemas existentes na comunidade cristã seria uma tentação e uma fuga da realidade, se a situação não nos interpelasse, antes de tudo, para uma renovada tomada de consciência da exigência de fundamentar melhor no evangelho e na experiência da iniciação cristã o caminho espiritual das pessoas e a praxe pastoral das comunidades. A comunidade não é a soma de um certo número de habitantes da paróquia, a gerenciar como um todo, mas o conjunto de pessoas individuais, cada uma em busca do cuidado do Pai e da atenção à sua situação peculiar por parte dos pastores e de cada um de nós. O descuido recíproco entre as ovelhas é condenado pelo profeta com palavras fortes, assim como o descuido dos pastores em relação às ovelhas (Ez. 34, 17-22). Para enxergar razoavelmente no olho do irmão o cisco, é preciso antes cuidar que não se encontre uma trave no próprio! (Mt 7,3-5). O apóstolo destaca que os critérios apropriados para construir relações certas dentro da comunidade, assim como na sociedade civil, são os indicados por Jesus ao mestre da Lei (cf. Mt 22, 34-40). “Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o próximo está cumprindo a lei… Os mandamentos… se resumem neste: ‘Amarás ao teu próximo, como a ti mesmo’. Portanto, o amor é cumprimento perfeito da lei” (2ª leitura – Rm 13, 8. 10). Os pastores receberam do Senhor a tarefa de vigiar em favor dos irmãos como sentinela, que vigia sobre a segurança da cidade e antecipa o alvorecer do novo dia, dando esperança aos que ficam sob o peso da noite. A missão do profeta, assim como de todos os chamados a colaborar com o Senhor, é antes de tudo ficar atentos à Palavra do próprio Senhor, para tornar-se seu fiel porta-voz “Logo que ouvires alguma palavra de minha boca, tu os deves advertir em meu nome” (Ez 33,7). A vida ou a morte do irmão podem depender da atenção ao Senhor e da coragem para transmitir sua palavra. Por isso a grave responsabilidade do profeta/pastor (1ª leitura – Ez 33, 8-9). É preciso sublinhar que a missão do pastor não é simplesmente guardar a boa ordem na comunidade, mas servir à palavra do Senhor. Por isso é a ele que será chamado a responder antes de tudo. Na comunidade dos discípulos, a autoridade é sempre reconduzida à sua verdadeira origem e finalidade: servir ao Senhor e aos irmãos, para que estes possam realizar sua verdadeira relação com o Senhor, na obediência da fé e na liberdade do amor. São Bento, na Regra para os monges, atribui muita relevância à autoridade do abade, guia e animador da comunidade, que ele convida a reconhecer em espírito de fé como aquele que no Mosteiro desempenha o papel de Cristo (Regra dos monges, indicada com a sigla RB,  c. 2, 1-2).  Ao longo da Regra, enquanto evidencia sua responsabilidade e autoridade, sublinha constantemente o fato que de toda sua decisão, o abade, assim como qualquer outro irmão em autoridade, há de dar conta a Deus. Pela correção dos irmãos que erram, São Bento prescreve (RB, c. 23-25) exatamente os passos de cuidado fraternal e paterno, indicados por Jesus no evangelho de hoje. Encontramos também um último toque, que bem evidencia o caráter evangélico da comunidade monástica e da autoridade. Se, depois de ter exercitado com diligência e amor, as artes do sábio médico e os cuidados do bom pastor (RB c. 27), o abade não conseguir algum resultado, “e ver que nada obtém com sua indústria, aplique então o que é maior: a sua oração e a de todos os irmãos por ele, para que o Senhor, que tudo pode, opere a salvação do irmão enfermo” (RB c. 28, 5). Quando a atenção ao irmão se faz plena, a correção cuidadosa se torna antecipação ao doar-se um ao outro a honra do amor fraternal, e a obediência recíproca que precede até os desejos (RB 73). A comunidade cristã: é uma comunidade não de perfeitos, mas de irmãos e irmãs que se ajudam reciprocamente a seguir o Senhor, com o mesmo coração do Pai e o mesmo estilo solidário de Jesus. Domingo próximo, iremos contemplar que esta comunidade não é somente o lugar onde a solidariedade se faz cuidado e correção fraterna, mas também lugar do perdão, recebido de Deus e generosamente partilhado uns com os outros.

