A ética e a psicologia masculinas forjadas pela cultura

A ÉTICA E A PSICOLOGIA MASCULINAS FORJADAS PELA CULTURA

Reflexão sobre as características culturais do gênero masculino.

Análise da posição do homem nas sociedades patriarcais e matriarcais ou patrilineares e matrilineares. Afinal, o que é ser homem?

Joel Birman Graduado em medicina pela Universidade Federal do rio de Janeiro, mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do rio de Janeiro, mestre em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do rio de Janeiro. Doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo. Pós-Doutorado em Paris, no Laboratoire de Psichopathologie Fundamentale et Psychanalyse (Université Paris VII). Membro de honra do Espace Analytique, instituição francesa de Psicanálise dirigida por Maud Mannoni e Jöel Dor. Professor titular / pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro onde leciona e é pesquisador no programa de mestrado e doutorado em Teoria Psicanalítica. Professor adjunto do Instituto de medicina Social da Universidade do Estado do rio de Janeiro, atuando no mestrado e doutorado em Saúde Coletiva. Pesquisador no Collège International de Philosophie, em Paris.

Joel: Bom dia a todos, gostaria de agradecer ao SESC pelo convite para participar desse Seminário sobre envelhecimento e, em particular, desse painel sobre ética e psicologia da masculinidade. Acho que falar sobre o masculino é uma questão nova. Durante algumas décadas nós giramos em torno do feminino, digamos assim, a questão feminina está sempre em primeiro plano. Falar seja sobre o envelhecimento masculino, seja sobre a condição masculina, é uma questão contemporânea. Falar do homem, falar da condição do homem, da dor ou do sofrimento masculino, com as derivações que isso tem, saúde masculina, por exemplo, é uma questão eminentemente contemporânea, e, de certa forma, um efeito, desdobramento da problemática do próprio feminismo contemporâneo. Esse é o enfoque que eu gostaria de marcar aqui. De repente, se lembraram de nós, se lembraram de nós, porque a condição masculina foi altamente afetada pelo novo lugar social, cultural, político, cidadão, ocupado pelas mulheres a partir dos anos cinqüenta, sessenta, a partir daquilo que se passou a chamar revolução feminista, de forma que a condição masculina foi alterada.

Eu, além de professor, sou psicanalista clínico também, exerço a prática, então a atualidade desse tema a gente vê através das queixas, dos ressentimentos dos homens que procuram os analistas. Hoje a questão da angústia masculina se coloca no primeiro plano, a partir de que os homens não sabem mais qual seu verdadeiro lugar. O ponto axial da condição masculina é o deslocamento de um lugar que eles ocuparam durante séculos na tradição ocidental, lugar esse, que tinha como contrapartida um certo lugar atribuído à mulher e ao feminino, e na medida em que as mulheres saíram dessa posição, os homens perderam seus eixos e suas coordenadas de orientação.

Muito do que aparece como queixa e angústia dos homens é que eles não sabem mais qual é seu próprio lugar e ao mesmo tempo eles não sabem que tipo de expectativas as mulheres fazem a seu respeito, o que esperam deles. Assim, eles sofrem de uma certa desorientação, que eu chamaria de ontológica, em que o ser deles é um ser que perdeu uma certa consistência para localizar essa transformação, que provoca a partir dessa angústia uma disseminação da depressão masculina. Os homens se melancolizam em função disso, ao lado dessa angústia, então, esse par: depressão, angústia e melancolia masculina é um sintoma muito disseminado hoje. Para localizar esse impacto, eu diria quase traumático na condição masculina, vou tentar localizar essa psicologia masculina dentro de uma perspectiva que eu chamaria histórica e de uma perspectiva que poderíamos chamar, com Foucault, de biopolítica, digamos assim. Nessa perspectiva é que eu queria inscrever o que vou dizer para vocês.

Como eu estava dizendo inicialmente, essa transformação da condição masculina tem que ser localizada dentro de um complexo maior, que eu chamaria ou da crise ou, mais propriamente, da dissolução patriarcal. Esse é o campo fundamental em que uma discussão sobre o masculino deve se inscrever, na medida em que podemos delinear essa crise ou desconstrução do patriarcado como uma experiência sociocultural e política profunda, que as sociedades ocidentais atravessam a partir dos anos cinqüenta, sessenta e uma transformação que se opera em tempos diferentes.

