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Orações a São Rafael pelos doentes

Anjo da cura

São Rafael, Medicina de Deus

A missão de São Rafael Arcanjo

Oração

Ficai conosco, ó arcanjo Rafael, chamado Medicina de Deus! Afastai para longe de nós as doenças do corpo, da alma e do espírito e trazei-nos a saúde e toda plenitude de vida prometida por Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

Ladainha de São Rafael

Senhor, tenha piedade de nós
Cristo, tenha piedade de nós
Cristo, graciosamente nos escutai,
Deus Pai, tende piedade de nós,
Senhor, tenha piedade de nós,
Deus Filho, redentor do mundo,
Tenha piedade de nós,
Deus Espirito Santo,
Tenha piedade de nós,
Santa Trindade e Um só Deus,
Tenha piedade de nós
Santa Maria, rainha dos anjos ,rogai por nós.
São Rafael, rogai por nós
São Rafael, cheio da misericórdia de Deus, rogai por nós
São Rafael, perfeito adorador do Divino Mestre, rogai por nós
São Rafael, terror dos demônios, rogai por nós
São Rafael, exterminador dos vícios, rogai por nós
São Rafael, saúde dos doentes, rogai por nós
São Rafael, refugio em nossas necessidades, rogai por nós
São Rafael, consolador dos prisioneiros, rogai por nós
São Rafael, alegria dos tristes, rogai por nós
São Rafael, cheio de zelo para a salvação de nossas almas, rogai por nós
São Rafael, cujo nome significa, cura, rogai por nós
São Rafael, amante da castidade, rogai por nós
São Rafael, acoite dos demônios, rogai por nós
São Rafael, nosso protetor na peste, na fome, na guerra, rogai por nós
São Rafael, anjo da paz e da prosperidade, rogai por nós
São Rafael, repleto da graça da cura, rogai por nós
São Rafael, guia seguro no caminho da virtude e santificação, rogai por nós
São Rafael, socorro de todos que imploram a sua ajuda, rogai por nós
São Rafael, que guiou e consolou Tobias em sua jornada, rogai por nós
São Rafael, aquele que as Escrituras saúdam, como “Rafael o santo anjo do Senhor foi enviado para curar”, rogai por nós
São Rafael, nosso advogado, nos salve,
Cordeiro de Deus que tirastes os pecados do mundo,
Tenha piedade de nós,
Cristo, escutai nossas preces
Tenha misericórdia de nós.
São Rafael, rogai por nós a Nosso Senhor Jesus Cristo,
Agora e na hora de nossa morte. Amém!

Aprenda com as virtudes de um Papa santo

São João Paulo II vivia mergulhado na oração

O instinto do povo não se enganava quando, desde o início do pontificado de João Paulo II, via no Papa Wojtyla um homem de Deus. A fé notava-se-lhe no calor sereno e viril da voz, no olhar profundo, afetuoso e calmo, na paz com que abraçava o seu serviço sacrificado e incansável e com que aceitava as adversidades, doenças e dores como vindas da mão de Deus.

A fé, uma fé segura, sólida e feliz, pode-se dizer que lhe saía por todos os poros do corpo e da alma. Acreditava mesmo em Deus, acreditava mesmo em Jesus Cristo, único Salvador do mundo; acreditava plenamente no chamado de todos à salvação que está em Cristo Jesus; acreditava, com confiança de filho, na intercessão da santíssima Virgem Maria, em cujos braços maternos se abandonara muito cedo, declarando-se Totus tuus! – Todo teu!

Diz-se, com toda a razão, que a oração é o espelho da fé. É pela oração que a alma se une a Deus, em plena intimidade; é pela oração amorosamente contemplativa que os traços de Cristo se imprimem na alma; é pela oração que os olhos vêem o mundo, a história, os homens – cada homem – com a própria visão de Deus; e é pela oração que se pode chegar a dizer, como São Paulo: Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim (Gál 2, 20).

Pois bem, João Paulo II vivia literalmente mergulhado na oração. E isso, mesmo para os que o ignoravam, se notava de uma forma indisfarçável. Desde o início do seu pontificado – continuando, aliás, com seus antigos hábitos de padre e de bispo – , levantava-se às 5:30 horas e, depois de se arrumar, ia imediatamente à capela para fazer mais de uma hora de oração íntima, ajoelhado diante do sacrário, perante um crucifixo e uma imagem da Virgem Negra de Czestokowa.

No seu penúltimo livro, Levantai-vos! Vamos!, o próprio Papa fala da alegria de ter a capela tão perto das dependências onde trabalhava: “A capela fica tão próxima para que na vida do bispo tudo – a pregação, as decisões, a pastoral – tenha início aos pés de Cristo, escondido no Santíssimo Sacramento […]. Estou convencido de que a capela é um lugar de onde provém uma inspiração particular. É um privilégio enorme poder habitar e trabalhar no espaço dessa Presença, uma Presença que atrai, como um potente ímã”. “Todas as grandes decisões – comentava um dos seus ajudantes – tomava-as de joelhos em frente ao santíssimo Sacramento”.

A capela era, realmente, o ímã constante, irresistível, do dia-a-dia de João Paulo II. Nela, além da oração matutina e da celebração da Santa Missa, rezava todos os dias a Liturgia das Horas. Na capela, muitas vezes, das 9:30 às 11:00 horas, dedicava-se a escrever, anotando sempre no cabeçalho de cada folha uma oração abreviada, uma jaculatória.

Na capela, guardava o que ele chamava a “geografia da sua oração”, pois, no interior da parte de cima do genuflexório, as freiras que cuidavam da casa pontifícia deixavam centenas de folhas datilografadas, com pedidos de oração pessoal enviados por carta ao Papa por fiéis de todo o mundo, intenções pelas quais fazia questão de rezar. Conta-se que um dos seus secretários, o Pe. John Magee, procurou certa data o Papa nos seus aposentos e não o encontrou. Foi-lhe indicado que o procurasse na capela, mas não o viu. Sugeriram-lhe, então, que olhasse melhor, e lá descobriu efetivamente o Papa, prostrado no chão, em adoração, diante do Sacrário.

Esse clima de oração estendia-se, como uma onda cálida, a todas as atividades do dia. João Paulo II rezava constantemente: entre as diversas reuniões, a caminho das audiências, no carro, num helicóptero… Num terraço do Palácio Apostólico, onde mandara colocar as catorze estações da Via Sacra, praticava essa devoção todas as sextas-feiras do ano e, na Quaresma, todos os dias. Rezava o terço em diversos momentos da jornada, até completar o Rosário.

Um detalhe simpático: só dedicava ao descanso, após o almoço, uns dez minutos; depois dos quais, enquanto outros repousavam, passeava pelos jardins do Vaticano rezando o terço.

Padre Francisco Faus
http://www.padrefaus.org/

Curando as feridas

Cicatrizando saudades

Uma ferida aberta leva tempo para cicatrizar. Aberta muitas vezes pelo descuido dos atos, ela precisa do tempo sagrado para que a cura aconteça. Embora o tempo cure as marcas da cicatriz, ela continua a nos mostrar algo que foi ferido nos tempos de outrora. A dor não mais sentida é a certeza de que o passado já não mais pertence ao presente. Fica somente a marca de uma parte da história que muitas vezes foi convertida em aprendizado.

Há despedidas que se tornam feridas abertas na alma. A dor da saudade de quem se foi cria fendas sem fim em muitos corações que ainda esperam o regresso de um adeus que não mais tem volta.  O tempo da saudade se eterniza em cicatrizes que nem mesmo o tempo consegue apagar. Quem fica sempre espera a regresso de um abraço que nunca foi permitido ou o sorriso que não mais poderá ser contemplado.

As estações da vida surgem em tardes de outono e se escondem em noites de lágrimas. Há noites que não se veem estrelas porque a luz das esperanças foi apagada das estrelas da Fé. Saudade não reconciliada é dor sem nome, é silêncio banhado por um oceano de lágrimas, é uma manhã sem sol em dias quase sempre nublados. Quem nunca se despediu de quem um dia partiu, jamais deixará a estação da dor ir embora de sua alma.

