Santo Padre fala sobre a importância dos Coros e Corais para a Igreja

22 julho 2007 / ACI Digital

“O canto é expressão do amor”, e cantar em coro é “uma educação para a vida e a paz”, disse o Papa Bento XVI, ontem (dia 21 de julho).

“Veio à minha mente uma palavra de Santo Agostinho que diz ‘cantare amantis est’ – Que em português significa: “A Fonte do canto é o amor”.

Ao falar sobre a importância dos coros e corais para a Igreja, o Pontífice destacou que “não é apenas um exercício de audição exterior e da voz; é também uma educação na audição interior, na escuta do coração, um exercício e uma educação para a vida e para a paz”.

“Cantar juntos, em coro, e todos os coros juntos, exige atenção ao outro, atenção ao compositor, atenção ao regente, atenção a esta totalidade que chamamos música e cultura, e, deste modo, cantar em coro é uma educação para a vida, uma educação para a paz, um caminhar juntos”, explicou.

Em seu discurso, o Papa falou também sobre o valor dos cantos da zona central européia e fez referência a que há 90 anos, as montanhas alpinas dos Dolomitas, ao norte da Itália, constituíam “uma barreira, um teatro terrível e cruento de guerra”.

“Demos graças a Deus porque agora há paz na Europa e façamos tudo para que a paz cresça em todos nós e no mundo. Estou seguro de que esta bonita música é um compromisso para a paz e uma ajuda a viver em paz”, expressou Bento XVI.

CANTEMOS AO SENHOR O CANTO DO AMOR

Cantai ao Senhor Deus um canto novo e o seu louvor na assembléia dos fiéis” (Sl 149,1).

Somos convidados a cantar um canto novo ao Senhor. O homem novo conhece o canto novo. O canto é uma manifestação de alegria e, se examinarmos bem, é uma expressão de amor. Quem, portanto, aprendeu a amar a vida nova, aprendeu também a cantar o canto novo. É, pois, pelo canto novo que devemos reconhecer o que é a vida nova. Tudo isso pertence ao mesmo Reino: o homem novo, o canto novo, a aliança nova.

Não há ninguém que não ame. A questão é saber o que se deve amar. Mas o que podemos escolher, se antes não formos escolhidos? Porque não conseguiremos amar se antes não formos amados. Escutai o apóstolo João: Nós amamos porque Ele nos amou primeiro (1Jo 4,10). Procura saber como o homem pode amar a Deus; não encontrarás resposta, a não ser esta: Deus o amou primeiro. Deu-se a Si mesmo aquele que amamos, deu-nos a capacidade de amar… amemos a Deus com o amor que vem de Deus.

Deus se oferece a nós pelo caminho mais curto. Clama para cada um de nós: Amai-me e me possuireis; porque não podeis amar-me se não me possuirdes.

Ó irmãos, ó filhos, ó novos rebentos da Igreja Católica, ó geração santa e celestial, que renasceste em Cristo para uma vida nova! Ouvi-me, ou melhor, ouvi através do meu convite: Cantai ao Senhor Deus um canto novo. Já estou cantando respondes. Tu cantas, cantas bem, estou escutando. Mas oxalá a tua vida não dê testemunho contra as tua palavras.

Cantai com a voz, cantai com o coração, cantai com os lábios, cantai com a vida: Cantai ao Senhor Deus um canto novo. Queres saber o que cantar a respeito daquele a quem amas?… Queres saber então que louvores irás cantar? Já o ouviste: Cantai ao Senhor Deus um canto novo. Que louvores? Seu louvor na assembléia dos fiéis. O louvor quem canta é o próprio cantor.

Quereis cantar louvores a Deus? Sede vós mesmo o canto que ides cantar. Vós sereis o seu maior louvor, se viverdes santamente.

Santo Agostinho, Sermão 34 (Séc. V).

 

PAPA BENTO XVI – HOMILIA SOBRE SANTA CECÍLIA

Homilia na festa de Santa Cecília, igreja dos santos Biagio e Carlo ai Catinari de Roma, 22.11.2006.

Cantai ao Senhor um cântico novo! (Sal 149, 1) – este convite percorre todo o livro dos Salmos, e bem poderíamos dizer que esse grande livro de cânticos do Povo de Deus nasceu como resposta a esse chamado.

Há nessa frase dois aspectos importantes. O primeiro é que os homens devem cantar para o Senhor. Se o fizermos, começaremos a cantar.

