Os salários de executivos criam polêmica

Os salários de executivos criam polêmica

As pressões estão forçando mudanças

ROMA, domingo, 4 de outubro de 2009 (ZENIT.org). Uma das consequências da atual crise econômica é uma visão mais crítica das compensações financeiras dos líderes empresariais. Há muito tempo se criticam estas quantias milionárias, mas, em tempos de crescimento econômico, muitos se mostravam felizes quando o sucesso era premiado.

A recessão, no entanto, tem levado muitos a questionar, com frequência, enormes desembolsos aos diretores executivos por parte de empresas que vão mal, como a lógica que determina esta remuneração.

Michael Skapinker, colunista do Financial Times, disse que a má imagem desses pagamentos altíssimos se estendeu tanto nos Estados Unidos como na Europa. Em seu artigo de 16 de setembro contava como, recentemente, Gordon Brown, primeiro-ministro do Reino Unido, Nicolas Sarkozy, presidente da França, e Ângela Merkel, chefe de governo alemã, assinaram uma carta pedindo o fim do bônus aos banqueiros.

Skapinker não vê nenhum problema em pagar bem aqueles que gerem as empresas. Contudo, os executivos “seniors” reduziram muito seus riscos. Uma combinação de lucrativas aposentadorias, pensões e generosas compensações significa que, em caso de demissão, não terá que voltar ao trabalho. Em contraste, os empregados que são despedidos perdem tudo.

Uma série de artigos publicados dia 14 de setembro revelavam que seus salários aumentaram uma média de 10% em relação ao ano passado, apesar de que as empresas perderam quase um terço do seu valor de mercado.

As rendas por bônus foram mais baixas, mas seu salário base aumentou mais de três vezes a média do aumento salarial de 3,1% dos trabalhadores normais do setor privado.

Remunerações substanciais

Os salários eram inclusive mais altos para quem estáem cima. Os10 executivos mais bem pagos ganharam em conjunto 170 milhões de libras ano passado – acima de 140 de libras em 2007, segundo The Guardian.

Quanto aos Estados Unidos, cerca de cinco mil banqueiros e gestores receberam mais de 1 milhão de dólares cara um de bônus em 2008. Segundo uma reportagem de 31 de julho do New York Times, isso teve lugar no momento em que os lucros dos maiores bancos decaíam e muitos aceitavam centenas de milhões de dólares dos contribuintes.

As cifras divulgadas pelo fiscal general de Nova York, Andrew M., mostram que 738 banqueiros e gestores de Citigroup levaram um bônus de 1 milhão de dólares ou mais, em 2008. Apesar de que o banco teve perda de 27 bilhões de dólares. No Citigroup foi pago em bônus um total de 5 bilhões de dólares enquanto, ao mesmo tempo, a empresa recebia 45 bilhões de dólares em fundos de ajuda governamental, para evitar um colapso.

No Merril Lynch, no ano passado, foi pago a 11 executivos mais de 10 milhões de dólares, enquanto que Andrea Orcel, o primeiro banqueiro de investimentos, ganhava 33,8 milhões. Isso em um ano no qual as perdas líquidas da companhia alcançaram os 27 bilhões de dólares, informou o Wall Street Journal dia 4 de março.

O fenômeno da ausência de base para as remunerações não se limita aos Estados Unidos. Deutshe Post AG pagou uma pensão de 20 milhões de euros a Klaus Sumwinkel, antigo diretor condenado por evasão de impostos, informou Assocites Press dia 15 de março.

Na França houve protestos por mais de 4 bilhões de indenizações para Thierry Morin, quem, segundo o artigo de 25 de março no Washington Post, foi retirado da empresa por seus baixos resultados.

Morin recebeu este pagamento multimilionário, em dólares, depois que sua empresa perdeu mais de 250 milhões de dólares no ano passado. Ademais, demitiu cerca de 1.600 empregados e recebeu quase 25 milhões de dólares de ajuda do governo.