Na saudade de quem fica apenas a certeza de muitas esperas. Dias longos e segundos sem fim. Foi assim que muitos deixaram a sua alegria ir nas bagagens de quem se foi. Se o coração não se reconcilia com a despedida dos outonos do presente, o futuro sempre será uma triste espera nos bancos de velhos tempos de carências não cicatrizadas.

Saudade dolorida é ferida aberta  aberta no tempo não reconciliado consigo mesmo. O medo de dizer adeus nos prende sempre em um passado que não mais existe, mas mesmo assim se faz presente em futuros sombrios.

O remédio que cura a ferida da saudade é a reconciliação com a própria dor que ainda grita no coração de quem ainda não aceitou o peso das despedidas da vida. Na saudade cicatrizada fica apenas a certeza de quem um dia a vida será plena junto de Deus. No Altar da Vida Jesus pediu que a samaritana se despedisse de um passado de incertezas, e que no Seu amor acolhesse a certeza de novos tempos. Diante da despedida e do amor que agora seria a água que saciaria todas as suas sedes, ela abandonou o cântaro velhos outonos para viver as estações de uma nova primavera junto a Fonte de uma nova vida.

No amor de Cristo reconciliamos nossas esperanças com as saudades que foram embora em bagagens que não mais nos pertencem. Se a dor se faz presente, a ternura de Deus é o remédio para a cura de nossas carências que ainda insistem em germinar no solo de nossas fragilidades humanas. Jesus Cristo abraça todas as nossas carências e faz das tristes saudades de uma tarde sem fim uma manhã de novos reencontros com a vida. Somos chamados a todo instante a curar nosso coração em seu Amor. Todas as nossas tristes saudades que ainda não nos disseram adeus, são curadas e cicatrizadas no bálsamo da paz que nasce das fontes do amor de Deus.

Padre Flávio Sobreiro
Bacharel em Filosofia pela PUCCAMP. Teólogo pela Faculdade Católica de Pouso Alegre – MG. Vigário Paroquial da Paróquia Nossa Senhora do Carmo (Cambuí-MG). Padre da Arquidiocese de Pouso Alegre – MG. http://www.flaviosobreiro.com

Igreja é fiel se seu único tesouro é Jesus

Segunda-feira, 23 de novembro de 2015, Da Redação, com Rádio Vaticano

Na Missa de hoje, Papa falou sobre a “viuvez” da Igreja, que é fiel quando sabe esperar por seu esposo Jesus

A Igreja é fiel se o seu único tesouro e interesse é Jesus, mas é “morna” e medíocre se procura sua segurança nas coisas do mundo. Essa foi a reflexão central do Papa Francisco em Missa nesta segunda-feira, 23, na Casa Santa Marta.

No Evangelho, o relato da pobreza da viúva que depositou no tesouro do templo duas pequenas moedas enquanto os ricos ostentavam suas grandes ofertas. Para Jesus, foi a maior oferta de todas, pois ela deu o que tinha para viver, não o que estava sobrando.

Francisco explicou que essa viúva tinha a sua esperança somente no Senhor; ele acrescentou que gosta de ver nas viúvas retratadas no Evangelho a imagem da viuvez da Igreja que espera o retorno de Jesus.

“A Igreja é a esposa de Jesus, mas o seu Senhor foi embora e o seu único tesouro é o seu Senhor. A Igreja, quando é fiel, deixa tudo por causa da espera de seu Senhor. Quando a Igreja não é fiel ou não é muito fiel ou não tem muita fé no amor de seu Senhor procura se arranjar com outras coisas, com outras seguranças, mais do mundo que de Deus”, disse.

Segundo o Papa, as viúvas do Evangelho dão uma mensagem bonita de Jesus sobre a Igreja. Ele deu exemplos retomando algumas passagens bíblicas:

“Tem aquela sozinha, única, que saia de Nain, com o caixão de seu filho: chorava, sozinha. Sim, as pessoas tão boas, a acompanhavam, mas o seu coração estava só! A Igreja viúva que chora quando os seus filhos morrem à vida de Jesus. Tem aquela outra que, para defender os seus filhos, vai até o juiz iníquo: torna sua vida impossível, batendo à sua porta todos os dias, dizendo ‘faça-me justiça!’. No final, faz justiça. É a Igreja viúva que reza, intercede por seus filhos. Mas o coração da Igreja está sempre com seu Esposo, com Jesus. Está nas alturas. E também nossa alma – de acordo com os pais do deserto – se parece tanto à Igreja. E quando nossa alma, a nossa vida, está mais próxima de Jesus, se afasta de tantas coisas mundanas, coisas que não servem, que não ajudam e que afastam de Jesus. Assim é a nossa Igreja que procura o seu Esposo, espera o seu Esposo, espera aquele encontro, que chora por seus filhos, luta por seus filhos, dá tudo aquilo que tem porque seu único interesse é o seu Esposo”.

A ‘viuvez’ da Igreja, esclareceu o Papa, refere-se ao fato de que a Igreja está esperando Jesus: “pode ser uma Igreja fiel a esta espera, aguardando com confiança o retorno do marido, ou uma Igreja não fiel a esta ‘viuvez’, procurando seguranças em outras realidades: a Igreja morna, a Igreja medíocre, a Igreja mundana. Francisco convidou os fiéis a pensarem também se suas almas procuram segurança somente no Senhor ou procuram outras seguranças que o Senhor não gosta.

“Nestes últimos dias do Ano Litúrgico, fará bem nos perguntarmos sobre a nossa alma: se é como esta Igreja que Jesus quer, se a nossa alma volta-se ao seu esposo e diz: ‘Vinde, Senhor Jesus! Vinde!’. E que deixamos de lado todas as coisas que não servem, que não são de ajuda à fidelidade”.

Motivações para um Ano Novo

Um ano novo traz novas esperanças. É um momento de reflexão, de olhar para o ano que passou e fazer uma avaliação sobre o que fizemos de bom…

Há um provérbio que diz que “um homem motivado vai a Lua, sem motivação não atravessa a rua!”.

Um ano novo traz novas esperanças. É um momento de reflexão, de olhar para o ano que passou e fazer uma avaliação sobre o que fizemos de bom, e manter para o novo ano; e o que fizemos de mal e que deve ser deixado ou corrigido. Agradecer as graças que recebemos de Deus e pedir perdão por nossos erros. Continuar a caminhada em busca da perfeição querida por Deus.

Precisamos ter metas pessoais para o novo ano, sem isso nada se realiza de bom. O objetivo geral deve ser amadurecer e crescer na fé, na espiritualidade, no amor às pessoas, no desapego das coisas transitórias; enfim, fazer a alma crescer. São Paulo nos lembra que “não importa que o corpo vá desfalecendo, desde que o espírito se renove…” E ele nos lembra ainda que “a nossa tribulação presente, momentânea e ligeira, nos prepara um peso eterno de glória sem medidas” (2 Cor 4,16).

Para isso, manter a luta constante contra os pecados, aproveitar melhor o tempo que Deus nos dá; melhorar a qualidade da oração e da meditação diária, receber bem os sacramentos, exercitar a paciência e não ficar murmurando nas contrariedades, viver na fé, confiando em Deus.  Não se deixar vencer pelo mau humor.

A escolha das metas, não muitas, deve ser feita em cima do exame do que não fizemos bem no ano que findou. O que eu preciso mudar? Ser bem objetivo e prático. Em seguida, perseguir essas metas com perseverança, pedindo a Deus a graça de cumpri-las, com calma e alegria, sabendo recomeçar se falhar, mas não desanimar e nem desistir. Santa Teresa de Jesus aconselhava: “Importa muito, em tudo, uma grande e muito determinada força de não parar até chegar à meta, venha o que vier, suceda o que suceder, custe o que custar, murmure quem murmurar”.

