Caritas in veritate: abertura à vida, centro do desenvolvimento

Caritas in veritate: abertura à vida, centro do desenvolvimento

Comentário do Pe. Thomas Rosica, C.S.B., diretor de Salt and Light

TORONTO, terça-feira, 7 de julho de 2009 (ZENIT.org).- Publicamos o artigo escrito pelo Pe. Thomas Rosica, C.S.B., diretor do canal de televisão canadense Salt and Light e consultor do Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais ([email protected]).

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Nesta terça-feira, o Papa Bento XVI publicou a terceira encíclica do seu pontificado, Caritas in veritate (A caridade na verdade), um documento importante da Doutrina Social da Igreja. A encíclica, dividida em 79 parágrafos, enfrenta muito mais do que a ética da economia contemporânea e a crise econômica global, que certamente tiveram sua influência sobre Bento XVI na preparação do anunciado texto. Esta obra magna segue as duas prévias encíclicas do pontificado de Joseph Ratzinger: Deus caritas est (Deus é amor), Spe salvi (É na esperança que fomos salvos); e agora a análise papal se concentra na nossa época.

Bento XVI não é um Papa de fáceis discursos breves e a encíclica de hoje é prova disso. Quem quiser procurar respostas para a crise econômica do nosso tempo não deveria recorrer a este documento para buscar soluções fáceis. O ensinamento papal de hoje é extenso, denso, matizado e complexo, e convida todos a uma séria reflexão sobre a história da doutrina social pontifícia, com particular atenção ao documento Populorum Progressio, a rica doutrina social de Paulo VI.

Este texto monumental de 1967 analisava a economia no âmbito global e contemplava os direitos dos trabalhadores a sindicar-se, a ter um emprego seguro e condições de trabalho decentes. A doutrina de Bento XVI de 2009 trata em profundidade dos temas da “fraternidade, desenvolvimento econômico e sociedade civil”, “desenvolvimento dos povos, direitos e deveres, ambiente”, “colaboração da família humana”, “o desenvolvimento dos povos e a técnica”.

Há várias áreas do texto de Bento que vão contra o modo natural da sociedade contemporânea e podem ser facilmente descartadas por muitos leitores que têm problemas com a Igreja, com a autoridade, com a verdade e com a vida humana. Para mim, destas áreas depende o miolo da crise econômica atual, mostrando muito além de toda sombra de dúvida que a crise econômica é, em seu núcleo, uma crise moral.

Dois importantes leimotivs deste pontificado são o relativismo moral e a exclusão de Deus da sociedade e da vida humana. Na encíclica de hoje, Bento XVI escreve: “Um cristianismo de caridade sem verdade pode ser facilmente confundido com uma reserva de bons sentimentos, úteis para a convivência social, mas marginais. Deste modo, deixaria de haver verdadeira e propriamente lugar para Deus no mundo. Sem a verdade, a caridade acaba confinada num âmbito restrito e carecido de relações”.

Bento XVI repetiu continuamente, nos últimos quatro anos, que a rejeição ideológica de Deus e um ateísmo de indiferença, que prescinde do Criador e que corre o risco de chegar a prescindir igualmente dos valores humanos, convertem-se nos principais obstáculos para o desenvolvimento de hoje. A encíclica de hoje o afirma claramente: “O humanismo que exclui Deus é um humanismo desumano”.

Em palavras de Bento: “A ânsia do cristão é que toda a família humana possa invocar a Deus como o ‘Pai nosso’. Juntamente com o Filho unigênito, possam todos os homens aprender a rezar ao Pai e a pedir-lhe, com as palavras que o próprio Jesus nos ensinou, para sabê-Lo santificar vivendo segundo a sua vontade, e depois ter o pão necessário para cada dia, a compreensão e a generosidade com quem nos ofendeu, não ser postos à prova além das suas forças e ver-se livres do mal”.

Tais palavras não pertencem ao léxico do politicamente correto e à falsa inclusividade. Fluem da mente e do coração de um dos maiores pensadores do nosso tempo.

A outra área que certamente fará muitos leitores refletirem ou simplesmente será ignorada é a dignidade e respeito pela vida humana, “que não pode ser de modo algum separado das questões relativas ao desenvolvimento dos povos”.

Bento escreve: “Nos países economicamente mais desenvolvidos, são muito difusas as legislações contrárias à vida, condicionando já o costume e a práxis e contribuindo para divulgar uma mentalidade antinatalista que muitas vezes se procura transmitir a outros Estados como se fosse um progresso cultural”.

“A abertura à vida está no centro do verdadeiro desenvolvimento. Quando u ma sociedade começa a negar e a suprimir a vida, acaba por deixar de encontrar as motivações e energias necessárias para trabalhar ao serviço do verdadeiro bem do homem. Se se perde a sensibilidade pessoal e social ao acolhimento duma nova vida, definham também outras formas de acolhimento úteis à vida social.”

Talvez este parágrafo resuma a crise e a encíclica de uma forma notável: “Os custos humanos são sempre também custos econômicos, e as disfunções econômicas acarretam sempre também custos humanos”.

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