Fazer a verdade

Fazer a Verdade

Dom Carlos Azevedo – Bispo Auxiliar de Lisboa

Correio da Manhã, 14/8/2009

É muito fácil para qualquer força partidária ceder à meia-verdade para servir a lógica do poder.

Proclamar por ética política e exigir atitudes de verdade é bom caminho, mas via difícil na prática real. Tinha prometido voltar à Carta encíclica de Bento XVI para chamar a atenção para algumas idéias mais relevantes. Vem a talho de foice reparar no princípio essencial da Doutrina Social da Igreja, qual seja o da proclamação da verdade do amor na sociedade. Essa base orienta os cidadãos em contextos sempre novos. No atual contexto cultural, apto a relativizar e negligenciar a verdade, o apelo papal soa como alerta: “Só na verdade é que a caridade refulge e pode ser autenticamente vivida. A verdade é luz que dá sentido e valor à caridade.” A mensagem não serve apenas aos observadores exteriores da ação social da Igreja, atinge igualmente os servidores internos da caridade. O “risco fatal do amor numa cultura sem verdade” degenera em sentimentalismo, tão corrente e desprestigiante.

Se para os cristãos “a caridade é tudo”, não se pode dissociar da verdade. A imediata ação, mesmo de rotina caridosa, deve conjugar-se com procurar, encontrar e expressar a verdade das situações a socorrer. Esse exercício esforçado para chegar à verdade e para a essa luz compreender, avaliar e praticar a caridade não se confunde com leve conversa eleitoral ou pedra de arremesso para adversário político. Pretende ultrapassar opiniões ou sensações subjetivas. A procura da verdade começa por um processo pessoal de cada um sobre si próprio. Tentar descobrir o projeto pessoal de Deus para cada um e aderir-lhe firmemente constituem o primeiro passo do verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade.

Bento XVI, na Caritas in veritate, considera uma forma de caridade defender a verdade, propô-la com humildade e convicção e testemunhá-la na vida. Esta fórmula garante uma visão completa e autêntica, capaz de aliar a busca da substância das coisas com a vivência pessoal do que se defende e propõe. Aliás, só esta atitude vital goza de autoridade. Só a verdade da caridade cria comunhão, motiva adesão e provoca imitação.

Realmente, “sem verdade, sem confiança e amor pelo que é verdadeiro, não há consciência e responsabilidade social e a atividade social acaba à mercê de interesses privados e lógicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade”. Perceber como criar coesão social em tempo eleitoral será agulha no palheiro. É muito fácil e tentadora para qualquer força partidária ceder à meia-verdade ou à falsidade para servir a lógica do poder e não a lógica do bem comum do povo. Só critérios de verdade garantem sólida liberdade e futuro novo.

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