Alguém disse que “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Se as nossas metas forem “pequenas”, o Ano será pequeno. Não podemos ter apenas como metas objetivos temporários: ganhar dinheiro, comprar um carro,  trocar os móveis, emagrecer, viajar mais, comer melhor, e assim por diante. Essas aspirações, se não forem tomadas como um fim, mas como um meio, não são erradas, mas insuficientes para satisfazer a nossa alma; pois ela tem sede do Infinito.

Deus tem planos para nós! E Ele mostra-nos a sua vontade em nossa vida diária, em cada acontecimento que nos envolve. Por meio deles, Deus nos corrige, purifica, ainda que muitas vezes sejam carregados de dor e de lágrimas. Isto não quer dizer que não somos felizes; ao contrário.

Jesus ensina como o cristão deve viver cada dia do ano: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo” (Mt 6,33). Isto quer dizer, “Deus em primeiro lugar” no Ano Novo. “Amar a Deus sobre todas as coisas” é o Mandamento mais importante.

Então, é preciso “fazer a vontade de Deus” e aceitar o que Deus permite que ocorra em nossa vida neste Ano, sabendo viver cada acontecimento na fé. São Paulo diz que “o justo vive pela fé” (Rom 1,17), e “sem fé é impossível agradar a Deus” (Hb 11,6).

Não se preocupe com o futuro, viva bem o presente, na comunhão permanente com Deus que habita em nossa alma. Não somos  dignos disso, mas Ele o quer assim. Tralhando com honestidade e competência, hoje, você prepara o seu futuro  e da sua família, sem estresse.

Uma orientação segura é esta que São Paulo nos deixou:

“Tudo o que fizerdes, fazei de bom coração, não para os homens, mas para o Senhor, certos de que recebereis a recompensa das mãos do Senhor. Servi a Cristo Senhor!” (Col 3,23)

Faça tudo para o Senhor: a casa que você limpa, a roupa que você lava, o bebê que você alimenta, o marido que você consola, o doente que você opera… E terás um Ano Novo Feliz!

É isso que nós desejamos, neste Ano Novo da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. O Ano é Dele, pois Ele é o Senhor da História. Não tenha medo, Ele, ressuscitado caminhará conosco cada dia.

Prof. Felipe Aquino

O Presépio que Deus colocou

MONASTERIO, Enrique. El Belén que puso Dios.
Madrid, Ediciones Palabra, 2004, 152 págs.  
Tradução do espanhol: Mons. Inácio José Schuster

No princípio Deus quis colocar um presépio, e criou o universo para enfeitar a manjedoura.
Primeiro inventou o tempo, e dividiu-o em meses, em semanas e em dias. Os dias estavam formados por milhões de anos, que são como instantes para Deus.
E começou seu trabalho.
Fez o céu, e encheu-o de estrelas e de pássaros.
Fez a luz, e logo o sol (assim conta a Bíblia, ainda que pareça estranho), e acendeu uma lâmpada branca na noite para que se visse bem a cara de Jesus e não se enganassem os anjos da Noite feliz.
Fez as montanhas, tão autênticas que pareciam de rolha, e as coroou de águias e de neve. Fez mares e oceanos de papel de prata, e grandes desertos de areia dourada para os camelos dos Reis Magos.
Depois chamou a menor de todas as estrelas (tinha apenas 6 milhões de hipergigawatts), e levou-a até a outra ponta do universo. Ali, com muito cuidado, deu-lhe um empurrãozinho com o dedo, com a força justa para que, milhares de séculos mais tarde, iluminasse sobre as praias da Arábia à vista dos Magos do Oriente.
Tudo isto não foi muito difícil para o Senhor. Com o seu olhar coloriu todas as espécies de flores que havia criado, e atapetou de musgo as margens dos rios. Também fez crescer as árvores, que, ao espreguiçar-se, agitaram o ar e formaram a brisa e os vendavais. Agora dizem que é o vento quem move as árvores e não ao contrário, mas isto teria que demonstrá-lo.
Do vento nasceram as dunas e a primeira música do campo.
Logo Deus fez uma pausa, e pensou onde colocar seu presépio. E decidiu que em Belém. Imaginou as figuras: o boi, a mula, as lavadeiras, os pastores… E, como não tinha pressa, lhes deu uma estirpe: pais, avós, bisavós… Centenas de vidas para criar cada vida; centenas de amores para conseguir o gesto, o tom de voz, a mão estendida na postura exata do presépio de Deus.
Pensou em sua Mãe: toda a eternidade sonhou com Ela. E, desejando suas carícias, foi desenhando nos antepassados de Maria como esboços dessa flor que havia de brotar a seu tempo.
Igual a um artista que persegue tenazmente a pincelada perfeita, Deus pintou milhares de sorrisos em outros tantos lábios. E ensaiou em outros olhos o olhar limpíssimo que teria sua Mãe. Até que um dia nasceu a Virgem, sua Filha predileta, sua Esposa Imaculada, sua obra mestra. E a colocou no presépio junto à manjedoura, com Jesus, que, por ser só de Maria, era seu retrato vivo.
E viu Deus tudo o que havia feito. E tudo era muito bom; mais ainda, estupendo. E tanto gostou que decidiu transmitir diretamente o nascimento de seu Filho a todos os dezembros da história, e a todos os corações que tivessem lugar para um presépio. Assim inventou o Natal.
O Natal não é um aniversário, nem uma recordação. Muito menos só um sentimento. É o dia em que Deus coloca um presépio em cada alma. Somente pede-nos que lhe reservemos um canto limpo; que lavemos as orelhas para ouvir a canção dos anjos na Noite feliz; que tiremos a sujeira acumulada, acudindo ao estupendo detergente da Penitência; que abramos as janelas e olhemos o Céu se passarem de novo os Magos; que são verdade, que existem, e vem seguindo a estrela de então, caminho do mesmo portal.
Ainda que talvez só vejamos um casal jovem de imigrantes que acabam de chegar à cidade. Não trazem o burrico, porque a espécie está em perigo de extinção, mas uma moto desvencilhada, que sabe Deus como ainda segue funcionando. Não encontrarão lugar nos hotéis, e ela deverá dar a luz no Metrô. Difícil será para a estrela entrar ali embaixo e situar-se na estação sem permissão da polícia municipal.
Se passarem por tua porta, não lhes digas que tens a casa cheia de hóspedes. Eles se conformam com o estábulo de teu coração. Abre-o de par em par, e, como é Natal, disponha-te a brincar de bonecas com Maria. Deixa-me que te acompanhe: emprestar-te-ei a rolha das montanhas, meu castelo de Herodes, um burrico com a orelha rasgada, a prata para o rio e um racimo de anjos, que nos ensinarão canções de manjedoura para o Menino do presépio.

Com a prece e a bênção copiosa do Céu, um Santo Natal de nosso Senhor JESUS CRISTO e um Abençoado 2014.  
Mons. Inácio José Schuster
Pároco

 

O SENHOR OLEIRO

Criou, pois, Deus ao homem a sua imagem, a imagem de Deus lhe criou, homem e mulher os criou (Gênesis 1, 27).

O oleiro, sentado a sua tarefa (…) com seu braço molda a argila, com seus pés vence sua resistência; põe seu coração em acabar o envernizado, e gasta suas vigílias em limpar o forno.
Todos estes põem sua confiança em suas mãos, e cada um se mostra sábio em sua tarefa.
Sem eles não se construiria cidade alguma, nem se poderia habitar nem circular por ela. (…)
Não demonstram instrução nem juízo, nem se lhes encontra entre os que dizem máximas. Mas asseguram a criação eterna; e o objeto de sua oração são os trabalhos de seu ofício (Eclesiástico 38, 29-34).

