Criatividade ou falta de sentido de Igreja?

CRIATIVIDADE OU FALTA DE SENTIDO DE IGREJA?

Fonte: SDPL

 

A fantasia é uma faculdade muito importante. Sem ela não haveria artistas. Mas, como diz o povo, há coisas que nem lembra ao diabo. São essas pequenas fantasias que se apresentam tão só como originalidades, produto de ignorância crassa, do gosto (ou mau gosto) pela novidade ou pela moda, da necessidade patológica de afirmação pela diferença ou perda de sensibilidade ao ridículo.

Há duas espécies de rubricismo: coletivo e individualista. Não perceber, não interiorizar, nem procurar uma boa realização das indicações da celebração (as rubricas) é grave para a celebração. Alguns poderão pensar que a celebração autêntica tem um modelo único e invariável e contentam-se com isso. Na realidade, por vezes, assim parece, quando entramos em algumas igrejas ou participamos em algumas celebrações. De fato, os textos da liturgia da Palavra lá vão mudando, porque o Lecionário dominical ou ferial o impõem, mas pouco mais. Quanto aos sacramentos e sacramentais, os formulários são freqüentemente, os mesmos. Este rubricismo é pacífico, mas constitui um prejuízo grave para a comunidade dos fiéis. Mas, não é isto o que a Igreja deseja para as suas celebrações. A multiplicidade de formulários e variantes que tanto o Missal como os Rituais apresentam não são um mero exercício acadêmico, mas possibilidades e indicações para tornar viva a celebração e promover uma participação ativa e frutuosa dos fiéis.

Ignorar isto, por inércia ou preguiça é atentar contra o proveito espiritual da Igreja. “Para que a celebração corresponda mais plenamente às prescrições e ao espírito da sagrada Liturgia, e para que a sua eficácia pastoral aumente, expõem-se nesta Instrução geral e no Ordo Missae algumas acomodações e adaptações. Tais adaptações, muitas vezes, consistem na escolha de certos ritos e textos, como são os cantos, as leituras, as orações, os comentários e os gestos, que estejam mais de acordo com as necessidades, a preparação e a capacidade dos participantes, e que são da responsabilidade do sacerdote celebrante” (Cf. Instrução Geral do Missal Romano [nova edição], 23-24).

Importa, pois, criar uma nova mentalidade: não podemos contentar-nos com uma execução exata das rubricas, mas devemos perceber que a finalidade das instruções e indicações do Missal e dos Rituais, bem como dos Preliminares ou da Instrução do Missal Romano se destinam, tem como objetivo assegurar que a celebração permaneça ação da Igreja e que os participantes dela tirem os melhores frutos com a sua participação consciente, ativa e gozosa.

Mas pior é o rubricismo individualista daqueles que, presumida a boa intenção, substituem as mais que suficientes orientações litúrgicas, pelas suas opções ou gostos particulares, freqüentemente dogmáticos. Tal forma de proceder atinge a própria assembléia, faz da ação da Igreja que é a Liturgia, de uma vedete e defrauda as expectativas dos participantes. De fato, talvez por influência da mídia, têm surgido aqui ou ali, de forma mais ou menos pronunciada, alguns fenômenos de show-man que, embora, como estrela cadente, não escape à curta duração, não deixa de perturbar a comunhão eclesial e induzir muitos em engano sobre a natureza do cristianismo, da Igreja e da Liturgia. Este fenômeno não é novo, mas, graças aos poderosos meios de difusão e à sua voracidade em propor novidades, constituem motivo de escândalo. Não estão em causa as qualidades comunicativas individuais (até, neste particular, poderão produzir algum ensinamento), mas o lugar, a natureza da ação, o gênero e o estilo de autuação estão errados.

Presidir à Assembléia litúrgica não é o mesmo que fazer ou dar um espetáculo, é uma ação do mistério que, sem menosprezar qualidades humanas a desenvolver, implica, acima de tudo, nobreza, zelo e humildade e provoca o ministro ordenado a configurar-se com Cristo, Aquele que verdadeira e exclusivamente preside e é a fonte de vida para todos. “Lembre-se, contudo o sacerdote que ele próprio é servidor da sagrada Liturgia, e que não lhe é permitido, por sua livre iniciativa, acrescentar, suprimir ou mudar seja o que for à celebração da Missa” (IGMR, 24).

Estes fenômenos são, por vezes, apresentados como um progresso litúrgico ou como uma renovação da Igreja. Bem pelo contrário. Nada é mais contra a criatividade do que as originalidades que são, normalmente, produtos de mau gosto. A criatividade implica, antes, um esforço de conhecimento, ciência e experimentação, de enraizamento e aprofundamento de uma autêntica tradição cultural. Por isso, porque a Igreja deseja a verdadeira criatividade, também na sua Liturgia, recomenda que “os presbíteros, diáconos e fiéis leigos, compreendam sempre profundamente o genuíno sentido dos ritos e textos litúrgicos e desse modo sejam levados à celebração ativa e frutuosa da Eucaristia” (IGMR, 22).

Desenvolvido por Origy Networks – Criação de sites e propaganda