Ainda não descobri a minha vocação. O que eu faço?

Aprendi que Deus não nos chama uma vez só

Vivemos num tempo em que a infância dura menos e a juventude dura mais. No meio deste caminho, a idade das mudanças e indecisões – a adolescência – parece nunca ter fim. Existem crianças que aos 10 anos (às vezes menos) têm sua sexualidade acordada e vivida como se fossem adolescentes em tempos de crises e descobertas. Isso que deveria ser uma rápida e incômoda transição acaba se prolongando por muitos anos. Encontrei um “jovem” de 35 anos que tinha todos os ares de adolescente e me confidenciou: “Ainda não descobri a minha vocação. O que eu faço?”.

Existe uma tirania da nossa “modernidade líquida, relativista e subjetivista” que ilude nossa juventude vendendo a liberdade ao preço da solidão. O resultado é o estresse, a depressão e uma incrível indecisão. O que fazer da sua vida? Qual a sua vocação? Neste momento, temos que colocar alguns pingos nos “is” e deixar claros alguns conceitos para que essa ponte quebrada seja atravessada com segurança.

É preciso dizer que a vocação, antes de se ser uma resposta, uma opção, é um chamado de Deus. E Ele chama a todos indistintamente para a “vida”. Sobre esta vocação, não precisamos ter qualquer dúvida. Um dia fomos chamados a ser quem somos e onde somos. Não escolhemos nossos pais. Não escolhemos nossa cor, cultura, origem, povo, raça e nação. Quando tomamos consciência da vida, já estávamos aí. Essa vocação de raiz não exige nenhum discernimento. Exige aceitação, cultivo e gratidão.

Depois, fomos chamados à vida cristã. Quem foi batizado na infância teve o sacramento do Crisma para confirmar a sua decisão de pertencer ao povo de Deus na Igreja Católica. Aqui, já é preciso discernimento. Não basta receber a fé dos pais. É preciso fazer a sua própria experiência de fé. Hoje em dia, quem nasce católico só permanecerá católico se se converter a partir de uma experiência pessoal de Deus na Igreja Católica. Mas ainda aqui, nesse nível, não me parece que as pessoas tenham muitos problemas vocacionais. O problema vem quando é necessário escolher o seu estado de vida dentro da comunidade cristã.

No Cristianismo católico ocidental, temos três estados de vida. O cristão pode ser um fiel leigo, um religioso(a) consagrado(a) ou um ministro ordenado (diácono ou sacerdote). São estes os três estados de vida. Muitos jovens cristãos católicos entram em crise na hora de discernir sua vocação ao estado de vida.

Devo dizer que basicamente todo cristão é leigo, pois esta palavra significa “povo de Deus” (laós em grego). Então, a coisa fica mais fácil. Todos nós somos povo de Deus. A menos que o próprio Deus nos chame para uma “consagração” ou nos dê uma “ordem”. Aprendi que Deus não nos chama uma vez só. Ele é insistente com os que escolhe. Mas se você estiver em dúvida, vou lhe dar uma dica prática. Se acha que está ouvindo a voz de Deus para ser padre, entre para um seminário. Não significa que será sacerdote, mas ali terá as condições de ouvir melhor o chamado. Apenas 5% dos que entram para o seminário ficam padres. Os outros percebem que o chamado era outro. Mas não ficam mais na dúvida. A mesma coisa em relação à vida consagrada. Tenha coragem de entrar em um processo de discernimento. Em questão de vocação, a pior coisa é ficar parado. Dê um passo sem medo que seja o errado. Se for sincero, Deus o colocará no rumo certo.

Agora, o conselho contrário. Mesmo que sinta um certo chamado à vida consagrada ou sacerdotal, não dê esse passo por falta de opção. Todos os que Jesus chamou estavam ocupados e deixaram tudo para segui-Lo. Mesmo que você tenha namorado(a) e um ótimo emprego, isso será apenas uma confirmação vocacional se você deixar tudo para seguir o Senhor. Desocupados ficarão sempre na incerteza ou na indecisão. Quem deixa tudo para seguir o Mestre tem o sinal da confirmação vocacional em seu coração.

