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Santo Evangelho (Mt 19, 3-12)

19ª Semana Comum – Sexta-feira 18/08/2017

Primeira Leitura (Js 24,1-13)
Leitura do Livro de Josué.

Naqueles dias, 1Josué reuniu em Siquém todas as tribos de Israel e convocou os anciãos, os chefes, os juízes e os magistrados, que se apresentaram diante de Deus. 2Então Josué falou a todo o povo: “Assim diz o Senhor, Deus de Israel: Vossos pais, Taré, pai de Abraão e de Nacor habitaram outrora do outro lado do rio Eufrates e serviram a deuses estranhos. 3Mas eu tirei Abraão, vosso pai, dos confins da Mesopotâmia, e o conduzi através de toda a terra de Canaã, e multipliquei a sua descendência. 4Dei-lhe Isaac, e a este dei Jacó e Esaú. E a Esaú, um deles, dei em propriedade o monte Seir; Jacó, porém, e seus filhos, desceram para o Egito. 5Em seguida, enviei Moisés e Aarão e castiguei o Egito com prodígios que realizei em seu meio, e depois disso vos tirei de lá. 6Fiz, portanto, que vossos pais saíssem do Egito, e assim che­gastes ao mar. Os egípcios perseguiram vossos pais, com carros e cavaleiros, até o mar Vermelho. 7Vossos pais clamaram então ao Senhor, e ele colocou trevas entre vós e os egípcios. Depois trouxe sobre estes o mar, que os recobriu. Vossos olhos viram todas as coisas que eu fiz no Egito e habitastes no deserto muito tempo. 8Eu vos introduzi na terra dos amorreus que habitavam do outro lado do rio Jordão. E, quando guerrearam contra vós, eu os entreguei em vossas mãos, e assim ocupastes a sua terra e os exterminastes. 9Levantou-se então Balac, filho de Sefor, rei de Moab, e combateu contra Israel, e mandou chamar Balaão, filho de Beor, para que vos amaldiçoasse. 10Eu, porém, não o quis ouvir. Ao contrário, abençoei-vos por sua boca, e vos livrei de suas mãos. 11A seguir, atravessastes o Jordão e chegastes a Jericó. Mas combateram contra vós os habitantes desta cidade – os amorreus, os ferezeus, os cananeus, os hititas, os gergeseus, os heveus e os jebuseus. Eu, porém, entreguei-os em vossas mãos. 12Enviei à vossa frente vespões que os expulsaram da vossa presença – os dois reis dos amorreus – e isso não com a tua espada nem com o teu arco. 13Eu vos dei uma terra que não lavrastes, cidades que não edificastes, e nelas habitais, vinhas e olivais que não plantastes, e comeis de seus frutos.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Responsório (Sl 135)

— Eterna é a sua misericórdia!
— Eterna é a sua misericórdia!

— Demos graças ao Senhor, porque ele é bom: porque eterno é seu amor! Demos graças ao Senhor, Deus dos deuses: porque eterno é seu amor! Demos graças ao Senhor dos senhores: porque eterno é seu amor!

— Ele guiou pelo deserto o seu povo: porque eterno é seu amor! E feriu por causa dele grandes reis: porque eterno é seu amor! Reis poderosos fez morrer por causa dele: porque eterno é seu amor!

— Repartiu a terra deles como herança: porque eterno é seu amor! Como herança a Israel, seu servidor: porque eterno é seu amor! De nossos inimigos libertou-nos: porque eterno é seu amor!

 

Evangelho (Mt 19,3-12)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, 3alguns fariseus aproximaram-se de Jesus, e perguntaram, para o tentar: “É permitido ao homem despedir sua esposa por qualquer motivo?” 4Jesus respondeu: “Nunca lestes que o Criador, desde o início, os fez homem e mulher? 5E disse: ‘Por isso, o homem deixará pai e mãe, e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne’? 6De modo que eles já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe”. 7Os fariseus perguntaram: “Então, como é que Moisés mandou dar certidão de divórcio e despedir a mulher?” 8Jesus respondeu: “Moisés permitiu despedir a mulher, por causa da dureza do vosso coração. Mas não foi assim desde o início. 9Por isso, eu vos digo: quem despedir a sua mulher – a não ser em caso de união ilegítima – e se casar com outra, comete adultério”. 10Os discípulos disseram a Jesus: “Se a situação do homem com a mulher é assim, não vale a pena casar-se”. 11Jesus respondeu: “Nem todos são capazes de entender isso, a não ser aqueles a quem é concedido. 12Com efeito, existem homens incapazes para o casamento, porque nasceram assim; outros, porque os homens assim os fizeram; outros, ainda, se fizeram incapazes disso por causa do Reino dos Céus. Quem puder entender entenda”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

 

A IGREJA CATÓLICA CELEBRA E VENERA HOJE
Santa Helena, dedicou-se ao Cristianismo

Santa Helena se dedicou na ajuda ao Cristianismo no tempo da liberdade religiosa acontecida durante o Império Romano

Nascida no ano de 255 em Bitínia, de família plebeia, no tempo da juventude trabalhava numa pensão, até conhecer e casar-se com o oficial do exército romano, chamado Constâncio Cloro.

Fruto do casamento de Helena foi Constantino, o futuro Imperador, o qual tornou-se seu consolo quando Constâncio Cloro deixou-a para casar-se com a princesa Teodora e governar o Império Romano. Diante do falecimento do esposo, o filho que avançava na carreira militar substituiu o pai na função imperial, e devido a vitória alcançada nas portas de Roma, tornou-se Imperador.

Aconteceu que Helena converteu-se ao Cristianismo, ou ainda tenha sido convertida pelo filho que decidiu seguir Jesus e proclamar em 313 o Édito de Milão, o qual deu liberdade à religião cristã, isto depois de vencer uma terrível batalha a partir de uma visão da Cruz. Certeza é que no Império Romano a fervorosa e religiosa Santa Helena foi quem encontrou a Cruz de Jesus e ajudou a Igreja de Cristo, a qual saindo das catacumbas pôde evangelizar e com o auxílio de Santa Helena construir basílicas nos lugares santos.

Faleceu em 327 ou 328 em Nicomédia, pouco depois de sua visita à Terra Santa. Os seus restos foram transportados para Roma, onde se vê ainda agora, no Vaticano, o sarcófago de pórfiro que os inclui.

Santa Helena, rogai por nós!

Santo Evangelho (Jo 6, 51-58)

Solenidade de Corpus Christi – Quinta-feira 15/06/2017 

Primeira Leitura (Dt 8,2-3.14b-16a)
Leitura do Livro do Deuteronômio:

Moisés falou ao povo, dizendo: 2Lembra-te de todo o caminho por onde o Senhor teu Deus te conduziu, esses quarenta anos, no deserto, para te humilhar e te pôr à prova, para saber o que tinhas no teu coração, e para ver se observarias ou não seus mandamentos. 3Ele te humilhou, fazendo-te passar fome e alimentando-te com o maná que nem tu nem teus pais conhecíeis, para te mostrar que nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca do Senhor. 14bNão te esqueças do Senhor teu Deus que te fez sair do Egito, da casa da escravidão, 15e que foi teu guia no vasto e terrível deserto, onde havia serpentes abrasadoras, escorpiões, e uma terra árida e sem água nenhuma. Foi ele que fez jorrar água para ti da pedra duríssima, 16ae te alimentou no deserto com maná, que teus pais não conheciam.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Responsório (Sl 147)

— Glorifica o Senhor, Jerusalém; celebra teu Deus, ó Sião!
— Glorifica o Senhor, Jerusalém; celebra teu Deus, ó Sião!

— Glorifica o Senhor, Jerusalém!/ Ó Sião, canta louvores ao teu Deus!/ Pois reforçou com segurança as tuas portas,/ e os teus filhos eu teu seio abençoou.

— A paz em teus limites garantiu/ e te dá como alimento a flor do trigo./ Ele envia suas ordens para a terra,/ e a palavra que ele diz corre veloz.

— Anuncia a Jacó sua palavra,/ seus preceitos e suas leis a Israel./ Nenhum povo recebeu tanto carinho,/ a nenhum outro revelou os seus preceitos.

 

Segunda Leitura (1Cor 10,16-17)
Leitura da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios:

Irmãos: 16O cálice da bênção, o cálice que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? E o pão que partimos, não é comunhão com o corpo de Cristo? 17Porque há um só pão, nós todos somos um só corpo, pois todos participamos desse único pão.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Anúncio do Evangelho (Jo 6,51-58)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, disse Jesus às multidões dos judeus: 51“Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo”. 52Os judeus discutiam entre si, dizendo: “Como é que ele pode dar a sua carne a comer?” 53Então Jesus disse: “Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. 54Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. 55Porque a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue, verdadeira bebida. 56Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. 57Como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo por causa do Pai, assim aquele que me recebe como alimento viverá por causa de mim. 58Este é o pão que desceu do céu. Não é como aquele que os vossos pais comeram. Eles morreram. Aquele que come este pão viverá para sempre”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

 

A IGREJA CATÓLICA CELEBRA E VENERA HOJE
Bem-aventurada Albertina Berkenbrock, primeira mártir brasileira

Desde cedo despontava na vida de oração, no amor à família e ao próximo

A primeira mártir brasileira nasceu em Santa Catarina em 11 de abril de 1919.

Desde cedo despontava na vida de oração, no amor à família e ao próximo. Se unia ao crucificado por meio de penitências. Jovem, mas centrada no mistério da Eucaristia, tinha vida sacramental, penitencial e de oração.

Albertina cuidava do rebanho de seu pai que deu a seguinte ordem: ela devia procurar um boi que se extraviou. No caminho, encontrou um homem de apelido ‘Maneco Palhoça’, que trabalhava para a família. Ela perguntou a ele se sabia onde estaria o boi perdido. Ele indicou um lugar distante, e a surpreendeu lá, tentando estuprá-la, porém, não teve o êxito.

A jovem resistiu, pois não queria pecar. Por não conseguir nada, ele pegou-a pelo cabelo, jogou-a ao chão e cortou seu pescoço, matando-a imediatamente.

Maneco acusou outra pessoa, que foi presa imediatamente. Ele fingia que velava a menina, e ao se aproximar do corpo, o corte vertia sangue. Ele fugiu, mas foi preso e confessou o crime. Maneco deixou claro que ela não cedeu porque não queria pecar.

Tudo isso aconteceu em 15 de junho de 1931. Por causa da castidade, Albertina não cedeu.

Bem-aventurada Albertina Berkenbrock, rogai por nós!

Solenidade de Corpus Christi – Ano A

Por Mons. Inácio José Schuster

Hoje, com toda a Igreja, celebramos a solenidade do Corpo e Sangue de Cristo. Na verdade, a eucaristia que hoje é o sacramento central, presta-se a um sem número de considerações porque o mistério eucarístico ocupa o centro da liturgia e do culto Cristão. Eu gostaria, neste momento, de expor o seguinte: Jesus tomou o pão, tomou o vinho e imprimiu nestes sinais Seu Corpo imolado e Seu Sangue derramado. Pão e vinho, que na verdade eram realidades criadas por Deus e mantidas no ser pelo próprio Deus, a partir das palavras da consagração, transformam-se de realidades criadas em simples sinais; sinais da presença de Jesus, sinais visíveis de Seu Corpo imolado e de Seu Sangue derramado. Antes da consagração eram pão e vinho, após a consagração são apenas sinais do Corpo que nos é entregue, e do Sangue que foi derramado para nossa salvação. Naquela ocasião, Jesus disse: “tomai e comei.” Após o Concílio Vaticano II, diversos teólogos insistiram em que a eucaristia deveria ser apenas celebrada, e tudo se conclui quando o povo de Deus comunga efetivamente do Corpo e Sangue de Cristo. Eu gostaria de dizer a todos neste dia, que tomar e comer, tomar e beber, tem um sentido muito mais profundo do que aparentemente se dá a Eles. Tomar e comer significa também considerar, significa meditar, significa contemplar. Toma e come, toma e bebe todo aquele e aquela que se põe diante do Santíssimo Sacramento do altar, contemplando a realidade de Jesus Cristo que, a todos, entrega-Se nestes sinais. Come e bebe aquele que adora o Santíssimo Sacramento no altar. E como são bonitas nossas igrejas quando, dentro delas, existe um tabernáculo; quando dentro delas existe uma lampadazinha vermelha convidando-nos à adoração e à contemplação. As nossas igrejas não são salões vazios, não são salões sem nenhuma festa e certamente não são salões despidos. Como existia em Israel a Arca da Aliança, existe aqui o tabernáculo onde Jesus é Emanuel, isto é, Deus conosco. Quando estamos ali em silêncio, estamos também, segundo Sua vontade, comendo e bebendo.

