Lexicon 2

LEXICON
Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales, Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro

A Família é hoje certamente a instituição mais ameaçada não só em nível mundial, mas também em nosso meio. As ameaças provêm de diversas frentes. Cito algumas. De um lado, as ideologias feministas radicais, que, ao exaltar unilateralmente a mulher, acabam por destruir sua beleza, seu valor, sua insubstituível singularidade e, conseqüentemente, falseiam as relações humanas em seus vários níveis. De outro, a pressão que a opinião pública exerce sobre parlamentares, com raciocínios falazes sobre uma não-discriminação de pessoas ou grupos, sobre uma valorização não esclarecida de direitos de decisão acerca da vida alheia ou própria. Muitas vezes o positivismo jurídico se impõe no lugar de uma sã reflexão a partir dos princípios inalienáveis da dignidade humana e das leis inscritas na própria natureza. O relativismo quanto à verdade e aos valores, o subjetivismo elevado a critério absoluto, o clima generalizado de hedonismo, a busca desenfreada de prazer, de qualidade de vida, o desvirtuamento do amor em formas sempre mais egoístas de relacionamento, são alguns exemplos de fatores que, minando a estrutura da pessoa, afetam decisivamente a família e a sociedade.

Em 12 de dezembro de 2004, na apresentação da edição brasileira do “Lexicon – Termos ambíguos e discutidos sobre família, vida e questões éticas”, editada pelo Pontifício Conselho para a Família, eu escrevia: “O maior mal que nos aflige não é a fragilidade humana em si, nem a maldade que forja seus planos para destruir o homem e a mulher em sua verdadeira dignidade. Mal maior, porque mais permissível e sedutor, é a abusiva capacidade de falsear a linguagem, a ponto de o menos advertido, mesmo o intelectual, e, antes de tudo, a opinião comum da grande massa, já não perceberem a perversidade que é aí insinuada. Um exemplo deste fato: fala-se hoje muitas vezes em ‘saúde reprodutiva’, mas, não raro, sob esta expressão, não se procura sanar as graves situações de inúmeras mulheres pobres; bem ao contrário, tal conceito esconde amiúde a decidida estratégia de mutilar mulheres em idade fecunda, esterilizando-as irreversivelmente; esconde ainda o emprego de todo tipo de anticoncepcionais e mesmo do aborto, uma das maiores chagas da humanidade de hoje”.

“Neste e em tantos outros casos, o cidadão tem o direito, o jovem tem a necessidade de receber a informação objetiva e exata. O ‘Lexicon’ é uma fonte quase inesgotável de informações, oferecidas por especialistas. Sua rápida difusão, em diversas línguas, prova o quanto este livro vem preencher uma real lacuna. Nas universidades, não só católicas, será válido instrumento de diálogo e de discernimento acerca de tabus e preconceitos inveterados. Para a educação em nível médio oferece – com a ajuda competente de pedagogos – temas de grande atualidade e de extraordinária clareza. Para a pastoral é desejável uma ampla difusão e o estudo sério – em grupo e individualmente – de muitos temas apresentados, riquíssimo material para a informação e formação humana e cristã”.

No contexto pastoral vigenteem nossa Pátriaé de particular importância a publicação de um Léxico sobre conceitos ambíguos e discutidos a respeito da família. A maioria dos autores dos 81 artigos são cientistas de renome internacional. A decisão de editar o Léxico foi tomada em um encontro nos dias 20 e 27 de novembro de 1999, em Roma, com Organizações não Governamentais (ONGs). Assim Dom Karl Josef Romer, Secretário Geral do Pontifício Conselho para a Família e, por 30 anos Bispo Auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro, hoje Emérito, sintetiza a utilidade desta obra: “Oferecer aos participantes de Conferências e Reuniões, aos Parlamentares, Movimentos eclesiais, não somente os princípios doutrinais da Igreja, mas também os resultados científicos tantas vezes silenciados sobre o abuso da linguagem que desorienta a opinião pública”.

