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II Domingo do Advento – Ano A

Anúncio do Santo Evangelho (Mt 3,1-12)

1Naqueles dias, apareceu João Batista, pregando no deserto da Judeia: 2“Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo”. 3João foi anunciado pelo profeta Isaías, que disse: “Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas!” 4João usava uma roupa feita de pelos de camelo e um cinturão de couro em torno dos rins; comia gafanhotos e mel do campo. 5Os moradores de Jerusalém, de toda a Judeia e de todos os lugares em volta do rio Jordão vinham ao encontro de João. 6Confessavam seus pecados e João os batizava no rio Jordão. 7Quando viu muitos fariseus e saduceus vindo para o batismo, João disse-lhes: “Raça de cobras venenosas, quem vos ensinou a fugir da ira que vai chegar? 8Produzi frutos que provem a vossa conversão. 9Não penseis que basta dizer: ‘Abraão é nosso pai’, porque eu vos digo: até mesmo destas pedras Deus pode fazer nascer filhos de Abraão. 10O machado já está na raiz das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e jogada no fogo. 11Eu vos batizo com água para a conversão, mas aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu. Eu nem sou digno de carregar suas sandálias. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo. 12Ele está com a pá na mão; ele vai limpar sua eira e recolher seu trigo no celeiro; mas a palha ele a queimará no fogo que não se apaga”.

 

Por Mons. Inácio José Schuster

Neste segundo domingo do Advento, a Liturgia nos mostra, juntamente com Isaías, a figura majestosa de João Batista.
João Batista é posto pelo evangelista Mateus lado a lado com Jesus. Mesmo que João Batista tenha iniciado o seu ministério bem antes de Jesus, os dois são vistos concomitantemente; tanto João quanto Jesus anunciam o Reino dos Céus; tanto João quanto Jesus apontam para um futuro; tanto João quanto Jesus exigem dos que os escutam uma atitude que se traduza concretamente em conversão; tanto João quanto Jesus exigem que esta conversão não seja superficial nem setorial, que ela envolva todos os aspectos daquelas pessoas; tanto João quanto Jesus falam de um juízo ao encontro de que caminhamos e tanto João quanto Jesus dizem que toda árvore frutífera que, no entanto, se recusar a produzir fruto bom, será cortada e lançada ao fogo.
Se a Igreja nos coloca este texto denso de Mateus diante dos olhos, é porque percebe a sua atualidade neste segundo domingo do Advento. Quando olhamos para o futuro, procuramos vislumbrar as coisas invisíveis.
A história dá-nos a sensação de viver uma eternidade sem surpresas; uma eternidade privada de qualquer mudança qualitativa; uma eternidade má ou vazia. No entanto, a fé nos diz que a cada dia que passa nós estamos mais próximos do filho do Homem e do Reino dos Céus, por Ele inaugurado. Mas estamos também mais próximos do dia de nosso julgamento e gostaríamos de estar, naquele dia, carregados de bons frutos, isto é, carregados de boas obras.
Gostaríamos que aquele dia não nos apanhasse desprevenidos, despreocupados e, sobretudo, vazios, sem nada oferecer a Deus, com o auxílio da graça, depois de termos desperdiçado de maneira irresponsável o tempo de salvação que a todos concedeu e continua a conceder.
Eis que o Advento é um tempo de salvação. Mas é também um tempo de responsabilidade e não pode ser de forma alguma perdido sob pena de nós sofrermos eternamente por nossas omissões.

 

«Preparai o caminho do Senhor, endireitai as Suas veredas»
Orígenes (c. 185-253), presbítero e teólogo / Homilias sobre São Lucas 22, 4 (a partir da trad. SC 87, p. 303 rev.)

João Batista dizia: «Toda a ravina será preenchida» (Lc 3,5), mas não foi ele quem preencheu todos os vales, foi o Senhor, nosso Salvador. […] «E os caminhos tortuosos ficarão direitos». Cada um de nós era tortuoso […] e foi a vinda de Cristo, realizada na nossa alma, que endireitou tudo o que o era. Nada havia de mais irremediável do que vós. Considerai os desejos desregrados de outrora, o vosso arrebatamento e todas as outras más inclinações, e vede se desapareceram de vez – compreendereis que nada havia de mais impraticável do que vós ou até, para usar uma expressão mais forte, de mais tosco. A vossa conduta era tosca, assim como as vossas palavras e obras.
Mas o Senhor, o meu Jesus, veio aplainar as vossas rugosidades e transformar todo esse caos numa estrada plana para fazer de vós um caminho sem sobressaltos, perfeitamente liso e todo cuidado, para que Deus Pai possa andar em vós e Cristo Senhor possa em vós morar e dizer: «O Meu Pai e Eu viremos a ele e nele faremos morada» (Jo 14, 23).

 

Convertamo-nos!
Padre Pacheco

Estamos no 2º Domingo do Advento e somos convidados a dar continuidade na esperança d’Aquele que vem: Cristo Jesus. Sim, virá uma segunda vez, como já veio numa primeira e que constantemente quer estar entre nós, manifestando o Seu plano de amor e salvação.
Para a vinda de Jesus, conforme o Evangelho de hoje, um precursor foi enviado para preparar os caminhos do Senhor; o nome dele é João Batista. João pregava um caminho de conversão; era aquele que ia à frente para endireitar os caminhos d’Aquele que viria. Ele também ensina o caminho de preparação para o recebimento do Salvador; ensina-nos a nos prepararmos para o Advento, a visita do Redentor.
A primeira coisa que o Evangelho nos ensina, a partir do Batista, é que devemos nos converter preparando as veredas do nosso coração e de nossa vida, para que o Cristo possa chegar e realizar a Sua obra. Paulo, na 2ª leitura, nos motiva a lutarmos pela concórdia e pela harmonia com todos: com os irmãos, conosco, para que possamos ter com Deus.
É preciso nos convencermos de que devemos nos converter neste Advento, para que Cristo possa vir e adentrar à nossa vida. Jesus já veio a este mundo, está e virá uma segunda vez. Mas a pergunta é: Ele já veio ao seu coração? Cristo não quer estar presente fora de sua vida, mas dentro, realizando as maravilhas em você e o realizando!
O milagre do Advento é uma via de mão dupla, ou seja, Deus fez a Sua parte em vir e está e num próximo momento virá para consolidar todas as coisas; todavia, para que Ele possa,  ao vir, adentrar em nosso coração, devemos preparar as veredas; precisamos nos converter.
Com quem precisamos retomar a concórdia e a harmonia? Quem devemos perdoar? Jesus jamais habitará num coração ressentido, amargurado e ferido. Com quem você precisa se reconciliar e perdoar?
Endireitar os caminhos significa retirarmos as pedras de tropeço da discórdia, da guerra, do ódio, da indiferença social e religiosa, do egoísmo e de tudo aquilo que divide e separa.
Interessante uma coisa: sempre que vamos receber alguém em nossa casa, é fundamental uma boa e caprichada faxina para darmos o melhor para aquele ou aquela que vem nos visitar. Advento significa visita, visita de Deus que vem até nós. Então, meus irmãos, faxinemos a casa do nosso coração, arrancando toda tranqueira, para que Cristo possa verdadeiramente reinar em nós.
Não é possível receber o Messias, sem as coisas estarem preparadas para este recebimento; a preparação chama-se conversão, mudança de vida.
Se permanecermos na mesma vidinha, este Natal não passará de um peru na ceia e de Papai Noel – coisinha criada pelo comércio, fruto de um capitalismo exacerbado, para que perdêssemos o sentido do verdadeiro Natal e entrássemos neste consumismo medonho, perdendo o sentido religioso da fé.

