“Caritas in veritate”: um documentário moral, não político

“Caritas in veritate”: um documentário moral, não político

Por Carl Anderson, cavaleiro supremo dos Cavaleiros de Colombo

NEW HAVEN, Connecticut, quinta-feira, 9 de julho de 2009 (ZENIT.org).- Publicamos o comentário que Carl Anderson escreveu para ZENIT sobre a encíclica Caritas in veritate. Anderson é cavaleiro supremo dos Cavaleiros de Colombo e um autor best-seller segundo a classificação do New York Times.

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Muito antes da “esquerda” e da “direita”, estava o Evangelho, e muito depois de que essas etiquetas políticas tenham caído no esquecimento, o Evangelho permanecerá.

À luz disto, é sumamente importante que recebamos a encíclica do Papa Bento XVI Caritas in veritate como um documento que deverá informar nossa perspectiva.

Podemos resumir assim o pensamento do Papa sobre a economia: cada um de nós deve responder à pergunta de Cristo: “Quem dizeis que eu sou?”.

Se nós, com Pedro, respondemos “O Messias”, então isto deve dirigir o eixo de nossa vida.

Nossa realidade mais importante deve ser a verdade de nossas relações. Neste sentido, podemos entender como a lei e os profetas poderão resumir-se em dois mandamentos de Cristo: que amemos a Deus com todo nosso coração e aos demais como a nós mesmos.

Assim somos capazes de falar de Caritas in veritate.

Desde o momento em que aceitamos Cristo e esses dois mandamentos, já não podemos voltar a formular a pergunta de Caim: “Acaso sou eu o guardião de meu irmão?”.

Em seu lugar, devemos compreender que nosso exercício da liberdade não pode tomar a forma de uma simples acumulação do máximo de riqueza que possamos.

Ao contrário, tudo o que nós fazemos livremente deve refletir essa realidade e devemos ter em conta, em todas nossas ações, seus efeitos sobre os demais.

Não precisamos ir além das duas primeiras palavras do Pai Nosso, que Bento XVI cita ao final deste documento, para ver a família humana comum à que pertencemos.

Com esta finalidade, devemos recordar alguns fatos importantes:

Em primeiro lugar, nós não devemos perguntar-nos como esta encíclica respalda nossa visão do mundo, mas ao contrário, como nossa visão do mundo deve mudar em resposta a este documento.

Os comentaristas devem evitar a tentação de tentar analisar a encíclica a partir de suas próprias perspectivas ou através de uma visão política.

As teses do Papa deixam claro que um fundamento ético deve transcender a política e, como aparece explícito no documento, as soluções técnicas pertencem aos atores políticos.

Em segundo lugar, o mundo merece uma economia de mercado com consciência, tal e como os eventos da economia global deixaram claro no ano passado.

Em 1985, o Papa Bento XVI criticou o marxismo em um documento, por excluir tanto Deus como uma adequada função humana e, portanto, por ser “determinista” demais.

Também advertiu que as economias de mercado corriam o mesmo risco de colapso se também excluíssem ou ignorassem o componente ético da tomada de decisões individuais.

Realmente, os acontecimentos recentes confirmaram sua conclusão e, portanto, esta encíclica, e seu chamado por um sistema moral, são acima de tudo irresistíveis.

Em terceiro lugar, enquanto o debate mundial se centra nas soluções técnicas para a crise econômica, o Papa Bento XVI está nos pedindo que voltemos a avaliar o próprio fundamento de nosso sistema.

Também que construamos sobre a rocha dos valores éticos ao invés de ser sobre a areia do determinismo.

Em quarto lugar, o Papa nos chamou a uma realidade econômica que deve respeitar a vida de todas as pessoas, inclusive as menores e mais necessitadas.

Isto é notável e oportuno por sua vez, como o é sua indicação sobre a necessária função que a religião deve desempenhar no espaço público.

Em quinto lugar, esta encíclica é tanto um documento Católico como um documento católico.

Vê-la a partir do ponto de vista puramente nacional seria tão equivocado como vê-la a partir de um ponto de vista político.

Por exemplo, sobre a exortação do Papa por uma “redistribuição” justa, não se pode indicar nenhum país que não distribua a riqueza de seus cidadãos de alguma maneira.

O Papa pergunta se, independentemente do país, isto se faz com justiça.

