A Carta Encíclica do Papa: A Caridade na Verdade

A Carta Encíclica do Papa: A Caridade na Verdade

Dom Orani João Tempesta, O. Cist., Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro, 22/7/2009

O Sumo Pontífice, BENTO XVI, no dia 29 de junho do corrente ano, ao finalizar o Ano Paulino, promulgou uma Nova Encíclica: A CARIDADE NA VERDADE (CARITAS IN VERITATE), destacando em seu preâmbulo o sentido verdadeiro do AMOR, nascido do testemunho de Cristo durante sua vida terrena, mas, especialmente, com sua morte e ressurreição, o qual constitui uma força propulsora do verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade.

O AMOR, síntese de toda vida de Cristo Senhor, faz com que cada pessoa com coragem e generosidade se comprometa com a justiça e a paz ao aderir ao projeto que Deus tem. É sensibilizada e levada a amar a todos, da mesma forma que Deus a amou: “Todos os homens sentem o impulso interior para amar de maneira autêntica: amor e verdade nunca desaparecem de todo neles, porque são a vocação colocada por Deus no coração e na mente de cada homem. Jesus Cristo purifica e liberta das nossas carências humanas a busca do amor e da verdade e desvenda-nos, em plenitude, a iniciativa de amor e o projeto de vida verdadeira que Deus preparou para nós.”

Com efeito, como diz o Santo Padre, a caridade, isto é, o amor, é a viga mestra da doutrina social da Igreja. Eis que esse amor é a substância do relacionamento com Deus e com o próximo: “Para a Igreja — instruída pelo Evangelho —, a caridade é tudo, porque, como ensina São João (cf. 1Jo 4, 8.16) e como recordei na minha primeira carta encíclica, «Deus é caridade» (Deus caritas est): da caridade de Deus tudo provém, por ela tudo toma forma, para ela tudo tende.”

Sob outro aspecto, a caridade (o amor) está substancialmente ligada à verdade, pois ela deve ser iluminada pela verdade, da mesma forma que a verdade deve ser iluminada pela caridade: “A verdade há de ser procurada, encontrada e expressa na « economia » da caridade, mas esta por sua vez há de ser compreendida, avaliada e praticada sob a luz da verdade.”

Somente na verdade é que refulge a caridade, e, uma vez compreendida, leva os homens a partilhar e comunicar sua riqueza: “Com efeito, a verdade é «dias» que cria «dia-logos» e, conseqüentemente, comunicação e comunhão. A verdade, fazendo sair os homens das opiniões e sensações subjetivas, permite-lhes ultrapassar determinações culturais e históricas para se encontrarem na avaliação do valor e substância das coisas.”

Destaca o Papa Bento XVI a supremacia da caridade sobre a justiça, mas esta é o primeiro caminho para a caridade: “Em primeiro lugar, a justiça. Ubi societas, ibi ius: cada sociedade elabora um sistema próprio de justiça. A caridade supera a justiça, porque amar é dar, oferecer ao outro do que é « meu »; mas nunca existe sem a justiça, que induz a dar ao outro o que é « dele », o que lhe pertence em razão do seu ser e do seu agir. Não posso « dar » ao outro do que é meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justiça. Quem ama os outros com caridade é, antes de tudo, justo para com eles. A justiça não só não é alheia à caridade, não só não é um caminho alternativo ou paralelo à caridade, mas é «inseparável da caridade» [1], é-lhe intrínseca. A justiça é o primeiro caminho da caridade ou, como chegou a dizer Paulo VI, «a medida mínima» dela [2], parte integrante daquele amor «por ações e em verdade» (1Jo 3, 18) a que nos exorta o apóstolo João.”

Sua Santidade Paulo VI, ao publicar a encíclica Populorum progressio, em 1967, apresentou como base do progresso dos povos, iluminou o grande tema do desenvolvimento dos povos com o esplendor da verdade e com a luz suave da caridade de Cristo: “É a verdade originária do amor de Deus — graça a nós concedida — que abre ao dom a nossa vida e torna possível esperar num «desenvolvimento do homem todo e de todos os homens» [8], numa passagem «de condições menos humanas a condições mais humanas» [9], que se obtém vencendo as dificuldades que inevitavelmente se encontram ao longo do caminho.”