 

Neste domingo aparece em grande destaque à figura de São João Batista, apelando à conversão e anunciando a vinda do Senhor: “Arrependei-vos, porque está perto o reino dos Céus”.
Quem é João Batista? É um homem de Deus, ou seja, é um homem escolhido por Deus e consagrado a Deus e, como todos os profetas, não fala de si próprio, mas anuncia a mensagem divina: na sua vida, o seu trabalho pessoal dá credibilidade à sua missão. São Mateus diz-nos que João pregava no deserto. As primeiras comunidades cristãs consideravam que o deserto era o local onde vivia o diabo. Viver no deserto era sinal de desejar enfrentar o mal e vencê-lo. Jesus Cristo foi tentado no deserto. A descrição do vestuário de João deixa bem claro que é alguém que vive na miséria e que se alimenta somente daquilo que vai encontrando (gafanhotos e mel silvestre). João é um homem despojado de tudo aquilo que possa dar à vida certo conforto. A sua pregação dirige-se a todos. “Acorria a ele gente de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a região do Jordão”. Duas classes sociais são destacadas no evangelho: os fariseus e os saduceus. Os fariseus representam aquelas pessoas espiritualmente rígidas e conservadoras que impedem qualquer mudança; os saduceus representam aquelas pessoas que vivem preocupadas em preservar a sua condição social, os seus interesses e o seu prestígio. Também os fariseus e os saduceus “vinham ao seu (João) batismo”, mas João sabe bem que tudo é hipocrisia: “Raças de víboras… o machado já está posto à raiz das árvores. Por isso toda a árvore que não dá fruto será cortada e lançada ao fogo”.
Neste domingo, o termo e o tema que aparecem nas leituras bíblicas é a conversão. Muitas vezes, considera-se conversão uma mudança de conduta moral individual com a finalidade de serenar a consciência pessoal, minimizando a transcendência social dos comportamentos. A conversão que João Batista prega é uma insistência na proximidade do Reino de Deus: trata-se de abrir um caminho para o Senhor. Converter-se é tornar possível que Deus seja o centro da minha vida. Mais ainda: João Batista fala da conversão da comunidade: é a comunidade que deve “abrir-se” à vontade de Deus, a encontrar-se em Deus: aqui, a responsabilidade é de todos. Trata-se de recuperar os sentimentos que tinha o povo de Israel: “a fé é uma religião histórica que privilegia o acontecimento da aliança como o lugar de encontro entre Deus e os homens”. Para o povo de Israel, conversão é deixar-se conduzir por Deus. Para ele e para nós, conversão é também saber viver comunitariamente, conscientes de que é Deus quem dá o verdadeiro sentido à nossa vida. João Batista anuncia o encontro definitivo de Deus com os homens. Hoje, a grande questão sobre a conversão é esta: como é que sentimos, aumentamos e vivemos o desejo de nos encontrar com Deus?
Mas, que devemos esperar do encontro com Deus? O texto de Isaías ajuda-nos a purificar o significado do encontro com Deus. O profeta diz que o Espírito do Senhor é sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, conhecimento e temor de Deus, ou seja, tudo aquilo que nos faz compreender a realidade a partir da verdade de Deus. Cada um destes carismas ajuda o homem a ver a verdade como o Espírito de Deus a vê. É importante deixar claro que somente a experiência espiritual do homem (adorar, rezar, contemplar o mistério de Deus), lhe dá alegria e uma capacidade mística. O Espírito do Senhor dá uma nova dimensão ao conceito de justiça, porque esta se converte em instrumento de defesa do mais fraco e de extermínio dos ímpios. O Espírito do Senhor torna possível o impossível: a harmonia entre o lobo e o cordeiro, a pantera e o cabrito, o bezerro e o leãozinho. Cada conjunto de animais apresentados na primeira leitura representa comportamentos e interesses que aparentemente são incompatíveis: o mais forte e o poderoso renuncia ao seu domínio sobre o mais fraco e coloca-se num plano de igualdade.

 

“À ESCUTA DO SENHOR NO DESERTO”
Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração

II Domingo do Advento – A
Leituras: Is 11, 1-10; Rm 15, 4-9; Mt 3, 1-12
“Tudo o que outrora foi escrito, foi escrito para nossa instrução, para que pela nossa constância e pelo conforto espiritual das Escrituras, tenhamos firme esperança” (Rm 15, 4). Enquanto peregrinamos na espera da vinda gloriosa do Senhor, as palavras do apóstolo nos abrem ao mistério da sua palavra vivente, por ele pronunciada todos os dias no segredo das consciências, nos acontecimentos da vida, nas belezas – e nas feridas – da criação e celebrada na liturgia. Deus continua nos falando com certeza para nos instruir sobre as verdades da fé e para orientar nossos comportamentos morais no dia a dia. Mas se fosse só isso, seria muito pouco. “As escrituras são a carta de amor de Deus à sua namorada: conhece o coração de Deus nas palavras de Deus!” (São Gregório Magno). Ele fica sendo nosso interlocutor apaixonado na experiência sempre nova do encontro transformador com o seu santo Espírito.
A celebração litúrgica do Mistério Pascal é o lugar privilegiado deste encontro vivificador, pois é o centro, o motor de todo este dinamismo do amor divino. “A celebração litúrgica torna-se uma contínua, plena e eficaz proclamação da Palavra de Deus. Por isso, constantemente anunciada na liturgia, a Palavra de Deus permanece viva e eficaz pela força do Espírito Santo, e manifesta aquele amor operante do Pai que não cessa jamais de agir em favor de todos os homens” (Introdução ao Elenco das Leituras da Missa, 4). A esta história divina e humana – uma história de amor! – estão sendo sempre acrescentadas páginas novas ao livro que a narra. Juntos, com o Senhor, estamos escrevendo as páginas do ano 2010-2011; são páginas iluminadas por todas aquelas que as precederam e que por sua vez iluminam as do passado na luz do Espírito.
“Apareceu João Batista, pregando no deserto da Judéia: “Convertei-vos, porque o reino dos céus está próximo…. Produzi frutos que provem a vossa conversão” (Mt 3,1-2;8). Um grito cortante e ameaçador se eleva no deserto da boca de João, o precursor do Senhor, para despertar as consciências do povo e prepará-lo para acolher o messias de Deus. Este está já presente no meio dele, escondido na humildade da condição do homem comum, mas ungido pelo Espírito Santo em cuja força haverá de renovar as situações mais fragilizadas. Os olhos do povo ficam fechados pelo preconceito; ele, o povo, imagina e pretende de Deus um Messias forte, capaz de produzir efeitos imediatos no âmbito daquilo que mais lhe interessa: o bem estar social e a liberdade política. Até mesmo os discípulos de Jesus se esforçarão muito para aderir ao estilo pobre de Deus e de Jesus; essa dificuldade permanecerá até a iluminação do Espírito e do próprio Jesus depois da Páscoa. Será que a nossa reação frente aos desafios e às dificuldades da vida é muito diferente?
Deus é fiel à sua promessa. A profecia de uma renovação radical da situação, portadora de consolação e esperança para um povo reduzido quase a nada pelo exílio na Babilônia (Is 40,3), está para tornar-se realidade no presente. Contra as expectativas negativas de todo mundo, um novo êxodo está para ter início e irá tocar as profundezas das consciências: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai sua veredas” (Aclamação ao Evangelho). Olhando para os grandes problemas que desafiavam a Igreja e a família humana em meados do século passado, o bem-aventurado Papa João XXIII, contra os que ele chamava de “profetas de desventuras”, apontava profeticamente à primavera do Espírito que estava manifestando-se na Igreja com o Concílio Vaticano II como um novo Pentecostes. Precisamos também hoje de mestres semelhantes, guiados pelo Espírito, para reconhecer as novidades de Deus.
O reino de Deus, sua ação salvadora, está desenvolvendo seu dinamismo transformador e vai manifestar-se. Arrependimento e conversão para o Senhor constituem os aspectos complementares do mesmo processo renovador da existência e as condições para reconhecer a ação de Deus em Jesus, compreender seu estilo e conformar-se com ele. O mesmo apelo é proclamado por Jesus (cf. Mt 4,17) como eixo central da “Boa Nova”, por Ele anunciada e inaugurada. Com uma diferença substancial em relação à pregação do Batista: Jesus não ameaça, mas ele mesmo se torna “encontro” com o pecador, transformando sua inicial e confusa procura interior num encontro inesperado de salvação: “Zaqueu, desce depressa, pois hoje devo ficar em tua casa… Hoje a salvação entrou nesta casa, pois ele também é um filho de Abraão” (Lc 19,5; 9).
Se para João o machado já está posto de modo ameaçador à raiz das árvores, em Jesus o Pai concede ainda um ano de espera confiante para a figueira estéril produzir frutos (Lc 13, 6-9). É “o ano da graça do Senhor” que Jesus coloca no cerne da sua missão e que não tem medida de tempo: “hoje se cumpriu aos vossos olhos esta passagem da escritura” ( Lc 4, 21). Qual estilo prevalece nas nossas comunidades e nas nossas relações interpessoais: o de João ou o de Jesus ?
Em sintonia com a mais pura tradição dos profetas (cf. Is 1, 10-20), João frisa a exigência de não ficar na ilusão da pertença formal ao povo de Deus e das práticas rituais: “Não penseis que basta dizer: Abraão é nosso pai”. O próprio Jesus será ainda mais radical sobre este assunto na polêmica com os fariseus. O estilo de vida revela a verdadeira qualidade de toda religião.
O deserto da Judéia é o lugar onde ressoa a mensagem exigente e promissora de João. O “deserto” na linguagem da escritura é o lugar/tempo privilegiado dos grandes eventos da história de Israel na sua relação com Deus: da eleição e aliança até a traição idolátrica. Mas é também o lugar propício para retornar ao Senhor, assim como oportunidade para um novo êxodo e uma nova libertação do exílio. Lugar e tempo da tentação, da provação e da intimidade. Na pregação dos profetas o “deserto” se torna a geografia interior que o povo, e cada autêntico israelita, precisa aprender a descobrir e habitar, para reencontrar a verdade de si mesmo e da sua relação com Deus e com os demais.
É no deserto que o próprio Jesus é impelido pelo Espírito depois do batismo de penitência recebido por João, para ali enfrentar os radicais desafios da missão, chamado a cumprir em total obediência ao Pai. Jesus sai vitorioso do deserto também para nós. O deserto é o lugar do combate com as potências obscuras que habitam o coração do homem e da mulher de todo tempo. É o lugar da descida, até os grotões mais obscuros de si mesmo para se conhecer, se assumir com verdade e se entregar com coragem e confiança ao coração do Pai. Os místicos e as místicas cristãos falam da necessidade de descer no deserto do próprio coração para que se desperte e se renasça à nova vida. Nos dizem que é somente no silêncio do deserto interior que podem ser celebradas as núpcias com o Esposo divino.
Quantas pessoas hoje têm a coragem de ficar consigo mesmas fazendo silêncio exteriormente e interiormente para descer no deserto do próprio coração e ficar consigo mesmas? Quem sente a necessidade urgente de reservar com fidelidade pelo menos um tempo de silêncio, para a leitura rezada da palavra de Deus, lutando com coragem contra a correria às vezes superficial de todo dia? Afinal, a “cela interior/espaço sagrado” na qual podemos nos deter para cultivar a amizade com o Senhor, antes que nos mosteiros se encontra no próprio coração. Apesar do silêncio ser elemento integrante e fundamental para a autêntica participação ativa à liturgia (SC 19 e 30), quanto valor e espaço é reconhecido/concedido ao “sagrado silêncio” nas nossas celebrações? O Advento é tempo propício para deixar o nosso árido deserto florescer de novo.
Na perspectiva do profeta, através da ação do messias vislumbra-se uma nova criação e uma nova história: “o lobo e o cordeiro viverão juntos e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito”. Um sonho ingênuo destinado a desaparecer frente ao assolado deserto humano das cracolândias de São Paulo e das grandes metrópoles e da violência sem fim que arrasa países e cidades, como o Rio de Janeiro nos dias passados? O futuro “novo” é fruto sem dúvida da ação do messias na potência do Espírito. Mas não por magia. É preciso atuar com responsabilidade na sociedade deixando-se guiar pelo mesmo Espírito. “O Deus que dá constância e conforto vos dê a graça da harmonia e concórdia, uns com os outros, como ensina Cristo Jesus… por isso, acolhei uns aos outros como também Cristo vos acolheu para a gloria de Deus”( Rm 15, 5;7).
Até que não prevaleça a nova lógica divina – mesmo entre os membros da comunidade de Cristo – dominará, mais ou menos mascarada, a lógica do lobo e do cordeiro não pacificados, como nas relações tensas entre judeus e pagãos na comunidade de Roma (Rm 15, 7-9). Mas Jesus exercita sua realeza na cruz como “Cordeiro imolado e vivente”,  compartilhando a mesma realeza  somente com aqueles/as que o seguem no mesmo caminho do amor crucificado (Ap 14, 1-5).
Consciente das potencialidades provenientes do Espírito e das contradições humanas, a Igreja nos convida a pedir ao Pai “que nenhuma atividade terrena nos impeça de correr ao encontro do vosso Filho, mas instruídos pela vossa sabedoria, participemos da plenitude de sua vida” (Oração do dia).

 

SEGUNDO DOMINGO DO ADVENTO
Mt 3, 1-12 “Convertam-se, porque o Reino do Céu está próximo”
Advento não é tanto um tempo de penitência, como a Quaresma, mas de preparação para um encontro com o Senhor, no Natal. Não um encontro folclórico e sentimental, mas um real reencontro com Jesus, o Salvador de todos, através de um sério exame da nossa vida, um reconhecimento das nossas falhas e uma real conversão na nossa maneira de pensar e agir.
A liturgia nos apresenta hoje a grande figura do Precursor de Jesus, o profeta João, o Batista, mandado por Deus como arauto do novo tempo de graça e salvação. Deus não permite que a perversidade e a maldade tenham a palavra final na história da humanidade. Essa será mais tarde a mensagem básica do Apocalipse – o mal já é um derrotado, e embora possa parecer diferente, é Deus e não o mal que controla a caminhada da história. Mensagem de conforto às comunidades sofridas do fim do primeiro século. Também muito relevante para as pessoas e comunidades de hoje, muitas vezes assoladas pelo pessimismo e sentimentos de negatividade, diante de tantos problemas e dificuldades, que parecem fugir do nosso controle. Mas esta vitória não se concretiza sem que haja luta, sacrifício, e cruz!
Mateus põe na boca de João um trecho de Segundo-Isaías: “Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparem o caminho do Senhor, endireitem as suas estradas”. No seu contexto original (Is 40, 3), isso soava como proclamação de esperança, no Exílio de Babilônia – Deus não abandonara o seu povo, mas estava voltando para levá-lo à libertação. Essa mensagem deu coragem e alento em Babilônia para o Povo de Deus não desanimar, mas continuar a caminhada, confiando na presença amorosa, transformadora e libertadora de Deus. Novamente, uma mensagem necessária para os nossos dias de hoje.
Sem dúvida, podemos entender esse trecho num sentido metafórico, como descrição de uma mudança radical no estilo de vida de quem quer aceitar o convite à penitência e ao arrependimento. As estradas a serem endireitadas (e os vales a serem aterrados, as montanhas e colinas a serem aplainadas, os caminhos esburacados a serem nivelados, no texto paralelo de Lucas), simbolizam os empecilhos em nossas vidas a um seguimento de Jesus, mais radical e coerente. Quem aceita a sua mensagem terá que mudar radicalmente – isto é, na raiz – a sua vida.
A polêmica que o texto manifesta entre João e os fariseus e saduceus, membros dos dois maiores partidos do judaísmo da época, mostra que a conversão tem que ser radical e não somente superficial. Não adianta ter uma fé teórica, pois é somente pelos atos concretos que cada um mostra a realidade da sua adesão ao projeto de Deus. Como não bastava para esses dois grupos proclamar que eram “filhos de Abraão”, hoje nada adianta a gente bradar que é Católico, Evangélico, Cristão, membro desse ou daquele movimento ou grupo, se não produzirmos frutos de uma verdadeira conversão. A palavra conversão, no grego significa uma radical mudança de mentalidade. Porém, devemos reconhecer aqui um tema básico do Antigo Testamento, especialmente de Jeremias, o de uma mudança de orientação, de uma volta incondicional ao Deus da Aliança. Isso somente acontecerá com a graça dele.
Advento pode ser este tempo de graça, pode se tornar tempo oportuno para uma revisão de vida, para descobrir quais são as curvas, montanhas, e pedras que teremos que tirar para que o Senhor realmente possa habitar nos nossos corações. A conversão é processo permanente e urgente, que exige reconhecimento dos nossos pecados, uma vontade de mudar a orientação da nossa vida, e uma abertura para a graça de Deus, que é capaz de fazer maravilhas em nós. Ressoa muito alto hoje o convite e desafio de João: “Convertam-se, porque o Reino do Céu está próximo” (v. 2). A decisão é nossa, pois o nosso Deus, rico em misericórdia, jamais negará a sua graça.