 

CELEBREMOS A PRESENÇA REAL DE CRISTO NA EUCARISTIA
Padre Bantu Mendonça

Corpus Christi é uma festa móvel da Igreja Católica, a qual celebra a presença real e substancial de Cristo na Eucaristia. É realizada na quinta-feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade. Ela é festa de ‘preceito’, ou seja, para nós – católicos – é obrigatório participar da Santa Missa neste dia. A origem da Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo remonta ao século XIII. A Santa Igreja sentiu necessidade de realçar a presença real do “Cristo todo” no pão consagrado. A Festa de Corpus Christi foi instituída pelo Papa Urbano IV com a Bula ‘Transiturus’ de 11 de agosto de 1264, para ser celebrada na quinta-feira após a Festa da Santíssima Trindade, que acontece no domingo depois de Pentecostes. O cônego Tiago Pantaleão de Troyes, arcediago do Cabido Diocesano de Liège na Bélgica, foi quem recebeu o segredo das visões da freira agostiniana, Juliana de Mont Cornillon, que exigiam uma festa da Eucaristia no Ano Litúrgico. A ‘Fête Dieu’ (Festa de Deus) então começou na Paróquia de Saint Martin em Liège, em 1230, com autorização do arcediago para procissão eucarística só dentro da igreja, a fim de proclamar a gratidão a Deus pelo benefício da Eucaristia. Em 1247, aconteceu a primeira procissão eucarística pelas ruas de Liège, já como festa da diocese. Depois se tornou festa nacional na Bélgica. O ofício foi composto por São Tomás de Aquino o qual, por amor à tradição litúrgica, serviu-se em parte de Antífonas, Lições e Responsórios já em uso em algumas Igrejas. A festa mundial de Corpus Christi foi decretada em 1264. O decreto de Urbano IV teve pouca repercussão – porque o Papa morreu em seguida – mas propagou-se por algumas igrejas, como na diocese de Colônia (Alemanha), onde Corpus Christi é celebrada desde antes de 1270. A procissão surgiu em Colônia e difundiu-se primeiro na Alemanha, depois na França e na Itália. Em Roma é encontrada desde 1350. A Eucaristia nos remete à vivência de um dos Sete Sacramentos. Ela foi instituída na Última Ceia, quando Jesus disse: “Este é o meu corpo… Isto é o meu sangue… Fazei isto em memória de mim”. Portanto, comer a carne e beber o sangue do Cristo é fazer memória do que Cristo fez naquela Ceia derradeira. Ao redor da mesa eucarística, a comunidade faz a experiência da comunhão com o Ressuscitado. Jesus está presente realmente entre nós. Isto exige de mim e de você um “assimilar” a realidade humana de Jesus e nos identificar com Ele no cumprimento da vontade do Pai. Crendo em Jesus nós não só assimilamos a Doutrina, mas sim a Comunhão, a unidade com o próprio Jesus e com os irmãos na comunidade. Esta comunhão de amor traduz-se em gestos concretos na libertação dos oprimidos e no empenho para desabrochar e restaurar a vida em plenitude. Celebrando a Eucaristia, fazemos um ato de amor com Deus e com o próximo. Aliás, o Concílio Vaticano II afirma: A Eucaristia é fonte e cume de toda e qualquer ação litúrgica da Igreja. E Cristo é a ação fundante, pois Ele é o alimento e a fonte deste amor e desta vida que é eterna. Peçamos ao Senhor a graça de estar sempre com Ele e n’Ele: “Jesus, faça-me ter cada vez mais fome e sede de comer a Sua carne e beber o Seu precioso sangue para que eu tenha a Vida Eterna”.

 

DEUS NUNCA NOS ABANDONA
Padre Roger Luís

Nesta celebração de Corpus Christi, podemos olhar para trás e ver o que a Igreja fez conosco desde o Tempo Pascal até o Pentecostes que celebramos há poucos dias. Hoje, celebramos a solenidade de Corpus Christi e vamos celebrar em breve o Sagrado Coração de Jesus. Quando o Senhor anuncia as palavras da eucaristia, experimentamos a concretização da permanência deste Deus no meio de nós. “Estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos”. Deus quis permanecer com seu povo, com a Igreja; e Ele quer nos fortalecer com os sacramentos. Na Palavra de hoje, em Deuteronômio 8, 2-3, Moisés leva o povo a perceber que cada momento da vida deles, especialmente nos dias que viveram a provação na própria pele, aponta para a presença de Deus com eles. Mesmo no tempo da escravidão, os que andam pelo terrível deserto se lembram de que não passaram sozinhos pelo deserto, pela provação, pelo desafio de encontrar com serpentes e escorpiões. Deus se fazia presente na vida deles em cada ocasião, mesmo que não sentissem. Essa palavra nos coloca diante daquilo que celebramos como mistério da presença do Senhor. Essa precisa ser a certeza de cada católico, de cada filho de Deus, pois da mesma maneira que aquele povo no deserto não foi abandonado por Deus, também nós O temos em nossa companhia diante de todas as dificuldades. Essa certeza precisa alimentar a nossa vida, pois o nosso amado Senhor caminha conosco pelo deserto. Não desista, pois Deus está com você. Não tema, porque Ele caminha com você nos dias mais difíceis. “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca do Senhor.” Essa certeza se atualiza em cada Eucaristia celebrada. É muito bom ser católico, viver na Igreja que nasce da Eucaristia e experimenta essa verdade. Precisamos recobrar a piedade, a devoção, o respiro a Deus, à Eucaristia. Para Deus temos de dar o melhor. Isso é amor a nosso Senhor Jesus Cristo, é dar o melhor Àquele que nos sustenta, que não nos deixa desistir, não nos deixa abandonar o barco diante da dificuldade da vida. O Senhor nos promete vida eterna, mas com essa promessa vem o compromisso que precisamos fazer: “quem comer deste pão, viverá eternamente”. Alimente-se deste pão, alimente-se do corpo e sangue de Jesus e você vai experimentar o céu em você. Prepare seu céu, faça sua peregrinação a caminho do Reino de Deus.

 

A PROCISSÃO DO CORPO DE DEUS
O nosso Deus decidiu ficar no sacrário para nos alimentar

“Meditamos juntos a profundidade do Amor do Senhor, que o levou a ficar oculto sob das espécies sacramentais, e é como se ouvíssemos, fisicamente, aqueles seus ensinamentos à multidão.

Agradar-me-ia que, ao considerar tudo isso, tomássemos consciência da nossa missão de cristãos, voltássemos os olhos para a Sagrada Eucaristia, para Jesus que, presente entre nós, nos constituiu seus membros: vos estis corpus Christi et membra de membro (1Cor 12, 27), vós sois o corpo de Cristo e membros unidos a outros membros.

O nosso Deus decidiu ficar no sacrário para nos alimentar, para nos fortalecer, para nos divinizar, para dar eficácia ao nosso trabalho e ao nosso esforço. Jesus é simultaneamente o semeador, a semente e o fruto da sementeira: o Pão da vida eterna.

Este milagre, continuamente renovado, da Sagrada Eucaristia, encerra todas as características do modo de agir de Jesus. Perfeito Deus e perfeito homem, Senhor dos céus e da terra, ofereCe-nos como sustento, da maneira mais natural e corrente.

Assim espera o nosso amor, desde há mais de dois mil anos. É muito tempo e não é muito tempo; porque, quando há amor, os dias voam.

A procissão do Corpo de Deus torna Cristo presente nas aldeias e cidades do mundo. Mas essa presença, repito, não deve ser coisa de um dia, ruído que se ouve e se esquece. Essa passagem de Jesus lembra-nos que temos também de descobri-Lo nos nossos afazeres cotidianos.

A par da procissão solene desta quinta-feira deve ir à procissão silenciosa e simples da vida corrente de cada cristão, homem entre os homens, mas com a felicidade de ter recebido a fé e a missão divina de se comportar de tal modo que renove a mensagem do Senhor sobre a terra.

Não nos faltam erros, misérias, pecados. Mas Deus está com os homens, e temos de nos dispor a que se sirva de nós e se torne contínua a Sua passagem entre as criaturas.

Trecho extraído do livro “Cristo que passa”, 151, São Josemaría Escrivá

 

A festa de Corpus Christi, o Corpo de Cristo, quer celebrar a Eucaristia numa grande ação de graças a Jesus pela quinta-feira santa. Na última Ceia, Ele nos deixou o mais valioso presente, a Eucaristia, na qual nós O adoramos como o Salvador de todo o gênero humano. Ele é o verdadeiro Cordeiro que realiza a Redenção de toda a humanidade. No Evangelho de São João lemos: ”Em verdade, em verdade, vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e Eu o ressuscitarei no último dia. Pois minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue é verdadeiramente uma bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim, eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, também aquele que de mim se alimenta viverá por mim”. A compreensão da presença real de Jesus na Eucaristia vai de par com o reconhecimento do mistério da Encarnação, obra do Espírito Santo, no seio puríssimo da Virgem Maria. A Eucaristia é também obra do Espírito Santo. No momento da consagração, o sacerdote impõe as mãos sobre o pão e o vinho e, na pessoa de Cristo, invoca o Espírito Santo. É Ele quem realiza o milagre da transubstanciação: o pão e o vinho se transformam no Corpo e no Sangue de Jesus. O mistério da encarnação se perpetua e o Senhor permanece no meio de nós, segundo sua promessa, até o fim dos tempos.  São Justino mártir afirma que, após a consagração, “não é pão ou vinho comum o que recebemos. Com efeito, do mesmo modo como Jesus Cristo, nosso Salvador, se fez homem pela Palavra de Deus e assumiu a carne e o sangue para a nossa salvação, também nos foi ensinado que o alimento sobre o qual foi pronunciada a ação de graças com as mesmas palavras de Cristo e, depois de transformado, nutre nossa carne e nosso sangue, é a própria carne e o sangue de Jesus que se encarnou”. Eis o mistério da fé! Proclamamos logo após a consagração. É a presença do Senhor entre nós, graças à ação do Espírito Santo. Quem se fecha ao Espírito Santo jamais poderá reconhecer esta presença eucarística. Quem se abre ao Espírito divino reconhecerá, não só esta presença única e extraordinária de Jesus no pão e no vinho consagrados, mas também na Palavra proclamada, no irmão que tem sede, que está nu ou é excluído da sociedade. Quem crê nesta presença eucarística, tão ardentemente desejada por Jesus, vai vivê-la também intensamente na comunhão fraterna. A Eucaristia constrói a Igreja e nos faz viver a unidade na comunhão dos irmãos. Por isso lembra Santo Inácio de Antioquia: “Vós estais todos unidos, rompendo o mesmo pão que é remédio de imortalidade, antídoto para não mais morrer, mas para viver em Jesus Cristo para sempre. Então, uma só coisa importa: ser encontrado no Cristo Jesus, para a verdadeira vida”.