Mas quando é que um homem canta? Como chegaram os homens não apenas a falar, mas a cantar?

O homem canta, poderíamos responder, quando experimenta uma grande alegria. Canta quando tem de exprimir alguma coisa que não pode ser expressa pelo curso normal das palavras. Precisa então de uma nova dimensão da fala, da comunicação, que não renuncia à razão, mas a ultrapassa e abre novas possibilidades de percepção.

O homem canta quando quer comunicar alegria. Canta quando o amor quer manifestar-se, tornar-se audível: Cantare amantis est, diz Santo Agostinho. O amor, o ser amado e o poder amar são essa grande alegria que abre para o homem esse novo modo de expressão. O convite a “cantar ao Senhor um cântico novo” diz-nos, portanto, que devemos deixar-nos tocar pela proximidade de Deus, deixar que na nossa alma se manifeste a presença do seu Amor. Deixemo-nos cumular pela alegria de Deus, que se revela a cada um de nós, que nos criou e nunca nos abandona.

Um cântico sempre renovado

Acrescentemos agora o segundo aspecto deste convite a “cantar ao Senhor um cântico novo”, sempre renovado: o louvor a Deus nunca deve cessar. No antigo Israel, era sobretudo a memória da salvação das mãos dos egípcios através do Mar Vermelho que despertava uma e outra vez esse cantar a Deus. Com efeito, o relato da travessia do mar termina com um cântico, o primeiro da história de Israel: Então Moisés e os filhos dos israelitas entoaram em honra do Senhor o seguinte cântico: “Cantarei ao Senhor, porque ele manifestou a sua glória. […] O Senhor é a minha força e o objeto do meu cântico; foi ele quem me salvou. Ele é o meu Deus – eu o celebrarei; o Deus de meu pai – eu o exaltarei (cfr. Ex 15, 1-18). Depois de acontecimentos como os que os israelitas acabavam de presenciar, tinha de vir necessariamente uma explosão de alegria, de uma alegria a que não podiam bastar os modos comuns de expressão. Assim nasceu o cântico, o cantar a Deus…

O tema da salvação através do Mar Vermelho perpassa todo o conjunto dos Salmos, alegrando sempre de novo os homens de Deus e inspirando os seus cânticos. Mas no saltério aparece principalmente Davi como o novo e autêntico fundador da música cultual, em que vozes e instrumentos de todo o tipo soam em uníssono. Ao mesmo tempo, a história do Povo eleito manifesta que Deus atua sempre, que não é um Deus do passado; por isso, sempre há motivos renovados para enaltecê-lo, e é preciso continuar o canto em seu louvor. Assim aparece o salmo votivo: Os nossos pais puseram a sua confiança em vós, esperaram em vós e os livrastes. A vós clamaram e foram salvos. […] Então anunciarei o vosso nome aos meus irmãos, e vos louvarei no meio da assembléia (cfr. Sal 22, 5-6. 26). Não são poucos os salmos que nasceram deste tipo de promessas e das experiências a elas associadas.

“Cantai ao Senhor um cântico novo” significa que o homem deve acordar para a presença de Deus, para o seu agir aqui e agora, e deve tornar visível aos outros homens, por meio do seu cântico, o raio de luz divina que o atingiu. O cântico novo é necessário para que a verdade sobre Deus e o homem se desvele pouco a pouco. É necessário porque só à luz das experiências sempre renovadas que se exprimem no cântico e assim se tornam acessíveis aos outros, é só à luz dessas experiências que poderemos suportar as aflições deste mundo, ganhar esperança e permanecer no amor.

O cântico da nova Aliança

Por trás da idéia de um cântico novo que ultrapassava Moisés e, ultrapassando também Davi, tinha de avançar sempre, ocultava-se uma silenciosa esperança: a de que um dia viesse a haver o totalmente novo, o inteiramente outro, graças ao qual todos os cânticos anteriores ganhariam a sua plenitude musical. E então, na noite anterior a sua Paixão, Jesus realizou aquilo que era inimaginável, mas correspondia ao que todos os homens esperavam e continuam a esperar no mais fundo do seu ser. O Senhor anunciou uma nova Aliança no seu sangue e, antecipando a sua morte na cruz, estabeleceu-a. A antiga Aliança de Moisés não passava de uma grandiosa preparação, que agora chegava ao seu fim, para essa nova Aliança em Cristo.