Após o preâmbulo, do qual pinçamos algumas idéias, Bento XVI, no Capitulo I, faz uma releitura da Carta Encíclica Populorum progressio, bem como da Carta Apostólica Octogesima adveniens, de 1971, enfatizando o ensinamento de Paulo VI, que tratou o tema do sentido da política e do perigo de visões utópicas e ideológicas que prejudicavam a sua qualidade ética e humana. São argumentos estritamente relacionados com o desenvolvimento.

Faz, ainda, referência à encíclica Humanæ vitae, na qual, sublinhado o significado conjuntamente unitivo e procriativo da sexualidade, pondo assim como fundamento da sociedade o casal de esposos, homem e mulher, que se acolhem reciprocamente na distinção e na complementaridade: um casal, portanto, aberto à vida.

No Capitulo II, a Carta Encíclica trata expressamente do desenvolvimento humano de nosso tempo, colocando em destaque o pensamento de Paulo VI, para quem o desenvolvimento indica, antes de qualquer coisa, o objetivo de fazer sair os povos da fome, da miséria, das doenças endêmicas e do analfabetismo.

E do ponto de vista econômico, o desenvolvimento, objetiva à participação ativa e em condições de igualdade no processo econômico internacional; do ponto de vista social, à sua evolução para sociedades instruídas e solidárias; do ponto de vista político, a consolidação de regimes democráticos capazes de assegurar a liberdade e a paz.

O Capitulo III trata da fraternidade, desenvolvimento econômico e sociedade civil, e afirma que a caridade na verdade, na dimensão da doação, que exprime e realiza sua transcendência no meio social: “A caridade na verdade coloca o homem perante a admirável experiência do dom. A gratuidade está presente na sua vida sob múltiplas formas, que freqüentemente lhe passam despercebidas por causa duma visão meramente produtiva e utilitarista da existência. O ser humano está feito para o dom, que exprime e realiza a sua dimensão de transcendência.”

O Capitulo IV trata de um tema importantíssimo e também atualíssimo: desenvolvimento dos povos, direitos e deveres, ambiente, ao chamar a atenção dos povos não só para os direitos, mas também ao convocar toda humanidade a uma nova reflexão de que os direitos pressupõem deveres, sem os quais se transformam em arbítrio: “A solidariedade universal é para nós não só um fato e um benefício, mas também um dever » [105]. Hoje, muitas pessoas tendem a alimentar a pretensão de que não devem nada a ninguém, a não ser a si mesmas. Considerando-se titulares só de direitos, freqüentemente deparam-se com fortes obstáculos para maturar uma responsabilidade no âmbito do desenvolvimento integral próprio e alheio. Por isso, é importante invocar uma nova reflexão que faça ver como os direitos pressupõem deveres, sem os quais o seu exercício se transforma em arbítrio [106]. Assiste-se hoje a uma grave contradição: enquanto, por um lado, se reivindicam presuntos direitos, de caráter arbitrário e libertino, querendo vê-los reconhecidos e promovidos pelas estruturas públicas, por outro existem direitos elementares e fundamentais violados e negados a boa parte da humanidade [107].”

O Capitulo V convoca toda família humana a superar a solidão, uma vez que do isolamento resultam a pobreza e as dificuldades em amar, concluindo que o desenvolvimento dos povos depende do reconhecimento de que somos uma só família: “Uma das pobrezas mais profundas que o homem pode experimentar é a solidão. Vistas bem as coisas, as outras pobrezas, incluindo a material, também nascem do isolamento, de não ser amado ou da dificuldade de amar. As pobrezas freqüentemente nasceram da recusa do amor de Deus, de uma originária e trágica reclusão do homem em si próprio, que pensa que se basta a si mesmo ou então que é só um fato insignificante e passageiro, um « estrangeiro » num universo formado por acaso. O homem aliena-se quando fica sozinho ou se afasta da realidade, quando renuncia a pensar e a crer num Fundamento [125]. A humanidade inteira aliena-se quando se entrega a projetos unicamente humanos, a ideologias e a falsas utopias [126]. A humanidade aparece, hoje, muito mais interativa do que no passado: esta maior proximidade deve transformar-se em verdadeira comunhão. O desenvolvimento dos povos depende, sobretudo, do reconhecimento que são uma só família, a qual colabora em verdadeira comunhão e é formada por sujeitos que não se limitam a viver uns ao lado dos outros [127].”