 

“ETIQUETA” EUCARÍSTICA
“Recuperemos o amor à Eucaristia”

LIMA, segunda-feira, 24 de agosto de 2009 (ZENIT.org).- O arcebispo de Lima convidou os fiéis a praticarem uma “etiqueta” eucarística, que consiste na boa educação da piedade, respeito e adoração ao Corpo de Cristo. Esta exortação foi feita na missa dominical que ele celebrou na basílica catedral de Lima ontem, 21º domingo do Tempo Comum. “Recuperemos esse amor à Eucaristia, recebendo Jesus com o corpo e a alma limpos, em graça de Deus. Que se utilize essa pequena patena de comunhão, para que, caso uma partezinha da Hóstia se desprenda, não caia no chão. Por isso existe esta ‘etiqueta’, que devemos ensinar desde as crianças até os mais idosos”, exortou durante sua homilia. Da mesma forma, o pastor de Lima recordou que a Igreja universal ensina que a comunhão eucarística deve ser recebida na boca e, de forma extraordinária – com permissão do bispo –, na mão. “A comunhão eucarística se recebe na boca para evitar o uso da mão suja em contato com o Corpo de Cristo. Nesta arquidiocese, ainda existe a autorização (para receber o Corpo de Cristo na mão). Digo ainda porque, cada vez mais, peço aos sacerdotes e religiosos que este respeito visível ao Corpo de Cristo se manifeste e que não se entregue o Corpo de Cristo como quem distribui uns papéis”, mencionou. O arcebispo de Lima também recordou que a forma correta de receber Jesus na Eucaristia requer uma preparação pessoal para estar em graça. E no momento de recebê-lo, mostrar um sinal visível de respeito, que pode ser a inclinação da cabeça ou, muito mais recomendável ainda, receber a Santa Eucaristia de joelhos.

O amor à Eucaristia do Cura de Ars
Finalmente, o pastor de Lima recordou, neste Ano Sacerdotal, o Santo Cura de Ars, São João Maria Vianney, como um exemplo a imitar no amor a Deus, que se faz presente na Eucaristia. “É preciso ter essa boa educação ao receber o Corpo de Cristo. Abramos com confiança o coração a Cristo, deixemos que Ele nos conquiste. Como dizia o Cura de Ars, ‘nossa única felicidade nesta terra consiste em amar a Deus e saber que Ele nos ama’. Que Nossa Senhora, com sua humildade, nos ensine a ser mais respeitosos quando nos aproximamos para receber o Corpo de Cristo”, concluiu.

 

FAZER DA PRÓPRIA VIDA EUCARISTIA
Pe. Adriano Zandoná

Hoje celebramos a Festa de Corpus Christi, a solenidade do Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a Eucaristia. Como você já deve saber, a categoria de tempo só existe para nós seres humanos, para Deus não há tempo, é sempre um presente constante. A Eucaristia é um memorial que se atualiza no hoje constante, e se atualizando, atualiza o amor de Jesus por mim e por você. A Eucaristia é uma realidade ininterrupta que o tempo não foi capaz de abarcar, é um remédio para o presente, porque ela nos sustenta em meio às dificuldades dos tempos atuais, em meios às perdas, às ausências, ela sustenta a nossa caminhada diária. A Eucaristia é o penhor e é o ápice da glória futura, a nossa fé nos remete ao advento de Cristo. É uma realidade que nos antecede e nos precede ao céu. Quem verdadeiramente entende o que é realmente é a Eucarística, deixa de ser refém do passado e deixa de ser uma marionete do presente e começa a ser o protagonista do futuro. Porque entende que o futuro depende de escolha, de decisão, daquele que assume sua própria vida nas mãos, e que a entrega conscientemente a Cristo, no esforço de configuração a esse exemplo de Jesus, que toca em todas as áreas de nossa vida. Isto é ter uma espiritualidade Eucarística. Uma realidade que se permite perpassar por Jesus, pela Sua presença santificadora em todas as realidades de sua vida. A Eucaristia é o penhor e o ápice da glória futura Hoje, somos chamados a meditar sobre o Corpo e o Sangue de Jesus, sobre a forma específica pela qual Deus entrou no tempo e através da qual Ele escolheu para nos acompanhar. Assim acontece na Santa Missa, primeiro comungamos do pão da Palavra e logo depois do Pão da Vida, a Eucaristia. E por que Jesus escolheu o pão e o vinho para se comunicar a nós? O pão porque é um alimento simples e acessível a todos nós, e sabemos que ele é feito de trigo e o trigo é um fruto da terra, significando o dom de Deus e o trabalho humano, dessa forma, o pão é feito da intervenção divina e do esforço humano. O mesmo também acontece com o vinho. Nestes dois alimentos existe um processo de colaboração, uma união singular da iniciativa divina e humana, e esta é uma maneira que Deus escolheu para estar em meio a nós. Jesus escolheu a espécie do pão e do vinho para revelar que Ele é um Deus próximo a nós, fundido em nós; e mais: o pão e o vinho falam de mesa de refeição, de intimidade e de proximidade. Deus escolheu estar próximo de nós, e Ele mesmo quer nos acompanhar a partir das realidades mais simples que vivemos, para descomplicar a nossa vida e nos acompanhar em tudo o que nós somos e temos. Deus quer continuar a cada dia se repartindo a nós para nos fazer um só corpo e um só sangue em Seu amor e em comunidade. E a Igreja nos ensina como bem participarmos do Mistério Eucarístico. A participação ativa neste augusto sacramento deste Mistério Eucarístico, que não cabe no tempo, não é apenas uma atitude exterior, para participarmos ativamente dele é preciso tomar consciência do Mistério Eucarístico e deve haver a conscientização de tudo daquilo que está sendo oferecido no altar. A Santa Missa não existe para ser entendida, mas para ser vivida e experienciada. Na exortação apostólica Sacramentum Caritatis está escrito: “A espiritualidade Eucarística não é apenas uma participação na missa e não é apenas uma devoção ao Santíssimo Sacramento, mas é uma realidade que abraça a vida inteira”. Essas são as palavras do nosso querido Papa Bento XVI. Espiritualidade Eucarística engloba toda a vida, isso é permitir que Cristo, que está presente no presente, no passado e no futuro seja o Senhor de toda a nossa vida. Viver uma realidade Eucarística é também aprender a ofertar e a colocar a própria vida no Mistério Eucarístico, diante do altar. Sendo uma oferta viva. Espiritualidade Eucarística é uma espiritualidade encarnada, é a espiritualidade de alguém que aprendeu a se ofertar nas pequenas coisas da vida, é a espiritualidade de alguém que aprendeu a se configurar a Cristo em suas atitudes, é a espiritualidade de alguém que aprendeu a dar si mesmo aos outros, a repartir aquilo que tem aos outros no seu dia a dia. Peçamos hoje na Solenidade de Corpus Christi a graça de termos esta espiritualidade Eucarística. Somos chamados a viver uma espiritualidade Eucarística em todas as realidades que vivemos.

 

SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO, A
“O Senhor alimentou seu povo com a flor do trigo e com o mel do rochedo o saciou”(cf. Sl 80,17).
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha(MG)

Meus queridos irmãos, A solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo é o prolongamento da atmosfera pascal, atmosfera do mistério de nossa redenção pelo Senhor morto e glorificado, a Igreja quer celebrar de modo mais expresso o sacramento pelo qual participamos da doação até o fim de seu corpo e sangue, conforme a palavra de Jesus na Última Ceia. Embora esta celebração seja uma extensão da Quinta-feira Santa, o Evangelho é o texto eucarístico de João, que não se encontra no contexto da Última Ceia, como nos evangelhos sinóticos, mas no contexto da multiplicação do pão. Jesus explica o sentido do “sinal do pão”. Para os judeus, a multiplicação do pão significou saciação material, ou seja, messianismo político. Para Jesus, a multiplicação dos pães significava o dom de Deus que desce do céu, e que é ele mesmo, em pessoa. Estimados irmãos, A festa de hoje poderia ser chamada à festa da presença de Jesus Cristo na comunidade dos fiéis, na comunidade cristã. Por isso mesmo se faz a procissão do Santíssimo, passando pelas principais vias das cidades, especialmente ornadas para a festa de hoje. Celebra-se, sim, a presença de Cristo na hóstia consagrada, mas se celebra, sobretudo, a Eucaristia como raiz e ápice da comunidade. Raiz porque, como a planta, a comunidade se alimenta e cresce através da Eucaristia, “Pão da Vida”(cf. Jo 6,35). Ápice, ponto mais alto, porque a comunidade não tem outra coisa mais preciosa nem outra escada mais segura para encontrar-se com o seu Deus e entrar em comunhão com Ele. Há dois modos de Jesus estar presente na comunidade: uma presença chamamos de espiritual. Como Deus, Jesus está presente em toda à parte. À semelhança do vento, sopra onde, quando e como quer (cf. Jo 3,8). Como Redentor, Jesus está presente e sempre operante na comunidade, porque Ele é a cabeça viva de um corpo vivo, que é a Igreja (cf. Cl. 1,18). Somos o corpo vivo do Senhor(cf. Rm 12,5). Estamos integrados numa única construção harmoniosa(cf. Ef 2,22) em que Cristo é o fundamento e é tudo para todos(cf. Cl 3,11). Essa presença dinâmica acontece de modo muito particular nos atos litúrgicos, tanto na pessoa do ministro quanto na palavra que é anunciada e no ato de louvor, pedido e adoração que sobre ao céu. Podemos dizer que toda oração que fazemos passa por Jesus para chegar ao seu destino, e ao chegar aos céus nossa oração já não se distingue da oração do próprio Jesus. A segunda presença de Jesus, que também escapa aos nossos sentidos, é a presença real no Pão e no Vinho consagrados. Os nossos sentidos alcançam os sinais, não a presença. A essa presença chamamos de PRESENÇA SACRAMENTAL. Embora de forma misteriosa, isto é, acima da compreensão humana, é uma presença real e verdadeira. Assim, o Catecismo da Santa Igreja ensina que: “O modo de presença de Cristo sob as espécies eucarísticas é único. Ele eleva a Eucaristia acima de todos os sacramentos e faz com que ela seja como que o coroamento da vida espiritual e o fim ao qual tendem todos os sacramentos. No Santíssimo Sacramento da Eucaristia estão contidos verdadeiramente, realmente e substancialmente o Corpo e o Sangue junto com a alma e a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo e, por conseguinte, o Cristo todo. Esta presença chama-se real não por exclusão, como se as outras não fossem reais, mas por antonomásia, porque é substancial e porque por ela Cristo, Deus e homem, se torna presente completo”(cf. Catecismo da Igreja Católica n. 1.374). As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil ensina que: “os pais transmitir a fé e dar testemunho do amor a Jesus Cristo e à Igreja, para seus filhos, na qualidade de primeiros catequistas. A espiritualidade conjugal e familiar se expressa na oração em família, na participação na eucaristia dominical e na dedicação aos serviços pastorais da comunidade.”(cf. Doc 4 no. 130) Estimados Irmãos, A Eucaristia é o coração da comunidade cristã, seja no sentido de ser a parte central, que une a todos, seja no sentido de ser, como o faz o coração, a distribuidora do sangue da vida comunitária. Assim como podemos dizer que sem a Eucaristia a comunidade perderia sua força de ser, também podemos dizer que sem a Eucaristia a comunidade jamais chegaria a ser “um só coração e uma só alma”(cf. At 4,32), uma comunhão com Deus(cf. Jo 17,21). A Primeira Leitura(cf. Dt 8,2-3.14b-16a) serve para preparar o reto entendimento do sinal do pão, ao qual o Evangelho faz alusão. Já no Dt 8,3,o dom do maná, do “pão caído do céu”, é interpretado num sentido não material, mas teologal: o homem vide de tudo que sai – da boca – do Senhor: sua palavra, sua Lei. Ora, a Palavra por excelência é Jesus Cristo. O maná era o símbolo da completa dependência de Israel de Javé, no deserto, e também do amor e da fidelidade de Javé. A recordação disso serve de guia para a história. O caminho do deserto era um ensaio de toda a história salvífica, um texto em que Deus quis mostrar ao povo a riqueza de seus dons, o que Ele continua mostrando. O maná não provém da tecnologia humana. Por isso, significa que o homem vive da Palavra e da iniciativa de Deus. O Sl 147 relaciona, exatamente, o dom do trigo com a palavra que Deus manda para a terra (Salmo Responsorial). Na Segunda Leitura(cf. 1Cor 10,16-17), São Paulo lembra que o cálice da sagrada bênção e o pão repartido na assembléia cristã são participação e comunhão do sangue e do corpo do Senhor; participação ou “mistério” que nos faz reviver a doação de Cristo e realizá-la em nossa vida. E essa comunhão do único pão nos torna o único Corpo do Cristo. Na última Ceia eucarística comungamos da existência – corpo – e morte – sangue – de Cristo. Sendo uma esta vida que comungamos, formamos um só corpo também. Isto não é um jogo de palavras: quem despreza o “corpo de Cristo”- Igreja – ao participar da Ceia de seu Corpo Sacramentado, exclui-se a si mesmo da comunhão de vida. Quem comunga em Cristo, não pode comungar com os ídolos de qualquer tipo. Queridos irmão, O Sacrifício Eucarístico não é uma memória meramente intencional, mas uma memória prenhe de realidade. Os padres da Igreja chamam a Santa Missa de “imitação” da morte de Jesus Cristo. Não é, contudo, uma reprodução no sentido exterior, e sim no de uma íntima união, enquanto na Eucaristia, por meio do símbolo sacramental, está presente a morte de Cristo. A Eucaristia é uma epifania sacramental da Páscoa e isso só se pode conhecer por meio da fé. A Eucaristia é, pois, uma memória de fé. Amados Irmãos, Corpus Christi não é veneração supersticiosa de um pedacinho de pão, nem uma ocasião para mandar procissões triunfalistas pelas ruas. É um comprometimento pessoal e comunitário com a vida de Cristo, dada por amor até a morte. É memorial da morte e ressurreição de Cristo, mas não um mausoléu; é um memorial vivo, no qual assimilamos o Senhor, mediante da refeição da comunhão cristão, saboreando um antegozo da glória futura. O Cristo sacramentado hoje, em plena rua, à frente de nossa sociedade, recorda que atividade e contemplação constituem um binômio vital, inseparável e fecundo. Nosso trabalho não está separado da oração. A oração não é fuga da atividade. Na oração encontramos o verdadeiro sentido do trabalho. No trabalho celebramos a eucaristia da vida, da vida plena. Que nestes dias possamos diante do sacrário adorar o Cristo presença-presente e Levá-lo para a nossa vida, santificando o mundo, fazendo de todos os batizados autênticos discípulos-missionários para que todos possam experimentar a vida plena que brota do amor de Deus que se dá a nós, sem mérito algum nosso, o Pão da Vida Eterna. Amém!