O que acontece em países de economia flutuante, com um nível de vida muito além do que muitos do mundo podem imaginar, deve ser refletido.

Certamente temos a responsabilidade de ajudar nossos vizinhos. Podemos e devemos fazer mais.

Mas não somos os únicos. É justo que um “presidente” de um país em um pobre lugar do mundo deposite bilhões de dólares em u ma conta de um banco suíço, enquanto seu povo vive com um dólar ao dia?

É justo que uma população morra de fome enquanto uma oligarquia aumenta sua riqueza? Realmente, todos temos direito a comer e aos serviços básicos.

Um cristão deve ser uma pessoa para os demais. E mais, não só os cristãos, mas todo o mundo está chamado a viver desta maneira.

Durante muito tempo, muitas pessoas se comportaram como se devessem lealdade somente a si mesmos.

Todos vimos os resultados dessa conduta e sabemos que é um modelo pobre, ética e economicamente.

Agora, as pessoas estão buscando uma bússola moral e sabem que o Papa Bento XVI tem uma. Mas se uma bússola pode assinalar o caminho, segui-lo depende de nós.

Encíclica evidencia contribuição do cristianismo à conversão social

Comentário do movimento Comunhão e Libertação

SÃO PAULO, quinta-feira, 9 de julho de 2009 (ZENIT.org).- O movimento Comunhão e Libertação considera que Caritas in veritate traz “a originalidade da fé e a contribuição que o cristianismo pode dar à conversão social e ao desenvolvimento”.

Em mensagem sobre a nova encíclica de Bento XVI enviada a Zenit hoje, o movimento assinala ser decisivo o Papa advertir que “o homem moderno está erroneamente convencido de ser o autor de si mesmo, da sua vida e da sociedade”.

“Pelo contrário, a verdade de nós mesmos é, antes de tudo, ‘dada’: ‘A verdade não é produzida por nós, mas sempre encontrada, ou melhor, recebida’”, destaca a mensagem.

“Por isso o Papa afirma que ‘a caridade na verdade é a principal força propulsora para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade. Em Cristo, a caridade na verdade se torna o Rosto da sua Pessoa’”, cita o movimento.

“Bento XVI nos chama ao fato – sempre mais esquecido, como atualidade nos testemunha – que ‘um cristianismo de caridade sem verdade pode facilmente ser torçado por uma reserva de bons sentimentos, úteis para a convivência social, mas marginais. Deste modo, não haveria mais um lugar exato e verdadeiro para Deus no mundo’.”

Comunhão e Libertação assinala que Caritas in veritate “sublinha que a Igreja ‘não tem soluções técnicas para oferecer e não pretende se intrometer na política’, mas tem uma missão a cumprir: anunciar Cristo como ‘o primeiro e principal fator de desenvolvimento’.”

“Neste caminho de testemunhos nos sentimos desafiados a verificar – dentro dos acontecimentos da vida – o alcance da fé em Cristo, como Aquele que nos coloca em condições justas para enfrentar os milhares de problemas econômicos, financeiros, sociais e políticos que a encíclica enumera”, destaca o movimento.

“Caritas in veritate” faz da questão social uma questão antropológica

Apresentação da encíclica na Espanha

MADRI, quinta-feira, 9 de julho de 2009 (ZENIT.org).- A nova encíclica do Papa não pode ser lida a partir de uma ótica econômica ou política, pois se cairia no reducionismo; deve ser lida a partir de uma ótica antropológica e teológica – indicou a professora da Universidade Pontifícia de Salamanca em Madri, María Teresa Comte Grau, durante a apresentação da encíclica realizada nesta quarta-feira na sede da Conferência Episcopal Espanhola, em Madri.

“A questão social se converteu em uma questão antropológica, o que nos convida a perguntar-nos pelo homem, a superar o reducionismo psicológico para redescobrir a dimensão espiritual do ser humano”, declarou.

Para Compte, “a proposta da encíclica é um humanismo cristão cujo centro é Deus”.

Neste humanismo proposto por Bento XVI, “o homem reconhece e aceita que, para desenvolver-se como tal, precisa de algumas condições sociais que lhe permitam crescer em toda a sua integridade, em todas as suas dimensões”.