Sabíeis que os anjos trabalham, e que no Céu há oficinas de todas as classes? Não podia ser de outro modo já que os anjos são seres espirituais, e criar é próprio do espírito. Também os homens que alcançaram a glória gozam do mesmo privilégio. Não vos parece razoável que os grandes pintores, os poetas, os escultores ou os trompetistas continuem sua tarefa no Paraíso? Que seria de Mozart sem a música? Como poderia Velázquez seguir sendo Velázquez no Céu sem uma paleta cheia de cores e um grande lenço diante? Pois igual ocorre com os que fazem novelas, com os agricultores, com os cozinheiros, com os palhaços ou com os notários. No Céu, trabalhar é parte da felicidade que Deus concede.
—Mas então—me direis— em que fica o famoso descanso eterno?
Descansa-se, naturalmente, mas só da fadiga, do suor, das angústias deste mundo; não da condição humana. E já diz o Livro de Jó que o homem nasce para o trabalho e as aves para voar. Portanto, se essa é nossa condição, não teria sentido que nos passássemos a eternidade folgando.
Mas vamos a nosso assunto. Antes que o Senhor criasse o homem, nas oficinas do Céu não se trabalhava a madeira nem a pedra nem o bronze, nem nenhuma outra coisa material. Os anjos desenhavam criaturas só com a imaginação, e as armazenavam em um depósito de obras de fantasia: ali se empilhavam (é um dito, já que o espírito não ocupa lugar) montões de projetos: camelos para o deserto, burricos para o campo, pores de sol para a Antártida, nuvens de diferentes texturas para tormentas tropicais… Às vezes o Senhor —que é o único Criador de verdade (os demais são só criativos)— visitava aquele armazém de sonhos, aprovava algum dos projetos e lhes dava o ser, tirando-os do nada.
Assim funcionavam as coisas. Por isso surpreendeu tanto ali acima que, uma manhã, Deus decidiu manchar-se as mãos de barro.
O Senhor havia feito uma pausa. Percorreu de novo com o olhar todo o criado, e, por um instante, parou o relógio central das galáxias: deteve o piscar das estrelas, o vôo dos cometas, a torrente dos rios, o silvo da brisa… Até as ondas ficaram, durante aquele segundo, de gregas no oceano como frias esculturas de prata. E se produziu no mundo um silêncio tão profundo que até os anjos temiam rompê-lo com seu vôo. E disse Deus:
—Vamos começar o segundo ato da Criação. Tudo está disposto para receber ao soberano deste mundo. Façamos, pois, ao homem a nossa imagem e semelhança…
Baixou então a terra, e, à sombra de uns álamos, junto ao rio, abriu sua oficina de olaria.
Tomou o Senhor lodo do solo. Era uma terra avermelhada e branda que em seguida se amoldou às carícias do Criador.
—Primeiro formarei o corpo de vosso rei, disse o Senhor.
E inclinando-se sobre a terra, começou a modelá-lo, enquanto lhe falava em voz muito baixa:
—Teu corpo será formoso e forte. Caminharás erguido, porque não deves humilhar-te ante criatura alguma: só ante teu Deus.
Teus olhos contemplarão de frente como as águias; e verão o relevo; medirão as distâncias e gozarão com as cores das coisas. Acenderei neles uma luz para que as demais criaturas reconheçam em ti a seu dono.
Tuas mãos serão atrativas e fortes: servirão para golpear, mas também repartirão carícias. Terão seu próprio idioma, tão expressivo como o olhar ou a palavra. Servir-te-ão para criar beleza; manejarão instrumentos toscos e refinados; serão sensíveis e rebeldes.
Vou modelar-te um coração: uma bomba de sangue que, além de dar vida ao corpo inteiro, será o sismógrafo do espírito que registre, em uma precisa escala de latidos, todas as emoções que tua alma possa experimentar.
Terás um cérebro vigoroso, capaz de conhecer as leis mais secretas deste universo que te criei. Com ele, chegarás longe: nem tu mesmo alcançarás a conhecer seus limites. Serás uma máquina perfeita se souberes submeter-se ao espírito, que é seu guia; se te humilhares ante a verdade e creres nela; se aprenderes a escolher a Sabedoria antes que a genialidade: se não renunciares a conhecer-me a mim, que sou teu Criador.
Concedo-te também o dom que até agora só outorguei aos anjos. Serás capaz de amar e de receber amor. Ao entregar teu corpo, entregarás tua alma e todo teu ser, como eu mesmo me entrego. Poderás unir-te a tua esposa —e ela a ti— em um amor fiel e fecundo. E quando digas “para sempre”, assim será: amando, te farás eterno, como eu sou eterno.
Este barro, com o qual te formo, é sagrado. Vais ser lodo e espírito em uma só peça. Não te vendas; não desprezes a matéria que te dei. Porque teu corpo também foi feito a imagem de Deus.
O Corpo de meu Filho me serviu de modelo para criar-te a ti, Adão.
A continuação, soprou o Senhor um vento de furacão que endureceu o barro, penetrou por todos seus poros e o encheu de vida.
Assim nasceu o primeiro homem, a única criatura material que, por ser imagem de Deus, falava cara a cara com o Senhor; amava como ama o Senhor, e era senhor de quanto se movia sobre a terra.
—Realmente é importante —lhe disse seu Criador—: o universo é teu.
Coloca um nome em cada animal e em cada planta, porque todas as criei para ti, e ainda não sabem o que são nem para que estão no cosmos: tu deves defini-las e explicá-lo.
Aprende a ser dono desta terra. Não lhe peças que te dê o que só eu posso dar-te, porque me ofenderias a mim, te destruirias a ti mesmo e a terra te castigaria. Ama ao mundo como eu o amo, respeitando suas leis. Contempla-o, e não deixes nunca de assombrar-te ante a beleza: assim me conhecerás a mim, que sou seu Criador. E trabalha: ajuda-me a completar minha obra. Manifestarás teu senhorio sobre a terra convertendo-a em teu lar, domesticando-a para teu serviço e o de meu filho.
Eu dispus tudo em Belém para o nascimento de Jesus; mas ainda faltam os caminhos por onde chegarão os pastores e os Magos. A ti te corresponde fazer o plano de rodovias, e construir o castelo de Herodes, o presépio do portal, a pousada…
Os cavalos ainda estão descalços. Terás que fazer-te ferreiro para resolver o problema. E oleiro, como eu, para guardar a água e o trigo em minha casa de Belém. E deves inventar a pecuária, porque é preciso enchê-la toda de ovelhas. E te darei sementes de todas as plantas, para que nasça a agricultura. Deves saber, além do mais, que escondi petróleo nas entranhas da terra, e carreguei de energia o coração da matéria. Tem paciência: já a descobrirás, e serás poderoso.
Criei oito mil espécies de aves, para que aprendas a imitar seu vôo. Elas serão também tuas professoras de música. (Também há oito mil espécies de formigas; mas duvido que possam ensinar-te algo prático, por muito que se empenhem os fabulistas).
Por último, te concedi o dom da palavra, para que falemos em tua língua quando me necessites: fala-me, que quero ser teu interlocutor a todas as horas. Oferece-me teu trabalho de cada dia e canta-me a mim em todas tuas canções.
Diga sempre a verdade: não profanes a palavra que te dei. Se te cansas de fazê-lo, podes inventar a literatura.
Com tudo isso, saberás ajudar-me a montar o presépio?

O medo nos enfraquece

Sexta-feira, 15 de maio de 2015, Da Redação, com Rádio Vaticano

Homilia do Papa, nesta manhã, concentrou-se nas palavras “medo” e “alegria” para explicar que uma comunidade medrosa e triste está doente

“Medo e alegria” são as duas palavras da liturgia desta sexta-feira, 15. Elas foram o centro da homilia do Papa Francisco na Missa presidida na Casa Santa Marta.

“O medo  é uma atitude que nos faz mal,  enfraquece-nos, limita-nos e até nos paralisa. Quem tem medo não faz nada, não sabe o que fazer; concentra-se em si mesmo para que não lhe aconteça nada de mal. O medo leva a um ‘egocentrismo egoísta’, que paralisa. O cristão medroso é aquele que não entendeu a mensagem de Jesus”.