Santo Evangelho (Jo 6, 52-59)

3ª Semana da Páscoa – Sexta-feira 05/05/2017

Primeira Leitura (At 9,1-20)
Leitura dos Atos dos Apóstolos.

Naqueles dias, 1Saulo só respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor. Ele apresentou-se ao Sumo sacerdote 2e pediu-lhe cartas de recomendação para as sinagogas de Damasco, a fim de levar presos para Jerusalém os homens e mulheres que encontrasse seguindo o Caminho. 3Durante a viagem, quando já estava perto de Damasco, Saulo, de repente, viu-se cercado por uma luz que vinha do céu. 4Caindo por terra, ele ouviu uma voz que lhe dizia: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” 5Saulo perguntou: “Quem és tu, Senhor?” A voz respondeu: “Eu sou Jesus, a quem tu estás perseguindo. 6Agora, levanta-te, entra na cidade, e ali te será dito o que deves fazer”. 7Os homens que acompanhavam Saulo ficaram mudos de espanto, porque ouviam a voz, mas não viam ninguém. 8Saulo levantou-se do chão e abriu os olhos, mas não conseguia ver nada. Então pegaram nele pela mão e levaram-no para Damasco. 9Saulo ficou três dias sem poder ver. E não comeu nem bebeu. 10Em Damasco, havia um discípulo chamado Ananias. O Senhor o chamou numa visão: “Ana­nias!” E Ananias respondeu: “Aqui estou, Senhor!” 11O Senhor lhe disse: “Levanta-te, vai à rua que se chama Direita e procura, na casa de Judas, por um homem de Tarso chamado Saulo. Ele está rezando”. 12E numa visão, Saulo contemplou um homem chamado Ananias, entrando e impondo-lhe as mãos para que recuperasse a vista. 13Ananias respondeu: “Senhor, já ouvi muitos falarem desse homem e do mal que fez aos teus fiéis que estão em Jerusalém. 14E aqui em Damasco ele tem plenos poderes, recebidos dos sumos sacerdotes, para prender todos os que invocam o teu nome”. 15Mas o Senhor disse a Ana­nias: “Vai, porque esse homem é um instrumento que escolhi para anunciar o meu nome aos pagãos, aos reis e ao povo de Israel. 16Eu vou mostrar-lhe quanto ele deve sofrer por minha causa”. 17Então Ananias saiu, entrou na casa, e impôs as mãos sobre Saulo, dizendo: “Saulo, meu irmão, o Senhor Jesus, que te apareceu quando vinhas no caminho, ele me mandou aqui para que tu recuperes a vista e fiques cheio do Espírito Santo”. 18Imediatamente caíram dos olhos de Saulo como que escamas e ele recuperou a vista. Em seguida, Saulo levantou-se e foi batizado. 19Tendo tomado alimento, sentiu-se reconfortado. Saulo passou alguns dias com os discípulos de Damasco, 20e logo começou a pregar nas sinagogas, afirmando que Jesus é o Filho de Deus.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Responsório (Sl 116)

— Ide, por todo o mundo, a todos pregai o Evangelho.
— Ide, por todo o mundo, a todos pregai o Evangelho.

— Cantai louvores ao Senhor, todas as gentes, povos todos, festejai-o!

— Pois comprovado é o seu amor para conosco, para sempre ele é fiel!

 

Evangelho (Jo 6,52-59)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, 52os judeus discutiam entre si, dizendo: “Como é que ele pode dar a sua carne a comer?” 53Então Jesus disse: “Em verdade, em verdade vos digo, se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. 54Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. 55Porque a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue, verdadeira bebida. 56Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. 57Como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo por causa do Pai, assim o que me come viverá por causa de mim. 58Este é o pão que desceu do céu. Não é como aquele que os vossos pais comeram. Eles morreram. Aquele que come este pão viverá para sempre”. 59Assim falou Jesus, ensinando na sinagoga em Cafarnaum.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

 

A IGREJA CATÓLICA CELEBRA E VENERA HOJE
Santo Ângelo, homem dócil e corajoso 

Santo Ângelo se abriu à vontade de Deus através da vida de oração e penitência

Nasceu em Jerusalém em 1185, numa família de tradição judaica.

Através de um sonho se converteu ao Cristianismo. Neste sonho, Nossa Senhora o visitou, dizendo que sua família receberia uma grande graça: o nascimento de uma nova criança, mesmo seus pais sendo de idade avançada.

E assim aconteceu. Ângelo percebeu o chamado de Deus, e recebeu junto com seu irmão recém-nascido, a graça do santo Batismo.

Santo Ângelo se abriu à vontade de Deus através da vida de oração e penitência. Quanto ao seu lugar na Igreja, fez experiência religiosa em vários mosteiros da Palestina e Ásia Menor, até que, ao passar o tempo num Carmelo, entrou na ordem consagrada a Nossa Senhora, a família Carmelita.

Da Itália foi para a Sicília, e já sacerdote, fez um belo trabalho apostólico.

Um homem dócil e corajoso. Certa vez, ao pregar, deparou-se com a graça da conversão de uma mulher que vivia no adultério com um senhor de muitas posses. Ela se abriu ao Evangelho, mas ele não. E este, mandou assassinar Santo Ângelo, que foi morto após uma pregação com apenas 34 anos.

Santo Ângelo, rogai por nós!

 

Santo Evangelho (Jo 6, 44-51)

3ª Semana da Páscoa – Quinta-feira 04/05/2017 

Primeira Leitura (At 8,26-40)
Leitura dos Atos dos Apóstolos.

Naqueles dias, 26um anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: “Prepara-te e vai para o sul, no caminho que desce de Jerusalém a Gaza. O caminho é deserto”. Filipe levantou-se e foi. 27Nisso apareceu um eunuco etíope, ministro de Candace, rainha da Etiópia, e administrador geral do seu tesouro, que tinha ido em peregrinação a Jerusalém. 28Ele estava voltando para casa e vinha sentado no seu carro, lendo o profeta Isaías. 29Então o Espírito disse a Filipe: “Aproxima-te desse carro e acompanha-o”. 30Filipe correu, ouviu o eunuco ler o profeta Isaías e perguntou: “Tu compreendes o que estás lendo?” 31O eunuco respondeu: “Como posso, se ninguém mo explica?” Então convidou Filipe a subir e a sentar-se junto a ele. 32A passagem da Escritura que o eunuco estava lendo era esta: “Ele foi levado como ovelha ao matadouro; e qual um cordeiro diante do seu tosquiador, ele emudeceu e não abriu a boca. 33Eles o humilharam e lhe negaram justiça; e seus descendentes, quem os poderá enumerar? Pois sua vida foi arrancada da terra”. 34E o eunuco disse a Filipe: “Peço que me expliques de quem o profeta está dizendo isso. Ele fala de si mesmo ou se refere a algum outro?” 35Então Filipe começou a falar e, partindo dessa passagem da Escritura, anunciou Jesus ao eunuco. 36Eles prosseguiam o caminho e chegaram a um lugar onde havia água. 37Então o eunuco disse a Filipe: “Aqui temos água. O que impede que eu seja batizado?” 38O eunuco mandou parar o carro. Os dois desceram para a água e Filipe batizou o eu­nuco. 39Quando saíram da á­gua, o Espírito do Senhor arrebatou a Filipe. O eunuco não o viu mais e prosseguiu sua viagem, cheio de alegria. 40Filipe foi parar em Azoto. E, passando adiante, evan­gelizava todas as cidades até chegar a Cesareia.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Responsório (Sl 65)

— Aclamai o Senhor Deus, ó terra inteira.
— Aclamai o Senhor Deus, ó terra inteira.

— Nações, glorificai ao nosso Deus, anunciai em alta voz o seu louvor! É ele quem dá vida à nossa vida, e não permite que vacilem nossos pés.

— Todos vós que a Deus temeis, vinde escutar: vou contar-vos todo bem que ele me fez! Quando a ele o meu grito se elevou, já havia gratidão em minha boca!

— Bendito seja o Senhor Deus que me escutou, não rejeitou minha oração e meu clamor, nem afastou longe de mim o seu amor!

 

Evangelho (Jo 6,44-51)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, disse Jesus à multidão: 44“Ninguém pode vir a mim, se o pai que me enviou não o atrai. E eu o ressuscitarei no último dia. 45Está escrito nos Profetas: ‘Todos serão discípulos de Deus’. Ora, todo aquele que escutou o Pai e por ele foi instruído, vem a mim. 46Não que alguém já tenha visto o Pai. Só aquele que vem de junto de Deus viu o Pai. 47Em verdade, em verdade vos digo, quem crê possui a vida eterna. 48Eu sou o pão da vida. 49Os vossos pais comeram o maná no deserto e, no entanto, morreram. 50Eis aqui o pão que desce do céu: quem dele comer, nunca morrerá. 51Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

 

A IGREJA CATÓLICA CELEBRA E VENERA HOJE
São Floriano, padroeiro dos bombeiros 

Muitos optavam por salvar a própria pele, mas Floriano optou pelo amor a Jesus Cristo

Pertenceu a um grupo de militares que serviam ao império romano. O imperador era Diocleciano que, influenciado por um genro, passou a ter um grande preconceito e ódio ao Cristianismo, a ponto de estabelecer um edito onde dizia que a Palavra de Deus escrita devia ser queimada e os cristãos, quando identificados, precisavam oferecer sacrifícios aos ‘deuses’ em sinal de adoração.

Muitos optavam por testemunhar Jesus até o último instante a renunciar sua fé no Cristo. Outros para salvar a própria pele, abandonavam a Igreja, Jesus e a comunidade. A opção de Floriano foi pelo amor a Cristo.

A ordem do Imperador chegou até ele e em nome de 40 soldados cristãos, ele manifestou-se, denunciando toda aquela ignorância e injustiça. Aquilino, que devia defendê-los pois comandava o pelotão, ao contrário, entregou todos aqueles militares. E aqueles soldados tiveram que optar pelo imperador ou por Cristo. Para servir a Cristo, é preciso testemunhá-lo. E a perseguição não demora a vir.

Floriano teve uma corda amarrada ao seu pescoço e foi lançado ao rio e morreu afogado. E todos os outros soldados também foram martirizados.