 

Conversão na Alegria
Dom Eurico dos Santos Veloso

No segundo domingo do Advento, um apelo é dirigido a todos e cada um de nós: “Convertam-se porque o Reino está próximo”.
O grande profeta João Batista proclama que a salvação é universal, oferecida a todos, sem exceção. A condição essencial é a conversão a Deus. A mensagem de João Batista é ainda hoje tão necessária quanto antigamente. Para ele, a salvação consiste em romper as barreiras, abrir-se para a revelação, no amor de filhos de Deus.
A mensagem de João Batista é a mensagem da Igreja e de todos os profetas que produzem frutos de penitência e conversão. A voz de João Batista faz tremer todo o povo de Israel, indo ressoar em cada coração. Ninguém lhe fica indiferente. Sua mensagem traz uma grande verdade: os caminhos de libertação do homem são obras de Deus.
Preparar os caminhos do Senhor é um empenho que nasce do coração de todo homem e coincide com as mais profundas aspirações de superar toda forma de escravidão a que nos submetemos ou que criamos.
Convertemo-nos a Jesus Cristo em comunidade, mediante a prática da justiça que aponta para a realeza de Deus na terra. Convertemo-nos ao Espírito, que sopra onde quer e sonhamos com o dia em que o mundo todo estará unido em torno de uma única causa, independentemente de raça, língua ou credo: a causa da justiça.

 

 

Crescer na amizade com Deus

Padre Paulo Ricardo

Em João 15, 16, Jesus nos diz: “Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi e vos constituí para que vades e produzais fruto, e o vosso fruto permaneça”. Existe uma escolha. E a amizade com Deus acontece pela graça do Espírito Santo.

Amizades nós escolhemos, e temos de escolher amigos que nos façam bem. Ser amigo é amar alguém, mas este amor não é irracional, mas é algo que podemos escolher. Hoje, perdemos um pouco a noção disso, porque, muitas vezes, acreditamos que não podemos escolher quem vamos amar.

A amizade de Deus por nós e a nossa por Ele, e a amizade que temos uns pelos outros precisa ser racional. A amizade verdadeira acontece no coração, há afeto, mas precisa ter uma eleição.

Deus quer ser nosso amigo. Nenhum de nós veio a este mundo por acaso, por um “acidente de percurso”. Todos somos queridos, desejados por Ele. O Senhor tem um sonho para nós. Milhares de filhos poderiam ter nascido de seus pais, mas o Senhor escolheu você.

O Senhor quis que estivéssemos em Sua Igreja, porque nela não há solidão. Cristo está conosco, porque somos galhos da videira. Só se sente sozinho quem não tem fé, quem não é católico. Deus nos elegeu para sermos amigos d’Ele e fazer parte dessa família.

Cada um de nós tem uma vocação, um propósito na vida. Você tem de entender isso. Sei que um dos grandes dramas da vida é fazer a escolha vocacional. Descobrir sua vocação é saber o que Deus escolheu para você. Fomos escolhidos para ir ao céu, mas para isso precisamos ter amizade com o Senhor.

“Se somos amigos de Deus, precisamos crescer nessa amizade com Ele por meio da oração”.

Nós todos precisamos nos converter, mas cada um tem uma conversão diferente a fazer. Existe, na primeira conversão, uma necessária mudança de mentalidade. Você era uma pessoa que buscava o paraíso nessa terra, mas descobriu que, aqui, é só o caminho, a preparação para o céu. Este mundo é lugar de luta. Não há felicidade perfeita nesta terra.

Na catequese, aprendemos que, com o pecado grave, nós perdemos a amizade de Deus. Para que haja amizade é necessário que o amor “vá e venha”. Não há amizade sem essa reciprocidade. Você não pode ser amigo de uma pessoa, se ela não sabe que você é amigo dela.

Deus dá Sua vida por nós, mas precisamos corresponder a esse amor. Mas o que Ele viu em nós para nos escolher? Essa é a maravilha. O amor do Pai não escolhe quem é “amável”, mas nos faz ficar amáveis. Quando Ele nos ama, vai nos transformando numa pessoa diferente. Então, a conversão é isso: você vai se transformando pelo amor de Deus.

Você achava que não era capaz de rezar, de jejuar, amar, doar-se e se entregar. Mas quando o Senhor nos ama e nos abrimos para Ele, este amor vai se derramando em nosso coração e você vai nos convertendo.

Você precisa abrir seus olhos para enxergar os pequenos sinais da amizade de Deus. Precisamos corresponder a Ele pela oração, pois, assim, crescemos nessa amizade com o Senhor. Quem é amigo de Deus reza. Se você é amigo d’Ele, precisa falar com Ele com intimidade, com confiança. Essa amizade precisa dar frutos.

Na amizade com Deus também exitem podas. O Seu amor nos poda, porque Ele nos ama. E só assim poderemos dar frutos.

“Quando o Senhor nos ama, este amor se derrama em nosso coração e nos converte”.

Jesus sofreu e morreu por nós. Ninguém tem maior amor do que Aquele que dá a vida por Seu amigo.

Nós somos amados; amemos de volta. Fomos escolhidos; correspondamos a essa escolha. Eleja Deus como seu amigo íntimo, como Aquele diante do qual você não pode usar máscaras. Se você crescer na vida de oração, poderá fazer com que os segredos do Senhor lhe sejam conhecidos.

A nossa oração é mais forte se formos amigos de Deus, se O amarmos. Se nossa amizade com Ele estiver abalada, nossa oração transformará menos o mundo.

Que esse PHN seja um ponto de virada em nossa vida. Ele escolheu você. Escolha-O também.

“Senhor, eu fui escolhido desde toda eternidade. Vós me quisestes, me escolhestes. Eu Vos escolho, Senhor. Hoje, Jesus, eu elejo, escolho a Vós como meu Amigo, meu maior Amigo, Aquele com o qual não há segredo. Amigo que conhece tudo, sabe tudo, pode tudo e irá realizar o amor em mim. Amém”.

Santo Evangelho (Lc 10, 25-37)

15ª Domingo do Tempo Comum – Domingo 10/07/2016

Primeira Leitura (Dt 30,10-14)
Livro do Deuteronômio:

Moisés falou ao povo, dizendo: 10 Ouve a voz do Senhor, teu Deus, e observa todos os seus mandamentos e preceitos, que estão escritos nesta lei. Converte-te para o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma. 11 Na verdade, este mandamento que hoje te dou não é difícil demais, nem está fora do teu alcance. 12 Não está no céu, para que possas dizer: ‘Quem subirá ao céu por nós para apanhá-lo? Quem no-lo ensinará para que o possamos cumprir?’ 13 Nem está do outro lado do mar, para que possas alegar: ‘Quem atravessará o mar por nós para apanhá-lo? Quem no-lo ensinará para que o possamos cumprir?’ 14 Ao contrário, esta palavra está ao teu alcance, está em tua boca e em teu coração, para que a possas cumprir.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Responsório (Sl 18B)

— Os preceitos do Senhor são precisos,/ alegria ao coração.
— Os preceitos do Senhor são precisos,/ alegria ao coração.