Por isso mesmo, o Papa recordou que Jesus disse a Paulo que ele não deveria temer, mas continuar a falar. “O medo não é cristão; é um comportamento de quem tem a alma aprisionada, presa, sem liberdade de olhar para frente, de criar e fazer o bem. E diz sempre: ‘Não, aqui há este perigo, aqui outro… e assim por diante. E isso é um vício. O medo faz mal”.

O Santo Padre destacou que não ter medo é pedir a graça da coragem do Espírito Santo. Ele lembrou que há comunidades medrosas, que apostam sempre em algo certeiro, como se na porta de entrada estivesse escrito “proibido”: tudo é proibido por medo. Quando se entra em uma comunidade assim, sente-se o marasmo, disse o Papa, porque se trata de uma comunidade doente.

“O medo deve ser distinguido do ‘temor de Deus’, que é santo, é o temor da adoração diante do Senhor. O temor de Deus é uma virtude, não é limitativo, não enfraquece, não paralisa: faz ir adiante para cumprir a missão dada pelo Senhor”.

A alegria

A outra palavra da liturgia é ‘alegria’. O Papa explicou que, nos momentos mais tristes e de dor, a alegria se torna paz. Ao contrário, uma diversão no momento da dor se torna sombrio, escurece.

“Um cristão sem alegria não é cristão; um cristão que continuamente vive na tristeza também não o é. E um cristão que, no momento da provação, das doenças ou das dificuldades, perde a paz… é porque lhe falta algo”.

O Papa lembrou ainda que a alegria cristã não é um simples divertimento nem algo passageiro, mas é um dom do Espírito Santo. Trata-se de ter o coração sempre alegre, porque Jesus venceu, está à direita do Pai.

“Uma comunidade sem alegria também é uma comunidade doente: pode até ser uma comunidade ‘divertida’, mas é ‘doente de mundanidade’, porque não tem a alegria de Jesus Cristo. Assim, quando a Igreja é medrosa e não recebe a alegria do Espírito Santo, ela adoece, as comunidades e os fiéis adoecem”.

O Papa concluiu a homilia com uma prece: “Elevai-nos, Senhor, ao Cristo, sentado à direita do Pai; elevai o nosso espírito. Despojai-nos de todo medo e dai-nos a alegria e a paz”.

Natal é encontro com Jesus de coração aberto

Missa na Casa Santa Marta, segunda-feira, 2 de dezembro  de 2013, Da Redação, com Rádio Vaticano

Santo Padre indicou a oração, a caridade e o louvor como caminhos para uma boa preparação para o Natal

Papa lembrou que Natal não é só recordação de algo belo, mas o encontro com Cristo / Foto: L’Osservatore Romano

Preparar-se para o Natal com a oração, a caridade e o louvor, mantendo o coração aberto para deixar-se encontrar pelo Senhor que tudo renova. Este foi o convite feito pelo Papa Francisco na Missa celebrada nesta segunda-feira, 2, na Casa Santa Marta. A homilia insere-se no tempo litúrgico do Advento, iniciado neste domingo, 1º.

Francisco recordou que nestes dias se inicia um novo caminho, um caminho de Igreja rumo ao Natal. Trata-se de ir ao encontro do Senhor, pois o Natal, como enfatizou o Papa, não é somente uma recorrência temporal ou uma recordação de algo belo.

“O Natal é mais: nós vamos por este caminho para encontrar o Senhor. O Natal é um encontro! E caminhamos para encontrá-Lo, com o coração, com a vida, encontrá-Lo vivo, como Ele é, encontrá-Lo com fé”.

Francisco concentrou-se ainda sobre o exemplo do oficial romano descrito no Evangelho do dia, destacando a sua fé, o que maravilhou Jesus. A partir da fé, não só o oficial romano encontrou Deus, mas foi encontrado por Deus.

“Quando nós somente encontramos o Senhor, somos nós – entre aspas, digamos – os patrões deste encontro, mas quando nós nos deixamos encontrar por Ele, é Ele que entra em nós, é Ele que nos refaz tudo, porque esta é a vinda, aquilo que significa quando vem o Cristo: refazer tudo, refazer o coração, a alma, a vida, a esperança, o caminho”.

E ao longo de todo esse processo, o Papa ressaltou a importância de manter o coração aberto, para que Deus encontre o homem e lhe diga o que for preciso. Dessa forma, Francisco falou, por fim, de alguns comportamentos que ajudam neste caminho rumo ao Natal.

“A perseverança na oração, rezar mais; o trabalho na caridade fraterna, aproximar-se um pouco mais daqueles que precisam; e a alegria no louvor do Senhor. Então, a oração, a caridade e o louvor, com o coração aberto, para que o Senhor nos encontre”.

São João da Cruz – 14 de Dezembro

Por Mons. Inácio José Schuster

Hoje, 14 de Dezembro, a Igreja celebra a memória de São João da Cruz. Ele juntamente com Santa Tereza de Jesus, foi um dos reformadores da Ordem Carmelitana no Século XVI. Sofreu muito por causa da reforma de sua própria ordem, porque desejava reconquistar o primitivo fervor perdido com o relaxamento. Desejava viver como os primitivos eremitas carmelitas, que se colocavam no maior número de horas possíveis do dia, na presença de Deus, na leitura meditada da Sagrada Escritura, para depois poderem com capacidade e amor dividir este Pão espiritual com os irmãos na fé. Esta celebração é oportuna no tempo do Advento. São João da Cruz, fala de noites escuras que precedem os dias luminosos que estão por vir no futuro, e isto para nós é advento. “Agora aceitamos as trevas, a penumbra e a escuridão em direção e em marcha para a luz. A noite será mais luminosa do que o dia”. São João da Cruz traz-nos um exemplo admirável que pode ser bem usado neste tempo de advento: “A madeira – diz ele – antes de se incandescer com o fogo se contorce toda inteira, deixa sair todo caldo que possuía, torna-se inteiramente preta e somente aos poucos ela vai se incandescendo para tornar brasa, uma só coisa com o fogo”. Não é bem a imagem de cada um de nós neste período e tempo do advento? Não somos uma madeira seca que gostaríamos de ser uma só coisa ou realidade como o fogo consumador de Deus? “Quem é capaz – diz Isaias – de permanecer junto a um fogo devorador?” Pois este fogo já realiza o seu serviço de purificação dentro de nós, através das noites escuras que nós com São João da Cruz, aceitamos com resignação, e não só com alegria e na esperança de nos tornar um dia, no final do advento da nossa existência, uma só coisa, como um braseiro, uma só coisa como o amor de Deus, cantando com Ele para sempre as misericórdias do Senhor. Agora se deixe trabalhar, ainda que dolorosamente, os frutos serão desproporcionais ao trabalho agora realizado.

 