A encíclica do Papa Bento XVI, esperada e profunda, continua a iluminar a nossa caminhada social como cristãos.

O resumo que estamos fazendo da nova Carta Encíclica do Papa chega ao seu final. Nesta última parte concluindo o texto papal, temos certeza de que o nosso próximo passo será lê-lo integralmente e depois descobrir e discernir caminhos para o nosso trabalho social, que foi a grande ênfase colocada neste documento.

Chegamos no Capitulo VI, que discorre sobre o desenvolvimento dos povos e a técnica, afirmando que não só as outras pessoas são indisponíveis, como nós mesmos o somos, degradando-se o desenvolvimento da pessoa, se ela pretende ser a única produtora de si mesma, ou quando a humanidade pensa que se pode re-criar, utilizando prodígios da tecnologia ou quando se abandona aos prodígios das finanças para apoiar incrementos artificiais e consumistas: “Não são apenas as outras pessoas que são indisponíveis; também nós não podemos dispor arbitrariamente de nós mesmos. O desenvolvimento da pessoa degrada-se, se ela pretende ser a única produtora de si mesma. De igual modo, degenera o desenvolvimento dos povos, se a humanidade pensa que se pode re-criar valendo-se dos «prodígios» da tecnologia. Analogamente, o progresso econômico revela-se fictício e danoso quando se abandona aos «prodígios» das finanças para apoiar incrementos artificiais e consumistas. Perante esta pretensão prometeica, devemos robustecer o amor por uma liberdade não arbitrária, mas tornada verdadeiramente humana pelo reconhecimento do bem que a precede”.

Essa magnífica Encíclica que, aqui, apenas em pinceladas a examinamos, conclui que sem Deus o homem não sabe para onde caminhar, nem consegue entender a si mesmo, conclamando a todos para um humanismo integral. “Sem Deus, o homem não sabe para onde ir e não consegue sequer compreender quem seja. Perante os enormes problemas do desenvolvimento dos povos que quase nos levam ao desânimo e à rendição, vem em nosso auxílio à palavra do Senhor Jesus Cristo que nos torna cientes deste dado fundamental: « Sem Mim, nada podeis fazer » (Jo 15, 5), e encoraja: « Eu estarei sempre convosco, até o fim do mundo » (Mt 28, 20). Diante da vastidão do trabalho a realizar, somos apoiados pela fé na presença de Deus junto daqueles que se unem no Seu nome e trabalham pela justiça. Paulo VI recordou-nos, na Populorum progressio, que o homem não é capaz de gerir sozinho o próprio progresso, porque não pode por si mesmo fundar um verdadeiro humanismo. Somente se pensarmos que somos chamados, enquanto indivíduos e comunidade, a fazer parte da família de Deus como seus filhos, é que seremos capazes de produzir um novo pensamento e exprimir novas energias ao serviço de um verdadeiro humanismo integral.”

Ao concluirmos esse breve exame desta magnífica Encíclica, e que quisemos que os textos oficiais fossem repassados através de um pequeno resumo desejo que a mesma seja objeto de transformação de nossa sociedade e possa influenciar não só uma mudança de mentalidade de cada um em particular, como possa influenciar nossos políticos a adotarem política de desenvolvimento, que não descuide das verdades expostas por sua Santidade, Bento XVI, de que a caridade (o amor) deve ser iluminada pela verdade, e esta pelo amor.

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