Música Sacra deve levar à Nostalgia do Transcendente

Entrevista ao cardeal Zenon Grocholewski

ROMA, quarta-feira, 1º de junho de 2011 (ZENIT.org) – A música sacra tem de levar a viver algo de transcendente, diferente da completa banalidade dos cantos que não se adaptam à oração e que são apenas barulho.

É o que afirma o cardeal Zenon Grocholewski, prefeito da Congregação para a Educação Católica e grão-chanceler do Pontifício Instituto de Música Sacra, nesta entrevista a ZENIT, durante um congresso em Roma.

ZENIT: Como se harmoniza a música sacra com as novas tendências?

Cardeal Grocholewski: O problema não é fácil. Trata-se, por um lado, de unir a tradição da Igreja e, por outro, de dar possibilidades às novas contribuições musicais. Por isso, Pio X fundou o Instituto: para estudar a problemática. Aqui estudam pessoas do mundo todo. É para formar as pessoas e sensibilizá-las quanto ao papel da música sacra.

Como a música sacra se integra na liturgia?

A música sacra é uma parte integrante da liturgia, e, portanto, tem que ser uma oração que expressa aquele momento. Ela não é um acessório, ela é essencial. Neste congresso, falaram mais de cem pessoas, dos mais variados ambientes, e deram uma contribuição para entender como conciliar a tradição com elementos novos que podemos agregar.

Hoje observamos uma completa banalidade desses cantos que não se adaptam à oração, que são apenas barulho. A liturgia precisa também de silêncio.

Por outro lado, o canto é oração coerente com a Eucaristia. Na verdade, no passado, grandes músicos fizeram composições estupendas referentes à Missa, como Giovanni de Palestrina. Todos fizeram muitas coisas estupendas propícias à oração.

Hoje talvez fosse necessário voltar a ter um pouco mais de música sacra nas igrejas, não?

Sim, seria preciso reforçar a compreensão da música sacra. Há novas composições, muitas vezes eu as ouço nas igrejas, completamente novas e muito bonitas. Por exemplo, no ano passado eu estive em Marselha, onde tinha celebrado para alguns juristas numa igreja que quase foi demolida, porque não havia fiéis.

Chegou um padre novo, e, agora, aos domingos, aquela igreja está cheia. Entre outras coisas, por causa do canto e da oração. São composições dele. Esse padre, antes de entrar no seminário, cantava nos cabarés de Paris, depois se converteu e se ordenou padre. Eu fiquei fascinado de ver que composições dele expressam a oração! Isso é oração e aquela igreja enche!

Na saída, perguntei às pessoas e muitas me diziam que vinham de longe “porque aqui se reza, o padre prega e nós o entendemos, e há uma bela música”.

O senhor falou de sacralidade. O que é sacralidade?

A sacralidade se expressa na medida em que se manifesta a oração, como nostalgia por algo, na medida em que se expressa a transcendência. Eu acho muito importante. Hoje, por exemplo, algumas músicas modernas, que escutamos na televisão, não têm nada de transcendental, são pura diversão aqui na terra, não têm nostalgia de nada.

Claro, não é fácil de definir, não é uma coisa física, material, se bem que existe sensibilidade na Igreja, que sabe reconhecer quando uma coisa é sacra ou não é.

Em alguma oportunidade, um prelado dizia que a música na liturgia nos leva a viver o que será o paraíso. O que a música sacra nos dá?

Muitas coisas belas sobre a música sacra foram escritas por Ratzinger antes de ser Papa. Agora saiu uma opera omnia de Ratzinger, e na Itália saiu um volume justamente sobre a liturgia, com 200 páginas sobre música sacra. São coisas muito bonitas. Com razão, Bento XVI sublinha que a música sacra tem que nos levar para outro mundo, para uma nostalgia do transcendente.

Não é mero som que nos tira da realidade. O Papa fala que quando se perde esse horizonte transcendente da vida humana, tudo se reduz ao terreno, mesmo a música e a profundidade do pensamento. A música tem que abrir espaço para o transcendental.

Há certo consenso na Igreja de que o órgão é o instrumento sacro por excelência, sem excluir outros?

Acho que sim, eu acho que, quando uma pessoa entra numa igreja, o órgão cria uma atmosfera, dá certa plenitude. Em muitas igrejas modernas procura-se conservar o órgão.

O senhor daria algum conselho aos párocos, especialmente aos mais jovens?

Eu acho que precisamos sensibilizar as pessoas para a música sacra, aquela que é oração. Claro que não é possível criar um lindo coro em cada paróquia. Mas é necessário sensibilizar as pessoas sobre a sacralidade do canto que se interpreta na igreja.

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