Agora se dava o verdadeiramente novo – a salvação divina que vale para todos os homens e abrange todos os tempos, porque vem da eternidade e se dirige para a eternidade. Agora o amor de Deus rompia todos os limites e criava a grande Novidade, que nunca se poderá superar e que nunca terminaremos de cantar. Assim como não podemos esgotar o mar, nunca esgotaremos o tesouro dos cânticos novos trazidos por essa Novidade, que no fundo são o único e verdadeiro cântico novo.

Desde então, os dois temas – o da nova Aliança e o do cântico novo – estão unidos. Já na primeira geração cristã começaram a surgir, com essa íntima necessidade nascida da grandiosa e nova experiência do amor divino que Cristo significa para o homem, novos cânticos que completavam e continuavam o saltério. Eram hinos cristãos, alguns dos quais nos foram conservados nas Epístolas do Novo Testamento e no Apocalipse de São João – infelizmente apenas os textos, porque as melodias se perderam.

Mas a simples composição de novos textos e de novas melodias já não bastava. A Novidade de que falamos tinha de penetrar mais fundo: devia consistir numa renovação dos corações, em corações novos, como já o tinha anunciado o profeta Ezequiel: Tirar-vos-ei do peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne (Ez 36, 26). Para que o cântico fosse novo, também devia ser novo o coração. A nova Aliança exigia um homem novo, e do homem novo veio o cântico novo, dizem os Padres da Igreja. Em certo sentido até, o homem novo é o cântico novo: na plenitude do céu, a própria Criação se torna por assim dizer um cântico, o cosmos se torna louvor.

Na música da Igreja, o que se procura no fundo é antecipar esse louvor do cosmos, preparar os novos céus e a nova terra (cfr. Apoc 21, 1 – 22, 5). Mas isso só pode acontecer se a renovação do coração continuar, se o homem viver de modo novo, se se tornar dia após dia um homem novo segundo o modelo de Jesus Cristo. Por isso a vida monástica, esse esforço por criar como que um prelúdio da forma definitiva da humanidade, sempre foi a grande escola do cântico novo, onde o canto e a música da Igreja foram ganhando de forma crescente a sua fisionomia peculiar.

Dois amores e dois tipos de música

Um homem novo e um cântico novo: esse vínculo é expresso de maneira exemplar numa das belas fórmulas da Paixão de Santa Cecília, que era antigamente a primeira antífona de laudes da sua festa. Este é o texto: Acompanhando a melodia dos instrumentos, Cecília cantava assim ao Senhor: “Que o meu coração conserve a sua pureza e as minhas forças não decaiam”: … Cantantibus organis Caecilia decantabat… Exteriormente, Cecília celebrava o seu casamento com o noivo que lhe fora destinado, Valeriano, com o acompanhamento da ruidosa música esponsal daquele tempo. Intimamente, porém, celebrava o seu casamento com Outro, com Cristo, a quem tinha dado todo o seu amor.

Contrapõem-se aqui dois casamentos, dois amores e, assim, também dois tipos de música. Por fora, ressoa o velho cântico do homem velho, a ruidosa e sensual música pagã, voltada inteiramente para os sentidos; essa música puxa o homem para fora e para baixo, embota-lhe a mente, arranca-o de si e torna-o surdo ao seu íntimo, fazendo emudecer o cântico interior. Por dentro, nessa nova interioridade a que o homem acaba de ganhar acesso, na nova altura e profundidade do ser humano, brota do encontro com Cristo um novo amor; e com ele nasce o cântico novo. É um cantar da alma que começa no coração – como nos diz São Paulo (cfr. Col 3, 16; Ef 5, 19) -, mas logo se manifesta espontaneamente também no exterior, como nos mostram os hinos cristãos. E este cantar tem diante de si um futuro inesgotável, enquanto houver homens que se deixem tocar pela fé em Cristo e pelo seu amor.

No começo, o canto sai timidamente e em voz muito baixa. Na lenda de Santa Cecília, tem de permanecer oculto no seu íntimo, lutando contra a estridente música velha do mundo velho. Mas depois torna-se cada vez mais livre e mais forte, e pode recorrer novamente aos instrumentos que tinha deixado de lado para poder encontrar-se a si mesmo. Pode assim, e cada vez mais, fazer o Universo cantar, dando o texto a misteriosa música do Cosmos da qual fala o Salmo 19, de forma que já não seja sem palavras: Um dia transmite ao outro essa mensagem […]. Não é uma língua nem são palavras, a sua voz permanece inaudível (Sal 19, 3-4). Não, a voz da Criação já não é mais inaudível, porque encontrou a sua Palavra.

