Eulogio López: “não existem crises econômicas, mas crises morais”

Eulogio López: “não existem crises econômicas, mas crises morais”

Entrevista com o diretor de “Hispanidad”

MADRI, segunda-feira, 13 de julho de 2009 (ZENIT.org).- A encíclica “Caritas in veritate” ensina políticos, empresários, economistas e sindicalistas que toda crise econômica esconde uma crise moral, assegura o diretor de Hispanidad (www.hispanidad.com).

Eulogio López, nesta entrevista concedida a ZENIT, ilustra algumas das surpresas que a terceira encíclica de Bento XVI suscita em seus leitores.

– Você dirige uma publicação lida, antes de tudo, por empresários, economistas e sindicalistas. Esta encíclica tem algo a dizer para seus leitores?

– Eulogio López: Tudo. “Caritas in veritate” é uma encíclica muito original… porque vai à origem das coisas, aprofunda. Parece um pouco desordenada, talvez por ser muito ampla. Sua principal virtude? Em minha opinião, é que aborda algo que o empresário, o banqueiro ou o sindicalista não encontram frequentemente: que caridade é amor, que amor é solidariedade e que solidariedade é justiça social. Estamos falando do mesmo com diferentes nomes. Direi de outro modo: com o mesmo coração com que amamos nossos filhos, amamos a coletividade, o bem comum ou, como diriam os franceses, sempre tão cartesianos, a questão social. O bem comum, um dos quatro princípios não negociáveis de Bento XVI, não é mais que outro tipo de amor, de caridade, ou seja, de doação e de entrega de si mesmo. E sem esse amor, não há política econômica que valha.

Neste sentido, uma das originalidades da encíclica é a gratidão. Bento XVI formula (ponto 38) afirmações tão surpreendentes como estas: “Sem a gratidão não se alcança nem sequer a justiça”, ou “a atividade econômica não pode prescindir da gratidão”, além de apontar para outro dos tópicos mais habituais no universo financeiro: “A gratidão não pode ser deixada nas mãos do Estado”.

– Como você diz, a encíclica introduz a “caridade” como categoria da doutrina social. Até agora parecia que este papel correspondia à justiça, enquanto que a caridade ficava um pouco circunscrita à opção pessoal, privada, sobretudo para solucionar as descompensações próprias de todo sistema social. A “caridade”, entendida como a entende o Papa, pode entrar no dicionário dos economistas? 

– Eulogio López: É difícil, mas para isso se escreveu a encíclica. Os economistas costumam ficar no “do ut des”, o que o Papa chama justiça comutativa, meramente contratual. A encíclica diz que deve-se chegar à justiça distributiva – por assim dizer uma vez conseguido o benefício por métodos legais, repartir entre os mais necessitados – mas dá um surpreendente passo a mais: a gratidão. Pois veja você, isso é o que as empresas chamam, com a boca pequena, responsabilidade social corporativa. Ramón Areces explicava de sua maneira: “Tenho o dever de devolver à sociedade algo que a sociedade me deu”.

– O Papa afirma que a crise demográfica acaba provocando uma crise econômica. Acha que os professores de economia concordam com esta afirmação? 

– Eulogio López: E recordou isso ao abortista Barack Obama nesta sexta-feira. O Papa propõe uma e outra vez a relação entre aborto e economia – especialmente nos números 15 e 28 –, algo que os empresários não costumam nem ouvir, com duas conclusões. Sem o direito à vida, o resto de direitos humanos, inclusive os econômicos, são impossíveis, porque se não se respeita a vida não podem desenvolver-se. Segunda conclusão: todas as crises econômicas são crises demográficas: o Ocidente não está deixando de ser o motor do desenvolvimento econômico do mundo porque perdeu o trem tecnológico, mas porque não tem filhos. Ter filhos é um preceito moral mas também uma lei econômica. Sem filhos não há pessoas, não há contribuintes que suportem o Estado de Bem-Estar. É a tautologia de que se não há vitalidade as sociedades morrem. Portanto, o aborto e o conjunto de políticas antinatalistas são os vilões de uma economia sã.

As muitas linhas que o Papa dedica ao direito à vida são do mais pertinente em uma encíclica “econômica”. Todas as crises econômicas são crises demográficas e crises da família, que constitui uma célula de resistência à opressão e o grande dique de contenção frente a pobreza. Um Estado que não cuida da família constrói sua própria ruína. Ou o que é o mesmo: o que diz o Papa é que não existem crises econômicas, mas crises morais, crises do egoísmo. O aborto não é senão puro egoísmo, pura comodidade, puro aburguesamento. E o chamado controle da natalidade é a supressão de todo tipo de autocontrole de si mesmo.

