Por que dízimo? Por que pastoral do Dízimo?

 POR QUE DÍZIMO? POR QUE PASTORAL DO DÍZIMO?

 1. POR QUE DÍZIMO?

 Por ser Bíblico.

Primeiramente, deve-se dizer que o termo dízimo surge na Bíblia com Abrão, e, antes de ser normatizado pela lei mosaica, era praticado espontaneamente, como sinal de louvor e gratidão ao Deus Altíssimo (Gn 14, 18-20). No mesmo sentido é a manifestação de Jacó (Gn 28, 20).

O questionamento de que o dízimo, com seu percentual numérico, é próprio do Antigo Testamento, e que, no Novo Testamento, valeria o que São Paulo nos propõe, é verdade, porém, não com o texto restrito (2Cor 9, 7): “Dê cada um segundo o impulso de seu coração”, mas com o texto ampliado:

“Saibam de uma coisa: quem semeia com mesquinhez, com mesquinhez há de colher; quem semeia com generosidade, com generosidade há de colher. Cada um dê conforme decidir em seu coração, sem pena ou constrangimento, porque Deus ama quem dá com alegria” (2Cor 9, 6-7).

 Isso combinado com o Primeiro e o Segundo retratos da Comunidade de Atos, onde a vivência cristã era da partilha total:

“Todos os que abraçaram a fé eram unidos e colocavam em comum todas as coisas; vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de cada um” (At 2, 44-45).

“A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava propriedade particular as coisas que possuía, mas tudo era posto em comum entre eles” (At 4, 32).

“Entre eles ninguém passava necessidade, pois aqueles que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro e o colocavam aos pés dos Apóstolos; depois, ele era distribuído a cada um conforme a sua necessidade” (At 4, 34-35).

Portanto, mesmo que o dízimo literalmente signifique 10%, esse percentual é um mínimo em relação à proposta apostólica. Não nos preocupemos com esse percentual. O Dízimo Cristão perdeu sua conotação numérica e mantém seu sentido religioso, numa caminhada de fé que expresse amor a Deus, à Igreja e aos irmãos.

Lembremos, então, que o dízimo bíblico, antes de ser um percentual, fixado pela lei mosaica, era expressão de graça divina e manifestação espontânea de gratidão da criatura ao seu Criador. Ao oferecer o dízimo, Abrão praticou um ato religioso, demonstrando toda sua fé e gratidão ao Deus Altíssimo (Gn 14, 18-20).

O dízimo, antes de ser um percentual, é manifestação de obediência à Palavra de Deus. Os dízimos pertencem a Deus, sendo coisa consagrada (Lv 27, 30.32). Se pertencem a Deus, não são nossos. Devemos devolvê-los.

O dízimo, antes de ser um percentual, é parte da minha vida, é produto do meu trabalho que devo separar ( Dt 14, 22) e levar ao Templo, “lugar que Javé escolheu para fazer habitar seu nome” ( Dt 12, 11).

O dízimo, antes de ser um percentual, é um ato de generosidade com o qual glorificamos o Senhor, dando, com alegria e de boa vontade, um dízimo justo e fiel (Eclo 35, 7-8).

O dízimo, antes de ser um percentual, é um chamamento à conversão, na volta à observância da Lei do Senhor, corrigindo os enganos e livrando-nos do egoísmo e da infidelidade. (Ml 3, 9). Por isso, Malaquias nos exorta: “façam a experiência comigo” (Ml 3, 10ª).

Deus sempre é fiel e nos cumula de bênçãos. A oferta do dízimo justo e fiel nos permite o reconhecimento das graças e das bênçãos recebidas e não percebidas:

“Vocês hão de ver, então, se não abro as comportas do céu, se não derramo sobre vocês as minhas bênçãos de fartura” (Ml 3, 10b).

Pelo exposto, percebemos que dízimo é muito mais que um percentual. Ele, reitero, perdeu seu sentido literal/numérico da lei e retomou seu sentido religioso original. Mesmo sob a égide da lei mosaica, o dízimo tinha sentido religioso para os tementes a Deus (Tb 1, 6-8).

A Lei veio para favorecer a organização do povo e o dízimo veio para que o povo de Deus tivesse um sagrado instrumento de sustentação da comunidade.