— A lei do Senhor Deus é perfeita,/ conforto para a alma!/ O testemunho do Senhor é fiel,/ sabedoria dos humildes.

— Os preceitos do Senhor são precisos,/ alegria ao coração./ O mandamento do Senhor é brilhante,/ para os olhos é uma luz.

— É puro o temor do Senhor,/ imutável para sempre./ Os julgamentos do Senhor são corretos/ e justos igualmente.

— Mais desejáveis do que o ouro são eles,/ do que o ouro refinado./ Suas palavras são mais doces que o mel,/ que o mel que sai dos favos.

 

Segunda Leitura (Cl 1,15-20)
Carta de São Paulo aos Colossenses:

15 Cristo é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação, 16 pois, por causa dele, foram criadas todas as coisas, no céu e na terra, as visíveis e as invisíveis, tronos e dominações, soberanias e poderes. Tudo foi criado por meio dele e para ele. 17 Ele existe antes de todas as coisas e todas têm nele a sua consistência. 18 Ele é a Cabeça do corpo, isto é, da Igreja. Ele é o Princípio, o Primogênito dentre os mortos; de sorte que em tudo ele tem a primazia, 19 porque Deus quis habitar nele com toda a sua plenitude 20 e por ele reconciliar consigo todos os seres, os que estão na terra e no céu, realizando a paz pelo sangue da sua cruz.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Evangelho (Lc 10,25-37)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.
— Glória a vós, Senhor!

Naquele tempo, 25 um mestre da Lei se levantou e, querendo pôr Jesus em dificuldade, perguntou: “Mestre, que devo fazer para receber em herança a vida eterna?” 26 Jesus lhe disse: “O que está escrito na Lei? Como lês?” 27 Ele então respondeu: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração e com toda a tua alma, com toda a tua força e com toda a tua inteligência; e ao teu próximo como a ti mesmo!” 28 Jesus lhe disse: “Tu respondeste corretamente. Faze isso e viverás”. 29 Ele, porém, querendo justificar-se, disse a Jesus: “E quem é o meu próximo?” 30 Jesus respondeu: “Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu na mão de assaltantes. Estes arrancaram-lhe tudo, espancaram-no, e foram-se embora, deixando-o quase morto. 31 Por acaso, um sacerdote estava descendo por aquele caminho. Quando viu o homem, seguiu adiante, pelo outro lado. 32 O mesmo aconteceu com um levita: chegou ao lugar, viu o homem e seguiu adiante, pelo outro lado. 33 Mas um samaritano, que estava viajando, chegou perto dele, viu e sentiu compaixão. 34 Aproximou-se dele e fez curativos, derramando óleo e vinho nas feridas. Depois colocou o homem em seu próprio animal e levou-o a uma pensão, onde cuidou dele. 35 No dia seguinte, pegou duas moedas de prata e entregou-as ao dono da pensão, recomendando: ‘Toma conta dele! Quando eu voltar, vou pagar o que tiveres gasto a mais’”. E Jesus perguntou: 36 “Na tua opinião, qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” 37 Ele respondeu: “Aquele que usou de misericórdia para com ele”. Então Jesus lhe disse: “Vai e faze a mesma coisa”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

 

A IGREJA CATÓLICA CELEBRA E VENERA HOJE
Santo Olavo, o santo rei da Noruega

Procurou acabar com o paganismo, construir igrejas e trazer sacerdotes da Inglaterra para evangelizar seu povo

Hoje a Igreja nos convida a contemplar a vida de Santo Olavo, o santo rei da Noruega.

Nascido em 995 numa família real, Olavo mostra-nos com sua vida que a santidade não escolhe profissão, nem posição social, pois ela não vêm sobre classes, mas sim em corações abertos à Graça de Cristo. Aconteceu que o jovem Olavo foi para a Inglaterra numa expedição e assim pôde conhecer Jesus, o Cristianismo e ser batizado, isto em 1014. Ao voltar para a casa, Olavo, que era herdeiro do trono, encontrou o falecimento do pai e usurpadores do reino.

Assim teve Olavo de assumir o trono e submeter os inimigos pelo combate. Quando esteve no poder, Santo Olavo buscou a santidade como rei; sem deixar de fazer de tudo para levar Deus aos súditos, por isso, procurou acabar com o paganismo, construir igrejas e trazer sacerdotes da Inglaterra para evangelizar seu povo. Todos os esforços de Olavo para submeter a Noruega ao Rei dos reis e Senhor dos senhores encontraram êxitos e barreiras, ao ponto do santo rei ter que ficar por um tempo exilado e ao voltar foi vítima de um conflito armado em 1030.

Santo Olavo, rogai por nós!

Construtor incansável

Construir é projetar realidades novas

Numa dimensão de fé, dizemos que Deus, o Criador do universo, continua construindo as realidades existentes de forma muito atuante e dinâmica. É um processo que acontece por meio da atuação de cada pessoa, a qual pode ser por um duplo caminho, seja aquele do bem ou o do mal. As marcas vão ficando na história da vida de cada comunidade.

A vida tem dimensão de caminhada, de esperança e de objetivos a serem atingidos. É fundamental a perseverança e a coragem em tudo que é realizado, um verdadeiro casamento com os objetivos do bem. Isto significa ser incansável, ter uma prática de vida que luta pelo melhor para todos, superando todo tipo de rotina e ritualismos vazios.

O que consegue dar verdadeira sustentação ao construtor do bem é a fidelidade à lei maior, que é o amor, fruto de uma vida de justiça e de coerência com o exercício da verdade. O mundo existe por causa da pessoa humana. Por isto deve ser trabalhado na dimensão da fraternidade, fazendo com que os ambientes sejam acolhedores.

Não podemos perder de vista que a vida acontece devido a desencontros, decepções, mas também de grandes esperanças. A conquista do bem comum passa por um itinerário de unidade na diversidade, porque cada pessoa é livre na execução de suas iniciativas. O importante é ter sinceridade e ser incansável.

Na cena das Bodas de Caná, na Galileia, numa festa de casamento, a água é transformada em vinho. Construir é projetar realidades novas, revitalizar as condições da existência e com um olhar focado na melhora de vida para todos. Não basta construir se isto não for feito para trazer condições de vida melhor e saudável.

O entusiasmo vem de encantamento, mas isto não pode ser fruto de atitudes imaturas e irresponsáveis. Amar o próximo implica trabalhar para que a vida seja preservada e vivida com plena dignidade. Até dizemos que a água deve estar sempre sendo transformada em vinho, passando de uma qualidade amena para outra de pleno vigor.

Dom Paulo
Arcebispo metropolitano de Uberaba (MG)

Seguir Jesus é renunciar ao egoísmo, poder e à fama

Domingo, 20 de março de 2016, Rádio Vaticano

Se queremos seguir o Mestre, somos chamados a escolher o seu caminho: o caminho do serviço, da doação, do esquecimento de nós próprios

Aniquilação e humilhação: estas duas atitudes de Cristo guiaram a homilia do Papa Francisco na celebração deste Domingo de Ramos, 20. Milhares de fiéis participaram da Santa Missa, que foi precedida pela tradicional procissão com os ramos na Praça São Pedro, decorada com cerca de 10 mil plantas, abrindo assim as celebrações da Semana Santa.

Francisco recordou o entusiasmo com o qual Jesus foi acolhido em Jerusalém. Do mesmo medo, afirmou, Cristo deseja entrar em nossas cidades e nossas vidas. “Que nada nos impeça de encontrar Nele a fonte da verdadeira alegria, pois só Jesus nos salva das amarras do pecado, da morte, do medo e da tristeza.”

