Avanços na biogenética: cientistas avançam e Deus recua?

Avanços na biogenética: cientistas avançam e Deus recua?

Dr. Frei Antônio Moser, Teólogo

Como em 2006, quando a ovelha Dolly baliu pela primeira vez, também agora quando foi alterado o genoma de uma bactéria, o mundo todo entrou em alvoroço. Grandes manchetes anunciavam mais um feito do já conhecido cientista Craig Venter. Umas manchetes pendiam mais para o sensacionalismo; outras mais para a moderação; outras ainda para interrogações inquietantes.

Que a produção de um genoma sintético que substitui, com êxito, o genoma original de uma bactéria seja um marco importante na linha dos conhecimentos da biogenética e do aprimoramento das biotecnologias, não há dúvidas. Mas as dúvidas que o fato levantou não são pequenas. Umas são de caráter científico, no sentido de desdobramentos possíveis ou não diretamente relacionados com a vida em geral, e a vida humana em particular. Outras são de caráter ético, no sentido da ambivalência que quase todas as descobertas e quase todos os inventos carregam consigo; outras ainda são de caráter propriamente teológico.

Jornal do Vaticano comenta descoberta da célula sintética

Da Redação, com L’Osservatore Romano

O jornal Vaticano L’Osservatore Romano divulgou nesta sexta-feira, 21, um artigo comentando a criação de uma célula sintética, nos Estados Unidos.

Segundo o especialista Carlo Bellieni a pesquisa anunciada nesta quinta-feira apresenta um “resultado interessante”, mas que deve ser analisado com cuidado e ter regras na utilização, principalmente no que toca a vida humana.

O especialista destacou que a criação foi “um trabalho de engenharia genética de alto nível”, no entanto, apesar do “DNA ser um grande motor, não é vida”.

O artigo destaca ainda que “a engenharia genética pode fazer o bem, basta pensar nas possibilidades de curar as doenças cromossômicas”. E aponta que o caminho é “unir a coragem à cautela” e respeitar a sacralidade da Vida, dom de Deus.

A descoberta foi a criação de uma bactéria, em laboratório, a partir de um código genético artificial.

O presidente americano, Barack Obama disse hoje, em um discurso, que deseja garantir que os Estados Unidos colham os benefícios dessa pesquisa científica e ao mesmo tempo identifiquem os limites éticos e diminuam os riscos.
Obama pediu aos assessores especializados que façam um relatório sobre a descoberta. A comissão deve considerar o potencial médico, ambiental e outros benefícios, assim como os riscos para a saúde e a segurança.

Para uma melhor compreensão do alcance científico, com evidentes repercussões sobre a ética, convém ter presente que na retaguarda deste passo histórico encontra-se mais de um século de descobertas progressivas, sempre com as mesmas preocupações: que são os genes, quais as funções dos genes, qual seu papel em termos de certas doenças, e até que ponto os avanços no campo da biogenética representariam melhores perspectiva de saúde e de vida para a humanidade.

Particularmente importantes foram os anos de 1953, quando o mesmo Craig Venter e seu companheiro de pesquisas James Watson, descobriram a estrutura básica do DNA; 1973 quando se descobriu a possibilidade ao menos teórica da clonagem; a década de 1990 na qual se desenvolveu o Projeto Genoma Humano. Poderíamos ainda destacar a clonagem da ovelha Dolly a partir de uma célula adulta, em 1996, bem como a descoberta da possibilidade de potencializar células adultas, dando-lhes a possibilidade de agirem como se fossem embrionárias.

O feito atual anunciado no dia 20 de março do corrente ano de 2010, apresenta algumas características surpreendentes, entre as quais a da conjugação de um genoma sintético desenhado pelo computador, com uma bactéria diferente, da qual havia sido extraído o núcleo original. Como o próprio Craig Venter afirma, “essa é a primeira espécie autorreplicante do planeta cujo pai é um computador”. Este feito revela conhecimentos e tecnologias realmente impensáveis a algum tempo atrás.