São Floriano, rogai por nós!

 

“Deus é capaz de transformar os corações de pedra”, afirma Papa

Terça-feira, 2 de maio de 2017, Da redação, com Rádio Vaticano

Francisco fala sobre o drama do “fechamento do coração”, que não deixa o Espírito Santo entrar e é autossuficiente

“Peçamos a graça que o Senhor abrande os corações endurecidos, fechados na Lei, corações que condenam tudo”, pediu o Papa Francisco na Missa desta terça-feira, 2.

A liturgia da celebração, realizada na Casa Santa Marta, lembra o exemplo de Santo Estevão, “testemunha de obediência” como Jesus, que obedeceu até o fim.

Na homilia, o Papa refletiu sobre a Primeira Leitura do dia, que narra o martírio de Santo Estêvão. Aqueles que o lapidaram não entendiam a Palavra de Deus; Jesus os chama “teimosos”, “pagãos no coração e nos ouvidos”.

O Santo Padre pediu para refletir sobre os vários modos de não entender a Palavra de Deus. Por exemplo, Jesus chama os discípulos de Emaús de “tolos”, porque não entendiam, tinham medo porque não queriam problemas, mas “eram bons”, “abertos à verdade”. E quando Jesus os repreende, deixam entrar suas palavras e seu coração se aquece, enquanto aqueles que lapidaram Estêvão “estavam furiosos”, não queriam ouvir. Este é o drama do “fechamento do coração”.

Coração que não deixa entrar o Espírito Santo

Dando continuidade à sua reflexão, Francisco recorda que no Salmo 94 o Senhor adverte o seu povo, exortando a não endurecer o coração e depois, faz uma promessa belíssima ao Profeta Ezequiel: “trocar o coração de pedra por um de carne”, ou seja, por um coração “que sabe escutar” e “receber o testemunho da obediência”:

O Pontífice destacou que a Igreja sofre muito isso: “corações fechados, corações de pedra, corações que não querem se abrir, que não querem ouvir; corações que conhecem apenas a linguagem da condenação: sabem condenar, mas não sabem dizer: ‘Explique-me, por que diz isto? Por que isto? Explique-me…’. Não: são fechados, sabem tudo, não precisam de explicações”.

A repreensão que Jesus faz é “mataram os profetas porque diziam coisas que vocês não gostavam”, recordou Francisco.

E destacou que um coração fechado não deixa o Espírito Santo entrar.
“Em seus corações não havia lugar para o Espírito Santo. A Leitura de hoje nos diz que Estêvão, cheio do Espírito Santo, havia entendido tudo: era testemunha da obediência do Verbo feito carne, como feito pelo Espírito Santo. Estava cheio. Um coração fechado, um coração teimoso, um coração pagão que não deixa o Espírito Santo entrar e se sente autossuficiente”.

Olhar para dentro de si

Os dois discípulos de Emaús “somos nós”, disse o Papa, “com tantas dúvidas, tantos pecados, que tantas vezes queremos nos afastar da Cruz, das provações, mas abrimos espaço para ouvir Jesus que nos aquece o coração”. Jesus disse muito, coisas piores daquelas ditas por Estevão ao outro grupo, aos que são “fechados na rigidez da lei e não querem ouvir”.

Francisco concluiu se referindo ao episódio da adúltera, que era pecadora. “Cada um de nós – afirma – entra em um diálogo entre Jesus e a vítima dos corações de pedra: a adúltera”. Àqueles que queriam lapidá-la, Jesus responde apenas: “Olhem dentro de si”:

“Hoje, olhemos para a ternura de Jesus: testemunha da obediência, Grande Testemunha, Jesus, que deu a vida, nos mostra o carinho de Deus por nós, por nossos pecados e sofrimentos. Entremos neste diálogo e peçamos a graça que o Senhor abrande um pouco o coração destes rígidos, daquelas pessoas que estão sempre fechadas na Lei e condenam tudo o que é fora daquela Lei. Não sabem que o Verbo veio em carne, que o Verbo é testemunho de obediência, não sabem que a ternura de Deus é capaz de transformar um coração de pedra, colocando em seu lugar um coração de carne”.

A consagração e os três inimigos da alma

A consagração a Jesus por Maria como auxílio extraordinário para vencer os três inimigos da alma: a carne, o mundo e o Demônio.

A consagração a Jesus Cristo e a Virgem Maria é um auxílio muito eficaz para vencer os três inimigos da alma: a carne, o mundo e o Demônio. Todos nós temos que combater esses inimigos, primeiramente porque isto é dever de todos os católicos. Todavia, lutar contra estes três inimigos da nossa alma torna-se ainda mais importante quando queremos nos santificar, nos aproximar mais de Deus. Nesse caso, a consagração a Jesus por Maria tem se mostrado na história da Igreja um auxílio de extraordinária eficácia para combater a carne, o mundo e o Demônio e elevar as almas ao Senhor. Esta eficácia é comprovada na vida de muitos os santos, que se valeram desta consagração para combater esses três inimigos da alma e alcançar os altos cumes da santidade. Entre os mais conhecidos, podemos citar São João Bosco, Santa Teresinha do Menino Jesus, São Pio de Pietrelcina, Santo Antônio de Sant’anna Galvão.

Sonho de Dom Bosco com Nossa Senhora aos nove anos de idade

Não menos importante é São Luís Maria Grignion de Montfort, o grande apóstolo de Nossa Senhora, que transformou o legado de muitos santos e santas, que já viviam esta espiritualidade antes dele, no valiosíssimo tesouro que é o seu livro “Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem”. Este foi o livro de cabeceira do saudoso Papa São João Paulo II, que tinha como lema em latim “Totus Tuus”, que significa “Todo Teu”, ou “Todo de Maria”. No seu testamento espiritual, intitulado “Totus Tuus ego sum”, que quer dizer “Todo Teu eu sou”, São João Paulo II escreveu seis vezes o seu lema: “Totus Tuus”. Numa dessas referências, expressou sua profunda devoção a Jesus por Maria nestes termos: “Na vida e na morte Totus Tuus mediante a Imaculada”1. O lema “Totus Tuus” é a expressão abreviada do princípio fundamental que Karol Wojtyła, ainda seminarista, assumiu para toda a sua vida e que o ajudou a perseverar até a morte: “Totus tuus ego sum et omnia mea tua sunt. Accipio Te in mea omnia. Praebe mihi cor tuum, Maria – Sou todo vosso e tudo o que possuo é vosso. Tomo-vos como toda a minha riqueza. Dai-me o vosso coração, ó Maria”2.

O primeiro inimigo da nossa alma: a carne

O primeiro inimigo de nossa alma somos nós mesmos, a nossa própria carne. “As nossas melhores ações são ordinariamente manchadas e corrompidas pelo mau fundo que há em nós”3. Por isso, “quando Deus infunde em nossa alma, corrompida pelo pecado original e atual, as suas graças e orvalhos celestes, ou o vinho delicioso do seu Amor, assim também os Seus dons são ordinariamente manchados e estragados pelo mau fermento e mau fundo que o pecado deixou em nós”4.

Para adquirir a perfeição, que somente alcançamos pela nossa união com Jesus Cristo, devemos esvaziar-nos do que há de mau em nós. Este despojamento de nós mesmos só acontecerá se conhecermos bem, à luz do Espírito Santo, “o nosso fundo mau, a nossa incapacidade para qualquer bem útil à salvação, a nossa fraqueza em todas as coisas, a nossa permanente inconstância, a nossa indignidade de toda a graça, a nossa iniquidade em toda a parte”5. Não foi sem razão que o Senhor mandou renunciar a nós mesmos6, pois, se amamos a nossa alma, a perdemos, mas, se a odiamos, a salvamos7.

Depois de reconhecermos o nosso fundo mau, “para nos despojar de nós mesmos, é preciso morrer todos os dias. Isto quer dizer que é preciso renunciar às operações das potências da nossa alma e dos sentidos do nosso corpo”8. Renunciar as faculdades da nossa alma significa nos desapegar da inteligência, da memória e da vontade. A purificação destas se dá através das três virtudes teologais: fé, esperança e caridade. Quanto à purificação dos sentidos, esta se dá pela mortificação do olfato, da visão, da audição, do paladar e do tato. Como exemplos, podemos purificar: o olfato, deixando de usar perfumes ou usar aqueles que não gostamos; a visão, abstendo-nos de assistir filmes, novelas ou acessar conteúdos que transmitem sensualidade, violência, futilidade, mundanidade; a audição, evitando ouvir músicas do mundo, conversas tolas, piadas de mau gosto; o paladar, através de penitências e jejuns de alimentos e bebidas que gostamos e/ou de comer coisas que não gostamos; o tato, usando roupas ou calçados que não sejam tão confortáveis e macios, que causem um certo incômodo. Estas são medidas simples que fazem toda a diferença na vida espiritual.

A nossa luta contra a carne se faz ainda mais necessária em nossa vida de oração. Temos um exemplo desta renúncia de nós mesmos na comunhão, como nos explica São Luís Maria: “Mas recorda-te de que quanto mais deixares agir Maria na tua comunhão, mais Jesus será glorificado. E deixarás agir tanto mais Maria por Jesus e Jesus em Maria, quanto mais profundamente te humilhares e os escutares em paz e silêncio, sem procurar ver, gostar ou sentir. Pois o justo vive, em tudo, da fé9, e particularmente na sagrada comunhão, que é um ato de fé”10. Estas três operações: “ver, gostar e sentir” dizem respeito ao nosso corpo. Isto significa que quando mais renunciamos aos nossos sentidos e também a nossa inteligência, memória e vontade, mais crescemos na fé, esperança e caridade e consequentemente mais nos aproximamos de Deus.

O segundo inimigo da nossa alma: o mundo

O segundo inimigo de nossa alma é o mundo, corrompido pelo pecado, no qual vivemos. O mundo quer nos escravizar de vários modos, através do materialismo, do dinheiro, do poder, do prazer, das paixões, da moda, do álcool, do fumo, das drogas, da televisão, da internet, da pornografia, do sexo fora do Matrimônio, do “politicamente correto”, das ideologias, das falsas religiões. O resultado de tudo isso que o mundo oferece, com a falsa promessa de felicidade, é a confusão, o desespero, a frustração, a depressão, a neurose, a loucura, a degradação moral, as doenças, a escravidão, a violência, as guerras, o suicídio, a morte.

Pelas consequências, vemos que todas as coisas que o mundo nos oferece não nos darão felicidade. Ao contrário, nos farão cada vez mais infelizes e distantes de Deus. Por isso, devemos romper decididamente com o mundo. No entanto, o mundo “está, presentemente, tão corrompido, que se torna quase inevitável serem os corações religiosos manchados, senão pela sua lama, ao menos pela poeira. Assim, é quase um milagre conservar-se alguém firme no meio desta torrente impetuosa sem ser arrastado; andar neste mar tormentoso sem ser submergido ou pilhado pelos piratas e corsários; respirar este ar empestado sem lhe sentir as más consequências. É a Virgem, a única sempre fiel, sobre a qual a serpente jamais teve poder, quem faz este milagre a favor daqueles e daquelas que a servem da melhor maneira”11.

A Virgem Santíssima obtém de Deus a fidelidade e a perseverança para todos os que se dedicam a ela. Por isso, a Mãe da Igreja pode ser comparada a uma âncora firme, que nos retém e impede que naufraguemos no meio do mar agitado deste mundo, onde tantos perecem por se não segurarem a esta âncora segura. “Nós ligamos as almas à Vossa esperança, como a uma âncora firme”, dizia São Boaventura. “Foi a Ela que os santos que se salvaram mais se amarraram e mais amarraram os outros, para perseverar na virtude. Felizes, pois, mil vezes felizes os cristãos que agora se agarram fiel e inteiramente a Maria, como a uma âncora firme”12. Dessa forma, as tempestades deste mundo não nos fará naufragar, nem perder os seus tesouros celestes.