O Pontifício Conselho para a Família está realizando  a divulgação da obra no Brasil, em nosso idioma: no dia 17 de agosto,em São Paulo, dia 18 no Rio de Janeiro, 21 em Brasília, dia 24em Belo Horizonte,  e nos dias 3 e 4em Salvador. Todosos Bispos do Brasil receberão um exemplar da publicação. Esta é uma oportunidade de reavivar alguns pronunciamentos dos Santos Padres sobre o assunto. Por exemplo, o do Papa João Paulo II a 16 de CNBB novembro de 2002, falando aos Bispos brasileiros do Regional Leste II , em visita “Ad limina”: “Uma proposta pastoral para a família em crise supõe, como exigência preliminar, uma clareza doutrinária, efetivamente ensinada no campo da Teologia Moral, sobre a sexualidade e a valorização da vida. As opiniões contrastantes de teólogos, sacerdotes e religiosos, divulgadas inclusive, escrita e falada, sobre as relações pré-matrimoniais, o controle da natalidade, a admissão dos divorciados aos sacramentos – dentro das normas da Igreja -, a homossexualidade e o lesbianismo, a fecundação artificial, o uso de práticas abortivas ou a eutanásia mostram o grau de incerteza e a confusão que perturbam e chegam a anestesiar a consciência de muitos fiéis”.

O início da Exortação Apostólica “Familiaris Consortio”, do mesmo Pontífice João Paulo II, sobre a “Função da Família no mundo de hoje”, com data de 22 de novembro de 1981, faz-nos entender bem a importância de uma publicação como o “Lexicon”: “A família nos tempos de hoje, tanto e talvez mais que outras instituições, tem sido posta em questão pelas amplas, profundas e rápidas transformações da sociedade e da cultura. Muitas famílias vivem esta situação na fidelidade àqueles valores que constituem o fundamento do instituto familiar. Outras tornaram-se incertas e perdidas frente a seus deveres, ou ainda mais, duvidosas e quase esquecidas do significado último e da verdade da vida conjugal e familiar”.

Os assuntos tratados nesta obra costumam despertar reações negativas facilitadas por bem organizados grupos que dispõem de muitos recursos. Evidentemente, respeito à liberdade que dispõem. Aliás, não imponho, mas proponho idéias e defendo posições da maior importância par o bem-estar da sociedade.

Os católicos e pessoas de boa vontade encontrão no “Lexicon” os recursos para enfrentar a crescente pressão contra os valores evangélicos da família.

PROBLEMAS MORAIS E O LEXICON

Nas semanas de agosto e agora no início de setembro, ocorreu no Brasil algo de benéfico ao bem-estar de uma comunidade de longa tradição cristã, ao lado de grave decomposição moral e cívica. Nota-se um fortalecimento religioso, que faz frente à organizações, cujo objetivo é o de suprimir a vida a milhões – sim, milhões – de crianças pelo aborto. Isto se faz sorrateiramente, seja pelo voto dos parlamentares, seja – o que é mais preponderante – pela modificação da Constituição.

Vários elementos poderão assegurar a vitória sobre esse terrível mal. Citemos alguns. Embora cresça no mundo tantas formas de escravizações e de manipulação da fé católica, a recente viagem do Papa Bento XVI ao Brasil, corrobora a verdade de que nem tudo está perdido.

Entre suas parábolas, Jesus utilizou a história de uma semeadura de trigo na qual introduziram o joio. Somente quando as sementes germinaram, os servos descobriram e relataram ao patrão o fato criminoso e perguntaram ao seu senhor se queria que arrancassem o que fora semeado pelo inimigo. Ele respondeu: “Não, para não acontecer que, ao arrancarem o joio, com ele arranqueis também o trigo. Na colheita arrancareis primeiro o joio e o atareis em feixes para serem queimados; quanto ao trigo, recolhereis no meu celeiro” (Mt 13, 25a.30).

Mais perigosa do que a mentira é a meia-verdade. Esta, sob a aparência do verdadeiro, convence os incautos, esconde o letal veneno da falsidade. O problema situa-se no nível da linguagem e na ambígua negação da verdade objetiva, superior a qualquer subjetivismo.