Um primeiro tempo dessa desconstrução/dissolução patriarcal se dá a partir do movimento feminista propriamente dito, em suas várias fases, esse movimento feminista que subverteu a relação entre os gêneros. O próprio fato de falarmos em gênero e não em sexo já é um produto dessa revolução feminista. Antigamente se falava em diferença de sexo e hoje se fala em diferença de gênero e essa categoria de gênero já é uma invenção, no bom sentido da palavra invenção, dessa revolução feminista. Revolução feminista essa que é caracterizada pelo filósofo francês Castoriadis de uma maneira muito curiosa, mas muito instigante e condensada. Ele diz assim: “foi a revolução mais profunda da história que se passou no espaço mais curto, que foi o espaço entre o quarto e a cozinha”. Quer dizer, todas as coordenadas dessa transformação se sintetizaram, se sumarizaram num espaço mínimo, que é o espaço arquitetônico da casa, mas onde tudo foi transformado. Então, esse foi o primeiro tempo dessa dissolução do patriarcado porque o lugar do pater potestas, que já estava fragilizado desde o século XIX, foi radicalmente colocado em questão. O homem perdeu um certo lugar de centralidade, perdeu um lugar hierárquico de superioridade que ele tinha em relação à condição da mulher. A mulher passou a disputar e a exigir igualdades de direitos e a fazer trajetos até então reservados aos homens, com raras exceções. As mulheres foram estudar, as mulheres foram se graduar, as mulheres foram disputar postos no mercado de trabalho, exigindo direitos iguais, de forma que essa quebra de hierarquia do lugar do homem, produzida por essa mudança da condição feminina, retirou as mulheres do papel que as definiam como ser psíquico, desde o século XIX, ser psíquico e ser social, que era a condição maternidade, aquilo que definia a condição feminina. Desde o final do século XVIII até o século XIX, prevalecia sua redução à condição extremamente materna. Era esse o lugar das mulheres. As mulheres, à medida que se revoltaram contra isso, pela revolução feminista, estavam rigorosamente saindo do lugar em que sua definição seria apenas ser mãe. Isto é, dois personagens começam a se constituir aí. O ser feminino diferente do ser mãe, que foi por onde essa transformação inicial da dissolução patriarcal se deu. Vou voltar a isso.

Um segundo tempo, esse lugar que o homem perdeu, essa superioridade que aparece, por exemplo, no discurso psicanalítico, através da metáfora fálica, da metáfora do pênis como falo, como órgão do gozo, mas ao mesmo tempo como órgão do poder, de um certo poder hierático, exibível, marca da virilidade, essa quebra que se dá aí, que é flagrante e fundamental, ela marca a dissolução inicial da tradição patriarcal. O segundo tempo disso, me parece, conseqüente, é o da revolução gay. A demanda de direitos pelos gays na sociedade contemporânea, que é posterior historicamente ao movimento feminista, ela é decorrente dessa colocação em questão da superioridade do pai, ou da superioridade do macho na nossa tradição, de maneira que elas fazem parte do mesmo processo de desconstrução. Quer dizer, os homossexuais saíram do armário, como se diz, e virem para a praça pública a exigir serem reconhecidos na sua condição homoerótica, isso representa uma dissolução maciça, da até então valorizada condição fálico-masculina.