No Novo Testamento, também há referência textual ao dízimo. Jesus Cristo não veio abolir a Lei, e, sim, aperfeiçoá-la (Mt 7, 17), ensinando-nos que o dízimo deve ser precedido por uma vida de justiça, de misericórdia e de fidelidade que se resume no mandamento do amor. Dízimo é um ato de amor, é a medida do amor, da justiça e da gratidão para com Deus.

O Padre Cristovam Lubel, em seu livro O Dízimo e as Ofertas, observa:

 “Jesus não condena a prática do dízimo. Ele o usa para ressaltar o valor prioritário da Justiça. Quanto ao dízimo Ele até o recomenda ao dizer que ‘isto é que deveríeis praticar (a justiça, a misericórdia e a fidelidade) sem contudo deixar aquilo’ (o dízimo) (Mt 23, 23b)”.

Padre Dejoce Vanderley Adorno afirma:

 “Se por um lado, convém reforçar que estamos desobrigados de contribuir com Dízimo por Lei ou até mesmo por coerção psicológica, por outro lado temos o dever da contribuição pela Graça, pelo amor” (Dízimo e Oferta na História da Salvação p. 47).

“Jesus não se comportou como antidizimista, nem se opôs à lei mosaica. Pelo seu parecer, nota-se ainda que sua posição era favorável ao Dízimo, todavia condena e corrige a hipocrisia, ou seja, os excessos e formalidades religiosas exteriores dos fariseus” (p. 49).

E, mais adiante, o Pe. Dejoce sintetiza:

 “na nova interpretação que o Mestre deu à Lei mosaica no tocante ao Dízimo, ‘os filhos do Reino’ estão isentos. Isentos, é claro, quanto ao Dízimo sob as prescrições escrupulosas da Lei antiga (como taxas fixas, impostos e obrigações, no sentido aritmético e matemático: 10% dos rendimentos) (p. 59).

Assim, Jesus Cristo nos legou, não um dízimo percentual, numérico, mas um dízimo de amor total. Por sua vida, paixão, morte e ressurreição Cristo nos trouxe a salvação e resgatou-nos o verdadeiro sentido do dízimo como expressão de amor a Deus, como sinal de partilha comunitária e de solidariedade com os irmãos.

As comunidades apostólicas eram perseverantes na oração, perseverantes na escuta dos apóstolos, perseverantes no partir o pão e perseverantes na partilha de bens, colocando tudo em comum (At 2, 42).

Assim, chegamos ao DÍZIMO CRISTÃO como expressão de amor a Deus, à Igreja e aos irmãos. Isso será possível se houver acolhimento da Palavra de Deus e conversão do coração, conforme a exortação de São Paulo, referida anteriormente.

Não há dúvida que ser dizimista é graça divina, é uma caminhada de fé. Dízimo e fé crescem e caminham juntos. Por isso, todos devem ser dizimistas. É um compromisso de batismo que deve ser resgatado. Ninguém está dispensado do dízimo comunitário. Também o pobre, na sua condição, tem o direito de ser um dizimista justo e fiel. Não deve ser excluído. O melhor dízimo não é o maior em quantidade, e sim, aquele que é ofertado com alegria e de um coração agradecido.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil destaca:

“o sistema de dízimo parece pastoralmente rico, portanto, enquanto sistema de contribuição sistemática (mensal), de compromisso moral com a comunidade (não jurídico, e fixado de acordo com a consciência formada de cada um (sem índice aritmético)

Tirar-se-ia assim da palavra dízimo suas conotações matemáticas e históricas, conservando, prevalentemente, seu sentido religioso. Sob esse aspecto não nos parece útil e aconselhável substituí-la por outra palavra. “A palavra dízimo tem toda uma ressonância bíblica e tradicional na consciência cristã, que pode e deve ser valorizada dentro de um novo contexto e sentido histórico” (Pastoral do Dízimo, estudos da CNBB – 8, 6ª Ed, p. 51).