Padre Joãozinho, SCJ
http://blog.cancaonova.com/padrejoaozinho/

Mês vocacional

Deus quis precisar de nós

Agosto é considerado o Mês Vocacional, dedicado à reflexão sobre as vocações em geral. Neste mês, costuma-se celebrar as diferentes vocações por semana:

Primeiro domingo: vocação sacerdotal;

Segundo domingo: vocação familiar, dos pais;

Terceiro domingo: vocação à vida consagrada dos religiosos e das religiosas;

Quarto domingo: vocação do laicato na Igreja, ministérios leigos e catequistas.

Deus quis precisar de nós. Como em Jeremias 1,5 – “Antes que no seio fosses formado, eu já te conhecia; antes do teu nascimento, eu já te havia consagrado” -, Deus espera de nós uma resposta a Seu chamado. É esta a vocação de cada um.

No mês dedicado por excelência à reflexão sobre o serviço na Igreja, tomamos consciência de que o Reino de Deus se faz pela providência infinita do Pai, mas também com a participação de cada um de nós.

Quando refletimos sobre a vocação, chegamos à conclusão de que o Senhor nos criou para um objetivo específico: todos nós somos chamados a participar, com nossos dons e talentos, na edificação do Reino.

O mais profundo e tocante em tudo isso é que, mesmo Deus não precisando de nossa ajuda, Ele quis precisar, quis contar conosco.

Se formos sensíveis em perceber esse desejo de Deus é impossível sermos indiferentes.

Viver a vocação é consagrar a nossa vida a um ideal. A nossa realização pessoal reside em entender qual é a nossa vocação e agir de acordo com os ditames de Deus que fala ao nosso coração.

Que Ele nos fortaleça para que tenhamos a disponibilidade e a coragem de dizer “sim” ao Seu projeto, mesmo diante de nossas limitações, das nossas dificuldades, do nosso comodismo, dos nossos medos.

Dom Eurico dos Santos Veloso
Arcebispo Emérito de Juiz de Fora (MG)

As armadilhas do diabo

Sexta-feira, 9 de outubro de 2015, Da Redação, com Rádio Vaticano

Francisco pediu que fiéis tenham discernimento e sejam vigilantes para não caírem nas armadilhas do diabo e acabarem se afastando de Deus

Em Celebração Eucarística na Casa Santa Marta, nesta sexta-feira, 9, o Papa Francisco falou sobre as armadilhas do demônio. Francisco lembrou que o diabo traz calúnias, invejas e armadilhas, motivos pelos quais é preciso ter discernimento e vigilância para saber o que vem ou não de Deus.

A homilia foi inspirada no Evangelho do dia, que conta sobre o dia em que Jesus expulsou um demônio. Embora Jesus fizesse o bem, o Papa lembrou que um grupo de pessoas sempre tentava interpretar suas palavras de modo diferente, por motivos como inveja ou rigidez doutrinal.

“Por muitas razões, tentavam afastar a autoridade de Jesus das pessoas e caluniar, como neste caso. ‘Ele expulsa os demônios por meio de Belzebu’. Ele é um endiabrado, faz magias, é um feiticeiro’. Colocavam-no à prova continuamente, provocavam-no com armadilhas, para ver se caía”, disse.

Diante dessas reflexões, o Papa convidou os fiéis ao discernimento e à vigilância, para saber discernir o que é de Deus e o que é do mal. “O cristão não pode ficar tranquilo, pensar que tudo corre bem; deve discernir as coisas e observar de onde provêm, qual é a sua raiz”.

A vigilância é necessária, observou Francisco, porque em um caminho de fé as tentações voltam sempre. O Maligno se esconde, vem com seus amigos muito educados, bate à porta, pede licença, entra, convive com o homem na sua vida cotidiana e pouco a pouco, dá as instruções. Com esta “modalidade educada”, disse o Papa, o diabo convence a fazer as coisas com relativismo, tranquilizando a consciência.