O terceiro inimigo da nossa alma: Satanás

Este terceiro, não é somente Inimigo de nossa alma, mas também de todos os escravos e filhos de Nossa Senhora. Pois, desde o pecado de Adão e Eva13, “Deus constituiu não somente uma inimizade, mas ‘inimizades’, não apenas entre Maria e o Demônio, mas também entre a descendência da Virgem Santa e a de Satanás”14. Isto significa que Deus estabeleceu inimizades, antipatias e ódios secretos entre os verdadeiros filhos e escravos da Santíssima Virgem e os filhos e escravos de Satanás. “Os filhos de Belial15, os escravos de Satanás, os amigos do mundo16, até hoje perseguiram sempre, e perseguirão mais do que nunca, aqueles que pertencem à Santíssima Virgem, como outrora Caim perseguiu seu irmão Abel, e Esaú perseguiu Jacó, figuras dos réprobos e dos predestinados”17.

Apesar desta perseguição infernal, não temos o que temer, pois a humilde Virgem Maria sempre alcançará a vitória sobre este orgulhoso, e essa vitória será tão grande que chegará a esmagar-lhe a cabeça, onde mora o seu orgulho. Nossa Senhora sempre descobrirá a sua malícia de serpente e nos mostrará as suas tramas infernais. Ela destruirá os seus conselhos e protegerá os seus servos fiéis contra as garras cruéis do Inimigo, até o fim dos tempos.

O poder de Maria Santíssima sobre todos os demônios brilhará particularmente nos últimos tempos, nos quais “Satanás armará ciladas contra o seu calcanhar, ou seja, contra os humildes escravos e pobres filhos, que ela suscitará para lhe fazer guerra. Eles serão pequenos e pobres na opinião do mundo, humilhados perante todos, calcados e perseguidos como o calcanhar o é em relação aos outros membros do corpo. Mas, em troca, serão ricos da graça de Deus, que Maria lhes distribuirá abundantemente. Serão grandes e de elevada santidade diante de Deus, e superiores a toda criatura pelo seu zelo ardente. Estarão tão fortemente apoiados no socorro divino que esmagarão, com a humildade de seu calcanhar e em união com Maria, a cabeça do Demônio, fazendo triunfar Jesus Cristo”18.

O segredo para vencer a carne, o mundo e o Demônio

Assim, compreendemos que a carne, o mundo e Satanás, são os três maiores inimigos da nossa alma. No entanto, se formos fiéis filhos e consagrados da Virgem Maria, nossa alma será forte e corajosa, para opor-se ao mundo com as suas modas e máximas; à carne com suas angústias e paixões; e ao demônio com suas astúcias e tentações. Uma pessoa verdadeiramente devota da Santíssima Virgem não é volúvel, melancólica, escrupulosa, nem medrosa. Entretanto, isto não significa que não caia em pecado de modo algum, ou que não mude algumas vezes na sensibilidade da sua devoção. “Mas, se cai, estende a mão à sua boa Mãe e levanta-se. Se perde o gosto e a devoção sensível, não se perturba, porque o justo e fiel servo de Maria vive da fé em Jesus e Maria, e não dos sentimentos do corpo”19. Desse modo, os fiéis consagrados serão “um grande esquadrão de bravos e valorosos soldados de Jesus e Maria, de ambos os sexos, que combaterão o mundo, o demônio e a sua própria natureza corrompida, nos tempos perigosos que mais do que nunca se aproximam!20 Façamos parte destes valorosos filhos e escravos, renunciemos ao Demônio, ao mundo, a nós mesmos e consequentemente ao pecado, e entreguemo-nos inteiramente a Jesus Cristo pelas mãos de Maria. Santa Maria, Mãe de Deus, Rogai por nós!

“Ato de entrega dos jovens a Maria: ‘Eis aí a tua Mãe!’21

É Jesus, ó Virgem Maria, que da cruz nos quer confiar a Ti, não para atenuar,

mas para confirmar o seu papel exclusivo de Salvador do mundo.

Se no discípulo João, te foram entregues todos os filhos da Igreja,

Tanto mais me apraz ver confiados a Ti, ó Maria, os jovens do mundo.

A Ti, doce Mãe, cuja proteção eu sempre experimentei, os entrego, novamente, nesta tarde.

Todos, sob o teu manto, procuram refúgio na tua proteção.

Tu, Mãe da divina graça, fá-los brilhar com a beleza de Cristo!

São os jovens deste século, que na aurora do novo milênio,

vivem ainda os tormentos derivados do pecado,

do ódio, da violência, do terrorismo e da guerra.

Mas são também os jovens para os quais a Igreja olha com confiança,

na consciência de que, com a ajuda da graça de Deus,

conseguirão acreditar e viver como testemunhas do Evangelho no hoje da história.

Ó Maria, ajuda-os a responder à sua vocação.

Guia-os para o conhecimento do amor verdadeiro e abençoa os seus afetos.

Ajuda-os no momento do sofrimento.

Torna-os anunciadores intrépidos da saudação de Cristo no dia de Páscoa: a Paz esteja convosco!

Com eles, também eu me confio mais uma vez a Ti e, com afeto confiante, te repito:

Totus tuus ego sum! Eu sou todo teu!

E também cada um deles Te dizem comigo: Totus tuus! Totus tuus! Amém”22.

 

Links relacionados:

PADRE PAULO RICARDO. A Mãe do Salvador e a Nossa Vida Interior.

TODO DE MARIA. Mudar de vida com o Projeto Segunda Morada.

TODO DE MARIA. Purificar: inteligência, memória e vontade.

Referências:

1 PAPA JOÃO PAULO II. O testamento de João Paulo II: Totus Tuus ego sum.

2 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem, 266.

3 Idem, 78.

4 Idem, ibidem.

5 Idem, 79.

6 Cf. Mt 16, 24.

7 Cf. Jo 12, 25.

8 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Op. cit., 81.

9 Cf. Hb 10, 38

10 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Op. cit., 273.

11 Idem, 89.

12 Idem, 175.

13 Cf. Gn 3, 15.

14 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Op. cit., 54.

15 Cf. Dt 13, 13

16 Segundo São Luís Maria, escravos de Satanás e amigos do mundo são sinônimos, não há diferença entre eles.

17 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Op. cit., 54.

18 Idem, ibidem.

19 Idem, 109. Cf. Hb 10, 38.

20 Idem, 114.

21 Cf. Jo 19, 27.

22 PAPA JOÃO PAULO II. Ato de entrega dos jovens a Maria.

Natalino Ueda é brasileiro, católico, formado em Filosofia e Teologia. Na consagração a Virgem Maria, segundo o método de São Luís Maria Grignion de Montfort, explicado no seu livro “Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem”, descobriu o caminho fácil, rápido, perfeito e seguro para chegar a Jesus Cristo. Desde então, ensina e escreve sobre esta devoção, o caminho “a Jesus por Maria”, que é hoje o seu maior apostolado.

Cantalamessa: a cruz dá sentido a todo sofrimento, a vitória é dos que sofrem

Papa adorando a cruz de Cristo na celebração da Paixão do Senhor – AFP
14/04/2017

Cidade do Vaticano (RV) – O Papa Francisco presidiu na tarde desta Sexta-feira Santa, na Basílica de São Pedro, a celebração da Paixão do Senhor. A homilia da cerimônia, intitulada “A cruz, única esperança do mundo”, esteve a cargo do Pregador da casa Pontifícia Frei Raniero Cantalamessa ofmcap.

“Escutamos a narrativa da Paixão de Cristo. Trata-se, essencialmente, do relato de uma morte violenta. Notícias de mortes, e mortes violentas, quase nunca faltam nos noticiários vespertinos. Também nestes últimos dias, temos escutado tais notícias, como a dos 38 cristãos coptas assassinados no Egito no Domingo de Ramos. Estas notícias se sucedem com tal rapidez, que nos fazem esquecer, a cada noite, as do dia anterior. Por que, então, após 2000 anos, o mundo ainda recorda, como se tivesse acontecido ontem, a morte de Cristo? É que esta morte mudou para sempre o rosto da morte; ela deu um novo sentido à morte de cada ser humano”, disse Frei Cantalamessa.

“Chegando, porém, a Jesus, como o vissem já morto, não lhe quebraram as pernas, mas um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança e, imediatamente, saiu sangue e água” (Jo 19, 33-34).

“Penetremos no epicentro da fonte deste “rio de água viva” no coração trespassado de Cristo. Existe agora, dentro da Trindade e dentro do mundo, um coração humano que bate, não só metaforicamente, mas realmente. É um coração trespassado, mas vivente; eternamente trespassado, precisamente porque eternamente vivente”, frisou o frei capuchinho.

Há uma expressão que foi criada justamente para descrever a profundidade da maldade que pode aglutinar-se no seio da humanidade: “coração de trevas”. Depois do sacrifício de Cristo, mais profundo do que o coração de trevas, palpita no mundo um coração de luz. Cristo, de fato, subindo ao céu, não abandonou a terra, assim como, encarnando-se, não tinha abandonado a Trindade.

A cruz não “está”, portanto, contra o mundo, mas pelo mundo: para dar um sentido a todo o sofrimento que houve, que há e que haverá na história humana. “Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo – diz Jesus a Nicodemos –, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Jo 3, 17). A cruz é a proclamação viva de que a vitória final não é de quem triunfa sobre os outros, mas de quem triunfa sobre si mesmo; não daqueles que causam sofrimento, mas daqueles que sofrem.

“Tornaríamos vã, no entanto, esta liturgia da Paixão, se ficássemos, como os sociólogos, na análise da sociedade em que vivemos. Cristo não veio para explicar as coisas, mas para mudar as pessoas. O coração de trevas não é apenas aquele de algum malvado escondido no fundo da selva, e nem mesmo aquele da nação e da sociedade que o produziu. Em diferente medida está dentro de cada um de nós”, disse Frei Cantalamessa que acrescentou:

A Bíblia o chama de coração de pedra, “Tirarei do vosso peito o coração de pedra – diz Deus ao profeta Ezequiel – vos darei um coração de carne”. Coração de Pedra é o coração fechado à vontade de Deus e ao sofrimento dos irmãos, o coração de quem acumula quantidades ilimitadas de dinheiro e permanece indiferente ao desespero de quem não tem um copo de água para dar ao próprio filho; é também o coração de quem se deixa completamente dominar pela paixão impura, pronto para matar ou a levar uma vida dupla. Para não ficarmos com o olhar sempre dirigido para o exterior, para os demais, digamos mais concretamente: é o nosso coração de ministros de Deus e de cristãos praticantes se vivemos ainda, basicamente, “para nós mesmos” e não “para o Senhor”.

O coração de carne, prometido por Deus nos profetas, já está presente no mundo: é o Coração de Cristo trespassado na cruz, aquele que veneramos como “o Sagrado Coração”. Ao receber a Eucaristia, acreditamos firmemente que aquele coração vem bater também dentro de nós. Olhando para a cruz daqui a pouco digamos do profundo do coração, como o publicano no templo: “Meu Deus, tem piedade de mim, pecador!”, e também nós, como ele, voltaremos para casa “justificados”.

Tradução de Thácio Siqueira

Espiritismo: reencarnação e Cristianismo

D. Estêvão Bettencourt O. S. B.
Fonte: Revista Pergunte e Responderemos, 051 – 1962

«Como se diz, os primeiros cristãos professavam a teoria da reencarnação. Foi somente em 533, num sínodo de Cons­tantinopla, que a Igreja imprudentemente a condenou, introduzindo a idéia do inferno. Que houve propriamente nesse concílio de Constantinopla?»

Em resposta, analisaremos primeiramente a doutrina das antigas fontes do Cristianismo no tocante à reencarnação; a seguir, deter-nos-emos sobre o citado sínodo de Constantinopla.

I. Antigos documentos cristãos e reencarnação

1. Sagrada Escritura. Nem o Velho nem o Novo Testamento dão testemunho que de algum modo insinue a doutrina da reencarnação. Ao contrário, a Escritura professa categoricamente uma só existência do homem sobre a terra, após a qual cada um é definitivamente julgado: «Foi estabelecido, para os homens, morrer uma só vez; depois do que, há o julgamento» (Hb 9, 27). Ao bom ladrão arrependido dizia Jesus: «Hoje mesmo estarás comigo no paraíso» (Lc 23, 43).