SÃO JOÃO DA CRUZ
Perto de Ávila, na Espanha, encontra-se Fontiveros. Lá nasceu João de Yepes, no ano de 1542. Os pais, Gonçalo e Catarina, eram pobres tecelões. Gonçalo morreu cedo e a viúva teve de passar por dificuldades enormes para sustentar os três filhos: Francisco, Luís e João. Mas Luís morreu de poucos anos. Catarina pediu ajuda aos parentes do seu defunto marido, por terras toledanas. Mudou para Arévalo e depois para Medina deI Campo. Medina era então o centro comercial de Castela. Feiras e mercados, artesanato e movimento. Lá experimentará João numerosos ofícios manuais, que não lhe agradam, embora não seja inútil para eles. A sua inclinação é para os estudos. A mãe envia-o para o Colégio da Doutrina; como acontece em quase todas as cidades castelhanas, existe também em Medina. E ele faz de acólito no convento das agostinhas. Em 1551 fundaram em Medina um colégio os padres da Companhia de Jesus. Nele estudará Humanidades. Nos estudos mostra-se João muito «agudo» e a sua aplicação é admirável. Mas todo esse esforço não vai terminar no estado clerical. Sente-se chamado à vida religiosa e escolhe a Ordem do Carmo, a Ordem de Maria, na qual pede o hábito em 1563. Chamar-se-á para o futuro João de Santa Maria. Devido ao talento e à virtude, depressa foi destinado para o colégio de Santo André, que a Ordem possui em Salamanca, ao lado da famosa Universidade. Lá estudará Artes e Teologia. Salamanca vive então todo o seu esplendor magisterial: entre outros professores célebres, tem Luís de Leão. Frei João foi no colégio dele «prefeito dos estudantes», o que indica o seu aproveitamento e a estima em que era tido. Em 1567 recebe a ordenação sacerdotal e vem a Medina celebrar a Missa nova junto da sua pobre mãe e do irmão Francisco. E dá-se então um encontro providencial e inesperado. Em Medina acaba de criar o seu segundo «pombalzinho da Virgem» a Madre Teresa de Jesus. Esta tem «patentes» do Geral da Ordem para fundar dois mosteiros de frades reformados. E pôs-se em contacto com o prior dos carmelitas de Medina. Ele está decidido a começar a reforma; e por ele lhe vem o conhecimento de Fr. João. Mas este deseja passar para a Cartuxa, sedento de penitência e solidão. Foi lá, na casa onde habitava momentaneamente a mãe, que se realizou a entrevista, transcendental para sempre na história da espiritualidade. A Madre Teresa convence Fr. João a que se una à reforma dos frades, para salvar o espírito do Carmo, ameaçado pelos homens e pelos tempos; é a empresa espiritual que ela fomenta por encargo do céu. Naquele dia, no recreio das religiosas, a madre comentou alvoroçada: «Já tenho frade e meio para começar!»… O meio frade aludia à pequena estatura de frei João. Depois do seu curso de Teologia em Salamanca, tudo se precipita. Estamos em 1568. Em Duruelo inaugura-se a vida descalça entre os carmelitas. Durante ano e meio, João (desde agora da Cruz) viverá austeridade, alegria, silêncio… Tudo é, diz, «música silenciosa», «solidão sonora». Tudo é paz… Mas dura pouco: não mais de ano e meio. Em seguida, a expansão da reforma carmelita arrasta-o no seu impulso. E proporcionou ao Santo contemplativo uma série de sofiimentos e trabalhos que tomaram bem verdadeiro o seu apelido monacal. O frade de Fontiveros dá começo a três casas de formação, pois na obra teresiana é ele providencialmente quem vai semeando o ideal de perfeição carmelita que traz na alma, e que em parte recebeu de Santa Teresa. Desde 1572 a 1577, frei João é confessor da Encarnação de Ávila. O visitador apostólico, Pedro Fernández, O padre levou como prioresa, para aquele mosteiro importante de religiosas carmelitas, a Madre Teresa, e esta consegue do visitador que ponha lá confessores descalços que a ajudem a tonificar o mosteiro. Numa casita junto do convento passará o nosso Santo, com um companheiro, quase cinco anos, confessando, dirigindo religiosas e gente de Ávila. Foi campo de experiências esplêndido. Sobretudo porque, durante longas temporadas, a primeira penitente e dirigida foi Santa Teresa de Jesus. Lá vão adquirindo maturidade a alma e o magistério do futuro doutor. O germe de muitas das suas doutrinas e das suas obras foi lá incubado. Mas a obra teresiana é obra de Deus, e, portanto há de ser obra selada pela cruz. A perseguição, por parte dos padres calçados, tinha de estalar. E foi cair sobre os representantes mais destacados da reforma, como era natural. Já em 1576 foi tirado violentamente Fr. João da casita da Encarnação; contudo, devolve-o a ela uma ordem do Núncio. Todavia, na noite de 02 de Dezembro de 1577 foi preso definitivamente. Em seguida, levam-no para o convento carmelita de Toledo. Foram nove meses de cárcere penoso: meses de cruz, de Getsémani, de noite… Mas são duma fecundidade maravilhosa. E aquela vida chamejante traduz-se em versos, em planos de escritos, em experiência saborosa e sábia da obra de Deus nas almas que a Ele se entregam. Nos meados de Agosto de 1578 consegue escapar-se do seu cárcere. Foi gesto dramático, em que interveio Deus e a audácia e confiança de Fr. João. Desde tal aventura até à morte, a vida de Fr. João será afinal sempre a mesma. Por uma parte, dentro da reforma, sempre ocupado em tarefas de formação e direção de frades e religiosas. Adiante percorreremos esses encargos que teve. Por outra parte, ocupará postos de governo, num plano secundário sempre, uma vez que os primeiros cargos os manterão sempre Gracián e Dória; estes nomes e esta atividade enchem dolorosamente os lustros iniciais da reforma teresiana. João não recebeu do céu a missão da luta externa em primeiro lugar. Será o homem escondido que mantém a brasa pura e que, nas contendas de família, dá a nota de elevação e de equilíbrio, que tantas vezes faltou nos outros. A mesma Santa, tão penetrante e intuitiva, deu-se perfeitamente conta desse papel que tocava ao seu «pequeno Sêneca», iluminado conselheiro. Mas para a obra secreta e misteriosa da formação espiritual das suas filhas, tem plena confiança no seu Padre João, naquele «santico de Frei João», cujos «ossinhos farão milagres», «homem celestial e divino…, (que) não encontrei em toda a Castela outro como ele, nem que tanto afervore no caminho do céu…». E não é que a psicologia sobrenatural da Madre coincida em tudo com a de Fr. João? Completam-se um ao outro, embora Santa Teresa não tenha conhecido em toda a profundidade a riqueza doutrinal de são João da Cruz e a influência que ia ter, através dos séculos, na espiritualidade cristã universal. Pelo menos, não temos indício de tal visão profética teresiana. De Toledo, frei João foi enviado como superior ao convento do Cal vário, na serra de Jaén. Tiveram os descalços uma espécie de capítulo em Almodóvar do Campo, a que ele assistiu. E lá foi nomeado para aquela solidão da Serra Morena. Foram meses felizes, de paz recolhida e calada, de oração e cultivo de almas seletas, de contemplação e êxtase. Revivem os dias de Duruelo. Do Calvário, atende às carmelitas de Beas de Seguras. Vai com freqüência confessá-las, fornece-lhes os seus primeiros escritos espirituais. Entre elas está como prioresa Ana de Jesus, que ficará por toda a vida ligadíssima às transformações sanjoanistas. Magnífico campo de experiências foi ela para o santo doutor! A 13 de Junho de 1579 partiu para Baeza, a fundar um colégio para os seus frades. Como reitor de Baeza, assiste o Santo ao capítulo de separação da reforma, que se realiza em Alcalá, no princípio de Março de 1581. Foi eleito terceiro definidor, continuando no reitorado. Em seguida, vai como prior para o convento dos Mártires, em Granada, onde permanecerá até fins de 1588. Anos fecundos, na sua tarefa de escritor sobretudo. Aquele lugar incomparável facilitava a produção da sua pena tomada chama. Durante este período da sua vida, as viagens foram-se multiplicando cada vez mais. Viagens a Caravaca e a Á vila, para ultimar com a Madre Teresa a fundação de religiosas em Granada, viagens aos capítulos. Em 1585, foi nomeado vigário provincial da Andaluzia. Assim aumentaram as suas atividades externas. Tudo isso violentaria, sem dúvida, as suas aspirações mais profundas, mas a cruz de Cristo era o apelido que selava a sua vida. Em 1586, fundação de descalços em Córdova; trasladação da casa das descalças de Sevilha, reunião de definição em Madrid e fundação na Corte das descalças, com Ana de Jesus à frente, dos descalços em Mancha Real, preparação da de Bujalance, etc., etc. No capítulo de Valhadolide de 1587 deixa de ser vigário provincial e volta a prior de Granada. Foi outro breve espaço de tempo para gozar o retiro. Pôde assim continuar os afazeres de diretor de almas e as atividades literárias. Em 1588, realizou-se em Madrid o capítulo geral para executar um breve de Sisto V, que organizava de maneira nova a reforma do Carmo. Ficou ele sendo um dos seis conselheiros do vigário geral, com residência em Segóvia, onde habitou quase três anos, sendo ao mesmo tempo prior da casa. Também dirigiu almas (as carmelitas, sacerdotes, leigos). Nas covas naturais da horta conventual, Fr. João vive, intensa, a sua vida interior, feita de «nadas» e de união com o «Tudo». Um dia, a imagem dolorosa de Jesus perguntou-lhe o que desejava em paga do seu amor puro e exclusivo. João da Cruz respondeu generosamente: «Padecer, Senhor, e ser desprezado por causa de Vós». A sua oração ia ser ouvida abundantemente. Em 1591, o capítulo deixa-o posto a um canto, como «trapo velho da cozinha». É que está sendo pessoa pouco aceite para o vigário, Dória. Obedece fidelissimamente, mas diz com toda a franqueza o seu parecer, quando o caso é disso. E sobrevém um choque forte entre as religiosas e os frades, por causa da organização do governo destas. Suspeita-se que João está por elas. Mas é eliminado com toda a facilidade e sangue frio. Mais, começa-se um processo contra ele, o qual, na intenção do executor, deve terminar com a expulsão para fora da Ordem. Fr. João pede para retirar-se ao conventinho de La Pefiuela. E ofereceu-se a ir para as Índías; deixaria de ser estorvo. Em La Pefiuela está poucos meses. A reforma padece. Nos conventinhos teresianos andaluzes, o processo contra João decorre, perturbando as almas. Ele reza, sofre e cala-se. Escrevia: «Do que a mim me toca, filha, não lhe dê pena, que nenhuma me dá a mim». E a 21 de Setembro de 1591, faltando-lhe já poucos dias para entrar na eternidade, acrescentava: «Amanhã vou a Úbeda para curar umas febrezinhas, que, como há mais de oito dias me dão cada dia e não me passam, parece-me que precisarei da ajuda da medicina: mas com a intenção de voltar logo para aqui, pois com certeza que nesta solidão me encontro muito bem». Escolhe o convento de Úbeda porque no de Baeza é mais conhecido e estimado. No caminho – um penoso caminhar enfermo! – vai acompanhado por um irmão leigo. E um episódio simples dá-nos essa nota humana que dorme sempre escondida na alma dos santos. O seu fastio leva-o a desejar espargos. Não é tempo deles. Mas, providencialmente, encontram-nos os viajantes, como resposta celestial à debilidade humilde do fradinho. Em Úbeda, uns dias longos, de mais de dois meses, para acabar de consumar-se a união na cruz, uma erisipela numa perna, que pouco a pouco foi intoxicando todo o corpo. A septicemia foi-se apoderando de todo ele e manifestando-se em tumores cada vez mais impressionantes. O prior da casa trata-o com frieza e falta de consideração. Tudo é sofrimento. «Estou-me consumindo em dores!»; «Mais paciente, mais amor e mais dor!», exclamará outras vezes. Assim até 13 de Dezembro. Nessa noite agonizou santamente, docemente… Ao tocar a meia-noite, partindo do «esterqueiro do desprezo» foi cantar matinas ao céu, como ele mesmo repetira no dia último. Apesar da chuva abundante e de ele ser pouquíssimo conhecido em Úbeda, depressa se enche o convento com os que desejam venerar o cadáver. E o prior manda abrir todas as portas. Abertas ficaram sempre. A interminável procissão dos devotos, dos discípulos, dos admiradores continua a aproximar-se das suas relíquias; relíquias da sua vida e da sua pena, relíquias vivas da sua eterna lição. Recordemos brevemente as suas obras literárias. Valeram-lhe, em 1926, o título de doutor da Igreja. (Tinha sido canonizado em 1726). As obras maiores são vários poemas, maravilhosos poemas, que o levantaram ao cume do lirismo em geral: poesia pura, simbólica e ardente, cujo mistério se mantém inexplicável, apesar da sua simplicidade humana e dos antecedentes literários, bíblicos e extrabíblicos, que pretendamos encontrar-lhes. As obras que em prosa interpretam aqueles poemas são bem conhecidas: Subida do Monte Carmelo, Noite escura da alma (estas duas formam parte dum todo, que ficou afinal por terminar), Cântico espiritual e Chama viva de amor. No decurso delas, o itinerário que a alma percorre é claro e certeiro. Negação e purificação das suas desordens debaixo de todos os aspectos. «Nada, nada, nada… Nem isto nem aquilo…» Para se entregar ao Senhor através dos atos das virtudes teologais – fé, esperança e caridade – que vão cristificando mais a alma e apertando assim a mística união. União em que o Deus-amor se apodera mais e mais da alma, que fica em Deus perdida, endeusada no seu Deus. Alguns outros poemas, uns poucos avisos: «ditos de luz e amor; um punhado de cartas – restam-nos também como migalhas abençoadas, caídas da sua mesa. Tudo riquíssimo e sublime. Tudo serviu de manjar, desde há três séculos, aos espíritos melhores. A sua glória e magistério alargam-se com o tempo, cada vez mais. João da Cruz é o doutor místico por antonomásia, da Igreja, o representante principal da sua mística no mundo, a figura mais egrégia da cultura espanhola e uma das principais da cultura universal. Foi tomado como patrono da rádio, pois, quando pregava, a sua voz chegava até muito longe.