Nesse sentido, também o Pe. Cristovam Lubel se manifesta:

“Creio que, se ainda houvesse alguma dúvida, teria sido dissolvida com esse texto da CNBB. A Igreja no Brasil mantém o termo dízimo mas não impõe os 10% como obrigação. Aliás, não impõe nenhuma porcentagem, deixando a cada um a decisão de oferecer segundo o seu coração, embora sugira os 10% como um referencial… ao mesmo tempo o aponta como uma meta a ser atingida e até mesmo ultrapassada” (O Dízimo e as Ofertas, p. 121 e 122;

Nos dias de hoje, convém questionamos se, para sustentarmos as nossas paróquias, acolhemos a Palavra de Deus, optando pelo dízimo, ou continuamos a acolher a palavra dos homens, “recorrendo a formas de arrecadação que não são coerentes com o evangelho” (Frei Michels).

 Não há nenhuma dúvida. É com o dízimo, Palavra de Deus, que devemos sustentar as nossas comunidades em todas as suas dimensões. “A Igreja cresce em qualidade quando cresce a comunhão e a participação mediante o dízimo” (Frei Michels).

 Por que, então, continuamos a acolher a palavra dos homens, buscando o lucro em nossas festas excludentes (os fiéis “sem cartão”) e promoções viciantes (bingos e bebida alcoólica).

A Igreja é sacramento de Cristo (LG, 1), é Comunidade sagrada, povo santo de Deus (LG, 12).

Não temos nenhum outro instrumento sagrado de sustentação que não seja o dízimo. “Dízimo pertence a Deus. É coisa consagrada” (Lv 27, 30). E nós devemos devolvê-lo a Deus, entregando-o à Igreja a serviço da Comunidade de Fé.

Assim, com fé e humildade peçamos perdão a Deus pelas nossas incoerências pastorais e promoções paroquiais inadequadas, pedindo ao Espírito Santo que nos dê o discernimento evangélico, a força e a coragem para mudar o que for necessário.

É o que nos propõem as Diretrizes Diocesanas de Novo Hamburgo:

 “Devemos buscar a renovação de nossas comunidades através da conversão pastoral pela auto-avaliação e coragem de mudar (DGAE, 46), reconhecer as faltas e os erros pastorais na condução de nossas comunidades. Com o tempo, deveremos abandonar os vigentes métodos de “promoções” paroquiais, fazendo a opção pelo dízimo como instrumento bíblico de sustentação, acolhendo, sem restrições, a Palavra de Deus” (Diretrizes Diocesanas, p. 22).

2. POR QUE PASTORAL DO DÍZIMO?

 Por ser opção pastoral paroquial.

O serviço de evangelização exige oração, conhecimento e vivência da Palavra de Deus que conduzirá o fiel a dar testemunho de vida cristã, possibilitando a conversão pessoal e comunitária. Nesse sentido, poderíamos dizer que a Pastoral do Dízimo é causa e efeito da ação evangelizadora na Comunidade de fé.

No AT, o dízimo já possuía a dimensão, social e missionária:

a)                  Dimensão religiosa:

“Eu corria a Jerusalém com os primeiros produtos da lavoura e as primeiras crias dos animais, com o dízimo do gado e a primeira lã das ovelhas, e as entregava aos sacerdotes, filhos de Aarão, para o Altar. Aos levitas que estavam exercendo função em Jerusalém, eu entregava o dízimo do trigo,..” (Tb 1, 6b-7).

b)                 Dimensão Social:

“O terceiro dízimo, eu dava para os órfãos, as viúvas e os estrangeiros” (Tb 1, 8a).

c)                  Dimensão Missionária – A dimensão missionária do dízimo está presente, intrinsecamente, na missão do povo de Deus de ser fiel à Aliança.

Porém, no NT, Jesus Cristo, como Bom Pastor (Jo 10, 11), Caminho, Verdade e Vida (Jo 14, 6) e nos ensinou o serviço da caridade, do amor: “eu vim para servir e não para ser servido” (Mt 20, 28). Promoveu a vida dizendo: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10, 10b). Pessoalmente, deu-nos a ordem e enviou-nos à missão.

“Portanto, vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos…. ensinando-os a observar tudo o que ordenei a vocês” (Mt 28, 19-20).

Acolher a Palavra de Deus e ensinar a observar tudo o que Jesus nos ordenou, essa é a grande pastoral comunitária da qual os cristãos católicos, conscientes e responsáveis por sua comunidade paroquial, sentem-se chamados a sustentá-la com o dízimo em sinal de amor e gratidão a Deus.

 O Dízimo é uma opção pastoral paroquial. Ela é uma pastoral abrangente, inclusiva, construtora de comunhão e participação. Como consequência dessa evangelização, teremos recursos financeiros para a sustentação comunitária e investimentos na própria ação evangelizadora.