Integrar, não desintegrar

Assim se tornam visíveis, na história da música sacra, os dois planos essenciais e indissociavelmente unidos, contidos no convite a “cantar ao Senhor um cântico novo”. Essa música pressupõe a grande Novidade que ocorreu em Cristo e dela recebe a sua inspiração, a sua nova e própria natureza. Mas é próprio da sua nova natureza inserir-se nessa inesgotável Novidade e nela encontrar sempre coisas novas, que exprime de maneira também sempre renovada, sem perder a unidade intrínseca a toda a história do canto cristão. Quem despreza o passado rouba algo essencial ao novo; mas quem quisesse permanecer apenas no passado, perderia a riqueza inesgotável dessa Novidade que perdura até o fim dos tempos e o ultrapassa no hino da Eternidade.

Desde os começos do Cristianismo até os nossos dias, estamos diante desse maravilhoso processo em que o cântico novo, inicialmente tão humilde e até escondido, se desenvolve cada vez mais, integrando em si a riqueza de todas as possibilidades humanas, a riqueza do próprio Universo, e fazendo de tudo isso um cântico a Deus. Mas podemos observar também, pelo menos desde o século passado, o processo in-verso, em que as partes voltam a desagregar-se e se tornam independentes, por assim dizer desnudando o cântico novo e procurando reduzi-lo de novo à pobreza do começo. E se é assim, isso só pode dever-se a fraqueza da nossa fé e, em consequência, aos fracassos e à diminuição do nosso amor. Quando falta o homem novo, também o canto novo perde o seu vigor.

Não podemos observar este sinal dos tempos sem examinar seriamente a nossa consciência. Hoje, porém, nesta festa de Santa Cecília, ouvimos o cântico novo em todo o seu esplendor e sentimos gratidão pela sua imensa beleza. Cari musici, queremos agradecer-vos por nos ajudardes a louvar o nosso Deus. E supliquemos, todos nós, que o novo cântico da nova Aliança nunca se cale, mas ressoe para a glorificação de Deus com uma alegria sempre nova.

________________________________________

Pouco se sabe sobre a vida de Santa Cecília, e mesmo o período em que viveu não está inteiramente estabelecido (é provável que tenha sido martirizada entre os anos de 176-180, sob o imperador Marco Aurélio). Contudo, a ardente devoção dos fiéis e as escavações arqueológicas não deixam dúvida sobre a sua existência.

Segundo a Passio Sanctae Caeciliae, escrito piedoso de fins do século V, Cecília era filha de um senador romano e cristã desde a infância. A certa altura, a família deu-a em casamento ao jovem pagão Valeriano. Após a cerimônia, quando o casal se retirou para os seus aposentos, Cecília disse ao marido que não violasse a sua virgindade, pois era guardada por um anjo. Valeriano converteu-se e recebeu o batismo naquela mesma noite. Cecília e Valeriano passaram a dedicar-se a ajudar os pobres e os cristãos perseguidos até eles mesmos serem condenados a morte. O prefeito de Roma, Turcius Almachius, executou primeiro Valeriano. Cecília foi condenada a morrer sufocada na sala de banhos da sua casa, mas a jovem nada sofreu com o superaquecimento, e o prefeito ordenou então que fosse decapitada. Por três vezes o carrasco golpeou-lhe o pescoço sem conseguir separar a cabeça do corpo; acabou por fugir, deixando-a caída no chão, mas com três dedos da mão direita estendidos, numa referencia a Santíssima Trindade. Foi enterrada na Catacumba de São Calisto.

A devoção à santa esteve muito difundida na Idade Média e, a partir do século XIV, passou a ser considerada padroeira da música, por causa da passagem da Passio Sanctae Caeciliae em que se narra o seu casamento, e que diz: cantantibus organic illa in corde suo soli Domino decantabat (“acompanhando a melodia dos instrumentos, Cecília cantava no seu coração apenas ao Senhor”) (N. do T.).

A liturgia das horas ou ofício divino é oração pública – litúrgica – da Igreja; está composta por salmos, leituras e orações. Tem diversas partes ou “horas”, das quais as laudes são a que se reza de manhã, originalmente antes do nascer do sol (N. do T.).

Desenvolvido por Origy Networks – Criação de sites e propaganda