Italiano desperta de coma, diz ter ouvido tudo e reacende debate sobre eutanásia

Reuters

ROMA – Um italiano que passou quase dois anos em coma profundo e era tido como um caso perdido pelos médicos despertou dizendo ter ouvido e entendido tudo o que se passava ao seu redor durante esse longo drama, segundo seus familiares.

Salvatore Crisafulli, pai de quatro filhos, descreve seu caso como um “milagre” que prova que não existem causas perdidas. Sua recuperação parece ter fortalecido a posição dos italianos contrários à eutanásia.

– Estou vivo graças ao meu irmão. Os médicos diziam que eu não era capaz de ter sensações, mas eu escutava e entendia tudo. E chorava de desespero – declarou Salvatore depois de acordar do estado de coma que entrou em setembro de 2003, após um acidente de carro.

O irmão de Salvatore chegou a compará-lo à americana Terri Schiavo, vítima de lesões cerebrais, que morreu em março após dez anos em coma, depois que a Justiça autorizou a retirada do seu tubo de alimentação.

– Os médicos diziam que eu não estava consciente, mas eu entendia tudo – disse Crisafulli, segundo a imprensa italiana nesta quarta-feira.

Os comentários foram feitos ao seu irmão na Sicília quando Crisafulli, de 38 anos, começava a se recuperar lentamente. Ele saiu do coma há três meses, mas só começou ã falar recentemente. Sua primeira palavra foi “mamma”, disse sua mãe aos jornalistas.

A notícia surge no momento em que uma comissão nacional de bioética defendeu a obrigatoriedade dos cuidados a pacientes inconscientes, mesmo àqueles contrários a medidas médicas extraordinários para mantê-los vivos.

A comissão governamental, que serve de ponto de referência para os parlamentares, tomou essa decisão no fim de setembro, mas um documento sobre o tema ainda está sendo finalizado.

– Alimentar um paciente inconsciente por meio de um tubo não é um ato médico – disse o presidente da comissão, Francesco D’Agostino.

– É como dar uma mamadeira a um recém-nascido que não pode ser amparado por sua mãe.

E então refletimos sobre o caso Schiavo. A mulher foi deixada para morrer de fome.

O caso Schiavo provocou comoção na Itália, onde a Igreja Católica exigiu que os médicos continuassem a alimentá-la, apesar da vontade em contrário do seu marido.

O Papa João Paulo II morreu dois dias depois de Schiavo, e o Vaticano comparou um tribunal americano a um “verdugo” por exigir que o tubo de alimentação fosse retirado dela.

Crisafulli provavelmente nunca mais será o mesmo de antes do acidente. A mãe diz que ele tem dificuldades de fala, mas a família garante que ele parece alerta e consciente.

– Meu irmão fala e se lembra. Não espero que seja como era, mas já um milagre – disse Pietro ao jornal Corriere della Sera.

– E pensar que alguns médicos disseram que tudo seria inútil e que ele estaria morto em três ou quatro meses.

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