O sexo não é inócuo

Betty Milan

A possibilidade de nos satisfazermos sexualmente era o que mais desejávamos. E, sendo jovens, além de revolucionários, não conseguíamos avaliar o lado negativo do nosso culto ao Deus gozo.

Lembro sem saudade de maio de 68 que paris exportava e nós, paulistas, secundávamos na Universidade de São Paulo – mais precisamente na Rua Maria Antônia, onde tomamos as salas de aulas para os nossos propósitos libertários e o sexo rolava solto. Aquele maio não foi só uma festa, foi também o tempo do aborto clandestino e da doença venérea que o ginecologista diagnosticava dando graças aos céus que a penicilina existia: “Comece a tomar imediatamente”.

Nós endeusávamos o gozo, como os hebreus endeusavam o bezerro de ouro. Éramos contrários ao materialismo, mas servo do sexo e do êxtase que ele nos propiciava. Sem saber, confundíamos o apego ao gozo com a liberdade. Não sabíamos nem queríamos saber, já que, depois de séculos de repressão, a liberdade sexual era urgente. Nós éramos “revolucionários”, e nenhuma consideração contrária aos nossos propósitos nos interessava.

A possibilidade de nos satisfazermos sexualmente como bem entendêssemos era o que mais desejávamos. E, sendo jovens, além de revolucionários, não estávamos em condições de avaliar o estado negativo do nosso culto ao Deus gozo, que nem a AIDS conseguiu abalar. Raros foram os que adotaram logo as medidas preventivas recomendadas e muitos os que fizeram pouco delas – inclusive médicos e psicanalistas. Testemunhei o descaso com horror.

O sexo não é inócuo, não é propriamente um cordeirinho do bom pastor, e a liberdade conquistada nos anos 60 impõe o “não” ao outro e a si mesmo. Quer dizer, para que a sexualidade não seja uma negação na vida, a liberdade impõe a contenção. Quando não há mais proibição externa, cabe a cada um colocar o limite para o outro e para si. Não é fácil, porque não somos educados para nos conter. Pelo contrário, a sociedade em que vivemos incita à desmesura. O que é o problema da obesidade, a que estamos cada vez mais expostos, senão uma doença da sociedade de consumo? Nos Estados Unidos, ela é hoje uma questão social grave.

O controle da pulsão, a gente aprende na infância. A propósito disso, Montaigne escreveu nos Ensaios: “(…) os nossos maiores vícios se originam na mais tenra infância e a orientação do nosso caráter está principalmente nas mãos da babá. As mães consideram um passatempo ver a criança (…) ferir, brincando, um gato ou um cachorro. Certos pais são tolos a ponto de considerar o fato de o filho bater (…) num criado é o feliz sinal anunciador de uma alma marcial e que enganar o companheiro, sendo maldoso e desleal, é um sinal de inteligência”. Ou seja, a educação sexual começa bem antes de a sexualidade despontar e a valorização do descontrole da criança é um crime. Os pais podem inclusive ser responsabilizados pelo apego desmesurado do filho ao gozo, cujas conseqüências são sempre danosas e, às vezes, letais.

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