Esse é o segundo tempo importante dentro da história das mentalidades que nós estamos vivendo e se esboça um terceiro tempo, mais contemporâneo para nós, que é a revolução transexual, que é mais radical que a revolução feminista e a revolução homossexual, por quê? Porque na revolução transexual o que nós, enquanto tradição, estamos colocando em questão é a possibilidade de que isso, que até então era intocável, que era a identidade do nosso corpo pudesse ser transformada. Isto é, eu posso querer ter um outro corpo diferente daquele que eu tenho. Isso mexe fundamentalmente num certo princípio de identidade, ou torna mais explícito o questionamento do princípio da identidade, que de certa maneira está ligada à tradição do patriarcado. Quando dizemos seriamente, que no transexualismo nós não temos uma mudança de gênero, mas uma mudança de ser, nós estamos nos referindo a essa mudança de identidade que se passa na transformação transexual. De qualquer forma, movimento feminista, movimento gay, movimento transexual, eles fazem parte do mesmo conjunto, onde a questão da identidade está em jogo e do qual a identidade transexual, de uma certa maneira, representa a radicalização daquilo que foi colocado desde o início pelo movimento feminista. De qualquer forma, o movimento feminista e o movimento gay e o movimento transexual só foram possíveis, e isso foi muito importante tanto do ponto de vista teórico quanto ético e psíquico, a partir do momento que o ocidente resolveu um problema, que é um problema fundamental em qualquer sociedade, que é a questão da sua reprodução.

Não existiria possibilidade do movimento feminista, nem gay e nem transexual, se nós não tivéssemos equacionado a nossa capacidade de reprodução biológica como condição da nossa possibilidade de reprodução social. Qualquer sociedade quer continuar a existir, a se reproduzir. Por isso mesmo, a questão da reprodução biológica sempre foi e é fundamental em qualquer ordem social: reprodução biológica como condição de reprodução social, de permanência no tempo de uma determinada ordem social. A partir do momento em que conseguimos equacionar a questão da reprodução, que nós conseguimos, de uma certa maneira, possibilitar essa expansão inicial que se deu com o movimento feminista e posteriormente com o movimento gay e transexual. Por que estou dizendo isso? Porque no momento que nós conseguimos criar, inicialmente, formas de separar a ordem do desejo da ordem da reprodução, coisa que se deu com as tecnologias de controle da natalidade, efetivas, tal como se colocaram a partir dos anos sessenta, pílulas, os vários dispositivos tecnológicos, mecânicos, DIU, então, a partir desse momento em que a ordem do desejo e da reprodução se autonomizaram a figura da mulher passou a ficar livre do imperativo da reprodução, sem, ao mesmo tempo, impossibilitar a questão da reprodução. A questão da reprodução deixou de ser uma obrigatoriedade ligada aos caprichos do desejo, ou seja, se eu transo, eu engravido, para ser uma coisa da ordem da escolha tanto dos homens quanto das mulheres. Eu escolho quando quero ter bebe. A partir desse momento em que o nascimento de uma criança, manutenção do código reprodutivo passou a fazer parte da ordem de uma escolha livre dos parceiros, homens e mulheres, as mulheres deixaram de ficar escravas do imperativo da reprodução, e os homens também, digamos assim. A partir desse momento em que a questão da reprodução passou a ser planejada existencialmente, as mulheres puderam sair de sua sólida condição ligada à maternidade, como elas estavam enraizadas pelo menos desde o final do século XVIII. Parece que é isso que torna possível essa separação entre reprodução e desejo. O campo sexual ganha uma expansão, uma liberdade, tal qual passamos a viver desde os anos sessenta, época em que era proibido proibir, hoje nem tanto, até a época do aparecimento da epidemia da AIDS, quando uma ducha de água fria caiu sobre nossas cabeças, mas de qualquer forma, foi um momento onde essa operação de separação entre a ordem da reprodução e do desejo se deu. Ela libertou os corpos femininos e foi a base possível da revolução feminista, sem a qual ela não teria condições de acontecer na plenitude que ela ocorreu e ao mesmo tempo garantimos a ordem da reprodução. A partir daí, a questão da reprodução galopou bastante e tornou possível tanto a condição da revolução gay quanto da revolução transexual, na medida mesmo que nós começamos a poder engendrar, reproduzir crianças em laboratório, no campo experimental.

 Eu brinco, uma brincadeira que pode ser considerada até uma brincadeira de mau gosto, mas é para onde a gente caminha, a possibilidade da clonagem reprodutiva que vai acontecer algum dia, com certeza, que a gente vai comprar criança no supermercado, como a gente compra hoje suco de frutas. A reprodução vai ser industrializada. Nesse sentido, se a gente puder fazer uma projeção science fiction, a coisa caminha por aí, mas nós não estamos ainda lá. É uma projeção para onde essas tecnologias reprodutivas nos levam.