Entretanto, a Liturgia de hoje nos ensina que o Senhor não nos salvou com uma entrada triunfal nem por meio de milagres prestigiosos. O apóstolo Paulo, na segunda leitura, resume o caminho da redenção com dois verbos: “aniquilou-Se” e “humilhou-Se” a Si mesmo.

“Estes dois verbos nos indicam até que extremo chegou o amor de Deus por nós. Jesus aniquilou-Se a Si mesmo: renunciou à glória de Filho de Deus e tornou-Se Filho do homem. E não só… Viveu entre nós numa condição de servo: não de rei, nem de príncipe, mas de servo. Para isso, humilhou-Se e o abismo da sua humilhação, que a Semana Santa nos mostra, parece sem fundo.”

Amor sem fim

O primeiro gesto deste amor “sem fim” é o lava-pés, explicou Francisco. “Mostrou-nos, com o exemplo, que temos necessidade de ser alcançados pelo seu amor, que se inclina sobre nós; não podemos prescindir dele, não podemos amar sem antes nos deixarmos amar por Ele e sem aceitar que o verdadeiro amor consiste no serviço concreto.

Mas isto é apenas o início, ressaltou o Papa. A humilhação que Jesus sofre torna-se extrema na Paixão. Ele é abandonado, renegado, sofre a infâmia e a iníqua condenação. Jesus sente na pela a indiferença, porque ninguém quer assumir a responsabilidade por seu destino. A este ponto, Francisco saiu do texto para citar os inúmeros “marginalizados, prófugos e refugiados” dos quais ninguém quer assumir a responsabilidade por sua sorte.

Mas a solidão, a difamação e o sofrimento não são ainda o ponto culminante do seu despojamento. Para ser solidário conosco em tudo, na cruz experimenta também o misterioso abandono do Pai. No ápice da aniquilação, Jesus revela o verdadeiro rosto de Deus, que é misericórdia. Perdoa aos seus algozes, abre as portas do paraíso ao ladrão arrependido e toca o coração do centurião. “Se é abissal o mistério do mal, infinita é a realidade do Amor que o atravessou.”

Todavia, acrescentou, o modo de agir de Deus pode nos parecer muito distante. “Ele renunciou a Si mesmo por nós; e quanto nos custa renunciar a algo por Ele e pelos outros! Mas, se queremos seguir o Mestre, somos chamados a escolher o seu caminho: o caminho do serviço, da doação, do esquecimento de nós próprios.”

Contemplar o Crucificado

Para o Pontífice, podemos aprender este caminho detendo-nos nestes dias em contemplação do Crucificado, “cátedra de Deus”, “para renunciar ao egoísmo, à busca do poder e da fama”. Citando a Gaudium et Spes, Francisco afirmou que nos esquecemos que “o homem vale mais por aquilo que é do que por aquilo que tem”.

“Fixemos o olhar Nele, peçamos a graça de compreender algo da sua aniquilação por nós e respondamos ao seu amor infinito com um pouco de amor concreto”, foi a exortação final do Papa Francisco.

A Bússola da vida

Não busque o caminho certo em direções erradas

Usada pelos desbravadores de novas terras, a bússola ocupou um papel importante para muitos que buscavam não se perder em terras desconhecidas. Diante dos caminhos desconhecidos, ela orientava, com segurança, o caminho a ser descoberto. Quando o Sul se confundia com o Norte, ela sempre era um instrumento de confiança nas horas mais incertas.

Muitos, hoje, se encontram sem direção. Não sabem onde estão nem mesmo para onde vão. Perdidos em seus próprios sentimentos e desilusões, muitas pessoas se encontram perdidas em si mesmas. As certezas de outrora são agora apenas uma incerteza diante da vida. Os amores tidos como certos são apenas uma desilusão. Para onde ir quando os caminhos não são certos e as desilusões indicam caminhos contrários?

Na busca desenfreada pelo caminho certo, muitos têm se perdido em caminhos incertos. A oferta que promete a felicidade rápida é grande, mas o resultado é, quase sempre, frustrante. Diante da falta de direção, Jesus deseja guiar os nossos passos no caminho que conduz à vida.

Sem Sul nem Norte, Leste ou Oeste aquele homem esperava, há muito tempo (38 anos), que um milagre fosse realizado sem sua vida ao mergulhar na piscina de Betesda. Jesus, vendo o sofrimento daquele homem, pergunta se ele quer ficar curado. Diante da pergunta, ele responde que não há ninguém que o leve até a piscina. E que, no tempo gasto para descer até o local, outra pessoa passava à sua frente (cf. Jo 5,1-15).

Esse homem doente, há 38 anos, estava sem direção. Os pontos cardeais de sua existência estavam sem direção. Vivia preso por não mais saber aonde ir. Seus passos já não mais trilhavam os caminhos da vida. Sua doença o aprisionava nas impossibilidades de uma vida nova.

Jesus devolveu a esse homem a alegria da direção correta. O mapa da vida agora poderá ser trilhado diante da cura realizada. O tempo se tornou favorável e o inverno de uma longa estação concedeu lugar a uma primavera de esperanças.

Muitos estão sem rumo na vida e confundem o Sul com o Norte de seus sentimentos confusos. Buscam o caminho certo em direções erradas. O horizonte é quase sempre uma incerteza diante das escolhas duvidosas. Não mais encontram o caminho da vida, porque estão perdidos em territórios desconhecidos de seu próprio coração. Jesus é a Bússola da vida que orienta os polos do nosso tempo de viver. Ele nos devolve o Leste e o Oeste de uma nova vida.  Diante do amor de Cristo, encontramos o mapa da fé, que nos guia pelos mais belos caminhos da felicidade. Em terras desconhecidas de nossos próprios problemas e decepções, Jesus Cristo nos toma pela mão e nos conduz aos caminhos seguros.

Quando nos falta a direção, Jesus é o Sul e o Norte, o Leste e Oeste de nossos confusos mapas de escolhas diante da vida. Em Cristo, o caminho da vida é sempre um novo horizonte de certezas seguras a serem descobertas.

Padre Flávio Sobreiro
Bacharel em Filosofia pela PUCCAMP. Teólogo pela Faculdade Católica de Pouso Alegre – MG. Vigário Paroquial da Paróquia Nossa Senhora do Carmo (Cambuí-MG). Padre da Arquidiocese de Pouso Alegre – MG. http://www.flaviosobreiro.com

Recordar os pecados na oração é glorificar Deus, diz Papa

Terça-feira, 7 de outubro de 2014, Da Redação, com Rádio Vaticano

Santo Padre falou da necessidade de fazer memória da história de aliança com Deus

Quando rezamos, não esquecemos nossa história, disse o Papa Francisco, na Missa desta terça-feira, 7, na Casa Santa Marta. Ele convidou os fiéis a não se deixarem levar pelas distrações do cotidiano, o que acaba fazendo a pessoa se esquecer de rezar.

Recordando que Deus escolheu o Seu povo e sempre o acompanhou, o Santo Padre se concentrou na Primeira Leitura, em que São Paulo faz memória da sua vida sem esconder os seus pecados. Segundo Francisco, o fato de o cristão ter sido escolhido é uma graça de amor, e Paulo faz memória dessa realidade, reconhecendo-se pecador.

“Esse hábito de fazer memória da nossa vida não é muito comum entre nós. Esquecemos as coisas, vivemos no momento e depois esquecemos a história. E cada um de nós tem uma história de graça, de pecado, de caminho, tantas coisas… E faz bem rezar com a nossa história. Paulo faz isso, conta um pedaço da sua vida, mas, em geral, diz: ‘Ele me escolheu! Ele me chamou! Ele me salvou! Ele foi meu companheiro de caminho’”.