“Tranquilizar a consciência, anestesiar a consciência, é um grande mal. Quando o espírito ruim consegue anestesiar a consciência, pode-se falar de uma verdadeira vitória: se transforma no dono daquela consciência. ‘Mas isso acontece em todo lugar! Sim, mas todos, todos temos problemas, todos somos pecadores, todos’. Em todos inclui-se o ‘ninguém’, ou seja, ‘todos menos eu’. E assim se vive a mundanidade, que é filha do espírito ruim”.

Francisco concluiu a homilia reiterando a necessidade de vigilância e discernimento. “Vigilância: a Igreja nos aconselha sempre o exercício do exame de consciência: o que aconteceu hoje no meu coração? Veio a mim o demônio bem educado com seus amigos? Discernimento: de onde vêm os comentários, as palavras, os ensinamentos… quem diz isso? Discernir e vigilar, para não deixar entrar aquilo que engana, que seduz e fascina. Peçamos ao Senhor a graça do discernimento e a graça da vigilância”.

O festival da corrupção

http://destrave.cancaonova.com/o-festival-da-corrupcao/
Conteúdo enviado pelo internauta David Do Nascimento Corrêia

“É impossível uma mudança num país inteiro sem que haja a reconstrução da consciência moral de cada brasileiro”

O mundo maravilhoso prometido pelos “reformadores sociais” pode não ter sido possível de realizar, e talvez nunca o seja; mas, pelo menos, eles conseguiram fazer com que as pessoas acreditassem piamente que a justiça e o bem dependem unicamente do Estado, das leis, do “Sistema”… Mas nunca delas próprias.

Ontem, eu estava me dirigindo a uma agência do ‘Pague Fácil’, quando um homem muito simpático me abordou e me entregou as duas senhas dele, as próximas que seriam chamadas e das quais ele não precisaria mais. Aquele homem acreditava estar prestando-me um grande favor, porque eu estava com uma camisa da RCC [Renovação Carismática Católica], com uma enorme cruz. Ele também parecia pertencer a alguma comunidade cristã, por essa razão, imaginava estar prestando uma gentileza a um semelhante em Cristo.

“(…) essa mudança só será possível quando bispos, padres e leigos tiverem empenhados em mudar a mentalidade dos cristãos”

Eu lhe agradeci cordialmente por aqueles números, pois aquelas senhas me proporcionariam a oportunidade de pagar minha conta de telefone em três minutos ou menos. Com aquele “favor”, eu passaria na frente de umas trinta pessoas que estavam antes de mim na fila. Entrei na agência, peguei minha senha e fiquei na fila como qualquer um deve fazer, no entanto, permaneci com os números doados ainda por algum tempo. Uma distinta senhora viu as senhas em minhas mãos e me pediu uma delas. Com toda educação, neguei-lhe o pedido e lhe disse que não as usaria, pois não era ético. Ela, com cara de nojo, afastou-se de mim dizendo que, se eu havia ganhado aquelas senhas, poderia usá-las, porque foram um presente.

Aquela mulher imaginava que a senha fosse um bem do qual eu poderia ter lançado mão sem fazer mal a ninguém. Ela foi incapaz de enxergar que uma senha é uma forma de organização, e que qualquer vantagem constitui um delito moral já não distinguido pela maioria dos brasileiros.

Fala-se muito em “reforma política”, mas, infelizmente, nossas paróquias, tão engajadas em aprová-la, se esquecem do básico: é impossível uma mudança num país inteiro sem que haja a reconstrução da consciência moral de cada brasileiro. E essa mudança só será possível quando bispos, padres e leigos tiverem empenhados em mudar a mentalidade dos cristãos.

Não é necessário ir a Brasília nem trabalhar em prefeituras ou órgãos do Estados para presenciar os festivais de corrupção que se alastram rapidamente sobre a mentalidade debilitada de um povo que esqueceu sua vocação de filhos da Virgem Santíssima. Um povo que considera como corrupção apenas o que se passa no Governo, mas se esquece de que ninguém rouba milhões sem, antes, ter roubado algumas posições na fila do banco ou de um ‘Pague Fácil’.

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