Foi esse conjunto de transformações que abalou a condição masculina, que abalou a condição feminina que estava instalada desde a instalação da família nuclear burguesa, mas que vem desde a Grécia Antiga, onde essa superioridade masculina foi estabelecida na nossa tradição, essa superioridade sexual do masculino sobre o feminino. Para começar a esboçar alguns traços dessa história, dessa genealogia, eu vou me valer de um historiador americano chamado Thomaz LeClair, que fez um belo livro sobre a fabricação do sexo, em que ele mostra claramente que nós tivemos na nossa tradição, na nossa história, dois grandes modelos a respeito da relação entre os gêneros. Uma primeira fundamentação que foi elaborada na tradição greco-romana, mas que é uma teoria que vai perdurar até o século XVII, XVIII, que é uma teoria do sexo único. Uma teoria que, a rigor, anatomicamente falando, o sexo feminino e o sexo masculino são estruturalmente análogos, com a diferença de que o sexo masculino se exterioriza e o sexo feminino, ele, propriamente, é invaginado dentro do corpo. Os teóricos da antiguidade, Galeno, que fechou essa teoria do sexo único, dizia que o que determinava a condição masculina e feminina era alguma coisa que vinha da teoria dos humores e que faltava às mulheres, se não me engano, o humor quente, e por conta disso, os órgãos ficavam invaginados e no caso dos homens, eles seriam colocados na exterioridade.

Então, essa protuberância masculina, essa masculinidade do masculino, associado à idéia de luz, de verdade, à idéia de superioridade e esse mundo feminino ligado à escuridão, às trevas, ao desconhecido, e todo um conjunto de metáforas que foi construído, que ao mesmo tempo garantia essa hierarquia, fazia que nessa teoria do sexo único se acreditasse efetivamente, que como era uma teoria do sexo único, que a condição feminina e masculina eram marcadas por essências diferentes. Eram estados de transformação possíveis. Era possível conceber que uma mulher pudesse se transformar num homem, desde que o tal do humor quente que lhe faltou, fosse acrescido a sua fisiologia. Nessa medida, as mulheres poderiam virar homens, e os homens jamais poderiam virar mulheres, porque nessa concepção cósmica do mundo, o perfeito jamais se torna imperfeito, que é outra versão hierárquica do masculino e feminino. A mulher é imperfeita, o homem é perfeito, mas o imperfeito pode virar perfeito. Há passagens no livro de Montaigne, no Renascimento, onde ele nos fala de exemplos da transformação de mulheres em homens, ou seja, o relato da permanência desse modelo galênico no Renascimento. Essa concepção que vai garantir a posição hierárquica do masculino, a imperfeição feminina, as marcas de vazios nos corpos das mulheres, ou seja , toda uma concepção que vai estar presente aí na teoria dos estados, ela vai dar origem, por exemplo, aos primeiros tratados de anatomia do Renascimento, onde, efetivamente, do Renascimento até o século XVII, começo do século XVIII, todos os tratados de anatomia eram feitos sobre o sexo masculino. O corpo feminino não está presente nos tratados de anatomia, por quê? Porque se eu quero fazer uma ciência verdadeira do corpo, eu tenho que fazer de um corpo perfeito, não do corpo feminino imperfeito. Um corpo esburacado.

A teoria do sexo único, essa hierarquia entre homem e mulher, é marcada por esse grande modelo aí, modelo esse que começa a criar um problema,no Século XVIII, quando a questão da igualdade de direitos propugnados com o Iluminismo e com a Revolução Francesa vai colocar uma questão para esse modelo. Se efetivamente somos todos iguais, como vai ser defendida no ideário da Revolução Francesa, como fica a diferença entre homem e mulher? A revolução vai colocar um problema para essa teoria do sexo único e ele começa a perder o pé. É exatamente nesse momento histórico que uma teoria do sexo único começa a dar lugar a uma teoria da diferença de sexo. Os sexos passam a ser concebidos como duas essências diferentes, só nesse contexto. Exatamente porque só dessa forma a Revolução burguesa compôs a manutenção da hierarquia homem e mulher, as exigências da reprodução, a manutenção da superioridade masculina e da inferioridade feminina, só que agora tratada numa essência diferencial dos sexos. De forma que as mulheres eram seres de conformidade física, em decorrência de suas condições somáticas, eram seres destinados à maternidade, à reprodução e ao cuidado, características eminentemente femininas.