Francisco destacou ainda que fazer memória da própria vida e dos próprios pecados é dar glória a Deus. Por isso São Paulo diz que se vangloria apenas de duas coisas: dos seus pecados e da graça de Deus Crucificado. Paulo reconheceu seus pecados e admitiu que foi Cristo quem o salvou. Essa é a recordação que os cristãos são convidados a fazer.

“Quando Jesus diz a Marta: ‘Você se aflige e se agita por muitas coisas. Maria escolheu a melhor parte’. O que é? Ouvir o Senhor e fazer memória. Não se pode rezar todos os dias como se nós não tivéssemos história. Cada um de nós tem a sua. E com ela no coração, seguimos na oração como Maria. Mas tantas vezes somos distraídos, como Marta, pelo trabalho, pelo cotidiano, por fazer as coisas que devemos, e esquecemos nossa história”.

A relação do homem com Deus, segundo o Papa, não começa no dia do batismo – aí ela é selada –, mas no coração de Deus, quando Ele, da eternidade, olhou para o homem e o escolheu. Então, é preciso lembrar-se dessa escolha, desse caminho de aliança.

O Papa concluiu a homilia com o convite a rezarmos o Salmo 138: “Senhor, vós me perscrutais e me conheceis. Sabeis tudo de mim, quando me sento ou me levanto. De longe penetrais meus pensamentos. Quando ando e quando repouso, vós me vedes, observais todos os meus passos”.

“Isto é rezar, é fazer memória diante de Deus da nossa história, porque esta é a história do seu amor para conosco”.

É preciso carregar a cruz para entender Jesus, diz Papa

Vida cristã

Sexta-feira, 26 de setembro de 2014, Da Redação, com Rádio Vaticano

Francisco destacou que, para entender Jesus, é preciso estar disposto a levar a cruz com Ele

Papa fala aos fiéis sobre necessidade de assumir o peso da cruz para entender Cristo Redentor / Foto: L’Osservatore Romano

Um cristão não pode entender o Cristo Redentor sem a cruz, sem que esteja disposto a levá-la com Ele, disse o Papa Francisco na homilia desta sexta-feira, 26, na Casa Santa Marta.

A fé, segundo Francisco, está nessa identificação da pertença a Cristo relacionada à Sua cruz. Do contrário, percorre-se um caminho aparentemente “bom”, mas não “verdadeiro”. As reflexões do Santo Padre se pautaram no Evangelho do dia, no qual Cristo pergunta aos discípulos o que o povo dizia sobre Ele.

O episódio, conforme observou o Papa, se enquadra no contexto do Evangelho que vê Jesus proteger de forma especial a Sua verdadeira identidade de Filho de Deus. Isso para que o povo não se equivocasse e pensasse no Messias como um líder que veio para expulsar os romanos. Somente aos doze apóstolos o Senhor fez essa revelação.

Jesus, como Ele mesmo disse, veio ao mundo para sofrer, morrer e ressuscitar; este é o caminho da libertação: a Paixão, a cruz. Embora os apóstolos não quisessem entender essa explicação, esta era a pedagogia de Jesus, enfatizou o Papa Francisco, usada para preparar o coração dos discípulos e do povo para entender este mistério de Deus.

“É tanto amor de Deus, é tão ruim o pecado, que Ele nos salva assim: com esta identidade na cruz. Não se pode entender Jesus Cristo Redentor sem a cruz: não se pode entender! Podemos até chegar a pensar que é um grande profeta, faz coisas boas, é um santo. Mas o Cristo Redentor sem a cruz, não podemos entendê-Lo. Mas o coração dos discípulos e do povo não estava preparado para entendê-Lo. Não tinham entendido as profecias d’Ele, não tinham entendido que Ele era o próprio Cordeiro para o sacrifício. Não estavam preparados”.

Somente no Domingo de Ramos, observou o Papa, que Cristo permitiu que o povo dissesse, mais ou menos, Sua identidade, como aquele “Bendito o que vem em nome do Senhor”. E somente após a morte, Sua identidade apareceu em plenitude e a primeira confissão foi do centurião romano.

O Papa Francisco concluiu dizendo que Jesus prepara o ser humano para entendê-Lo bem e para acompanhá-Lo com suas cruzes no caminho para a ressurreição. “Prepara-nos para sermos cirineus para ajudá-lo a levar a cruz. E a nossa vida cristã sem isso não é cristã. É uma vida espiritual, boa… Também a nossa identidade de cristãos deve ser protegida e não acreditar que ser cristão é um mérito, é um caminho espiritual de perfeição. Não é um mérito, é pura graça”.

Pecado é lugar privilegiado para encontrar Jesus, diz Papa

Quinta-feira, 4 de setembro de 2014, Da Redação, com Rádio Vaticano

Segundo Francisco, a força da vida cristã está no momento em que o pecador encontra Jesus Cristo e esse encontro muda a vida

A força da vida cristã está no encontro entre os pecados do homem e Cristo que o salva. Onde não há este encontro, as igrejas são decadentes e os cristãos mornos. Estes foram os ensinamentos do Papa Francisco na Missa desta quinta-feira, 4, na Casa Santa Marta.

Francisco disse que em Pedro e Paulo o homem consegue entender que um cristão pode se vangloriar de duas coisas: dos próprios pecados e de Cristo crucificado. A força transformante da Palavra de Deus parte desta consciência, explicou. Assim, Paulo, na Primeira Leitura do dia, convida quem acredita ser sábio a reconhecer sua insensatez para se tornar sábio de verdade, já que a sabedoria do mundo é insensatez diante de Deus.

“Paulo nos diz que a força da Palavra de Deus, aquela que muda o coração, que muda o mundo, que nos dá esperança, que nos dá vida, não está na sabedoria humana. Isto é insensatez, diz ele. A força da Palavra de Deus vem de outro lado, passa pelo coração do pregador e por isto dizia àqueles que pregavam a Palavra: ‘Façam-se insensatos’, isso é, não coloquem a vossa segurança na vossa sabedoria, na sabedoria do mundo”.

Francisco explicou que o apóstolo Paulo não se gabava dos seus estudos, embora tivesse tido os professores mais importantes da época. Ele se vangloriava somente de seus pecados e de Cristo crucificado. O apóstolo dizia que a força da Palavra de Deus estava no encontro entre seus pecados e o sangue de Cristo salvador.

“Quando se esquece esse encontro que tivemos na vida nos tornamos mundanos, queremos falar das coisas de Deus com a linguagem humana, e não serve: não dá vida”.

Também Pedro, no Evangelho da pesca milagrosa, faz a experiência de encontrar Cristo vendo o próprio pecado. O Papa explicou que Pedro viu a força de Jesus e viu a si mesmo. Nesse encontro entre Cristo e os pecados está a salvação.

“O lugar privilegiado para o encontro com Jesus Cristo são os próprios pecados. Se um cristão não é capaz de sentir-se pecador e salvo pelo sangue de Cristo, este Crucifixo, é um cristão pela metade do caminho, é um cristão morno. E quando nós encontramos Igrejas decadentes, quando nós encontramos paróquias decadentes, instituições decadentes, seguramente os cristãos que estão ali nunca encontraram Jesus Cristo ou se esqueceram desse encontro”.

O Santo Padre enfatizou, então, que a força da vida cristã e a força da Palavra de Deus está justamente no momento em que o pecador encontra Jesus Cristo e esse encontro muda a vida, dando a força para anunciar a salvação aos outros.

Concluindo a homilia, Francisco convidou os fiéis a se perguntarem se eles se reconhecem pecadores diante de Deus. Ele também propôs que os fiéis pensem se realmente acreditam que o sangue de Cristo os salva do pecado e dá vida nova. “De que coisas um cristão pode se vangloriar? Duas coisas: dos próprios pecados e de Cristo crucificado”.

