Eucaristia banalizada

AOS SENHORES PÁROCOS,

VIGÁRIOS PAROQUIAIS,

VIGÁRIOS AUXILIARES,

REITORES DE SANTUÁRIOS E SEMINÁRIOS,

CAPELÃES DE HOSPITAIS E DAS FORÇAS ARMADAS

Pedimos encarecidamente observar as normas litúrgicas para a Celebração do Santo Sacrifício Eucarístico, de acordo com a última Instrução Redemptionis Sacramentum, sobre algumas coisas que se devem observar e evitar acerca da Santíssima Eucaristia, da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. Não está permitido, nem mesmo com a licença do Senhor Bispo Diocesano (para isso ele deverá dirigir-se a mesma Congregação e não receberá permissão), realizar “celebrações dúplices”, metade Celebração da Palavra com o ministro extraordinário da Sagrada Comunhão e metade Missa com o sacerdote (a partir do Evangelho e/ou Ofertório em diante) como temos presenciado e participado nestes primeiros nove anos do novo milênio, em romarias, procissões, via-sacra, nas capelas de nossas paróquias, etc… ou então, certos atos de culto bi, tri, quadripartidos ao longo de alguma peregrinação, culminando com o “resto” de uma Celebração Eucarística. Isso se chama abuso, profanação, bem como sacrilégio, visto o caráter Sagrado daquilo do qual não somos donos em nenhum momento e nos podemos nos apropriar sem mais, pois a liturgia é da Igreja, e não está aberta a modificações e intromissões de caráter folclórico e estilo “shows de auditório”, como se fôssemos vedetes do “Chacrinha”.

Para nós, ministros ordenados, e também para os ministros extraordinários da Sagrada Comunhão, que apenas recebem um mandato por tempo determinado, existe o documento da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos chamado A Sagrada Comunhão e o culto do Mistério Eucarístico fora da Missa. Para nós sacerdotes existe ainda a Instrução Geral do Missal Romano, o Código de Direito Canônico, os Rituais devidamente aprovados, o Sacramentário, o Presbiteral e tantos outros documentos que não podemos desconhecer, desde os tempos do seminário, e na formação permanente que nos é exigida, bem como os últimos relacionados de João Paulo II e Bento XVI.

Chegaram até a Cúria Diocesana, numerosas manifestações do povo fiel, de descontentamento pelo descaso com as nossas celebrações litúrgico-Eucarísticas, vista a pressa, o desleixo, a falta de compostura, as mudanças indevidas de partes e orações, que levam a sua banalização, por uma mentalidade protestante muitíssimo disseminada em nosso meio. Não se educa, muito menos se evangeliza o Povo de Deus, oferecendo “restos e metades”.

Temos visto sacerdotes celebrando metade Missa, depois de uma metade de Celebração da Palavra iniciada pelo ministro extraordinário da Sagrada Comunhão, por que este mesmo sacerdote tem de celebrar cinco, seis “Missas” num mesmo dia, com o intuito de atender a “todos”. Com isso, não oferecemos ao povo fiel, nem uma nem outra coisa, de muito mau gosto e mal preparada, com uma pregação desligada do essencial. O povo de Deus desta Diocese não merece isso.

O que temos visto e participado nestes últimos anos não contribui para nenhum tipo de missão popular futura, uma vez que demonstramos não conhecer e não querer conhecer, não fazer e não querer fazer uma experiência do Cristo Vivo, como nos diz o Documento de Aparecida, por ocasião da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe (n. 99, 167, 181, 248, 336, 446). Desde o início de 2004, chegaram até nós centenas de reclamações e de muito mal estar, através do telefone, por cartas e pessoalmente, sobre a forma de proceder de alguns sacerdotes em especial, que usam e abusam de uma liturgia própria, a seu bel-prazer, com a intenção de fazerem-se notar, para que Ele diminua. Também existe uma observação generalizada da falta de zelo pastoral, quando o povo de Deus pobre e oprimido nos procura e não nos encontra, mesmo já tendo marcado hora, uma vez que valorizamos os compromissos pessoais e desmarcamos as necessidades pastorais prementes. Este mesmo povo que trabalha geralmente seis dias por semana e “folga” um, começa a tecer comentários a nosso respeito, do que se torna o contrário em nosso proceder, muitas vezes com e outras tantas sem justa causa.

Na Exortação Apostólica Christifideles Laici (de 30 de dezembro de 1988, n. 23-30, 49-52), o Papa coloca bem a distinção entre o sacerdócio ministerial e o sacerdócio comum dos fiéis, para não nos confundirmos, e não levarmos ninguém ao erro. É bom reler de vez em quando. Na Instrução Redemptionis Sacramentum (de 25 de março de 2004, n. 1-186), o Papa segue dizendo, o que já disse há quase trinta anos, quando da Instrução concernente ao Culto do Mistério Eucarístico Inaestimabile Donum (de 17 de abril de 1980, n. 1-27), preparada pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. Saber a história e conhecê-la em profundidade, naquilo que nos compete, é garantia para não repetirmos os mesmos erros de outras épocas.

É preciso que…

 

Reencontremos a ousadia do Sagrado

Bux, Nicola. La reforma de Benedicto XVI. La liturgia entre la innovación y la tradición. Ciudadela Libros, Madrid. 2009. 158 págs.

Tanto as antigas liturgias civis como as modernas dos concertos de rock, celebram ídolos “obra das mãos do homem” (Sl 115, 4). Mas nos tempos recentes também as liturgias religiosas – “liturgia” é a palavra que hoje se prefere a “culto”, quem sabe por que enfatiza o papel do povo na ação sagrada, antes que o tempo dado a Deus -, também as liturgias religiosas, dizíamos, converteram-se em “danças ao redor do bezerro de ouro, que somos nós mesmos”… Nós não somos Deus e, portanto, estamos longe do caminho se nos adoramos a nós mesmos.

Deste modo, a liturgia deixou de ser a ação de receber do alto, como no Sinai, a palavra divina, que é lei para nossos passos. Converteu-se em um dar-se, desde abaixo precisamente, o bezerro de ouro, e dançar ao redor dele. Assim o culto já não é esperar tudo do Senhor, mas esperar o que eu decidi esperar. Quanta responsabilidade tem os bispos e os sacerdotes no que aconteceu! Na prática significa cair na tentação de tomar o lugar de Deus.

Entendamos que a liturgia sempre está necessitada de reforma, porque o culto deve referir-se continuamente ao sagrado, quer dizer, à relação com Deus transcendente, que se encarnou. Mas a liturgia desce do céu sobre a terra, não pode ser uma “liturgia de faça tu mesmo”. Também porque, se a liturgia não fosse sagrada, se o culto não fosse divino, não serviria para nada mais que para representar-se a si mesmo e, sobretudo não salvaria o homem e o mundo, não o transformaria em santo.

Mas há outro aspecto importante que diz respeito à liturgia… Com o advento de Jesus o profano não desapareceu completamente, mas continuamente está pressionado pelo sagrado, que é dinâmico, em vias de cumprimento: “Por isso devemos encontrar a ousadia do sagrado, a ousadia da distinção do que é cristão; não para levantar obstáculos, mas para transformar, para ser realmente dinâmicos” (Joseph Ratzinger, Servitori della vostra gioia, Ancora, Milán, 2002, p. 127).

In Iustitia Christi,

Mons. Inácio José Schuster, Vigário Geral

Novo Hamburgo, 08 de setembro de 2009.

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