Essa medicalização da diferença sexual que começa a se estabelecer aí, é com acordo dos grandes filósofos da época, de Hegel a Rousseau, passando por Kant, todos eles foram garantidores dessa nova teoria médica da diferença sexual, de maneira que essa diferença sexual, ela foi marcada, fundamentalmente, pela construção da mulher a partir da figura da maternidade. Esse ponto que se instaura como marca da nossa modernidade e vai estar na base da constituição da família nuclear burguesa, que se sucede à grande família extensa anterior da idade clássica, do Antigo Regime, onde é uma família reduzida às mães, pais e filhos. Duas gerações, não tem mais avós, estou falando da família européia , americana, a família brasileira continuou mantendo as suas várias gerações e agregados, evidentemente, estou falando nesse modelo que foi feito.

Nesse modelo, o lugar que essa mulher passou a ocupar no campo da maternidade deu para ela um poder que ela não tinha antes. Isso é importante de ressaltar. Se a mulher perdeu a batalha pela igualdade com a Revolução francesa, ela foi contemplada com o poder maternal, que foi um poder que ela vai ter dois lugares fundamentais. Ela vai estar referido ao espaço da família, dos laços sociais na família, ela vai ser a gerente, a administradora da economia doméstica, ela vai ocupar esse lugar e a mulher vai ser a grande mola do relacionamento entre a instituição familiar e a instituição médica, e da instrução pedagógica. Ela vai estar envolvida com aquilo que Foucault chamaria de biopoder, de forma bastante direta. Nessa concepção apresentada por Foucault, principalmente num livro dele chamado Vontade e saber, a grande característica da modernidade, enquanto biopoder ,é a concepção de uma grande riqueza ligada à qualidade de vida da população. Uma nação é tanto mais rica quanto sua população é mais qualificada. E uma população qualificada é uma população de boa saúde e uma população bem educada. Isso que hoje aparece nos protocolos da Organização das Nações Unidas como índice de Desenvolvimento Humano. Isso foi forjado do século XIX, de forma que a criança foi alçada à condição de um lugar privilegiado, porque se a riqueza está ligada à qualidade de vida da população, e se a qualidade de vida da população é uma boa educação e uma boa saúde, a figura da mulher é aquela que vai se contactar com as instituições médicas e pedagógicas para produzir esse capital simbólico e econômico da nação. A mulher tem em suas mãos, com a maternidade, esse poder de gerir a produção dessa riqueza junto com a instituição médica e pedagógica.

Nesse sentido que eu falo, essa maternidade, esse lugar como mater, deu à mulher um poder especial, mas, ao mesmo tempo, ela foi guardada, reduzida a esse único potencial dela, enquanto o homem podia ter a participação na instituição familiar um pouco subsidiário da condição materna, e tinha ao seu alcance todo o espaço público, todo o espaço do poder público como espaço masculino. Evidentemente, não só de ter o espaço do poder público só como espaço do que a gente entende como espaço público senso stricto, mas também o homem, ele tem um acesso à experiência erótica além da sua experiência conjugal maternal. Acho que se configura aí uma separação da figura da mulher mãe, não erótica, e, ao mesmo tempo, de um homem que tem lá a sua relação conjugal em que ele reproduz e está submetido às exigências da reprodução. Mas ele tem a seu dispor uma ampla rede de luxo, de bordéis altamente controlados pela tecnologia do biopoder, da medicina, controle de doença venérea, etc., que dá a ele todo acesso ao mundo dos prazeres. Esse acesso, essa desigualdade se mantém aí, a mulher mãe perde seu lugar de mulher e se reduz ao seu lugar de mãe.