– O Papa fala várias vezes de “democracia econômica”, ao falar do papel dos consumidores. Novos protagonistas da doutrina social? 

– Eulogio López: Sim. A frase mais famosa na “city” financeira ocidental durante a última década foi aquela de “deve-se criar valor para o acionista”, um tópico que provoca muitas piadas e muitas maldades entre os jornalistas especializadosem economia. Ahistória é esta: João Paulo II recorda que não, que a empresa também trabalha para seus empregados porque o trabalho não é outro fator a mais da produção mas, como recorda o Papa Wojtyla, é “um fator humano”. Mas o Papa polonês acrescentava um ponto mais: também deve-se gerar valor para o consumidor, para o público, ou seja, o cliente, verdadeiro elemento constitutivo da empresa. Pois bem, agora chega Bento XVI e nos surpreende com outro anexo: a empresa também deve velar pelos interesses do fornecedor (número 40). Com efeito, também faz parte da empresa. E a menção deste novo elemento não pode ser mais pertinente, porque o meio do oligopólio das multinacionais sobrevive graças a duas práticas lamentáveis: criar moldes de exigência altíssimos e pressionar o fornecedor (quando não acrescentam o engano ao consumidor). Nisso muitas grandes empresas baseiam suas melhoras de produtividade.

– O que é necessário para que esta encíclica chegue – hoje é muito pedir que as pessoas a leiam – aos líderes econômicos e políticos? 

– Eulogio López: Que a leiam! Fiquei surpreso quando o presidente norte-americano comentou que a leria em sua viagem Roma-Gana. Acho que não vai dar tempo. Esta encíclica não pode ser lidaem diagonal. Quandoos empresários e os políticos se derem conta – se darão conta? – do que realmente Bento XVI prega, começarão a tremer. O que está lhes dizendo é que a solidariedade não basta – o que, também, fazem com o dinheiro dos demais – mas que deve-se chegar à gratidão e que, quando o fizerem, deverão repetir as palavras de Cristo: “somos servos inúteis, fizemos o que tínhamos que fazer”.

– O Papa fala de especulação financeira…

– Eulogio López: Menos mal, porque é o termo tabu desde que estourou a crise econômica, há agora dois anos, em agosto de 2007. Durante esse tempo, as bolsas de valores perderam 22 bilhões por causa de dois egoísmos. O da especulação e o do comodismo, ou seja, o excessivo endividamento ou viver acima de nossas possibilidades, especialmente os ricos que, no século XXI, não são os que têm mais economias, mas os que têm mais poder, ou seja, mais capacidade de endividamento, de comodismo. O Papa ressuscita um termo que nenhum broker quer citar – especulação – unido a outro cuja própria existência todo intermediário financeiro se nega admitir: economia real.

Explicarei de outro modo: a crise dos subprimes não tem nada a ver com as subprimes, ou hipotecas outorgadas a quem não possuía avais suficientes, em troca de um maior custo. Alguém acredita verdadeiramente que o atual cataclisma que sofremos, autêntica crise econômica permanente, podia provir do crédito mais seguro que existe, o crédito com garantia real, a particulares, que são os que melhor pagam, em um país como os Estados Unidos, não nos demais, por exemplo, não na Europa, onde a banca está mais controlada? Não senhor. A atual crise chegou pela titularização – pura especulação financeira – sobre essas hipotecas de lixo, convertidas em ativos financeiros totalmente alheios ao bem comum, ou seja, a oferecer dinheiro a quem, de outra forma, não poderia comprar uma casa.

Esses títulos valores montados sobre os subprimes em nada beneficiavam ao devedor, só ao especulador, que cobrava menos, mas cobrava antes, e ao intermediário, que especula com essa dívida-lixo montada sobre uma hipoteca de lixo. Em suma, o que provocou a crise é o especulador de Wall Street e de outras praças financeiras do mundo, com os bancos de investimento à frente. Ao final, essa especulação financeira, desconectada da economia real, acabou por destroçar a economia real… uma vez mais. E o grave é que, em dois anos, tudo o que ocorreu aos líderes mundiais é que todos devemos pagar os pratos quebrados pelos especuladores, para que possam continuar perpetrando seu venenoso trabalho especulativo. Por isso entramos em uma crise permanente.

Desenvolvido por Origy Networks – Criação de sites e propaganda