Fala-se na saúde da mulher, um ideal evidentemente a ser defendido por todos. Pois a mulher eleva o mundo a um significado transcendente, dá um sentido de confiança, de vida, onde o desespero ameaça tragar as esperanças de todos. Entretanto, nos ensinamentos difundidos hoje, mesmo em faculdades e nos parlamentos, subjaz, sob tal título belo, toda forma de arbitrariedade, inclusive o suposto direito à assassinato de vidas inocentes pelo aborto, que é, sem dúvida, uma das mais cruéis chagas da humanidade no século XXI. O mesmo diríamos sobre o conceito, usado de modo ambíguo, de educação sexual. Longe de acordar nos jovens a alegria de um amor capaz de assumir responsabilidade, é uma maneira irresponsável de introduzir os adolescentes e até mesmo pré-adolescentes, na prática de sexo apenas hedonista.

Esta arbitrariedade da linguagem e todas as tendências libertinas têm uma única razão mais profunda. Deus não é negado, mas silenciado na vida pública. E, mesmo em escolas de excelência acadêmica, muitas vezes Deus não é considerado. Ele está à margem. E, quem sabe, se o problema já não se apoderou de certas faculdades de Teologia, onde Deus é um tema acadêmico, tratado e analisado, mas não professado. Ora, se Deus não conta, então é “moderno” não se declarar ateu, mas agnóstico. Dizem: “Minha inteligência não admite os argumentos nos quais se baseia tal tipo de fé”. Este ateísmo prático leva à absolutização do homem. Vale o que cada um crê, pensa, acha e decide. Chega-se a um relativismo sem limites. A partir de então prevalece a opinião da maioria, sem nenhum critério moral superior. Mesmo as primeiras evidências do homem, a respeito de sua dignidade que não foi escolhida por ele, mas que lhe é dada e imposta pela vida, dignidade de sua liberdade e co-responsabilidade com os outros, são postas sob o arbítrio de maiorias instáveis, que tão facilmente mudam. Assim, nos Estados Unidos, centenas de milhares de crianças foram mortas durante o procedimento do parto, pois uma relativa maioria nas Câmaras legislativas tinham decidido que o ser humano só é sujeito de direitos após o parto completo. O médico assassinava as crianças quando o nascimento estava acontecendo. Uma maioria de votos ou uma vontade do Presidente determina “positivamente” quem deve viver e quem deve morrer. Positivismo jurídico, privado de qualquer respeito à lei natural.

Nestes dias tivemos no Brasil a alegria da apresentação de um “Léxicon” de termos ambíguos e discutidos sobre família, vida e questões éticas. Trata-se de uma obra elaborada pelo Pontifício Conselho para a Família, em colaboração com mais de 70 cientistas do mundo. O livro de quase mil páginas traz, em sua edição brasileira, 81 conceitos ambíguos. Dom Romer, Secretário do Pontifício Conselho, apresentou a obraem São Paulo, no Rio, em Brasília,em Belo Horizontee em Salvador, Bahia.

O “Lexicon” teve duas edições na Itália, três na França, duas na Espanha, uma em inglês nos Estados Unidos e em árabe, no Líbano. Também já estão sendo preparadas a da Alemanha, da Rússia e a da Polônia. Alegra-nos profundamente o fato de generosas pessoas terem tornado possível a edição em língua portuguesa no Brasil. A acolhida no meio de intelectuais e daqueles engajados na pastoral foi tão grande, que já agora se está promovendo a segunda edição no Brasil.

Duas atitudes são exigidas diante de uma obra deste nível: a coragem de conhecê-la e a disposição de difundi-la.

Ler significa ter a magnanimidade de não se fechar em idéias fixas ou em convicções já possuídas. É mister ter a coragem de ler o que tais mestres elaboraram em questões tão humanas e tão fundamentais. Quem quiser discordar, evidentemente pode fazê-lo desde que reflita sobre as razões e argumentos apresentados.

Importante, neste contexto, é saber que os autores não fazem um trabalho de “confessionalismo”, mas seus argumentos baseiam-se na verdade e na natureza comum a todos os homens. As últimas evidências da lei natural orientam esse trabalho.

A outra atitude é o dever do cristão de participar desta luta contra o espetáculo mundial das meias verdades e das ambigüidades intencionalmente usadas.

Em nome desta evidência quanto às verdades sobre a pessoa humana, sua liberdade, abertura ao absoluto, pois a consciência do cristão não permite calar.

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