No que se refere aos aspectos éticos, uma série de “nãos”, inteligentemente detectados e expressos por Laura Ming e Gabriela Carelli Sapiro (Revista Veja, 26 de maio de 2010, 104-107), ajudam a entender melhor o que corresponde à realidade e o que não passa de sensacionalismo. Segundo elas os cientistas ainda não são deuses; não nos encontramos nem diante de uma criação artificial da vida, nem de uma criação de vida artificial; não se trata da criação de célula ou bactéria sintéticas; não é invenção de um novo genoma; não nos encontramos diante do maior avanço genético de todos os tempos; não é este o primeiro circuito integrado; os cientistas não criaram vida artificial, apenas transformaram algo existente em algo que ainda não existia.

Mas assim mesmo essa experiência se constitui numa das mais extraordinárias, abrindo perspectivas para a biologia, para a eventual produção de bactérias e algas capazes de depurar as águas e o ar e porque não, para buscar combustíveis alternativos, medicamentos e vacinas mais eficazes. E sobretudo a atual experiência possibilita a previsão de que muito em breve se possa projetar organismos que passem a funcionar e a agir de maneira diferente daquela que julgamos ser a natural. Ou seja: agora, mais do que nunca se levanta a questão do que é natural e do que e artificial e com isso a questão sobre até onde vai não o poder, mas o agir com sabedoria por parte dos seres humanos, que agora detêm em suas mãos poderes quase divinos. Como também agora mais do que nunca se manifesta a responsabilidade humana de agir com bom senso ou então dar seqüência à sua própria destruição.

Com isso fica no ar também uma questão referente à obra criadora de Deus. Agora, com mais força, se pode repetir um ditado oriundo dos primórdios da revolução industrial: “o ruído das máquinas espanta os deuses”. Afinal, se, embora agindo sobre seres minúsculos, os seres humanos parecem se aproximar sempre mais de uma verdadeira criação a partir do quase nada, para que invocar Deus como Criador? Teríamos que mudar o “creio em Deus Pai todo poderoso, criador do céu e da terra…”?

Com todas as questões levantadas acima, e muitas outras levantadas pelas mais diversas abordagens feitas por jornalistas, cientistas e filósofos, pode parecer que os teólogos foram colocados numa saia justa. E, no entanto, para quem sabe interpretar devidamente os relatos da criação, como relatos sapienciais e não históricos, no sentido hodierno da palavra, uma vez mais Deus revela a grandiosidade de seus projetos. Ele não gosta de agir sozinho, mas pressupõe sempre uma espécie de aliança com a humanidade. Se essa humanidade agir com bom senso, ele, Deus, só poderá sorrir, pois os seres humanos, tantas vezes tão irracionais, agora munidos de tanta responsabilidade, já não têm escolha: cabe a eles mesmos administrar tudo, absolutamente tudo, desde que o façam com sabedoria. E se não agirem com sabedoria os humanos não terão porque acusar Deus, mas deverão acusar a si próprios por não haverem conseguido descortinar a grandeza e a sabedoria de Deus diante das maravilhas que ele deixou ocultas no íntimo de todas as criaturas.

Frei Antônio Moser é Diretor Presidente da Editora Vozes, professor de Teologia Moral e Bioética no Instituto Teológico Franciscano (ITF) em Petrópolis (RJ), membro do Conselho Administrativo da Diocese de Petrópolis, Pároco da Igreja de Santa Clara, membro da Comissão de Bioética da CNBB, Coordenador do Comitê de Pesquisa em Ética da Universidade Católica de Petrópolis (UCP), além de conferencista no Brasil e no exterior. Escreveu 25 livros e inúmeros artigos científicos para revistas nacionais e internacionais. Além disso, desenvolve intensa atividade pastoral, sendo um dos grandes especialistas brasileiros em Pastoral Familiar e Bioética.

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