 

ARIDEZ ESPIRITUAL
Quanto mais a noite fica escura, mais perto está a aurora
Prof. Felipe Aquino / [email protected]

Muitas vezes, podemos passar por algum período de aridez espiritual, isto é, não temos vontade de rezar, torna-se difícil participar da Santa Missa, a reza do terço fica pesada, entre outros. Até mesmo a Sagrada Comunhão se torna um sacrifício diante das dúvidas que podem atingir a nossa alma. Parece que o céu sumiu. Como vencer esse estado de espírito no qual parece que Deus está longe e que nos falta a fé? Primeiro, é preciso verificar se esta situação não é tibieza, ou seja, causada por nossa culpa em não perseverar no cuidado da vida espiritual, e, sobretudo, verificar se não há pecados graves em nossa alma, que possam estar afugentando dela a graça de Deus. Se não houver pecados na alma, então, é preciso antes de tudo, calma, paciência e perseverança nos exercícios espirituais: oração, vida sacramental, caridade, penitência, entre outros. Mesmo sem vontade ou sem gosto, continuar, sem jamais parar, os exercícios espirituais. O Senhor, às vezes, permite essas provações para que aprendamos a “buscar mais o Deus das consolações do que as consolações de Deus”, como ensinou um santo. São João da Cruz, místico que tanto experimentou o que chamou de “noite escura da fé”, afirmou que “o progresso da pessoa é maior quando ela caminha às escuras e sem saber.” Muitas vezes, nos deleitamos nas orações gostosas, cheias de fervor sensível, como crianças quando comem doces. Mas quando vem a luta deixamos a oração. Veja o que nos diz a Palavra de Deus: “Filho meu, não desprezes a correção do Senhor. Não desanimes, quando repreendido por ele; pois o Senhor corrige a quem ama e castiga todo aquele que reconhece por seu filho (Pr 3,11s). Estais sendo provados para a vossa correção: é Deus que vos trata como filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não corrige?… Mas se permanecêsseis sem a correção que é comum a todos, seríeis bastardos e não filhos legítimos… Aliás, temos na terra nossos pais que nos corrigem e, no entanto, os olhamos com respeito. Com quanto mais razão nos havemos de submeter ao Pai de nossas almas, o qual nos dará a vida? Os primeiros nos educaram para pouco tempo, segundo a sua própria conveniência, ao passo que este o faz para nosso bem, para nos comunicar sua santidade” (Hb 12,5-10). Deus nos quer santos, e é também algumas vezes pela provação e pela aridez espiritual que Ele arranca as ervas daninhas do jardim de nossas almas. Coragem, alma querida de Deus! Jesus disse que Ele é a videira verdadeira, e Seu Pai o bom agricultor, que podará todo ramo bom que der fruto, para que produza mais fruto (cf. Jo 15,1-2). Não podemos querer apenas o açúcar do pão e renegar o pão do sacrifício. Às vezes, a meditação é difícil, a oração é penosa, distraída, surgem as noites e as trevas… Nessas horas é preciso silêncio, abandono, paciência. O Esposo há de voltar logo… Em breve vai raiar a aurora e os fantasmas vão sumir. Quanto mais a noite fica escura, tanto mais perto nos aproximamos da aurora. Deus sabe pelo que estamos passando, louvado seja o Seu santo Nome! É hora de abandono em Suas mãos paternas. Em meio às trevas alguns sentem o coração como se fosse de gelo, não sentem mais amor a Jesus, perdem a piedade, se sentem condenados. Que desoladora confusão espiritual! Nessas horas a única saída é fechar os olhos e dar as mãos a Jesus para ser guiado por Ele na fé; confiança e abandono, irmão! Só o Senhor sabe o caminho para sairmos deste matagal fechado e escuro. Deus nos prepara para a contemplação pelas provas passivas, ensinam os santos. Ele as produz e a alma apenas tem que aceitar. É o duro caminho dos que querem a perfeição. Ele está purificando a alma; o Cirurgião Celeste está nos operando a alma. São João da Cruz fala da famosa “noite dos sentidos” cheia de aridez e de provação, um verdadeiro martírio para a alma. Segundo o santo doutor, é Jesus que chama a alma a caminhar com Ele no deserto, mesmo queimando os pés e sendo queimado pelo sol, para se santificar. Calma, alma querida de Deus, Ele faz isso porque o ama muito! O fogo bom não é aquele “fogo de palha”, alto e bonito, mas rápido, que logo se apaga; mas é o fogo baixo que pega na lenha grossa e permanece por muito tempo. O fogo de palha é só para começar… É isso que está acontecendo; não se assuste; não se preocupe porque o gosto de rezar sumiu e se tornou agora um sacrifício penoso… Fé não é sentimento e muito menos sentimentalismo; fé é adesão, com a mente, a Deus, às Suas verdades e às Suas determinações. Não se preocupe em estar ou não “sentindo” fé ou devoção; apenas viva-a; vá à Missa, ao grupo de oração, ao terço, com ou sem vontade, com ou sem gosto, com ou sem sentimento. Assim, temos mais méritos ainda diante de Deus. Nessa situação talvez você precise de um diretor espiritual, especialmente na Confissão, para uma boa orientação.