No Reino Unido também houve outra situação ultrajante com um antigo gestor bancário, Fred Goodwin, quem recebeu como pensão anual para o resto de sua vida,630.000 libras, informou Reuters, dia 12 de março.

Goodwin abandonou o Royal Bank of Scotland em outubro do ano passado depois que a companhia anunciou uma perda Record de 24.100 milhões de libras, a maior da história empresarial britânica.

Sinais de mudança

Mesmo que o setor bancário e financeiro pareça agarrado a pautas de comportamento do passado, existe, no entanto, sinais de mudança em outras áreas. No geral, nos Estados Unidos, a remuneração aos executivos caiu em 2008, segundo uma pesquisa publicada pelo New York Times dia 5 de abril.

Os dados do salário de 200 executivos de 198 empresas públicas mostraram que a compensação total média diminuiu 9,4% em2008. Adiminuição deveu-se principalmente a uma queda do bônus.

O banco francês Société também mudou de roteiro, devido aos protestos por seus planos de dar opções de compra sobre ações de quatro diretores, informou o Financial Times, dia 23 de março. O presidente francês Nicolas Sarkozy havia qualificado a ideia das opções de “escândalo” pelo fato dos gerentes receberem tais fundos após aceitar o programa de auxílio económico do Estado.

Na mesma época o presidente executivo Goldman Sachs, Lloyd Blankfein, admitiu que a remuneraçãoem Wall Streetnecessita de uma revisão, informava a Associate Press, dia 7 de abril.

Entre suas sugestões estava a ideia de ter uma avaliação de resultados individuais ao longo do tempo para evitar possíveis riscos e pagar aos empregados junior a maior parteem dinheiro. Opercentual do salário dado como ações da empresa deverá aumentar significativamente com a remuneração total do empregado, acrescentou.

Também propõe que se exigisse a altos executivos que se mantivesse a quantidade de ações recebidas até a aposentadoria.

Em seus encontros anuais, as empresas se viram sob uma pressão crescente sobre a remuneração dos executivos. O Financial Times, dia 1 de junho, contava com Guy Jubb, chefe de gestão corporativaem Standard Life Investiments, protestando pelo nível da remuneração no Royal Dutch Shell.

Jubb e outros criticaram a decisão da diretoria da empresa de pagar 4,2 milhões de euros em bônus aos cinco diretores mais importantes, apesar de que este grupo não alcançou os objetivos definidos.

Segundo o Financial Times, a votação contra esta remuneração não tinha poder para proibi-la. Contudo, viu-se um nível de descontentamento quase sem precedentes. A votação contra esta proposta “põe uma nova tarefa para as assembleias anuais, em um ano marcado por batalhas sobre os salários na Europa, assim como um aumento das votações contra”, afirmava o artigo.

Bem comum

É mais fácil apontar o problema dos excessivos salários dos executivos do que propor uma solução. Durante a tentativa de introduzir leis para restringir estes pagamentos, muitas vezes estas medidas não funcionam. Por fim, a solução mais duradoura e séria é mudar a forma com que as pessoas enxergam a economia.

O Papa Bento XVI tem alguns conselhos a respeito em sua recente encíclica Caritas em Veritate. “A atividade econômica não pode resolver todos os problemas sociais aplicando apenas a lógica comercial” (n 36). Em contrapartida, nossa atividade deve se orientar para atingir o bem comum.

Os graves desequilíbrios ocorrem quando a atividade econômica aparece apenas a fim de gerar riqueza, disse. Quando alguém dirige a economia e finanças com motivações egoístas, causa resultados danosos, advertia.

Mas o mercado não é o culpado, esclarece o Papa, e sim nossa “razão obscurecida”. “O setor econômico não é nem eticamente neutro, nem desumano ou antissocial por natureza”, continuou. “É uma atividade do homem e, precisamente porque é humana, deve ser institucionalizada eticamente”.

Imbuir da preocupação pelo bem comum e solidariedade a quem gere a empresa seria a melhor forma de colocar fim às distorções causadas pelos salários altíssimos.

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