Nessa dimensão missionária da Pastoral do Dízimo inclui-se também, a Pastoral Vocacional, cuja formação de ministros ordenados (Padres e Diáconos) ou de discípulos missionários de Jesus Cristo, dependem dos recursos provenientes do dízimo comunitário.

d)                 Dízimo é Pastoral na dimensão Catequética – O dízimo é tema obrigatório na pastoral catequética para as crianças e os adultos. Na pastoral catequética ensinamos a observar o 5º Mandamento da Igreja, isto é, ensinar a exercitar o direito que todos, adultos e crianças, tem de partilharem e serem dizimistas justos e fiéis na comunidade da qual pertencem. As Diretrizes Diocesanas para a Catequese orientam:

“convidar os catequizandos a participar do dízimo-mirim, ação que ajuda os catequizandos e sua família a formar uma consciência comunitária, no sentido da manutenção da evangelização” (DDCatequese, p. 44).

e)                  Dízimo é Pastoral na dimensão Familiar – A família é a célula da comunidade de fé. É chamada a participar na sustentação da Igreja através do dízimo. O Manual da Pastoral do Batismo, (p.25), dedica uma página inteira de catequese e orientações quanto ao dízimo paroquial. É uma conscientização dos pais do verdadeiro sentido do dízimo na Igreja, na qual o neo-batizado está sendo acolhido e inserido pelo Batismo na Comunidade de fé, sacramento esse que é gerador do compromisso de sustentação comunitária através do dízimo.

A 14ª Assembléia Geral dos Bispos do Brasil, em 1974, estabeleceu como meta para todas as Igrejas Particulares do Brasil a implantação do Dízimo e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), de 1975, intitulou o documento nº 8, como PASTORAL DO DÍZIMO.

“A superação do sistema de taxas pelo do dízimo adquire, assim, um sentido pastoral essencial. Ele é muito mais autêntico e verdadeiro para expressar a verdadeira ligação do cristão com a Igreja onde vive o mistério da salvação” (p. 54).

            As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja (2009 a 2012), destaca:

 “Os leigos, junto com os ministros ordenados, são chamados a organizar a Pastoral do Dízimo…” (DGAE, 164b)

Por fim, Pe. Jerônimo Gasques aprofunda a questão pastoral dizendo:

 “O dízimo é uma opção pastoral e não uma opção de pastoral devido ao fato que o dizimista não opta por uma determinada forma de fazer pastoral, mas sim, ele se compromete com uma determinada comunidade para ali, através do dízimo, a comunidade possa ter o sustento suficiente para a sua caminhada. Isso é o que distingue de toda e qualquer forma de pastoral na Igreja. O sistema de contribuição dizimal não tem um destino, mas se destina à comunidade como um todo, ao passo que quando um leigo assume uma atividade pastoral na Igreja ele assume um trabalho determinado por objetivos que são próprios e específicos daquela tarefa pastoral” (O Dízimo não Acontece por Acaso p. 31).

Por tudo isso, podemos afirmar que, na vastíssima literatura existente, não encontramos outro nome e nem similar para a “Pastoral do Dízimo”. A Pastoral do Dízimo sugere conversão do coração agradecido que assume a missão evangelizadora na comunidade e, como efeito, advirá, com o dízimo, os recursos financeiros necessários para o atendimento das comunidades em todas as suas dimensões.

Enquanto vermos o Dízimo sob a ótica de percentual, como uma opção apenas financeira, obrigatória, e a Pastoral do Dízimo, como uma equipe arrecadatória, vamos continuar querendo mudar o nome.

Porém, é nós que devemos mudar, convertendo-nos, vendo o dízimo como um serviço pastoral, um instrumento bíblico de evangelização e de sustentação de nossas comunidades de fé. Reconheçamos o dízimo, não como uma lei que obriga e sanciona, mas, sim, o dízimo como algo sagrado, como graça divina que, além de prover a sustentação paroquial, nos purifica dos egoísmos, nos previne dos vícios promocionais de nossas paróquias e nos auxilia no caminho da santificação.

 Paz e Bem!

 Rinaldo Alberton

 Coordenador Diocesano de Pastoral do Dízimo

             E-mail: [email protected]

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