Também falou deste tema o porta-voz da CEE, Dom Juan Antonio Martínez Camino, bispo auxiliar de Madri, na coletiva de imprensa de apresentação.

Para o prelado, na proposta que o Papa faz, “a questão fundamental é se o homem é um produto de si mesmo ou se está em dependência de Deus”.

“Se o ser humano fosse um produto de si mesmo, o progresso consistiria em fazer coisas, na vitória da técnica”, disse.

E acrescentou: “Mas se depende de Deus, o progresso é uma vocação; o ser humano está chamado a ser mais, ao progresso completo, porque escutou o chamado de Deus”.

“Daí radica o verdadeiro humanismo – sintetizou. Sem vida eterna, que é a vocação do ser humano, não há progresso.”

Dom Martínez Camino se referiu também à lei moral natural da qual o Papa fala em sua encíclica.

Advertiu que não deve ser confundida com as leis da natureza, com as leis físicas, mas que “responde à gramática da natureza humana na que se expressa a linguagem divina”.

“Aí está a base da dignidade do homem – resumiu. Por isso, os direitos do homem não podem se fundamentar somente nas deliberações de uma assembléia de cidadãos.”

O prelado também recolheu a indicação do Santo Padre segundo a qual “não haverá respeito ao meio ambiente se a ecologia humana não for cultivada na família e na escola, de acordo com a verdadeira natureza do ser humano”.

Globalização

Marcando a encíclica social na história da doutrina social da Igreja, Dom Martínez Camino afirmou que Caritas in veritate é uma “homenagem a Paulo VI, autor da Populorum Progressio, que deve ser considerada como a Rerum novarum de nosso tempo”.

O prelado afirmou que “o diagnóstico de Paulo VI continua sendo válido”, e Bento XVI “o amplia à nova situação mundial, de maior proximidade e unidade”.

“Tudo está mais perto; fala-se de deslocalização dos mercados, de globalização, mas a maior relação entre todos os homens no mundo não é sempre igual a uma maior proximidade na solidariedade – explicou. Este é o diagnóstico e o desafio.”

O prelado destacou que, segundo explica Bento XVI no texto, “a nova conjuntura global oferece novas possibilidades que não foram aproveitadas até agora”.

“A encíclica se propõe como uma ajuda para uma necessária e exigente reformulação das estruturas econômicas e sociais no mundo, que está pendente”, assegurou.

Dom Martínez Camino assinalou como o Papa aponta ao relativismo físico e moral como base das contradições do sistema atual; contradições que fazem que, por um lado, sejam reivindicados supostos direitos e se pretenda que as instituições públicas os promovam, enquanto há direitos fundamentais, como o direito a comer ou ao trabalho, que são vulneráveis em grande parte da humanidade, denunciou.

Como já apontou Paulo VI e confirma agora Bento XVI, disse o bispo espanhol, “a causa mais fundamental da injustiça não é de ordem material; a mais radical é a falta de fraternidade entre os homens”.

A razão por si só é capaz de estabelecer uma convivência entre os homens, mas a irmandade unicamente nasce de uma vocação transcendente de Deus Pai, o primeiro que nos ensinou o que é a caridade fraterna, disse o prelado, remetendo-se à encíclica.

“Sem fraternidade não há desenvolvimento humano – disse em outro momento. Excluindo Deus das relações humanas, não se pode entender o ser humano nem o desenvolvimento.”

Neste sentido, a professora Compte indicou que a relação de fraternidade que une os homens “é a razão do compromisso social e público do cristianismo”.

E destacou uma afirmação da encíclica: “A caridade é a via mestra da doutrina social da Igreja”.

Assinalou que “esta verdade tem uma dimensão prática que se concretiza em dois princípios que orientam a doutrina social da Igreja: a justiça e o bem comum”.

A “justiça entendida não só como dar ao homem o que merece em função do que dá, mas dar-lhe o que lhe é devido pelo simples fato se sê-lo”.

E o bem comum entendido como o resultado de um desenvolvimento livre, sem travas, do homem, de todos os homens em condições ambientais, materiais e espirituais que lhes permitam chegar a ser o que estão chamados a ser, explicou.

Para a professora, o Papa escreveu a encíclica para responder a um homem que vive em uma sociedade cada vez mais complexa e tecnificada, fruto da globalização e da acentuação da interdependência.

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