Superar o “escândalo” da divisão entre os cristãos

Audiência geral: papa reflete sobre a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos e pede que os participantes do encontro Genebra 2 não poupem esforços para acabar com a violência na Síria
Por Salvatore Cernuzio

ROMA, 22 de Janeiro de 2014 (Zenit.org) – “Cristo não está dividido”; por isso, “a divisão entre os cristãos” só pode ser definida como um “escândalo”, disse hoje o papa Francisco numa chuvosa e lotada audiência geral. É uma resposta clara para a pergunta que São Paulo fez aos cristãos de Corinto: “Cristo acaso está dividido?”.
A pergunta é o tema inspirador da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, em andamento até o próximo sábado, dia da Conversão do Apóstolo dos Gentios. Uma “iniciativa espiritual preciosa”, define o papa, que, há mais de um século, envolve as comunidades cristãs e deve ser aproveitada como um “tempo dedicado à oração pela unidade de todos os batizados”, à luz da exortação de Cristo para que “todos sejam um”.
Hoje, observa o papa, “precisamos reconhecer sinceramente e com dor que as nossas comunidades continuam vivendo entre divisões que são um escândalo”. É um paradoxo, porque “o nome de Cristo cria comunhão e unidade, não divisão! Ele veio trazer a comunhão entre nós, não nos dividir”.
As divisões “enfraquecem a credibilidade e a eficácia do nosso compromisso de evangelização”, ameaçando “esvaziar” o poder do batismo e da cruz, os dois elementos centrais comuns a todo o “discipulado cristão”. O convite do papa é para “nos alegrarmos sinceramente com as graças concedidas por Deus aos cristãos”, a exemplo de Paulo, que, como recorda o Santo Padre, sabe “reconhecer com alegria os dons de Deus presentes em outras comunidades”.
“É bonito reconhecer a graça com que Deus nos abençoa”, diz o bispo de Roma, e, mais ainda, “encontrar, em outros cristãos, aquilo de que precisamos, aquilo que podemos receber como um presente dos nossos irmãos e irmãs”. O primeiro passo é, portanto, “encontrar-se”: um gesto aparentemente trivial, mas que, muitas vezes, se torna um objetivo difícil de alcançar. O encontro, explicou o papa, “exige algo mais: muita oração, humildade, reflexão e conversão contínua”. Não nos desanimemos, exorta o papa. “Sigamos em frente neste caminho, rezando pela unidade dos cristãos, para que este escândalo acabe e não exista mais entre nós”.
Como na última quarta-feira, no momento da saudação aos fiéis na Praça de São Pedro, o papa Francisco dirigiu seus pensamentos primeiramente aos peregrinos de língua árabe, especialmente aos que vieram do Egito. Para eles, o auspício de que “a fé não seja motivo de divisão, mas instrumento de unidade e de comunhão com Deus e com os irmãos (…) A invocação do nome do Senhor não seja razão de encerramento, mas de abertura do coração para o amor que une e acrescenta”. Bergoglio convidou a perseverar na oração, para que “nosso Senhor conceda a unidade aos cristãos, vivendo a diferença como riqueza; vendo no outro um irmão a ser acolhido com amor”.
O Santo Padre saudou depois os participantes do encontro e coordenadores regionais do Apostolado do Mar, liderado pelo cardeal Antonio Maria Vegliò, exortando-os a ser “a voz dos trabalhadores que vivem longe dos seus entes queridos e que enfrentam o perigo e a dificuldade”.
No final da audiência, o papa dedicou um pensamento à Conferência Internacional de Apoio à Paz na Síria, que acaba de começar em Montreux, Suíça, e que incluirá negociações de paz em Genebra a partir de 24 de janeiro. A oração do Sucessor de Pedro é um apelo tocante ao Senhor para que Ele “abrande o coração de todos, a fim de que, procurando apenas o bem maior do povo sírio, já tão duramente provado, não poupem nenhum esforço para chegar urgentemente ao fim da violência e ao fim do conflito que já causou sofrimento demais”.
Sofrimento que, traduzido em números, deixou em três anos de conflito mais de 130 mil mortos e uma quantidade incontável de refugiados. O papa pede que todos, fiéis, cidadãos e pessoas de boa vontade, contribuam para abrir nessa terra martirizada “um caminho decidido de reconciliação, de harmonia e de reconstrução (…) Que cada um encontre no outro não um inimigo, não um concorrente, e sim um irmão para aceitar e para abraçar”.

 

Texto da catequese do Papa Francisco na audiência da quarta-feira
Na Semana de oração pela Unidade, Francisco convida a reconhecer com alegria os dons de Deus presentes em outras comunidades cristãs
Por Redacao
ROMA, 22 de Janeiro de 2014 (Zenit.org) – Queridos irmão e irmãs,
Sábado passado iniciou-se a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que se concluirá sábado próximo, festa da conversão de São Paulo apóstolo. Esta iniciativa espiritual, mais do que nunca preciosa, envolve as comunidades cristãs há mais de cem anos. Trata-se de um tempo dedicado à oração pela unidade de todos os batizados, segundo a vontade de Cristo: “que todos sejam um” (Jo 17, 21). Todos os anos, um grupo ecumênico de uma região do mundo, sob a condução do Conselho Ecumênico das Igrejas e do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, sugere um tema e prepara subsídios para a Semana de Oração. Este ano, tais subsídios são provenientes das Igrejas e comunidades eclesiais do Canadá, e fazem referência à pergunta dirigida por Paulo aos cristãos de Corinto: “Então estaria Cristo dividido?” (1 Cor 1, 13).
Certamente Cristo não está dividido. Mas devemos reconhecer sinceramente e com dor que as nossas comunidades continuam a viver divisões que são um escândalo. As divisões entre nós cristãos são um escândalo. Não há outra palavra: um escândalo. “Cada um de vós – escrevia o apóstolo – diz: “Eu sou de Paulo”, “Eu sou de Apolo”, “E eu de Cefas”, “E eu de Cristo”” (1, 12). Mesmo aqueles que professavam Cristo como seu líder não são aplaudidos por Paulo, porque usavam o nome de Cristo para separar-se dos outros dentro da comunidade cristã. Mas o nome de Cristo cria comunhão e unidade, não divisão! Ele veio para fazer comunhão entre nós, não para dividir-nos. O Batismo e a Cruz são elementos centrais do discipulado cristão que temos em comum. As divisões, em vez disso, enfraquecem a credibilidade e a eficácia do nosso compromisso de evangelização e arriscam esvaziar a Cruz do seu poder (cfr 1,17).
Paulo repreende os coríntios pelas suas disputas, mas também dá graças ao Senhor “por causa da graça de Deus que vos foi dada em Cristo Jesus, porque Nele fostes enriquecidos de todos os dons, aqueles da palavra e aqueles do conhecimento” (1, 4-5). Estas palavras de Paulo não são uma simples formalidade, mas o sinal que ele vê antes de tudo – e disto se alegra sinceramente – os dons feitos por Deus à comunidade. Esta atitude do Apóstolo é um encorajamento para nós e para cada comunidade cristã a reconhecer com alegria os dons de Deus presentes nas outras comunidades. Apesar do sofrimento das divisões, que infelizmente ainda permanecem, acolhemos as palavras de Paulo como um convite a alegrar-nos sinceramente pelas graças concedidas por Deus a outros cristãos. Temos o mesmo Batismo, o mesmo Espírito Santo que nos deu a Graça: reconheçamos isso e nos alegremos.
É belo reconhecer a graça com a qual Deus nos abençoa e, ainda mais, encontrar nos outros cristãos algo de que necessitamos, algo que podemos receber como um dom dos nossos irmãos e irmãs. O grupo canadense que preparou os subsídios desta Semana de Oração não convidou as comunidades a pensarem naquilo que poderiam dar a seus vizinhos cristãos, mas os exortou a encontrar-se para entender aquilo que todos podem receber de tempos em tempos dos outros. Isso requer algo a mais. Requer muita oração, requer humildade, requer reflexão e contínua conversão. Sigamos adiante neste caminho, rezando pela unidade dos cristãos, para que este escândalo seja exterminado e não esteja mais entre nós.
(Tradução: Jéssica Marçal/Canção Nova)

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