O Advento e a necessidade de vigilância

“Que o Senhor não nos encontre dormindo, mas vigilantes”, diz padre Mário destacando o Advento como tempo de vigilância e obras de caridade

Padre Mário Marcelo Coelho, scj
Doutor em Teologia Moral

“Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: alegrai-vos!  O Senhor está perto”

O termo Advento vem do latim adventum que significa vinda ou chegada e refere-se às quatro semanas antes do Natal. Pelo Advento, nos preparamos para celebrar a primeira vinda do Senhor, ou seja, o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo e a expectativa da segunda vinda do Senhor. Por isso a característica deste tempo, com o qual começa o ano da Igreja, é a penitência como preparação para receber Aquele que está para vir. O caráter penitencial do advento é acentuado pela cor litúrgica, que é o roxo.

O tempo de Advento recorda-nos a realidade de um Senhor que vem ao encontro dos homens e que, no final da nossa caminhada por esta terra, nos oferecerá a vida definitiva, a felicidade sem fim. O tempo do Advento é, também, o tempo da espera do Senhor. A palavra fundamental é “vigilância”: o verdadeiro discípulo deve estar sempre “vigilante”, cumprindo com coragem e determinação a missão que Deus lhe confiou. Estar “vigilante” não significa, contudo, preocupar-se em ter sempre a “alma” limpa para que a morte não o apanhe com pecados; mas significa viver sempre ativo, empenhado, comprometido na construção de um mundo de vida, de amor e de paz.

Pedagogicamente dizendo, advento é um tempo que a Liturgia dispõe à Igreja com a finalidade de preparar os cristãos para a celebração do Natal. Como é natural, trata-se de uma preparação espiritual, incentivando os católicos a preparar o coração e a alma para o encontro com o Senhor. Mas, não é somente preparação do Natal. No caso do Advento, estamos diante de dois aspectos desta preparação: aquela da 2ª vinda e que Paulo escreve aos Tessalonicenses sobre o “Dia do Senhor”, o dia do juízo final, quando nos encontraremos face a face com Deus (1Ts 5,1-6) e, a preparação da 1ª vinda, que celebramos no Natal.

Quanto ao primeiro aspecto do Advento, de preparar-se para a 2ª vinda do Senhor, a vigilância espiritual pode ser considerada a partir do cuidado em vista do encontro final com o Senhor, no Final dos Tempos. Para isso, é preciso ficar atentos aos sinais dos tempos, como o próprio Jesus adverte, e o melhor meio para não se descuidar e nem se distrair dos sinais dos tempos é pela vigilância espiritual. Por vigilância espiritual entende-se o cuidado, para que o nosso espírito não se afaste das coisas de Deus, mas se mantenha fiel ao projeto divino. São muitas as ocasiões para distrair-se das coisas de Deus, podendo nos anestesiar daquilo que é divino e descuidar-nos de alimentar nosso espírito com as coisas do alto.

O Advento é tempo para incentivar com mais intensidade a oração, a leitura da Palavra, a penitência e as obras de caridade. A vigilância é feita preferencialmente com a oração e, a oração nos mantém acordados para o encontro do Senhor, em sua 2ª vinda.

Quanto ao segundo aspecto do Advento, da preparação para o Natal de Jesus, é a alegria da nossa salvação pela encarnação do Verbo de Deus. Neste tempo que a publicidade natalina vem alimentar nosso espírito com “belas” e “boas” mensagens de tempos novos, repletos de paz e de harmonia fraterna, é preciso ficar atentos para não nos alimentar com fantasias e imagens enganosas. O alimento espiritual deste tempo que nos aproxima do Natal não pode se limitar a poesias ou mensagens vazias. Precisa de algo mais sólido como a oração diária, a meditação da Palavra de Deus e as obras de caridade.

A coroa do Advento

Um dos muitos símbolos do Natal é a coroa do Advento que, por meio de seu formato circular e de suas cores, expressa a esperança e convida à alegre vigilância. Na confecção da coroa são usados ramos de pinheiro e cipreste, únicas árvores cujos ramos não perdem suas folhas no outono e estão sempre verdes, mesmo no inverno, ou seja, mesmo em tempos difíceis. Os ramos verdes são sinais da vida que resiste; são sinais da esperança. A coroa é envolvida com uma fita vermelha que lembra o amor de Deus que nos envolve e nos foi manifestado pelo nascimento de Jesus. Na coroa, são colocadas quatro velas referentes a cada domingo que antecede o Natal. A luz vai aumentando à medida em que se aproxima o Natal, festa da luz que é Cristo, quando a luz da salvação brilha para toda humanidade.

Quanto às cores das quatro velas, a mais usada é a cor vermelha. Em alguns lugares costumava-se usar velas nas cores roxa e uma vela cor rósea referente ao terceiro domingo do Advento, quando celebra-se o  “Domingo Gaudete” (Domingo da Alegria), a alegria de quem se sente perdoado. O terceiro domingo se inicia com a seguinte proclamação: “Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: alegrai-vos! O Senhor está perto”. Estando já próxima a chegada do Homem-Deus, a Igreja pede que “a bondade do Senhor seja conhecida de todos os homens”. Atualmente em muitos lugares tem-se usado cada uma de uma cor.

O tempo do Advento quer sensibilizar-nos para a celebração do Natal do Senhor e para a segunda vinda de Jesus. O apelo que Cristo nos lança à vigilância é para ser tomado bem a sério. Que o Senhor não nos encontre dormindo, mas vigilantes. Este é o convite que Jesus nos faz: “Vigiai!” Como os Profetas, Maria, José, os pastores, os Reis Magos… Se vigiamos, o nosso presente e o nosso futuro encontrar-se-ão. É isso a Esperança.

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