Esse tipo de psicologia feminina vai aparecer em Freud de maneira muito interessante. O Caso Dora é organizado na figura da mãe da Dora. Freud fala: “essa senhora, aos quarenta anos, parece uma demente”. Isso quer dizer o que? Ela é reduzida a sua condição de maternidade, as mulheres aos quarenta anos eram seres totalmente destruídos e melancolizados. Essa é a primeira conseqüência dessa construção dessa psicologia feminina. Quer dizer, na cabeça dos meninos, nas inscrições que o Freud faz, do que é a psicologia masculina, haveria a diferença entre a mãe e a prostituta. A mulher que cuida e a mulher que promete os deleites do prazer. E, segundo Freud, era sempre traumático para o menino descobrir que as mães também eram seres erotizados. Essa separação na inscrição freudiana, do campo do prazer e do campo do cuidado maternal, ele é constitutivo desse espaço social, que eu tentei esboçar anteriormente, que as mulheres ficavam restritas à condição estritamente materna, despojadas do mundo do prazer, apesar de terem esse poder de gerir a produção das crianças, esse capital simbólico e econômico propriamente da nação. Evidentemente que isso criou um tipo de laço entre as mulheres e as crianças muito complicado. Filhos muito complicados, na medida em que as mulheres, pela maternidade, elas se sacrificavam em nome das suas crias, era uma experiência sacrificial. O melhor delas era jogado no cuidado das crianças e, de repente, quando as crianças iam embora, ela ficava chupando o dedo.

Então, se constrói toda uma neurose da relação entre as mães e os filhos que vão embora, todo um controle se dá em torno disso, de forma que se cria uma relação muito curiosa, inclusive das mulheres e com as filhas do sexo feminino, na medida em que as filhas iam morar perto das mães, que iam cobrar delas, dos filhos, também, aquela libidinal que representou aquela experiência de maternidade. A gente pode entender muito desse imaginário que isso representou nesse contexto.  Foi exatamente contra essa espécie de miserabilidade sacrificial que as mulheres estavam reduzidas nessa família nuclear burguesa e dessa tradição patriarcal, que as mulheres, a partir do momento que elas puderam separar a ordem do desejo da ordem da reprodução, de fazerem essa grande mutação histórica, de acordo com Castoriadis, radical, no curto espaço da cozinha e do quarto, onde elas quiseram ocupar um outro lugar social. Essa transformação, ela me parece que ainda está em andamento. A gente sabe que não obstante essa busca da igualdade que as mulheres procuram hoje ter, ela ainda é, do ponto de vista sociológico e econômico, desigual, isto é, existe ainda uma superioridade masculina

Em qualquer trabalho de ponta, são áreas economicamente rentáveis, são práticas masculinas, o espaço feminino é um espaço muito restrito. Quando a gente quer examinar uma profissão que dá menos dinheiro, a gente diz: busca lá onde tem mais mulher. Toda essa área de Filosofia, Psicologia, Serviço Social, Antropologia, Psicanálise, onde não tem grana, está cheia de mulher, enquanto a gente for para áreas de ponta, empresariais, aí, a condensação é mais masculina.  Essa desigualdade, evidentemente, continua, o que não quer dizer que no imaginário masculino e feminino ela esteja do mesmo tamanho. Os homens sofrem pela perda desse poder hierárquico que eles tinham. Eles sofrem, porque no imaginário deles eles perderam esse domínio que era dado pela condição patriarcal, seja aquele da pré Revolução Francesa, seja aquele que nós vivemos do século XIX e XX até os anos sessenta. Há uma transformação na condição masculina que o homem não sabe mais qual é sua performance, razão pela qual, mesmo entre jovens, acontece essa coisa espantosa, que é jovem usar Viagra. Por que jovem usa Viagra? Quer dizer, no máximo da potência dele adolescente, ele precisa usar Viagra, porque ele tem que condensar e concentrar a impossibilidade de falhar na única arma que lhe sobra, que é a ereção, quer dizer, não viver a experiência de ter uma vergonha diante de uma mulher que exige dele uma performance sexual, e ele precisa, mesmo com dezoito, vinte anos, usar Viagra, que é uma loucura se a gente for pensar isso em termos realistas.  Mas do ponto de vista do imaginário do homem, me parece que isso é bastante sintomático, dessa ameaça da perda da potência masculina diante desse novo contexto, desses novos laços sociais entre nova condição do masculino e feminino nesse novo contexto. Muito obrigado pela atenção de vocês.

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