Os principais textos bíblicos concernentes a este assunto (Mt 11,14; 17,12; Jo 1, 21; 3, 3; 9, 1-3) já foram considerados em «P.R.» 3/1957, qu. 8. Dispensamo-nos, pois, de analisá-los novamente aqui, e passamos ao testemunho dos antigos escritores cristãos.

2. Os Padres da Igreja. Os adeptos da reencarnação não raro proferem afirmações como a seguinte:

«A Igreja primitiva não repele absolutamente o ensino reencarnacionista. Os primeiros padres e, entre eles, S. Clemente de Alexandria, S. Jeronimo e Rufino, afirmam que ele era ensinado como verdade tradicional a um certo número de iniciados» (Campos-Vergal, Reencarnação ou Pluralidade das Existências. S. Paulo 1936, 41).

Contudo os autores desta e de semelhantes proposições não tratam de comprová-las citando os textos sobre os quais se apoiam; é o que tira a autoridade a tais assertivas.

Quem, ao contrário, investiga diretamente as obras dos antigos escritores da Igreja, chega a conclusão bem diferente da do trecho acima transcrito. Percorramos, portanto, os escritos dos principais Padres citados pelos reencarnacionistas modernos.

S. Ireneu († 202) rejeitava explicitamente a tese da reencarnação, lembrando que em nossa memória não nos fica vestígio algum de existências anteriores; de outro lado, advertia, a fé cristã ensina a ressurreição da carne, a qual é incompatível com a reencarnação das almas em novos corpos (cf. Adv. haer. II 33).

Tertuliano († 220), usando do seu estilo mordaz, opunha-se ao reencarnacionismo em famosa passagem («De anima» 28-35), que assim se pode resumir:

Pitágoras, que afirma lembrar-se das suas anteriores existências, é vergonhosamente mentiroso: asseverava, por exemplo, ter tomado parte na guerra de Troia; como explicar então que, depois, se tenha mostrado tão pouco valente? Pois, fugindo da guerra, não veio ele à Itália? E, se em vida anterior foi, segundo afirmava, o pescador Pirro, como se lhe justificará a aversão pelo peixe? (Sabe-se que Pitágoras nunca comia peixe). E Empédocles? Não pretendeu ser peixe numa existência anterior? Deve ser por isso que se atirou na cratera de um vulcão: com certeza quis ser frito. É tão absurda a migração das almas para corpos de animais que nem os próprios hereges ousaram defendê-la. – Tertuliano afirmava outrossim que a reencarnação contra­ria a noção de justiça de Deus, a qual exige que a punição afete o próprio corpo que cometeu o pecado, e não algum outro.

Clemente de Alexandria († 215) tinha a doutrina da reen­carnação na conta de arbitrária, pois nem as reminiscências no-la atestam nem a fé cristã.

«Se tivéssemos existido antes de vir a este mundo, deveríamos agora saber onde estávamos, assim como o modo e o motivo pelos quais viemos a este mundo» (Eclogae XVII). Clemente notava que nunca a Igreja professara tal doutrina, a qual só fora sustentada por conventículos de hereges ditos «gnósticos» (Basilidianos e Marcionitas).

São Gregório de Nissa († 394) é explicitamente citado pelos reencarnacionistas como adepto de sua doutrina. Quem, porém, examina os escritos deste autor, verifica que Gregório considera a reencarnação como fábula injuriosa à dignidade hu­mana, pois não hesita em atribuir ao homem, ao animal irracio­nal (ave, peixe, rã…) e à planta o mesmo princípio vital (cf. «De hominis opificio» 28).

Se, não obstante, os reencarnacionistas modernos apelam para a autoridade de S. Gregório de Nissa, isto se deve ao fato de que em al­guns pontos foi discípulo de Orígenes (do qual falaremos no § 2 desta resposta).

São Jerônimo († 421) é por vezes nominalmente citado em favor da reencarnação. Contudo seria difícil ou impossível jus­tificar essa «procura de patrocínio» em S. Jerônimo, pois o S. Doutor se pronunciou diretamente contrário à teoria, e isto… precisamente ao comentar o texto (muito caro aos reencarnacionistas) de Mt 11, 14, em que São João Batista é designado como Elias:

«João é chamado Elias, observa S. Jerônimo, não segundo a men­talidade de tolos filósofos e de alguns hereges, que introduzem a dou­trina da metempsicose, mas pelo fato de ter ele vindo cheio da força e do zelo de Elias, como atesta outra passagem do Evangelho» (cf. Lc 1, 17).

Sto. Agostinho († 430) é tido por Allan Kardec como um dos maiores divulgadores do espiritismo, pois, conforme o Codi­ficador, terá sido adepto da reencarnação. Na verdade, Santo Agostinho, no livro X c. 30 «De civitate Dei», mostra conhecer as doutrinas reencarnacionistas de Platão, Plotino e Porfírio, que ele assim comenta:

«Se julgamos ser indigno corrigir o pensamento de Platão, por que então Porfírio modificou a sua doutrina em mais de um ponto, e em pontos que não são de pequenas consequências? É certíssimo que Platão ensinou que as almas dos homens retornam até mesmo para animar corpos de animais. Esta opinião foi também adotada por Plotino, mestre de Porfírio. Mas não lhe agradou, e com muita razão. É verdade que Porfírio admitiu que as almas entram em sempre novos corpos: ele, de um lado, sentia vergonha em admitir que sua mãe pudesse algum dia carregar às costas o filho, se lhe acontecesse reencarnar-se no corpo de uma mula; mas, de outro lado, não tinha vergonha em acreditar que a mãe pudesse transformar-se numa jovem e desposar o seu próprio filho! Oh, quanto mais nobre é a fé que os san­tos e verazes anjos ensinaram, fé que os Profetas dirigidos pelo Espí­rito de Deus anunciaram, … fé que os Apóstolos apregoaram por todo o orbe! Quanto mais nobre é crer que as almas voltam uma só vez aos seus próprios corpos (no momento da ressurreição final) do que admi­tir que elas tomem tantas vezes sempre novos corpos!» (De civitate Dei X 30).

Considerações análogas se poderiam multiplicar caso se quisesse continuar a percorrer a antiga literatura cristã. Isto escaparia, porém, ao intento do presente artigo. Os dizeres de Santo Agostinho, fazendo eco à sentença de escritores mais anti­gos, principalmente dos mais evocados pelos reencarnacionistas, já bastam para mostrar que vão seria procurar nos Padres da Igreja tutela e autoridade para a doutrina da reencarnação. Quem, com sinceridade, observa a documentação patrística, é levado a concluir que na realidade a Igreja antiga, longe de en­sinar a reencarnação, se lhe opôs abertamente.

Eis, porém, que a história registra o caso de Orígenes, do Origenismo e do Concilio de Constantinopla (543), caso assaz controvertido, ao qual devemos agora voltar a nossa atenção.

II. Orígenes, Origenismo e Constantinopla

É o nome de Orígenes que por excelência dá ocasião a que alguns escritores modernos asseverem, terem os antigos cristãos admitido a doutrina da reencarnação, prosseguindo destarte uma tradição pré­cristã. Será preciso, portanto, considerar antes do mais:

1. Quem era Orígenes?

Orígenes (185-254) foi mestre de famosa Escola Catequética ou Teológica de Alexandria (Egito) numa época em que os autores cristãos começavam a confrontar a revelação do Evangelho com as teses da sabedoria humana anterior a Cristo. As fórmulas oficiais de fé da Igreja eram então muito concisas; a teologia (ou seja, a penetração lógica e sistemática das proposições reveladas) ainda estava em seus primórdios; em consequência, ficava margem assaz ampla para que o estudioso arquitetasse teorias e propusesse sentenças destinadas a elucidar, na medida do possível, os artigos da fé. Orígenes entregou-se a tal tarefa, servindo-se da filosofia de seu tempo e, em particular, da filosofia platônica. Ao realizar isso, o mestre fazia questão de distinguir explicitamente entre proposições dogmáticas, per­tencentes ao patrimônio da fé e da Igreja, e proposições hipo­téticas, que ele formulava em seu nome pessoal, a guisa de sugestões, para penetrar o sentido das verdades dogmáticas; além disto, professava submissão ao magistério da Igreja caso esta rejeitasse alguma das teses de Orígenes.

Ora, entre as suas proposições pessoais, Orígenes formulou algumas que de fato vieram a ser repudiadas pelo magistério eclesiástico.

Assim, inspirando-se no platonismo, derivava a palavra grega «psyché» (alma) de «psychos» (frio), e admitia que as almas humanas, unidas à matéria tais como elas atualmente se acham, são o produto de um resfriamento do fervor de espíritos que Deus criou todos iguais e destinados a viver fora do corpo; a encarnação das almas, por­tanto, e a criação do mundo material dever-se-iam a um abuso da liberdade ou a um pecado dos espíritos primitivos, que Deus terá punido ligando tais espíritos à matéria. Banidos do céu e encarcerados no corpo, estes sofrem aqui a justa sanção e se vão purificando a fim de voltar a Deus; após a vida presente, alguns ainda precisarão de ser purificados pelo fogo em sua existência póstuma, mas na etapa final da história todos serão salvos e recuperarão o seu lugar junto a Deus; o mundo visível terá então preenchido o seu papel e será aniquilado.

Note-se bem: o alexandrino propunha tais idéias como hipóteses, e hipóteses sobre as quais a Igreja não se tinha pronunciado (justamente porque pronunciamentos sobre tais assuntos ainda não haviam sido necessários); não havia, pois, da parte de Orígenes a intenção de se afastar do ensinamento comum da Igreja a fim de constituir uma escola teológica própria ou uma heresia («heresia» implica em obsti­nação consciente contra o magistério da Igreja).

2. A desgraça de Orígenes, porém, foi ter tido muitos dis­cípulos e admiradores… Estes atribuíram valor dogmático às proposições do mestre, mesmo depois que o magistério da Igreja as declarou contrárias aos ensinamentos da fé.

Ê preciso observar outrossim o seguinte: o mestre alexan­drino admitiu como possível a preexistência das almas humanas. Ora esta não implica necessariamente em reencarnação; significa apenas que, antes de se unir ao corpo, a alma humana viveu algum tempo fora da matéria; encarnou-se depois…; dai não se segue que se deva encarnar mais de uma vez (o que seria a reencarnação propriamente dita).

Aliás, Orígenes se pronunciou diretamente contrário à doutrina da reencarnação… Com efeito; em certa passagem de suas obras, con­sidera a teoria do gnóstico Basílides, o qual queria basear a reencarnação nas palavras de S. Paulo: «Vivi outrora sem lei…» (Rom 7,9). Observa então Orígenes: Basilides não percebeu que a palavra «outrora» não se refere a uma vida anterior de S. Paulo, mas apenas a um período anterior da existência terrestre que o Apóstolo estava vivendo; assim, concluía o alexandrino, «Basílides rebaixou a doutrina do Apóstolo ao plano das fábulas ineptas e ímpias» (cf. In Rom VII).

Contudo os discípulos de Orígenes professaram como ver­dade de fé não somente a preexistência das almas (delicada­mente insinuada por Orígenes), mas também a reencarnação (que o alexandrino não chegou de modo nenhum a propor, nem como hipótese).

Os principais defensores destas idéias, os chamados «origenistas», foram monges que viveram no Egito, na Palestina e na Síria nos séc. IV/VI. Esses monges, como se compreende, levando vida muito retirada, entregue ao trabalho manual e à oração, eram pouco ver­sados no estudo e na teologia; admiravam Orígenes principalmente por causa dos seus escritos de ascética e mística, disciplinas em que o ale­xandrino mostrou realmente ter autoridade); não tendo, porém, cabe­dal para distinguir entre proposições categóricas e meras hipóteses do mestre, os origenistas professavam cegamente como dogma tudo que liam nos escritos de Orígenes; pode-se mesmo dizer que eram tanto mais fanáticos e buliçosos quanto mais simples e ignorantes.

A tese da reencarnação, desde que começou a ser sustentada pelos origenistas, encontrou decididos oponentes entre os escritores cristãos mesmos, que a tinham como contrária à fé. Um dos testemunhos mais claros é o de Enéias de Gaza († 518), autor do «Diálogo sobre a imortalidade da alma e a ressurreição», em que se lê o seguinte raciocínio:

«Quando castigo meu filho ou meu servo, antes de lhe infligir a punição, repito-lhe várias vezes o motivo pelo qual o castigo, e recomendo-lhe que não o esqueça para que não recaia na mesma falta. Sendo assim, Deus, que estipula… os supremos castigos, não haveria de esclarecer os culpados a respeito do motivo pelo qual Ele os castiga? Haveria de lhes subtrair a recordação de suas faltas, dando-lhes ao mesmo tempo a experimentar muito vivamente as suas penas? Para que serviria o castigo se não fosse acompanhado da recordação da culpa? Só contribuiria para irritar o réu e levá-lo à demência. Uma tal vitima não teria o direito de acusar o seu juiz por ser punida sem ter consciência de haver cometido alguma falta?» (ed. Migne gr. t. LXXXV 871).

Sem nos demorar sobre este e outros testemunhos anti-reencarnacionistas do séc. V, passamos imediatamente à fase culminante da luta origenista.

Na realidade, a corrente dos origenistas ou o origenismo na primeira metade do séc. VI provocou famosa celeuma teo­lógica.

Como se terá desenrolado?

3. No início do séc. VI estava o origenismo muito em voga nos mosteiros da Palestina, tendo como principal centro de propagação o cenóbio dito da «Nova Laura», ao sul de Belém: aí gozavam de apreço as doutrinas referentes à preexistência das almas, à reencarnação e à restauração de todas as criaturas na ordem inicial ou na bem-aventurança celeste.

Em 531, o abade São Sabas, que, com seus 92 anos de idade, se opunha energicamente ao origenismo, foi a Constantinopla pedir a pro­teção do Imperador para a Palestina devastada pelos samaritanos, assim como a expulsão dos monges origenistas. Contudo alguns dos monges que o acompanhavam, sustentaram em Constantinopla opi­niões origenistas; regressou à Palestina, para aí morrer aos 5 de de­zembro de 532.

Após a morte de S. Sabas, a propaganda origenista recrudesceu, invadindo até mesmo o mosteiro do falecido abade (o cenóbio da «Grande Laura»); em conseqüência, o novo abade, Gelásio, expulsou do mosteiro quarenta monges. Estes, unidos aos da Nova Laura, não hesitaram em tentar tomar de assalto a Grande Laura. Por essa época, os origenistas (pelo fato de combater uma famosa heresia cristológica dita «monofisitismo») gozavam de prestígio mesmo em Constantino­pla, tendo sido dois dentre eles nomeados bispos: Teodoro Askidas, para a sede de Cesaréia na Capadócia; e Domiciano, para a de Ancira.

Com o passar do tempo, a controvérsia entre os monges da Palestina se tornava cada vez mais acesa, exigindo em breve a intervenção de instancia superior. Foi o que se deu em 539 num sínodo reunido em Gaza, o origenismo foi denunciado ao legado papal Pelágio. Este voltou a Constantinopla na compa­nhia de monges de Jerusalém encarregados pelo Patriarca desta cidade de pedir ao Imperador o seu pronunciamento contra o origenismo. A petição foi de fato transmitida, logrando o alme­jado êxito: Justiniano, Imperador, comprazia-se em disputas teológicas; de bom grado, portanto, escreveu um tratado contra Orígenes, de tom extremamente violento, equiparando as sentenças do alexandrino aos erros dos pagãos, maniqueus e arianos; concluía com uma série de dez anátemas contra Orígenes, dos quais especial atenção merecem os seguintes:

«1. Se alguém disser ou julgar que as almas humanas existiam anteriormente, como espíritos ou poderes sagrados, os quais, desviando-se da visão de Deus, se deixaram arrastar ao mal e por este motivo perderam o amor a Deus, foram chamados almas e relegados para dentro de um corpo à guisa de punição, seja anátema.

5. Se alguém disser ou julgar que, por ocasião da ressurreição, os corpos humanos ressuscitarão em forma de esfera, sem semelhança com o corpo que atualmente temos, seja anátema.

9. Se alguém disser ou julgar que a pena dos demônios ou dos ímpios não será eterna, mas terá fim, e que se dará uma restauração («apokatástasis», reabilitação) dos demônios, seja anátema.»

Os outros anátemas interessam menos, pois se referem a erros cristológicos.

Justiniano em 543 enviou o seu tratado com os anátemas ao Patriarca Menas de Constantinopla, a fim de que este também condenasse Orígenes e obtivesse dos bispos vizinhos e dos abades de mosteiros próximos igual pronunciamento.

Assim intimado, Menas reuniu logo o chamado «sínodo permanente» (conselho episcopal) de Constantinopla, o qual, por sua vez, redigiu e promulgou quinze anátemas contra Orígenes, dos quais os quatro primeiros nos interessam de perto:

«1. Se alguém crer na fabulosa preexistência das almas e na repudiável reabilitação das mesmas (que é geralmente associada àquela), seja anátema.

2. Se alguém disser que os espíritos racionais foram todos cria­dos independentemente da matéria e alheios ao corpo, e que vários deles rejeitaram a visão de Deus, entregando-se a atos ilícitos, cada qual seguindo suas más inclinações, de modo que foram unidos a corpos, uns mais, outros menos perfeitos, seja anátema.

3. Se alguém disser que o sol, a lua e as estrelas pertencem ao conjunto dos seres racionais e que se tornaram o que eles hoje são por se terem voltado para o mal, seja anátema.

4. Se alguém disser que os seres racionais nos quais o amor a Deus se arrefeceu, se ocultaram dentro de corpos grosseiros como são os nossos, e foram em consequência chamados homens, ao passo que aqueles que atingiram o último grau do mal tiveram como partilha corpos frios e tenebrosos, tornando-se o que chamamos demônios e espíritos maus, seja anátema».

O papa Vigílio e os demais Patriarcas deram a sua aprovação a esses anátemas. Como se vê, tal condenação foi promulgada por um sínodo local de Constantinopla reunido em 543, e não, como se costuma dizer, pelo II concílio ecumênico de Constantinopla, o qual só se realizou em 553. Neste concílio ecumênico, a questão da preexistência e da sorte póstuma das almas humanas não voltou à baila; verdade é que Orígenes aí foi condenado juntamente com alguns hereges por causa de erros cristológicos (cf. anátema XI proferido pelo mencionado concílio ecumênico). Os historiadores recentes rejeitam a opi­nião de autores mais antigos segundo os quais o II concílio ecumênico de Constantinopla se teria ocupado com a doutrina origenística concernente à preexistência das almas.

Em todo e qualquer caso, não houve condenação de Orígenes em 533, como afirmam certos escritores reencarnacionistas modernos, os quais por sua pouca meticulosidade se mostram destituídos de autoridade para tratar do assunto.

4. Na verdade, a doutrina da reencarnação deve ser tida como positivamente condenada pela Igreja não somente na base dos testemunhos dos Padres anteriormente citados neste artigo (os quais re­presentam o magistério ordinário da Igreja), mas principalmente por efeito das declarações explícitas do II concílio ecumênico de Lião (1274): «As almas… são imediatamente recebidas no céu», e do concílio ecumênico de Florença (1439): «As almas… passam imediatamente para o inferno a fim de aí receber a punição» (Denzinger, Enchiridion 464. 693).

Quanto à doutrina do inferno, ela está contida na Sagrada Escritura e sempre foi professada pelos cristãos; cf. «P. R.» 371957, qu. 5. Errôneo, portanto, seria dizer que ela se deve a algum concilio do séc. VI.

5. Em conclusão, observamos o seguinte:

a) a doutrina da reencarnação nunca foi comum, nem é primitiva, na Igreja Católica (atestam-no os depoimentos dos antigos escritores cristãos aqui citados);

b) após Orígenes (séc. III), ela foi professada por grupos particu­lares de monges orientais, pouco versados em Teologia, os quais se prevaleciam de afirmações daquele mestre alexandrino, exagerando-as (daí a designação de «origenistas»);

c) mesmo dentro da corrente origenista, a teoria da reencarnação não teve a voga que tiveram, por exemplo, as teses da preexistência das almas e da restauração de todas as criaturas na bem-aventu­rança inicial;

d) por isto as condenações proferidas por bispos e sínodos no séc. VI sobre o origenismo versaram explicitamente sobre as doutrinas da preexistência e da restauração das almas (o que naturalmente im­plica na condenação da própria tese da reencarnação, na medida em que esta tese depende daquelas doutrinas e era professada pelos origenistas);

e) a doutrina da reencarnação foi rejeitada não somente pelo magistério ordinário da Igreja desde os tempos patrísticos, mas tam­bém pelo magistério extraordinário nos concílios ecumênicos de Lião II (1274) e de Florença (1439)

A mulher é harmonia, poesia e beleza

Quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017, Da redação, com Rádio Vaticano 
 
Na homilia desta quinta-feira, o Papa Francisco falou sobre o cuidado de Deus na criação da mulher: “sem a mulher não há harmonia no mundo”

Nesta quinta-feira, 9, o Papa Francisco iniciou suas atividades celebrando a Missa na capela da Casa Marta. “Sem a mulher não há harmonia no mundo”, disse durante a reflexão que foi centralizada na figura da mulher a partir da Criação narrada no Livro do Gênesis.

O homem estava só, então o Senhor lhe tirou uma costela e fez a mulher, que o homem reconheceu como carne de sua carne. “Mas antes de vê-la, a sonhou. Para entender uma mulher é necessário antes sonhá-la”, explicou Francisco.

“Muitas vezes, quando nós falamos das mulheres falamos de modo funcional: mas a mulher é para fazer isto, quando, ao invés, a mulher traz uma riqueza que o homem, toda a criação e todos os animais não têm: a mulher traz harmonia à Criação, somente com a mulher Adão podia ser uma única carne”.

O Santo Padre prosseguiu afirmando que quando não há mulher, falta a harmonia. “Nós dizemos que esta é uma sociedade com uma forte atitude masculina e que a mulher é para lavar a louça. Não. A mulher é para trazer harmonia. Sem a mulher não há harmonia. Não são iguais, não são um superior ao outro. Só que o homem não traz harmonia. É ela que traz a harmonia, que nos ensina a acariciar, a amar com ternura e que faz do mundo uma coisa bela”.

A homilia de Francisco se desenvolveu em três temas: a solidão do homem, o sonho, porque não se entende uma mulher sem sonhá-la antes, e o terceiro, o destino de ambos: ser uma só carne. O Pontífice citou um exemplo concreto, recordando que em uma audiência, enquanto saudava as pessoas, perguntou a um casal que celebrava 60 anos de matrimônio: “Qual de vocês teve mais paciência?”

“Eles que me olhavam, se olharam nos olhos, não me esqueço nunca daqueles olhos. Depois voltaram e me disseram os dois juntos: Somos apaixonados! Depois de 60 anos, isto significa uma só carne. Isso é o que traz a mulher: a capacidade de se apaixonar. A harmonia ao mundo. Muitas vezes, ouvimos: ‘É necessário que nesta sociedade, nesta instituição, tenha uma mulher para que faça isso ou aquilo’. Não! A funcionalidade não é o objetivo da mulher. É verdade que a mulher deve fazer coisas e faz coisas, como todos nós fazemos. O objetivo da mulher é criar harmonia e sem a mulher não há harmonia no mundo. Explorar as pessoas é um crime que lesa a humanidade”.

Mas explorar uma mulher é algo ainda pior, prossegue Francisco, é destruir a harmonia que Deus quis dar ao mundo.

“Explorar uma mulher não é somente um crime, mas é destruir a harmonia”, reiterou, e fez referência também ao Evangelho de hoje onde se fala da mulher sírio-fenícia.

O Santo Padre concluiu sua reflexão com uma observação pessoa. “Este é o grande dom de Deus: nos deu a mulher. No Evangelho, ouvimos do que é capaz uma mulher. Aquela é corajosa! Foi adiante com coragem. Mas é algo mais: a mulher é a harmonia, é a poesia, é a beleza. Sem ela o mundo não seria bonito, não seria harmônico. Isso é algo pessoal, mas gosto de pensar que Deus criou a mulher para que todos nós tivéssemos uma mãe.”

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